Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 10 de dezembro de 2016

Eloína Prati dos Santos (Literatura canadense de língua inglesa) Parte II, final

O período entre as guerras mundiais encontra uma poesia modernista e um romance realista que se desenvolvem a partir do reforço da identidade canadense como nação, seu desligamento dos laços imperialistas britânicos e sua resistência à poderosa cultura estadunidense. Obras como As for me and my house (Sobre mim e minha casa) (1941), de Sinclair Ross (1908-1996), e Two solitudes (Duas solidões) (1945), de Mac Lennan (1907-1990), dão origem a uma consciência nacional e nacionalista, embora tradicionais na forma. A obra de Ross também é ambientada na Depressão e reflete sobre as dificuldades de um ministro e artista frustrado para sobreviver e expressar-se em um ambiente claustrofóbico, crítico e hipócrita. O romance recebe atenção crítica até hoje por suas ricas ambiguidades e estrutura complexa. O romance de MacLennan recebeu um prêmio Governador Geral e tornou-se um sucesso comercial. O título, baseado no poema de Rilke, passou a representar a relação disfuncional entre o Canadá anglófono e o francófono, discutida na luta do personagem principal para reconciliar suas duas heranças culturais.

O romance canadense só se desenvolveu plenamente depois do final da segunda guerra: a literatura canadense é um fenômeno pós-boom, como as demais literaturas da Américas (com exceção da estadunidense). A quantidade de livros publicados e de revistas literárias em circulação, o número de editoras, livrarias e leitores constituem um fenômeno admirável, e a criação do Conselho das Artes contribui para essa expansão ao facilitar a produção e distribuição de livros, peças de teatro, quadros. Surgem nos anos 60 e 70 figuras notáveis, como as romancistas Margaret Laurence, Audrey Thomas e Marian Engel, os poetas Earle Birney e Al Purdy. Além de Laurence, que viveu na áfrica, outros escritores canadenses, que passaram muitos anos fora do país, povoaram suas obras com personagens e paisagens canadenses, entre eles Mordecai Richler e Mavis Gallant, representantes da vigorosa cultura inglesa de Montreal.

A crítica literária assumiu seu lugar entre os gêneros literários canadenses a partir de A Literary history of Canada (Uma história literária do Canadá) (1965), de Nortrop Frye (1912-1991), e se reforça com a presença de Survival (Sobrevivência), de Margaret Atwood (1939) e Articulating West (Articulando o oeste), de Wiliam Herbert New (1938), ambos de 1972. A Literary history of Canada mudou a história da literatura canadense e alterou para sempre a paisagem da crítica no país. Vários autores tinham feito tentativas de agrupar escritores canadenses dentro de certas tendências literárias e ou de acordo com certas preocupações ideológicas ou estéticas. Frye, no entanto, foi o primeiro a produzir um livro de referência sobre a literatura canadense. Verdadeiramente compreensivo, com um longo ensaio de conclusão (28 páginas), que ele descreve como "uma coleção de ensaios sobre história cultural" (1965, p. 822), onde introduz uma teoria de muita influência sobre a evolução da literatura canadense e sobre as mudanças na forma de representar essa evolução.

É obvio que a literatura canadense, seja qual for seu mérito inerente, é uma ferramenta indispensável para o conhecimento do Canadá. Ela registra ao que a imaginação canadense tem reagido, e ela nos diz coisas sobre esse ambiente que nada mais vai nos dizer.

Um dos temas que percorre este livro é o desejo óbvio e insaciável do público cultural canadense de identificar-se através da sua literatura (Frye, 1995, p. 217- 218).

Ele comenta o reconhecimento dos autores através de bolsas, prêmios, medalhas, cargos universitários e empregos na mídia. Editoras agem de forma responsável pela literatura, inclusive pela poesia local e uma boa proporção dos livros comprados por canadenses são de autores canadenses. Frye ainda aponta um fator seminal: o fato de a mentalidade literária canadense, tendo começado tão tarde na história cultural do Ocidente, ter sido estabelecida não em uma base mitológica, mas em uma base histórica (p. 233).

Em sua Conclusão à Literary history, Frye chama a obra produzida por essas condições de isolamento físico de "mentalidade de guarnição", ocasionada pela tendência dos colonos em isolar-se da natureza, enquanto mantinham a cultura do velho mundo. Isso se aprofundaria mais tarde pela divisão religiosa e política entre franceses católicos e ingleses protestantes, as "duas solidões" de Hugh MacLennan, embora sempre tenha procurado o lado positivo sobre a vida intelectual do país (p. 227-228). Segundo Frye, cada região do Canadá está encerrada em uma fronteira circular, fechada por sua própria geografia: a Colúmbia Britânica está separada dos planaltos centrais pelas Montanhas Rochosas, as pradarias estão seladas pela grande extensão gelada ao norte de Ontário, o Quebec está separado das Províncias Marítimas pela protuberância do estado estadunidense do Maine, e as províncias marítimas estão separadas da Terra Nova pelo mar. Além desses isolamentos geográficos há ainda o vasto, silencioso norte, onde muitos rios, lagos e ilhas gelados e esparsamente habitados nunca foram visitados pela maioria dos canadenses (p. 207).

Frye também aborda o problema da identidade instável dos canadenses, vivendo entre dois grandes impérios, o britânico e o estadunidense. Isso já mudou bastante, e neste início de século 21 o Canadá é visto como um país pacifista, multicultural e de invejável Literatura canadense de língua inglesa qualidade de vida, embora sua cultura, sua história e sua literatura sofram com a maciça presença de uma pedagogia anglo-americana.

O livro de Wiliam New foi dos primeiros a quebrar o modelo nacionalista de crítica e a examinar a função das escolhas formais dos escritores, em particular sua resistência aos modelos herdados e a busca por uma linguagem mais flexível para tratar dos mitos de uma natureza selvagem indeterminada e metafórica.

Margaret Atwood conta como cresceu lendo gibis do Capitão Marvel, Batman e Pato Donald, livros como Alice no país das maravilhas, Sir Walter Scott, Edgar Allan Poe e outros ícones anglo-americanos, até o dia em que ganhou dois livros bem diferentes. Eram Kings in exile (Reis no exílio) (1910), de Charles G. D. Roberts (1860-1943), e Wild animals I have known (Animais selvagens que eu conheci) (1898), de Ernest Thompson Seton (1860-1946). Essas eram histórias que lhe diziam algo familiar: os animais atormentados, capturados em armadilhas, enjaulados, eram animais reais, dos bosques atrás da sua casa, não de um circo. Para uma Atwood adolescente, um porco-espinho agonizante era mais real que um homem de armadura.

Esses livros originais ensinavam como evitar comer a fruta errada ou provocar um alce no cio. Eram questões de vida ou morte em um mundo em que o super-homem não ia aparecer voando para salvar os indefesos. Não havia finais felizes, só fugas momentâneas, até que a próxima armadilha o capturasse (Atwood, 1972, p. 29-30). Atwood conclui que o Canadá não é um país de heróis, mas de sobreviventes, e suas narrativas sobre sobrevivência — título do seu livro, publicado em 1972 — um guia temático sobre literatura canadense, e um dos primeiros livros destinados a ensinar literatura canadense a jovens canadenses e dar a estudantes e professores a familiaridade que ela não teve com sua literatura nacional.

Quando finalmente Atwood se deparou com um livro intitulado A book of Canadian short stories (Um livro de contos canadenses) de Robert Wever e Helen James, 1952, aqueles animais estavam lá, tentando escapar, e aqueles homens que tentavam evitar um acidente fatal: um mundo de corpos congelados e um sentimento de insegurança sobre tudo que os rodeava.

Avisando a seus leitores que para definir um objeto é preciso generalizar, Atwood defende a busca de uma ideia unificadora para definir o Canadá: a noção de sobrevivência. é uma ideia multifacetada e adaptável: sobrevivência em um clima e geografia hostis, sobrevivência cultural à sombra de dois impérios de língua inglesa.

Essa ideia central, na opinião de Atwood, gera uma ansiedade quase intolerável, e a preocupação com a sobrevivência estende-se aos obstáculos a ela: primeiro os físicos, mais tardes os internos, mais difíceis de identificar.

Na mesma época, o texto dramático ganhou presença nos palcos canadenses com The ecstasy of Rita Joe (O êxtase de Rita Joe) (1967), de George Ryga (1932-1987), e Walsh (1973), de Sharon Pollock (1936), entre outros. A novela e o conto também reapareceram com força pelas mãos de Alice Munro (1931) e William Patrick Kinsellla (1935), p. ex.

Com poucas exceções, como The Double hook (O anzol duplo) (1959), de Sheila Watson (1909-1998), a literatura canadense só abandona de vez a forma tradicional no final dos anos 60, embora se perceba até nos realistas Richler e Laurence alguma  experimentação com o tempo ou a memória. Margaret Atwood em Surfacing (Emergindo) (1981) e Robert Kroetch (1927) em The studhorse man (O dono do garanhão) (1969) já representam um desenvolvimento formal com seus estudos sensíveis da alma e da mente humana, evidentes na obra de escritores mais jovens como Matt Cohen com seu melodrama The disinherited (Os deserdados) (1974), e Timothy Findley (1930-2002) na fantasia histórica Famous last words (Famosas últimas palavras) (1981).

Poetas notáveis entre os representantes do pós-boom estão Leonard Cohen (1934), George Bowering (1935) e Michael Ondaatje (1943), todos com incursões bem sucedidas também pelo romance e legítimos representantes da grande diversidade da literatura canadense.

Cohen, nascido na comunidade judaica anglofônica em Montreal, é uma figura fantástica, autor de obras marcantes como seu primeiro livro de poesia, Let us compare mythologies (Vamos comparar mitologias) (1956), e do romance Beautiful losers (Lindos perdedores) (1966), e hoje mais aclamado como compositor e cantor. Mythologies, inspirado por poetas como García Lorca, foi publicado logo após a formatura de Cohen na Universidade MacGill, reunindo poemas escritos dos quinze aos vinte anos, que se tornaram êxito imediato e ainda continuam relevantes. Beautiful losers  -  um dos mais famosos romances experimentais dos anos 60  -  examina de forma minuciosa e explícita a amizade, a sexualidade e a espiritualidade de um triângulo amoroso em que três amigos são tragados por suas obsessões sexuais e fascinação por uma santa mítica: Catherine Tekakwitha, uma virgem Mohawk do século 17.

Bowering é originário da Colúmbia Britânica, formado em história e com mestrado em Inglês. Sua poesia sofreu forte influência de outros poetas estadunidenses como William Carlos Williams, Robert Duncan e Charles Olson, membros do Universidade Black Mountain, na Carolina do Norte. O mais conhecido de um grupo de poetas da Univeridade da Colúmbia Britânica nos anos 50 manteve, com seus colegas Frank Davey, Fred Wah, Jamie Reid e David Dawson, a inovadora revista Tish. Depois de lecionar nas universidades de Calgary, Western Ontário e Concórdia, se estabeleceu na Universidade Simon Fraser, em Vancouver, na Colúmbia Britânica, onde lecionou por trinta anos. Seu primeiro livro de poesia, Sticks and Stones (Paus e pedras) (1963), foi prefaciado por Creeley.

Bowering mostrou-se autor prolífico, com mais de noventa livros publicados: escreveu romances e contos, peças de teatro, crítica literária e foi um ativo editor. Recebeu vários prêmios, entre eles o Prêmio Governador Geral de 1980 por seu romance Burning water (água fervendo), uma biografia paródica de George Vancouver. Expoente do romance pós-moderno, a obra relata minuciosamente a exploração da costa oeste do Canadá, com citações dos diários do capitão Vancouver, usadas com permissibilidade ilimitada e muito humor.

Ondaatje nasceu no Sri Lanka, viveu na Inglaterra e naturalizou-se canadense em 1962. Poeta, romancista, roteirista e professor na Universidade de York, tem uma obra com temáticas bem variadas. Running in the family (Traços de família) (1993) é uma biografia ficcional afetiva que percorre a história de seu pai, suas tias, amigos no Ceilão da sua infância, ao qual retorna em Anil´s ghost (O fantasma de anil) (2001), uma história sobre amor e identidade em meio às crueldades de um Sri Lanka destroçado pela guerra civil no final do século 20. O paciente inglês (1993, tradução brasileira de 1998) analisa o sofrimento de um desconhecido queimado na queda de um avião durante a segunda guerra, o qual relata a uma enfermeira suas lembranças íntimas enquanto agoniza. O romance recebeu o Prêmio Booker em 1992, ano de sua publicação, e tornouse filme dirigido por Anthony Manghella, em 1996. Na pele de um leão (1988, tradução brasileira de 1999) relata a vida dos imigrantes estrangeiros que trabalharam para construir Toronto nos anos 20.

The collected works of Billy the Kid (Obras reunidas de Billy the Kid) (1996) é um romance versificado sobre a mitológica figura do oeste estadunidense, e Coming through Slaughter (Cruzando Slaughter) (1996) é um passagem pelo meio oeste dos Estados Unidos nas pegadas de um músico de jazz. Romancistas como Rudy Wiebe (1934), com A discovery of strangers (A descoberta dos estranhos) (1994) tiveram um grande impacto sobre o imaginário canadense, sua cultura, história e política. Mais recentemente, as vozes da região emergiram com versões inuit e de outros povos indígenas do norte, como Kiss of the Spider Woman (Beijo da mulher aranha) (1988) de Tomson Highway (1951).

Em todas as demais regiões do Canadá surgem com bastante vigor vozes aborígines como as de Jeanette Armstrong (Okanagan), Beth Brant (Mohak), Basil Johnston (Ojibway), Lee Maracle (SalishMétis), Janice Acoose (1954), Thomas King (Cherokee), Daniel David Moses (Delaware).

Com essa evolução, Montreal e Toronto deixam de ser os únicos centros políticos, econômicos e culturais, abrindo espaço para o oeste da Colúmbia Britânica e às províncias marítimas do Atlântico, produtoras de uma arte descentralista. Muito mudou no Canadá desde a formulação de Atwood, especialmente com a chegada de massas de imigrantes de todas as partes do mundo, ainda em números de 200 ou 300 mil ao ano, trazendo suas culturas, seus mitos, sua história, que eles precisam naturalizar de formas mais ou menos intensas e inovadoras para sobreviverem no país adotivo. Esses imigrantes produzem uma literatura dinâmica, variada, de qualidade, todas competindo pelo mesmo espaço no mercado editorial e nos programas de estudos da literatura canadense.

De ponta nessa competição aparecem a poesia sino-canadense, os escritores ítalo-canadenses, os afro-canadenses da Nova Escócia, as vozes indo-caribenhas, escritores de comunidades indianas, árabes, polonesas, latino-americanas, e uma infinidade de outros sujeitos diaspóricos que fazem do Canadá seu novo mundo.

Linda Hutcheon (1947) reforça essa ideia no prefácio de um livro intitulado Splitting images (Imagens fendidas) (1991). Ela defende que os canadenses não devem [...] ao invés de choramingar sobre o destino em nome de uma espécie de complexo de inferioridade coletiva, que tal tornar uma virtude nosso emcimadomurismo, nossa fuga de apostas sobre a difícil duplicidade de ser canadense e norte-americano, canadense, mas parte de economia globalizada e multinacional? Esta virtude pode muito bem ser a ironia (p. vi).

Essa virtude pode muito bem ser a ironia, ela propõe. Para Hutcheon, a ironia é o resultado de mais de um século de negociações sobre as muitas dualidades e multiplicidades que vieram a definir o Canadá. Uma conjunção de ironia e política dá conta de um tipo de arte e literatura que estica as margens das expectativas sociais e culturais.

A medida de todas essas reflexões sobre a literatura canadense reside exatamente no fato irônico do reconhecimento de que ela constitui uma das mais produtivas, variadas e originais literaturas do pós-boom e ao mesmo tempo está longe de merecer o reconhecimento mundial  que merece, a não ser por alguns grandes nomes. Mesmo dentro do Canadá competem por espaço nos programas de inglês com as literaturas inglesa e estadunidense. No Brasil, a Associação Brasileira de Estudos Canadenses, com o apoio da Embaixada do Canadá no Brasil e de vários núcleos de estudos canadenses espalhados por universidades de norte a sul do país, encontra lugar limitado em programas ainda predominantemente anglo-americanos. é bem provável que muitos dos leitores nunca tenham lido ou sequer ouvido falar na maioria dos grandes autores canadenses, além de Atwood, a mais traduzida dos autores canadenses globalmente e frequentadora dos jornais e revistas brasileiros por sua presença na FLIP de Paraty, ou de Michael Ondaatje, identificado como o autor do romance que deu origem ao belo filme O paciente inglês. Além dos escritores citados neste texto, Susan Swan, Carol Shields, Joy Kogawa, Dionne Brand, Paul Yee, Evelyn Lau, Rienzi Crusz, Fúlvio Caccia, Rohinton Mistry, Austin Clarke, Bharati Mukherjee estão entre inúmeros escritores canadenses de uma ampla gama de raças e etnias com as mais diversas visões do país e memórias de seus países e culturas de origem.

Em um país coberto de livros ingleses e filmes estadunidenses por um lado e totalmente globalizado por outro, a literatura representa um desafio para todos os escritores canadenses, nativos, imigrantes de várias gerações ou recentes em termos de busca de identidade, de preservação de memória, de penetração no mercado editorial. Como comenta Atwood,

O adjetivo canadense pode lembrar apenas a foto de uma nébula espiral: um denso aglomerado de pontos brilhantes no meio, onde se pode dizer que o objeto como um todo está mais ou menos localizado, e depois há outros pontos, mais para fora, que revolvem excentricamente no mesmo campo gravitacional. Algumas histórias [...] só poderiam ser canadenses, e você sabe disso assim que as lê. Com outras, você precisa piscar ou espiar a biografia do autor. Alguns [autores] nasceram canadenses, alguns atingiram canadianidade, outros tiveram a canadianidade jogada sobre eles. Então vamos dizer que a maioria dessa gente tem (ou teve ou terá) seus passaportes em ordem, e vamos deixar por aí (1995, p. XIV).


Referências
ATWOOD, Margaret. Survival. A thematic guide to Canadian literature. Toronto: Anansi, 1972.
_. Introduction to The Oxford book of Canadian short stories. Org.Margaret Atwood, Robert Weaver. Toronto, Oxford, New York:Oxford University Press, 1995, p. xii-xv.
BOWERING, George. Burning Water. Toronto: New P, 1983.
FRYE, Northrop. Sharing the continent. In _. A passion for identity. Eds. Eli Mandel e David Taras. Scarborough, On: Nelson, 1988,p. 206-216.
_. Conclusion to a Literary History of Canada. In _. The bush garden. Essays on the Canadian imagination. Concord, Ontario: Anansi, 1995.
HUTCHEON, Linda. Splitting images: contemporary Canadian ironies. New York, Toronto, Oxford: Oxford University Press, 1991.
MORTON. W. L. The relevance of Canadian history. In A passion for identity. Eds. Eli Mandel e David Taras. Scarborough, on:Nelson, 1988, p. 37-50.

The Canadian Encyclopedia online. Disponível em <www.thecanadianencyclopedia. com>. Acesso em set. 2009.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to