domingo, 9 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 29 *



  Ah, se o amor fosse comprado
tal como se compra um pão,
se eu não fosse afortunado,
seria um grande ladrão!...
A. A. DE PAULA
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Treinando, o punguista Zeca,
enquanto dança uma valsa,
consegue tirar a cueca
sem antes despir a calça!...
APARICIO FERNANDES
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Se há noites frias, escuras,
também há noites formosas;
há riso nas amarguras,
entre espinhos nascem rosas.
AUTA DE SOUZA
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Bem pouca gente procura
aceitar esta verdade:
— antes ser bom sem ventura,
que ser feliz sem bondade.
BATISTA NUNES
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O mérito da questão
foi por demais discutido,
e durante a confusão
o juiz tinha dormido...
BENTO VIEIRA DE MOURA
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Caro doutor, saiba disso:
se esse transplante malogra,
eu pago em dobro o serviço,
pois a velha é minha sogra...
CARLOS GUIMARÃES
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Um anjo veio e deu vida
ao peito de amores nu;
Minha alma agora remida
adora o anjo — que és tu!
CASIMIRO DE ABREU
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Não te deixes deslumbrar
pelo brilho da cidade;
podes ferir teu sonhar,
pois nem tudo é de verdade,..
DINA MARCHETTI ABAD
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É inverno… mas que me importa?
Estou sempre à tua espera…
Quando chegas e abro a porta
entra junto a Primavera!
DÉSPINA ATHANÁSIO PERUSSO
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Dona do maior afeto,
minha amiga doce e terna!
Eu vou baixar um decreto:
- toda mãe vai ser eterna!
DEYSE GOTTARDELLO
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Criança, crescida és,
vives de sonhos, também,
Tu, que tens o mundo aos pés,
serás o mundo de alguém!
DIRCEU AMARAL
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Nosso abismo mais profundo,
que no universo se espalma,
são as tristezas do mundo
nas profundezas da alma.
DILMA SUERO
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Quando a mulher o encontrou
atracado na empregada,
o cara-de-pau berrou:
— Me larga, negra tarada!
ÉLTON CARVALHO
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Jornalista dá notícia
sem fazer dela mistério.
E se é linguagem fictícia
usa seu melhor critério.
EMÍLIO SOARES DA COSTA
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Tem tudo; fortuna imensa,
honras, prestígio, nomeada,
Com o amor… indiferença,
Pobre rico! Não tem nada!…
ESMERALDO SIQUEIRA
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Não tenho televisão,
mas tenho "televizinha"...
E numa programação
que vai a noite inteirinha!
ENÉAS NUNES DE BARROS
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No universo da poesia
desejei veredas novas,
e encontrei o que eu queria,
ao lançar o anzol nas trovas.
ENIVALDO BORGES DA SILVA
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É nas horas do langor,
quando o sonho faz-se extinto,
que se troca um grande amor
por um cálice de absinto!
ÉRICO MAGALHÃES DO AMARAL
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Nesta casa, que é só minha,
onde eu mesmo sou a lei,
obedeço a uma rainha,
muito embora eu seja o rei...
ERNÂNI RUSHEL
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Ajuda aos pobres, amigo,
sem mesquinhez ou ambição.
— O pobre, ao cruzar contigo,
é Deus que te estende a mão!...
GALDINO ANDRADE
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No momento da partida
deixaste por maldição,
uma saudade dorida
dentro do meu coração.
ISAIAS TEVES
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Esquecendo a Lei Divina,
aquele padre — essa é boa! —
Abandonou a batina,
mas... conservou a coroa!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
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A morte é o triste momento
de uma dívida assumida.
É o dia do vencimento
das quatro letras da vida!
LAMARTINE BABO
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Eis que o destino descobre
a sorte que Deus me deu:
- Ninguém na vida é mais pobre
e nem mais feliz que eu!
LATOUR AROEIRA
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Sonhando novas auroras,
no meu viver sem ninguém,
me embala a dança das horas
pelo amanhã que não vem..,
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA
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Fim da estrada... hoje tristonho
eu constato e a voz se cala;
a mão que agarrava o sonho,
hoje segura a bengala…
LEDA BECHARA
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Sei que o Inferno é muito grande,
cabe mais um ou mais dois.
— Se por acaso eu for antes,
tu poderás ir depois...
OZIEL PEÇANHA
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Da morte ninguém escapa,
por isso não tenho medo.
Só peço que ela não venha
me procurar multo cedo...
ROBERTO FERNANDES
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Seis horas... Vem a Saudade...
Rio antigo... Praça Onze...
Os sinos, pela cidade,
choram lágrimas de bronze...
VASCO DE CASTRO LIMA
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Na demanda da ternura,
motivo... meus sonhos lassos,
indo de encontro à ventura
na curva dos teus abraços...
VANDA ALVES DA SILVA
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Aprecio o casamento,
mas num plano secundário.
Casou? Deu festa? Eu frequento,
mas fico celibatário...
ZEDANOVE TAVARES
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José Feldman (Confusões de Totozinho)


O sol brilhava forte sobre o resort Águas Celestiais, e o ar cheirava a cloro, coco e um toque de suco de laranja gelado. Carlos tinha conseguido finalmente uns dias de descanso e não pensou duas vezes: levou consigo o seu maior orgulho e também a sua maior dor de cabeça — Totozinho, um São Bernardo de quase setenta quilos, com cara de anjo e energia de um furacão em dia de folga.
 
— Olha só que lugar lindo, Totozinho! — disse Carlos, acariciando a cabeça maciça do cachorro enquanto caminhavam pela beira da piscina. 

— Água azul, sol quente, ninguém para nos incomodar... vamos aproveitar, hein, meu grandão?
 
Totozinho abanou o rabo com tanta força que o vento chegou a bagunçar o cabelo de um senhor que passava por perto. Carlos arrumou uma espreguiçadeira perto da borda, estendeu a toalha e prendeu a coleira do cachorro numa corrente de aço que ficava fixa no chão, pensando: “Assim ele fica seguro e não sai por aí atropelando ninguém”. 

Mal sabia ele que a corrente era forte, mas a paciência de Totozinho era fraca, e o seu plano de paz estava prestes a virar uma tragédia cômica.
 
— Fica aqui quietinho, tá? — pediu Carlos, dando um tapinha no pescoço do animal. — Vou só molhar os pés e já volto.
 
Mal ele tinha dado três passos, Totozinho eriçou as orelhas. Seus olhos se fixaram em algo do outro lado da área de lazer: uma bola de borracha colorida que um menino tinha deixado rolar, e que parecia, para ele, o objeto mais fascinante do universo. O cachorro soltou um latido baixo, ansioso, e começou a puxar a corrente com força.
 
— Ei, ei! Calma, Totozinho! Não é nada! — gritou Carlos, voltando rapidamente para segurá-lo pela coleira. — Que é isso, meu filho, não precisa ficar todo agitado! É só uma bola, não vai comer ninguém!
 
Mas Totozinho não queria saber de explicações. Ele puxou mais forte, com todo o peso do corpo, e Carlos, tentando se equilibrar e ao mesmo tempo acalmar o bicho, acabou cometendo um erro fatal: enroscou a ponta da própria calça na argola da corrente. Quando o cachorro deu um salto decisivo, o tecido se enrolou, e em um piscar de olhos, Carlos estava preso — amarrado à coleira, com as mãos agarradas nela e o corpo sendo arrastado sem dó.
 
— AI, MINHA NOSSA! Espera, Totozinho! Espera, seu doido! — berrou ele, sendo arrastado pelo chão de pedra. — Não corre assim! Vou cair! Vou... AI MEUS PÉS!
 
A confusão começou na hora. Totozinho disparou como um foguete, e Carlos ia atrás, escorregando, pulando sem querer e gritando como um louco. A primeira vítima foi Dona Marlene, que estava sentada relaxando com um chapéu de palha gigante e um copo de suco na mão.
 
— Mas que... — não teve tempo de terminar. Com uma cotovelada involuntária de Carlos, ela foi empurrada direto para dentro da piscina, chapéu e tudo, fazendo um SPLASH tão grande que molhou todos os que estavam nas redondezas.
 
— PERDÃO, DONA! NÃO FOI DE PROPÓSITO! — gritou Carlos, mas não conseguia nem olhar para trás, tamanha a força de paquiderme.
 
O cachorro não parou. Seguiu em frente e acertou em cheio uma mesa com bebidas e lanches, que virou de lado num instante: copos, pratos, fatias de melão e garrafas voaram para todos os lados. Um garçom que vinha com uma bandeja cheia de água de coco ficou boquiaberto e, antes que pudesse se mover, foi atingido pela cauda do cachorro, caindo junto com tudo o que carregava.
 
— O que está acontecendo aqui?! — gritou o gerente, saindo correndo de dentro do bar com a toalha na mão.
 
— É O MEU CACHORRO! E EU TAMBÉM! ESTOU PRESO! — respondeu Carlos, que agora ia com a camisa toda suja de areia e suco de fruta.
 
Mais adiante, um grupo de amigos fazia um brinde na beira da piscina. Num segundo pensaram que era uma brincadeira, no seguinte viram a dupla furiosa chegar. Totozinho passou por baixo de uma das mesas de plástico, que subiu no ar e girou como um pião, enquanto todos que estavam ali se jogavam para um lado e para o outro, ou acabavam caindo na água aos gritos e sustos.
 
— SEGURA ELE! ALGUÉM SEGURA O TOTOZINHO! — tentou pedir Carlos, mas a voz saiu arrastada e falhada.
 
— TOTOZINHO! — chamou uma criança, achando a maior graça da bagunça. — QUE CACHORRO FORTE!
 
— FORTE É POUCO! ELE É UM TREM! — respondeu Carlos, quase engolindo areia.
 
O passeio destruiu também um guarda-sol que estava bem fincado, que saiu voando e abriu-se no meio do caminho como um para-quedas, atrapalhando ainda mais a visão. Totozinho, ainda obcecado pela tal bola, não dava folga. Passou por cima de uma esteira, derrubou um balde de gelo e arrastou o dono direto para a área onde estavam as espreguiçadeiras mais caras, fazendo uma fila inteira delas tombar uma após a outra como peças de dominó.
 
— SOCORRO! A MINHA CALÇA VAI RASGAR! — gritou Carlos, desesperado. — MEU DEUS DO CÉU, QUE IDEIA MALUCA FOI A MINHA DE TRAZER VOCÊ! PRECISO ANALISAR MINHA CABEÇA!
 
Quando todos já estavam de pé, uns molhados, outros cobertos de areia e frutas, mesas viradas e pessoas rindo alto sem conseguir acreditar no que viam, Totozinho finalmente parou. Parou exatamente na frente daquela bola que tanto o tinha atraído, cheirou-a com carinho, pegou-a na boca e sentou-se calmamente, abanando o rabo como se nada tivesse acontecido.
 
Carlos, todo amassado, com a camisa rasgada, joelhos ralados e ainda preso na corrente, ficou ali estirado no chão por uns minutos, respirando ofegante. O silêncio durou só um segundo — depois explodiu uma gargalhada geral, de todos os lados. Dona Marlene, que tinha saído da piscina toda molhada, limpou o rosto e disse rindo:
 
— Meu filho, que cachorro danado! Mas você também, hein? Que jeito é esse de passear? Parece que foi atropelado por um rebanho!
 
