segunda-feira, 22 de abril de 2024

Isabel Furini (Poema) 58: Latejar

 

Contos e Lendas da Espanha (O Galego e o cavalo do rei)

Certa vez aconteceu um fato curioso com um galego que era criado de um rei.

Esse rei tinha um belíssimo cavalo branco. E o prezava mais que a todas as riquezas que possuía. Gostava tanto do animal, que anunciou, que seria capaz de mandar para a forca o homem que lhe trouxesse a notícia mais triste do mundo. E quando lhe perguntaram que notícia seria essa, o rei respondeu sem hesitação:

— A morte do meu cavalo, oras. O que mais poderia ser?

Algum tempo depois, um soldado andaluz estava cuidando do cavalo, como fazia todas as manhãs. De repente, o animal se assustou. Relinchando, deu um coice no ar com tanta força, que escorregou e quebrou uma pata. Sem outra alternativa, o soldado teve de sacrificá-lo ali mesmo. Depois, começou a tremer de medo, pois conhecia muito bem a ameaça do rei. E não duvidava que ele fosse capaz de mandar enforcá-lo. 

Apavorado, o soldado chegou a molhar a camisa, de tanto que transpirava e tremia. O galego, que naquele momento entrava na cocheira, deparou-se com um triste quadro: o cavalo sem vida e o soldado pálido como um fantasma, a ponto de sofrer um ataque e cair ali mesmo, ao lado do animal.

— O que aconteceu? — perguntou o galego.

O soldado contou, mas sua voz soava tão trêmula, que o galego o interrompeu:

– Espere um. pouco enquanto vou buscar um copo de água. Você precisa se acalmar, homem.

O galego voltou rapidamente;

– Pronto, aqui está. Trate de beber a água em pequenos goles e tome cuidado para não se afogar.

O soldado obedeceu, E com um olhar de gratidão, devolveu o copo ao galego:

— Obrigado, amigo.

— Sente-se melhor?

_ Não muito... Pois minha vida está por um fio.

– Calma — o galego recomendou. — Conte-me o que aconteceu.

O soldado assim o fez. No final, disse:

– Você estava presente quando o rei deu aquela declaração?

– Sim. Ele jurou que mandaria enforcar... O homem que lhe levasse a notícia da morte de seu cavalo — o soldado completou, voltando a tremer como uma vara verde no meio da ventania.

— Sabe de uma coisa? — disse o galego. Acho que vou livrá-lo dessa encrenca.

— Mas como?

– Encarregando-me de levar a notícia ao rei.

– Agradeço, mas isso não é justo. Não quero que você seja morto em meu lugar.

– Acontece, meu amigo, que não pretendo morrer tão cedo.

— E o que você tenciona fazer?

– Isso é comigo. Agora, trate de levar o cavalo para o pasto. 

E o galego se afastou, muito tranquilo e confiante. Com um suspiro de alívio, o soldado andaluz apressou-se a cumprir a ordem do galego. Pediu a outros criados que o ajudassem, colocou o cavalo numa carroça e deixou-o no pasto.

O galego entrou no palácio do rei e disse aos guardas que tinha uma notícia importante. O rei, que tratava com deferência os empregados responsáveis por seu belo cavalo, não tardou a recebê-lo.

— E então? — perguntou. — O que há?

Saiba Vossa Majestade que o cavalo branco está jogado lá no pasto, com moscas entrando-lhe pela boca e saindo-lhe pelo rabo.

O rei, assustado, exclamou:

– Mas, homem, isso quer dizer que ele morreu!

— Ah, eu não sei, majestade, pois não sou veterinário.

Assim, o galego escapou da forca, pois não tinha sido ele, e sim o rei, quem havia dito que o cavalo estava morto.

Fonte> Yara Maria Camillo (seleção). Contos populares espanhóis. SP: Landy, 2005.

Lino Vitti (Asas da poesia) = 1


A BANDEIRA DO SONHO E DA ESPERANÇA

Vede a nave que vai. É a vida que navega,
às vezes calmaria, às vezes sol bonito.
Pelos mares boreais agora nos carrega,
por oceano feliz, estival e bendito.

Esta nau é latina, esta outra é vela grega,
qual vem de Gibraltar, qual vem do velho Egito.
Hoje o Mediterrâneo em torno a si as congrega,
amanhã já não sei em que quadrante as fito...

E quem sabe, Senhor o rumo dessas naves,
ora ao Norte, ora ao Sul, tempestades, bonanças,
furor de vendavais, quiçá rotas suaves!

O que vejo, porém, em toda a nau que avança,
vencendo furacões, à voz de roucas aves,
é a bandeira do Sonho e o mastro da Esperança.
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ANTES QUE AS ESTRELAS BRILHEM

Antes que brilhem as estrelas no alto,
num estranho chegar do lusco-fusco;
antes que a noite com seu negro assalto
me tire a santa luz que tanto busco;

antes que as trevas - esse horrendo asfalto
do céu - onde de dor a alma chamusco,
os meus ideais a poetar ressalto,
vejo perto um crepúsculo velhusco.

O sol já não quer ver-me com carinho,
sem águas vou, aos passos, no caminho,
vão as flores e as aves debandadas.

Restam somente as rimas por conforto,
eu já alcancei o derradeiro porto,
brilhem pois as estrelas namoradas.
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LUZES DO OCASO

Quando o céu se colore e como um pálio
se desdobram luzores no horizonte,
dou por findo o meu rústico trabalho,
do versejar selou-se a minha fonte.

É preciso parar ânsias do atalho,
é preciso deter o afã do monte.
É preciso secar o doce orvalho
antes que o sol, no céu, fulvo tramonte.

Toda a vida me foi um belo acaso,
quanto pude galguei o meu Parnaso
dispersando poesia estremecida.

Tudo finda na vida, tudo finda,
mesmo assim vejo sempre muito linda
a aventura enigmática da vida,
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POESIA MODERNA

Minha cara Poesia alegre e modernista,
inestética, irreal, síntese, paradoxo.
Desrimada, a mancar qual manca altivo coxo
mas sincera, jovial, enigmática, artista.

Protestante, genial, lírica arte golpista,
bela como o Brasil, ou feia como um mocho,
ora clara manhã, ora poente roxo,
revolução feliz, a se perder de vista.

Sem métrica, sem rima, e sem qualquer estrofe
és. Poesia moderna, um grande regabofe,
artística, revolta, amada e sem vergonha.

Assim mesmo sem rima ou métrica que a cantem,
não importa porém que os outros mais se espantem,
enquanto teu cantor divinamente sonha.
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"PORTAL DOS SONHOS"

(Ao seu autor Esio Pezato)

Poeta peregrino, após tantas andanças
à procura do Belo, em busca de um tesouro
erguendo o olhar ao céu das doces esperanças.
feitas de imenso azul, feitas de estrelas de ouro;

poeta caminheiro, afinal, quando alcanças
do teu longo viajar feliz ancoradouro?
Quando te acolherâo aquelas terras mansas
do encantado país, dos sonhos sorvedouro?

Responda-me, poeta, até quando essa busca,
E esse louco viver que a incompreensão ofusca,
muitas vezes sem sol, muitos dias tristonhos!?

Eis a tua resposta, aloucado poeta:
ter a glória imortal do um telúrico esteta
e a pérola nos dar desse “PORTAL DE SONHOS".
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TERRA NATAL
(Santanense com orgulho)

Nesse chão, onde guarda a santa natureza
as minhas ancestrais, genéticas raízes,
vi florir-me da vida os sonhos de beleza,
desfrutei do viver, os dias mais felizes.

Deram-me as fontes a água pura posta à mesa,
da sede refrescando as fundas cicatrizes.
O céu - cúpula azul - de enorme azul-turquesa,
se enfeitava de sol e de nuvens atrizes.

Pássaros musicais, saudando a manhã nobre,
a escola, as plantações, as estrelas em penca,
as estradas que vão, de um sino o triste dobre...

