Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Leandro Bertoldo Silva (Mentiroso Profissional… Quem?)


Uma vez fui arrebatado por um pensamento de João Ubaldo Ribeiro: “todo escritor é um mentiroso profissional”! Logo me lembrei de alguns, cuja vida – ou fim dela – já parecia uma embustice. Guimarães Rosa, por exemplo, ao ser aceito na Academia Brasileira de Letras, levou 4 anos para tomar posse com medo de morrer, pois foi advertido por um pai de santo que seu exício se daria logo após um grande acontecimento. Morreu sozinho em seu apartamento, no Rio de Janeiro, de um infarto fulminante dois dias depois a tão adiada posse... O que dizer de Monteiro Lobato? Uma boneca de pano falante e um sabugo de milho sabido, vá lá! Mas um porco marquês?! Bem, levando-se em conta que sempre inventamos histórias e até quando as recontamos fazemos jus àquela velha máxima de “quem conta um conto aumenta um ponto”, quem sabe até dois ou três, é bem possível que isso seja verdade. Mas nada se compara ao que um dia me aconteceu...

Estava eu em meu computador enveredando-me por entre palavras e acentuações, pondo pontos semânticos em ilusões gramaticais à espera de uma história que teimava em não vir, quando ouço um chamado no portão. Justo agora em que uma vírgula brigava com os dois pontos e a enfastiada história esperava inerte a sua vez quase desistindo de vir á luz? Mesmo assim, dei cabo à discussão e não muito com vontade fui ver quem era.

— Bom dia! — disse-me uma voz vinda de um homem não muito alto, não muito baixo, de bigodes e barba bem aparadas aparentando seus 45 anos de idade de uma vida que, se bem vivida, não daria para afirmar.

— Bom dia. O que deseja?

— O senhor é escritor, não é?

A pergunta veio direta, firme, sem rodeios. Reparei que o homem trazia um livro nas mãos: “As Areias do Imperador”, de Mia Couto. Antes mesmo que eu pudesse responder, ele se adiantou:

— Na verdade, seu Mia, fiz essa pergunta apenas para dar início ao motivo pelo qual vim a sua casa. Sei muito bem quem é o senhor. Acabei de ler este seu livro e o achei magnífico.

Tive um sobressalto. Por alguns segundos que mais me pareceram horas, não sabia o que dizer nem o que fazer; se olhava para o senhor, se olhava para o livro. Certamente fiz as duas coisas seguida de uma puxada de ar preparando-me para desfazer a ilusão maluca daquele pobre homem que, só não era lunático, pelo fato desse acontecimento de sermos confundidos ser algo até natural entre os escritores, acredite se quiser.

A bem da verdade isso já havia acontecido comigo outras vezes, o que jogou outra ideia semântica na minha puxada de ar de há pouco, dando a ela um tantozinho de raiva somente abrandada por ter sido confundido não com um escritorzinho qualquer... O peixe dessa vez era bem grande! Confesso que fiquei até lisonjeado pela patuscada criada pelo homem, tanto porque tenho muita fé no meu taco, mas daí a ser o Mia morando no Brasil... E, assim, era preciso jogar o peixe de volta ao mar. Mas antes mesmo de abrir o anzol, o homem já havia recolhido a vara – era rápido o danado – e, enumerando comentários e passagens do livro, já foi entrando portão adentro, acomodando-se na cadeira da varanda e convidando-me a fazer o mesmo. Não pude deixar de lembrar-me mais uma vez do João Ubaldo ao dizer que “não há de haver profissão mais louca do que a de escritor".

Aquele homem já estava me parecendo um personagem. E eu ali estranho em minha própria casa. Como isso era possível, como é que eu era dono da casa um minuto antes e visita um minuto depois? O fato é que ali estava eu sendo convidado a me sentar por um homem que, cordialmente, me pedia para ficar a vontade. Por um milésimo de segundo achei-o cretino, irresistivelmente cretino e resolvi naquele instante devolver a cretinice assumindo quem ele me delegava. Aquilo já me parecia um enredo de uma história, dessas tiradas não se sabe de onde nem por que, mas com um personagem que começava a ditar a ordem dos acontecimentos. Como é assim mesmo que me acontece ao escrever, indo sempre os cavalos a frente do imperador, resolvi dar sequência à situação:

— Muito bem... Quer dizer que gosta mesmo do que escrevo? – perguntei fazendo a maior cara de escritor.

— Oh, muito! Já li todos os seus livros. O acompanho há bastante tempo.

— Não diga...

Aquele homem não era cretino, era louco e aquilo uma maluquice de pedra. Tinha mesmo uma pedra em meu caminho ou no meu caminho tinha uma pedra? Sei lá, mas sei que entre eu e o homem tinha um livro que era tido como meu sem nunca ter sido. Não sabia bem por que não acabava logo com aquilo, não jogava ao vento toda aquela história e dizia logo ao homem: “meu filho, eu não sou quem você pensa!” Misericórdia! Isso soava terrivelmente clichê, bem aos moldes de novela mexicana e isso eu não podia admitir. Começava ali um verdadeiro pesadelo, pois desistira completamente da brincadeira cretina e tudo o que eu mais desejava era me ver livre do homem. Porém, o fato de vê-lo magoado em sua fantasia reprimia-me, sem dizer que o pobre coitado ficaria extremamente sem graça. O que fazer? Eis que veio uma luz! A foto! Na orelha dos livros do Mia sempre tem a sua foto. Era só o homem comparar e estava tudo resolvido. Mas um outro pensamento me ocorreu... Era bem provável que acontecesse uma inversão de constrangimentos, pois seria ele a ficar sem jeito de ter que reconstruir aquela bagatela achando que seria eu o magoado. Mas vá lá! É assim ou de jeito nenhum...

— O senhor vai me desculpar, mas...

Já disse que o homem era rápido? Pois parecia a fome com a vontade de comer. No que eu estava pronunciando o “mas”, o sujeito sacou do bolso uma caneta, abriu o livro e quis me ditar enternecido uma dedicatória – sim, isso acontece – algumas pessoas ditam o que querem que escrevamos para elas, como se fôssemos grandes amigos. E agora? Frente à alegria do homem que me tinha como alguém que ele acreditava que eu fosse, poderia escrever a tal dedicatória e educadamente dizer que estava ocupado, que ele me desculpasse... Ele entenderia, sairia feliz e eu me livraria daquela fantasia paranoica de uma vez por todas.

— Certo! – disse decidido para o homem – vamos lá...

— Escreva aí! – sentenciou ele – “para o meu grande amigo Bartolomeu, companheiro de muitas batalhas, lembrando dos tempos em Moçambique...”

Ah, não! Já era demais! Eu nunca havia ido a Moçambique, aquilo não estava certo e definitivamente já tinha passado dos limites. Diplomacia à parte, mas, embora um “mentiroso profissional”, uma coisa era inventar gente que não existia, outra era me passar por alguém que não fosse. Enchi-me de coragem e disse finalmente:

— Olha, você vai me desculpar, mas eu vou ter que ser franco com você. Eu não sou o Mia Couto.

O homem ficou meio assim... Arqueou a sobrancelha, e após um breve silêncio, num gesto de desembaraço olhando para mim, arrematou:

— Ora, não faz mal! Eu também não sou o Bartolomeu…

Fonte:
Texto enviado pelo autor, editor do blog literário Árvore das Letras

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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