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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dicas de Escrita (Como Escrever um Poema com Rimas)

Coescrito por Alicia Cook*
Rimas podem dar ritmo aos seus poemas, uma qualidade memorável que pode ser muito divertida. Embora nem todos os poemas precisem rimar, os que rimam tendem a soar melhores por terem uma composição mais complexa. Para testar suas habilidades rimando poesia, aprenda o básico, inspire-se, e escreva!

Parte 1
Tendo ideias para o poema

ANOTE SUAS IDEIAS QUANDO ELAS SURGIREM.

É importante escrever com frequência para manter sua criatividade fluindo e garantir que não esqueça as ideias que tem para os poemas! Quando uma ideia surgir, anote para não esquecer.

Você não precisa escrever suas ideias em verso, pode escrever em prosa ou fazer listas de palavras e ideias para usar em um poema mais tarde.

É uma boa ideia começar escolhendo um conceito ou tópico para o seu poema — sobre o que você quer que ele seja? Depois, pode começar a moldar palavras com base nesse tópico.

Dica: tenha um bloquinho ou caderno com você o tempo todo para registrar suas ideias a qualquer momento.

PROCURE POR INSPIRAÇÃO AO SEU REDOR.
Caso não saiba sobre o quê escrever, escolha um objeto, animal, pessoa ou lugar como tema. Você não precisa escrever sobre algo extraordinário; escolha algo que seja interessante para você.

Por exemplo, você pode escrever um poema rimado sobre uma luminária na sua escrivaninha, a vista da janela do seu quarto, seu cachorro, sua mãe, ou seu restaurante favorito.

ESCREVA LIVREMENTE SOBRE O ASSUNTO ESCOLHIDO. 
Quando tiver uma ideia para um poema, comece a escrever! Passe todas as ideias para o papel sem se preocupar com a estrutura ou esquema rimático. Você pode dividi-las em linhas ou escrever em prosa no primeiro rascunho.

Por exemplo, se estiver escrevendo um poema sobre o seu cachorro, pode escrever um parágrafo sobre a aparência dele, o comportamento, e o quanto você gosta dele.

Dica: Caso encontre alguma oportunidade de rima no seu rascunho, inclua elas. Você também pode adicioná-las mais tarde, então não se preocupe se não conseguir pensar em nenhuma imediatamente.

FAÇA UMA LISTA DE PALAVRAS QUE RIMAM COM O SEU ASSUNTO. 
Outra ótima forma de ter ideias para um poema rimado é fazer uma lista de palavras relacionadas ao tema e que rimam com ele. A lista pode ser longa ou curta, dependendo do que você estiver escrevendo sobre. Escreva palavras que descrevem o assunto e procure por pares rimados para cada uma dessas palavras.

Por exemplo, se estiver escrevendo um poema sobre sua flor favorita, pode começar escrevendo palavras que rimam com flor, como amor, valor, incolor, calor, etc.

Então, poderia escolher um tipo de flor, como a margarida, e fazer outra lista de palavras que combinem com ela, como vida, querida, colorida, florida, etc.

Continue fazendo listas dessa forma até que não consiga pensar em mais palavras.

Use um dicionário de rimas se não conseguir pensar em rimas para uma palavra.

Parte 2
Escolhendo um esquema rimático

OPTE POR UM ESQUEMA RIMÁTICO ALTERNADO PARA CRIAR UM PADRÃO SIMPLES. 
Essa é provavelmente a forma mais comum de se organizar um poema. Para usá-la, coloque seus pares rimados no final de linhas alternadas.

Por exemplo, suas rimas podem seguir o padrão ABAB, CDCD, EFEF, etc.

EXPERIMENTE UMA ESTRUTURA DE BALADA PARA CRIAR ALGO MAIS COMPLEXO. 
Para incorporar um pouco mais de complexidade a um esquema rimático alternado, tente estruturar seu poema como uma balada musical. Isso consiste em dois conjuntos de quatro rimas alternadas divididas por um verso extra que rima com o segundo verso. Então, um terceiro conjunto de quatro rimas alternadas com as mesmas rimas do segundo conjunto vem a seguir.

Por exemplo, esse esquema rimático seria ABABBCBC e depois BCBC.

RIME TODAS AS PALAVRAS DO POEMA ENTRE SI PARA CRIAR UMA MONORRIMA. 
Essa técnica é quando você usa o mesmo som rimado em todo o poema. Fazer monorrima pode ser complicado se não tiver muitas palavras ou sílabas que rimem com a primeira palavra, então escolha bem.

Por exemplo, a última palavra em cada verso do poema rimaria com a primeira que usou, e o esquema rimático seria AAAAA.

ESCREVA RIMAS EMPARELHADAS OU PARALELAS PARA UMA FORMA SIMPLES DE ORGANIZAR AS RIMAS. 
Isso significa criar dois versos que terminam com a mesma rima. Você pode escrever todo o poema em rimas paralelas, ou incluir só algumas para variar o ritmo.

Um poema escrito em um esquema rimático de rimas emparelhadas ficaria AA BB CC DD etc.

Você também pode fazer uma variação com três rimas, como AAA BBB CCC etc.

Por exemplo, as rimas emparelhadas podem ser tão simples quanto: "A vaca pulou a cerca / Espero que ela não se perca."

COMECE E TERMINE CADA ESTROFE COM A MESMA RIMA PARA CRIAR RIMAS INTERPOLADAS.
Caso queira usar algo que ajudará a sinalizar o início e o fim de uma das estrofes, abra e feche uma com a mesma rima. Você pode incluir rimas emparelhadas ou outro esquema rimático no meio da estrofe, ou não incluir nenhuma outra rima exceto no início e fim do poema.

Por exemplo, você pode organizar o esquema rimático como ABBA CDDC EFFE, ou experimentar algo como ABCA DEFD GHIG.

APOSTE EM UMA ESTRUTURA DE LIMERIQUE PARA CRIAR UM POEMA ENGRAÇADO.

Aposte em uma estrutura de limerique para criar um poema engraçado. Limeriques são poemas de cinco versos que contam uma história curta e pateta, então é uma ótima opção se quiser escrever um poema rimado engraçado. A estrutura desse estilo inclui duas rimas emparelhadas seguidas por um verso que termina com a mesma rima que a primeira parte.

Por exemplo, você pode usar a estrutura AABBA.

INCLUA DUAS PALAVRAS RIMADAS OU MAIS NO MESMO VERSO.
Você pode colocar palavras que rimam no mesmo verso para uma sucessão mais rápida de rimas. Essa técnica é conhecida como esquema rimático interno. Escolha duas palavras que rimem ou que tenham uma sílaba que rima no final e coloque as duas no mesmo verso do poema.

Por exemplo, você pode usar uma rima como: "A bela bola do Raul / Bola amarela" (Cecília Meireles).

Parte 3
Revisando um poema rimado

LEIA TODO O POEMA ALGUMAS VEZES DEPOIS DE FAZER O RASCUNHO.
Da mesma forma que em muitos outros tipos de escrita, a revisão é a parte mais importante. Quando as ideias estiverem no papel, leia atentamente e corrija erros gramaticais, refine a linguagem, adicione ou remova palavras e frases, e reescreva algumas partes se for necessário.

Leia o poema em voz alta para ouvir como ele soa. Isso ajudará a encontrar erros pequenos, e também é como a poesia deve ser apreciada!

Caso tenha que enviar o poema para uma aula, tenha tempo suficiente para revisá-lo até ficar satisfeito. Lembre-se de que até mesmo poetas renomados revisam seu trabalho muitas vezes.

PEÇA A OPINIÃO DE ALGUÉM EM QUEM CONFIA.
Dê o seu poema a um amigo, colega ou professor para que ele leia e diga o que achou. Isso pode ajudá-lo a revisar o poema dando mais palavras rimadas, conteúdo para o poema, ou formas de melhorar a estrutura.

Se precisar enviar o poema para uma aula, peça a opinião das pessoas alguns dias antes do prazo.

Dica: Revisar não é só sobre corrigir erros de ortografia, digitação ou formatação; é também sobre moldar e aperfeiçoar o conteúdo do seu poema e torná-lo o melhor que conseguir.

VOLTE PARA O POEMA ALGUMAS HORAS OU DIAS DEPOIS SE ESTIVER SEM IDEIAS.
Embora possa revisar o poema imediatamente, muitas pessoas acham mais fácil revisar depois de deixar o poema de lado por algumas horas ou até dias. Isso permite que você volte para o poema com uma nova perspectiva e encontre problemas que pode não ter visto da última vez.

Parte 4
Experimentando tipos diferentes de rimas

FAÇA A ÚLTIMA PALAVRA DE UM VERSO RIMAR COM A ÚLTIMA PALAVRA DO PRÓXIMO VERSO.
O tipo mais comum de rima em um poema é quando a última palavra ou sílaba de um verso rima com a última palavra ou sílaba de outro verso. Isso também é conhecido como rima externa.

Por exemplo, se um verso terminar com “canto", o próximo pode terminar com "manto”.

Ou você pode rimar as últimas sílabas de duas palavras, como "coração" e "sensação".

USE DUAS PALAVRAS QUE QUASE RIMAM PARA CRIAR UMA RIMA TOANTE OU ASSONANTE.
Você pode usar no seu poema duas palavras com sons parecidos mas que não rimam perfeitamente. Elas podem ter um ritmo vocálico forte, mas ter uma letra que as impede de rimar perfeitamente.

Por exemplo, as palavras "pálida" e "lágrima" são rimas toantes por causa dos sons que as vogais fazem. "Boca" e "moça" também são consideradas rimas toantes pelo mesmo motivo.

Esse tipo de rima também pode ser chamado de imperfeito por ter apenas uma correspondência parcial de sons.

REPITA PALAVRAS HOMÔNIMAS PARA INCORPORAR UMA RIMA RICA.
Esse estilo é chamado assim pois as palavras rimadas têm o mesmo som, mas têm significados diferentes. Usar essa técnica é uma ótima forma de incorporar palavras rimadas e adicionar complexidade ao seu poema.

Por exemplo, você pode incluir as palavras "noz", o fruto, e "nós", o pronome.

Outro tipo de rima rica pode ser repetir a palavra "trabalho", mas com um significado diferente em cada verso. “Trabalho” pode se referir ao verbo trabalhar na primeira pessoa do singular, ou à ocupação de alguém.

INCLUA PALAVRAS QUE PARECEM QUE RIMAM MAS NA VERDADE NÃO RIMAM.
Algumas palavras são escritas de uma forma que você pode pensar que elas rimam, mas têm sons diferentes quando pronunciadas. Juntar duas palavras com grafias parecidas ou iguais e sons diferentes pode fazer seu poema soar mais complexo.

Por exemplo, as palavras "árvore" e "apavore" terminam da mesma forma, então parece que elas rimam, mas elas têm sílabas tônicas diferentes e são pronunciadas de formas diferentes!

USE A MESMA PALAVRA MAIS DE UMA VEZ PARA ENFATIZÁ-LA.
Repetir uma palavra é outra forma criativa de incluir palavras rimadas no seu poema. Você pode rimar uma palavra com ela mesma repetindo a palavra na mesma posição do próximo verso.

Por exemplo, você pode repetir "casa" e dois versos escrevendo: "Eu estou seguro nessa casa / Essas paredes grossas são a minha casa.”

DICAS: 

1– Não reutilize a mesma palavra muitas vezes no seu poema. Use a repetição uma ou duas vezes para dar ênfase sem soar repetitivo demais.

2– Caso tenha que escrever um poema rimado para a escola, faça com antecedência. Isso não é algo que você consegue escrever de última hora.

3– Use um dicionário de rimas como a parte de rimas do Dicionário Informal para encontrar outras rimas que você não teria pensado sozinho.

4– Você precisa ler poesia para aprender a escrever poemas. Pegue uma antologia de poesia e leia do início ao fim, ou visite um site de poemas para procurar por autores, assuntos ou estilos.

AVISO
Não fique bravo ou estressado se estiver com dificuldade. Tire um tempo para clarear a mente, beba água ou respire ar puro, e recomece.
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* ALICIA COOK é escritora profissional que reside em Newark, Nova Jersey. Com mais de 12 anos de experiência, Se especializou em poesia e utiliza sua plataforma para defender as famílias afetadas pelo vício e a lutar para quebrar o estigma em torno do vício e das doenças mentais. É formada em Inglês e Jornalismo pela Georgian Court University e possui um MBA pela Saint Peter's University. Autora de best-sellers pela Andrews McMeel Publishing, seus trabalhos já foram publicados em diversos veículos de comunicação, incluindo o NY Post, CNN, USA Today, HuffPost, LA Times, American Songwriter Magazine e Bustle. Foi nomeada pela Teen Vogue como uma das 10 poetisas das redes sociais que você precisa conhecer, e sua coletânea de poemas, "Things I've Been Feeling Lately", foi finalista do Goodreads Choice Awards de 2016. 

Fontes:
WikiHow. 
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Alexandra Niculescu (Insula lui Arturo, de Elsa Morante)

(tradução do Romeno por JFeldman)


Há livros que são lidos sem fôlego e há livros pelos quais passamos especialmente devagar, não porque sejam chatos, mas pelo contrário, porque gostamos tanto deles que gostaríamos que não terminassem, e até 450 páginas nos parecem poucas. Para mim “Ilha de Arturo” pertence à segunda categoria.

