Marcadores

Marcadores

Mostrando postagens com marcador Panaceia de Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Panaceia de Textos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de março de 2026

Arthur Thomaz (A fofoqueira)


No bairro em que morava, quando Gilda ia visitar alguém, as pessoas da casa já se preparavam 
para o pior. Ela chegava elogiando um a um, mas logo depois desferia a temida pergunta:

– Vocês sabiam o que fulano de tal fez?

Em seguida fazia um maldoso relatório da conduta do citado infeliz.

Geralmente era de um membro da família que não estava presente para se defender. Depois do espanto geral, ia embora, satisfeita, deixando a discórdia implantada no âmbito familiar.

As pessoas tentavam evitar qualquer contato com ela e não sabiam como Gilda se inteirava de situações particulares ocorridas nas famílias. Gilda regozijava-se cada vez que tomava conhecimento de uma nova fofoca.

O que todos desconheciam é que as informações sigilosas vinham geralmente de um parente ressentido com alguém da própria família, que vinha contar-lhe, sabendo que em pouco tempo ela iria propagar o fato.

Uma das ocasiões que Gilda considerava ter sido a maior indiscrição de todas foi quando soube que o padre tinha sido visto pulando o muro, na hora em que o marido de uma beata chegou antes da hora em casa.

Na missa dominical, foi ao microfone da igreja e disse que os fiéis perguntassem ao padre o porquê de sua batina estar rasgada. Em alguns dias, o sacerdote foi transferido para outra paróquia, bem longe dali.

Em certa ocasião, mudou-se para o bairro uma moça muito bonita, aparentando ser solteira, pois morava sozinha.

Gilda foi visitá-la algumas vezes, levando doces e bolos no intuito de descobrir algo na vida da jovem que servisse para ela usar em uma fofoca. A moça sempre tratava-a com atenção, mas esquivava-se de contar detalhes de sua vida particular.

Gilda passou a espionar a casa da jovem à noite, para ver se encontrava algo estranho.

Em uma sexta-feira à noite, viu um jovem bem vestido estacionar seu carro na garagem e somente sair no domingo. Gilda criou uma narrativa falsa sobre o comportamento da moça e espalhou-a pelo bairro, acrescentando detalhes picantes ao fato.

A moça foi até o salão de beleza para cortar os cabelos. A cabeleireira, sem rodeios, perguntou se ela tinha contado à Gilda algum segredo de sua vida pessoal.

Diante da negativa, falou que a citada mulher estava espalhando que ela recebia homens em sua casa, com mais alguns detalhes sórdidos. Espantada, a moça negou tudo e, sem dar mais explicações, foi embora após o corte.

Algum dia, algo ruim sempre acontece com pessoas que se sentem felizes às custas do sofrimento alheio. Uma família do bairro, inconformada com os sucessivos malfeitos de Gilda contra seus membros, resolveu processá-la por injúria, calúnia e difamação.

No dia da primeira audiência, no fórum da cidade, Gilda ficou surpresa e apavorada quando viu que o suposto amante daquela mulher que ela difamara era o marido e o novo juiz da comarca.

Ele era juiz de outra cidade e havia sido transferido para lá, mas ainda não tinha vindo porque precisou finalizar alguns processos pendentes. Sua esposa tinha vindo antes para arrumar a casa deles.

O jovem magistrado iniciou a audiência dizendo:

– Senhora Gilda, a sua surpresa e a palidez de seu rosto ao me ver aqui já servirão de lição para o resto de sua vida. Quero assegurar-lhe que seu julgamento será estritamente realizado dentro das leis, sem nenhuma conotação pessoal.

Gilda foi condenada a prestar serviços comunitários e, após cumprir essa pena branda, nunca mais cometeu uma bisbilhotice sequer.
=== = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quinta-feira, 12 de março de 2026

Laé de Souza (Tira o Dez)


Nunca fui bom de bola. Nem nos tempos de colégio, quando era sempre o último escolhido e, como peso morto, entrava para jogar no gol. Os ruins no campo iam para o gol e mesmo como goleiro eu era péssimo, reconheço. Num país do futebol, é muito desagradável não saber lidar com a bola. Assim, numa época fazia aulas, treinava embaixadas em casa, queria aprender mesmo. Mas não deu resultados. Nunca consegui entender as jogadas ensaiadas, dar dribles. Acreditem, nunca passei com a bola por um adversário e poucas vezes consegui retirar a bola de um atacante. Sonhava dando bicicletas, “chapelando” o adversário, fazendo gols fenomenais, a plateia vibrando, os companheiros me abraçando, sendo disputado pelos times, na hora do jogo, e levantava disposto a mudar a história. Mas, na hora H, qual nada. Ficava entrevado que não tinha jeito.

O tempo foi passando, continuava batendo minha bolinha, sem muita responsabilidade, irritando um ou outro parceiro do time em que estava jogando, mas a meu ver, o que valia era o exercício e o divertimento. Mas mudei de ideia num jogo em que disputavam um troféu a Rua de Baixo e a Rua de Cima. A coisa era pra valer. E, naquele memorável domingo, com o campo esburacado, porém, demarcado e enfeitado com bandeirolas, com juiz, bandeirinhas e torcida, nós, da Rua de Baixo, entramos em campo sob aplausos. Eu com a responsabilidade da camisa dez, confiante, pensamento firme, mentalizava “É hoje meu dia” e fazia flexões e alongamentos num aquecimento para o jogo.

Estávamos perdendo, mas ainda tinha jeito de recuperar. Eu ainda estava esperançoso até o momento em que ouvi um molequinho de seus doze anos gritar “Tira o dez”. Se fosse uma vez só, tudo bem. Mas o sapeca insistia “Troca o dez! O dez tá acabando com o nosso time.” E cutucava o pai apontando-me toda vez que a bola vinha na minha direção. E quem diz que eu conseguia tocar na bola? Travava e suava frio e não conseguia tirar os olhos do guri. Sem reservas no time, só vendo o adversário fazer gols e mais gols, e eu pedia a Deus que o jogo terminasse logo. 

