quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 156 *



Poema de 
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Existe uma beleza inexplicável
em tudo o que nos transcende,
no coração que acelera
com um simples olhar,
uma memória,
um beijo que se conseguiu roubar.
E o corpo incendeia-se
como se estivesse exposto ao fogo.
E, no entanto
somos mar
quando o abraço nos aperta!
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Trazes pombas na brancura das tuas mãos
Feridas por cicatrizar no peito dilacerado
O mar dos teus olhos fala de promessas e sonhos adiados
Candura do rosto emoldurando a beleza 
dessa fragilidade acesa e delicada.

Ofereço-te a frescura desta terna flor 
para que possas guardar em mim todos os segredos
Encontrar um abraço no sorriso dos meus olhos
E a coragem renovada de um novo recomeço.

Em cada manhã
Por cada suspiro de primavera
Me desassossegues com o oiro da tua luz
Sussurres brisas acordando a nossa paixão
Rasgando as densas sombras
E eu renascerei ao extinguir-me em ti.
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Soneto de
NATÁLIA CORREIA
Fajã de Baixo/São Miguel/Portugal, 1923 — 1993, Lisboa/Portugal

Mãe ilha

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que pra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti pras Índias do meu estranho caso
—ó danos que dos versos sois o engate!—
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.
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Poema de
DANIEL FELIPE
(Daniel Damásio Ascensão Filipe)
Ilha da Boa Vista/ Cabo Verde/Portugal, 1925 – 1964, Lisboa/Portugal

Morna

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta.)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
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Trova Popular

Quem roubou o meu amor    
deve ser um meu amigo...
Levou penas, deixou glórias,
levou trabalhos consigo...
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Soneto de
FERNANDO ECHEVARRÍA
Cabezón de la Sal/Espanha, 1929 – 2021, Porto/Portugal

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
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Poema de
MANUEL ANTÓNIO PINA
Sabugal/Portugal, 1943 – 2012, Porto/Portugal

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
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Soneto de
CESÁRIO VERDE
(José Joaquim Cesário Verde)
Lisboa/Portugal, 1855 – 1886, Lumiar/Portugal

Árvores do Alentejo

Horas mortas … Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido … e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção de uma fonte!

E quando, manhã alta, o sol desponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores, corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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Poema de
CRISTÓVAM PAVIA
(Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho)
Lisboa/Portugal, 1933 – 1988

Ao meu cão

Deixei-te só , à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo… e apesar disso, sem o pedir,
Tentando insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia,
A debater-te
Com a morte.

E deixei-te só, à beira da agonia, 
Tão aflito, 
Tão só 
E sossegado.
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’ouro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente.
Como se fosse um bando de netinhos.
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Poema de
SAMUEL COSTA VELHO
Lisboa/Portugal

Tanto tempo sem nós

Deu tempo para lembrar tudo
enquanto o meu corpo embatia no chão.

Desde o primeiro olhar fresco que trocamos
até à ausência mútua,
revivi e desvivi, nesse instante.
Com os ossos a desistirem de resistir ao encontro
com o chão suave que me abraçava
e a dor/prazer/tu a começar a sentir-se.
Morri aos pedaços quando a queda acabou, quando
todo eu me apaguei contra o teu peito.
Deu tempo para um pensamento.

O amor ou a tua mão, pergunto-me com qual
me abandonaste primeiro.

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Pantun do
PROFESSOR GARCIA
(Francisco Garcia)
Caicó/RN/Brasil

Pantun da pedra escondida

TEMA:
Nas ruas da minha vida
quantas pedras eu saltei,
mas a pequena escondida,..
Foi nela que eu tropecei!
Vera Maria Bastos Braz 
Juiz de Fora/MG/ Brasil

PANTUN:
Quantas pedras eu saltei,
na menor de todas elas,
foi nela que eu tropecei
em meio a pedras tão belas.

Na menor de todas elas,
eu vi um brilho tão forte,
em meio a pedras tão belas
há nela, o brilho da sorte.

