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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Artur de Carvalho (Com Certeza)


Você já ouviu falar do Princípio da Incerteza?

Bem, vou tentar explicar aqui, em poucas linhas, uma coisa que cientistas ganhadores do prêmio Nobel de Física passaram a vida inteira para descobrir. A tarefa não é fácil, eu sei, nem digna deste pobre cronista, mas não custa nada tentar.

É o seguinte. O Princípio da Incerteza foi a conclusão a que chegaram alguns estudiosos da física quântica quando eles estavam lá, analisando o comportamento dos elétrons (lembra? elétrons, átomos, núcleos). Eles descobriram que não conseguiriam nunca saber onde é que uma determinada partícula estava num dado momento específico porque, para sabê-lo, era necessário tocar a partícula, tirando-a assim do seu lugar de origem.

Explicando melhor. Tente, por exemplo, medir a distância entre o focinho e a ponta do rabo de um gato. Bem, se você não matar o gato, provavelmente — além de não conseguir medir porcaria nenhuma — vai também precisar de muitos curativos. Porque o gato não vai ficar ali, quietinho, esperando você medir.

E é mais ou menos o que acontece com as partículas que formam nossos corpos. Ninguém sabe exatamente onde elas estão porque ninguém consegue chegar nem perto delas e elas escapam.

E, se ninguém consegue saber com precisão onde estão nossos elétrons, então também é impossível saber "exatamente" onde nós estamos. Entendeu?

Desde que essas observações vieram à luz, daquelas três perguntas que há milênios atormentam a vida dos filósofos — de onde viemos? onde estamos? para onde vamos? — a que parecia ter a resposta mais fácil tornou-se um verdadeiro pesadelo: nós sequer sabemos onde estamos!!!

Essa confusão toda foi chamada de Princípio da Incerteza posto que, se não sabemos sequer onde estamos, como poderemos então ter certeza de mais alguma coisa?

Bem, é claro que eu simplifiquei bastante a tal teoria. Se me aparecer algum físico quântico por aí, com algumas correções, eu até agradeço, mas acho que não adiantaria muito a gente entrar em detalhes aqui, já que até mesmo sendo bastante supérfluo como fui, a coisa já me parece bastante confusa.

Ainda mais que não era exatamente sobre isso que eu queria falar. Eu queria era falar sobre essa mania que as pessoas têm de iniciar todas suas respostas com um "com certeza". Especialmente as pessoas mais ou menos famosas. Pode reparar. 

O repórter chega para o fulano e pergunta:

— E o disco? Está vendendo muito?

— Com certeza. Em todo lugar que a gente vai é recebido com carinho e...— e por aí vai.

O repórter chega para outro:

— As acusações eram verdadeiras?

— Com certeza. Embora as investigações ainda estejam em fase inicial, pressuponho que...

Mas não é só com gente famosa não. Pergunte aí, para seu vizinho.

— E aí? Muita farra no fim de semana?

— Com certeza... Fomos pro rancho e... — não sei que mais.

Mas não é possível que esse pessoal tenha tanta certeza assim, de tantas coisas, ao mesmo tempo. Eu não tenho certeza nem de onde vou dormir amanhã, e você chega pra esses caras e pergunta como é que eles pretendem passar as férias e eles vêm com um " — Com certeza numa praia, ou numa montanha..."

Oras, se vai ser numa praia OU numa montanha, então por que é que começa falando "com certeza"? Se nem os mais famosos cientistas — que passam vinte quatro horas por dia em cima de microscópios eletrônicos estudando as partículas atômicas — têm absoluta certeza de nada nesse mundo, esse povinho aí vai querer ter certeza do quê, deus do céu?

Sei lá. As certezas, assim como as unanimidades, geralmente são muito burras.
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Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fontes:
Projeto releituras Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Geraldo Pereira (Vizinha Maravilhosa)


O nosso cronista maior, Luiz Fernando Veríssimo, uma das penas mais lúcidas e mais saborosas do Brasil – Não se usa mais pena. Que pena! -, escreveu um artigo que leio em página da Internet: Uma Vizinha Maravilhosa. Falava de certa moradora há pouco chegada no bairro e que passou a ocupar apartamento em frente ao seu. Uma mulher, como explica, que existe e não existe. Em outras palavras, para o escritor o cotidiano passa a ser uma mescla da realidade e da ficção, quando expresso no papel ou como se costuma fazer hoje, quando materializado no écran do computador.

A partir daí assumi a condição de observador do meu entorno, sem desejar encontrar gente maravilhosa, mas interessado nessas rotinas domésticas, sobretudo aquelas dos finais de semana, nos quais há surpresas e fugas do repetitivo de todos os dias. Talvez os sábados e os domingos tenham mais utilidade do que as manhãs, as tardes e as noites dos dias considerados úteis, à exceção do que se assiste nos canais de televisão do Brasil. Não importa imaginar, como Veríssimo, que a penitente faz tudo em função do vizinho mais antigo. Como na crônica do mestre, entretanto, ela existe e não existe, tudo ao mesmo tempo.

Em prédio do tipo caixão, no segundo andar, depois de dois lances de escada, chega pelas seis da noite em geral, uma criatura de seus quarenta anos. Mora só, como já notei, mas muito raramente traz uma companhia masculina, jovem, bem mais novo que ela, cujo papel nos feriados é o de transitar em casa vestido em trajes menores. Abre as janelas todas, como se precisasse de ar e vai ao banho. Sai do chuveiro às carreiras, com uma toalha enrolando a cabeça. Mulher bonita tem isso, envolve-se dessa maneira e deixa o resto a descoberto. Veste-se com uma camisola azul e vai assistir aos programas da telinha.

