sexta-feira, 3 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 14 *


Que enorme esperança, irmãos,
um simples gesto nos traz:
o encontro de duas mãos
selando um voto de paz!
A. A. DE ASSIS
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Hei de alcançar teus carinhos,
pois estou certo de que
quase todos os caminhos
me conduzem a você!
APARÍCIO FERNANDES
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Teus olhos, contas escuras,
são duas Ave-Marias
do rosário de amarguras
que eu rezo todos os dias!
AUGUSTO GIL
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Se a vida é um texto e deixamos
para trás folha esquecida,
de perda em perda é que vamos
perdendo o senso da vida.
CAROLINA RAMOS
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O pior da viuvez
são angústias sem respostas:
sai um mês... vem outro mês...
...e quem vem coçar-me as costas?
CÉLIA GUIMARÃES SANTANA
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Nesses dias tão tristonhos
que a vida nos infligiu,
parece que em muitos sonhos
nenhuma rosa se abriu.
CENIZE DE ANDRADE
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Dá meus olhos, morto, Amada,
ao cego da nossa rua.
Se o morto não vê mais nada,
veja o cego a graça tua...
CICERO COSTA
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Agora que na parede
do meu quarto de saudade
vejo apenas uma rede,
eu vivo pela metade!...
CLARINDO BATISTA
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Meu verso é barco largado
na pauta da inspiração;
tendo Deus sempre ao meu lado
não temo nem furacão!
DÁGUIMA VERÔNICA
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Juntas, duas alianças,
no dedo da mão esquerda,
são permanentes lembranças
da minha infinita perda...
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
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Fugir do tempo?... Tolice!...
Por mais que acaso se tente,
o fantasma da velhice
burla o acaso e encontra a gente!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
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Manhãs são novos começos,
festas da vida, alvorada
da fé que não vê tropeços,
mas a luz no fim da estrada…
ELIAS PESCADOR 
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Seja a paz um elo forte
na corrente da amizade,
que ela ao mundo inteiro exorte
ao amor, que é só verdade!
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
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Contar jamais ousaria,
meu grave e doce segredo,
pois minha vida vazia
perderia todo o enredo.
JOSÉ FELDMAN
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Me diga, pai:– Furacão
é feito de vento? – Exato!
– Mas se o vento fura o cão,
porque é que não fura o gato?
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO 
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Sua boca tem segredos,
e assim, você me seduz,
revelo então, os meus medos
que nem a noite reluz!
JULIANA APPEL
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Oh perfeita entre as perfeitas,
eu tenho invejas estranhas
da cama em que tu te deitas,
da água com que te banhas!
JUNQUILHO LOURIVAL 
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Há sorriso de ironia,
há sorriso imerso em dor,
há também de simpatia...
mas o melhor é o de amor!
LÓLA PRATA
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Que não haja preconceito,
mas respeito ao nosso irmão,
sem tolher o seu direito
por simples pigmentação!...
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
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Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
LUIZ CARLOS ABRITTA 
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De tanto contar mentira
o meu primo pescador
casou com uma “traíra”
que morde a isca aonde for.
LUIZ MORAES
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No instante em que tu partiste
houve uma pausa... sem fim...
Deixaste teu rosto triste,
sorrindo... dentro de mim.
LUIZ POETA
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Na humildade dos seus passos,
lembre sempre a decisão
de dar a mão, nos fracassos,
a quem lhe estendeu a mão...!
MARA MELINNI 
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Por vingança o centro-avante,
que há muito tempo vai mal,
fez gol contra fulminante
a um segundo do final.
MARIA HELENA CALAZANS DUARTE
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Volte agora com vontade,
ser o amor que me encantou,
traga consigo a saudade,
que ao partir, você deixou!
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
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São gotas de poesia,
ou de algum raro licor, 
que o orvalho, com alegria, 
põe no cálice da flor.
