Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 25 a 28

25 — OLHEM A HOLANDA
Examinem um mapa dessa pobre Europa desgraçada pela guerra. Estão vendo aquele pequeno país apertado entre a Bélgica, a Alemanha e o Mar do Norte? É a Holanda. Tem apenas 33 000 quilômetros quadrados. É menor que o nosso Estado de Sergipe. Tem pouco mais de oito milhões de habitantes. Era um exemplo de paz e trabalho, o que não impediu que os exércitos de Hitler a invadissem, bombardeando-lhe implacavelmente as cidades e aldeias. Em pouco tempo a bela terra dos moinhos e das tulipas foi dominada pelo invasor. No mundo moderno a Holanda não é o que se chama uma Grande Potência.

Entretanto, no século XVII a situação da Holanda era diferente. Os holandeses eram um povo de marinheiros, de descobridores, de conquistadores, de colonizadores. (A maior conquista que fizeram até hoje foi a da própria terra, que eles arrebataram corajosamente ao mar. Não esqueçam de que a Holanda é um país que fica abaixo do nível do mar.) Com apenas um milhão e quinhentos mil habitantes, era a Neerlândia uma potência naval de primeira ordem. Vivia em guerra com as outras grandes nações da Europa daquele tempo: Espanha, França e Inglaterra.

Na Europa contavam-se maravilhas do Brasil. Era uma terra prodigiosamente rica: dava pedras e madeiras preciosas, dava ouro, dava prata, dava tudo. Ora, os holandeses, que já tinham fundado a Companhia das Índias Orientais, para explorar a Índia, resolveram promover o Brasil à categoria de Índia e criaram a Companhia das Índias Ocidentais.

A Holanda não se achava em guerra com a Espanha? O Brasil não pertencia agora à Coroa espanhola? Aí estava uma boa desculpa...

26 — A PRIMEIRA INVASÃO HOLANDESA
Estávamos no ano de 1624. Eu me encontrava na Bahia, já cansado de alguns anos de vida sem aventuras. De repente ouvi uma gritaria que vinha dos lados da praia. Corri para lá e me aproximei dum grupo que falava alto e apontava para a entrada da enseada. Uns vinte e seis navios viajavam na direção do porto. Traziam bandeiras desconhecidas nos mastros. Era um espetáculo maravilhoso o daquelas velas branquejando entre o mar verde e o céu azul.

Amigos ou inimigos? — era a pergunta que todos faziam.

Em breve ficamos sabendo de tudo. Tratava-se duma armada holandesa — uma frota de 26 naus — com 3000 homens e mais de quinhentas bocas-de-fogo. O governador da Bahia preparou-se para defender a cidade. Os holandeses deram um tiro de salva. Mandaram emissários com uma bandeira de paz. Mas os defensores da cidade responderam à salva com um tiro de verdade.

Começou a batalha. Eu dava pulos, não sabendo que fazer. Estava desarmado. Não conhecia ninguém. Não tive outro remédio senão ficar olhando da praia, bem como um “torcedor” olha uma partida de “pingue-pongue”, voltando a cabeça dum lado para outro, olhando os tiros dos navios para a cidade e da cidade para os navios.

Para resumir: os holandeses venceram, tomaram conta de Salvador. E ainda não tinham morrido os ecos de suas trombetas e de seus gritos de vitória, quando surgiu uma expedição luso-espanhola comandada por D. Fradique de Toledo Osório e acabou a festa dos invasores. Houve luta feroz. Os holandeses foram derrotados e D. Fradique e sua gente entraram festivamente na cidade.

Eu estava revoltado. Fora obrigado a assistir às lutas, por assim dizer, de camarote. Isso era contra o meu temperamento. Oh! Mas eu mal sabia que os holandeses ainda nos iam dar trabalho.

Se eu quisesse contar com minúcias o que foram as nossas guerras contra as duas invasões das gentes de Holanda, teria de escrever quinhentas páginas e ainda ficaria muita coisa por contar.

27 — A SEGUNDA INVASÃO
O Brasil era uma tentação. A Holanda preparou durante o ano de 1629 uma grande frota de 50 navios com o fim de empreender a conquista definitiva do Brasil. (É bom notar que essa grande frota hoje poderia ser içada inteirinha para bordo do transatlântico “Normandie”, sem perturbar em absoluto a vida dos passageiros ou o trabalho da tripulação...)

Dessa vez o alvo dos conquistadores foi Recife, cuja defesa era comandada por Matias de Albuquerque. Em breve chegaram a meus ouvidos os ruídos da batalha. Os patriotas resistiram, mas cinquenta navios, 1100 canhões e 8000 homens treinados na arte da guerra não são brincadeira de criança. Recife e Olinda foram tomados em fevereiro de 1630 e Matias de Albuquerque, com os homens que lhe restavam, fundou uma praça de guerra — o Arraial do Bom Jesus — entre os Rios Beberibe e Capibaribe.

Ora, por esse tempo eu tinha algumas economias. Comprei um burro, montei nele e fui para o Recife. A viagem foi dura O burro morreu no caminho, vítima de uma onça. Mas a onça também ficou estendida na estrada, porque Tibicuera não tinha esquecido suas artimanhas de caçador.

Mais morto que vivo cheguei ao Arraial do Bom Jesus e me apresentei a Matias de Albuquerque. Ganhei um facão, um arcabuz e uma espada.

28 — GUERRA DE EMBOSCADAS
Que podia fazer um grupo de homens mal-armados contra oito mil soldados profissionais? A única esperança nossa estava na guerra de emboscadas. Uma noite fui escolhido para comandar um grupo que saiu na direção do Recife. A escuridão era grande, pois no céu não havia lua e as estrelas
estavam quase apagadas. Caminhavam em silêncio, às vezes nos arrastando como lagartos. À margem do Beberibe encontramos uma patrulha holandesa. Seriam uns vinte soldados. Vinham cantando e falando alto. Como achei estranha e pitoresca a língua deles! Ficamos acocorados atrás de arbustos, esperando.

Quando os inimigos se aproximaram, soltei um berro: “Agora!” Nossos homens se precipitaram. Foi uma luta corpo a corpo. Procurávamos evitar que os inimigos gritassem por socorro. O mais terrível de tudo era o silêncio. Um dos holandeses deitou a correr na direção da cidade. Agarrei-me às pernas dele. Derrubei-o e caí-lhe em cima, dominando-o. Quinze minutos depois, cansados, empoeirados, feridos, voltamos para o arraial. Levávamos arcabuzes, espadas, elmos, couraças e munições frescas.

E assim era a nossa guerra. Os holandeses um dia nos atacaram. Mas Matias de Albuquerque era astuto. Ideou e pôs em prática um plano tão hábil, que, com sua pouca gente posta de tocaia em diversos pontos, conseguiu envolver e vencer os invasores.

A minha maior proeza na guerra contra os holandeses foi a que vou contar agora. Uma noite tive uma ideia maluca Resolvi prender fogo na frota que estava fundeada diante da cidade de Recife.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

João Batista Xavier Oliveira (Trovas Collection) IV


Olivaldo Júnior (Mais 3 Minicontos de Amor)

O MESMO ÔNIBUS

Maria pegava sempre o mesmo ônibus para a escola. Moça, encantara-se pelo motorista da linha. Ele, José, seu criado, mal sabia da existência dela. Era 'o' profissional.

O caso é que, para chamar a atenção do rapaz, Maria passou a se vestir de modo extravagante, só para ver se José reparava nela. Nada, ele era sério demais para encará-la.

Centenas de looks depois (e uma grana gasta em shopping), Maria, sem remédio, ficou de cama uma semana e, ao sarar, de volta à cena, deixou de tomar enfim o mesmo ônibus...

SE ENAMORA

Homem feito, ainda adorava aquele hit da Turma do Balão Mágico, não sei se você conhece, o Se enamora. Não podia ouvir os acordes iniciais da canção, que se emocionava.

Lembrava dos recreios em sua escola, quando comia a merenda e saía correndo para o pega-pega com os amigos da escola. Não pensava em namorar, nem nada. Gostava da vida.

Hoje, do alto de seus mais de trinta anos, olha para trás e quase não vê mais o rosto alegre do menino de outrora. Se enamora ainda é uma utopia. E o balão, não é mais mágico.

UMA ESTRELA NO SUCO


O jovem não sabia que o amor é um céu de chuva que se reveste de sol, só para enganar os mais 'afoitos'. Duas e quinze da tarde, e chovia muito. No shopping, se abrigou.

Já que estava ali, pediu um suco. Quem lhe veio trazer o néctar dos deuses foi justamente sua ex-namorada. Surpresa! Como estava mais bela!... Serviu-lhe o suco e saiu.

Quem disse que o suco lhe descia goela abaixo? Na garganta, o 'Eu ainda te amo' não deixava o suco descer. Quando o tomou, uma estrela pontiaguda desceu junto. Doeu muito.

Fonte: O Autor

Fernando Pessoa (Quadras ao Gosto Popular) II


Teu xale de seda escura
É posto de tal feição
Que alegre se dependura
Dentro do meu coração.

O manjerico comprado
Não é melhor que o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

Rosa verde, rosa verde,...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.

A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.

Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.

Nuvem do céu, que pareces
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!

Vai alta a nuvem que passa.
Vai alto o meu pensamento
Que é escravo da tua graça
Como a nuvem o é do vento.

Ambos à beira do poço
Achamos que é muito fundo.
Deita-se a pedra, e o que eu ouço
É teu olhar, que é meu mundo.

Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: «Não incomodo.»

Dás nós na linha que cose
Para que pare no fim.
Por muito que eu pense e ouse,
Nunca dás nó para mim.

Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.

Tinhas um pente espanhol
No cabelo português,
Mas quando te olhava o sol,
Eras só quem Deus te fez.

Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.

Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pró mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

As ondas que a maré conta
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.

A mantilha de espanhola
Que trazias por trazer
Não te dava um ar de tola
Porque o não podias ter.

O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.

Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.

Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.

Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?

Há grandes sombras na horta
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!

Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.

Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.

Trazes o vestido novo
Como quem sabe o que faz.
Como és bonita entre o povo,
Mesmo ficando para trás!

A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.

O avental, que à gaveta
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?

PESSOA, Fernando, Quadras ao gosto popular, Lisboa, Ática, 1994.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

João Batista Xavier Oliveira (Trovas Collection) III

Fonte: O Trovador

Olivaldo Júnior (Um passarinho só)


Era uma vez um passarinho. Ou seria um poeta? Bem, era uma vez um passarinho. Um passarinho só. Pássaro que, por um breve momento de sua vida, pensou ter achado os seus para estar entre eles com toda a liberdade. Ledo engano!... Assim como disse a poeta Orides Fontela num de seus versos, "muito além é o país do acolhimento". Ora, ora, ele que não esperaria para ver o trem da vida aparecer no tal país, porque não apareceria mesmo.

Sozinho outra vez, passou a voar na Internet, onde não se voa, mas se navega. Transgressor sem dar na vista, ele voava, deixando rastros, migalhas na tela, para, caso quisesse, um dia poder fazer o caminho de volta, indo direto para casa. Mas onde ficava mesmo sua casa? Onde era seu ninho? Não se lembrava mais, ou, melhor ainda, lembrava-se, mas não era mais possível voltar. Era só e, sozinho mesmo, continuaria. E era tão difícil!

Dia após dia, o mesmo aparente pássaro de sempre voava e voava em busca de.. O que é que ele procurava mesmo? Ah! Muitas vezes lhe fugia a ideia daquilo que estava mesmo buscando, à procura, ou querendo, então, nessas horas, cantava, deixando seu canto ir no ar e no mar de intenções da Internet, a fim de, quem sabe, achar outro náufrago que o escutasse e quisesse trocar umas letras com ele. Muitos, embora o ouvissem, não ligavam.

Cansado, com o peso de suas asas de palavras sobre as costas, sentia a lágrima prender-lhe o canto, e não queria mais saber de nada. O céu azul se escurecia, e a negra noite à luz da alma se instalava, sem perdão. Perdão, onde andará seu caro amigo, que gostava de Baden Powell e outros mais, e sumira no ar como fumaça? Não sabia. Estava só. Cansado de canto, de estrelas trazidas à boca e devolvidas à página, onde brilhavam, sozinhas, por ele.

Fonte:  O Autor

Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 21 a 24

21 — UMA AVENTURA VERTIGINOSA
 
O sol brilhava forte e eu já estava cansado da minha posição. Resolvi sair do esconderijo. Preguei sem querer um grande susto no primeiro marinheiro que me apareceu pela frente.

— Cruzes! — gritou ele, levando a mão à espada.

Fiz um gesto de paz e disse:

— Amigo!

Levaram-me à presença do capitão. Disse-lhe meu nome. Falei em Anchieta e no desejo que eu tinha de combater os franceses. Afirmei-lhe que era valente e hábil na guerra. Quiseram experimentar-me.

— Vamos ver se és ágil e forte. Sobe até o topo daquele mastro. Não hesitei. De um salto agarrei-me à primeira corda que vi. Subi por ele até a primeira verga. Depois abracei o mastro grande e, em poucos minutos, estava no cesto da gávea, pregando outro susto no vigia, que quase me jogou para baixo, julgando ver em mim um fantasma de pele bronzeada.

— Muito bem! — disse o capitão quando pisei de novo as tábuas do convés.

Deram-me pequenos serviços a fazer. Passaram-se alguns dias. A expedição parou em diversos portos para receber reforços. Dois meses depois de nossa saída da Bahia avistamos o inimigo. À tarde começamos o ataque. Nem posso descrever o que foi aquele combate. Só me lembro é de que o vermelhão do crepúsculo se confundia com o vermelhão dos fortes franceses incendiados, com o fulgor das explosões e com o relampejar dos canhões e arcabuzes. No princípio julguei que íamos ser vencidos. Mas depois sentimos o inimigo enfraquecer. Só ficou um forte a resistir, duro, vomitando fogo contra nós.

No meio do barulho infernal da luta, berrei ao ouvido do comandante o meu plano. Ele o achou maluco mas me ordenou a pô-lo em prática. Fiz descerem ao mar um bote pequeno. Joguei para dentro dele duas barricas de pólvora. Comecei a remar com fúria rumo da fortificação que ainda resistia. Por cima de minha cabeça zumbiam projéteis. As pobres estrelas da noitinha estavam sem brilho, como num desmaio. A água do mar dava a impressão de chumbo derretido. E eu remava, remava... O suor escorria pelo meu corpo. Consegui aproximar-me do forte sem ser visto. A proa do meu barco tocou a paliçada. Lá dentro ardia uma fogueira. Calculei a posição dela e arremessei uma barrica. Um estrondo. Joguei a segunda. Nova explosão. Os inimigos gritavam e corriam. Era o pânico. Era a derrota.

Só sei que horas depois, com o corpo todo chamuscado, esfolado e dolorido, eu estava deitado na praia.

22 — ESTRELAS E DIAMANTES
Não voltei mais para bordo. O tempo curou minhas feridas, apagou meu cansaço. O mar me deu alimento. Os rios, água fresca e boa. Andei à toa. Atravessei os matos sem medo dos espíritos maus, porque agora eu era cristão e a cruz de Anchieta ia comigo.

Cheguei ao porto de Santos. Contava-se que Mem de Sá mandara Brás Cubas com um grupo de homens explorar o sertão em busca de ouro e pedras preciosas. Eu achei aquilo muito engraçado. De que valia o ouro? De que
valiam as pedras preciosas? O que havia de gostoso era a aventura. Consegui um lugar na expedição. Achamos ouro. Descobrimos belas pedras. E uma noite, quando o acampamento dormia, olhei para o céu e disse para mim mesmo: Não há pedras mais bonitas que as estrelas com que Deus enfeita as suas noites. Essas, Brás Cubas não pega.

23 — TORNO A ENCONTRAR ANCHIETA
Uma das maiores alegrias que senti depois que deixei o bando de Brás Cubas foi no meu segundo encontro com Anchieta. A coisa se passou assim. Os índios tamoios estavam, como eu já disse, reunidos numa confederação muito forte que atacou a Vila de São Paulo, onde se achavam os jesuítas e alguns índios fiéis comandados por Tibiriçá. O primeiro ataque foi repelido. Os tamoios se retiraram a fim de juntar mais gente para uma segunda investida. São Paulo não poderia resistir ao segundo golpe. Então os Padres Anchieta e Nóbrega foram corajosamente procurar o Cacique Coaquira, chefe tamoio, no aldeamento de Iperoig. Ora, eu sempre me julgara corajoso porque enfrentara inimigos armados de tacape, arco e frecha. Mas passei a me considerar miserável quando vi (sim, porque eu vi) aqueles dois homens irem sorrindo e de mãos vazias ao encontro dos ferozes tamoios. Acompanhei-os até Iperoig, segui-os de longe como um cachorrinho que não está certo da aprovação do dono.

Graças a Anchieta e a Nóbrega negociou-se a paz. Nunca mais esqueci aquele dia em Iperoig. Anchieta estava à beira do mar, escrevendo na areia branca um poema à Virgem. Fiquei parado, olhando. O vulto negro do padre se recortava contra o céu sem nuvens. O mar gemia. As ondas vinham lamber os pés do apóstolo. E com a ponta duma vara ele riscava as palavras do poema...

Foi então que Anchieta me explicou o que era poesia, o que vinha a ser uma sextilha, um soneto. Tive desejos ferozes de ser poeta. E nos dias que se seguiram andei riscando na areia coisas absurdas, poemas sem sentido em que o Tupi se misturava com o Português.

Depois da paz de Iperoig tomei parte num grande combate. Os franceses se haviam estabelecido de novo na baía do Rio de Janeiro. (É curioso. A atração dos estrangeiros pela Baía da Guanabara continua forte até hoje. Felizmente eles nos chegam na qualidade de turistas e não de piratas...) O Governador Mem de Sá veio em pessoa combater os invasores. Foi uma batalha muito linda. Imaginem vocês as águas desta baía coalhadas de igaras! E uma chuva de flechas escurecendo o ar. E os gritos. O fogo dos arcabuzes e dos canhões. Para mim aquilo tudo teve o gosto de uma festa. Recebi um ferimento no ombro. Mas continuei a lutar.

Os franceses foram expulsos pela segunda vez. Estácio de Sá, irmão do governador, tinha fundado em 1565, junto ao Pão de Açúcar, uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, em honra a seu patrono, El Rei de Portugal. (Vocês, que têm o hábito de simplificar tudo, lhe chamam hoje apenas Rio.) Pobre Estácio de Sá! Recebeu em combate uma flechada no rosto.

Foi bem triste sua morte. Eu me lembro... O dia estava claro. Fiquei comovido. Não sei bem por que, pois mal conhecia o homem.

Neste instante de 1942 em que escrevo estas palavras, não resisto à tentação de ir à janela de meu apartamento para olhar o mar. À sombra de grandes guarda-sóis de gomos coloridos vejo banhistas deitados na areia da praia.

Poucos deles se lembrarão agora de que devem a sua magnífica cidade a Estácio de Sá. A vida é assim mesmo.

Depois, nem todos podem ter a minha memória...

24 — NÉVOA, CORSÁRIOS E GOVERNADORES
Agora vem um período meio nevoento de minha vida. Não me lembro do que fiz, do que pensei, do que senti. A História me conta que após a expulsão dos franceses o governo de Lisboa resolveu dividir o Brasil em dois governos, — o do Norte e o do Sul. Na política europeia, sempre perigosa e agitada, desde aqueles remotos tempos, aconteceram coisas muito importantes. D. Sebastião, rei de Portugal, morreu misteriosamente em 1578 na Batalha de Alcácer-Quebir. (No entanto dizem que até hoje existem velhas damas em Portugal que alimentam a esperança de verem de volta à pátria o galante soberano.) O reino passou a ser governado pelo Cardeal D. Henrique, um cidadão de idade avançada.

D. Filipe II, rei de Espanha, sem a menor cerimônia anexou Portugal à sua Coroa. E como o Brasil pertencesse a Portugal, passou em consequência a ser domínio espanhol.

Ora, a Espanha tinha inimigos. Entre estes se achava a Inglaterra. Os ingleses sempre foram temíveis no mar. Os seus corsários eram famosos. Um certo Edwards Fenton em 1583 atacou Santos. Ia já cantar vitória quando apareceu uma esquadra composta de navios portugueses e espanhóis. Os ingleses “abriram o pano” — expressão que na gíria significa fugir e que bem se ajusta à ocasião, pois se tratava de navios a vela. Mas a moda pegou. Vieram outros corsários ingleses. Robert Withrington, que atacou a Bahia, aprisionando os navios que se encontravam no porto. Depois: Thomas Cavendish, seguido, com o intervalo de poucos anos, de James Lancaster. Saquearam eles São Vicente, Santos e Recife; levaram muita coisa, de sorte que, no fim de contas, puderam dizer que tinham feito “a good business” — um bom negócio.

Eu nem conto a vocês o nome dos governadores do Brasil naqueles anos entre 1591 e 1613. Foram tantos e fizeram tão pouco.. . Fizeram pouco — devo esclarecer — porque estavam cercados de perigos, sujeitos aos ataques dos índios e dos piratas estrangeiros. Faltavam-lhes vias de comunicação. O território era grande demais. O diabo quisesse governar o Brasil!

Em 1612 os franceses desembarcaram no Maranhão, fundando a povoação de São Luís. Não sei como eu me achava por essa época entre os homens de Jerônimo Albuquerque, que estava encarregado de expulsar os invasores. Já então eu falava corretamente o português, tendo também outra ideia do mundo e da vida. Sabia manejar um arcabuz e disparar um canhão.

Habituara-me por completo ao uso de roupas europeias E aos poucos esquecia os meus costumes indígenas.

Em 1615, depois de tremendos combates, conseguimos expulsar os invasores.
 
Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

João Batista Xavier Oliveira (Trovas Collection) II

Fonte: O Trovador

Olivaldo Júnior (3 Minicontos de amor)

O LANTERNINHA

Desde menino era vidrado nas lâmpadas. "Aluado!...", diziam as más línguas da pequena cidade de Lua Nova. Nova mesmo era a capacidade do lanterninha João Braz.

Não se casara, e lá se iam quarenta anos de uma triste existência! A vida era a ausência entre uma e outra sessão de cinema em que era o responsável pela... "censura".

Lanterna em punho, noite a noite, voltava a pé para casa sonhando com sua musa, uma estrela qualquer de um filme a mais que exibiam. Um dia, não voltou. Aluou-se de vez.

A LOUCA APAIXONADA

A louca apaixonada era uma moça que vivia assombrando os homens da cidade em que eu morava quando guri. Ninguém sabia seu nome, só sabiam que tinha ficado viúva.
 
Muito linda, vivia de esmolas pelas ruas da cidade, mas não precisava de nada. Era rica. A família, por não querer interná-la em hospício, vivia assistindo a inúmeras fugas.

Foi que, um dia, passou um anjo por ela e, num passe de mágica, deu-lhe um par de asas que lhe couberam como uma luva. E, como a Ismália de Guimaraens, desceu ao mar.

A LUA QUE EU COMPREI

Quebrei meu porquinho de outrora e, com o dinheiro presente, comprei-me uma lua, a mais linda que havia! Não, não lhe digo quem me vendeu, mas é fácil de achá-lo, ele é o...

Bem, a lua que eu comprei era à pilha, portanto, não era todo dia que eu a ligava, não. Pilhas custam caro, economizo. E tem a questão ecológica, o descarte correto, você sabe.

Uso essa lua só em certos dias, quando, por exemplo, quero escrever um poema. Assim, a qualquer lua da folhinha, fico todo amoroso, ligo a lua que eu comprei e pronto.

Fonte: O Autor

Fernando Pessoa (Quadras ao Gosto Popular) I


Cantigas de portugueses
São como barcos no mar -
Vão de uma alma para a outra
Com riscos de naufragar.

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou -
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por 'star estragado
Que ainda não mo devolveste…

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?

Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.

Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?

Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Quando é o tempo do trigo
É o tempo de trigar,
A verdade é um postigo
A que ninguém vem falar.

Levas chinelas que batem
No chão com o calcanhar.
Antes quero que me matem
Que ouvir esse som parar.

Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.

Tens uma rosa na mão.
Não sei se é para me dar.
As rosas que tens na cara,
Essas sabes tu guardar.

Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.

Fomos passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.

Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

O vaso que dei àquela
Que não sabe quem lho deu
Há de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.

Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.

Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.

Por um púcaro de barro
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria.

O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.

Fonte:
PESSOA, Fernando, Quadras ao gosto popular, Lisboa, Ática, 1994.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

João Batista Xavier Oliveira (Trovas Collection) I

Fonte: O Trovador

Olivaldo Júnior (3 Minicontos do Carnaval)

Ô, ABRE ALAS!

O coração daquele jovem nunca tinha batucado. Batia, desde sempre, no ritmo insone de manter viva a vida que Deus lhe dera, mas batuque mesmo não, nunca tinha batucado.

Foi que, no Carnaval daquele ano, sairia no carro abre-alas do Desfile Municipal, e, para isso, se preparara com afinco. Foram meses frequentando a quadra da Escola e tudo.

Na passagem da segunda para a Terça-feira de Carnaval, vestindo azul, chapéu de abas curtas branco na fronte, sentia seu peito batucar, no abre-alas da Avenida e de outro "eu"!

'MIL' CONFETES

O salão do clube de campo daquela pequena cidade interiorana não parecia mais um mero salão de clube de campo do interior, mas o interior de um bolo de festa de criança.

No chão, confetes mil se avolumavam, e por ele passavam senhoras e senhores que, ao pisarem lá, se transformavam e sentiam vir à tona a criança entorpecida de tempos idos.

Assim, ao som de "Máscara Negra" e de tantas outras lindas canções carnavalescas, deram-se as mãos e, numa imensa dança circular, giraram sobre o chão de 'mil' confetes...

UM PIERRÔ

Vestiu-se feito um Pierrô para a folia. Sabia que em algum ponto da Alegria haveria de encontrar a Colombina. O Arlequim, página virada para ela, seria só mais um amor e só.

Porém, no decorrer da alegoria, viu seu sonho virar cinzas e, no caos da manhã raiada, raiou sem ela na avenida. Bêbado de amor sem nexo, vagou, vadio, pelas vielas a chorar.

Não sabe como o Carnaval acabou. Chorou até seu rosto se mostrar. Não foi dessa vez! Acordou nos braços do amigo, um Arlequim sem Colombina que o fizera despertar.

Fonte: O Autor

Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 17 a 20

17 — MEU AMIGO ANCHIETA
Quando recuperei os sentidos encontrei-me num lugar desconhecido. Estava eu estirado numa rede, junto da qual vi o homem misterioso, que me contemplava com ar amigo. Sorri para ele. Fazia anos que eu não sorria para ninguém, porque eu achava que o guerreiro que sorri, abre no sorriso uma porta por onde pode entrar a piedade e a fraqueza.

Fiquei muito admirado quando o desconhecido falou minha língua.

— Como é teu nome? — perguntou ele.

— Tibicuera.

Começou então para mim uma vida nova. 0 homem misterioso era o padre jesuíta José de Anchieta. Tinha vindo ao Brasil com o segundo governador geral, Duarte da Costa. Estávamos em 1554, na aldeia de Piratininga. Não me lembro de ter dedicado a alguém amizade igual à que dediquei àquele homem. Segui-o por toda parte como um cão fiel. Sempre me achei disposto a sacrificar minha vida por amor dele. E ainda hoje me lembro com saudade daquele homem encurvado, fraco, feio e de grandes olhos brilhantes.

Morava Anchieta com outros padres numa pobre casinha de barro e paus, coberta de palha. Era ali que os jesuítas recebiam os índios e procuravam ensinar-lhes coisas úteis e belas. Essa casa tinha uma única sala duns quatorze passos de comprimento por dez de largura. Servia ao mesmo tempo de escola, enfermaria, dormitório, cozinha, despensa e refeitório. Chegavam até ela índios de todas as tribos. Entravam desconfiados, ariscos, olhando para os lados.

Anchieta os recebia como um pai. E falava-lhes em Deus. No Deus Único, que fez o Mundo e que o governa.

Como havia índios de cabeça dura! Por mais que o santo padre falasse, por mais que gesticulasse, desse exemplos e riscasse figuras explicativas na areia — os indígenas não percebiam nada. Mas Anchieta não perdia a paciência.

Se aparecia algum índio doente, ele lhe dava remédio e conforto. Se surgiam entre os indígenas brigas, questões, disputas, Anchieta resolvia tudo como o melhor e mais justo dos juízes

Anteontem, assistindo a uma ópera no Municipal, lembrei-me que a primeira representação que vi na minha vida me foi proporcionada no colégio de Piratininga pelo meu grande e saudoso amigo Anchieta. Como os indígenas não se interessavam pela religião e mesmo lhes era custoso compreendê-la, Anchieta organizava espetáculos no colégio. As peças que ele escrevia para os índios representarem chamavam-se autos.

Lembro-me bem de um auto em que tomei parte. Chamava-se “O Mistério do Natal”. Um dia Anchieta reuniu os índios mais inteligentes, ensinou-lhes seus papéis e deu começo aos ensaios. Aparecia no auto a Virgem Maria, São José, o Menino Jesus. Como não havia mulheres na missão, era um índio que fazia o papel de Virgem Maria. Fiquei muito aborrecido por não ter sido escolhido para tomar parte na representação. Anchieta me botou a mão no ombro e disse:

— Paciência, meu filho. Tomarás parte de outra vez. Os papéis já estão todos distribuídos.

Fiquei melancólico. Fiz ainda uma tentativa:

— Padre, se eu fizesse o papel de burrinho?

Anchieta sorriu. E no dia da festa eu fui o burrinho que estava no estábulo onde nasceu o Salvador do mundo.

E assim muitos índios compreenderam a doce história do Natal. E Anchieta encontrou facilidade para convertê-los depois.

Quando chegava a Piratininga a notícia de que alguma tribo atacara um aldeamento de brancos, Anchieta ficava triste, abatido e passava horas e horas a rezar.

18 — O DEUS ÚNICO
Anchieta me contou as maravilhas do mundo. Com desenhos riscados na areia e palavras simples ele me explicou o que era uma ilha, um continente, um cabo. Fiquei também sabendo que do outro lado do grande mar existiam outras terras, outras nações com povos de pele, cara e costumes diferentes dos das nossas tribos.

Uma noite, olhando pata o céu, Anchieta murmurou.

— Mundos, Tibicuera, mundos...

E apontou para as estrelas. Fiquei olhando para o céu, de boca aberta. E eu, que pensava que uma estrela cabia na palma de minha mão, relutei muito em acreditar que cada estrela fosse um mundo.

Anchieta tornou a falar:

— Deus, Deus é ainda muito maior que as estrelas que ele fez com suas mãos mágicas.

— Deus... — murmurei.

E a pergunta que eu trazia presa no peito conseguiu derrubar o muro da minha timidez e saltou:

— Padre, o teu Deus é mais forte que Anhangá?

Anchieta sorriu.

— Muito mais.

— Mais forte que Curupira?

— Anhangá e Curupira não existem, meu filho. E Deus está em toda a parte.

Dei um pulo e fiquei de pé.

— Mas eu vi, Padre, eu vi Curupira e Anhangá! Foi no mato. Ninguém pode com eles.

Anchieta bateu no meu ombro e explicou:

— Tu viste os espíritos do mato porque estavas cego. Cego é aquele que não conhece o Deus verdadeiro.

Eu sacudia a cabeça, teimoso como uma mula. Tinha visto os espíritos do mal que moravam na mata. Tinha, tinha e tinha.

— Só existe um Deus, senhor do Céu e da Terra. Os que creem nele não podem temer os gênios do mal.

Retruquei:

— As armas dos guerreiros não conseguem ferir os espíritos maus. Pajé me disse que ninguém pode com eles.

Anchieta me mostrou a cruz preta que trazia presa ao pescoço por um cordel de couro.

— Com esta arma vencerás os espíritos da floresta.

E me deu a cruz. Naquele mesmo dia entrei no mato. O medo tinha desaparecido de meu corpo. Eu trazia, apertada nos dedos, a cruz que o padre me dera. Gritava:

— Anhangá! Curupira!

O eco respondia longe. Mas depois caía o silêncio. A noite me surpreendeu no mato. E dentro da noite eu gritei ainda pelos espíritos maus.

Silêncio.

“Os gênios do mato morreram” — pensei. E voltei para o colégio.

19 — CORSÁRIOS FRANCESES
Nos meses que se seguiram, aprendi a amar e respeitar o Deus Único. Estudei gramática, catecismo e rudimentos de música. Fui batizado. Anchieta me quis dar um nome cristão. João, Tomé ou Pedro. Supliquei-lhe que me conservasse o nome antigo. Eu me lembrava das palavras do pajé: “e o neto do neto de Tibicuera ainda será Tibicuera”.

Passei dias felizes no colégio de Piratininga. Duma feita salvei a vida de Anchieta, livrando-o da flechada de um índio vingativo.

Um dia nos chegaram notícias desagradáveis. Os índios se revoltavam nas capitanias de Espírito Santo, Pernambuco e Bahia. Os tamoios se reuniam numa confederação muito forte, aliavam-se aos franceses e, juntos, pretendiam expulsar os portugueses do Brasil.

Anchieta escreveu na areia o nome do comandante da expedição francesa: Nicolau Durand de Villegaignon. Fiquei olhando por longo tempo estas palavras. Depois apaguei-as com o pé, raivoso. Pouco me importava que o Brasil ficasse com os portugueses ou com os franceses. Mas acontecia que meu amigo José de Anchieta era de corpo e alma devotado aos portugueses. As dores dele eram as minhas dores. Eu estava, portanto, contra os corsários franceses!

A situação piorava. Os aliados — tamoios e franceses — ficavam cada vez mais fortes.

Um dia Anchieta nos trouxe a notícia da chegada do novo Governador Geral, Mem de Sá. O chefe branco entrou com o pé direito. Procurou corrigir os erros do governo anterior, mandou construir aldeias, proteger os índios e auxiliar os padres na catequese. E bem como hoje se vê na tela dum cinema, nos intervalos, este letreiro: É proibido fumar no salão, Mem de Sá espalhou proclamas proibindo a guerra entre as tribos e a antropofagia. Ora, proibir a guerra e a antropofagia para a maioria dos índios era o mesmo que hoje proibir o basebol aos americanos do norte, as touradas aos espanhóis ou o futebol aos americanos do sul...

Eu já andava cansado da vida quieta do colégio. Não morrera o guerreiro que existia dentro do meu peito... Eu fazia a mim mesmo perguntas que ficavam sem resposta: “Por que será que o Governador não ataca os franceses?”

Achei que não podia ficar o resto de minha vida agarrado à batina de Anchieta, como um filho mimoso. Um dia me despedi dele com tristeza, dizendo-lhe que ia correr mundo.

— Vai — disse-me o padre. — Agora Tibicuera é cristão, conhece o Deus verdadeiro. Nada de mal lhe poderá acontecer.

Fui.

Caminhei pela beira do mar. Já não ia mais seminu como os indígenas. Levava roupas iguais às dos colonos portugueses. Trazia por baixo da camisa a cruz preta que Anchieta me dera.

20 — PASSAGEIRO CLANDESTINO
Cheguei à Bahia.

Vi navios ancorados no porto. Pelas conversas que ouvi nas ruas compreendi que se tratava de uma armada mandada de Portugal para combater 0s franceses.

Andei a caminhar sem rumo pelas ruas de Salvador. À tardinha ia olhai o mar. Via as naus num balanço suave sobre as águas. Gaivotas voavam ao redor dos mastros e depois partiam na direção do mar alto. Senti uma saudade estranha nem eu mesmo sabia de quê. Dormi aquela noite na areia da praia.

Antes de fechar os olhos fiquei olhando as estrelas. Elas me pareceram caravelas da grande armada de Deus e o céu um mar azul sem ondas. Sonhei que Anchieta estava prisioneiro dos franceses, que o iam matar. Acordei sobressaltado. Vi que havia a bordo dos navios muita agitação. Levavam para as porões barricas d’água, caixas com mantimentos. Marinheiros corriam dum lado para outro. Limpavam-se os canhões.

Naquela manhã aprendi muita coisa. O comandante da armada se chamava Bartolomeu Vasconcelos da Cunha. Ia descer para o Sul com seus navios, com o fim de combater e expulsar os franceses do Rio de Janeiro.

Passei o dia inquieto. Precisava ir com eles. Procurei um oficial. Supliquei-lhe que me levasse. Respondeu que a tripulação estava completa. Além do mais, eu era um índio que não conhecia o serviço de bordo.

Anoiteceu. O luar prateava as águas, acariciava os navios adormecidos. Eu tinha na cabeça um plano muito confuso... Tirei a roupa. Fiquei de tanga, como nos meus tempos de guerreiro tupinambá. Joguei-me n’água e
nadei sem ruído na direção dos navios. Aproximei-me do primeiro casco, subi por um grosso cabo que pendia da popa. O trabalho foi fácil. Eu era musculoso. Estava habituado a me içar pelos cipós que pendem de certas árvores do mato.

Consegui saltar para a coberta do navio sem ser visto. Escondi-me atrás de duas barricas que se achavam junto do castelo de proa. Ali fiquei muito quieto. A noite passou. Clareou um novo dia. Ouvi berrarem ordens. Içaram-se as velas. Os navios começaram a se mover. Dentro de algumas horas estávamos longe da Bahia.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Talita Batista (Trovas)

1
A humanidade hoje implora
por gente mais altruísta,
que jogue o egoísmo fora
e do amor jamais desista.
2
Chamando a gente de amigo
tem muita gente que o faz,
mas alguns são só perigo,
jogam malícia por trás.
3
Invadiu-me aquela hora,
constrangimento sem fim!...
Seu coração bate agora
só por outra e não por mim!
4
Joga-nos sempre no abismo
tudo que nos desalinha,
droga não é mecanismo
para um bom final de linha!
5
Nosso coração também
só tem um norte certeiro
quando, sábio, ele retém
ser do bem seu hospedeiro.
6
Para fazê-los brilhar
a mãe sacrifica os filhos,
levando-os a saltar
sobre muitos empecilhos.
7
Pela poesia que fiz,
após a sua partida,
vejo que fui bem feliz...
Até sua despedida!
8
Ser do bem seu hospedeiro,
sendo também altruísta
é mais que ganhar dinheiro
só para quem é artista!
9
Surgem da simplicidade
aprendizagens da vida.
Não é com celebridade
que a lição se consolida.
10
Trapaça, meio ilusório,
de alguém chegar à vitória,
pois entra no somatório
dos erros da nossa história.
11
Ururau, que é encantado,
do sino ele é guardião,
no Paraíba abrigado,
virou uma assombração.
12
Vou viver de fantasia,
nesse mundo que hoje é cão,
pois não imaginaria
você me deixar na mão!...

Talita Batista (A Poetisa em Xeque)

Entrevista realizada por Paulo R. O. Caruso, do site Reino dos Concursos com a poetisa/trovadora Talita Batista

Caruso: De onde você é? Quando você começou a se aventurar na literatura? Sofreu influência direta de parentes mais velhos, amigos, professores? O que aprendeu na escola o instigou a criar textos?
Talita: Sou de Campos dos Goytacazes/RJ. Sempre fui uma apreciadora da poesia, especialmente aquelas que têm rimas. Meu pai era um poeta e fui criada ouvindo poesias desse tipo, acredito que isso muito me incentivou.

Caruso: Você já leu muitas obras e lê frequentemente? Que gêneros (poesia, contos, crônicas, romance) e autores prefere?
Talita: Sim. Sempre gostei de ler, especialmente assuntos nos quais eu estou trabalhando. Atualmente, há nove anos, mais precisamente, meu interesse focou para o lado da poesia, especialmente do gênero poético da TROVA. Apesar desse meu “namoro literário” ter esse tempo citado, tem apenas 3 anos e 2 meses que tive coragem de fazer minha primeira trova.

Caruso: Costuma fazer um glossário com as palavras que encontra por aí (em livros, na internet, na televisão etc.) e ir ao dicionário pesquisá-las?
Talita: Sim. Faço isso sempre! Uso muito e gosto de usar o dicionário e vou escrevendo, a lápis, no próprio texto que leio o que encontro no dicionário.
Caruso: Há escritores de hoje na internet (não consagrados pelo povo) que admira? Em sites, Academias de que de repente você participa etc.
Talita: Sou acostumada a ler no papel, grifando e fazendo, a lápis, meus apontamentos. Com relação a Academias, apesar de, assistematicamente, eu frequentar este espaço, nunca aceitei ou me interessei a participar porque nunca tive tempo, devido a compromissos profissionais. Agora que estou numa fase mais tranquila em relação ao trabalho, acredito que a gente não pode fazer muitas coisas, ocupando vários espaços ao mesmo tempo. Também não gosto de ter tantos compromissos em várias instituições e sou muito responsável para saber que não dou conta e, mesmo assim, entrar em muitos lugares. Explico que sou uma pessoa muito simples, que não dou valor a cargos, nem a titulações próprias. Se eu entrasse em alguma instituição seria apenas com o intuito de ser útil à cultura do lugar em que vivo, tentar preservar a tradição cultural do nosso povo. O ego inflamado de muitas pessoas não me deixa muito à vontade, em certos lugares. Daí que nunca me interessei em participar mais diretamente de Academia alguma, apesar de respeitar e reconhecer a beleza dessas instituições.

Caruso: Você costuma participar de antologias? Acha-as algo interessante?
Talita: De algumas poucas já participei.

Caruso: Participaria de uma se eu a lançasse?
Talita: Participaria, sim, com prazer, desde que fosse dado tempo suficiente para eu me organizar.

Caruso: Você é membro de Academias de Letras? Aceitaria indicações para ingressar em Academias de Letras como membro?
Talita: Já respondi que, no momento, não. Associei-me à U.B.T. – União Brasileira de Trovadores e o meu interesse e foco no estudo da Trova – sua evolução histórica e as instituições a ela dedicadas não me dão tempo para distribuir o meu tempo a muitas outras atividades.

Caruso: Tem ideia de quantos textos literários já escreveu? Há quanto tempo escreve ininterruptamente?
Talita: Textos de literatura mesmo, há cerca de três anos. Mas sempre escrevi assuntos ligados aos saberes ligados à Educação, campo em que lecionava.

Caruso: Você tem dificuldade de escrever em prosa, em verso?
Talita: Tenho me dedicado, ultimamente à escrita em trova, ou poesia setessilábica. Mas não sinto dificuldade de escrever em prosa, onde sempre me expressei.

Caruso: Você possui algum lugar onde publica textos virtualmente? Qual?
Talita: Sempre procuro divulgar boas trovas, de autores de todo o Brasil – nas redes sociais em geral. Eventualmente, publico umas trovas de minha autoria também. Mas sem o objetivo de autopromoção. Apenas com a intenção de mostrar que o movimento trovadoresco pode atingir várias camadas da população e que é um aprendizado útil ao ser humano sensível e que gosta de poesia, independente da escolaridade ou idade da pessoa que se interessa. Basta apreciar a trova e querer, de fato, aprender.
Caruso: Que temas prefere escrever? Prefere ficção ou o que vivencia e vê no dia a dia?
Talita: Prefiro as questões existenciais, mais próximas do nosso cotidiano, seja texto filosófico (que eu muito admiro), lírico ou humorístico (que eu gosto muito, mas considero de muito difícil inspiração, apesar de eu gostar muito de rir).

Caruso: Aprecia outros tipos de arte usualmente? Frequenta museus, teatros, apresentações musicais, salões de pintura? Está envolvido com outro tipo de arte (é pintor, músico, escultor?)
Talita: Não sou artista, mas sou uma apreciadora da arte. Gosto muito de música, de teatro, cinema. Mas, admiro também a pintura.

Caruso: Que retorno você espera da literatura para si mesmo no Brasil? E a nível de mundo?
Talita: De minha parte, tenho uma pretensão muito modesta, não vivo em busca de reconhecimento algum, nem conto com isso porque nem sei se tenho esse talento poético. Mas desejo, como professora que sou, socializar o que aprendo, contribuir, no que estiver ao meu alcance, para melhorar o nível do padrão cultural da nossa população, seja a nível municipal, estadual ou nacional. Torço muito para que o nosso povo desenvolva e alcance um bom nível cultural.

Caruso: Você acha que o brasileiro médio costuma ler? Acha que ele gosta de literatura tradicional ou só de notícias rápidas e sem profundidade?
Talita: Infelizmente, cada vez menos as pessoas leem. Os celulares e internets facilitam de tal forma que só sabem copiar e colar. Até tirar fotos do que precisam escrever, nas próprias universidades. Leem muito pouco e escrevem muito menos ainda!

Caruso: Você costuma registrar seus textos na FBN antes de publicá-los? Sabe da importância disso?
Talita: Não faço isso e até desconheço esse processo. Se puder explicar e divulgar, tenho interesse em aprender para avaliar a possibilidade.

Caruso: Já tem livros-solo publicados? Consegue vendê-los com certa facilidade?
Talita: Em relação à área de Literatura, tenho três livros-solo organizados, mas nenhum ainda publicado.

Caruso: Já conhecia o poeta-escritor Oliveira Caruso (desculpe-me... Esta pergunta é padrão para quem participa de meus concursos literários)?
Talita: Sim, conheci-o inicialmente, pelos grupos de Whatsapp, há cerca de uns dois anos, aproximadamente. Depois nos comunicamos por e-mail e já participei como jurada de alguns concursos de poesias livres, promovidos por ele. Mas, sinceramente, o meu interesse é mais em TROVA. Sempre arrumo tempo para me envolver nas coisas ligadas à trova, ainda que, de fato, o tempo seja curto!

Caruso: Você trabalha com literatura inclusive para aumentar sua renda ou a leva como um delicioso hobby?
Talita: Apenas por hobby, mas sou bastante dedicada e curto muito esse ambiente literário.

Caruso: Você trabalha(ou) fora da literatura?
Talita: Trabalhei, por longos 50 anos como professora da rede estadual – em todos os níveis de Ensino, assim como no Ensino Superior, com Formação de Professores, Sociologia e Ciência Política. Atualmente ainda encontro-me ligada à Universidade Candido Mendes, como coordenadora de cursos de Pós-Graduação.

Fonte:
Paulo R. O. Caruso in https://reinodosconcursos.com.br/entrevista-com-talita-batista

Aldo Nora* (O Mestre vai ao Estádio de Futebol)

*Alfredo Nogueira Ferreira (Florianópolis/SC)
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Era domingo. Um sol fulgurante, morno e aconchegante, num céu azul sem mácula, alegrava o dia.

Havia um movimento desusado nas ruas . Gente, carros buzinando, ônibus atulhados, davam mais vida e redobravam a alegria nesse domingo.

Toda a festiva animação era a decorrência do grande clássico de futebol que se jogaria dentro de algumas horas.

Os portões do estádio já estavam abertos e uma mole humana se concentrava nas imediações.

Viam-se bandeiras, faixas, grupos com tambores e cornetas, homens e mulheres envergando as camisetas de seus clubes. Gritos, palavras de ordem, desaforos, enfrentamentos, por vezes, intervenções da polícia.

Uma multidão imensa coloria as bancadas do imponente estádio. Entrava sempre mais gente que se acomodava, agora, em pé, na volta do campo. Já próximo do início do jogo, entra no estádio um grupo compacto de homens e algumas mulheres e que chama a atenção pela sobriedade do comportamento. Dava a impressão de um grupo de turistas, pois não tomava partido por qualquer dos litigantes. Era notória a presença de um líder que comandava o grupo. Simpático, ereto, barbudo, sandálias nos pés, envergava uma túnica vermelha.

A bola rolava, os torcedores manifestavam-se. Gritos, xingamentos, um coro de vozes apoiando o time dos encarnados feriam os tímpanos dos mais próximos, neles se incluindo aquele peculiar grupo. O adversário fardava-se de azul e seus apoiantes situavam-se no lado oposto do campo.

Em determinado momento um jogador dos azuis apanha a bola, dribla um, avança, finta um segundo, um terceiro e já na área, para, levanta a bola e de cabeça atira para o gol. A bola bate no travessão e sai. O líder do grupo que até ali se mantivera quieto e calado, aplaudiu, entusiasticamente, a jogada. Torcedores do outro  clube vaiaram o jogador e, tendo notado a manifestação daquele homem, começaram a ofendê-lo, lançando injúrias e insultos. Passados poucos minutos o goleiro dos rubros faz uma defesa assombrosa, “voando” para o alto e desviando a bola do ângulo, após uma cobrança de pênalti. Novamente aquele homem aplaudiu o lance de belo efeito. Toda aquela chusma que o havia vaiado ficou, agora, calada. Que torcedor era aquele que ora aplaudia os de azul, ora os de vermelho? E um deles, mais atrevido e gritando, perguntou:

– E aí, meu? Qual é o teu time?

Um dos do grupo ouviu o desafio e cutucou o Mestre (era assim que o chamavam) que falava com outro.

Este, calmo, virou-se para  o provocador e disse:

– Sou do Azul, a cor do céu. Veja como está lindo! O vermelho lembra o fogo, o sangue...

– O sangue que é vida, energia e força. O sangue que nos vai dar a vitória, emendou o outro.

– O sangue que é derramado em disputas inúteis, completou o Mestre.

O insolente não perdeu tempo e provocou:

– E por que esse vermelho que te cobre o corpo? E esses arreganhos, ainda há pouco, na defesa do nosso  goleiro? Não dá pra te entender, meu chapa!

– É simples, meu caro senhor, a cor nada mais é do que luz e a luz alumia o mundo. O mundo é a natureza. E a natureza é feita de cores. Assim, o mundo é colorido e por ser colorido é mais belo. Não devemos desmerecer as cores. Há criaturas que não aceitam certas cores por razões clubísticas ou outras. Isso não é próprio de alguém que se preza. Já disse, sou torcedor  do time azul, mas não deixo de vestir um blusão ou uma camiseta vermelha, sempre que me aprouver.

Isso foi dito em meio a uma zoeira atordoante e, assim, poucos puderam ouvir essas palavras.

O jogo continuava disputado, atraente, eletrizante. A bola não saía da área, ora de um, ora de outro, sempre com o risco de gol. E aí aconteceu... numa jogada rápida, dois avançados da equipe escarlate tabelando de cabeça, entram na área e um deles finaliza para o fundo das redes. A jogada arranca aplausos e leva ao delírio a sua torcida.

O Mestre aplaude, levanta os braços para os seus pupilos que seguem o Mestre nos aplausos.

O atrabiliário torcedor rubro empolgado vira-se para o grupo com a intenção de gozar os adversários e alvejá-los com ironias e indecências; e vê o Mestre  comemorando o gol. E não se conforma. E não entende o que vê. E em tom de provocação, grita:

– Só tinha de comemorar mesmo, seu palhaço. Os otários do teu time não fazem isso. São uns... (e cuspiu um palavrão).

O Mestre esperou que a  barulheira abrandasse, acercou-se do exaltado torcedor e, como nas anteriores intervenções, falou comedido.

– Sabe o senhor, que o esporte é um espetáculo que atrai muito público. Esse público sabe que vai encontrar duas qualidades: o bom e o belo. Há exceções é evidente. Ora, o futebol sendo um espetáculo é bom porque nos proporciona prazer. E se jogado segundo as regras e com qualidade, torna-se vistoso e de extraordinária beleza. Quem não vibra com um gol de bicicleta? Um gol de bicicleta é pura arte. Só ele já paga a entrada no estádio. Quem não aplaude um daqueles dribles que deixa o adversário estatelado no chão? Um drible assim é pura arte. Quem não se entusiasma vendo um goleiro “voando” para defender uma penalidade chutada no canto de seu gol? Esse “voo” é arte que encanta. Quem  não pasma quando um jogador apanha a bola no seu meio campo e, com ela grudada no pé, vai avançando e fintando quantos adversários lhe apareçam pela frente e, no derradeiro toque, passa pelo goleiro  e empurra a bola para o gol vazio? Um lance assim não é uma obra de arte? Devemos aplaudir a arte no momento   em que ela se define aos nossos olhos. Não importa que a arte seja executada pelo adversário. Foi o que fiz. Se todos fizessem isso o futebol seria maravilhoso dentro e fora do campo.

A essa altura, já se cumpria o intervalo e o torcedor havia chegado mais perto do Mestre. E com  as arquibancadas menos rumorosas ficou mais fácil a conversação.

– E onde fica a torcida e o amor pelo clube que pede ou exige o recurso ao xingamento e ao palavrão? Retrucou o apaixonado torcedor rubro.

– A torcida e o amor pelo clube ficam intocados. Cada um vai continuar torcendo pelo seu time do coração. Eu me referi aos lances de efeito, de grande beleza. A beleza dentro do campo deve ser aplaudida. E quem assim proceder estará dando um espetáculo de beleza fora do campo. Quanto ao xingamento e ao palavrão, aquele que os profere dá uma pobre demonstração de si, não ajuda o time em nada e estimula mais o ânimo belicoso.

– Eu não vou nessa conversa de que tudo é arte e maravilha dentro do gramado. Não vês agressões, violências, brigas generalizadas? E digo mais, cara. Em noventa minutos de jogo, só há trinta ou quarenta minutos de jogo jogado. A arte e a beleza de uma jogada é exceção. O espectador é o mais prejudicado. Os jogadores usam de malandragem e de desonestidade o tempo todo. Um tipo toca o outro com o dedo e o cara cai ao chão, rebola três, quatro vezes, abre a boca e grita, parece que vai morrer. São desonestos, fazem uma falta claríssima e dizem ao juiz que nada fizeram. Chutam a gol, a bola vai direto pra fora e apontam logo para o escanteio. Tinha de haver um código de ética para os jogadores. E os técnicos deviam chamar a atenção do jogador para este aspecto.

– É verdade. Há muitas faltas e é pena. Isso torna o espetáculo caro para um esporte que se diz popular.

– Não tens jeito de torcedor, desses que frequentam os estádios sempre que há jogos, mas parece que entendes do assunto. Então, me diz, qual seria a solução para o caso?

– É simples. O jogador de qualquer modalidade esportiva deve olhar o adversário como um colega de profissão, melhor ainda, como um irmão. Ninguém vai tratar mal um irmão, não é assim?

– Isso não funciona. Os caras entram em campo para enfrentar um inimigo. Tinha de haver uma punição mais dura para esses infratores. Repito, um código de ética para os jogadores.

– Esse código já existe e tem um só artigo.

– Como assim?

– Está dentro de cada um.

– Não entendo, cara. Põe clareza nisso.

– Ama o teu próximo como a ti mesmo. Se não queres o mal para ti, não o faças a outro. Este preceito, se fosse levado à risca, resolveria tudo.

– Não acredito nisso. É coisa do passado. De dois mil anos atrás e nesse tempo nem futebol havia. Hoje, no futebol, só interessa vencer. Vencer significa mais dinheiro e é o dinheiro que comanda o futebol . E para vencer vale tudo – até quebrar uma perna ou um braço do adversário. As entidades esportivas, os dirigentes, os técnicos, os jogadores, os empresários dos jogadores só pensam em dinheiro, querem enriquecer rápido. Estamos diante de um capitalismo feroz no reino do futebol.

O Mestre concordava com o torcedor, pois, o que ele dizia era evidente. Porém não abdicava de seu ponto de vista.

– Mas lembro, e uma vez mais, que o futebol é um espetáculo e como tal deve ser jogado. E dar pontapés e agredir o outro não é esporte. Precisamos, urgentemente, ser mais humanos. O que vemos é um clubismo doentio que cega  as pessoas e lhes tolhe a razão. E quando esta não funciona o homem se embrutece. E então, nosso próximo já está muito distante de ser um irmão.

– Não achas que os técnicos com a responsabilidade do cargo e com a ascendência que têm sobre os jogadores podiam ter uma palavra a dizer nesse problema?

– Os técnicos, muitos deles, mandam bater, jogar duro com o adversário.

– Então para que servem os técnicos?

– Para nada. O técnico é um desperdício para o clube. É o que mais ganha e o que menos rende. Começa que está do lado de fora do gramado, portanto, não joga. E quem ganha ou perde os jogos são os que estão lá dentro. Digo mais: são eles, muitas vezes, a razão da derrota do time.

– Mas, há aqui uma contradição. Se não faz nada, como diz, e se são até a causa de derrotas, por que é que são tão disputados?

– É isso que me intriga. Como é que uma diretoria composta de homens (que se supõe) esclarecidos paga uma fortuna para um cidadão que é figura nula numa equipa de futebol? E depois, – o que é altamente assombroso – despedem-no após duas derrotas e contratam outro, talvez por uma soma maior ainda.

– E, depois, de tudo o que disse, eu pergunto. E para que serve o técnico, então?

– Para nada. O técnico é uma figura decorativa, uma espécie de rei que não manda e, principalmente, que nada decide.

– Aí eu não concordo. O técnico manda, sim senhor, é ele que determina a  estratégia do jogo, a tática a ser usada, a escolha dos jogadores, os que devem ser substituídos, o ritmo a ser empregado e por aí vai...

– Meu caro senhor! Aparentemente, manda. Contratado a peso de ouro ele não tem que dizer alguma coisa a seu jogadores? Não chamam a isso preleção? Preleção é dar lição, é ensinar. Ora, o técnico não ensina o jogador a jogar. O que faz é dar umas noções de tática, e de como atuar dentro de campo. Dizer isso e não dizer nada é o mesmo. No campo vão encontrar um adversário que pode desfazer todos os seus intentos. Basta que tais adversários sejam melhores. Melhores, digo. E aqui está o segredo de tudo – os melhores serão sempre os vencedores, seja qual for o técnico. Há exceções, claro; estas, confirmam a regra. Mas, dizia, por essas preleções começaram os técnicos a ser chamados de professores. Com isso desmoralizaram uma classe de escol. A classe mais imprescindível de um país, pois, sem essa classe, nenhum país cresce, nenhum povo se torna civilizado. O professor é alguém que muito estudou e que depois vai ensinar, em qualquer ramo do conhecimento, a tornar uma pessoa capacitada a exercer as suas habilitações e a vencer na vida. É como um oftalmologista que procura dar luz aos olhos de um ceguinho. Ora, o que vemos são técnicos quase iletrados dirigindo equipes de futebol. O que se pode esperar deles?

– Quer dizer, então, que é um despropósito contratar um técnico de futebol?

– Sem dúvida. Com o que pagam para contratar um técnico, comprariam uns quatro ou cinco muito bons jogadores. Isso é que deixaria mais forte e competitiva a equipa. E com o salário do técnico, a cada mês, pagariam dois ou três jogadores do elenco. Olhe, para não dizer que não servem para nada, servem, pelo menos, para divertir o publico. São mais atores cômicos do que, propriamente, técnicos de futebol. Eu me divirto muito com eles quando vejo os jogos pela televisão. Mas não vou falar disso, agora. Para encerrar essa questão do técnico vou lhe citar apenas uma (dentre muitas) expressão de um afamado técnico. Perguntado, ao final de um jogo, porque só vitórias acumulava, respondeu: “eu ganho porque tenho os melhores jogadores”. Essa resposta diz tudo.

A esta altura, o exaltado torcedor esquecia o jogo e era todo ouvidos para as palavras do Mestre. Já não era seu contraditor, mas um atento admirador desse homem que, apesar da aparência , conhecia as artimanhas do futebol e falava tão melifluamente.

Estavam tão embebidos no diálogo que estremeceram com a explosão de gritos e a ovação retumbante vindas das arquibancadas.

O jogo estava no fim dos acréscimos quando, depois de um escanteio a favor dos azuis, a bola é cabeceada para fora da área, cai nos pés de um contrário que, de uns trinta e cinco metros, manda uma “bomba” para empatar a partida.

A saída é tumultuada. Há gritos, aplausos, empurrões, bandeiras lambendo a face de muitos, a estridência de cornetas ferindo os tímpanos. Na confusão, o torcedor e o Mestre se desencontram.

Fora do estádio vão se formando grupos que logo se adensam em multidão. Um alarido infernal vai se alastrando naquele imenso espaço. Gritos histéricos, xingamentos, um batucar contínuo de tambores. O chão está coalhado de garrafas e de latinhas. Há, seguramente, nos vasos sanguíneos álcool suficiente para deflagrar um enorme incêndio. As provocações são cada vez mais ferinas. Um clima tenso, nervoso desce sobre o local. Há choques de torcedores, um prenúncio de conflito.

Surgem os primeiros policiais . Torcedores exaltados xingam os recém-chegados . Só se ouvem frases carregadas de podridão. Logo dois se engalfinham e, num átimo, são dezenas em luta corporal. A polícia procura separar os desafetos. O que era um entrevero torna-se numa verdadeira batalha. Torcedores de ambos os clubes que lutavam entre si, envolvem-se com os policiais. A refrega é geral e vale tudo. Pedras, paus, garrafas, barras de ferro, cadeiras são arremessadas na confusão. Já há armas engatilhadas nas mãos de policiais. Um corre-corre desordenado e aflito gera mais confusão.

O grupo liderado pelo Mestre, ao deixar o estádio depara-se com um ambiente caótico e hostil. Uma espécie de névoa paira sobre esse palco de distúrbios, fruto do gás lacrimogênio e gás pimenta lançados pela polícia. Repórteres dos veículos de informação correm, ora procurando um flagrante insólito, ora fugindo dos canhões d'água.

Sem saber o que fazer o torcedor dos rubros, agora perdido na multidão, pede a um repórter – pensando em uma solução para acalmar os ânimos – que entreviste o Mestre. O repórter não sabe quem é o Mestre e onde encontrá-lo. O torcedor dá-lhe algumas referências sobre a criatura, ligando-o a um grupo. O repórter aceita a incumbência e com um megafone nas mãos lança no ar um apelo. “Pedimos a um ilustre senhor envergando uma túnica vermelha e que lidera um grupo de pessoas, o favor de dirigir-se até nós, com urgência”. E deu uma referência fácil de ser identificada. Volvidos alguns minutos, surge o Mestre e seu séquito. E, então, o repórter com voz firme, pede: “por favor, atenção, pedimos a todos que escutem. É alguém que vos quer falar”.

O Mestre com serenidade diz: “Senhores torcedores e senhores policias. Peço-vos um instante de atenção”. Suas palavras ressoam no espaço como algo estranho e sobrenatural.

– Depois de um espetáculo prazeroso não se pode presenciar uma batalha entre irmãos. Caríssimos senhores, estou vendo pais de um lado e filhos de outro; maridos em lado oposto ao das esposas; jovens confrontando jovens. Isto não é de humanos. O amor a uma camisa de clube não pode ser maior que o amor a um ser humano.

A esta altura, todos, sem exceção, ouviam em silêncio.

– Quero lembrar que há uma única regra de boa convivência entre os homens: amai-vos uns aos outros. Se todos a seguissem com rigor não haveria disputas, não haveria crimes. Não haveria, sequer, zangas. Vimos há pouco um espetáculo de beleza, no estádio. Essa beleza deve ser procurada a cada instante, no mundo que nos rodeia. Ver e sentir o belo extasia a alma e nos torna feliz. Mas, parece que o homem abdicou da beleza para contemplar a fealdade. A beleza nos eleva; a fealdade (o mau uso da vida) nos rebaixa. Precisamos inverter estes valores. Deixar os ínvios caminhos que trilhamos e enveredar pela senda do amor.

Assim, ia discorrendo o Mestre quando uma voz esgoelada varou o espaço. Vinha de um torcedor, ocultado por uma árvore para não ser apanhado pelas balas de borracha.

– Não vem com esse papo, parceiro. Ninguém vai deixar de xingar os caras do time adversário. Não há coisa melhor do que abrir a boca e vomitar todos os palavrões conhecidos e inventados contra os jogadores, técnicos, juiz e até mesmo os do próprio time. A gente descarrega toda a tensão  e nervosismo e fica aliviado. Dá um sentimento de prazer como se festejasse um gol. É isso aí... não vem com essas baboseiras.

O Mestre ouviu tudo e quando o agastado torcedor terminou, ele, com brandura e alteando a voz para que todos ouvissem, continuou:

– Meus amigos: vivemos pela cabeça, a parte mais nobre do corpo. Por ser nobre está no alto e o seu interior – a porção mais importante – está resguardada em uma redoma óssea. Daí, partem os comandos para o resto do corpo. É, pois, vital que a cabeça se mantenha limpa para que a boca não se abra para sujeiras. Quando tal acontecer seremos mais afetivos e mais compreensivos. Seremos mais humanos. E, se na boca aflorar um sorriso, tanto melhor, pois as palavras que se seguirem serão de suavidade e não de aspereza, de amor e não de ódio. E como disse um poeta, às vezes basta um sorriso para dar sabor à vida. Se desejamos ser bem acolhidos e bem tratados, sejamos acolhedores e reverentes. Se assim procedermos a vida será melhor e não haverá desacatos. Os que me ouvem, agora, estiveram, como eu, assistindo a um espetáculo. E quem vai a um espetáculo, é para fruir esse espetáculo. Do princípio ao fim. E de lá sair satisfeitos pelo prazer que nos proporcionou. Lembro a todos que a cobiça do primeiro lugar e a conquista dos três pontos estão na origem de todas as disputas. Devemos manter sempre o nosso cariz (caráter) humano quando, nos espetáculos desportivos, se digladiam dois adversários. Os que estão na luta vão procurar vencer e é justo que assim procedam, desde que obedeçam às regras, tanto regulamentares quanto éticas. Os que, fora do campo assistem à disputa, cabe-lhes incentivar com aplausos, cantos, gritos, e frases de estímulo e tudo o que for capaz de contribuir para a vitória do seu grupo. E, no final, se vitoriosos, fazer a festa. Os perdedores, embora tristes, devem sair de cabeça erguida, se jogaram como lhes competia. Perderam no resultado, mas foram sócios na feitura do espetáculo. E devem merecer elogios porque aceitaram com dignidade a vitória dos seus opositores. Destes, deveriam ouvir  como homenagem o “victis honos” (em honra dos vencidos).

Na quietação daquele momento, quando todos os olhares buscavam aquele homem falando com suavidade, o torcedor avinagrado e num esganiço, lança farpas contra o Mestre.

– Chega de conversa fiada, cara. Ninguém vai nessa de dar a mão ao próximo, ver no adversário um irmão, ter um sorriso na boca. Isso não cola mais, isso é palhaçada. Hoje, o que vale é a esperteza, o “jeitinho”, a engambelação. O resto é frescura...

Logo um sussurro se alastrou rapidamente. Vozes cada vez mais fortes se juntaram em desaprovação e uma atordoadora vaia fez calar o desabrido torcedor.

E, então, ouviram-se palmas. Um estrepitoso bater de palmas dirigido ao Mestre que se afastava do local, à frente de seu grupo. As dezenas de torcedores que, ainda, permaneciam no recinto, ovacionavam e cumprimentavam o Mestre ao vê-lo passar. Polícias, muitos com as  armas nas mãos, faziam um sinal de positivo com o polegar erguido.

Um casal que se afastava lentamente, ia trocando impressões sobre o acontecido e, um deles, comentava não ter, agora, mais dúvida sobre a força da palavra – “na verdade, a palavra tem mais força que a própria força. O episódio  trouxe-me à memória um poema que li e que dizia: os canhões não podem derrotar a ideia”.

Medalha de Ouro em Conto no Júri Civil, I Concurso da AECALB no RJ

Fontes:
Reino dos Concursos
Imagem = Aliexpress

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Trova 279 - Nei Garcez (Curitiba/PR)


Eliana Palma (Prosas) V


Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 13 a 16

13 — UM PROBLEMA DE DISTÂNCIA
Vocês naturalmente sabem que o homem sempre mediu as distâncias de acordo com seus meios de transporte. Há cinquenta anos atrás nos perguntavam: “Do Rio a Porto Alegre é muito longe?” E a gente, pensando nos meios de transporte daquele tempo, respondeu: “É longe. São muitos dias de viagem.” A resposta hoje seria: “É perto. Algumas horas de avião.” E eu até acho que no futuro um cidadão poderá despedir-se dos amigos na Avenida Rio Branco e dizer: “Até a vista, rapazes. Vou até a Groenlândia. Volto daqui a pouco.”

Pois lá pelo ano de 1500, D. Manuel, o Afortunado, rei de Portugal, andava às voltas com um grave problema. O navegador português Vasco da Gama havia descoberto o caminho para as Índias, voltando de lá com um carregamento de pimenta, canela, gengibre — enfim: todas as preciosas especiarias do Oriente. Ora, esses artigos tinham grande aceitação na Europa, onde eram vendidos a bom preço. Estava claro que aquele que primeiro conseguisse chegar às Índias, voltando também pelo caminho mais curto, faria melhor negócio. Em resumo: a febre das especiarias orientais naquele tempo era mais ou menos parecida com a febre de petróleo de nossos dias.

D. Manuel não hesitou. Organizou uma armada. Botou no comando dela um capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, e lhe disse, naturalmente em outras palavras: “Olhe, comandante, precisamos achar um caminho mais curto para as Índias, ouviu?”

A armada zarpou. O que aconteceu na viagem, não sei. Não vi. Contam muita coisa desencontrada. Uns dizem que Cabral se afastou das costas da África, batido por um grande temporal e acabou descobrindo o Brasil por acaso. Outros afirmam que o comandante português não andava às tontas, sabia onde tinha o nariz e chegou à terra desconhecida por causa dum plano muito bem traçado. Nada disto nos interessa. O importante é que o Brasil foi descoberto.

Um dos navios da armada, comandado por um tal André Gonçalves, voltou para Portugal para dar a boa notícia ao Rei, enquanto Cabral seguiu com o resto da frota para as Índias. D. Manuel decerto deu pulos de contentamento ao saber da novidade. Mais terras para a Coroa de Portugal!

Mandou três caravelas explorar a nova terra. As três casquinhas de nozes, todas cheias de velas e bandeiras, correram à costa, descobrindo cobras e lagartos, isto é: cabos, rios, ilhas, baías, montanhas... Dois anos depois veio mais uma esquadrilha exploradora. Alguns anos mais tarde, outra.

14 — A MADRUGADA DO BRASIL
Trinta anos após o descobrimento fez-se a primeira tentativa de colonização. Fundaram-se as primeiras povoações. São Vicente e Santo André da Borda do Campo.

Em 1534 quem reinava em Portugal era D, João III. Resolveu ele distribuir as terras do Brasil entre pessoas importantes do Reino, que tivessem capacidade para povoar e defender a nova pátria. Dividiu a costa em partes mais ou menos iguais a que deu o nome de feitorias. Eram 5: Santa Cruz, Rio de Janeiro. Cabo Frio, Iguaçu e Itamaracá. Logo depois dividiu a nova terra em capitanias hereditárias.

Olhando o mapa da divisão, não posso deixar de sorrir. O Brasil me dá a impressão duma perna de porco dividida em dez fatias. Vejam: Havia espalhados pela perna de porco, isto é, pelas dez capitanias, uns 2000 colonos. A maioria se dedicava à lavoura. Já apareciam os primeiros engenhos, as primeiras fabriquinhas. Era o clarear do dia duma nação. (Gostaram da frase? Pois podem ficar com ela. Dou-lhes de presente. Em 1500 essa imagem podia ser novidade. Mas hoje...)

Vocês pensam que as capitanias viveram em paz? Qual! Sofriam ataques dos selvagens, que não se conformavam com ver sua pátria invadida. Depois, começavam também a aparecer piratas. Vinham espiar a terra nova, com um olho deste tamanho, com uma vontade danada de abocanhar um naco da terra que Portugal descobrira.

Vendo que a divisão do Brasil em capitanias não dava resultado, o rei de Portugal resolveu criar um governo geral. O primeiro Governador Geral se chamava Tomé de Sousa. Trouxe para o Brasil 300 soldados, 300 colonos, 400 degredados e 6 jesuítas. Estes últimos eram chefiados pelo Padre Manuel da Nóbrega.

Tomé de Sousa fundou a cidade de Salvador da Bahia, visitou as capitanias do Sul, mandou grupos de homens explorar o sertão. Foram aventuras tremendas. As proezas de cada um desses grupos, que se chamavam entradas, davam um romance de arrepiar o cabelo. Infelizmente ninguém se lembrou de escrevê-lo.

Uma das coisas mais admiráveis da História do Brasil foi o trabalho dos jesuítas. Os padres fundaram colégios e, enquanto os outros homens pensavam em arrancar da terra ouro e pedras preciosas, eles se preocupavam exclusivamente com a educação dos selvagens. Achavam que uma alma valia mais que um diamante. E, sem armas de guerra, metiam-se no meio dos índios, aprendiam a sua língua, procuravam mostrar-lhes que eles levavam uma vida feia, sem conhecer o Único Senhor do Universo — Deus, um pai que não gostava que seus filhos na Terra cultivassem o pecado e a antropofagia.

Mas agora é que estou vendo que a história da minha vida está virando História do Brasil. Vamos fazer ponto e começar novo capítulo. O capítulo em que continuo as aventuras de Tibicuera, o valente guerreiro tupinambá. (Modéstia à parte.)

15 — EU E MEU FILHO
Todos esses fatos que narrei no capítulo que vocês acabam de ler, aconteceram na terra em que eu me encontrava. No entanto não presenciei nenhum deles. Só me lembro de que certa vez tomei parte num ataque a um aldeamento de portugueses. Fomos repelidos. Eles usavam canhões e espingardas. Os nossos homens ficaram apavorados diante dos “tacapes que vomitavam fogo”.

Minha tribo se meteu no mato. Passaram-se muitas e muitas luas. Meu filho cresceu a meu lado. Era um rapagão desempenado, da minha altura. Tão parecido comigo, que muitas vezes os outros guerreiros da tribo não sabiam distinguir o filho do pai. E como o rapaz se chamasse também Tibicuera, a confusão ficava maior ainda.

Eu amava meu filho. Meu filho me amava. Ensinei-lhe a arte da guerra. Contei-lhe os meus segredos. Ele aprendeu a nadar; a caçar; a fazer pinturas bonitas no corpo; a curar feridas produzidas por flechas envenenadas; a ser mais ágil que a onça; mais flexível que a cobra; mais impetuoso que a anta. Às vezes nós dois passávamos horas e horas um ao lado do outro, conversando. Eu não me esquecia das palavras do pajé, que me dissera que o pai pode continuar no filho, o filho no neto, e assim por diante, de sorte que o tempo e a morte deixam de existir.

Eu pulava de alegria quando meu filho caçava uma onça ou derrubava um inimigo. Às vezes eu olhava para o rapaz e ele imediatamente lia meus pensamentos, sem que fosse necessária a troca de palavras. Eu também enxergava as ideias dele no fundo de seus olhos, do mesmo modo como se vê um peixe colorido nadando no fundo de um rio de água transparente.

Meu filho foi pai de um filho, que recebeu também o nome de Tibicuera e cresceu na taba à nossa sombra. Passei a amar meu neto como amava meu filho. Era uma cadeia de afeição, de compreensão, de camaradagem. Contei a meu filho o que o pajé me disse aquela noite em sua oca a respeito do tempo, da morte e da eterna mocidade. E o resultado de tudo isso é estar eu hoje aqui, depois de mais de quatrocentos anos, sem saber se durante todos esses quatro séculos eu fui apenas uma pessoa ou uma série de pessoas do mesmo sangue, com o mesmo espírito. Não importa. De qualquer forma não importunarei mais vocês com essa história. Para facilidade de narrativa vamos admitir que só existiu um Tibicuera: este que está agora contando as suas aventuras, que coincidem até certo ponto com as aventuras do Brasil.

16 — VI A MORTE DE PERTO

Só sei que um dia me encontrei sozinho no mato, longe de minha tribo. Caminhei todo o dia sem rumo. Ao anoitecer, cansado, dormi debaixo duma grande árvore. Um bando de vagalumes pousou no meu corpo, cobrindo-o todo. Acordei aturdido. Que era aquilo? Sonho? Ou travessura de Anhangá? Meu corpo despedia uma luz esverdeada. Saí a caminhar, assustado. Os vagalumes não me deixavam. E — apaga acende, apaga acende — pareciam estrelas brilhando no céu pardo do meu corpo.

Quando dei por mim, tinha entrado às cegas numa taba. Os índios que me viram começaram a correr e a gritar: “Anhangá! Anhangá!”

Eu corria também, atordoado. Os vagalumes continuavam a piscar. O pajé da tribo desconhecida apareceu e começou a dançar a meu redor, dizendo palavras que eu não compreendia. De repente os vagalumes levantaram o voo Caí no meio da ocara, pois os meus joelhos se vergaram de cansaço.

Vendo que eu era um homem como os outros, os índios me cercaram e me fizeram prisioneiro. Fui levado à presença do morubixaba. Ele me fez perguntas numa língua que eu não entendia.

Tibicuera sacudia a cabeça, como a dizer que não lhes era possível responder.

Levaram-me para o centro da ocara e me amarraram com fortes cipós a um poste. Acenderam fogueiras. Os índios começaram a dançar a meu redor. Eu só via caras ferozes, retorcidas de raiva. A água fervia em grandes potes em cima das fogueiras. Compreendi. Eu ia ser morto, pelado em água fervente, e devorado por aqueles homens!

Olhei para o céu. A lua estava muito calma lá em cima, como se fosse cega, como se não enxergasse a minha desgraça. As estrelas eram como vagalumes agarrados ao corpo escuro da noite.

Os tambores batiam — bum-te-bum — os guerreiros dançavam, a água fervia. O pajé falou à sua gente. Levaram-me para cima duma grande pedra. Fiquei ali com os braços ainda amarrados, as pernas moles, a cabeça zonza. Um enorme guerreiro se aproximou de mim, com um tacape na mão. Era o meu fim. Lembrei-me do meu filho, da minha primeira guerra e esperei com coragem o golpe. Havia um silêncio de morte na taba. O índio ergueu o tacape, reboleou-o no ar. Fechei os olhos. E de repente ouvi uma voz que falava de longe.

Era uma voz diferente, tão clara, tão macia e tão fresca que parecia ter saído da própria lua. Abri os olhos sem querer. O homem que ia me matar deixou cair o tacape. Todas as cabeças se voltaram para o lado donde tinha partido a voz. Da escuridão surgiu um vulto. Não era índio. Não era, nas roupagens, nem parecido com os marinheiros portugueses que eu vira havia muitos anos. Era um homem branco, todo vestido de preto. Pareceu-me tão fraco que nem teria força para erguer um tacape. Havia, porém, no rosto dele qualquer coisa que logo me conquistou. Um rosto amigo e ao mesmo tempo severo. Senti perto dele aquela mesma impressão esquisita que produzira em mim a grande cruz dos portugueses.

O homem misterioso avançou pelo meio dos índios e parou na frente do morubixaba. Disse-lhe baixinho algumas palavras. Vi o chefe da tribo baixar a cabeça e depois dobrar os joelhos e fazê-los cair por terra, aos pés do desconhecido.

Deve ser Tupã que desceu à Terra para me salvar— pensei. Senti que me faltavam as forças. Desmaiei.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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