Eu vi um brilho tão forte,
e essa luz, eu não renego,
há nela, o brilho da sorte
da velha cruz que carrego.

E essa luz, eu não renego,
eis a forma desmedida,
da velha cruz que carrego
nas ruas de minha vida!
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Hino de 
SABARÁ/ MG/ Brasil

Entre as lindas montanhas mineiras, 
neste vale que Deus escolheu 
brava gente formando bandeiras 
as primeiras choupanas ergueu!

Em demanda de um vasto tesouro, 
o baiano e o paulista valente 
iniciaram com as minas de ouro 
o progresso da pátria nascente!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Fluorescente, risonha e formosa, 
enfeitando estas plagas louçãs, 
bem merece o prestigio que goza 
entre as belas cidades irmãs!

Lindos templos cristãos, onde entoa 
o bom gosto com a arte mais rara, 
em que Antônio Francisco Lisboa 
seu talento invulgar confirmara. 

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Aos chamados da pátria querida 
respondeste garbosa e de pé 
'fidelíssima" atenta e aguerrida 
em defesa da honra e da fé!

Grandes feitos se alinham na história 
pela fibra de um povo altaneiro, 
sempre em marcha e vibrante de gloria 
na vanguarda do solo mineiro!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Corre o aço de forno candente, 
movimenta-se a indústria fabril 
em favor do progresso crescente 
e a grandeza de nosso Brasil!

Salve, salve cidade adorada! 
Grandes filhos que deste ao país! 
Do porvir, na perene jornada, 
Deus te faça maior e feliz.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Quem vende a verdade?

Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios…

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmónica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede…
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de crochê do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O mono e o leopardo

O leopardo e o mono
Mostravam-se nas feiras
Enchendo as algibeiras.
Bradava o leopardo com entono:
«É conhecida a história
Da minha imensa glória.

O próprio rei quis ver
O meu pelo esquisito, e, ao contemplá-lo,
Ordenou que, no dia em que eu morrer,
Lhe façam um regalo
Da minha pele ondeada,
Zebrada, chamuscada,
Mosqueada, marchetada!»

A cor sempre agradou. Cada qual ia,
Olhava, e nada mais, depois saía.
E o macaco a gritar: «Vinde, senhores,
A ver o rei dos escamoteadores.
Deixai gabar-se o leopardo, que ele
Só tem a variedade à flor da pele:
É vazio no espírito! — Simão,
Vosso servo, que é primo coirmão
E genro de Gaspar,
Que foi mono do papa noutras eras,
Acaba de chegar em três galeras
Só para vos falar.

Sabe falar, cantar, dança e rebola,
Salta, pula, marinha e cabriola,
Faz caretas e partes,
Fura paredes e arcos,
Tudo isto por uns parcos
Quatro vinténs: vinde animar as artes.
E, o que ainda mais importa,
Se a alguém lhe não agrada,
Ensina-se-lhe a porta
E não se leva nada.»

Dou razão ao macaco. Na verdade
A mim não me cativa a variedade
No exterior; chega a cansar a vista.
O espírito, não há quem lhe resista,
Renova-se e seduz.
São certos figurões como o leopardo,
Das galas do trajar fazem alardo,
Tendo os cérebros nus.
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Mensagem na Garrafa 153 = Lição de vida


Autor Anônimo

Uma mãe e um bebê camelo estavam por ali, à toa, quando de repente o bebê camelo perguntou:

- Mãe, mãe, posso te perguntar umas coisas?

- Claro! O que está incomodando o meu filhote?

- Por que os camelos têm corcova?

- Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água.

- Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?

- Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas eu posso me movimentar pelo deserto melhor do que qualquer um! - disse a mãe, toda orgulhosa.

- Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.

- Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! - disse a mãe com orgulho nos olhos.

- Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto.... Então que diabos estamos fazendo aqui no Zoológico?

Moral da história:
"Habilidade, conhecimento, capacidade e experiência são úteis se você estiver no lugar certo".

Monsenhor Orivaldo Robles (Menos, por favor!)


Nunca me contagiou o entusiasmo com que pessoas exibem fotos de viagem ou álbum de casamento. Como troféus reunidos para exposição pública. Passeios ou eventos podem ser interessantes para quem lá esteve. Para quem ouve contar, ou tem que ver fotos que não acabam mais, eles se tornam, quase sempre, um aperreio. Mais de uma vez me questionei se pensar assim não seria azedume ou deselegância de minha parte. Vai ver, todo o mundo aprecia. Eu é que sou diferente do resto dos mortais, o único do contra. A infância pobre da roça deixou-me um tanto arredio a práticas com que não fui acostumado.

Por isso, me confortou a leitura de um conselho, que julguei de muita sabedoria: “Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só para quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve”. Mais preparada que eu, a autora responde pelo nome de Ivone Boechat. Expõe no currículo títulos de mestre em Educação, pedagoga, conferencista e escritora. Estou, portanto, em apreciável companhia. Generalizar é injusto, mas para certas pessoas mostrar fotos não seria uma afirmação de superioridade? De deixar bem claro: eu sou superior, porque estive neste lugar maravilhoso?

Desde o berço, através do choro, sentimos necessidade de marcar nossa presença. Precisamos mostrar que o mundo gira em volta do nosso umbigo. Há mais de cinquenta anos, antes, portanto, da invenção do celular, foi feita uma pesquisa na central telefônica de Nova Iorque, onde ficavam registradas todas as ligações. O objetivo era saber que palavra os usuários falavam com maior frequência. Ganhou de lavada uma palavrinha de apenas uma letra, em inglês: I (eu). Vale dizer: eu sou mais importante que tudo. Não só lá; no mundo inteiro. Basta conferir. Numa foto de várias pessoas, no meio das quais também estamos, para qual olhamos primeiro? Se vamos falar de um grupo do qual fazemos parte, por quem começamos? Enumeramos assim: eu, fulano, sicrano, beltrano etc. não é? Quem vai à frente? Claro, o mais belo, inteligente e importante de todos, que sou eu. Assim agimos todos, desde que nos conhecemos por gente. Achamos a coisa mais natural do mundo. Estranhamos se alguém faz o contrário.

Importa descobrirmos nossa real identidade. Cinco séculos antes de Cristo, o filósofo Sócrates já prescrevia: “Conhece-te a ti mesmo”. Para isso os mestres da vida cristã aconselham a saudável prática do exame de consciência. Ele nos revela, sem perigo de engano, nossas virtudes e defeitos. Nossas potencialidades e limitações. Quem se conhece não fica aborrecendo os outros com o cansativo relato de sua grandeza, quase sempre ilusória. É extremamente enfadonho conviver com um egocêntrico. O desconfiômetro do infeliz está sempre avariado e nenhuma oficina conserta. Vira e mexe, seu papo cai naquilo que mais adora: deitar louvação de si mesmo. De sua pessoa, de suas conquistas e vantagens, sempre maiores do que tudo o que os outros conseguiram. Quem pode sentir-se bem ao lado de quem se julga sempre superior? Que graça tem saber de antemão que seremos tratados como inferiores?
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 23.06.2012

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nilto Maciel (O perdão)

“– Tu aguenta mesmo um homem?"
 Os anões, Moreira Campos
O anão chorava abraçado ao corpo da anã. Descontrolado, fazia a rede balançar, como se embalasse a morta. 

Uma vizinha entrou no casebre. Por que chorava o anão? Nem sequer olhou para a mulher. Outros vizinhos se aproximaram da porta da casinha. Meninos tentavam sondar o interior da sala e saíam correndo para o mar. 

Amanheceu morta, o coração parado. Pobre Lourdinha! Coitada, deve ter morrido dormindo. Melhor assim; não sofreu para morrer. 

O anão chorava sem parar. Acendessem uma vela. Onde arranjar vela? Uma mulher se esgueirou. Lembrava-se de um toco de vela em cima da mesa. Ia num pé e voltava noutro. Começassem a reza. O bater das ondas na praia cadenciava a reza. Ave-maria, cheia de graça. Trouxeram uma garrafa de cachaça. O anão recusou a bebida. Precisava chorar. Sua pobre Lourdinha havia sofrido muito. Não por causa dele, mas dos outros. Nunca nela bateu e ela estava ali como testemunha. Outros, sim, quiseram usar o corpo dela, tão pequeno, como de menina. Como aquele negro safado, anos atrás. 

Consolavam o anão. Bebesse um tiquinho para se acalmar. Ele voltava à rede, ao corpo da mulher. Ave-maria, cheia de graça. Acenderam o toco de vela. Ia ter caixão? Procurassem o padre na igreja. E se Lourdinha estivesse ainda dormindo? Costumava beber muito de noite? Nunca, nunca bebia. E como tinha sido a história do negro? 

Muitos anos atrás, quando ainda moravam num armazém abandonado, perto do Mercado Central, um homem arrombou uma das portas. Acordaram assustados. Na mão do bandido o relógio de ouro de Lourdinha. E o pior: o deboche, a perguntar se ela aguentava mesmo um homem. Não conseguia esquecer aquilo. Anos e anos passados e ainda assim a figura do negro aparecia diante dele, a resmungar imundícies. 

Depois daquilo, Lourdinha nunca mais foi a mesma, sempre nervosa, com medo de tudo e de todos, chorosa, querendo ir embora para bem longe. Uma casinha na beira da praia. Não rezavam mais, a garrafa de cachaça vazia e o toco da vela apagado. E o padre? 

Tome um golinho, vizinho. Não lhe pronunciavam o nome nem o chamavam de anão. Quem ia arrumar a defunta para o enterro? 

Súbito assomou à porta a figura musculosa de um negro. O anão arregalou os olhos, fez um esgar, rangeu os dentes, retesou-se todo. E correu para junto da rede e do corpo da anã. Os outros se afastaram para os cantos das paredes. O mar rugia feito um monstro em fúria. O visitante juntou as mãos, como se fosse rezar, e disse: vim pedir perdão pelo que fiz e trazer um relógio de ouro para a sua mulher.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

Eduardo Affonso (Assim, do nada)


A teoria da geração espontânea foi abandonada no século 19. Uma pena. Só ela era capaz de explicar certos fenômenos.

Ponha toda a roupa na máquina para lavar. Toda. Esvazie a cesta de roupa suja, cate no chão do banheiro, pegue o que estiver jogado em cima do sofá, da cama, das cadeiras. Passe um pente fino pela casa. Assim que tiver fechado a tampa da máquina e acionado o “Iniciar”, um par de meias brotará de dentro de um pé de sapato.

A comprovação científica da geração espontânea das meias é simples. Instale câmeras sobre todos os pares de sapato e confirme, in loco, que não há meia alguma lá dentro. Dê printe das telas, por garantia. Feche a tampa da máquina, aperte o “Iniciar” e plum!  um par de meias (sujas) surgirá, do nada, num dos sapatos. Ou tênis. Ou crocs. Há registros de ter surgido até dentro de sandálias havaianas – mas só no Paraná, e no inverno.

Lave a louça da pia. A louça que ficou na mesa, depois do almoço. As canecas esquecidas sobre os aparadores. O copo que dorme sobre a mesinha de cabeceira para o caso de você acordar com sede ou de um rivotril só não ter sido suficiente para te fazer pegar no sono. Lavou tudo? Limpou o tampo da pia, deixou tudo brilhando? Um prato (sujo) nascerá, de geração espontânea, em algum lugar da casa. Em cima da máquina de lavar roupa, por exemplo – certamente esquecido no parágrafo anterior, enquanto você se preocupava com as meias.

Como a natureza é sábia, é preciso uma contrapartida para esse surgimento inexorável e irrefreável de meias, cuecas, camisetas, pratos e talheres – todos sujos. É por isso que meias somem (dentro da máquina, de preferência). Que camisetas que você jurava que tinha evaporam das gavetas. E que pratos aparecem trincados, guardadinhos no armário, prontos para ser jogados no lixo. Não, não é culpa da Celeste, que tem mão pesada e costuma ir embora carregando uma sacola de um jeito meio suspeito. É o equilíbrio ecológico, para impedir que o planeta saia da órbita, soterrado por meias usadas e louça suja, geradas espontaneamente.

Problemas, boletos e gente sem noção também surgem do nada. Você dirá que problemas e boletos não são organismos. Ingenuidade sua. Eles têm DNA, ribossomo, mitocôndria, citoplasma. Se reproduzem por partenogênese, por esporulação, brotamento, cissiparidade. (Eu sabia que ainda ia usar esse vocabulário algum dia. Que aquelas milhares de inúteis aulas de Biologia que me roubaram parte da adolescência e do prazer de viver tinham que servir para alguma coisa. Pronto, serviram. Obrigado, d. Sonia.  Obrigado, prof.  Haroldo).

Políticos cuja existência você ignorava brotam na sua página para soltar os cachorros em cima de você a cada postagem sua que blasfeme contra a divindade que eles cultuam.  Outros que você nunca viu mais gordos desabrocham em comentários iracundos – basta que você ouse desmitificar o seu mito. Os mais céticos dirão que são robôs, que são feiques, que há seres supostamente humanos por trás deles. Que gente sem noção não irrompe assim, feito cogumelo em pau podre depois da chuva.

Lamarck, que acreditava que a girafa, de tanto esticar o pescoço para pegar as folhas mais altas, foi ficando pescoçuda e gerando filhotes pescoçudinhos, também devia ser reabilitado. Cesare Lombroso é outro que merecia uma segunda chance.
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Arquiteto mineiro de Belo Horizonte, 1950. Colunista do jornal O Globo. Coordena a Oficina Literária Eduardo Affonso, voltada para cronistas. Participa do coletivo literário Flique Nenhum livro publicado.

Fonte:
Blog do autor. 11.05.2020

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 3, final

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA

Parte 3 – Criando os elementos específicos da cidade

1 – Descubra o que torna a cidade única. 

Agora que já definiu os elementos fundamentais dela, comece a diferenciá-la! Pense em elementos únicos e interessantes que tornam a cidade um local sobre o qual vale a pena ler! Talvez a cidade seja assombrada e apresente histórias de fantasmas que são passadas de geração em geração. Deixe a criatividade fluir.

- Pense nas características que definem a cidade para o resto do mundo. Ela pode ser reconhecida como o centro de comércio da região ou ser conhecida por conta de um time esportivo renomado, por exemplo. 

– Pense nas coisas que os moradores da cidade amam nela para dar um toque mais real. Quais os pontos de encontro da cidade? O que na cidade dá orgulho aos moradores? Do que eles tem vergonha?

2 – Destaque os detalhes essenciais para a história. 

Por mais tentador que seja detalhar o mundo fictício inteiro, é preciso se concentrar no que é importante para a história que quer contar. A cidade deve trabalhar para a história e para os personagens, não o contrário. Desenvolva toda a cidade, mas foque-se nos locais onde os personagens passam mais tempo.

–  Por exemplo, digamos que os personagens passem muito tempo em uma escola particular no centro da cidade. Pense em detalhes da escola, desde a aparência (interna e externa) dela ao mascote. Concentre-se nos arredores da escola e na arquitetura interna dela, incluindo salas de aula e outros ambientes.

3 – Use os cinco sentidos. 

Para se criar um mundo crível, é preciso fazer com que o leitor sinta-se dentro do local, citando desde o cheiro do lixo aos barulhos nas ruas. Crie descrições que ativem a visão, o paladar, o olfato, o tato e audição do leitor para criar uma cidade com vida.

–  Por exemplo, digamos que a cidade tenha um rio poluído. Pense em como é o cheiro conforme passa pelo rio e faça os personagens comentarem sobre o cheiro, o visual e os sons do rio.

–  A história provavelmente apresentará diversos locais recorrentes. Use os cinco sentidos para descrevê-los e criar uma história ainda mais convincente.

4 – Adicione detalhes do mundo real à cidade. 

O leitor sabe que está lendo uma obra de ficção e aceitará elementos estranhos e imaginários, mas pode ser uma boa ideia incluir elementos reais na cidade para criar uma visão mais realista dela conforme a história avança.

–  Por exemplo, digamos que os personagens passem uma boa parte da trama em uma área urbana e densa da cidade. Ela pode ser povoada por criaturas estranhas, mas também apresentar elementos encontrados em áreas urbanas reais como prédios, ruas e becos. Misturar detalhes reais e imaginários ajuda a criar um mundo mais verdadeiro.

5 – Coloque os personagens dentro dos ambientes da cidade e movimente-os! 

Após detalhar bem a cidade fictícia, coloque os personagens para interagir com ela! O ambiente deve avançar a história e os personagens devem acessar elementos da cidade necessários para levar a trama adiante.

- Por exemplo, digamos que um personagem precise acessar um portal mágico no meio da cidade para viajar o tempo; descreva bem o portal dentro da cidade! Ele deve conter detalhes suficientes para ser visualizado pelo leitor e a interação com os personagens devem ser interessantes. Assim, a cidade ficcional avança as necessidades e os objetivos dos personagens!

6 – Descreva a cidade através das perspectivas dos personagens. 

Um grande desafio na hora de escrever sobre uma cidade fictícia é evitar os momentos de descrição óbvios, quando se coloca a descrição na boca do personagem para informar o leitor. Assim, parecerá que você está querendo "falar" através do personagem de modo forçado. Para contornar isto, use as vozes dos personagens para descrever a cidade.

–  Coloque os personagens em situações onde devem caminhar em determinados locais ou interagir com seções específicas da cidade. O personagem pode usar alguma instalação na cidade e descrever as sensações disto! Assim, você poderá descrever a cidade através da perspectiva do personagem, criando descrições mais convincentes.

- Uma boa ideia é fazer com que os personagens tratem os elementos mais fantásticos e estranhos da cidade de modo casual. Se ela fica debaixo d'água por exemplo, um personagem que mora nela há muito tempo pode não se surpreender com o fato de ter de entrar em um submarino para visitar os vizinhos. Descreva-o então entrando no submarino e programando o destino de modo casual e cotidiano. Assim, o leitor compreenderá que os submarinos são comuns na cidade e são utilizados como transporte sem precisar dizer isso explicitamente.
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Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 155 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Poesia em movimento

A palavra poética é um pássaro.

Em seu voo,
para falar com os deuses,
ela desvia das lanças do sol,
deixando em seu rastro minúsculos cristais de mar etéreo.

A palavra incandescente
faz a névoa de tinta
dissipar-se.

As letras fluem em bandos,
tecendo poesia em movimento,
e à medida que os versos nascem,
são coroados com halos
de poeira solar. 
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Poema de
CRISTINA CECCAGNO
Pelotas/RS

(In) definição

procuro nas palavras de outras pessoas
algo que defina o que sinto por ti
pela insanidade que nos envolve
pela tua ausência

nada nos define
nada nos enquadra

procuro nas lembranças
uma pista do tempo que vivemos
do tempo que perdemos
e do que se perdeu ao longo do tempo

nada nos define
nada nos enquadra

procuro nos andarilhos
o movimento certo para seguir adiante
para acertar o passo
para dançar a música certa
para inventar um ritmo

nada nos define
nada nos enquadra

procuro a ti
nos mesmos lugares
e só te encontro dentro de mim
isso me define: tua
isso me enquadra: pra sempre.
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano de
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Dia de branco

No recomeço, à madrugada escura,
Em cumprimento do dever, sozinho,
Embalo os passos, surdos, no caminho,
Principiando a laboral ventura.

Em meio à suburbana arquitetura,
Adentro a multidão, em desalinho,
Que marcha resmungando bem baixinho
Como se encaminhando à sepultura...

As faces, fundos sulcos de canseira,
Evidenciam a segunda-feira
E o velho realismo suburbano...

Neste relato, a cena costumeira 
Traduz a romaria rotineira 
Dos proletários no cotidiano.
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Poema de
DENISE MULLER GARATEGUY
Montenegro/RS

Todas as tuas cores

Tateio
Teus bolsos,
Encontro
Sementes
E
Nos teus olhos
Vejo
Encardidas ilusões
Há pedras
De todos os tipos
Segurando portas
Por sobre a mesa
Há os vasos de flores
De tomates
E
De pimentas
Há os gatos
Os livros
Os acordes
E as letras
A dura indecisão
Transbordando copos
E pensamentos

Os sonhos
Nos escapam...

Tua presença
Vinga-se
De mim
Na perfeição
De ser
Como
És
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Trova Popular

Quem me dera ser a hera
pela parede subir,
para chegar à janela
do teu quarto de dormir.
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano de
ELVIRA DRUMMOND
Fortaleza/CE

Poluição sonora

Buzinas e sirenes… britadeira! 
Quisera por o mundo “na surdina”
(recurso que o piano discrimina 
a matizar os sons, sobremaneira…)

No meio da avenida, a betoneira 
castiga meus ouvidos, me alucina…
(a rua dos meus tempos de menina
foi palco de avezinha cantadeira). 

Se agora adoto o tom de nostalgia, 
é fuga da audição que se arrelia
com o cruel triunfo do ruído… 

A música que a mídia, por capricho, 
impõe ao cidadão é puro lixo… 
Quisera, Deus, ter pálpebras o ouvido!
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Poema de
GILBERTO MONTEIRO MAZOT
Porto Alegre/RS

Cadafalso de mim

Trancado em meu baú de desejos, sonhos, loucuras,
Meu coração faz-me cadafalso de mim.

Atuando meu teatro interior,
Faz-me sorrir,
Aplaudir
Despedaçar-me de chorar por ti.

Contraceno no espelho a consciência inconsciente
de que teu desejo é meu desejo.
Desejo que se torna meu por incorporar tudo o que sente.

Se sente frio,
Frio eu sinto,
Se fome sente,
Sinto fome,
Se pensa em mim,
Teu amor me consome!
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Labor sem fim

Manhã de sol… cidade em movimento,
calçadas cheias, trânsito lotado
e em muitas mentes flui um pensamento: 
“chegar no emprego e o ponto, registrado.”

Trabalho e casa… nesta, pouco alento;
o banho do casal, não prolongado.
Cuidar dos filhos, roupas, alimento…
Novela e futebol?… No feriado!

Criança, o aposentado e o preguiçoso 
(um outro grupo, às vezes, ocioso),
desfrutam dos aromas de um jardim.

Na madrugada a pressa se esvazia…
Vem nova aurora, instiga à correria 
 e tal labor parece ser sem fim.
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Poema de
IONITA KÉSIA PEREIRA
Sapucaia do Sul/RS

Não se afaste de mim

Não se afaste de mim
Além de meu olhar

Não se declare com ardor
Além do “eu te amo”

Não cesse seu carinho
Além de um abraço

Não se desnude em você
Além de sua alma

Não dê causa à embriaguez
Além de meus beijos

Não se revele em cores
Além de seus sonhos

Não queira estar comigo
Além de um momento chamado sempre

E não esperarei de você
Além de seu amor por mim.
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano de
ARLINDO TADEU HAGEN
Juiz de Fora/MG

Os sons da madrugada

Um som parece vir da casa ao lado,
uma TV, um rádio, uma vitrola,
demonstrando que alguém está acordado,
sofrendo a mesma insônia que me assola.

Ao longe um galo doido cantarola,
num ritmo repetido e alucinado.
Mais longe ainda, o som de uma viola
dá voz a um coração apaixonado.

Enquanto os gatos miam namorando,
eu sigo em minha cama reparando
um bando de cachorros a latir.

Nasce o dia... os ruídos da alvorada
vão abafando os sons da madrugada
de quem passou a noite sem dormir.
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Poema de
ISABEL CRISTINA SILVA VARGAS
Pelotas/RS

Louvação

Cantam os pássaros
Saudando o sol
A vida que aqui transborda.
Ao seu canto
Acrescento minha prece
Cheia de amor e saudade
Louvando tua preciosa vida
Que a todos encantou.
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Poema de
MARCELO ALLGAYER CANTO
Cachoeirinha/RS

Quem é você?

Quem é você?
Que acalma meu coração
Pelo sabor de todas as noites
Seja em qualquer estação.

Quem é você?
Que com sua simplicidade
Me mostra a possibilidade
De um viver despreocupado
Regado pelo amor.

Quem é você?
Que não precisa me procurar na noite,
Pois me encontra dia a dia
Sem clamor, mas com a vida ganha.

Quem é você?
Que me conquistou pela paciência
Seguindo meus passos “descalçados”
Pelas ilusões de meus dias.

Quem é você?
Que ratificou meus caminhos
Com seus doces e suaves carinhos
Me salvando dos despropósitos.

Quem é você?
Você é a minha amada!
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Hino de 
JOÃO PESSOA/ PB

No nordeste do Brasil te encontramos
Onde vemos o encanto de um verde mar
És a terra gloriosa que amamos
E o teu nome exaltamos a cantar
De um grande presidente de estado
Tu ressurgiste, ó, cidade vitoriosa!
Se tens o nome pelas ondas do passado
Não deixarás de ser sempre valorosa

Tua bandeira simboliza o heroísmo
De um exemplo imortal
Que em teu nome ficou
E no grito do nego
Defendeu o teu povo rebelde
E te glorificou

No passado, outros nomes recebeste
Consagramos o teu solo, sempre a exaltar
A bravura e a nobreza não perdeste
João pessoa, tu és hoje, a vibrar
Teus combates sempre foram triunfantes
E o heroísmo a história nos declara
E evocando teus primeiros habitantes
Tu serás sempre a cidade tabajara

Tens palmeiras no teu parque mais formoso
A lagoa circulando sempre a inspirar
O poeta decantando orgulhoso
Vem fazer tua beleza proclamar
Tão formosas as acácias que se espargem
Em ornamento pelas tuas avenidas
São tantas flores escondendo a folhagem
Deixando enfim, tuas árvores floridas

Tambaú trazendo a brisa mansamente
Num afago que nos prende sob o céu anil
E o soberbo cabo branco evidente
Na paisagem litorânea do Brasil
Nos teus mares as jangadas velejando
No horizonte vem o sol resplandescente
Quanta grandeza que encerras inspirando
No teu valor consagrado eternamente!
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano de
JÉRSON LIMA DE BRITO
Porto Velho/RO

Os portais

O refletor celeste, ao fim da lida,
deitado sobre densos matagais,
expande o louro abraço e dá sinais
de sua majestosa despedida.

As águas, de beleza desmedida,
à espera das pinturas noturnais,
transformam as correntes em portais
por onde passa a luz enfraquecida.

Um barco, a deslizar no espelho, adorna
a tarde morrediça, ainda morna,
repleta de magia, graça e encanto.

O rio encanta todas as retinas
que enlaçam as imagens vespertinas,
justificando os versos deste canto...
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Fábula em Versos da
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Os ladrões e o asno

Brigavam dois ladrões por um roubado burro:
Com ele um quer ficar, quer outro expô-lo à venda.
E enquanto a discussão entre ambos corre a murro,
Terceiro vem que empolga a causa da contenda.

Não raro uma província ao burro é semelhante,
E uns príncipes quaisquer, iguais aos salteadores:
O Turco, o Transilvano, o Húngaro — em que instante,
Em vez de dois que busco, eis três dos tais senhores!

Abunda esta fazenda — embora com frequência
Nenhum lograr consiga a terra conquistada,
Se vem quarto ladrão que rindo da pendência
Cavalga no jumento e aos três dá surriada.
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