segunda-feira, 23 de março de 2026

Asas da Poesia * 166 *


Poema de
MAURO MOTA
Mauro Ramos da Mota e Albuquerque
Nazaré da Mata/PE (1911-1984) Recife/PE
 
    Chuva de vento

    De que distância
    chega essa chuva
    de asas, tangida
    pela ventania?

    Vem de que tempo?
    Noturna agora
    a chuva morta
    bate na porta.

    (As biqueiras da infância, as lavadeiras
    correm, tiram as roupas do varal,
    relinchos do cavalo na campina,
    tangerinas e banhos no quintal,
    potes gorgolejando, tanajuras,
    os gansos, a lagoa, o milharal.)

    De onde vem essa
    chuva trazida
    na ventania?

    Que rosas fez abrir?
    Que cabelos molhou?

    Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Quero fugir com as flores

Ao passar pelo jardim, que as flores me acompanhasse
Que todas elas sorrissem e que juntas fugissem comigo
Fizessem em volta de mim uma roda, que eu a olhasse
No fundo da pétala onde o perfume se deita em abrigo!

Que todas as flores dançassem ao vento ao meu redor
Que exalassem por toda minha alma a sua fragrância
Fizessem com que eu degustasse um toque de amor
E deliciar-me nesse momento de abissal importância!

Que as flores fujam comigo, quero fugir com as flores
E as borboletas não ficam fora da minha imaginação
E essa imagem está tatuada em cores no meu coração.

Quero flores; do jardim do lado e do jardim da frente
Quero as flores da alma dos seres em nuança de amor
Quero fugir com as flores no outono, inverno e calor!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CASIMIRO DE BRITO
Casimiro Cavaco Correia de Brito
Loulé/Portugal, 1928 – 2024, Braga/Portugal

    O nascimento

    Nasces no instante em que tomo
    consciência de estar só

    Nasces no deserto das minhas mãos
    no espaço que separa as coisas
    umas das outras nasces renasces
    no mar que se visita ó sabor do sol
    de olhos abertos

    Nasces no instante em que tomo
    nas mãos o peso da morte o peso
    deste pobre movimento que nos vem
    do centro da terra ó vinho ó repouso
    Infinito
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Se onde se mata um homem,
por uma cruz é preceito,
tu deves trazer, Maria,
um cemitério no peito.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
ANDERSON C. D. DE OLIVEIRA
Anderson Carmona Domingues de Oliveira
São Paulo/SP

Casa...

Aluguei uma casa,
O fogo em brasa,
Por timbres atalaia,
A essência arraia.

O coração geme,
A Deus tudo teme,
Um bom sentimento,
Aprendi o mandamento.

Chove pela tempestade,
Creio ser uma verdade,
Pelo coração contexto.

Um grande arvoredo,
O rochedo do texto,
Foi quando senti medo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Deus abençoa o artista
que invista no sentimento.
Quem faz parte desta lista,
transforma dons em talento.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
SONIA RÉGIS
Florianópolis/SC

Um cais chamado saudade

havia um porto
antes
ao alcance da vista

um ponto
onde as naus
suspendiam viagem

as velas arfavam
desenfurnadas
e sonhavam

a lua sobre o mar
era um sabre
aparando a água

havia um porto
antes
ao alcance do corpo

(um ponto
onde hoje atraco a saudade
e mais nada)
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

"0 que faz dentro do armário ?!"
Nu, no aperto, ele se poupa:
- "tem traças!... e o esposo otário:
- "Xi !!! comeram sua roupa!?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
GUILHERME BAPTISTA FADDA
Rio de Janeiro/RJ

A cigana

Olhou meus olhos, segurou minha mão,
por instante baixou a cabeça e murmurou,:
"sozinho está seu coração",
mas parece-me que um novo amor encontrou.

Intrigado com aquela ponderação
afinal, nunca ninguém me falou
a respeito de amor, de paixão,
nem sei como isso começou.

