Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Chuva de Versos n. 423

Seleção e organização: José Feldman
Revisão: Therezinha Dieguez Brisolla e Dorothy Jansson Moretti

Uma Trova de Bandeirantes/PR
Maria Lúcia Daloce
Neste meu rosto enrugado,
outrora cheio de encantos,
teu perfil foi desenhado
no contorno dos meus prantos!
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Uma Trova de Saquarema/RJ 
João Carvalho Neto
Na aurora da juventude
desperta o sol - é verão;
mas, chegando o inverno rude,
traz velhice ao coração.
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Carta a um poeta
Despoja-te do dorso em chamas
se em tuas mãos a palavra
– moeda de encantamento –
em versos sangra.
Não ocultes o teu rosto
deixa-o duplicado
no espelho da metáfora.
Se – Lua em pedaços –
o agora te destrói
Deus sem braços reinventa o amanhã
pois sonho é armadura
embora armadilha.
E se imensa a solidão
grita a tua fome ao deserto
porque se calas
o silêncio te incendeia
e te consome.
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Uma Trova Humorística de Salvador/BA
Hildemar Araújo Costa

Jogador de muita raça,
o compadre Zé Nozinho,
ele fazia trapaça,
mesmo jogando sozinho.
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 Uma Trova de Saquarema/RJ
Charles de Oliveira Soares
Entre as montanhas de rocha,
no céu limpo de verão,
vejo o sol como uma tocha
fenecer na imensidão.
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Soneto à lua cheia
Lua de celofane – lua amarga,
a mensagem de amor que hoje me trazes
rasga no coração como tenazes,
essa dor que se alarga, que se alarga.
Lua de gesso estéril, em tua carga,
por não me decifrar, tu te comprazes,
em ver que eu sou, em tons tristes, lilases,
jogral de um circo azul, na noite larga.
De sofrer já cansei, mas dizes: – “Ama!”
e tua luz – espelho onde me encanto –
na ante-manhã deserta, se derrama.
Porém não creio mais no teu milagre;
– quem teve tanto amor, odeia tanto;
eu que fui vinho agora sou vinagre.
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Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Ninguém viu o que eu vi hoje:
– um macaco fazer renda,
e também vi um peru
caxeirando numa venda.
Fonte: Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos.São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.
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Uma Trova Hispânica do México
Sara Baca Vaca ( Angelina Sara )
El trino es música bella
que nos transporta a la altura;
es el fulgor de una estrella
o de un bebé, la ternura.
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Soneto à mesma flor
Quando moço roubei na madrugada
do seio de uma flor recém-aberta
uma gota de orvalho e como oferta
a deixei em teus lábios, abrigada.
Hoje, quando recordo (Oh! Doce Amada!)
esse tempo de arroubo e descoberta
uma saudade, trêmula, desperta
e vem sangrar-me com a sua espada.
Iguais a flor, também envelhecemos
mas ao despetalar ainda trazemos
almas unidas, mãos entrelaçadas,
porque do amor a essência mais preciosa
( assim como o perfume de uma rosa)
permanece nas pétalas secadas.
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Trovadores que deixaram Saudades
Antonio Bispo dos Santos
São Cristóvão/SE (1917 – 2010) Niterói/RJ
Meigo menino sem nome
- alma e vida seminuas -
devora o vinho da fome
pelas adegas das ruas.
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Uma Trova de Rio Novo/MG
Eugenia Maria Rodrigues
Esqueça o orgulho, a vaidade!
Busque um mundo mais perfeito,
que a semente da bondade
pede espaço no seu peito
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Uma Trova de Natal/RN
Clarindo B. de Araújo
O seu feitiço martela
tanto meu peito magoado,
que, na cruz nos braços dela
eu já me sinto pregado!...
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Um Haicai de São Paulo/SP 
Alonso Alvarez
lua nublada
no alto da montanha
a solitária árvore
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Soneto à jovem esposa
Hoje eu te trago, em minhas mãos, guardada,
a gota d’água – a pérola serena –
que eu roubei de uma pálida açucena
recém-aberta pela madrugada.
Louco poeta que sou! (Oh! Doce Amada!)
Em trazer-te essa dádiva pequena.
Culpa as estrelas, culpa a cantilena
do vento. E em nossa alcova penumbrada
dormes. E nem percebes no teu sono
que em teus lábios, fechados, abandono
a lágrima de luz – um mundo pleno.
Não despertes, ririas certamente
se me visses beijando, ingenuamente,
tua boca molhada de sereno.
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Uma Trova de Orós/CE
José Ferreira Lima Filho

Artista sem pão na mesa,
vou seguindo a multidão,
cantando minha tristeza
no palco da solidão...
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Um Haicai de Curitiba/PR
Delores Pires
MUDANÇA
Cheia de neblina
a cidade, em verdade,
foge da rotina.
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Uma Trova de Fortaleza/CE
Arimatéa Filho
No vasto palco da ideia,
malabarista do verso,
aos aplausos da plateia,
crio meu próprio universo!...
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Poema do ultimo instante
( ao poeta José Guilherme, onde estiver)
Havia o sonhador
a mesa e os seus convivas.
O pão infermentado
fragmentado
e o vinho das angústias.
– Senhor! Afasta o cálice ( câncer sobre a carne)
e a cruz dos sem-perdão.
Deixa-me (ainda) repartir os peixes
e os lírios de teus campos
– dízimo deste encanto
lobo que me devora.
Atira sobre o poema o círculo perfeito
e os dados da palavra.
Derrama a chuva
tua lança e os teus cravos
na terra que semeio.
Assim falava o Poeta
enquanto o sol e outros deuses (os mortos esquecidos)
com essência de mirra em seus turíbulos
já perfumavam a pedra
– altar para o seu corpo.
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Uma Aldravia de Belo Horizonte/MG 
Marzo Sette Torres
poesia
concisa
sintética
precisa
melódica
havia
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Uma Trova de Ananindeua/PA
Cincinato P. Azevedo