MARLÊ B. J. DE ARAÚJO
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Minha passagem na terra 
tem a marca que eu queria, 
todo amor, sem qualquer guerra: 
– Doce viagem, que alegria!
MARLI VOIGT 
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Escuto ainda, a cadência
duma canção de ninar;
era mamãe, com paciência,
tentando me acalentar…
MAURICIO NORBERTO FRIEDRICH
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Enquanto a nau Esperança
singrar os mares da vida,
minha Quimera não cansa
e nem se dá por vencida.
MIGUEL RUSSOWSKY 
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Com textos, fotos ou mapas,
o bom livro é uma estrutura
onde o leitor, entre as capas,
mata a sede da cultura.
MILTON SEBASTIÃO SOUZA 
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É muito triste de ver
a juventude perdida;
e, à Internet se render,
perdendo a essência da vida...
MYRTHES MASIERO
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Foi por falta de carinho 
que errei e perdi meus passos, 
mas bendigo o “mau caminho” 
que me levou aos teus braços… 
NÁDIA HUGUENIN 
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Dando salva de Poesia
enalteço o Trovador
pela Trova que eu queria
ser, da mesma, o seu Autor.
NEI GARCEZ
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Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
NEMÉSIO PRATA
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Creio que quem olha a Terra
sob o azul e branco manto
não acredita que a guerra
possa tingi-la de pranto.
OLYMPIO COUTINHO
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Quando a tarde veste o manto,
torna escura a luz do dia,
saudade, dói outro tanto,
do tanto que já doía.
PROFESSOR GARCIA
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É tempo de liberdade,
vamos partir os grilhões,
numa só cumplicidade
que se fundam corações.
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL
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A tristeza em minha casa
está num quarto vazio:
de dia a saudade abrasa,
à noite mata de frio.
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
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Aproveita, criançada,
o tempo, alegre, ligeiro,
que da a uma simples calçada
dimensões do mundo inteiro!
RODOLPHO ABBUD 
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Por berço tive a montanha!
Sou camponês, trovador!
No universo da campanha,
meu estro virou condor!
RUI CARDOSO NUNES
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A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor.
SARA FURQUIM 
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A Trova que se revela
em sua forma e magia
é uma pequena aquarela
na tela da Poesia.
SEBAS SUNDFELD
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Com tanta delicadeza,
um regato a serra desce...
E eu tenho quase certeza
que a própria serra agradece!
SELMA PATTI SPINELLI 
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A alegria da pessoa
que demonstra amor à vida,
à sua volta ressoa...
torna a estrada colorida…
SOLANGE COLOMBARA
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É o abuso da riqueza
e o desprezo à educação
que põe sobre a nossa mesa
a fome, em lugar do pão.
SÔNIA SOBREIRA DA SILVA
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Finda a paixão proibida...
E ao seguir novos caminhos,
a decisão foi da vida,
que fez, de nós... dois sozinhos!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA 
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Come e bebe no batuque
e não sai endividada,
pois aplica o velho truque
de sair só “desmaiada” !
THEREZINHA ZANONI FERREIRA
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Buscando quimeras vãs
e redentoras auroras,
fui vivendo de "amanhãs"
e não vivi meus "agoras"…
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
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Há um relógio em cada esquina
marcando o tempo atual;
mas não marca quem destina,
nosso destino final.
WELLINGTON FREITAS
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A esperar que regressasse,
postei-me à porta, rezando...
E, se ele nunca voltasse
continuaria esperando...
YEDDA RAMOS PATRÍCIO
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Revista Crestomatia de Trovas nº 4 – julho de 2026 (Download Gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Lembrança.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz 36 trovas do trovador de Porto Velho/RO, Jérson Lima de Brito.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro, como fazer a escansão.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem ao talento do magnífico trovador Izo Goldman.

* Encerro com um artigo de Luiz Otávio, sobre a “Trova Humorística”.

Faça o Donload Gratuito em

Boa leitura.
José Feldman

Aparecido Raimundo de Souza (A pipa e a nuvenzinha chorona)


CORRIA UMA MANHÃ encantadora no município de Nossa Senhora dos Enforcados, ou mais precisamente no bairro da Cascata Encantada. Era um dia esplendoroso, desses em que o vento vem lá das bandas do morro da Menina da Cabeça Pelada, encimado por um céu que parecia ter sido mesclado de azul com um pincel de pelos macios. No campinho de futebol, onde a grama verdinha tentava fugir do calor, o pequeno João Eduardo, um menino de oito anos armou a sua pipa. Um dia antes, ele pediu para a sua vó Lúcia comprar papel crepom amarelo como o sol das cinco da tarde se despedindo.

João Eduardo na confecção de sua pipa, usou as varetas de bambu fininhas, cortadas do sítio do Tio Dininho, fez um rabo de meia dúzia de fitas coloridas que batiam em seu rosto como pequenas bandeiras. Pronta a sua mais nova diversão, o pequeno correu para o campinho onde jogava bola. Segurava a linha com as duas mãos, e aos poucos, com jeito, deixou que a Pipa saísse do chão e subisse. Radiante, o seu “papagaio” voou acima dos telhados vermelhos do humilde bairro e seguiu altaneiro.  De repente, mais distante que os olhos podiam enxergar, árvores frondosas balançavam com o vento de concepção enfraquecida. Mais aquém até que as aves que passavam rápidas como se tivessem pressa de chegar em lugar algum, a pipa finalmente alcançou o espaço.

Ela amava aquilo. O espaço. O pequeno João Eduardo idem. Aliás, ele sentia o ar passando por debaixo do seu “brinquedo voador”, e isso o fazia leve, quase sem peso, tal como a linha branca que o ligava do carretel à pipa, como se fosse apenas um carinho, e não uma prisão. A pipa por seu turno, livre, leve e solta, queria chegar cada vez mais perto do sol. De repente, nessa voação, avistou afastada de todas as outras, uma nuvem muito pequena do tamanho de um travesseiro de neném, Era essa nuvem, toda branquinha e fofa. Num dado momento, a pipa percebeu que a nuvenzinha chorava. Se debulhava, a coitadinha, num derramar de lágrimas baixinho e profundamente sentido.

Todavia, sem fazer barulho, deixava cair dos seus cantos, quase imperceptíveis, um líquido miúdo, na verdade, lágrimas fininhas como fios de cabelos, que desciam devagar e desapareciam no ar antes de tocar o chão da estrada que levava para as bandas das ruinas da Igreja de São José do Pescoço Comprido. As outras nuvens, as grandes e folgadas, aquelas metidas a bestas, passavam por ela e nem a olhavam. Algumas iam correndo para o norte, outras paravam para jogar beijos para o sol. Nenhuma, verdade seja dita, se detinha para perguntar por qual motivo a pequena se debulhava em lágrimas, lastimosa e plangente.

— Por qual razão você chora assim, nuvenzinha? – inquiriu sem mais delongas, a pipa, que se aproximou balançando o seu rabo de fitas para chamar atenção.

A nuvem soltou, de pronto, um soluço miúdo, e mais umas lágrimas verteram.

— Porque sou pequena — respondeu, com a voz embargada de quem tem a garganta cheia de água. — Todas as outras são grandes, robustas, carregam chuvas fortes, fazem o arco-íris escurecer o céu quando querem. Eu sou só… eu. Dizem as minhas coirmãs que nem nuvem mesmo me pareço. E às vezes olho tudo lá em baixo: as pessoas, as casas, a igreja do padre desdentado em frente a pracinha, espio as pessoas andando abraçadas, outras cheias de pressa, e o meu peito nessa hora fica, tão cheio de uma coisa doce e apertada que não tem outro jeito senão escorrer a minha desilusão pelos olhos.

Demorou muito pouco a sua pausa e a infeliz seguiu com seu relato:

— Não sei se é alegria, se é saudade de algo que nunca vi. Só sei que choro e me sinto ainda menor por isso…

A pipa de João Eduardo ficou quieta por um instante, só ouvindo e dançando devagar ao sabor do vento. Ela também conhecia aquele sentimento de ser pequena, quase insignificante. Lembrou de um menino perneta que morava perto da margem do rio. Alguns dias atrás, ele tinha dito para o amigo: “Essa pipa do Dudu é frágil. Um vento mais possante e ela se rasga em mil pedacinhos”.

Nesse interregno de tempo, quase que simultaneamente, veio à lembrança da nuvenzinha quantas pipas iguais a que puxara conversa já tinham se perdido naquele céu imensurável, ou caído em árvores, ou se despedaçado no asfalto em frente ao armazém do Zé das Bugigangas.

