Biografias (em construção)

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domingo, 31 de janeiro de 2021

Nilcéia Albuquerque França (Versos Diversos)

DIVERSAS


A Trova é meu grande afã,
e dela não abro mão!
Faz-me fada e até vilã,
muda até o coração!
= = = = = = = = = = =

O dia a dia vai indo,
como a chuva na torrente.
e o Rei Sol já vai sumindo,
surgindo a Lua fulgente!
= = = = = = = = = = =

Naquela tarde risonha,
te conheci, meu amor!
Creio que, comigo, sonhas.
inda sentes meu frescor!
= = = = = = = = = = =

Ser humano é ser mutável.
Um dia é fruto; outro, grão;
Às vezes, admirável;
Outras, só complicação!
= = = = = = = = = = =  

Um menino, mui sapeca,
tentava a raia empinar,
bebendo, numa caneca,
pôs-se o leite a derramar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

BUSCA

Rumávamos a não sei onde,
Dentro de uma roda viva
Hoje estamos em busca
De algo qu’inda não sabemos!

Refletir, refletir, refletir...
Tentando apanhar um sentido,
Aqui, lá e acolá,
De algo qu’inda não sabemos!?

E buscando, chegamos a Deus, o Infinito
E a descoberta, incerta,
De algo qu’inda não sabemos!?

Aspiramos à serenidade,
À sabedoria, ao Amor
De algo qu’inda não sabemos!
* * * * * * * * * * * * * * * *  
 
 ESPERANÇA

Menina bonita,
alegre e faceira
na rua, saltita,
tu és companheira!

A Terra ilumina
Com sua inocência,
És forte, menina,
Iluminescência!

E nesta vida incerta,
alento nasce pra nós,
o futuro é iminente.

A humanidade desperta,
E escuta a tua voz,
Sendo mais diligente!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O CAVALO

Dentre toda a natureza,
O cavalo é o mais legal;
Grandes olhos, macieza,
servidor sempre leal!

Cargas sempre a carregar,
Olhos grandes, mas tranquilos;
A andar ou a trotear,
Alivia o teu destino!

Seja adulto ou criança,
todos querem cavalgar;
todos tem a esperança,
de, um dia, a vir montar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O MALABARISTA

Um dia, um malabarista,
Tentava se equilibrar,
pois estava numa pista ...
que se iniciava a inclinar!?!

Na mesa ele se apoiava
Mas, em vão mão se continha.
De escorregar não parava,
Que até levou a vizinha!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O POETA

O Poeta brinca e sonha;
vive só a perscrutar;
ser humano a amar,
Deixa a vida bem risonha!

Poeta muda o bisonho,
pois ele o quer transformar;
e a Beleza desnudar,
e a isto não me oponho!

O Poeta é uma essência,
desvendando mil mistérios,
falando de humanidade!

Revelando as consciências,
eis que surge revertério,
eis a universalidade!

Fonte:
João Israel da Silva Azevedo (org.). Superação: poemas, poesias e crônicas. Esperantinópolis, MA: Clube de Autores, 2020. (e-book)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Aparecido Raimundo de Souza (Parte 30) Invenção de espanto

Vila Velha/ES

PENSEM NUM SUJEITO trabalhador e honesto, cumpridor de seus deveres até debaixo d'água. O Alpheu! Este mesmo, escrito assim, desta forma arcaica, Alpheu com ‘PH’. E ele, por seu turno, fazia questão de deixar pontificado, o ‘PH’. Sem dúvida alguma, este era o cara, apesar de não gostar da melodia do Roberto Carlos, onde o cantor de Cachoeiro de Itapemirim, filho de dona Laura e seu Robertino, dava conta de um indivíduo que exaltava a figura auspiciosa de um craque, o dono do pedaço e da cocada preta, sobretudo, que fazia as honras em todos os sentidos, inclusive e, principalmente, se abrindo feito paraquedas às princesas de todas as idades, o que tornou o bendito fruto amável e benquisto entre as beldades do sexo oposto, Brasil e desvãos além fronteiras.

Mas o nosso Alpheu com ‘PH’, sem tirar nem pôr, fora o escolhido. Homem sério, até seu relógio interno seguia as regras do excelente. Sem nenhuma mancha que tornasse seu passado obscuro, servia de chacota e de gozação para os amigos. Na verdade, um espectador inocente, figura ridícula pela maneira por que se deixava, sobretudo, escravizar com as barbáries e investidas dos idiotas que se diziam e se proclamavam ‘seus chegados’: ‘Você é o cara, mano —, afirmava um’. Este ‘cara é você’ —, ajuntava outro. Por conta deste ‘cara sou eu’, o homenzarrão queria morrer. Tirando esta particularidade, Alpheu com ‘PH’, um santo. Do pau oco, mas santo. Bom pai, ótimo marido e seleto companheiro, principalmente com os colegas de trabalho. O patrão o adorava. Seu trajeto, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano... Apenas um. Com uma variante.

De casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada mudava a sua rota. A vida, para ele, se fazia mais obsessiva que as liquidações das Lojas Renner, anunciando seus auspiciosos e chamativos Black Friday. Alpheu com ‘PH’, como todo ser humano perfeitamente imperfeito, claro, exatamente por ser humano, tinha (apesar dos pesares e da vidinha reta e sem nódoas), cinco defeitos inquestionáveis. Primeiro deles. Gostava de fazer filhos. Por conta desta vida desregrada, no escuro de quatro paredes, enrodilhado com a sua metade gostosa do casamento, a Belinha, e gozando, com ela, os prazeres das fogosidades calientes, trouxera, à luz, em consequência das viradas de olhinhos, nove boquinhas para dar de beber e comer. Nove. Imaginem só! O segundo defeito. Ao sair do trabalho (pegava às cinco da manhã, na padaria do português Manuel Joaquim, parava uma hora para almoçar e, quinze minutos, para engolir o café servido como lanche).

Largava, o batente, às dezessete horas. Todo santo dia esta rotina enervante. O terceiro defeito. O pior deles. Antes de chegar em casa, vinha a variante acima citada. Alpheu com ‘PH’, passava, impreterivelmente, pelo boteco do Aristeu da Conceição (duas quadras de onde morava) e, uma vez ali, alagava os bofes, tomando todas as purinhas com seus amigos de copos. Ficava enraivecido, porque, nesta hora, os falsos amigos das garrafadas zoavam da sua vida certinha, cantando ‘Este cara sou eu’, do Roberto Carlos. Alpheu com ‘PH’, ficava pra morrer. Odiava, com todas as forças, esta canção e, se tivesse poder, pegava seus parceiros e os mandava para verem Papai do céu antes da hora marcada. Um suplício mal parido de que não cogitou, em nenhum momento, a sua postura de cidadão de bem.

Quarto defeito. Chegava, em casa, por volta das vinte e uma e o fazia, aos tropeços, chamando urubu de Nego do Burel e confundindo os postes com os mourões das cercas de arame ao longo da avenida. Morava quase no final dela, num bonito sobrado de alvenaria que lhe fora deixado de herança pelos pais falecidos. Ainda no jardim, ao ouvir o som das crianças jogando em frente à televisão, ato contínuo, pintava o quinto defeito. A criatura então soltava a âncora, deixando, à mostra, um temperamento virulento. Em nome deste drástico frenético, se fazia acessível aos desastres do horror. Arrancava o cinto da calça e pulava, num gingado à Jackie Chan, metendo sem dó nem piedade, um punhado de pancadas nos costados dos pobrezinhos. Neste pega pra capar, os quatro garotos com as idades de sete, nove, treze, e quinze anos, bem ainda, em igual número, as meninas, com dez, onze, quatorze, e dezessete, debandavam, em solitários impulsos, cada um para seu quadrado, os respectivos fundilhos pegando fogo, além das pernas e braços em carne viva. Coisa de meio minuto. O bastante para a gurizada dispersar, se escondendo, entre choros e atropelos, fora do real, todavia, em uma asselvajada realidade adentro.

