quarta-feira, 10 de junho de 2026

Asas da Poesia * 190 *


Trova Humorística de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Entre o passado e o futuro,
mudou o amor um bocado:
- o que o vovô fez no escuro,
faz o neto, escancarado!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

À espera...

Aqui me pego, à tua saudade, esperando
que venhas e traga ternura em teus traços...
Porém, passam-se as horas... E já desanimado
Cismo que não chegarás até meus braços

E meus anseios vão se arrastando
em tua ausência c’os meus embaraços...
Tão depressa as horas foram passando,
Que até ouço a saudade e seus tristes passos...

Perto de mim, uma pá de gente segue cruzando
indiferente ao anseio de que desejo ver-te
e que aos poucos estou me definhando...

Esgotou-se o tempo... Esperar-te foi em vão.
Mas a angústia louca de amanhã rever-te,
faz regressar feliz este meu coração!...
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Aldravia de
ELVANDRO BURITY
Rio de Janeiro/RJ

tentando
ser
amado
cobiço
seu
coração
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Soneto de
AUGUSTO DOS ANJOS
(Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos)
Cruz do Espírito Santo/PB (1884 – 1914) Leopoldina/MG

Asa de Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte — a costureira funerária —
Cose para o homem a última camisa!
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Trova de
J. STAVOLA PORTO 
Niterói/RJ

Labaredas, nas queimadas
da floresta em combustão,
lembram mãos agoniadas,
rogando aos céus proteção.
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Poema de
FILEMON F. MARTINS
São Paulo/SP

O amor

É como a flor que nasce no jardim
e vai florindo com cuidado e zelo.
O amor também floresce e cresce assim
com carícia, paixão, amor, desvelo...

É preciso cuidar, plantando, enfim,
compreensão, carinho e defendê-lo
da praga do ciúme tão ruim
que teima em desfazer e ser, sem sê-lo.

Um grande amor toda a beleza exprime,
porque o amor faz a vida mais sublime
e exige inspiração de quem o quer.

A vida a dois há de ficar mais bela,
se houver no coração a flor singela
e um sorriso feliz de uma MULHER.
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QUADRA POPULAR

Toda vez que considero
que tenho de te deixar,
me foge o sangue da veia,
e o coração do lugar.
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Soneto de
PEDRO XISTO
(Pedro Xisto Pereira de Carvalho)
Limoeiro/PE, 1901 – 1987, São Paulo/SP

Unidade

Do crepúsculo as faixas carregadas
eu desato, as primícias perseguindo
do sonho a que se volva o dia findo
(já não terá o rei suas espadas).

De toda diferença, ora, prescindo:
disputem outros sobre as bem-amadas
(ai! alma, em dúbio sangue sobrenadas...)
ou se é o rosto, sob os véus, mais lindo.

A pouco e pouco, afrouxaram-se estas malhas;
os olhos as trespassam, de tão falhas;
e um só, de volta em volta, o meu caminho.

As mãos, eu pouse — ó Vida! — em frescas toalhas
eu, contra o peito, quando me agasalhas
definitivamente, sou sozinho.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Ante o horror de uma queimada,
tenho a impressão verdadeira
de ver a Pátria enlutada,
sem mais verde na bandeira!
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Poema de
JACY PACHECO
Duas Barras/RJ, 1910 – 1989, Niterói/RJ

Primavera do Mundo 

Primavera do mundo, tu virás!
Talvez não venhas na tranquilidade
de um dia claro e musical.
Trarás as mãos ensanguentadas
e as rosas se abrirão todas vermelhas.

Mas chegarás!
E extirparás a tirania
e todos os princípios egoístas.
E as máquinas da paz
revolverão o solo redimido
pelo sangue de irmãos idealistas.

Primavera do mundo, eu te entrevejo
numa nesga de sol recém-nascido,
anunciando o bem dos homens livres,
a vitória do amor, do ideal fecundo!   

Aguardo o teu instante triunfal
primavera do mundo!
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Haicai de
JOÃO BATISTA SERRA
Caucaia/CE

Azulão contempla
O firmamento azulado:
Deseja ser livre.
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Sextilha Agalopada de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Ontem vi, na internet, em lindas cores,
a beleza da aurora boreal...
Lembrei todas as flores do sertão
e os encantos do verde litoral
para expor, em palavras coloridas,
uma espécie de língua universal.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Poeta! Em que mundo vives?
Vais flanando, sonhador,
lapidando feito ourives
os versos de um grande amor…
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE 
Caminhando pro horizonte 
quis a minha dor levar, 
lá eu encontrei uma fonte, 
sem água pra me aliviar! 
José Feldman 
(Floresta/PR)

GLOSA
Caminhando pro horizonte, 
sedento, foi que eu dei fé 
que um rio, descendo um monte, 
corria até o seu sopé! 

A vida, já por um fio, 
quis a minha dor levar 
pra junto daquele rio 
pra minha sede passar! 

Dei a volta pelo monte 
mas cruel foi o destino; 
lá eu encontrei uma fonte, 
vazia..., que desatino! 

Qual foi a minha agonia 
quando pude constatar 
que a fonte estava vazia; 
sem água pra me aliviar!
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Aldravia de
ANNA RIBEIRO
Itajaí/SC

nas
entrelinhas
em
busca
de
mim
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Soneto de
JORGE WANDERLEY
(Jorge Eduardo Figueiredo de Oliveira Wanderley)
Recife/PE, 1938 – 1999

Pátio secreto

Vejo-o talvez em sonho, quando nada
Parece mal: o mesmo pátio, as sombras,
O chafariz envelhecido, a pátina
Que a algum luar de mármore responde.

O muro, o musgo, a vinha, o abandono
Da pedra e a quase fria madrugada
Passada em névoa ao cinzento do outono,
O sono que flutua em tudo, em nada.

Tudo está morto e vivo pela imagem,
Recanto, quadro, música, memória
Que visito dormindo e sem matéria.

Outros o viram, também. De passagem
Deixaram algo oculto a sua história,
Marca secreta, assinatura etérea.
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Trova de
ADELIR COELHO MACHADO 
São Gonçao/RJ, 1928 - 2003, Niterói/RJ

Nosso grisalho carinho
é bênção que Deus nos deu:
és presença em meu caminho,
eu sou presença no teu!
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Poema de
NORTON CORDEIRO
Campinas/SP

Maria rainha

Maria rainha não minha
Maria de outro, seu dono,
Vigilante perspicaz e cruel
Que não lega a ninguém o direito
De usufruir, mesmo um pouco
Pequeno que seja,
Do toda daquela sensual nobreza.

Maria rainha não minha
vã esperança - mas viva -
deste plebeu sonhador que anseia,
num dia de sorte reversa,
despistar seu cruel ditador,
pra num rompante de pura ousadia
fazê-la aia do meu amor.
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Triverso de
JOÃO TOLOI
Guarulhos/SP

Silêncio na estação
Sobre o trem que parte
A chuva de outono.
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Setilha Sobre o Mar de
CREUSA MEIRA 
Dom Basílio/BA

Primeiro dia do ano
As flores eu vou levar
São as minhas oferendas
Para a rainha do mar
Jogo gotas de alfazema
Leio um belo poema
Nas ondas a caminhar
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Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Em noite alta... madrugada,
contemplo a lua contrito:
- Barca de prata aportada
nos segredos do infinito.
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Hino de 
LIMEIRA/SP

Chão bendito de berços gloriosos
Tua origem uma linda limeira,
Fundada por labores ditosos
És cidade tão bela e faceira

Frutas doces, colhemos aos montes
Pomares verdejantes com flores
Laranjais circundam as fontes
Acariciando a vida de amores.
 
Tuas indústrias crescem e agigantam
As grandezas de nosso porvir
Jardins - Praças todos se encantam
Com músicas sonoras a ouvir.

Chão bendito de berços gloriosos
Tua origem uma linda limeira,
Fundada por labores ditosos
És cidade tão bela e faceira

Povo amigo de ação relevante
Nossas escolas padrões elevados
Nossa fé seguirá triunfante
Sendo os mestres heróis abençoados.

Chão bendito de berços gloriosos
Tua origem uma linda limeira,
Fundada por labores ditosos
És cidade tão bela e faceira

Limeira! Limeira!
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Hino de Limeira: Uma Ode à Terra de Frutas e Indústrias
O 'Hino de Limeira - SP' é uma celebração poética e musical da cidade de Limeira, localizada no interior do estado de São Paulo. A letra exalta as belezas naturais, a prosperidade econômica e o espírito comunitário da cidade. Desde o início, a música destaca a origem gloriosa de Limeira, referindo-se a ela como um 'chão bendito de berços gloriosos'. A palavra 'limeira' no contexto histórico remete à árvore de limão, simbolizando a fertilidade e a abundância da região.

O estribilho da música enfatiza a riqueza agrícola de Limeira, mencionando as frutas doces e os pomares verdejantes. A imagem dos laranjais circundando as fontes sugere uma paisagem idílica e fértil, onde a natureza e a vida humana coexistem em harmonia. Essa parte da letra não só celebra a produção agrícola, mas também evoca um sentimento de amor e carinho pela terra.

Além das belezas naturais, o hino também destaca o crescimento industrial da cidade, mencionando que as indústrias 'crescem e agigantam'. Isso reflete a modernização e o desenvolvimento econômico de Limeira, que se tornou um importante polo industrial. A letra também faz referência à educação e à fé, exaltando as escolas de padrões elevados e a fé triunfante do povo limeirense. A música termina com um chamado apaixonado à cidade, repetindo o nome 'Limeira' como um grito de orgulho e pertencimento.  
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Poetrix de
REGINA LYRA
João Pessoa/PB

Afinado

Nas cordas do violão
o músico faz de um chorinho
belo sorriso.
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Soneto de
BASTOS TIGRE
(Manuel Bastos Tigre)
Recife/PE, 1882-1957, Rio de Janeiro/RJ

Amor de pronto

Suplicas que eu te escreva e que te diga
Se te não quero mais com o mesmo ardor.
Pedes "três linhas... uma frase amiga,
Um rápido bilhete... o quer que for."

Nada perdeu da intensidade antiga
Meu sempre novo e apaixonado amor;
O ofício de te amar não me fatiga
E além do mais eu sou conservador.

Dizes estar de tanta espera farta;
Que os homens, às amantes sempre infiéis,
Só merecem (que horror!) que um raio os parta.

Não! Meu silêncio tem razões bem cruéis:
Ando "por baixo" e custa cada carta
Tinta, papel e um selo de cem réis.
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Trova Humorística de
CLEBER ROBERTO DE DE OLIVEIRA
São João de Meriti/RJ

Fiquei surpreso!... Foi chato,
com gente no "reservado",
ter de correr para o mato
e ler num galho: "OCUPADO"!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O lobo e o cordeiro

De ardente sede obrigados,
Foram ao mesmo ribeiro
A beber das frescas águas
Um lobo e mais um cordeiro.

O lobo pôs-se da parte
De onde o regato nascia;
O cordeiro, mais abaixo,
Na veia de água bebia.

A fera, que desavir-se
Com a mansa rês desejava,
Num tom severo e medonho,
Desta sorte lhe falava:

«Por que motivo me turvas
A água que estou bebendo?»
E o cordeirinho inocente
Assim respondeu, tremendo:

«Qual seja a razão que tenhas
De enfadar-te, não percebo!
Tu não vês que de ti corre
A mim esta água que bebo?»

Rebatida da verdade,
Tornou-lhe a fera cerval:
«Aqui haverá seis meses,
Sei de mim disseste mal.»

Respondeu-lhe o cordeirinho,
De frio medo oprimido:
«Nesse tempo, certamente,
Ainda eu não era nascido!

— Que importa? Se tu não foste,
Disse o lobo carniceiro,
Foi teu pai.» E, por aleives,
Lacera o pobre cordeiro!

Esta fábula dá brados
Contra aqueles insolentes
Que por delitos fingidos
Oprimem os inocentes.
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Mensagem na Garrafa 185 = O Sapo Cantor


Autor = José Feldman
Floresta/PR

Freddy era um sapo que vivia à beira de um lago tranquilo. Desde pequeno, ele sonhava em ser cantor. Ele passava horas praticando seu croar, mas ninguém parecia prestar atenção. Os outros sapos riam dele, dizendo que ele nunca seria tão bom quanto os pássaros.

Um dia, enquanto Freddy cantava sozinho, uma rã chamada Rita se aproximou. Ela ouviu sua canção e ficou encantada. 

"Você tem uma voz incrível! Por que não faz um show?", sugeriu Rita.

Freddy hesitou, mas a ideia o animou. Decidido, ele organizou um concerto à beira do lago, convidando todos os animais. 

No dia do show, Freddy estava nervoso, mas Rita estava lá para apoiá-lo.

Quando Freddy começou a cantar, sua voz ecoou pela floresta. Os pássaros pararam, e até os outros sapos ficaram em silêncio, admirando sua performance. A música de Freddy era única, cheia de emoção e paixão. Ao finalizar, todos aplaudiram e gritaram por mais.

O sucesso do show fez com que Freddy acreditasse em si mesmo. Ele continuou a cantar, e aos poucos, tornou-se um ícone na floresta. 

Sua canção agora ecoava não apenas no lago, mas em todo o bosque, celebrando a beleza de ser autêntico.
* * * *

A verdadeira felicidade vem de seguir seus sonhos, independentemente do que os outros pensam.

Fonte: FELDMAN, José. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 161

Alguém perguntou de onde surgem as crônicas.  Simples! Elas aparecem no amanhecer, nos dias claros e nas noites todas - enluaradas, belas ou medonhas. De repente percebemos que somos crônicas e cronistas. Agentes e pacientes. As crônicas nasceram com a criação do mundo e são elas que escrevem a história. 

Elas existem porque existem os seres vivos. Todos os viventes têm sua crônica diária -desde a minhoca ou a formiga até um elefante ou uma baleia-azul. Nossa percepção vê então que a vida é uma bela crônica que cada um escreve à sua maneira, como entende o mundo e a própria vida.

O mundo é uma crônica eivada de encantos, como também de ilusões, desencantos, desilusões.  Saboreando e digerindo os dias, bebericando doçuras e agridoces, a gente escreve as mais belas delas, que enchem os dias e tornam a vida amena, alcandorada- valendo a pena.  

Se nossos viveres forem os originais daquela crônica escrita de alma, coração e alumbramento, lá na última poderemos até parodiar Drumond : " Mas as crônicas findas, muito mais que lindas, essas ficarão ".
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

J. Mendes (Inércia)

Três e meia da tarde de uma quarta-feira, sol de cozinhar os miolos. Condução preferida de estudante vindo do interior : ônibus. Quando possível, táxi. Quase nunca é possível.

Lá vamos nós, rumo à casa da tia Vitória, a 4 km do centro, loucos para descolar um café e, quem sabe, uma boca livre no fim de tarde.

A tia era daquelas que não medem esforços para agradar. Além do café preparava também um lanche pra gente levar. No fundo, sabia que estudante vive duro. Dinheiro? O da passagem e olha lá, se perder, volta à pé. Era o nosso caso.

Tomamos o dito Expressão, eu e Madalena, amigo de riso e de quarto, rumo à Vila Hauer com algumas moedinhas no bolso e, na mente, a pressuposta vontade de fazer a visita.

O ponto do ônibus ficava a cinco quadras da casa. Pacientes, vamos divagando sobre a escola, o curso na Escola Técnica, o bairro e outras baboseiras sem fundamento. Aquilo mais parecia uma preparação psicológica para o que nos esperava: um lanche caprichado.

A tarde estava ótima e não poderia ser melhor. Café, presunto, queijo e bolo. Jantar à noite seria um exagero.

Na volta, enfastiados, merenda debaixo do braço, novamente cinco quadras até a rua do ônibus foi moleza. Depois de abusarmos da bondade da tia, satisfeitos ao extremo, retornamos para a Marechal Floriano e subimos novamente no Expressão, um minhocão articulado, recém lançado pela prefeitura.

Clapt, clapt ... a roleta não pára e lá se foi o último trocado.

Nenhum lugar sobrando, apenas eu e Madalena em pé. Rumamos para o final do corredor, pendurados no estribo e observados impiedosamente pelas caras feias e carrancudas, meio descontentes com o prefeito, mas bem acomodadas nos bancos de fibra.

O Expresso na capital é sinônimo de velocidade. Vias exclusivas enchem os motoristas de razão. Cansamos de testemunhar alguns desavisados do interior levando buzinadas e sustos na canaleta, de fato era divertido.

Pouco mais adiante a campainha grita. A freada é brusca, mais rápida que o pensamento e o braço do meu amigo Madalena que trocava de mão para avançar o passo. Não deu outra. Cadê o colega?

Do lado direito vejo largo sorriso estampado na boca de um crioulo. Talvez alguns dentes na parte superior e poucos na parte inferior da boca. Negrão gente boa, simpático e sorridente. Sobre o colo do rapaz, o Madalena, vermelho e sorridente também, sem forças nem apoio para levantar, inerte. E o crioulo na dele.

Que cena! Os dois irascíveis diante de uma centena de pessoas, loucas por uma gargalhada e contentes com o episódio. Madalena custou a subir, tentou manter a linha e não olhou para os lados.

Nunca se arrancou tamanho sorriso, tão facilmente, da população dentro de um ônibus, local de grande concentração do mau-humor.

- Desculpa, moço - balbucia o Madá.

- Foi nada, não, gente fina ! - responde o passageiro com o dente de baixo encaixado numa falha de cima.

O motorista, afoito e com horário a cumprir, acelera o motor e manda ver como se nada tivesse ocorrido, recolhendo aqui e ali novos candidatos ao colo do crioulo.

Quem disse que não se pode contar com a bondade alheia dentro de um ônibus? Lugares estão sempre disponíveis, mesmo a contragosto.

Se foi divertido? Vai imaginando a cena, está viva até hoje em nossas mentes.
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JERÔNIMO MENDES, Autor, Coach, Mentor e Palestrante, nasceu em Ponta Grossa/PR, a família mudou-se para Lagoa, no município de Telêmaco Borba/PR. Reside atualmente em Curitiba há mais de 40 anos. . Formado em Administração de Empresas, Pós-graduado em Logística Empresarial e Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local com foco em Empreendedorismo e Sustentabilidade. Formação em processos de Executive Coaching (Liderança), Life Coaching e Coaching de Carreira pelo ICI – Integrated Coaching Institute, de São Paulo. Coaching, Mentorias, Palestras e Treinamentos Corporativos para empresas e profissionais em nível de liderança.

Fonte:
Jerônimo Mendes. Muito além do cotidiano: crônicas. Curitiba/PR: 2001.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 6 *


De barro se faz o homem, 
e de luz principalmente. 
O barro, os anos consomem; 
a luz eterniza a gente!
A. A. DE ASSIS 

Dos inimigos que temos,
o mais impiedoso e atroz
geralmente não tememos:
— ó o que está dentro de nós!
ADALBERTO DUTRA DE REZENDE

Sou qual um rio sem rumo
 que não encontrou o mar;
 de mágoas eu me avolumo
 sem ter onde desaguar.
ADEMAR MACEDO

A idade é uma companheira
que traz sempre algum encanto...
e eu, levando em brincadeira,
nem vi que ela cresceu tanto!
ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO

Não digas toda a verdade,
se for triste e for grosseira.
Ê melhor ter caridade
que ser muito verdadeira.. .
ANA ROLÃO PRETO MARTINS ABANO

Não há coração, garanto,
entre os demais corações,
que não guarde, nalgum canto,
um punhado de ilusões.
ANTÔNIO CHAVES

Para consolar alguém,
muitas vezes — que ironia! —
a mentira faz um bem
que a verdade não faria.. .
APARÍCIO FERNANDES

Quem faz o bem a seu jeito,
nem sempre acerta, afinal.
— O bem deve ser bem feito,
para que não faça mal!
ARCHIMIMO LAPAGESSE

Entre o mar e o céu profundo,
esta é a maior verdade:
todo o dinheiro do mundo
não compra a felicidade!
ARNALDO LÚCIO

Confesso que gostaria
— sem nutrir desconfiança —
de ter esperança um dia
de um dia ter esperança!
CARLOS DE ALENCAR

Ninguém maldiria o fado,
seria a vida um prazer,
se às nossas mães fosse dado
nosso Destino escolher.
CARLOS GUIMARÃES

Teu regresso é uma quimera
nos meus dias de abandono,
mensagens de primavera
em galhos secos de outono...
CARMEN OTTAIANO

O amor não marcou hora,
chegou cedo, sem aviso.
Eu tentei mandá-lo embora,
mas me faltou o juízo!...
CARMINHA XIMENES

Sou filha, neta e bisneta,
de corpo e de alma, também!
No meu sangue um dom de poeta
me transporta para o além..!!!
CECÍLIA SOUZA ENNES

Céu escuro, céu tristonho,
por que despertas em mim
esta vontade de um sonho
que nunca tivesse fim?
CIREMA DO CARMO CORRÊA

Se em flores se transformasse
todo e qualquer mal sofrido,
a vida tornar-se-ia
um jardim belo e florido.
CLADYR OLIVEIRA DOS SANTOS

O amor e a morte, a rigor,
são faces da mesma sorte:
no fim da palavra amor
começa a palavra morte!
CLEÔMENES CAMPOS

A Terra gira no espaço,
como a gente aqui na Terra,
girando em torno do laço
que nosso destino encerra...
DARIO NOGUEIRA DOS SANTOS

Eu plantei minha esperança
no cintilar de uma estrela,
para que em má temperança
jamais eu venha a perde-la!
DÉBORA NOVAES DE CASTRO

"Era pouco e se acabou.,."
como a cantiga da infância...
Mas o teu vulto ficou,
mergulhado na distância!
DEIRES HOFMANN ALONSO

Seja a tua lealdade,
rio que nunca se esgota.
Quem luta com falsidade
caminha para a derrota.
DE PAULA MADIA

Liberdade, quanta gente
sua voz tenta calar!
Mas liberdade é semente
que brota em qualquer lugar!
EDEN JOSÉ GRÜNEWALD

O barulho na cozinha
denunciou mais um duelo:
o gordo atrás da sardinha,
a esposa atrás do chinelo...
FLÁVIO ROBERTO STEFANI

Afirmo com certo orgulho
que, na maior desavença,
não temo qualquer barulho,
pois sou surdo de nascença!
FRANCISCO JOSÉ PESSOA

Tem a velhice a quietude
da lagoa adormecida,
lembranças da juventude,
no triste poente da vida...
GEORGINA MACHADO XAVIER

Meu amor é um rio santo
que passa em cursos atrozes...
Mas Deus abençoa o canto
das suas águas velozes.
HÉLIO ALEXANDRE

Quem busca a felicidade
e não consegue encontrá-la,
é porque, na realidade,
não sabe nem procurá-la...
ISAÍAS RAMIRES

Para uma vida perfeita,
devemos ter sempre em mente,
que toda e qualquer colheita,
deve-se à boa semente.
JOSÉ FELDMAN

Nos acordes, uma festa,
namoro no coração;
são enlevos da seresta
nas cordas de um violão.
JOSÉ HAROLDO DO VALE LYRA

No amor, a felicidade,
não passou de um sonho vão...
Sob as cinzas da saudade
hoje jaz meu coração!
JOSÉ LOURENÇO

O amor, o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu...
Quem não ama não tem vida,
quem não sonha já morreu.
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Na praça da minha vida,
unidas, vi, a chorar,
abraçada à despedida
a saudade a soluçar...
JOSÉ VALDEZ CASTRO MOURA

O bem nunca vem de graça,
nem o mal que nos alcança.
— Deus pesa a graça e a desgraça
usando a mesma balança.
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA

Procura fazer o bem,
se queres ser ajudado;
— quem faz o bem, quase sempre
recebe o juro dobrado!
JUVENAL GOULART

É um momento bom que tenho
se sinto que fiz o bem,
e feliz, não me contenho,
vendo o sorriso de alguém...
LOURDES BALASSIANO

Se o caçador decifrasse
o canto dos passarinhos,
talvez nunca os arrancasse
da tepidez de seus ninhos!
LOURIVAL PASSOS

Imagino da Saudade
a mais verdadeira estampa,
quando vejo a claridade
do luar sobre uma campa.
MAIA D'ATHAYDE

A vida, que nos parece
ora alegre, ora tristonha,
é mais do que se merece,
é menos do que se sonha...
MARIA TERESA GUIMARÃES NORONHA

Descobrindo a falsidade
que havia em teu bem-querer,
perdi a felicidade
mas aprendi a viver!
NELLY D. WERNECK

Uma criança vadia
é um atestado bem triste
do quanto de hipocrisia
nas leis humanas existe...
NICOLINO LIMONGI

O bambu com muita gente
se parece, no feitio:
por fora — é belo e Imponente,
por dentro — é oco e vazio...
NILO APARECIDA PINTO

Cascata, teu pranto triste,
parece que não tem fim!...
Comparo ao pranto que existe
doendo dentro de mim!
PROFESSOR GARCIA

Batendo contra os rochedos,
o som do mar abafava
as mentiras e os segredos
que, na praia, eu te contava...
RENATO ALVES

Mesmo sendo feia, suja,
dolorosa e até maldita,
a Verdade sobrepuja
qualquer mentira bonita!
SÉRGIO FONSECA

Como somos diferentes!...
Mas, é tamanha a paixão,
que nos tornou coniventes
na mais estranha união!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Desconfio que a velhice
chega sempre bem depressa
quando se faz a tolice
de pensar que ela começa...
VASQUES FILHO

Eu te espero noite afora...
Plange o som de um carrilhão,
fatalmente, de hora em hora,
compassando a solidão...
WANDA DE PAULA MOURTHÉ

Se é para o alento da alma,
o pranto deixa no olhar,
frescor de uma ilha calma
que não se rendeu ao mar.
WANDIRA FAGUNDES QUEIRÓZ

Morrer?!... Morrer não ó nada!
É o final de cada Eu.
— O pior é ir na estrada
sepultando quem morreu.
ZÂLKIND PIATIGORSKY