Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Chuva de Versos n. 425

Uma Trova de União da Vitória/PR

Maria Farias Inocêncio

Mais que ouro, fama, respeito...
Mais que honraria, abastança,
é trazer dentro do peito
simplesmente uma esperança!
_______-

Uma Trova de São Paulo/SP

Ronnaldo Andrade

Hoje, de cabelos brancos,
eu relembro a mocidade,
e levo a vida aos barrancos,
de braços com a saudade.
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

A CASA

É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel
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Uma Trova Humorística de São José dos Campos/SP

Myrthes Mazza Masiero

Ela diz que faz “cinquenta”?
Mentira! Não é verdade!
Há dez anos ela inventa
que completa a mesma idade!
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Trovas "Fabulosas" de Fortaleza/CE

Nemésio Prata

A GALINHA DOS OVOS DE OURO

Procura não ser "fominha"
e cuida do teu tesouro;
não vás matar a galinha,
que te dá os "ovos de ouro"!

O que vive a gastar mais
do que pode é bom lembrar
que, acabando os seus reais,
como as "contas" vai pagar?

Quem na ânsia de ganhar
dinheiro perde o seu siso;
depois de muito "juntar"
acaba ficando é... "liso"!
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

PRIMEIRA INFÂNCIA

Era rosa, era malva, era leite,
as amigas de minha mãe vaticinando:
vai ser muito feliz, vai ser famosa.
Eram rendas, pano branco, estrela dalva,
benza-te a cruz, no ouvido, na testa.
Sobre tua boca e teus olhos
o nome da Trindade te proteja.
Em ponto de marca no vestidinho: navios.
Todos a vela. A viagem que eu faria
em roda de mim.
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Uma Quadra Popular

Autor Anônimo

Baixa baixa serraria
que eu quero ver a cidade.
Meu amor aqui tão perto
e eu morrendo de saudade.

Fonte: Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos.São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.
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Uma Trova Hispânica da Argentina

Mirta Lílian Cordido

Escuela de mis amores.
los recuerdos son hermosos
nos sacaste los temores
al volvernos estudiosos.
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

DOIS VOCATIVOS

A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!
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Trovadores que deixaram Saudades

Amália Max
Ponta Grossa (1929 – 2014)

Buscando tempos vividos,
tempos bons da mocidade,
achei sonhos esquecidos
em meus bancos de saudade!
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Uma Trova de São José dos Campos/SP

Nadir Nogueira Giovanelli

A mãe que espera o bebê,
é plena de formosura;
vibra o seu ventre, e não vê,
tem na face mais candura.
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Uma Trova de São Paulo/SP

Alba Christina Campos Netto

Como um sopro do passado
o jasmim, no vento morno,
perfuma o portão quebrado
festejando meu retorno.
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

TEMPO

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
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Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ

Franklin Magalhães

Explode o relâmpago.
No susto o gato derrama
o pires de leite.
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Uma Trova de São Paulo/SP

Darly O. Barros

A febre dos celulares
cresce, segundo a segundo,
maestros, os polegares,
regendo os papos no mundo...
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

TULHA

Ontem de noite a tentação me tentou,
no centro da casa escura, no meio da noite escura.
A noite dura seu tempo, mas a barra do dia barra,
espanca a soberba das trevas.
O que trêmulo e choroso vagou nos cômodos quietos
encontra os pardais palrando,
mulheres com suas trouxas reverberando no sol.
Declaro que a vida é ótima, a realidade múltipla, os
                                                   [nossos sentidos fracos.
Mais belo que o épico é o homem pacientemente
esperando a hora em que Deus for servido.
Enquanto isso, as andorinhas pousam nos fios, as gotas de
                          [chuva caem,
Marly Guimarães, esposa de Mário Guimarães,
completa mais um aniversário e na oportunidade
recebe os cumprimentos dos parentes.
Vale a pena esperar, contra toda a esperança,
o cumprimento da Promessa que Deus fez a nossos pais
[no deserto.
Até lá, o sol-com-chuva, o arco-íris, o esforço de amor,
o maná em pequeninas rodelas, tornam boa a vida.
A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa.
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Uma Trova de São Paulo/SP

Elza Aparecida Ramos Amaral

Guardo na minha lembrança
lindas conchinhas do mar...
e o meu pensamento alcança
das ondas o marulhar!
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Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ

Gabriela Marcondes

Harmonia sem acorde
nota em contratempo
A dissonância morde
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

HORA DO ÂNGELUS

A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
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Uma Trova de São Paulo/SP

Adélia Victória Ferreira

Circo de lona... de estacas,
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...
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Um Haicai de Salvador/BA

Gustavo Felicíssimo

um homem vaidoso
viu-se na lâmina d'água –
encontrou Narciso
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

