Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

José Eduardo Agualusa (Uma história oculta de Angola)

Tenho paixão por alfarrabistas. Vasculhar livros antigos à procura de um título raro ou desconhecido, capaz porém de iluminar um determinado período da História de Angola, pode parecer atividade pouco interessante para quem não se interesse por livros, ou pela História. Para quem se interessa é uma aventura. Há dias, comprei num desses alfarrabistas de rua uma coleção completa dos “Cadernos Coloniais”, setenta folhetos publicados pelas Edições Cosmos, entre 1920 e 1960, que reúnem sobretudo biografias de militares, pombeiros, comerciantes e outras figuras ligadas à colonização portuguesa de África.

Um dos cadernos, intitulado “Pombeiros de Angola”, de António Augusto dos Santos, é particularmente curioso porque se ocupa não só de personalidades portuguesas, mas inclui também alguns angolanos. Nesse caderno encontrei meia dúzia de referências a um episódio curiosíssimo, embora muito pouco conhecido, da História de Angola. Vale a pena recordá-lo aqui pela forma como subverte uma série de ideias feitas, tanto do lado português quanto do lado angolano, da História.

No início do século XX ocorreu uma grande revolta no Planalto Central, comandada por dois notáveis guerreiros e estrategistas: Mutu-ya-Kevela e Samacaca. Nas primeiras arremetidas as tropas de Samacaca avançaram rapidamente, matando muitos comerciantes portugueses e aprisionando outros. Aos prisioneiros brancos foi dado o destino que era habitual naquela época a qualquer inimigo derrotado em combate: Samacaca fez deles seus escravos. Outros vendeu a sobas aliados.

Leio em “Pombeiros de Angola” que esses brancos escravizados foram, na sua maioria, resgatados (ou seja, comprados e depois devolvidos à liberdade) por um rico comerciante negro chamado António Raimundo Cosme.

António Augusto dos Santos desfaz-se em elogios à figura de Cosme, realçando que o mesmo, ao contrário dos comerciantes portugueses, “nunca teve rixas com o gentio insubmisso, pois, conhecedor das leis gentílicas, a elas se sujeitava em absoluto.”

Este parágrafo parece-me extremamente interessante, sobretudo se lido à luz da época, pois reconhece a existência de “leis gentílicas”, leis tradicionais, além de deixar subentendido que muitos dos conflitos com as autoridades locais se devia ao facto dos comerciantes portugueses ignorarem e não respeitarem essas mesmas leis.

“A casa de Cosme foi respeitada pelo gentio”, prossegue António Augusto dos Santos: “A revolta era só contra os brancos. Mas sabendo que havia brancos acorrentados nas libatas Cosme tratou de os resgatar. Com o seu prestigio, e com a entrega de mercadorias que possuía, conseguiu a liberdade de muitos. Mais tarde, uns pagaram-lhe, outros não. Um, pelo menos, foi notoriamente ingrato, nem sequer lhe pagando o que por ele entregara ao gentio.”

Assim, tremenda ironia!, alguns dos últimos escravos que tivemos em Angola foram homens brancos – e o homem que os libertou um próspero e generoso comerciante negro.

É sempre a História, afinal, quem escreve os melhores romances.
Fonte:
Rede Angola , 23 set 2016. Acesso em 14 out 2016.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to