No intervalo, quis fugir, mas me fizeram voltar na marra. Trocamos de lado no campo, o que foi pior, pois eu ficava bem de frente para o moleque que balançava a cabeça a cada erro meu. Que visão de jogo a do garoto! Com certeza, hoje deve ser técnico de algum time grande. Se bem, como disse o Sapo (técnico do time), quando comentei do garoto “Para ver que o problema era tu, não precisava ser bom.” 

A partir dali, resolvi parar de jogar. Sempre que surgia um jogo, na empresa ou numa reunião de amigos, eu me esquivava. Outro dia, num churrasco de final de ano, resolveram formar times para um bate-bola. O Com-camisa, completo; o Sem-camisa, faltando um. Insistiram. Falei que não tinha calção, tênis, que não jogava direito, mas não teve jeito. Inventei que não podia ficar sem camisa, mas me trocaram com outro jogador do Com-camisa. Enfim, lá estava eu em campo e de novo com a camisa dez. As mulheres e filhos torcendo. Mas não tinha jeito, pra todo lado que olhava, eu via um molequinho apontando para mim. Não toquei na bola durante todo o jogo e, na bebedeira do churrasco, fui objeto de galhofa.

Hoje, em qualquer confraternização, vou de pé engessado e jurei nunca mais entrar em campo pra defender time de ninguém.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

terça-feira, 10 de março de 2026

Geraldo Pereira (Cão sem gravata)


Acontecem umas coisas aqui por casa, francamente, que o diabo duvida de costas. No entendimento de certos amigos meus, inclusive, tenho particular atração pelo inusitado, pelo diferente, nas chamadas ocorrências da vida. Dia desses, até, um sábado à noite, os ponteiros do relógio se preparavam para o derradeiro abraço ou para o primeiro dos amplexos de um domingo emergente, quando bateram à porta. Fui receber temeroso, pois que a hora já era aquela das entregas aos braços de Morpheu, o deus mitológico do sono e dos oníricos devaneios. 

Era um homem, então, com sinais mais do que evidentes de comprometimento etílico e a indagação foi das mais complicadas de meu tempo nesses convívios terrenos: “Meu senhor, por favor! Onde eu moro?” 

Ora, prezado amigo, respondi a rogo, “como posso saber disso, se o senhor, mesmo, ignora a rua e a casa!” 

O penitente das exigências de Baco explicou-se assim: “É que fizeram a mudança hoje e sei, apenas, das características do lugar. Nada mais!” 

E fez a descrição precisa, levando-me à identificação, com sucesso, de seu novo apartamento. Recomendei, todavia, a aquisição do guia que escreveu o Mestre de Apipucos, para as suas futuras incursões farristas. Foi pior, pois quase me leva ao debate da obra inteirinha do sociólogo pernambucano, a quem conhecia pelos escritos.

Muito pior tem sido lidar com o cão daqui de casa, Yuri de prenome, sem pedigree e sem sobrenome, dado à pesquisa sistemática nas latas de lixo e noutros depósitos parecidos. O bicho não pode sair à rua, porque ladra para toda a gente que passa, causando pânico, verdadeiramente, dentre os transeuntes, às vezes pacatos, mas noutras ocasiões, enfurecidos e com razão. Tem por costume desaparecer e vagar pela Boa Vista ou pelos bairros adjacentes, especialmente quando encontra parceira canina disposta aos amores nas praças do lugar. Nas primeiras experiências do animal, tomado agora por vagabundo, ouvia-se por cá o pranto desesperado das meninas, mas depois todos se acostumaram com as fugas não aprazadas. 

Num sábado à noite, também, bateu à porta um dos vigias da redondeza e expressou as suas questões em relação ao cachorro. É que estando em seu local de trabalho, mesmo que às voltas com repetidas doses do produto derivado da cana-de-açúcar, contando com os serviços auxiliares de uma cadela, viu-se invadido pelo danado do canídio. Assim, sequestrou o animal e para a sua liberação arbitrara resgate de R$1,00. Mostrei que estava inflacionando o mercado e contribuindo para a falência da estabilização da moeda, mas não houve jeito: “O resgate ou a vida!” Paguei, então, porque tempo é ouro e discutir com sequestrador nem por telefone!

De outra feita, estava bem sentado numa solenidade na Sociedade de Medicina, posto à mesa da presidência, por generosidade do professor Miguel Doherty, inglês de nascimento, mas pernambucanizado já, quando surge o endiabrado do cão à porta, fazendo força com o focinho para abrir e por certo quer entrar. Não sei se, na verdade, tomaria assento comigo, no lugar da pompa, ou se pelo auditório faria opção. Fiz como muita gente faz com o semelhante, quando tomada pelo poder ou por outros ganhos e benesses da existência: virei a cara, fazendo que não via a inusitada figura. 

O cachorro, notando o desprezo emergente, retirou-se e foi me aguardar na rua, pastorando o povo que do teatro vinha saindo. Soubesse desse desejo do animal, tinha dado um nó numa gravata velha e muito usada e com esse adereço pedido ao Doherty a entronização do canídeo. 

Ao tomar o carro para voltar, o flanelinha, integrante dessa nova maneira de ser e de ganhar a vida, indagou: “O cachorro é do senhor?” Sim, respondi. É que desde sua chegada que o espera, depois de ter entrado, mais de uma vez, na Sociedade. Ainda quis tomar o automóvel comigo e fazer o caminho de volta, mas companhias assim, dispenso! Bicho danado esse! Chegou a derrubar uma porta, na casa de veraneio, contanto que se juntasse à cadela, uma poodle das estimas da patroa. Ah porta vagabunda!

E o cão sem gravata vive assim, enlouquecido e enlouquecendo toda a gente.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

segunda-feira, 9 de março de 2026

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) Sururu na circular


Pouquíssimas pessoas devem se lembrar. Foi um dos entreveros mais assustadores até hoje acontecidos em Maringá. Se deu no ano em que aqui cheguei, 1955, num ônibus da Circular, quando os concessionários do transporte coletivo na cidade eram os Irmãos Polônio.

Começou quando, dentro de um bus superlotado, um sujeito atrevido buliu com a mulher de um sujeito zangado. O sujeito zangado não gostou do abuso e num surto de ciúme e brio partiu com socos e pontapés pra cima do sujeito atrevido. 

Num instante estavam os dois embolados no corredor, aprontando o maior auê. Os outros passageiros tentaram inicialmente desapartar a briga, mas a confusão se esparramou e num súbito todo mundo estava trocando sopapos. O motorista estacionou perto do Posto Maluf e entrou também no sururu. Os passantes paravam, formando uma multidão em redor. 

Alguém das lojas vizinhas telefonou espalhando a notícia e aí foram chegando o jipe da polícia, os carros da imprensa e do rádio, os curiosos em geral, até que apareceu o carro-pipa dos bombeiros com as mangueiras apontadas para o palco da batalha. Só então começaram a esfriar os ânimos e os passageiros foram saindo, uns empurrando os outros. Cena medonha: caras arranhadas, braços quebrados, roupas rasgadas, fotógrafos pendurados nos galhos das árvores registrando os “melhores” lances.

A Rádio Cultura ficou o resto do dia  falando do furubudum. Os dois jornais locais (O Jornal e A Hora), no dia seguinte publicaram (como de costume ampliando as dimensões) todos os detalhes do pancadoroso evento.

Só que, no meio de todo aquele forrobodó, o tal sujeito atrevido, que bulira com a mulher do sujeito zangado, aproveitou pra sumir. Queriam que ele fosse em cana pra deixar de  ser desaforado, mas no fim só quem foi levado pra prestar satisfação foi o sujeito zangado, logo porém liberado pra virar um quase-herói, com direito a dar entrevistas e ver sua foto na primeira página dos matutinos.
===============  
(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 18.9.2025)
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 8 de março de 2026

Nilto Maciel (Trapos)


Tomás olhava para os carros em movimento. Trânsito maluco! Os motoristas dirigiam em alta velocidade. Agarrado ao volante, Gilberto nem piscava. Já se tinha acostumado àquilo. Dirigia em Brasília havia quase vinte anos. E também no Rio, em São Paulo, outras cidades, estradas. Não apenas acostumado: não sentia nenhuma dificuldade em dirigir. O colega afrouxou o laço da gravata, coçou o queixo e se voltou para ele. Como as pessoas podiam se acostumar ao caos? Carro, o grande mal da humanidade. Se o homem não acabasse com o carro nos próximos dez anos, a vida ia ficar insuportável. Não falava apenas da poluição, porque os combustíveis usados hoje podiam ser substituídos por não poluentes. Falava do excesso de veículos nas ruas, dos engarrafamentos, dos atropelamentos, dos acidentes. Além disso, as pessoas não andavam mais, viviam dentro dos carros. Gilberto tentou falar. O outro aumentou o tom da voz. Sempre mais solidão, o isolamento das pessoas. Gilberto sorriu e levou a mão direita ao boné. Ora, não fossem os carros, seria muito mais difícil viver nas grandes cidades.

Estacionado o veículo diante do shopping, o motorista trancou as portas. Um rapaz se aproximou. Podia vigiar o carro? Tomás acendeu um cigarro. Os dois se puseram a caminhar. A falta de policiamento na cidade deixava todos inseguros. Se não havia polícia suficiente, os desempregados viravam guardas dos cidadãos. Gilberto contestou o amigo. Vigias davam segurança às pessoas. Portanto o desemprego não significava necessariamente um mal. Quem vigiaria os carros? Duas moças caminhavam à frente dos dois homens. Tomás chamou a atenção do companheiro: a pobreza deixava as mulheres feias. Se se alimentassem bem, se vivessem condignamente, como seriam belas. Gilberto discordava disso: mesmo maltratadas, as brasileiras não deixavam de ser bonitas. O parceiro diminuiu o tom da voz: Mesmo sem dentes, sem carnes, descoradas? O outro gargalhou. Importava apenas o sexo. Ou Tomás não apagava a luz quando se deitava com alguma mulher?

Sentaram-se em cadeiras de um bar, na calçada do Conjunto Nacional. Gilberto suspirou e voltou-se para o Teatro Nacional. Havia tempos não via uma peça. Um menino se avizinhou deles. Se queriam engraxar os sapatos. Tomás ajeitou a gravata e examinou a cara do garoto. Os olhos do pequeno brilhavam. Um garçom se acercou da mesinha. Cerveja ou chopes? Gilberto arregalou os olhos. O comparsa aceitou a proposta do menino e esticou a perna na direção dele. Outros engraxates passavam ao largo, com suas caixinhas. Tomás encarou o colega: Não gostava daquele lugar, tão perto da Rodoviária, sem sossego. Por outro lado, a infância abandonada, trabalhando duro, sem estudo, sem nada. Gilberto reclamou da demora do garçom: pior na África, onde nem trabalho havia. As coisas estavam melhorando no Brasil, apesar dos governos. O garçom se abeirou deles, conduzindo dois copos. Tomás não acreditava mais em mudanças. O sonho socialista tinha acabado. A humanidade não se sentia ainda preparada para grandes mudanças sociais. O menino batia na caixinha. Gilberto sorveu metade da bebida. Concordava, em parte, com o amigo. A humanidade mudaria às custas das invenções, das descobertas, das máquinas. Nova revolução se dava no mundo, graças ao computador. 

Tomás se voltou para o teatro e lembrou conversa de dias atrás: as salas de cinema amesquinhavam-se nos shoppings ou cediam lugar para templos de seitas messiânicas, as pessoas se trancavam em casa para ver televisão e computador. Quando menino, a maior diversão era ir ao cinema: Tarzan, caubóis. O garoto não parava de observar os dois homens. Gilberto chamou o garçom. Não deixava de ser interessante ver filmes em casa. Mais sossegado, mais seguro. E o direito de ir ao banheiro, a qualquer lugar, quando bem quisesse. Quanto custava mesmo o serviço? Tomás deu o dobro do pedido. O menino sorriu e agradeceu a ajuda. 

Gilberto suava: apesar do conforto de ver filmes em casa, preferia o cinema. A tela grande, a sala repleta de espectadores, o som. O amigo acendeu outro cigarro. Importava mais a história do filme. Por isso, preferia filmes dublados. O outro se fez indignado: não, de jeito nenhum. A legenda matava a originalidade do filme. A fala, a voz dos atores: absolutamente fundamental. Tomás se engasgou com a bebida. Quem iria assistir a uma peça de teatro em outra língua? Seu interlocutor arregalou os olhos: ora, impossível colocar legendas em teatro. Passou uma jovem rebolando pela calçada. Gilberto olhou de soslaio para ela: Não existiam mais raparigas, mulheres de vida fácil. O companheiro despejou chope na boca. Raparigas eram moças, mulheres de vida fácil não existiam, nem tinham existido nunca. Vida difícil para todas. Passavam duas mulheres em requebros pela calçada. Tomás apalpou a carteira de cigarros. O parceiro tinha estado ultimamente com Celina? Gilberto esfregou as costas da mão na testa. Celina, uma pobre coitada. Ele não queria nada com a colega. Ela bebia muito. Sem contar outros defeitos. Como não saber se comportar na cama. Tomás gargalhou. Comportar-se bem ou mal? O outro apanhou o copo. Gostava de mulheres fogosas, criativas. E Tomás gostava de quê tipo de mulher? O comparsa pôs um cigarro nos lábios: De pele branca, se possível alva; cabelos claros ou negros; magra, porém de quadris arrebitados; seios pequenos; estatura baixa ou mediana. Para ele, bastava um simples toque, um olhar demorado, a aproximação dos corpos, e já sentia o início de uma revolução nos países baixos. 

O garçom corria entre as mesas, atônito. Gilberto retirou os óculos e os esfregou na camisa: O colega tinha lá suas razões, porém ele preferia as gordas, morenas, peitudas. Ao longo da vida havia se deitado com dezenas desse tipo. Tomás não sorriu: Cátia gostava de outro e por ele nunca sentiria nada, a não ser asco. Ao lado, um homem se pôs a vomitar. Muitos outros se levantaram de suas cadeiras, se afastaram, protestando. Gilberto ajeitou o boné. Normal aquilo: muita bebida. O outro arregalou os olhos. O homem vomitava sangue. Um garçom se achegou. Logo, ao redor do homem se formou um grupo de curiosos. O doente caiu no chão, a estrebuchar. O chão se encharcava de sangue e vômito. Um odor forte tomava conta do ambiente. Gilberto suava e limpava os óculos. Talvez água fria resolvesse a situação. O cúmplice anunciava morte. Pouco a pouco o homem se foi paralisando, em estertores lentos. Gilberto levou as mãos ao boné: O bêbado iria descansar, dormir. Tomás acendeu um cigarro: O moribundo se acabava feito um trapo.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

sábado, 7 de março de 2026

Eduardo Martínez (Meu amigo Marco Antônio)


Essa história aconteceu há tantos anos, que nem me lembrava mais, até que o frio aqui em Porto Alegre me pegou de jeito e, talvez, tenha feito o meu cérebro pegar no tranco. É que sou dessas raras pessoas que não suportam nem uma brisa leve, pois o corpo já fica todo arrepiado. Tanto é que gosto de repetir sempre uma frase: "Quem gosta de frio é pinguim ou picolé!"

Pois bem, lá estava eu no terceiro semestre do curso de jornalismo, sentado bem próximo à porta da sala, quando um rapaz, que eu já conhecia de vista, se sentou e puxou conversa. 

– E aí, fez o trabalho?

– Fiz. 

– Quem está no seu grupo?

– Eu fiz sozinho, pois o meu grupo me expulsou.

– Quem era do seu grupo?

– A Vívian, a Tatiana, a Fabiane e a Angelina. E você fez?

– Não. Também fui expulso do meu grupo.

– Quem era do seu grupo?

– A Cíntia.

– E quem mais?

– Só a Cíntia e eu mesmo.

– O quê? Como você conseguiu ser expulso de um grupo de apenas duas pessoas?

– Pois é...

– Coloque o seu nome aqui no meu trabalho. Melhor um grupo de dois que de um.

E foi assim que conheci o meu grande amigo Marco Antônio, o Kiko, que me fazia rir muito com as imitações do Michael Jackson cantando Billie Jean. Fizemos algumas investidas no campo jornalístico, criamos alguns fanzines e, até, um periódico chamado Catraca. Mas isso é uma outra história, que talvez eu conte um dia.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Blog do Menino Dudu. 17.05.2022
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sexta-feira, 6 de março de 2026

Nilto Maciel (Mea culpa)


Algumas horas após o cometimento do crime, familiares, amigos e vizinhos da vítima se dirigiram à delegacia de polícia da pequena cidade. Revoltados, gritavam, exigiam a imediata prisão do criminoso, ameaçavam invadir o prédio. Se o celerado já estivesse preso, que o soltassem. Queriam linchá-lo. A multidão crescia e a rua parecia em pé de guerra. Nenhum soldado aparecia. 

Passados alguns minutos, o delegado se aproximou da porta, aparentemente muito calmo. O povo urrava sem parar. Cadê o criminoso? Queremos fazer justiça! 

O homem pediu serenidade de ânimo e silêncio. E iniciou breve discurso. Meia dúzia de frases sem sentido, obscuras, incompreensíveis, como se falasse latim. Para encerrar, convidou as pessoas a se dirigirem à sua sala. 

Uma a uma ou casal após casal. Primeiro os pais da vítima. Fizessem fila. Dois minutos depois, o casal saiu, silencioso e cabisbaixo. E caminhou na direção de casa. A terceira pessoa voltou mais silenciosa e mais cabisbaixa ainda. E assim aconteceu com todos e a rua da delegacia voltou à paz de antes.

Passaram-se dias, meses, anos, e nunca mais na pequena cidade se falou do crime ou do criminoso. Na rua os cidadãos apenas se cumprimentavam, ainda cabisbaixos: bom-dia, boa-tarde, boa-noite. E voltavam para suas casas, calados.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

(Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.)

quinta-feira, 5 de março de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 153


A imagem é caseira, embora não seja aqui em casa.  Acordo, levanto, vou à sacada e enxergo o portão de entrada, cadeiras, alguém sentado, o cãozinho companheiro. Vozes da cozinha. Diálogo dos vizinhos.   

Lá dentro é só vida morta - a sala, a TV, quadros, tapetes. Não animam, pouco seduzem, nada de curiosidades. As paredes não falam, o teto é um ausente, os ventares passam ligeiro, ventando em busca da  liberdade ventaneira. 

Ergo o olhar. Uma tela. A porta dos fundos. Pequeno mundo?  Bons caminhos? Não se sabe... Mas talvez... A vida tem tantos lugares que parecem ser o encontro da esperança - bom viver, densas horas, sortilégios benfazejos.

Além daquela porta regurgitam os verdes, as árvores, a horta, os frutos, o sol, cantam os pássaros. Céus, lonjuras, infinitos. Pensares livres, olhos altaneiros, a visão distante. 

Vida plena. Além daquela porta.  
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing  

Renato Benvindo Frata (Vade retro!)


Se tristeza é uma charada
que atrasa o tempo da gente,
a vida é longa piada
que manda adiante o presente.

Sexta à tarde, estressado, pensei: "quando voltar, estarão à minha espera aqueles a quem detesto. Maldita Solidão, maldito Tédio." Nesse tempo de recolhimento forçado não é fácil me amoitar no fim de semana com a presença desses indesejáveis.

Tudo vira "um saco"!

Pois tiro e queda! Lá estavam.

Só que exageraram: trouxeram outra personagem: a Ansiedade. E, indisciplinados, esbarraram na minha sombra, me angustiando mais.

"Sexta, com o corpo pedindo banho morno e sossego, obrigar-me a fazer sala a esses doidos, é dose pra leão... Preciso de luz!", pensei.

Não existe coisa pior num fim de semana gasto com visita inconveniente. Então, para me distrair, abri uma garrafa de Merlot e, ao tirar a rolha e sentir o espraiar do aroma especial do vinho, notei que os visitantes se encolheram, olhando-me assustados, o que me levou ao raciocínio de que talvez estivesse ali a solução: "se Solidão, Tédio e Ansiedade se constrangem diante do Merlot, irei usá-lo como antídoto aos seus venenos, claro!"

E, sem muito esperar, enchi logo uma taça bojuda, alta, transparente, dessas que fazem tintim logo na primeira pegada e mandei o conteúdo pro peito em goles grandes, sedentos. O resultado - que esperava - foi a leva de palavrões que as visitas, ao se sentirem afrontadas, por certo proferiram.

Tá bem que somente eu escutei, mas, enquanto reclamavam, servi-me rapidamente da segunda taça e, aproveitando a oportunidade, mandei-a para dentro com uns salgadinhos de queijo, salame, azeitona e petiscos que se leva para casa numa sexta-feira. E aí a coisa pegou: eles se rebelaram prometendo nunca mais voltar.

Bem, é evidente que logo vieram a terceira e a quarta taças e, com elas, a segunda garrafa, que logo foi aberta, a comprovar que na sexta à tarde, na friagem desse ingrato inverno, com um sábado e domingo a enfrentar pelo isolamento que a Covid impôs, nosso autocontrole tem que ter um aliado e, com ele, a estratégia Macbeth: "aos amigos, tudo; aos inimigos, o veneno", Pois "Danem-se esses insolentes!".

Ao sorver a quinta taça (não se deve entrar numa guerra com pouca munição), descobri que o Merlot também guarda segredo: traz em si a alegria que, se puxada como laço como fazem os cowboys, põe-nos brilho nos olhos, riso na cara e gargalhada na garganta. E mais; põe-nos alegria no coração. É um fenomenal espantador de tristeza! A quinta taça de Merlot, pela jovialidade que a envolve, se transborda em um mundo de estrelas, solta-nos o riso que se prendeu na semana e flui de maneira desbragada.

Esquece o tudo de ruim, especialmente dessa pandemia dos infernos que leva sem piedade nossos amigos, vizinhos e parentes.

O vinho faz mais: transforma a borda tingida da taça em um escancarado sorriso de felicidade, mesmo que isso se dê apenas na efemeridade do torpor. Por isso mandei ligeirinho pro peito aquela taça e preparei a sexta. E, de taça em taça, ri, gargalhei da cara de desânimo do "Trio Parada Dura" na sua visita de fim de sexta.

Tenho certeza de que eles, Solidão, Tédio e Ansiedade, não esperavam por essa! Merlot neles!
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) O maior perobal do mundo


Para que Maringá pudesse existir foi preciso pedir licença à natureza para roubar dela o que Jorge Ferreira Duque Estrada chamou de “o maior perobal do mundo”.

A grande floresta original era formada por paus-marfins, paus-d’alho, jacaratiás, figueiras, cedros, palmitos e outras espécies. Porém a peroba rosa predominava. Predominou até o começo dos anos 1940, quando aqui chegou um empreiteiro chamado João Tenório Cavalcanti, comandando um exército de 800 machadeiros, com a missão de abrir espaço para a entrada do “progresso”.

O sacrifício da mata fazia parte de um gigantesco projeto de colonização promovido pela Companhia Melhoramentos. Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena.

Mas aqueles 800 machadeiros, também conhecidos como “peões”, precisavam de comida, roupa, remédios etc. Foram chegando então os primeiros comerciantes e prestadores de serviços. Ângelo Planas e Napoleão Moreira da Silva logo se destacaram, visto que, além de abastecer a população pioneira com “secos e molhados”, funcionavam como uma espécie “bancos”.

Na medida em que “o maior perobal do mundo” ia sendo derrubado, iam se instalando nas clareiras os primeiros compradores de sítios. Erguiam ranchos e de pronto começavam a plantar café, feijão, milho e a criar galinhas e porcos.

Ao mesmo tempo iniciava-se a construção da cidade. Primeiro, lá no alto, o povoado do Maringá Velho; depois, na planície, o Maringá Novo.

Foram surgindo também, naturalmente, os primeiros líderes políticos. Planas e Napoleão depressa se caracterizaram como “pais de todos”. Chegavam a intervir até em brigas de casais, como pacificadores. Isso explica por que os nossos primeiros vereadores foram o próprio Napoleão e um irmão de Ângelo, o Arlindo, quando Maringá era ainda distrito de Mandaguari.

Depois foi acontecendo tudo o que vimos acontecer até hoje. No lugar do “maior perobal do mundo”, ergueu-se uma das cidades mais bonitas do planeta.
==================
(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 26-2-26)

Texto enviado pelo autor. 

Aparecido Raimundo de Souza (Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho)


“ESTAR SÓ” é diferente de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só” pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de fantasmas, os mais diversos que atormentam com seus traços remotos e obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só” pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem os latidos cativos do cachorro. 

Nessa hora, o “estar só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a alma. 

Além de pegar pesado, se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se reveste de uma balbúrdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos dê o abrigo procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar revolto se apresenta insólito.   

O “estar só” vem com sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos, que do nada transformam tudo ao redor, numa via de mão incerta, de suspensão, sem escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no final ficará bem e em paz. Do mesmo modo, no “estar sozinho” encontramos algo raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta sem máscaras, e sem pressa de ir embora. 

O vazio de “estar sozinho” pode ser assustador, pedante, mas também pode ser fértil. É nele que germina a coragem de recomeçar. No “estar só” o vazio imensurável não se condensa em apenas o se sentir envolvido ou se quedar num talvez ou na ausência do sem companhia. É como se o mundo inteiro se recolhesse, deixando apenas o retumbar da própria existência. Nesse espaço sem portas abertas do “estar só” e se ver sem fronteiras, cada pensamento se amplia, cada lembrança se torna mais nítida, cada dúvida mais operosa e pesada. O vazio não tem divisória, mas aprisiona. Não tem relógio, mas prolonga o tempo. É um território onde o coração se pergunta se ainda pulsa por alguém ou apenas por si mesmo? 

No “estar sozinho” também há uma estranha beleza, verdade seja dita, nesse silêncio. E nele, percebemos que a solidão não é inimiga, mas espelho. O vazio nos devolve aquilo que tentamos esconder. Por assim dizer, medos, desejos, esperanças... eles de comum acordo nos obrigam a olhar para dentro, mesmo quando preferiríamos fugir de nós mesmos. Talvez seja nesse espaço imensurável que se revela a essência da vida: a consciência de que somos pequenos diante do infinito, mas ainda capazes de preencher o nada com significados. O vazio não é fim, é convite. Convite para escutar o que nunca ousamos dizer em voz alta. 

“Estar só” é dizer tudo, a bem da verdade, gritar a nós mesmos. Há momentos em que “estar só” não é apenas ausência de companhia, mas mergulho num espaço sem medidas. O vazio imensurável não se descreve: ele se sente. É como se o mundo se afastasse, deixando apenas o peso mórbido da própria consciência contida no Universo. Nesse silêncio, cada pensamento se torna um espelho. O que antes era distração vira revelação. O vazio não é apenas falta é presença de tudo aquilo que evitamos encarar. Ele nos devolve a nós mesmos, nos agrega, e o faz sem máscaras, sem ruídos, sem fuga.

No “estar só”, a solidão se torna paradoxal: vira um pássaro de voo incerto, ao mesmo tempo que nos assusta, do mesmo modo nos abre. Nesse abrir, nos revela por inteiro. O vazio nos lembra que somos finitos diante do infinito, mas capazes de dar sentido ao Nada. É nesse espaço suspenso que nasce a pergunta essencial: quem sou eu, quando não há ninguém para me definir? Talvez o estado de “estar só”, o vazio seja menos um abismo e mais um convite. Um convite para escutar o que sempre esteve dentro, mas que só se revela quando o mundo se cala. E, de certa forma, tenta nos emudecer também.

“Estar só” num vazio imensurável é como caminhar por dentro de nós mesmos, sem mapa, sem bússola. O silêncio se torna espesso, quase palpável, e a alma se pergunta se ainda há chão sob os pés. Mas há sempre um chão. Sempre! Para mim, ele tem cheiro de terra molhada. É nele, no “estar só”, que meus medos e receios trabalham entre o sol que castiga e a sombra que consola. Enquanto eles cuidam da vida que brota da Terra, eu me descubro refazendo a vida que jorra, que desponta, que cultiva os meus pensamentos.

O desabitado, de “estar só” num certo momento, deixa de ser apenas ausência. Ele se mistura ao canto dos pássaros, ao vento que atravessa o campo, ao ritmo lento das horas rurais. E nesse contraste, percebo que a solidão não é deserta, mas se faz dócil numa espécie de espaço fértil. O nada pode ser preenchido com raízes, memórias e pertencimentos. Talvez o oco imensurável do “estar só” seja apenas o outro nome do “estar só” Entre tapas e beijos, percebo que ambos buscam por alguma coisa.  É no silêncio do “estar só” que essa busca encontra repouso: entre o trabalho dos meus braços e o meu próprio mergulho interior. 

No “estar só”, ah, no estar só, existe uma ponte invisível que me lembra que não “estou só”. Aliás, resumindo, nunca estarei “totalmente só”. Jamais me verei, “completamente só”. Ambos os tempos mudam de nome, não importa. A toda hora, a todo momento algo novo aparece do nada e me renova o espírito. O “estar só” e o “viver só” me enaltecem, sobremaneira, me engrandecem, me aprimoram, vivificam a minha vida “sempre para melhor, como ser humano”. “Todos os dias, sobre todos os pontos de vista, como dizia Omar Cardoso, eu vou cada vez melhor”.  

Texto enviado pelo autor. 
Imagem: IA Microsoft Bing

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Monsenhor Orivaldo Robles (Menos, por favor!)


Nunca me contagiou o entusiasmo com que pessoas exibem fotos de viagem ou álbum de casamento. Como troféus reunidos para exposição pública. Passeios ou eventos podem ser interessantes para quem lá esteve. Para quem ouve contar, ou tem que ver fotos que não acabam mais, eles se tornam, quase sempre, um aperreio. Mais de uma vez me questionei se pensar assim não seria azedume ou deselegância de minha parte. Vai ver, todo o mundo aprecia. Eu é que sou diferente do resto dos mortais, o único do contra. A infância pobre da roça deixou-me um tanto arredio a práticas com que não fui acostumado.

Por isso, me confortou a leitura de um conselho, que julguei de muita sabedoria: “Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só para quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve”. Mais preparada que eu, a autora responde pelo nome de Ivone Boechat. Expõe no currículo títulos de mestre em Educação, pedagoga, conferencista e escritora. Estou, portanto, em apreciável companhia. Generalizar é injusto, mas para certas pessoas mostrar fotos não seria uma afirmação de superioridade? De deixar bem claro: eu sou superior, porque estive neste lugar maravilhoso?

Desde o berço, através do choro, sentimos necessidade de marcar nossa presença. Precisamos mostrar que o mundo gira em volta do nosso umbigo. Há mais de cinquenta anos, antes, portanto, da invenção do celular, foi feita uma pesquisa na central telefônica de Nova Iorque, onde ficavam registradas todas as ligações. O objetivo era saber que palavra os usuários falavam com maior frequência. Ganhou de lavada uma palavrinha de apenas uma letra, em inglês: I (eu). Vale dizer: eu sou mais importante que tudo. Não só lá; no mundo inteiro. Basta conferir. Numa foto de várias pessoas, no meio das quais também estamos, para qual olhamos primeiro? Se vamos falar de um grupo do qual fazemos parte, por quem começamos? Enumeramos assim: eu, fulano, sicrano, beltrano etc. não é? Quem vai à frente? Claro, o mais belo, inteligente e importante de todos, que sou eu. Assim agimos todos, desde que nos conhecemos por gente. Achamos a coisa mais natural do mundo. Estranhamos se alguém faz o contrário.

Importa descobrirmos nossa real identidade. Cinco séculos antes de Cristo, o filósofo Sócrates já prescrevia: “Conhece-te a ti mesmo”. Para isso os mestres da vida cristã aconselham a saudável prática do exame de consciência. Ele nos revela, sem perigo de engano, nossas virtudes e defeitos. Nossas potencialidades e limitações. Quem se conhece não fica aborrecendo os outros com o cansativo relato de sua grandeza, quase sempre ilusória. É extremamente enfadonho conviver com um egocêntrico. O desconfiômetro do infeliz está sempre avariado e nenhuma oficina conserta. Vira e mexe, seu papo cai naquilo que mais adora: deitar louvação de si mesmo. De sua pessoa, de suas conquistas e vantagens, sempre maiores do que tudo o que os outros conseguiram. Quem pode sentir-se bem ao lado de quem se julga sempre superior? Que graça tem saber de antemão que seremos tratados como inferiores?
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 23.06.2012

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nilto Maciel (O perdão)

“– Tu aguenta mesmo um homem?"
 Os anões, Moreira Campos
O anão chorava abraçado ao corpo da anã. Descontrolado, fazia a rede balançar, como se embalasse a morta. 

Uma vizinha entrou no casebre. Por que chorava o anão? Nem sequer olhou para a mulher. Outros vizinhos se aproximaram da porta da casinha. Meninos tentavam sondar o interior da sala e saíam correndo para o mar. 

Amanheceu morta, o coração parado. Pobre Lourdinha! Coitada, deve ter morrido dormindo. Melhor assim; não sofreu para morrer. 

O anão chorava sem parar. Acendessem uma vela. Onde arranjar vela? Uma mulher se esgueirou. Lembrava-se de um toco de vela em cima da mesa. Ia num pé e voltava noutro. Começassem a reza. O bater das ondas na praia cadenciava a reza. Ave-maria, cheia de graça. Trouxeram uma garrafa de cachaça. O anão recusou a bebida. Precisava chorar. Sua pobre Lourdinha havia sofrido muito. Não por causa dele, mas dos outros. Nunca nela bateu e ela estava ali como testemunha. Outros, sim, quiseram usar o corpo dela, tão pequeno, como de menina. Como aquele negro safado, anos atrás. 

Consolavam o anão. Bebesse um tiquinho para se acalmar. Ele voltava à rede, ao corpo da mulher. Ave-maria, cheia de graça. Acenderam o toco de vela. Ia ter caixão? Procurassem o padre na igreja. E se Lourdinha estivesse ainda dormindo? Costumava beber muito de noite? Nunca, nunca bebia. E como tinha sido a história do negro? 

Muitos anos atrás, quando ainda moravam num armazém abandonado, perto do Mercado Central, um homem arrombou uma das portas. Acordaram assustados. Na mão do bandido o relógio de ouro de Lourdinha. E o pior: o deboche, a perguntar se ela aguentava mesmo um homem. Não conseguia esquecer aquilo. Anos e anos passados e ainda assim a figura do negro aparecia diante dele, a resmungar imundícies. 

Depois daquilo, Lourdinha nunca mais foi a mesma, sempre nervosa, com medo de tudo e de todos, chorosa, querendo ir embora para bem longe. Uma casinha na beira da praia. Não rezavam mais, a garrafa de cachaça vazia e o toco da vela apagado. E o padre? 

Tome um golinho, vizinho. Não lhe pronunciavam o nome nem o chamavam de anão. Quem ia arrumar a defunta para o enterro? 

Súbito assomou à porta a figura musculosa de um negro. O anão arregalou os olhos, fez um esgar, rangeu os dentes, retesou-se todo. E correu para junto da rede e do corpo da anã. Os outros se afastaram para os cantos das paredes. O mar rugia feito um monstro em fúria. O visitante juntou as mãos, como se fosse rezar, e disse: vim pedir perdão pelo que fiz e trazer um relógio de ouro para a sua mulher.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

Eduardo Affonso (Assim, do nada)


A teoria da geração espontânea foi abandonada no século 19. Uma pena. Só ela era capaz de explicar certos fenômenos.

Ponha toda a roupa na máquina para lavar. Toda. Esvazie a cesta de roupa suja, cate no chão do banheiro, pegue o que estiver jogado em cima do sofá, da cama, das cadeiras. Passe um pente fino pela casa. Assim que tiver fechado a tampa da máquina e acionado o “Iniciar”, um par de meias brotará de dentro de um pé de sapato.

A comprovação científica da geração espontânea das meias é simples. Instale câmeras sobre todos os pares de sapato e confirme, in loco, que não há meia alguma lá dentro. Dê printe das telas, por garantia. Feche a tampa da máquina, aperte o “Iniciar” e plum!  um par de meias (sujas) surgirá, do nada, num dos sapatos. Ou tênis. Ou crocs. Há registros de ter surgido até dentro de sandálias havaianas – mas só no Paraná, e no inverno.

Lave a louça da pia. A louça que ficou na mesa, depois do almoço. As canecas esquecidas sobre os aparadores. O copo que dorme sobre a mesinha de cabeceira para o caso de você acordar com sede ou de um rivotril só não ter sido suficiente para te fazer pegar no sono. Lavou tudo? Limpou o tampo da pia, deixou tudo brilhando? Um prato (sujo) nascerá, de geração espontânea, em algum lugar da casa. Em cima da máquina de lavar roupa, por exemplo – certamente esquecido no parágrafo anterior, enquanto você se preocupava com as meias.

Como a natureza é sábia, é preciso uma contrapartida para esse surgimento inexorável e irrefreável de meias, cuecas, camisetas, pratos e talheres – todos sujos. É por isso que meias somem (dentro da máquina, de preferência). Que camisetas que você jurava que tinha evaporam das gavetas. E que pratos aparecem trincados, guardadinhos no armário, prontos para ser jogados no lixo. Não, não é culpa da Celeste, que tem mão pesada e costuma ir embora carregando uma sacola de um jeito meio suspeito. É o equilíbrio ecológico, para impedir que o planeta saia da órbita, soterrado por meias usadas e louça suja, geradas espontaneamente.

Problemas, boletos e gente sem noção também surgem do nada. Você dirá que problemas e boletos não são organismos. Ingenuidade sua. Eles têm DNA, ribossomo, mitocôndria, citoplasma. Se reproduzem por partenogênese, por esporulação, brotamento, cissiparidade. (Eu sabia que ainda ia usar esse vocabulário algum dia. Que aquelas milhares de inúteis aulas de Biologia que me roubaram parte da adolescência e do prazer de viver tinham que servir para alguma coisa. Pronto, serviram. Obrigado, d. Sonia.  Obrigado, prof.  Haroldo).

Políticos cuja existência você ignorava brotam na sua página para soltar os cachorros em cima de você a cada postagem sua que blasfeme contra a divindade que eles cultuam.  Outros que você nunca viu mais gordos desabrocham em comentários iracundos – basta que você ouse desmitificar o seu mito. Os mais céticos dirão que são robôs, que são feiques, que há seres supostamente humanos por trás deles. Que gente sem noção não irrompe assim, feito cogumelo em pau podre depois da chuva.

Lamarck, que acreditava que a girafa, de tanto esticar o pescoço para pegar as folhas mais altas, foi ficando pescoçuda e gerando filhotes pescoçudinhos, também devia ser reabilitado. Cesare Lombroso é outro que merecia uma segunda chance.
=======================================
Arquiteto mineiro de Belo Horizonte, 1950. Colunista do jornal O Globo. Coordena a Oficina Literária Eduardo Affonso, voltada para cronistas. Participa do coletivo literário Flique Nenhum livro publicado.

Fonte:
Blog do autor. 11.05.2020