Era uma cigana graciosa e inteligente,
por coincidência, encontrou-me
e mexeu com meu coração...de repente.

Hoje, vivo num acampamento com ela
ouvindo o trinar de seu violão
debruçado numa tosca e improvisada janela.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Torna-se longo o momento
da mais breve despedida,
se atormenta o pensamento
no decorrer de uma vida.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
MARI ANE ARAÚJO
João Pessoa/PB

O sentir do coração 

Relembro com saudade 
tremendo de emoções, 
ausente coração sente.

No amor, quero: Plenitude absoluta;
Versos lindos, caprichados de amor
pra minha alma dançar suavemente 
Corpos colados, numa só proporção
queira-me como sua dama presente!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
SÁ DE FREITAS
Samuel Freitas de Oliveira
Avaré/SP

Nos braços da saudade

Olhando pelas frestas dos meus dias,
Que já se foram pela vida afora,
Apenas vejo a luz daquela aurora
Da juventude, em sombras fugidias.

E hoje ao enfrentar as noites frias,
Neste vazio em que minh' alma chora,
Busco momentos que já foram embora,
Mergulhando a memória em fantasias.

Ah! Tempo que se foi! Por que deixaste
Essas recordações? Por que guardaste
Tantas coisas da minha mocidade?

Resta-me agora, após tantas andanças,
Adormecer no leito das lembranças
E acordar nos braços da saudade.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
RENATO ALVES
Rio de Janeiro/RJ

Quando a feia se “embeleza”,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa que sou mágico!…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
ROBERVAL PEREYR
Feira de Santana/BA

Galope

 Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Convido-os a partilhar 
uma gostosa jantinha: 
massa com frutos do mar, 
ou seja, pão com sardinha...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Nemésio Prata Crisóstomo
Fortaleza/CE

Mote 
A cadeira sem balanço, 
a rede em triste orfandade... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra embala a saudade. 
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Glosa 
A cadeira sem balanço 
com sua perna partida, 
já não pode dar remanso 
a quem lhe pede guarida! 

Hoje, presa aos armadores, 
a rede em triste orfandade, 
cumpre sua pena, em dores; 
numa cadeia sem grade! 

A cigarra, no bem manso, 
a formiga, na migalha... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra, duro, trabalha. 

A mocinha, no frescor, 
a velhota, já de idade... 
Uma a procura do amor, 
a outra embala a saudade.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
CAMPINA DA LAGOA/ PR

Oh, Campina da Lagoa, teu progresso é real,
O teu nome longe soa em território nacional.
És menina e formosa que inspira confiança
Em teu futuro colocamos toda nossa esperança

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.

Tua gente hospitaleira vem mostrando seu valor,
Nesta terra brasileira todos cultivando amor
És a terra prometida deste povo varonil,
Trabalhando em ordem unida construindo o nosso Brasil

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
HENRIQUETA LISBOA
Lambari/MG (1901-1985) Belo Horizonte/MG

Os lírios

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranquila.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A panela de ferro e a panela de barro

A panela de ferro, um certo dia,
Ao sair do esfregão da cozinheira
Mui fresca e luzidia,
Disse à de barro, sua companheira:

«Vamos dar um passeio,
Fazer uma viagem de recreio.
— Iria com prazer, disse a de barro;
Mas sou tão delicada,
Que se acaso num seixo ou tronco esbarro,
Lá fico esmigalhada!

Acho mais acertado aqui ficar,
Ao cantinho do lar.
Tu sim, que vais segura:
A pele tens mais dura.

— Se é só por isso, podes ir comigo;
É medo exagerado o teu — contudo,
Se houver qualquer perigo,
Serei o teu escudo».

A tal dedicação, a tal carinho
Não pôde a companheira replicar,
E as duas a caminho
Lá vão nos seus três pés a manquejar.

Mas, ai! não tinham dado quatro passos,
Numa vereda estreita,
Eis que se tocam — e a de barro é feita,
Coitada, em mil pedaços!

Para sócio não busques o mais forte,
Que te arriscas de certo à mesma sorte.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Mensagem na Garrafa 162 = Trovador solitário


AUTOR: GLAUBER ROGERIS

Há muito tempo atrás em um reino distante havia um trovador, que recitava seus versos pelo ar enchendo de amor os corações apaixonados.

Neste mesmo reino havia uma princesa que todos os dias aparecia na torre do castelo para ouvir seus lindos versos, ela parava e observava cada frase, e ele muito empolgado se enchia ainda mais de amor para criar seus versos.

Um dia a audácia tomou conta do trovador e ele começou a conversar com a princesa e recitar seus versos somente para ela. Ele não cabia dentro de si de tanta felicidade, e ela sempre retribuindo com o brilho de seus olhos e a brancura de seus sorriso. 

Portanto, continuando nessa leva, eles se apaixonaram.

Mas como toda história de reinos, castelos, e princesas, tinha que ter uma força maligna, para que o bem pudesse combater. Um bruxo que ao ver o amor da princesa e do trovador, se encheu de inveja e se aproximou do trovador e disse:

- Olá trovador, como vai?

- Vou bem, respondeu o trovador.

- Vejo que você esta muito apaixonado pela princesa, não é?

- Sim, a amo com todas as forças de meu coração.

- Mas sabe que ela tem um outro amor? Alguém por quem o coração dela bate mais forte?

- O que?

- É, trovador, um cavaleiro das terras altas, todos sabem disso, você não?

- Não, não pode ser verdade, mas o carinho, o beijo, os olhos, as palavras dela… não pode ser verdade.

- É, trovador, as coisas não são o que parecem ser, e ela sempre brincou com você, até te esnobou dizendo que era feio e pegajoso. Me desculpe, amigo, mas esse amor é impossível.

Inconformado com aquela noticia, o trovador, saiu chorando daquele lugar e decidiu tirar satisfações com princesa, como pode alguém brincar assim com o sentimento dos outros?

Caminhou até o castelo e não a encontrou, achou melhor deixar um bilhete. Pobre trovador deixou o ódio tomar conta de seu ser e começou a escrever as palavras mais duras, coisas que nunca tinha dito nem ao seu pior inimigo. Naquele momento o trovador não estava apenas machucando a princesa, ele estava machucando a si mesmo.

Saiu do castelo e pôs-se a andar sem rumo como todo trovador, até que em dado momento ele se arrependeu, deveria ter perguntado sobre a infâmia antes de condenar quem ele tanto amava. Logo voltou, mas ao chegar no castelo a surpresa foi desagradável do mesmo modo que no momento da falsa notícia o seu coração ficou ferido, o da princesa também ficou ferido, ao ler aquele bilhete, como pode um coelho se transformar em um dragão cheio de ódio?

Ele procurou o perdão dela durante anos, ela até que o perdoou, mas os laços de amor que os unia nunca se reataram.

Em um certo dia, numa linda festa da corte, eles se viram, ele sozinho, ela com outro, ter aquela visão era como ter uma espada traspassando seu coração, o feriu profundamente. 

Daquele dia em diante teve a certeza de tê-la perdido.

O nosso Trovador, agora recebia um sobrenome o de solitário, sim agora ele era o Trovador Solitário, de poemas tristes e rimas vazias, já que a sua fonte de inspiração havia secado.

Bem, essa não é uma história como vemos cotidianamente, não teve final feliz, mas tem um grande fundo moral que nos ajuda a crescer, o de não julgar as pessoas sem antes consultá-las.

E para surpresa de todos, isso não é um conto, mas sim alguns dias vividos em minha vida, adaptados nesse grande conto.

Para minha princesa e eterno amor, volte pra mim e me tire o sobrenome de solitário.

Aparecido Raimundo de Souza (Estar sozinho, como estou agora...)


DESCOBRI QUE estar sozinho, como estou agora, não significa estar incompleto. É, a bem da verdade, uma oportunidade única de perceber que a companhia mais constante que temos é a nossa própria. Quando a solidão é bem vivida, ela deixa de ser ausência e se torna presença, ou seja, a presença de nós mesmo em dose dupla. Nesse momento, meu relógio de pulso marca seis horas da tarde e a cidade lá embaixo, começa a se encher de vozes, buzinas e passos apressados. Mas dentro do meu quarto, há apenas o silêncio. Um silencio que só eu tenho o privilégio de ouvir.

É, confesso, um silencio pesado, denso, quase visceral. Estar sozinho é como abrir uma janela para dentro do nada, ou de nossa solidão e perceber, que não há distrações, não há plateia, apenas o eco dos próprios pensamentos se embaralhando num vendaval incontrolável. No início, a solidão pesa. Pesa muito. Machuca. Tira do sério. Dá medo. O vazio que fica, parece gritar mais alto do que qualquer multidão. Todavia, aos poucos, ela se revela como uma companhia discreta, quase tímida. É nesse espaço que surgem lembranças, ideias e até pequenas descobertas, tipo como perceber que o som da própria respiração pode ser tão reconfortante quanto uma conversa, ainda que fora de esquadro. 

Sozinho, o mundo se torna mais lento. Mais tímido.  O café demora a esfriar, o livro que leio repousa aberto na mesa, e o tempo, o meu tempo parece se esticar numa sonolência impactante. É nesse intervalo que a gente aprende que estar sozinho é estar consigo mesmo, sem máscaras, sem pressa, sem pressão de quem quer que seja. A solidão, quando bem vivida, não é ausência: é presença. Presença de si, presença do que se sente, presença do que se é. E talvez seja esse o grande segredo: compreender que estar sozinho não significa estar incompleto, vazio, oco, sem nada, mas estar inteiro. 

Inteiro, sem estar dentro de mim, ou de alguma coisa que queremos muito, mas dentro de uma solidão amena, pacata, calma, tranquila, que não diz nada, apenas mostra o nosso lado avesso da coisa. O lado contrário que nunca demos importância. Seguir, pois, sozinho é como caminhar por uma rua longa e deserta ao entardecer de um dia completamente vazio. As casas estão ali, as pessoas, os carros, as luzes acesas, mas nenhuma porta se abre. O silêncio se torna companheiro, e cada passo ecoa como se lembrasse que não há ninguém ao lado. 

Não ter com quem conversar é sentir que as palavras se acumulam dentro da boca, esperando um ouvido para ouvir seu lamento, mas um ouvido que nunca chega. É olhar para o telefone e perceber que não há para quem ligar. É viver sem eira nem beira, como se o mundo tivesse se afastado alguns metros, deixando a nossa figura abobalhada à margem de um vazio que sempre esteve ali, mas nunca o percebemos. A solidão, nesse sentido, não é escolha: é ausência. Ausência de vozes, de risadas, de mãos que seguram. 

É um labirinto enorme, grandioso, sem saída, onde cada esquina leva ao mesmo vazio de sempre. Mas, paradoxalmente, é nesse vazio desconexo e abrupto, que se descobre a própria resistência. Seguir sozinho é também aprender a se ouvir, a se sustentar, a se reinventar. É doloroso, sim, muito, às vezes penoso, mas pode ser também a prova de que, mesmo sem ninguém, ainda se pode caminhar. Estar sozinho como agora estou é um tema profundo, que pode ser visto de diferentes formas. A solidão pode ser um espaço de silêncio e reflexão, onde a pessoa se reconecta consigo mesma, que do nada descobre seus próprios limites e fortalece a sua identidade. 

Do mesmo modo, pode trazer sentimentos de um vazio imenso e isolamento, especialmente quando não é uma escolha, mas uma circunstância imposta. Aprendi, a duras penas, que o tempo sozinho, melhor dito, o meu tempo permite olhar para dentro, entender desejos e medos, e desenvolver autonomia. Acredito que muitos, muitos escritores e pensadores encontram inspiração na solitude, transformando o silêncio em produção criativa.  A solidão também pode ser dolorosa, infame, triste, melancólica, tipo assim, como um desafio emocional, despertando inseguranças e a necessidade de pertencimento. 

Resumindo o que acima acabei de escrever, tudo o que eu disse nessa crônica, aprendi a estar sozinho sem me sentir solitário. Isso, a bem da verdade, é um exercício constante de maturidade emocional. Nessa maturidade emocional, você vai ou racha. Eu fui, pode ser que daqui a pouco eu rache de vez e me acabe. Talvez eu rache e me veja em outra dimensão, como se fosse um espírito vagando ao Deus dará, ou no pior dos mundos, um fantasma tresloucado, assustando a mim mesmo dentro de uma teoria que nunca consegui explicar o verdadeiro sentido.
=========================================
Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Folclore do Uruguai (Abuelo Ñandú)


"Abuelo Ñandú" é uma figura central no folclore uruguaio, com raízes na cosmovisão charrúa e guarani, representando laços entre a terra, os ancestrais e o cosmos.

A LENDA
 
Há variações regionais, mas a narrativa principal conta que Abuelo Ñandú era um gigante sábio e poderoso que vivia inicialmente na Terra, protegendo os povos indígenas. Ele possuía uma grande sabedoria sobre as estações, as plantas e os caminhos da vida.
 
Segundo a tradição charrúa, quando os primeiros europeus começaram a chegar às terras uruguaias, Abuelo Ñandú previu os desafios e conflitos que viriam para seu povo. 

Cansado das lutas e querendo garantir que sua sabedoria permanecesse com os homens, ele decidiu retirar-se para o céu. Ao subir, suas pegadas deixaram marcas no firmamento — as Três Marias (estrela de Orion) seriam a marca de seu pé gigante. Desde então, ele vive no céu como um guardião, observando os descendentes e comunicando-se através dos sinais do céu, como as mudanças nas estrelas ou nas nuvens, para prevenir ou aconselhar em momentos de necessidade.
 
Em algumas versões guarani, há uma ligação com Ñamandú, a entidade cosmogônica suprema que representa o "princípio primordial" e o criador do universo, reforçando a ideia de origem e proteção divina.
 
SIMBOLOGIA
 
Sabedoria Ancestral: 
O título "Abuelo" (avô) destaca o papel de guardião do conhecimento transmitido pelas gerações, simbolizando a acumulação de sabedoria sobre a natureza, a história e os valores do povo uruguaio.

Ligação entre Terra e Céu: 
Ao ascender para o firmamento e deixar marcas nas estrelas, Abuelo Ñandú representa a conexão entre o mundo terreno e o espiritual, sendo um elo entre os vivos e os ancestrais.

Proteção e Prevenção: 
Sua capacidade de prever eventos e guiar seu povo simboliza a importância da antecipação e da prudência, além de representar a força da cultura indígena que resiste ao tempo.

Identidade Cultural: 
É um símbolo da herança indígena no Uruguai, lembrando a origem dos povos que habitaram a terra antes da colonização e mantendo viva a memória dos charrúas e guaranis.

HOMENAGEM

O Abuelo Ñandú (ou ñandú em geral) é uma figura central no folclore e na identidade cultural do Uruguai, especialmente ligado à tradição gaúcha e aos povos originários. Embora não tenha uma festa de "homenagem exclusiva", sua presença é celebrada de diversas formas.

O Ñandú é protagonista de diversas lendas nativas, como "La profecía del abuelo ñandú" e "La leyenda del ñandú", que exaltam sua inteligência e liberdade, frequentemente narradas em contextos culturais.

Em celebrações como a Fiesta de la Patria Gaucha em Tacuarembó, a cultura do campo é reverenciada, e o ñandú é valorizado como uma ave nativa e típica das pradarias uruguaias, muitas vezes presente em relatos e músicas folclóricas.

A figura da ave ("el ñandú bate suas asas guiando nossos cantares") é integrada em músicas que celebram o folclore uruguaio, simbolizando a natureza e os pontos cardeais.

É considerado um símbolo da biodiversidade do Uruguai, sendo avistado e respeitado em áreas naturais como a Quebrada de los Cuervos.

Referências
Dola IA (2026)
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 22 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 3. A Procura da Felicidade

 Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites


"Salaam’Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus diletos ouvintes. Vejo que a chama da curiosidade ainda brilha em vossos olhos! Pois bem, ajustem seus turbantes e prestem atenção, pois esta história é um bálsamo para as almas inquietas. Eu sou Mustafá, o peregrino, e lhes contarei sobre o Sultão que possuía tudo, menos o que realmente importa.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos no palácio da reflexão.

Havia outrora, na magnífica cidade de Damasco, um Sultão chamado Harun, cujas riquezas eram tão vastas que seus tesoureiros perdiam o fôlego apenas tentando contá-las. Seus jardins tinham fontes de água de rosas e suas mesas transbordavam com as iguarias mais raras de "Al-Mashriq" (O Oriente). No entanto, Harun vivia com o semblante fechado. Nada lhe dava prazer. 

"Ya Allah" (Ó Deus), suspirava ele, "tenho o mundo aos meus pés e, ainda assim, meu coração é um deserto seco."

Sentindo-se definhar, o Sultão convocou os sábios mais renomados. Após muitos debates, um velho "Hakim" (médico/sábio) aproximou-se e disse: 

"Majestade, o vosso mal tem cura. Deveis encontrar um homem verdadeiramente feliz, pedir-lhe a camisa e vesti-la por uma noite. A felicidade dele passará para vós através do tecido."

O Sultão, esperançoso, enviou seus mensageiros por todos os cantos. 

"Shukran" (Obrigado), diziam eles ao interrogar os mercadores ricos, mas estes reclamavam dos impostos. Procuraram os generais vitoriosos, mas estes temiam as conspirações. Procuraram os poetas famosos, mas estes sofriam por amores não correspondidos. Ninguém era plenamente feliz.

Certo dia, um dos mensageiros passava por uma colina árida quando ouviu uma risada cristalina e uma canção de louvor que subia aos céus. Era um humilde pastor de cabras, sentado à sombra de uma tamareira.

"Sabah al-Khair" (Bom dia), saudou o mensageiro. "Diga-me, bom homem, você é feliz?"

O pastor sorriu, e sua alegria era como o sol do meio-dia. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), respondeu ele. "Tenho o ar para respirar, o leite das minhas cabras e a paz de quem nada deve a ninguém. Sou o homem mais feliz que caminha sobre a areia!"

O mensageiro, exultante, gritou: 

"Rápido! O Sultão precisa da sua camisa! Daremos a você uma bolsa de ouro em troca!"

O pastor começou a rir ainda mais alto, uma risada que ecoava pelas rochas. Ele abriu seu manto surrado e, para o espanto do mensageiro, por baixo dele não havia nada. O homem mais feliz do reino era tão pobre que sequer possuía uma camisa.

Ao receber a notícia, o Sultão Harun finalmente compreendeu. A felicidade não era algo que se pudesse vestir ou comprar; ela não estava nas sedas, mas na ausência de desejos desnecessários. 

Ele distribuiu parte de sua riqueza aos necessitados e, pela primeira vez em anos, sorriu de verdade.

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós entenderemos que a camisa da felicidade é feita de gratidão, não de fios de ouro. Obrigado por me acompanharem em mais esta jornada. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
* = * = * = * = * = * = * = *
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Dicas de Escrita (A Crônica) – 1


A crônica é um gênero literário que se caracteriza por abordar temas do cotidiano de forma leve e reflexiva. Aqui estão suas principais características:

DEFINIÇÃO

- Gênero Literário: 
A crônica é uma narrativa breve, que pode ser publicada em jornais, revistas ou blogs.

- Estilo Pessoal: 
Geralmente, reflete a voz e a opinião do autor, tornando-se uma extensão de seu olhar sobre o mundo.

CARACTERÍSTICAS

1. Temática Cotidiana:
   - Foca em situações do dia a dia, como hábitos, relações pessoais e eventos sociais.

   - Pode abordar temas universais, mas sempre com um toque pessoal.

2. Subjetividade:
   - O autor expressa suas emoções, opiniões e reflexões, tornando a crônica uma forma de conexão com o leitor.

   - O tom pode variar entre humorístico, crítico, nostálgico ou reflexivo.

3. Estrutura Flexível:
   - Não segue uma estrutura rígida; pode ter uma narrativa linear ou fragmentada.

   - Geralmente, é curta, permitindo uma leitura rápida.

4. Linguagem Acessível:
   - Usa uma linguagem simples e direta, facilitando a compreensão.

   - Pode incluir diálogos e descrições vívidas para enriquecer a narrativa.

5. Elementos Literários:
   - Utiliza recursos como metáforas, ironia e analogias, enriquecendo a narrativa.

   - Muitas vezes, há uma moral ou reflexão no final, mas não é obrigatória.

6. Atualidade:
   - Muitas crônicas abordam eventos recentes ou questões sociais e culturais, mantendo-se relevantes.

Essas características fazem da crônica um gênero muito apreciado, pois combina a leveza da prosa com a profundidade da reflexão.

A estrutura da crônica é flexível, mas geralmente apresenta alguns elementos comuns que ajudam a construir a narrativa. Aqui estão os principais aspectos:

ESTRUTURA DA CRÔNICA

1. Introdução:
   - Apresenta o tema ou a situação central.

   - Pode incluir uma cena inicial cativante ou uma pergunta provocativa para despertar o interesse do leitor.

2. Desenvolvimento:
   - Expande a ideia introduzida, explorando detalhes, reflexões e descrições.

   - O autor pode incluir anedotas, diálogos e observações pessoais, criando uma conexão emocional com o leitor.

3. Conclusão:
   - Finaliza a crônica, muitas vezes com uma reflexão, uma piada ou uma ironia que complementa o que foi discutido.

   - Pode deixar uma mensagem ou moral, mas isso não é uma regra.

ELEMENTOS DA CRÔNICA

Narrador:
  - Geralmente, é a voz do autor, que pode ser em primeira pessoa (subjetiva) ou em terceira pessoa (mais objetiva).

  - A perspectiva do narrador influencia a interpretação do texto.

Tema:
  - Os temas são variados e podem incluir situações cotidianas, questões sociais, memórias, relações humanas, entre outros.

  - A escolha do tema muitas vezes reflete a visão de mundo do autor.

Estilo e Linguagem:
  - A linguagem é acessível e coloquial, permitindo que o leitor se identifique facilmente.

  - O estilo pode variar entre o humorístico, o crítico ou o reflexivo, dependendo da intenção do autor.

Elementos Descritivos:
  - Descrições vívidas e detalhadas ajudam a criar imagens mentais e a envolver o leitor na narrativa.

  - O autor pode usar metáforas e comparações para enriquecer a escrita.

Esses elementos e a estrutura flexível permitem que a crônica seja uma forma única de literatura, capaz de abordar a complexidade da vida cotidiana de maneira leve e instigante.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
continua…
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 

Dola IA, 2026. A crônica.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing