Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Clarice Lispector (O caso da caneta de ouro)

Chamo este de o caso da caneta de ouro. Na verdade é sem mistérios. Mas meu ideal seria escrever alguma coisa que pelo menos no título lembrasse Agata Christie.

Acharam por bem dar-me de presente uma caneta de ouro. Sempre escrevi com lápis-tinta ou, é claro, à máquina. Mas se me veio uma caneta de ouro, por que não? Ela é bonita e de boa marca. Tive logo um problema ao qual também não dei importância. O probleminha era: com caneta de ouro devem-se escrever coisas de ouro? Teria que escrever frases especiais porque o instrumento era mais precioso? E terminaria eu mudando de jeito de escrever? E se o jeito mudasse, na certa ele iria, por seu turno, me influenciar – e eu também mudaria. Mas em que sentido? Para melhor? Outra questão: com caneta de ouro eu cairia no problema do Rei Midas, e tudo o que ela escrevesse teria a rigidez faiscante e implacável do ouro? A esses probleminhas, como eu disse, não dei importância maior: estou habituada a não considerar perigoso pensar. Penso e não me impressiono.

O que veio depois, sim, foi problema maior. O caso é que tenho uma só caneta de ouro e dois filhos. Mas estou-me precipitando, devo começar pelo início.

Meu filho menor, ao ver a caneta de ouro, sofreu uma transformação fisionômica realmente notável. Não disse uma palavra, depois de examiná-la. Seu rosto porém era a verdadeira máscara da mais bela cobiça. A cobiça por uma coisa bonita. Os olhos brilhavam em silêncio. Entendi. Ele queria a caneta de ouro. Era tão simples.

Então ajudei: “Já sei o que você esta pensando, está pensando que essa caneta vai terminar nas suas mãos.” 

Silêncio dele. Luta entre o desejo e a culpa. Venceu a culpa, ele sugeriu sem nenhum entusiasmo: “Você poderia mandar gravar seu nome nela e usar.” 

Eu disse: “Mas se eu fizer isso, você depois vai ter que usar uma caneta gravada com outro nome.” 

Silêncio, reflexão profunda. Depois, com desânimo: “É, mas se eu usar agora ou me roubam ou eu perco.” Era mesmo. Então nós dois passamos a refletir juntos. Minha reflexão foi produtiva: tive uma ideia.

“Olhe, a caneta será sua quando você terminar o ginásio, porque já estará mais crescido, não roubam você e você será mais cuidadoso.” 

“Ah é.” Mas ainda se sentia culpado, como se a caneta, me pertencendo, ele a estivesse tirando de mim. Mal sabendo como eu gosto que eles tirem coisas de mim.

Um dia depois já não havia sinal de culpa.

Eu não achara um lápis-tinta para anotar um recado, e havia recorrido à caneta de ouro.

Foi quando ele entrou e surpreendeu-me em flagrante. “Ah, essa não!”, reclamou indignado. 

“Por quê?”, perguntei, “não posso usar de vez em quando a tua futura caneta!” 

“Mas você vai terminar estragando, veja, ela já está até um pouco arranhada!” 

Tinha razão: a caneta ia ser dele e eu devia ter mais cuidado. Mostrei-lhe então onde ia guardá-la, e prometi que não a usaria.

Mas – tenho dois filhos. E por que o outro não havia pedido? Fiquei triste. Achava mais certo que houvesse uma disputa franca entre os dois a propósito da caneta de ouro, e não que um deles nem sequer pedisse.

Esperei um momento em que estivéssemos a sós, os dois. Contei-lhe então a história e terminei dizendo: 

“Se você tivesse pedido antes, eu teria dado a caneta a você.” 

“Eu nem sabia que você tinha uma caneta de ouro.” 

“Pois devia saber, você anda distraído, e não ouve as conversas de casa.” 

Silêncio. Perguntei esperançosa: “Mas se você soubesse que eu tinha ganho a caneta, pediria para você?” 

“Não.” 

“Por quê?” 

“Porque é muito cara.” 

“E você então não merece uma coisa cara?” 

“Você já teve outras coisas caras e eu não pedi.” 

“Por quê?” 

“Senão você fica sem nenhuma.” 

“Eu não me incomodo.” 

Ficamos em silêncio, num impasse total.

Afinal ele quis resolver de uma vez o assunto e disse: “Para mim não faz diferença. Contanto que a caneta escreva, qualquer uma serve.” A resposta era válida, inclusive para mim. Mas não gostei. Alguma coisa nessa conversa não estava bem. Preferia que fosse. . Não sei. Sei lá. É. Mas não gostei, que é que posso fazer, não gostei e é isso mesmo.

De repente, descobri. Pouco estava importando a caneta de ouro. O que importava é que um filho pedia e o outro não pedia. Retomei a conversa: “Vem cá, por que é que você não me pede coisas?” 

A resposta foi pronta e contundente: “Eu já pedi muitas e você não me deu nada.” A acusação era tão dura que fiquei estarrecida. Inclusive não era verdade. Mas, exatamente por não ser verdade, é que se tornava mais grave. Ele tinha uma queixa tão profunda que a transformara nessa inverdade.

“O que é que você pediu e eu não dei?” 

“Quando eu era pequeno eu pedi uma câmara, quer dizer, um desses tipos de pneus que servem de boia para eu ir à praia.” 

“E eu não dei?”

“Não.” 

“Você qier que eu dê agora?” 

“Não, agora não preciso mais.” 

“Que pena que eu não tenha dado.” 

Ele teve piedade de mim: “Mas você não se lembra. Não deu porque disse que era perigoso, que fica boiando nas ondas e as ondas levavam para longe no mar, e eu era muito pequeno, não sabia nadar.” 

“Você sabe então que eu não queria arriscar a te perder no mar.”

“Sei.” Mas ficara a mágoa.

A caneta de ouro nos levara longe. Achei melhor parar. E por aí ficamos. Nem sempre esmiuçar demais dá certo.

Fonte:
Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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