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sábado, 10 de outubro de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 173 *

Tantos querem definir felicidade, mas eu penso que é impossível. Ela define-se por si mesma. Mas perguntamos - o que é felicidade?  Como surge?  De onde vem? Tenho cá(qui) comigo que já nascemos absorvendo felicidade. Do bafo da mãe, dos avós e outros achegados. Porque a vida também é feita de bafinhos...  De felicidades. E aí começa tudo.  

Segundo a ciência, a felicidade libera neurotransmissores associados ao bem-estar. Os estudiosos, como Carl Jung, dizem que "mais do que um pico passageiro de euforia, é uma conquista diária que equilibra bem-estar mental e satisfação".       
Esse bem-estar não chega por acaso, é produzido e insuflado por nós mesmos, no dia a dia, na convivência, no trabalho, no divertimento, risos, gargalhadas, produzindo alumbração, deslumbramentos.

Ou alguém acha que sozinhos, longe de tudo, seríamos felizes ?!   
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Leon Eliachar (Conheça-se a si mesmo)


VOCÊ É NERVOSO?

1 - Você buzina uma fração de segundo após abrir o sinal, porque acha que o carro da frente não quer andar?

2 - Você acha que o sujeito de trás é um imbecil, quando se dá o inverso: isto é, quando você está na frente e ele buzina atrás?

3 - Você tem vontade de sair do carro e massacrar o motorista de cada táxi que lhe dá uma "fechada"?

4 - Você acha realmente que todo pedestre que atravessa na frente de seu carro é um idiota?

5 - Você tem vontade de abandonar o carro pro resto da vida, quando fura um pneu no meio da estrada?

CONCLUSÃO: 
Se respondeu "sim" a todas as perguntas, você não é, absolutamente, um nervoso, mas simplesmente um motorista. Se respondeu "não" a qualquer das perguntas, siga este conselho: por que não compra um carro?

VOCÊ É MEDROSO?

1 - Quando alguém fica batendo com o pé na sua poltrona, num cinema você evita reclamar por que aí mesmo é que o sujeito pode insistir?

2 - Quando o elevador enguiça entre dois andares e a campainha de emergência não funciona, você grita por socorro ou senta calmamente e espera que o porteiro descubra que o elevador enguiçou?

3 - Quando o dono da casa abre a porta pra você entrar, você vai logo perguntando se tem cachorro?

4 - Quando você está acompanhado de uma moça, evita passar no meio de um grupo de rapazes, com receio que deem piadinhas para ela e você tenha de tomar uma atitude?

5 - Quando você vai à praia e vê, no posto, uma bandeirinha vermelha, deixa de cair n'água?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "sim" a todas estas perguntas, desculpe, mas é muito chato. Se respondeu "não” é mais chato ainda, parque demonstrou que não teve nem coragem pra responder "sim".

VOCÊ TEM COMPLEXO DE INFERIORIDADE?

1 - Quando você vê na praia um atleta, pensa intimamente que, amanhã vai começar a fazer ginástica?

2 - Quando sua calça rasga-se na rua, fica constrangido por que podem pensar que você já saiu com ela assim de casa?

3 - Quando você vê uma mulher muito bonita, pensa logo na sua - que não é tanto - mas fica satisfeito mesmo com a que tem, por que acha que não pode ter melhor?

4 - Quando você se olha no espelho, de manhã, procura se justificar de que a que vale mesmo é a simpatia?

5 - Se você é casado, deixa de confessar isso, num grupo de solteiros, com vergonha que pensem que você é otário, ou se é solteiro, também esconde, com receio que pensem que você não conseguiu casar?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "não" a todas estas perguntas, não se preocupe, você não tem complexo de inferioridade; se respondeu "sim", pode começar a se preocupar, porque se você não tinha complexos vai começar a ter, agora.

VOCÊ TEM BOA MEMÓRIA?

1 - Você se lembra em que dia da semana conheceu sua mulher?

2 - Você se lembra do número do telefone da sua primeira namorada?

3 - Você se lembra do número de páginas que tinha o primeiro livro que você leu?

4 - Você se lembra com quantos dias de atraso recebeu o seu primeiro ordenado?

5 - Você se lembra de que cor era o vestido de sua tia mais velha, no dia em que você caiu da bicicleta pela primeira vez?

CONCLUSÃO: 
Respondeu-se "sim" a todas as perguntas, esteja certo: você é um fenômeno. Mas se você argumentar que não pôde responder por que nunca leu um livro, sempre recebeu em dia e nunca levou tombo de bicicleta, então esteja mais certo ainda: Você é um fenômeno muito maior.

VOCÊ É DISTRAÍDO?

1 - Você costuma reparar quando sua mulher, noiva ou namorada põe um vestido novo?

3 - Você costuma se lembrar, exatamente, em que pedaço do filme chegou ou tem que ver mais um pedacinho?

5 - Você costuma, todo ano, cair no dia primeira de abril?

2 - Você tem o hábito de atravessar a rua sem olhar para os dois lados?

4 - Você costuma conversar com uma pessoa durante horas, sem prestar atenção, tentando descobrir de onde é mesmo que você a conhece?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "sim" ou "não" a qualquer destas perguntas, isso não tem a menor importância; mas se você não reparou que a numeração deste último teste está completamente alterada, então, meu caro, você não é um distraído, é mais que isso: é um ceguinho. E daí, vai bater?
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Leon Eliachar (1922 – 1987)
Leonit Eliachar, imortalizado na literatura brasileira simplesmente como Leon Eliachar, foi um dos mais brilhantes escritores, cronistas e jornalistas de humor do Brasil. Autodenominado brincando como um "cairoca", ele marcou época na imprensa nacional com um estilo inovador, visual e repleto de nonsense. Nasceu na cidade do Cairo/ Egito em 1922. Teve um fim trágico e prematuro aos 64 anos. Foi assassinado no Rio de Janeiro em de 1987, vítima de uma emboscada armada por motivos passionais, crime encomendado por um fazendeiro paranaense.
Mudou-se com a família para o Brasil com apenas 10 meses de idade. Fixou residência e viveu praticamente toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Apesar de ser profundamente brasileiro em sua escrita, consta que ele nunca se naturalizou oficialmente. Leon iniciou na imprensa muito jovem, aos 16 anos. Atuou como jornalista, colunista, crítico de cinema, produtor de rádio e roteirista de televisão. Ele trabalhou nos principais veículos de comunicação de massa do país nas décadas de 1950 a 1980. Escreveu para revistas de grande circulação como O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Fon-Fon e Pif-Paf. Marcou época no histórico jornal Última Hora, onde assinava a página humorística "Penúltima Hora", que trazia o subtítulo satírico: "um jornal feito na véspera". Foi roteirista e autor de programas humorísticos nas grandes redes nacionais, incluindo as TVs Tupi, Excelsior, Rio, Globo e SBT, além das rádios Tupi e Mayrink Veiga.
Sua trajetória na literatura foi marcada por crônicas rápidas, aforismos, microcontos e, principalmente, pelo humor gráfico. Ele revolucionou o formato de seus livros ao misturar texto com diagramações inusitadas, colagens, fotografias e ilustrações. Devido ao seu perfil voltado ao jornalismo popular, à crônica de humor e ao rádio, não pertenceu às academias tradicionais de letras. Seu verdadeiro reduto intelectual eram as redações cariocas e a boemia literária, ao lado de grandes nomes do humor brasileiro. Atualmente, seu legado acadêmico está preservado no arquivo pessoal doado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Recebeu a Palma de Ouro (1956): O maior reconhecimento de sua carreira ocorreu na Europa, onde venceu o primeiro prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo, em Bordighera, Itália. Ele foi premiado por uma genial definição de humor. Publicou cinco volumes autorais marcantes e uma importante antologia em parceria: O Homem ao Quadrado (1960); O Homem ao Cubo (1963); A Mulher em Flagrante (1965); O Homem ao Zero (1967); 10 em Humor (1968): Livro antológico escrito em conjunto com a nata do humor nacional: Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Fortuna, etc.; O Homem ao Meio (1979)
A importância de Leon Eliachar reside em seu papel como pioneiro do modernismo gráfico no humor literário brasileiro. Ele antecipou conceitos de design e linguagem visual que hoje são comuns na literatura contemporânea. Eliachar tirou o humor do formato puramente textual da crônica clássica e o transformou em uma experiência visual, brincando com formas geométricas, tipografia e montagens fotográficas irreverentes. Ao lado de gênios como Millôr Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, ele usou a sátira inteligente e o nonsense para fazer a sociedade olhar no espelho. Suas piadas rápidas e "sacadas" ácidas expunham as contradições do cotidiano, da política, do sexo e da economia sem a necessidade de discursos longos. Sua obra provou que o humor gráfico e a crônica curta possuem altíssimo valor literário e sociológico.
Fonte:
Leon Eliachar. O homem ao quadrado. Publicado originalmente em 1960.
Biografia = TV Saudades; Wikipedia, Recanto das Letras, Museu da TV, Casa Rui Barbosa, etc.

Artur da Tavola (Conversando com Deus)

Nestes tempos de loucura guerreira, a gente deve buscar refúgio também nas crianças. Elas são sempre a consequência trágica das guerras. Mesmo quando não estão no campo das mesmas. Fui criança em 1940 e hoje, sessenta anos depois ainda me recordo do rádio de meu pai, com notícias da Segunda Guerra Mundial e do meu susto pois não sabia o que queria dizer "lá longe". Acreditava que “longe” era o que ficava além do Túnel Novo.

Mas recebi de um mensageiro da Internet chamado Müller (não deu outras informações acerca de si mesmo) esta deliciosa tradução de algumas frases de crianças. Nada tem a ver com a guerra. É só para vermos como são criativas as crianças e pensarmos nas que morrem por causa dos delírios humanos, o maior dos quais é a guerra e seu estúpido cortejo de destruição.

CARTINHAS PARA DEUS: cartas reais para Deus escritas por crianças
(traduzidas de original em inglês):

1. Querido Deus, Eu não pensava que laranja combinava com roxo até que eu vi o pôr-do-sol que Você fez terça- feira. Foi demais! (Eugene)

2. Querido Deus, Você queria mesmo que a girafa se parecesse assim ou foi um acidente? (Norma)

3. Querido Deus, Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, porquê você não mantêm aquelas que você tem agora? (Jane)

4. Querido Deus, Eu fui a um casamento e eles beijaram dentro da igreja. Tem algum problema com isso? (Neil)

5. Querido Deus, Obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu orei por um cachorrinho. (Joyce)

6. Querido Deus, Choveu o tempo todo durante as nossas férias e como meu pai ficou zangado! Ele disse algumas coisas sobre você que as pessoas não deveriam dizer, mas eu espero que você não vá machucá-lo. Seu amigo (mas eu não vou dizer quem eu sou)

7. Querido Deus, Por favor, me mande um pônei. Eu nunca te pedi nada antes, Você pode checar. (Bruce)

8. Querido Deus, Eu quero ser igualzinho ao meu pai quando eu crescer, mas não com tanto cabelo no corpo. ( Sam)

9. Querido Deus, Eu penso em Você de vez em quando, mesmo quando não estou orando. (Elliott)

10. Querido Deus, Eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas no mundo. Na nossa família tem só quatro pessoas e eu nunca consigo... (Nan)

11. Querido Deus, Meus irmãos me falaram sobre nascer de novo, mas soa muito estranho. Eles estão só brincando, não é? (Marsha)

12. Querido Deus, Se Você olhar para mim na igreja domingo, eu vou te mostrar meus sapatos novos. (Mickey)

13. Querido Deus, Nós lemos que Thomas Edison fez a luz. Mas na escola dominical nós aprendemos que foi Você. Eu acho mesmo que ele roubou sua ideia. Sinceramente, (Donna)

14. Querido Deus, Eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você. Bem, eu só quero que saiba que não estou dizendo isso porque você já é Deus. (Charles)

15. Querido Deus, Talvez Caim e Abel não matassem tanto um ao outro se eles tivessem seu próprio quarto. Isso funciona com meu irmão. (Eddie)

Fonte:
http://intervox.nce.ufrj.br/~jobis/a-conv.html. Acesso em 26.03.2008

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 172 *

Sagrado e consagrado. A cada julho, na primeira semana o caminho é o sul fluminense, passando pelo litoral espetáculo paulista para chegar à paradisíaca Parati. Depois de tantas águas verdes, ilhas, grotões, pedras, mata atlântica nas costeiras bandeirantes, ali a última curva. Surge a magia, o casario centenário. 

Mas não é só a paisagem urbana, eis o Centro Histórico de ruas pé-de-moleque - calçamentos irregulares sem trânsito de carros.  O toque mágico, a arquitetura colonial portuguesa, casarões coloridos, sacadas de madeira, floridas. 

Neste ambiente que persuade e seduz é que acontece anualmente a FLIP - Feira Literária de Parati – - caleidoscópio cultural onde a gente anda pelas ruas em meio a escritores de toda estirpe, novos, antigos, Prêmio Nobel, todo mundo conversando com todo mundo.

Dentro desta festa da cultura, conversávamos ali no Centro Histórico, este escriba aprendiz, mais o Luiz Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, ambos aclamados no uso do verbo. 

O papo girava em torno de assuntos variados - família, literatura, morte, viagens...  Quando o Zuenir perguntou ao Luiz Fernando : 

- O que você acha da morte, Veríssimo?

- Eu sou contra! (risos)

E a conversa seguiu ao sabor de Parati.

Busquei esta croniquinha entre os alfarrábios para homenagear a vida e a memória do escritor Zuenir Ventura, que nos deixou nesta semana. Grande cultor das letras - livros, jornais, revistas -, criatura afável, sempre risonho, boa conversa, bonomia na intimidade. 

Que as Mansões do Altíssimo o recebam com alegria, com palavras, com os vinhos.
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Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Aparecido Raimundo de Souza (Vexame)


SÁBADO, eu e minha neta Ellen fomos para o casamento do meu sobrinho Chiquinho e Lisbela. Aparecemos no pedaço arrumadinhos. Dava gosto nos ver. Minha figura de barba feita, terno novo, os sapatos brilhando na graxa. Até um perfume roubado de mamãe passei. Minha neta num longo branco os cabelos soltos ao vento, os sapatinhos impecáveis a fizeram se assemelhar a uma princesa saída dos contos de fadas. Adentramos no imenso salão nos fundos da igreja onde acontecia a festa após a troca de alianças. Uma multidão incalculável se desordenava maciça. Logo na entrada, uma garçonete de tirar o fôlego me brindou com um cálice enorme. 
 
Ingeri o líquido sem pestanejar.  Num piscar de olhos, mal havia esvaziado a taça, uma outra deusa encostou ao meu lado. Afoito, passei os cinco dedos em dois cálices de vez. Sem melindres, mandei o conteúdo pra dentro, acossando a sede. Ellen, nesse interregno, se juntou a algumas amiguinhas do prédio onde morávamos. A primeira coisa que me veio à cabeça, assim que ela largou meu braço, sem dúvida alguma, correr (ou pelo menos tentar chegar) perto dos recém casados e cumprimentá-los. 

Como num passe de mágica, uma terceira garçonete de sainha muito curta, esbarrou em mim. Troquei os cálices vazios por outros dois abarrotados até a boca. Juro por tudo quanto é sagrado, não atentei para o chão. Por conta disso, não dei na “telha” que ele estava impecavelmente enceradinho, brilhando mais que minha fuça deslavadamente suada em face do sol quente que ardia por todo o firmamento. Fui andando como pude, tirando um e outro da frente, os passos bonitos e elegantes, o queixo erguido… todo posudo, e de repente o meu sapato direito resolveu ir pra frente num ímpeto e o meu corpo em sentido oposto. 

Fiz um movimento leve que mais se assemelhava a uma dança desengonçadamente bamba e extravagante. Meus braços erguidos para cima, as pernas mal-ajambradas para um lado, o pé girando feito um pião que se desapartara de uma cordinha invisível, de um moleque inexistente, dava a impressão cênica de ter tomado um pileque daqueles. Não caí deitado. Em compensação, os dois cálices foram beijar o chão e se espatifaram estrondosamente. Fiquei ali tremelicando, oscilando, dançando, ziguezagueando sozinho fremindo o esqueleto no meio dos demais convivas em franca polvorosa.

Uns batendo palmas, outros rindo feitos hienas fora do bando, o salão inteiro, de canto a canto igualmente a mim, bailando sem simetria. Do nada, num estapafúrdio movimento pra além de desengonçado rodopiei a bel prazer de uma situação vexatória que até então nunca havia experimentado. Por azar, assediado num som barulhento, meu corpo magro desacostumado com os líquidos ingeridos em excesso, me flagrei inapto e desajeitado, e o mais inverossímil, sem ninguém se aproximando para me convidar a sentar num canto e sossegar os ossos. 

O pior é que quanto mais tentava me equilibrar, um balouçar emborrascado me agitava descontroladamente. Em questão de segundos, parecia um boneco de papel sendo levado por uma rajada. Sem noção, acometido por uma tonteira própria dos alcoolizados grudado numa garrafa de cachaça da braba, completamente mamado, gritei:

— ESTÁ TÃO BOM O SOM QUE O MEU CORPO JÁ COMEÇOU ANTES A VER O PARAÍSO!

O salão inteiro, sem tirar nem por caiu no escárnio de uma risada fácil! 

O Chiquinho jogou as flores para mim, Lisbela bateu palmas, Ellen gritou: “Vôôôô... vem sentar”. Dona Candoca mais seu Genaro, (os pais de Lisbela), berravam ao mesmo tempo em que faziam gestos com as mãos, tipo “vem, vem, sai fora, seu imbecil, se acomode...”. Outros partícipes na mesma sintonia meridiana sinalizavam gestos desengonçados, até que a banda tocou uma música de verdade, uma coisa mais digestível para eu poder obviamente terminar a dança sem dar um vexame mais corpulento. 

Indiferente aos clamores, segui elétrico como um boneco sem noção. Fui dançando sozinho, saracoteando a carcaça de um lado para outro, até que finalmente me apoiei numa mesa e parei, estanquei a folia todo respingado de vinho ou licor, sei lá, o suor gotejando, pela minha epiderme feito uma múmia paralítica que dava a impressão de ter tomado todas. E cá entre nós, tinha, de fato. Dona Candoca, me vendo bamboleante, abriu espaço e veio me dizer:

— Rapaz, ninguém nunca divertiu uma festa inteira tão rápido assim! O senhor é um artista nato! Parabéns. Vou lhe convidar mais vezes...

Chegando em casa, carregado por dois brutamontes, (coisa de quinze ou vinte minutos depois), tirei os sapatos e me preparei para o banho. Encarei minha neta:

— Ellen, olha, para seu avô e não diga que não fui elegante, falei ou tentei, a voz atordoada.  Vamos, responda. Você percebeu que fui literalmente aplaudido de pé!

E ela, se escangalhando numa gostosa gargalhada pra lá de estrepitosa, sentenciou a verdade:

— Eu vi, vô. Em dado momento, todos que estavam sentados entre as mesas, levantaram-se e aproximaram-se de sua pessoa pra rir melhor! 
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade). É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele provou que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé).  O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. O humor foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico, em um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (Retrato do ontem)

Riscos de nuvens vermelhas coloriam o céu de verão enquanto o sol ia sendo empurrado como moeda grande num cofrinho no horizonte. Era a noite que chegava de manso. A poeira levada pelo vento para aqui e ali petecava qual jogo de moleques, e tingia de marrom as folhas dos pés de mamona, o casario da avenida, as roupas dos varais para desassossego das mães. Que sujeira, meu Deus! - Lamentavam.

Estávamos ali há algum tempo, minha irmã e eu sentados na soleira do portão quando, lá no começo da rua, sinais de fumaça mostraram o último ônibus do dia da Viação Garcia.

Rimos coniventes. Em pouco chegou bufando e gemendo, mas impoluto e poeirento foi manobrado e estacionou na estação rodoviária. O sopro do ar dos freios foi o último barulho forte que ouvimos. Parecia que o ar comprimido saía dizendo: Arre! Ainda bem que chegamos... No mais, pessoas desciam do monstrengo em busca de malas e embalagens retiradas do bagageiro do teto. Tudo empoeirado, mas fazer o quê?

Meu pai estava entre eles. Era vendedor-viajante que saía na segunda de madrugada para voltar apenas na sexta naquele horário. Vestia um sobretudo de algodão e sob ele o terno escuro com paletó de seis botões e chapéu de feltro que lhe davam ar senhorial, como eram as vestimentas sóbrias dos anos cinquenta. Parecia cansado como o ar dos freios.

Corremos ao seu encontro com as boas vindas semanais e arrancamos dele um largo sorriso, um abraço apertado de pai, um passar de mãos nas cabeças e uns trocados tirados do bolso do paletó, reservados talvez para a ocasião. O deixamos com a mala de couro e corremos ao Bar do Zé Enxerga.

Como era gostoso sorvete de palito com guaraná! Uma mordida na massa gelada e um gole no líquido efervescente que espirrava respingos no nariz davam sensação de prazer. Nossos olhos brilhavam, nossos rostos irradiavam felicidade e nossas bocas, mãos e braços se lambrecavam de sorvete escorrido. Mas quem se importava? A cada mordida e a cada gole parecia que os anjos das lombrigas bailavam de contentamento, fazendo festa ern nossas barrigas.

O tempo com seu cofre de esconder sol passou rápido e cobriu de asfalto a estrada e a avenida, e a poeira infernal diminuiu para alegria das mães; os ônibus que bufavam foram substituídos, o Zé Enxerga vendeu o bar, meu pai trocou de emprego, a soleira do portão não serviu mais de assento para nós que crescemos e nos esticamos para o mundo; e Bandeirantes, como uma flor de lis que desabrocha na madrugada para enfeitar o dia, se tornou uma bela e pujante cidade e vive um momento de crescimento, cria condições melhores para o futuro com suas escolas e com seu povo que desde o desbravador ao empreendedor atual, continuam a escrever com maestria, orgulho e com pontinhos de saudade do ontem a sua história. É um retrato que enternece pela lembrança boa que produz.

Muita coisa mudou de lá para cá; só não mudou o sabor inigualável de sorvete de palito com guaraná.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes: 
Livreto dos XXVIII Jogos Florais de Bandeirantes – 2014: Jubileu de Carvalho de Bandeirantes. Santo Antonio da Platina/PR: JK Artes Gráficas, 2014.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Laé de Souza (Esmeraldo, o garçom)


Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garçom e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.

Esmeraldo, educadamente, perguntou:

- Como é o seu nome, senhor?

O cliente mais irritado ainda respondeu:

- Jonas.

- Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. - A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.

Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores?

O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor!

Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente:

- O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.

Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um "pois não", bem macio.
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Laé de Souza (1962)
O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infantojuvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fontes:
Biografia = AFPESP, Projetos de Leitura, Jornal da Franca, Prefeitura Municipal de Jequié, etc.

Machado de Assis (O jornal e o livro)


AO SR. MANUEL ANTONIO DE ALMEIDA

O espírito humano, como o heliotrópio, olha sempre de face um sol que o atrai, e para o qual ele caminha sem cessar: — é a perfectibilidade.

A evidência deste princípio, ou antes deste fato, foi claramente demonstrada num livro de ouro, que tornou-se o Evangelho de uma religião. Serei eu, derradeiro dos levitas da nova arca, que me aba­lance a falar sobre tão debatido e profundo assunto?

Seria loucura tentá-lo. De resto, eu manifestei a minha profissão de fé nuns versos singelos, mas não frios de entusiasmo, nascidos de uma discussão. Mas então tratava-se do progresso na sua expres­são genérica. Desta vez limito-me a traçar algumas ideias sobre uma especialidade, um sintoma do adiantamento moral da humanidade.

Sou dos menos inteligentes adeptos da nova crença, mas tenho consciência que dos de mais profunda convicção. Sou filho deste século, em cujas veias ferve o licor da esperança. Minhas tendências, minhas aspirações, são as aspirações e as tendências da mocidade; e a mocidade é o fogo, a confiança, o futuro, o progresso. A nós, guebros modernos do fogo intelectual, na expressão de Lamartine, não importa este ou aquele brado de descrença e desânimo: as sedi­ções só se realizam contra os princípios, nunca contra as variedades.

Não há contradizê-lo. Por qualquer face que se olhe o espírito humano descobre-se a reflexão viva de um sol ignoto. Tem-se reco­nhecido que há homens para quem a evidência das teorias é uma quimera; felizmente temos a evidência dos fatos, diante da qual os São Tomés do século têm de curvar a cabeça.

É a época das regenerações. A Revolução Francesa, o estrondo maior dos tempos europeus, na bela expressão do poeta de Jocelyn, foi o passo da humanidade para entrar neste século. O pórtico era gigantesco, e era necessário um passo de gigante para entrá-lo. Ora, esta explosão do pensamento humano concentrado na rainha da Europa não é um sintoma de progresso? O que era a Revolução Francesa senão a ideia que se fazia república, o espírito humano que tomava a toga democrática pelas mãos do povo mais democrá­tico do mundo? Se o pensamento se fazia liberal é que tomava a sua verdadeira face. A humanidade, antes de tudo, é republicana.

Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão.

Tratemos do jornal, esta alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo, e que o espírito humano, este Arquimedes de todos os séculos, encontrou.

O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?

A humanidade desde os primeiros tempos tem caminhado em busca de um meio de propagar e perpetuar a ideia. Uma pedra convenientemente levantada era o símbolo representativo de um pensamento. A geração que nascia vinha ali contemplar a ideia da geração aniquilada.

Este meio, mais ou menos aperfeiçoado, não preenchia as exigências do pensamento humano. Era uma fórmula estreita, muda, limitada. Não havia outro. Mas as tendências progressivas da humanidade não se acomodavam com os exemplares primitivos dos seus livros de pedra. De perfeição em perfeição nasceu a arte. A arquitetura vinha transformar em preceito, em ordem, o que eram então partos grotescos da fantasia dos povos. O Egito na aurora da arquitetura deu-lhe a solidez e a simplicidade nas formas severas da coluna e da pirâmide. Parece que este povo ilustre queria fazer eterna a ideia no monumento, como o homem na múmia.

O meio, pois, de propagar e perpetuar a ideia era uma arte. Não farei a história dessa arte, que, passando pelo crisol das civilizações antigas, enriquecida pelo gênio da Grécia e de Roma, chegou ao seu apogeu na Idade Média e cristalizou a ideia humana na catedral. A catedral é mais que uma fórmula arquitetônica, é a síntese do espírito e das tendências daquela época. A influência da Igreja sobre os povos lia-se nessas epopeias de pedra; a arte por sua vez acompanhava o tempo e produzia com seus arrojos de águia as obras-primas do santuário.

A catedral é a chave de ouro que fecha a vida de séculos da arquitetura antiga; foi a sua última expressão, o seu derradeiro crepúsculo, mas uma expressão eloquente, mas um crepúsculo palpitante de luz.

Era, porém, preciso um gigante para fazer morrer outro gigante. Que novo parto do engenho humano veio nulificar uma arte que reinara por séculos? Evidentemente era mister uma revolução para apear a realeza de um sistema; mas essa revolução devia ser a expressão de um outro sistema de incontestável legitimidade. Era chegada a imprensa, era chegado o livro.

O que era a imprensa? Era o fogo do céu que um novo Prometeu roubara, e que vinha animar a estátua de longos anos. Era a faísca elétrica da inteligência que vinha unir a raça aniquilada à geração vivente por um meio melhor, indestrutível, móbil, mais eloquente, mais vivo, mais próprio a penetrar arraiais de imortalidade.

O que era o livro? Era a fórmula da nova ideia, do novo sistema. O edifício, manifestando uma ideia, não passava de uma coisa local, estreita. O vivo procurava-o para ler a ideia do morto; o livro, pelo contrário, vem trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada. O progresso aqui é evidente.

A revolução foi completa. O universo sentiu um imenso abalo pelo impulso de uma dupla causa: uma ideia que caía e outra que se levantava. Com a onipotência das grandes invenções, a imprensa atraía todas as vistas e todas as inteligências convergiam para ela. Era um crepúsculo que unia a aurora e o ocaso de dois grandes sóis. Mas a aurora é a mocidade, a seiva, a esperança; devia ofuscar o sol que descambava. É o que temia aquele arcediago da catedral parisiense, tão bem delineado pelo poeta das Contemplações.

Com efeito! a imprensa era mais que uma descoberta maravilhosa, era uma redenção. A humanidade galgava assim o Himalaia dos séculos, e via na ideia que alvorecia uma arca poderosa e mais capaz de conter o pensamento humano.

A imprensa devorou, pois, a arquitetura. Era o leão devorando o sol, como na epopeia do nosso Homero.

Não procurarei historiar o desenvolvimento desta arte-rei, desenvolvimento asselado em cada época por um progresso. Sabe-se a que ponto esta aperfeiçoada, e não se pode calcular a que ponto chegará ainda.

Mas restabeleçamos a questão. A humanidade perdia a arquitetura, mas ganhava a imprensa; perdia o edifício, mas ganhava o livro. O livro era um progresso; preenchia as condições do pensamento humano? Decerto; mas faltava ainda alguma coisa; não era ainda a tribuna comum, aberta à família universal, aparecendo sempre com o sol e sendo como ele o centro de um sistema planetário. A forma que correspondia a estas necessidades, a mesa popular para a distribuição do pão eucarístico da publicidade, é propriedade do espírito moderno: é o jornal.

O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.

O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo literário, do mundo econômico e do mundo social.

Quem poderá marcar todas as consequências desta revolução?

Completa-se a emancipação da inteligência e começa a dos povos. O direito da força, o direito da autoridade bastarda consubstanciada nas individualidades dinásticas vai cair. Os reis já não têm púrpura, envolvem-se nas constituições. As constituições são os tratados de paz celebrados entre a potência popular e a potência monárquica.

Não é uma aurora de felicidade que se entreabre no horizonte? A ideia de Deus encarnada há séculos na humanidade apareceu enfim à luz. Os que receavam um aborto podem erguer a fronte desassombrada: concluiu-se o pacto maravilhoso.

Ao século XIX cabe sem dúvida a glória de ter aperfeiçoado e desenvolvido esta grandiosa epopeia da vida íntima dos povos, sempre palpitante de ideias. É uma produção toda sua. Depois das ideias que emiti em ligeiros traços é tempo de desenvolver a questão proposta: — O livro absorverá o jornal? o jornal devorará o livro?

II

A lei eterna, a faculdade radical do espírito humano, é o movimento. Quanto maior for esse movimento mais ele preenche o seu fim, mais se aproxima desses polos dourados que ele busca há séculos. O livro é um sintoma de movimento? Decerto. Mas estará esse movimento no grau do movimento da imprensa-jornal? Repugno afirmá-lo.

O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicitário contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a ideia de, um homem, mas a ideia popular, esta fração da ideia humana.

O livro não está decerto nestas condições; — há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é — movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.

Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.

Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.

O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.

As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior.

Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da ideia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibili­dade de aniquilamento do livro em face do jornal. Mas estará bem definida a superioridade do jornal?

Disse acima que o jornal era a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo social, do mundo literário e do mundo econômico. Do mundo literário parece-me ter demonstrado as vantagens que não existem no livro. Do mundo social já o disse. Uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela inteligência. Ora, isto não é evidentemente um progresso?

Quanto ao mundo econômico, não é menos fácil de demonstrar. Este século é, como dizem, o século do dinheiro e da indústria. Tendências mais ou menos ideais clamam em belos hexâmetros contra as aspirações de uma parte da sociedade e parecem prescrever os princípios da economia social. Eu mesmo manifestei algumas ideias muito metafísicas e vaporosas em um artigo publicado há tempos.

Mas, pondo de parte a arte plástica dessas produções contra o século, acha-se no fundo pouco razoáveis. A indústria e o comércio não são simples fórmulas de uma classe; são os elos que prendem as nações, isto é, que unem a humanidade para o cumprimento de sua missão. São a fonte da riqueza dos povos, e predispõem mais ou menos sua importância política no equilíbrio político da humanidade.

O comércio estabelece a troca do gênero pelo dinheiro. Ora, o dinheiro é um resultado da civilização, uma aristocracia, não bastarda, mas legitimada pelo trabalho ou pelo suor vazado nas lucubrações industriais. O sistema primitivo da indústria colocava o homem na alternativa de adquirir uma fazenda para operar a compra de outra, ou o entregava às intempéries do tempo se ele pretendia especular com as suas produções agrícolas. O novo sistema estabelece um valor, estabelece a moeda, e para adquiri-la o homem só tem necessidade de seu braço.

O crédito assenta a sua base sobre esta engenhosa produção do espírito humano. Ora, indústria manufatora ou indústria-crédito, o século conta a indústria como uma das suas grandes potências: tirai-a aos Estados Unidos e vereis desmoronar-se o colosso do norte.

O que é o crédito? A ideia econômica consubstanciada numa fórmula altamente industrial. E o que é a ideia econômica senão uma face, uma transformação da ideia humana? É parte da humanidade; aniquilai-a, — ela deixa de ser um todo.

O jornal, operando uma lenta revolução no globo, desenvolve esta indústria monetária, que é a confiança, a riqueza e os melhoramentos. O crédito tem também a sua parte no jornalismo, onde se discutem todas as questões, todos os problemas da época, debaixo da ação da ideia sempre nova, sempre palpitante. O desenvolvi­mento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo, porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande monetização da ideia, como diz um escritor moderno.

Ora, parece claro que, se este grande molde do pensamento cor­responde à ideia econômica como à ideia social e literária, — é a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano.

É ou não claro o que acabo de apresentar? Parece-me que sim. O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras; por­que ele diz ao talento: "Trabalha! vive pela ideia e cumpres a lei da criação!" Seria melhor a existência parasita dos tempos passados, em que a consciência sangrava quando o talento comprava uma refeição por um soneto?

Não! graças a Deus! Esse mau uso caiu com o dogma junto do absolutismo. O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização. Tudo se liberta; só o talento ficaria servo?

Não faltará quem lance o nome de utopista. O que acabo, porém, de dizer me parece racional. Mas não confundam a minha ideia. Admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo. Destruída a arquitetura, quem evita que à fundação dos monumentos modernos presida este ou aquele axioma d'arte, e que esta ou aquela ordem trace e levante a coluna, o capitel ou zimbório? Mas o que é real é que a arqui­tetura não é hoje uma arte influente, e que do clarão com que inun­dava os tempos e os povos caiu num crepúsculo perpétuo.

Não é um capricho de imaginação, não é uma aberração do espírito, que faz levantar este grito de regeneração humana. São as circunstâncias, são as tendências dos povos, são os horizontes rasgados neste céu de séculos, que implantam pela inspiração esta verdade no espírito. É a profecia dos fatos.

Quem enxergasse na minha ideia uma idolatria pelo jornal teria concebido uma convicção parva. Se argumento assim, se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade. Desaparecendo as fronteiras sociais, a humanidade realiza o derradeiro passo, para entrar o pórtico da felicidade, essa terra de promissão.

Tanto melhor! este desenvolvimento da imprensa-jornal é um sintoma, é uma aurora dessa época de ouro. O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição; e o titã popular, sacudindo por toda a parte os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o manto dos dogmas no­vos. É a luz de uma aurora fecunda que se derrama pelo horizonte. Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer, — eis a obra das civilizações modernas.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, 1994. Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1859. Disponível em Domínio Público.  

Luís Fernando Verissimo (Papos)


- Me disseram...

- Disseram-me.

- Hein?

- O correto é "disseram-me". Não "me disseram".

- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é "digo-te"?

- O quê?

- Digo-te que você...

- O "te" e o "você" não combinam.

- Lhe digo?

- Também não. O que você ia me dizer?

- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

- Partir-te a cara.

- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

- É para o seu bem.

- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...

- O quê?

- O mato.

- Que mato?

- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?

- Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo e elitismo!

- Se você prefere falar errado...

- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?

- No caso... não sei.

- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?

- Esquece.

- Não. Como "esquece"? Você prefere falar errado? E o certo é "esquece" ou "esqueça"? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.

- Depende.

- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o.

- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.

- Por que?

- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.
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Luís Fernando Veríssimo (1936 – 2025)
LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fontes:
VERÍSSIMO, Luís Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Biografia = Wikipedia; Diplomatique; Ebiografia; Revista Cândido; Academia Brasileira de Letras; Brasil Escola; Estadão; Itaú Cultural, etc.