sábado, 14 de março de 2026

José Feldman (O Fantasma no Servidor)

Texto sobre a expressão “Navalha de Ockham”*

Fidelsino era analista de sistemas sênior e adorava teorias complexas. Quando o servidor principal da startup de tecnologia onde trabalhava começou a travar misteriosamente todas as terças-feiras às 14h, não pensou em falhas comuns.

Ele convocou a equipe. 

"Não é um bug simples!", explicou ele, ajustando os óculos. "O padrão das quedas é errático demais. Minha teoria é que sofremos uma invasão de hackers usando inteligência artificial quântica, que está garimpando dados criptografados apenas na área de segurança do servidor, criando um pico de energia que simula um erro de hardware."

A equipe ficou impressionada. Era uma teoria digna de um filme. Passaram dois dias vasculhando logs, comprando firewalls mais caros e isolando a rede principal. A ansiedade era alta. A "invasão de IA" parecia real, especialmente porque o servidor falhou na terça seguinte.

A gerente da empresa, Marina, mais pragmática, chamou Fidelsino no canto.

— Fidelsino, a sua teoria é genial, mas e se a causa for mais simples?

— Mas Marina, os dados mostram...

— Vamos olhar o óbvio — disse ela, caminhando até a sala dos servidores. — Quem tem acesso a esta sala na terça à tarde?

Ele conferiu o registro. 

— Só a equipe de manutenção de limpeza, às 13h50... Por que?

Marina observou o rack de servidores. A luz vermelha piscava no servidor principal. Ela notou algo na base que o cabo de energia principal estava folgado. Ao lado, havia uma tomada de parede com uma caixa de som grande, colocada ali pela equipe de limpeza, que tocava música, e cujo fio estava conectado à mesma tomada que vibrava o servidor.

— Fidelsino!— disse ela, empurrando o plugue do servidor para o fundo da tomada. — A "IA quântica" é a equipe de limpeza conectando a caixa de som, o que afrouxa o cabo do servidor principal, que já estava com o plugue desgastado. A vibração derruba a máquina.

Ele sentiu o rosto esquentar. O cabo frouxo era a resposta correta. A teoria da IA exigia hacks, criptografia e conspiradores. A realidade exigia apenas uma tomada nova.

A empresa parou de ter problemas na terça-feira.

Moral
"Entre duas explicações que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta." A Navalha de Ockham nos ensina que, diante de um problema, devemos eliminar as complicações desnecessárias antes de buscar soluções mirabolantes. Geralmente, a verdade não é uma conspiração complexa, mas algo que está bem diante dos nossos olhos.
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*A Navalha de Ockham, ou princípio da parcimônia, é uma ferramenta heurística da filosofia e ciência que sugere que entre hipóteses que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples (com menos suposições desnecessárias) costuma ser a correta. Criado por Guilherme de Ockham (séc. XIV), o método elimina complexidades desnecessárias para facilitar a verificação e compreensão de teorias. Ou seja, a explicação mais simples é preferível. Teorias simples são mais fáceis de testar e verificar. Não é uma regra absoluta de verdade, mas um guia de probabilidade; a explicação mais simples nem sempre é a verdadeira. O princípio busca a "economia intelectual", cortando suposições supérfluas (como uma navalha) para chegar à teoria mais elegante e plausível. (wikipedia)
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem: https://oftavision.com.mx/merida/

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 5


Para criar um texto que aborde temas tão pesados (abandono, maus-tratos e indiferença) sem soar como um sermão, o segredo é usar o Cotidiano como Contraste. No conto, o horror desses temas é mais impactante quando aparece nos pequenos detalhes: uma geladeira vazia, um latido que ninguém atende, uma mensagem visualizada e não respondida.

Aqui está um esboço estruturado e exemplos de como materializar esses sentimentos:

1. A Estrutura: O "Efeito Dominó" da Indiferença

Em vez de tratar os temas isoladamente, conecte-os através de um único personagem ou de uma vizinhança. Isso mostra que a falta de amor é sistêmica.

O Cenário: Um prédio antigo ou uma rua sem saída (metáforas para o isolamento).

O Personagem "Lente": Alguém que observa tudo, mas também é vítima ou cúmplice do silêncio.

2. Exemplos de como "Mostrar" em vez de "Dizer"

a) Sobre o Abandono de Idosos (O Silêncio)

Não diga "ele estava abandonado". Mostre a passagem do tempo e a irrelevância social.

A Cena: O Sr. Antenor coloca a mesa para dois todos os domingos, embora o filho não apareça há três anos. Ele veste sua melhor camisa apenas para esperar o carteiro, que é a única pessoa que diz seu nome em voz alta.

O Objeto: O telefone fixo que só toca para oferecer promoções de telemarketing.

b) Sobre Maus-tratos com Animais (A Indiferença)

O maltrato no cotidiano muitas vezes é a omissão.

A Cena: No quintal vizinho, o cachorro late ritmicamente, como um metrônomo. O som já faz parte do ruído da rua, como o motor de uma geladeira. As pessoas reclamam do barulho, mas ninguém se pergunta por que o pote de água está seco e virado.

O Detalhe: O personagem principal aumenta o volume da TV para não ouvir o ganido quando a chuva começa.

c) Sobre a Falta de Amor com Próximos (O Egoísmo)

Isso se manifesta na pressa e na falta de presença real.

A Cena: Uma filha que visita a mãe idosa, mas passa o tempo todo no celular. Ela traz comida pronta e cara, achando que isso substitui o afeto. Quando a mãe tenta contar um sonho, a filha interrompe: "Tenho uma reunião em dez minutos, mãe. Come logo".

O Diálogo: Frases curtas e protocolares. "Está tudo bem?", "Precisa de dinheiro?", "Tchau".

3. Esboço Prático de um Conto Único

Título Sugerido: O Som das Coisas que Não Importam

Início: Conhecemos Dona Rosa, que conversa com um vira-lata manco que fica no portão dela. Ela é a única que o alimenta. Ela espera um telefonema do neto (o abandono e o cuidado com o animal se cruzam).

Meio: O neto chega de surpresa, mas apenas porque precisa que ela assine um documento de herança ou venda. Ele chuta o cachorro para fora do caminho ao entrar. Aqui, o maltrato animal e a falta de amor familiar colidem.

Clímax: Dona Rosa percebe que o cachorro, mesmo ferido, tem mais lealdade a ela do que o sangue do seu sangue. Ela se recusa a assinar e fecha a porta, ficando sozinha com o animal.

Fim (A Ironia): O neto sai reclamando do "cheiro de bicho" e da "teimosia da velha", enquanto o leitor sente o peso da solidão dela, que agora é sua única proteção.

Washington Daniel Gorosito Pérez (Morreu o escritor peruano Alfredo Bryce Echenique)

(tradução do espanhol por José Feldman)
A literatura mundial está de luto. Considerado uma das vozes mais influentes da literatura latino-americana, o escritor peruano Alfredo Bryce Echenique (Lima/Peru; 1939 – 2026) faleceu aos 87 anos. Embora alguns jornalistas tenham tentado incluí-lo no movimento do "boom literário", Alfredo sempre rejeitou essa afirmação:

"Eu era distante deles, tanto por causa da minha origem social e do meu meio, quanto por causa da minha educação e dos meus desejos mais íntimos. O brilho dos mestres me cegou", declarou em entrevista ao jornalista Xavi Ayén, autor do livro "Aqueles Anos do Boom Literário".

Completou o ensino fundamental na Escola do Imaculado Coração. Cursou o ensino médio na Escola Santa María Marianistas e na Escola San Pablo, um internato britânico em Lima. Em 1957, ingressou na Universidade Nacional de San Marcos, em Lima, e se formou em Direito.

Em 1977,  obteve seu doutorado em literatura pela mesma universidade. Esta é uma razão mais do que válida para que seus restos mortais sejam velados na Casona da Universidade de San Marcos, a primeira universidade das Américas, fundada em 1551 por Decreto Real. Também estudou na Universidade Católica do Peru e na Sorbonne, na França, onde também lecionou.

Sua primeira universidade o homenageou durante a conferência internacional: “Alfredo Bryce Echenique: A Poética da Oralidade, da Ironia e da Memória”. Este encontro acadêmico comemorou o 55º aniversário de sua grande obra, “Um Mundo para Júlio”, e o 25º aniversário de “Não Me Espere em Abril”.

No evento, foi anunciado que os manuscritos do romance “Um Mundo para Júlio” seriam preservados pelo Instituto Cervantes do Governo Espanhol, em sua sede em Madri.

Ambos os romances são obras fundamentais da literatura latino-americana. No evento acadêmico, o escritor declarou: “É uma grande honra que minha vida esteja sendo estudada na primeira universidade onde me formei”.

Durante um período de sua vida, Bryce Echenique lecionou na Escola San Andrés, em Lima, onde ministrou aulas de Língua e Literatura Espanhola.

A Cátedra Vargas Llosa e a Casa da Literatura Peruana concordam que: “A literatura do século XX não pode ser compreendida sem a sua voz e a sua obra. Seu legado cultural e intelectual e sua defesa da liberdade são imensuráveis.”

O romance "Um Mundo de Júlio" foi sua primeira e, sem dúvida, sua obra mais emblemática. Com ele, ganhou o Prêmio Nacional de Literatura do Peru e, posteriormente, também foi reconhecido na França.

É considerado por especialistas em literatura peruana, juntamente com o romance "Conversas na Catedral", do escritor peruano-espanhol Mário Vargas Llosa, como um dos melhores romances peruanos de todos os tempos. O escritor, nascido em Lima, publicou uma dezena de romances e dezenas de contos. Bryce Echenique viveu entre a Europa (França e Espanha) e seu Peru natal.

Em 1998, ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa da Espanha por sua obra "Prisioneiro da Noite". Ao longo de sua extensa carreira literária, também cometeu alguns deslizes, como quando, em 2009, foi multado em aproximadamente US$ 48.000 pelo Instituto Nacional de Defesa da Concorrência e Proteção da Propriedade Intelectual do Peru (Indecopi) após ser comprovado o plágio de uma série de artigos publicados em veículos de comunicação no Peru e na Espanha. Como resultado desse "tropeço", sua concessão do Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), a mais importante da América Latina e do Caribe, em 2012, foi questionada, provocando alguns protestos contra ele. Naquele mesmo ano, Bryce Echenique publicou seu último romance: "Sentindo pena da tristeza".

Em entrevista ao jornal La República, em setembro de 2024, o escritor peruano ofereceu alguns conselhos a jovens escritores:

“Eu diria para viajarem. É impressionante como o mundo mudou para os escritores. Antes, todos queriam ir a Paris; agora, os escritores querem ir a Madri. Tenho muitos amigos escritores em Madri, como Jorge Eduardo Benavides, que mora na Espanha há muitos anos. Ele é um bom exemplo de persistência.”

Seu amigo, o escritor peruano Benavides, ao saber da morte de Arturo, disse, entre outras coisas: “Com a morte de Bryce Echenique, perdemos uma das últimas grandes figuras da literatura latino-americana contemporânea, um homem reconhecido por seu estilo narrativo caracterizado por humor, ternura e um olhar crítico em relação à elite de Lima — traços que marcaram grande parte de sua obra literária.”

Alfredo Bryce não era político, mas tinha sua própria opinião sobre o escritor e o político: “Quando um artista, seja ele escritor ou o que for, se aproxima do poder, é para ser um bobo da corte. O homem no poder sempre vai querer que o artista o entretenha.”

Ele viveu em Barcelona, ​​na Espanha, cidade à qual dedica um lugar especial em suas "antimemórias": "Só houve uma cidade na minha vida, e foi essa", declarou o escritor.

Em entrevista ao jornal Perú21, Arturo Bryce Echenique afirmou que a literatura foi sua salvação: "Ela me salva até hoje. A literatura é uma salvação muito duradoura."

A morte de Alfredo Bryce Echenique encerra a obra de um escritor de grande influência na literatura de seu país, a República do Peru, e também na literatura latino-americana. Sua obra permanece conosco.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Facebook de Washington Daniel Gorosito Pérez
https://www.facebook.com/washingtondaniel.gorositoperez/

sexta-feira, 13 de março de 2026

Asas da Poesia * 161 *


Poema de
JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO
Barcelona/Espanha (1928 – 1999)

Neste Mesmo Instante...

Neste mesmo instante
há um homem que sofre,
um homem torturado
tão somente por amar
a liberdade. Ignoro
onde vive, que língua
fala, de que cor
é sua pele, como
se chama, mas
neste mesmo instante,
quando teus olhos leem
meu pequeno poema,
esse homem existe, grita,
pode-se ouvir seu pranto
de animal acossado,
enquanto morde os lábios
para não denunciar
os amigos. Ouves?
Um homem só
grita amarrado, existe
em algum lugar. Eu disse só?
Não sentes, como eu,
a dor de seu corpo
repetida no teu?
Não te brota o sangue
sob os golpes cegos?
Ninguém está só. Agora,
neste mesmo instante,
também a ti e a mim
nos mantêm amarrados.
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Trova de
FERRER LOPES
Queluz/Portugal

As sementes da mentira,
e da calúnia também,
giram num mundo que gira
na lama que o mundo tem.
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Soneto de
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Destino

Nossa vida faz patético percurso
Até aquela final nota de ironia, 
Das cartas sempre o último recurso
Pra velar sua vocação que é a poesia.

Tenho medo da leitura da cigana,
Conquanto muitas vezes enganosa,
Quando lendo nossa vida nos engana,
Pensa dar gato e dá poesia pela prosa.

Da resposta não temos o tal código
Como um pai não saberá antes da hora
Se pra casa volta o filho pródigo...

Tudo é mistério: estamos às escuras,
Quem mente para a gente jamais cora,
Também não aquela face que procuras…
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Poema de
ARMANDO GUEBUZA
Murrupula, Província de Nampula/Moçambique

As tuas dores

As tuas dores
mais as minhas dores
vão estrangular a opressão

Os teus olhos
mais os meus olhos
vão falando da revolta

A tua cicatriz
mais a minha cicatriz
vão lembrando o chicote

As minha mãos
mais as tuas mãos
vão pegando em armas

A minha força
mais a tua força
vão vencer o imperialismo

O meu sangue
mais o teu sangue
vão regar a Vitória.
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Trova Popular

O amor entra pros olhos,
vai pro peito direitinho.
Amor embebeda a gente
como cachaça com vinho.
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Soneto de
FRANCISCO DAS CHAGAS ESMERALDO MOURÃO
Brasília/DF

Fúria da natureza

Soprava forte o vento sobre as águas
Galhos e folhas voando pelos ares
Furiosa a natureza são as mágoas
Com a depredação, lamúria e males.

Inundação sufoca nas cidades
Desliza morro casas morre gente
Lassidão à dor, a infelicidade,
O vil ledo ignora sorridente.

Quem tem algum, põe fogo e desmata,
Não se preocupa, pensa em se dar bem,
Não Sabe as consequências que advém.

Mais uma vez devasta a natureza
Destruindo e provocando absurdos
Sofre o inocente, sem qualquer escudo.
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Poema de
BETTY VIDIGAL
São Paulo/SP

O amor dos outros

O amor dos outros
é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.

O amor dos outros
é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.

Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?

O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
- só o da gente
será eterno.

Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!
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Trova Humorística de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Nas Bodas de Ouro, ela encuca:
- Quer, meu bem, uma canjinha?
Grita o velho: - Tá caduca?
Que culpa tem a galinha?
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Soneto de
DANIEL TOMAZ WACHOWICZ
Taboão da Serra/SP

A voz de uma pedra

Sou pedra. Falo feito pedra bruta,
Dura, tão dura igual palavra dura,
Palavra pedra, dura, forte e pura.
Daqui não saio, tem que ter disputa,

E pedra bate sempre bruta, forte,
Impenetrável, grave, tesa e brava,
Massa pesada, voz que é bruta clava,
Som estridente de pavor e morte.

Tenho vontade pétrea impenetrável,
De duros sentimentos, maleável
Nunca, teimosa sempre, sou teimosa

E provarei para vocês agora.
Posso virar estátua que decora,
Mas permaneço toda pedregosa.
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Spina de
REJANE NASCIMENTO
Caratinga/MG

Rememorar 

Recordo da juventude,
reconheço os momentos 
aquietando o coração.

Não tem como não lembrar 
do meu jeito meigo, carinhoso.
Agradeço com uma bela oração.
Trago poesia escrita pela vida;
minha alma canta uma canção.
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Poema de
ORIDES FONTELA
São João da Boa Vista/SP (1940-1998) Campos do Jordão/SP
 
Elegia (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que

o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.
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Poema de
HILDA HILST
São Paulo/SP, 1930 – 2004, Campinas/SP

XLII

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.
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Trova Humorística de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Menininho, numa prova,
sabiamente assim se exprime:
– Lua nova?... Lua nova
é a cheia que fez regime!
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Hino de 
LORENA/ SP

Guaypacaré das eras coloniais
Surgida no roteiro das "bandeiras"
Que escalaram sertões e cordilheiras
A demandar as minas cataguases.

Do Paraíba à margem, teus pioneiros
Erigiram à Virgem uma ermida,
E entre bênçãos a terra protegida
Na Vila Hepacaré fez suas bases.

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!

Do solo teu que o braço escravo arou,
Brotaram verde-rubros cafezais,
E pelo Vale, imensos canaviais,
Do teu progresso indústrias se tornaram.

Os teus heróis que a história consagrou ·
Batalharam por nobres ideais,
Na jornada imortal dos Liberais,
Intrépidos os filhos teus tombaram!

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!

Do teu passado, rico em tradições,
Cantamos no teu hino toda a glória,
Na exaltação da tua bela história,

A esta gente brava e varonil.
E contemplando as tuas gerações,
Oh! Lorena de outrora e do presente
Te confiamos nobre sonho ardente:
O esplêndido futuro do Brasil

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!
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Poema de
AFFONSO MANTA
Salvador/BA

O realejo de vinho

Para quem me queira ouvir:
Sou um homem aos frangalhos.
Parte por culpa de tudo.
Parte por culpa de nada.

E digo mais ao casual
Ouvinte deste relato:
Não sendo herdeiro nem rico,
Não tenho crédito na praça.

Amo as japonas escuras
De mangas e tudo vasto.
E os colarinhos puídos
Uso desabotoados.

Ao pôr a minha gravata,
Fabrico um laço bem largo.
E acho triste andar com ela.
E mais tristes as gravatas.

Eu nunca faço questão
Que uma roupa seja cara.
Mas ampla e, sendo possível,
Com certo ar desesperado.

Eu prefiro aos bons charutos
Um velho e forte cigarro.
E odeio fumar cachimbo
Pois sou muito angustiado.

No mais, um vento me agita,
Interior e largado.
E me devasta os cabelos,
Rosto, sorriso e palavra.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O avarento que perdeu o tesouro

Quem não usa não tem, reza o adágio;
E é bem verdadeiro;
Pois nada prestará, sem o gozarmos,
Acumular dinheiro.
Esopo, no seu conto
Do tesouro escondido,
Fornece belo exemplo ao nosso ponto.

Houve outrora um avarento
Que ouro sobre ouro juntava,
E nem um real gastava:
Dele escravo e não senhor,
Ao vê-lo, imaginaríeis
Que a fortuna assim unida
Guardava para outra vida,
Para outro mundo melhor.

Enterrou-o numa cova,
E a alma enterrou com ele.
Coma, beba, durma, vele,
O seu único prazer
É pensar a cada instante
No seu virginal erário,
Que adora, como sacrário;
E a cada instante ir vê-lo.

Foi lá, foi lá tantas vezes,
Que um cavador, com suspeita
Do mistério, a cova estreita
Abriu, e tudo roubou.
Pouco depois o avarento
O passeio acostumado
Fez ao seu ouro adorado,
Mas... só o ninho lhe achou!

Pasma; lágrimas derrama;
Soluça; geme; suspira;
De raiva os cabelos tira.
É um sonho! Não o crê!
Nisto acaso um viandante
Por aquele sítio passa,
E com dó de tal desgraça
Pede a razão do que vê.

«Roubaram-me o meu tesouro!»
— O teu tesouro roubaram?
E em que lugar o encontraram?
— Junto desta pedra; aqui.
— Por que o trouxeste tão longe?
Receias alguma guerra,
Para o esconderes na terra
De todos, e até de ti?

Veio espairecer no campo?
Antes em casa guardado
Estivesse a bom recado,
E tu a vê-lo, e a gastar.
— Eu gastar o meu dinheiro!
O meu dinheiro? Estás louco!
Custa ganhá-lo tão pouco?
Eu nunca lhe ousei tocar!

— Que me dizes! Impossível!
— Nunca! — Então inútil era.
E a mágoa te desespera?!
Famoso! Deixem-me rir!
Nesse caso, põe na cova
Uma pedra: o mesmo importa
Que a tua riqueza morta;
Do mesmo te há de servir.»
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Mensagem na Garrafa 157 = Escola de anjos


AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez, há muitos e muitos anos, uma escola de anjos. Conta-se que naquele tempo, antes de se tornarem anjos de verdade, os aprendizes de anjos passavam por um estágio. Durante um certo período, elas saíam em duplas para fazer o bem e no final de cada dia, apresentavam ao anjo mestre um relatório das boas ações praticadas.

Aconteceu então, um dia, que dois anjos estagiários, depois de vagarem exaustivamente por todos os cantos, regressavam frustrados por não terem podido praticar nenhum tipo de salvamento sequer.

Parece que naquele dia, o mal estava de folga. Enquanto voltavam tristes, os dois se depararam com dois lavradores que seguiam por uma trilha. 

Neste momento, um deles, dando um grito de alegria, disse para o outro:

- Tive uma ideia. Que tal darmos o poder a estes dois lavradores por quinze minutos para ver o que eles fariam?

O outro respondeu: - Você ficou maluco? O anjo mestre não vai gostar nada disto! 

Mas o primeiro retrucou:
- Que nada, acho que ele até vai gostar! Vamos fazer isto e depois contaremos para ele. 

E assim o fizeram. Tocaram suas mãos invisíveis na cabeça dos dois e se puseram a observá-los. Poucos passos adiante eles se separaram e seguiram por caminhos diferentes.

Um deles, após alguns passos depois de terem se separado, viu um bando de pássaros voando em direção à sua lavoura, e passando a mão na testa suada disse:

- Por favor meus passarinhos, não comam toda a minha plantação! Eu preciso que esta lavoura cresça e produza, pois é daí que tiro o meu sustento. 

Naquele momento, ele viu espantado a lavoura crescer e ficar prontinha para ser colhida em questão de segundos. Assustado, ele esfregou os olhos e pensou: devo estar cansado... e acelerou o passo.

Aconteceu que logo adiante ele caiu ao tropeçar em um pequeno porco que havia fugido do chiqueiro. Mais uma vez, esfregando a testa ele disse:

- Você fugiu de novo meu porquinho! Mas, a culpa é minha, eu ainda vou construir um chiqueiro decente para você. 

Mais uma vez espantado, ele viu o chiqueiro se transformar num local limpo e acolhedor, com água corrente e o porquinho já instalado no seu compartimento. Esfregou novamente os olhos e apressando ainda mais o passo disse mentalmente: estou muito cansado!

Neste momento ele chegou em casa e, ao abrir porta, a tranca que estava pendurada caiu sobre sua cabeça. Ele então tirou o chapéu, e esfregando a cabeça disse: – De novo, e o pior é que eu não aprendo. Também, não tem me sobrado tempo. Mas ainda hei de ter dinheiro para construir uma
grande casa e dar um pouco mais de conforto para minha mulher. 

Naquele exato momento aconteceu o milagre. Aquela humilde casinha foi se transformando numa verdadeira mansão diante dos seus olhos. Assustadíssimo, e sem nada entender, convicto de que era tudo decorrente do cansaço, ele se jogou numa enorme poltrona que estava na sua frente e, em segundos, estava dormindo profundamente. 

Não houve tempo sequer para que ele tivesse algum sonho. Minutos depois ele ouviu alguém pedir 

– Socorro: compadre! Me ajude! Eu estou perdido! 

Ainda atordoado, sem entender muito o que estava acontecendo, ele se levantou correndo. Tinha na mente, imagens muito fortes de algo que ele não entendia bem, mas parecia um sonho. Quando ele chegou na porta, encontrou o amigo em prantos. Ele se lembrava que poucos minutos antes eles se despediram no caminho e estava tudo bem. Então perguntando o que havia se passado ele ouviu a seguinte história:

“- Compadre nós nos despedimos no caminho e eu segui para minha casa, acontece que poucos passos adiante, eu vi um bando de pássaros voando em direção à minha lavoura. Este fato me deixou revoltado e eu gritei:

“- Vocês de novo, atacando a minha lavoura, tomara que seque tudo e vocês morram de fome!

“Naquele exato momento, eu vi a lavoura secar e todos os pássaros morrerem diante dos meus olhos!

“Pensei comigo, devo estar cansado, e apressei o passo. Andei um pouco mais e cai depois de tropeçar no meu porco que havia fugido do chiqueiro. Fiquei muito bravo e gritei mais uma vez:

“- Você fugiu de novo? Por que não morre logo e para de me dar trabalho? 

“Compadre, não é que o porco morreu ali mesmo, na minha frente! Acreditando estar vendo coisas, andei mais depressa, e ao entrar em casa, me caiu na cabeça a tranca da porta. Naquele momento, como eu já estava mesmo era com raiva, gritei novamente: 

“ – Esta casa... Caindo aos pedaços, por que não pega fogo logo e acaba com isto?... 

Para surpresa meu compadre, naquele exato momento a minha casa pegou
fogo, e tudo foi tão rápido que eu nada pude fazer! Mas... compadre, o que aconteceu com a sua casa?... De onde veio esta mansão?

Depois de tudo observarem, os dois anjos foram, muito assustados, contar para o anjo mestre o que havia se passado.

Estavam muito apreensivos quanto ao tipo de reação que o anjo mestre teria. Mas tiveram uma grande surpresa. O anjo mestre ouviu com muita atenção o relato, parabenizou os dois pela ideia brilhante que haviam tido, e resolveu decretar que a partir daquele momento, todo ser humano teria 15 minutos de poder ao longo da vida. Só que, ninguém jamais saberia quando estes 15 minutos de poder estariam acontecendo.
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Será que os 15 minutos próximos serão os seus? Muito cuidado com tudo o que você diz, como age e aquilo que pensa! Sua mente trabalhará para que tudo aconteça, seja bom ou ruim.