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sábado, 3 de outubro de 2026

Aventuras de Pedro Malasartes 2

 MALASARTES FAZ O URUBU FALAR

Quando o pai de Pedro Malasartes entregou a alma a Deus, fez-se a partilha dos bens -uma casinha velha entre os filhos; e tocou a Pedro uma das bandeiras da porta da casa, com o que ele ficou muito contente.

Pôs a porta no ombro e saiu pelo mundo. Em caminho viu um bando de urubus sobre um burro morto. Atirou a porta sobre eles e caçou um urubu que ficou com a perna quebrada. Apanhou-o, pôs a porta às costas e continuou viagem. Obra de uma légua ou mais, avistou uma casa de onde sala fumaça, o que queria dizer que se estava preparando o jantar.

Pedro Malasartes, que sentia fome, bateu à porta e pediu de comer. Veio atendê-lo uma preta lambisgóia que foi logo dizer à patroa que ali estava um vagabundo, com um urubu e uma porta, a pedir de jantar.

A mulher mandou que o despachasse, que sua casa não era coito de malandros. O marido estava de viagem e a mulher no seu bem bom a preparar um banquete para quem ela muito bem o destinava. Neste mundo há coisas!

Pedro Malasartes, tão mal recebido que foi, resolveu subir para o telhado, valendo-se da porta que trazia e lhe serviria de escada. Subiu e ficou espreitando o que se passava naquela casa, tanto mais que sentia o cheiro dos bons petiscos.

Espiando pelos vãos das telhas viu os preparativos e tomou nota das iguarias, e ouviu as conversas e confidências da patroa e da negra.

Justamente na hora do jantar chegou o dono da casa que resolvera voltar inesperado da viagem que fazia. Quando a mulher percebeu que ele se aproximava, mandou esconder os pratos do banquete e veio recebê-lo e abraçá-lo, muito fingida, muito risonha, mas por dentro queimando de raiva. Vai dai mandou pôr na mesa a janta que constava de feijão aguado, paçoca de carne seca, dizendo:

-Por que não me avisou, marido? Sempre se havia de aprontar mais alguma coisa...

Sentaram-se à mesa.

Pedro Malasartes desceu de seu posto e bateu na porta, trazendo o urubu.

O dono da casa levantou-se e foi ver quem era. O rapaz pediu-lhe um prato de comida e ele chamou-o para a mesa a servir-se do pouco que havia. A mulher estava desesperada, desconfiando com a volta do Malasartes.

Pedro tomou assento, puxou o urubu para debaixo da mesa, preso pelo pé num pedaço de corda. Estavam os dois homens conversando, quando de repente o Malasartes pisou no pé quebrado do bicho e este se pôs a gritar:
Uh! uh! uh!

O dono da casa levou um susto e perguntou que diabo teria o bicho. Pedro respondeu muito sério:
-Nada! São coisas. Está falando comigo.

-Falando! Pois o seu bicho fala?!

-Sim senhor, nós nos entendemos. Não vê como o trago sempre comigo? É um bicho mágico, mas muito intrometido.

-Como assim?

-Agora, por exemplo, está dizendo que a patroa teve aviso oculto da volta do senhor e por isso lhe preparou uma boa surpresa.

-Uma surpresa! Conte lá isso como é.

-É deveras! Uma excelente leitoa assada que está ali naquele armário...

-Pois é possível! Ó mulher, é verdade o que diz o urubu deste moço?

Ela com receio de ser apanhada com todo o banquete e certa já de que Pedro sabia da marosca, apressou-se em responder:

-Pois então? Pura verdade! O bicho adivinhou. Queria fazer-te a surpresa no fim do jantar.

E gritou pela preta:

-Maria, traz a leitoa.

A negra veio logo correndo, mas de má cara, com a leitoa assada na travessa.

Daí a pouco Pedro Malasartes pisou outra vez no urubu que soltou novo grito. O dono da casa perguntou:

-O que é que ele está dizendo?

-Bicho intrometido! Está candongando outra boca, bicho!

-O que é?

-Outras surpresas...

-Outras!

-Sim senhor: um peru recheado...

-É verdade, mulher?

-Uma surpresa, maridinho do coração! Maria, traz o peru recheado que preparei para teu amo.

Veio o peru. E pelo mesmo expediente conseguiu Pedro Malasartes que viessem para a mesa todas as iguarias, doces e bebidas que havia em casa.

Ao fim do jantar, o dono da casa, encantado com as proezas do urubu, propôs comprá-lo a Pedro Malasartes que o vendeu muito bem vendido, enquanto a mulher e a preta bufavam de raiva, crentes também no poder mágico do bicho, que assim seria um constante espião de tudo quanto fizessem.

Fechado o negócio, Pedro Malasartes partiu satisfeito e vingado.
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OUTRA DE MALASARTES

Andando Malasartes por uma estrada, encontrou-se com um pobre, que lhe pediu esmola. Deu um vintém ao pobre, e este que não era outro senão Nosso Senhor fez-lhe presente de um gorro vermelho, declarando-lhe que só ele Malasartes e ninguém mais poderia pôr a mão naquele objeto.