A vida é belo cenário
no qual cumprimos a sina
de rei, jogral, operário,
e a morte cerra a cortina.
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Minha prece
Por meu filho no dia da sua morte
(… para Ronaldo Alonso)
Ele era um pássaro, Senhor,
cujas asas feriste antes do vôo.
Ele era fonte
e sufocaste o canto em sua garganta
e pouca além da lágrima e do riso
– como apelo ou mensagem –
lhe deixaste.
Ele era frágil, Senhor,
e lhe enevoaste o entendimento
e com agudos espinhos o pregaste
tantos anos no seu leito.
Até seus olhos, Senhor,
– inquietos peixinhos coloridos –
aprisionaste
no reduzido aquário do seu quarto.
Mas eu te louvo, Senhor,
por Tua bondade
quando lhe ensinaste a gritar a palavra “mãe”
– única de sua boca –
como sinal de angústia e como hino de amor.
Hoje, Dá-me a beber, Senhor,
o Vinho de Tua Paz
na mesma taça de fel e sofrimento
com que o premiaste,
para que eu possa de joelhos
celebrar contigo
um retorno de um anjo ao Teu reinado!
____________________
Recordando Velhas Canções
Se eu pudesse conversar com Deus
(1970)
Nelson Ned
 Eu hoje estou tão triste
Eu precisava tanto conversar com Deus
   Falar dos meus problemas
 Também lhe confessar
 Tantos segredos meus
 Saber da minha vida
E perguntar porque ninguém me respondeu
   Se a felicidade
 Existe realmente
 Ou é um sonho meu
 Meu Deus não sei rezar
 Perdoe, por favor
Perdi meu tempo aprendendo a amar
 Alguém que nunca soube o que é o amor
 Eu sei que é impossível
Mas eu queria tanto conversar com Deus
  
Nestas horas tão tristes
 Só Deus me ajudaria
 A esquecer você
 Mas sei que estou errado
Sou eu quem devo os meus problemas resolver
  
Meu rosto está molhado
 De lágrimas cansadas
 De chorar por você
 Meu Deus não sei rezar
 Perdoe, por favor
 Perdi meu tempo aprendendo a amar
Alguém que nunca soube o que é o amor.
____________________
Uma Trova de Natal/RN
Clarindo Batista de Araújo
Da nossa união frustrada
resta um cenário de escombros,
além de uma cruz pesada
que ainda trago nos ombros.
____________________
Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Breve Tempo
Se me queres amar ama-me nesta hora
enquanto fruto dando-te a semente.
Se te apraz me louvar louva-me agora
quando do teu louvor vivo carente.
Aprende a te doar antes que a aurora
mude nas cores cinza do poente.
Se precisas chorar debruça e chora
hoje que o meu regaço é doce e quente.
A vida é breve dança sobre arame.
Sorve teu cálice antes que derrame
ninho vazio que o vento derrubou.
Porque quando eu cair num dia incerto
parado o coração o olhar deserto
nem mesmo eu saberei que já não sou.
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Um Haicai de Boa Vista/RR
Eliakin Rufino
lua de maio
prazer crescente
no meu quarto
____________________
Uma Trova de Fortaleza/CE
Leda Costa Lima

No palco azul da memória,
nós dois... sós... ainda temos
lembrança da bela história
da união... que nem vivemos...
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Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
Noturno canto
Das papoulas da noite colho o espanto
– chuva antes da Lua aparecer –
e das gotas do orvalho teço o canto,
mistura de cansaço e de sofrer.
Na armadilha da aranha aceito o encanto
( macho prestes a amar e fenecer)
e da ferida aberta flui-me o pranto
– linfa de garça em voo de se perder.
Ninguém percebe como dói a espera
– ave noturna, cais de pedra, fera –
atalho de um caminho amargo e escuro.
Então floresce o poema, essa oferenda,
mais sombra do que luz, trapo que renda,
flauta de amor de pássaro maduro.
____________________
Poema Comemorativo de Cidades Brasileiras 
Dorothy Jansson Moretti
Graças à Minha Cidade
(28 de agosto, aniversário de Itararé/SP)
Itararé, que amo tanto,
que me viste, pequenina,
da brisa ao meigo acalanto,
a correr pela campina,
ou de teus rios num recanto,
me envolver na espuma fina,
ver o sol no eterno encanto
ir descansar na colina…
Segui sempre te querendo
e extasiada estou vivendo
a sublime maravilha
de entre sonhos tão antigos
ter IRMÃOS nos meus amigos,
e me chamares de FILHA!
Obs: declamada pela autora ao receber seu título de Cidadã Itarareense.
____________________
Uma Trova de Natal/RN
Joamir Medeiros
Nada em verdade supera
este cenário de cores:
- ver chegar a primavera
cobrindo a terra de flores.
____________________
Um Poema de Belém/PA
Alonso Rocha
No espelho
Da armadura do medo me desnudo
o estandarte na mão, a flor no peito
e enfrento, temerário, o cristal vivo
de tua face – espelho onde me busco.
Sou dócil ao teu poder e mel e seiva
da boca se derramam em doce riso,
como a rasgar a carne me entretenho
para me alimentar de encantamento.
Entrego-te meu rosto e o desfiguras
e a máscara real pesada tomba
– envelhecido pó – na tua lâmina.
E na visão da imagem refletida

em desespero e espanto me descubro

na placenta da morte prisioneiro.

          

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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