quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Dorothy Jansson Moretti (Album de Trovas) - 12

Fonte: Facebook
 

Carlos Machado (O homem com um longo bigode)

O meu maior prazer na vida ainda é observar as pessoas nas ruas. Herdei esse costume de uma tia que, logo após ter sofrido um sério acidente de carro — quatro anos depois de eu nascer — ficou impossibilitada de andar e, portanto, não tinha muito o que fazer a não ser ficar sentada em sua cadeira de rodas lendo um livro ou observando as pessoas que passavam em frente à sua varanda. O costume dela me pegou. Comecei então a ficar o dia todo entornando olhares para as pessoas que caminhavam no centro da cidade, tentando descobrir quem eram, o que faziam, por que estariam passando por ali etc...

Minha mãe não se conformava com essa “esquisitice” — é isso que ela pensava que era — e por diversas vezes me impediu de ficar sentado no banco da praça Osório olhando as pessoas. Nesses dias, tinha que sair escondido e não ficar sentado em lugar algum para não correr o risco de ser pego por ela. Para despistá-la, eu seguia as pessoas, como um detetive, sem deixá-las saber que estava atrás e sem minha mãe descobrir. Eu era como o homem das multidões do Poe, ou um flâneur de Baudelaire. Mas conforme fui ficando mais adulto, minha mãe parou de me importunar com essa história e passei, então, a estabelecer observatórios fixos nas praças e ruas mais movimentadas de Curitiba, e um horário. Eu não consigo explicar por que gosto de fazer isso, e para ser bem sincero, por muitas vezes achei que estava cansado dessa vida — poucas vezes, é certo — mas logo via que era impossível controlar esse impulso, então deixava acontecer. São quase trinta anos saindo às ruas religiosamente, quase que todos os dias, às cinco horas da tarde. Se para os ingleses esse horário é reservado ao chá, para mim é o momento de imaginar uma vida para os cidadãos de minha cidade. Esse é o meu único vício — tudo bem que na minha adolescência fumava um baseado todos os dias, mas isso já passou e as ruas ainda me carregam, me abraçam, me aprisionam. Isso sim é um vício. Ah, eu ia me esquecendo de um detalhe muito importante que pode ser ainda mais difícil de entender nessa história toda: só me satisfaço observando pessoas em Curitiba! Não importa se são curitibanas ou não — até mesmo porque sou eu quem invento suas vidas — mas tem que ser aqui. Esse detalhe, naturalmente, só era um problema quando eu viajava. A solução era filmar pessoas nas ruas e levar os vídeos comigo — isso explica o “quase”, enfatizado acima. Quando chegava a hora habitual, eu lhes assistia. Viajei muito na minha adolescência. Hoje não viajo mais. Eu me casei. Minha mulher só descobriu esse lado da minha vida na semana do casamento.

Depois de um ano de noivado. A única restrição que me fazia era que o casório teria que acontecer em junho, porque havia prometido a Santo Antônio que quando encontrasse um marido, iria se casar no dia treze de junho, dia desse santo. A princípio não tinha nenhum problema para mim, não fosse o horário que prometera a tal Santo: cinco horas da tarde!

Nesse momento da minha vida, quando estava com vinte e quatro anos, o costume de olhar as pessoas nas ruas de Curitiba já havia extrapolado o vício inocente: era agora uma obsessão vital para a minha existência. Eu precisava ver pessoas e imaginar suas vidas, e tinha sempre que ser às cinco horas da tarde! Tive que, realmente, revelar à minha mulher esse meu problema ou, melhor dizendo, esse meu jeito diferente de ser. Quando contei, ela achou um pouco estranho e até sugeriu que eu fosse a um médico para resolver esse... detalhe. Mas no fim de tudo, consegui convencê-la que isso era bem normal, que observava as pessoas nas ruas desde criança e tudo ficou bem. Não sem antes me perguntar por que não havia lhe contado no início do noivado. É que pra mim é tudo tão normal, que não vi necessidade de lhe contar, querida. Não se preocupe. Tá? Mas no fundo, eu sabia que não era normal e que isso estava virando uma doença. Tinha que, portanto, procurar um bom médico psiquiatra para resolver meu probleminha. Mas não fui.

Acho que fiquei meio frustrado com a facilidade com que minha futura esposa aceitou tudo. Esperava uma reação mais enérgica da parte dela. Resolvemos nos casar em uma belíssima igreja no centro de Curitiba — não lembro o nome, mas sei que era muito bonita — com o altar virado para a rua. Dessa forma, eu poderia jurar fidelidade e amor eterno à minha mulher tendo, ao mesmo tempo, as pessoas nas ruas para olhar.

Em todos esses anos, muitos personagens passaram pela minha visão, e muitas histórias foram criadas para eles. Muitos tipos: homens, que aparentemente estavam bêbados, podiam ser vistos pela minha fantasia como grandes empresários que resolveram se deliciar com os prazeres da cachaça depois de um difícil dia de trabalho ou então homens extremamente sóbrios poderiam ser pintados como ex-bêbados que criaram vergonha na cara e resolveram tomar um banho, fazer a barba e procurar um emprego, ou ainda, mulheres que a princípio me pareciam tímidas, podiam, na verdade, levar vidas promíscuas longe de seus maridos. Enfim, tudo era possível, e essa era a minha necessidade: inventar vidas e situações, apenas com a aparência das pessoas nas ruas de Curitiba.

Mas então, e minha mulher? Depois de dois anos de casado, algo começou a me perturbar: mesmo dizendo que aceitava essa minha vida numa boa, percebia que ela não gostava muito das cinco horas da tarde, quando eu saía para viver e fazer vidas. Ela sempre se despedia de mim e ia para a cozinha cabisbaixa, preparar meu jantar, e nunca comia comigo, pois ia para a cama antes que eu chegasse, mesmo que fosse cedo. Mas com o tempo, comecei a notar uma mudança progressiva nessa sua atitude: quando chegava a hora de eu sair para as ruas, não ficava mais chateada, muito pelo contrário, abria a porta para mim toda sorridente, me dava beijinhos mil, dizia que me amava, que me esperaria para o jantar... Tchau, querido. Boa sorte. Bem, uma pulga começava a morar atrás de minha orelha, mas assim que chegava às ruas, logo acabava esquecendo.

Depois de mais alguns meses de casado, acabei me acostumando com essa nova atitude de minha mulher. Essa era a minha vida. O meu vício, que apesar de ter se tornado algo impossível de se controlar, ainda não havia afetado meu lado psicológico drasticamente (?). Havia se transformado em um hábito, e como todo hábito, bom ou ruim, era mecânico. Sendo assim, eu ia para as ruas ver pessoas assim como escovava os meus dentes ou tomava meus banhos: naturalmente. Era extremamente normal.

Até que um dia, às cinco e quinze da tarde, vi um homem com um longo bigode — como aquele que Paulo Leminski usava, sabe qual? — que me chamou a atenção não sei por quê. Talvez pelo fato de seu rosto ser bastante familiar. Desde os meus dez anos de idade eu não perseguia as pessoas na rua, só ficava sentado na praça Osório sem ir atrás de ninguém. Mas nesse dia — quando já contava com vinte e sete anos — não me controlei. Na verdade, acho que nem quis me controlar, levantei e comecei a andar atrás de seus passos, tomando cuidado de não deixar minha “vítima” descobrir que estava por perto — como aquele velho detetive do começo. Seu rosto, apesar de não ter percebido o que, até então, tinha realmente qualquer coisa de familiar. Pensei: seu nome era Cristovão, tinha uns 32 anos e estava com pressa porque acabara de assaltar um livro na livraria do Chaim. O livro era o italiano Noturno Indiano do Tabucchi. Estava dentro de sua bolsa junto com muitas barras de chocolate Lacta que furtou das Lojas Americanas momentos antes de pegar o livro. Estava usando um belo terno cinza Giorgio Armani para não despertar desconfiança, mas que na realidade, também havia sido roubado. Parece que conheço esse cidadão. Mas de onde? Continuei seguindo o Cristóvão. Ele passou em algumas lojas de roupas femininas na Rua Quinze — talvez fosse roubar calcinhas para sua mulher — em várias lojas de Cds e, finalmente, entrou no Shopping Curitiba indo direto ao banheiro.

Mas que estranho, ele está entrando no banheiro feminino! Acho que é melhor chamar o segurança. Pois é, amigo, eu armei uma confusão homérica naquele lugar: fiz os seguranças entrarem no banheiro feminino atrás do homem. O problema é que acho que misturei a fantasia com a realidade: esse homem, ao invés de se chamar Cristóvão e ser um ladrão, poderia ser um ótimo cidadão e ter qualquer nome do mundo. Portanto, o fato de ter entrado no banheiro feminino poderia ter sido nada mais do que um simples engano. A vida que inventei para este cidadão parecia ter se tornado realidade para mim. Bem, sabe o que aconteceu? Ninguém encontrou esse tal homem com um longo bigode vestindo um Giorgio Armani. Ele havia desaparecido.

Será que era a minha fantasia? Onde se meteu? Até hoje de manhã, quase três anos depois, não consegui entender o que aconteceu naquele dia. Aquele homem já cruzou pelo meu caminho muitas vezes depois daquele dia, mas logo que aparecia, sumia na mesma hora. E tem mais uma coisa que me deixou perturbado no dia em que o homem entrou no banheiro feminino: encontrei minha mulher saindo do banheiro momentos antes dos seguranças entrarem no banheiro. Quando me viu, levou um baita de um susto e ficou toda sem jeito tentando esconder uma bolsa nas suas costas. Ela me explicou que havia saído para comprar umas lingeries para usar na noite de aniversário do nosso casamento que estava se aproximando, e que também aproveitou uma promoção nas livrarias Curitiba e comprou um livro do Antonio Tabucchi para mim. Isso foi muito estranho: eram os mesmos objetos que imaginei para o homem! E é estranho também a presença de minha mulher por lá: ela nunca saía de casa nesse horário, ainda mais para comprar peças íntimas e livros. Ela sempre ficava me esperando em casa. Tinha medo de sair à noite! Mas não são todos os dias que as mulheres compram lingeries. Só em ocasiões especiais. E pelo que percebi, essa era uma ocasião especial. Não se preocupe quanto ao fato de sua mulher ter aparecido no shopping naquele momento, você tem que se preocupar é com o homem que só você viu.

Isso foi o que o médico me disse no dia seguinte em seu consultório. Fui ao psiquiatra. Ele me receitou um remédio. Achava que eu estava tendo problemas de tanto inventar histórias para as pessoas na rua.

Na época não dei muita importância. Isso aconteceu há três anos. Não tomo mais o remédio. E sabe quem eu vi ontem (às cinco horas da tarde) e segui por alguns minutos? O homem com um longo bigode, lógico! Minha mulher, como da outra vez, apareceu logo que ele se foi, e novamente utilizou-se da mesma desculpa. Só que dessa vez, tentou ir atrás do homem. Não o encontrou. Não consigo entender por que quando o vejo, some na mesma hora sem ninguém ver para onde foi. Por que somente esse homem? Será que é porque seu rosto é tão familiar? Quem será? Por um momento, ontem à noite, depois de ter visto aquele homem, pensei em parar de ir às ruas observar as pessoas. Ele me deixa nervoso e muito intrigado. Mas não basta apenas querer parar de ir às ruas, não consigo evitar. Se ao menos pudesse falar com ele, mas todas as vezes que tento me aproximar ele desaparece! Porém, hoje de manhã, acordei com uma vontade incrível de sair às ruas. Passei o dia contando os minutos para as cinco horas da tarde. Quando faltavam poucos minutos, saí de casa, e como é de costume nesses últimos anos, minha mulher parecia feliz. Abriu a porta. Boa sorte, querido. Sim, vou precisar de toda a sorte do mundo para encontrar e falar com o homem do bigode. Tem certeza que não precisa de minha ajuda, amor? Sim, não preciso, obrigado. Olhei para as nuvens escuras e carregadas e vi que tinha que me apressar para chegar à praça Osório antes que começasse a chover. Esse tempo meio chove-não-chove de Curitiba pode me atrapalhar na busca pelo homem, mas não há de ser nada, se eu não o encontrar hoje, um dia ele há de aparecer novamente. Que otimismo meloso! Estava chovendo.

Andei debaixo dos toldos das lojas esbarrando nas pessoas. Passei por muitos personagens de minhas histórias. Alguns me conheciam há anos, outros vieram morar nas minhas invenções sem nunca sequer terem me visto. Continuei caminhado entre as pessoas. Dois meninos totalmente ensopados pela água da chuva passaram correndo por mim, espalhando pingos de água pelo caminho e ouvindo muitos palavrões dos pedestres que tentavam, sem sucesso, manterem-se secos.

Continuei andando. Olhei para o relógio. Me senti aflito. São cinco horas. Portanto, mesmo andando comecei a me alimentar de histórias e fantasias. Uma mulher que estava na minha frente andava bem devagar. Logo pensei: não quer chegar tão cedo em casa porque sabe que seu marido vai sair do trabalho, passar em um botequim, ficar bêbado e esmurrá-la, reclamando da comida fria sobre a mesa. Isso já virou um hábito diário em sua vida. Dona Joana não aguenta mais essas atitudes de seu marido, mas ainda o ama. O homem ao meu lado cheio de pressa precisa correr para buscar seus filhos na escola e ainda passar em uma panificadora para comprar pão e leite. Esse homem tem uma vida feliz junto à sua esposa e filhos.

A chuva passou e continuei andando. Vi uma confusão na esquina. Consegui me aproximar. Presenciei uma cena horrível: aqueles meninos que passaram por mim correndo quando estava chovendo, estavam estendidos no chão, um sobre o outro, envoltos a muito sangue. Muitos curiosos ao redor falavam pelos cotovelos, tentando explicar o que havia acontecido: foram atropelados. O carro era um fusca. Meu carro! De início não pude identificar quem estava dentro dele. Mas (pensei) só pode ser minha mulher. Sim, era ela. E não estava sozinha. De repente, percebi que além dela, alguém mais estava saindo do carro, mas ainda não havia visto seu rosto. Tinha muita gente na minha frente. Sem demorar, e invadido pela aflição, adentrei a multidão e o vi: estava usando minhas roupas. Reconheci: era o homem com um longo bigode. Olhei bem nos seus olhos e me apavorei.

Meu Deus, esse homem... esse homem sou eu! Com o olhar apressado procurei por minha mulher: estava quase desfalecida chorando ao lado dos corpos dos meninos aparentemente sem vida. Querido — sua voz estava pálida — matamos duas crianças!

Voltei-me ao homem: não estava mais lá.

Fonte:
Luiz Rufatto (org.). Antologia de contos paranaenses. Curitiba, PR: Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014.

Mário Quintana em prosa e verso – 23 –


O TEMPO E O VENTO


(Para Érico Verissimo, em comemoração aos seus 65 anos)

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos...
*****
A beleza dos versos impressos em livro
— serena beleza com algo de eternidade —
Antes que venha conturbá-los a voz das declamadoras.
Ali repousam eles, misteriosos cântaros,
Nas suas frágeis prateleiras de vidro...
Ali repousam eles, imóveis e silenciosos.
Mas não mudos e iguais como esses mortos em suas tumbas.
Têm, cada um, um timbre diverso de silêncio...
Só tua alma distingue seus diferentes passos,
Quando o único rumor em teu quarto
É quando voltas, de alma suspensa — mais uma página
Do livro... Mas um verso fere o teu peito como a espada de um anjo.
E ficas, como se tivesses feito, sem querer, um milagre...
Oh! que revoada, que revoada de asas!
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CRÔNICA

(SÃO PAULO, 23 — Morreu ontem o trapezista René Bugler, internado quando o mastro em que fazia acrobacias quebrou e ele caiu de uma altura de 10 metros. (Do noticiário.))

A pantera é uma curva em movimento:
vai-se desenrolando como um desenho.
Mas a sua harmonia é linear como
a figura que, na sucessão de um friso,
repete-se, com o andante ritmo de um verso
num poema...
O trapezista,
entanto,
não quer a pauta de uma corda única
e a curva do seu voo traça geometrias no espaço,
vai e volta, mergulha, sobe, entrelaça-se
como se brincasse consigo mesma.
Só não se brinca com a imperfeição das coisas...
e a tua dança aérea, ó pobre René Bugler,
interrompeu-se:
tombaste, da altura de 10 metros, os braços abertos em cruz
e a maravilhosa curva que traçavas
imobilizada de súbito num corpo inerte.
Sim, tu estás, agora, na reta horizontalidade da morte.
A morte odeia as curvas, a morte é reta
como uma boca fechada.
Tenho até remorsos de fazer-te um poema...
O poema
— o poema da tua vida
está apenas nisto,
nestas simples palavras:
“René Bugler, trapezista,
morto aos 22 anos
no exercício da sua arte”.
*****

Nítido, no espelho,
Meu quarto projeta-se
Em parte nenhuma...
Um dia estarei,
Tão nítido assim,
Em parte nenhuma?
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RETRATO

Morreu ontem.
Portanto, o seu retrato está completo.
A longa vida — sabe Deus com que trabalho —
deixou-nos, na lembrança,
por final,
em companhia de um velhinho suave...

Mas um velhinho suave como os couros gastos,
as madeiras polidas pelo uso,
como os seixos rolados

— suave e rijo!

Sua voz grave e trêmula tinha o som do tempo
e nós sempre nos espantávamos de a estar ouvindo

porque era como se alguém tangesse o silêncio.
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PAISAGEM

Sol e sombra brincavam de esconder
sobre o rosto do primeiro morto.

Perto dele, cantavam as águas,
porque ainda apenas sabiam cantar.

Cantavam as águas inocentemente
sua canção de continuar...

— e ele também não sabia de nada!
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EMERGÊNCIA

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.
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VIDAS

Nós vivemos num mundo de espelhos,
mas os espelhos roubam nossa imagem...
Quando eles se partirem numa infinidade de estilhas
seremos apenas pó tapetando a paisagem.

Homens virão, porém, de algum mundo selvagem
e, com estes brilhantes destroços de vidro,
nossas mulheres se adornarão, seus filhos
inventarão um jogo com o que sobrar dos ossos.

E não posso terminar a visão
porque ainda não terminou o soneto
e o tempo é uma tela que precisa ser tecida...

Mas quem foi que tomou agora o fio da minha vida?
Que outro lábio canta, com a minha voz perdida,
nossa eterna primeira canção?!
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ARQUITETURA FUNCIONAL

(Para Fernando Corona e Antonieta Barone)

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
E não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas?)
É preciso ocultá-lo das outras pessoas da casa,
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas...)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!

Fonte:
Mário Quintana. Apontamentos de história sobrenatural. 1976.

Jaqueline Machado (Olhai os lírios do campo)

"Olhai os lírios do campo" é uma importante obra literária, escrita pelo gaúcho Érico Veríssimo.

O livro faz um retrato da sociedade brasileira, usando Porto Alegre como cenário principal, no ano de 1938, período marcado pelas consequências do golpe do então presidente Getúlio Vargas, golpe esse, que  marcaria o início de uma ditadura inclemente, claramente inspirada no regime Mussolini, intitulada de Estado Novo. Tendo de contraponto o socialismo de Stálin. Nesse período o mundo estava às vésperas do início da segunda grande guerra e, com isso, surge a crise da democracia liberal.

Abalado com a dramática situação do mundo,  Veríssimo, num ato de desabafo, dá início a essa obra, que segundo ele disse, não estava entre suas obras favoritas, ao contrário, esse livro foi rejeitado por ele, pois trazia pensamentos muito humanitários por parte da personagem Olívia, que mais parecia santa do que gente. Revoltado, Érico Veríssimo se percebeu tolo, pois tais virtudes descritas pela personagem, não pareciam pertencer à raça humana (desumana).

O protagonista da história é Eugênio, um rapaz de origem humilde, filho de um alfaiate e de uma lavadeira de roupas. Ele sabia da bondade dos pais, mesmo assim, sentia vergonha da família. Queria ter nascido rico. Não entendia porque Deus dava tudo para uns, e nada para outros, já que todos eram seus filhos, frutos de sua obra.

Eugênio ganhou uma bolsa da escola onde sua mãe trabalhava e, por isso, teve uma boa educação, tornou-se médico. Gostava de Olívia, sua colega de faculdade. A única mulher em meio a um bando de rapazes a cursar medicina. Mas Olívia, também era de origem muito humilde. Por isso, Eugênio preferiu casar com Eunice, uma mulher de posses, porque assim, finalmente faria parte da elite da sociedade.

Nos jantares e almoços de família assuntos ligados à situação mundial, especialmente sobre a perseguição aos judeus, estavam sempre  presentes. Uns contra as atrocidades ocorrentes, outros, a favor.

Durante as discussões, por vezes, se dispersava e se deixava levar pelas palavras de Olívia, que com suavidade, ressoavam em sua mente. Ele a amava e não podia esquecê-la.  Os dois tiveram uma espécie de “amizade colorida”. Ele não sabia, mas desse relacionamento, a jovem teve uma filha. Olívia adoece, e prestes a morrer, o chama, fala sobre as vontades de Deus, sobre a beleza da vida, ensina-lhe que as verdadeiras riquezas não estão nas conquistas materiais e que todos deveriam dar atenção ao que Jesus disse no Sermão da Montanha. Disse ele: “Olhem os lírios do campo, que não trabalham nem tecem! E contudo nem Salomão em toda a sua glória se vestiu tão bem como eles”.

 A amada morre, ele separa-se de Eunice. Passa a viver o que realmente importa, ajudando os doentes necessitados, relendo as cartas que Olívia lhe escrevia quando estavam separados, e buscando ser um bom pai, à filha órfã. Herança de Olívia.

Fonte:
Texto enviado pela autora.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Edy Soares (Manuscritos (Di)versos) 15: Epígrafe

 

Humberto de Campos (Zurtz)

Quando o professor Krause esteve no Rio de janeiro, em 1920, falou-nos, a mim e ao seu colega Dr. Fernando de Magalhães, em uma descoberta que estava revolucionando a fisiologia nas vésperas da sua partida da Alemanha. Tratava-se de uma comunicação feita à Academia de Ciências Médicas, de Berlim, pelo professor Zurtz, de Munich, o qual havia conseguido uma fórmula miraculosa para aumentar o crescimento do cabelo. O poder desse preparado era tão prodigioso que, posto pela manhã, o aumento constatado à tarde era de, pelo menos, meia polegada. Um destes dias, ia eu pela Avenida, quando encontrei, com grande alegria de coração e de espírito, o ilustre diretor da Maternidade, que me foi, logo, perguntando:

- Conselheiro, lembra-se daquela descoberta de que nos falou o professor Krause?

- Qual?

- A do professor Zurtz.

Eu fiz um esforço de memória, remexi, com os dedos do pensamento, no escaninho cerebral das minhas lembranças, e respondi afirmativamente.

- Pois, aquilo, - continuou o Dr. Fernando - é um fato. As revistas francesas, italianas, alemãs e inglesas que ultimamente recebi, falam, já, no prodígio.

- Deveras?

- É verdade. E com uma circunstância mais: aperfeiçoando o seu invento, o professor Zurtz conseguiu três modalidades do mesmo preparado, com diversas aplicações. A primeira serve unicamente para o cabelo, o qual pode crescer, com ele, dez centímetros por dia. A segunda é de aplicação zootécnica: faz crescer em poucas horas, com vantagem para a indústria, a lã dos carneiros. E a terceira, destinada à pecuária, faz nascer, com rapidez, os chifres aos bois, aos cordeiros, às cabras e a outros animais que os tenham atrofiados. A esse preparado deu o inventor o seu próprio nome, com diversas numerações: n. 1, n. 2, e n. 3, como os produtos químicos de Mme. Selda Potocka.

Nesse momento, um cavalheiro alto, magro, calvo, que estava perto, aproximou-se de nós, e, pedindo licença, indagou, respeitoso:

- Os senhores acreditam nisso?

O Dr. Fernando olhou-o de alto a baixo, e confirmou.

- Pois, eu, - tornou o desconhecido, sou uma prova da ineficácia desse remédio. Calvo, há muitos anos, mandei buscá-lo, usei-o, e veja!

E descobriu o crânio irregular, pelado como um ovo.

O Dr. Magalhães escorregou os olhos pela cabeça do homem, franziu a testa, mordendo o dedo, com aborrecimento. E, ao fim de um minuto, pediu:

- Diga-me uma coisa.

O indivíduo fitou-o.

- O senhor não tomou errado?

O careca desapareceu.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1925.

Luiz Damo (Trovas do Sul) XXXIII

A amizade verdadeira
não se apega à falsidade,
sobrevive à vida inteira
se embasada na verdade.
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A criança, pela idade,
fala e não pede segredo,
não teme a privacidade,
mas privada sente medo.
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A mais flagrante jactância
presente na humanidade,
tem menor protuberância
que a de crer na falsidade.
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A pior das excrescências
que inflama o radicalismo,
tem melhores consequências
que ostentar o pessimismo.
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A semeadura bem feita
nunca trai seu plantador,
gera uma farta colheita
se perfeita e com labor.
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A vida que nos foi dada
mesmo envolta à finitude,
não deve ser olvidada
mas, levada à plenitude.
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Da vida ouço um forte grito,
clamando por liberdade,
a ecoar sob o infinito
da inquieta humanidade.
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De que vale um rico teto
sobre estacas de metais,
se não brilhar nele o afeto,
entre os filhos e seus pais?
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Embora a noite não tenha
o mesmo brilho que o dia,
às trevas se esconde a senha
que aciona a nostalgia.
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Fonte de assombro e de medo
tal força vinda do além,
vê-se no impacto ao rochedo
o poder que a maré tem.
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Não bata a porta, esperando,
ser por alguém atendido,
mas, se o fores, vai pensando,
ser mais um agradecido.
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Não podemos nos prender
às respostas do passado,
mas ao que nos responder,
o porvir, se questionado.
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Nossa alma clama por paz,
verte em pranto se a não tem,
cônscia, busca-a e se compraz,
sempre que a buscar também.
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O final de qualquer linha
a casa se debilita,
o alicerce se definha
e o fim passa a ser visita.
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O mais fácil preferimos,
menos duro e proveitoso,
olhamos, mas confundimos,
rocha com solo arenoso.
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O perdão dá nova vida,
grande sedativo à dor,
que cicatriza a ferida
na enfermidade do amor.
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Pode ser que o justo caia
no abismo da ostentação
e assim a conduta o traia
conduzindo-o à perdição.
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Quando acontece um combate
é porque um ataque ocorre,
ninguém oprima, nem mate,
mas seja alguém que socorre.
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Que um gesto sincero e amigo
abra as portas da amizade,
nunca aquela de um jazigo
que conduz à obscuridade.
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Se à tua vida mentires
tu mesmo te enganarás,
pois, se a verdade omitires,
ao nada sucumbirás.
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Sempre que uma luta ocorre
numa batalha campal,
o afã de vencer não morre
ancorado no ideal.
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Sobre a mesa dos prazeres
o álcool não deve existir,
assim, sempre que o beberes,
nunca deves dirigir.
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Toda a justiça divina
não se assenta sobre a morte,
pode tardar, mas culmina,
por julgar o fraco e o forte.
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Toda a palavra bem dita,
é bendita se escutada,
mostra-se à vida na escrita
quando bem interpretada.

