Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Chuva de Versos n. 465


Uma Trova de Curitiba/PR
Janske Schlenker

Luzes! Músicas! E à mesa
como nunca alguém sonhou.
Mas havia uma tristeza
que eu não sei por onde entrou...

Um Poema de Ribeirão Preto/SP
Rita Mourão

DISFARCES

Reinvento-me para fugir de uma angústia flácida,
velha angústia que se fez platônica
e deixou n’alma uma ferida crônica,
um não sei quê de uma dor semântica.

Invento auroras se a noite é sólida,
se a solidão acena e o silêncio é frêmito.
Invento trilhas pra minha alma em trânsito
se a chuva  cai e me  impede o tráfego.

Engulo seco e contenho as lágrimas,
reinvento  passos se o andar é trôpego,
pinto  as faces e disfarço o pálido
engano, o tempo que me bebe sôfrego.

Faço da vida o meu tema clássico
sou a invenção de um poeta cômico.
Faço das letras um poema bêbado
que impulsiona o meu corpo em êxodo.

Sou a vítima, sou disfarce, sou inquérito.
Sou a vida questionada nas linhas do pretérito.

Uma Trova Hispânica do México
Freddy Ramos Carmona

Ve la vida con paciencia
deja a tu paso clara huella
ama siempre la prudencia
que te alumbre cual estrella.

Um Poema de Paranavaí/PR
Dinair Leite

AO LONGE, AO LUAR, NO RIO UMA VELA

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Ialmar Pio Schneider

Alta noite, escrevo versos,
sentindo a falta de alguém;
quem me dera que dispersos,
ela os ouvisse também!

Um Pantum de São José dos Campos/SP
MIFORI

ALMA FERIDA

O que vem da profundeza
de uma alma tão ferida
é um grito de tristeza
pela dor da despedida.

De uma alma tão ferida
brota a sombra da saudade,
pela dor da despedida
e por atos de maldade.

Brota a sombra da saudade
nos momentos de incerteza
e por atos de maldade
O que vem da profundeza.

Um Poema de Itajaí/SC
Vivaldo Terres

AO ENCONTRAR-TE

Ao encontrar-te na rua.
Maltrapilha, quase nua,
Implorando pedaço de pão,
Quem te conheceu não sabe,
Que foste qual majestade
Morando numa mansão.

Tratavas teus serviçais
Como se fossem animais,
Sem amor ou compostura.
Hoje estás abandonada,
Passas as noites na calçada,
Como mendiga de rua.

Quantas noites recebeste
Esmola e compreensão
Dos mesmos que maltratavas
E arrogante, gritavas:
Vão trabalhar malandrões!

Os mesmos, indignados,
Mas pobres e necessitados.
Fingiam não te escutar
Pois eram gente honesta
Precisavam do trabalho
Pra seus filhos sustentar.

E tu, com arrogância,
Não pensavas que ferias
a alma e o coração
Daqueles que trabalhavam,
Cujo suor derramavam
Para ganharem seu pão..

Hoje vives abandonada,..
Cansada, desmemoriada,
Talvez sintas dor profunda.
Tua casa é a marquise,
Tua cama é a calçada,
Pois és mendiga de rua.

Trovadores que deixaram Saudades
Geralda Armond
Juiz de Fora/MG (1913 – 1980)

A saudade é simplesmente
um claro espelho encantado;
mira-se nele o Presente,
e ele reflete o passado.

Um Poetrix de Curitiba/PR
Álvaro Posselt

tope, molde-o

dieta pra ficar magrela:
três vezes ao dia
gasosa com mortadela

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Olegário Mariano
Recife/PE (1889 – 1958) Rio de Janeiro/RJ

O MEU RETRATO

Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.

Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.

Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.

E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.

Uma Sextilha de Caicó/RN
Prof. Garcia

Quando eu ponho a caneta em minha mão
mudo o rumo de minha trajetória,
ou escrevo um poema ou faço um mote
que penduro nas garras da memória;
para que quem vier depois de mim,
faça o mesmo que eu fiz por nossa história.

Um Poema de Goiás
Cora Coralina
Cidade de Goiás/GO (1889 – 1985) Goiânia/GO

HUMILDADE

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter tido
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”

Recordando Velhas Canções
Viagem
(1973)

João de Aquino e Paulo César Pinheiro

Oh tristeza, me desculpe
Tou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, . . .
vamos viajar
Vamos indo de carona
Na garupa leve
Do tempo macio
Que vem caminhando
Desde muito longe
Lá do fim do mar

Vamos visitar a estrela
Da manhã raiada
Que pensei perdida
Pela madrugada
Mas vai escondida, . . .
querendo brincar
Senta nessa nuvem clara
Minha poesia
Anda se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha, quantas aves brancas
Minha poesia
Dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh poesia me ajude
Vou colher avencas
Lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu

Mas, pode ficar tranquila
Minha poesia
Pois nós voltaremos
Numa estrela guia
Num clarão de lua . . .
quando serenar
Ou talvez até, quem sabe
Nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é Raio, Raio de Luar

Uma Trova de São Mateus do Sul/PR
Gérson César Souza

Bondade, segundo eu penso,
é a peça que está perdida
do quebra-cabeça imenso
que nós chamamos de vida.

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
(1861 – 1898) +Sítio/MG

ALMA FATIGADA

Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
mas repousar um pouco e repousar um tanto,
os olhos enxugar das convulsões do pranto,
enxugar e sentir a ideal serenidade.

A graça do consolo e da tranqüilidade
de um céu de carinhoso e perfumado encanto,
mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
sem o tédio senil da vã perpetuidade.

Um sonho lirial d’estrelas desoladas,
onde as almas febris, exaustas, fatigadas,
possam se recordar e repousar tranquilas!
Um descanso de Amor, de celestes miragens,
onde eu goze outra luz de místicas paisagens
e nunca mais pressinta o remexer de argilas!

Um Haicai de São Paulo/SP
Alba Christina Campos Netto

No jardim da praça
a paineira vai deixando
um tapete branco

Uma Setilha de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Dizem: fazer poesia
é coisa do coração.
Pode até ser, eu diria,
porém vou dizer que não;
pois pro cabra ser Poeta
de fato, um exímio esteta,
precisa é de inspiração!

Uma Trova de Brusque/SC
Maria Luiza Walendowsky

Eu me perco na paisagem
de um país lindo e risonho,
e busco em cada viagem
a velha Europa do sonho!

Um Soneto de São Simão/SP
Thalma Tavares

SONETO A JOSÉ FELDMAN

Nota-se por ai, por toda parte,
a violência grassando e a inversão
dos valores morais, da fé e da arte,
e o crescer infrene da corrupção.

Mas, além do mal que este mal reparte,
há quem ame e se dê com tal paixão
às letras e à poesia e não se farte
de mandar versos para todo irmão.

É o que faz José Feldman, o mecenas
dos poemas, da trova e da cultura,
que sabe que educar não é apenas
encher as classes, repetir lições,
mas insuflar amor, sonho e ternura
no coração das novas gerações.

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Eduardo A. O. Toledo

Os meus sonhos vão ao léu,
pelas asas da ilusão,
plantando flores no céu,
colhendo estrelas no chão !

Hinos de Cidades Brasileiras
Cafelândia/ PR

Majestosa na planície verdejante
Que desvenda o horizonte branco e azul
Tu surgiste qual estrela cintilante
Com os Pioneiros chegados do sul.

Caminhando pela trilha do sucesso
Confiantes num futuro de esplendor
Construímos dia a dia o teu progresso
Irmanados na paz e no amor.

Nossa Senhora Consolata Padroeira
Nos ampare e nos dê proteção
Abençoando esta terra alvissareira
E o que germinar neste chão.

Os teus rios dadivosos à irrigar
A lavoura que floresce altaneira
Cafelândia hei de sempre exaltar
No Oeste, és a primeira.

Tuas portas estarão sempre abertas
Acolhendo com carinho e afeição
Todo aquele que procura rotas certas
Aqui encontra abrigo e união.

Cafelândia cidade querida
És a joia mais linda que há
Tudo aqui é amor luz e vida
Filha Altiva do Paraná.

Uma Aldravia do Rio de Janeiro/RJ
Luiz Poeta

vampiro
bêbado
: a
vítima
era
alcoólatra.

Um Poema de Lisboa/Portugal
Fernando Pessoa
(1888 – 1935)

AO LONGE, AO LUAR, NO RIO UMA VELA

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.

Uma Trova de São Paulo/SP
Domitilla Borges Beltrame

A Trova, bem trabalhada
e que é feita com ternura,
É como joia engastada
em nossa literatura!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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