terça-feira, 17 de março de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (O fim de Jafar e dos Baramikas)


Esta, ó afortunado rei, é uma história triste que desfigura o reino do califa Harun Al-Rachid com uma mancha de sangue que nem os quatro rios serão capazes de lavar. Sabe-se, ó rei do tempo, que Jafar era um dos quatro filhos de Yahia Ibn Khaled Ibn Barmak. Seu irmão mais velho, Al-Fadl, era irmão de leite do califa. Sua mãe, Itabah, e a mãe do califa eram ligadas por profundo afeto, e cada uma deu ao filho da outra algum de seu leite. Harun Al-Rachid sempre chamava Al-Fadl de “meu irmão.” 

Os Baramikas tinham sua origem na cidade de Balkh, no Khorassan, onde ocupavam altas posições. Mudaram-se para Damasco uns cem anos após a Hégira do Profeta (sobre ele a oração e a paz) e lá abraçaram o islã. Foi na época dos califas Abássidas em Bagdá que a família foi admitida aos Conselhos da corte. Khaled Ibn Barmak foi nomeado grão-vizir pelo califa Abul-Abbas As-Saffah. Na luta que opôs Al-Hadi a Harun Al-Rachid pelo trono, os Baramikas arriscaram a vida em defesa de Ar-Rachid, e quando este venceu e subiu ao trono, nomeou imediatamente Yahia grão-vizir e seus dois filhos, Al-Fadl e Jafar, vizires. 

A partir desse começo, os Baramikas conheceram todos os favores do destino e mostraram-se dignos deles. Eram como mares de generosidade, um refúgio para os aflitos, um ornamento sem igual na coroa do Império. Eram também administradores hábeis (encheram o tesouro público) e sábios conselheiros. Foi graças a eles que a glória de Harun Al-Rachid ressoou desde os planaltos da Ásia Central até as florestas nórdicas, e desde o Marrocos e a Andaluzia até a China e a Tartária. Jafar, em particular, era companheiro inseparável do califa, uma luz em seus olhos. 

Um dia, Harun Al-Rachid, voltando de uma peregrinação a Meca, navegou pelo Eufrates da cidade de Hira até a cidade de Âmbar e passou a noite no mosteiro de Al-Umr, às margens do rio. Jafar não estava com ele, tendo ido caçar por alguns dias nas montanhas do norte. Contudo, mensagens e presentes do califa seguiam-no em toda parte.

Naquela noite, Jafar estava sentado na sua tenda com Jibril - o médico pessoal de Ar-Rachid que o próprio califa encarregara de zelar pela saúde de Jafar - e o poeta espirituoso Abu-Zahar, também encarregado pelo califa de divertir seu amigo predileto. 

De repente, Masrur, o porta-espada do califa e instrumento de suas vinganças, entrou na tenda sem pedir licença. Jafar ficou pálido e disse ao eunuco: “Masrur, meu irmão, bem sabes que tenho sempre prazer em receber-te, mas espanta-me ver-te chegar assim bruscamente sem despachar um escravo para anunciar a tua chegada.” 

Retrucou o eunuco: “O assunto que me traz é grave demais para que me preocupasse com tais formalidades. Levanta-te, Jafar, e proclama tua fé pela última vez. O Comandante dos .Fiéis exige a tua cabeça.” 

Jafar pôs-se de pé e disse: “Não há Deus senão Alá, e Maomé é o profeta de Alá. Saímos das mãos de Alá, e cedo ou tarde a ele regressamos.” 

Depois, voltou-se para Masrur, que sempre fora seu amigo e companheiro, e disse-lhe: “Não é possível que o califa te tenha dado tal ordem, estando consciente do que fazia. Talvez estivesse distraído ou bêbado. Por favor, volta a ele, e verás que terá mudado suas ordens.” 

Retrucou Masrur: “É tua cabeça ou a minha. Não posso voltar sem cumprir as ordens. Registra teus últimos desejos.” 

– Nada desejo. Possa Alá acrescentar à vida de nosso soberano os anos que me está tirando.

Ajoelhou-se, cobriu os olhos com as próprias mãos, e Masrur cortou-lhe a cabeça. Masrur levou a cabeça ao califa, e este cuspiu sobre ela. Mas seu ressentimento não parou aí. Mandou crucificar o corpo e expor a cabeça separada. Seis meses depois, mandou queimar os restos de seu antigo amigo sobre excrementos de animais e lançar as cinzas nas latrinas. Tais suplícios ultrapassavam em degradação os aplicados aos mais vis malfeitores. 

Tal foi o fim de Jafar. Seu pai, Yahia, quase um pai também para Harun Al-Rachid, e seu irmão Al-Fadl, irmão de leite do califa, foram detidos na manhã que se seguiu à execução de Jafar, assim como todos os mil membros da família dos Baramikas, que ocupavam cargos públicos. Foram encarcerados em calabouços infectos; seus bens, confiscados; seus filhos e mulheres, deixados sem teto. Alguns morreram de fome. Outros foram estrangulados. Yahia e Al-Fadl morreram torturados. 

É natural que se pergunte: “O que motivou tamanha vingança?” Certo dia, anos após o fim dos Baramikas, Alia, filha mais jovem de Harun Al-Rachid, criou coragem e dirigiu-lhe a pergunta. Respondeu: “Minha filha, meu único consolo, de que te adiantaria conhecer o motivo? O fato é que se eu pensasse que a minha camisa descobriu esse motivo, rasgá-la-ia em pedaços.”

Os historiadores têm adiantado várias hipóteses e interpretações. Eis algumas delas:

1. Harun Al-Rachid acabou por sentir-se ofendido pelas extravagantes liberalidades de Jafar e dos demais Baramikas. O palácio dos Baramikas (que se levantava em frente ao palácio do califa, sendo os dois separados apenas pelo rio Tigre) era mais procurado que o palácio real por cortesãos e solicitantes. Jibril, o médico do califa, ouviu-o certa vez resmungar: “Yahia e seus filhos arrancaram das minhas mãos a administração meu reino. São eles o poder real. Eu sou apenas um figurão.”

2. Outros historiadores põem em relevo o fato de que certa vez Harun Al-Rachid mandou liquidar em segredo um descendente de Ali e de Fátima, a filha do Profeta, descrevendo-o como “um perigo para a dinastia dos Abássidas.” Jafar teve pena do homem e salvou-o sem informar o califa. Mas inimigos de Jafar revelaram-lhe o fato. Dizem que foi essa a gota d”água que fez transbordar a maré de cólera já provocada e aumentada pela predominância dos Baramikas. Alguém ouviu o califa jurar: “Que Alá me destrua se não te destruir, ó Jafar!”

3. Outros historiadores atribuem a queda dos Baramikas a suas opiniões heréticas em face do islã ortodoxo. Na sua cidade de origem, Balkh, os Baramikas praticavam a religião dos magos, e sempre impediram que os templos daquela religião fossem destruídos. O califa foi informado disso e de que os Baramikas favoreciam certo grupo de heréticos, os Zanádikas, que eram inimigos pessoais do califa.

4. Outros cronistas relatam uma história estranha como sendo a causa daquela vingança terrível. Como já vimos, Harun Al-Rachid gostava de Jafar como de um irmão, e não poderia viver separado dele. Gostava também de maneira excêntrica de uma irmã chamada Abbassa. Dela também não aguentava separar-se. Para ter essas duas criaturas sempre perto dele, pediu a Jafar para casar-se com Abbassa sem nunca consumar esse casamento. Marido e mulher diante da lei, eles só podiam encontrar-se na presença do califa e nem lá era-lhes permitido olhar livremente um para o outro.

Ora, Abbassa apaixonou-se por Jafar e, usando ciladas, passou a encontrar-se com ele em segredo. Tiveram até um filho que mandaram esconder em Meca. Invejosos revelaram a verdade ao califa. Ele foi até Meca à procura de provas e conseguiu localizar o menino. Uma raiva incontida, feita de mil elementos, dominou-o. Foi na volta daquela viagem que mandou Masrur dar início à destruição dos Baramikas. Foi também então que mandou trazer para Bagdá aquele menino e sua mãe. Foram sepultados vivos em sua própria casa.

Após tudo isso, remorsos angustiantes tomaram conta dele. Não podia mesmo viver sem Jafar.
Abandonou Bagdá e instalou-se em Rakah. Ninguém ousava falar dos Baramikas na sua presença. Pouco a pouco, tornou-se vítima de alucinações. Imaginava que seus próprios filhos, Al-Amim e Al-Mamun, conspiravam contra ele, em conivência com seu médico Jibril e com o próprio Masrur.

Dizia: “Era invejado pelo mundo todo. Agora o mundo todo pode ter pena de mim.”

Morreu na cidade de Tus na idade de quarenta e sete anos.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing