domingo, 15 de março de 2026

Asas da Poesia * 162 *


Poema de 
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

O fim

A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.

Devo esperar
esperar…

Com muita paciência

Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.

Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.

As palavras se perdem
entre as sombras.

O ato criativo
desvanece lentamente.

É o fim da poesia. 
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Diz-me algo que eu não saiba.
Faz-me perceber
Que o mundo
não gira à minha volta,
que sou frágil,
tenho medos…

Faz-me perceber
que todos os dias
são para ser bem vividos,
que o sol não nasce só por querer.

Faz-me perceber
que o “nós” é mais importante que o “eu”!

Diz-me o que realmente pensas,
o que sonhas, o que queres.

Poderia dizer-te
que sei a importância e a força 
de sermos nós,
que sei que o mundo gira
independente de mim,
que o amor é o meu alimento
e amar-te é renascer todos os dias...

Tudo isto…. tu sabes?
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Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/Portugal

Não há nada, nesta vida,
 que acabe com o penar
 da tristeza da partida
 com lenço branco a acenar.
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
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Soneto de
CAIO DE MELO FRANCO
Montevidéu/Uruguai, 1896 – 1955, Paris/França

Evangelho da velhice

— "Quando a Velhice te bater à porta,
queres ouvir nosso Evangelho? — escuta:
Abre de manso e trêmula perscruta
aquela face que a tristeza corta.

Olha-a de frente... e uma alegria morta
verás em cada sulco que a labuta
deixou, fundo, ficar da insana luta,
que não nos confortou, nem nos conforta!...

Enxugarás o olhar inconsolado...
E ficarás pungentemente olhando,
de mãos postas, a orar para o Passado...

E assim, velhinha e triste, e eu triste e velho,
viveremos tremendo... mas rezando
a saudade sem fim desse Evangelho..."
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Inquestionável

A mentira
é o grande espelho
onde todos
se defrontarão,
um dia,
com a verdade
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Trova Popular

Todo o verso que eu sabia
veio o vento e carregou;
só o amor e o querer-bem
na memória me ficou.
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Soneto de
COMPADRE LEMOS
Luiz Carlos Lemos
Juiz de Fora/MG

Remédio Bom

Essa saudade mais parece moça nova
Que, de mansinho, vem chegando, devagar.
E vem querendo no meu peito se alojar,
Buscando teto, moradia, ou mesmo cova!

Mas eu conheço sua manha e sua trova.
Ela se encosta, mas eu não posso deixar.
E digo a ela: -- Vai bater noutro lugar,
Porque, na vida, para mim, já basta a prova!

Se ela insiste, eu procuro uma folia,
Um pé de valsa, uma fogueira, uma alegria,
Ou um bom gole, para não sentir a dor.

Então, eu pego na viola esquecida
E faço um verso, porque sei que, nesta vida,
Remédio bom para saudade... é novo amor!
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Poema de
NOÊMIA DE SOUZA
Catembe/Moçambique (1926– 2001) Cascais/Portugal

Infelizmente Jamais

No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.

Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.

Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.

Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.
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Soneto de
ALFREDO DOS SANTOS MENDES
Lagos Algarve/Portugal

Há de haver tempo

Há de haver tempo em mim para gritar:
A revolta que sinto no meu peito.
Não quero ficar preso, estar sujeito,
A quem quer minha voz amordaçar!

A minha boca, alguns querem calar,
E modelar meu ser a seu preceito.
Mordaça posta em mim eu não aceito,
Meu tempo de falar, há de chegar.

Há de haver tempo então para exprimir,
E em luta de palavras esgrimir…
A razão da revolta no meu peito!

Eu juro, há de haver tempo pra provar,
Que meio mundo nos anda a enganar,
Com milhares de cifrões em seu proveito!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Primavera 

Invernos chuvosos saem
levando apenas saudade, 
deixando ilusões serenas.

São brisas amenas que valsam
no jardim intenso da primavera,
um beijo nas pétalas pequenas.
Os vestígios carmins das rosas
serão versos das futuras cenas.
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Trova Humorística de
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ

Pobre mulher do Carvalho
que até hoje ainda reclama,
pois, de tanto “quebrar galho”,
foi multada... pelo “Ibama”!…
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Soneto de
ORLANDO RODRIGUES FERREIRA
Campinas/SP

Estações

Vicejam, no verão, descomunais paixões
Para desfolharem quando outonais,
Empalidecem, muitas vezes sem razões,
No taciturno frio dos tempos invernais.

Mas recrudesce a vida em ocasiões,
Qual no céu esplendendo luzes aurorais,
Presenteando-nos com tantas provisões
De selvas verdejantes e campos florais.

Jamais se perca ou venha se apartar
O primaveril viçoso das ambições,
Porque o nosso amor não vai soçobrar,

Pois firmado está em veraz emoções
Que constantemente hão de se renovar
como o próprio ciclo das quatro estações.
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Poema de
RAIÇA BONFIM DE CARVALHO
Salvador/BA

No telhado

Querendo ver novela
eu saio no sereno
e subo no telhado
pra ajeitar a antena
O velho do outro lado
olhando aquela cena
fala pra vizinhança
que sou gato
E eu ganho sete vidas e um baita resfriado...
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Antonio Augusto de Assis
Maringá/PR

A palavra acalma e instiga; 
a palavra adoça e inflama. 
– Com ela é que a gente briga; 
com ela é que a gente ama! 
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Hino de 
FLORIANÓPOLIS/ SC

Um pedacinho de terra,
perdido no mar!...
Num pedacinho de terra,
beleza sem par...
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!

Num pedacinho de terra
belezas sem par!
Ilha da moça faceira,
da velha rendeira tradicional
Ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira
vou ler meu jornal.

Tua lagoa formosa
ternura de rosa
poema ao luar,
cristal onde a lua vaidosa
sestrosa, dengosa
vem se espelhar...
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Trova de
MARIA ALIETE CAVACO PENHA
Faro/Portugal

Esta vida é um jardim
onde ninguém é capaz,
depois de chegar ao fim
poder voltar para trás…
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Soneto de
CARMO VASCONCELLOS
Lisboa/Portugal

Maria das Flores

Doloridas violetas traz nos olhos,
pelos dedos escorrem-lhe martírios, 
e, tal em novena, ardem-lhe quais círios, 
no peito amante, pálidos abrolhos. 

Por que, teimosa, inda cultiva flores;
paisagens coloridas de desejos
que sonha salpicadas de ígneos beijos?...
Se na hora da colheita, colhe dores!

Alimenta-as de amor e rubro sangue,
porém os caules, meros lambareiros,
saciados, deixam-na... sozinha e exangue.

Florista acorrentada à fantasia,
só tem a flor-saudade nos canteiros…
Mas o sonho ainda habita na Maria!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Amores

NO TOPO:
"Saudade, de quando em quando,
Provoca mágoas e dores,
Pois vai de amores matando
Quem vive lembrando amores".
Mário Barreto França
(Recife/PE, 1909 – 1983, Rio de Janeiro/RJ)

SUBINDO:
"Quem vive lembrando amores"
vai perdendo a emoção,
porque viver velhas dores
não faz bem ao coração.

"Pois vai de amores matando"
momentos bons, sem iguais,
que a vida vai cultivando
ao longo dos ideais.

"Provoca mágoas e dores"
quem parte e fica também,
pois todos os dissabores
são as saudades de alguém.

"Saudade, de quando em quando"
sem ser plantada, floresce,
no peito já vai brotando
como se fosse uma prece.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O filósofo cita

Na Cítia, certa vez, por motivo severo,
Crendo encontrar o bem nas privações do exílio,
Saíra a viajar um pensador austero.

Vivia então na Grécia, em farto domicílio,
Junto às flores que amava e na paz respeitado,
Um sábio igual àquele ancião de Virgílio.

O cita o foi achar no jardim ocupado:
Separava da erva as árvores de fruto
E do galho atrofiado.

Ali cortava um ramo, aqui outro corrupto;
E à cega natureza
Ia pagando a arte o liberal tributo.

O filósofo a olhar, tomado de surpresa,
Lhe disse: «O que fazeis? pois um sábio mutila
Os pobres vegetais com tão grande dureza?

Dai-me o vosso instrumento, o qual tudo aniquila;
O tempo obra melhor.» Sem se alterar em nada,
O outro respondeu na sua voz tranquila:

«Eu só tiro o que sobra; à planta decotada
Melhor seiva aproveita.»
E o cita então volveu à sua triste morada.

Lá chegado uma vez, previne-se e endireita
Contra raro vergel, e do útil ofício
Ensina à vizinhança uma falsa receita.

Nada deixa de pé: os rebentos sem vício,
O caule mais florido, o tronco mais correto,
E sem escolher lua e nem dia propício.

Afinal morreu tudo. Imita este indiscreto
Aquele que da alma, e posto indiferente,
Repele o mau e o bom e o mais sagrado afeto.

Eu me acautelo bem e temo uma tal gente...
O estoico, incapaz do mais leve conforto,
Fazendo sempre o mal, vai levando o vivente
A já nem existir muito antes de estar morto
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Mensagem na Garrafa 158 = O frio que vem de dentro


AUTOR ANÔNIMO

Seis homens ficaram bloqueados numa caverna por uma avalanche de neve e teriam que esperar até o amanhecer para receberem socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual se aqueciam. Se o fogo apagasse, todos morreriam de frio.

Chegou a hora de cada um colocar mais lenha na fogueira.

O primeiro homem, um racista, olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele negra. Então raciocinou: “– Aquele negro!! Jamais darei minha lenha para aquecer um negro!!!” 

E guardou-as para protegê-las dos demais olhares.

O segundo homem era um avarento. Ele estava ali porque esperava receber o juros de uma dívida. Olhou ao redor, em torno do fogo bruxuleante e viu um homem da montanha, que mostrava sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele fez as contas do valor de sua lenha e enquanto mentalmente sonhava com o seu lucro, pensou: “– Eu, dar minha lenha para aquecer um preguiçoso?”

O terceiro homem era o negro. Seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão e seu pensamento era muito prático: “– É bem provável que eu precise dessa lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria minha lenha para salvar aqueles que me oprimem.”

 E guardou sua lenha com cuidado.

O quarto homem era o pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros, os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Ele pensou: “– Essa nevasca pode durar vários dias, vou guardar minha lenha.”

O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer da lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com suas próprias visões para pensar em ser útil.

O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas da mão, os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido: “– Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei à ninguém nem mesmo o menor de meus gravetos.” 

Com esses pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis.

A última brasa da fogueira se cobriu de cinzas e finalmente apagou. 

Ao alvorecer, quando os homens do socorro chegaram na caverna, encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha.

Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse: 

– “O frio que os matou, não foi o frio de fora, mas sim o frio de dentro!!”

Humberto de Campos (Os "Reddis")


A alma humana é uma caverna tão ponteada de esconderijos e retorcida de zig-zags que ainda não houve na terra um homem, por mais atilado e meticuloso, que chegasse a conhecer a metade, sequer, do seu próprio coração. Quando a gente supõe haver encontrado uma vida simples, singela, sem complicações nem subterfúgios, eis que se abre diante de nós um abismo, um vulcão, uma boca subterrânea, capaz de engolir o peregrino que lhe busca desvendar o mistério. Mesmo no que diz respeito à educação, isto é, às qualidades adquiridas pelo indivíduo, essas surpresas não são raras nem, geralmente, pequenas. E era disso mesmo que eu me convencia, mais uma vez, há poucos dias, ao voltar da última recepção do coronel Anfrísio Guimarães, pai do Dr. Claudemiro Guimarães cujo nome é, pode-se dizer, um dos orgulhos da nova geração de advogados brasileiros.

Homem de sólidos capitais, o coronel, assim que o filho casou, teve, não se sabe por que, uma desinteligência com a esposa, a velha e virtuosa D. Cherubina, passando a residir no palacete do novo casal, cujas despesas, de nove contos por mês, são enfrentadas galhardamente pela sua fortuna. Mme. Claudemiro, a nora, tem pelos cinquenta anos do sogro uma adoração filial. O filho, o Dr. Claudemiro, respeita-o duplamente como pai, e principalmente, porque o velho lhe desculpa sempre, como os bons pais, perante a esposa, as suas longas vigílias jurídicas fora do lar. E como a vida lhes corria, a uns e a outros, como um ribeiro japonês entre margens de crisântemos eu me dou, de vez em quando, ao prazer de visitá-los, concorrendo para a enchente das suas salas nas costumeiras recepções dos domingos.

Um desses dias, fui. E conversávamos em uma roda sobre costumes orientais, quando, de repente, a propósito de casamentos, eu me lembrei dos "reddis", povo da Índia meridiona1, cuja história havia lido na véspera, e contei, com certo desvanecimento:

- Os "reddis", nesse particular, são originalíssimos. Entre eles, a mulher de quinze ou vinte anos pode desposar um menino de seis, o qual será criado por ela. Enquanto, porém, a criança não cresce, ela fica, por seu turno, entregue a um parente do marido, geralmente ao pai deste, seu sogro, o qual poderá substituir o filho em todas as eventualidades. E este esposo interino preenche de tal forma as suas funções de tutor, que o marido, quando cresce encontra, já a casa repleta de crianças, que sendo seus filhos, são também seus irmãos.

Como se fizesse em torno de mim um silencio geral, eu o aproveitei, continuando:

- Esses maridos não ficam, porém, prejudicados; sendo as suas mulheres mais velhas do que eles, e os "seus" filhos quase da sua idade, eles terão, mais tarde, a compensação, fazendo com os filhos o que o pai fizera com eles. E assim vivem muito bem.

Enquanto eu contava essa história, notei que alguém se afastava do grupo. E quando acabei, fiquei estarrecido com uma surpresa: junto de mim, com a minha bengala e a minha cartola na mão, estava o coronel Guimarães, que me perguntava, pálido, com ligeiros tremores no cavanhaque:

- O conselheiro pediu o seu chapéu?
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sábado, 14 de março de 2026

José Feldman (O Fantasma no Servidor)

Texto sobre a expressão “Navalha de Ockham”*

Fidelsino era analista de sistemas sênior e adorava teorias complexas. Quando o servidor principal da startup de tecnologia onde trabalhava começou a travar misteriosamente todas as terças-feiras às 14h, não pensou em falhas comuns.

Ele convocou a equipe. 

"Não é um bug simples!", explicou ele, ajustando os óculos. "O padrão das quedas é errático demais. Minha teoria é que sofremos uma invasão de hackers usando inteligência artificial quântica, que está garimpando dados criptografados apenas na área de segurança do servidor, criando um pico de energia que simula um erro de hardware."

A equipe ficou impressionada. Era uma teoria digna de um filme. Passaram dois dias vasculhando logs, comprando firewalls mais caros e isolando a rede principal. A ansiedade era alta. A "invasão de IA" parecia real, especialmente porque o servidor falhou na terça seguinte.

A gerente da empresa, Marina, mais pragmática, chamou Fidelsino no canto.

— Fidelsino, a sua teoria é genial, mas e se a causa for mais simples?

— Mas Marina, os dados mostram...

— Vamos olhar o óbvio — disse ela, caminhando até a sala dos servidores. — Quem tem acesso a esta sala na terça à tarde?

Ele conferiu o registro. 

— Só a equipe de manutenção de limpeza, às 13h50... Por que?

Marina observou o rack de servidores. A luz vermelha piscava no servidor principal. Ela notou algo na base que o cabo de energia principal estava folgado. Ao lado, havia uma tomada de parede com uma caixa de som grande, colocada ali pela equipe de limpeza, que tocava música, e cujo fio estava conectado à mesma tomada que vibrava o servidor.

— Fidelsino!— disse ela, empurrando o plugue do servidor para o fundo da tomada. — A "IA quântica" é a equipe de limpeza conectando a caixa de som, o que afrouxa o cabo do servidor principal, que já estava com o plugue desgastado. A vibração derruba a máquina.

Ele sentiu o rosto esquentar. O cabo frouxo era a resposta correta. A teoria da IA exigia hacks, criptografia e conspiradores. A realidade exigia apenas uma tomada nova.

A empresa parou de ter problemas na terça-feira.

Moral
"Entre duas explicações que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta." A Navalha de Ockham nos ensina que, diante de um problema, devemos eliminar as complicações desnecessárias antes de buscar soluções mirabolantes. Geralmente, a verdade não é uma conspiração complexa, mas algo que está bem diante dos nossos olhos.
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*A Navalha de Ockham, ou princípio da parcimônia, é uma ferramenta heurística da filosofia e ciência que sugere que entre hipóteses que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples (com menos suposições desnecessárias) costuma ser a correta. Criado por Guilherme de Ockham (séc. XIV), o método elimina complexidades desnecessárias para facilitar a verificação e compreensão de teorias. Ou seja, a explicação mais simples é preferível. Teorias simples são mais fáceis de testar e verificar. Não é uma regra absoluta de verdade, mas um guia de probabilidade; a explicação mais simples nem sempre é a verdadeira. O princípio busca a "economia intelectual", cortando suposições supérfluas (como uma navalha) para chegar à teoria mais elegante e plausível. (wikipedia)
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem: https://oftavision.com.mx/merida/

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 5


Para criar um texto que aborde temas tão pesados (abandono, maus-tratos e indiferença) sem soar como um sermão, o segredo é usar o Cotidiano como Contraste. No conto, o horror desses temas é mais impactante quando aparece nos pequenos detalhes: uma geladeira vazia, um latido que ninguém atende, uma mensagem visualizada e não respondida.

Aqui está um esboço estruturado e exemplos de como materializar esses sentimentos:

1. A Estrutura: O "Efeito Dominó" da Indiferença

Em vez de tratar os temas isoladamente, conecte-os através de um único personagem ou de uma vizinhança. Isso mostra que a falta de amor é sistêmica.

O Cenário: Um prédio antigo ou uma rua sem saída (metáforas para o isolamento).

O Personagem "Lente": Alguém que observa tudo, mas também é vítima ou cúmplice do silêncio.

2. Exemplos de como "Mostrar" em vez de "Dizer"

a) Sobre o Abandono de Idosos (O Silêncio)

Não diga "ele estava abandonado". Mostre a passagem do tempo e a irrelevância social.

A Cena: O Sr. Antenor coloca a mesa para dois todos os domingos, embora o filho não apareça há três anos. Ele veste sua melhor camisa apenas para esperar o carteiro, que é a única pessoa que diz seu nome em voz alta.

O Objeto: O telefone fixo que só toca para oferecer promoções de telemarketing.

b) Sobre Maus-tratos com Animais (A Indiferença)

O maltrato no cotidiano muitas vezes é a omissão.

A Cena: No quintal vizinho, o cachorro late ritmicamente, como um metrônomo. O som já faz parte do ruído da rua, como o motor de uma geladeira. As pessoas reclamam do barulho, mas ninguém se pergunta por que o pote de água está seco e virado.

O Detalhe: O personagem principal aumenta o volume da TV para não ouvir o ganido quando a chuva começa.

c) Sobre a Falta de Amor com Próximos (O Egoísmo)

Isso se manifesta na pressa e na falta de presença real.

A Cena: Uma filha que visita a mãe idosa, mas passa o tempo todo no celular. Ela traz comida pronta e cara, achando que isso substitui o afeto. Quando a mãe tenta contar um sonho, a filha interrompe: "Tenho uma reunião em dez minutos, mãe. Come logo".

O Diálogo: Frases curtas e protocolares. "Está tudo bem?", "Precisa de dinheiro?", "Tchau".

3. Esboço Prático de um Conto Único

Título Sugerido: O Som das Coisas que Não Importam

Início: Conhecemos Dona Rosa, que conversa com um vira-lata manco que fica no portão dela. Ela é a única que o alimenta. Ela espera um telefonema do neto (o abandono e o cuidado com o animal se cruzam).

Meio: O neto chega de surpresa, mas apenas porque precisa que ela assine um documento de herança ou venda. Ele chuta o cachorro para fora do caminho ao entrar. Aqui, o maltrato animal e a falta de amor familiar colidem.

Clímax: Dona Rosa percebe que o cachorro, mesmo ferido, tem mais lealdade a ela do que o sangue do seu sangue. Ela se recusa a assinar e fecha a porta, ficando sozinha com o animal.

Fim (A Ironia): O neto sai reclamando do "cheiro de bicho" e da "teimosia da velha", enquanto o leitor sente o peso da solidão dela, que agora é sua única proteção.

Washington Daniel Gorosito Pérez (Morreu o escritor peruano Alfredo Bryce Echenique)

(tradução do espanhol por José Feldman)
A literatura mundial está de luto. Considerado uma das vozes mais influentes da literatura latino-americana, o escritor peruano Alfredo Bryce Echenique (Lima/Peru; 1939 – 2026) faleceu aos 87 anos. Embora alguns jornalistas tenham tentado incluí-lo no movimento do "boom literário", Alfredo sempre rejeitou essa afirmação:

"Eu era distante deles, tanto por causa da minha origem social e do meu meio, quanto por causa da minha educação e dos meus desejos mais íntimos. O brilho dos mestres me cegou", declarou em entrevista ao jornalista Xavi Ayén, autor do livro "Aqueles Anos do Boom Literário".

Completou o ensino fundamental na Escola do Imaculado Coração. Cursou o ensino médio na Escola Santa María Marianistas e na Escola San Pablo, um internato britânico em Lima. Em 1957, ingressou na Universidade Nacional de San Marcos, em Lima, e se formou em Direito.