De fato, sem tirar nem acrescentar, a concepção de vida da pipa de João Eduardo se resumia em ser só de papel, cola, bambu e linha. Nada de mais grandioso. Nenhuma coisa que durasse para sempre.

— Eu sou pequena como pode ver —  disse a nuvenzinha deixando as suas recordações de lado e voltando a falar bem de mansinho.  É por isso, amiga pipa, que as minhas consanguíneas riem e se afastam de mim...

A pipa de João Eduardo tomou fôlego e se abriu, pressurosa: 

— Apesar de eu também não ser grande, saiba que sinto o vento, vejo o mundo de um jeito melodioso. Aprecio o João Eduardo e o primo dele, o Heitor, ambos jogando bola no campinho. Deleito-me espiando a grandiosidade do Morro da Menina da Cabeça Pelada... Como pode ver, minha querida Nuvenzinha, não preciso ser grande para isso. Careço apenas de estar aqui...

Fez uma breve pausa, sorriu matreira e continuou:

— E as suas lágrimas, nuvenzinha? Você acha que elas são à toa? Outro dia, presenciei uma florzinha amarela crescendo sozinha no quintal da minha avó, a Bisa. Ela se fazia escondida numa fenda do muro que acessa a garagem. Estava quase morrendo de sede. Quando você começou a chorar, igual está agora, eu me recordei que choveu três ou quatro dos seus pingos às avessas e eles caíram bem em cima dela. A partir disso, ela abriu as pétalas devagar, se engrandeceu como quem acorda de um sono bom.  Também tem o ar que ficou mais leve, mais cheiroso depois que você mandou lá para baixo a sua chuva quase imperceptível.

Após dizer isso, a pipa fez outra parada e se abriu num novo sorriso ao tempo em que prosseguiu com a sua fala:

— Os meninos lá embaixo, quando sentem seus pingos no rosto, desembestam a sorrir, e o fazem porque pensam que o céu está mandando beijos. Nenhuma daquelas nuvens grandes, que se concentram em trovões e enchem o rio, conseguem fazer isso. Elas são fortes, sim. Mas você… ah, você, minha amiga nuvenzinha é o carinho do céu...

A nuvenzinha parou de soluçar. Os pingos ficaram mais raros, ficaram literalmente leves e mais dóceis. Ela se encolheu um pouco, e por um instante, o sol passou por dentro de sua tristeza, revelando a sua maviosidade ímpar.

Todo o seu interior, num piscar de pálpebras ficou cor-de-rosa, como quem se pega envergonhada de ter sido tão amada sem saber.

— Eu nunca pensei nisso — sussurrou comovida.

Naquele momento o vento virou um pouco a sua trajetória, vindo de onde João Eduardo se encontrava segurando a linha que seguia até a pipa. Ele deu uma puxadinha suave, na verdade era o aviso de que iria começar a recolher. Diante disso, a pipa sentiu que tinha que ir embora.

— Careço de descer agora — sussurrou com uma pontinha de tristeza.  Mas lembre-se: ser pequena não é defeito. É só um jeito diferente de existir. E chorar não é fraqueza. É o coração, o seu “eu” transbordando, porque nele cabe muita coisa dentro, mesmo sendo pequeno...

— Vou lembrar — prometeu a nuvenzinha...

E antes que a pipa começasse a sua trajetória de descida de vez, ela deixou cair uma última lágrima, muito clara, muito brilhante, que rolou, desceu, desceu e desceu… e pousou exatamente na pontinha do nariz de João Eduardo. Ele fechou os olhinhos e sorriu. Sorriu sem entender o motivo. Limpou o rosto com a manga da camisa e foi puxando a linha devagar, trazendo de volta para casa a sua pipa amarela, que agora entre as suas fibras vinha, de roldão, um segredo do céu.

A nuvenzinha ficou lá no alto, sozinha de novo, mas já não se debulhava mais em agonia. De agora em diante, sempre que o seu coração apertasse de tanta beleza, ela deixaria cair um ou outro pingo, desta feita, sabendo que cada lágrima sua iria fazer um bem enorme à alguma coisa ou a alguma pessoa, quem sabe a um outro João Eduardo, ou ainda abrigar um coração solitário que também precisasse de um afago miúdo, quieto e sem explicação. 

Muitas tardes se passaram desde então. Quem hoje olha para o céu, às vezes, vê uma nuvem pequena e branca, passando devagar, e de mãos dadas com ela, uma pipa amarela que parece subir mais alto do que todas as outras em redor, como se fossem duas promessas vindas diretamente dos olhos mansos e aconchegantes de Deus.
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O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

Renato Benvindo Frata (Entre a têmpera e a temperança)


Não se confunda têmpera com temperança.

A primeira é o tratamento térmico que torna o aço mais duro e resistente.

Torna o metal bruto, forte, resistente. Quando inoxidado, blinda-se às impurezas. Por isso o usamos até nos talheres domésticos.

Lavou, tá novo! E nos servirão a vida inteira e mais um tempo, se lhe dermos cuidado. A têmpera o deixa forte, e a inoxidação facilita sua limpeza. Encontrar o ponto exato entre calor e resfriamento é o desafio do bom siderurgista. É desse equilíbrio que nasce o aço resistente.

Tudo depende da medida exata: calor, tempo, resfriamento e composição da liga. O bom aço, assim, se compõe de atos singelos, sem os quais a liga metálica desanda.

Já, a temperança é virtude humana. Nada tem a ver com metal, mas com comportamento. Está descrita desde os tempos bíblicos. E não se sujeita à transformação por temperatura.

Ela se faz pelo autocontrole emocional, digamos a meio-fogo, ou fogo-baixo, como se posta a cozinhar lentamente, a envolver os desejos, os impulsos e as paixões.

Como os temperos que, postos aos poucos num bom guisado, fazem nascer o sabor sem jamais dominar o prato.

Esses que nos levam a bem viver.

Assim, a temperança atua como domínio da razão sobre a voluntariedade dos atos. Ela cuida do autodomínio. Isso é, evita tanto os excessos quanto a escassez. Bem assim.

Representa a prudência e a pudicícia nos nossos atos. Em casa ou na rua. No trabalho ou na praça. Independentemente da existência ou não dos limites da lei.

A temperança dispensa a coerção. Não nasce do medo da punição, mas do governo da própria consciência. Circunscreve-se no recato, na modéstia e na reserva, que se configuram em pudor, decência, honestidade, respeito. Integridade moral.

Talvez por isso a temperança seja hoje a virtude mais rara. Que lástima! As exceções, infelizmente, tornaram-se raríssimas.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Interlúdio para Reflexão = 3 =

 

Laé de Souza (A mulher certa)


Claudomiro, sentado na cama, fazia uma retrospectiva. Agora, casado há três meses, pensava nas mulheres que namorou. De algumas, prestes a contrair núpcias, desistiu. Rita, para quem responde até hoje um processo de indenização moral, por tê-la deixado em pleno altar, numa espera sem fim. Também, a culpa fora dela mesma, pois, só nos últimos dias de namoro, é que descobriu sua frieza. Adelaide, muito bonita, tinha o grave defeito de, após a refeição, chupar os dentes para retirar os restos de comida que se alojavam em alguma fresta. Podia ser no restaurante, na frente de ministro, presidente, não importava.

A (*), era o nome. Motivo de chacota entre os amigos. Por uns tempos, tudo bem, mas ouvir aquele nome por toda a vida, era demais. Lúcia era a voz. De boca fechada, era uma beleza; mas, quando começava a falar, doíam os ouvidos. Dolores, uma loirona de atrair olhares desejosos, contrariando o estereótipo, era inteligente demais. Sabia de tudo e não tinha nada de que se fosse falar que ela não dominasse. Muitos homens não suportam que sua mulher saiba mais do que ele. Claudomiro ficava deste “tamainho” perto dela. Gildete era gastona demais. Já, nos tempos de namoro, exigia presentes dos bons e frequentar os melhores restaurantes. E todas as datas tinham de ter uma “lembrancinha”. Dia que se conheceram, dos namorados, das crianças, da secretária, dos professores (embora ela só tivesse o diploma), da mulher e mais e mais. Parecia que fazia parte da associação dos comerciantes.

Bruna era a memória. Não conseguia se lembrar de nada. Até o nome dele, de vez em quando, dava um branco e o chamava de Coisa ou então Bem. Andava com papelzinho em tudo quanto era lugar com anotações que, geralmente, perdia. Vanilda, a cultura. Desconhecia qualquer assunto. E dava risada da sua santa ignorância, como se fosse uma glória. “Eu que não vou quebrar minha cachola com essas coisas”, dizia ela em gargalhadas. Nunca ouviu falar em Stanislavski, Máximo Gorki, Maquiavel ou Freud. Dinorá tinha aquela verruga entre os seios que parecia um terceiro. De roupas, tudo bem, mas despida, parecia coisa do outro mundo.

Acertou em cheio ao se casar com Tibúrcia. Fala fluentemente inglês, francês, espanhol e, ainda, arranha alemão. Conhece vários assuntos e evita tocar naqueles que ele desconhece. Nas raras discussões, xinga-o em alemão, que ele não domina, e ele a xinga em japonês, que ela não entende. Mulher doce e sensual. Só na hora de dormir é que ele tem de usar um aparelho auricular para não ouvir os seus roncos, mas tudo bem.

(*) Deixo de mencionar o nome por ser minha amiga e conhecer os seus problemas psicológicos.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.

José Feldman (Clássico da terceira idade)


O "Clássico da Terceira Idade" no bairro do Limoeiro não era exatamente um evento esportivo; era uma comédia pastelão televisionada pela vizinhança. De um lado, os "Veteranos de Ouro", liderados pelo Arlindo, um senhor que acreditava piamente que ainda tinha a velocidade de um garoto de 20 anos — embora seus joelhos implorassem por misericórdia a cada passo. Do outro, os "Titãs do Asfalto", capitaneados pelo Gerson, que tinha uma tática infalível: prender a bola nos pés e esperar que o adversário desistisse de correr atrás dele por puro tédio.

O jogo começou sob um sol escaldante. O juiz, Juvenal, já estava em campo, mas com um detalhe importante: ele tinha esquecido o apito em casa e estava usando um apito de brinquedo que a neta tinha deixado cair do seu bolso. O som era um "piu-piu" agudo e desesperador, parecendo mais um canarinho com soluço do que uma autoridade em campo.

Aos cinco minutos, a primeira trapalhada. Arlindo recebeu um passe longo, dominou com a elegância de um bailarino — ou melhor, de um bailarino que tropeçou no próprio cadarço. Ele deu uma pirueta, a bola passou por baixo de suas pernas, ele tentou girar, perdeu o equilíbrio e acabou estatelado em cima da bola, deslizando gramado abaixo como se estivesse em um trenó. A torcida (Dona Clotilde com três cachorros) que estava lá apenas para garantir que ninguém morresse aplaudiu efusivamente.

O jogo seguiu com um ritmo... digamos, contemplativo. Quando a bola finalmente chegava perto do gol, o goleiro dos Titãs, Valdir, tinha um hábito curioso: ele gostava de ajustar a prótese dentária no momento exato do chute.

"Valdir, foca no jogo!", gritava Gerson.

"Calma, Gerson, o dente tá andando!", respondia Valdir, enquanto a bola passava lentamente por ele, indo parar dentro da rede.

Mas o auge da confusão aconteceu no segundo tempo. Arlindo, em um momento de inspiração, decidiu fazer uma jogada ensaiada. Ele gritou para o time: "A tática da Tartaruga Ninja!". Ninguém entendeu nada, mas todos correram para o meio de campo. O problema é que, no caminho, o Arlindo confundiu o apito de brinquedo do juiz com o barulho de um passarinho e começou a procurar o bicho no meio da grama.

Enquanto isso, a bola estava rolando solta. O lateral dos Veteranos, numa tentativa heróica de cruzar, chutou com tanta força que a bola voou alto, passou por cima do muro e caiu direto no quintal da Dona Dalva, que era famosa por ter um cachorro chamado "Destruidor".

O jogo parou. Todos olharam para o muro. O silêncio foi quebrado pelo som de algo estourando: PUFF!

A bola tinha virado um pedaço de borracha inútil.

Juvenal, com seu apito de canarinho, decretou o fim da partida. "Empate técnico!", anunciou ele, todo pomposo. "O Destruidor venceu por W.O. e a bola está oficialmente aposentada."

No fim, todo mundo terminou sentado na calçada, rindo tanto que faltava ar, enquanto dividiam um refresco e planejavam a revanche para a outra semana — prometendo, claro, comprar uma bola nova e, quem sabe, um apito que fizesse um barulho decente.

Se o jogo foi uma comédia, a viagem de volta foi um verdadeiro episódio de "perdidos no espaço", só que com um ônibus fretado e um grupo de senhores que, vamos ser sinceros, têm uma capacidade incrível de transformar o simples em complexo!

Prepare-se, porque a confusão começou antes mesmo do motor sair da garagem.

O ônibus, um modelo que parecia ter sido fabricado na época em que o rádio era a gás, estava estacionado na esquina. O motorista, um rapaz chamado Beto que tinha a paciência de um monge tibetano, observava o grupo se aproximar.

"Arlindo, larga essa bola murcha, a gente não vai jogar mais!", gritava Gerson, enquanto tentava subir a escadinha do ônibus carregando um saco de gelo que já estava virando água e escorrendo pelo seu sapato.

Arlindo, ainda empolgado com a partida, decidiu que precisava sentar na "janela do artilheiro". Só que, ao tentar se acomodar, ele prendeu o cinto de segurança no encosto de cabeça do banco da frente. Quando Valdir se levantou para pegar um biscoito, ele puxou Arlindo junto, que veio pendurado como um boneco de pano, gritando: "Fui sequestrado pelo banco!".

Beto, o motorista, suspirou fundo, fez uma breve oração e deu a partida. O ônibus soltou uma nuvem de fumaça preta que deixou a rua inteira com cara de filme de suspense.

No meio do caminho, o Juvenal, o juiz do apito "piu-piu", decidiu que era hora de fazer uma "análise tática" do jogo. Ele começou a desenhar jogadas no vidro embaçado do ônibus com o dedo. O problema é que, a cada freada do Beto, Juvenal batia a testa no vidro e terminava com um "X" desenhado na testa pela sujeira da janela, parecendo um pirata que tinha se perdido no mapa.

"Gente, alguém viu meu dente?", perguntou Valdir de repente, no meio da rodovia.

O caos se instalou. O ônibus virou uma cena de crime. Todos, incluindo o motorista que tentava manter o veículo na faixa, começaram a procurar a prótese no chão. Arlindo, na ânsia de ajudar, acabou pisando em uma sacola de pães de queijo que Gerson tinha guardado, transformando o corredor do ônibus em um campo minado de polvilho crocante.

Para completar a sinfonia de desastres, o GPS do ônibus, que era um celular velho preso com fita adesiva, resolveu que era hora de atualizar o sistema. Ele começou a repetir em um volume altíssimo: "Em duzentos metros, vire à direita... em duzentos metros, vire à direita...". O problema é que não havia rua à direita, apenas um pasto com um touro que olhava para eles com cara de poucos amigos.

"Beto, vira! O robô mandou virar!", gritava Juvenal, com a testa suja de poeira.

"Não tem estrada ali, Juvenal!", respondia o motorista, suando frio.

Depois de três horas de viagem que pareciam durar três dias, o ônibus finalmente entrou na rua dos parentes. O veículo estava uma bagunça: pão de queijo amassado por todo lado, Arlindo ainda meio preso ao cinto, Valdir finalmente encontrando o dente dentro do bolso da camisa (e não no chão) e Juvenal com um mapa desenhado na cara.

Quando o ônibus parou, eles desceram um a um, cambaleando, olhando para o céu como se agradecessem por estarem vivos. Gerson, ao colocar os pés no chão, beijou o asfalto e disse: "Nunca mais! Semana que vem a gente vai a pé, que é mais seguro!".

Eles se olharam, viram o estado um do outro — parecendo que tinham acabado de sair de uma guerra de mantimentos. Chegaram inteiros, mas com histórias que, depois de anos, eles ainda estariam contando como se tivessem atravessado o oceano!
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Nilto Maciel (A Voz Indecorosa)


João Canoro passava quase todo o tempo nas ruas. Não perdia um minuto dentro de casa. Dormia, acordava e corria para a rua. Como um pássaro que fugia da gaiola. E punha-se a voar, isto é, a andar, andar, andar, até cansar. Tanto gostava de andar pelas ruas que jamais quis ser escriturário, balconista, barbeiro. Preferiu ser office-boy durante alguns anos, caixeiro viajante por mais outros, oficial de Justiça incompetente, vendedor de assinatura de todas as revistas...

Embora andasse como poucos, João nunca se julgava cansado e, mais mundo houvera, mais andara. Calculava, insatisfeito, já ter dado algumas voltas ao mundo. Queria bater recordes. Sem alardes. Modestamente.

Enquanto caminhava, João Canoro não parava de falar. Uma fala sussurrante. Quase inaudíveis palavras. Exclusivamente aos ouvidos de todas as mulheres da Terra. Curtas frases decoradas. Eternas expressões de amor. Cicios, leves gestos labiais. Mil tipos de indecências.

Às vezes, a mulher sorria, mas não passava disso. Outras, fechava a cara e fugia. Adiante a mocinha cuspia insultos. Além se fazia de surda. E tudo o satisfazia. O sorriso lhe parecia rendição certa ou apenas promessa de entrega. A fuga o excitava. O palavrão soava sonoro. A indiferença o empurrava para novas e velhas mulheres.

Quase nunca a vítima se fazia cúmplice. E quando isto ocorria, por mais bela que fosse a dama, João se calava, virava o rosto, perdia o equilíbrio e sumia no meio da multidão.

João Canoro não podia, no entanto, voltar para casa, calar-se, arranjar emprego de barbeiro, balconista, escriturário. Deus o livrasse de tão desgraçado destino. Terminaria passando a navalha no pescoço de qualquer barbudo. E adeus liberdade de ir e vir, voar pelo céu da cidade, passarinho cercado de avezinhas por todos os lados.

Para escapar às ameaças frequentes de misteriosas mulheres, havia uma saída de gênio — a ventriloquia. E João estudou, exercitou-se, fez-se hábil ventríloquo. Passava pelas mulheres, dizia-lhes suas curtas frases indecorosas, suas indecências, e permanecia tranquilo, ereto, sério, como se um só cício tivesse dito. As moças e senhoras, no entanto, apressavam o passo, irritavam-se, voltavam-se contra pacatos e mudos senhores. E criavam-se enormes confusões de meio de rua.

Em compensação, nenhuma criatura de saia sorria mais para João Canoro. Nenhuma mais lhe cuspia insultos, nem lhe fechava a cara.

Ora, restavam o telefone e a noite. De dia trabalhava, andava, falava sem abrir a boca. De noite descansava, parava e telefonava para anônimas mulheres. Horas e horas à cata de ouvidos carentes de palavras excitantes. E escancarava a boca, para compensar os exercícios diurnos de ventriloquia.

Cortavam a ligação, diziam-lhe insultos, reagiam de mil maneiras. Umas, porém, riam, e ele gastava todo o seu repertório de frases, expressões e cícios. Até se cansar e largar o aparelho.

Uma noite, saciado, foi dormir. Roncava e sonhava palavras de lascívia. O telefone gritou, tilintou, zuniu. João pulou da cama, levou o fone ao ouvido. Uma voz de mulher. E um desfile interminável de palavrões.

Olhos arregalados de pavor, mãos trêmulas, o coração aos solavancos, o corpo inteiro em calafrios, João não disse um ai durante todo o tempo. E só sossegou quando nenhuma voz humana provinha mais do telefone.

Na noite seguinte o fato se repetiu. E mais uma vez João tremeu, se transtornou, perdeu o sossego. Até largar o aparelho e correr em busca de água, o suor a escorrer-lhe por todo o corpo.

Nas noites subsequentes, a mesma agonia de João. Porém, mal atendia o chamado e reconhecia a voz da mulher dos palavrões, obstava a ligação. Enlouquecido, na sexta noite cortou o fio do telefone.

No outro dia, passo lento de quem perdeu o ânimo de viver, João Canoro andava pela rua feito um sonâmbulo, mudo como nunca fora, uma voz indecorosa a zunir em seus ouvidos. Apesar de tudo, sorria um leve sorriso, os olhos demasiadamente brilhantes, enquanto por ele passavam mulheres, todas belas, cândidas, excitantes.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.