A Ilha – Procida – é e não é apenas uma decoração. É o lugar onde Arturo nasce e cresce, tem paisagens mediterrânicas específicas e as pessoas não são nada acolhedoras. Para Wilhelm (o pai de Arturo) é mais o ponto de onde ele sai e ninguém sabe para onde.

Para a criança, a ilha está intimamente ligada à imagem do pai. Ela sente que existe um encanto que a mantém ali: "Eu sabia que não teria gostado tanto da ilha se ela não fosse dele, impossível de separar do seu ser.”

Arturo cresce quase sozinho – com um servo e só de vez em quando com um pai a quem adora justamente pelas curtas visitas. Tudo o que o pai faz parece à criança estar no reino do milagre, e, de fato, cria a imagem de um pai com todas as qualidades, que enriquece como quer. Quando Arturo se torna adolescente, o pai aparece com uma nova esposa nos braços, muito perto da idade do filho. Vou fazer um parêntese e dizer que aqui há um erro na apresentação do livro, tirado de “The New York Times”, onde os temas do livro dizem ser incesto, misoginia, narcisismo, homossexualidade. Não há qualquer indício de incesto, visto que o caso amoroso (que culmina num beijo e nada mais) ocorre entre Arturo e sua madrasta, Nunziata.

Se a ilha não é realmente uma personagem, a Casa de Junilor consegue ser, através da sua história, através da marca deixada pelo Amalfitano que a habitou no início, através da atmosfera e dos estados em que mantém os seus inquilinos.

Há muito amor no livro, talvez por isso atraia tanto: antes de tudo, é o amor de Arturo pelo pai, é um sentimento exacerbado, uma fantasia, uma ilusão, é o amor por um pai que é excepcional porque é assim que a criança o constrói, quanto menos ele o tem, melhor, mais bonito, mais especial ele pensa que é: “cada gesto dele, cada frase teve uma fatalidade dramática para mim. Ele era a imagem da certeza, e tudo o que disse ou fez foi a resposta à uma lei universal da qual deduzi as primeiras regras de conduta da minha vida.  A verdade é que não conseguia imaginar que o poder dele pudesse ter limites. Se eu tivesse acreditado em milagres, certamente teria acreditado que ele era capaz de fazê-los”.

É um mundo de homens onde Arturo cresce, só conhece as opiniões do pai e de Amalfitan, o homem que lhes deixou a Casa de Juni, e todos são contra as mulheres, que não têm valor em sua concepção: “e se eu pensar bem, qualquer feiúra me pareceria linda se eu comparasse com a feiúra das mulheres”.

Tudo muda na vida de Arturo com a aparência de sua madrasta. Assim como uma criança, primeiro ele olha para ela com ciúmes, mesmo com ressentimento, ele sente que roubou o pai dela, que não terá mais sua atenção ou amor, que já nada é igual. No entanto, há uma proximidade entre ele e a mulher, Nunziata, no primeiro dia, e ele se abre, conta seus sonhos e fantasias, ele realmente tenta impressioná-la e se mostrar o mais corajoso possível. Então, na noite de núpcias, ele ouve o grito dela e isso o leva embora. Ele não sabe o que acontece entre um homem e uma mulher, ninguém lhe disse, mas algo intui e ele não pode mais olhar para sua madrasta da mesma maneira, ele até faz o possível para ficar longe dela, e quando ele tem que ficar sozinho, ele se comporta tão mal quanto pode: “e o olhar, que me lembrei de tão lindo, parecia nublado, animalesco e miserável”.

Desde o início, o pai pergunta como ele pensa Nunziata, e ele quer agradá-lo, mas também para ser honesto e diz: “Eu não acho que ela é feia”, mas o que ele pensa é um pouco mais matizado: “para essa mulher, apesar de sua inegável feiúra, eu, de acordo com meu gosto, a considerava extraordinariamente graciosa!”.

Convivendo com a mulher, nas longas ausências do pai, Arturo começa a ansiar por amor, por ser amado, mas não de forma morna e comum, mas quer amor total: “A ideia de uma pessoa que ama apenas Arturo Gerace, excluindo qualquer outro ser humano, e para quem Arturo Gerace representa o sol, o centro do universo era uma ideia da qual não gostava nada”.

Mesmo depois de conhecer Nunziata, Arturo percebe que ele nunca foi beijado e o primeiro que ele quer um beijo é seu pai, é claro: “Eu gostaria que meu pai me desse um beijo, mesmo sem acordar completamente, assim, no barulho do sono ou na náusea, ou pelo menos eu mesmo queria beijá-lo, mas não me atrevi.”

O que é muito característico do estilo de Elsa Morante é a presença abundante de adjetivos, nenhum substantivo escapa: se EU aleatoriamente tomar uma única página EU me deparo com uma caverna profunda e escura/belo ramo/luz súbita/ expressão ausente e sincera/respiração silenciosa/resfriamento úmido e sensível/respiração ingênua/expressão fabulosa/esboço delicado/cílios longos e piedosos.

Elas são evocadas e descritas de tal forma que os cachos da mulher se tornam uma personagem real; movem-se como querem, perturbam ou incomodam Nunziata, embelezam-na ou a desfiguram, grudam-se nela, desarrumam-na, são calmos ou rebeldes.

Arturo luta contra o amadurecimento e os sentimentos pela madrasta. Ele nega-os até a noite em que ela tem que dar à luz e ele percebe que ele não podia suportar perdê-la. Há uma reconciliação consigo mesmo, com a ilha e com a mulher: “Voltei a me apaixonar pela minha ilha e tudo que gostei gostei agora novamente.

A imagem de Nunz, vivo, saudável novamente e cheio de vida, sorrindo por entre seus cachos apenas para mim, de repente me pareceu uma celebração milagrosa, como se a ilha tivesse sido povoada por deuses.

Seu bom humor, porém, não dura muito, pois logo surgem o ciúme e a inveja em relação ao recém-nascido: "Não disse qual inveja era a mais difícil de suportar. Era a de que ela o beijava. Ela o beijava demais". Toda a atenção que Nunziata lhe dedicava antes, agora ela dedica ao filho, e Arturo não aceita isso, chegando a tomar medidas extremas para reconquistar seu lugar na vida da mulher.

Com este livro, Elsa Morante conquista novos admiradores de seu estilo e nos convence a desejar que outras de suas obras sejam traduzidas para o romeno.

Elsa Morante, “Ilha de Arturo”, traduzido do italiano por Gabriela Lungu, Editora Pandora M, 2022
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ALEXANDRA NICULESCU, escritora, autora dos volumes “Baked Apples Week” (2012) e “No, thank You” (2014), Alexandra tem especialização em cultura espanhola e publica frequentemente prosa curta.
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SOBRE A REVISTA
Literomania é uma plataforma literária independente, dedicada à literatura e ao diálogo cultural. A revista é publicada online desde 2017. Na Literomania, escrevemos e falamos sobre livros de todos os tempos e lugares (geográficos e ideológicos), movidos pela paixão por tudo o que a literatura representa. Continuamos a acreditar no poder da literatura para nos moldar humana, social e até politicamente, para nos oferecer o mais belo espaço de liberdade, ação e também de sonho possível.

Fonte:
Revista Romena Literomania. n. 267. 23/10/2022.
https://www.litero-mania.com/arturo/

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dicas de Escrita (O ato de escrever)


É fácil escrever? O que precisamos fazer para escrever bem? Leiam as reflexões a seguir sobre o ato de escrever e tirem suas conclusões.

1. –  Escrever é uma habilidade que pode ser desenvolvida e não um dom que poucas pessoas têm.

- Há fatores que determinam nosso grau de familiaridade com a escrita, tais como:

a) o modo como aprendemos a escrever;

b) a importância que o texto escrito tem para nós e para nosso grupo social;

c) a intensidade do convívio estabelecido;

d) a frequência com que escrevemos.

2. – Escrever é um ato que exige empenho e trabalho e não um fenômeno espontâneo.

- Escrever é uma das atividades mais complexas que o homem pode realizar, pois impõe rigorosas exigências à memória e ao raciocínio. A agilidade mental é imprescindível para que todos os aspectos envolvidos na escrita sejam articulados, coordenados, harmonizados de forma que o texto seja bem-sucedido.

- É necessário que o redator utilize simultaneamente seus conhecimentos relativos ao assunto que quer tratar, ao gênero adequado, à situação em que o texto é produzido, aos possíveis leitores, à língua e suas possibilidades estilísticas. Portanto, escrever não é fácil e, principalmente, escrever é incompatível com a preguiça.
 
3. – Escrever exige estudo sério e não uma competência que se forma com algumas "dicas".

- Fórmulas pré-fabricadas de textos e "dicas" isoladas apenas contribuem para a montagem de um texto defeituoso, truncado, artificial, em que a voz do autor se anula para dar lugar a clichês, chavões, frases feitas e pensamentos alheios.

- A autoria vem das escolhas pessoais dentro das possibilidades da língua e do gênero. Escrever bem é o resultado de um percurso constituído de muita prática, muita reflexão e muita leitura.

- Uma redação por mês, alguns exercícios esporádicos de produção de pequenos trechos não formam um bom redator. É necessário escrever sempre, escrever todos os dias, escrever sobre assuntos diversos, escrever com diversos objetivos, escrever em diversas situações.
 
4. –  Escrever é uma prática que se articula com a prática da leitura.

- É improvável que um mau leitor chegue a escrever com desenvoltura. É pela leitura que assimilamos as estruturas próprias da língua escrita.

- Além de ser imprescindível como instrumento de consolidação dos conhecimentos a respeito da língua e dos tipos de texto, a leitura é um propulsor do desenvolvimento das habilidades cognitivas. Envolve tantos procedimentos intelectuais e exige tantas operações mentais que leva o bom leitor a adquirir maior agilidade de raciocínio.

- Há ainda a considerar que a leitura é uma das formas mais eficientes de acesso à informação. Seu exercício intenso e constante promove a análise e a reflexão sobre os acontecimentos, tornando a pessoa mais crítica e mais resistente à dominação ideológica.

5. – Escrever é necessário no mundo moderno.

- Hoje tudo está muito automatizado e as relações humanas por intermédio da escrita estão reduzidas ao mínimo (mensagens pelo celular).

- Paradoxalmente, o complexo mundo contemporâneo está cada vez mais exigente em relação à escrita. Tudo o que somos, temos, realizamos ou desejamos realizar deve ser legitimado pela palavra escrita. Nossa habilidade de escrever é exigida, investigada, medida, avaliada, sempre que nos submetemos a qualquer processo seletivo em sociedade.

6. – Escrever é um ato vinculado a práticas sociais.

- Todo ato de escrita pertence a uma prática social. Não se escreve por escrever. A escrita tem um sentido e uma função.

- Saber escrever é também compartilhar práticas sociais de diversas naturezas que a sociedade vem construindo ao longo de sua história. Essas práticas de comunicação em sociedade se configuram em gêneros de texto específicos a situações determinadas. Para cada situação, objetivo, desejo, necessidade temos à nossa disposição um acervo de textos apropriados.

- O produtor de texto não apenas precisa ter conhecimentos sobre as configurações dos diversos gêneros, mas também saber quando cada um deles é adequado, em que momento e de que modo deve utilizá-los. Um relatório é próprio para prestar contas de uma pesquisa científica, de uma investigação, de uma tarefa profissional, mas não serve para contar uma viagem de férias para os amigos, por exemplo.

Fontes
GARCEZ, Lucília H. do Carmo. Técnica de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São Paulo, Martins Fontes, 2004, 2a. edição. Disponível em Escola de Contas e Gestão de TCE-RJ
https://www.tcerj.tc.br/portalecg/pagina/dica_n_10_o_ato_de_escrever
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terça-feira, 21 de abril de 2026

Dicas de Escrita (Qualidades e defeitos do texto)

AS QUALIDADES DO TEXTO

Não existem fórmulas mágicas para que uma pessoa se torne capaz de escrever bem. O exercício contínuo, aliado à prática da leitura de bons autores, e a reflexão são indispensáveis para a criação de textos.

São qualidades da redação que você deve cultivar: a concisão, a correção, a clareza e a elegância.

1. CONCISÃO 
Ser conciso significa que não devemos abusar das palavras para exprimir uma ideia. Deve-se ir direto ao assunto, não ficar "enrolando", "enchendo linguiça". Significa, enfim, eliminar tudo aquilo que é desnecessário.

2. CORREÇÃO 
A linguagem utilizada no texto deve estar de acordo com a norma culta, ou seja, deve obedecer aos princípios estabelecidos pela gramática.

Conhecer as normas que regem o uso da língua é fundamental para a produção de um texto correto. Evidentemente, a maioria das pessoas não conhece de cor as regras gramaticais. Por isso, em caso de dúvidas durante a produção de um texto, não hesite em consultar um bom livro de gramática e um bom dicionário.

Tome cuidados com alguns desvios de linguagem que podem aparecer no seu texto: grafia das palavras, flexão das palavras, concordância, regência, colocação dos pronomes, sinais de pontuação.

Evite erros grosseiros, como por exemplo "Lado outro" (não existe, o correto é por outro lado), Estes erros empobrecem o texto. Muito cuidado! Use um dicionário.

3. CLAREZA 
A clareza consiste na expressão da ideia de forma que possa ser rapidamente compreendida pelo leitor. Ser claro é ser coerente, não contradizer-se, não confundir o leitor.

São inimigos da clareza: a desobediência às normas da língua, os períodos longos, a paragrafação mal distribuída, o vocabulário rebuscado ou impreciso.

4. ELEGÂNCIA 
A elegância consiste numa leitura de texto agradável ao leitor. É conseguida quando se observam as qualidades que apontamos anteriormente (concisão, correção, clareza) e também pelo conteúdo do texto, que deve ser original, criativo.

Lembramos também que a elegância deve começar pela própria apresentação do texto. Deve apresentar-se limpo, legível. Após escrever seu texto, não deixe de fazer uma minuciosa revisão.

OS DEFEITOS DO TEXTO

1. AMBIGUIDADE 
ocorre ambiguidade (ou anfibologia) quando a frase apresenta mais de um sentido.

Ocorre geralmente por má pontuação ou mau emprego de palavras ou expressões.

Exemplo: João ficou com Mariana em sua casa. (casa do João ou da Mariana?)

2. OBSCURIDADE 
significa "falta de clareza". Vários motivos podem determinar a obscuridade de um texto: períodos excessivamente longos, linguagem rebuscada, má pontuação.

Observe:

Encontrar a mesma ideia vertida em expressões antigas mais claras, expressiva e elegantemente tem-me acontecido inúmeras vezes na minha prática longa, aturada e contínua do escrever depois de considerar necessária e insuprível uma locução nova por muito tempo.

3. PLEONASMO 
pleonasmo (ou redundância) consiste na repetição desnecessária de um termo.

Veja os exemplos:

a) A brisa matinal da manhã enchia-o de alegria.
b) Ele teve uma hemorragia de sangue.
c) Vi com meus próprios olhos.
d) Abracei-o com força com estes braços.
e) "Por que você compraria uma enciclopédia se pode ganhar uma grátis?" (propaganda da Enciclopédia Compacta – Revista ISTO É)

4. CACOFONIA 
a cacofonia (ou cacófato) consiste na produção de som desagradável pela união das sílabas finais de uma palavra com as iniciais de outra.

Veja os exemplos:

a) Nunca gaste dinheiro com bobagens.
b) Uma herdeira confisca gado em Goiás.
c) Estas ideias, como as concebo, são irrealizáveis.

5. ECO 
consiste na repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.

Observe os exemplos:

a) A decisão da eleição não causou comoção na população.
b) O aluno repetente mente repetidamente.

6. PROLIXIDADE 
consiste na utilização de mais palavras que o necessário para exprimir uma ideia. Ser prolixo é ficar "enrolando", "enchendo linguiça", não ir direto ao assunto.

O uso de cacoetes, expressões que não acrescentam nada ao texto, servindo tão somente para prolongar o discurso, também pode tornar um texto prolixo. Expressões do tipo: "antes de mais nada", "pelo contrário", "por outro lado", "por sua vez" são, muitas vezes, utilizadas só para prolongar o discurso.

Veja o seguinte exemplo:

Os jovens têm algo a transmitir aos mais velhos?

Antes de mais nada, não saberia responder com exatidão. Grosso modo,sempre uma eterna divergência entre as gerações. Os jovens pensam de um jeito, às vezes, estranho, que chega a escandalizar os mais velhos... Já os mais velhos, por outro lado, costumam, na maioria das vezes, achar que os mais jovens, em alguns casos, não têm absolutamente nada a transmitir aos mais idosos.

* Os termos em negrito sublinhados podem ser retirados do texto, que não comprometem o sentido.

Além dos defeitos que apontamos, procure evitar as frases feitas, os chavões, pois empobrecem muito o texto.

Veja alguns exemplos:

a) "inflação galopante"
b) "vitória esmagadora"
c) "esmagadora maioria"
d) "caixinha de surpresas"
e) "caloroso abraço"
f) "silêncio sepulcral"
g) "nos píncaros da glória"

Fontes:
Escola de Contas e Gestão do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro
https://www.tcerj.tc.br/portalecg/pagina/dica_n_18_qualidades_e_defeitos_do_texto
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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Dicas valiosas para assassinar seu texto de vez


Você leu o texto anterior sobre o bom e o mau texto, que bom! Agora, se você quer assassinar o seu texto, aqui seguem dicas de ouro. 

Escrever algo genuinamente ruim é quase uma arte. Se você quer que seu conto ou crônica seja uma experiência dolorosa para o leitor, aqui está o guia definitivo do que não fazer (fazendo):

Se o objetivo é realmente torturar o leitor e garantir que ninguém passe da primeira página, aqui estão alguns "ingredientes" infalíveis para um desastre literário:

1. Capriche no "Dicionário de Sinônimos"

Não use "disse". Use "prolatou", "exclamou com veemência", "articulou pausadamente". “Componentes da sinóvia”? Que horror! É um tratado de medicina? Quanto mais palavras difíceis e arcaicas você enfiar num texto moderno, mais o leitor vai se sentir lendo um contrato de 1800 e odiar “veementemente” o seu texto e nunca mais ler nada de sua autoria. Parabéns! Seu objetivo foi alcançado.

2. Abuse dos Adjetivos e Advérbios

Nunca deixe um substantivo sozinho. Não é apenas uma "noite". É uma "noite escura, tenebrosa, silenciosamente gélida e assustadoramente melancólica". Se o advérbio termina em "-mente", use três por frase.

3. O Clichê é seu Melhor Amigo

Comece o texto com o personagem acordando com o despertador tocando. Faça-o olhar no espelho e descrever a própria aparência para o leitor (que conveniência!). Termine com "e tudo não passava de um sonho".

4. Use o "Deus Ex Machina" sem Dó

O protagonista está cercado por dez vilões armados? Do nada, ele descobre que tem superpoderes que nunca foram mencionados, ou um raio cai do céu e mata todos os inimigos. Zero esforço, zero lógica.

5. Explique Tudo (Não Mostre Nada)

Em vez de descrever o suor frio e as mãos tremendo, escreva apenas: "Ele estava com muito medo". Não dependa da percepção do leitor; explique até as metáforas para garantir que ninguém precise usar a imaginação. Ou seja, se alguém dá “Bom dia”, seja irritante e detalhe o “Bom dia”.

6. Diálogos Automatizados

Faça os personagens falarem como se estivessem lendo uma enciclopédia.

— "Olá, João, meu irmão biológico que não vejo desde o incidente no coreto da praça em 1998."

— "Olá, Maria. Sim, eu me recordo bem daquele dia fatídico onde a chuva caía incansavelmente sobre nossas cabeças."

7. Fuja do Foco

Se for uma crônica sobre o preço do pão, gaste três parágrafos falando sobre a genealogia do padeiro e depois mude de assunto para a política externa da Mongólia sem nenhum conectivo. O caos é o objetivo.

8. Pontuação Opcional

Escreva parágrafos de duas páginas sem uma única vírgula ou ponto final para deixar o leitor sem fôlego literalmente ou então use pontos de exclamação em todas as frases para parecer que o texto está gritando com alguém!!!!

9. O Início Infinitamente Lento

Gaste as primeiras páginas descrevendo a meteorologia ou os móveis do quarto antes de qualquer ação acontecer. O leitor precisa sentir o tédio existencial do personagem na pele.

10. Mudanças de Foco Aleatórias (O "Flashback" do Nada)

No meio de uma cena de perseguição emocionante, pare tudo para contar o que o protagonista comeu no café da manhã há dez anos. Quebre o ritmo de forma brusca e sem propósito.

11. Narrador Onisciente e Intrometido

O narrador deve dar opiniões o tempo todo e julgar os personagens. "João entrou na sala, sem saber que era um idiota por fazer aquilo. Eu, o autor, jamais faria isso, mas João é limitado."

12. Erros de Continuidade "Criativos"

Na página 2, o personagem é loiro e mora sozinho. Na página 5, ele penteia seus cabelos negros e pede um conselho para a esposa que está na cozinha. Não explique a mudança; deixe o leitor confuso.

13. O Uso de Gírias Datadas ou Erradas

Tente fazer um jovem falar usando gírias que eram descoladas em 1970 ou invente gírias que não fazem sentido nenhum. "E aí, meu bicho-grilo, vamos supimpar aquele rolê topzera no videocassete?"

14. O Final Moralista e Cafona

Termine o conto com uma lição de moral escrita em letras garrafais, como se fosse uma fábula infantil mal acabada: "E assim aprendemos que o ódio não leva a lugar nenhum, apenas ao vazio."

15. Formatação Experimental (e Irritante)

Mude a fonte no meio do texto, use negrito em palavras aleatórias ou escreva frases inteiras EM CAIXA ALTA PARA MOSTRAR QUE O PERSONAGEM ESTÁ EMOCIONADO.

16. Onomatopeias em Excesso

Em vez de descrever o som, escreva-o literalmente e repetidamente. "Ele caminhava pela sala. Pof. Pof. Pof. De repente, o telefone tocou. Trrrriiiimmm! Trrrriiiimmm! Ele atendeu. Click.”

Exemplo:
Aqui está uma obra-prima do desastre literário, unindo o máximo de táticas irritantes em um único parágrafo:

"A aurora boreal dos sentimentos prolatou-se no horizonte gélido, úmido, escuro e tristemente melancólico daquela manhã fúnebre onde o sol, esse astro rei amarelado, insistia em brilhar intensamente. João, meu irmão caçula que nasceu em 1995 sob o signo de Escorpião, acordou com o estridente TRRRRIIIIIIIM do despertador e olhou-se no espelho retangular de moldura de mogno, observando seus olhos azuis como o mar revolto e seu nariz levemente adunco, pensando consigo mesmo: 'Estou sentindo uma tristeza profunda e avassaladora hoje'. De repente, um alienígena careca caiu do teto — que era pintado de branco neve com tinta látex de baixa qualidade — e disse: 'Olá, João, eu vim aqui para resolver todos os seus problemas financeiros agora'. João sorriu, mas o alienígena de cabelos loiros e tudo não passava de um sonho onde a moral da história é que quem cedo madruga, Deus ajuda!"

Por que este texto é um "sucesso" no fracasso:

Dicionário de Sinônimos: "Aurora boreal dos sentimentos" e "prolatou-se".

Adjetivos em excesso: "Gélido, úmido, escuro e tristemente melancólico".

Explicação óbvia: "Estou sentindo uma tristeza profunda".

Diálogo expositivo: "Meu irmão caçula que nasceu em 1995...".

Erro de continuidade: O alienígena careca que ganha cabelos loiros do nada.

Clichês supremos: Começar com o despertador, terminar com "era tudo um sonho" e uma lição de moral cafona.

Onomatopeia irritante: O TRRRRIIIIIIIM no meio da narrativa.


Contudo, se você quer escrever um texto bom, que não esteja fadado a participar do funeral dele, escreva o contrário das dicas acima. Existem muitos escritores que possuem o dom da escrita, mas também possuem o dom de estragar o texto inteiro por causa de algumas palavras mal colocadas. 

Se o texto é filosófico, não siga as regras acima, não queira mostrar sua erudição com palavras que raros leitores sabem o seu significado ou utilizar gírias que quebrem o texto. Ou seja, não assassine o seu texto. Tenho escritores que penso várias vezes se vou ler seus textos, são cheios de erros, palavras que nunca ouvi falar, ou fazem parte do vocabulário português, de Portugal, no Brasil (existem diferenças). Decida que idioma vai escrever, qual vai ser seu público. 

Ou seja, as notícias estão repletas de crimes, estes crimes contra o leitor deveriam fazer parte de suas manchetes. Seria uma agenda cheia.

Referências:
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Rodica Grigore* (A Maré do Destino, de Sawako Ariyoshi)

(texto da Revista Romena Literomania. Platformă literară independentă n. 393. 23.01.2026, tradução para o português por Jfeldman)


Pedras no leito do rio
ondulando: água cristalina.
(Natsume Soseki)

O romance "O Rio Ki", de Sawako Ariyoshi, começa precisamente quando o século XIX está prestes a terminar. E as primeiras páginas do livro são extremamente ilustrativas do que se segue, ao descreverem duas personagens femininas que definirão grande parte da narrativa e que desencadearão, ainda que indiretamente, os eventos cruciais que ocorrerão em suas famílias. Assim, a avó Toyono Kimoto prepara-se para a cerimônia de casamento de sua neta Hana com Keisaku. E antes que chegue a hora de a jovem, mal tendo vinte e poucos anos, partir para sua nova casa com a família Matani, às margens do Rio Ki, na região de Kansai, as duas – avó e neta – vão ao templo para passar alguns momentos juntas. Não necessariamente porque Toyono, que assumiu o papel de mãe, tivesse algo especial a dizer à neta, mas porque, embora receosa de demonstrar, gostaria de adiar o momento, mesmo que apenas pelo breve instante necessário para uma visita de lembrança ao templo.

De certa forma, as primeiras páginas de "O Rio Ki", romance publicado em 1959, estabelecem o tom para toda a obra e destacam a importância das personagens femininas para este texto, bem como para toda a produção de Sawako Ariyoshi, considerada uma das vozes mais importantes da ficção japonesa do século XX e até mesmo (segundo alguns exegetas) uma verdadeira Simone de Beauvoir japonesa. Merece destaque a edição romena deste livro (publicada recentemente pela Humanitas Fiction na Coleção "Raftul Denisei"), assinada por Angela Hondru, a notável tradutora de ficção japonesa que, ao longo dos anos, ofereceu aos leitores romenos uma vasta gama de traduções de obras de ficção publicadas no arquipélago, desde "O Conto de Genji" (trad. "Povestea lui Genji") até as grandes obras de Yasushi Inoue, Yukio Mishima, Haruki Murakami e Fumiko Enchi, para citar apenas alguns nomes.

O rio Ki, com seu curso relativamente curto, porém majestoso a cada curva em sua jornada rumo ao mar, ao sul de Osaka, atravessa precisamente as regiões que, ao longo dos séculos, estiveram intrinsecamente ligadas à própria essência da tradição japonesa. E, ao cruzar essa região, atravessa montanhas e rios, nutre arrozais e testemunha as dificuldades e alegrias das pessoas que vivem em suas margens. Poderoso o suficiente para ameaçar, quando suas águas transbordam, tudo o que se interpõe em seu caminho, mas igualmente suave e plácido, quando o tempo está ameno e claro, para transportar os imponentes barcos à vela da procissão nupcial, o rio Ki influencia, à sua maneira, a vida das pessoas que ali vivem. Mas é também esse rio que confere aos que vivem em suas margens uma força singular – especialmente às mulheres do romance de Ariyoshi, tão próximas, simbolicamente falando, desse curso d'água. E isso fica evidente desde o início, desde os momentos que antecedem o belo casamento de Hana.

A jovem noiva está prestes a descer o rio em uma procissão impressionante e elegante, rumo à casa de sua nova família. Aparentemente uma moça delicada e recatada, pronta para prestar atenção à família Matani, Hana se revelará, assim como o Rio Ki, uma presença apenas externamente silenciosa, mas na verdade uma força indomável que impactará profundamente a vida daqueles ao seu redor – e isso se provará verdadeiro tanto no caso de seu marido quanto no das futuras gerações de sua família. Uma família que será traçada em sua linhagem feminina, o que comprova a convicção duradoura da autora de que, independentemente de quão importantes as escolhas ou ações dos homens possam parecer (ou até mesmo o sejam, às vezes...), elas são sempre desencadeadas por aquelas mulheres que, mesmo sem serem vistas ou (re)reconhecidas pelos outros, são as que decidem o que realmente importa. E isso se aplica especialmente ao caso de Hana, que dá a impressão de que se integrará rápida e perfeitamente à família do marido, aceitando sem questionar a autoridade da sogra e as frequentes mudanças de humor do cunhado (ou seu antagonismo mais ou menos flagrante em relação a ela...). No entanto, por trás das aparências, esconde-se uma mulher determinada que incentivará o marido a tomar as decisões certas, impulsionará sua carreira política e se tornará a figura central da família. Certamente, nada disso acontece da noite para o dia, mas exigirá longos anos de paciência, já que a mudança na hierarquia de poder só se tornará evidente após o nascimento do filho e, principalmente, após o da filha, Fumio.

E se a primeira parte do romance se concentra em Hana, o protagonista da segunda parte será Fumio, enquanto a terceira (e última) parte girará em torno de Hanako, filha de Fumio. "O Rio Ki" retrata a vida dessas três mulheres da família Matani desde o início do século XX até o período pós-Segunda Guerra Mundial. Uma era de profundas transformações, políticas, econômicas e sociais, as primeiras décadas do século XX representaram o ápice do processo de modernização do Japão (iniciado no começo do Período Meiji, em 1868 – o início da Restauração Meiji), que ocorreu rapidamente, pulando etapas – aspectos que foram abordados em todos os grandes romances de escritores japoneses como Yasunari Kawabata, Yukio Mishima e Osamu Dazai. Sawako Ariyoshi escreveu na mesma linha, mas destaca-se pela perspectiva feminina que adotou, presente em seus romances mais aclamados, como "A Esposa do Médico" e "A Dançarina de Kabuki", mas que talvez seja melhor evidenciada em "O Rio Ki". Aqui, na família Matani, os leitores compreenderão melhor, por meio dessas personagens femininas (mãe, filha e neta), todas as complexidades e tensões geradas pelo rápido abandono, no Japão, de alguns costumes tradicionais em favor de um estilo de vida ocidental. Prova disso é a atitude de Fumio, que deseja emancipar-se, considerando obsoletos os antigos costumes e regras de conduta, e que rejeita abertamente a maioria das escolhas de vida de sua mãe. Resoluta, sempre ativa e por vezes talvez enérgica demais para a família (mas também para o Japão daquela época...), Fumio, a autoproclamada feminista da sua geração, quer estudar, sair de casa, viver de forma diferente e ter a liberdade de fazer as suas próprias escolhas, determinada a romper com tudo o que envolve tradição e a destoar da existência enfadonha da mãe, com quem entra em conflito mais do que uma vez. Mas, ironicamente (embora de forma alguma paradoxalmente...), é a representante da geração seguinte, a própria filha de Fumio, Hanako, que se interessa pelo modo de vida tradicional japonês e se torna próxima precisamente da avó Hana.

Um romance familiar excepcional, singular na ficção japonesa da época devido à sua perspectiva feminina, "O Rio Ki" é, ao mesmo tempo, um notável retrato social da primeira metade do século XX no arquipélago. Os anos passam, como o curso do Rio Ki, que acompanha constantemente as vidas e as grandes decisões de todos os personagens do romance, e com eles o Japão se desvencilha de suas rígidas regras de conduta e cerimônias estritas para um modo de vida em sintonia com os ritmos e valores do mundo ocidental, especialmente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, a política japonesa passa por uma transformação, da grande confrontação com a Rússia, que marcou o início do século, à ameaça do radicalismo e da conflagração mundial, ambas deixando marcas indeléveis no país e no mundo em geral. Mas o interesse de Ariyoshi reside menos nos grandes eventos históricos e mais na sua influência na vida das mulheres Matani, forçadas a se adaptar, a aceitar mudanças (mesmo quando afirmam que obstinadamente se recusam a mudá-las...) e a viver suas vidas em seu próprio ritmo, como o rio Ki, que parece guiar seus passos em um nível simbólico.

Na verdade, o romance pode – e deve – ser interpretado também em um nível simbólico, visto que a importância da ligação com o Rio Ki é enfatizada desde o início, por meio da voz narrativa da Avó Toyono. Porque, mesmo tendo recebido diversas outras propostas de casamento para sua neta (algumas até melhores!), a avó decidiu que a jovem deveria escolher o jovem Matani, pois, para chegar à casa dele (seu futuro lar), Hana teria que descer o rio, e não subir, onde ficava a casa de seu outro pretendente: "O Rio Ki flui do leste para o oeste. [...] As futuras noivas que vivem às margens do Rio Ki não têm permissão para subir o rio". Além disso, mesmo que as ações dos homens às vezes pareçam importar, já que são eles que saem de casa em busca de se afirmar na política ou nos negócios, são as mulheres que realmente fazem a diferença, pois são elas que inspiram, influenciam e, às vezes, até mesmo impulsionam seus maridos ou filhos a fazerem certas coisas (enquanto, com tato, lhes dão a impressão de que agiram por iniciativa própria!). E, embora à primeira vista Hana e Fumio pareçam ser como água e vinho, eles são igualmente fortes em sua determinação e em seus esforços para ajudar seus maridos a terem sucesso. No extremo oposto está o filho mais velho de Hana, Seichiro, que se acomodou numa vida confortável e farta, mas que carece totalmente da ambição que impulsiona sua mãe e sua irmã... Precisamente por essa razão, o ponto forte do romance é a ênfase nas conexões profundas e atemporais, por mais complexas que sejam, entre as personagens femininas, entre mãe e filha, avó e neta – retratadas com uma incrível atenção aos detalhes e condizentes com o fluxo contínuo do Rio Ki, um verdadeiro rio de destinos e do próprio destino do Japão.

De alguma forma, este rio é a constante eterna em um universo humano sujeito a mudanças de todos os tipos, e reflete todos os medos e esperanças das mulheres Matani, cujas vidas fluem ao seu longo curso. O livro torna-se, assim, um romance de atmosfera notável, singular tanto no contexto da ficção feminina japonesa do século XX quanto na obra de Ariyoshi. E o Rio Ki torna-se, por sua vez, a testemunha silenciosa de todos os grandes eventos históricos e dos acontecimentos na vida dessas três mulheres, bem como o próprio elemento que lhes confere a coragem para superar as situações difíceis que enfrentam – a coragem de atravessar a vida ao lado delas, não contra o destino ou contra a correnteza, mas sempre de lado...

Sawako Ariyoshi, "O Rio Ki"/ "Râul destinelor", tradução para o romeno e notas de Angela Hondru, Editora Humanitas Fiction, Bucareste, 2024
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*Rodica Grigore é professora associada (disciplina de literatura comparada) na Faculdade de Letras e Artes da Universidade "Lucian Blaga" de Sibiu; Doutora em Filologia desde 2004. Algumas Publicações: "Sobre Livros e Outros Demônios" (2002), "A Retórica das Máscaras na Prosa Romena do Período Entreguerras" (2005), "No Espelho da Literatura" (2011, Prêmio "Livro do Ano", concedido pela Seção de Sibiu da União de Escritores da Romênia), "Os Meridianos da Prosa" (2013), "Realismo Mágico na Prosa Latino-Americana do Século XX. (Re)configurações Formais e de Conteúdo" (2015, Prêmio da Associação de Literatura Geral e Comparada da Romênia, Prêmio G. Ibrăileanu de Crítica Literária da revista "Viața Românească", "Livro do Prêmio "Year", concedido pela filial de Sibiu da URSS). Ensaios sobre Literatura Contemporânea" (2018, Prêmio "Șerban Cioculescu", concedido pela revista "Scrisul Românesc"), É autora de "Contos e Histórias" (Prêmio de Tradução da Seção de Sibiu da URSS, 2006). Coordenou e produziu a antologia de textos para o Festival Internacional de Teatro de Siblu, entre 2005 e 2012. Publicou inúmeros artigos na imprensa literária, em revistas como "Euphorion", "Observator Cultural", "Saeculum", "Scrisul Românesc", "Viața Românească", "Vatra", entre outras. Colabora com estudos, ensaios e traduções em publicações culturais na Espanha, México, Peru e Estados Unidos. Integra a equipe editorial da revista "Theory in Action. The Journal of Transformative Studies Institute", em Nova York.

Artigo e imagem: Revista Romena Literomania. Platformă literară independentă n. 393. 23.01.2026, Tradução para o português por Jfeldman.
https://www.litero-mania.com/the-tideway-of-destiny/ 

domingo, 19 de abril de 2026

Dicas de Escrita (O bom e o mau texto em escrita criativa)


Em escrita criativa, um bom texto não se define apenas por regras gramaticais corretas, mas pela sua capacidade de engajar, emocionar e transportar o leitor para o universo imaginado, utilizando a linguagem de forma expressiva. Já um mau texto é, geralmente, monótono, confuso, clichê ou excessivamente técnico, falhando em criar conexão emocional ou imersão. 

Não existem fórmulas mágicas para que uma pessoa se torne capaz de escrever bem. O exercício contínuo, aliado à prática da leitura de bons autores, e a reflexão são indispensáveis para a criação de textos.

São qualidades da redação que você deve cultivar: a concisão, a correção, a clareza e a elegância.

O que distingue um bom texto de um mau texto:

Mostre, não conte: 
Um bom texto descreve cenas e emoções através de ações e detalhes sensoriais, permitindo que o leitor sinta a experiência. 

Um mau texto apenas relata fatos de forma direta e seca ("ele estava triste" vs. "lágrimas rolaram, e ele apertou o punho").

Originalidade vs. Clichês: 
Bons textos evitam caminhos óbvios e frases feitas, trazendo uma perspectiva única do autor.

Ritmo e Estrutura: 
Bons textos alternam frases curtas e longas para criar tensão e interesse, mantendo o leitor imerso. 

Maus textos são repetitivos ou têm um ritmo "arrastado" que entedia.

Personagens e Voz: 
Um bom texto tem personagens complexos, com motivações claras, e uma "voz" autoral distinta.

Clareza e Propósito: 
Mesmo na ficção, a escrita criativa deve ser clara para que o leitor não fique perdido. 

Público leitor atingido:

Bom Texto: 
Atinge um público amplo ou específico que busca imersão, reflexão e entretenimento. Ele cativa leitores que desejam ser transportados emocionalmente, valorizando a originalidade e a experiência estética da leitura.

Mau Texto: 
Tende a afastar o leitor, que desiste da leitura devido à falta de envolvimento, clichês ou má estruturação. 

Em resumo, a escrita criativa é a arte de expressar ideias com originalidade, usando a técnica para garantir que a mensagem — seja ela literária, publicitária ou de entretenimento — seja memorável e impactante.

Fontes Principais:
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing