Três e meia da tarde de uma quarta-feira, sol de cozinhar os miolos. Condução preferida de estudante vindo do interior : ônibus. Quando possível, táxi. Quase nunca é possível.
Lá vamos nós, rumo à casa da tia Vitória, a 4 km do centro, loucos para descolar um café e, quem sabe, uma boca livre no fim de tarde.
A tia era daquelas que não medem esforços para agradar. Além do café preparava também um lanche pra gente levar. No fundo, sabia que estudante vive duro. Dinheiro? O da passagem e olha lá, se perder, volta à pé. Era o nosso caso.
Tomamos o dito Expressão, eu e Madalena, amigo de riso e de quarto, rumo à Vila Hauer com algumas moedinhas no bolso e, na mente, a pressuposta vontade de fazer a visita.
O ponto do ônibus ficava a cinco quadras da casa. Pacientes, vamos divagando sobre a escola, o curso na Escola Técnica, o bairro e outras baboseiras sem fundamento. Aquilo mais parecia uma preparação psicológica para o que nos esperava: um lanche caprichado.
A tarde estava ótima e não poderia ser melhor. Café, presunto, queijo e bolo. Jantar à noite seria um exagero.
Na volta, enfastiados, merenda debaixo do braço, novamente cinco quadras até a rua do ônibus foi moleza. Depois de abusarmos da bondade da tia, satisfeitos ao extremo, retornamos para a Marechal Floriano e subimos novamente no Expressão, um minhocão articulado, recém lançado pela prefeitura.
Clapt, clapt ... a roleta não pára e lá se foi o último trocado.
Nenhum lugar sobrando, apenas eu e Madalena em pé. Rumamos para o final do corredor, pendurados no estribo e observados impiedosamente pelas caras feias e carrancudas, meio descontentes com o prefeito, mas bem acomodadas nos bancos de fibra.
O Expresso na capital é sinônimo de velocidade. Vias exclusivas enchem os motoristas de razão. Cansamos de testemunhar alguns desavisados do interior levando buzinadas e sustos na canaleta, de fato era divertido.
Pouco mais adiante a campainha grita. A freada é brusca, mais rápida que o pensamento e o braço do meu amigo Madalena que trocava de mão para avançar o passo. Não deu outra. Cadê o colega?
Do lado direito vejo largo sorriso estampado na boca de um crioulo. Talvez alguns dentes na parte superior e poucos na parte inferior da boca. Negrão gente boa, simpático e sorridente. Sobre o colo do rapaz, o Madalena, vermelho e sorridente também, sem forças nem apoio para levantar, inerte. E o crioulo na dele.
Que cena! Os dois irascíveis diante de uma centena de pessoas, loucas por uma gargalhada e contentes com o episódio. Madalena custou a subir, tentou manter a linha e não olhou para os lados.
Nunca se arrancou tamanho sorriso, tão facilmente, da população dentro de um ônibus, local de grande concentração do mau-humor.
- Desculpa, moço - balbucia o Madá.
- Foi nada, não, gente fina ! - responde o passageiro com o dente de baixo encaixado numa falha de cima.
O motorista, afoito e com horário a cumprir, acelera o motor e manda ver como se nada tivesse ocorrido, recolhendo aqui e ali novos candidatos ao colo do crioulo.
Quem disse que não se pode contar com a bondade alheia dentro de um ônibus? Lugares estão sempre disponíveis, mesmo a contragosto.
Se foi divertido? Vai imaginando a cena, está viva até hoje em nossas mentes.
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JERÔNIMO MENDES, Autor, Coach, Mentor e Palestrante, nasceu em Ponta Grossa/PR, a família mudou-se para Lagoa, no município de Telêmaco Borba/PR. Reside atualmente em Curitiba há mais de 40 anos. . Formado em Administração de Empresas, Pós-graduado em Logística Empresarial e Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local com foco em Empreendedorismo e Sustentabilidade. Formação em processos de Executive Coaching (Liderança), Life Coaching e Coaching de Carreira pelo ICI – Integrated Coaching Institute, de São Paulo. Coaching, Mentorias, Palestras e Treinamentos Corporativos para empresas e profissionais em nível de liderança.
Fonte:
Jerônimo Mendes. Muito além do cotidiano: crônicas. Curitiba/PR: 2001.