Vez ou outra desce e fica em frente ao edifício esperando alguém. Não se pode divisar bem se o acompanhante de ocasião é o menino ou se não é. Parece não ser! Passeia, vai aos bares mais badalados ou assiste aos filmes em cartaz, mas cuida em voltar logo, pelas dez no máximo, pois amanhã é dia de branco, imagino. Cumpre o ritual de sempre e cai nos braços de Morpheu. O estado civil não se consegue revelar nesses contatos quase virtuais, mas por certo é separada, sem filhos de um casamento efêmero, fortuito ou de um marido que não lhe soube apreciar os dotes físicos e intelectuais.

É do tipo pícnico*, segundo Lombroso, que teria uma paixão fulminante, se vivo fosse e por cá viesse. Baixinha e um tanto gorducha, cheinha melhor diria, com destaque para um busto bem sucedido e as cadeiras alargadas, como cumpre ser mesmo. Há pouco acrescentou umas gramas a mais e com certeza faz regime para reaver o tempo. Cuidadosa com a pele, passa cremes e mais cremes no corpo, na face e nos braços, mas dedica-se à manutenção de sua performance glandular, fazendo movimentos circulares no tórax, sempre. É fácil notar que usa condicionador do bom, importado, quiçá.

Nos feriados, nunca dispensa a música mais antiga, as de Nelson Gonçalves, especialmente. E Dolores Sierra ganha os ares da rua e todos já sabem, até as crianças, que nascida em Salamanca cumpriu a rudeza da vida na beira do cais, em Barcelona, como tantas que vi. Há até quem brinque e indague: “Onde nasceu Dolores Sierra?”. Toda gente conhece a resposta! Ao que parece, sente falta do pai, porque não deixa de ouvir uma letra a propósito dessas ausências sofridas, com certeza, na orfandade: “Naquela mesa/Está faltando ele/E a saudade dele/Está doendo em mim/...”. Dói mesmo! E como dói!

Toma uma cerveja em lata, cuja marca não se identifica à distância, depois dorme como uma justa diante do Criador e só acorda pelas cinco ou seis horas. Perde o sono da noite, porque com o passar dos anos o travesseiro fica ingrato, cansado, talvez, de acolher e acalentar. Por isso, arruma o guarda-roupa e nunca vi tanta peça de vestuário sendo posta e reposta ou exposta nos cabides e nas gavetas. Há lugar pra tudo, como penso, para aquelas de maior luxo e as de seu cotidiano. Quando termina a noite vai alta e não existe opção diferente do simplesmente deitar e dormir ou madornar, como dizia minha tia velha.

E assim vai. Existe e não existe!
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O termo pícnico refere-se a um tipo constitucional humano caracterizado por baixa estatura, formas arredondadas, abdômen proeminente e membros curtos.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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Aparecido Raimundo de Souza (Metamorfose)


NUMA LINDA MANHÃ de setembro, eu me debrucei no peitoril da janela e fiquei a olhar para o tempo. Deveria ter meus dez anos de idade. Talvez um pouco mais. Todavia, não passava dos doze. Como gostava de me por à janela e espiar os pássaros voejando pelo infinito azul, numa espécie de sinfonia lindamente pastoril. Cedinho, antes das sete, depois do café, me punha a correr desembestado pelo quintal e estancar, na beira da linha, para esperar o trem de ferro passar. O comboio sempre passava naquele horário e nunca atrasava. 

Mamãe, nessas horas, ficava na cozinha, aos gritos, preocupada. A casa onde morávamos era quase às margens do leito ferroviário. Uns trezentos metros. O apito estrídulo da “Maria fumaça” me transportava para um mundo encantado, repleto de sonhos coloridos. E aquela nuvem andante de fumaça expelindo faíscas vermelhinhas produzidas pela queima da lenha incandescente agia dentro de mim como uma essência poderosa. Um sustentáculo poderoso que me fazia perder completamente do contagiante das coisas ao redor. Esquecia igualmente dos momentos eternos da vida terrena e dos bens materiais. Nessas horas, criava dentro da mente um mundo imaginário, um universo só meu. Ninguém entrava. Ali eu era o soberano incontestável. Senhor de todas as vontades. Deixava de ser o menino amado pelos familiares à base de carinhos e afagos construídos a quimeras metamorfoseadas. E me transformava num herói. 

O mártir sem causa, tipo Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que lutava contra (não moinhos de ventos), monstros gigantes e salvaguardava as cidades, juntamente com seus habitantes das garras maléficas ou de qualquer outra espécie de feitiçaria que estivesse rondando perto. Era como uma viagem fantástica ao reino do “faz de conta”. Nesse balanço, mormente do “faz de conta”, eu era perfeito e pleno e melhor que isso, completamente feliz. Próspero e ditoso, venturoso, abençoado e opulento dentro da pequenez dos dias que circundavam ao meu redor. Naquele mundo de árvores frondosas, de castelos encantados, de príncipes e princesas, onde riachos com águas cristalinas refletiam um céu de nuvens brancas e sol maravilhoso. Naquele pedaço de chão de terra batida, não existia solidão. 

Nem no tocar do vento, nem no cantar dos pássaros, menos ainda no ranger das rodas das carroças, ou no bater forte das porteiras. Em nada se via, ou se sentia, a presença da tristeza. Tampouco, se cogitava (no rosto dos homens que trabalhavam na lavoura, para papai, ou nas mulheres que andavam com crianças recém-nascidas penduradas nos pescoços de suas mães), da tal da saudade. Não existia absolutamente nada que manchasse, ou que mesclasse aquele paraíso angelical. Talvez porque essa bem-aventurança só existisse dentro de mim. E, sendo assim, força nenhuma vinda de fora conseguia amalgamar a pureza virginal dos meus poucos anos de existência.

Hoje, pois é, hoje (tantos anos passados, homem feito, responsabilidade bastante grande com a vida), novamente me ponho à velha e querida janela do meu ontem e fico a olhar para o tempo.  Percebo que não é mais aquela linda manhã de setembro.  Nem a janela que nesta hora me recepciona, é a que se me acolhia com seu peitoril radiante. Olhando através dela, não vejo os pássaros de outrora, nem o céu azul, sem manchas, nem a sinfonia rural dos tempos de menino de calças seguras a suspensórios. Não consigo, por mais que estique os olhos, rever a velha “Maria fumaça” apitando lá adiante, na curva, nem escuto a mamãe furiosa e apavorada, ralhando, cheia de medos de que me acontecesse alguma desgraça junto aos trilhos. 

Não me pego mais correndo desembestado por entre os pés de cana, e de extensos cafezais, pisando aparvalhadamente as plantações rasteiras dos caminhos tortuosos que levavam a desembocar numa espécie de funil que, por sua vez, se abraçava para uma estrada empoeirada onde passava um ônibus pequeno e engraçado (duas vezes ao dia) transportando o pessoal até a vila. Não consigo atinar, na mesma emoção, com o meu mundinho do “faz de conta”, onde figueiras e mangueiras acobertavam castelos encantados, com príncipes e princesas povoando meu espaço de guri sapeca e mal desabrochado para a vida de um amanhã incerto. 

Percebo, surpreso e admirado, nessa visão deturpada ante os meus assombros e tremeliques, que lá fora, não muito longe, as decepções se multiplicaram. Um leque de dissabores infindáveis termina logo ali (um tiro de espingarda), num infausto contraste. Estupefato, questiono à minha alma esfrangalhada, numa espécie de terror súbito - onde estão todas aquelas coisas lindas do meu tempo de menino? Para onde foi a velha “Maria fumaça” com seus apitos estridentes e iracundas brumas negras de fumaças desenhando figuras engraçadas se misturando com a aridez dos campos verdejantes? Por que desapareceram desse meu infinito as coisas simples que vinham enfeitar de sonhos perfeitos as minhas irrupções antigas vistas da deteriorada janela? Se pelo menos fosse uma manhã de setembro e ela tivesse o encanto de reavivar decompostas quimeras adormecidas...

Se pelo menos eu não tivesse crescido. Se ao menos restasse daqueles anos de infância um quadro qualquer de recordação viva, uma moldura esmaecida que pudesse olhar longamente e esquecer esse presente esmagador, estroina, poluído pelo pretume ocultado dos anos que se sepultaram nas covas do além. Quem sabe conseguisse trocar os polos negativos das frustrações pelos positivos da Esperança e da Felicidade plenas. Quem sabe, ainda, realizasse outros tantos devaneios criados pela improbidade do coração, até agora, longe, bem distante da realidade, sabe-se lá por quê, continuam parados, estancados, como machucados que não saram nem sinalizam cicatrizar. 

Confinado como um doente terminal, sem forças para reagir, frente às muralhas inquebrantáveis e intransponíveis do destino, aqui me encontro. Sozinho, vazio por dentro e por fora. Acorrentado aos alvoroços impostos pela velhice, imperdoável. Nessa solidão vil, de mil tentáculos, tenho a impressão de que continuo criança. Não aquele menino raquítico, indefeso, pirralho, boquiaberto e poderoso, que se punha à janela e ficava a olhar para o tempo. Um infante amadurecido, sem vida, sem esperança, sem convicção no amanhã.  O mundo imaginário que me aflora à mente, não é o de águas passadas. Vislumbro, na verdade, um lugar esquisito, estranho, atípico, forasteiro, cheio de inquietações, onde todos procuram se esmagar uns aos outros. Nesse mundo que me contempla, não existem resquícios de felicidades, nem “Maria Fumaça”. Muito menos aquela linda manhã de setembro quando me punha à janela (Meu Deus!, nessa que me encontro agora), sem pressa e sem medo, feliz, despreocupado, e ficava a olhar, infatigável e caloroso, indefeso e buliçoso para o tempo.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Renato Benvindo Frata (A sopa de sim e não com o tempero talvez)


Na família dos advérbios, sim e não são irmãos antagônicos. Um afirma, o outro nega. Ambos carregam a força da decisão — quando ditos com inteireza.

O problema começa quando surge o talvez a lhe pôr tempo indesejado na sopa. 

Esse elemento inconveniente quebra a impositividade de ambos, dilui a certeza e enfraquece a essência do antagonismo.

Sim e não, quando pensados ou ditos sem firmeza, deixam de cumprir o que prometem. Tornam-se frouxos, indecisos, sem cheiro nem sabor. Não convencem. E, pior, pela insipidez, não movem.

Assim, suas certezas escorregam para o campo da possibilidade. Um disparate. Alimentado ainda por seus parentes menos frequentes, mas sempre à espreita: o quiçá, o acaso, o porventura. Todos conspiram para fortalecer a dúvida.

Há remédio? Em tese, sim. Chama-se persistência — acompanhada de perseverança, tenacidade, obstinação e firmeza, cada qual no seu devido uso. São elas que sustentam o enfrentamento dos obstáculos e permitem seguir adiante ou parar, mas com consciência.

Esses elementos exigem paciência, adaptação e, às vezes, mudança de estratégia. Não para agradar ao talvez, mas para superá-lo.

Ainda assim, muitos de nós acabamos vivendo nesse intervalo morno, presos à indecisão e sussurrando desgostos por não saber lutar.  
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Nilto Maciel (Sonhos)


Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! A mulher mais parecia criança. Pessoa de mentalidade atrasada.

Durante o almoço, ela conversou muito e comeu como nunca. Quis até biscoito na sobremesa.

À noite, quase não dormiram. Sonhos, só os de sempre: ela e ele. E acordaram amáveis, apetitosos, cheios de disposição, sem um só mistério nos lábios.

Passada a lua-de-mel, o sonho horrível se repetiu. E ela de novo amuada, a xícara de leite diante dos olhos mudos. Mistérios, mentiras, discussão.

Ele gargalhou, se engasgou, quase vomitou. Não concebia ter casado com mulher tão tola. Se fosse analfabeta, uma pobre camponesa, uma vassala medieval, dava-lhe até razão.

Ela chorou, não quis mais sequer o leite. O marido não a compreendia. Se soubesse quem ele era, não teria casado.

Compadecido, ele deixou de rir, pediu desculpas. Ela não tinha culpa de sonhar infidelidades. Sonho nenhum. Estudiosos, psicanalistas, Freud, Jung, fulano e sicrano, ninguém ainda conseguira revelar o misterioso mundo do sonho. Talvez coubesse a ele, o marido, a glória dessa revelação. Se ela, a esposa, tivesse mais confiança nele, contasse tudo, todos os sonhos. Futuros e passados.

Quando menina, sonhava brigas, safadezas, castigos. Acordava com raiva da irmã, nojo do coleguinha, ódio da mãe.

Cresceu e nada mudava. Vivia brigando, discutindo, arranjando inimizades. Chamavam-na de menina problemática. Doida até.

Depois da confissão, viveram em paz por dias e meses seguidos. Toda manhã ela contava sonhos para ele. Riam, pacíficos, civilizados e apetitosos. Ele, porém, nunca contava sonho nenhum. Não sonhava ou não se lembrava dos sonhos.

Numa dessas manhãs, ela acordou de cara fechada para ele. De biscoito nem queria saber. Derramou o leite. Patife, bandido, safado! Ele também se exaltava. Maluca, sonhadora, problemática!

Mesa posta: xícaras, copos, pratos, garfos, facas — tudo luzidio, intacto, perfeito. Como num sonho de fartura e felicidade. Ela empunhou uma faca pontuda. Ele arregalou os olhos. Ela continuou a xingar. Não suportava mais tanta infidelidade. Traidor, adúltero, marido perverso!

A faca reluzia na mão trêmula. Havia ódio nos olhos dela. Não sentia fome? De jeito nenhum. Nem para um biscoitinho? Não, muito indisposta. Ele insistia, ela recusava. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

Flagrara o marido com outra, no maior amor. E ainda riram da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! Não concebia ter casado com mulher tão tola.

Ela empurrava a cadeira para trás, furiosa, faca em punho. Bandido, traidor, safado! O leite transformava-se em sangue. Não podia haver amor onde havia traição.

Sonho desfeito.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Arthur Thomaz (Domingo)


Acordou bem cedinho e foi tomar sol no estacionamento do condomínio. Logo em seguida apareceram as famílias vestindo bermudas, chinelos e camisetas sem mangas, dirigindo-se à padaria mais próxima para o tradicional café da manhã dominical. Os mais simpáticos dirigiram-se a ele:

– Bom dia, senhor, deseja que eu traga um pãozinho com manteiga?

Respondeu educadamente:

– Não precisa, mas muito obrigado.

Ao responder pela décima vez que não precisava de pãozinho às várias famílias que passavam, ele resolveu entrar para enfim tomar o seu café, com a estranha sensação de aparentar estar muito magro para lhe oferecerem tanto pãozinho.

Algum tempo depois, foi até a janela e viu aquelas famílias retornando, e em seguida quase todos ligaram seus aparelhos de som. Ouviu-se pelo condomínio uma infinidade de músicas de discutível qualidade, e parecendo disputar uma competição para ver quem coloca o som mais alto.

Olhou novamente pela janela e observou as famílias, agora vestindo roupas de festa, dirigindo-se aos cultos ou missas. Os mais simpáticos novamente perguntaram:

– O senhor quer que rezemos pela sua saúde?

Ateu convicto que era, respondeu ironicamente:

– Sim, sempre é bom um apoio divino.

Saiu mais uma vez para completar os minutos de exposição aos raios solares para sintetizar a vitamina D. Logo em seguida, depois do retorno das famílias, já abençoadas, viu e ouviu um frenético movimento de motoboys entregando refeições nas residências.

Também pôde sentir o aroma de churrasco vindo das casas das pessoas mais abastadas, já que, com o preço da carne atualmente, somente o pessoal com melhores condições financeiras pode dar-se ao luxo de fazê-lo.

Simultaneamente, ouviu-se o tilintar dos talheres chocando com o fundo dos pratos.

Entrou para almoçar e logo em seguida ouviu o alarido das crianças brincando no estacionamento, porque o pai queria assistir sossegadamente o tradicional jogo de futebol do domingo à tarde.

Durante 90 minutos, escutou-se os gritos de gol e os palavrões emitidos respectivamente pelos torcedores do time ganhador e do perdedor do jogo.

Por não ser fã de futebol, resolveu ir até o estacionamento e ficar no frescor da sombra de uma árvore. Algumas crianças, gentilmente, em uma brincadeira, disputaram quem conseguiria levar a sua cadeira de rodas mais rápido e mais longe.

Momentos de apreensão, até que elas cansaram da brincadeira e o abandonaram bem distante, fazendo-o voltar com muito esforço até sua casa.

Ao término do jogo, ouviram-se os gritos das mães chamando as crianças para tomar banho, jantar e preparar-se para dormir. Em seguida, recomeçaram os estrondosos barulhos das motos dos entregadores de pizza e lanches.

Depois de colocarem as crianças na cama, alguns moradores saíram para conversar em altas vozes nos bancos do jardim. Na ocasião, abordaram assuntos interessantes, como novelas, fofocas de artistas ou receitas de bolo.

Novamente, ele saiu para tomar um ar fresco, e elas vieram conversar:

– O senhor está bem?

– Como vai de saúde?

– Passou bem o domingo?

– O senhor tem escrito muitos livros?

Vendo-se cercado e sem saída, educadamente respondeu:

– Eu estou bem, obrigado, e vocês?

Elas imediatamente tabularam uma conversa que parecia não ter fim. Sempre uma delas, sabendo que um dia ele foi mé- dico, indagou:

– O senhor que foi doutor, pode dizer o que a tia da amiga da minha irmã, que está com tosse há mais de 15 dias, tem? E o que o senhor receitaria para ela?

Pacientemente, escutou e deu uma resposta evasiva, correspondente ao nível idiota da pergunta. Tentou inutilmente despedir-se, pois elas queriam contar as fofocas do dia.

Então, ele desligou-se um pouco da conversa, acenando com a cabeça concordando ou discordando, mesmo sem saber o que estavam falando.

Em determinado momento, elas insistiram para que respondesse algo que não ouvira. Desinteressado e distraído, ele concordou com o que falaram, deixando-as contentes; imediatamente despediram-se dele e foram para as suas casas.

Ficou durante alguns minutos respirando ar noturno para recuperar-se daquela conversa inútil. Apareceu uma senhora acompanhada de seu marido, um sujeito enorme, com uma “cara de poucos amigos”.

Ela o interpelou, dizendo:

– Quem o senhor pensa que é para dizer que eu estou errada? Fique sabendo que eu sou uma mulher honesta e nunca fiz o que o senhor disse que está errado.

Virou-se para o marido e continuou:

– Não é, meu bem?

O troglodita do marido respondeu algo que pareceu um rugido de leão. Tentando não aparentar medo, ele respondeu:

– Quem sou eu para dizer algo desse tipo? Eu nem a conheço, como poderia falar sobre a sua vida? Com certeza, deve ter sido outra pessoa.

O marido, nessa hora, diz a ela:

– Meu bem, ele tem razão, se não a conhece, não poderia emitir opiniões a seu respeito.

Ela, muito a contragosto, querendo continuar o “barraco”, sentiu que precisava ir embora, já que tinha perdido o apoio do marido.

Aliviado por ter escapado de uma possível agressão, entrou rapidamente em casa pensando que a agonia do domingo tinha terminado. Ledo engano, ouviu a sua campainha tocar e outra mulher, moradora do condomínio, entrou já perguntando o que ele poderia fazer, porque o filho da tia da faxineira dela estava com febre há três dias.

Delicadamente, disse a ela que levasse o bebê até o pronto-socorro.

Ela insistiu:

– Mas o senhor não vai receitar nada?

Pacientemente, ele repetiu que seria melhor, já que não conhecia o caso, que levasse a criança a um pediatra.

Com cara de quem não gostou, ela resmungou:

– Não se faz mais médicos como antigamente.

Deu um seco boa noite e foi embora. Com certeza vai dizer às amigas que ele é um velho decrépito e que nem servia para receitar.

Telefonou a um amigo relatando os infortúnios do domingo no condomínio. O amigo respondeu que nem todos os domingos poderiam ser tão desafortunados assim.

Ele respondeu:

– Tem razão, meu amigo, nem todos os domingos são iguais. O que diferencia um do outro são os times de futebol no jogo da televisão.

Escapando ileso, foi dormir ao som dos inúmeros cães existentes no condomínio.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Texto e imagem: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

Humberto de Campos (Os horrores da guerra)


O caso policial contado há dias pelos jornais, é, ao que parece, mera reprodução de uma infinidade de outros, ocorridos no Rio, e, em geral, no mundo inteiro. A guerra, principalmente, com os seus horrores, com as suas violências, com as suas brutalidades inomináveis, tem fornecido exemplares curiosíssimos de certas vergonhas, que constituem, como se sabe, a nódoa de lama da túnica das sociedades.

A prova mais amarga, e mais típica, desse gênero de verdades dolorosas, é, entretanto, a que Banvile apresenta em um quadro melancólico, desenhado com a delicadeza inimitável do seu estilo. As cores da tela são tão leves, tão doces, tão brandas, que eu me permito a mim próprio, a audácia de retocá-la, na blasfêmia de uma ligeira adaptação.

Em um salão triste e antigo, ressumando saudades, meditam, com a alva cabeça pendida sobre o peito, três velhinhas septuagenárias, cujos olhos se perdem, quase sem brilho, nas brumas longínquas do passado. Procedem, as três, do tumulto do mundo, de que são ali, meros despojos de um naufrágio, atirados à praia, como tantos outros, pelas eternas tempestades da vida. Cabeça baixa, olhos baixos, a mais velha das três solta, de repente, um suspiro tão fundo, que lhe traz aos olhos uma lágrima. As outras olham-na, compadecidas, e, para matar as horas, que, por sua vez, as vão matando, resolvem contar os seus amores, as suas aventuras, resumindo nestas o braço mau, ou leviano, que as atirou à desgraça.

- Eu, - contou a mais velha - fui vítima do meu noivo, o tenente Balduino, do antigo batalhão de lanceiros. Confiando nele, nas suas juras, nas suas promessas apaixonadas e ardentes, deixei-me arrastar, um dia, pela sua palavra e pelo seu braço, até à sua casa, e, quando despertei no dia seguinte, foi para chorar, como até hoje, a minha infelicidade...

- A minha história, - principiou a segunda, - não é muito diferente. Passeava uma tarde com o meu primo, o barão Reinaldo, pelas alamedas do jardim de meu pai, quando, embriagada pela amavio dos seus juramentos de amor, me deixei cingir pelos seus braços. O beijo pecador que pôs, como uma brasa, na minha boca virgem, fez-me desmaiar. Meses depois o barão partia para o Oriente, enquanto meu pai me atirava à rua, com o meu filho e a minha vergonha!

A terceira velhinha mantinha-se em silêncio, meditativa, quando as outras a interrogaram:

- E a senhora, mãe Georgete?

- Eu? Eu vivia na Alsácia, em 1870, com meu pai e minha mãe. Era jovem e linda. Um dia, ouvimos troar a artilharia nas vizinhanças da aldeia. Era o inimigo!

E calou-se. Mas as outras exigiram:.

- E o resto?

- Que resto?

As duas se entreolharam, e insistiram, falando claro:

- Quem foi?

E a velhinha, limpando os olhos:

- Foram os alemães...
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Laé de Souza (Zaroio)


Sujeito baixo, com leve desvio na visão, vestido sempre a rigor, não importa onde se encontre. Mesmo nos morros e favelas está ele com sua maneira imponente de se vestir. O apelido foi colocado pelo Maluco Beleza que é exemplar criador de alcunhas. Tem gente que até evita se encontrar com o Maluco Beleza, porque seus apelidos são daqueles que pegam mesmo. Em consideração ao amigo, respeita o original e corrige qualquer engraçadinho e metido a sábio que o chame por Zarolho.

Desde que conheço o Zaroio, suas atividades estão ligadas à criação de crimes. Insuperável idealizador de planos, sempre cheio de encomendas, nunca o vi reclamar de crise. Por questão de ética, não participa da execução de nenhum e guarda segredo absoluto sobre seus mandantes, que são do conhecimento só do assistente Cambito. Orgulha-se dos seus projetos serem sempre de sucesso, exceto aqueles em que os executantes tenham, por conta própria, alterado seus traçados. Sabendo que os executores estão agindo de forma diversa do indicado, abandona o caso, sem dar mais qualquer palpite, deixando o fulano cuidar por seu inteiro risco. Grandes e noticiados crimes de autoria desconhecida passaram pela sua prancheta e seu PC 486 DX4. Crimes bobos e pequenos foram criados para fazer favor a algum amigo ou ajudar algum estelionatário em baixo astral, os quais, geralmente, são produzidos e aplicados no dia a dia.

O caso do Queixada foi encomendado, mas com gente grande no meio, porque o pobre Queixada não tinha grana para bancar sozinho. Para idealizar uma nova igreja, treinar testemunhos e transformar o cabeça dura do Queixada no pastor Genaro foram necessários três anos de exercício e prática, possível só mesmo para o Zaroio. E o plano é para findar em dez anos com lucro alto para todo mundo.

Não o via há mais de três anos. Não é à toa que reclamou do meu sumiço.

É do Zaroio também o plano da “paquera de risco” que foi praticada, em primeira mão, pelo mesmo Queixada, com a Sandrinha. Num shopping qualquer, uma bela se finge de casada e se deixa paquerar por um sujeito acompanhado de sua mulher. Numa chance, passa-lhe o telefone e fica no aguardo da ligação que, geralmente, ocorre. Depois de muita dor de consciência, ela trai pela primeira vez. Um dia, o marido ciumento “descobre” tudo e o galã é obrigado a montar apartamento e manter o status da madame por longo tempo, sob pena de chegar o caso ao conhecimento da família. Por estas e por outras é que, aconselhado pelo Zaroio, se vejo aliança, na mão esquerda, não paquero mulher, principalmente se eu estiver perto da minha.

Com certeza, no lançamento deste livro estará circulando solitário e vestido a rigor, com sua gravata borboleta, bebericando, observando e saindo sem alarde.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O morto no caixão)


DE VEZ EM QUANDO A GENTE precisa colocar em evidência a parte social da vida, ou seja, aquele eventual em que literalmente nos propomos a fazer, grosseiramente falando, um programa de índio, e por ser exatamente de índio, este nativo deverá literalmente surgir em cena paramentado, com tudo o que tem direito, como aldeia, arco, flecha, lança, tacape, a borduna, o chuço e etc, etc. 

Com este pensamento, bem cotidiano à flor da pele, fomos acompanhar o amigo Varíola Pegajoso que havia perdido um parente e os funerais do falecido se dariam logo cedo, numa bela manhã de um sábado radiante e apetitosamente convidativo à um banho de mar.

— Carretão — observou ele —, só vamos mesmo porque o cara era meu tio e acredito, minha tia ficaria deveras chateada se não me visse na hora do derradeiro adeus. 

— Fique tranquilo, Varíola. Os amigos são para os momentos bons e ruins. Saiba, desde sempre, estamos  junto nesta para o que der e vier.

— Tenho certeza que apesar do convite meio que esquisito — observou ele, a certa altura —, você irá gostar e quem sabe até se apaixonar ao ver uma prima minha, a Chiquinha do Catatau. Cara, um pedaço de mau  caminho!

Chegamos no ato fúnebre na hora exata em que o padre Bentão  celebrava a missa de corpo presente. 

A capela estava lotada, com gente saindo pelo ladrão —  ladrão não, esta expressão é, sem dúvida alguma, uma modalidade vulgar e chula de falar, claro. O certo, seria, como de fato soa melhor, ‘com gente saindo à francesa’. Pois bem! O povo dava uma escapulida básica usando uma porta discretamente estratégica que desembocava para uma lanchonete com as iguarias mais apetitosas para um cemitério tido como o eterno Jardim da Paz. 

Dona Canindé Formigão, esposa do ‘de cujus’, tia de Varíola Pegajoso, o rosto cerrado em transe, as vistas derramadas de tanto chorar, mostrava em meio às lágrimas, um par de olhos vermelhos como dois tomates recém colhidos. Apesar da desmedida dor que a consumia, eles não deixavam de revelar o fulgor da sua juventude. 

A triste senhora se fazia acompanhar de familiares próximos, entre os quais, Jericó, seu filho mais novo e, ao lado dele, um pedacinho engalanado de um aconchegante futuro promissor vestido numa saia azul celeste, com todos os tropeços que a vida ofereceria a quem tivesse a sorte e o prazer de cair nas graças daquela beldade. 

De fato, neste ponto, o Varíola Pegajoso não medira esforços para descrever a belíssima prima Chiquinha do Catatau. A  exuberante fazia jus à fama que o meu amigo houvera feito de seu conjunto dos caracteres exteriores, figura extraordinariamente admirável e pecaminosamente infernal. Nos aproximamos a ponto de (à certa altura) nos juntarmos aos aparentados, quase a tropeçarmos na bela Chiquinha Catatau. 

O sacerdote, tecia comentários elogiosos sobre  o falecido e, exatamente naquele momento de nossa chegada, ele apregoava, à alta voz,  o seguinte: 

— Estamos diante de um grande homem, dono de um coração magnífico, excelente pai de família, bom marido, católico incondicional, amigo de todas as horas, vizinho exemplar e colaborador assíduo da nossa humilde paróquia. A isto, acrescentaríamos um primoroso trabalhador ‘pau pra toda obra’ e  sindioso cumpridor de seus deveres... 

Foi nesta sequência da esparramação dos elogios, que a viúva  cutucou Jericó num cochicho vapt vupt. Toda a igreja, ainda que não quisesse, captou e fez escancarar as bocas cheias de dentes (e as banguelas também) irmanadas num Oh! retumbante e espantado, doido e único, ao tempo em a cônjuge soltou o que parecia estar engasgado em sua garganta:

— Jericozinho, meu filho se aproxime ali do caixão de seu pai, discretamente... 

E completou, sem mais delongas:

— Veja, estou pra lá de aperreada. Perceba, minha agonia. Confesso a você, com todo este rol  de mesuras e rasgação de sedas que o padre Bentão está trazendo à baila... 

— Mas por que isto agora, mamãe?

— Filho meu, com toda certeza, quero crer estamos todos aqui velando o defunto errado.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 159


Ele reinava garboso ali no outro lado da rua, junto ao terreno vago, sempre agitando seu verde. Certa noite um vento mais forte no outono quebrou um galho grosso, sendo ele uma das estruturas do pé de mamona crescendo altaneiro.

De manhã abro a porta e vejo parte do tronco, aquele galho, tortinho na vertical. Quebrado. Lamentei, não gostei, até fiquei triste. Estava linda a roupagem do pé de mamona. 

Passaram-se dois dias e então cortei a parte que já secava. Disse a mim mesmo, vou esperar, logo mais estará com uma galhada nova.

Outros quinze dias, eis senão quando olho ao lado da cerca vizinha e enxergo o pé de mamona novamente cheio, verdejante, ao sabor da brisa da tarde.

Exultei lembrando da nossa Cecília Meireles num dos seus versos, "Se me cortarem um braço, eu cresço do lado...".

Fiquei ainda com a memória daquele dito popular de que muitos não acreditam  – "Há males que vêm para o bem".

Eu sempre acreditei. E você?
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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terça-feira, 28 de abril de 2026

Eduardo Martínez (A lava-louças da minha amiga)


Não faz muito tempo, reencontrei a minha grande amiga Tania, que fez medicina veterinária comigo na Rural (UFRRJ). Desde 2003, ela mora em Porto Alegre, a mesma cidade em que a minha mulher (a Dona Irene) e eu residimos, apesar de, vez ou outra, irmos para a minha cidade natal (Rio) ou, então, para Brasília. 

Pois bem, em meados de 2022, a Tania nos convidou para um churrasco, especialmente preparado pelo seu marido, o Milton. Aliás, pelo simples fato de sabermos que o Milton é gaúcho, já saímos de casa certos de que a carne seria extremamente gostosa! E estava mesmo!!! Churrasco de gaúcho, como a Dona Irene costuma falar, é outro nível.

Os assuntos foram diversos, transitou pela situação cada vez mais caótica que o país vivenciava desde o Golpe contra a Dilma, passou por futebol, ganhou contornos de esperança de medalhas olímpicas no futuro, haja vista a Ana Sofia, de 11 anos, filha da Tania e do Milton, ser uma grande judoca.

Tudo isso era acompanhado pelos olhos curiosos do Lupicínio, o lindo buldogue francês da minha amiga. Já a gata Frida, mais tímida, apenas passou pela sala e foi se recolher em seus aposentos.

Quando acabamos de comer, eu me prontifiquei a lavar a louça, mas sem avisar a Tania. Ela, assim que me viu com a esponja na mão, quase me deu uma bronca.

A minha amiga falou que possuía uma lava-louças, que estava bem ali embaixo da pia. Ela começou a elogiar esse eletrodoméstico, disse que foi a melhor coisa que havia comprado. Então, a Tania se virou para a Dona Irene e perguntou:

— Qual é a marca da sua lava-louças?

— Dudu!
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 1 de maio de 2022.
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/a-lava-louca-da-minha-amiga.html
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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Carlos Alberto Teixeira (O pastor e suas ovelhas)


A turma está ficando cansada com os excessos decorrentes da tecnologia. Um deles ?o excesso de zelo com a privacidade. É claro que  é necessário estar alerta às invasões e ao mau uso de nossos dados sigilosos. Mas não precisamos chegar ao extremo de tentar esconder de todos o conjunto completo de nossas informações, mesmo porque jamais conseguiremos ocultar tudo. Muito embora o fenômeno ainda não tenha chegado às mailing lists nacionais, lá fora o pessoal está relaxando cada vez mais, oferecendo livremente informações pessoais em seus perfis públicos de usuário: endereços de casa, telefones, aptidões, preferências, tá tudo lá?

Outra coisa é o excesso de informação. Até o identificador de chamadas lá de casa, vulgo bina, eu já desliguei. De que me interessa saber quem me ligou e não deixou recado na secretária eletrônica? E se alguém ligar e eu não quiser falar, É só usar a velha desculpa de que estou fritando alho e tá quase queimando, depois eu te ligo de volta. Sobre o excesso de emails, este é um caso à parte. Já me convenci de que jamais serei capaz de me manter em dia com a quantidade de mensagens que entram diariamente.

Pra terminar, existe o terrível hábito do excesso de confiança nos gurus. Sim, a mania de confiar exageradamente nos caras de sistemas, os analistas, consultores, programadores e assemelhados. São uma raça sem-vergonha, leitora, acredite em mim. Falo de cadeira porque sou um deles. Pensam que são donos do mundo e que dominam as forças da natureza, os desígnios do destino e os poderes telúricos do planeta. Recentemente uma leitora veio com um papo de endeusar a equipe de tecnologia da empresa em que trabalha. Perguntei a ela se conhecia o tradicional caso do pastor e suas ovelhas. Ela disse que não, então pus-me a lhe contar a história: 

Um pastor está cuidando de suas queridas ovelhas ao longo de uma estrada deserta. Os campos que ladeiam a rodovia são verdejantes e o relevo da região é monótono, com colinas baixas e suaves. O ambiente é de total paz, o visual deslumbrante. Só o que se ouve são alguns balidos e o canto dos pássaros. De repente, o pastor começa a ouvir ao longe o som de um potente motor de automóvel, aparentemente vindo em alta velocidade. Vai o ruído crescendo e logo um Porsche vermelho novinho em folha para abruptamente cantando pneu perto de onde estão o pastor e seu rebanho.

O motorista, sujeito metido e posudo trajando terno Armani, sapatos Cerutti, óculos de sol Ray-Ban, relógio de pulso TAG-Heuer/GPS e gravata Pierre Cardin, sai do automóvel e olha para o céu. Não há nuvens. Isso é bom, pensa ele. Em seguida, dirige-se ao pastor, e pergunta sem rodeios: “Se eu lhe disser quantas ovelhas você tem, você me dá uma delas?” O pastor analisa rapidamente o impetuoso jovem e depois olha para seu numeroso rebanho. Dá de ombros e responde: “OK”.

O rapaz estaciona o carro numa manobra rápida, ruidosa, mas precisa. Tira os óculos escuros e conecta seu laptop de última geração a um fax-modem-celular. Apesar do sol forte, ele demonstra frieza absoluta. Nenhuma gota de suor escorre de sua fronte. Sua destreza no teclado é inacreditável e seus movimentos são exatos e calculados com precisão. Seu próximo passo é entrar num website oculto da Nasa. Ele informa ao sistema as coordenadas geográficas do ponto onde se encontra, com base nos dados informados via radiofrequência pelo seu relógio equipado com Bluetooth. Com isto, aciona um satélite em órbita que, mediante uma senha especial, realiza uma meticulosa varredura no terreno e invoca nos servidores da agência espacial americana uma aplicação de processamento paralelo visando a efetuar a contagem dos animais. O sistema devolve uma matriz de comandos criptografados que, no laptop do mancebo, abre 14 bancos de dados e 60 planilhas cheias de logaritmos neperianos, curvas de Gauss e tabelas-pivô. O pastor permanece observando o cidadão, pasmo, sem sequer ousar imaginar a tempestade tecnológica que se desencadeia naquela maquineta infernal.

Depois disso, em poucos segundos, o sujeito imprime um relatório de 150 páginas em cores com sua mini-impressora de alta tecnologia. Com os papéis em mãos, respira fundo, põe novamente os óculos, vira-se para o pastor e diz, com certa empáfia: “Você tem exatamente 1.586 ovelhas aqui.” O pastor se empolga: “Está certíssimo, pode ficar com sua ovelha.” 

O rapaz se levanta e, com uma ginga de príncipe, faz sua escolha, pondo o animal cuidadosamente no banco de trás de seu Porsche.

O pastor franze a testa, olha para o camarada e pergunta: “Se eu adivinhar sua profissão, você me devolve o animal?” 

O sujeito olha para o relógio, faz uma discreta careta, examina o homem de cima a baixo e responde: “Sim, por que não?” 

O pastor diz então, na lata: “Você é um consultor de informática.” 

“Como é que você sabe?”, indaga o surpreso janota. 

“É simples”, responde o pastor. “Primeiro, você chegou aqui sem ter sido chamado. Segundo, você me cobrou um valor para me dizer algo que eu já sabia, e terceiro, você não entende nada sobre o meu negócio... E agora, poderia fazer o favor de me devolver o meu cachorro?”
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CARLOS ALBERTO TEIXEIRA, famoso C@T. Tem coluna no caderno "INFORMÁTICA etc" do jornal "O Globo". Publica, também, seus trabalhos em revistas diversas, sempre sobre o tema “informática”. 

Fontes:
Caderno Informática etc. RJ: “O Globo’”, 25/11/2002.
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