(tradução do espanhol por José Feldman)
A literatura mundial está de luto. Considerado uma das vozes mais influentes da literatura latino-americana, o escritor peruano Alfredo Bryce Echenique (Lima/Peru; 1939 – 2026) faleceu aos 87 anos. Embora alguns jornalistas tenham tentado incluí-lo no movimento do "boom literário", Alfredo sempre rejeitou essa afirmação:
"Eu era distante deles, tanto por causa da minha origem social e do meu meio, quanto por causa da minha educação e dos meus desejos mais íntimos. O brilho dos mestres me cegou", declarou em entrevista ao jornalista Xavi Ayén, autor do livro "Aqueles Anos do Boom Literário".
Completou o ensino fundamental na Escola do Imaculado Coração. Cursou o ensino médio na Escola Santa María Marianistas e na Escola San Pablo, um internato britânico em Lima. Em 1957, ingressou na Universidade Nacional de San Marcos, em Lima, e se formou em Direito.
Em 1977, obteve seu doutorado em literatura pela mesma universidade. Esta é uma razão mais do que válida para que seus restos mortais sejam velados na Casona da Universidade de San Marcos, a primeira universidade das Américas, fundada em 1551 por Decreto Real. Também estudou na Universidade Católica do Peru e na Sorbonne, na França, onde também lecionou.
Sua primeira universidade o homenageou durante a conferência internacional: “Alfredo Bryce Echenique: A Poética da Oralidade, da Ironia e da Memória”. Este encontro acadêmico comemorou o 55º aniversário de sua grande obra, “Um Mundo para Júlio”, e o 25º aniversário de “Não Me Espere em Abril”.
No evento, foi anunciado que os manuscritos do romance “Um Mundo para Júlio” seriam preservados pelo Instituto Cervantes do Governo Espanhol, em sua sede em Madri.
Ambos os romances são obras fundamentais da literatura latino-americana. No evento acadêmico, o escritor declarou: “É uma grande honra que minha vida esteja sendo estudada na primeira universidade onde me formei”.
Durante um período de sua vida, Bryce Echenique lecionou na Escola San Andrés, em Lima, onde ministrou aulas de Língua e Literatura Espanhola.
A Cátedra Vargas Llosa e a Casa da Literatura Peruana concordam que: “A literatura do século XX não pode ser compreendida sem a sua voz e a sua obra. Seu legado cultural e intelectual e sua defesa da liberdade são imensuráveis.”
O romance "Um Mundo de Júlio" foi sua primeira e, sem dúvida, sua obra mais emblemática. Com ele, ganhou o Prêmio Nacional de Literatura do Peru e, posteriormente, também foi reconhecido na França.
É considerado por especialistas em literatura peruana, juntamente com o romance "Conversas na Catedral", do escritor peruano-espanhol Mário Vargas Llosa, como um dos melhores romances peruanos de todos os tempos. O escritor, nascido em Lima, publicou uma dezena de romances e dezenas de contos. Bryce Echenique viveu entre a Europa (França e Espanha) e seu Peru natal.
Em 1998, ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa da Espanha por sua obra "Prisioneiro da Noite". Ao longo de sua extensa carreira literária, também cometeu alguns deslizes, como quando, em 2009, foi multado em aproximadamente US$ 48.000 pelo Instituto Nacional de Defesa da Concorrência e Proteção da Propriedade Intelectual do Peru (Indecopi) após ser comprovado o plágio de uma série de artigos publicados em veículos de comunicação no Peru e na Espanha. Como resultado desse "tropeço", sua concessão do Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), a mais importante da América Latina e do Caribe, em 2012, foi questionada, provocando alguns protestos contra ele. Naquele mesmo ano, Bryce Echenique publicou seu último romance: "Sentindo pena da tristeza".
Em entrevista ao jornal La República, em setembro de 2024, o escritor peruano ofereceu alguns conselhos a jovens escritores:
“Eu diria para viajarem. É impressionante como o mundo mudou para os escritores. Antes, todos queriam ir a Paris; agora, os escritores querem ir a Madri. Tenho muitos amigos escritores em Madri, como Jorge Eduardo Benavides, que mora na Espanha há muitos anos. Ele é um bom exemplo de persistência.”
Seu amigo, o escritor peruano Benavides, ao saber da morte de Arturo, disse, entre outras coisas: “Com a morte de Bryce Echenique, perdemos uma das últimas grandes figuras da literatura latino-americana contemporânea, um homem reconhecido por seu estilo narrativo caracterizado por humor, ternura e um olhar crítico em relação à elite de Lima — traços que marcaram grande parte de sua obra literária.”
Alfredo Bryce não era político, mas tinha sua própria opinião sobre o escritor e o político: “Quando um artista, seja ele escritor ou o que for, se aproxima do poder, é para ser um bobo da corte. O homem no poder sempre vai querer que o artista o entretenha.”
Ele viveu em Barcelona, na Espanha, cidade à qual dedica um lugar especial em suas "antimemórias": "Só houve uma cidade na minha vida, e foi essa", declarou o escritor.
Em entrevista ao jornal Perú21, Arturo Bryce Echenique afirmou que a literatura foi sua salvação: "Ela me salva até hoje. A literatura é uma salvação muito duradoura."
A morte de Alfredo Bryce Echenique encerra a obra de um escritor de grande influência na literatura de seu país, a República do Peru, e também na literatura latino-americana. Sua obra permanece conosco.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.
Fonte:
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