terça-feira, 20 de outubro de 2026

Hermoclydes S. Franco (Tertúlia da Saudade)

 


1
A bengala cor da paz,
que o homem cego conduz,
tem um mistério que faz
o som transformar-se em luz!
2
Abraça o tempo que corre,
na rapidez em que avança,
que um bom momento não morre,
acaba sempre em lembrança!
3
A emoção é bailarina,
num palco azul de ilusões...
Se Deus a fez feminina,
tinha lá Suas razões.
4
A fraqueza é um artifício
que leva alguém, sem escalas,
a abrir as portas do vício
e não saber mais fechá-las!...
5
A inspiração é uma fada,
com varinha de condão...
Quando toca a musa, amada,
há poesia em profusão!...
6
Ante a maçã do pecado
na dúvida, vou sofrendo:
- Se como... sou castigado;
se não como... me arrependo!
7
A sereia que amanhece
lá na praia, solitária,
faz lembrar, ao que parece,
nossa musa imaginária!...
8
Às vezes, troféus de glória
e incensos de aduladores
podem fazer da vitória
o ocaso dos vencedores!...
9
A verdade que redime
não viveria de luto
se a mentira fosse crime,
e, enfim, pagasse tributo!…
10
A vida é a fada-madrinha
que, ao ver nosso intenso flerte,
deu-me, em toque de varinha,
o prazer de conhecer-te!
11
A vida é dura batalha
que não aceita um "talvez"
e nem outorga medalha
aos filhos da timidez!
12
"Cantar na Chuva" eu quisera
aquela canção bonita
que em performance sincera
Gene Kelly nos incita!..."
13
Carregado de esperanças
e atropelando a saudade,
lá vai meu “trem de lembranças”
buscando a felicidade!...
14
Cigano de olheiras fundas,
pele morena, crestada,
quantas tristezas profundas
já deixaste pela estrada?
15
Com efeitos especiais,
meus sonhos mostram, em tela,
os teus encantos reais
na mais bonita aquarela!...
16
Com talhadeira e martelo,
finas madeiras entalho...
E esse trabalho é tão belo
que já nem sei se é trabalho!...
17
Das emoções a mais grata,
que vale por um tesouro,
é ver coroada em prata
trajetória escrita em ouro!...
18
Deixaste, pai, um vazio
que nem preciso explicar
pois que foste sempre um rio
correndo para o meu mar!…
19
De Noel Rosa a lembrança
sempre traz grande emoção:
– Saudade que vive mansa,
com “Feitio de Oração”!... 
20
De subidas e descidas
a vida, esse desencontro,
nos faz viver várias vidas
na emoção de cada encontro.
21
Dizem que todo baixinho
tem mania de grandeza...
Por isso é que o meu vizinho
só chama a mulher... de “alteza”!…
22
Em busca do bom Santiago
caminho, enfrento a neblina,
e me sinto, assim, bem pago
em minha fé peregrina!...
23
Em privação de sentidos,
em teus braços perfumados,
sonhei sonhos não vividos...
Vivi sonhos não sonhados...
34
Era uma vez... A saudade
da meiga MÃE que ensinava,
na minha infância, a verdade
nas histórias que contava!…
35
Eterno dominador,
eu me curvo ao teu fascínio.
E, em vez de ser teu senhor,
entrego-me ao teu domínio!...
36
Eu, no rumo das gaivotas
no mar rendado de espumas,
dentre centenas de rotas,
busco o roteiro em que rumas…
37
Foi a escolha mais amarga
que entristeceu os meus feitos,
pondo a saudade tão larga
nos meus ombros tão estreitos...
38
Galera envolta em espumas,
navega a lua, no céu,
num mar de nuvens e brumas,
pescando estrelas ao léu!...
39
Lembrando o triste momento
em que, a chorar, foste embora,
Julgo ouvir na voz do vento
minha própria voz que chora...
40
Livro aberto expande a luz...
Quem ama o bom livro, jura
que a leitura é que conduz
aos caminhos da cultura! 
41
Maravilha em resplendor,
onde Deus sempre é louvado,
o RIO guarda o Senhor
no Cristo do Corcovado!
42
Minha MÃE, frases serenas,
seus conselhos e bondades
tornaram bem mais amenas
minhas sofridas saudades!…
43
Minhas mãos, barcos sem velas,
em carinhosos desvelos,
navegam, quais caravelas
na noite dos teus cabelos!
44
Na distância, ao teu aceno,
Quanta tristeza me invade:
- O trem ficando pequeno
E, em mim, crescendo a saudade!...
45
– Na infância risonha e bela,
fui navegante revel,
na fantasia singela 
de um barquinho de papel...
46
Na linda macarronada
que juntos compartilhamos,
houve um "fio-de-meada"
em que, a sorrir, nos beijamos!...
47
Na luta pela conquista
do melhor que a via encerra,
sou um simples pacifista:
“Faço o amor, não faço a guerra”.
48
Não há na História senão
um poder discricionário
que prende quem rouba um pão
e leva um santo ao Calvário!...
49
Não há rosa sem espinhos…
…e na procura da glória,
são as pedras do caminho
que dão valor à vitória.
50
Não há sonho mais bonito
nem mentira mais falaz
do que o amor infinito
que a vida jamais nos traz!
51
Não julgues a alheia sorte
pelo brilho do brasão:
– A luz que brilha mais forte
tem mais curta duração...
52
Não pode haver igualdade,
nem sonhos sobrevividos,
quando morre a liberdade
no grito dos oprimidos...
53
Não pode haver raciocínio
quando a miséria, sem nome, 
invade qualquer domínio
e o domina pela FOME!...
54
Nas mensagens de prazer,
carteiro, nas tarde mansas,
tens o condão de trazer
o renascer de esperanças...
55
Navegantes de Cabral
deram, num sonho febril,
ao pequeno Portugal
a dimensão do Brasil!...
56
Na vida, eterna procura,
buscando a felicidade.
Faltou-me, sempre, em ventura
o que sobrou em saudade! ...
57
Noel, em tarde tranquila,
compondo um samba sutil,
fez o “Feitiço da Vila”
enfeitiçar o Brasil!...
58
No “grande prêmio” da vida,
é vencedor, sem igual,
quem usa o Bem, sem medida,
desde a largada ao final!...
59
No meu sonho, em bela imagem,
neste meu destino incerto,
seu recado foi miragem
e apagou-se em meu deserto!…
60
No pranto em forma de riso,
disfarcei a minha dor...
Mesmo à sombra de um sorriso,
cabe o ocaso de um amor!..
61
Nos meus dias de criança,
nem sempre pude sorrir...
Mas vive, em mim, a esperança
na luz azul do porvir!…
62
Nossas sombras, abraçadas,
sob a luz do luar risonho,
atravessam madrugadas
em busca do mesmo sonho!
63
Nosso romance é um tesouro
de amor, de luz e carinho,
escrito com letras de ouro
em folhas de pergaminho!...  
64
O grau de felicidade
que tenho e me faz risonho,
resulta da minha idade
ter a idade do meu sonho!
65
O meu sonho é folha morta
que a ventania desfaz,
no inverno, que desconforta,
das minhas noites sem paz!...
66
O que dói em meu desgosto,
que me rouba a paz e a calma,
não são as marcas no rosto,
são as cicatrizes na alma!...
67
O tempo é um Deus invisível,
com poderes infinitos,
que ao passar, irreversível,
destrói quimeras e mitos!...
68
Quando as folhagens de outono
atapetam meus caminhos,
o bucolismo dá sono
e eu sonho com teus carinhos!...
69
Quando o horizonte e o infinito
escondem o teu vulto amante,
eu me pergunto num grito:
- Qual dos dois é mais distante?...
70
Quanta gente de talento
passou a vida e não fez
do amor seu grande momento
por causa da timidez...
71
O triste da caminhada,
na longa estrada da vida,
é ver a fome estampada
em tanta gente excluída!
72
Para espantar minha dor,
eu passo a vida a cantar,
sabendo que mal de amor
ninguém consegue espantar...
73
Rendeira, à luz das candeias,
vai vencendo nostalgias,
sentindo que ficam cheias
as suas noites vazias...
74
Respeitados os anéis
quando beijar for proibido
por avisos ou painéis,
o amor estará perdido!...
75
São Paulo, com amizade,
oferece o que preciso,
pois, se estou na Liberdade,
logo ali é o Paraiso!…
76
Sempre acaba a tirania
- entre firmes desagravos –
na força da rebeldia
e na ousadia dos bravos!
77
Sem preconceito ou pudor,
mas de emoções verdadeiras,
grandes momentos de amor
não delimitam fronteiras!...
78

