Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Isabel Furini (O Terminal Guadalupe e as Sombras)


nota do blog: Terminal Guadalupe é um Terminal Metropolitano de ônibus que há em Curitiba, inaugurado em 1958 pelo prefeito Ney Braga. 
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18 horas - Cai o sol de inverno, pálido, sem forças.

19 horas - Escurece mesmo.

Os operários da construção civil, trabalhadores domésticos, pessoal da limpeza, vendedores alguns camelôs, professores, poetas e sonhadores, saem de seus trabalhos e correm até o terminal.

Mariazinha, está na fila do Vila Zumbi quando escuta seu nome: "Mariazinha" - alguém acena para ela. 

- Que bom! - murmura a Mariazinha - O gerente vai me dar carona de novo.

- Não faça isso senhora, é pecado! - diz uma mulher com saia e cabelos longos (muito longa a saia, muito longo o cabelo).

Uma mulher de olhos azuis observa de cima para baixo a mulher de saia comprida e solta uma gargalhada: - Cale a boca, sua vadia! E cuide de sua vida! - fala com autoridade.

Minutos depois chega Aparecida, Cida para os amigos: - Estou pensando em fotografar esses dois e ganhar uma grana extra.

- Boa ideia! - fala a mulher dos olhos azuis.

Um casal de idosos olha para elas e comenta algo sobre falta de ética. 

- O mundo mudou, meu velho. - fala a idosa.

Duas mulheres olham para a igreja do Guadalupe e fazem o sinal da cruz. Um pai fala para seus filhos "é o triunfo do mal, um sinal do fim do mundo". "Idiotas!", pensa uma professora, tira um livro da bolsa e começa a ler. Várias pessoas da fila comentam o fato de o ônibus estar demorando mais que outros dias.

O Apolinário olha as pessoas apinhadas e fala:

Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.

Ninguém olha para ele. Que indiferença. "Ninguém vai dizer nada? Gente! Eu declamei um poema!"

Chega o ônibus. 

- Por fim! - exclama um idoso. 

As pessoas começam a subir e ocupar os assentos. Alguns viajam de pé, outros preferem esperar o próximo. A fila parece uma cobra gigantesca. Cresce rapidamente.

Apolinário repete:

Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças. 

- Parece que ninguém gostou do poema. - fala o Apolinário.

- Não adianta, - comenta Tiago, um amigo dele - eles não conseguem te enxergar.

- Um momento. Veja essa criança! Ela escutou. Sim, ela escutou e está olhando para os lados.

- Olhe, mamãe. Esse cara engraçado, lá no teto.

- Querido, esse é seu amiguinho invisível? - Pergunta a mãe sorridente, curvando-se sobre a criança e dando-lhe um beijo na bochecha.

- Ele não é meu amigo! - fala a criança.

De repente uma forte luz ilumina o lado direito do terminal, mas ninguém repara.

Do lado esquerdo, as sombras crescem. Do lado direito um homem com roupas brancas tem um sorriso iluminado.

Do lado esquerdo, um homem com roupas cinzas tem um olhar terrível. Do lado direito, para um ônibus, as pessoas começam a subir. O Zecão abre a carteira. O homem do sorriso iluminado grita:

- Não faça isso, Zecão! Falei tantas vezes para não fazer isso, meu amigo.

Do lado esquerdo três homens correm. O rapaz de óculos empurra o Zecão, outro tenta pegar a carteira. O Zecão, aperta a carteira. Um dá um soco no nariz dele. Mas o Zecão não solta. O terceiro, passa a navalha pela garganta do Zecão.

O Zecão não solta a carteira. As pessoas gritam. O sangue encharca o terminal. As pessoas pegam os celulares e tiram fotografias do Zecão morrendo. Ninguém chama uma ambulância. É mais importante registrar o momento. "Não adianta, esse cara vai morrer mesmo.", fala o rapaz de camiseta amarela. "Vamos tentar vender essas fotos para algum jornal", murmura o amigo dele.

Uma moça solicita a uma mulher vestida com casaco preto, de olhos esbugalhados, para tirar uma foto dela ao lado do morto. A mulher está a ponto de chorar.

- Por favor, senhora, implora a moça. Uma coisa como esta é difícil de acontecer - fala enquanto penteia o cabelo - Minhas amigas não vão acreditar. Preciso de uma foto.

A mulher seca uma lágrima com o dorso da mão e pega a câmara fotográfica.

- Tem que apertar aqui! - fala a moça mostrando um botão prateado na parte direita da câmara. A mulher, indecisa, demora um pouco, mas consegue tirar a foto. Na frente a moça, no chão o homem ensanguentado.

- Preciso de várias fotos, por favor, alguma delas vai ficar boa. - fala a moça muito empolgada como se o momento fosse de festa.

Perto dela um rapaz com seus fones de ouvido faz movimento de dança com a cabeça, mas o corpo permanece rígido no lugar.

O homem sorridente que faz parte do globo de luz da direita grita:

- Ei, Zecão! Venha para este lado, homem! Não vai para as sombras, não! Venha!

Os outros seres que estão a seu lado também gritam: - Venha, Zecão, venha!

- Zecão, você está em nossa lista! - grita o homem de olhar terrível que chefia as sombras.

- Está na lista! - grita o coro de sombras desafinado.

O Zecão está confuso. Lembra da esposa e dos filhos, ele quer voltar para casa. Sentar no sofá, assistir TV., comer o arroz com feijão.

O homem de olhar terrível do lado esquerdo mostra partes da vida do morto. O homem sorridente do lado direito, também mostra partes da vida do morto.

O Zecão sente medo. Impulsivamente, corre para a luz.

O poeta vê a cena e declama um poema:

Essa luz que agora acende,
com milhares de lembranças,
é de um túnel que surpreende.
Quem caminha além do túnel
reencontrará a esperança.

O homem sorridente da bola de luz que está do lado direito grita:

- Poeta, você vai entrar na luz ou vai continuar declamando no terminal?

- Eu também morri neste terminal. - fala o poeta. - Mas foi de problema cardíaco, há 8 anos. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Sempre encontro amigos.

- Sim! Vamos ficar mais um pouco! - disse o amigo de Apolinário. Os dois pulam sobre o teto de ônibus amarelo que está saindo do terminal e acenam repetidamente com a mão direita.

Fonte:

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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