— Eu juro que não foi minha intenção — respondeu Carlos, soltando uma risada fraca e tentando se soltar da corrente. — Ele viu a bola, ficou doido, eu me enrolei... e olha no que deu!
 
O garçom, que já começava a recolher os cacos, sorriu e disse:
 
— Não se preocupe, senhor! Há muito tempo não víamos uma animação tão boa por aqui. 
 
Totozinho, com a bola na boca, olhou para todos com uma cara de quem não fez nada de mais, e soltou um latido feliz, fazendo todo mundo rir. Carlos, finalmente livre da corrente, levantou-se, sacudiu a poeira e passou a mão na cabeça do seu grandão.
 
— Pois é, Totozinho — murmurou ele, sorrindo e balançando a cabeça —, com você, nem um dia de descanso é sossegado.
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final do século XX. Residiu em cidades como São Paulo, Taboão da Serra, Curitiba e Ubiratã e finalmente em Maringá (PR) desde 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante Supremo do Saber, em Timisoara/Romênia; Mérito Cultural “Euclides da Cunha” na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural; Mérito Cultural da Academia Brasileira de Trova, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pergola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Confraria Brasileira de Letras, Bonde; Francisco Pessoa, UFRJ, etc.

Interlúdio * 17 *


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    LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Geraldo Pereira (A Emparedada da Rua Nova – Verdade ou Ficção?)


Quase todos os recifenses que estão na sexta década de vida ou que já passaram, ouviram falar no caso, na Emparedada de Rua Nova, senão como um romance escrito pelo fundador da Academia Pernambucana de Letras, Carneiro Vilela, mas como um acontecimento trágico, o qual, por certo, marcara a vida da cidade no século XIX. A minha mãe fazia menção ao caso e mesmo sem conhecer os detalhes da obra, contava sempre o drama do centro do Recife. Lucilo Varejão Filho, autor do Prefácio à 4ª edição, comenta, também, que ouvira o relato pela boca de uma velha senhora, sem aptidões intelectuais, mas de qualidades domésticas indiscutíveis, responsável pelas histórias que ouvira na adolescência de seus anos, com as quais tanto se encantara.

O autor publicou sua obra em folhetins que circulavam nos jornais da época, começando em 1871, com Noivados Originais, em periódico que ajudara a fundar: América Ilustrada. A Emparedada saiu entre agosto de 1909 e janeiro de 1912. Por isso, pelo longo período de divulgação no Jornal Pequeno, onde foi acolhido, talvez pelo suspense do enredo, tornou-se tão volumoso, com 477 páginas. Mas, é um texto de uma bem tramada arquitetura literária, construído por quem tinha a capacidade de um escritor de histórias policiais, como alude Varejão. É, de igual forma, uma descrição dos cenários do velho Recife e das cenas de então, as do comércio e, sobretudo, aquelas do inteiramente doméstico. Um retrato bem escrito dos convívios e das convivências em tempos assim, tão distantes então.

O desenrolar dos acontecimentos era a Capital pernambucana, nos idos de 1861, quando os negócios giravam em torno das ruas centrais, onde, aliás, ainda hoje está a velhíssima rua Nova, para usar, ainda, a expressão de Lucilo Varejão. Estabelecimentos comerciais, que abrigavam no andar superior o lar de seu proprietário e de sua família, quando não de algum caixeiro mais chegado. No caso de Jaime Favais, o seu sobrinho, português como ele, João Favais, logo nomeado primeiro caixeiro, assistia por lá, no pavimento térreo, longe da parentela. Um Recife pequeno, mas de distâncias enormes; distâncias que encurtaram com o passar dos anos, com o crescimento urbano e especialmente com o desenvolvimento dos transportes. Circulava-se à cavalo ou em carros puxados por parelhas eqüestres também.

O drama tem inicio nas atividades sociais dos personagens envolvidos, gente da aristocracia, ligada aos negócios do açúcar ou envolvida com o comércio. O teatro Santa Isabel, de tantas tradições, foi o palco apropriado e pelo destino escolhido para a aproximação entre dois importantes figurantes da trama: Leandro e Celeste. A descrição que o autor faz do pivô do crime – Leandro Dantas –, parece antecipar o que disse o jornalista Arthur Carvalho, em deliciosa crônica que escreveu no Jornal do Commercio, do Recife: O Homem Invisível. Era assim o falso estudante de medicina! Uma pessoa que frequentava as rodas sociais, mas que ninguém sabia de onde viera, o que fazia e como se sustentava. Um conquistador, na acepção da palavra, capaz de atrair simpatias variadas, da mulher casada à solteira, recatadas e pudicas, todas.

O galanteador, quando estava na cidade – dizia-se baiano –, hospedava-se no Convento do Carmo. E ali recebia algumas de suas visitas, como a do marido de Celeste, Tomé Cavalcanti, o qual por um triz não viu as cartas da mulher, graças à intervenção de Jereba, um amigo fraterno de Dantas. Sobre Cavalcanti, aliás, comenta Carneiro Vilela que ele integrava uma família cujo erro político fora expulsar os holandeses de Pernambuco. Mas Celeste, mulher dos agrados de Leandro, tivera uma educação complicada. O seu pai, próspero senhor de engenho, casara aos quarenta anos com a filha mais velha de um lavrador, com quem tivera este rebento e mais dois filhos. Mas, era, como outros daqueles anos, que se arrogavam em donos da vida e da morte de seus escravos e nunca dispensavam uma negra bonita e faceira. Assim, tivera muitos bastardos e deles deu conta a esposa, criando-os como se mãe também fosse.

A questão é que Celeste, depois de vinda do colégio onde estivera interna, tornou-se cheia de caprichos, dominadora, mas querida por todos. Com o coração meigo e carinhoso pôde exercer fascínio, influência e predomínio. Fez o pai dispensar a palmatória com que castigava os escravos e mudou o trato dispensado aos negros, permitindo-os o cantar e o dançar de seus agrados. Em compensação, tornaram-se os cativos mais produtivos e o lucro aumentou. Ela, porém, transformou-se na mais namoradeira das moças do lugar, quase sem recusar um pretendente sequer.

Josefina parecia ser diferente, em que pese terem estudado no mesmo colégio e sujeitas, evidentemente, às mesmas normas e às mesmas posturas rígidas das religiosas, se bem que expostas, também, como chama atenção o autor, às insinuações maldosas dos confessores. Assim, era uma mulher das chamadas prendas domésticas, ligada ao lar e à família, sobretudo à filha Clotilde. O reencontro com Celeste teve um efeito muito forte em Josefina, transformando-a numa pessoa que de momento para outro passou a frequentar os encontros sociais todos, veraneando no Monteiro e visitando a família Cavalcanti habitualmente. Terminou apaixonada, também, pelo Homem Invisível como se intitulou aqui, nessas linhas. E o pior de tudo, Clotilde, igualmente, caiu de amores por Dantas e dele engravidou. Jaime Favais não aceitou a traição da esposa e não admitiu a gravidez da filha. Mandou matar o amante e condenou à morte, do mesmo jeito, a filha amaldiçoada. O fato correu o Recife, de fora a fora.

Carneiro Vilela, diz que está contando a verdade. Mas Rostand Paraíso, médico e escritor, justifica que tudo não passou de um boato, nunca comprovado. E na rua Nova, verdade ou ficção, ninguém sabe, uma mulher esteve enterrada na parede.
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(*) - Crônica escrita há algum tempo e assim apresentada em congresso de médicos escritores, na cidade de Fortaleza.
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O médico e escritor GERALDO JOSÉ MARQUES PEREIRA foi uma das figuras mais proeminentes da vida intelectual, acadêmica e científica do estado de Pernambuco. Nasceu em 1944, na cidade de Recife/PE e faleceu em 2015, aos 70 anos de idade, na cidade natal, em decorrência de complicações provocadas por doença pulmonar obstrutiva crônica.  Passou toda a sua vida e concentrou suas atividades residenciais e profissionais na capital pernambucana. Ele era filho do renomado jornalista e escritor Nilo Pereira. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1968, onde posteriormente também obteve seu título de mestre em Medicina Tropical. Foi professor titular de Patologia e Medicina Tropical da UFPE. Na área administrativa da instituição, ocupou os postos de diretor do Centro de Ciências da Saúde, chefe do Departamento de Medicina Tropical e fundador do Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (NUSP). Exerceu o cargo de vice-reitor da UFPE por oito anos (entre 1996 e 2004) e chegou a assumir a Reitoria em exercício durante o ano de 2003. Atuou fortemente na gestão de saúde do estado, integrando a Comissão Estadual de Saúde e a Comissão Científica de Combate à Dengue em Pernambuco.
Geraldo Pereira uniu de forma brilhante a ciência médica à paixão pelas letras. Teve uma intensa produção intelectual focada em crônicas, ensaios historiográficos e biografias. Membro da Academia Pernambucana de Letras (APL) desde março de 2011, exercia a função de vice-presidente da instituição no período de sua morte. Membro efetivo da Academia Pernambucana de Medicina (APM), instituição da qual também chegou a ser presidente. Membro ativo da seção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores (UBE), membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), onde atuou como membro suplente do conselho fiscal e colaborador assíduo de pesquisas históricas. Embora sua maior distinção tenha sido o reconhecimento institucional imediato e a eleição para as principais academias do estado de forma unânime por seus pares, suas produções científicas e ensaios históricos acumularam distinções e condecorações de mérito universitário e cultural em Pernambuco.
Sua escrita dividia-se entre a literatura humanista e os resgates documentais. Dentre as suas frentes de publicação destacam-se: 1. Ensaios profundos sobre a História da Medicina em Pernambuco (focando especialmente no período seiscentista e na influência holandesa sobre as ciências naturais, botânica e zoologia no estado); 2. Coletâneas de crônicas e artigos de opinião publicados regularmente em veículos de grande circulação, como o Jornal do Commercio; Textos biográficos sobre grandes vultos da ciência e da política pernambucana, além de poemas íntimos (alguns escritos inclusive em seus dias finais de internação).
A relevância de Geraldo Pereira reside na sua capacidade de atuar como um historiador da ciência e da sensibilidade. Em uma época de crescente especialização técnica, ele resgatou a tradição dos "médicos-humanistas". Suas pesquisas minuciosas sobre o século XVII em Pernambuco preencheram lacunas cruciais na historiografia local, conectando elementos de sociologia, artes e medicina social. Além disso, como gestor e acadêmico, transformou as instituições literárias em polos de preservação da memória cultural do Nordeste.

Fontes:
Blog do Autor. 11.mar.2009.
https://blogdegeraldopereira.blogspot.com/2009/03/emparedada-da-rua-nova-verdade-ou.html
Biografia = Acta Médica, Academia de Letras do Pernambuco, Diário de Pernambuco, Wikipedia, Folha de São Paulo (cotidiano), etc.

Sílvio Romero (O Sarjatário)

(Folclore do Sergipe)
HAVIA UM PESCADOR QUE TINHA MULHER e uma filha, e costumava pescar sempre num rio que ficava a pouca distância de sua casa. 

Uma vez o pescador foi à pesca, e largou por muitas vezes a tarrafa na água, e não tirou nem um peixe. Já desapontado, e depois de ter corrido os poços mais apropriados à pesca e sem encontrar nada, ia-se retirando para casa muito triste. Ao pôr-se a caminho, ouviu uma voz que lhe dizia: “Se me deres a primeira coisa que avistares quando chegares em tua casa, eu te darei muito peixe.” 

O homem pôs-se a considerar consigo mesmo, e dizia: “Ora, senhor, quando eu chego em casa, a primeira coisa que me aparece é a minha cachorrinha de balaio; não faz mal; posso dá-la.” 

Virou-se para o lado de onde vinha a voz, e disse alto: “Pois bem; aceito.” 

A voz respondeu: “Pois pesca ali.” 

O pescador meteu a tarrafa, e quando tirou vinha se rasgando de peixe. A voz lhe disse: “Sábado a estas horas vem me trazer a primeira coisa que hás de ver ao chegares à tua casa.” 

O homem retirou-se. Ao avistar a sua casa, a primeira coisa que viu foi a sua filha, que, já estando inquieta por causa da sua demora, estava só pondo o olho no caminho, a ver se o descobria. O homem ficou muito triste, e entrou em casa com ar fechado, e atirou o peixe para um lado e não deu nem uma palavra.

A mulher e a filha se admiraram daquilo, e perguntaram qual a razão daquela tristeza. Depois de muito instado, o pescador confessou a verdade. 

A moça não desanimou e disse: “Não tenho medo, meu pai; se vossemecê deu a sua palavra de honra, eu irei.” 

A moça tinha um cavalo com quem consultava tudo, e foi ter com ele e lhe contou o ocorrido. O cavalo disse: “Não tem nada; monte-se em mim no sábado, e faça o que eu vou lhe dizer: quando chegarmos à beira do rio, e depois de seu pai se despedir da senhora, a tal voz, que é de um bicho muito feio, há de dizer: Adeus, siá Maria Gomes!’ e a senhora há de responder: ‘Adeus, seu Sarjatário!’ Ele há de dizer: ‘Muito me admira, siá Maria Gomes, da senhora não me conhecer e por meu nome tratar.’ Ao que a senhora há de responder: ‘Oh, seu Sarjatário, muito me admiro do senhor não me conhecer e por meu nome tratar.’ Ele há de dizer: ‘Está bom, está bom! Caminhe, caminhe!’ Hão de seguir e passar por umas campinas muito extensas e depois por umas matas muito altas e cerradas de fazer medo. Lá no fim das matas há um grande muro, que tem um portão, e o Sarjatário há de mandar a senhora abrir a porta e entrar adiante. A senhora não caia nessa e diga: ‘Não, seu Sarjatário, vá o senhor adiante que sabe os quatro cantos de sua casa.’ Ele há de abrir a porta e entrar; nisso a senhora passe a mão na chave; dê a volta e tranque a porta e deixe o bicho lá preso, e deixe o resto por minha conta.” 

Assim foi. No dia aprazado, a moça montou no seu cavalo Bufanim e seguiu. Na beira do rio avistou aquele bicho-homem de barbas muito compridas e cabelos enormes da forma de samambaias, e fez tudo que o cavalo lhe ensinou. Depois que fechou o monstro lá dentro do muro, ela partiu no Bufanim, voando como o vento. Depois de muito andarem, e de já não ouvirem mais os urros que o Sarjatário ficou dando, e quando já estavam muito longe, foram dar num reino. Aí o Bufanim aconselhou a moça que se disfarçasse em homem. 

Assim fez a moça; entrou para a cidade, alugou uma casa e passava por um moço. Tomou muitos contatos e tudo quanto fazia era sempre com os conselhos do Bufanim. 

Passados alguns tempos — o moço agora não é mais ela, é ele — foi apresentado ao rei, que era solteiro, por um de seus amigos. O rei gostou muito do moço e sempre o convidava para ir passar dias em palácio. 

O Bufanim recomendou-lhe todo o cuidado para não ser descoberto. Ora, a mãe do rei começou a dizer ao filho: “Aquele teu amigo não é homem, é mulher.” Ao que respondia o rei: “Lá vem minha mãe com as histórias dela... Qual, minha mãe! É homem e bem homem!” A rainha respondia: “Está bom, vamos para diante.” 

Um dia a rainha disse ao rei: “Meu filho, se tu queres ver se teu amigo é mulher ou não, convida-o para dares com ele um passeio pela cidade, e leva-o aos estabelecimentos de roupas e modas, e hás de ver como ele se há de agradar justamente dos objetos pertencentes às senhoras.”

O rei ficou certo de o fazer, e convidou de fato o moço para um passeio, ao que ele acedeu. Foi ter com Bufanim e o cavalo lhe disse: “Estamos perdidos!... Agora se descobre o segredo... Enfim, veja bem o que vai fazer: quando entrar nas lojas de roupas e modas com o rei, nunca se agrade de objeto algum de senhora, sempre dos de homem. Quando o rei lhe mostrar um belo vestido, mostre-lhe um bonito corte de calças, e assim por diante.” 

Assim foi; no dia aprazado para o passeio, o rei percorreu com ele toda a cidade entrando nas lojas mais importantes, e nunca pôde pilhar nada. Largou-se para palácio e disse à velha rainha: “Eu não disse, minha mãe? O rapaz é homem e bem homem; não se agradou de objeto algum que não fosse de homem!” 

A velha respondeu: “Isto é de propósito para não ser descoberto; mas ele é mulher; se tu queres ver convida-o para ir dar um passeio nas tuas fazendas com outros teus amigos, e lá convida-o para tomar um banho e hás de ver que ele não há de querer.” 

O rei convidou o moço para irem um certo dia às fazendas e tomarem um banho, e o moço aceitou. Foi ter o moço com Bufanim e lhe contou o caso. 

Bufanim disse: “Eh!... Está tudo perdido! Enfim, faça o que eu lhe vou dizer: chegando lá nos tanques do rei não faça cerimônia, vá tirando a sua roupa como os outros; quando a senhora já estiver de ceroulas e camisa eu me solto e entro a dar coices e patadas nos outros cavalos; os criados do rei hão de correr para me pegar, e eu hei de machucar alguns, até que a senhora diga que só a senhora é capaz de me pegar. Corra atrás de mim até ficar cansada e suada e depois queira tomar o banho; o rei, vendo isto, não há de consentir, e assim a senhora escapa do banho.” 

Assim foi; no dia marcado deu-se tudo tal e qual, e o moço escapou do banho com instâncias do rei. 

Chegando este ao palácio disse: “Ora, minha mãe, o rapaz é homem; ia já se pondo nu e queria tomar banho à força apesar de suado.” 

— “Mas suado por quê, meu filho?” 

— “Por ter corrido atrás de seu cavalo”, disse o rei. 

— “Isto é de propósito, respondeu a rainha; se tu queres ver, continuou ela, se ele é mulher ou não, convida-o para vir passar uma noite contigo ajudando-te a copiar a tua correspondência; ele não há de aguentar a noite inteira acordado, e quando ele pegar no sono, desabotoa-lhe a camisa e hás de ver os seios de mulher.” 

O rei convidou o amigo, para passar uma noite em palácio ajudando a copiar a sua correspondência. O moço consultou com o Bufanim, que lhe respondeu: “Desta a senhora não escapa. Enfim faça tudo por não dormir, senão é descoberta com toda a certeza.” 

Na noite marcada, o moço se apresentou e começou o trabalho. O rei ditava e ele escrevia. Foram indo, foram indo e nada de ninguém dormir. Mas lá para quatro horas da madrugada o moço cochilou e pegou no sono. Aí o rei veio devagarinho e desabotoou-lhe a camisa e pegou nos seios, que ali estavam durinhos e guardadinhos... 

O rei quando lhes botou a mão em cima foi dizendo: “Oh, senhora dona!” 

Aí apareceu logo a mãe do rei e deu à moça roupas de mulher, e ela, muito envergonhada, pediu muitas desculpas ao rei, que logo a pediu em casamento. Depois de casados o Bufanim conservou-se sempre em poder da moça. 

Passados alguns meses a nova rainha apareceu pejada e o rei teve que seguir para a guerra, e levou o Bufanim. 

Na despedida o cavalo disse à rainha: “Quando se achar em algum perigo grite por mim três vezes, que eu lhe hei de aparecer.” 

Depois de estar o rei na guerra já algum tempo, a rainha deu à luz dois meninos, a coisa mais linda que dar-se podia. 

A velha mãe do rei ficou muito contente, e escreveu ao filho dizendo que sua nora tinha dado à luz dois príncipes, que estavam muito fortes, e eram muito belos, e mandou levar a carta por um soldado, recomendando-lhe muito cuidado. 

O soldado, por caiporismo (azar), foi, depois de muitos dias de viagem, pernoitar na casa do Sarjatário, que se fingiu de tolo, e perguntou que novidades havia. O soldado lhe contou que não sabia de nada, mas que levava uma carta para o rei. 

O Sarjatário, quando o soldado pegou no sono, foi à sua mala, tirou a carta, e botou lá outra imitando a letra, e dizendo que a rainha tinha dado à luz dois sapinhos, e que a corte estava coberta de luto. 

O soldado seguiu viagem e entregou a carta ao rei, que ficou muito aflito, mas mandou em resposta à mãe — que sapinhos ou não, fossem eles muito bem tratados. 

O soldado seguiu com a resposta, e, ainda por caiporismo, foi pedir rancho na casa do Sarjatário. De novo este monstro foi à mala do soldado e tirou a carta e botou outra no lugar, imitando a letra do rei, e dizendo que a sua mãe mandasse pôr a sua mulher e os dois meninos na Montanha das Feras. 

O soldado seguiu, e, quando a rainha velha leu a resposta, ficou muito agonizada e mandou reunir os conselheiros para lhe dizerem se devia executar aquela ordem terrível. 

Todos ficaram muito aflitos, mas responderam que palavra de rei não volta atrás, e por isso devia ser cumprida a ordem. 

Assim se fez, e a rainha teve de seguir com seus dois filhinhos para a Montanha das Feras. As pessoas que as foram levar, retiraram-se, e a rainha com seus filhos viram-se sozinhos. Mas as feras bravias que ali havia não as ofenderam. 

Eis que de repente apareceu aos olhos da rainha aquele monstro horrível e medonho, era o Sarjatário! 

“Agora vim me vingar, senhora Maria Gomes. Vamos a ver quem pode mais”, disse o monstro. 

A rainha ficou muito aterrorizada e pediu compaixão, mas o Sarjatário a nada se moveu. A rainha, convencida de que ia morrer, pediu para dar três gritos. 

“Pode dar cem ou mil!”, respondeu o Sarjatário. 

Então ela gritou: “Bufanim, ó Bufanim!” Isto três vezes. 

No fim do terceiro grito o Bufanim apresentou-se. O Sarjatário, quando o avistou, deu um pulo para o lado, e pôs-se em distância. Então o cavalo disse à moça: “Eu vou ter uma grande luta com aquele monstro e vou morrer; mas ele também há de morrer. Eu peço somente que arrume uma grande fogueira e deite nela o corpo do monstro; o meu corpo deixe-o aí ao tempo para os urubus o comerem.” 

Dito isto atirou-se ao Sarjatário e começou a briga. A luta foi furibunda, e os dois caíram mortos, cada qual para seu lado. A moça fez o que o Bufanim lhe tinha dito, e largou na fogueira o cadáver do Sarjatário e deixou exposto ao ar o do cavalo. 

Depois de muito chorar, e abraçar o pobre cavalo, ela foi seguindo por uma grande campina que ali havia. Depois de muito andar, avistou muito ao longe uma casa. Ao chegar perto, reconheceu um palácio grande e muito ornado. Entrou e não viu ninguém. À hora de comer viu aparecer uma mesa muito preparada, e ela sentou-se e comeu, aparecendo somente umas mãos que lhe indicavam os objetos, mas sem a moça ver ninguém, nem ouvir falar. Também as mãos apresentavam comida para as criancinhas. À noite apareceram luzes acesas e camas para se deitarem. Assim passou a moça muitos meses, até que o rei, voltando da campanha, e não encontrando a mulher, e sabendo de tudo ficou desesperado, e quis também ir para a Montanha das Feras; viu alguns ossos pelo chão e sinal de fogo, mas reconheceu que não eram ossos de gente humana. 

Pôs-se a andar pela campina, e seguiu na mesma direção que tinha levado a rainha. No cabo de muito andar foi ter ao mesmo palácio, e avistou uma moça na janela, ao mesmo tempo que um dos meninos, que neste tempo já falavam, gritou: “Olhe, mamãe, lá vem papai!” 

— “Ah, quem dera que fosse teu pai!” 

— “É ele mesmo”, respondeu o rei. 

Muita foi a alegria e satisfação de todos, que voltaram para a cidade e viveram felizes ainda muitos anos.
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     SÍLVIO ROMERO (nome literário de Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero) foi um dos maiores intelectuais, críticos literários, ensaístas e historiadores do Brasil no século XIX e início do século XX. Homem de personalidade combativa e polêmica, ele revolucionou a forma de se pensar a identidade nacional, sendo o pioneiro na historiografia literária científica no país e um dos maiores defensores do folclore e da cultura popular como bases da nossa literatura. Nasceu na Vila de Lagarto (atual município de Lagarto), Sergipe, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (então capital federal), em 1914, aos 62 anos. Passou a infância e as primeiras letras no Sergipe. Mudou-se para Recife/PE para realizar seus estudos preparatórios e superiores na Faculdade de Direito. Fixou residência definitiva a partir de 1880, no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira profissional, literária e política até o fim da vida. Foi professor de Filosofia no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cargo que conquistou por meio de um célebre e disputado concurso público em 1881. Posteriormente, lecionou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Atuou como advogado e foi promotor público na província de Minas Gerais (em Estrela do Sul) e em sua terra natal. Com a Proclamação da República, ingressou na vida política ativa. Foi eleito Deputado Federal por Sergipe em duas legislaturas (1891–1893 e 1900–1902), participando ativamente dos debates jurídicos e culturais da nova República.
Iniciou sua vida literária ainda estudante em Recife, colaborando com jornais acadêmicos. Ele fez parte da chamada Escola de Recife, um movimento intelectual liderado por Tobias Barreto que introduziu o positivismo, o evolucionismo e o criticismo filosófico alemão no Brasil. Romero abandonou cedo a poesia para se dedicar à crítica literária e ao ensaio sociocultural. Ele utilizava as teorias científicas de sua época (como o determinismo de Taine e o evolucionismo de Spencer) para analisar a produção literária brasileira sob uma ótica sociológica. Ficou conhecido por suas polêmicas ferozes com outros intelectuais da época, como Machado de Assis e José Veríssimo. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Participou ativamente das reuniões de fundação em 1897 ao lado de Machado de Assis, embora mantivesse uma postura crítica em relação ao formalismo excessivo da instituição.  Foi membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando o espaço para suas pesquisas historiográficas e geográficas. Na virada do século XIX para o século XX, não existiam prêmios literários institucionais de grande porte no Brasil (como o Prêmio Jabuti ou o Prêmio Camões, criados décadas mais tarde). O reconhecimento de Sílvio Romero deu-se por meio do enorme prestígio acadêmico, aclamação pública de seus pares e pela rápida consagração de suas obras como manuais de estudo obrigatórios nas faculdades do país.
Sua produção foi vasta e abrangeu a poesia, a crítica, a história e o folclore:
Historiografia e Crítica Literária: História da Literatura Brasileira (1888) — Sua obra-prima absoluta e divisora de águas; Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897); Evolução da Literatura Brasileira (1905).
Estudos de Folclore e Cultura Popular: Cantos Populares do Brasil (1883 e 1885)
Poesia (Fase Inicial): Cantos do Fim do Século (1878).
A importância de Sílvio Romero é monumental porque ele foi o fundador da crítica literária moderna e da historiografia científica no Brasil. Antes dele, a história da nossa literatura era vista de forma amadora ou meramente biográfica. Romero foi o primeiro a estruturar uma análise que conectava a produção artística à formação social, étnica e psicológica do povo brasileiro. Ele teve a sensibilidade genial de perceber que a verdadeira literatura brasileira não nascia da cópia dos modelos europeus, mas sim da mestiçagem cultural. Ao recolher, catalogar e publicar os cantos, contos e mitos do interior do país, ele salvou o folclore nacional do esquecimento e provou que as manifestações populares eram a base autêntica da nossa identidade. Sua obra abriu caminhos diretos para o Modernismo de 1922 e para os estudos sociológicos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Ebiografia, Wikipedia, Ricardo Velez, Cia. das Letras, Academia Brasileira das Letras, Infopedia, Revista da USP, Amazon, etc.

sábado, 8 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 211 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Haicai de
ZEKAN FERNANDES
São Paulo/SP

Fiel espantalho
Ainda guarda a plantação
Depois da colheita.
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Soneto de 
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Tributo a Severino Silveira de Sousa 

COMO o orvalho emergindo da aurora,
Quando o sol o dissolve na vegetação,
Espalhando pingos de ouro pelo chão,
Para vicejar a relva nativa e a flora;

Assim se expandem pelo mundo afora,
Quem sempre extrai da alma e coração,
Nobre sentimento e real dedicação:
-Tudo de bom que de seu âmago aflora... 

No livro da vida, um soneto perfeito!
Rendo-me, aqui, com todo meu respeito,
Ao colega gaúcho, exímio trovador: 

-Poeta Severino Silveira de Sousa!...
Pássaro cantor!... No galho onde pousa,
Com sua lira faz - "caramanchéis de amor!..." 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013

A mulher do sapateiro
que vive ao som do martelo,
bate sola o ano inteiro,
pondo o esposo no chinelo! 
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Soneto de
WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon/Grã-Bretanha, 1564 – 1616

Soneto 2

Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.

Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,
E provará ter herdado de ti toda a formosura.

Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Desses livros velhos
eu sei bem a idade deles—
das traças, não sei.
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Soneto de
AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO, 1925– 2002, Rio de Janeiro/RJ+

Sonetos Elementares: XIII

Nada há de mais num túmulo sem flores
perdido numa estrada. Mas em nós
existem solidões, almas que sobram
de um sonho já sepulto ou de silêncios.

Vai comigo o silêncio enquanto fujo
das multidões, das ruas e do amor
que poderia ser – e no silêncio
as tristezas e os risos vão comigo.

Mas que desejo é este que me impele
para as sombras e os ermos, onde, lúcida,
vem sempre me acolher minha presença?

Ontem o rio estava quieto, hoje corre
impetuoso. Eu olho e nada estranho:
muito de mim eu vejo nessas águas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

"Esta peixada está quente!"
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: "Ó xente,
'se qué', tem pexera fria!”
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
JOSÉ CRAVEIRINHA
Maputo/Moçambique, 1922 – 2003, Johannesburgo/África do Sul 

A nossa casa

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitetura retangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MARIA TEREZA NORONHA 
São Paulo/SP

O livro, a cerveja ao lado,
o rádio, o abajur antigo...
Eu deixo tudo arrumado,
fingindo que estás comigo.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
HENRIQUE ABRANCHES 
Lisboa/Portugal, 1932 – 2004, África do Sul 

Ao Bater da Chuva

A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem, 
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces,
a chuva bate o capim molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
                                                                              
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de proteção!
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
                                                                          
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...
= = = = = = = = = = = = = =  

Aldravia de 
EDIR MEIRELLES
Rio de Janeiro/RJ

emocionado
em
silêncio
pela
palavra
apunhalado
= = = = = = = = = = = = = =  

Um Poema de
ANTONIO OLINTO
(Antonio Olyntho Marques da Rocha)
Ubá/MG, 1919 – 2009

Noturno

Os rios da noite passam pelos desvãos do homem,
por todos os pedaços vazios da memória,
pelos olhos secos de tanta sombra.

É uma presença física
de palavras batidas de vida,
de silêncio oscilante da iminência do grito.

As árvores estão sós - o vento é morto
é preciso um avançar exato do gestos
para captar a vida sob as horas imóveis.

Um piano aberto na areia,
diante do mar e das pedras.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Muito suor foi preciso,
mas minha audácia venceu:
- finalmente, o chão que eu piso
tem dono... e o dono sou eu!!! 
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
FRANCISCO NEVES MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012

Cruviana* Sertaneja

Ah cruviana...
Descobri-a numa noite da minha adolescência
no alpendre da casa grande de Coroas Limpas
na minha Santana do Matos.
Tremia feito "vara verde"
Não, não era o frio!
Era o medo de não saber se tu cruviana,
Seria uma onça  ou uma alma penada.
E pela manhã fui dicionariZar o meu medo...
Beleza!
A grande descoberta!

Chega em tornado, 
acordam os trabalhadores das fazendas 
e os envia fora para o trabalho. ...
Meu Deus, que alivio!
E o alpendre da velha casa de Coroas Limpas,
ganhava um "dormidor"
para curtir a cruviana 
de cada emadrugadecer!
= = = = = = = = = = = = = =  
*Cruviana = É a Deusa do vento, a mulher do alvorecer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
JOSÉ XAVIER BORGES JÚNIOR
São Paulo/SP

Hoje trago na lembrança
uma dor que sobrevive
num fiapo de esperança
pelo amor que nunca tive
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
DULCE AURIEMO
São Paulo/SP

O Castelinho 

Existe um lugar...você vai conhecer 
E quando chegar... pode entrar sem bater... 
A porta aberta vai sempre encontrar 
No alto da torre um sininho a tocar... 

No meu coração... bem guardado em mim... 
Aonde o amor... não tem fim, não tem fim... 
Tem um Castelinho pra gente brincar 
Já fiz seu cantinho você vai gostar... 

Tem água de coco, pãozinho de mel 
Pipoca, paçoca, sorvete e pastel... 
Brinquedo, livrinho, fantoche, massinha 
Balão colorido... herói de estorinha... 

Tem fonte, laguinho, jardim pra correr 
Passagem secreta pra gente esconder 
Tem ponte, riozinho, patinho a nadar... 
Até carruagem... que vai passear... 

As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ORLANDO WOCZIKOSKY
Curitiba/PR, 1927 – 2019

É nobre quem não exalta
vitória já conquistada,
pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
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Poema de 
CARMEN LÚCIA HUSSEIN
Taubaté/SP

Apenas

Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
As suas palavras
E boas atitudes
Para eu ser feliz
Ter esperança na vida
E energia para prosseguir
Amenizar a saudade
E dar rumo
E norte ao meu existir
Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
De momentos breves de felicidade
Para eu ser feliz!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
AUTOR ANÔNIMO

Já fui  alegre e contente,
hoje não sou mais ninguém.
Já fui consolo dos tristes,
hoje sou triste também.
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Poema de
EDGAR ALLAN POE
Boston/EUA, 1809 – 1849, Washington/EUA

Annabel Lee 

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar. 

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar. 

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar. 

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar. 

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar. 

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
= = = = = = = = = = = = = =