Biografias (em construção)

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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “Quem vai ao inferno se acostuma com o diabo”

 
A expressão “QUEM VAI AO INFERNO SE ACOSTUMA COM O DIABO” não tem origem em um fato ou episódio determinado. Nem se pode atribuir uma data em que surgiu ou mesmo a sua autoria, pois é tipicamente um produto da tradição oral e da sabença popular. 

É evidente que a frase tem forte caráter metafórico, ligado ao imaginário cristão da época medieval, sobre as punições reservadas no submundo das trevas, para quem dá com os costados por lá e encontra a pavorosa figura do “Capiroto” imperando, pintando e bordando em seu reino de maldades.

É nesse contexto que referido ditado popular, ouvido desde épocas imemoriais, serve para demonstrar a capacidade do ser humano em se adaptar a situações altamente adversas e até com elas se conformar, com o escoar do tempo. 

Se bem observado, em nosso ciclo de conhecimento, relações de parentesco, coleguismo ou amizades, revela-se patético como certas pessoas acabam por normalizar situações ruins, aflitivas ou tóxicas, em nome de um convívio pacífico, porém altamente desgastante, quando o correto seria dar um “chega prá lá” naqueles que se deleitam em aporrinhar a vida alheia.

Imagine-se alguém, por falta de opção, ter de conviver com gente falsa, hostil e interesseira, que acende uma vela a Deus e outra ao diabo e de lá não se afasta, preferindo suportar resignado, esse tipo de suplício psicológico. 

A explicação mais plausível é que o ser humano, em tais hipóteses, acaba por se habituar com aquelas figuras nocivas e desagregadoras que contaminam os variados espaços de convívio social. Configura-se, no caso, a hipótese em que “o vício do cachimbo deixa a boca torta”, outra conhecida expressão popular, que também enseja abordagem específica neste espaço.

A tolerância excessiva no trato com situações deletérias tem um componente moral indissociável, podendo ser identificada em alguém que ao se saber em péssimas companhias não as evita, agindo com forçada naturalidade, mesmo tratando reiteradamente com quem nada de útil lhe acrescenta.

O certo é que o dito popular em foco partilha da mesma lógica de conformismo e resignação diante de um cenário ruim. Historicamente, expressões que utilizam as figuras do "inferno" e do "Tisnado" (como "comer o pão que o diabo amassou" ou "o diabo a quatro") ganharam muita força na Península Ibérica na Idade Média e no período colonial. A Igreja Católica medieval utilizava o medo do inferno para moldar comportamentos, como aliás, ainda até hoje acontece.

Com o tempo, o povo passou a usar esses elementos religiosos para criar máximas filosóficas no cotidiano. Na expressão em análise, a sabedoria popular sintetizou a imensa capacidade do ser humano de se adaptar, inclusive às piores circunstâncias e toscas situações que a vida reserva para cada qual.

A expressão também sintetiza a estética das músicas de Bezerra da Silva e de célebres compositores dos morros cariocas como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, que transformaram a realidade das favelas em poesias eternas da Música Popular Brasileira produção musical que foi o pilar que deu identidade e formato ao samba urbano moderno. Em suas letras, o "inferno" representa a favela negligenciada pelo Estado, e o "diabo" simboliza a convivência forçada com a violência e a criminalidade, sínteses do cotidiano de quem precisa se acostumar com aquela brutal adversidade para conseguir sobreviver.

Em 1976, Belchior deu sua contribuição ao tema com “Como o diabo gosta” e Raul Seixas, o inesquecível “Maluco Beleza” marcou presença em “Fazendo o que o diabo gosta”, onde ele fala de um amor transgressor, fora dos padrões tradicionais da igreja e do casamento convencional. Conjuntos famosos se autodenominaram com essa temática infernal, como os Demônios da Garoa, deixando claro que esse ditado resume a ideia de resignação ou adaptação a uma ou a várias situações indigestas.

Na festejada Escolinha do Professor Raimundo, dona Cândida (interpretada pela atriz Stella Freitas), se apresentava trajada à moda caipira e descrevia os maus-tratos, os horrores e os hematomas causados pela violência do marido. E quando lhe perguntavam o porquê de suportar aquele suplício na tumultuada relação conjugal, o motivo de tanta humilhação, ela respondia sorridente recitando com forte sotaque seu afamado bordão: - Mas eu gosto!!!

O quadro da “Escolinha” retratava a situação na qual o lar virou um inferno e o marido encarna o próprio “Satanás”, com o qual as mulheres, suas vítimas prediletas, supostamente blindadas pela Lei Maria da Penha, acabaram se acostumando e assim vão tocando a vida. Elas certamente fazem isso talvez por necessidade, mecanismo de sobrevivência ou absoluta falta de opção.

Mais grave é aquela parcela do povo brasileiro, grande parte integrante da massa popular que vive de prebendas, que não só se acostumou com as nocivas peripécias do “Coisa Ruim”, das quais são as eternas vítimas, como por ele desenvolveu estranhos sentimentos de empatia, admiração e lealdade, deturpação psicológica que até Freud teria hoje dificuldade de explicar... 
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Texto e imagem enviados pelo autor. 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

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