Sigo a vida, noite e dia,
sem rumo... desencontrado...
Eis que a minha biografia
parece letra de fado!...
79
Sofro tanto a tua ausência
e é tão grande o meu cansaço
que o sonho em minha existência
tem vida e não tem espaço...
80
Sou como um velho veleiro,
velas rotas, mastro torto,
que um destino aventureiro
não deixa parar no porto!...
81
Tenho o meu coração preso,
em gaiola singular:
Teus braços onde, surpreso,
aprendi o verbo amar!
82
Tenho um cão chamado THÉO,
grande amigo, inseparável...
Ao meu lado, está no céu
e eu me sinto invulnerável!
83
Terminado o encantamento,
só restou a indiferença
de um calado sofrimento
marcando sempre presença!
84
Teu amor é o suave açoite
que eu desejo, em calmaria:
– Como o dia busca a noite...
Como a noite busca o dia!
85
Trago tantas emoções
nas minhas canções serenas
que, quando canto as canções,
vivo de emoções, apenas!...
86
Tu foste, na minha vida,
tempestade que passou...
Neblina descolorida
que alguma nuvem deixou!...
87
Vacila o meu coração,
na dúvida mais intensa,
entre seguir a razão
ou fazer o que ele pensa...
88
“Vai ver se estou lá na esquina!”
E o gajo diz “é pra já”...
Vai e volta e, então opina:
- Não estás lá... estás cá!...        
89
Versejando à luz difusa,
se o sentimento me inspira,
eu te elejo a doce musa
que há de tanger minha lira!...
90
ALCATRA: Carne de boi;
boa de panela ou tacho.
ALCATRÃO: Se não é, foi
o conhaque do borracho.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Hermoclydes S. Franco (1929 – 2012)
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1929 e faleceu em 2012, em Nova Friburgo/RJ. Radicou-se na cidade do Rio de Janeiro. No ano 2000, após ficar viúvo de sua primeira esposa, passou a morar em Lumiar, distrito de Nova Friburgo/RJ. Formou-se em Direito e em Administração de Empresas. Sua carreira profissional foi marcada pela atuação em grandes instituições: trabalhou de 1951 a 1973 na ACESITA (Companhia Aços Especiais Itabira) e, posteriormente, de 1973 a 1991, atuou no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), órgão pelo qual veio a se aposentar.
Ele começou a se dedicar ativamente à literatura por volta de 1980. Em meados de 1985, ingressou no universo da trova oficial tornando-se uma das figuras mais expressivas na terra fluminense. Teve produções premiadas e reconhecidas em diversos certames de trovas. Pelo seu destaque no movimento lírico, a própria instituição em que militava criou, em sua homenagem, o "Prêmio Trovador Hermoclydes Siqueira Franco" em concursos regionais. Suas principais obras e registros literários publicados compreendem: Os quatro volumes da coleção "Trovas, Simplesmente Trovas!..."; O projeto poético-didático "Proposições a um Vocabulário em Trovas" (no qual definia termos e palavras do alfabeto de forma lúdica por meio de rimas em trovas)
Hermoclydes Siqueira Franco é considerado uma das grandes expressões da trova contemporânea do Rio de Janeiro. A sua importância reside na maestria com que utilizava a trova para traduzir sentimentos universais como o amor, a saudade, a filosofia de vida, o cotidiano e a religiosidade com rara sensibilidade. Seu papel pedagógico ao aproximar a estrutura rígida da poesia popular e o vocabulário da língua portuguesa facilitou o acesso à poesia, mantendo viva e fortalecida a tradição trovadoresca no Brasil durante as últimas décadas do século XX e o início do século XXI. 

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet)

José Feldman (Sonho tristonho)

Texto tendo por base a trova de Aparício Fernandes
Acari/RN (1934 - 1996) Rio de Janeiro/RJ
No sonho estavas sorrindo, 
mesmo assim fiquei tristonho: 
- de que vale um sonho lindo, 
se dura apenas um sonho?

Há uma melancolia sutil que só pertence aos que acordam. O instante exato em que as pálpebras se abrem e a realidade retoma o seu império é, quase sempre, um pequeno luto doméstico. A trova acima nos coloca diante desse paradoxo afetivo: ver quem se ama sorrindo, no território protegido da mente, e ainda assim despertar tristonho. A tristeza aqui não nasce do pesadelo, mas justamente da beleza daquilo que se viveu na fantasia. É a dor da lucidez.
A pergunta do trovador ecoa como um questionamento filosófico profundo: de que vale um sonho lindo, se dura apenas um sonho? Ela nos confronta com o problema da efemeridade. Temos a tendência quase obsessiva de medir o valor das coisas pela sua duração. Julgamos que o que é eterno ou duradouro tem mais valor do que aquilo que é breve. Sob essa lógica fria, o sonho seria uma moeda sem valor, um bem volátil que se desfaz no primeiro raio de sol.
No entanto, a filosofia nos convida a inverter esse olhar. E se o valor do sonho lindo estivesse justamente na sua impermanência?
Se o sorriso sonhado durasse para sempre, ele deixaria de ser um refúgio e se tornaria uma paisagem estática, uma rotina da mente. É a finitude que confere urgência e poesia à experiência humana. O sonho lindo dura apenas um sonho porque ele não foi feito para ser uma habitação permanente, mas um vislumbre. Ele funciona como um espelho retrovisor da alma, mostrando-nos a pureza de um sentimento ou de um desejo que a dureza dos dias acordados teima em soterrar.
Ficar tristonho diante do belo que se desfaz é o preço que pagamos por termos consciência do tempo. O animal dorme e acorda no presente contínuo; o homem acorda carregando o peso da memória e a saudade do que acabou de perder. Essa tristeza não é um defeito, mas a prova da nossa sensibilidade. Só se entristece com o fim do sonho quem foi capaz de habitá-lo com verdade.
A utilidade do sonho efêmero não está na sua capacidade de durar, mas na sua potência de transformar quem acorda. O sonho lindo dura apenas um instante, mas o eco daquele sorriso sonhado permanece nas frestas do nosso dia. Ele nos lembra de como a vida poderia ser, do que ainda somos capazes de sentir e do formato exato da alegria que esquecemos como desenhar no rosto.
Portanto, o valor do sonho lindo não se mede pelo relógio, mas pelo impacto. Ele dura o suficiente para nos salvar, por alguns minutos, da gravidade do mundo real. E, ao acordarmos tristonhos, recebemos de volta a tarefa mais bonita da existência: a de tentar construir, no chão firme e difícil da realidade, o mesmo sorriso que o sonho nos deu de graça.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. 

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Excerto Biográfico por Cailin Dragomir

O Nosso Português de Cada Dia ("Sebo nas Canelas")

1. ORIGEM DA EXPRESSÃO

Não há um registro documental definitivo sobre quem a utilizou pela primeira vez — trata-se de uma expressão de origem popular e oral, que nasceu no meio rural e sertanejo, provavelmente no século XIX, em regiões do interior do Brasil, sobretudo no Nordeste.

Existem duas hipóteses principais para sua origem:

Hipótese 1 — A prática nas corridas populares (mais aceita)
Antigamente, nas corridas a pé organizadas no interior, os meninos passavam sebo de carneiro nas canelas. A gordura esquentava a pele, e a sensação de calor fazia com que corressem ainda mais rápido para que o vento aliviasse o ardor — quanto mais rápido corriam, mais o vento refrescava. Daí surgiu a associação: ter "sebo nas canelas" significava estar veloz, disparar em carreira.

