sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Entrevista com Jafran Bastos (O olhar de um peregrino das letras)

O escritor fala do seu amor pela literatura e indica Fernando Pessoa como leitura obrigatória

Peregrino que sou, ando atrás de um cristal que pertencia ao Rei de Ibitiporã. Bastava alguém botar por sobre ele as mãos, e as dores e as tensões e as angústias findavam.

Em Ibitiporã, as coisas, lá, viviam em perfeita harmonia; e no âmago de tudo havia um deus de amor, de pazes, de alegrias. Graças, vê-se, à magia e ao calor do cristal.

Sombras na minha vida ocultaram meu sol. Minha alma é uma ilha afogada em ruínas. Desabei-me em meu mar. Mas a fome de ser me faz crer que ainda existe um cristal e um lugar. Preciso reencontrar esse país divino, pôr as mãos no cristal e andar num chão de céu.

O poema acima, O peregrino e o cristal, de autoria do escritor Jafran Bastos, define bem o olhar que ele tem por sua cidade e, também, o sentimento que o acompanha desde o dia em que, aos 21 anos, o menino de Santo Antônio de Pádua, na região noroeste do Estado, saiu da sua terra para estudar e se entregar à alegria do mundo das letras. Como bom entendedor que é, percebeu o tempo, amadureceu e graduou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Hoje, o ilustre paduano é o entrevistado do JB Niterói. Com a riqueza de sua cultura, ele fala sobre o amor por sua cidade, por Niterói, pela literatura, família e trabalho.

Como foi sua infância?

Foi muito boa. Pobre, mas muito boa. Sempre que posso eu volto para rever os amigos e parentes que ficaram por lá. Às vezes, tenho vontade de voltar definitivamente. Mas não dá mais. Pádua é outra e eu também sou outro. Nada ficou igual. Mas sou muito feliz aqui. Tenho minha esposa, os filhos estão criados... Na verdade, enquanto eu morava no Rio, por conta dos estudos, pensava muito em vir para Niterói. Sempre quis morar aqui.

Por que literatura?

Eu aprendi a ler aos 5 anos. Meu pai, semi-analfabeto, que me ensinou. Então eu sempre tive contato com as letras. As coisas foram acontecendo e eu me apaixonei pela leitura. Já aos 7 anos eu escrevia textinhos e poemas infantis.

Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

As duas coisas, mas a vocação é o ponto de partida. O exercício da escrita te ajuda muito a melhorar a qualidade do texto, mas se você não tiver vocação, o que você está desenvolvendo não flui. O segredo do escritor é saber usar a palavra. Tem que saber aproveitar o que a palavra pode te proporcionar.

Como surge o momento de escrever um livro?

Olha, ninguém parte do nada. Eu entendo que escrever é um processo, um somatório de várias coisas que você vive, de experiências, tanto suas quanto dos outros. No meu livro, eu falo sobre a solidão e a angústia. Não é só sobre meus momentos, mas solidão e angústia do mundo. Todos já viveram momentos como estes. Até Jesus já passou por momentos de solidão. Na cruz ele perguntou: ‘Pai, por que me abandonastes?’ O maior homem da história da humanidade se sentiu angustiado, sozinho... porque os simples mortais não vão se sentir?

Quanto tempo você levou escrevendo o livro?

O grito da ilha foi escrito aos poucos. Na realidade, escrevi sete poemas para um concurso da faculdade, em 1979. Ganhei este concurso e achei que os sete poemas davam um livro. Com o tempo, eu fui escrevendo outros, até que esse ano eu pude reunir todos e lançá-los. Foi um livro que surgiu aos poucos.

Então esse livro é autoral, porque você passou boa parte da sua vida escrevendo-o?

É, a minha pessoa é parte desse livro.

Você acha possível um autor não se envolver com o que ele está escrevendo? Ser neutro?

Não. Acho impossível. Alguma coisa do autor vai ter no livro. Mesmo que seja um estudo científico ou jurídico o autor vai dar sua opinião.

O que você acha dessa moda, que chegou ao Brasil, de livros sendo digitalizados, narrados e gravados em mídia digital?

Eu acho que nada substitui o livro. Infelizmente, o brasileiro é um povo que não tem a cultura da leitura. Essa história toda de CD é boa porque desperta o interesse pela leitura. Mas, nada como ler! Lendo você está centrado, a emoção é toda sua. O sentimento tem que ser do leitor, principalmente quando é poesia.

Qual é a sua opinião sobre as Academias de Letras?

As Academias de Letras são muito importantes porque dão ao livro e ao autor a importância que eles têm. Elas mantêm a integridade da obra, protegem esse acervo literário. Principalmente em um país como o nosso, que não tem o hábito da leitura.

Na sua opinião, que livro da literatura da língua portuguesa deveria ser leitura obrigatória?

São muitos. A nossa literatura é riquíssima. Os Lusíadas, de Luís de Camões, é uma enciclopédia; os romances de Castro Alves; os de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Graciliano Ramos; o nosso Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis; Olavo Bilac, é outro pilar da cultura brasileira; Cecília Meirelles; Clarice Lispector e Macunaíma, de Mário de Andrade. Mas o leitor brasileiro tem a obrigação de ler Fernando Pessoa.

E por que você indica esses escritores?

Porque eles têm uma qualidade literária mágica.

Paulo Coelho se encaixa nessa qualidade literária?

Eu não gosto do Paulo Coelho, acho o texto dele uma porcaria. No entanto, ele está aí vendendo milhões de exemplares pelo mundo, né? O texto dele é fácil, não precisa pensar muito.

Desses autores todos que você citou, tem algum que te emociona mais?

Fernando Pessoa. É um encanto de escritor!

Em Niterói, há algum escritor que você admira?

Gosto muito do Wanderlino Teixeira Leite Netto, que é muito meu amigo. Tem uma escrita bem elaborada, bem direta. E na poesia admiro a Neuza Peçanha.

Aqui em Niterói há um mercado solidificado para a literatura?

Eu tenho a impressão de que não. Hoje em dia a leitura não é valorizada. Infelizmente!

Como surgiu a oportunidade de trabalhar em jornal?

Eu trabalhava na Petrobras, como revisor de textos, no setor chefiado pelo Ismael Prestes, marido da Estela Prestes. Aí, ela me convidou para fazer a revisão de textos do extinto jornal 7 dias, de propriedade dela. O tempo passou e, há 28 anos, trabalho com a Estela, que é uma pessoa fantástica, sensacional!

Fonte:
http://jbonline.terra.com.br/editorias/textosdoimpresso/jornal/niteroi/2008/09/13/niteroi20080913025.html

Lena Jesus Ponte (A poética do sim e do não)

A obra de Jafran Bastos é dotada de qualidade incontestável. Com alto grau de criatividade e domínio dos recursos literários, esse escritor transita, de maneira competente, por prosa e poesia, por formas fixas e versos livres e/ou experiências de vanguarda, por textos ora de caráter lírico, ora místico, ora crítico, ora filosófico. Aparição de Teobaldo Luz, Vozvento e Terceiro Milênio, ainda infelizmente inéditos, revelam vertentes de escrita bem diversas, por vezes antagônicas, à maneira das várias identidades assumidas por Fernando Pessoa, apenas sem os heterônimos. Jafran é também um “fingidor”, com suas múltiplas faces inventadas.

Neste O Grito da Ilha, encontramos o poeta no ápice da maturidade literária. Em 1980, participou de um concurso de poesias com 7 poemas que, embora independentes, apresentavam um denominador temático comum – a solidão. Premiado, resolveu posteriormente ampliar esses textos e os reuniu neste longo poema em 8 cantos, que agora o público tem a oportunidade de fruir.

O presente livro, como toda obra de arte que ousa romper com cânones, ainda que os tenha como referenciais importantes, causa um estranhamento inicial. Pela sua estrutura em cantos, à primeira vista engana o leitor que espera um épico nos padrões tradicionais. Com o decorrer da leitura, percebe-se que o termo “canto” não se limita a referir-se a cada uma das partes de um longo poema, mas também remete ao significado de “lugar retirado”, contribuindo com todo um campo semântico de solidão que rasga, de ponta a ponta, o tecido do texto. O protagonista desta pseudo-epopéia apresenta características de anti-herói: sua imobilidade impede-o de lançar-se a um mar de aventuras e obstáculos; em lugar de partir para a ação heróica e superadora, encontra-se aferrado à ilha, enterrado em si mesmo, diferentemente dos antigos heróis gregos ou dos navegadores do início da Era Moderna. Ou mesmo dos contemporâneos argonautas de Caetano Veloso: “O barco, meu coração não agüenta/ Tanta tormenta, alegria,/ Meu coração não contenta/ O dia, o marco, meu coração/ O porto, não / Navegar é preciso, viver não é preciso...”. Em O grito da Ilha o personagem, chamado de “o poeta”, sofre de impotência existencial – qualquer mínima tentativa de saída de uma situação insatisfatória torna-se inútil. Para ele, navegar não é possível nem viver é possível.

Massaud Moisés, em seu Dicionário de Termos Literários, afirma: “Desde o século XIX o poema épico abandonou as regras mas preservou a base em que se amparava e a meta a que visava [...]: o impulso de visualizar toda a complexidade do Cosmos numa unidade fundamental, num sistema, composto da integração harmoniosa dos contrários e das antinomias observáveis no mundo da realidade. Livre, pois, da sujeição às regras, a poesia de Fernando Pessoa é tão épica quanto a de Camões, a de Carlos Drummond de Andrade quanto a de Homero ou Virgílio: identifica-os não a forma externa, o emprego do decassílabo, a presença do maravilhoso etc., mas a comum intenção de abranger a multiplicidade dinâmica do real físico e espiritual numa só obra, numa só unidade. Avizinha-os, ainda, a circunstância de convocarem o pensamento para o interior do poema, de molde a fundi-lo com a emoção da raiz: a emoção se detém e se transfigura graças ao pensamento que a indaga e desdobra, e o individual adquire foros de universalidade. Ao contrário do poeta lírico, que não ultrapassa os limites da emoção ou do sentimento, portanto da sua individualidade”. Eis aí o sentido para “épico” que podemos aplicar a esta obra de Jafran Bastos.

O “eu” presente em O Grito da Ilha não se utiliza dos versos como veículo apenas de extravasamento de emoções pessoais, com ênfase na função emotiva da linguagem. Trata-se de um “eu” pensante e também universal, como bem expressam os seguintes versos: “O que te pesa mesmo é o choro / De toda a humanidade”. Já no canto I, os leitores são “enganados” com o poema A Autobiografia, que nos faria identificar o “eu” com o autor. Camaleônico, esse “eu” aparece adiante ora ainda em primeira pessoa (desnudado a cada instante), ora em terceira (travestido em “outro”), ora em disfarçada segunda pessoa (um duplo espelhado com quem o primeiro dialoga). Essa multiplicidade fragmentada da personalidade lembra-nos, mais uma vez, os heterônimos de Fernando Pessoa ou o ser dividido e anulado de Mário de Sá-Carneiro (“Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte do tédio / Que vai de mim para o Outro”).

Esses dois poetas do modernismo português ecoam na poesia de Jafran Bastos, em especial o heterônimo Álvaro de Campos, na vertente não futurista (“A minha alma partiu-se como um vaso vazio, .../ Caiu, fez-se em mais cacos do que havia loiça no vaso”). E também ressoa nela a contundente dor dos versos do brasileiro Augusto dos Anjos (veja-se trecho do poema A Ilha de Cypango, com o qual a ilha de Jafran pode dialogar: “Estou sozinho!... Eis-me passeando como um grande verme / Que, ao sol, em plena podridão passeia”). Com uma sólida formação em Letras (Português e Literaturas), Jafran recebeu outras fortes influências na construção deste livro. Sua poesia remonta ao desespero dos ultra-românticos, mergulhados no “mal-do-século”; flerta com os simbolistas (por todo o livro há elementos altamente carregados de simbologia, a exemplo da própria ilha, além da musicalidade dos versos expressa por meio dos mais diversos recursos fônicos); passa pela angústia dos expressionistas (não por coincidência o título do livro remete à tela de Edward Munch); tangencia a liberdade de pesquisa do inconsciente conquistada pelos surrealistas, com suas (dele e deles) metáforas livres de quaisquer amarras; e deságua no niilismo de alguns pós-modernos. Como em muitos destes últimos, também o gosto por recorrentes referências metalingüísticas e metapoéticas (Este poema órfão, / Sem musa, / sem signos, / Sem nada!) e o gosto pelas referências intertextuais (a revisitação recriadora do gênero épico, o uso de epígrafes, as alusões a antigos mitos, entre outros procedimentos dialógicos).

Mas, a par dessas tantas influências, Jafran consegue impor-se em estilo próprio, marcante, rascante, maduro, escritor que prima pela profundidade do conteúdo filosófico e pela consciente ourivesaria formal. Lê-lo traz também à língua um gosto de sal de batismo, de espanto com o novo. Rompe com padrões preestabelecidos: suas metáforas são sempre ousadas, inesperadas; a todo momento surpreendem-nos ambigüidades expressivas, neologismos, construções sintático-semânticas que subvertem as estruturas gramaticais da língua em todos os níveis. Sem contar a diversidade rítmica e rímica, o livre uso de formas canônicas e não canônicas do soneto ao lado de formas modernas de poemas. E o paradoxo como elemento estruturador do texto, desequilibrando nossas falsas verdades e coerências... E as hipérboles que fazem gritar o grito da ilha... Em lugar de fornecer exemplos, sugerimos o prazer da leitura e da descoberta desses procedimentos.

Jafran explora outros dois campos semânticos essenciais além do já citado no terceiro parágrafo: o de ilha e o de negação. Basta realizar um levantamento do vocabulário para constatar que, no primeiro caso, as palavras e expressões ligadas a ilha longe estão de descrevê-la como o lugar paradisíaco que aparece em grande parte da tradição artística. No segundo caso, tal é o número de vocábulos e expressões conotadores de aspectos negativos (relativamente ao personagem e ao ambiente) e prefixos com significado de negação, que poderíamos chamar a estética jafraniana neste livro de “uma poética do Não”.

O grande poeta inglês John Donne (1572-1631) afirmou: “ Homem nenhum é uma ilha, completo em si; cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo”. Essa, a visão do ser humano nos primórdios da Era Moderna, em uma perspectiva integradora. Já nestes nossos tempos em que globalização não corresponde necessariamente a integração, em que informação acessível nem sempre tem como conseqüência a comunicação verdadeira, Jafran Bastos revela-nos um homem metaforizado em ilha porque isolado, desgarrado do todo, feito de carências, frustrações, inadaptações, perdida a amada (canto VI, A Face Tatuada), sem amigos, família, pátria, crenças, perspectivas... à margem da sociedade e da vida. Um gauche drummondiano.

Ao poeta, personagem central do livro, nada resta além de um grito mudo ou um antigrito. Porém ao poeta Jafran Bastos a redenção se dá pelo Belo, pela qualidade e força da função poética de seu texto, que consegue o milagre alquímico de transformar o Não em Sim.

(Prefácio do livro O grito da ilha. Editoração Editora Ltda. RJ. 2008)

Fonte:
Revista da Academia Niteroiense de Letras. ano 2. n.4 (out/nov/dez 2008). Disponivel em http://www.academianiteroiense.org.br/

Antonio Augusto de Assis (Santuário da Poesia)

Carnaval

É sexta-feira,
véspera da folia.
Lá vai Maria.

Lá vai lavar em lágrimas
a vida ávida de vida,
sofrida vida dividida
em dívidas e dúvidas.

É sábado, é domingo,
é segunda, é terça gorda.
Roda no asfalto o samba,
geme o povo em sobressalto.
Roda rotunda a moça moma,
peitos nus lançando chamas.
Gemem bocas de crianças,
barrigas ocas
mendigando mamas.
Roda impávido o desfile
na avenida multicor.
Gemem pálidos
rostos esquálidos
desfilando a dor.
O sonho roda, geme o horror.

O samba-enredo, o medo em roda.
A serpentina, o ser penante.
A passarela, o pária ao lado.
O palanque, a pelanca.
O pandeiro, a pancada.
O sambeiro, o sem-nada.
O tamborim, o camburão.
O saxofone, o saque-sem-fundo.
A fantasia, a mão vazia.
A apoteose, a verminose.
A alegoria, onde a alegria?

O trilo do apito,
o grito do aflito,
o confete, o conflito.

É quarta-feira, cinzas.
Lá vai Maria.
Lavai, Maria.
Lavai o mundo, Maria.
Lavai o imundo,
mundo imundo vasto mundo,
lavai o mundo, Maria!

Luolhar

Duas luas
viu Ismália
na noite em que enlouqueceu:
“viu uma lua no céu,
viu outra lua no mar”.

Bem mais louco,
vejo três,
quando me ponho a cismar:
a terceira é a que flutua
tentadoramente nua
na noite do teu olhar.

Aurora bela

Da janela do meu quarto
vejo Aurora na janela.

Toda tarde, à mesma hora,
Aurora lá.
Que será que ela olhará?

Aurora, Aurora,
Aurora bela,
bela Aurora da janela,
Aurora
de olhar sem fim...

Se sobrar uma olhadinha,
por favor, olha pra mim!

Por um beijo

Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho:
os bons sonhos que sonho, as plantinhas que planto,
a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto,
e o meu verso se acaso houver nele arte e engenho.

Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu pranto,
as angústias da luta em que há tanto me empenho,
as saudades da infância e do chão de onde venho,
as promessas que eu faço em segredo ao meu santo.

Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz,
minha fé na ternura e no bem que ela faz,
meu apego à esperança e ao que a possa manter.

Por um beijo, um só beijo, um momento de amor,
eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor,
o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser!

Fonte:
Revista da Academia Niteroiense de Letras, recebido por e-mail.

Exposição de Machado de Assis em Brasília

O Ministério da Previdência Social está com a exposição sobre o centenário de morte de Machado de Assis.

A mostra vai de 06 de outubro até 17 de outubro*.

Aberto à visitação. Entrada Franca.

Curadoria: Andrey do Amaral


Endereço: Esplanada dos Ministérios, Bloco F Brasília - DF, Cep 70059-900
Fone: (61) 3317-5000

*Datas sujeitas a alteração

Fontes:
E-mail enviado pela Assessoria de Imprensa
Retrato:
http://www.academia.org;br

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Poesia no Ônibus (Canoas/RS)

O projeto visa a divulgação dos poetas de Canoas, possibilitando a visibilidade dos trabalhos junto a população através da exposição de suas obras nos veículos de transporte coletivo da empresa Sogal. Os trabalhos selecionados foram impressos em cartazes no formato A4 que estão colocados no interior dos ônibus da empresa. Além da Sogal o projeto conta com o apoio da SMTSP - Secretaria Municipal de Transportes e Serviços Públicos.
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INSTANTE DE AMOR
Affonso Romano de Sant´Ana

Não me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes,
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.
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Affonso Romano de Sant´Ana (1937 -)
Nasceu em Belo Horizonte, no dia 27 de março de 1937. Durante os anos 60 teve participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, sempre interagindo com grupos inovadores e construindo sua própria linguagem e trajetória. Considerado pela Revista Imprensa um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião de seu país, por desempenhar atividades no campo político e social que marcaram o país nos anos 60.Ele é considerado também pelo crítico Wilson Martins, como o sucessor de Carlos Drumonnd de Andrade. Seus textos e poesias,tem forte conteúdo social.
Seu primeiro livro,foi lançado em 1962, "O Desemprego da Poesia".
O poeta era tido como um ser boêmio, romântico, fora de época.
Cursou a faculdade de Letras de Belo Horizonte.
Casa-se, em 1971, com Marina Colasanti, escritora e jornalista, segundo ele sua melhor crítica e também musa inspiradora.
Nos duros anos na ditadura militar, Affonso Romano de Sant'Anna publicou corajosos poemas nos principais jornais do país reativando a reação do poeta com a vida política e social. Poemas como "Que país é este?" e "Sobre a atual vergonha de ser brasileiro" foram transformados em posters em todo o país. Também fez várias experiências sobre utilização da linguagem poética para a televisão.
Atualmente escreve colunas aos sábados para o JornalO Globo aos sábados e domingo no suplemento "Em cultura" do Jornal Estado de Minas
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LÁGRIMA
Ana Clades T. da Silva

Não esconda o sentimento
de uma lágrima tão preciosa
de tristeza ou contentamento.
Ela é igual ao orvalho da rosa,
ela é feita como a chuva.
Fertiliza, apaga a poeira,
molha a terra, nasce a uva
que dá vida à parreira.
Feliz é aquele que chora,
dizia o mestre Jesus.
A tristeza vai embora
e tudo se enche de luz.
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Ana Clades T. da Silva (1950)
Nasceu em 18/8/1950, em Cachoeira do Sul, RS, e reside em Canoas. Acadêmica da Faculdade de Letras do Unilasalle. Obteve o 1° lugar na categoria Trova Literária, pelo Grupo Cultural Mona Lisa de Esteio e o 2° lugar na categoria Conto, no 5° Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural de Canoas.
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MARIA
Ana Lúcia Costa Batista


Ah! Minha doce Maria!
Não tenho mais a agonia,
pois tenho uma irmã
para comigo fazer folia.

Tenho-a no pedestal.
Uma amiga assim – eu não vi igual,
pois sei que é um amor celestial,
cujos anjos fazem o maior festival!

Ah! Minha linda Maria!
Nunca esqueças de mim,
pois uma amizade sincera
não pode jamais ter fim.
Eis que nosso Criador
quer que sejamos fraternos – assim!
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Ana Lúcia Costa Batista (1959)
Nasceu em 1°/12/1959, em Porto Alegre, RS, e reside em Canoas. Bacharel em Direito. Participou da I e da II Coletânea da Casa do Poeta de Canoas (2003/2005).

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INVERNO
Ancila Dani Martins


Chuvas aqui, ciclones, vendavais acolá.
Neve na serra... atração turística,
lareira, chocolate quente, hotéis finos.

Sob marquises, enovelam-se mendigos
em fino colchão, cobertor de papelão.
Comércio louco, lãs, peles e couro.
Crianças na rua à mercê dos ventos
virando lixo, buscando sustento.
Que responsabilidade tem a sociedade
por este desproporcional acontecimento?
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Ancila Dani Martins
É natural de Flores da Cunha, RS, e reside em Canoas. Graduada em História pela Unisinos, pós-graduada em Métodos e Técnicas de Ensino, pelo Unilasalle, com especialização em História do Rio Grande do Sul. Atua no ensino público estadual. Co-organizadora da I Coletânea Nas Asas da Poesia, dos alunos da EJA/SMEC/Canoas.
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SEREI
Benoni Couto

Nas lições da vida estão
Agruras de sentimento,
Incertas glórias que são
Reminiscência, lamento.

Queres revelar belezas
De não esquecer-se jamais
Com sonhos e sutilezas
Quando nascem os imortais.

Serei destino errante,
Serei glória, despedida,
Desejo alucinante.
Serei chegada, partida,
Serei começo de tudo,
Serei também fim da vida.
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Benoni Couto (1931)
Benoni Alves do Couto nasceu em 29/5/1931, em Cêrro Branco, RS, e reside em Canoas há 45 anos. Autor de Fagulha ( Poemas e Contos).
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CARTA DE UM ADMIRADOR
Bia Clos

Vai ser fácil esquecer você.
Basta não olhar o céu,
basta não pensar no mar,
nas estrelas e nos rios.

Vai ser fácil esquecer você.
Basta não pensar na alegria,
desistir da simpatia,
abandonar a ilusão e começar viver só.

Vai ser fácil esquecer você.
Basta não lembrar da cor de seus olhos,
não pensar no amor, na vida.

Vai ser fácil esquecer você.
Basta não sentir, não olhar, não viver.
Vou multiplicar momentos roubados
e felicidades impossíveis,
então, será fácil esquecer você!
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Bia Clos
Bia Clos reside em Canoas. Bacharel em Turismo pela Pucrs e graduada como Assistente Social pela Ulbra. Recebeu o 1° lugar (poesia livre) no 1° Concurso Nelson Fachinelli de Efemérides (Capori) e Menção Especial em concurso literário da Capolat - Casa do Poeta Latino-americano. Participou da II Coletânea da Casa do Poeta de Canoas (2005).
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GUERREIRO
Canabarro Tróis Filho


Quero levar minhas canetas
Agasalhadas no bolso
(aljava)
meu arco tenso
(rebeldias, indignações)
para caçar
com flecha d´agua
os sonhos falhados
(pássaros fugidios)
sobre o oceano
do Tempo e dos Ventos.
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Canabarro Tróis Filho (1926)
Antônio Canabarro Tróis filho nasceu em 27/11/1926, em São Francisco de Assis, RS, e reside em Canoas. Escritor, editor e jornalista, possui 12 obras publicadas. Co-fundador dos jornais O Momento e O Timoneiro. Foi redator e cronista da Folha da Tarde e co-diretor da revista Signo. Patrono da Feira do Livro de Canoas, em 1999. Participou da I, II e III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas, sendo o poeta homenageado na II Coletânea (2005).
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PERCA UM MINUTO
Carmen Kennis

Perca um minuto da sua vida
para sentir o sol da manhã.
Quando abrir a janela
e ouvir o canto dos pássaros,

ao sentir o sol batendo no seu rosto,
você sentirá que a vida é maravilhosa
e que o mundo é belo.
Até o canto frágil dos pássaros
construindo seus ninhos,
no afã de poder viver,
assim tão livres.
Também o homem fica pequenino
ao admirar a tudo com carinho,
e se sente um gigante do Saber!
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Carmen Kennis
Carmem Maria Kennis nasceu em Camaquã, RS, e reside em Canoas. Aposentada. Participou da II e da III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas - Poesia, Crônica e Conto (2005 - 2007).
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LUA
Diane Josair Straus Paz


Num dia estava tão cheia,
Noutro dia se encolheu.

Depois veio com preguiça
E, por fim, se escondeu.
Mas, pelo tempo que passou,
Meu amor por ti
Nada mudou.
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Diane Josair Straus Paz (1942)
Diane Josair Straus Paz nasceu em 23/9/1942, em Novo Hamburgo, RS, e reside em Canoas. Foi funcionária pública e atuou em trabalhos voluntários durante 8 anos no FAC São Cristóvão. Integra o Grupo de Teatro Sonho e Prosa. Participou da II e III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas - Poesia, Crônica e Conto (2005 / 2007).
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A SAUDADE
Eva de Souza Rodrigues

A saudade é dor pungente
que faz sofrer intensamente
enlouquecendo o coração
que pula enfurecido de paixão.

A saudade aguça e aquece
a vontade louca
de beijar tua boca,
e, ao mesmo tempo, entristece.

O pensamento voa
em busca de tua imagem.
Em vão, procura à toa
encontrar-te nessa viagem.
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Eva de Souza Rodrigues (1946)
Eva de Souza Rodrigues nasceu em 21/8/1946, em São Miguel das Missões, RS, e reside em Canoas. Artista plástica e escritora. Possui três livros publicados: “Pampa e Romantismo”, “Arco-Íris de Luz” e “Scooby, o Cãozinho Fujão”. Participou da II e da III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas - Poesia, Crônica e Conto, em 2005 e 2007
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GRADES DE PAPEL
Fernando Lima

Tardes de sol vistas de uma janela.
Prisão aberta,
grades de papel.

Coração ferido
de tantas esperas,
coração sofrido
de tantas quimeras.

Pensamentos sóbrios
em dias de muito sol.
Será o trabalho uma forma de escravidão?

Busco um modo de transcender ao tempo,
fazer com imagens a minha história
para que o futuro revele meu profundo ser
tornando viva minha memória.
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Fernando Lima
Fernando Lima reside em Canoas. Formado em Letras pelo Unilasalle e acadêmico de Artes Visuais na Feeevale. Artista plástico, desenvolve trabalhos em pintura, desenho, escultura e fotografia. Participou das três Coletâneas da Casa do Poeta de Canoas, em 2003, 2005 e 2007.
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Fonte:
http://www.casadospoetas.com.br/

Coleção Digital Machado de Assis

Obra completa do escritor está na rede e pode ser baixada gratuitamente

A obra completa de Machado de Assis em formato digital já está disponível ao público na Internet. A página eletrônica entrou na rede em 23 de setembro de 2008. O lançamento oficial aconteceu durante solenidade na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde várias atividades foram realizadas para celebrar o centenário de morte do escritor carioca, com inauguração de exposição e lançamento de livros.

A coleção digital Machado de Assis é resultado de uma parceria entre o Portal Domínio Público, a Biblioteca Digital do Ministério da Educação (MEC) e o Núcelo de Pesquisa em Informática, Literatura e Lingüística (Nupill), da Universidade Federal de Santa Catarina.
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Segundo o coordenador-geral de Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Jéferson Assumção, “a edição especial das obras de Machado de Assis em formato digital possibilita o acesso dos textos de nosso mais consagrado escritor. O site possibilita uma navegação rápida e eficiente para consulta e deverá ser muito útil para estudantes e leitores em geral.

No Ano Machado de Assis esta ação do portal Domínio Público, do MEC, ganha dimensão importantíssima, ao possibilitar, ainda, a contribuição de diversos especialistas à obra de Machado”.

A edição digital é composta por 246 arquivos, para leitura em tela e para downloads, nos formatos html e pdf. De acordo com o coordenador do Portal Domínio Público, Marco Antônio Rodrigues, “há na internet muito material relativo a Machado e sua obra, mas é a primeira vez que se faz um esforço concentrado de se publicar sua obra completa, em edições revisadas segundo critérios específicos. Na verdade, esse esforço relativo a Machado precisa ser replicado com outros autores da literatura de língua portuguesa de domínio público. É dever de todos cuidar desse patrimônio e de divulgá-lo”.

Conteúdo

Os títulos se apresentam em ordem cronológica, resultado da organização do projeto. Os romances Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878) e assim por diante, até Memorial de Aires (1908) estão disponíveis para leitura e para serem baixados inteirinhos da Internet.

Da mesma forma os poemas, peças de teatro, traduções, crônicas, contos e as demais criações em outros gêneros somam-se ao conjunto da obra machadiana.

O site Machado de Assis apresenta várias seções, como Cronologia, O Autor e a Obra, Bibliografia, Obra Completa e Postagens, que facilitam a participação e a colaboração de usuários. Em Na Rede, o internauta vai encontrar endereços de outras páginas na internet com materiais de qualidade relacionados a Machado e sua obra, dentre as quais estão as páginas das fundações Casa de Rui Barbosa e Biblioteca Nacional, instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.

Outra atração do site são os depoimentos de estudiosos e especialistas, que contribuem para o entendimento e a interpretação da obras literárias de Machado de Assis, considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira.

O vídeo Machado de Assis: um mestre na periferia, produzido pela TV Escola, oferece informações sobre a vida do escritor e sobre o contexto histórico em que suas obras foram criadas.

Durante o desenvolvimento do projeto, tudo foi minuciosamente observado.

O objetivo foi organizar, sistematizar, complementar e revisar as edições digitais até então existentes na rede, e o resultado é a completa coleção digital Machado de Assis.

O projeto contou ainda com a cooperação de equipes da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade Federal do Piauí.

Para acessar a Coleção Digital Machado de Assis, o endereço é:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=11300&Itemid=1338&sistemas=1

Fontes:
Colaboração do magnífico trovador maringaense e membro da Academia de Letras de Maringá, prof. Antonio Augusto de Assis
Desenho.
http://gilbertomarchi.blogspot.com

Casa do Poeta de Canoas/RS (Convocação)

Convocamos os associados e colaboradores da Casa do Poeta de Canoas para a reunião mensal, que realizar-se-á em:

3/10/2008 - sexta-feira, às 18h30min
na Fundação Cultural de Canoas
Av. Victor Barreto, 2301

Na pauta desta reunião estará o Regulamento da
IV COLETÂNEA DA CASA DO POETA
Poesia, conto e crônica

Contamos com a presença de todos.

Maria Rigo
Presidente da Casa do Poeta de Canoas

Mais informações pelos fones:
(51) 3476.4431 / 9669.4615
=======
Fonte:
E-mail enviado pela Casa dos Poetas de Canoas.
Maiores informações sobre a mesma, visite http://www.casadospoetas.com.br/

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Raul Pompéia (Como Nasceu, Viveu e Morreu a Minha Inspiração)

Página arrancada ao livro de lembranças de um futuro Esculápio.

Eu ia vê-la naquele dia. O dia dos seus anos! Devia estar esplendida. Ia completar o seu décimo sétimo ano de um viver de alegrias. O meu presente era simples: uma gravatinha de fita azul; mas havia de agradar-lhe. Era o meu coração quem o dava. Ela o sabia. Sabia também que o coração de um estudante não é rico. Dá pouco, mesmo quando dá... Ela desculparia.

Que noite ia eu passar! Dançaríamos muitas vezes juntos, a começar da segunda quadrilha...

Preparei-me. Empomadei-me; escovei-me; perfumei-me; mirei-me, etc., etc. Conclusão: estava chic. Mas eram cinco horas e eu não queria chegar antes das sete. Fazer-me um pouco desejado... o que é que tem?... Todavia faltava bastante tempo!... Em que ocupar-me a fim de passar essas duas longuíssimas horas? Que fazer?... Impaciência e dúvida; dois tormentos a me angustiarem...

Eu passeava pelo meu quarto, deitando vagamente uns olhares pelos meus desconjuntados móveis: aquelas minhas cadeiras, lembrando a careta de um choramigas a entortar o queixo; a mesa, gemendo sob um mundo de livros desencapados e sebentos; o meu toilette, quero dizer um velho compêndio de anatomia com uns frascos por cima e um espelho pequeno pregado na parede; a minha cama, com a coberta a escorregar languidamente para, o chão... Continuava a passear. Olhei ainda uma vez para o espelho e sorri-me, vendo lá dentro a minha gentil figura partida em quatro por duas rachaduras cruzadas no vidro... Que fazer?...

Debrucei-me na janela... Embaixo a rua, a atividade prosaica das cidades de alguma importância: idas e vindas e mais vindas do que idas, por causa da hora que era de jantar, (por tocar nisto... Eu não tinha ainda jantado. É o que me cumpria fazer; mas o meu plano era economizar um jantar, vingando-me à noite nos buffetes da menina...) Meus olhos corriam pela rua como andorinhas brincalhonas. Depois de percorrem o quarto, andavam pela rua em busca de resposta à minha pergunta: - que fazer?...

Por fim foram esbarrar no frontispício da igreja de... Começaram a subir... Brincaram nas janelas; contaram quantos vidros havia; examinaram os enfeites de arquitetura... Subiram mais, percorreram os sinos, o zimbório e foram pousar no pára-raios.

Estavam quase no céu. Daqui para ali, menos de um passo. Os olhos lá foram. Mergulharam-se erradios no azul... Que fazer?

Ora... enfim! Estava achada a resposta! Por que não veio ela mais cedo não o posso explicar.

Os meus olhos estavam no céu.

Era por uma tarde encantadora. Que cor a do firmamento nessa hora! Que abóbada incomparável a cobrir a rua!... Depois, aquelas nuvens mimosas, desfiando-se nos ares, como brancas meadas de lá nuns dedos sedutores... O sol a descambar, batendo de través na poeira levantada do chão pelos carros, que magníficas cortinas desdobravam pelas janelas das habitações velando-as como que de douradas gazes. No horizonte, por sobre a última linha de telhados e chaminés fumegantes, como se ostentavam aquelas colinas de um azulado branco feitas vapores tênues; como se recortavam sem fazer uma só volta que não fosse demorada e graciosa como as curvas de esbelto corpozinho de donzela...

Oh! Do quarto para fora, tudo o que se prendia aos céus por um raio de luz ou por uma ponta de vaporoso véu, tudo respirava poesia...

Eu achara a resposta. Que fazer?... Versos!... Feliz achado!... Um soneto ou alguns alexandrinos... qualquer cousa que desse claro testemunho do meu amor. O laço de fita com que eu ia mimosear o meu anjo era azul... Ótimo! Sobre o laço, um soneto!... Ouro sobre azul! Com certeza não dançaríamos somente (eu e ela) trocaríamos o primeiro beijo! Não esse beijo insípido que se dá a carregar aos zéfiros, entregando-se-lhes nas pontas dos dedos, mas um ósculo açucarado de lábios ardentes sobre a macieza de uma face. Um ideal realizado. Uma cousa assim como o contato com um jambo que houvesse roubado o veludo ao pêssego...

- Bravo! Já estou quase deitando verso de improviso! exclamei eu, notando a minha exaltação. Venha papel! venha pena! Cérebro, soma-te com o teu companheiro, o coração! Não brigueis desta vez como é de vosso costume... somai-vos um com o outro e vertei nesta folha de papel alguma cousa que não horrorize a Petrarca... Espírito de Dante, eu te evoco! vem com aquele fogo que em ti acendia a tua celeste Beatriz! Dirceu, corre também em meu socorro! Poetas antigos e modernos, correi todos! Musas, vinde com eles! Transportai-me nesses êxtases que vos deram a imortalidade na memória dos homens!...

Nascera-me a inspiração! Ia metrificar alguma cousa que devia maravilhar os críticos... (aparte a modéstia: isto que escrevo não é para o público). Mas eu me sentia um pouco acima de mim mesmo... Sem dúvida era essa sensação mística a que experimentam todas essas cabeças de gênio, um momento antes de dar à luz qualquer produção sublime...

Molhei a pena, com um movimento nervoso. A minha impaciência (confesso-o) não era então para chegar à casa do meu bem, era para gravar no papel aquilo que me ardia no crânio. Molhei a pena...

Oh! desgraça! A infame pena trouxe na ponta um pingo de tinta, trêmulo, ameaçador. Desviei-a violentamente... foi a minha perdição...

Olhei triste para o meu punho esquerdo... Estava descansado sobre a folha de papel, quando o pingo... Maldição!... Ainda havia pouco, tão alvo, luzidio como porcelana... então, com uma feia nódoa circular negra... negra, de quase uma polegada de diâmetro e ainda a infiltrar-se pelo linho, a tomar cada vez mais vulto!...

Pobre camisa!... estragada!... Mais pobre de mim... Esse pingo era uma catástrofe. Aquela camisa era a única. Única! Triste verdade, cujas conseqüências me desesperavam.

- Adeus, meu anjo! disse eu, sem poder engolir um soluço.

Já não me era possível ir vê-la. Nem um companheiro morava comigo. Se morasse, talvez o mal fosse remediável. Mas não! Não havia esperança!... Comprar outra? Onde? Era um domingo... Com que dinheiro?... Era num fim de mês. Não havia esperança.

Aquele beijo que sonhei num instante de ebriedade desfez-se-me no espírito como a má impressão de um R. Não era só isto. A minha ausência seria notada pela menina. O que pensaria ela?... Talvez que eu, por mesquinho, quis poupar-me a despesa de oferecer-lhe qualquer cousa...

- Quando, gritei eu, aí está o meu laço de fita de cinco mil réis...

Ainda mais. Um baile leva a uma casa tantos pelintras... quem sabe se ela não se agradaria de algum desses bolas, esquecendo-se de mim?... E teria razão. A abelha, se aqui não encontra mel, vai buscá-lo acolá...

Momentos dolorosos os que passei nessa tarde! Depois de todos os pensamentos que me assaltaram brutalmente à primeira reflexão, foi que lembrei-me do meu soneto...

- Soneto para onde tu foste?...

Mais este golpe: - a minha inspiração morrera. Eu não sentia mais a exaltação auspiciosa de alguns minutos antes. Tudo perdido! Fora-se tudo!

Eu vi e jurá-lo-ei, se me não acreditarem, eu vi essa corja do Parnaso, poetas e Musas, fugir-me do quarto! Eu vi as sirigaitas de saias arregaçadas a correr, e os idiotas irem-lhe após, sobraçando liras, como os traquinas das escolas públicas, quando disparam pelas ruas, de ardósia ao sovaco...

Nessa mesma tarde, fui à janela outra vez. Estava aflito e superexcitado. Parece-me, até, que tinha os olhos molhados. Pus-me a ver os transeuntes. Cada um que passava, para os lados na morada do objeto dos meus devaneios parecia um convidado de baile. Tortura.

Em seguida avistei a maldita torre, por onde meus olhos haviam subido ao céu que me inspirava a negregada lembrança de poetar.

Para acabar. A desgraça de que fora vítima fez-me esquecer o jantar, que positivamente era só o que eu devia perder não indo à festa. Não comi e não reparei nisso. Tornou-se inútil vingar-me da minha economia. Se neste particular não perdi, no resto ganhei.

A minha querida (soube-o depois) nem perguntou por mim na festa. Esteve alegre. Encontrou quem lhe agradasse (um sujeitinho com quem se vai casar). Melhor. Já estou consolado da desgraça, um mal que me veio para bem. Livrou-me de uma levianazinha. O aborrecimento que hoje me causam os mesmos objetos que tanto me entusiasmaram naquela tarde veio matar umas pequenas veleidades poéticas que ainda acatava. Estou descrente. Agora acabou-se... Só estudo; ergo: ganhei... Estou na expectativa de um fim de ano esplêndido.

Mais uma palavra. O laço de fita azul... guardo-o. É um talismã.

A Comédia. São Paulo, n.0 28 e 29, 4 e 5 abr. 1881.

Fonte:
http://www.biblio.com.br

Jaderson Bellan (Joaninha fazedora de jarro)

A vizinhada do bairro Olaria conhecia a senhora grisalha por Dona Joaninha. Até aí, nada demais: sua graça era Joana mesmo. O que mais encasquetava era a semelhança dela com o insetinho coleóptero: muito dócil, terna. Caminhava curvadinha e ostentava uma ampla coleção de casacos de bolinha.

Um tanto monossilábica, é verdade. Não era lá muito afeita às palavras. Joaninha acreditava em suas mãos, apenas. Por isso era das mais respeitadas oleiras das redondezas: seus jarros e moringas encantavam legiões de turistas que vinham de longe, não apenas pelas formas suaves e abauladas de encher os olhos, mas também pelos desenhos de valor artístico inestimável. Quando os filhos questionavam-na porque era tão calada, ela respondia:

— Boca mente o tempo todo. Mão não. Quando acarinha, é que ama; se bate tá com raiva.

Jamais dizia "eu te amo". Só chegava com a mão gordinha de dedos grossos, que se embrenhava pela cabeleira desalinhada das cinco crianças, e começava um feitiço de cafuné. Tão feitiçoso que logo a meninada toda se punha a dormir.

Bem de manhãzinha, quando o céu era só clarão mas o sol ainda se encorujava pra baixo da terra, Joaninha, já de pé, passava o café. Mais preto que noite. Fortíssimo. Pra agüentar o mais um dia de trabalho no torno. Sobre a mesa de toalha desbotada de muitos quadradinhos, Joaninha colocava, além das cinco xícaras das crianças, uma outra, que lá ficava até o anoitecer.

— Pro pai?

Perguntava a terceira menina, que já amocinhava e se metia a entender das coisas, empinando os peitinhos mal nascidos.

Era pra Jeremias, marido ido. Já havia quase quatro anos. O homem, logo depois de emprenhar Joaninha pela quinta vez, fugira com Analice, a filha da vizinha. Um espanto de moça, de tanta boniteza. Tez alva, olhos muito negros, um pouco desviados. Discretamente estrábica. Nunca se sabia ao certo pra onde a mocinha estava olhando.

No dia da fuga, depois de girar o torno o dia inteiro, Joaninha chegara em casa exausta. Procurava Jeremias para lhe mostrar o dinheiro do dia, com a venda dos jarros. Chamava. Chamava. Nada do homem. Quando pegara o pote da economia de dez anos de trabalho, o susto! Susto brusco de boi preto que enfia a cara brava pra dentro da janela. O pote vazio que era só ar. Na manhã seguinte chegara a notícia: Jeremias havia comprado um jegue na cidade, colocara Licinha no lombo e saíra galopando pela estradica de terra que cruzava horizontes, sem destino.

Passados quatro anos, estava Joaninha fincada firme na cozinha. Café feitinho. Dia diferente dos outros: decidiu deixar as crianças dormindo mais um bocadinho, antes de despertá-las pra labuta. De repente, uma pontada violenta no peito. Como das outras vezes, pensou "hoje não". Mas dessa vez a dor vinha metida a besta. Teimosa. Fisgou de novo, ainda mais forte, no coraçãozinho cansado. E ela, insistente:

— Já disse! Hoje não!

Apressou-se. Tinha de entregar uma encomenda de quinze jarros para uns turistas alemães. Era dinheiro que chegava pro pão da prole por uns dias. Saiu de casa com a bacia e começou a descer o barranco que dava no ribeirão. Precisaria de muito barro. Novas fisgadas e Joaninha caiu de joelhos, prostrada no lamaçal. Enfiou os dedos gordinhos na lama. Ah! Era deliciosa a sensação do barro fresquinho e cheiroso penetrando atrás das unhas.

As vistas embaçavam. Na outra margem do ribeirão, avistou um homem esguio. Por um instante, uma certeza esfumaçada invadiu Joaninha. Jeremias! Tinha de ser Jeremias! Logo, a miragem já sorria o sorriso protetor de Jeremias. Ah, Jeremias! E sumiu, feito corisco! Outra pontada. E outra. Joaninha subia o barranco com a bacia cheinha de barro, resfolegando. Em vão resistia, repetindo com insistência de herói — "hoje não", "hoje não".

Já no terreiro dos tornos, sentou o corpo cansado no primeiro torno. Um punhado de barro começava a girar. Aos poucos a massa amorfa ganhava personalidade, mais e mais imponente. As mãozinhas hábeis forjavam o mais belo de todos os jarros. Uma última fisgada. Fulminante. O torno parando, parando. O vaso se entortando lento, molenga. O pescoço já não suportava o peso. A cara redondinha de lua despencando no barro. O barro invadindo a boca entreaberta. Ainda procurou força pra cuspir. Inútil.

Joaninha virou ligeiramente a cabeça. Diante dela, o mais novinho, garnisezinho, miudinho de dar dó, encarando-a com olhos secos, agrestes. Peladinho, ranhento, barrigão d'água. Deformado pelo calor que subia da terra, era mais fantasma que gente. Ficaram assim, mãe e filho, se espiando por instantes. E, assim, Joaninha fechou os olhos.
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Sobre o Autor
Jaderson Bellan é paulista, nascido em 1978. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP)
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Fonte:
http://www.releituras.com

Pequena história do Samba: Do Batuque à Batucada

Da mesma forma que o jazz nos Estados Unidos e a salsa (derivada do mambo e da rumba) em muitos dos países caribenhos, o samba é indiscutivelmente o gênero musical que confere identidade ao Brasil. Nascido da influência de ritmos africanos para cá transplantados, sincretizados e adaptados, foi sofrendo inúmeras modificações por contingências das mais diversas - econômicas, sociais, culturais e musicais - até chegar no ritmo que conhecemos. E a história é mais ou menos a mesma para os similares caribenho e americano.

Simbolizando primeiramente a dança para anos mais tarde se transformar em composição musical, o samba - antes denominado "semba" - foi também chamado de umbigada, batuque, dança de roda, lundu, chula, maxixe, batucada e partido alto, entre outros, muitos deles convivendo simultaneamente!

Do ritual coletivo de herança africana, aparecido principalmente na Bahia, ao gênero musical urbano, surgido no Rio de Janeiro no início do século XX, muitos foram os caminhos percorridos pelo samba, que esteve em gestação durante pelo menos meio século.

Samba : palavra de bamba

É quase consenso entre especialistas que a origem provável da palavra samba esteja no desdobramento ou na evolução do vocábulo "semba", que significa umbigo em quimbundo (língua de Angola). A maioria desses autores registra primeiramente a dança, forma que teria antecedido a música.

De fato, o termo "samba" - também conhecido por umbigada ou batuque - designava um tipo de dança de roda praticada em Luanda (Angola) e em várias regiões do Brasil, principalmente na Bahia. Do centro de um círculo e ao som de palmas, coro e objetos de percussão, o dançarino solista, em requebros e volteios, dava uma umbigada num outro companheiro a fim de convidá-lo a dançar, sendo substituído então por esse participante. A própria palavra samba já era empregada no final do século XIX dando nome ao ritual dos negros escravos e ex-escravos.

Assim se pronuncia Henrique Alves:
"Nos primeiros tempos da escravidão, a dança profana dos negros escravos era o símile perfeito do primitivo batuque africano, descrito pelos viajantes e etnógrafos. De uma antiga descrição de Debret, vemos que no Rio de Janeiro os negros dançavam em círculo, fazendo pantomimas e batendo o ritmo no que encontravam: palmas das mãos, dois pequenos pedaços de ferro, fragmentos de louça, etc.. "Batuque" ou "Samba" tornaram-se dois termos generalizados para designarem a dança profana dos negros no Brasil."

Há no entanto vozes discordantes, que dão margem a outras versões etimológicas:

A autora de São Ismael do Estácio menciona a possibilidade de o vocábulo ter-se derivado da palavra "muçumba", uma espécie de chocalho.

Também Mário de Andrade assinala outras origens possíveis para o termo e para a dança. Segundo ele, bem poderia vir de "zamba", tipo de dança encontrada na Espanha do século XVI, além de mencionar o fato de que "zambo" (ou "zamba") significa o mestiço de índio e negro.

A tese defendida por Teodoro Sampaio de que a gênese pudessem advir de termos como "çama" ou "çamba" significando corda (ou a dança da corda) e de que este pudesse ser um ritmo gêmeo do brasileiro samba é totalmente refutada por Henrique Alves "dada a falta de consistência de influências indígenas no teor da música e da dança, cuja característica é eminentemente africana".

Ainda de acordo com Mário de Andrade, a palavra "samba" viveu um verdadeiro período de "ostracismo" no início do século, conhecendo variantes coreográficas cultivadas por "brancos rurais" (o coco), para depois ser ressuscitada com vigor pelos fãs do maxixe.

Geografia do samba: no tabuleiro da baiana samba também tem

Rio de Janeiro, então capital federal: a transferência da mão-de-obra escrava da Bahia (onde se cultivava a cana, o algodão e o fumo) para o Vale do Paraíba (onde se plantava o café), a abolição da escravatura e o posterior declínio do café acabaram liberando grande leva de trabalhadores braçais em direção à Corte; além disso, a volta dos soldados em campanha na Guerra de Canudos também elevou o número de trabalhadores na capital federal.

Muitos desses soldados trouxeram consigo as mulheres baianas, com as quais haviam se casado. Essa comunidade baiana - formada por negros e mestiços em sua maioria - fixou residência em bairros próximos à zona portuária (Saúde, Cidade Nova, Morro da Providência), onde havia justamente a demanda do trabalho braçal e por conseqüência, a possibilidade de emprego. Não demorou muito para que no quintal dessas casas as festas, as danças e as tradições musicais fossem retomadas, incentivadas sobretudo pelas mulheres.

De acordo com José Ramos Tinhorão, "mais importante do que os homens, foram essas mulheres" - quituteiras em sua maioria e versadas no ritual do candomblé - as grandes responsáveis pela manutenção dos festejos africanos cultivados naquela redondeza, onde predominavam lundus, chulas, improvisos e estribilhos.

Entre essas doceiras estavam tia Amélia (mãe de Donga), tia Prisciliana (mãe de João de Baiana), tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana), tia Mônica (mãe de Pendengo e Carmen do Xibuca) e a mais famosa de todas, tia Ciata, pois justamente de sua casa, à rua Visconde de Itaúna 117 (Cidade Nova), é que "viria a ganhar forma o samba destinado a tornar-se, quase simultaneamente um gênero de música popular do morro e da cidade" .

Se por um lado o samba como dança e festa coletiva explodia nos quintais, tomava as ruas e se exibia nos desfiles de cordões, por outro, o samba como música e composição autoral dava os seus primeiros passos em casa de tia Ciata. O elemento comum eram os estribilhos, cantados e dançados tanto num lugar como no outro.

"Assim nasceu o samba carioca, após longa gestação, da África à Bahia, de onde veio para ser batucado nos terreiros da Saúde e finalmente, tomando nova forma rítmica a fim de adaptar-se ao compasso do desfile de um bloco carnavalesco."

De fato, nos quintais da casa de tia Ciata reuniam-se bons ritmistas, compositores e verdadeiros mestres da música popular, muitos deles profissionais como Sinhô, Pixinguinha, Donga, Caninha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Hilário Jovino Ferreira e outros. Não foi à toa que de lá saiu o primeiro samba da música popular brasileira.

Assim se pronuncia José Ramos Tinhorão:

"Ao contrário do que se imagina, o samba nasceu no asfalto; foi galgando os morros à medida em que as classes pobres do Rio de Janeiro foram empurradas do Centro em direção às favelas, vítimas do processo de reurbanização provocado pela invasão da classe média em seus antigos redutos."

Samba: o que foi, o que é...
"Pergunta: Qual é o verdadeiro samba?
Donga: Ué, samba é isso há muito tempo:

O chefe da polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta para se jogar...

Ismael: Isso é maxixe!
Donga: Então o que é samba?
Ismael:
Se você jurar
Que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é
Para fingir, mulher
A orgia, assim não vou deixar

Donga: Isso é marcha!"

O samba não nasceu por acaso. A sua aparição se deve à acomodação de diversos gêneros musicais que se sucederam ou se "complementaram" ao longo do tempo. O exemplo da discussão acima ilustra claramente o tipo de confusão gerada pelos novos ritmos populares (a maioria binários) que emergiram nas primeiras décadas do século XX.

Para se conhecer um pouco de sua trajetória é necessário que se faça uma viagem por esses estilos que acabaram dando no que deu, ou seja, no próprio samba.
Lundu

Originária de Angola e do Congo, o lundu é um tipo de dança africana - na época considerada até obscena - , que tinha como passo coreográfico a própria umbigada. Apareceu no Brasil por volta de 1780. Alguns autores o comparam com o batuque praticado nas senzalas. No final do século XVIII, surgiu como canção, tanto no Brasil, quanto em Portugal.

José Ramos Tinhorão, citando o maestro Batista Siqueira, distingue as duas manifestações (coreográfica e musical), afirmando que até hoje não foi possível "saber se, de fato, a dança lundu inspirou o tipo de cantiga do mesmo nome, e de como se deu essa passagem daquilo que era ritmo e coreografia - para o que viria a ser canção solista."

Acolhido por todas as camadas sociais, inclusive os aristocratas, o lundu acabou ganhando a simpatia dos centros urbanos a partir de 1820, invadindo os teatros do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, onde seus números eram apresentados no entremez, espécie de quadro cômico e musical realizado durante os entreatos de dramas e tragédias. Em 1844, porém, o país foi tomado de assalto por outro tipo de ritmo - também de compasso binário e dançado em pares - que na Europa estaria causando um tremendo furor: este ritmo nada mais era do que a polca.

Polca

De acordo com definição contida no Dicionário de Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular, a polca é um tipo de dança rústica originária da região da Boêmia (parte do império austro-húngaro), tendo chegado à cidade de Praga em 1837, quando se transformou em dança de salão. De ritmo alegre e saltitante, espalhou-se rapidamente pela Europa, tornando-se a coqueluche dançante da época. No Brasil veio trazida por companhias teatrais francesas, fazendo sua estréia oficial em 3 de julho de 1845 no Teatro São Pedro. Tornou-se tão popular que uma agremiação foi fundada em seu nome: A Sociedade Constante Polca. Segundo José Ramos Tinhorão, o gênero obteve o sucesso que o lundu, sozinho, jamais havia conseguido realizar:

"... a semelhança de ritmo com o lundu permite uma fusão que poderia às vezes ser nominal, mas que garante ao gênero de dança saído do batuque a possibilidade de ser, afinal, admitido livremente nos salões sob o nome mágico de polca-lundu."

Chula

A chula é um gênero de dança ou de canção de origem portuguesa surgida no final do século XVII. Também herdeira da umbigada - com seus requebros, volteios e sapateados - adquire entre nós uma forma maliciosa e erótica. O termo reapareceu entre os sambistas no início do século. Assim o define João da Baiana:

"Antes de falá samba, a gente falava chula. Chula era qualquer verso cantado. Por exemplo. Os versos que os palhaço cantava era chula de palhaço. Os que saía vestido de palhaço nos cordão-de-velho tinha chula de palhaço de guizo. Agora, tinha a chula raiada, que era o samba do partido alto. Podia chamá chula raiada ou samba raiado. Era a mesma coisa. Tudo era samba de partido-alto. E tinha samba corrido".

Maxixe

Primeira dança considerada autenticamente brasileira, tendo como ancestrais diretos a umbigada, o batuque e o lundu, o maxixe tem sua origem nos bairros de contingentes negros e mestiços do Rio de Janeiro, como Saúde e Cidade Nova.

Sua aparição, por volta de 1870, deveu-se principalmente à vontade de se dançar, de forma mais livre, os ritmos em voga na época, principalmente a polca. O maxixe, na opinião de José Ramos Tinhorão, foi sobretudo obra do "esforço dos músicos de choro em adaptar o ritmo das musicas à tendência dos volteios e requebros de corpo com que mestiços, negros e brancos do povo teimavam em complicar os passos das danças de salão".

Para Mário de Andrade , no entanto, o maxixe seria a síntese do tango e da habanera (pelo lado rítmico) com o andamento da polca, aliado a síncopa portuguesa. E ainda, na interpretação de Tinhorão, a "transformação da polca via lundu".

Aliás, como o lundu, apresentado nos intervalos de peças teatrais 50 anos antes, o malicioso maxixe, com o passar do tempo e com a popularidade alcançada pelos chorões, ganhou os palcos do Rio de Janeiro, sendo saboreado pelos freqüentadores das revistas teatrais:

"Não é de se estranhar que num palco e com o incentivo da platéia, o lundu tivesse o seu aspecto erótico exacerbado. Mais curioso é que esse mesmo processo de teatralização de uma dança de origem negra se repetiu meio século depois no Rio de Janeiro, com o maxixe."

O polêmico "Pelo telefone"

Um dos primeiros comentários que se pode adiantar sobre a música Pelo telefone diz respeito à questão dos direitos autorais da composição, ainda hoje objeto de discussão não totalmente esclarecido.

Maria Theresa Mello Soares , revela-nos o seguinte:

"Historicamente o primeiro caso - que foi muito comentado no Rio de Janeiro - de posse indébita de composição musical teve como protagonista Ernesto dos Santos, ou melhor, o Donga, violonista que tocava de ouvido, 'nem sabia traçar as notas de música'. Pelo telefone - tango, maxixe ou samba, nunca ficou bem definida a sua classificação - foi a composição que gerou polêmica ruidosa no meio artístico carioca, provocando atritos e discussões, principalmente pela imprensa que tomou partido de um jornalista envolvido no 'affaire'".

Problemas à parte, 1917 é de fato considerado um ano-chave para a história da música brasileira de raízes populares e urbanas, justamente devido ao lançamento de Pelo telefone, considerado o primeiro samba oficialmente registrado no Brasil. A partir de então, o samba - que já se prenunciava anteriormente através de formas variantes como o lundu, o maxixe, a polca e a habanera - individualizou-se, adquiriu vida própria, tornando-se definitivamente um gênero musical:

"Um fato até então inédito acontece: os clubes carnavalescos, que nunca tocavam a mesma música em seus desfiles, entraram na Av. Central tocando Pelo telefone".
Outra grande dúvida mencionada por pesquisadores recai sobre a data da composição. Embora tenha sido lançada no carnaval de 1917 com êxito extraordinário, o registro da partitura para piano, feito por Donga na biblioteca nacional, é de 16 de dezembro de 1916.

A questão sobre a autoria, levantada anteriormente, é também outro aspecto importante nessa discussão. Sabe-se que muitas reuniões de samba de partido alto ocorriam no terreiro de tia Ciata, freqüentado por sambistas, músicos, curiosos e jornalistas, tais como: Donga, Sinhô, Pixinguinha, João da Mata, Mestre Germano, Hilário Jovino e Mauro de Almeida. Este último - Mauro de Almeida - teria escrito os versos para a música de criação coletiva intitulada Roceiro, executada pela primeira vez como tango em um teatro da rua Haddock Lobo, em 25 de outubro de 1916. Valendo-se da repercussão imediata da música, Donga não hesitou em registrá-la com o título de Pelo telefone, aparecendo então como o único autor, omitindo a letra do jornalista Mauro de Almeida. Houve reações e protestos, principalmente daqueles que se sentiram diretamente atingidos. Assim comenta Edigar de Alencar:

"O registro do samba (nº 3295) não teve a repercussão que teria hoje. Música de muitos não era de ninguém. Não tinha dono, como mulher de bêbado..."

Renato Vivacqua é quem afirma:

"Mesmo assim, o Jornal do Brasil de 04.02.1917 trazia o seguinte comentário:
'Do Grêmio Fala Gente recebemos a seguinte nota: Será cantado domingo, na av. Rio Branco, o verdadeiro tango Pelo telefone, dos inspirados carnavalescos, o imortal João da Mata, o mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata e o inesquecível bom Hilário; arranjo exclusivamente pelo bom e querido pianista J. Silva (Sinhô), dedicado ao bom e amigo Mauro, repórter da Rua, em 6 de agosto de 1916, dando ele o nome de Roceiro'.

Pelo telefone
A minha boa gente
Mandou me avisar
Que o meu bom arranjo
Era oferecido
Para se cantar.

Ai, ai, ai
Leva a mão na consciência, meu bem.
Ai, ai, ai
Mas pra que tanta presença, meu bem?

Ó que cara dura
De dizer nas rodas
Que este arranjo é teu!
É do bom Hilário
É da velha Ciata
Que o Sinhô escreveu

Tomara que tu apanhes
Pra não tornar a fazer isso,
Escrever o que é dos outros
Sem olhar o compromisso"

Tudo indica que a composição seja mesmo de caráter coletivo, cantarolada com versos variados em alguns pontos da cidade, tendo sido mais tarde reformulados por Donga e Mauro de Almeida.

Teria sido "Pelo telefone" o primeiro samba realmente registrado no Brasil?

Há contestações e controvérsias. Hoje não mais se acredita que este tenha sido o primeiro registro do gênero samba no selo de um disco. Alguns pesquisadores, entre eles Renato Vivacqua, mencionam pelo menos três outras composições designando o gênero: Um samba na Penha (interpretado por Pepa Delgado e lançado pela Casa Edison em 1909); Em casa da Baiana (de 1911); e por último A viola está magoada (de autoria de Catulo da Paixão Cearense, composto em 1912 e gravado em 1914). Edigar de Alencar também menciona um outro samba denominado Samba roxo (de Eduardo da Neves, de 1915).

Afinal, qual a verdadeira letra de "Pelo telefone"?

Uma outra polêmica até hoje não totalmente desvendada diz respeito à letra original do samba - que teria recebido inúmeras alterações e paródias ao longo do tempo, gerando confusões.

Donga chegou a afirmar que a verdadeira letra da 1ª estrofe seria iniciada pelo verso O chefe da folia, mas por diversas vezes caiu em contradição, dizendo que o 1º verso da música era de fato O chefe da polícia.

Sobre essa estrofe, comenta Edigar de Alencar:
"Os versos expressivos e bem feitos eram uma glosa sutil a um fato importante. O então chefe da polícia Aurelino Leal determinara em fins de outubro daquele ano (1916), em ofício publicado amplamente na imprensa, que os delegados distritais lavrassem auto de apreensão de todos os objetos de jogatina encontrados nos clubes. Antes de qualquer providência, porém, ordenara que lhe fosse dado aviso pelo telefone oficial."

Portanto, duas hipóteses são aceitas para esta primeira estrofe:

O chefe da folia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que com alegria
Não se questione
Para se brincar
Para se brincarO chefe da polícia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta
Para se jogar

A Donga se deve pelo menos o fato de ter percebido que o samba, ainda em seu nascedouro, surgiria a partir daquela data não mais como uma dança ou festa coletiva, mas como um bem cultural digno de ser comercializado e divulgado no rádio, então único meio de comunicação de massa, ávido para ter o que tocar. Os últimos comentários a esse respeito são de Almirante, citado no livro de Edigar de Alencar:

"Em resumo, o Pelo telefone teve um autor indiscutível: Mauro de Almeida, criador de seus versos e cujo nome permaneceu sempre sonegado. Jamais recebeu quaisquer direitos autorais, como seria justíssimo. Mauro de Almeida, com 74 anos de idade, morreu a 19 de junho de 1956. E quais foram os parceiros da melodia do Pelo telefone? Segundo a imprensa, conforme citamos: João da Mata, mestre Germano, tia Ciata, Hilário Jovino, Sinhô e Donga. Mas todos eles..."

Cabe assinalar ainda que a música recebeu uma versão teatral de Henrique Júnior com o mesmo título, que teve sua estréia em 7 de agosto de 1917 no Teatro Carlos Gomes, ficando menos de uma semana em cartaz.

Apenas música para se brincar no carnaval

Assim como a marcha, o "samba anônimo" - batucado e gingado coletivamente - surgiu com o desenvolvimento do carnaval, para atender às camadas subalternas que ainda não possuíam um tipo de música própria que as representasse durante os desfiles e comemorações do Rei Momo. Aos poucos, foi atraindo músicos da classe média que tinham acesso à "mídia" da época - o rádio, também em sua fase inicial - e acabou perpetuando-se no tempo graças aos foliões de rua.

A origem das escolas de samba

"O estilo (antigo) não dava para andar. Eu comecei a notar que havia uma coisa. O samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum."

A primeira escola de samba nasceu no Estácio - portanto no asfalto e não no morro - fez a sua primeira aparição oficial no desfile da Praça Onze em 1929, chamava-se Deixa falar e surgiu como um "ato de malandragem".

Até essa data o que se via nas ruas durante o carnaval era o desfile das Grandes Sociedades, dos ranchos carnavalescos (também conhecidos como blocos de cordas, pois possuíam um cordão de isolamento e proteção) e dos blocos propriamente ditos (mais modestos em sua administração). A diferenciação entre esses dois últimos é pequena. De acordo com a autora Eneida Moraes, citando Renato de Almeida, "os ranchos eram cordões civilizados e os blocos, mistos de cordões e ranchos".

A tradição da brincadeira de rua já existia há muito tempo no Distrito Federal (desde o entrudo e mais tarde, o Zé Pereira), mas sem nenhum tipo de organização musical. Foram justamente os blocos, ranchos e cordões que deram unidade musical a um desfile até então caótico.

"As escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro por volta de 1920. A crônica do carnaval descreve o cenário então existente na cidade de forma nitidamente estratificada: a cada camada social, um grupo carnavalesco, uma forma particular de brincar o carnaval. As Grandes Sociedades, nascidas na segunda metade do século XIX, desfilavam com enredos de crítica social e política apresentados ao som de óperas, com luxuosas fantasias e carros alegóricos e eram organizadas pelas camadas sociais mais ricas. Os ranchos, surgidos em fins do século XIX, desfilavam também com um enredo, fantasias e carros alegóricos ao som de sua marcha característica e eram organizados pela pequena burguesia urbana. Os blocos, de forma menos estruturada, abrigavam grupos cujas bases se situavam nas áreas de moradia das camadas mais pobres da população: os morros e subúrbios cariocas. O surgimento das escolas de samba veio desorganizar essas distinções."

De todas as agremiações populares, o Rancho era o mais aceito pelas autoridades, pela sua forma de organização. Nascido no bairro suburbano da Saúde, tradicional região de imigrantes nordestinos, o Rancho carnavalesco, derivado do Rancho de Reis, existente em sua forma pagã desde 1873, foi a grande fonte inspiradora para as primeiras escolas de samba. Lembrando ainda as procissões religiosas, a sua música, voltada para as tradições folclóricas, principalmente o maracatu, trazia um andamento dolente, arrastado, nada adaptado para a euforia dos primeiros sambistas que também despontavam nesses mesmos espaços culturais:

"Essa lentidão, que permitia um desfilar sem vibração, quase monótono, causava irritação aos carnavalescos da nova geração, que se mostravam desejosos de dançar com um ritmo mais alegre e de acordo com a folia do carnaval. Esse foi o motivo que levou sambistas - como Ismael Silva e seus companheiros - compositores que viviam no Estácio e periferia, a criar um novo ritmo que permitisse cantar, dançar e desfilar, ao mesmo tempo."

E por que no Estácio?

O Estácio, tradicional bairro de bambas, boêmios e tipos perigosos - o índice de vadiagem na região era grande devido ao excesso de mão de obra e a escassez da oferta de trabalho - situava-se geograficamente perto do morro de São Carlos e também da Praça Onze, local dos desfiles, o que facilitava a troca cultural.

"Esses bambas, como eram conhecidos na época os líderes dessa massa de desocupados ou trabalhadores precários, eram, pois, os mais visados no caso de qualquer ação policial. Assim, não é de estranhar que tenha partido de um grupo desses representantes típicos das camadas mais baixas da época - Ismael Silva, Rubens e Alcebíades Barcellos, Sílvio Fernandes, o Brancura, e Edgar Marcelino dos Santos - a idéia de criar uma agremiação carnavalesca capaz de gozar da mesma proteção policial conferida aos ranchos e às chamadas grandes Sociedades, no desfile pela Avenida, na terça-feira gorda."

De fato, foi um drible de craque, ou, como queiram, um verdadeiro golpe de bamba nas autoridades, realizável apenas por aqueles que cedo aprenderam a conviver com a repressão, tendo que buscar soluções viáveis para a sua existência cultural. Assim, a Deixa falar do Estácio entrou na avenida naquele ano de 1929 como um "bloco de corda", totalmente legitimada e protegida pela polícia, ao som de um ritmo saltitante e uma nova batida, capaz de provocar a euforia de qualquer folião: a batucada. Um ano mais tarde, cinco outras escolas apareceram para o desfile da Praça Onze: a Cada ano sai melhor (do Morro do São Carlos); a Estação primeira de Mangueira; a Vai como pode (mais tarde, Portela), a Para o ano sai melhor (também do Estácio) e a Vizinha faladeira (das imediações da Praça Onze).

Surgida no Largo do Estácio, a novidade repercutiu rapidamente para vários morros e subúrbios. Desta forma, as escolas foram se espalhando e a cada ano nasciam outras agremiações carnavalescas que faziam suas evoluções na Praça Onze, cantando sambas com temáticas que abordavam acontecimentos locais ou nacionais, tanto no domingo quanto na terça-feira gorda. Estava definitivamente consolidado o samba carioca.

"Criou um território, pequeno, mas só dele. Mandava num quadrilátero que ia da Saúde ao Estácio, e da Praça da Bandeira à Onze. Esta sempre servindo de sede para os acontecimentos mais importantes de sua vida. Na praça a aglomeração cresceu, sempre em torno dele. Era o pessoal descendo o morro para brincá-lo no carnaval, eram os ranchos, blocos e cordões se chegando para a festa. Samba fora da Praça Onze não tinha graça. Não podia ser. A praça-mãe devia ter calor maior. Enfim, feitiço de berço."

O samba e suas variações

Samba carnavalesco : designação genérica dada aos sambas criados e lançados exclusivamente para o carnaval. Os compositores tinham uma certa queda por este "gênero" (neste incluem-se as marchinhas) por visarem os gordos prêmios oferecido pela Prefeitura em seus concursos anuais de músicas carnavalescas.

Samba de meio-de-ano : qualquer samba despretensioso aos festejos carnavalescos.
Samba raiado: uma das primeiras designações recebidas pelo samba. Segundo João da Baiana, o samba raiado era o mesmo que chula raiada ou samba de partido-alto. Para o sambista Caninha, este foi o primeiro nome teria ouvido em casa de tia Dadá.

Samba de partido-alto: um dos primeiros estilos de samba de que se tem notícia. Surgiu no início do século XX, mesclando formas antigas (o partido-alto baiano) a outras mais modernas (como o samba-dança-batuques). Era dançado e cantado. Caracterizava-se pela improvisação dos versos em relação a um tema e pela riqueza rítmica e melódica. Cultivado apenas pelos sambistas de "alto gabarito" (daí a expressão partido-alto), foi retomado na década de 40 pelos moradores dos morros cariocas, já não mais ligado às danças de roda.

Samba-batido: variante coreográfica do samba existente na Bahia.

Samba de morro: tradicionalmente conhecido como o samba autenticamente popular surgido no bairro do Estácio e que teve na Mangueira, um dos seus redutos mais importantes a partir da década de 30.

Samba de terreiro: composição de meio de ano não incluída nos desfiles carnavalescos. É cantado fora do período dos ensaios de samba-enredo, servindo para animar as festas de quadra, durante as reuniões dos sambistas, festas de aniversário ou confraternizações.

Samba-canção: estilo nascido na década de 30, tendo por característica um ritmo lento, cadenciado, influenciado mais tarde pela música estrangeira. Foi lançado por Aracy Cortes em 1928 com a gravação Ai, Ioiô de Henrique Vogeler. Foi o gênero da classe média por excelência e a temática de suas letras era quase sempre romântica, quando não assumindo um tom queixoso. A partir de 1950, teve grande influência do bolero e de outros ritmos estrangeiros.

Samba-enredo: estilo criado pelos compositores das escolas de samba cariocas em 1930, tendo como fonte inspiradora um fato histórico, literário ou biográfico, amarrados por uma narrativa. É o tema do samba-enredo que dá o tom do desfile em suas cores, alegorias, adereços e evoluções, pois este é o assunto que será desenvolvido pela escola durante a sua evolução na avenida.

Samba-choro: variante do samba surgida em 1930 que utiliza o fraseado instrumental do choro. Entre as primeiras composições no estilo, figuram Amor em excesso (Gadé e Walfrido Silva/1932) e Amor de parceria (Noel Rosa/1935).

Samba carnavalesco: designação genérica dada aos sambas criados e lançados exclusivamente para o carnaval.

Samba de breque: variante do samba-choro, caracterizado por um ritmo acentuadamente sincopado com paradas bruscas chamadas breques (do inglês "break"), designação popular para os freios de automóveis. Essa paradas servem para o cantor encaixar as frases apenas faladas, conferindo graça e malandragem na narrativa. Luiz Barbosa foi o primeiro a trabalhar este tipo de samba que conheceu em Moreira da Silva o seu expoente máximo.

Samba-exaltação: samba de melodia longa e letra abordando um tema patriótico. Desenvolveu-se a partir de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Foi cultivado por profissionais do teatro musicado, do rádio e do disco depois do sucesso de Aquarela do Brasil (1939) de Ary Barroso. A ênfase musical recai sobre o arranjo orquestral que deve conter elementos grandiloqüentes, conferindo força e vigor ao nacionalismo que se quer demonstrar.

Samba de gafieira: modalidade que se caracteriza por um ritmo sincopado, geralmente apenas tocado e tendo nos metais (trombones, saxofones e trompetes) a força de apoio para o arranjo instrumental da orquestra. Criado na década de 40, o estilo, influenciado pelas "big-bands" americanas, serve sobretudo para se dançar.

Sambalada: estilo de ritmo lento, surgido nas décadas de 40 e 50, similar ao das músicas estrangeiras lançadas na época (como o bolero e a balada, por exemplo) tido como um produto da manipulação das grandes gravadoras que tinham apenas finalidade comercial.

Sambalanço: modalidade que se caracteriza pelo deslocamento da acentuação rítmica, inventado na metade da década de 50, por músicos influenciados por orquestras de bailes e boates do Rio e de São Paulo que tinham como base os gêneros musicais norte-americanos, principalmente o jazz. Pode ainda ser definido como o estilo intermediário entre o samba tradicional e a bossa-nova, do qual Jorge Ben (Jor) foi o grande expoente.

Sambolero: tipo de samba-canção comercial fortemente influenciado pelo bolero, que teve o seu apogeu também na década de 50. Imposto pelas grandes companhias de disco.

Samba-jazz: gênero comandado por Carlos Lyra e Nelson Luiz Barros e mais tarde cultivado por outros compositores ligados à Bossa-Nova que buscavam soluções estéticas mais populares como resposta ao caráter demasiadamente intimista de João Gilberto. Abriu espaço para o nascimento da MPB, através dos festivais de música promovidos pela TV Record de São Paulo, durante os anos 60.

Sambão: considerado extremamente popular e comercial, o gênero conheceu seu momento de glória a partir dos anos 70, quando se pregava a volta do autêntico samba tradicional. Nada mais é do que uma apropriação muitas vezes indevida e descaracterizada do conhecido samba do morro.

Samba de moderno partido: modalidade contemporânea do gênero liderada pelo compositor Martinho da Vila, que mantém a vivacidade da percussão tradicional do samba aliada a uma veia irônica na temática de suas letras.

Samba de embolada: modalidade de samba entoado de improviso. Segundo Câmara Cascudo, citado no Dicionário Musical Brasileiro de Mário de Andrade, os melhores sambas de embolada estão em tonalidades menores.

Samba-rumba: tipo de samba influenciado pela rumba, ritmo caribenho em voga no Brasil na década de 50.

Samba-reggae : misturado aos ritmos da Bahia, com forte influência da divisão rítmica do reggae.

Fontes:
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal. Portal CEN. Enviado por e-maIl
Desenho
http://marcioguilherme.apostos.com

domingo, 28 de setembro de 2008

Nilto Maciel (Leste da Morte)

A trama das narrativas de Nilto Maciel freqüentemente se expressa em linguagem poética: “Abriu a porta e o som do piano inundou o mundo. (...) Tateou espaldares de cadeiras. Tocos os dedos numa orelha. Ouviu um muxoxo feminino. (...) Conhecia a música. Talvez de Haendel. Ou seria de Grieg? (...) As mãos do artista. Não, não podiam ser mãos. (...) Sim, eram garras, jamais mãos humanas. Seriam de lobo?” Atmosfera semelhante pode ser encontrada em vários outros momentos do livro. Trata-se de um cadáver ensangüentado, “levado, às escuras, para os confins do cemitério. (...) E o enterraram numa cova aberta às pressas. A leste da morte” (p. 39). Ao escrever sobre incêndio ocorrido num espigão de cimento armado, o salto de uma pessoa para o abismo é visto deste modo pelo autor: “Súbito um corpo apareceu entre a parede do edifício e a eternidade, rodopiou no espaço, na direção da terra”. Para espanto da platéia, o suposto cadáver ergueu-se do chão e saiu andando (p. 43).

Num conto em que narra as peripécias de um mágico supostamente dinamarquês, a cosmovisão do ficcionista desenha poeticamente as façanhas saídas das mãos do prestidigitador: “Uma pombinha surgia trêmula nas mãos do estrangeiro. Batia as asinhas, voava, voava e sumia no céu. Um coelhinho saltava da cartola, olhinhos vermelhos de espanto, focinho inquieto, e as primeiras mãos do povo o agarraram sangrentas” (p. 67).

“Menino Insone” (p. 76) é outra página com todas as peculiaridades de um poema. Os ritmos da narrativa parecem confundir-se com os ritmos da respiração dos personagens. Não se sabe ao certo se o menino está dormindo ou acordado sob “a luz da lamparina (que) bruxuleia”. O irmão menor do menino levanta-se da rede e perambula pela casa, como se acometido de uma crise de sonambulismo. “Permanece de olhos abertos, atento à luz da lamparina, às sombras, aos pequenos ruídos”. É como se um fantasma, expulso dos subterrâneos de um pesadelo, vagasse por aposentos desertos à procura de reminiscências de vidas passadas em outros planetas.

Contos dessa natureza não são raros na ficção de Nilto Maciel. Levam necessariamente o leitor às raízes da chamada literatura do absurdo, na qual se destacam celebridades da estatura de Kafka e de outros mestres do gênero. “Chovia fininho. Um arco-íris enorme cobria a praça, a cidade, a serra, o mundo. (...) Na rede ao lado, o outro menino dormia. Pareceu-lhe ouvir um galo cantar” (p. 77). Em “Chão Pintado de Sangue”, algumas pessoas aplaudiam ou vaiavam “um rapaz de roupas exóticas”, que declamava versos herméticos para uma platéia irreverente: “O poema é um punhal que brilhará na carne dos condescendentes. Seus reflexos parirão estrelas que habitarão o céu. Marinas cintilarão como ametistas nas bocas dos desvalidos. Imensas pérolas de enfeites da grande festa anunciada” (p. 63).

Poderia citar vários outros exemplos da riqueza semântica encontrada no contexto das narrativas de Nilto Maciel. Não o faço por estar convencido de que ao leitor deve caber o privilégio de descobri-los por si mesmo. Até porque, segundo Montaigne, certos leitores são capazes de detectar nos escritos alheios virtudes e perfeições não percebidos pelos próprios autores. Gosto sempre de repetir frase de Drummond, segundo a qual “o romance é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”.

Nilto Maciel é, sem dúvida, um mestre consumado do conto moderno. Não apenas pelo requinte no uso de todas as gradações e alternativas morfológicas da escrita literária. Como também, e sobretudo, pela maneira engenhosa com que disserta sobre tendências e conflitos da subjetividade que navega “a leste da morte”.
Fortaleza, 3 de agosto de 2006.

Narrativa polifônica caracteriza os contos do novo livro de Nilto Maciel
Ronaldo Cagiano • Brasília – DF

Autor de mais de duas dezenas de livros que cobrem diversos gêneros, Nilto Maciel percorre com desenvoltura várias temáticas, sempre se valendo de uma grande flexibilidade de linguagem, técnica e forma e da manipulação de cenários distintos para construir seus personagens e histórias. Em seu novo livro, A leste da morte, ele reúne 47 contos, matizando universos que extrapolam os territórios geográficos, porque são ressonâncias fiéis do psicológico, da memória, das lembranças e imagens ancestrais, que constituem as experiências afetivas, sociais e humanas que habitam a imaginação e são as referências que sustentam o vasto espectro criativo do autor.

Alternando textos breves ou longos com uma prosa que mantém um pé na tradição e outro na modernidade, Maciel consolida sua força narrativa em histórias que filtram a vida, principalmente a vida do interior, onde o autor colhe matéria para uma artesania literária que incorpora, na maioria das vezes, um vezo de surrealismo. Alguns textos têm a duração de um curta-metragem e trazem, nesse breve arcabouço, um mundo coroado de mistério e misticismo, de sagrado ou de profano, de lenda e de folclore, revelando sutilmente a alma sertaneja, distanciando-se dos clichês da escritura regionalista. Não obstante a cor local de seus contos, a dicção niltoniana ultrapassa as fronteiras dessa geografia carregada de mitologias, porque os dramas e acontecimentos retratados são próprios do homem em qualquer circunstância ou lugar, daí a universalidade de seus relatos.

Trem fantasma, texto que nos faz embarcar no conjunto dessas histórias, revela, tanto pela síntese quanto pelo inusitado e pela surpresa, a tendência fabulatória encontrada em muitos textos do autor, que busca na fantasia, no absurdo, na alegoria ou na caricatura um artifício para compreender a realidade. A exatidão minimalista e fotográfica de alguns contos também nos remete a perceber a influência da instantaneidade, peculiar à oralidade e ao coloquialismo encontradiços na rica cultura popular nordestina.

Nilto aproveita a carga metafórica das histórias do mundo anterior que traz no inconsciente e as reinventa, para guiar o leitor por diversas atmosferas. A ambientação da linguagem, embora sem localização territorial, nos faz reconhecer situações presentes no imaginário do homem do interior, em que prevalecem os velhos cacoetes da vida provinciana, dos burgos, do coronelismo e do cangaço, da religiosidade e das crendices, com seus coronéis, suas lutas de poder, em que vida e morte se digladiam em tênue fronteira. Enfim, um esboço típico dos contrastes entre a modernidade e o arcaísmo, aqui amalgamado por um sutil censo de humor e ironia.

O último vôo da rapina, conto em que o personagem principal é o anagrama do abutre, traz como simbologia a luta pela preservação da vida por meio da busca desenfreada da manutenção dos sonhos, num conto de acento hitchcockiano. Outro bom exemplo de tessitura ficcional encontramos em Os urubus e Deus, explícito viés do fantástico. Em outros momentos, Nilto repovoa suas histórias revisitando temas bíblicos, literários e históricos, como em Caim e Abel, O sonho esquecido, O sétimo aniversário de Branca de Neve, Apontamentos para um ensaio e o paradigmático Maneco, futebol e cerveja, reconstrução da decadência de um jogador, numa perfeita analogia sobre a fugacidade da glória e a transitoriedade do infortúnio.

A perícia de Nilto Maciel é marcante na confecção de Águas de Badu, ao utilizar-se da transcriação literária para dialogar com a profundidade narrativa de Guimarães Rosa, invocando os paradigmas de O burrinho pedrês. E no peculiar O livro infinito, uma espécie de conto dentro do conto, transita pela história, pela literatura, pela música, etc., num espectro em que se discute a própria arte. Impende dizer que para atingir o ápice ou convencer o leitor, Maciel não se vale de nenhum recurso estrambótico, como rupturas ou outros artifícios experimentais de linguagem. Sua prosa se revela moderna, mas sua estrutura é clássica, tradicional, porque o que importa para o autor é o domínio do conteúdo e não o extravasamento da forma.

A leste da morte é um caleidoscópio de temas e situações que consolidam a trajetória de Nilto Maciel, um autor que há três décadas vem se dedicando de corpo e alma à literatura e a cada novo livro, com seu timbre, suas vozes e seu sutil censo de observação, se afirma como um habilidoso artista, que conta e reconta as delícias e asperezas da vida, expondo as grandezas e misérias humanas, com inegável destreza literária.

Fontes:
Francisco Carvalho. in http://www.vastoabismo.xpg.com.br
Ronaldo Cagiano in http://www.bestiario.com.br