Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Edweine Loureiro em O Homem atrás do Escritor, o Escritor atrás do Homem

    Entrevista com o premiadíssimo poeta e trovador amazonense, radicado no Japão, Edweine Loureiro, realizada virtualmente por José Feldman.

PEQUENA AUTOBIOGRAFIA E PRIMEIROS LIVROS

JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Nasci em Manaus em 1975, filho de um marinheiro, Sr. Edwal, e de uma dona de casa (e professora de reforço escolar), Sra. Erotides. A infância, se não de completa pobreza material, foi certamente de grandes dificuldades financeiras ― morando de aluguel, tínhamos de mudar de casa constantemente. E, como consequência, tive de mudar de escola várias vezes. Diante de tantas instabilidades, desde muito cedo tive esta convicção: de que os estudos eram a única maneira de sair daquela situação. Daí, o aluno aplicado em que me tornei: sendo o primeiro lugar da classe em todas as fases: desde o primário (que completei em três anos) até o ensino médio (que completei em dois anos). De modo que, aos dezesseis anos, eu adentrava a Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas; e aos vinte e um, tornava-me advogado. A paixão pela Literatura veio com os livros, que meu pai recolhia de suas viagens (dados por passageiros, principalmente, pois não tínhamos condições de comprá-los). O primeiro livro foi escrito, porém, durante a faculdade ― livro este recusado pela Universidade do Amazonas (o que, ao invés de desmotivar-me, deu a energia necessária para seguir em frente, em busca do sonho literário).

JF: Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

Não sou saudosista, pois todas as fases da vida têm seus prós e contras. Mas acredito que tínhamos um modo mais inocente de ver o mundo, no final da década de 80 ― vivíamos ainda os resquícios de uma Ditadura Militar, e valores como a família e a religião ainda eram muito fortes. Como também eram bem mais fortes os deveres de respeito e obediência aos mais velhos: sobretudo aos pais e professores. Sempre fui obediente, principalmente aos professores. Em casa, confesso, era mais rebelde ― arroubos, acredito, de um jovem que desejava ter uma vida diferente daquela da geração anterior.

JF: Como foi parar no Japão? Comente sobre o sentimento que teve ou tem em relação ao choque cultural ocidente-oriente esta sua transição.

    Recebi uma Bolsa de Estudos do Governo Japonês para fazer uma pós-graduação. Foi uma imensa alegria, em 2001, quando recebi o telefonema do Consulado do Japão, em Manaus, informando que a Universidade de Osaka tinha aceitado minha proposta de tese (em Direitos Humanos). De tal modo que, em outubro de 2001, embarquei para a Terra do Sol Nascente ― era a minha primeira viagem para o exterior, em toda a vida, e logo para estudar e, claro, residir. Pode, então, imaginar o choque para este jovem amazonense. Confesso que, nos primeiros dias, desesperava-me no quarto do alojamento para estudantes estrangeiros em que estava, principalmente com saudades da família. Mas, hoje, fico feliz de não haver desistido naquela época. No Japão, encontrei uma nova família, minha esposa amada. Ao Japão também devo o fato de ter minha obra literária mais notada; o que seria impossível se eu residisse no Amazonas ― um Estado que amo, porque lá nasci, mas que, infelizmente, não me deu oportunidades. No Japão, ao contrário, encontrei meu lar.

JF: Recebeu estímulo na casa da sua infância?

De minha mãe, nos estudos da Língua Portuguesa: ela valorizava a gramática e a caligrafia bem trabalhada – o que me ensinou desde cedo. Já o meu pai, bem mais sonhador, lia-me livros de aventuras (principalmente as histórias de “As Mil e Uma Noites”). Através de meu irmão, aprendi a gostar de cinema ― fizemos até um curta-metragem juntos, a partir de um roteiro que escrevi. Cada um, portanto, de alguma forma, contribuiu para que este amor pela Arte Literária surgisse. Também quero ressaltar o importantíssimo papel de uma tia, professora, chamada Cleonice, e que, além de dar-me o primeiro livro de ficção ― “O Pequeno Príncipe” ―, também pagou pelas aulas de Inglês: sem as quais eu não teria obtido uma bolsa de estudos para o exterior.

JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever?

Os dois primeiros livros que li, digamos, para um público mais adulto (eu tinha, então, quinze anos de idade). E ambos pertenciam à Escola Naturalista: “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, e “Germinal”, de Émile Zola. As duas obras, acredito, influenciaram-me na preocupação que tenho em retratar as classes marginalizadas. Seja em verso e prosa, tenho sempre a questão social como ponto de partida para a criação literária.

JF: Como foi que você chegou à poesia e às trovas?

Rascunhei alguns poemas na infância e na adolescência, mas acho que não guardei nenhum. E, por incrível que pareça, o primeiro poema que escrevi, digamos, mais a sério ― a ponto de tentar um concurso literário em Portugal (e no qual acabei sendo classificado) ― foi somente em 2009. Ou seja, eu já tinha 34 anos de idade! As trovas, então, foram ainda mais recentes. Tentei um Concurso da Organização Mundial de Trovadores, pela internet, no final de 2013. Obtive então o Segundo Lugar e, de lá para cá, não mais parei. Em suma: a paixão pela poesia e, mais recentemente, pela trova, ainda que tenha vindo mais tarde que o comum, parece, veio em minha vida para permanecer. E, hoje, os versos são mais que uma paixão: tornaram-se companheiros inseparáveis.

SEUS TEXTOS E PRÊMIOS

JF: Você possui livros? Se sim, em que você se inspirou em seus livros?


    Possuo cinco livros até o momento.
    Em 2000, publiquei pela Editora Litteris, um pequeno livro de 24 páginas, denominado “Sonhador sim senhor! (e uma vida em fragmentos)”. Ao escrevê-la, inspirei-me nos fracassos que tive em tentar publicar a primeira obra. Não há diálogos e a narrativa limita-se aos pensamentos do escritor em cada situação. No total, os oito textos mostram, ao final, mais um dia de frustrações para o protagonista (sem nome) na busca por um editor.
    Depois, parei de escrever por um longo tempo para estudar no Japão. Resumindo a história, o segundo livro somente o publiquei em 2011 e foi através do Clube de Autores: “Clandestinos (e outras crônicas)” é o título. O livro foi concebido a partir de uma reunião das crônicas que eu havia escrito para o Desafio dos Escritores de Brasília ― organizada pelo Professor Marco Antunes, um mestre que muito me ensinou na arte da escrita. Porém, eu não pensava em publicá-las até que uma tragédia fez com que eu mudasse de ideia. Minha esposa e eu acabávamos de nos mudar para Saitama, em 2011, quando houve o terremoto, que o mundo testemunhou. Eu sabia que precisava contribuir de alguma forma para amenizar o sofrimento do povo japonês. Eu estava sem emprego na ocasião, mas refleti: se não disponho de dinheiro, posso ajudá-los através de meus textos. Então, resolvi fazer a publicação da obra pelo Clube de Autores e, graças a Deus e a muitos amigos, principalmente os da Comunidade Concursos Literários, no extinto Orkut, consegui angariar um dinheiro com as vendas ― dinheiro este que doei completamente para a Cruz Vermelha para as vítimas dos terremotos e do tsunami de 2011. Por isso, este livro foi tão importante em minha vida: através dele, pude ajudar meus irmãos japoneses.
    O terceiro livro, em 2012, foi uma reunião de microcontos, intitulado “Em Curto Espaço”, e publicado pela Editora Multifoco. Com esta editora, confesso, minha experiência não foi das melhores. E, de positivo, ficou apenas a oportunidade de haver conhecido o belo trabalho realizado pelos editores Wilson Gorj e Tonho França, hoje à frente da Editora Penalux.
    E foi através da Penalux que publiquei meu primeiro livro de poesia, em 2013: “No mínimo, o infinito”, a maioria dos textos premiados em concursos literários, dos quais tenho participado mais intensamente desde 2008 (em prosa; e a partir de 2009, em poesia).
    Já o mais recente livro (e segundo de Poesia) nasceu premiado: “Filho da Floresta (e outros poemas” foi publicado pela Editora LiteraCidade, do Pará, após receber o Terceiro Lugar em um Concurso organizado pela editora. Apesar do título, não me limito a regionalismos (aliás, respeito quem o faz, mas não sou o tipo de autor que acha que “sua aldeia é o mundo”, pois acredito que a Literatura é universal e, como tal, o bom escritor tem a capacidade de escrever a respeito de tudo ― principalmente sobre aquilo que não vivenciou). De modo que os poemas de “Filho da Floresta”, todos premiados em concursos, abordam os mais variados temas: desde o cotidiano da vida urbana até anjos e o Apocalipse.
    Recentemente, submeti mais duas obras para a análise de editores: um livro infantojuvenil, intitulado O Livro no Lixo, e que recebeu o primeiro lugar na União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, e também meu primeiro livro de trovas. Vamos ver o que acontece.

JF: Como definiria seu estilo literário?

A concisão, independente do tema. Um conto de minha autoria, por exemplo, raramente possui mais de três páginas. E não é por indolência, como alguns que escrevem textos longos acusam aos que preferem criar o oposto. Afinal, todos os dias, escrevo pelo menos durante três horas. Mas sou daqueles que prefiro trabalhar um pequeno texto várias vezes do que, ao final, entregar ao público duzentas ou trezentas páginas sem qualidade literária.

JF: Dentre os livros escritos por você, qual te chamou mais atenção? E por quê?

    Não tenho nenhum preferido ou mais especial, pois acredito que cada um deles era o livro a ser publicado naquele específico momento. Talvez “Clandestinos” tenha obtido maior repercussão, em virtude do elemento da solidariedade que o motivou ― a doação do produto de sua venda às vítimas dos terremotos no Japão; conforme mencionei acima. Mas todos os cinco são de igual importância para mim, pois fazem parte de um processo de amadurecimento literário.

JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

    A internet é fundamental em minha carreira. Sem as redes sociais, eu não teria conhecido a Comunidade Concursos Literários (primeiramente pelo Orkut; e hoje no Facebook), que tanto tem me incentivado à criação literária. Conheci a muitos amigos escritores graças à internet. E, de um modo geral, para o escritor que, como eu, não tem ainda acesso à mídia e às grandes editoras, fazer a divulgação através da internet torna-se essencial.

JF: Tem Home Page própria? (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)

    Tenho sim, no wordpress. Mas não publico meus textos, para proteger o ineditismo e participar dos concursos: publico apenas notícias de minha carreira. Antes, publicava resenhas e notícias sobre as carreiras de amigos. Sofri, porém, algumas ingratidões, que me fizeram suspender esse tipo de divulgação.
Este é o link:
https://edweineloureiro.wordpress.com/

JF: Tem prêmios literários? Quantos? Cite alguns que lhes são especiais.

    Graças a Deus, desde o final de 2007 (quando participei do Concurso de Contos de Cordeiro – RJ) até a presente data, já tenho mais de duzentas classificações em concursos literários no Brasil, Portugal, Espanha, nos Estados Unidos, México, Argentina, França e Peru). Destes, 40 foram obtidos com as trovas. E foram as trovas que possibilitaram um dos prêmios mais importantes de minha carreira: o Primeiro Lugar na Categoria Lírico-filosófica dos LVII Jogos Florais de Nova Friburgo, que, pela tradição e importância, é considerado o Oscar da Trova. No fim de maio, estarei em Friburgo para receber este prêmio que será certamente uma das maiores emoções de minha vida literária.
    Outra grande emoção que tive, através de um prêmio literário, ocorreu em outubro de 2015: foi quando subi ao palco da Academia Brasileira de Letras para receber o Prêmio Ganymédes José da União Brasileira de Escritores, pelo primeiro lugar obtido com minha obra intitulada “O Livro no Lixo”, na categoria infantojuvenil. Foi, realmente, um momento inesquecível para mim.
    Destaquei estes dois, mas todos os prêmios recebidos até aqui foram de uma felicidade indescritível; pois sou daqueles que vibra a cada conquista, nesta difícil caminhada de quem faz da Literatura a missão de vida.

JF: Concursos Literários: Qual sua visão sobre eles? Acha que eles têm “marmelada”?


    Adoro participar de concursos literários ― aliás, sem os concursos, minha produção literária seria bem mais difícil. Dos cinco livros, quatro deles foram escritos a partir dos textos que envio para os concursos. Quanto à lisura dos certames, procuro não pensar muito sobre isso, mesmo porque toda premiação tem um lado político e/ ou subjetivo. Envio para os que acho que valem a pena ― só evito, literalmente, todos que cobrem taxas para inscrições. Destes sim suspeito, pois exigem que o escritor, já tão castigado pelo mercado editorial, ainda pague para participar de um concurso.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

JF: Como foi dar esse salto de leitor para escritor?


    Como disse, no início da entrevista, a vontade de escrever surgiu paralelamente ao aprendizado da leitura. De tal modo que não foi necessariamente um salto, mas um processo gradual de amadurecimento: para ter-se uma ideia, arrisquei meus primeiros versos ainda criança, mas meu primeiro livro, publiquei-o somente aos 24 anos de idade.

JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial?

    Acredito que o trabalho constante por parte do escritor força as musas a aparecerem de onde quer que se escondam. O segredo? Escrever, escrever e escrever: mesmo quando não se tem a menor ideia alguma do que se está registrando no papel. Já tive poemas premiados cujas primeiras letras foram concebidas em ocasiões em que eu estava sem nenhuma inspiração; mas, que, somente para não deixar a página e o dia em branco, sentei-me em frente ao computador. Como ensina Woody Allen: “Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente em insistir”. Isto também penso: as musas, mais cedo ou mais tarde, são seduzidas pela insistência. Quanto ao ambiente ideal: em casa, em meu quarto, trancado (melhor dizendo, isolado do mundo) ― mas com um detalhe adicional: sempre deixo a TV ligada, enquanto escrevo.

JF: Você projeta os seus textos? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema antes? Como é que você concebe os textos?

    Não projeto nada, além do horário de escrever. Não faço anotações prévias e não planejo enredos. Mas tenho de sentar-me em frente ao computador, em meu quarto, pelo menos três horas ao dia. Só nessas horas e ambiente é que consigo escrever.

JF: Você acredita que para ser poeta ou trovador basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

    Uma não pode (nem deve) existir sem a outra. Como falei anteriormente, sou o defensor do exercício contínuo, seja na poesia ou na prosa. Quem não escreve constantemente, na minha opinião, não pode considerar-se escritor. Para este, não deve haver pausas. Não importa se consigo somente escrever uma linha após horas de exercício literário. Uma linha que seja, considero uma vitória. Já houve ocasiões em que devotei um dia inteiro para escrever uma trova: insistindo, lapidando (sem pensar em mais nada, além daquela trova específica). E tenho certeza que há outros escritores que fazem o mesmo. Quem pensa que publicou um livro e, com isso, sai anunciando aos quatro ventos que já é escritor; perdoe-me, mas jamais terá o meu respeito. O talento, ao contrário do que se pode imaginar, também morre, se não for constantemente exercitado.

JF: No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?
    Só se descobre o que é boa literatura ou não se lermos. Essa história de “não li e não gostei” fica para os ranzinzas.  

JF: Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que outros autores são importantes descobrir?

    Daí a importância dos concursos literários. Através deles, conhecemos novos e grandes talentos, que não aparecem na grande mídia. Por exemplo, pertenço, desde 2008, a uma comunidade nas redes sociais denominada “Concursos Literários” ― e lá entrei em contato com autores que, hoje, já são finalistas do Prêmio Jabuti, o prêmio máximo da Literatura Brasileira: escritores que começaram suas carreiras a partir dos concursos literários.

JF: Qual o papel do escritor na sociedade?

    Não sou daqueles que discursam que a Literatura transforma o mundo. Mas que, sim, contribui, e muito, para a reflexão sobre o mundo em que vivemos. E levar à reflexão um leitor que seja, para mim, já é um papel de suma importância. E como é emocionante também receber o depoimento de um leitor, quando este nos diz: “Adorei a leitura”. Proporcionar bons momentos a um semelhante: que melhor missão pode haver, seja qual for a profissão?

JF: Há lugar para a poesia em nossos tempos?

    Há e sempre haverá. Quando despertamos pela manhã e abrimos a janela para recebermos a luz do sol, isto já é Poesia. A Poesia existe em todas as coisas, até naquilo de que não gostamos. Basta a sensibilidade para ver o mundo ao redor.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR/TROVADOR

JF: O que o choca hoje em dia?

    A indiferença e a arrogância em relação aos demais. Fico chocado quando pessoas estendendo as mãos são ignoradas ― e não falo dos mendigos pelas ruas (eles também) ―, mas de um amigo ou vizinho, quando este precisa apenas de uma palavra de incentivo. Aqui no Japão, em particular, choca-me um comportamento: o de não sequer responderem a um “bom dia” recebido no elevador. Como se a frieza fosse própria de personalidades fortes ― quando, para mim, é apenas falta de uma educação básica. Dinheiro, títulos, nada disso vale se o indivíduo desconhece a cortesia ― achando que ser importante é sentir-se superior e ignorar aos demais. Quando, na verdade, não é nada além de um grosseiro.

JF: O que lê hoje?

    Gosto muito de crônicas ― principalmente dos textos dos grandes cronistas brasileiros, como Fernando Sabino e Stanislaw Ponte Preta. E, claro, sou fã absoluto do mestre Machado de Assis; cujas obras-primas não me canso de ler: a cada nova leitura, aliás, é impressionante como vamos descobrindo novas camadas no mundo machadiano. Atualmente, estou lendo o maravilhoso livro de crônicas “Montanha-Russa” da escritora gaúcha Martha Medeiros. Leio, enfim, toda obra, em prosa e verso, que me chega às mãos. Na poesia, leio principalmente os livros de novos autores contemporâneos ― amigos que encontrei neste mundo dos concursos literários. Só não curto muito e-books, confesso. Sou ainda um leitor à moda antiga: prefiro o livro impresso.

JF: Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?


    Sim. O de um roteiro de cinema. Em 2013, fui um dos dez finalistas do Prêmio Filma Brasil, com um roteiro de curta-metragem baseado em um de meus contos: “Água Viva”. Espero um dia ver transformado em filme um dos roteiros que guardo na gaveta.
    Quanto à poesia e à prosa, o projeto diário: de continuar escrevendo, sempre, e, quem sabe, um dia, ter a Literatura como a principal profissão ― mesmo sabendo das dificuldades existententes para “vivermos da literatura”. Mas como sempre diz minha esposa ― minha amada Nao, companheira inseparável nesta caminhada: “Ter a coragem de tentar já é a grande vitória!”. Acredito piamente nestas palavras.

JF: De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?


    A grande mídia, infelizmente, tem incensado a falta de conteúdo. Prefere-se o funk à Bossa Nova; o BBB aos programas da TV Cultura... enfim, a idiotização tem sido, principalmente a partir da década de 90, a palavra de ordem para o que a maioria da população brasileira chama de entretenimento. Mas, para ser justo, esta não é uma triste realidade somente do Brasil. É mesmo global (sem trocadilhos). No Japão, por exemplo, onde moro há quinze anos, também tenho testemunhado a degradação cultural. Não obstante, ainda se consegue escutar Bossa Nova nos restaurantes e um show de Caetano possui um público fiel e respeitador. Sem contar que, apesar da proliferação de iPhones e iPads, os japoneses ainda preferem frequentar as tradicionais livrarias.

JF: O que é para você, o homem atrás do trovador pertencer à UBT?


    Compromisso com a expansão da trova a todas as partes. Confesso ficar muito triste quando vejo alguns trovadores (poucos, na verdade) criticarem a participação em conscursos de alguém que reside no exterior. Parece-me de um egoísmo sem tamanho quem pensa desta forma: como se o amor à trova e o talento tivessem nacionalidade, fronteiras. Recebi algumas críticas por participar de concursos residindo no Japão. Mas ignoro-as, pois sei que a grande maioria dos trovadores fica muito feliz vendo a participação de trovadores de todas as partes do planeta. Quem defende a limitação nada acrescenta de positivo para o movimento trovadoresco.

JF: Você é o representante da UBT Japão: Qual sua visão e trabalho com este cargo? Que satisfação ou preocupação isto te traz?


    O mesmo compromisso de expansão a que me referi. Levar a trova aos brasileiros no Japão. Atualmente, a única forma que tenho encontrado para isto é promover e divulgar um concurso de trovas para a comunidade de brasileiros aqui existente. Mas, infelizmente, não tenho encontrado apoio nem do Consulado, nem de revistas, enfim, de nenhum órgão e/ou autoridade brasileira no Japão que pudesse ajudar-me. Muitas vezes, fui jurado (e até organizei o regulamento) para o concurso literário do Consulado, por exemplo ― mas, em troca, quando sugeri a realização de um concurso de trovas, nenhuma resposta recebi. Enfim, sem o apoio dos representantes da comunidade local, vou divulgando o Concurso de Trovas do Japão através da Organização Mundial de Trovadores e da União Brasileira de Trovadores: destas duas entidades, sim tenho recebido total apoio ― e quero aproveitar, aqui, para agradecer ao imenso carinho e contribuição proporcionados pelas Poetisas Gislaine Canales, Eunate Goikoetxea e Cristina Olivera Chávez. Graças a essas três guerreiras, já temos duas edições realizadas, pela internet, do Concurso de Trovas do Japão. E esta é, sem dúvida, uma grande satisfação.

JF: O que é a trova para você como trovador? Esta mesma pergunta para outras formas textuais em relação a elas.

    A trova, a Poesia, enfim, a Literatura significa minha própria Vida. Escrevendo e ensinando Literatura ― tenho vivido assim há muitos anos. Entrei numa sala de aula para ensinar a respeito da Escola Simbolista quando tinha apenas quinze anos de idade. E, dos 15 aos 25, quando vim para o Japão, fui Professor de Literatura em cursos pré-vestibulares. Escrever, como disse anteriormente, começou mais seriamente após os trinta. Mas sempre, de uma forma ou de outra, a Literatura esteve presente em minha vida. E como está sendo encantador conhecer as trovas; que têm me proporcionado tanta alegria neste processo de aprendizagem. Reitero: a Literatura é minha Vida. Sem ela, não saberia o que fazer.

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES


JF: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

    Persistência, exercício contínuo e humildade. Muitas serão as portas fechadas. Mas persistindo, escrevendo sempre, um dia alguma porta há de ser aberta. Um outro conselho: neste mundo competitivo, saiba aplaudir o sucesso dos demais. Veja-os como uma inspiração para que você próprio siga em frente. Ninguém se torna escritor tentando denegrir a imagem de um colega de profissão e/ou sonhos ― seja ele famoso ou iniciante. Trabalho árduo, persistência e humildade: seja qual for seu sonho, estes elementos são fundamentais. Acredito, verdadeiramente, nessas palavras.

JF: O que é preciso para ser um bom poeta ou/e trovador?


    De novo, insistirei na resposta da constante prática, pois não vejo outra forma. E mais: ter o espírito aberto para o aprendizado com todo poeta/ trovador, seja ele experiente ou iniciante. Todos os dias, aprendo com os meus colegas de versos.

JF: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc.

    Só tenho a agradecer pela oportunidade, querido José Feldman. E agradecer a Deus todos os dias pelas pessoas maravilhosas que Ele tem me apresentado nesta caminhada: todas, de alguma forma, têm sido de uma importância fundamental para que eu continue buscando meus sonhos.

JF: Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

― Que toda criança possa realizar os sonhos.

― Que todo adulto jamais perca os sonhos da infância.

―Que, se por algum motivo perdermos os sonhos pelo caminho, que tenhamos forças para seguir em frente e recuperá-los.

JF: Antes de finalizarmos, algo que queira dizer sobre você?

    Alguém que acredita, mas que principalmente lutará pelos sonhos até o fim. Gosto muito da frase de Vargas Llosa para tentar descrever o sonhador e o lutador que sou naquilo que me proponho a fazer: “Morrerei escrevendo”. 

JF: Para finalizar, uma trova de sua autoria que possui um carinho especial, premiados ou não.

    Sem dúvida, a trova que obteve o Primeiro Lugar nos LVII Jogos Florais de Nova Friburgo ― a realização de um sonho do menino que foi criado em uma rua com nome de trovador ― J.G. de Araújo, em Manaus. Esta é a trova:

Arando a terra, meu pai
ensina-me enquanto canta
que uma semente que cai
é esperança que se planta.

    Obrigado a todos. Arigatō!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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