Este sistema abrupto não mudava nunca. Bastava por os pés no alpendre, o couro começava a comer e se esparramar solto nas oito crianças. Alto lá: não somavam nove? Sim, isto mesmo, nove. A mais nova, a Aninha, de cinco anos, não alimentava o hábito de ficar jogando com os irmãos. Dava oito horas, a lindinha saia de cena e partia para a horizontal. Por certo, se estivesse entre os consanguíneos, não escaparia das perversidades do Alpheu com ‘PH’. Belinha, coitada, a esposa aflita, vinha lá de dentro correndo, apavorada (às vezes, com uma tigela cheia de pipocas nas mãos ou uma garrafa de refrigerante) e, ao se deparar com o bafafá, se intrometia às cegas para cima do marido, pedindo a ele, aos gritos vociferados que não agisse daquela forma com seus rebentos.

Afinal de contas, eles não tinham culpa de terem sido postos no mundo:

— Alpheu, pelo amor de Deus — separava, ou tentava. – Pare de tratar as suas crias deste jeito. Eles não estavam fazendo nada, só jogando. Deixe de ser violento. Respeite a sua família, em nome do Senhor Jesus. Que loucura! Todo santo dia este perrengue... Olhe pela janela. Nossos vizinhos, boquiabertos e pasmos, presenciando os descalabros das suas malditas biritas.

Alpheu com ‘PH’, no seu intenso sentimento de ódio descomedido, na danação de distribuir cintadas, às vezes acertava a pobre mulher onde não devia.

Mesmo ferida, braços e pernas, ou onde pegasse as correadas, a piedosa e santa mãe não deixava de se impor. Alpheu com ‘PH’, sequer dava ouvidos aos seus clamores e lamúrias. Cansado de distribuir porradas, o pinguço saía cambaleando, segurando aqui e acolá e acorria para o banheiro. Antes de fechar a porta, deixava sintetizado à esposa ultrajada:

— Não se esqueça: Alpheu, sua vadia... Alpheu com ‘PH’.

Belinha, ofendida e insultada na sua moral, apesar dos safanões e arranhões, não abria a guarda. Resmungava, xingava, chorava e para extravasar as suas inquietações, geralmente mandava junto com seus derrotismos alguma coisa pesada, jogada com força em direção ao embriagado:

— Vai para os quintos, cão sarnento.

O tinhoso, duro na queda, não arredava. Seguia sempre assim, sem nenhuma mudança. Em parte, culpa da mulher. Ora, convenhamos. Sabendo que o marido não mudava seus modos em relação aos jogos, por que não exigia que as crianças jantassem e subissem para dormir antes que o tresloucado desse o ar da graça? Se tivesse se precavido... Aconteceu, entretanto, que num final de semana os meninos haviam acabado de chegar de uma festinha de aniversário de um vizinho parede-meiado. Todos os nove. Por algum motivo, até o presente momento não esclarecido devidamente, Alpheu com ‘PH’, saiu mais cedo da padaria. Passou pelo boteco antes da hora prevista e se empanturrou, em rodadas à gostos apurados, com os amigos de sempre. Em seguida pegou o rumo de seu barraco. Ao chegar no portão, dali mesmo, ao ouvir as risadas barulhentas vindas do interior da residência não se fez de rogado. Arrancou da cinta e...

...Meteu os pés na porta e escancarou partindo para o ataque. Aos estropigaitados* de ‘eu mato’, pegou o primeiro, agarrou o segundo, esbofeteou o terceiro, socou o quarto... Belinha, em contrapartida, se armou de uma cadeira e investiu contra o desmiolado. Ele não se deteve. Seguiu mandando correadas e bordoadas no quinto, no sexto... Belinha, braba (pensem numa fêmea endiabrada), quebrou uma cadeira nas pernas dele. Entretanto, esta medida não se fez objetiva pelo menos para fazê-lo parar. Alpheu com ‘PH’, não se intimidou. Correu para o sétimo, grudou nos peitos do oitavo, derrubou o quinto...

Voltou para o segundo... Aplicou uma rasteira no oitavo... Quando, avistou num canto, a nona, ou seja, a Aninha, a coitadinha agachada, chorosa e assustadíssima, as mãozinhas cobrindo suas estremeções, Alpheu com ‘PH’, voou feito um leão faminto para deitar o sarrafo na brejeira:

— Até que enfim, esta maldita, hoje, está no bolo. Saiba, praguinha dos infernos, que de agora você não me escapa. Vai apanhar dobrado. Faz tempo que não boto os sentidos em seu magérrimo esqueleto...

Belinha, ao ouvir estas palavras, chegou ao ápice do seu desespero. Alcançou os píncaros do seu furor. Galgou às cumeadas das contrariedades que a dominavam e a fizeram crescer na sua cólera interior. Como um raio, passou as mãos num vaso de flores enorme e pesado (mais robusto que a consciência de Rodrigo Maia), que descansava, solitário sobre uma mesinha de centro, e mandou direto nos cornos de sua parte podre da maçã. Alpheu com ‘PH’, titubeou. Tentou ir em frente. Qual o quê! Ensaiou alguns passos. Inútil. Desabou, caindo de joelhos, o sangue jorrando abundantemente em meio à sua testa.

Antes de sair do ar, de vez, ouviu estas palavras da sua linda consorte:

— Na minha caçulinha, seu verme peçonhento, você não encosta as patas. Esta ai, seu corno safado, não é sua filha.
* * * * * * * * * * * * * * * *  
Vocabulário:
Estropigaitados
– atrapalhados, embaraçados, confusos.


Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. “Comédias da vida na privada”. RJ: Editora AMC-GUEDES, 2020.
Texto enviado pelo autor.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Coletânea A Lágrima e o Tempo (Participe!!! Prazo: 15 de fevereiro)


Queremos convidar você e seus amigos a participarem de nossa Coletânea A Lágrima e o Tempo (Tema sugerido por: Francisco Guilherme Torres da Silva, Marcelo de Azevedo Oliveira e Maria Luiza).

As inscrições, que já estão abertas, podem ser feitas até o dia 15 de fevereiro. Veja mais informações abaixo!

Para esta Coletânea buscamos textos sobre o Amor e o Desamor. Amores atuais e amores passados que causam lágrimas de Felicidade e/ou de Dor; amores de primavera; amores correspondidos; amores perversos; amores de vidas opostas; amores que viraram saudades ou raiva/ódio. Amores que causaram lágrimas que o tempo se incumbiu de secar.

Os textos poderão ser de qualquer gênero (Poesia, Cordel, Trova, Haikai, Conto, Crônica, Roteiro, etc.), pois o objetivo é termos uma obra “monotemática e multiestilo”.

Poderão participar Escritores, Poetas, Contistas e Cronistas maiores de 18 anos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil ou no exterior com documentação brasileira, e seus trabalhos deverão ser obrigatoriamente escritos em língua portuguesa (o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto).

Conheça todos os detalhes no link https://bit.ly/3abN843 , onde há o formulário de inscrição.

Nessa Coletânea os Artistas Plásticos e Designers de capa, também podem participar, enviando sugestões de Capa para a Coletânea.

Conheça todos os detalhes no link https://bit.ly/3qWR8fk

Já recebemos várias inscrições e ainda estamos aguardando ansiosamente a sua!

Importante lembrar que sua participação é Gratuita.

Após recebermos os Textos, faremos uma seleção/avaliação dos melhores e publicaremos um livro com eles. Essa Coletânea ficará à venda na Loja Online da PerSe, com impressão sob demanda, para quem quiser adquiri-la.

Como dissemos, sua participação não terá nenhum custo!

Você encontra todos os detalhes para sua inscrição nos links abaixo:

1) Quero enviar meu texto: https://bit.ly/3abN843​

2) Quero enviar sugestão de capa: https://bit.ly/3qWR8fk

Compartilhe com o mundo as histórias de Amor ou Desamor que você viveu ou presenciou. Inscreva-se já!

Ah... se quiser convidar seus conhecidos para participar também, fique à vontade... basta repassar esse e-mail.

Forte abraço,
Equipe Apparere

Fonte:
Projeto Apparere (www.apparere.com.br)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Gregório Duvivier (Ter amigos demais é quase igual a não ter amigo nenhum)


“Tem poucos, raros amigos  — o homem atrás dos óculos e do bigode.” O verso sempre me apavorou. Sempre quis ter muitos, vastos amigos, inúmeros, incontáveis, 1 milhão de amigos, como Roberto Carlos, pra bem mais forte poder cantar.

“Poucos, raros amigos”, reitera Drummond, e eu imaginava um pobre homem preso eternamente àquele início de festa em que só chegou um casal ou àquele fim de festa em que só sobrou um casal.

“O inferno são os outros”, diz o personagem de Sartre sobre a companhia obrigatória de duas pessoas, e entendo a agonia dele, não porque fosse melhor ficar só, mas porque eram só duas pessoas. “O inferno são poucos outros”, deveria ter concluído o personagem.

Não há solidão pior que a companhia de apenas um vizinho no elevador, de dois primos distantes no Natal, de só três espectadores numa peça. Poucos outros são o inferno, muitos outros são o Carnaval.

Lembro a história de uma amiga que foi estudar na Alemanha. Depois de algumas semanas solitárias em que seus olhares cúmplices davam n’água, finalmente conseguiu se aproximar de uma colega local, com quem trocou um lápis, um comentário maldoso e, finalmente, algumas risadas.

“Acho que esse é o começo de uma bela amizade”, pensou ela, como Bogart. Mas “Casablanca” se passa num bar no Marrocos, e não numa faculdade alemã — onde tiveram início poucas, raras amizades.

No dia seguinte, aos sorrisos, a suposta amiga alemã passou a evitá-la. Trocou de lugar na sala, parou de trocar olhares e, ao encontrá-la na rua, chegou a trocar de calçada. “O que foi que fiz de errado?”, pensou nossa conterrânea. Depois de algum tempo, tomou coragem para interpelar a colega.

“A gente estava se aproximando e você sumiu”, ela disse. “Desculpe”, explicou a alemã, “é que já tenho amigos o bastante”. E prosseguiu. “Você parece legal, mas a gente estava quase ficando amiga, e, se isso acontecesse, teria que ir à sua festa de aniversário, ao lançamento do livro da sua mãe. Fiz as contas e descobri que não tenho tempo para mais nenhum amigo.”

Na época achei cruel, uma história de terror alemã. Hoje entendo a amiga. O inferno é ter amigos demais, que é quase igual a não ter amigo nenhum.

Nos últimos meses, tenho gostado de falar apenas com os amigos de que gosto muito. “Tem poucos, raros amigos — o homem atrás da máscara e do face shield.” É bom também.

Fonte:
Folha de São Paulo. Opinião. 11 de agosto de 2020.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Filemon F. Martins (Poemas Escolhidos) IX

CURVA DO CAMINHO


Eis-me chegando à curva do caminho,
onde vejo os escombros do passado:
a casa em que nasci, cresci, malgrado
o quarto de dormir em desalinho.

Não me faltou, porém, muito carinho
vivendo no Sertão injustiçado,
onde o “mandante” sempre desalmado
faz o povo sofrer, no Pelourinho...

No entanto, a vida é bela e deslumbrante,
mesmo que a estrada se apresente escura
sempre brilha uma luz ao viajante...

... E quando eu me tornar uma saudade,
minha alma esquecerá a desventura
para cantar, em verso, a Eternidade!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

ELOGIO AO AMOR

Neste caminho eu sigo contemplando
a Natureza exuberante e bela,
passarinhos nos ramos saltitando
entoando canções em aquarela.

Aonde quer que eu vá, eu vou cantando
a pureza do amor, pintado em tela,
que Deus o produziu, por certo amando,
para mostrar ao mundo, em passarela...

O amor? Triste de quem não tem amor,
nem sentiu nesta vida alguma dor,
nem teve uma saudade a recordar?

Pois o amor é um sublime sentimento
que ferve, vibra e invade o pensamento,
e  nos leva ao delírio para amar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

IPUPIARA

Feliz é quem trilhou estes caminhos
que levam à vibrante Ipupiara,
ouvindo o som de belos passarinhos
numa paisagem deslumbrante e rara.

Ibipetum, Pintada e outros vizinhos
Sodrelândia, Vanique e Caiçara,
Chiquita, Bela Sombra com seus ninhos,
Brejões, Coxim que muito me ensinara.

Jamais vou esquecer... O Olho d´Aguinha,
Veríssimo, Barreiro e até Matinha,
Deus me Livre, Umbaúba e Boa Vista.

Felicidade, então, é ter nascido
e neste berço um dia ter vivido
com gente hospitaleira e idealista!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

RESSURREIÇÃO

Já não lamento o fim daquele sonho
que o tempo, impiedoso, me levou.
- Venturas e alegrias – pressuponho
tombaram pelo chão, nada sobrou.

Por que sofrer, chorar, viver tristonho?
Se o vendaval que assusta já passou?
Reconstruir é tudo o que me imponho
e gritar para o mundo: aqui estou.

Tal como a fênix ressurgir da morte
e as cinzas sacudir buscando a sorte,
embora os olhos marejados d´água.

Meus versos jorrarão como uma fonte
fervilhando de amor vencendo a ponte,
mesmo cobertos de saudade e mágoa!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

REVISITANDO A INFÂNCIA

Refaço, de memória, a longa estrada,
caminhos que trilhei desde menino.
De manhã cedo, ainda na alvorada,
eu preparava a terra, meu destino.

Tempos depois, aposentei a enxada,
para estudar, no chão diamantino.
A vida era feliz lá na Chapada,
quando brilhava a luz do sol, a pino...

Tudo passou, bem sei, tão de repente,
meu coração, parece, anda descrente
e o sentimento, quantas vezes, trunca...

Hoje, guardo no peito, com cuidado,
lembranças que marcaram meu passado
e uma saudade que não passa nunca...

Fonte:
Blog do Filemon - http://filemon-martins.blogspot.com/

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Izo Goldman (Trovas Humorísticas) - 2 -


A cozinha da maloca
é tão baixinha e apertada,
que, na panela, a pipoca,
não pula... fica sentada!!!
= = = = = = = = = = =
A mulher do carvoeiro
diz que o marido é uma... "graça".
pois faz fogo o dia inteiro
mas, de noite, é só fumaça…
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A noiva, por ironia,
na mala só vai levar
a camisola-do-dia,
que à noite... nem vai usar...
= = = = = = = = = = =
Diz a vaga-lume ordeira
ao vaga-lume estouvado:
– Não me sentes na cadeira
que me queimas o estofado!...
= = = = = = = = = = =
Diz ela, sem esperança:
– Toda noite eu armo o... "bote",
mas, quando tento a... "cobrança",
meu marido... dá o calote!
= = = = = = = = = = =
Foi bem no peito a pedrada!!!
E o Manoel não gostou!!!
Vira pra trás, voz zangada,
e pergunta: "Quem jogou?...”
= = = = = = = = = = =
Grita o ajudante "fiel"
ao pintor, lá na calçada:
– Se segura no pincel
que eu vou precisar da escada!
= = = = = = = = = = =
Minha sogra está doente,
e o diabo apavorado!
Se ela morre de repente,
ele está desempregado!...
= = = = = = = = = = =
Não melindre os portugueses!
Conte as piadas assim:
– Era uma vez dois chineses...
Manoel e Joaquim...
= = = = = = = = = = =
O genro, com voz macia,
chama a sogra de... "Charada..."
Pensando: – Quem sabe um dia,
alguém "mata" a desgraçada!…
= = = = = = = = = = =
Pergunta o pai bigodudo,
com a voz meio engasgada:
– Quem foi que pôs cola-tudo
no pote da marmelada?…
= = = = = = = = = = =
"Pratos rápidos", dizia,
lá no boteco o cartaz;
e quando o prato saía,
o freguês corria atrás!!!
= = = = = = = = = = =
Pulando do nono andar,
o otimista diz a alguém
que, no quarto, o vê passar:
– Até agora... tudo bem!!!
= = = = = = = = = = =
Se a saudade fosse pão,
eu simplesmente poria
na porta do coração
esta placa:  "Padaria"!
= = = = = = = = = = =
Tomou Viagra... Fracasso...
Foi cobrar de quem vendeu:
– E agora, como é que eu faço???
– Enterra! Que já morreu!!!
= = = = = = = = = = =
Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito"
tinha uns mil na Academia!...
= = = = = = = = = = =
Vai bem o namoro, até
que o pai dela chega, e então,       
o garotão dá no pé
e a moça fica... na mão…
= = = = = = = = = = =
Vai haver muito freguês
no dia em que alguém disser:
– ”Pague duas, leve três!!!”
e, o “produto”, for... mulher...
= = = = = = = = = = =
"Vem aí um furacão!!!,
avisa a rádio, – Cuidado!!!"
E o genro, por precaução,
põe a sogra... no telhado!!!
= = = = = = = = = = =
Vida de pobre é engraçada,     
ou é dura e divertida:
enquanto dança lambada,
leva “lambadas” da vida...

Fonte:
Izo Goldman. Trovas de quem ama a trova.

domingo, 24 de janeiro de 2021

sábado, 23 de janeiro de 2021

Paulo Leminski (Versos Diversos) 8


dois loucos no bairro

um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também
* * * * * * * * * * * * * * * *  

bate o vento eu movo
volta a bater de novo
a me mover eu volto
sempre em volta deste
meu amor ao vento
* * * * * * * * * * * * * * * *  

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher linguiça
entre um triunfo e um waterloo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba
em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zum-zum-zum
todo susto
sob a forma
de um súbito arbusto
seixo solto
céu revolto
pode ser teu vulto
ou tua volta
* * * * * * * * * * * * * * * *  

esperas frustras
vésperas frutas
matérias brutas
quantas estrelas
custas?
* * * * * * * * * * * * * * * *  

oração de pajé

que eu seja erva raio
no coração de meus amigos
árvore força
na beira do riacho
pedra na fonte
    estrela
        na borda
             do abismo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de glauber
ter sempre uma cabeça cortada a mais
a fúria de décio
nunca fazer versinhos normais
* * * * * * * * * * * * * * * *  

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador
* * * * * * * * * * * * * * * *  

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
* * * * * * * * * * * * * * * *  

como um coto caro ao roto
incrédulo tiago
toco as chagas
que me chegam
do passado
mutilado

toco o nada
aquele nada que não para
aquele agora nada
que tinha
a minha
cara

nada não
que nada nenhum
declara tamanha danação

Fonte:
Paulo Leminski. Distraídos venceremos. Publicado em 1987.

Carina Bratt (O violento silêncio de um novo recomeço)


Depois que a nossa vida foi completamente destruída, seja por desfazimento de um casamento, pela perda do emprego onde ganhávamos razoavelmente bem, pelo falecimento de algum ente querido, ou qualquer outro item que eu não tenha citado neste pequeno rol, como recomeçar? Muitas e muitas vezes nos quedamos diante dos escombros com esta indagação entalada na goela: como recomeçar?

Existe alguma cartilha, ou um truque para se tirar de dentro de uma cartola (como os ilusionistas, nos palcos da vida circense, um buquê de flores, ou uma pombinha branca, ou via igual, da manga da blusa, um pacote de dinheiro, para saldarmos todas as nossas dívidas e começarmos do nada, ou seja, do zero?). A resposta é NÃO.

Na verdade, não colocaram, ao nosso dispor, para consultas rápidas e rasteiras, nenhum dispositivo prático —, um modelo livre de trapaças —, um livreto padrão, correto e sem erros, bonitinho e bem elaborado, bem escrito, explicando, com todos os passos corretos para serem seguidos, à risca, e vencermos as dificuldades e intempéries.

Quando nos pegamos acabadas, literalmente no fundo do poço, estraçalhadas, nada vem em nosso socorro, a não ser os destroços de nós mesmas. Grudados neles, o estupor de um silêncio pesado e denso, que nos fere, que nos machuca, que nos leva às raias da neurastenia. Nestas horas, diante do espelho do nosso destino, contamos somente com a nossa coragem, ou com o que dela sobrou intacta.

Tentamos nos reerguer, nos levantarmos do tombo dos fracassos e dissabores (sejam eles, quais forem). Enfim, arriscamos, aventuramos, ousamos sair ilesas da vida abrupta, despedaçada, juntando os caquinhos, um por um, aqui e ali, depois e acolá, colando de volta, num trabalho de pacienciosidade (tipo as formiguinhas), até completarmos todo o mosaico dos nossos sonhos destruídos.

A reconstrução é difícil, penosa, cansativa, por vezes temerária. Às vezes, levamos anos e anos para nos aprumarmos, até vermos de novo, diante de nossa estupefação, os horizontes brilharem à frente de nossos percalços e estorvos, incômodos e entojos, irritações e achaques.

Cair é fácil. Basta estarmos em pé. Tropeçar, idem. Um simples descuido, um cochilo, um desvario e pimba, damos com tudo no rés do chão. Difícil é levantarmos, notadamente se não tivermos um alicerce, um suporte à altura de nosso tombo. Geralmente (dependendo do baque, as feridas, as contusões e as lesões produzidas por este declínio), arranjamos feridas profundas, mágoas difíceis de serem cicatrizadas.

Apesar dos pesares que surgirem, ou que nos vierem molestar, não importam as avarias produzidas. Temos, nestas horas, a obrigação, o dever, a tarefa imperativa de sermos fortes o bastante, robustas o suficiente para nos colocarmos em posição de luta e de peleja. Encararmos o porvir e, partirmos com tudo, para a guerra.

Quando falamos em guerra, devemos esclarecer que a vida é um eterno conflito de interesses, onde concebemos matar um inimigo oculto a cada dia. Os antagonistas encobertos e clandestinos são muitos e os mais diversificados. Apesar destas pedras no meio do caminho, jamais pensamos ou imaginamos em desistir das refregas, das contendas e das repressões.

Em mente, sempre, a ideia auspiciosa de sacudirmos a poeira das roupas. O anfêmero* nos ensina, a duras penas, que nunca deveremos desistir do combate. Vencer e vencer se tornou, não só uma saída à nossa volta mas, sobretudo, uma trilha aberta no meio do nada, nos impondo mecanismos de defesa para o enfrentamento diante da vida madrasta.

Neste tom, ainda que aos trancos e barrancos, seja rastejando, capengando, pulando numa perna só, temos que ter a iniciativa, a dignidade, o senso prático de nos aprumarmos. Mantermos a cabeça erguida, os sentidos a todo vapor e partirmos em busca dos objetivos almejados.

Em tempo algum jogarmos a tolha, ou darmos meia volta, fugindo das agruras e ensombramentos que vierem nos fazer frente, grosso modo, nos peitar. Ainda que tudo esteja a nosso desfavor ou que o dia a dia se apresente esquisito e tenebroso, nada de desânimos. Bola pra frente. Chutar pra gol é a meta, o propósito, a ambição, acima de qualquer outra coisa.

As vias pelas quais teremos que nos embrenhar estão diante de nossos narizes, aguardando a nossa coragem, a nossa valentia, a nossa ousadia e, claro, estas rotas contam com o nosso apetite voraz de engolirmos cada adversidade revestida de um espectro mal acabado que, porventura, venha pintar no pedaço, intencionando a se meter a besta com a nossa obstinação de vencermos e sermos novamente felizes. Temos, todas nós, o direito líquido e certo de sermos felizes.

O avejão* que nos rodeia está por aí, à solta. Belo e folgado. É uma aparição sem voz, sem rosto, sem braços e pernas. Apesar de uma completa manquitola, fará de tudo para nos impedir de seguirmos adiante, em busca do nosso sucesso. Todo recomeço não deixa de ser um afronte, um agravo à nossa sensibilidade feminina.

E nós, como Mulheres com ‘M’ Maiúsculo, o Belo Sexo, o Encanto da melhor parte da maçã, não poderemos jamais ser capachos desta ou de qualquer outra infâmia que se nos apresente com agressividade, imposições, brutalidades ou descomedimentos imoderados. Nascemos para os reveses, renascemos das cinzas, viemos de um Universo Divino prontas e aptas para sermos completas e felizes. Surja, pois, o que surgir, haja o que houver, ainda que chova canivetes, TEREMOS O MUNDO INTEIRO AOS NOSSOS PÉS.
_____________________
Vocabulário:
Anfêmero – cotidiano.
Avejão – espectro, assombração, fantasma.


Fonte:
Texto enviado pela autora.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O Voo da Gralha Azul (Um Blog exclusivamente de Trovas)



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Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa – 7 –

Augusto Gil
Porto, 1873 – 1929, Lisboa

DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

Ao charco mais escuso e mais imundo
chega uma hora no correr do dia
em que um raio de sol, claro e jucundo,
o visita, o alegra, o alumia;

pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
nesta contínua e intérmina agonia,
nem tenho uma hora só dessa alegria
que chega às coisas ínfimas do mundo!...

Deus meu, acaso a roda do destino
a movimentam vossas mãos leais
num aceno impulsivo e repentino,

sem que na cega turbulência a domem?!
Senhor! não é um seixo que esmagais;
olhai que é – o coração de um homem!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Camilo Pessanha
Coimbra, 1867 – 1926, Macau

CAMINHO (I)

Tenho sonhos cruéis: n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração de um véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,

sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
porque é só madrugada quando chora.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Eugênio de Castro
Coimbra, 1869 – 1944

A COROA DE ROSAS

A fim, oculto amor, de coroar-te,
de adornar tuas tranças luminosas,
uma coroa teci de brancas rosas,
e fui pelo mundo afora, a procurar-te.

Sem nunca te encontrar, crendo avistar-te
nas moças que encontrava, donairosas,
fui-as beijando e fui-lhes dando as rosas
da coroa feita com amor e arte.

Trago, de caminhar, os membros lassos,
acutilam-me os ventos e as geadas,
já não sei o que são noites serenas...

Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
mas ai! nas minhas mãos ensanguentadas
uma coroa de espinhos trago apenas!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Fausto Guedes Teixeira
Lamego/Alto Douro, 1871 – 1930, ????

EU QUERO OUVIR O CORAÇÃO FALAR

Eu quero ouvir o coração falar
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.

Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.

Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.

Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

José Duro
Lisboa, 1875 – 1899

DOR SUPREMA

Onde quer que ponho os olhos contristados
– costumei-me a ver o mal em toda a parte –
não encontro nada que não vá magoar-te,
ó minh’alma cega, irmã dos entrevados.

Sexta-feira santa cheia de cuidados,
livro d’Ezequiel. Vontade de chorar-te...
E não ter um pranto, um só, para lavar-te
das manchas do fel, filhas de mil pecados!...

Ai do que não chora porque se esqueceu
como há de chamar as lágrimas aos olhos
na hora amargurada em que precisa delas!

Mas é bem mais triste aquele que olha o céu
em busca de Deus, que o livre dos abrolhos,
e só acha a luz das pálidas estrelas...

Fonte:
Sergio Faraco (org.) Livro dos sonetos: 1500-1900. Porto Alegre/RS: L&PM, 2016.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Professor Garcia (Poemas do Meu Cantar) Trovas – 4 –


A mão do bem que nos rege,
mostra-nos gestos de amor,
até na mão que protege
a inocência de uma flor!
= = = = = = = = = = =
Amor de mãe, que esplendor,
ó, que divino mister...
Deus pôs a essência do amor
no coração da mulher!
= = = = = = = = = = =
À noite, o que me conduz,
me acompanha e me rastreia,
é o tênue raio de luz
da solidão da candeia!
= = = = = = = = = = =
Cantas preso, canarinho
consolando a tua dor!
Eu também canto sozinho
preso às redomas do amor!
= = = = = = = = = = =
Contra o Sol, não há censura
e, ao bom pintor se assemelha,
quando pinta com ternura
a aurora, de cor vermelha!
= = = = = = = = = = =
Daquele amor tão risonho
que moldou nosso roteiro...
Guardo o derradeiro sonho
como se fosse o primeiro!
= = = = = = = = = = =
De volta à tapera antiga,
ouço uma voz que à distância,
era a mesma voz amiga
que eternizou minha infância!
= = = = = = = = = = =
Feliz, não dá passos vãos
a lua, era seu caminhar,
enquanto, entrelaça as mãos
na barba branca do mar!
= = = = = = = = = = =
Minha fronte encanecida,
já, pelo tempo, aos borralhos,
põe as auroras da vida
nos meus cabelos grisalhos!
= = = = = = = = = = =
Não há estação perdida
para quem no amor se esmera!
Quem ama o outono da vida,
vive a eterna primavera!
= = = = = = = = = = =
No aceno das horas mansas,
vejo na humilde casinha,
da infância, as ricas lembranças
da pobre mansão que eu tinha!
= = = = = = = = = = =
O amor, em seus embaraços,
e às vezes, com seus desvãos...
Entrelaçou nossos braços
e amordaçou nossas mãos!
= = = = = = = = = = =
O mar, de fatos e lendas
quando se zanga e se alteia,
se joga em lençóis de rendas
e espicha os braços na areia!
= = = = = = = = = = =
O poeta, em suas cantigas,
em noites calmas, dá provas
de esquecer queixas antigas,
cantando as mágoas mais novas!
= = = = = = = = = = =
O poeta e o passarinho,
são parecidos demais:
Quanto mais longe do ninho
mais cantam tristes seus ais!
= = = = = = = = = = =
O sino desperta o sono
da tarde que silencia,
enquanto a lua sem dono
enche a noite de poesia!
= = = = = = = = = = =
O tempo é roda fremente
num parque de diversões,
moendo os sonhos da gente
nessa roda de ilusões!
= = = = = = = = = = =
Que ingratidão tão mesquinha,
que ausência de amor e brilho,
viver a mãe tão sozinha
ao lado do próprio filho!
= = = = = = = = = = =
Quem contempla o amor, percebe
e, a todo instante, deduz...
Que, em tudo quanto recebe,
há uma centelha de luz!
= = = = = = = = = = =
Quem crê na fé, na alegria,
não torna seus sonhos vãos.
Pois, cada mão que nos guia,
tem digitais de outras mãos!
= = = = = = = = = = =
Se a cruz pesar mais, descreve
o que dela se deduz:
Que tudo quanto se deve,
Deus põe nos braços da cruz!
= = = = = = = = = = =
Se for falta de agasalho,
ou porque não tenho escolha,
a escolha do meu trabalho
se agasalha em qualquer folha!
= = = = = = = = = = =
Se o amor é cego e reclama,
reclama sem sentir dor;
quando um cego acende a chama,
é um feliz cego de amor!
= = = = = = = = = = =
Tuas juras, sempre vãs,
compromissos de ninguém,
são velhas juras pagãs
ferindo o orgulho de alguém!
= = = = = = = = = = =
Vejo que teus velhos braços
mantém a mesma medida,
com que mediste os meus passos
na primavera da vida!

Fonte:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020.
Livro enviado pelo autor.

Monteiro Lobato (Toque outra)


— ORA TOQUE, Sinhazinha, toque!

— Mas eu não sei...

— Não faz mal, toque assim mesmo, não se faça de rogada. Aquela valsinha...

A pálida menina geme novos luxinhos faceiros, torce os pingentes da almofada e por fim levanta-se, toda dengues, a desculpar-se.

— Vou errar tudo, não tenho estudado há muitos dias, estou esquecida...

— Não faz mal, toque!...

Sinhazinha senta-se ao piano, folheia a maçaroca de músicas e preguiçosamente abre diante de si uma valsa de Aurélio Cavalcanti. E toca: blem, blem, belelém...

A sala então, que só por aquilo esperava, afunda na conversa. O barulho do piano, abafando o tom geral da palestra, dá azo à delícia dos duos, em que cada um pega de cochicho com quem mais o atende. As matronas, donas de casa, caem no assunto dileto — os criados!

— Ai, os criados! Que gente, prima! Que pestes! Não fazem “isto” sem uma pessoa estar em cima; se vão a compras, roubam no troco... E não se lhes diga uma palavrinha! Pedem a conta e dizem desaforos, os demônios...

As meninas rodeiam o moço, que impa como um galo e desdobra o farnel da banalidade tão cara às mulheres; todas ouvem-no atentas, bebem-lhe os ditos, riem das suas pilhérias, acham-no “levado”.

Titinha diz, sorvendo-o com os olhos:

— Este seu Raul é mesmo da pele!

Num desvão da janela cochicha-se um namoro; a das Dores conta à do Carmo que não gosta mais do Luisinho por umas certas coisas que viu no último baile. Do Carmo comenta, sentenciosa:

— Os homens! Os homens!...

Duas em outro canto riem perdidamente, em casquinadas argentinas. Nisto Sinhazinha acaba a valsa. A sala dá pela coisa, interrompe a tagarelice e pede mais:

— Muito bem, Sinhazinha, muito bem! Toque outra!...

Sinhazinha ataca uma scottish.

A sala retoma os temas interrompidos.

— Mas... como eu ia contando...

Impossível negar as vantagens sociais da música.

Fonte:
Monteiro Lobato. Cidades mortas. s/d.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) – 13. Conto – O Revólver da Paixão

Foco Narrativo

Narrado em 1ª pessoa.
Uso constante do modo imperativo.
 
Espaço
A alma de uma mulher, com sentimentos apaixonados e contraditórios.

Personagens
Narradora – mulher apaixonada e o homem que a deixou. Personagem relata em uma carta seu amor doentio – dominadora. Ela lhe pede que volte e reconhece que não é capaz de controlar seu ciúme.

O conto trata de uma carta em que uma mulher comunica seus sentimentos, ora ameaçadores, ora ternos, contraditórios sempre. Desculpa-se, faz exigências para de novo desculpar-se, de novo exigir. Ela se comunica através da dor que sente de ter sido preterida, de ter perdido aquele a quem ainda ama e sem o qual julga não poder viver.

Conforme o sociólogo italiano Francesco Alberoni (1986), “o enamoramento é um processo no qual a outra pessoa, aquela que encontramos e que nos correspondeu, se nos impõe como o objeto pleno do desejo”, e é esse processo que ocorre com a protagonista do conto “O revólver da paixão”, que é obcecada pelo homem que a abandona. Ainda conforme Alberoni, “a relação de enamoramento é um processo, um achar e perder. A pessoa amada é, ao mesmo tempo, constante e precária, única e diversa, ser empírico e ser ideal”.

De acordo com Roland Barthes (2003), a carta de amor é ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada da vontade de significar o desejo). Esse “conto-carta”, que se encaixa nessa descrição de Barthes, começa da seguinte forma: “Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa”.

Percebe-se, que ela está ressentida e não aceita o término do relacionamento, não aceita que o homem viva longe de sua presença, de seu amor. Para pedir perdão e se queixar, ela se reporta diretamente ao sujeito amado – talvez por isso a escolha, por parte de Nélida, do gênero carta, que permite a genuína expressão em primeira pessoa, a expressão da voz do sujeito enamorado, que nesse caso é a mulher.

Ao afirmar que se perdeu nas palavras que o homem lhe disse, a narradora também atribui a ele a responsabilidade por seu estado: ela não apenas se enamorou, sozinha, mas foi conquistada; e por isso o amado é, para a mulher, covarde e culpável, por despertar seu amor e abandoná-la. Nesse conto, no qual o amor cortês também se deixa entrever, é a mulher quem assume o papel de vassalo no relacionamento: é quem se submete ao objeto amado, quem está sedenta de (mais) dependência . Assim, a narradora-personagem de “O revólver da paixão” sente medo de perder o homem a quem ama. Isso seria, para ela, a morte:

“A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame”.

Os sentimentos da protagonista em relação ao amado são, como podemos perceber, paradoxais, tendo em vista que ela o ama ao mesmo tempo em que o odeia e sente raiva dele, deseja sua morte ao mesmo tempo em que tem medo de perder seu amor, além de afirmar que não quer vê-lo, enquanto anseia por sua presença. Esses sentimentos paradoxais são próprios do desejo e do sentimento amorosos, que nos impelem a idealizar o outro e a querê-lo mais que tudo, mesmo sabendo que ele é humano e falho, como nós. Por mais que nos decepcionemos com o ser amado, o amor e o prazer de amar nos levam a ansiar por ele, a perdoar e esquecer os erros e ofensas cometidas contra nós, contanto que essa pessoa esteja disposta a continuar conosco e retribuir o que sentimos por ela. Por isso a narradora pede que o homem volte:

“Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós”

Logo, perto ou longe do ser amado, o sujeito amoroso nunca está completamente satisfeito ou pleno. Ainda assim, a narradora-personagem continua a pedir o retorno do homem:

“Volte, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. [...] Amanhã te escreverei, de novo capitulo ante o meu amor.”

Ela admite, então, que cede, transige ante seu amor, pois não tem forças para lutar contra esse sentimento. Como esse amor é mais forte do que ela, não há nada que possa fazer para apagá-lo ou mitigá-lo, por isso a narradora-personagem para de escrever, para que possa apenas sentir o amor, em toda a sua intensidade. Talvez o que ela ame, de fato, não seja o homem, mas o sentimento que ele causa nela, que faz com que se sinta viva, uma vez que o amor pode ser também uma expressão da vida, um modo de sentir e estar no mundo.

Fontes:
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013
– Joyce Glenda Barros Amorim. Amor, Poder e Violência em Contos de Nélida Piñon. Dissertação de Mestrado. 88 p. Belo Horizonte:UFMG, 2015. (excertos)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) – 12. Conto – Disse um Campônio à Sua Amada

Ambiente

Interior de um coração perdidamente apaixonado.

Foco Narrativo
Narrado em 1ª pessoa

Personagens

Narrador – vivencia uma paixão incontrolável... que o leva a ser capaz de verdadeiros desatinos... como ofertar o próprio coração... ele era uma pedra mas, perto dela, perde a força, a resistência.
Amada – não corresponde com a mesma intensidade – está longe dele.
Ana – uma intermediária entre os 2

O título do texto é o primeiro verso de uma canção antiga de Vicente Celestino (Coração Materno), que foi gravada mais recentemente por Caetano Veloso. Como na letra da canção, trata de um amor não correspondido, aqui expresso através de carta. Trata-se de uma paixão tão Intensa que ele não consegue dominar, foge-lhe do controle. Não diminui apesar da indiferença dela, que é como uma pedra, um rochedo difícil de ser escalado. Como na canção, ele é capaz de fazer o impossível para conquistar seu amor, como fazer-se pássaro, navegar, partir-se em pedaços.

Disse um Campônio à sua amada, é um conto que poderia ser definido como uma bela declaração de amor. Um homem do campo transmite a delicadeza dos seus sentimentos à mulher amada:  

Assim, eu faço discreto pedido, não me arraste contigo quando te  fores. Ou não me aceites, ainda que te peça para seguir o teu caminho. Não quero despojar-me de um coração que te ofereci com tanta opulência. (...) Do teu camponês que se despede sem saber que é para sempre.

Apesar da ausência de diálogos, a narrativa não é monótona pois cada personagem apresenta seus monólogos e o silêncio é preenchido pelas reflexões do próprio leitor.


Fonte:
Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa – 6 –


Antônio Sardinha
Monforte/Alentejo, 1888 – 1925, Elvas/Alentejo

VESPERAL

Se eu te pintasse, posta na tardinha,
pintava-te num fundo cor de olaia,
na mão suspensa, nessa mão que é minha,
o lenço fino acompanhando a saia!

Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
em ar de infanta que perdeu a aia,
envolta numa luz que te acarinha,
na luz que desfalece e que desmaia!

Com teu encanto os dias me adamasques,
linda menina ingênua de Velásquez
a flutuar num mar de seda e renda.

Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho,
mas tão baixinho que só eu entenda!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Fernando Pessoa
Lisboa, 1888 – 1935

QUANDO OLHO PARA MIM...


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
pertencem ao meu modo de existir,
e eu nunca sei como hei de concluir
as sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? Serei

tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Florbela Espanca
Vila Viçosa/Alentejo, 1894 –  1930, Matosinhos/Douro

AMAR

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
mais este e aquele, o outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
durante a vida inteira é porque mente.

Há uma primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Marta de Mesquita da Câmara
Lisboa?, 1894 – ????

CONTRASENSO

Oh! meu amor, escuta, estou aqui.
Pois o teu coração bem me conhece:
eu sou aquela voz que, em tanta prece,
endoideceu, chorou, gemeu por ti!

Sou eu, sou eu que ainda não morri
– nem a morte me quer, ao que parece –
e vinha renovar, se inda pudesse,
as horas dolorosas que vivi.

Oh! que insensato e louco é quem se ilude!
Quis fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que os teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além,
desisto de encontrar na vida um bem
que valha todo o mal que tu me fazes!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Nunes Claro
Lisboa, 1878 – 1949

SONETO

Vieste tarde, meu amor. Começa
em mim caindo a neve devagar...
Morre o sol; o outono vem depressa,
e o inverno, finalmente, há de chegar.

E se hoje andamos juntos, na promessa
de caminharmos toda a vida a par,
daqui a pouco o teu amor tem pressa
e o meu, daqui a pouco, há de cansar.

Dentro em breve, por trás das velhas portas,
dando um ao outro só palavras mortas
que rolam mudas sobre nossas vidas,

ouviremos, nas noites desoladas,
tu, a canção das vozes desejadas,
eu, o chorar das vozes esquecidas.

Fonte:
Sergio Faraco (org.) Livro dos sonetos: 1500-1900. Porto Alegre/RS: L&PM, 2016.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) – 11. Conto – A Sombra da Caça

A SOMBRA DA CAÇA


Ambiente:
Vida de uma mulher: suas atitudes e consequências delas.

Foco narrativo
Narrado em 1ª pessoa

Estrutura
Carta

Personagens:
Mulher: emissora da carta – dura, exigente, insensível, como se auto define no texto.
Marido: doce, terno, carinhoso, como o define a mulher.
Filho: receptor – mediador de notícias entre a mãe e o pai, recolher a confissão de ambos.

A narradora (mãe) escreve a seu filho uma carta. Ela fala da tumultuada relação que tivera com o marido e quanto lutou para livrar-se dele e do amor incondicional que ele lhe oferecia. Ao expulsá-lo de casa, ela perdeu a chance de ser feliz. Ele foi embora para nunca mais voltar. No fim do conto, o filho envia à mãe um bilhete dizendo-lhe que o pai nunca deixara de amá-la.

O relacionamento da mãe com o pai. Ela reconhece que era dura, insensível, exigente criticando, questionando o Marido (sonhador, doce, carinhoso). Ela confessa seus conflitos mais íntimos de relação com o marido... chega a envergonhar-se de sua confissões... mas reconhece que amava o marido.

O conto fala de uma mulher solitária que escreve uma carta para o filho, não tendo mais ninguém para desabafar suas mágoas e seu remorso. Sente falta e saudade atroz do marido, que ela mesma expulsara de casa. Agora, ao recordar suas atitudes amorosas, quer tê-lo de volta. Mas o tempo é outro. O filho responde-lhe num bilhete: o pai morreu, falando do seu amor por ela.

Fonte:
Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) – 10. Conto – O Calor das Coisas

O CALOR DAS COISAS


Ambiente:
Vida de um homem obeso, sua alma, seus sentimentos.

Foco narrativo:
Terceira Pessoa.

Personagens:
= Oscar: Homem obeso sofre os padecimentos que lhe advém da obesidade: falta de compreensão da própria mãe, discriminação dos amigos.
= Mãe de Oscar
= Amigos de Oscar

Conta a história do Oscar, um homem obeso que ganhou o apelido de “pastel” na infância por causa da gordura. Era um comedor de pastéis compulsivo. Existe uma relação estranha entre ele, a mãe e a comida. A mãe fingia não ver a gordura do filho, a comida para ela era sinônimo de amor. Oscar comia para agradar a mãe. A comida é uma forma de sequestro e chantagem, enquanto ele comia e engordava e se desfigurava, a mãe o mantinha junto a si.

O texto fala da infelicidade de ser obeso. A mãe quer ser carinhosa, mas não percebe que fere profundamente o filho quando o chama de "pastel". Então o filho desenvolve uma revolta surda contra a mãe. Mas afinal, é incapaz de ser agressivo com ela.

Fonte:
Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

domingo, 17 de janeiro de 2021

Fabiane Braga Lima (Mãos que sangram)


No sobrado ao lado de minha casa, sempre escutava gritos, era um casal discutindo perto de seus filhos, a esposa estava numa cadeira de rodas, com as pernas amputadas, devido ao acidente de serviço.

Da janela de minha casa pude notar, assim que seu esposo saia puxava sua cadeira de rodas pela rua e entrava na casa de uma senhora.

E, as crianças ficavam sozinhas por um bom tempo, também não frequentavam escola, o pai não os deixavam estudar. Cheguei até ela, e perguntei: — Porque deixa seus filhos sozinhos em casa?

Assustada foi embora...

Certo dia, fiquei sabendo que aquela senhora, era uma professora aposentada, foi então, que descobri que estava estudando, e infelizmente as discussões com seu esposo não cessaram.

Era um homem rígido de pouco caráter! Podia ouvir seus gritos pelo quarteirão com sua esposa, que se encontrava numa cadeira de rodas, e não conseguia se defender. Descobri que ela estava tendo aulas com aquela senhora, na qual era uma professora, para que depois, pudesse ensinar seus filhos.

Suas mãos sangravam, pois, aquela cadeira de rodas era antiga! Havia tanto amor naquela mulher, seus filhos estavam alfabetizados e logo frequentariam a escola como toda criança.

E, ali estava uma guerreira, que nunca se deixou levar pela estupidez do esposo, com mãos ensanguentadas, mas com alma serena. Nada impediu aquela mãe de alfabetizar os filhos, nem mesmo suas pernas amputadas.

Um ano depois, fiquei sabendo que seus filhos, estavam estudando e vivendo como toda criança merece. Quanto ao homem, deixou a família, esposa em uma cadeira de rodas, debilitada, filhos ainda pequenos, pois nunca quis aceitar a verdade. Toda criança merece um estudo adequado!

Fonte:
Texto enviado por Samuel C. Da Costa

A. A. De Assis (Maringá Gota a Gota) As irmãs do Santa Cruz


Todos os nossos pioneiros são dignos de máximo respeito, além de credores de justa gratidão da parte de todos nós que deles herdamos esta encantadora cidade. Eram, em sua grande maioria, colonos ou pequenos proprietários em outras regiões do país, alguns em distantes rincões do mundo. Tiveram a coragem de trocar a tranquilidade do chão natal pela ousadia de abrir clareiras na mata para formar lavouras e plantar cidades. Movia-os, contudo, um motivo forte: a esperança de fazer aqui o pé-de-meia.

Dá então para entender o arrojo dos homens e mulheres que chegaram nas primeiras caravanas e em Maringá plantaram as primeiras sementes, ergueram os primeiros ranchos, instalaram as primeiras serrarias, montaram as primeiras vendinhas, as primeiras oficinas, as primeiras clínicas etc. etc.

Admiro demais o heroísmo dos nossos abridores de caminhos. Mas o que me fascina ainda mais nessa história de bravos é pensar no tipo de impulso que trouxe para cá os que vieram sem nenhum propósito em benefício próprio: os primeiros padres, irmãos, irmãs, pastores, pastoras, ou seja, os que vieram em missão de fé.

Relendo a obra-prima do padre Orivaldo Robles – “A igreja que brotou da mata”, vi lá uma foto da chegada das irmãs carmelitas (18.6.1952). Sete freirinhas espanholas, trazidas pelo então bispo de Jacarezinho, Dom Geraldo Sigaud, com a responsabilidade de instalar no Maringá Velho o Colégio Santa Cruz.

Lideradas pela Irmã Pilar, em pouco tempo mobilizaram as famílias pioneiras, construíram a capela e, logo após, as salinhas onde receberam as primeiras alunas.

Na cabeça delas jamais passara a mínima ideia de ganhar dinheiro ou angariar qualquer outro tipo de vantagem. Mas seu coração pipocava de alegria pela certeza de que estariam ajudando a semear cultura e espiritualidade num mundo novo.

Pensando nelas, penso também nos irmãos que vieram trabalhar na Santa Casa, no Colégio Marista, penso nas irmãs do Albergue, do Lar dos Velhinhos, do Lar Escola, dos Colégios Santo Inácio, São Francisco Xavier, Regina Mundi.

Só Deus sabe o que leva tantos moços e tantas moças, movidos pela misteriosa força de uma santa vocação, a deixarem família, pátria e qualquer projeto pessoal para servir de graça onde forem chamados.

Todos os pioneiros merecem, sim, máxima admiração. Porém ao lado deles, pelo muito que fizeram por todos nós, há de haver sempre um lugar mais do que especial para os pioneiros e pioneiras da fé. A bênção, Irmã Pilar.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 31-12-2020)

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) – 9. Conto – A Sereia Ulisses

A SEREIA ULISSES


Ambiente:
A história se passa entre Rio de Janeiro e a Europa, mas fala muito bem do ambiente interior da alma de PN.

Foco Narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:
PN: Personagem principal que fala de sua vida.
Antônio: Amigo de PN.
Sílvia: Amiga de PN que se casa com Antônio.
1º Marido
2º Marido
3° Marido: Pedro de Alcântara Miggioro.
Amigas de PN

O texto conta a história de PN, narrada por ela mesma. Orgulhosa, ela não ouve opiniões de outros.

Prepotente, impõe suas próprias condições. PN se desfaz de pessoas com alpiste e migalhas de pão. Essa referência lembra a história de João e Maria que deixaram marcas para poder voltar. Mas as migalhas desapareceram e não puderam encontrar o caminho de volta. 0 fato de emocionar-se com as novelas de Janete Clair mostra que PN, no fundo, tem um coração sensível Suas atitudes são mecanismos de defesa. Ela mesma confessa que é “vulnerável cheia de labaredas". Quanto ao rapto, trata-se, sim, de mais uma de suas aventuras, um rapto consentido por ela, mas que não quer que dure muito. Por isso, determina quando devem resgatá-la.

Entre tantos Pedros de Alcântara, um tem sobrenome, isto é, distingue-se dos demais, chama a atenção dela. PN prossegue em sua "vida planejada até o dia em que as situações lhe fogem do controle e ela não mais consegue segurar junto de si, nem o homem que a amara, nem o que ela amou. Então vive de recordações.

Perde o ímpeto para a luta. Não consegue voltar atrás. Passou-se o tempo. Os passarinhos comeram o alpiste e as migalhas de pão. Não há como encontrar o caminho de volta. Enfim, ela percebe que sua voracidade não lhe rendera benefício algum. Não percebera quando o amor esteve com ela. 0 texto do bilhete demonstra o quanto ela se sentia segura de si mesma e dona de próprio-tempo, tanto que pode definir a data e hora para o resgate. As iniciais PN são as da autora em ordem invertida.

Fonte:
Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

sábado, 16 de janeiro de 2021