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sábado, 14 de março de 2026

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 5


Para criar um texto que aborde temas tão pesados (abandono, maus-tratos e indiferença) sem soar como um sermão, o segredo é usar o Cotidiano como Contraste. No conto, o horror desses temas é mais impactante quando aparece nos pequenos detalhes: uma geladeira vazia, um latido que ninguém atende, uma mensagem visualizada e não respondida.

Aqui está um esboço estruturado e exemplos de como materializar esses sentimentos:

1. A Estrutura: O "Efeito Dominó" da Indiferença

Em vez de tratar os temas isoladamente, conecte-os através de um único personagem ou de uma vizinhança. Isso mostra que a falta de amor é sistêmica.

O Cenário: Um prédio antigo ou uma rua sem saída (metáforas para o isolamento).

O Personagem "Lente": Alguém que observa tudo, mas também é vítima ou cúmplice do silêncio.

2. Exemplos de como "Mostrar" em vez de "Dizer"

a) Sobre o Abandono de Idosos (O Silêncio)

Não diga "ele estava abandonado". Mostre a passagem do tempo e a irrelevância social.

A Cena: O Sr. Antenor coloca a mesa para dois todos os domingos, embora o filho não apareça há três anos. Ele veste sua melhor camisa apenas para esperar o carteiro, que é a única pessoa que diz seu nome em voz alta.

O Objeto: O telefone fixo que só toca para oferecer promoções de telemarketing.

b) Sobre Maus-tratos com Animais (A Indiferença)

O maltrato no cotidiano muitas vezes é a omissão.

A Cena: No quintal vizinho, o cachorro late ritmicamente, como um metrônomo. O som já faz parte do ruído da rua, como o motor de uma geladeira. As pessoas reclamam do barulho, mas ninguém se pergunta por que o pote de água está seco e virado.

O Detalhe: O personagem principal aumenta o volume da TV para não ouvir o ganido quando a chuva começa.

c) Sobre a Falta de Amor com Próximos (O Egoísmo)

Isso se manifesta na pressa e na falta de presença real.

A Cena: Uma filha que visita a mãe idosa, mas passa o tempo todo no celular. Ela traz comida pronta e cara, achando que isso substitui o afeto. Quando a mãe tenta contar um sonho, a filha interrompe: "Tenho uma reunião em dez minutos, mãe. Come logo".

O Diálogo: Frases curtas e protocolares. "Está tudo bem?", "Precisa de dinheiro?", "Tchau".

3. Esboço Prático de um Conto Único

Título Sugerido: O Som das Coisas que Não Importam

Início: Conhecemos Dona Rosa, que conversa com um vira-lata manco que fica no portão dela. Ela é a única que o alimenta. Ela espera um telefonema do neto (o abandono e o cuidado com o animal se cruzam).

Meio: O neto chega de surpresa, mas apenas porque precisa que ela assine um documento de herança ou venda. Ele chuta o cachorro para fora do caminho ao entrar. Aqui, o maltrato animal e a falta de amor familiar colidem.

Clímax: Dona Rosa percebe que o cachorro, mesmo ferido, tem mais lealdade a ela do que o sangue do seu sangue. Ela se recusa a assinar e fecha a porta, ficando sozinha com o animal.

Fim (A Ironia): O neto sai reclamando do "cheiro de bicho" e da "teimosia da velha", enquanto o leitor sente o peso da solidão dela, que agora é sua única proteção.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O Folclore da Bélgica


A Bélgica guarda um folclore menos conhecido internacionalmente, mas igualmente rico — um emaranhado de contos e lendas que nasce das suas cidades medievais, das planícies costeiras, das colinas da Ardenha e das vielas onde se cruzam línguas e culturas. Essas histórias, passadas de geração em geração, revelam um imaginário onde o cotidiano encontra o fantástico, e onde o humor, o medo e a sabedoria popular convivem com naturalidade.

Muitos relatos belgas brotam de locais específicos: castelos, pontes, moinhos e bosques. As Ardenas, com suas florestas fechadas e penhascos, são cenário recorrente para narrativas de espíritos, cavaleiros errantes e aparições noturnas. Nesses contos, a natureza parece ter memória própria; trilhas e rochas carregam histórias de amores perdidos, pactos antigos e advertências para os imprudentes. Nas cidades, lendas sobre sinos, prisioneiros e mercadores dão forma a uma memória urbana que mistura fatos históricos e imaginação.

Uma figura que atravessa muitas tradições locais é a do fantasma — nem sempre aterrador, por vezes dramático ou até melancólico. Contam-se histórias de almas que voltam para resolver injustiças do passado, proteger tesouros esquecidos ou simplesmente repetir um gesto até encontrarem descanso. As histórias de assombrações belgas frequentemente têm um tom moral: servem como lembretes sobre honra, dívida e reparação.

A Bélgica também é terra de criaturas pequenas e brincalhonas do folclore, como fadas e seres domésticos que, segundo as crenças antigas, podem ajudar nas tarefas da casa ou pregar peças em quem é displicente. Esses seres refletem uma relação íntima com o cotidiano — explicam pequenos acontecimentos, ajudam a preservar tradições e alimentam o senso de maravilha entre crianças e adultos.

Carnavais e festas locais trazem outro tipo de lenda: personagens mascaradas, rituais que misturam sátira e rito, e símbolos de fertilidade e renovação. Exemplos como o Carnaval de Binche, com seus Gilles, mostram como a tradição pode transformar história, música e traje em narrativas vivas, que conectam comunidade e território. Esses eventos preservam mitos e comportamentos antigos, convertendo-os em espetáculo coletivo e património cultural.

Também há contos que se ligam à disseminação cultural do país — onde influências flamengas, valonas e francófonas se entrelaçam, e onde ecos de mitos germânicos, latinos e celtas aparecem mesclados. Assim, as lendas belgas podem variar bastante de região para região, mas carregam um fio comum: a tentativa de explicar o mundo, preservar a memória e criar laços sociais através da narrativa.

No fundo, os contos e lendas da Bélgica não são apenas curiosidades folclóricas; são espelhos da vida comunitária. Contá-los é reafirmar identidades locais, ensinar valores e celebrar o lugar onde se vive. Ao ouvir essas histórias — de castelos enevoados, de pequenas fadas domésticas ou de festas ruidosas — aproximamo-nos de uma Bélgica menos turística e mais íntima, feita de histórias que nos lembram que o passado continua a falar, em sussurros e ritos, pelas ruas e pelos bosques.

Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 3, final

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA

Parte 3 – Criando os elementos específicos da cidade

1 – Descubra o que torna a cidade única. 

Agora que já definiu os elementos fundamentais dela, comece a diferenciá-la! Pense em elementos únicos e interessantes que tornam a cidade um local sobre o qual vale a pena ler! Talvez a cidade seja assombrada e apresente histórias de fantasmas que são passadas de geração em geração. Deixe a criatividade fluir.

- Pense nas características que definem a cidade para o resto do mundo. Ela pode ser reconhecida como o centro de comércio da região ou ser conhecida por conta de um time esportivo renomado, por exemplo. 

– Pense nas coisas que os moradores da cidade amam nela para dar um toque mais real. Quais os pontos de encontro da cidade? O que na cidade dá orgulho aos moradores? Do que eles tem vergonha?

2 – Destaque os detalhes essenciais para a história. 

Por mais tentador que seja detalhar o mundo fictício inteiro, é preciso se concentrar no que é importante para a história que quer contar. A cidade deve trabalhar para a história e para os personagens, não o contrário. Desenvolva toda a cidade, mas foque-se nos locais onde os personagens passam mais tempo.

–  Por exemplo, digamos que os personagens passem muito tempo em uma escola particular no centro da cidade. Pense em detalhes da escola, desde a aparência (interna e externa) dela ao mascote. Concentre-se nos arredores da escola e na arquitetura interna dela, incluindo salas de aula e outros ambientes.

3 – Use os cinco sentidos. 

Para se criar um mundo crível, é preciso fazer com que o leitor sinta-se dentro do local, citando desde o cheiro do lixo aos barulhos nas ruas. Crie descrições que ativem a visão, o paladar, o olfato, o tato e audição do leitor para criar uma cidade com vida.

–  Por exemplo, digamos que a cidade tenha um rio poluído. Pense em como é o cheiro conforme passa pelo rio e faça os personagens comentarem sobre o cheiro, o visual e os sons do rio.

–  A história provavelmente apresentará diversos locais recorrentes. Use os cinco sentidos para descrevê-los e criar uma história ainda mais convincente.

4 – Adicione detalhes do mundo real à cidade. 

O leitor sabe que está lendo uma obra de ficção e aceitará elementos estranhos e imaginários, mas pode ser uma boa ideia incluir elementos reais na cidade para criar uma visão mais realista dela conforme a história avança.

–  Por exemplo, digamos que os personagens passem uma boa parte da trama em uma área urbana e densa da cidade. Ela pode ser povoada por criaturas estranhas, mas também apresentar elementos encontrados em áreas urbanas reais como prédios, ruas e becos. Misturar detalhes reais e imaginários ajuda a criar um mundo mais verdadeiro.

5 – Coloque os personagens dentro dos ambientes da cidade e movimente-os! 

Após detalhar bem a cidade fictícia, coloque os personagens para interagir com ela! O ambiente deve avançar a história e os personagens devem acessar elementos da cidade necessários para levar a trama adiante.

- Por exemplo, digamos que um personagem precise acessar um portal mágico no meio da cidade para viajar o tempo; descreva bem o portal dentro da cidade! Ele deve conter detalhes suficientes para ser visualizado pelo leitor e a interação com os personagens devem ser interessantes. Assim, a cidade ficcional avança as necessidades e os objetivos dos personagens!

6 – Descreva a cidade através das perspectivas dos personagens. 

Um grande desafio na hora de escrever sobre uma cidade fictícia é evitar os momentos de descrição óbvios, quando se coloca a descrição na boca do personagem para informar o leitor. Assim, parecerá que você está querendo "falar" através do personagem de modo forçado. Para contornar isto, use as vozes dos personagens para descrever a cidade.

–  Coloque os personagens em situações onde devem caminhar em determinados locais ou interagir com seções específicas da cidade. O personagem pode usar alguma instalação na cidade e descrever as sensações disto! Assim, você poderá descrever a cidade através da perspectiva do personagem, criando descrições mais convincentes.

- Uma boa ideia é fazer com que os personagens tratem os elementos mais fantásticos e estranhos da cidade de modo casual. Se ela fica debaixo d'água por exemplo, um personagem que mora nela há muito tempo pode não se surpreender com o fato de ter de entrar em um submarino para visitar os vizinhos. Descreva-o então entrando no submarino e programando o destino de modo casual e cotidiano. Assim, o leitor compreenderá que os submarinos são comuns na cidade e são utilizados como transporte sem precisar dizer isso explicitamente.
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Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 2

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA *


Parte 2 – Criando os elementos fundamentais da cidade

1 – Escolha um nome. 

– Este é um dos principais elementos de qualquer cidade, certo? Ele provavelmente será repetido com frequência na história pelos personagens ou pelas descrições, logo, deve-se pensar em um nome que soe bem e tenha um propósito;

- Se quiser dar um toque mais "pé no chão" para a história, escolha um nome que pareça genérico e "comum". Nomes de santos e presidentes da república são bastante comuns, aparecendo em diversos estados diferentes, além de não contarem muito sobre a cidade em questão. Evite usar nomes muito característicos como Springfield — os leitores certamente associarão o seu texto com o desenho dos Simpsons;

- Escolha um nome que combine com a região onde a cidade está localizada. Se a história se passa na Alemanha, por exemplo, escolha um nome ou termo alemão que combine com ela. Se a cidade está no Canadá, escolha um nome de cidade real de lá e mude-o um pouco para criar o nome fictício;

- Evite nomes óbvios demais, como "Vingança" ou "Inferno", pois o leitor já saberá logo de cara o significado por trás do nome. Tais obviedades podem funcionar apenas quando a cidade funciona em contraste com o nome. Por exemplo, uma cidade chamada "Inferno" com habitantes gentis e extremamente agradáveis.

2 – Monte um registro histórico da cidade. 

– Agora que já deu um nome, é preciso pensar no que aconteceu na cidade até agora. Assim, você dará mais credibilidade para os personagens, fazendo com que o leitor acredite mais na história. Responda diversas questões sobre a cidade, incluindo:

a = Quem fundou a cidade? Pode ser um explorador solitário que trombou com a terra, ou um povo nativo que a construiu com ferramentas básicas. Pense nos indivíduos responsáveis pela origem da cidade.

b = Quando a cidade foi fundada? Isso pode ajudá-lo a ter uma ideia melhor do desenvolvimento do local, pois uma cidade fundada há 100 anos terá uma história mais densa do que uma fundada há 15 anos.

c = Porque a cidade foi fundada? Responder a pergunta o ajudará a descrever melhor o passado do local. Talvez ela tenha sido fundada através da colonização de um explorador estrangeiro. Talvez tenha sido fundada por pessoas que encontraram a terra vazia. Os motivo o ajudarão a compreender melhor os personagens, pois eles talvez tenham conexões pessoais com a cidade devido ao passado dela.

d = Qual a idade da cidade? Este é um elemento muito importante; uma cidade mais antiga pode apresentar detalhes preservados do passado, enquanto uma mais nova pode ter poucos prédios antigos e um planejamento mais experimental.

3 – Descreva as paisagens e o clima. 

– A cidade é cercada por montanhas e florestas ou fica no deserto, cercada de dunas? Ela pode ser mais urbana, com uma população enorme e diversos arranha-céus, ou pequena, com uma população diminuta e poucas ruas. Concentre-se em como um estranho veria a cidade, incluindo a vegetação, o terreno e o visual.

– Pense também no clima. Ela é quente e úmida ou fria e seca? A questão também depende da época do ano onde a história se passa. Em uma história que se passa no meio do inverno em uma cidade próxima do Rio Grande do Sul, por exemplo, o clima pode ser quente durante o dia e frio durante a noite.

4 – Analise a demografia da cidade. 

Leve em consideração os indivíduos que compõem a população, incluindo dados como raça, gênero e classe. Por mais que seja ficcional, a cidade deve apresentar variações e detalhes que a tornem mais genuína.

– Pense nos grupos raciais e étnico da cidade. Existem mais negros do que brancos? Determinados grupos vivem em áreas específicas da cidade? Existem áreas onde alguns grupos não são permitidos ou nas quais sentem-se desconfortáveis?

- Pense na dinâmica de classes da cidade. Um personagem de classe média pode viver em uma área da cidade, enquanto outro mais rico vive em um local mais caro e luxuoso. A cidade pode ser dividida por classes, com algumas áreas disponíveis apenas para certos níveis sociais.

5 – Desenhe um mapa. 

A representação física pode ajudar bastante na hora de escrever, mesmo quando não se entende muito bem de ilustração. Faça um esboço simples da cidade, incluindo os principais marcos dela, as casas dos personagens e os locais mais frequentados por eles.

– Detalhe os marcos da cidade, como as montanhas ou as dunas que a contornam e protegem a fronteira. Adicione o máximo possível de detalhes para construir um mundo fictício ainda mais convincente.

- Se conhece alguém que mande bem nas ilustrações, peça ajuda para desenhar um mapa mais completo. Se preferir, você pode utilizar o computador para construir o mapa. Use softwares como o Photoshop para recortar e colar imagens da internet para criar um mapa ou uma representação física da cidade.
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* Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 1

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA*

Escrever sobre uma cidade fictícia é um desafio bastante divertido. As cidades reais são povoadas por pessoas reais e, para criar uma cidade fictícia e usá-la em uma história, é preciso despertar sua imaginação e se concentrar em todos os detalhes para dar vida à ela e à população dela.

Parte 1 – Analisando exemplos de cidades fictícias

1 – Leia diversos exemplos de cidades fictícias para ter uma ideia melhor de como começar. 

As cidades das histórias normalmente são essenciais para o mundo onde um livro se passa, complementando ou reforçando as características dos personagens e dos eventos ocorridos. Alguns exemplos incluem:

- A cidade de Basin City, ou Sin City, em Sin City, de Frank Miller.
- A cidade de Porto Real em A Guerra dos Tronos de George R. Martin.
- A cidade de Oz (A Cidade Esmeralda) em O Mágico de Oz de Frank Baum.
- A cidade do Condado em O Hobbit de J.R.R. Tolkien.

2 – Analise os exemplos. 

Após ler um pouco sobre as cidades fictícias acima — e outras —, pare e pense um pouco sobre o que as torna tão bem escritas. Assim, você terá uma ideia melhor de como escrever sobre sua própria cidade.

- A maioria das cidades fictícias é descrita com o desenho de um mapa pelo autor do livro ou por um ilustrador contratado por ele. Analise os mapas das cidades fictícias e observe os níveis de detalhes deles. Por exemplo, o mapa do livro O Hobbit inclui os nomes dos lugares na linguagem do livro e também apresenta os nomes de marcos e estruturas na região fictícia.

– Observe os nomes das áreas ou ruas. Os nomes escolhidos pelo autor podem ter uma enorme importância, pois simbolizam alguns aspectos do mundo do livro. Por exemplo, o nome "Sin City" nas graphic novels de Frank Miller indica que a área é conhecida pelos habitantes pecadores — o subtítulo "Cidade do Pecado" foi utilizado em algumas das publicações para tornar isso mais claro para os leitores brasileiros sem conhecimento de inglês. O nome informa o leitor sobre a região e o que esperar os personagens.

–  Veja como o autor descreve a cidade. 

Ele a caracteriza através de determinadas descrições? Em A Guerra dos Tronos, por exemplo, George R. Martin descreve o Porto Real como sujo e fedorento, mas diz que também é a cidade que abriga o trono. A descrição cria um contraste interessante para o leitor.

3, Conheça os prós e os contras de se criar uma cidade fictícia em vez de usar uma real. 

– Por mais que pareça mais fácil localizar a história em um local real, ao construir sua cidade, você pode usar a imaginação e entrar de cabeça no mundo fictício. Os personagens precisam de lugares para trabalhar e interagir, certo? Ao criar a cidade, você pode juntar elementos de diversas áreas do mundo real.

– Você ainda pode utilizar os elementos que desejar de cidades reais que conhece bem, como sua cidade natal, sob um novo ponto de vista. Se tem familiaridade com uma área específica do mundo real, use o que conhece e mude levemente a situação para criar um mundo fictício.

– Criar uma cidade fictícia também melhorará a qualidade da escrita: quanto mais crível for a cidade no livro, mais crível será o mundo do livro para o leitores. Criar um ambiente convincente fortalecerá também os personagens da história, pois ela ajuda a explicar as ações dos personagens e a colocá-los sob uma nova perspectiva.

– Experimente basear a cidade fictícia em um exemplo real. Outra opção é usar uma cidade que conhece bem e adicionar elementos fictícios a ela. Uma das vantagens disto é utilizar os conhecimentos que tem como modelo para os elementos fictícios que deseja explorar no livro. Você também pode pegar marcos físicos ou áreas da cidade e mudá-los de acordo com a imaginação. Assim, a cidade fictícia parecerá mais real.
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* Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing   

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Célio Simões* (O Nosso Português de Cada Dia): “Para Inglês Ver”


Essa conhecidíssima expressão, que muitos reiteradamente já utilizaram na linguagem coloquial, tem como significado fingir que se fez algo, simular que se adotou determinada providência, que algo foi mal feito ou feito de forma superficial e passageira, burla muitas vezes exercitada para salvar as aparências, enganar alguém, um grupo ou uma coletividade de pessoas.

Ela é tipicamente brasileira, tendo surgido no século XIX, referindo-se às leis e fiscalizações propositadamente ineficazes criadas pelo governo brasileiro para atender às pressões exercidas pela Inglaterra exigindo o fim do tráfico de escravos, sem realmente ter a menor intenção de cumpri-las ou efetivá-las. 

O comércio e a manutenção de escravos africanos pelos senhores feudais, impondo-lhes abomináveis castigos físicos, psicológicos, humilhações e ultrajes de toda ordem, é um episódio que nos envergonha, mesmo porque, o último país das Américas a abolir a escravidão foi o justamente o  Brasil, em 13 de maio de 1888, por meio da Lei Áurea, assinada pela veneranda Princesa Isabel, que passou por esse gesto a ser popularmente chamada de "Redentora", embora seu título nobiliárquico oficial fosse o de Princesa Imperial do Brasil. 

Acrescente-se, por oportuno, que lamentavelmente fomos também a nação com o maior número de escravizados no continente e só mais recentemente - mercê de legislação rigorosa contra a discriminação, o preconceito, o racismo, a injúria racial, as piadas de mau gosto que enxovalhavam e deprimiam a condição humana apenas pela cor da pele - é que os negros passaram a exercer, não sem uma série de percalços e tribulações, com mais liberdade, autoestima, autonomia e independência, todos os direitos inerentes à sua cidadania.   

Voltando à origem do tema hoje abordado e num breve retrospecto histórico, antes da Lei Áurea, de 13 de Maio de 1888, foi promulgada em 1885 a Lei dos Sexagenários (concedendo liberdade aos escravos maiores de 60 anos), a Lei do Ventre Livre de 1871 (libertando filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua promulgação), a Lei Eusébio de Queirós de 1850 (que proibiu definitivamente o trafico de escravos pelo atlântico) e a famigerada Lei Feijó, de 1831, fruto da pressão da Inglaterra com ameaça de sanções, caso o País não abolisse a prática do tráfico negreiro, de incipiente ou nenhuma aplicação na prática, encenação que a tornou conhecida como lei “PARA INGLÊS VER”.

Ou seja, o Brasil Império simulava tomar providências efetivas, determinava à Marinha Imperial que patrulhasse o nosso avantajado litoral, porém tudo era feito de mentirinha, sem a menor intenção de reprimir as embarcações que transportavam escravos africanos para o trabalho nas lavouras, porém sem qualquer intenção concreta de acabar com a escravidão, apenas para acalmar a Inglaterra, eis que o labor gratuito dos escravizados era indispensável durante os ciclos do açúcar, do café e depois no cultivo do algodão, do tabaco, do milho e finalmente na pecuária, considerando que toda a produção agrícola brasileira da época, baseava-se no trinômio “monocultura”, “latifúndio” e “trabalho escravo”. 

A expressão é usada para descrever situações em que uma atividade é feita sem seriedade, apenas para criar boa impressão ou disfarçar aquilo que se deseja ou pretende ocultar. De há muito ela passou a ser utilizada em diversos contextos, entretanto todas como o mesmo sentido de simulação, como as “reformas para inglês ver", os "relatórios para inglês ver", as “prestação de contas para inglês ver”, as “eleições para inglês ver”, etc. 

Prestou-se também esse dito popular para satirizar a nossa realidade social, como se depreende da música “Canção Pra Inglês Ver” do célebre Lamartine Babo, criticando de forma divertida o vezo dos brasileiros, que tudo copiam da cultura estrangeira, isso desde os anos 30 até hoje. Veja-se, a propósito, no nome de vários edifícios residenciais ou estabelecimentos comerciais aqui mesmo em Belém, para essa fácil e lamentável constatação. 

A letra é uma mistura de português, inglês e francês de forma intencionalmente confusa e sem tradução para a língua pátria, sem sentido lógico, como no exemplo citado pelo acadêmico e romancista Ademar Amaral, ao noticiar a existência de uma menina batizada com o nome de “Madenusa”, depois que os pais ribeirinhos, residentes no telúrico Paraná de Dona Rosa, região do Baixo Amazonas, leram na embalagem de um produto que lhes chegou às mãos, a sua origem: “Made in USA”. Esse fato, se verdadeiro, evidencia como o uso de termos estrangeiros era e continua sendo adotado apenas para impressionar, sem qualquer compreensão verdadeiro sentido ou sem nenhuma necessidade de substituição pelas expressões do vernáculo.

Na esteira da genialidade de Lamartine Babo, as Frenéticas (que saudade delas!...) não deixaram por menos e engataram um histriônico foxtrot denominado “Para Inglês Ver”, da qual vale destacar uma estrofe do longo texto poético, que materializa a reação do famoso grupo de cantoras à invasão dos estrangeirismos na cultura brasileira: 

Ai Jesus!
Abacaxi, whisky of chuchu
Malacacheta independancin day
No strit flash me estrepei (step way)

Penso que o século XX foi o período de ouro da música popular brasileira, tomando por referência o samba, nosso ritmo representativo por excelência. Prova disso é que Zizi Possi foi um pouco além da expressão aqui abordada e compôs a música “Para Inglês Ver...e Ouvir” em 2005, primeiro álbum “ao vivo” da famosa cantora, entre os muitos que ela possui, lançado em 2005 pela Universal Music. Realmente, tratando-se de fertilidade de imaginação, quero crer que os brasileiros são realmente imbatíveis... 
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* CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. É autor de seis livros, coautor de outros quatro e organizador de obras de autores paraenses. Recebeu várias menções honrosas e três prêmios literários.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por José Feldman com IA Microsoft Bing

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Luis García Montero: “A escrita poética não tem muito sucesso comercial.”)

(tradução do espanhol por José Feldman)
O escritor espanhol Luis García Montero (Granada, Espanha, 1958) falou sobre seu livro mais recente, "Antologia Pessoal", uma coletânea de poemas na qual reúne três temas que considera fundamentais, apresentando suas reflexões sobre linguagem, idade e amor.

Vale lembrar que, ao receber o Prêmio Literário Carlos Fuentes, ele declarou: "Sou poeta. Na Granada pós-Franco, me senti herdeiro de Federico García Lorca, porque me senti testemunha do mundo que o assassinou."

O diretor do Instituto Cervantes também afirmou que "a poesia não tem muito sucesso comercial, ao contrário dos romances, que às vezes são escritos até como entretenimento grosseiro, desprovidos de valor cultural", uma observação crítica do poeta espanhol, cuja "Antologia Pessoal" reúne quatro décadas de sua obra poética.

Para García Montero, a poesia é mais um gênero que mantém uma relação próxima com a solidão e a meditação humana, como ele compartilhou em entrevista ao jornal mexicano Excélsior.

Por exemplo, quando uma pessoa chega em casa sozinha, olha-se no espelho e se pergunta como se sente, como foi o seu dia. Esse ato de solidão tem uma conexão com a poesia. “É por isso que, mesmo que a poesia não seja um sucesso de massa, anos depois podemos nos encontrar lendo Garcilaso de la Vega, São João da Cruz ou Sor Juana Inés de la Cruz, identificando-nos com seus sentimentos, sua solidão e suas dúvidas”, afirma García Montero.

Isso implica que a poesia não é concebida instantaneamente. “O poema diz o que o poeta sente, mas para evitar cair no fanatismo do papagaio, que repete verdades já ditas, o poeta deve garantir que o poema, mais do que um desabafo pessoal, se torne uma meditação sobre a condição humana que resista ao teste do tempo”, afirmou o poeta.

Lembremos que, quando García Montero recebeu o Prêmio Internacional de Criação Literária em Língua Espanhola de 2024, declarou: “Se alguém se dedica à poesia, não é o mesmo escrever 'Eu te amo' quando existe uma relação de igualdade, respeito e liberdade, como quando existe uma relação de subjugação”.

Para García Montero, a poesia “tem sido uma forma de defender a dignidade e a liberdade humanas, com suas nuances. O perigo não é apenas o ditador que se encontra; o perigo também está em defender uma boa causa e esses sonhos se corromperem, terminando em desrespeito e ignomínia”.

O escritor espanhol acredita que as humanidades são outro fator determinante na concepção de um poema e expressou: “Para mim, é necessário resgatar valores, porque os tempos passam a passos largos e vivemos em momentos em que o tempo se tornou um grande conceito cultural e uma mercadoria descartável”.

No entanto, o poeta espanhol afirma que: “As humanidades servem para refletir sobre a condição humana e pensar o tempo não como uma mercadoria descartável, mas como uma experiência compartilhada a partir do presente”.

Ele declarou: “Os poetas que mais respeito são herdeiros do passado. Devo reconhecer que aprendi muito com poetas como José Emilio Pacheco e Rubén Bonifaz Nuño, pessoas que se sentiam herdeiros de uma tradição poética que remontava ao mundo indígena pré-hispânico”.

Ao ser questionado se um único leitor é suficiente para a existência da poesia, García Montero reflete: “Acredito que um leitor é essencial para a existência da poesia. Se você escreve e o texto permanece apenas uma reflexão pessoal, o poema está lá, mas não o ato poético. O poeta catalão Joan Margarit expressou isso muito bem, afirmando que um leitor é necessário para que o ato poético funcione. Acredito que o diálogo entre o autor, o texto e o leitor é fundamental, mas também acredito que, se o poema atinge apenas um leitor… sua recepção é limitada.”

O escritor García Montero considera que um dos perigos que a poesia enfrenta está relacionado à linguagem. “Penso no perigo de acreditar que se é um gênio. Por exemplo, o poeta que se imagina muito talentoso porque escreve poesia tão difícil que apenas outros poetas a entendem, e assim transforma a linguagem poética em um dialeto entre poetas”, e afirmou: “Acredito que seja perigoso escrever poemas acreditando que são de alta qualidade quando não são facilmente compreendidos.”

Abaixo compartilho o poema: “Oração” que faz parte do livro “Antologia Pessoal” e que o escritor hispano-mexicano Paco Ignacio Taibo II, amigo de García Montero e atual diretor do Fondo de Cultura Económica do México, adotou como lema pessoal:

Oração

A vós,
que cortastes a maçã da morte,
com o anonimato da guerra,
imploro caridade.

Por um Deus
em quem nunca acreditei.

Por uma justiça
na qual desconfio.

Pela ordem de um mundo
que não respeito.

Para que renuncieis à vossa guerra,
eu renuncio às minhas dúvidas,
que me são tão intrínsecas
como a luz amarga
é intrínseca ao outono.

E escrevo a Deus, Justiça, Mundo,
e imploro caridade
e vos suplico.
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* Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Sumar Literomania nr. 394 (2026). 01.02.2026

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Gonzalo Celorio obtém o Prêmio Cervantes 2025)

(tradução do espanhol por José Feldman)

Gonzalo Celorio (Cidade do México, 25 de março de 1948), escritor mexicano e diretor da Academia Mexicana da Língua Espanhola, foi agraciado com o Prêmio Cervantes de Literatura de 2025, a mais prestigiosa premiação da literatura hispânica.

A decisão foi anunciada pelo Ministro da Cultura da Espanha, Ernest Urtasun. O júri concedeu o prêmio ao escritor mexicano por “sua excepcional obra literária e contribuições intelectuais, que enriqueceram profunda e consistentemente a língua e a cultura hispânicas”.

Além disso, o júri enfatizou que “por mais de cinco décadas, Gonzalo Celorio cultivou uma voz literária de notável elegância e profunda reflexão, combinando lucidez crítica com uma sensibilidade narrativa que explora as nuances da identidade, do desenvolvimento emocional e da perda. Sua obra é simultaneamente um registro do México moderno e um espelho da condição humana”.

Eles enfatizam que “seus livros ressoam com ironia, ternura e erudição, traçando um mapa emocional e cultural que influenciou gerações de leitores e escritores”.

“Celorio personifica a figura do escritor completo: criador, professor e leitor apaixonado. Ele é o construtor de um legado inestimável que honra a língua espanhola e a mantém viva em sua forma mais elevada: a da palavra que pensa, sente e perdura.”

Gonzalo Celorio é romancista, ensaísta, cronista e uma das figuras mais proeminentes da literatura mexicana contemporânea. É doutor em Línguas e Literaturas Hispânicas, com especialização em Literatura Latino-Americana, pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM, 1998-2000); também é Diretor de Literatura do Instituto Nacional de Belas Artes. Coordenador de Divulgação Cultural da UNAM (1989-1998) e Diretor Geral do Fondo de Cultura Económica (2000-2002).

Atualmente, é professor de Literatura Latino-Americana na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde ocupa a cátedra extraordinária "Mestres do Exílio Espanhol". É membro titular da Academia Mexicana da Língua, da qual também é diretor, e membro correspondente da Real Academia Espanhola e da Academia Cubana da Língua.

Entre suas obras mais aclamadas estão os romances "Amor-próprio", "A Viagem Sedentária" e "Que a Terra Trema em Seus Centros"; "Metal e Escória" e "Fofocas da Memória", bem como os ensaios "Os Sublinhados São Meus" e "Cânones Subversivos".

Sua carreira foi marcada por inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio de Jornalismo Cultural do Instituto Nacional de Belas Artes (1986) por “Los subrayados son míos” (Os Sublinhados São Meus); o Prix des Deux Océans (1997 – Festival de Biarritz) por “El viaje sedentario” (A Viagem Sedentária); o Prêmio Nacional de Romance IMPAC-CONARTE-ITESM (1999) e o Prêmio Universitário Nacional na área de Criação Artística e Extensão Cultural (2008) por “Retiemble en sus centros la tierra” (Que a Terra Trema em Seus Centros); o Prêmio Nacional de Ciências e Artes em Linguística e Literatura (2010); o Prêmio de Literatura de Mazatlán (2015) por “El metal y la escoria” (O Metal e a Escória); e o Prêmio Xavier Villaurrutia para Escritores (2023) por “Mentideros de la memoria” (As Fofocas da Memória). Também recebeu a Ordem Nacional da Cultura, concedida pelo Ministério da Cultura de Cuba em 1996.

Sua obra, caracterizada por erudição, rigor estilístico e reflexão sobre memória, identidade e a tradição literária hispano-americana, o coloca entre os mais importantes autores da literatura mexicana contemporânea. O Prêmio Miguel de Cervantes de Literatura em Língua Espanhola, concedido anualmente desde 1976, presta homenagem pública a um escritor cuja obra enriqueceu o legado literário hispânico. O prêmio inclui uma quantia em dinheiro de 125.000 euros.

Mas o que pensa o ganhador do Prêmio Cervantes sobre a escrita?

Em uma homenagem a ele por ocasião de seu 70º aniversário no Palácio de Belas Artes, Celorio falou sobre o significado da escrita para ele:

“Devo confessar que não gosto de escrever. Isso me afeta, me estressa, me enlouquece; é uma tarefa tão abominável que exige um esforço enorme e não serve para nada. Por que escrever se é um exercício tão odioso que também parece não ter utilidade alguma? Embora possa parecer romântico, a verdade é que escrever não é uma escolha, mas um destino”, disse Gonzalo Celorio.

Celorio continuou: “Sem escrever, eu não entenderia nada. A vida seria uma mera sucessão de atos que o esquecimento pulveriza, e assim como nada me parece mais árduo e difícil do que escrever, nada me dá mais prazer do que ter escrito.”
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* Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Revista Cultural Tántalo - número 103 – año 31 - Otoño - Invierno 2025/26, p.47. Disponível em 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Eduardo Affonso (Kestão ou cuestão, eis a questão)


Você pronuncia “líkido” ou “lícuido” quando lê a palavra “líquido”?

Não, não se pergunte, ou vai descobrir que nunca pensou nisso e, agora que se perguntou, vai ficar na dúvida e experimentar uma e outra para descobrir que forma tem usado, e não vai chegar a conclusão nenhuma, porque ambas soam naturais, familiares.

Com “questão” é diferente.

Antigamente (antigamente de verdade, muito tempo atrás), ninguém tinha dúvida que fosse “cuestão”, inclusive porque tinha trema (“Responda às qüestões abaixo”, lembra?). A gente preenchia qüestionário, se qüestionava a respeito das coisas. Mas não sobre a pronúncia de questão. Agora, tudo mudou: a kestão prevaleceu sobre a cuestão, e isso é inkestionável.

Catorze ou quatorze? Quem nunca hesitou na hora de preencher o cheque? (Lembra do cheque? Era um papel retangular, tipo um dinheiro que a gente fazia em casa, do valor que quisesse. Ninguém tinha dúvida se era cheke ou chécue, mas todo mundo bambeava na hora do 14 por extenso). Cheguei a fazer um cheque de quinze e dizer pro entregador de pizza ficar com o troco (isso foi em Copacabana, década de 70, e nem sei mais se era cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, cruzado novo ou contos de réis, mas não esqueço o mico e o prejuízo de um cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, cruzado novo ou conto de réis que a ignorância me causou).

Liquidar (likidar) ou liquidar (licuidar)? Likidificador ou licuidificador? Likidez ou licuidez?  Likidação ou licuidação?

Quando havia o trema (que Tote – nome do meu avô e do deus egípcio do conhecimento e da escrita – o tenha), a gente tinha dúvida se era para pronunciar o U. Liquidaram o trema e agora a gente tem dúvida se é para não pronunciar.

A resposta é: tanto faz. As duas pronúncias são aceitas, pelo menos no Brasil. Naquela língua que falam em Portugal, no espanhol, no catalão, no italiano, a tendência é que o QU soe como K.

Já aqui a dupla pronúncia é antiquíssima (antikíssima ou anticuíssima, você decide). Claro que ninguém vai ao anticário, mas, se for, pode escolher entre comprar antigüidades ou antiguidades (suponho que as primeiras sejam mais caras, pois a pronúncia é mais velha).

Kestão e cuestão são, portanto, uma questão de gosto. De hábito. Eu digo “pôça d’água”; em Mato Grosso dizem “póça d’água”. Eu digo que algo me dá uma dó danada, porque dó (no feminino) para mim é pena, e no masculino é a nota musical. Pois a gramática insiste em dizer que falo errado, que dó é macho, vem de “dolus”. Eu cresci dizendo rúim, e só depois fiquei sabendo que o bom é dizer ruím.

Se o presidente prefere dizer cuestão, está no direito dele. É um anacronismo, mas o STL (Supremo Tribunal da Língua) não há de condená-lo por isso.

(PS. Nunca briguei tanto com o corretor de texto como neste texto. O desinfeliz corrigia todos os meus tremas, todas as minhas grafias fonéticas. Se eu fosse um escritor sanguinário – ou sangüinário – teria desinstalado o aplicativo, mas isso poderia aumentar o meu coeficiente – ou quoeficiente? – de erros, e abalar a crença de muita gente quanto ao meu quociente – ou cociente? – de inteligência. Deixei quieto. Mas sei que vamos nos estranhar de novo. É cuestão de tempo).

Fonte:
Blog do autor. 13.05.2020

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Daniel Munduruku (Escrita indígena: registro, oralidade e literatura O reencontro da memória)


A escrita é uma conquista recente para a maioria dos 305 povos indígenas que habitam nosso país desde tempos imemoriais. Detentores de um conhecimento ancestral apreendido pelos sons das palavras dos avôs, estes povos sempre priorizaram a fala, a palavra, a oralidade como instrumento de transmissão da tradição, obrigando as novas gerações a exercitarem a memória, guardiã das histórias vividas e criadas.

A memória é, ao mesmo tempo, passado e presente, que se encontram para atualizar os repertórios e possibilitar novos sentidos, perpetuados em novos rituais, que, por sua vez, abrigarão elementos novos num circular movimento repetido à exaustão ao longo da história.

