No bairro em que morava, quando Gilda ia visitar alguém, as pessoas da casa já se preparavam para o pior. Ela chegava elogiando um a um, mas logo depois desferia a temida pergunta:
– Vocês sabiam o que fulano de tal fez?
Em seguida fazia um maldoso relatório da conduta do citado infeliz.
Geralmente era de um membro da família que não estava presente para se defender. Depois do espanto geral, ia embora, satisfeita, deixando a discórdia implantada no âmbito familiar.
As pessoas tentavam evitar qualquer contato com ela e não sabiam como Gilda se inteirava de situações particulares ocorridas nas famílias. Gilda regozijava-se cada vez que tomava conhecimento de uma nova fofoca.
O que todos desconheciam é que as informações sigilosas vinham geralmente de um parente ressentido com alguém da própria família, que vinha contar-lhe, sabendo que em pouco tempo ela iria propagar o fato.
Uma das ocasiões que Gilda considerava ter sido a maior indiscrição de todas foi quando soube que o padre tinha sido visto pulando o muro, na hora em que o marido de uma beata chegou antes da hora em casa.
Na missa dominical, foi ao microfone da igreja e disse que os fiéis perguntassem ao padre o porquê de sua batina estar rasgada. Em alguns dias, o sacerdote foi transferido para outra paróquia, bem longe dali.
Em certa ocasião, mudou-se para o bairro uma moça muito bonita, aparentando ser solteira, pois morava sozinha.
Gilda foi visitá-la algumas vezes, levando doces e bolos no intuito de descobrir algo na vida da jovem que servisse para ela usar em uma fofoca. A moça sempre tratava-a com atenção, mas esquivava-se de contar detalhes de sua vida particular.
Gilda passou a espionar a casa da jovem à noite, para ver se encontrava algo estranho.
Em uma sexta-feira à noite, viu um jovem bem vestido estacionar seu carro na garagem e somente sair no domingo. Gilda criou uma narrativa falsa sobre o comportamento da moça e espalhou-a pelo bairro, acrescentando detalhes picantes ao fato.
A moça foi até o salão de beleza para cortar os cabelos. A cabeleireira, sem rodeios, perguntou se ela tinha contado à Gilda algum segredo de sua vida pessoal.
Diante da negativa, falou que a citada mulher estava espalhando que ela recebia homens em sua casa, com mais alguns detalhes sórdidos. Espantada, a moça negou tudo e, sem dar mais explicações, foi embora após o corte.
Algum dia, algo ruim sempre acontece com pessoas que se sentem felizes às custas do sofrimento alheio. Uma família do bairro, inconformada com os sucessivos malfeitos de Gilda contra seus membros, resolveu processá-la por injúria, calúnia e difamação.
No dia da primeira audiência, no fórum da cidade, Gilda ficou surpresa e apavorada quando viu que o suposto amante daquela mulher que ela difamara era o marido e o novo juiz da comarca.
Ele era juiz de outra cidade e havia sido transferido para lá, mas ainda não tinha vindo porque precisou finalizar alguns processos pendentes. Sua esposa tinha vindo antes para arrumar a casa deles.
O jovem magistrado iniciou a audiência dizendo:
– Senhora Gilda, a sua surpresa e a palidez de seu rosto ao me ver aqui já servirão de lição para o resto de sua vida. Quero assegurar-lhe que seu julgamento será estritamente realizado dentro das leis, sem nenhuma conotação pessoal.
Gilda foi condenada a prestar serviços comunitários e, após cumprir essa pena branda, nunca mais cometeu uma bisbilhotice sequer.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.
Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
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