Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Eloína Prati dos Santos (Literatura canadense de língua inglesa) Parte I

O Canadá inglês primeiro foi parte da natureza selvagem, depois parte da América do Norte e do Império Britânico, e então parte do mundo.(*)
Northrop Frye, 1995, p. 221.

Devo dizer que há algum tempo deixamos de tentar isolar o gene da canadianidade. Em um país de milhares de milhas de largura e quase o mesmo de altura, que cobre terrenos tão diversos quanto o ártico gelado, as pradarias, a floresta tropical da costa oeste e as rochas da Terra Nova; no qual cinquenta e duas línguas indígenas são faladas  -  nenhuma delas o inglês  -  e mais ou menos uma centena de outras estão em uso; [...] é meio difícil de apontar tal coisa.
Margaret Atwood, 1995, p. XIII.

Para entender a literatura canadense de língua inglesa é preciso levar em conta a questão central da identidade nacional, passando pela diversidade das identidades regionais, a história, a geografia e o clima do país, bem como a dinâmica de sua multiculturalidade. O Canadá sempre foi um país dividido por regiões, línguas, etnias, mas, apesar da preocupação permanente com a integridade, a coesão e a identidade nacionais, da lenta evolução da canadianidade ao longo dos séculos, o país encontrou elementos e símbolos unificantes que norteiam sua cultura.

William Louis Morton (1908-1981) aponta quatro fatores relevantes na história canadense: o caráter boreal, a dependência à histórica, o governo monárquico e um destino nacional comprometido a manter relações especiais com os demais estados (Morton, 1988, p. 37). O caráter boreal provém de origens mais antigas que o Canadá, das fronteiras setentrionais que compreendem da Noruega às ilhas do Atlântico norte, a Groenlândia, "uma fronteira em todos os sentidos" (Morton, 1988, p. 37), orientada por seu movimento em direção ao mar. Nessa fronteira setentrional e marítima começaram a colonização do Canadá e o desenvolvimento de uma economia de características específicas. O excedente de peixes, madeira, peles e produtos exóticos como falcões e ursos polares garantiram fundos para o metal, os cereais e outras necessidades das colônias do norte, da base do rio São Lourenço aos vales do Saskatchean e ao delta do Fraser. Os vikings, pescadores normandos e mercadores de Brístol, não escolheram a rota longa, mas certa, eleita pelos espanhóis e elisabetanos para cruzar o Atlântico, uma vez que seu conhecimento de navegação e experiência marítima lhes permitiram atravessar o Atlântico norte no final da primavera e no verão, tornando a ocupação do Canadá distinta dos demais países da América. Esse fato histórico-geográfico desfaz as noções de que o Canadá é um Estados Unidos de segunda categoria ou uma paródia do império norte-americano e explica a marca da setentrionalidade explícita nos fortes ritmos sazonais que governam o país, a aventura na natureza, a alegria do retorno da natureza selvagem para a paz do lar, da metrópole, nitidamente marcadas na psique canadense.

Outra característica é a dependência estratégica, econômica e política dos laços externos. Também o caraterizam a dependência da economia setentrional da sazonalidade de seus produtos e do clima, a dependência dos franceses e o zelo dos missionários franceses. Os canadenses sempre precisaram confrontar uma natureza de características radicais, e isso se reflete com intensidade na sua literatura. Além disso, politicamente, o Canadá foi o palco da disputa entre dois poderes europeus  -  França e Inglaterra  -  no século dezoito, além de ter promovido um movimento de independência contra seu poderoso vizinho, os Estados Unidos, no século dezenove.

No Canadá dos séculos 16 e 17, só as vozes dos aventureiros e viajantes se faziam ouvir, como no restante do continente americano. Somente no século 18 começou a ouvir-se uma tímida voz britânica, que começava a esboçar a imaginação local a partir de modelos europeus. No século 19, o Canadá lutou para constituir a Confederação sem conseguir uma autodefinição clara. A partir de 1867, o Quebec passou a manter uma resistência franco-canadense frente ao fortalecimento da cultura anglo-canadense, e ambos os Literatura canadense de língua inglesa lados passaram a narrar uma realidade mais nativa  -  o inverno, os animais locais, a vida dos imigrantes  -  em um esforço para se comunicarem com seus próprios habitantes.

No início do século 19, um conservantismo radical sobreviveu dentro de uma das mais dinâmicas nações do mundo, mantendo-se na contracorrente da história por várias décadas. As duas guerras mundiais, porém, mudaram esse quadro e trouxeram elevados números de imigrantes de todas as partes do mundo ao Canadá, impondo grande dinamismo ao país. Por outro lado, a manutenção de um laço sólido entre Igreja e Estado assegurou o desenvolvimento de uma cultura distinta ao norte do continente. Até o separatismo quebequense reforça a emergência súbita e dramática da cultura canadense após 1960.

Após a segunda guerra mundial, as características isolacionistas começaram a se dissolver, e uma nação moderna emergiu no Canadá. O ritmo descentralizador nas regiões tornou-se uma vantagem, assim como a ligação da população imigrante com a natureza, seus animais e as populações nativas. Northrop Frye (1912-1991) declara que "Para onde quer que olhemos na literatura ou pintura canadense, somos enfeitiçados pelo mundo natural e nem mesmo o mais sofisticado artista canadense consegue manter sua imaginação afastada de algo primitivo e arcaico "(1988, p. 214).

Desde que as colônias britânicas da América do Norte constituíram a Confederação do Canadá, em 1867, proclamava-se a necessidade de uma literatura nacional. Essa ideia que já existia antes da Confederação, em exemplos como a antologia Selections from the Canadian poets (Uma seleção dos poetas canadenses),(**) de 1864, organizada por Edward Hartley Dewart (1828-1903), que considerava a literatura um elemento essencial à formação do caráter nacional.

No entanto, até o final do século 19, a poesia e o romance canadenses não apresentavam originalidade na forma ou nas imagens evocadas, enquanto o teatro e a crítica apresentavam-se embrionários. Os primeiros a buscarem inspiração em seu próprio país foram os poetas Archibald Lampman (1861-1899), Charles Douglas Roberts (1860-1943) e Duncan Campbell Scott (1862-1947), mas mantinham ainda o estilo dos românticos ingleses. Lampman descreve com entusiasmo seu encontro, em 1888, com o livro de poemas Orion Eloína Prati dos Santos (1880), de Roberts. A amizade de Roberts com Scott, seu companheiro de caminhadas e expedições de canoagem pelos campos que tanto amavam, reflete-se em seus poemas que apareceram com frequência em periódicos canadenses, britânicos e estadunidenses. Junto com seus amigos Scott e Wilfred Campbell, Roberts escreveu uma coluna literária e social para o Globe. Publicou ainda Among the millet and other poems (Entre os grãos de painço e outros poemas) (1888) e teve seus demais poemas publicados e resguardados por seu amigo Scott após sua morte prematura. Como Keats e Tennyson, suas maiores influências, Lampman foi o mestre da sonoridade, com poucos rivais na literatura canadense e, ao mesmo tempo, exibiu uma nova liberdade rítmica. At the long sault (Na longa corredeira) mostra um impressionante contraste entre os jâmbicos livres da narrativa principal e os anapésticos mais regulares do final lírico.

Roberts e Scott, no final de suas carreiras, tinham encontrado a nova linguagem para o novo país e publicaram poemas experimentais. Roberts ainda encontrou nas histórias dos animais e sua luta contra a natureza um tema nativo que lhe rendeu reconhecimento. Mais tarde, o poeta A. J. M. Smith compilou as antologias A book of Canadian poetry (Coletânea de poesia canadense) (1943), The Oxford book of Canadian verse (Coletânea Oxford de versos canadenses) (1960) e Modern Canadian verse (Verso canadense moderno) (1967), onde se destacam a diversidade da poesia canadense e algumas tendências da cultura nacional.

Scott confrontou o dilema de todos os "poetas da confederação": reconciliar a tradição literária ocidental  -  principalmente a influência dos românticos e vitorianos  -  com os cenários e os habitantes canadenses. Labor and Angel (Labuta e anjo) (1898) é sua primeira tentativa de lidar com os assuntos nativos do país. The Onodonga Madonna (A madona de Onodonga), p. ex., é o retrato de uma jovem mãe índia cuja raça se está extinguindo e cujo filho não conhecerá as emoções da batalha, embora a linguagem seja romântica, e a forma o soneto, de Petrarca.

Roberts é chamado de o pai da literatura canadense pela aclamação internacional e a criatividade de seus primeiros poemas. Também considerado o inventor da história moderna sobre animais, foi dos primeiros a mitologizar com sucesso, em poesia e em prosa, o ambiente das províncias marítimas, do Arcadismo, das comunidades rurais e pesqueiras, da vida nas florestas remotas de New Brunswick. Roberts, além de uma carreira prolífica, é insuperável em sua fascinação com a interpenetração da civilização com a vida selvagem.

Seus poemas expõem uma natureza divina, um espírito que encontra consolo nos ciclos da natureza, enquanto suas histórias de animais mostram violência e destruição, a sobrevivência, mera sorte. No início dos anos 20 do século 20, alguns romancistas começaram a ganhar reconhecimento. The imperialist (O imperialista) (1904), uma sátira política, e Cousin Cinderella; or a Canadian Girl in London (Prima Cinderela ou uma jovem canadense em Londres) (1908) são as mais canadenses e as melhores obras de Sarah Jeannette Duncan (1861-1922). Ambas são centradas no emergente sentido de consciência nacional e luta contra o colonialismo tardio. 

Os dois romances indígenas de Duncan, Set in authority (Situado na autoridade) (1906) e The burnt offering (A oferenda queimada) (1909) lidam com o imperialismo frente ao emergente militarismo nacionalista indígena, e ambas as obras mostram simpatia pelos personagens indígenas e aventuram-se por assuntos inter-raciais, embora o melodrama prevaleça no final.

Stephen Leacock (1869-1944), como seus mestres Dickens e Twain, foi um grande contador de histórias baseadas na tradição oral estadunidense, como Sunshine sketches of a little town (Esboços ensolarados de uma pequena cidade) (1912).

Nas décadas de 30 e 40 já se podia detectar uma identidade canadense na literatura do país, em obras como Wild geese (Gansos selvagens) (1925), de Martha Ostenso, Master of the Mill (Mestre do moinho) (1944), de Frederick Philip Grove, e They shall inherit the Earth (Eles herdarão a terra) (1935), de Morley Callagham.

Ostenso (1900-1963) desenvolve a ação de seu romance no período entre a chegada dos gansos selvagens na primavera e sua partida no outono. O personagem principal é comparado ao solo de onde tira o sustento, rude, exigente e tirânico, enquanto a sexualidade e a beleza da personagem central são comparadas às de "um animal de fábula". Embora tenha elementos românticos, o romance representa um desenvolvimento relevante em direção ao realismo. Grove (1879-1948) alcançou reconhecimento no final da vida, com The master of the Mill, seu segundo romance sobre Ontário, um relato do crescimento do capitalismo através da história da dinastia Clark; In search of myself (Em busca de mim mesmo) (1946), uma autobiografia ficcional; e Consider the ways (Estude os caminhos) (1947), uma sátira em que uma colônia de formigas estuda a raça humana.

A maioria de seus romances expõe pioneiros dinâmicos, criativos, mas limitados, cujas ambições se tornam cinzas com a alienação da família e da comunidade. Suas obras são classificadas como realismo rigoroso ou trágico, e sua escrita ainda chama a atenção de leitores atuais, principalmente nas universidades. Callagham (1903-1990) escreveu obras moralistas, na linha de Gide e Camus, ambientadas no período da depressão econômica pós-guerra, que seus personagens enfrentam, mas evita as conclusões políticas que outras ficções da época procuraram. Seus personagens sofrem com uma finalidade espiritual que, infelizmente, só espreitam como que através de uma vidraça escura. Sua trilogia Such is my beloved (Assim é minha amada) (1934), They shall inherit the earth (1935) e More joy in heaven (Mais alegria no paraíso) (1937) apresentam notável economia de forma e grande lucidez de expressão e sentimento, que as situam entre as melhores obras canadenses da década de 30 e talvez das mais injustamente negligenciadas.
_____________________
Nota:
* Todas as traduções de citações e epígrafes deste capítulo são nossas.
** Traduções literais dos textos inéditos no Brasil, feitas por nós, aparecem ao lado dos títulos originais em inglês.

continua…

Fonte:
Cicero Galeno Lopes (org.). Literaturas americanas. Porto Alegre : EDIPUCRS, 2012.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to