Fonte:
Luiz Damo. A Trova Literária nas Páginas do Sul. Caxias do Sul/RS: Palotti, 2014.
Livro enviado pelo autor.

Carlos Drummond de Andrade (Carta a uma senhora)


A garotinha fez esta redação no ginásio:

"Mammy, hoje é dia das Mães e eu desejo-lhe milhões de felicidades e tudo mais que a Sra. sabe. Sendo hoje o dia das Mães, data sublime conforme a professora explicou o sacrifício de  ser Mãe que a gente não está na idade de entender mas um dia estaremos, resolvi lhe oferecer um presente bem bacaninha e fui ver as vitrinas e li as revistas. Pensei em dar à Sra. o radiofono Hi-Fi de som estereofônico e caixa acústica de 2 alto-falantes amplificador e transformador, mas fiquei na dúvida se não era preferível uma tv legal de cinescópio multirreacionário som frontal, antena telescópica embutida, mas o nosso apartamento é um ovo de tico-tico, talvez a Sra. adorasse o transistor de 3 faixas de ondas e 4 pilhas de lanterna bem simplesinho, levava para a cozinha e se divertia enquanto faz comida. Mas a Sra. se queixa tanto de barulho e dor de cabeça, desisti desse projeto musical, é uma pena, enfim trata-se de um modesto sacrifício de sua filhinha em intenção da melhor Mãe do Brasil.

Falei de cozinha, estive quase te escolhendo o grill automático de 6 utilidades porta de vidro refratário e completo controle visual, só não comprei-o porque diz que esses negócios eletrodomésticos dão prazer uma semana, chateação o resto do mês, depois encosta-se eles no  armário da copa.

Como a gente não tem armário da copa, nem copa, me lembrei de dar um, serve de copa, despensa e bar, chapeado de aço tecnicamente subdesenvolvido. Tinha  também  um  conjunto  para cozinha de pintura porcelanizada fecho magnético ultra-silencioso puxador de alumínio anodizado, um amoreco. Fiquei na dúvida e depois tem o refrigerador de 17 pés cúbicos integralmente utilizáveis, congelador cabendo um leitão ou peru inteiro, esse eu vi que não cabe lá em casa, sai dessa!

Me virei para a máquina de lavar roupa sistema de tambor rotativo mas a Sra. podia ficar ofendida de eu querer acabar com a sua roupa lavada no tanque, alvinha que nem pomba branca, Mammy esfrega e bate com tanto capricho enquanto eu estou no cinema ou tomo sorvete com a turma. Quase entrei na loja para comprar o aparelho de ar condicionado de 3 capacidades, nosso apartamentinho de fundo embaixo do terraço é um forno, mas a Sra. vive espirrando, o melhor é não  inventar moda.

Mammy, o braço dói de escrever e tinha um liquidificador de 3 velocidades, sempre quis que a Sra. não tomasse trabalho de espremer laranja, a máquina de tricô faz 500 pontos, a Sra. sozinha faz muito mais. Um secador de cabelo para Mammy! gritei, com capacete plástico mas passei adiante, a Sra. não é desses luxos, e a poltrona anatômica me tentou, é um estouro, mas eu sabia que minha Mãezinha nunca tem tempo de sentar. Mais o quê? Ah sim, o colar de pérolas acetinadas, caixa de talco de plástico perolado, par de meias, etc. Acabei achando tudo meio chato, tanta coisa para uma garotinha só comprar e uma pessoa só usar, mesmo sendo a Mãe mais bonita e merecedora do Universo. E depois, Mammy, eu não tinha nem 20 cruzeiros, eu pensava que na véspera deste Dia a gente recebesse não sei como uma carteira cheia de notas amarelas, não recebi nada e te ofereço este beijo bem beijado e carinhosão de  tua filhinha Isabel".

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Cadeira de Balanço. Publicado originalmente em 1966.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Versejando 118

 

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) Com Verdelírio, no trem

Meados dos anos 1950. Na estação de Maringá embarquei no último vagão do “Expresso Verde”, uma boa maneira de ir a São Paulo naquela época. Antes mesmo de o trem partir, aproximou-se de mim um rapaz, que perguntou: “Você por acaso é o Assis?”. Respondi que sim, e ele se apresentou: “Meu nome é Verde – Verdelírio Barbosa. Te conheço de nome e de foto. Costumo ler o que você escreve nos jornais”. De imediato me lembrei também do nome dele. Era ainda muito jovem, porém já aparecia de vez em quando assinando textos na imprensa local e iniciava carreira no rádio.

Verde sentou-se numa poltrona a meu lado e a conversa foi longa e animada, cada um esmiuçando a vida do outro. Descobri até que ele, além de apaixonado pelo jornalismo, curtia também compor versinhos – sonetos e trovas.

A viagem era comprida, cerca de 20 horas até a capital paulista. Havia três opções: vagão de segunda, vagão de primeira e, de Londrina em diante, cabine em carro leito. Parava em um monte de estações: Sarandi, Marialva, Mandaguari, Jandaia, Apucarana, Arapongas, Rolândia, Cambé... Depois de Londrina parava menos. Em Ourinhos costumava trocar a locomotiva.

Para distrair o tempo, os passageiros achavam chique ir ao vagão-restaurante, onde se podia almoçar, jantar, comer um lanche ou simplesmente tomar uma cervejinha. A gente se sentia como se estivesse numa cena de cinema, esperando ver entrar a qualquer momento uma daquelas bonitonas de Hollywood com chapéu enorme e piteira na boca.

O trem fazia também frequentes paradas nas caixas d’água, para reabastecer a caldeira. Verdelírio comentou: “O comum era ao lado de cada caixa d’água haver uma casa onde morava o responsável pelo serviço. Com o tempo, ali se construíam outras casas e o local virava uma aldeia. Foi por isso que, principalmente no trecho paranaense, se formaram tantas cidades distantes 10 ou 15 quilômetros uma da outra”.

Dia desses Verde e eu almoçamos juntos no Açukapê e no meio do papo essas lembranças vieram à tona. Éramos os dois, naquele tempo de pioneirismo, bem moços ainda, ele mais moço que eu, começando a labuta na imprensa e no rádio. Trabalhamos juntos em emissoras de rádio e em jornais. Depois ele teve intensa participação em programas de televisão, enquanto eu passei a me dedicar mais ao ensino, como professor em alguns colégios e finalmente na UEM, onde me aposentei. Hoje o Verde é o diretor do “Jornal do Povo” e desfruta de grande e merecidíssimo prestígio, não só em Maringá, mas em todo o Paraná e no Brasil.

Como o “Jornal do Povo” fica próximo de onde moro, frequentemente nos encontramos e cada encontro é uma nova oportunidade para a troca de abraços. Mais que colegas e velhos amigos, somos antes de tudo irmãos.

Fonte:
http://aadeassis.blogspot.com/2020/04/com-verdelirio-no-trem.html

Solange Colombara (Ramalhete de Versos) 2

ENCANTOS DA NATUREZA

Céu cinzento
Nuvens carregadas
A chuva cai...

O arco-íris dá sinais
De que amanhã
O sol voltará a brilhar.

Como é bom sentir o vento...
As mágoas são levadas,
A mãe natureza jamais nos trai.

Andorinhas gorjeiam
Em voos matinais
Num balé majestoso...

O crepúsculo desce no horizonte...
O sol encontra o mar num abraço caloroso
Com seus raios a bailar...
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ENCONTRO

Que eu não perca minha essência...
Mesmo quando a tristeza me abater.
Que eu não perca a magia
E o encanto que vejo nas pessoas...
Mesmo quando a decepção se apresentar.
Que eu não perca minha alegria...
Mesmo quando tudo parecer desmoronar.
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ENCONTRO (II)

Nessa espera sem fim
Busco algo dentro de mim.
Não sei ao certo o quê.
Talvez respostas
Ou perguntas...
Quem sabe alguns porquês?
Enquanto espero
Divago em pensamentos
Desejos contidos.
E nessa busca entendo
Que o que sempre esperei,
O que sempre busquei,
Está aqui.
Que bom que te encontrei...
Que bom que me achei...
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EU, POETISA

Sentir o romantismo em um
Fim de tarde no outono...
Permitir que o horizonte
Se misture com o mar...
Sorrir com o olhar...
Imaginar o sol se despedindo...
A poesia se fazendo presente
Em cada veia, em cada batida
Que meu coração dá.
É algo intenso...
Muito maior do que eu...
Um dom misturado a um sentimento.
Impossível de descrever...
Meus escritos expressam
Essa minha maneira de ser.
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INFINITO INSTANTE

Momentos preciosos, momentos só meus.
Somente um instante...
Onde o tempo parece parar.
A vida flui...
A caminhada tem que continuar...
Mas alguns momentos
É impossível deixar para trás.
Sinto relances através do meu olhar.
Vejo lembranças em um futuro
Que parece nunca chegar.
Desfazer os nós é dolorido, sofrido...
Necessário...
Uma alma sonhadora
De vez em quando sem chão...
Sou alegria, sou colorida,
Às vezes cinzenta,
Desprovida de emoção...
Mas sem jamais deixar de acreditar
Que dias melhores e felizes virão.
Sou o caos, sou a calmaria
Contidos no imenso frasco da solidão.
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INSONE MADRUGADA

Nesse silêncio
Essa quietude
Esse sentimento...
Essa vontade de me pertencer.

Mergulho
No inconsciente.
Sinto meu corpo
Amolecer, entardecer...

Percebo,
Com o dia clareando,
Que finalmente
Poderei adormecer.
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INTROSPECÇÃO

Hoje percebo que toda mágoa,
Todo ressentimento, se foi...
E sinto um alívio, uma paz,
Um sentimento bom.
Será esse o verdadeiro amor?
O amor puro, o amor que não fere,
O amor que simplesmente ama
Sem pedir nada em troca,
Sem exigir, sem sofrer, sem doer?
Talvez eu nunca saiba essas respostas...
Mas nesse instante
Eu sei que amo.
E sei que esse momento ficará eterno
Dentro de mim...

Fonte:
Solange Colombara. Dançando com as palavras. SP: Futurama, 2018.
Livro enviado pela autora.

Machado de Assis (Filosofia de um par de botas)

 
Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio à Praia de Santa Luzia, cuja solidão é propícia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum fôlego vivo nem morto. — Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a alma, respirei à larga, e disse ao estômago: — Digere a teu gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit. (Deus fez esses lazeres para nós)

Digeria o estômago, enquanto o cérebro ia remoendo, tão certo é, que tudo neste mundo se resolve na mastigação. E digerindo, e remoendo, não reparei logo que havia, a poucos passos de mim, um par de coturnos velhos e imprestáveis. Um e outro tinham a sola rota, o tacão comido do longo uso, e tortos, porque é de notar que a generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos coturnos (digamos botas, que não lembra tanto a tragédia), uma das botas tinha um rasgão de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro ruço, puído, encarquilhado.

Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjeturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis senão quando, ouço um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi sílabas, palavras, frases, períodos; e não havendo ninguém, imaginei que era eu, que eu era ventríloquo; e já podem ver se fiquei consternado. Mas não, não era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, umas pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas:

BOTA ESQUERDA.- Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.

BOTA DIREITA.- Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que não há de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilhávamos na vidraça da Rua do Ouvidor?

BOTA ESQUERDA.- Se me lembro! Quero até crer que éramos as mais bonitas de todas. Ao menos na elegância...

BOTA DIREITA.- Na elegância, ninguém nos vencia.

BOTA ESQUERDA.- Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate... aquele par...

BOTA DIREITA.- O dos botões de madrepérola?

BOTA ESQUERDA.- Esse.

BOTA DIREITA.- O daquela viúva?

BOTA ESQUERDA.- O da viúva.

BOTA DIREITA.- Que tempo! Éramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consolação. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: não há bem que sempre dure, nem mal que se não acabe.

BOTA ESQUERDA.- O certo é que ninguém nos inventou para vivermos novas toda vida. Mais de uma pessoa ali foi experimentar-nos; éramos calçadas com cuidado, postas sobre um tapete, até que um dia, o Dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e calçou-nos. Eu, de raivosa, apertei-lhe um pouco os dois calos.

BOTA DIREITA.- Sempre te conheci pirracenta.

BOTA ESQUERDA.- Pirracenta, mas infeliz. Apesar do apertão, o Dr. Crispim levou-nos.

BOTA DIREITA.- Era bom homem, o Dr. Crispim; muito nosso amigo. Não dava caminhadas largas, não dançava. Só jogava o voltarete, até tarde, duas e três horas da madrugada; mas, como o divertimento era parado, não nos incomodava muito. E depois, entrava em casa, na pontinha dos pés, para não acordar a mulher. Lembras-te?

BOTA ESQUERDA.- Ora! por sinal que a mulher fingia dormir para lhe não tirar as ilusões. No dia seguinte ele contava que estivera na maçonaria. Santa senhora!

BOTA DIREITA.- Santo casal! Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que eles frequentavam? Quando não havia tapetes, havia palhinha; pisávamos o macio, o limpo, o asseado. Andávamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro! Estivemos ali uns quarenta dias, não?

BOTA ESQUERDA.- Pois então! Ele gastava mais sapatos do que a Bolívia gasta constituições.

BOTA DIREITA.- Deixemo-nos de política.

BOTA ESQUERDA.- Apoiado.

BOTA DIREITA (com força).- Deixemo-nos de política, já disse!

BOTA ESQUERDA (sorrindo).- Mas um pouco de política debaixo da mesa?... Nunca te contei... contei, sim... o caso das botinas cor de chocolate... as da viúva...

BOTA DIREITA.- Da viúva, para quem o Dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me que estivemos juntas, num jantar do Comendador Plácido. As botinas viram-nos logo, e nós daí a pouco as vimos também, porque a viúva, como tinha o pé pequeno, andava a mostrá-lo a cada passo. Lembra-me também que, à mesa, conversei muito com uma das botinas. O Dr. Crispim sentara-se ao pé do comendador e defronte da viúva; então, eu fui direita a uma delas, e falamos, falamos pelas tripas de Judas... A princípio, não; a princípio ela fez-se de boa; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada: “Vá-se, me deixe!” Mas eu insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado, disse-lhe que estava ainda muito bonita, muito conservada; ela foi-se amansando, buliu com o bico, depois com o tacão, pisou em mim, eu pisei nela e não te digo mais...

BOTA ESQUERDA.- Pois é justamente o que eu queria contar...

BOTA DIREITA.- Também conversaste?

BOTA ESQUERDA.- Não; ia conversar com a outra. Escorreguei devagarinho, muito devagarinho, com cautela, por causa da bota do comendador.

BOTA DIREITA.- Agora me lembro: pisaste a bota do comendador.

BOTA ESQUERDA.- A bota? Pisei o calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os homens: Hein? E eu recuei; e o Dr. Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho...

BOTA DIREITA.- Parece que foi castigo. No dia seguinte o Dr. Crispim deu-nos de presente a um procurador de poucas causas.

BOTA ESQUERDA.- Não me fales! Isso foi a nossa desgraça! Um procurador! Era o mesmo que dizer: mata-me estas botas; esfrangalha-me estas botas!

BOTA DIREITA.- Dizes bem. Que roda viva! Era da Relação para os escrivães, dos escrivães para os juízes, dos juízes para os advogados, dos advogados para as partes (embora poucas), das partes para a Relação, da Relação para os escrivães...

BOTA ESQUERDA.- Et coetera (e o resto). E as chuvas! e as lamas! Foi o procurador quem primeiro me deu este corte para desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela à banda.

BOTA DIREITA.- Durou pouco; passamos então para o fiel de feitos, que no fim de três semanas nos transferiu ao remendão. O remendão (ah! já não era a Rua do Ouvidor!) deu-nos alguns pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do Beco dos Aflitos.

BOTA DIREITA.- Com esse havia pouco que fazer de dia, mas de noite...

BOTA ESQUERDA.- No curso de dança; lembra-me. O diabo do rapaz valsava como quem se despede da vida. Nem nos comprou para outra coisa, porque para os passeios tinha um par de botas novas, de verniz e bico fino. Mas para as noites... Nós éramos as botas do curso...

BOTA DIREITA.- Que abismo entre o curso e os tapetes do Dr. Crispim...

BOTA ESQUERDA.- Coisas!

BOTA DIREITA.- Justiça, justiça; o aprendiz não nos escovava; não tínhamos o suplício da escova. Ao menos, por esse lado, a nossa vida era tranquila.

BOTA ESQUERDA.- Relativamente, creio. Agora, que era alegre não há dúvida; em todo caso, era muito melhor que a outra que nos esperava.

BOTA DIREITA.- Quando fomos parar às mãos...

BOTA ESQUERDA.- Aos pés.

BOTA DIREITA.- Aos pés daquele servente das obras públicas. Daí fomos atiradas à rua, onde nos apanhou um preto padeiro, que nos reduziu enfim a este último estado! Triste! triste!

BOTA ESQUERDA.- Tu queixas-te, mana?

BOTA DIREITA.- Se te parece!

BOTA ESQUERDA.- Não sei; se na verdade é triste acabar assim tão miseravelmente, numa praia, esburacadas e rotas, sem tacões nem ilusões, — por outro lado, ganhamos a paz, e a experiência.

BOTA DIREITA.- A paz? Aquele mar pode lamber-nos de um relance.

BOTA ESQUERDA.- Trazer-nos-á outra vez à praia. Demais, está longe.

BOTA DIREITA.- Que eu, na verdade, quisera descansar agora estes últimos dias; mas descansar sem saudades, sem a lembrança do que foi. Viver tão afagadas, tão admiradas na vidraça do autor dos nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro dono, suportável na casa dos outros; e agora...

BOTA ESQUERDA.- Agora quê?

BOTA DIREITA.- A vergonha, mana.

BOTA ESQUERDA.- Vergonha, não. Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem calçamos; ao menos, na nossa mocidade. Tu que pensas? Mais de um não olha para suas ideias com a mesma satisfação com que olha para suas botas. Mana, a bota é a metade da circunspecção; em todo o caso é a base da sociedade civil...

BOTA DIREITA.- Que estilo! Bem se vê que nos calçou um advogado.

BOTA ESQUERDA.- Não reparaste que, à medida que íamos envelhecendo, éramos menos cumprimentadas?

BOTA DIREITA.- Talvez.

BOTA ESQUERDA.- Éramos, e o chapéu não se engana. O chapéu fareja a bota... Ora, pois! Viva a liberdade! viva a paz! viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o cano). Que tens?

BOTA DIREITA.- Não posso; por mais que queira, não posso afazer-me a isto. Pensava que sim, mas era ilusão... Viva a paz e a velhice, concordo; mas há de ser sem as recordações do passado...

BOTA ESQUERDA.- Qual passado? O de ontem ou de anteontem? O do advogado ou o do servente?

BOTA DIREITA.- Qualquer; contanto que nos calçassem. O mais reles pé de homem é sempre um pé de homem.

BOTA ESQUERDA.- Deixa-te disso; façamos da nossa velhice uma coisa útil e respeitável.

BOTA DIREITA.- Respeitável, um par de botas velhas! Útil, um par de botas velhas! Que utilidade? que respeito? Não vês que os homens tiraram de nós o que podiam, e quando não valíamos um caracol mandaram deitar-nos à margem? Quem é que nos há de respeitar? — aqueles mariscos? (olhando para mim) Aquele sujeito que está ali com os olhos assombrados?

BOTA ESQUERDA.- Vanitas! Vanitas! (vaidades!vaidades!)

BOTA DIREITA.- Que dizes tu?

BOTA ESQUERDA.- Quero dizer que és vaidosa, apesar de muito acalcanhada, e que devemos dar-nos por felizes com esta aposentadoria, lardeada de algumas recordações.

BOTA DIREITA.- Onde estarão a esta hora as botinas da viúva?

BOTA ESQUERDA.- Quem sabe lá! Talvez outras botas conversem com outras botinas... Talvez: é a lei do mundo; assim caem os Estados e as instituições. Assim perece a beleza e a mocidade. Tudo botas, mana; tudo botas, com tacões ou sem tacões, novas ou velhas; direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ruças, mas botas, botas botas!

Neste ponto calaram-se as duas interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a esperar se diziam alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.

Deixei-me ficar assim algum tempo, disposto a lançar mão delas, e levá-las para casa com o fim de as estudar, interrogar, e depois escrever uma memória, que remeteria a todas as academias do mundo. Pensava também em as apresentar nos circos de cavalinhos, ou ir vendê-las a Nova Iorque. Depois, abri mão de todos esses projetos. Se elas queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arrancá-las a essa justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! tinham rolado todos os degraus da escala social; chegavam ao último, a praia, a triste Praia de Santa Luzia... Não, velhas botas! Melhor é que fiqueis aí no derradeiro descanso.

Nisto vi chegar um sujeito maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me uma esmola; dei-lhe um níquel.

MENDIGO.- Deus lhe pague, meu senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo que as pôs aqui...

EU (ao mendigo).- Mas, espere...

MENDIGO.- Espere o quê? Se lhe digo que estou descalço! (Pegando nas botas) Estão bem boas! Cosendo-se isto aqui, com um barbante...

BOTA DIREITA.- Que é isto, mana? que é isto? Alguém pega em nós... Eu sinto-me no ar...

BOTA ESQUERDA.- É um mendigo.

BOTA DIREITA.- Um mendigo? Que quererá ele?

BOTA DIREITA (alvoroçada).- Será possível?

BOTA ESQUERDA.- Vaidosa!

BOTA DIREITA.- Ah! mana! esta é a filosofia verdadeira: — Não há bota velha que não encontre um pé cambaio.

Fonte:
Publicado originalmente em O Cruzeiro, 23 de abril de 1878.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Isabel Furini (Poema) 32: eu e Eu

 

Giuseppe Caonetto (As palavras e eu)

Às vezes penso que somos consumidores de palavras. Apenas isto: sorvedouros de vocábulos. Em conjunto, isolados, soltos. Combinados. Aprisionados. Livres. Misturados. Comensais de iguarias linguísticas. Algumas, apimentadas. Outras, salgadas. Mas também há comidas insossas, com algum azedume ou demasiadas no amargor. O amaro, por vezes, perdura na boca. Nem sempre a desejada sobremesa fecha a refeição.

Em verdade, são poucos os que têm vocação para Graciliano Ramos, que escrevia “com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol”, conforme o definiu, em versos, João Cabral de Melo Neto. O autor de “Vidas Secas”, como sabemos, possuía sutileza para o uso da palavra, sempre com elegância, sem desperdícios. Escrevia como quem devolve águas cristalinas ao leito de rio seco.

Eu, por exemplo, gosto da palavra-síntese. O minimalismo me encanta, me atrai, me alicia. Os poemas curtos, com sua missão de inundar o mundo de significados, sem verbosidade. As micronarrativas, avessas às facúndias estéreis, com sua eloquência elegante, mínima. Pérolas, não parolas. Mas quando necessito de termos precisos para descrever, relatar, contar, narrar, sinto que as margens saltam para fora, sem resistências. A enxurrada verbal transborda, soterrando os sentidos, emudecendo os enunciados, ensurdecendo os silêncios. O texto fica sem intenção. E tensionado.

Um bom texto, creio, deve conter o equilíbrio das palavras. E um bom autor deve buscá-lo, para dar harmoniosa estabilidade ao seu mundo. Quem sabe, assim também o mundo ao redor se equilibre e deixe de ser apenas o chafariz apontado por Saramago, de onde as palavras escorrem fluidas como água, que “alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço”, como um “coro desafinado que jorra de milhões de bocas”.

As palavras, segundo o escritor português, são tão boas quanto más, tão ofensivas quanto gentis. O que o autor da crônica “As Palavras” não disse, por obviedade, é que são necessárias. Sim, pois ao tempo que são produtos do pensamento, produzem novos pensares, não disponíveis em gôndolas. Por isso, é preciso pô-las na escrita, único caminho para visitarmos os mangarás do pensamento.

E escrever é firmar-se nas bordas das palavras, com asas abertas, em posição de prontidão para o voo. Ou para o desequilíbrio.
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Giuseppe Caonetto, nome literário de José A Cauneto (1962), natural de Paranavaí (PR). Licenciado em Letras (Unespar, 1989), Especialista em Língua Portuguesa (Unespar, 1992) e Bacharel em Direito (UENP, 1997). Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí. Publicou Santo Rosário: um tesouro mariano (Vozes, 2010), Para que os olhos falem: poemas ternos (poesia, edição do autor, 2012), Doarte (poesia, EGP, 2016) e Trilhas Sazonais: versos liturgos (em coautoria com Lilia Souza, Sarau das Letras, 2020). Coautor e coordenador do livro comemorativo Vara do Trabalho de Paranavaí: 18 anos de história (TRT PR, 2004). Participou das antologias Poetrix 2 (MIP, 2007), Poetrix 5 (Scortecci, 2017), Poetrix 6 (Rumo Editorial, 2019) e Prêmio CNNP (Vivara, 2015). Premiado no 54º FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí (2019).

Fonte:
Blog do autor.
http://giuseppecaonetto.art.br/2021/08/as-palavras-e-eu/

Baú de Trovas LIV


Errar nunca foi demérito,
e eu também estou sujeito.
– Nem mesmo o velho pretérito
é totalmente perfeito.
A. A. de Assis – PR
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Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
Amilton Maciel Monteiro – SP
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Sem fazer-me de rogada,
só persiste uma verdade:
poesia em mim fez pousada,
sem ter qualquer leviandade.
Andréa Motta – PR
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Quis colher o sol e a lua,
Depô-los no teu regaço,
Quis cantar de rua em rua,
Os versos que já não faço.
Antonio Barroso - (Tiago) - Portugal
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Família é um livro lindo,
obra de muitos autores,
é um livro jamais findo
de risos, choros e amores.
Cesar Sovinski - PR
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Trovas devem ser escritas
com bastante inspiração,
passando em frases bonitas,
mensagens do coração.
Cláudio Morais - SP
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– “Mas, mamãe, se é gravidez,
que remédio é sugerido?”
– “Arranjar, com rapidez,
algum trouxa, pra marido!”…
Darly O. Barros – SP
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Não há palavra nenhuma
tão grande quanto “saudade”
que em sete letras resuma
a dor e a felicidade.
Diamantino Ferreira – RJ
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Quando chegaste ao portão
para saber quem batia,
batia o meu coração
que de saudades morria.
Domingos Freire Cardoso - Portugal
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Das ofensas de um irmão
não guardes nenhum rancor,
que um minuto de perdão
vale uma vida de amor!
Domitilla Borges Beltrame – SP
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Sou livre, sem restrição,
mas afinal, para quê?
Mil vezes a escravidão…
mas juntinho de você.
Dorothy Jansson Moretti – SP +
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Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho – MG
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Pelo calor castigado,
vou seguindo tão sozinho
neste sertão demarcado
pelas cruzes do caminho.
Edweine Loureiro – Japão
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Refletia a luz da lua,
o orvalho da noite fria;
sobre o menino de rua,
que na calçada dormia.
Edy Soares – ES
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De armas, não precisaste.
palavras brutais, somente…
com elas apunhalaste
meu coração, friamente!
Ester Figueiredo – RJ
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As pedras do meu caminho
vou transpondo-as com ardor,
e cada dia um trechinho
vira caminho de amor.
Flávio Roberto Stefani – RS
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Malandro vive sem grana,   
é um eterno vadio.
Sua pinta de bacana
esconde o bolso vazio.
Francisco Gabriel – RN
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Embora o tempo me marque
com várias rugas na tez,
se um dia voltar ao parque
serei criança outra vez.
Francisco José Pessoa – CE +
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Refém de ti, não recuo,
réu do amor que me corrói:
cada sonho que construo,
tua apatia destrói…
Gilvan Carneiro – RJ
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O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
Gislaine Canales – RS +
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O “ser feliz” nesta vida
está na simplicidade,
um só carinho, querida,
traduz a felicidade!
Glória Tabet Marson – SP
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Esta  frase  refletida
leva  a  conceitos  profundos:
" Perca  horas  e  horas  na  vida,
mas  nunca, a  vida  em  segundos"!...
Henrique Eduardo – CE
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Um cenário me devasta:   
a garrafa de champanhe,
duas taças, vela gasta
e ninguém que me acompanhe.
Jérson Brito – RO
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Mesmo se é pobre a mobília
e às vezes falta alimento,
é na casa da família
que a esperança encontra alento.
Jorge Fregadolli – PR
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Ao contrário da mentira,
é reta a sinceridade;
aquela desperta a ira,
esta, a credibilidade.
Lairton Trovão de Andrade – PR
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Antes, a família à mesa,
em sagrada comunhão.
Hoje, silêncio e frieza,
por conta da evolução.
Leonilda Yvonneti Spina – PR
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De tanto viver sonhando,
levo o meu barco, a sorrir,
tranquilamente aguardando
mais sonhos em meu porvir!
Lucília Trindade Decarli – PR
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Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
Luiz Carlos Abritta – MG +
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Em meu livro da memória
há uma página refeita,
que mudou a minha história…
A rasura… foi perfeita!
Luzia Brisolla Fuim – SP
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Por te amar tanto é que a vida,
embora dure um segundo,
possui o espaço e a medida
das horas todas do mundo!…
Mara Melinni – RN
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Felicidade: ei-la aqui,
aponta pra cima a seta.
Basta que todos daqui
entendam essa indireta!
Maria Cristina Cacossi -SP
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Maria Danusa Almeida,
Nunca mostres apatia
diante da luta na vida,
mas brinda com simpatia
e a inércia será vencida!
Maria Luíza Walendowski – SC
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Quando a dúvida se instala
dentro de um peito infeliz,
não importa o que ela fala,
já se sabe o que ela diz!
Maria Thereza Cavalheiro – SP +
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Meu caminho é o teu caminho!
Se a morte nos separar,
quem chegar no céu sozinho
chora até o outro chegar.
Milton de Souza – RS +
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O amor que escolhi um dia
expõe-me à língua do povo?
Dane-se o povo! Eu faria
a mesma escolha, de novo!
Newton Vieira – MG
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Escute, esta é a voz do vento
que me traz doces cantigas,
invadindo o pensamento
de lembranças tão antigas.
Nilsa Alves de Melo – PR
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O sonho, eterna magia,
ao retratar o passado,
mostra a doce fantasia
de estar, ainda, a teu lado.
Olga Maria Ferreira – RS
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Olhando o escorregador,
palco da infância sem pressa,
filosofa o trovador:
 – Os anos passam depressa!
Olympio Coutinho – MG
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Tudo na vida tem preço
e prazo de validade…
Quando tu vais, não te esqueço:
pago teu preço em saudade!
Renato Alves – RJ
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Meu amor deu-me um pacote
embrulhado com barbante...
Eu logo vi que era um trote :
Lindo vidro de laxante!
Renato Benvindo Frata – PR
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Áureo outono, que beleza…
Nada abate o teu fulgor!
A esplêndida natureza
te fez tão encantador.
Roberto Pinheiro Acruche – RJ
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Na praia deixei meus sonhos
e, junto às ondas do mar,
pousei meus olhos tristonhos
à espera de te encontrar.
Sarah Rodrigues – PA
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O canto ensina que a vida
encanta em qualquer momento.
Mesmo a luta mais renhida
traz nela o seu próprio alento!
Sinclair Casemiro – PR
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Quem se concentra no estudo
vence o mundo, sem esquema.
Leva consigo um escudo:
– Enfrentar qualquer problema.
Vânia Ennes – PR

Aparecido Raimundo de Souza (Encrenqueiros)

NA HORA do intervalo para o recreio, Jujuba se aproxima do colega Brucólio. Puxa conversa. Na verdade, Jujuba não gosta de Brucólio, porque ele está de olho na sua irmã Josefina.

Jujuba:
— Estava te observando de longe, Brucólio. Como você é baixo. Não sei o que a minha mana viu em você!

Brucólio:
— Olha quem fala. Despeitado. Como se você fosse alto o suficiente...

Jujuba:
— Pelo menos vejo meu tênis nos pés mais longe que você enxerga os seus... se é que enxerga.

Brucólio:
— Tá me tirando?

Jujuba:
— Não, só estou dizendo que você é miúdo. Parece aqueles cachorrinhos da raça Chihuahua que não crescem.

Brucólio:
— Você tem mãe, Jujuba?

Jujuba:
— Você sabe a resposta... que pergunta mais besta. Está até querendo que ela venha a ser futuramente a sua sogra. Se depender de mim...

Brucólio:
— Me responda, seu verme. Você gosta dela?

Jujuba:
— Dela quem? Da minha mãe? Claro. Amo! Por?

Brucólio:
— Me faz um favor. Vai cantar as suas idiotices nos ouvidos dela. Deixa eu aqui quietinho no meu canto.

Jujuba não dá a mínima e segue colocando defeitos em seu colega.

Jujuba:
— Olha para isso! Até seu sanduiche é mirrado. E o refri? Não tinha uma garrafinha maior?

Brucólio:
— Jujuba, seu filho de uma égua. Vai torrar a paciência de outro. Olhe em sua volta. Tem tanto piá dando sopa. Por que implica logo comigo?

Jujuba, com ar de deboche:
— Por dois motivos. Um. Você está de olho comprido na Josefina. Dois. Seu aspecto amorrinhado me lembra do Guran, aquele pigmeu que vive no Trono da Caveira, junto com o Fantasma.

Brucólio:
—  Amorrinhado, pigmeu e Fantasma é o seu pai...

Jujuba:
— Meu pai tem quase dois metros de altura.

Brucólio:
— Jujuba, me deixa em paz. Vai ver se estou no banheiro fazendo xixi na sua carcaça...

Jujuba cai em estrondosa gargalhada.
— A sua paz pelo menos é grande?

Brucólio acaba perdendo as estribeiras. Parte para o ataque. Atira o seu lanche no rosto de Jujuba. Jujuba se esquiva a tempo e ridiculariza:

— Errou. Ta vendo? Até a sua direita é fraca. Você não acerta nem mosca. Boboca, boboca, bobocaaaaaa...

Em face de não ter atingido o alvo, Brucólio se enfurece ainda mais. Vocifera:

— Vou te pegar, seu idiota...

Das palavras parte para a ação. Se arma, em contínuo, de uma vassoura e pula com tudo para cima de seu opositor. Jujuba dispara em ziguezague espiralando em meio de outros albergados. O pátio da escola é enorme e Brucólio não consegue acompanhar a velocidade do seu desafeto.

Jujuba:
— Nem correr sabe – troça o Jujuba, galhofando. Parece uma barata tonta. Vem, vem, vem...veemmmmmm...

Brucólio:
— Quando você sentir na pele a minha raiva, a sua mãe não vai reconhecer a sua fuça. Eu te mato...

Jujuba:
— Do jeito que você corre, me lembra o Zangado...

Brucólio:
— Quem é Zangado?

Jujuba:
— Um dos “anão” da Branca de Neve...

Brucólio:
— Filhote de verme... vou fazer você engolir tudo o que está me dizendo...

Jujuba:
— Vai ser fácil. Suas palavras são tão atrofiadas que engolirei numa só abocanhada. Venha, venha, venha, venhaaaaaa... aproveita e monta na vassoura...

A correria desordenada acaba quando ambos esbarram na professora Sofia, coordenadora e diretora do estabelecimento.

Em decorrência, a jovem tropeça numa galera de pernas e braços que igualmente voava atrás dos tresloucados, em apavorantes gritarias. A professora cai de costas e se estabana no chão de cimento.

Professora Sofia:
— Ei, vocês dois, que diabo está acontecendo aqui?

Os ajuntados oriundos de outras dependências se aglomeram em volumosa curiosidade. Abrindo caminho em meio ao furdunço, serventes acorrem em socorro da professora Sofia, enquanto educadores seguram os travessos encrenqueiros.

— Os dois, na minha sala, agora...

Jujuba e Brucólio imediatamente são impedidos de voltarem aos seus locais de estudos. Os pais chamados. Cada um dos brigões toma suspensão de três dias e a promessa solene de serem expulsos se outra mazorca* tornar a criar vida e forma.       
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* Mazorca = baderna, tumulto

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

domingo, 7 de agosto de 2022

A. A. de Assis (Jardim de Trovas) 11

 

Leandro Bertoldo Silva (A literatura é uma escada muito alta)

Uma das condições que nos faz ser humanos é a nossa capacidade de ler. Ser leitor é estar inserido, não em um universo, mas em algo maior, uma espécie de pluriverso que é, ainda, mais vasto. Gosto dessa palavra: “Vasto”. Lembro-me de Drummond ao escrever: “Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução”. Bem, não me chamo Raimundo, mas supondo ser esse o nome de todos os alunos e alunas que dizem ter horror à leitura por não entenderem como, ao ler, somos transportados aos vastos mundos, conscientes e inconscientes, reais ou imaginários, busquemos a solução com licença ao poeta.

Antes, o que nos faz verdadeiramente humanos em nossa experiência leitora é perceber que não lemos somente as palavras. Há algo a mais nessa experiência que reflete a nossa condição lúcida de seres racionais dotados de uma inteligência superior. Sempre digo: precisamos aprender a ler a verdadeira natureza íntima de todas as coisas. Eu, como escritor, gosto dos leitores que leem os cheiros, os sabores, as lembranças, as saudades, as esperanças, as suposições… As letras são materializações do que sentimos, mas não devemos ficar presos nelas, pois se assim acontece, ficamos na superficialidade, no espelho das águas e perdemos a oportunidade de desfrutar o encontro das profundidades. É como a árvore; vemos o seu tronco, galhos, folhas e frutos, mas não enxergamos o mais importante: suas raízes. Na escrita se dá o mesmo. É preciso ler as raízes, o que está “escondido”, pois são elas a sustentar sua existência.

Mas deixemos as digressões. Até porque estava nelas quando um aluno levantou a mão no meio da sala.

— É o seguinte, fessô, — disse ele coçando a cabeça. - Eu sei que o senhor é escritor e fala essas coisas aí, mas eu não consigo entender essas paradas de ler o que não tá escrito. Como isso é possível?

— Ora, Raimundo, você ouviu o que eu falei sobre a árvore?

— Ouvi, fessô, mas isso tudo é poético demais… Falando assim até dá pra entender, mas sei lá…

— Certo. Vou te explicar de outra forma. Vamos fazer uma pequena viagem mental.

— Fazer o quê?

— Um faz de conta, vou contar uma história e você vai se vendo dentro dela.

— Pô, fessô, maneiro. A galera pode vir junto?

— Pode. Mas você precisa se concentrar, pode ser?

— Pode crer.

— Vamos lá. Imagina que você está indo para uma cachoeira com alguns amigos.

— Maneiro.

— Porém, durante o trajeto e ao chegar lá o sol foi se escondendo e dando lugar a um tempo nublado e até com alguns pingos de chuva, poucos, mas suficientes para turvar a água e impedir a sua bela visão cristalina.

— Pô, fessô, sacanagem…

— Concentra, Raimundo.

 — Vai nessa.

— Se algum de seus amigos falasse para você pular na água de cabeça, você pularia?

— Com a água turva? Tá doido, fessô, de jeito nenhum!

— Ora, e por quê?

— Por quê?! Cê tá doido mesmo! Com a água turva não dá pra ver o fundo e nem onde as pedras estão. É perigoso pacas!

— Pedras? Mas que pedras? Eu não falei em pedras! Além do mais, você nem as viu! Como sabe que tem pedras?

— Ô, fessô, se liga! Cachoeiras são lugares de pedras a contar pelas que existem nas margens. A gente pode até não tá vendo, mas isso porque a chuva que o senhor falou fez mexer as paradas lá embaixo da água e a lama subiu pra superfície. Mas que tem pedra, ah isso tem. E vai que tem uma exatamente onde eu pularia…

— Hummm… Sabe o que você fez, Raimundo?

— Me livrei de uma?

— Isso também. Mas você acabou de fazer uma leitura perfeita da natureza e das suposições.

— Hã?!

— Sim, Raimundo, percebe! Você leu a água, a lama, a chuva… E não havia palavras aí, ou seja, as pedras. Você enxergou o que não estava visível, exatamente como devemos fazer em uma leitura: ler nas entrelinhas, nos espaços vazios onde as palavras já não são necessárias… Entendeu?

Nem era mais preciso perguntar. A sua expressão disse tudo. Ele ficou satisfeito com a explicação. Eu mais ainda por ter, talvez, despertado mais um leitor crítico. Ao vê-lo com seu ar alegre e orgulhoso de si mesmo e em meio à algazarra da turma que o saudava, fiquei a pensar… É, a literatura é mesmo uma escada muito alta e para se chegar ao topo é preciso subir degraus.
__________

Pois é, essa é uma fala corriqueira minha. Quem me conhece sabe disso. Infelizmente, tem muita gente adepta ao salto à distância e quer alcançar, de um pulo só, o último degrau. Vemos isso muito nas escolas quando “obrigam” alunos a lerem autores e obras que ainda não estão preparados e, além de não prepará-los, ainda dão prova de livros, prática que eu nunca fui adepto, pois acredito mesmo que há muitas outras maneiras de se avaliar uma leitura… E você, o que acha disso?

Fonte:
Texto enviado pelo autor, disponível no blog Árvore das Letras.
https://arvoredasletras.com.br/2022/05/21/a-literatura-e-uma-escada-muito-alta-2/

Caldeirão Poético LII


Caio de Melo Franco
Montevidéu/Uruguai, 1896 – 1955, Paris/França

EVANGELHO DA VELHICE

— "Quando a Velhice te bater à porta,
queres ouvir nosso Evangelho? — escuta:
Abre de manso e trêmula perscruta
aquela face que a tristeza corta.

Olha-a de frente... e uma alegria morta
verás em cada sulco que a labuta
deixou, fundo, ficar da insana luta,
que não nos confortou, nem nos conforta!...

Enxugarás o olhar inconsolado...
E ficarás pungentemente olhando,
de mãos postas, a orar para o Passado...

E assim, velhinha e triste, e eu triste e velho,
viveremos tremendo... mas rezando
a saudade sem fim desse Evangelho..."

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Carlos Guimarães
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997


ÚLTIMO SONETO


Este soneto — o último que faço —
põe um ponto final em nossa história,
que, hoje, termina de maneira inglória,
sem um beijo de adeus, sem um abraço.

Peço, apenas, que guardes na memória,
qual de nós teve culpa do fracasso;
quem primeiro deu mostras de cansaço,
reduzindo a farrapos nossa glória...

Pedes que eu parta e eu cedo. Indiferentes,
teus lindos olhos nem me seguirão...
Trilharemos caminhos diferentes,

porque temos Destinos desiguais:
— Tu vais feliz, em busca de ilusão,
e eu carregando um desengano a mais!

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Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP

MANHÃ GLORIOSA


Cintila em ouro o sol pelos caminhos,
no esplendor da manhã que vem raiando;
ouve-se, além, o murmurar dos ninhos
e cruzam-se no espaço asas, noivando.

De em torno a um velho cocho, atropelando
inocentes e mansos cordeirinhos,
anda um poldro, a saltar. Passam riscando
o céu — flechas de neve — dois pombinhos.

E toda a terra que de luz se banha,
despe-se, enfim, das pérolas do orvalho,
para a luta da vida, intensa e estranha.

Obscuro e cruento o embate principia,
e tudo vibra à orquestra do trabalho,
na conquista do pão de cada dia...

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Cícero Acaiaba
Cambuquira/MG, 1925 – 2009, Varginha/MG

MINHA SOMBRA

Depois de te esperar inutilmente
na esquina desta rua abandonada,
eu volto mais sozinho e, lentamente,
marcam meus passos versos na calçada.

O coração, de súbito, se sente
liberto dessa angústia exasperada,
ao ver que minha sombra, obediente,
arrasta-se a meus pés, escravizada.

Ao menos, a que sempre me acompanha,
sombra fiel de tantas confidências,
mártir da mesma dor, do mesmo espinho,

ouve em silêncio minha voz estranha,
e vai beijando as longas reticências
das lágrimas que deixo no caminho.

= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

Cidoca da Silva Velho
São Luís do Paratinga/SP, 1920 – 2015, Jundiaí/SP

POENTE DA VIDA

É impossível voltar ao tempo antigo,
com tudo começando novamente!
Mesmo assim, quero ser o teu abrigo,
nesta fase da vida de sol poente!

Quantas horas perdemos, meu amigo,
na escalada dos tempos, tristemente!
E passou a ilusão que hoje eu bendigo,
por ver-te em minha estrada, frente a frente.

Foge do vento frio dos caminhos!
Escondido nos galhos farfalhantes,
vê quanto amor existe pelos ninhos.

Há de florir em versos palpitantes
o nosso amor, só feito de carinhos,
num turbilhão de rimas delirantes...


Fonte:
Vasco de Castro Lima. O mundo maravilhoso do soneto. 1987.