Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 1 de dezembro de 2019

Luiz Santiago (Sobre A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos, de Clarice Lispector)


Única peça teatral de Clarice Lispector, A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos foi escrita em 1948, enquanto ela esperava o seu primeiro filho. Na época, a autora morava em Berna, Suíça, e meio que por acidente resolveu escrever uma peça em único ato, desfrutando imensamente o prazer de explorar o estilo, mas na mesma intensidade, desgostando da qualidade da obra, tanto que em vida, só a publicou em Fundo de Gaveta, segunda parte da edição inaugural de A Legião Estrangeira (1964).

A pequena peça conta com várias camadas, sendo a exterior uma alegoria da nossa sociedade, exibida em um drama de adultério desenhado em linha clássica (as influências de Édipo Rei são facilmente perceptíveis), além dos autos morais do século XV, onde as relações de poder e os comportamentos sexuais — leia-se, o comportamento sexual de uma mulher julgado por três homens e pelo povo — são misturados em uma tragédia de grande profundidade.

No início, temos anjos invisíveis apresentando-se, falando de sua jornada, missão, procura e fé no acontecimento de determinadas coisas. É um jogo, claro, mas ele irá se revelar completamente apenas no final. Sem julgo, sexo biológico ou maiores intenções, esses seres celestiais caminham para nascer. E de fato o farão quando o pecado da mulher jamais nomeada, e que jamais pronuncia palavra (ela apenas ri), tem sua carne queimada, para o prazer duplo daqueles que a julgam. Ali estava o castigo para a pecadora e a visão do que eles denominam como “carne assada” e “marcada pela Salamandra”, duas figuras de simbolismo amplo, a primeira, de cunho sexual, misógino e [sado]masoquista, e a segunda derivada desta e imbuída do destino de punição, pois a Salamandra consta em certas mitologias como “moradora do fogo” e também é considerada na Bíblia (11º Capítulo do Levítico) como um animal impuro. Façam aí as relações do “destino social e divino da mulher” que a autora ironiza nessas simples frases.

Para destacar a impessoalidade dos que julgam, Clarice Lispector não dá nome aos personagens. Eles são Amante, Esposo, Pecadora, Criança com Sono, Mulher do Povo, Povo (que personifica Coro), Sacerdote, Anjos Invisíveis, Anjos nascendo/nascidos, 1º e 2º Guardas. Talvez para tornar claras as posições hierárquicas dessa sociedade e os diferentes tipos de pessoas que acabam percorrendo caminhos onde morte, diminuição e condenação dos atos (íntimos) do outro devem acontecer para que se garanta a limpeza do meio e a ética local, a autora não poupou riqueza na intertextualidade, explorou caminhos onde a linguagem e a palavra têm papel primordial nas formas de se ver a condição feminina e fincou pé na necessidade do silêncio e nos prazeres do isolamento físico e mental.

A influência bíblica aqui ressalta o fator social viciado, fixado em algo que julga ser certo e que quer fazer valer para todos, mesmo os que não acreditam em seus deuses e padrões de conduta. De maneira sutil e inteligente, as falas vão revelando o pensamento cristalizado de como a feminilidade é perigosa (o mito de Eva) e constantemente leva o homem à queda. O amante e o marido são colocados como princípios racionais. Há, porém, uma deixa da autora para olharmos o marido de forma mais crítica, devido ao seu arrependimento de ter denunciado a mulher, mas a manutenção da postura social rija, com a aceitação de que “a pecadora” não nunca lhe pertenceu e agora, muito menos. Ela é do povo.

Dos homens, o personagem mais rico é, curiosamente, o Sacerdote. Desde o começo vemos que ele se digladia entre obedecer a um dever divino e ao mesmo tempo pecar, matando uma mulher que buscou prazer com duas pessoas diferentes. O Sacerdote não muda a sua visão de que a mulher cometeu um “pecado da carne”, mas — e isso é tremendamente poderoso — questiona Deus e os dogmas que ele obedece, de alguma forma se colocando no lugar da mulher. Ao final, seu medo é tamanho, que mesmo machucado por dentro, ele prefere que a fogueira seja logo acesa e que “a voz da mulher seja a morte”. É melhor isto, do que ouvir o que a mulher possivelmente teria a dizer. Sim. A mulher com palavra causa medo em seus algozes sociais, daí o impulso de querer silenciá-la a todo custo.

Cada personagem tem um tipo de mantra destacado pela autora. Grafadas em maiúscula, as palavras “Vingança” (ligada ao marido), “Virtude” (ligada ao Sacerdote), e Salamandra (ligada ao povo) servem como um ponto de fuga para a exteriorização moral e sentimental de cada parte, que às vezes fogem da principal discussão, se preocupam com outras coisas, parecem muito piores do que a adúltera que mentiu para o marido e para o amante, mas ainda assim, possuem a voz e o poder de queimar a transgressora, pecadora, estrangeira que se atreveu a diminuir o homem a quem deveria se submeter. A harmonia tão procurada pelos anjos era a sua morte, que curiosamente coincide com a passagem desse seres celestiais de “invisíveis” para “nascidos”.

Com a morte da pecadora, o mundo voltou a tocar as mesmas notas “harmônicas” da mulher silenciada, da obediência, da conduta guiada por alguns e observada por todos, prontos para apontar o erro e condenar. Cínica, crítica e ácida visão para uma tão inocente harmonia divina em um mundo que só está “muito bom” enquanto continuar funcionando do mesmo jeito. Aos transgressores dessa ordem, a fogueira. E então, novamente, a harmonia voltará.

Fonte:
Plano Crítico

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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