Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 18 de abril de 2017

Chuva de Versos n. 473


Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Surreal poema, escrito,
no papel, muito eloquente,
num monólogo, erudito,
me abraçou... Literalmente!

Um Poema de Maceió/AL
Guimarães Passos
(1867 - 1909, Paris/França)

SONETO

À terra torna o que da terra veio;
A água que sai do vasto mar, um dia
Mais pura do que quando ao céu subia
Torna de novo ao primitivo seio.

Assim, todo o momento de alegria
Que feliz de ilusões eu via cheio;
As horas de ventura e de receio,
Tudo eu te entrego, como te pedia.

De ti, nem quero a pálida lembrança,
Viverei sem uma única esperança,
Sem o mínimo amor de uma mulher.

Mas no teu peito, que viveu mentindo,
Põe uma cruz – ao mundo prevenindo.
Que és o sepulcro do teu próprio ser.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Libia Beatriz Carciofetti

Envuelta estoy en tus letras
trovador mío y querido
con tus coplas me penetras
el corazón abatido.

Um Poema de Maceió/AL
Lygia Menezes
(1913 - ????)

NÃO TE LEMBRES...

Ao surgir, amanhã, o sol nascente,
Não te lembres, nunca mais, que eu te quis...
E, embora eu fique em pranto tristemente,
Segue pensando que fiquei feliz...

Não recordes que vou viver sozinha...
E sozinho, também,  tu partirás...
A culpa não foi tua e nem foi minha...
Nunca mais te verei! Nem me verás!

E, embora eu fique em pranto, tristemente,
Não entendas que foi porque te quis...
Ao surgir, amanhã, o sol nascente,
Segue pensando que fiquei feliz...

Uma Trova de Taubaté/SP
Claudio de Morais

Quero cair em seus braços,
fazer o que me condiz.
Apertos... muitos abraços...
quero te fazer feliz.

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

Glosando Wilma Mello Cavalheiro
VENDAVAIS

MOTE:

Suporto os ventos medonhos,
não me curvo aos vendavais,
pois as vigas dos meus sonhos
suportam os temporais.

GLOSA:
Suporto os ventos medonhos,
sou forte como ninguém
e meus momentos tristonhos
os torno alegres, também!

Sendo assim, dona de mim,
não me curvo aos vendavais,
pois de tudo que é ruim
eu não suporto jamais!

Os meus dias são risonhos
com incontáveis matizes,
pois as vigas dos meus sonhos
possuem fortes raízes!

Meus sonhos são adubados
de esperanças imortais
e estando, assim, preparados
suportam os temporais.

Um Poema de São Luiz do Quitunde/AL
João Barafunda
(João Francisco Coelho Cavalcanti)
(1874 – Rio de Janeiro, 1938)

ROSA

Como um botão de rosa despontando
era assim Rosa — meu primeiro amor;
passava às rosas seu perfume dando
e dando às rosas sua rósea cor.

Quando Rosa morreu, todos, chorando,
rosas puseram no caixão (que dor!)
E as rosas foram pálidas ficando,
ficando triste como a extinta flor.

E foi-se a rosa de meu coração...
Porque fugiste, amor puro e perfeito?
Porque morreste, flor inda em botão?

Tu, que foste rainha das formosas
flores, hás de viver sempre em meu peito.
Tens em meu peito um túmulo de rosas.

Trovadores que deixaram Saudades
João Freire Filho

São quase uma eternidade
minhas noites de abandono,
porque em meu quarto a saudade
se deita, mas não tem sono!...

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
Lilian Maial

semeando

Para plantar,
Na terra a pá cava,
No livro a pa lavra.

Um Poema de Maceió/AL
Manoel Aristheo Goulart de Andrade
(1878 - 1905)

O SINO

Meu coração é como um velho sino
De uma Ermida de aldeia no abandono,
Dobra num som amargurado e fino,
Numa tristeza vesperal, de Outono.

Outr’ora era risonho e cristalino
De sua vez o harmonioso intono,
E hoje canta ao delíquio vespertino
A sinfonia do Supremo Sono!

Muitas vezes das auras do Passado
Uma lufada rígida passando
Fá-lo vibrar de um modo apaixonado

Em largas notas pueris e quando
Se ecoa o turbilhão, pelo ar magoado
Ficam por tempos trêmulos vibrando!...

Uma Trova Humorística de Prata/MG
Francisco Assis Menezes

E o guri, com a mãe de lado,
pergunta, inocente, ao pai:
- Quem é o cara mascarado
que vem, quando o senhor sai?

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
Marcelo Marinho

troca

Daria os anos que me faltam
Por minutos em teus braços.
Não, daí eu hei de querer ser eterno...

Um Poema de Maceió/AL
Rosália Sandoval
(Rita de Abreu)
(1876 - 1956, Rio de Janeiro/RJ)

MINHA ESTRELA

Feliz quem tem o céu, por desfastio
uma estrelinha amiga confidente,
com quem conversa à noite, mentalmente,
alguma coisa de um matiz sombrio.

É como a fonte em dúlcido arrepio,
quando favônio sopra mansamente,
essa estrela sentinela docemente
e como que responde com amavio...

alguma coisa que nos enternece,
— uns laivos de lembrança ou de amizade —
alguma coisa terna como a prece...

Onde estás, minha estrela, oh! Flor do Estio? ...
Ah! Não ouve o gemer dessa saudade!!...
Debalde busco-a pelo céu vazio!

Recordando Velhas Canções
Gita 
(1974) 

Raul Seixas e Paulo Coelho 

  "Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando,
foi justamente num sonho que ele me falou"

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Gita gita gita gita gita

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim 

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo

Gita gita gita gita gita

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio (2x)
Eu sou o início, o fim e o meio (2x)

Uma Trova de Santos/SP
Antonio Colavite Filho

De uma  folha  de  jornal,
entre palavras  e  traços,
nasce  em  mundo  virtual
o  mais  terno  dos  abraços!

Um Poema de Pão de Açucar/AL
Bem Gum
(José Mendes Guimarães )
(1899 -1968)

CIDADE

Cidade, colmeia humana, onde o luxo e o prazer
Têm lugar de desdém para a miséria e a fome.
Aonde, ao relento, dorme o pária sem pão, sem nome,
E o nababo indolente tem sereno adormecer.

Cidade, centro onde a honra caminha prá fenecer,
Dominada pelo vício, que aos poucos lhe carcome,
Cidade, onde o proletário, na fábrica, se consome,
Para mais o argentário subir e enriquecer.

Cidade, ruas festivas, igrejas e lupanares,
Pináculos de arranha-céus, dispersos, cruzando os ares,
E casebres, moradias do pequeno, do ninguém.

Cidade, luz, vaidade, encantamento, alegria,
Amor, desprezo, miséria, ingratidão, nostalgia,
Cidade, berço do riso e da lágrima também.

Um Poetrix de São Paulo/SP
Marcelo Marques

abstração

Nada sei de concreto,
mas o abstrato
não me deixa calar.

Uma Trova de Bauru/SP
Ercy Maria M. Marques

Dos registros do passado
eu apago a insensatez,
buscando, desesperado,
o teu abraço outra vez...

Um Poema de Lagoa da Canoa/AL
Judas Isgorogota
(Agnelo Rodrigues de Melo)
(1901 - 1979, São Paulo/SP)

RECOMENDAÇÕES

E se acaso você for à minha choupana
E minha mãe disser: — Como vai o meu filho?
Será que ele vai bem ou será que me engana?
Você não vá falar que eu ando assim maltrapilho,
Mas lhe diga a sorrir: — Fique a senhora em paz,
Ele vence brincando o maior empecilho.

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Se minha irmã disser: — Como vai o meu mano?
Ele é muito falado? Ele é muito querido?
E será que ainda vem para casa este ano?
Você não vá tocar no que tenho sofrido,
Mas lhe diga a sorrir: — O seu mano é um rapaz
Que tem prêmios de amor e glória recebido.

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Entretanto, se você chegar até a casa
De onde um dia saí cambaleante e mudo
— Ave que cai do azul com uma ferida na asa —
E uma voz lhe disser, branda como um veludo:
— Como vai o meu noivo? (ouça bem, meu rapaz...)
Diga-lhe apenas isto, ela compreende tudo:

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Uma Trova de Salvador/BA
Raymundo de Salles Brasil

Se Castro Alves dizia:
"livros, livros à mancheia"
é que bem os conhecia.
Abrace essa ideia, leia.

Hinos de Cidades Brasileiras
Xique-Xique/BA

De uma ilha a mirar o teu ouro
Que das serras douravam horizontes
Tua História, qual outro tesouro,
Resplandece entre vales e montes,
A bravura do índio aguerrido,
E do branco a audácia sem par,
Com a ternura do negro sofrido
São as bases do teu triunfar.

Pelos campos, garimpos e rios,
Nos distritos e nos povoados,
Os teus filhos cultivam teus brios
Por seus feitos, no amor, sublimados.
Glória a ti entre cactos e flores
Sempre amando e servindo ao Brasil!
Glória a ti que a Deus canta louvores!
Glória a ti Xique-Xique gentil!

Em poética expressão só de amor
A beijar o teu Rio São Francisco,
Por ti o sol, ao nascer ao se pôr,
Agradece-lhe o peixe, o marisco...
No Evangelho de Cristo inspirado,
Só bondade teu povo pratique
Prá que tenhas viver pontilhado
De mil glórias, feliz Xique-Xique!

Um Poetrix de Andradina/SP
Marcos Bastos

flores do campo

De manhã fui vê-las.
Choveu a noite toda.
Chuva de estrelas.

Um Poema de Pão de Açucar/AL
Bráulio Cavalcante
(1887 - 1912)

TUFÃO

Sangrento, lasso, moribundo, rola
Nas escarpas do poente, o sol... Infinda
Mágoa amortece a cândida corola,
Que fora muito aprimorada e linda.

Tange um campônio umas canções à viola.
Canta, da noite, a pesarosa vinda...
E o sol, não mais com seu ardor, desola
E bruxuleia e tomba e desce e finda!...

E, de repente, o céu se obumbra... Então
As nuvens atrás, a ranger descerra
Com hercúleos braços, rígido tufão.

E, após, em roucas contorções noturnas,
Quer rebentar de meio a meio a terra,
Estortegando-se ao grilhão das furnas!

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva

A minha saudade enlaço
nas rimas que foram ditas,
e hoje sinto o teu abraço,
vindo das folhas escritas...

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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