Tempos depois, cansado de vaguear pelo mundo, entendeu Malasartes de dar um passeio ao céu. Para lá se encaminhou, e depois de três dias de viagem batia no portão de São Pedro.

O santo porteiro perguntou lá de dentro quem era, e ele respondeu; perguntou o que desejava, e respondeu. O santo negou-lhe a permissão pedida; mas o viajante tanto rogou, tanto chorou que ele sempre consentiu em entreabrir a porta para que espiasse um pouco. Mal vê a fresta, Malasartes atira o gorro pra dentro e começa a gritar:

-Quero o meu gorro, quero o meu gorro!

São Pedro prontifica-se a ir buscá-lo, mas o burlão protesta:

-Não pode ser, só eu posso pegar no meu gorro. Ninguém mais, só eu. São ordens de Nosso Senhor.

São Pedro tratou de certificar-se da verdade, e veio a saber que Malasartes não mentia. Não havia outro remédio: deixou-o entrar para apanhar o gorro.

Assim Malasartes conseguiu entrar no céu. Mas não se demorou lá muito tempo...
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MALASARTES NO CÉU E NO INFERNO

Um dia chegou para Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a esperteza; teve que marchar.

Quando se viu no estradão da eternidade, pensou no que faria e resolveu, em primeiro lugar, ir bater à porta do céu.

Lá foi; mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na cara. Então deliberou ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava até os diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi correndo avisar o seu rei.

Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor e correrias por todos os cantos. O próprio Satanás tremeu; mas, recuperando o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se deixasse entrar o hóspede. E disse-lhe:

-Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do que já fez, ainda é capaz de vir aqui revolucionar a minha gente.

– Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui fico.

– Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino pela sorte do jogo. Aceita?

-Feito!

-Se você perder, irá diretinho para o caldeirão.

– Está dito. E se eu ganhar, você me paga com uma das almas que lá estão fervendo.

Começaram o jogo, e cada qual fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro Malasartes era mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras.

Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas sobre almas, postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o insuportável para fora do inferno.

Malasartes andou vagando como alma penada, muito tempo, sem saber onde havia de se aboletar.. Até que um dia teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta do céu, tomou uns ares muito humildes, e bateu devagarinho. São Pedro abriu um postigo, enfiou a cabeça e perguntou:

-Quem bate a estas horas?

-Sou eu, meu santo…

-Eu, quem? Diga o que quer, e toca!

-Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça… Pois eu sou o Pedro Malasartes.

– Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe disse que o seu lugar não é aqui?

-Não se zangue, meu santo, meu grande santo… Sei muito bem que nunca entrarei neste lugar de glória…

-Então vamos ver, o que quer?

Malasartes, com muita brandura e muita lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a porta, um bocadinho, só para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto pediu e tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que depressa Malasartes atirou o chapéu pela fresta.

São Pedro bufou e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se magotes de anjos e de justos ali junto da porta.

Acontece que o chapéu era um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no céu lhe podia tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim, para encurtar, não houve jeito senão, permitir-lhe que entrasse.

E o malandro, entrou, muito contente, com ar vitorioso.

Mas o atrevimento não ficou sem castigo. Levaram o tal para junto de um monte enorme de milho e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou a contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os grãozinhos para um lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um anjo e misturou tudo. E Malasartes teve de contar de novo… E até hoje lá está contando e recontando os grãos de milho, sem acabar nunca.
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Pedro Malasartes 
PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Aventuras de Pedro Malasartes * 1 *

 
Imagem - IA Microsoft Bing
MALASARTES ROUBA AS JOIAS DE UMA FAMÍLIA

E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha uma filha, e ofereceu-se para empregado. E foi aceito.

Como era tempo de chuva, o chiqueiro estava que era mesmo um lameiro. E Malasartes teve logo uma ideia. De noite tocou para longe a porcada do ricaço e, voltando, espetou no lameiro as caudas dos porcos. E, quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada, Malasartes lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados, apenas com os rabos de fora.

O dono da casa mandou-o logo que fosse em casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais.

Pedro Malasartes foi numa corrida e, lá chegando, viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse:

-O patrão mandou que as senhoras me acompanhem. Elas duvidaram, mas Malasartes gritou, perguntando ao patrão que estava lá embaixo:

-As duas, patrão?

-Sim, as duas, e sem demora! As duas, pateta!

E, então, as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore, tirou-lhes todas as jóias que eram de grande preço, fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro.

E, quando o ricaço, cansado de esperar, foi a casa e não encontrou a mulher e a filha, bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malasartes as havia deixado.

Quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos, que ele é que era um pateta de marca.

A muitas léguas dali, o Malasartes negociou a porcada, recebeu o cobre, comprou um bom terno de roupa e foi parar em certa cidade, onde, logo na entrada, havia uma bonita chácara que era do dr. Juiz de Direito.
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DE COMO MALASARTES FAZ MAIS UMA QUE PARECIA DUAS 

Eram já por umas dez da noite. O Malasartes bateu à porta e pediu pousada, dando o nome de doutor Fulano, que vinha visitar aquela terra. O Juiz costumava entrar tarde, pois ficava até à meia-noite fora de casa, jogando marimbo com um seu compadre. E vai então o filho do Juiz na sua simplicidade, mandou entrar o hóspede e, depois de um bom chá, deu-lhe pousada, no quarto da sala, onde o Juiz costumava se vestir. E quando o Juiz chegou, o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem.

E vai então lá pela madrugada o Malasartes começou a sentir umas coisas na barriga...Procurou o vaso e, não o encontrando, abriu a janela... mas lá fora havia uma cachorrada, que foi um barulho de latidos que nunca se viu.

O Malasartes estava suando frio: Mas nisto avistou na prateleira uma caixa. Abriu, havia dentro uma cartola de pelo. Estava salvo! Tirou a cartola, fez nela o que quis, pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava.

De manhã, quando ouviu tropel dos criados saiu e... este mundo é meu!...

Quando vieram chamar o Malasartes para o café, não o acharam mais.

À hora do almoço, o Juiz saiu do quarto e foi para o cômodo em que se costumava vestir.

Era dia de júri. Vestiu a sobrecasaca, e, distraído, tirou a cartola que enterrou, de um golpe, na cabeça.

Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu um cheiro que quase o afogou. Começou então a gritar. A família veio toda, pensando que tinha acontecido alguma desgraça. Ao vê-lo naquele estado, correram todos a buscar socorro. O filho trouxe-lhe um banho, a filha água florida, a mulher sabonete de cheiro.

E depois houve risada que não foi brinquedo, enquanto o Juiz bufava de raiva. E os jurados já estavam cansados de esperar por ele...

Mas o Malasartes já estava longe. Até parecia que tinha parte com Beizebum.
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Pedro Malasartes 
PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Contos e Lendas do Brasil (A Discussão dos Talheres)

Garfo, faca e colher estavam numa gaveta discutindo um assunto sério: quem era o melhor e o mais útil no mundo dos homens.

A faca, vaidosa, dizia:

- Eu facilito a vida do homem. Corto coisas enormes que ele jamais poderia utilizar ou comer sem a minha ajuda.

O garfo, muito metido, disse com empáfia:

- Sem mim os homens teriam de usar os dedos para levarem os alimentos à boca, e como esquecem de lavar as mãos engoliriam tanta bactéria que teriam indigestão bacteriana.

- Você sabe por que o homem comia com os dedos?

- Não. – disse o garfo.

- Porque achavam que o alimento era sagrado e por isso devia ser comido com os dedos.

- Mas sem lavar as mãos, não é, dona faca? Eu continuo dizendo que sou a ferramenta indispensável na mesa dos humanos.

A faca, nervosa, retrucou:

- Deixa de ser burro, garfo tonto. Garfo sem faca é o mesmo que relógio sem ponteiro, um não funciona sem o outro. Eu sou o talher mais antigo da história! Fui feita de pedra e servia para a caça e defesa. Depois passei a ser feita de bronze, isso numa outra época.

- Eu sei, seu bobo enxerido, que o homem oriental usava pauzinho a guisa de garfo, feito de bambu e tinha um nome engraçado, hashi. Isso você não sabia. Sabia? Sei, também, que apesar de você ser antigo só chegou ao mundo ocidental no século XI, na Itália. Você foi criado pelos gregos e adotado no século VII pelo Império Bizantino. Na Inglaterra, até o início do século XVII você era considerado utensílio efeminado.

- Não fale assim de mim, dona faca! – choramingou o garfo - Eu não sou efeminado. Eu nasci para facilitar, não para complicar. Eu sei tudo isso que você falou. Sei que ainda hoje, entre os orientais, permanece o uso dos pauzinhos. Com os pauzinhos o homem demorava muito tempo para comer. Cada vez que ele pegava uma porção para levar à boca, caía tudo de volta para o prato. Comigo não. Ele me enche de comida e eu entulho a sua boca.

- Você, seu garfo, é malvado porque incita o homem a comer demais e muito rápido. O costume de comer muito e rápido é prejudicial à saúde. Os pauzinhos são uma forma de disciplinar a alimentação. Aos poucos e devagar. Com eles não se pode pegar um bolão de comida.

- Não adianta, dona faca, sem esse garfinho aqui o homem é nada vezes nada.

- Ora, não seja convencido! - exclamou a faca – às vezes você machuca a boca das pessoas.

- Ah, é!? E você que corta os dedos das crianças?

- Só das crianças desobedientes. Eu ouço sempre as mães dizendo: “- Crianças não brinquem com facas...”

E o garfo exultante acrescentou:

- Viu, viu como eu sou mais útil do que você? Eu nunca ouvi uma mãe dizer: “- Não peguem o garfo, crianças!” Ah, ah, ah, eu sou bom demais!!!

- Pode rir seu bobo. – disse a faca amuada – O seu deboche não me atinge, porque eu sei que você também é perigoso nas mãos das crianças.

E a discussão continuou. A colher, que estava quietinha lá no seu cantinho, numa das divisões do porta-talher, interferiu:

- Dá licença!

- Pois não, dona colher – disse o garfo.

- Vocês estão nessa discussão boba de quem é melhor, quem é mais útil sem pensar que somos um conjunto. Deus permitiu que o homem tivesse a inspiração para nos criar e fazer de nós o pai, o filho e o espírito santo das cozinhas. Somos a tríade que facilita o trabalho de preparar e ingerir os alimentos. A minha história é meio nebulosa. Foram encontrados, em escavações, objetos semelhantes a mim, provavelmente, com mais de vinte mil anos. Sei que os gregos antigos utilizavam a colher de pau para preparar e comer os alimentos. Como vocês podem ver a minha história não é tão interessante quanto as suas. O que tenho certeza é que já fomos objetos rústicos, hoje somos mais modernos. Somos feitos de metal, plástico e madeira. Somos até joias feitas em ouro e prata. Mas a nossa função é a mesma, desde que surgimos na civilização: ajudar o homem na sua alimentação.

Nós somos a união, e a união faz a força. Lembrem-se que um é complemento do outro. E se é para se gabar de utilidade, eu quero fazer uma pergunta:

- Diante de um fumegante prato de sopa, quem é o mais útil? Ah, ah, ah, ah, peguei vocês.

Fonte:
Maria Hilda de Jesus Alão, in Contar e Encantar

Figueiredo Pimentel (A Corda do Diabo)

Sinfrônio era um homem riquíssimo, dono de inúmeras propriedades e dispondo de fabulosas somas em ouro. Metendo-se, porém, em maus negócios, empobreceu de repente.

Vendo-se na mais completa miséria, resolveu sair do seu país, procurar uma terra onde não fosse conhecido, e ver se conseguia recuperar a fortuna perdida.

Um dia, atravessando uma planície, encontrou o diabo, a quem não reconheceu, todavia.

— Que tens? perguntou-lhe Satanás, conquanto soubesse perfeitamente bem a causa da tristeza de Sinfrônío.

— Para que dizer-te? — respondeu este. — Não me poderás dar remédio...

— Isso é que não sabes; e, desde já, obrigo-me a tirar-te do embaraço, se te obrigares a fazer tudo quanto eu disser.

Em seguida, vendo que Sinfrõnio estava espantado com aquela proposta, deu-se a conhecer.

O pobre homem não sabia que fazer, mas como se achava desesperado da vida, completamente pobre, resolveu aceitar a proteção de Satanás.

Prometeu ficar-lhe pertencendo, com a condição de enriquecer de novo.

— Pois bem, disse o demônio concluindo o pacto, de hoje em diante sair-te-ás bem de todos os negócios em que te envolveres. Se, entretanto, te achares alguma vez em perigo, bastará dizer “Dom Martinho, socorre-me!” e eu te aparecerei.

O capataz do inferno sumiu-se.

Sinfrônio, continuando viagem, chegou pelo meio da noite, a uma cidade.

Aí, certo de que triunfaria, resolveu roubar.

Em todas as casas que pretendia entrar, mal chegava, as portas abriam-se de par em par, encontrava os moradores profundamente adormecidos, e via à mão objetos preciosos.

Então meteu-se em altas empresas, e tornou-se um bandido célebre, terror de toda a região, saqueando viajantes.

Um dia foi preso.

Mal se viu na prisão, lembrou-se do seu protetor e exclamou:

— Dom Martinho, socorre-me!

O diabo apareceu logo e libertou-o.

Vendo-se livre, Sinfrônio recomeçou na sua antiga existência, cometendo toda a sorte de rapinagens.

Novamente foi preso, mas, como da primeira vez, invocou Satanás.

— Dom Martinho, socorre-me!

O demônio veio, mas Sinfrônio reparou que se demorara um pouco.

— Por que não vieste mais depressa?

— Estava ocupado, limitou-se o diabo a dizer laconicamente.

Mais tarde, depois de novos crimes e terríveis façanhas, o nosso herói caiu nas mãos da justiça.

Do fundo da sua prisão chamou Satanás que não veio.

Passaram-se dias, o processo já estava muito adiantado, e só faltava a sentença, quando finalmente mestre Lúcifer veio libertar o amigo.

Posto em liberdade, o bandido continuou ainda na sua horrível existência de rapinagem, com mais afã que nunca, em vez de se emendar.

Pela quarta vez foi preso, encerrado numa masmorra forte, e guardado por sentinelas.

Sem se inquietar muito, Sinfrônio gritou pelo demônio, segundo haviam combinado.

— Dom Martinho, socorre-me!

Decorreram semanas e semanas, até que, enfim, o juiz pronunciou a sentença, condenando-o à morte.

Marcou-se a data para a execução da sentença. Satanás, faltando à palavra, não acudiu à chamada.

Sinfrônio, escoltado pelo carrasco, e por soldados, caminhou para a praça e subiu à forca.

Foi só então que o capataz do inferno apareceu.

— Toma esta bolsa, disse-lhe ele. Aí, dentro estão vinte contos de réis. Dá-os ao juiz que ele te libertará.

O condenado, chamando o juiz, como que para lhe dizer as suas últimas vontades e confissões, fez-lhe a proposta.

O juiz, magistrado desonesto e avarento, escondeu a corda e disse para o povo:

Cidadãos: acaba de suceder um fato extraordinário, que pela primeira vez acontece: esquecemos de trazer a corda para enforcar o condenado. A execução fica pois, suspensa. Quem sabe se Deus não quis, por esse modo, mostrar a inocência do réu? Vai rever-se a sentença mas a justiça será feita.

Prepararam-se os executores para reenviar Sinfrônio para a cadeia.

Nesse intervalo o magistrado abriu a bolsa, mas só encontrou uma corda nova, em lugar dos vinte contos de réis.

Voltou-se indignado, exclamando:

— Cidadãos: acaba de aparecer uma. Foi Deus quem a enviou. Este homem é na verdade um bandido. Enforquem-no!

Passaram o laço no pescoço de Sinfrônio, que vendo-se estrangulado, bradou:

— Dom Martinho, socorre-me!

— Ah! disse o demônio aparecendo, eu não posso fazer nada, quando os meus amigos já estão com a corda no pescoço.

É assim que o diabo, fingindo querer salvar-nos, acaba sempre por trazer a corda para nos enforcar.
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Figueiredo Pimentel (1869 - 1914) 
ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL (conhecido no meio literário apenas como Figueiredo Pimentel) foi um prolífico e polivalente jornalista, romancista, poeta, cronista e folclorista brasileiro. Ficou imortalizado na história cultural por ser o grande pioneiro da literatura infantil e da compilação de contos populares e folclóricos voltados para crianças no Brasil. Nasceu em Macaé/RJ, em 1869. Faleceu precocemente na cidade do Rio de Janeiro, em 1914, aos 44 anos de idade. Embora tenha nascido no interior fluminense, viveu a maior parte da sua vida ativamente na capital federal, o Rio de Janeiro, que serviu de cenário e inspiração para grande parte de suas crônicas e reportagens. Iniciou sua carreira jornalística extremamente jovem, aos 17 anos. Foi redator de grandes veículos e ganhou imensa notoriedade a partir de 1907 ao assinar a famosa coluna "O Binóculo" no jornal Gazeta de Notícias. Por meio de suas crônicas diárias, ele ditava a moda, os costumes e os comportamentos da sociedade carioca da Belle Époque. Foi ele quem cunhou e popularizou o célebre slogan "O Rio civiliza-se", que embalou as reformas urbanas e culturais da capital. Também atuou brevemente na diplomacia.
Foi um autêntico polígrafo (escritor de alta produtividade). Transitou por estéticas variadas, flertando com o Parnasianismo, o Naturalismo e o Simbolismo. Paralelamente à literatura boêmia e aos seus "romances de sensação" (por vezes vistos como escandalosos para a época), ele promoveu uma revolução ao se voltar para as narrativas populares e o universo infantil. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras, que dava os seus primeiros passos no final de sua vida, mas foi correspondente internacional e redigiu sobre as letras brasileiras para a prestigiada revista francesa Mercure de France. Suas obras infantis foram gigantescos sucessos editoriais de venda.
O autor teve dezenas de livros impressos, divididos em fases distintas:
Fase Adulta (Poesia, Crônica e Romance Naturalista): Fototipias (1893) – Seu livro de estreia na poesia; O Aborto (1893) – Romance de estética naturalista; Livro Mau (1895) – Poesias de tom decadente e pessimista.
Fase de Folclore e Literatura Infantil (A famosa "Biblioteca Infantil" da Livraria Quaresma): Contos da Carochinha (1894/1896) – Sua obra mais famosa, que inaugurou o gênero no país; Histórias da Avozinha (1896); Histórias da Baratinha (1896); Teatrinho Infantil (1896) – Considerado o pioneiro em publicar textos dramáticos para crianças no Brasil; Histórias do Arco da Velha.
A relevância histórica de Figueiredo Pimentel é imensurável por dois motivos centrais: ele foi o pai fundador da literatura infantil brasileira e um dos primeiros a aclimatar e democratizar o folclore para as crianças. Antes dele, não existiam livros editados no Brasil pensando especificamente no público infantil; as crianças liam traduções diretas e áridas vindas de Portugal. Pimentel teve a sensibilidade de pegar os contos de fadas clássicos europeus (de Perrault, Andersen e dos Irmãos Grimm) e as fábulas populares, reescrevendo-os em uma linguagem simples, fluida, brasileira e musical. Ao registrar e popularizar narrativas da tradição oral e folclórica local na coleção da Livraria Quaresma, ele preparou o terreno e formou a base de leitores para que, décadas mais tarde, autores como Monteiro Lobato pudessem expandir o universo literário nacional.

Fonte:
Figueiredo Pimentel. Histórias da baratinha. Publicado originalmente em 1896.
Biografia = Wikipedia, UFSC (Literatura Brasileira), UERJ (publicações), Antonio Miranda, Blitz Literária, Editora Atena, etc.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Alberto Figueiredo Pimentel (O Pássaro Mavioso)

Sebastião nascera de pais opulentos. Desde a mais terra infância vivia no meio de grande esplendor, só vestindo seda, gorgorão, veludo, rendas finas; deitava-se em berços riquíssimos e luxuosos; tinha à sua disposição toda a sorte de brinquedos. No entanto, a natureza fê-lo cretino, pateta, tatibitate.

Aos oito anos começou a frequentar bons colégios, e a aprender com professores célebres. Contudo, nunca perdia o ar de tolo que tinha desde criança.

O sr. Leocádio, seu pai, resolveu um dia mandá-lo viajar, para ver se ele assim conseguia melhorar.

Uma manhã Sebastião saiu com bastante dinheiro nas algibeiras, e começou a correr terras.

Depois de viajar algum tempo, foi ter a uma cidade onde estavam fazendo leilão de um pássaro que todo o mundo porfiava para ver se o arrematava.

Indagando Sebastião porque motivo naquela terra um passarinho custava tão caro, disseram-lhe que todo o mundo desejava possuir aquele, porque, quando ele cantava, todos que o ouviam adormeciam no mesmo instante.

Em vista disso o moço lançou elevada quantia e ficou com o pássaro. Prosseguindo na viagem foi ter a outra cidade, onde se estava vendendo um besouro que já estava por elevadíssimo preço.

Sebastião, aproximou-se de um dos homens que estavam no leilão e perguntou:

– Qual é a preciosidade desse besouro para se pedir tão caro por ele?!...

– É que ele invisivelmente faz tudo quanto a gente mandar, e é capaz de arrombar uma porta por mais forte que seja.

O moço arrematou o besouro e seguiu adiante.

Chegando a outro país, viu outro leilão, onde toda a gente oferecia grandes somas para ver se arrematava um ratinho.

Inquirindo da vantagem de semelhante animal, disseram-lhe que aquele rato tinha a particularidade de fazer tudo o que se lhe mandava, e, além disso, era capaz de furar paredes sobre paredes, sem ser pressentido.

Achando que esta terceira preciosidade poderia convir-lhe mais tarde o rapaz arrematou o ratinho e levou-o consigo.

Ao cabo de muitas semanas de jornada chegou por fim a um reino, onde viu imensa multidão fazendo caretas em frente à janela onde estava a princesa Carlota, filha do rei.

Perguntando o que significava aquele povo parado a fazer caretas, responderam-lhe que intentavam ver se conseguiam fazer a princesa rir, e explicaram-lhe que ela, desde que nascera, nunca rira, e que se casaria com ela aquele que o conseguisse, segundo a promessa do rei.

Sem se importar com aquela gente, Sebastião dirigiu-se para baixo das árvores, que ficavam em frente ao palácio, apeou-se do cavalo, e pendurou a gaiola do pássaro num galho.

Ia sentar-se, para descansar, quando se dirigiu para os animais, dizendo:

– Agora, mestre rato, vá buscar água para o cavalo, e tu, besouro, traze capim.

Os dois bichinhos foram fazer o que lhes mandava seu amo. Assim que a princesa viu o besouro trazendo capim para o cavalo, desandou em gostosa gargalhada.

As pessoas que se achavam debaixo da janela, começaram a dizer:

– Fui eu quem fez a princesa rir.

– Fui eu, dizia outro.

E cada qual se julgava ser o único causador de tão grande acontecimento, esperando em vista disso casar-se com a interessante Carlota, e vir a reinar por morte do velho monarca.

O rei, admirado, e ao mesmo tempo para não ter dúvidas, perguntou à filha quem tinha sido o autor daquele assombro.

– Foi aquele homem, disse a princesinha, que está sentado embaixo da árvore, com uma gaiola e outros bichos mais.

Sua majestade imediatamente ordenou que Sebastião viesse à sua presença e comunicou-lhe que tinha de casar com a princesa.

O moço ficou espantado, por não esperar por aquilo, e como sabia que a vontade do rei havia de ser cumprida, teve de se casar.

Na noite do casamento mostrou-se ele muito acanhado. A princesa desconfiando ser pouco caso que o rapaz lhe mostrava, no dia seguinte foi dizer ao rei que estava enganada que não fora aquele, e sim outro, o homem que a fizera rir.

Anulou-se o casamento com Sebastião, e fez-se com outro.

Na noite do casamento, o moço que tinha voltado para debaixo da árvore, calculando a hora em que os noivos deviam ir para o quarto, falou para o passarinho:

– Canta, rouxinol!...

O pássaro abriu o bico e todos no palácio caíram no sono.

O rapaz dirigiu-se ao besouro:

– Agora, entra tu no quarto dos noivos, desarruma tudo, e faze lá dentro uma mixórdia.

O besouro fez a sua obrigação melhor do que se pode imaginar.

Ao outro dia, quando a princesa viu aquela desordem, ficou muito contrariada, e foi-se queixar ao rei que aquele não era o homem que ela supunha, e que queria desmanchar o casamento.

O rei ficou aborrecido, e disse-lhe que esperasse mais algum dias para ver.

Na noite seguinte, depois de todos novamente dormirem com o canto do pássaro mavioso, Sebastião, mandou o rato desmanchar tudo quanto houvesse no quarto da princesa.

O rato ainda melhor que o besouro, pôs tudo numa desordem impossível.

Carlota, a princesa, ao acordar, vendo tudo aquilo foi dizer ao pai que não havia mais dúvida, que o seu primeiro marido era o verdadeiro.

Sebastião foi chamado, e ficaram os dois casados, tornando-se ele um moço desembaraçado, bem falante, conversador, espirituoso e inteligente. Desde esse dia, ambos viveram felicíssimos, e nunca mais se queixou a formosa princesa do pouco caso que lhe ligava seu marido.
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Figueiredo Pimentel (1869 - 1914) 
        ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL (conhecido no meio literário apenas como Figueiredo Pimentel) foi um dos autores e jornalistas mais prolíficos e polivalentes do Brasil na virada do século XIX para o século XX. Ele alcançou imensa notoriedade tanto por suas crônicas urbanas da Belle Époque carioca quanto por ser o grande pioneiro e consolidador da literatura infantil no país. Nasceu em 1869, em Macaé/RJ, e faleceu precocemente aos 44 anos, em 1914, na cidade do Rio de Janeiro. Embora tenha nascido em Macaé, viveu e construiu toda a sua efervescente trajetória profissional e pessoal na capital federal da época, o Rio de Janeiro. Iniciou-se na imprensa muito jovem, aos 17 anos. Teve uma carreira marcante no jornalismo carioca, trabalhando em importantes periódicos da Primeira República. A partir de 1907, manteve a badalada coluna diária "O Binóculo" no jornal Gazeta de Notícias. Sob o pseudônimo "Fif", ele ditava a moda, os costumes e o comportamento da sociedade carioca. Tornou-se célebre por cunhar e popularizar o famoso slogan "O Rio civiliza-se". Também atuou brevemente no corpo diplomático brasileiro. 
Foi um autêntico polígrafo: escreveu romances naturalistas chocantes, poesias decadentes e parnasianas, peças de teatro, folhetins, crônicas e contos. No exterior, redigiu seções sobre as letras brasileiras na prestigiada revista francesa Mercure de France. Embora tenha sido contemporâneo e colega de grandes nomes que fundaram a Academia Brasileira de Letras (como Olavo Bilac e Coelho Neto), Pimentel não fez parte da ABL e focou sua atuação no mercado editorial de massa, na imprensa cotidiana e em revistas do movimento Simbolista. Na época, sua atuação era voltada ao público leitor direto, sem registros expressivos de premiações institucionais oficiais, mas com enorme sucesso de vendas.
Sua produção literária dividiu-se nitidamente em duas vertentes: a ficção adulta (marcada por polêmicas) e as obras infantis de imenso sucesso popular: 
Literatura Adulta e Poesia: Fototipias (1893) – Seu livro de estreia na poesia, com fortes traços parnasianos; O Aborto (1893) – Romance naturalista de teor ousado e polêmico para a época; Livro Mau (1895) – Livro de poesias com caráter pessimista e decadentista. 
Literatura Infantil: Contos da Carochinha (1894/1896) – Sua obra mais famosa, que adaptou histórias clássicas e populares; Histórias da Avozinha (1896); Contos da Baratinha (1896); Histórias do Arco-da-Velha.
A relevância de Figueiredo Pimentel é gigantesca por dois motivos principais: 1) Muito antes de Monteiro Lobato, Pimentel foi o primeiro intelectual a se preocupar sistematicamente em criar um mercado de livros acessível para crianças no Brasil. Ele compilou, traduziu, adaptou e aclimatou ao contexto nacional as fábulas e os contos europeus (de autores como os Irmãos Grimm, Andersen e Perrault) e contos do folclore local recolhidos da tradição oral. 2) Como cronista, moldou a identidade cultural e a transição urbana do Rio de Janeiro no início do século XX. Suas colunas funcionavam como um espelho e um manual de civilidade para a nova sociedade republicana que buscava se modernizar e se espelhar em Paris.

Fontes:
Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado em 1896.
Biografia = Wikipedia, Foco Publicações, UFSC (Literatura Brasileira), Antonio Miranda. Escritas.org, UNICAMP, Atena Editora, etc.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Luís da Câmara Cascudo (Cobra Norato)

No paranã* do Cachoeiri, entre o Amazonas e o Trombetas, nasceram Honorato e sua irmã Maria, Maria Caninana.

A mãe sentiu-se grávida quando se banhava no rio Claro. Os filhos eram gêmeos e vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras.
 
A tapuia batizou-os com os nomes cristãos de Honorato e Maria. E sacudiu-os nas águas do Paranã porque não podiam viver em terra.

Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Norato e Maria Caninana.

Cobra Norato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitar a tapuia velha, no tejupar* do Cachoeiri. Nadava para a margem esperando a noite.

Quando apareciam as estrelas e o aracuã* deixava de cantar, Honorato saía da água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia. Vinha coleando, subindo até a barranca. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se um rapaz bonito, todo de branco. Ia cear e dormir no tejupar materno. O corpo da cobra ficava estirado junto do paranã*. Pela madrugada, antes do último cantar do galo, Honorato descia a barranca, metia-se dentro da cobra que estava imóvel. Sacudia-se. E a cobra, viva e feia, remergulhava nas águas do paranã.

Voltava a ser a Cobra Norato.

Salvou muita gente de morrer afogada. Direitou montarias e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a piraíba* do rio Trombetas abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.

Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar do Cachoeiri.

No porto da Cidade de Óbidos, no Pará, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Sant'Ana, na Igreja que é da mãe de Nossa Senhora.

A cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz de Óbidos.

Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios, no silêncio dos paranãs.

Quando havia putirão* de farinha, dabacuri* de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos.

Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.

Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do paranã, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma cutilada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areião.

Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida. O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.

Muita gente, com pena de Honorato, foi, com aço virgem e frasquinho de leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta, assombrava. A velha tapuia do Cachoeiri, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Honorato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Trombetas, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.

Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Tocantins, subindo para Cametá. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber, conversar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta. Boca aberta. Sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com Vontade, no cocuruto da cabeça. O sangue marejou. A cobra sacudiu-se e parou.

Honorato deu um suspiro de descanso. Veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem. E morreu, anos e anos depois, na cidade do Cametá, no Pará.

Não há nesse rio e terras do Pará quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas.

Canoeiros, batendo a jacumã*, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas:

- Ali passava, todo o dia, a Cobra Norato...
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Vocabulário:
Aracuã – ave trepadora.
Dabacuri - festa oferecida por uma aldeia a outra.
Jacumã – leme, remo.
Paranã – pequeno braço de rio.
Piraíba – espécie de peixe.
Putirão – trabalho comum, gratuito, (mutirão) em proveito de um indivíduo que oferece alimentação e bebidas e depois um baile.
Tejupar – casa de palha, palhoça.
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O historiador e escritor Luís da Câmara Cascudo é considerado o maior folclorista do Brasil, responsável por transformar a cultura popular e as tradições orais brasileiras em matéria de estudo científico e literário de valor universal. LUÍS DA CÂMARA CASCUDO nasceu em Natal/RN, em 1898 e faleceu nesta mesma cidade. em 1986 (aos 87 anos). Passou toda a sua vida em Natal (RN). Ele viveu na famosa chácara Villa Cascudo, no bairro do Tirol, e posteriormente em sua tradicional residência na Cidade Alta, onde mantinha uma biblioteca de mais de 20.000 livros e recebia intelectuais do mundo inteiro. Iniciou o curso de Medicina, mas abandonou a carreira para se formar em Direito em Recife (1928). Atuou ativamente como jornalista, escrevendo crônicas diárias para o jornal A Imprensa e outros periódicos nacionais. Foi professor de Direito Internacional e de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Exerceu funções de historiador oficial da cidade de Natal e fundou a Sociedade Brasileira de Folclore (1941).
Sua trajetória literária começou cedo, impulsionada pelas leituras na infância e saraus que ocorriam em sua casa. Estreou na literatura em 1921 e construiu uma vasta rede de correspondências com os principais nomes do Modernismo brasileiro, como Mário de Andrade. Foi o fundador da Academia Norte-Riograndense de Letras (1936). Devido à sua postura provinciana convicta — ele recusava-se a deixar o Rio Grande do Norte —, nunca se candidatou à Academia Brasileira de Letras (ABL), embora fosse uma figura aclamada por ela. Prêmio Machado de Assis (1956): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra, o mais importante reconhecimento literário do país na época. Prêmio Brasília de Literatura (1970): Também recebido pelo conjunto de suas contribuições à cultura nacional.
Cascudo escreveu mais de 150 livros (chegando a mais de 200 publicações se contabilizados opúsculos e ensaios). Algumas de suas principais obras são: Alma Patrícia (1921) – Seu livro de estreia; Vaqueiros e Cantadores (1939) – Estudo pioneiro sobre a poesia oral do sertão; Contos Tradicionais do Brasil (1946) – Compilado de narrativas populares orais; Dicionário do Folclore Brasileiro (1954) – Sua obra-prima, referência mundial e marco na catalogação dos mitos, festas e crendices nacionais; História da Alimentação no Brasil (1967) – Extensa pesquisa antropológica sobre os hábitos alimentares e as heranças indígenas, africanas e portuguesas no prato brasileiro.
A importância de Câmara Cascudo reside no fato de ele ter legitimado a cultura popular como ciência. Antes dele, as manifestações folclóricas, as superstições e as histórias contadas pelos povos mais simples eram vistas como "subliteratura" ou ignorância. Provou que a verdadeira identidade e a "alma" do Brasil estavam guardadas nos gestos cotidianos, nas feiras, nos causos de lobisomem, na culinária e nas canções de ninar. Ao registrar e analisar sistematicamente a tradição oral, ele salvou do esquecimento a memória coletiva do povo brasileiro, influenciando diretamente a literatura moderna, a antropologia e as ciências sociais no país.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Lendas Brasileiras para Jovens. Projeto LpT (Livro para Todos).
Biografia = Wikipedia, Ebiografia, Dicionário MPB, Amazon, Cascudo.org, Museu da Língua Portuguesa, Tramatura, etc.