Uma terra não há como a minha Santana:
Tem o terno verdor de um vasinho de avenca,
e o gosto sazonal de um cacho de banana.
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Fonte> Lino Vitti. Antes que as estrelas brilhem. Piracicaba, 2001.

Eliana Palma (Microcontos) – 1

Sempre se sacrificara para dar presentes, que parentes e amigos desdenhavam. Fez diferente: cantou um "Parabéns pra você" para o aniversariante e usou a grana para renovar o próprio guarda-roupa.
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Levou o filhinho ao circo. Enquanto isso, a esposa acamada ria das gracinhas, e fazia mil acrobacias com o palhaço do vizinho.
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Era ótima cozinheira. Em transe, perfurava o pernil profundamente com a enorme faca. Foi sacudida pela patroa; o porco era o patrão abusador.
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Não sabia descansar. Não podia perder qualquer oportunidade. Driblava o cansaço e a idade com novas empresas. Foi interditado pelos herdeiros, que se cansaram de esperar o tempo de gastar!
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Só redigia textos de grande violência. Um dia foi encontrado morto: as letras agressivas o asfixiaram.
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Cismava. Olhos baixos nos pés rachados, e o filho do patrão a fazer dele o alvo de intermináveis chacotas... Quando o fazendeiro aflito perguntou pela mimada cria, respondeu: 
—"Sei não," com olhar distante no turbulento rio.
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Chorava na cobertura. Via aviões passarem e queria voar. Um dia, o salto, o sorriso e o baque. Hoje voa, leve, em outra dimensão.
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Não queria engordar. Muitas fórmulas e drogas depois come, hoje, feliz, grama pela raiz!
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Sua solidão tinha a halitose por companhia. Quando o último dente se perdeu viu-se obrigado a encarar o dentista. O sorriso voltou, e com ele, amigos e amores.
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Sabia que o pitbull era temperamental, mas insistia em manter o animal. Um dia, o ataque e a desfiguração do rosto: o sacrifício do cão e um novo relacionamento, com o cirurgião plástico.
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Habituado a projetar arranha-céus, construiu castelos nas nuvens. Por falta de alicerce, todos os sonhos ruíram.
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Estava apaixonada. A futura sogra exigiu o fim do noivado: "filho meu não se casa com doméstica". Foi à luta! Fez faculdade de moda e tomou-se renomada estilista. Rica, famosa e feliz, inverteu as letras e trocou o amor por Roma!
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Era muito rica. Criava um filhote de leão apenas para ser exótica. Anos depois, o animal foi encontrado ao lado da jaula arrebentada, tendo ainda na boca um osso do qual pendia valioso solitário.
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Parabenizava-se! Olhava as mãos bem feitas: parara de roer as unhas; o cinzeiro limpo: parara de fumar; o barzinho transformado em biblioteca; parara de beber; o calo no dedo: finalmente acabara de escrever seu primeiro "best seller"!
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Era Natal, e cadê dinheiro para presentes? Cortou cartões em cartolina verde, marcou-os com beijos em batom vermelho e escreveu uma trova para cada presenteado. Foi o ano que proporcionou as maiores alegrias aos amados!
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Ano Novo chegando. Queria novidades, mudança de panorama. Encheu-se de coragem e virou a cama para a janela!
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Separou-se do noivo marginal. O que vertia não era choro por amor despedaçado, mas chorume do lixo emocional acumulado.
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Encontrou lagarta na salada. Rodou a baiana! Chega! Vegetariana nunca mais!!! 
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Depois de trinta chopes, um bom mergulho para desaguar na piscina do cunhado esnobe. A mulher, afogando-se na cama, acordou-o aos berros!
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Fonte> Maria Eliana Palma. Momentos em prosa e verso. Maringá, 2016. Entregue pela autora.

Recordando Velhas Canções (Aquarela)


Composição: Vinícius de Moraes / Toquinho / Guido Morra / Maurizio Fabrizio.

Numa folha qualquer
Eu desenho um Sol amarelo
E, com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo

Corro o lápis em torno da mão
E me dou uma luva
E, se faço chover, com dois riscos
Tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho azul do papel
Num instante, imagino
Uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul

Pinto um barco à vela
Branco navegando
É tanto céu e mar
Num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar

Basta imaginar, e ele está partindo
Sereno e lindo
E, se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos
Bebendo, de bem com a vida

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E, num círculo, eu faço o mundo

Um menino caminha
E caminhando chega no muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente, o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar

Sem pedir licença
Muda nossa vida
E depois, convida
A rir ou chorar

Nessa estrada, não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela, ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar

Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela que, um dia, enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer
Eu desenho um Sol amarelo (que descolorirá)
E, com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo (que descolorirá)

Giro um simples compasso
E, num círculo, eu faço o mundo (que descolorirá)
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Aquarela: Uma Viagem Pela Imaginação e Pela Vida
A música 'Aquarela', composta por Toquinho, é uma verdadeira viagem pela imaginação e pelas diversas fases da vida. A letra começa com a simplicidade de um desenho infantil, onde um Sol amarelo e um castelo são criados com poucos traços. Essa simplicidade é um convite à liberdade criativa, onde tudo é possível a partir de elementos básicos, como um lápis e uma folha de papel. A música evoca a pureza da infância, onde a imaginação não tem limites e qualquer mancha de tinta pode se transformar em uma nova criação, como uma gaivota voando no céu.

À medida que a canção avança, os desenhos ganham vida e se transformam em viagens por lugares distantes e sonhos de liberdade. O barco à vela, o avião e o navio de partida são metáforas para as aventuras e as descobertas que fazemos ao longo da vida. Toquinho utiliza essas imagens para falar sobre a capacidade de sonhar e a vontade de explorar o mundo, destacando a beleza e a coragem de se lançar ao desconhecido. A música também reflete sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade da mudança, como quando menciona a 'astronave' do futuro que não podemos controlar.

Por fim, 'Aquarela' nos lembra da efemeridade da vida e dos momentos que vivemos. A passarela de aquarela que um dia descolorirá simboliza a transitoriedade de nossas experiências e a importância de aproveitá-las ao máximo. A repetição do verso 'que descolorirá' ao final da música reforça a ideia de que tudo é passageiro e que devemos valorizar cada momento. Toquinho, com sua melodia suave e suas letras poéticas, nos convida a refletir sobre a vida, a arte e a beleza das pequenas coisas que, juntas, compõem o grande quadro de nossas existências.

Beatrix Potter (O Conto de Dois Ratos Maus)


Era uma vez uma linda casa de bonecas; era de tijolos vermelhos com janelas brancas, cortinas de musselina de verdade, porta da frente e chaminé.

Pertenceu a duas bonecas chamadas Lucinda e Jane; pelo menos era de Lucinda, mas ela nunca pedia comida.

Jane era a cozinheira; mas ela nunca cozinhou, porque o jantar foi comprado pronto, em uma caixa cheia de aparas.

Havia duas lagostas vermelhas e um presunto, um peixe, um pudim e algumas peras e laranjas. Eles não saíam dos pratos, mas eram extremamente bonitos.

Certa manhã, Lucinda e Jane tinham saído para passear no carrinho de bebê da boneca. Não havia ninguém no berçário e estava muito quieto. De repente, houve um pequeno ruído de arranhões em um canto perto da lareira, onde havia um buraco sob o rodapé.

O Pequeno Polegar colocou a cabeça para fora por um momento e depois a colocou de novo.

O Pequeno Polegar era um rato.

Um minuto depois, Hunca Munca, sua esposa, também colocou a cabeça para fora; e quando ela viu que não havia ninguém no berçário, ela se aventurou no oleado sob a caixa de carvão.

A casa de bonecas ficava do outro lado da lareira. Pequeno Polegar e Hunca Munca atravessaram cuidadosamente o tapete da lareira. Eles empurraram a porta da frente – não era rápido.

Pequeno Polegar e Hunca Munca subiram e espiaram a sala de jantar. Então eles gritaram de alegria!

Um jantar tão adorável foi colocado sobre a mesa! Havia colheres de estanho, facas e garfos de chumbo e duas cadeirinhas – tudo tão conveniente!

Pequeno Polegar começou a trabalhar imediatamente para cortar o presunto. Era de um lindo amarelo brilhante, com listras vermelhas.

A faca amassou-se e feriu-o; ele colocou o dedo na boca.

“Não está cozido o suficiente; é difícil. Você tem que tentar, Hunca Munca.”

Hunca Munca levantou-se da cadeira e cortou o presunto com outra faca de chumbo.

“É tão duro quanto os presuntos do queijeiro”, disse Hunca Munca.

O presunto se desprendeu do prato com um solavanco e rolou para debaixo da mesa.

“Deixa pra lá”, disse o Pequeno Polegar; “me dê um pouco de peixe, Hunca Munca!”

Hunca Munca experimentou cada colher de estanho; o peixe estava colado ao prato.

Então o Pequeno Polegar perdeu a paciência. Ele colocou o presunto no meio do chão e bateu com a pinça e com a pá – bang, bang, smash, smash!

O presunto voou em pedaços, pois por baixo da tinta brilhante era feito apenas de gesso!

Então não houve limites para a raiva e decepção de Pequeno Polegar e Hunca Munca. Partiram o pudim, as lagostas, as pêras e as laranjas.

Como o peixe não saía do prato, puseram-no no fogo de papel crepom em brasa da cozinha; mas também não queimaria.

O Pequeno Polegar subiu pela chaminé da cozinha e olhou para o topo – não havia fuligem.

Enquanto Pequeno Polegar subia pela chaminé, Hunca Munca teve outra decepção. Ela encontrou algumas latas minúsculas sobre a cômoda, rotuladas – Arroz – Café – Sagú – mas quando as virou de cabeça para baixo, não havia nada dentro, exceto contas vermelhas e azuis.

Então aqueles ratos começaram a fazer todo o mal que podiam – especialmente Pequeno Polegar! Ele tirou as roupas de Jane da cômoda do quarto dela e as jogou pela janela do último andar.

Mas Hunca Munca tinha uma mente frugal. Depois de tirar metade das penas do travesseiro de Lucinda, lembrou-se de que ela mesma precisava de um colchão de penas.

Com a ajuda do Pequeno Polegar, ela carregou a almofada escada abaixo e cruzou o tapete da lareira. Foi difícil espremer o travesseiro no buraco de rato; mas eles conseguiram no final das contas.

Então Hunca Munca voltou e trouxe uma cadeira, uma estante, uma gaiola de passarinho e várias pequenas bugigangas. A estante e a gaiola recusaram-se a entrar na toca dos ratos.

Hunca Munca deixou-os atrás da caixa de carvão e foi buscar um berço.

Hunca Munca acabava de voltar com outra cadeira, quando de repente ouviu-se um barulho de conversa lá fora no pátio. Os camundongos correram de volta para a toca e as bonecas entraram no berçário.

Que visão encontrou os olhos de Jane e Lucinda!

Lucinda sentou-se sobre o fogão virado da cozinha e ficou olhando; e Jane encostou-se na cômoda da cozinha e sorriu – mas nenhuma das duas fez qualquer comentário.

A estante e a gaiola foram resgatadas debaixo da caixa de carvão – mas Hunca Munca ficou com o berço e algumas roupas de Lucinda.

Ela também tem algumas panelas e frigideiras úteis e várias outras coisas.

A garotinha a quem pertencia a casa de bonecas disse: “Vou comprar uma boneca vestida de policial!”

Mas a enfermeira disse: “Vou preparar uma ratoeira!”

Então essa é a história dos dois Ratos Maus, mas eles não eram tão travessos afinal, porque o Pequeno Polegar pagou por tudo que quebrou.

Ele encontrou uma moeda de seis pence torta sob o tapete da lareira; e na véspera de Natal, ele e Hunca Munca o enfiaram em uma das meias de Lucinda e Jane.

E todas as manhãs bem cedo – antes que alguém acordasse – Hunca Munca vinha com sua pá de lixo e sua vassoura para varrer a casa das Bonecas!

Fonte: Beatrix Potter (escritora e ilustradora). O conto de Dois Ratos Maus. Publicado originalmente em 1904 como “The Tale of Two Bad Mice”. Disponível em Domínio Público

domingo, 21 de abril de 2024

Adega de Versos 123: José Carlos Moutinho

 

Mensagem na Garrafa = 111 =

Monsenhor Orivaldo Robles 
Poloni/SP, 1941 – 2019, Maringá/PR

QUERIDO GONZAGUINHA

Outro dia, me dei ao cuidado de conferir a letra de “O que é, o que é?”, imortal samba de Gonzaguinha, falecido há 22 anos (tudo isso já?) em acidente no Sudoeste do nosso Estado. Nunca o tinha feito. Que riqueza de inspiração! Ele bem que podia ter durado mais que os seus poucos 45 anos. Ainda estaria produzindo coisas belíssimas, de valor incontestável. Muito melhores que as tolices de pretensos compositores, que frequentemente nos obrigam a ouvir em altíssimo volume. Sem pedir licença, alguns “donos” das ruas enfiam essas porcarias em nossos ouvidos. Nós, pobres vítimas, que podemos fazer?

Há tempo, venho-me convencendo de que atravessamos a era da mediocridade feliz. Na minha pobríssima opinião – que ninguém pediu, eu sei, e a poucos interessa –, grande parcela da sociedade vai sendo tangida por uma crescente imbecilização feita de desprezo do belo, do bom e do verdadeiro. Aprecia-se tão só o que oferece desfrute imediato, satisfação no momento, ainda que com sacrifício de valores perenes. Importa é conseguir prazer, dinheiro, prestígio, fama, admiração…, numa palavra, gozar a vida. “Edamus et bibamus, cras enim moriemur” (“comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”) – eis a proposta do consumismo moderno, que de moderno nada tem. Os romanos a herdaram dos filósofos hedonistas gregos. Até o profeta Isaías a conhecia (Is 22, 13).

Recordo que, em garoto, no seminário de São José Rio Preto, o holandês padre Alcuíno Derks levou mais de um mês ajudando-nos a refletir, um pouquinho por dia, sobre o tema: Vale a pena viver. Seu português canhestro tornou-o motivo de piada nos nossos recreios. Longe de seus ouvidos, fazíamos chacota da frase “Vale a pena de (sic) viver não só para comer doces e bolas” (sic), repetida por ele como um mantra para nos convencer do valor da vida.

Muitos anos mais tarde, o gênio de Gonzaguinha veio proclamar a excelência da vida. Que é ela? “Doce ilusão, maravilha, sofrimento, alegria, lamento, um nada, uma gota, menos que um segundo, um divino mistério, o sopro do criador numa atitude repleta de amor”? Tudo isso e mais ainda.

Num passado que há muito se perdeu, lá no sertão, cunharam o dito “matar para ver o tombo”. Traduzia o desprezo pela vida. Eram tempos de ignorância, de profundo atraso. Ainda não tinha chegado a civilização. Quando aportasse lá o progresso, tudo seria diferente. Haveria mudança para melhor. A vida seria apreciada no seu devido valor.

Vieram estradas, escolas, carros, aviões, computadores, celulares, ferramentas de comunicação ultramodernas… Em vez de melhorar, parece que piorou. Assassino hoje nem quer saber como a vítima caiu. Matam-se crianças, mulheres, índios, mendigos, homossexuais. Armas que a gente só via no cinema estão na mão de crianças no meio da rua, de dia. Gente, e a vida?

Antes de ter ceifada a sua, querido Gonzaguinha, você conseguiu brindar-nos com um luminoso hino à sublimidade desse divino dom, que nada fizemos por merecer. Quando dele tomamos consciência, já o vínhamos desfrutando há anos. Muito obrigado por advertir-nos de que precisamos parar um tempinho, toda manhã e toda noite, para nos perguntar: “A vida, o que ela é? Que estou fazendo da minha? Como trato a dos que vivem ao meu lado”?

Fonte> Portal do Rigon 15/11/2013

Luiz Poeta (Enseada de Trovas) = 1


A graça de Deus é vasta,
Deus sempre me abençoou
e enquanto a vida se arrasta,
agradeço por quem sou.
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A imagem que se revela
na tela que tu me pintas,
é borrão numa aquarela,
dela não vês nem as tintas.
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A linha despe o novelo;
a roupa fica completa;
a moda veste a modelo
e o verso veste o poeta.
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A minha nau "Aventura"
procura as ilhas de mim,
mas quanto mais me procura,
vê um oceano sem fim.
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A porta aberta convida...
- Por que hesitas, passarinho?
- Acostumei-me com a vida
da gaiola... e fiz meu ninho.
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A rítmica de uma trova,
esbarra na convenção
de quem discute, sem prova,
sinalefa ou elisão.
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A saudade, essa senhora
que sorri meio sem graça,
simplesmente vai embora,
depois que a tristeza passa.
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A simples obra de arte
da inspiração de um pintor,
é muito mais que um encarte,
é parte do seu amor.
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A solidão é assim:
metade de um falso inteiro,
início de um falso fim
que nunca foi verdadeiro.
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A trova, além da leitura,
requer, na declamação,
um tiquinho de ternura
e um tantinho de emoção.
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A trova é tão... pequenina,
mas se tem bom conteúdo,
quem vê além da retina,
faz dela seu próprio estudo.
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A vida é feita de avisos...
avisa a quem te magoa
que, quando ouve alguns guizos,
todo passarinho voa.
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Com muito afeto, ela disse,
na carta que me escrevia;
escreveu tanta tolice
que meu amor nem mais lia.
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Com sete sílabas traço
meu passo de centopeia,
ritmando meu compasso
no compasso de uma ideia.
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Com tanta porta fechada,
Deus nos mostra a porta aberta.
Quem entra na porta errada,
erra mais do que acerta.
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Com tanta cumplicidade
entre o réu e o juiz,
sempre perde a liberdade
quem vive pobre e infeliz.
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Com tuas gotas de pranto,
cuidaste do meu jardim,
mas por me cuidares tanto,
secaste dentro de mim.
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Costureiro que se orgulha
da fé que tem no novelo,
vê, no buraco da agulha,
passar bem mais que um camelo.
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Cuida, Senhor, dessa gente,
que mente ao falar de amor,
fingindo o que diz que sente,
quando o que sente é rancor.
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Cupido dispara a seta,
mas deixa o amor a salvo;
no coração do poeta,
a inspiração é o alvo.
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Cupido sempre é suspeito
por qualquer flecha perdida,
que depois que sai de um peito,
acerta, em cheio, outra vida.
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Da trova, sou aprendiz;
sou só mais um trovador
que copia o que Deus diz,
quando ele fala de amor.
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Das tuas mãos, li as linhas,
mas como sou mau leitor,
não percebi que eram minhas,
as linhas do teu amor.
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De tanto me aprisionares
dentro do teu coração,
toda vez que me soltares,
voltarei para a prisão.
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 Faço um retrato perfeito
quando em meu peito te pinto,
o amor tem tanto defeito,
que quando te pinto, minto.
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Fonte> Luiz Gilberto de Barros. Trov-ansi-arte. Rio de Janeiro: ZMF, 2022. 
Enviado pelo trovador.

A. A. de Assis (Abaixo a Gravata!)

Seu Neco Bombocado era fiscal da prefeitura na cidade dele. O apelido “Bombocado” vinha dos tempos em que, como bico, abrira uma lojinha de doces caseiros, depois fechada porque só dava movimento no mês da festa do padroeiro.

Solene figura aquele Seu Neco Bombocado, sempre de terno, gravata e chapéu, fiscalizando as ruas em cima de uma bicicleta. Dizia-se que não tirava a gravata nem para dormir, tão fundamental era para ele o nobre adorno.     

Imaginem, pois, a aflição do elegante servidor no dia em que um novo prefeito decidiu abolir o uso da gravata na função pública. Homem de hábitos radicalmente informais, criado em fazendas e zeloso de sua condição de líder popular, o novo burgomestre a primeira coisa que fez foi baixar decreto acabando com o chamado “traje oficial”. Nisso recebeu total apoio do seu secretário, um irreverente poeta, famoso pelas suas camisas extravagantes.

Abaixo o paletó! Abaixo o colete! Abaixo a gravata! E o decretado estripitise deveria começar pelos fiscais, que conviviam mais de perto com o povo. Governo de portas e camisas abertas, liberto das burocracias e afinado com os hábitos descontraídos da operosa população municipal. Abaixo a elegância padronizada!

Inconformado, Seu Neco Bombocado pediu audiência ao prefeito. Queria que lhe fosse permitido ser a exceção, pois que toda regra tem alguma. Ele não saberia viver sem o terno e a gravata, complementos indispensáveis de sua imagem pública e privada.

O alcaide lamentou, mas não podia abrir precedente. O secretário reforçou a firmeza do chefe: “Dura lex sed lex”. Seu Neco tivesse paciência, fizesse um sacrifício, mas aposentasse a gravata e o paletó imediatamente. Afinal, regras são regras.

O fiscal chegou a pensar em pedir demissão. Segurou o pedido na ponta da língua, mas somente porque precisava demais do emprego, despesa grande em casa, os filhos na escola, tinha que engolir o desaforo.

A que humilhações se submete um chefe de família… Imagine ele, o famoso Neco Bombocado, sair às ruas de peito aberto e braços nus.

Foi a uma loja, comprou sua primeira camisa-esporte. “Mas sem frescuras de estampas e bordadinhos, porque sou homem sério”, exigiu.

Porém no primeiro dia de fiscalização desengravatada Seu Neco adoeceu: o pescoço desabituado ao vento, e justo naquele dia um vento sul traiçoeiro…  Foi pra cama curar o resfriado, que virou bronquite, e de bronquite virou pneumonia. O prefeito soube do caso, ficou comovido, resolveu visitar o honrado servidor. Encontrou-o todo encolhido, embrulhado num pijama de flanela. Ah, sim… e de gravata.

Fonte> Portal do Rigon. 18/04/2024

Recordando Velhas Canções (O que é, o que é?)


Compositor: Gonzaguinha

Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah, meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor
E será!

Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah, meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor
E será!

Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

E a vida, e a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?

Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é e o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah, meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor
E será!

Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah, meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor
E será!

Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah, meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor
E será!

Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver e não ter a vergonha
De ser feliz
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A Celebração da Vida na Poesia de Gonzaguinha
A música "O Que É, o Que É?" de Gonzaguinha é um verdadeiro hino à vida e à felicidade. Com uma letra que mistura reflexão e otimismo, o artista convida o ouvinte a uma jornada de apreciação pela existência, apesar de suas imperfeições e desafios. Gonzaguinha, conhecido por suas composições carregadas de crítica social e emoção, utiliza-se de uma linguagem simples, mas profundamente significativa, para tocar em questões universais sobre o sentido da vida.

A canção começa com uma valorização da pureza e simplicidade das respostas das crianças, sugerindo que a verdade sobre a vida pode ser encontrada na inocência e na capacidade de se maravilhar que é típica da infância. O refrão é um convite à alegria e à aceitação da própria felicidade, um chamado para viver sem vergonha de ser feliz e reconhecer a beleza em ser um eterno aprendiz. Essa mensagem é um contraponto à complexidade e às vezes à dureza da vida adulta, onde muitas vezes esquecemos de valorizar os pequenos prazeres e aprendizados cotidianos.

A música também aborda a diversidade de perspectivas sobre o que é a vida, apresentando diferentes visões que vão desde o nihilismo até o divino. Gonzaguinha, porém, se posiciona de maneira otimista, afirmando sua confiança na humanidade e na capacidade de cada um de fazer a própria vida valer a pena. A letra ressalta a importância da saúde e da sorte, e rejeita a morte em favor de uma existência plena e desejada. "O Que É, o Que É?" é uma celebração da vida em sua totalidade, reconhecendo suas dores e delícias, e incentivando cada um a cantar, viver e ser feliz sem reservas.