A PROFETISA ANA NO TEMPLO

As fainas da viuvez trabalham uma horta nova.
Quem me condenará por minhas vestes claras?
O recém-nascido vai precisar de faixas.
É um tal amor o que prepara os unguentos
que obriga a divindade a conceder-se.
Até que esmaeçam,
velo as coruscantes estrelas.
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Uma Trova de São Paulo/SP

Domitilla Borges Beltrame

No jardim ali da praça,
por entre as flores de lis,
a minha saudade passa
brincando de ser feliz.
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Um Haicai de Duas Barras/RJ

Jacy Pacheco

A última árvore
ruirá sem ninhos, chorando
o último pássaro...
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

CANÍCULA

Ao meio-dia, deságua o amor,
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
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Recordando Velhas Canções

Procurando tu
(1970)

Antônio Barros e J. Luna

Morena diga onde é que tu tava   
Onde é que tu tava, onde é que tava tu 
Passei a noite procurando tu 
Procurando tu, procurando tu 
Passei a noite procurando tu, 
Procurando tu procurando tu 

Eu vivo triste, meu amor me beija 
Mesmo que não seja beijo de amor 
Esse teu beijo sei que me envenena 
Mas não tenha pena se é matador 
||:Eu quero um beijo de lascar o cano 
Pois eu sou baiano cabra beijador:||

Chega prá perto, me dá um arrocho 
Que eu já tô roxo de tanto roer 
Acende o fogo da minha fogueira 
Que a noite inteira eu só faltei morrer 
||:Te procurando, meu amor te dando 
E tu me negando, fazendo eu sofrer:|
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Uma Trova de Bandeirantes/PR

Wanda Rossi de Carvalho

Depois de uma aurora linda,
sigo o momento que avança
e, quando a tarde se finda,
renovo minha esperança!
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

ESTREITO

Agosto, agosto,
os torrões estão leves,
ao menor toque se desmancham em pó.
Estrela de agosto,
baça.
Céu que se adensa,
vento.
Papéis no redemoinho levantados,
esta sede excessiva
e ciscos.
Um homem cava um fosso no quintal,
uma ideia má estremece as paredes.
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Um Haicai de São Paulo/SP
Jorge Fonseca Jr.
(1912-1985)

Nesta catedral,
quando arde o sol, toda tarde,
sangra este vitral...
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Uma Trova de Bandeirantes/PR

Istela Marina Gotelipe Lima

Velhos sonhos, na lembrança,
vou mantendo em meu viver
e nunca perco a esperança
de que vão acontecer!
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Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

A FALTA QUE AMA

O meu saber da língua é um saber folclórico.
Muitos me arguirão deste pecado.
Não sei o que responder,
uma nuvem me tolda.
Me levanto com a alva,
encontro ameixas maduras no quintal,
uma ave nova que voa
sem fugir de mim.
Nunca fui em Belo Vale,
mas amo esta cidade
porque meu pai passou nela, em romaria,
e voltou falando ‘Belo Vale, porque Belo Vale’,
este som de leite e veludo.
Quis dizer nêspera e não disse.
Só por causa da música que não entendo
ninguém me apedrejará.
Não invejo os deuses, porque não existem.
Os gênios, sim, os que dizem:
eis a forma nova, fartai-vos.
Como és belo, amado! Belo e perecível!
Tudo é sonho e escândalo,
congênita ambiguidade.
Se pudesse entender: o Filho de Deus é homem.
Mais ainda: o Filho de Deus é verbo,
eu viraria estrela ou girassol.
O que só adora e não fala.
 _________________________

Hinos de Cidades Brasileiras

Cáceres/MT

Marcha um povo rompendo a floresta
Ganha terras e aumenta o Brasil
No Ocidente penetra e, na testa,
Albuquerque de porte viril.

Dessa marcha de heróis do passado tu,
Ó Cáceres, ergues-te forte...
Já ecoa no campo o boiado,
Surge a poaia nas matas do norte.

Tuas terras banhadas dos Rios
Sepotuba, Jaurú, Cabaçal,
Paraguai - porta aberta pra o mundo;
Mar inteiro - feraz Pantanal!

O teu solo propício à cultura
Doutros centros chamou atenção;
Veio gente no afã de fartura,
Confirmou de Albuquerque a visão.

Tua história contém a lição
De trabalho tenaz persistente,
No concerto geral da Nação
Como sempre respondes - presente!

De Albuquerque foste a preferida
Minha terra cristã e feliz
Cidade amor de São Luiz
Salve, Cáceres, princesa querida.
 _______________________________

Uma Trova de Curitiba/PR

Wandira Fagundes de Queiroz

Passa o tempo... e a mocidade
vai deixando, em seu lugar,
pegadas para a saudade,
um dia, me procurar!
________________________

Um Poema de Divinópólis/MG

Adélia Prado

A ESCRIVÃ NA COZINHA

Só Deus pode dar nome à obra completa
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia, um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo para torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas para dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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