Esses povos traziam consigo a Memória Ancestral. Entretanto, sua harmônica tranquilidade foi alcançada pelo braço forte dos invasores: caçadores de riquezas e de almas. Passaram por cima da memória e escreveram no corpo dos vencidos uma história de dor e sofrimento. Muitos dos atingidos pela gana destruidora tiveram que ocultar-se sob outras identidades para serem confundidos com os desvalidos da sorte e assim sobreviver. Esses se tornaram sem-terras, sem-teto, sem-história, sem-humanidade. Tiveram que aceitar a dura realidade dos sem-memória, gente das cidades que precisa guardar nos livros seu medo do esquecimento.

Por outro lado – e graças ao sacrifício dos primeiros povos – outro grupo pôde manter sua memória tradicional e continuar sua vida com mais segurança e garantia. Esses povos foram contatados um pouco mais tarde, quando os invasores chegaram à Amazônia e tentaram conquistá-la, como já haviam feito em outras regiões. Tiveram menos sorte, mas também fizeram relativo estrago nas culturas locais e as tornaram dependentes dos vícios trazidos de outras terras. Foram enfraquecidos pela bebida, entorpecidos pela divindade cristã e envergonhados em sua dignidade e humanidade.

Esses povos – uns e outros – estão vivos. Suas memórias ancestrais ainda estão fortes, mas ainda têm de enfrentar uma realidade mais dura que a de seus antepassados. Uma realidade que precisa ser entendida e enfrentada. Não mais com um enfrentamento bélico, mas através do domínio da tecnologia da cidade. Ela é tão fundamental para a sobrevivência física quanto para a manutenção da memória ancestral.

Se estes povos fizerem apenas a “tradução” da sociedade ocidental para seu repertório mítico, correrão o risco de ceder ao canto da sereia e abandonar a vida que tão gloriosamente lutaram para manter. É preciso interpretar. É preciso conhecer. É preciso se tornar conhecido. É preciso escrever – mesmo com tintas do sangue – a história que foi tantas vezes negada.

A escrita é uma técnica. É preciso dominar essa técnica com perfeição para poder utilizá-la a favor da gente indígena. Técnica não é negação do que se é. Ao contrário, é afirmação de competência. É demonstração de capacidade de transformar a memória em identidade, pois ela reafirma o ser na medida em que precisa adentrar no universo mítico para dar-se a conhecer ao outro.

O papel da literatura indígena é, portanto, ser portadora da boa notícia do (re)encontro. Ela não destrói a memória na medida em que a reforça e acrescenta ao repertório tradicional outros acontecimentos e fatos que atualizam o pensar ancestral.

Há um fio muito tênue entre oralidade e escrita, disso não se duvida. Alguns querem transformar esse fio numa ruptura. Prefiro pensar numa complementação. Não se pode achar que a memória não é atualizada. É preciso notar que a memória procura dominar novas tecnologias para se manter viva. A escrita é uma delas (isso sem falar nas outras formas de expressão e na cultura, de maneira geral). E é também uma forma contemporânea de a cultura ancestral se mostrar viva e fundamental para os dias atuais.

Pensar a literatura indígena é pensar no movimento da memória para apreender as possibilidades de mover-se num tempo que a nega e que nega os povos que a afirmam. A escrita indígena é a afirmação da oralidade. Por isso atrevo-me a dizer como a poetisa indígena Potiguara Graça Graúna:

Ao escrever,
dou conta da minha ancestralidade;
do caminho de volta, do meu lugar no mundo.
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DANIEL MUNDURUKU (61), nasceu em Belém/PA. Escritor, professor, ator e ativista indígena brasileiro originário do povo munduruku. Graduou-se em Filosofia, História e Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, mestrado em antropologia social e doutorado em educação pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Diretor-presidente do Instituto Uk'a - Casa dos Saberes Ancestrais na cidade de Lorena, ONG e selo editorial especializados na temática indígena, é também membro da Academia de Letras de Lorena. Autor de mais de cinquenta livros, dentre os quais: Histórias de índio (1997), Kaba Darebu (2002) Coisas de índio (2003), Todas as coisas são pequenas (2018), Das coisas que aprendi (2014), Foi vovô que disse (2014), Catando piolhos, contando histórias (2014), Vozes ancestrais: dez contos indígenas (2016) etc. Vencedor de dois prêmios Jabuti: o primeiro, com a obra Coisas de índio em 2004, na categoria livro didático, ensino fundamental e médio; o segundo, com a obra Vozes ancestrais: dez contos indígenas, em 2017, na categoria literatura juvenil.

Fontes:
DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Orgs.) Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. (ebook)
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O Trovadorismo no Brasil (Introdução)

                                                            (organização e pesquisa por José Feldman)
O trovadorismo é um dos movimentos literários mais antigos e marcantes da história, surgido na Europa medieval, especialmente no sul da França, por volta do século XII. No entanto, no Brasil, o trovadorismo não surgiu como um movimento literário formalizado e alinhado às características do trovadorismo europeu, mas foi reinterpretado e adaptado ao longo do tempo. Aqui, as manifestações poéticas com características trovadorescas emergiram principalmente através da influência portuguesa e se desenvolveram de maneira singular, conectando-se tanto à tradição oral quanto à escrita.

INFLUÊNCIAS PORTUGUESAS NO BRASIL COLONIAL

O trovadorismo como movimento literário original não existiu no Brasil colonial, pois ele já havia declinado na Europa antes mesmo da descoberta do país em 1500. Contudo, sua herança foi transmitida ao Brasil por meio da cultura portuguesa. O trovadorismo europeu, caracterizado pelas cantigas de amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e maldizer, influenciou a literatura oral e popular trazida pelos colonizadores. No Brasil, essas formas de poesia ganharam novos contornos, misturando-se com a cultura indígena e africana, o que deu origem a manifestações poéticas híbridas.

No período colonial, os jesuítas desempenharam um papel importante na difusão da poesia lírica e religiosa, que incorporava traços do trovadorismo. Um exemplo notável é a obra do padre José de Anchieta, que utilizava versos para catequizar os índios. Embora sua produção literária fosse mais voltada para a poesia religiosa e pedagógica, alguns de seus textos apresentavam traços líricos que lembravam as cantigas trovadorescas, com sua musicalidade e simplicidade.

O SÉCULO XVIII E O NEOTROVADORISMO TROPICAL

No século XVIII, com o advento da escola literária conhecida como Arcadismo, alguns poetas brasileiros retomaram elementos do trovadorismo em suas obras. O Arcadismo, com sua valorização da simplicidade, da natureza e do bucolismo, abriga certa afinidade com a poesia trovadoresca, especialmente nas cantigas de amor e amigo. 

Entre os principais nomes desse período está Tomás Antônio Gonzaga, autor de “Marília de Dirceu”. Embora sua obra esteja mais alinhada ao Arcadismo, ela contém elementos líricos que ecoam o espírito trovadoresco, sobretudo na expressão do amor idealizado e na musicalidade dos versos. Outro destaque é “Cláudio Manuel da Costa”, cujos poemas líricos apresentam uma sensibilidade que dialoga com a tradição trovadoresca medieval.

SÉCULO XIX: O ROMANTISMO E A REINTERPRETAÇÃO DO TROVADORISMO

No século XIX, com o Romantismo, o Brasil viveu um momento de forte resgate e reelaboração das tradições literárias do passado. O trovadorismo inspirou muitos poetas românticos, especialmente no que diz respeito à exaltação do amor, da natureza e da melancolia. A poesia romântica brasileira muitas vezes ecoava o lirismo trovadoresco, com sua musicalidade e idealização amorosa.

Entre os principais expoentes desse período, destaca-se Gonçalves Dias, cuja obra poética apresenta traços líricos que remetem ao trovadorismo, especialmente na idealização da mulher e na musicalidade dos versos. Em poemas como “Seus Olhos” e “Canção do Exílio”, percebe-se o uso de uma linguagem simples e direta, com forte apelo emocional e musical.

Outro poeta que dialoga indiretamente com o trovadorismo é Álvares de Azevedo, com sua poesia marcada pela melancolia, pelo amor idealizado e, frequentemente, por um tom confessional. Embora inserido no contexto do Ultra-Romantismo, seu lirismo intenso e sua sensibilidade podem ser associados à tradição trovadoresca.

SÉCULO XX: O RESSURGIMENTO DO ESPÍRITO TROVADORESCO

O século XX trouxe novas formas de manifestações poéticas no Brasil, mas o espírito trovadoresco continuou a se manifestar em diferentes contextos. Durante esse período, o trovadorismo foi reinterpretado e reinventado, especialmente por movimentos literários que valorizavam a tradição oral e a cultura popular brasileira.

Um exemplo marcante é o movimento modernista, que, embora fosse essencialmente vanguardista, resgatou aspectos da poesia popular e da tradição medieval, adaptando-os para um contexto contemporâneo. Poetas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira incorporaram em suas obras elementos da oralidade, da musicalidade e da simplicidade que remetem ao trovadorismo.

Além disso, o século XX assistiu ao fortalecimento da literatura de cordel, que, de certa forma, pode ser vista como uma herdeira do trovadorismo. Os cordelistas, com suas histórias rimadas e sua musicalidade, mantiveram viva a tradição de criação poética ligada à oralidade e à cultura popular. Autores como Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré revitalizaram o espírito trovadoresco, adaptando-o à realidade nordestina e às questões sociais do Brasil.

MODERNISMO E A GERAÇÃO DE 45 (SÉCULO XX)

O Modernismo brasileiro, em suas diferentes fases, buscou a nacionalização da arte e a valorização da cultura popular. Embora a primeira fase fosse de ruptura, a terceira fase modernista, ou Geração de 45, viu um retorno à métrica e à forma fixa, o que ajudou a resgatar a estrutura da trova.

Expoentes desse período:

J. G. de Araújo Jorge: Poeta popular de grande sucesso na metade do século XX, organizou concursos de trovas ("Jogos Florais") na TV Rio em 1959, popularizando o gênero e incentivando novos trovadores.

Adelmar Tavares: Conhecido como o "Rei da Trova", foi um grande expoente e pioneiro na organização do movimento trovadoresco no Brasil, ajudando a fundar a União Brasileira de Trovadores (UBT).

Luiz Otávio: Outro nome importante na organização e difusão da trova no Brasil, também envolvido na promoção dos Jogos Florais.

O TROVADORISMO NAS DÉCADAS RECENTES

Nas últimas décadas, o trovadorismo tem sido reinterpretado por poetas contemporâneos e artistas que buscam resgatar a musicalidade e a simplicidade lírica características do movimento original. Em tempos de globalização e cultura digital, muitos artistas têm se inspirado na tradição trovadoresca para criar obras que dialogam com o passado e o presente.

O trovadorismo também se manifesta em movimentos artísticos ligados à música popular brasileira, onde a poesia e a musicalidade encontram terreno fértil. Compositores como Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Caetano Veloso podem ser vistos como "trovadores modernos", cujas obras combinam lirismo, musicalidade e uma profunda conexão com a tradição poética.

EUROPA E BRASIL , DIFERENÇAS

O trovadorismo europeu e o brasileiro apresentam diferenças marcantes, especialmente porque o trovadorismo, como movimento literário formal, não surgiu de maneira autônoma no Brasil. 

O trovadorismo europeu, datado entre os séculos XII e XIV, foi uma manifestação cultural e literária característica da Idade Média, enquanto no Brasil ele foi reinterpretado e adaptado, influenciando diferentes formas de expressão poética ao longo do tempo. 

ORIGEM HISTÓRICA

Europa:
O trovadorismo surgiu na Europa medieval, mais precisamente no sul da França, com os trovadores provençais. Ele se desenvolveu como uma arte poética e musical ligada às cortes feudais, com forte influência dos valores da Cavalaria e do Amor Cortês. Era um movimento literário bem definido, marcado pelas cantigas de amor, amigo, escárnio e maldizer.

Brasil:
O trovadorismo não existiu como um movimento literário formal. Ele chegou indiretamente, por meio da colonização portuguesa, como uma herança cultural. Elementos da poesia trovadoresca foram transmitidos através da tradição oral, da literatura popular e das influências líricas trazidas pelos jesuítas e colonizadores. Aqui, ele foi reinterpretado em diferentes períodos e estilos literários, como o Arcadismo, o Romantismo e a Literatura de Cordel.

CONTEXTO CULTURAL

Europa:
O trovadorismo europeu estava diretamente ligado à cultura das cortes feudais e aos ideais cavaleirescos, como o amor platônico e a exaltação à dama. Era uma expressão elitista e aristocrática, pois os trovadores compunham para as classes nobres, que eram os principais mecenas das artes.

Brasil: 
No Brasil, a poesia com elementos trovadorescos não estava vinculada a uma aristocracia feudal. Ela foi incorporada à cultura popular e adaptada às realidades locais, como o ambiente rural, a religiosidade e as influências indígenas e africanas. Essa adaptação tornou o "espírito trovadoresco" mais democrático e acessível, manifestando-se especialmente na oralidade e nas tradições populares, como a literatura de cordel.

TEMAS E LINGUAGEM

Europa:
Os temas do trovadorismo europeu eram bastante específicos e formalizados:
  - Cantigas de Amor: Amor cortês, idealizado, geralmente com o eu lírico masculino exaltando uma dama inatingível.  
  - Cantigas de Amigo: Relacionadas à saudade e ao lamento amoroso, com o eu lírico feminino.  
  - Cantigas de Escárnio e Maldizer: Sátiras diretas ou indiretas, com críticas sociais ou pessoais.  

  A linguagem era sofisticada, repleta de metáforas e simbolismos, e seguia normas rígidas de composição (versificação, rimas e métrica).

Brasil:  
Os temas ganharam um caráter mais popular e regional. A poesia influenciada pelo trovadorismo brasileiro incorporou o cotidiano, o amor simples, a religiosidade e as realidades locais. A linguagem, em geral, tornou-se mais direta e menos formal, com forte influência da oralidade. Exemplos disso aparecem na literatura de cordel e na poesia popular, que muitas vezes preservam a musicalidade e a métrica, mas com um tom mais acessível e próximo do povo.

MÚSICA E ORALIDADE

Europa:  
O trovadorismo europeu estava profundamente ligado à música. Os trovadores não apenas escreviam poesia, mas também as cantavam, acompanhados de instrumentos musicais, como o alaúde e a viela. A poesia trovadoresca era essencialmente uma arte performática, destinada a ser ouvida nas cortes.

Brasil:  
Embora a poesia trovadoresca europeia tenha influenciado a tradição musical e oral brasileira, a música se desvinculou do poema escrito. No entanto, a literatura de cordel, que pode ser vista como uma herança indireta do trovadorismo, manteve a oralidade ao ser recitada ou cantada pelos cordelistas, especialmente no Nordeste. A música popular brasileira também incorporou o lirismo trovadoresco em canções de amor e sátira.

ESTRUTURAS POÉTICAS

Europa:  
A poesia trovadoresca seguia formas fixas e rígidas, como a balada, a canção e a tenson (debate poético). As cantigas tinham uma métrica específica (geralmente redondilhas maiores ou menores) e apresentavam esquemas de rima bem definidos, com uso de paralelismos e refrãos.

Brasil:  
Embora houvesse influência das formas fixas, a poesia brasileira adaptou-se às características locais. No Arcadismo, por exemplo, a métrica clássica (decassílabos e redondilhas) foi herdada do trovadorismo. Na literatura de cordel, predominam a redondilha e a rima simples, mas com mais liberdade na composição e maior foco na narrativa.

EXEMPLOS DE PRODUÇÃO

Europa:  
Entre os principais trovadores europeus estão:
  - Bernart de Ventadorn (cantigas de amor);  
  - Martim Codax (cantigas de amigo);  
  - João Garcia de Guilhade (cantigas de escárnio e maldizer).  

  Suas obras eram curtas, líricas e altamente estilizadas, voltadas para o entretenimento e a admiração nas cortes.

Brasil:  
Tomás Antônio Gonzaga (Arcadismo), Gonçalves Dias (Romantismo) e os cordelistas nordestinos (como Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré) mantiveram vivo o espírito trovadoresco. Eles adaptaram o lirismo, a musicalidade e a crítica social ao contexto brasileiro.

CONTEXTO SOCIAL E LITERÁRIO

Europa:  
O trovadorismo europeu surgiu em um contexto de feudalismo, onde a arte era patrocinada pelos nobres e estava diretamente associada à vida nas cortes. Era uma literatura elitista, voltada para um público específico e restrito.

Brasil:  
A poesia influenciada pelo trovadorismo brasileiro se desenvolveu em um contexto muito mais amplo e heterogêneo. Ela foi incorporada à cultura popular, sendo usada como uma forma de expressão coletiva e muitas vezes ligada à luta social, como acontece na literatura de cordel ou na música popular.

A REALEZA DO MOVIMENTO TROVADORESCO NO MODERNISMO NO BRASIL

Adelmar Tavares e Luiz Otávio desempenharam papéis fundamentais na modernização e revitalização do trovadorismo no Brasil. Eles foram figuras centrais no movimento que trouxe o espírito trovadoresco para o século XX, resgatando e adaptando as características medievais do gênero para o contexto contemporâneo. Seus títulos de "Rei da Trova" e "Príncipe da Trova" refletem o reconhecimento de suas contribuições poéticas e de seus esforços para popularizar a trova no Brasil.

ADELMAR TAVARES: O REI DA TROVA

Adelmar Tavares (1888–1963) é uma das figuras mais importantes da poesia brasileira no período moderno. Ele foi um poeta, jurista e membro da Academia Brasileira de Letras. Recebeu o título de "Rei da Trova" pelo seu excepcional talento em construir trovas e pela sua dedicação à forma poética, que o tornou um mestre incontestável no gênero.

CONTRIBUIÇÕES E DESTAQUE NO TROVADORISMO

Resgate da Forma Tradicional: 
Adelmar Tavares destacou-se por revitalizar a trova, trazendo-a de volta à cena literária brasileira em um momento em que a poesia moderna, com suas formas mais livres, dominava o cenário. Ele manteve a estrutura tradicional da trova (quatro versos, redondilhas maiores, rimas rigorosas e musicalidade), conectando-se às raízes do trovadorismo medieval europeu.
  
Temas Universais e Populares: 
Suas trovas exploravam temas como o amor, a saudade, a fé e a vida cotidiana, mas com uma sensibilidade que transcendia os limites da poesia popular. Ele conseguia equilibrar simplicidade e profundidade, atingindo tanto o público erudito quanto o popular.

Reconhecimento Nacional: 
Sua maestria no gênero o levou a ser chamado de "Rei da Trova", um título que reflete o respeito que ele conquistou entre seus pares e leitores. Ele foi celebrado como o maior representante da trova em sua época, sendo uma referência para as gerações posteriores.

Influência no Movimento Trovadoresco: 
Adelmar Tavares influenciou diretamente o renascimento do trovadorismo no Brasil ao demonstrar que a trova, mesmo com suas raízes medievais, podia continuar relevante na literatura moderna. Seu trabalho serviu como inspiração para outros poetas, que passaram a valorizar e explorar essa forma poética em suas obras.

LUIZ OTÁVIO: O PRÍNCIPE DA TROVA

Luiz Otávio (1916–1977), pseudônimo de Gilson de Castro, foi outro grande nome da trova no Brasil. Ele recebeu o título de "Príncipe da Trova" por sua habilidade poética e pelo esforço em organizar e promover o trovadorismo como um movimento literário e cultural no século XX.

CONTRIBUIÇÕES E DESTAQUE NO TROVADORISMO

Luiz Otávio é conhecido como o fundador de uma organização trovadoresca que reunia poetas de todo o país, em 1966, promovendo concursos, eventos e publicações dedicados exclusivamente à trova.  Essa organização foi fundamental para a consolidação da trova como um gênero poético reconhecido no Brasil. 

Divulgação e Valorização da Trova: 
Luiz Otávio não apenas produziu trovas de alta qualidade, mas também dedicou sua vida a divulgar essa forma poética. Ele acreditava no poder da trova como uma expressão artística acessível, capaz de tocar tanto os letrados quanto o público em geral.

Estilo Poético: 
Suas trovas destacavam-se pela perfeição técnica e pela sensibilidade. Ele abordava temas como o amor, a amizade, a natureza e a espiritualidade, sempre com uma linguagem clara e musical. Sua habilidade em capturar sentimentos profundos em apenas quatro versos o tornou um modelo para outros trovadores.

Influência no Movimento Trovadoresco:
Luiz Otávio consolidou o trovadorismo moderno no Brasil, não apenas como poeta, mas como organizador e incentivador de outros trovadores. Seu título de "Príncipe da Trova" reconhece tanto sua produção literária quanto seu papel como líder do movimento trovadoresco no século XX. Ele foi o responsável por transformar a trova em um gênero vivo e ativo, com uma forte base de seguidores e praticantes.

OS TÍTULOS DE REI E PRÍNCIPE DA TROVA

Os títulos de "Rei da Trova" para Adelmar Tavares e "Príncipe da Trova" para Luiz Otávio não foram meramente simbólicos, mas um reconhecimento de seus papéis fundamentais na preservação, revitalização e popularização da trova no Brasil. Enquanto Adelmar Tavares foi celebrado como o maior trovador de sua época, Luiz Otávio foi reconhecido como o principal articulador e organizador do movimento trovadoresco moderno.

Adelmar Tavares: Rei pela excelência técnica e sensibilidade poética, ele foi o maior expoente do gênero em sua geração.

Luiz Otávio: Príncipe por sua liderança e pelo papel central na criação de uma comunidade organizada de trovadores, garantindo a continuidade e o reconhecimento da trova como forma literária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As diferenças entre o trovadorismo europeu e o brasileiro refletem as realidades históricas e culturais de cada contexto. Enquanto o trovadorismo europeu foi um movimento aristocrático e formalizado, o brasileiro reinterpretou essa tradição de forma mais popular e democrática, adaptando-a às influências locais e à diversidade cultural do país. No Brasil, a musicalidade, o lirismo e a simplicidade típicos desse movimento continuam a ecoar em várias manifestações artísticas e literárias.

Embora o trovadorismo não tenha surgido de forma autônoma no Brasil, ele deixou marcas profundas na literatura e na cultura do país. Desde a influência portuguesa no período colonial até as reinterpretações modernas, o espírito trovadoresco continua a inspirar poetas, músicos e artistas. Seja nas cantigas medievais adaptadas pelos jesuítas, na poesia lírica do Arcadismo e do Romantismo, ou na literatura de cordel e na música popular brasileira, o trovadorismo permanece vivo e relevante, ecoando sua musicalidade e lirismo ao longo dos séculos.

Adelmar Tavares e Luiz Otávio foram os pilares do trovadorismo moderno no Brasil. Enquanto o primeiro resgatou o lirismo e a musicalidade da trova, o segundo institucionalizou o movimento, ampliando sua prática e alcance. Ambos não apenas revitalizaram um gênero poético de raízes medievais, mas também demonstraram que a trova, com sua simplicidade e profundidade, podia ser uma forma de arte viva e relevante, capaz de conectar gerações e públicos diversos. Seus títulos, de "Rei" e "Príncipe", são uma justa homenagem ao impacto duradouro de suas obras e ações.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:  Chafariz de Trovas. Floresta/PR: Plat.Poe. Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing