ZEKAN FERNANDES
São Paulo/SP
Fiel espantalho
Ainda guarda a plantação
Depois da colheita.
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG
Tributo a Severino Silveira de Sousa
COMO o orvalho emergindo da aurora,
Quando o sol o dissolve na vegetação,
Espalhando pingos de ouro pelo chão,
Para vicejar a relva nativa e a flora;
Assim se expandem pelo mundo afora,
Quem sempre extrai da alma e coração,
Nobre sentimento e real dedicação:
-Tudo de bom que de seu âmago aflora...
No livro da vida, um soneto perfeito!
Rendo-me, aqui, com todo meu respeito,
Ao colega gaúcho, exímio trovador:
-Poeta Severino Silveira de Sousa!...
Pássaro cantor!... No galho onde pousa,
Com sua lira faz - "caramanchéis de amor!..."
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Trova de
RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013
A mulher do sapateiro
que vive ao som do martelo,
bate sola o ano inteiro,
pondo o esposo no chinelo!
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Soneto de
WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon/Grã-Bretanha, 1564 – 1616
Soneto 2
Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.
Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.
Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,
E provará ter herdado de ti toda a formosura.
Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.
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Haicai de
NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes/PR
Desses livros velhos
eu sei bem a idade deles—
das traças, não sei.
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Soneto de
AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO, 1925– 2002, Rio de Janeiro/RJ+
Sonetos Elementares: XIII
Nada há de mais num túmulo sem flores
perdido numa estrada. Mas em nós
existem solidões, almas que sobram
de um sonho já sepulto ou de silêncios.
Vai comigo o silêncio enquanto fujo
das multidões, das ruas e do amor
que poderia ser – e no silêncio
as tristezas e os risos vão comigo.
Mas que desejo é este que me impele
para as sombras e os ermos, onde, lúcida,
vem sempre me acolher minha presença?
Ontem o rio estava quieto, hoje corre
impetuoso. Eu olho e nada estranho:
muito de mim eu vejo nessas águas.
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Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
"Esta peixada está quente!"
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: "Ó xente,
'se qué', tem pexera fria!”
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Poema de
JOSÉ CRAVEIRINHA
Maputo/Moçambique, 1922 – 2003, Johannesburgo/África do Sul
A nossa casa
Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.
Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitetura retangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.
Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.
Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
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Trova de
MARIA TEREZA NORONHA
São Paulo/SP
O livro, a cerveja ao lado,
o rádio, o abajur antigo...
Eu deixo tudo arrumado,
fingindo que estás comigo.
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Poema de
HENRIQUE ABRANCHES
Lisboa/Portugal, 1932 – 2004, África do Sul
Ao Bater da Chuva
A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces,
a chuva bate o capim molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.
Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.
A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de proteção!
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...
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Aldravia de
EDIR MEIRELLES
Rio de Janeiro/RJ
emocionado
em
silêncio
pela
palavra
apunhalado
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Um Poema de
ANTONIO OLINTO
(Antonio Olyntho Marques da Rocha)
Ubá/MG, 1919 – 2009
Noturno
Os rios da noite passam pelos desvãos do homem,
por todos os pedaços vazios da memória,
pelos olhos secos de tanta sombra.
É uma presença física
de palavras batidas de vida,
de silêncio oscilante da iminência do grito.
As árvores estão sós - o vento é morto
é preciso um avançar exato do gestos
para captar a vida sob as horas imóveis.
Um piano aberto na areia,
diante do mar e das pedras.
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Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP
Muito suor foi preciso,
mas minha audácia venceu:
- finalmente, o chão que eu piso
tem dono... e o dono sou eu!!!
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Poema de
FRANCISCO NEVES MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012
Cruviana* Sertaneja
Ah cruviana...
Descobri-a numa noite da minha adolescência
no alpendre da casa grande de Coroas Limpas
na minha Santana do Matos.
Tremia feito "vara verde"
Não, não era o frio!
Era o medo de não saber se tu cruviana,
Seria uma onça ou uma alma penada.
E pela manhã fui dicionariZar o meu medo...
Beleza!
A grande descoberta!
Chega em tornado,
acordam os trabalhadores das fazendas
e os envia fora para o trabalho. ...
Meu Deus, que alivio!
E o alpendre da velha casa de Coroas Limpas,
ganhava um "dormidor"
para curtir a cruviana
de cada emadrugadecer!
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*Cruviana = É a Deusa do vento, a mulher do alvorecer.
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Trova de
JOSÉ XAVIER BORGES JÚNIOR
São Paulo/SP
Hoje trago na lembrança
uma dor que sobrevive
num fiapo de esperança
pelo amor que nunca tive
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Poema de
DULCE AURIEMO
São Paulo/SP
O Castelinho
Existe um lugar...você vai conhecer
E quando chegar... pode entrar sem bater...
A porta aberta vai sempre encontrar
No alto da torre um sininho a tocar...
No meu coração... bem guardado em mim...
Aonde o amor... não tem fim, não tem fim...
Tem um Castelinho pra gente brincar
Já fiz seu cantinho você vai gostar...
Tem água de coco, pãozinho de mel
Pipoca, paçoca, sorvete e pastel...
Brinquedo, livrinho, fantoche, massinha
Balão colorido... herói de estorinha...
Tem fonte, laguinho, jardim pra correr
Passagem secreta pra gente esconder
Tem ponte, riozinho, patinho a nadar...
Até carruagem... que vai passear...
As sete notinhas eu vou ensinar
E tantas canções vamos juntos cantar...
As sete notinhas eu vou ensinar
E tantas canções vamos juntos cantar...
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Trova de
ORLANDO WOCZIKOSKY
Curitiba/PR, 1927 – 2019
É nobre quem não exalta
vitória já conquistada,
pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
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Poema de
CARMEN LÚCIA HUSSEIN
Taubaté/SP
Apenas
Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
As suas palavras
E boas atitudes
Para eu ser feliz
Ter esperança na vida
E energia para prosseguir
Amenizar a saudade
E dar rumo
E norte ao meu existir
Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
De momentos breves de felicidade
Para eu ser feliz!
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Trova de
AUTOR ANÔNIMO
Já fui alegre e contente,
hoje não sou mais ninguém.
Já fui consolo dos tristes,
hoje sou triste também.
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Poema de
EDGAR ALLAN POE
Boston/EUA, 1809 – 1849, Washington/EUA
Annabel Lee
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
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