Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Chuva de Versos n. 450




Uma Trova de Curitiba/PR
Madalena Ferrante Pizzatto

Sobre as campinas em flores,
as aves com alegria,
mesclam nosso céu de cores,
ao findar de cada dia.

Um Poema de Congonhas/MG
Djalma Andrade

ATO DE CARIDADE

Que eu faça o bem e de tal modo o faça,
Que ninguém saiba o quanto me custou.
- Mãe, espero em ti mais esta graça:
- Que eu seja bom sem parecer que o sou.

Que o pouco que me dês me satisfaça,
E se, do pouco mesmo, algum sobrou,
Que eu leve esta migalha onde a desgraça
Inesperadamente penetrou.

Que a minha mesa, a mais, tenha um talher,
Que será, minha mãe, Senhora nossa,
Para o pobre faminto que vier.

Que eu transponha tropeços e embaraços:
Que eu não coma, sozinho, o pão que possa
Ser partido, por mim, em dois pedaços.

Uma Trova Hispânica do México
Elizabeth Leyva Rivera

 El migrante es la semilla
que crece en terreno nuevo
al demostrar que es la arcilla
del progreso más longevo.

Um Poema de Mamanguape/PB
Edison Cezar de Carvalho

QUASE UMA ESPERANÇA

Esperemos, cantando
As pétalas fenecidas,
Caídas, rolando na terra,
Voltarão às rosas.

Nem um instante hesitemos.
Não fiquemos parados,
Sem dizer palavras.

A nossa dúvida e o próprio mundo,
O movimento nos convida
E as palavras dos homens
Esperam a sua transformação em cântico.

Inútil chorar as velhas imagens mortas
Salvemos aquilo que isolados não podemos criar.

Caminhemos com a poesia para o meio da rua
Que o amor está renascendo a cada instante,
Em cada forma, em cada vida, no turbilhão.

E a poesia está aqui,
Nesse amor que renasce,
Nesse desejo de hesitar,
Nessa vontade de prosseguir.

Caminhemos com ela pelas ruas
Que os lírios brotarão no asfalto.

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Glória Tabet Marson

Passarada em sintonia
com  o dia que clareia
faz do seu canto a alegria
de quem bem cedo passeia!

Um Haicai de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

Pirilampo luz
na esteira da lua cheia.
Esmeralda-prata.

Um Poema de Dores do Indaiá/MG
Emílio Guimarães Moura

MATINAL

Sobre as ondas mansas brincam os
barcos.
Diante de meus olhos matinais
as cousas se ordenam simples e perfeitas:
– o céu, o mar, teu corpo !
Ah ! Teu corpo!
Meus olhos brincam sobre o teu corpo.
Nenhuma nuvem na minha alma.

Trovadores que deixaram Saudades
Thereza Costa Val
Viçosa/MG (1933 – 2014) Belo Horizonte/MG

Diz São Pedro ao novo otário
que ao céu chegou assustado:
- por que se escondeu no armário
se o lugar é tão manjado!?

Um Triverso de Maringá/PR
A. A. de Assis

Casal de velhinhos
na janela olhando a Lua.
Tão longe a de mel…

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Fernando Augusto Buarque Franco Netto

BEATRIZ

Beatriz temerosa, subindo a velha escada,
Balançando a medo quadris de vinte anos.
(Até a escada era voluptuosa).

Beatriz furtiva, empurrando um sorriso meigo
Detrás do pudor quase intransponível.
Beatriz de pupilas de criança,
Em que havia uma pequenina mulher adormecida..
Beatriz lânguida, de olhos quase amorosos
(Beatriz ainda não sabia o que era o amor)

Beatriz quase mulher.

A tarde cora de lhe ver os olhos,
E encosta suavemente nas vidraças
O biombo negro da noite.

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Maria Helena Calazans Duarte

O escrivão, a duvidar:
-"Trinta de idade, senhora?!!"
- "Com preguiça de somar,
deixei só vinte de fora."

Um Poema de Vacaria/RS
Gevaldino Ferreira

CHUVINHA SERENA E MANSA

Que boa que és, chuvinha!
Chuvinha serena e mansa
caindo assim levezinha,
reverdecendo a campina,
molhando o pelo do gado
batendo no meu telhado,
trazendo um pouco de frio.
Trazendo sono as crianças
trazendo alegria ao rio.
Chuvinha que foi neblina.,
que depois virou garoa;
chuvinha serena e fina,
chuvinha serena e boa
que veio do céu cantando,
deixando o campo molhado,
germinando as sementeiras,
deixando o mato contente;
molhando a palha nas eiras,
molhando a terra e o arado,  
molhando tudo, molhando,
molhando a alma da gente.

Recordando Velhas Canções
Coração vagabundo
(1967)

Caetano Veloso

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meu sonho
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim

Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Talita Batista

O poeta, ao ver o mundo,
feito um passarinho voa;
seu pensamento fecundo
toca na alma da pessoa.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

MONÓLOGO DO BASTIDOR

Sou a ferida exposta acobertada
por mentes que dominam consciências;
cinismo onde plateia entusiasmada
entorpecida perde referências.

Caráter e vaidade sem decência
abarcam teoria distanciada
da prática sem ética... ciência...
sem brio que ao vazio leva ao nada.

O aqui e agora são mais importantes;
lá fora o vento sopra bem distante.
Eu sou o cerne que requer destreza,

porém pressinto tempos exigentes
de sentimentos puros, transparentes,
num palco pelas artes da certeza!


Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Margarida Tanini

Nem a terra ressequida
medrou os plantios meus,
porque no jardim da vida,
meu jardineiro foi Deus...

Um Poema de Goiatuba/GO
Haroldo de Britto Guimarães

POEMA DA INFÂNCIA PERDIDA

...e quando acordei havia gente estranha
ordenando que eu subisse a montanha
cujo pico impossível
estava oculto pelas nuvens negras
do mistério.
Eu não estava cansado não, gente,
eu não tinha medo, nem indiferença.
Não queria subir porque das nuvens
que cobriam o cume
escapavam vozes e gestos perdidos
de gente perdida que queria voltar
ao principio do monte.
Baixei minha cabeça e fui para a frente
porque não tive coragem de parar.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Nenhuma rosa, nenhuma,
minha mãe, das que plantaste,
mais que a saudade, perfuma
o jardim que me deixaste.

Hinos de Cidades Brasileiras
Município de Barreirinhas/MA

Densas matas cortadas de rios,
Borboletas, mil aves e flores.
Palmeiras, campos, dunas e praias.
És um mundo de sonhos e amores.

Refrão

Barreirinhas rincão paraíso
Ai, se um dia eu tiver que partir,
Dos recantos e amores que tenho
Hei de sempre saudade sentir.

Foste berço de índios valentes
Que se uniram ao herói missionário
Tradições de folguedos e ritos
Que formaram teu mundo lendário.

Que delícia a rosada mangaba!...
Quão cheiroso é o teu bacuri!...
Como é bom ver a frágil jussara
A dançar frente ao rei buriti.

Povo simples que acolhe num abraço
E cativa quem vem com amor...
Teu futuro será venturoso
Se souberes guardar teu valor.

Um Haicai de São Paulo/SP
Eunice Arruda

Sobre a folha seca
as formigas atravessam
uma poça d'água

Um Poema de Paraíba do Sul/RJ
Guiuseppe Artidoro Ghiaroni

A MÁQUINA DE ESCREVER

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um judeu qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher !

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva !

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo!

Mas, poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical!

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma!

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura!

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Luzimagda De Martin R. da Fonseca

Meu sonho, aquele projeto,
que chorando eu enterrei
virou meu jardim secreto
que com lágrimas reguei

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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