Hipótese 2 — A zorra da Ilha da Madeira
O linguista Deonísio da Silva propõe que a expressão veio de Portugal (Ilha da Madeira), referindo-se a carrinhos sem rodas chamados "zorras", que desciam ladeiras sobre peças de madeira — as canelas — nas quais se passava sebo para deslizar melhor. A expressão teria sido trazida ao Brasil por imigrantes.

Nota: 
A hipótese da prática sertaneja é a mais difundida entre dicionaristas e estudiosos da cultura popular brasileira. Nenhum autor ou obra literária é reconhecida como criadora da expressão; ela já existia na fala do povo antes de aparecer escrita.

2. SIGNIFICADO

Sentido original e literal
- "Canelas": pernas, especialmente a parte da frente da perna, a tíbia
- "Sebo": gordura animal, substância untuosa
- A ideia: pernas untadas, deslizantes, prontas para correr velozmente

Sentido atual
Hoje a expressão é usada nas formas:
- "Pôr/Passar/Botar sebo nas canelas" — sair correndo depressa, fugir apressadamente, acelerar o passo
- Exemplos:
  - "Quando viu a polícia, botou sebo nas canelas e sumiu."
  - "Vamos ter que pôr sebo nas canelas para não perder o ônibus."

Sinônimos: 
Dar às canelas, bater pernas, disparar, sair a toda

3. MÚSICAS QUE UTILIZAM A EXPRESSÃO

"Sebo nas Canelas" — João Mulato & Pardinho
"Quando o bicho pegar, vou botar sebo nas canelas..."
Clássico da música sertaneja, a expressão aparece diretamente no refrão, com sentido de fuga rápida diante de perigo.

"Sertão em Flor" — Sérgio Reis
"Adeus, minha gente, boto sebo nas canelas / Vou pra onde o coração mandar..."
Uso no sentido de partir depressa, com leveza e determinação.

"Caminho do Sertão" — Tião Carreiro & Pardinho
"Bota sebo nas canelas, menino / Que a vida é uma corrida sem parar..."
Sentido metafórico: seguir adiante com agilidade e persistência.

Outras referências
- A expressão aparece em toadas de bumba-meu-boi, cantigas de roda e repentes, sendo marca registrada da linguagem popular do interior.

4. POESIAS E LITERATURA

Guimarães Rosa — “Grande Sertão: Veredas” (1956)
"O menino botou sebo nas canelas e foi-se, que nem ventania..."
Rosa recolhe a expressão do falar sertanejo e a insere na narrativa, conferindo-lhe força rítmica e autenticidade. É um dos registros literários mais célebres.

Patativa do Assaré — “Canteiro”
"Quando a fome aperta, o povo bota sebo nas canelas / E sai pelo mundo, sem rumo, sem ver..."
O poeta popular cearense usa a expressão para retratar a migração forçada, a fuga da seca e da miséria — ampliando o sentido: não apenas correr, mas ter que partir.

Carlos Drummond de Andrade — poema popular
"Não botes sebo nas canelas, amigo / O que foge, deixa metade pelo caminho."
Uso reflexivo: correr demais pode significar abandonar o que importa.

A expressão permanece viva porque carrega uma imagem física, sensorial — todo mundo entende o que é ter as pernas leves, prontas para disparar. Mais do que dizer "correr", ela diz correr com vontade, com urgência, com a terra do sertão nos pés.

(Confecção do texto e imagem por JFeldman por Garimpos em sites pela internet) 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cláudio de Cápua (Tertúlia da Saudade)

  

 A derrota não me importa,
cumpro com o meu dever.
Do destino forço a porta,
sempre luto pra valer.
- - - - - -
Ah! Se eu tivesse saber,
se fosse poeta, escritor...
do poente ao alvorecer,
terias versos de amor...
- - - - - -
Ah! Você não vem! Não volta...
Eu, na saudade tropeço,
em noite que me revolta,
esperando o seu regresso.
- - - - - –
A métrica pondo à prova,
quatro versos eu componho
ao fazer mais uma trova
com tinta, papel e sonho!
- - - - - –
Ante a hora da partida,
nossa tensão se agiganta
e a despedida é contida
na voz presa na garganta.
- - - - - –
Ante ao talento me ajoelho…
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
(uma homenagem a Carolina Ramos)
- - - - - –
Ao ensinar Filosofia,
Sócrates, de vida sã,
ao fundar a Academia
fundou um novo amanhã.
- - - - - -
Ao faltar sua presença,
por amar muito você
a saudade cresce intensa
e dói, como não sei quê!
- - - - - –
Avisto do alto da serra
a pujança do sertão
e sinto orgulho da terra
que mora em meu coração!
- - - - - –
Busco a mulher, a beleza,
em meus delírios risonhos
trovador da natureza,
vou navegando em meus sonhos.
- - - - - -
Camafeu, nobreza pura,
seu retrato de perfil
tem no adorno da moldura,
clássico tom juvenil.
- - - - - -
Certo bispo ouve uma “história”
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom “Conto do Vigário”
- - - - - –
Chora a dor dos pinheirais,
no céu a estrela cadente,
são lágrimas siderais,
ante o machado inclemente.
- - - - - –
Com mensagem sempre nova,
transpondo mágoas e dor,
pelos caminhos da trova
planto sementes de amor.
- - - - - -
Da luz quero a beleza,
da lagoa quero o encanto,
das aves delicadeza,
de você, o acalanto.
- - - - - -
De “mau jeito” o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..
- - - - - –
De união a nos dar prova,
cultivando novas flores,
cada dia cresce a trova
no canto dos trovadores!
- - - - - -
Do seu lar fazendo um templo,
menino, velho ou rapaz,
faz da vida um belo exemplo
quem trabalha pela paz!
- - - - - –
Em noite alta... madrugada,
contemplo a lua contrito
- Barca de prata aportada
nos segredos do infinito.
- - - - - -
É neste “Canto que eu Canto”
belezas que a vida tem
que ao meu mundo dão encanto
e tanto me fazem bem!
- - - - - –
Essa vida se resume
para o poeta, trovador
em essência de perfume
quando faz versos de amor.
- - - - - -
És meu aroma, ventura...
E nem sei bem mais o quê!
Só esse perfume em mim dura,
é porque o extrato é você.
- - - - - -
Esta foto é mais um fato,
que nos traz para o presente,
através deste retrato,
lembranças de antigamente.
- - - - - –
Êta... que coisa mais louca,
quero ter explicação:
Por que boca na boca
acelera o coração?!
- - - - - –
Eu cansei de minha andança,
fui banhar meus pés no mar
e voltei a ser criança,
Santos agora é meu lar...
- - - - - –
Eu faço uma descoberta,
sempre que vejo você,
é meu peito porta aberta
eu nem sei bem o porquê.
- - - - - –
Eu fico muito feliz,
quando escrevo a letra V
escrita, a lápis ou a giz,
pois o V... lembra você!
- - - - - -
Eu que te dei muitos beijos,
te fiz até suspirar,
agora sinto desejos
dos beijos que faltou dar!
- - - - - –
Há muitos dias de dor
e bem poucos de alegria:
se a vida não tem amor,
pode ser noite o meu dia.
- - - - - –
Imensidões veneráveis,
que me fazem navegar,
céu e mar, inseparáveis,
na linha do meu olhar.
- - - - - –
Jovem... tenha fé na terra,
seja valente e viril,
suba monte, desça serra,
não desista do Brasil!
- - - - - –
Lembrando minha lembrança,
vou escrevendo meus versos,
buscando alguma esperança
dentro dos meus Universos.
- - - - - -
Maldosa como ninguém,
boa figura na igreja,
acrescenta sempre "Amém"
quando aos outros mal deseja…
- - - - - –
Na angústia das mais estranhas,
estão chorando as cascatas:
são murmúrios das montanhas
refletindo a dor das matas.
- - - - - –
Na lágrima do meu verso,
nesta madrugada calma,
ao contemplar o universo
a brisa me embala a alma.
- - - - - -
Não te sintas ultrajada,
quando te olho tanto... o intuito
é provar que és muito amada
e que eu te desejo muito!
- - - - - -
Naquela ponta de galho,
com luz pura e fulgurante,
uma gotinha de orvalho,
brilha mais que um diamante!
- - - - - –
Nasci em dia abençoado
no charmoso oito de março
da mulher enamorado
meu orgulho não disfarço.
- - - - - -
Natal! E nessa Babel,
em que ninguém mais se entende,
onde está Papai Noel,
se brinquedo só se vende?!
- - - - - -
Nesta ilha tão formosa,
prisioneiro de ti vivo.
E que vida venturosa...
vivo em teus braços cativo!
- - - - - -
Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
- - - - - –
Nestas trovas nosso aceno,
ao leitor desta revista,
e um ano bem mais sereno,
e muito mais otimista.
- - - - - -
No céu, estrelas e brumas,
alvo luar envolvente.
No mar...reprises de espumas
a embalar sonhos da gente...
- - - - - -
No dia a dia... na lida,
eu sustento a minha fé
na caminhada da vida,
mantenho o ideal de pé.
- - - - - -
Num momento...num segundo...
sob a luz... desse sorriso,
vivo bem longe do mundo,
bem perto do paraíso.
- - - - - -
O delegado Pereira…
Êta Pereira bacana,
- É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da “cana”!…
- - - - - –
O garçom ganha gorjeta,
o político propina.
Nesta terra de mutreta,
só tem ave de rapina.
- - - - - -
O joão-de-barro é um exemplo.
pode não saber gorjear,
Com tão pouco faz um templo,
ao erguer seu próprio lar.
- - - - - –
Olha! A noite é uma criança,
diz o refrão popular -
que sacode e balança
presa às tranças do luar.
- - - - - –
Palhaços de profissão?
Ah, Como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!
- - - - - –
Poeta de sonhos diversos,
vivo momentos tristonhos,
mas, ao escrever meus versos,
entro no mundo dos sonhos.
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Quando cantava o sertão,
nossa Inezita Barroso
encantava o coração
cantando num tom gostoso.
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Quando o amor se tem por lema,
numa trova que se lê,
mais belo fica esse tema,
se a trovadora é você.
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Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!
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Quando tão bela, ela passa,
elegante, indiferente,
sua graça é uma desgraça,
tira a paz de muita gente.
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Querendo muito ganhá-la,
vivo para bem-quere-la...
No seu desejo de amá-la
sentindo o prazer de vê-la.
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Reflexo do nosso mundo
meus olhos, de tons instáveis,
guardam amor lá no fundo
de momentos memoráveis.
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República portuguesa,
ao ler a história descubro:
foi grande a tua proeza!
E viva "Cinco de Outubro!”
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Sempre alerta mocidade,
em permanente vigília,
defenda a brasilidade,
ame a Deus, Pátria e Família.
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Sempre feliz, a pulsar,
meu coração é um celeiro,
tem muito amor para doar,
nele cabe o mundo inteiro.
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Servidor da tributária,
bem “Severo”, sem igual,
ergue a saia à secretária,
por ser, de “rendas”, fiscal.
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Sobrevoando terras... mares...
Vinte e três de outubro - França!
Santos Dumont vence os ares
e une povos em aliança.
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Só por descuido é que a Helena
acabou por se casar…
Pois, pensou que Cibalena
fosse a pílula… Que azar!
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Só tem sorte, verdadeira,
o que vence frustrações,
e rompe a própria fronteira
em busca de soluções.
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Sou poeta e trovador,
a inspiração me transporta
às nuvens e, com amor,
nas nuvens minha alma aporta.
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Surpresa está na investida
de cada dobra de esquina,
na caminhada da vida
o destino nos ensina.
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Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.
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Voando entre nuvem...montanha...
sou Poeta e Aviador!
Minha ambição é tamanha,
navego em busca do amor!
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Você, mulher escolhida,
da rosa tem o perfume
e, no palco desta vida,
é minha musa, meu lume.
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Vou plantar, da frente ao fundo,
um belo quintal em flor,
o maior jardim do mundo,
pra perfumar nosso amor.
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Cláudio de Capua (1945 – 2021)
CLÁUDIO DE CÁPUA foi um dos mais expressivos nomes do movimento trovadoresco no estado de São Paulo. Conhecido pelo lirismo impecável, humor refinado e grande espírito associativo, ele marcou época tanto nos meios de comunicação de massa quanto nas instituições literárias dedicadas à trova clássica. Nasceu em 1945, na cidade de São Paulo/SP,  e faleceu em 2021, na cidade de Santos/SP, aos 76 anos, vítima de um aneurisma. Viveu temporariamente em Araraquara (SP) no início dos anos 1960. Décadas mais tarde, radicou-se definitivamente em Santos, no litoral paulista, onde viveu com sua esposa, a também célebre poetisa e trovadora Carolina Ramos. Teve uma sólida carreira na comunicação brasileira. Na década de 1970, começou na TV Tupi, integrando o grupo responsável por adaptar grandes obras literárias para o formato de telenovelas. Entre 1978 e 1980, atuou como produtor e diretor de jornalismo focado em arte, cultura e lazer na TV Gazeta. Ao longo da vida, também colaborou com a imprensa escrita em periódicos como o semanário A Cidade e editou a prestigiada revista cultural Santos Arte e Cultura.
Embora tenha atuado como biógrafo, prosador e poeta de versos livres, deixou-se cativar pela trova. Mesmo definindo-se como um concorrente bissexto nos certames, acumulou diversas premiações de prestígio em concursos nacionais. Entre suas trovas vitoriosas, destacam-se o prêmio conquistado nos tradicionais Jogos Florais de Taubaté (SP) em 2008, e outras honrarias em certames do Rio Grande do Sul e de Maranguape (CE) no mesmo ano. Sua produção encontra-se amplamente espalhada em antologias nacionais da UBT e coletâneas temáticas de Jogos Florais. Livros publicados: Revolução na Paulicéia (Semana da arte moderna); Santos Dumont, domador do espaço; Era uma vez… (coletânea de contos); Retalhos da Imprensa; Retrovisor.
Ajudou a estruturar e a popularizar as bases do Movimento Trovadoresco Nacional no estado de São Paulo, dando palco e infraestrutura para que centenas de novos poetas surgissem. Ele demonstrou maestria tanto no lirismo romântico tradicional quanto nas chamadas "trovas humorísticas/humor", mostrando que as regras rígidas de métrica da língua portuguesa poderiam caminhar juntas com a leveza e a crônica do cotidiano brasileiro. Seu legado é tão respeitado que, após seu falecimento, foi instituído em sua homenagem o concurso poético nacional Memorial Cláudio de Cápua.

Fontes:
Revista Santos Arte e Cultura
Cláudio de Cápua. Retalhos de Imprensa. São Paulo: EditorAção, 2020.
http://www.de-capua.com/publicacoes.html (desativado)
Carolina Ramos (coord. e redação) A Trova: Raízes e florescimento - UBT. Santos: 3D Estúdio Editoração Gráfica, 2013.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Cantinho do Frata (A primeira professora)

   Depois de tempos, visitei a escola que me ajudou a crescer. Seus muros altos, o portão soberbo e a fachada precisando de tinta nova, deram-me vontade de começar tudo de novo. 
  Parado na esquina sob uma sombra, por momentos ouvi gritos, algazarras, enquanto um nó apertava-me a gravata. 
Era domingo e foi somente impressão. Não dei às pessoas que estavam comigo qualquer razão para se importarem, mas meus olhos se umedeceram. A saudade que entrava neles e ficava ali a mexer para em seguida, caminhar em gotas até o nariz e a garganta. Sabia que a saudade se veste de lágrima?
Nada que um pigarrear e uma passada de lenço não resolvesse. E resolveu. Para mim, contudo, transformou-se numa vontade enorme de voltar ao pátio, invadir os corredores com passos curtos, rever as salas, apagar a lousa e de falar — muito — com a primeira professora, pedindo-lhe a bênção. 
Desculpas pelas diabruras, birras, garranchos, malquereres e palavrões e, mais que isso, por sua dedicação não só a mim, mas por igual aos meus colegas. E, feito isso, pedir-lhe desculpas por ter crescido e a abandonado sem lhe ter dito ao menos uma vez, obrigado! Pela preocupação com nossos piolhos catados à unha, os bichos-de-pé retirados com agulhas fininhas. 
Então, mesmo tardio, obrigado, mestra, por tudo o que fez ao pegar em minha mão para ajustar as letras nas linhas, e com elas me dar um Norte. Obrigado especialmente por ter sempre no semblante um rosto de mãe, enquanto alicerçava meu amanhã.
Algo em mim, porém, naquele momento que assim pensava, fez-me distanciar do grupo a fim de me compenetrar, e nessa conversa rápida com o íntimo, a consciência fez um ato de contrição. 
O tempo de reconhecer erros chegara e agora, que eu cumprisse o que o coração pedia. 
Então perguntei por ela, mas ganhei olhares furtivos e interrogativos. Os mais novos não a conheciam e os mais velhos, preocupados com as próprias vidas, não se lembravam, até que um deles, botando o dedo na testa a apontar para a lembrança, expressou entusiasmo: 
"Sim, me lembro, claro. Também foi minha professora. Aposentou-se, enviuvou e foi morar com o filho.”
A emoção não se desfez, nem o sentimento de débito eternizado enquanto não puder substituí-lo por uma conversa franca e um abraço de agradecimento. 
Mas, enquanto isso não acontece, registro a boa lembrança que ela deixou em mim ao me ensinar o B-A-BÁ. 
É como uma placa de ouro que não derrete e nem se perde diante da alegria e da tristeza que a vida produz.
A todas as professoras, o sincero e reconhecido respeito.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Estante de Livros (“São Bernardo”, de Graciliano Ramos)

1. CONTEXTO DA OBRA

Publicado em 1934, São Bernardo é o segundo romance de Graciliano Ramos e insere-se na segunda fase do Modernismo brasileiro, período marcado por forte engajamento social e preocupação com a realidade nacional. O contexto histórico coincide com a Revolução de 1930, a ascensão de Getúlio Vargas e a transição do poder coronelista para formas capitalistas de dominação no campo. A obra reflete as tensões da modernização que chegava ao sertão nordestino, misturando progresso econômico com velhas estruturas de poder e violência.

2. ESTRUTURA E NARRATIVA

Narrador-protagonista em primeira pessoa: 
Paulo Honório conta a própria história, o que cria uma ironia dramática poderosa: ele tenta justificar-se, mas é o próprio relato que revela sua falência moral.

Estrutura fragmentada: 
A narrativa não segue ordem cronológica rígida; avança em blocos de memória, com interrupções, correções e comentários sobre o próprio ato de escrever — o que aprofunda o caráter introspectivo e revela as contradições do personagem.

Metalinguagem: 
No início, Paulo Honório planeja a escrita como uma empresa, dividindo tarefas entre especialistas (Padre Silvestre, João Nogueira, Gondim…), mas acaba escrevendo sozinho — metáfora de que a vida não pode ser administrada racionalmente como um negócio.

Estilo: 
Seco, conciso, sem adornos. A linguagem espelha a mentalidade utilitária do narrador; a economia verbal contrasta com a intensidade do que é silenciado — afeto, dúvida, solidão.

3. ENREDO E PERSONAGENS PRINCIPAIS

Paulo Honório
Órfão e pobre, trabalhou na fazenda São Bernardo quando criança. Preso por homicídio, aprendeu a ler e escrever na cadeia. Ao sair, enriquece como comerciante e agiota, endivida e arruína Luís Padilha, o dono da fazenda, e adquire as terras. Casa-se com Madalena, mulher mais jovem e culta. Torna-se um fazendeiro próspero, mas destrói a própria felicidade por ciúme, autoritarismo e incapacidade de amar. Madalena suicida-se; ele fica rico, poderoso e profundamente solitário.

Madalena
Esposa de Paulo Honório. Representa a liberdade, a consciência e a alteridade — aquilo que o marido não consegue compreender nem controlar. Culta, questionadora, não se submete ao papel de posse. É alvo de ciúmes infundados; sua independência é interpretada como ameaça e traição. O suicídio é a resposta final à impossibilidade de conviver com um sistema que tudo reduz a propriedade.

Luís Padilha
Antigo dono da fazenda, símbolo da decadência do poder tradicional, vítima da astúcia de Paulo Honório.

Casimiro Lopes
Capataz fiel, cumpre ordens sem questionar — extensão da violência do patrão.

Padre Silvestre, Gondim
Intelectuais locais que participam do projeto de escrita, representando diferentes visões sobre mundo e linguagem.

4. TEMAS CENTRAIS

Ascensão e falência do capitalismo no campo
Paulo Honório é o novo homem do sertão: não herda poder, compra-o. É eficiente, transforma a terra, mas humanamente empobrece. A prosperidade de São Bernardo sustenta-se na exploração de trabalhadores e na destruição de quem está ao redor. A obra mostra que a modernização capitalista não apaga a violência do coronelismo — renova-a com outras ferramentas.

Poder, posse e autoritarismo
Para Paulo Honório, tudo é propriedade: terras, gado, pessoas, inclusive a esposa. Madalena é “sua” e, portanto, deve obedecer. Quando demonstra ter vontade própria, ele sente-se roubado. A relação conjugal espelha a relação de dominação na sociedade: o patriarca manda em casa e no campo; diferença de pensamento é vista como rebelião.

Incapacidade de afeto e solidão
O núcleo trágico do livro: Paulo Honório consegue tudo o que quer — menos o que realmente precisa. Dinheiro e terras não preenchem o vazio. Quanto mais controla, mais afasta Madalena; ao final, vence todas as disputas e perde a única pessoa que poderia salvá-lo. A narrativa tardia, escrita depois da tragédia, é tentativa de compreender o que aconteceu — e de reconhecer, ainda que parcialmente, a própria culpa.

Linguagem e consciência
Paulo Honório começa acreditando que as palavras servem apenas para ordenar e mandar. Ao escrever, descobre que a linguagem também revela o que se tenta esconder. A forma como narra expõe suas contradições: a máscara de vencedor vai rachando a cada página. Madalena é quem fala diferente, questiona — e é por isso que incomoda: traz a palavra que não se deixa dominar.

Gênero e subordinação
O confronto entre Paulo Honório e Madalena é também choque de mundos: ele vive a lógica patriarcal de propriedade; ela reivindica autonomia e pensamento próprio. A obra denuncia a assimetria de poder entre homens e mulheres, estruturante da sociedade rural e da cultura brasileira em geral.

5. VISÃO CRÍTICA E SIGNIFICADO

“São Bernardo não é apenas um romance regional: é uma investigação sobre a natureza do poder em todas as suas formas — econômica, política, conjugal, psicológica.”

- Antonio Candido apontou que a obra funde análise social e profundidade psicológica: o destino de Paulo Honório é o destino de uma sociedade que mede tudo por aquisição.
- A figura de Paulo Honório transcende o Nordeste, é o empreendedor que devora o meio em que vive, o indivíduo que confunde sucesso com dominação. Sua tragédia é coletiva: mostra que o progresso construído sobre a exploração traz ruína para todos.
- Madalena não é apenas vítima, é a consciência crítica dentro do sistema — quem vê as falhas e recua. Sua morte não é derrota pessoal; é acusação silenciosa contra um mundo que não consegue conviver com a liberdade.
- A obra permanece atual: o mito do “homem que faz a si mesmo”, a crença de que dinheiro resolve tudo, a dificuldade de ouvir quem pensa diferente — questões que São Bernardo expõe com crueldade e clareza implacáveis.

6. CONCLUSÃO

São Bernardo é um romance sobre ilusão e despertar tardio. Paulo Honório passa a vida a conquistar, sem perceber que o preço de cada aquisição é uma parte de si mesmo. No fim, a fazenda é próspera, o nome é temido — mas a casa está vazia e o silêncio pesa mais que todas as palavras que escreveu. Graciliano Ramos constrói uma obra de rara economia e força: cada frase pesa; cada silêncio grita. É uma leitura essencial para compreender o Brasil — suas estruturas de poder, suas contradições morais e o preço que se paga quando se confunde ter com ser.

7. RESUMO

O romance é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que decide escrever a própria história após a morte da esposa, Madalena. Inicialmente, planeja dividir a tarefa com pessoas letradas (Padre Silvestre, Gondim, João Nogueira), mas acaba escrevendo sozinho. A narrativa não segue ordem cronológica rígida: avança por blocos de memória, com correções e interrupções, revelando as contradições do protagonista.

Origem e Ascensão
Paulo Honório é órfão, criado na miséria. Trabalhou na fazenda São Bernardo quando menino e desde então desejou possuí-la. Jovem, esfaqueia um homem e fica preso quase quatro anos; na cadeia, aprende a ler e escrever. Ao sair, trabalha de tudo, empresta dinheiro a juros e usa meios ásperos para enriquecer. Fingindo amizade e dando maus conselhos, endivida e arruína Luís Padilha, o herdeiro da fazenda, até conseguir comprar São Bernardo. Torna-se fazendeiro próspero e influente, recorrendo a violência e corrupção para consolidar poder.

Casamento e Conflito
Para ter um herdeiro, casa-se com Madalena, professora culta e de hábitos urbanos. Inicialmente, a aproximação acontece por ele instalar uma escola na propriedade. O casamento traz um filho, mas a convivência desmorona: Paulo Honório trata tudo e todos como propriedade, inclusive a esposa. Madalena não aceita ser dominada, pensa por si mesma e tenta humanizar as relações na fazenda — o que ele interpreta como ameaça e traição. Os ciúmes doentios crescem, especialmente em relação a Luís Padilha, agora professor na escola local. Ele cerceia os movimentos de Madalena, vigia, acusa e sufoca qualquer autonomia.

Desfecho
Após suportar humilhação e isolamento, Madalena suicida-se. Paulo Honório fica com tudo: terras, riqueza, prestígio e o filho — mas perde a única pessoa que poderia preencher seu vazio. A fazenda prospera, mas ele vive imerso na solidão e na dúvida. Escrever a história é tentativa tardia de compreender o que aconteceu e reconhecer, ainda que parcialmente, a própria culpa. No fim, percebe que conquistou o mundo exterior, mas perdeu a capacidade de amar e ser amado.

Mensagem:
A obra mostra que o sucesso baseado apenas em aquisição e dominação traz ruína interior. Paulo Honório confunde ter com ser, poder com felicidade. A tragédia é pessoal e coletiva: revela as estruturas de poder e violência que marcam o campo brasileiro, renovadas sob lógica capitalista.