Em 1977,  obteve seu doutorado em literatura pela mesma universidade. Esta é uma razão mais do que válida para que seus restos mortais sejam velados na Casona da Universidade de San Marcos, a primeira universidade das Américas, fundada em 1551 por Decreto Real. Também estudou na Universidade Católica do Peru e na Sorbonne, na França, onde também lecionou.

Sua primeira universidade o homenageou durante a conferência internacional: “Alfredo Bryce Echenique: A Poética da Oralidade, da Ironia e da Memória”. Este encontro acadêmico comemorou o 55º aniversário de sua grande obra, “Um Mundo para Júlio”, e o 25º aniversário de “Não Me Espere em Abril”.

No evento, foi anunciado que os manuscritos do romance “Um Mundo para Júlio” seriam preservados pelo Instituto Cervantes do Governo Espanhol, em sua sede em Madri.

Ambos os romances são obras fundamentais da literatura latino-americana. No evento acadêmico, o escritor declarou: “É uma grande honra que minha vida esteja sendo estudada na primeira universidade onde me formei”.

Durante um período de sua vida, Bryce Echenique lecionou na Escola San Andrés, em Lima, onde ministrou aulas de Língua e Literatura Espanhola.

A Cátedra Vargas Llosa e a Casa da Literatura Peruana concordam que: “A literatura do século XX não pode ser compreendida sem a sua voz e a sua obra. Seu legado cultural e intelectual e sua defesa da liberdade são imensuráveis.”

O romance "Um Mundo de Júlio" foi sua primeira e, sem dúvida, sua obra mais emblemática. Com ele, ganhou o Prêmio Nacional de Literatura do Peru e, posteriormente, também foi reconhecido na França.

É considerado por especialistas em literatura peruana, juntamente com o romance "Conversas na Catedral", do escritor peruano-espanhol Mário Vargas Llosa, como um dos melhores romances peruanos de todos os tempos. O escritor, nascido em Lima, publicou uma dezena de romances e dezenas de contos. Bryce Echenique viveu entre a Europa (França e Espanha) e seu Peru natal.

Em 1998, ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa da Espanha por sua obra "Prisioneiro da Noite". Ao longo de sua extensa carreira literária, também cometeu alguns deslizes, como quando, em 2009, foi multado em aproximadamente US$ 48.000 pelo Instituto Nacional de Defesa da Concorrência e Proteção da Propriedade Intelectual do Peru (Indecopi) após ser comprovado o plágio de uma série de artigos publicados em veículos de comunicação no Peru e na Espanha. Como resultado desse "tropeço", sua concessão do Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), a mais importante da América Latina e do Caribe, em 2012, foi questionada, provocando alguns protestos contra ele. Naquele mesmo ano, Bryce Echenique publicou seu último romance: "Sentindo pena da tristeza".

Em entrevista ao jornal La República, em setembro de 2024, o escritor peruano ofereceu alguns conselhos a jovens escritores:

“Eu diria para viajarem. É impressionante como o mundo mudou para os escritores. Antes, todos queriam ir a Paris; agora, os escritores querem ir a Madri. Tenho muitos amigos escritores em Madri, como Jorge Eduardo Benavides, que mora na Espanha há muitos anos. Ele é um bom exemplo de persistência.”

Seu amigo, o escritor peruano Benavides, ao saber da morte de Arturo, disse, entre outras coisas: “Com a morte de Bryce Echenique, perdemos uma das últimas grandes figuras da literatura latino-americana contemporânea, um homem reconhecido por seu estilo narrativo caracterizado por humor, ternura e um olhar crítico em relação à elite de Lima — traços que marcaram grande parte de sua obra literária.”

Alfredo Bryce não era político, mas tinha sua própria opinião sobre o escritor e o político: “Quando um artista, seja ele escritor ou o que for, se aproxima do poder, é para ser um bobo da corte. O homem no poder sempre vai querer que o artista o entretenha.”

Ele viveu em Barcelona, ​​na Espanha, cidade à qual dedica um lugar especial em suas "antimemórias": "Só houve uma cidade na minha vida, e foi essa", declarou o escritor.

Em entrevista ao jornal Perú21, Arturo Bryce Echenique afirmou que a literatura foi sua salvação: "Ela me salva até hoje. A literatura é uma salvação muito duradoura."

A morte de Alfredo Bryce Echenique encerra a obra de um escritor de grande influência na literatura de seu país, a República do Peru, e também na literatura latino-americana. Sua obra permanece conosco.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

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