sexta-feira, 24 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 22 *



Se alguém se torna importante,
por certo alguém o ajudou.
Mesmo o Amazonas, gigante,
de afluentes precisou.
A. A. DE ASSIS
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Pela ambição do poder,
até guerra o homem faz.
Traz a morte por não ver
que o poder está na paz.

ADÉLIA WOELLNER
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Perante a linda criatura,
cujo fascínio me inquieta,
a minha temperatura
sobe de forma indiscreta...
ALMEIDA CORRÊA
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A vida é dura, patrão,
rarissimamente bela...
Porém não há solução
senão conviver com ela.

ANTÔNIO DA SERRA
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Se as mulheres falam tanto,
o motivo é elementar:
quer no riso, quer no pranto,
têm preguiça de pensar!
ANTÔNIO TORTATO
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Na casa de uma vizinha,
na confusão me meti.
Pela porta da cozinha,
eu nem sei como sai...

ARI RODRIGUES ALVES
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Tão grande amor se notou
entre o Sinfrônio e a Raquel,
que a cegonha os visitou
em plena lua-de-mel...
BENEDITO MACHADO HOMEM
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Disseste, altivo e casmurro:
— "Não sou burro!" Não duvido.
Como tu podes ser burro,
se há tanto burro sabido?
COLBERT RANGEL COELHO
- - - - - –

Tornou-se enfim deputado
o bom maestro de outrora,
E faz, com muito cuidado,
outros arranjos agora...
ILDEFONSO DE PAULA
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Menina, toma cuidado
nesse namoro escondido,
pois talvez teu namorado
não pretenda ser marido!...
JADIR VILELA JÚNIOR
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A saia    curta,    menina,
não lhe fica muito bem,..
Assim como eu vejo tudo,
todos enxergam também!
JAIME RIBEIRO DA SILVA
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Cabeludos! Sinto, ao vê-los,
na patusca saliência,
que mostram muitos cabelos,
porém pouca inteligência...
JANE PIRES PALUMA
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Nas tuas tranças mimadas
de moça namoradeira,
como estavam humilhadas
as flores de laranjeira!
JOÃO RODRIGUES
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O cão que ladra — por isso
não morde, diz o rifão...
Todo mundo sabe disso,
disso, acaso, sabe o cão?
JOAQUIM CARVALHO
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Se o decote tanto desce
e se a saia ganha altura,
qualquer dia, me parece,
vão se encontrar na cintura!
JORGE ROCHA
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Negas a mim tuas culpas,
mas uma coisa te aviso:
— não vais chegar com desculpas
à porta do Paraíso.
JOSÉ AMARAL
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Muita gente sempre houve
com sina de couve-flor:
pouco vale por ser couve,
vale menos por ser flor...
JOSÉ AUGUSTO RITTES
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No ciúme só se enleia
quem gostar de mulher bela;
quem casar com mulher feia
não terá ciúmes dela!
JOSÉ COELHO DE BABO
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Menina, é bom você note
como o sol está vermelho
por causa do seu decote
que desce até no joelho.
JOSÉ COUTINHO DE OLIVEIRA
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Quem tem sonhos hoje em dia
nunca perca a esperança.
Diz velha sabedoria:
"Quem espera sempre alcança".

JOSÉ FELDMAN
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O Chico, simplório, asnático,
vai lendo as trovas de alguém.
E ao final exclama, estático:
— Como ele troveja bem!
LAURO SILVA
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Quando o amor é só desejo
e doida alucinação,
nesse caso, nem um beijo
resolve a situação!...
LÉA PINTO CORDEIRO
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Primeira noite... pijama,
camisola de babado...
Ela acordada na cama,
tudo o mais... desacordado!

LUCÍLIA A. T. DECARLI
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Homem casado não logra
harmonia conjugal,
se tiver em casa a sogra
dando lições de moral...
MANOEL ABRANTES
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A janela de teu quarto
fica bem defronte à minha.
Tua sombra na vidraça
nunca vi passar sozinha...
MANOEL ROSA BARENCO
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Há coisas que não aguento,
difíceis de se entender:
tanta cabeça de vento,
com letreiro de saber!
MARIA DA COSTA LAGE
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Quem se gaba de valente,
neste verso bem repare:
— Nunca vi homem sem capa
que da chuva não dispare.
NEMAR GIL LIMEIRA
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Para esquecer-te, menina,
junto a ti eu me condeno.
É como na medicina:
— veneno mata veneno.
NEMÉCIO CALAZANS
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Isto acontece amiúde
na vida de muita gente:
bebendo muito "à saúde",
ficar em breve doente.,.
NENÊ CARVALHO
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Minha vizinha — que coisa! -
anda sempre prevenida:
tem língua, olhos, ouvidos
cuidando da minha vida.
OSMAR SILVA
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Perdão, senhora, se falo
das mulheres com ironia.
— Quem já caiu de cavalo,
cavalo algum elogia...
PAULO EMÍLIO PINTO
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Eu não troco o meu feitiço
por um feitiço qualquer;
meu charme eu não desperdiço:
meu feitiço é ser mulher!

ROZA DE OLIVEIRA
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Nos acordes da poesia,
versos de muito valor
traduzem a nostalgia
do peito de um trovador.

SÕNIA MARIA DITZEL MARTELO
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Eu sonho no meu viver
e vivo no meu sonhar...
Na saudade o reviver,
no presente o caminhar...

VIDAL IDONY STOCKLER
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Estando o pobre em jejum,
ante o despacho, sem mofa,
após dizer: "Salve Ogum!"
leva a galinha e a farofa...
WILSON MONTEMÓR

Fontes:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972
A. A. de Assis. Revista Virtual de Trovas "Trovia". n. 129 - setembro de 2010.

Eduardo Martínez (Rita, a mamãe coruja)


Rita acordou eufórica, olhou para o lado da cama, onde o marido, barrigão pro teto, roncava sem dó nem piedade. Nem ligou, não era aquilo que tiraria a alegria do seu domingo, dia de comemorar o primeiro mês do Osvaldinho, o filho que tanto desejou depois de tantas e tantas tentativas frustradas. 

Levantou ligeira, silenciosa como uma gata, como se possuísse almofadas nos pés. Foi até o berço ao lado, onde o pequenino ainda adormecido, como se nem desconfiasse que a vida não é apenas feita de peitos jorrando leite. Nada como a inocência dos primeiros momentos fora da placenta!

A mãe de primeira viagem passou boa parte da manhã arrumando os últimos detalhes para o tão esperado evento. Por um bom tempo, teve que dedicar atenção quase exclusiva ao filho, apesar da insistência do marido, o Osvaldão, que como se fosse ainda menino, recorria a olhares tristonhos e bicos para ganhar mais uma lata de cerveja, enquanto permanecia com o traseiro pregado ao sofá diante da televisão. 

Às 16h, os convidados começaram a chegar. Não muitos, já que Rita não havia se dado conta do feriado prolongado, quando várias amigos viajaram para a praia. Seja como for, ela não se cansava de carregar seu bebê no colo e, toda orgulhosa, o exibia para todos.

– Não é lindo demais o meu Osvaldinho?

Todos, sem exceção, concordavam com um aceno de cabeça, às vezes até mesmo com um largo sorriso, o que só aumentava o estado de euforia da Rita. Certa ela estava que o Osvaldinho era mesmo o menino mais lindo do mundo. Um príncipe!

A festa ia avançando, as pessoas se despedindo da anfitriã, carregada de uma boa dose de alegria materna, enquanto o Osvaldão, ainda com os gordos glúteos pregados ao sofá, tentava acertar a boca com mais um gole de cerveja. Enquanto isso, o Osvaldinho descansava o sono dos inocentes lá no seu berço esplêndido.

Solange e Augusta, duas amigas de longa data da Rita, já estavam na esquina, quando começaram a conversar sobre a festa.

– Já fui a velórios mais animados.

  – E você viu aquela coxinha toda cheia de óleo? Vou ter que tomar um remédio pro fígado,

– E o Osvaldinho? Que menino mais feio! Será que a Rita tá ficando cega?

– Solange, por acaso você já viu uma coruja achar o filho feio?
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    O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

José Feldman (Confusões para todos os gostos)


O Valdir estava arrumando as prateleiras de ração quando ouviu o sino da porta tocar com um som tão forte que quase derrubou o copo de água na balcão.
 
— Bom dia, senhora! Como posso aju… — começou ele, mas parou de vez ao ver dona Maricota com o gato Mimo dentro de uma bolsa de compras rosa.

— Bom dia, Valdir! Trouxe o Mimo para escolher um brinquedo novo. Ele é bem exigente, você sabe.

— Percebo. Mas… por que ele está na bolsa de compras?

— Porque a caixa de transporte quebrou na rua. É mais prático assim. — No mesmo instante, o gato espetou a cabeça por cima da bolsa e gritou um "MIAAAAAU" tão alto que fez os periquitos na gaiola estremecerem.

— Ai, meu ouvido! Ele tem voz de soprano!

— É que ele gosta de cantar. Principalmente quando está incomodado.

— E ele está incomodado agora?

— Pelo jeito, sim. — Aí, Mimo pulou de dentro da bolsa e subiu direto na prateleira dos aquários pequenos.
 
— Valdir, ele está em cima do aquário do peixe-dourado!

— Eu vejo, dona Maricota.

— E ele está mexendo com a tampa!

— Eu vejo.

— Ele vai derrubar tudo!

— Eu… acho que já derrubou. — O aquário caiu no chão com um "PLASHP" e o peixe-dourado nadou desesperadamente numa poça d’água no piso.
 
Enquanto eles corriam para pegar o peixe, entrou o senhor Epaminondas com o cachorro Melão — um bassê que parecia ter o rabo com vida própria.
 
— Olá, Valdir! Trouxe o Melão para cortar o pelo. Ele está parecendo um urso.

— Olá, senhor Epaminondas. Perdoe a bagunça, mas temos um gato na prateleira e um peixe no chão.

— Um peixe no chão? Que modernidade! Eu só vi peixe na tigela, na frigideira ou no prato.

— Não é para comer, senhor! É para salvar!

— Ah, é mesmo? Então Melão não pode ajudar não. Ele só sabe salvar ossos. — Enquanto falava, Melão sentiu o cheiro do gato e saiu correndo, puxando a coleira com tanta força que o senhor Epaminondas resvalou na poça d’água e caiu pra trás.

 — Melão, volta aqui! Meu traseiro está doendo mais que quando eu cai no quintal da vizinha!

— Senhor, não se preocupe — disse Valdir, tentando segurar o cachorro — ele só quer brincar com o gato.

— Brincar? Ele brinca como um torneio de luta livre!

— É verdade, dona Maricota. Ele quase quebrou a minha cadeira semana passada.
 
Naquele momento, chegou uma jovem chamada Lara com um coelho branco na caixa de transporte.
 
— Oi! Venho comprar ração para o Nuvens. Tem ração de coelho que não seja tão seca? Ele é meio caprichoso.

— Oi, Lara. Claro que tem, mas… cuidado com a caixa, que aqui está um pouco…

— Um pouco o quê? — A caixa escorregou das mãos dela e abriu. O Nuvens pulou para fora e correu direto para o saco aberto de sementes para pássaros.

— Meu coelho! Ele está comendo sementes! Vai ficar cheio de penas?

— Não, Lara, ele não vai ficar com penas. Mas pode ficar com barriga cheia.

— E ele está indo para a gaiola dos periquitos!

— Ai, não! — gritou dona Maricota — os periquitos vão voar pra todos os lados!
 
E foi exatamente o que aconteceu. Os periquitos, assustados com o coelho na grade, começaram a voar em círculos, soltando penas por toda parte. O gato Mimo, vendo o caos, pulou da prateleira e foi atrás do Nuvens. O Melão, latindo de alegria, foi atrás do Mimo. E o senhor Epaminondas, de pé mas com a calça toda molhada, foi atrás do Melão.
 
— Valdir, ajude-me! O Mimo está tentando pegar o Nuvens!

— Eu estou tentando, dona Maricota! Mas o Melão está na frente!

— O Melão está na frente porque o senhor Epaminondas não consegue segurá-lo!

— Eu não consigo segurá-lo porque ele é mais forte que um cavalo!

— Cavalo? Ele é um bassê! É menor que o meu gato!

— Menor, mas mais bravo!
 
Valdir, que já estava com penas na cabeça e água na camisa, pegou um saquinho de petiscos para gato e balançou:
 
— Mimo! Venha aqui, tem bolinha de frango!

— Ele adora bolinha de frango! — disse dona Maricota. O gato parou de correr e veio devagar até eles.
 
Depois, Valdir mostrou um biscoito grande para o Melão:
 
— Melão! Venha, tem biscoito de carne!

— Ele não resiste a biscoito de carne! — gritou o senhor Epaminondas. O cachorro sentou na hora, educado.
 
E para o Nuvens? Valdir pegou uma cenoura fresca e estendeu:
 
— Nuvens! Venha, tem cenoura docinha!

— Ele ama cenoura! — disse Lara. O coelho parou e foi lamber a sua mão.
 
Os periquitos, já calmos, voltaram para os poleiros. O peixe-dourado foi colocado em um aquário novo. A poça d’água foi limpa e as penas varridas.
 
— Puxa vida… — suspirou Valdir — hoje a loja foi mais confusa que um filme de comédia.

— Confusa? Para mim foi um terror! — disse dona Maricota — o Mimo quase quebrou tudo.

— O meu Melão quase quebrou meu quadril! — completou o senhor Epaminondas.

— E o Nuvens quase se transformou em um pássaro! — riu Lara.
 
— Da próxima vez, trago o Mimo na caixa de transporte nova — disse dona Maricota.

— Da próxima vez, deixo o Melão em casa com a mulher — disse o senhor Epaminondas.

— Da próxima vez, trago o Nuvens em uma caixa que não escorrega — disse Lara.
 
— E da próxima vez, eu vou colocar uma placa na porta: "Atenção: loja sujeita a imprevistos" — riu Valdir.
 
Todos saíram com o que precisavam e uma história para contar. E Valdir, ao fechar a loja, pensou: "trabalhar com animais nunca é chato — e isso é o melhor de tudo."
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      JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.)

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 3: Abraço


Caminhando a humanidade
buscando a luz da união...
Haja o abraço da igualdade,
paz do mesmo coração.
José Feldman – PR

A cidadania começa com um abraço. O abraço é uma poderosa expressão de afeto. É o corpo falando sua linguagem particular para transmitir emoção. Não existe gesto mais significativo. É um estender de mãos e braços que nos envolve e nos aproxima. Infelizmente, o mundo da tecnologia e a relação fetichista com as coisas que esta produz, torna o abraço um gesto cada vez mais raro.

Hoje é simples ir à Lua,
fica ali... basta um voozinho.,,
Proeza é cruzar a rua
para abraçar o vizinho!
A. A. de Assis - PR

Mas o abraço é aconchego, abrigo, amizade. Pode ser um antídoto à tristeza, à solidão. Estender os braços, abraçar alguém, significa proteção e acolhimento. Faz parte da nossa cultura. Braços abertos remetem a uma origem natural e biológica, remetem à mãe que abriga o filho. É o que recomendam os nossos trovadores.

Abraço, expressão de afeto
que sintetiza amizade;
gesto de emoção repleto
de amor e fraternidade.
Gonzaga da Silva - RN

Minhas trovas são abraços.
Mil braços vou abraçar
nos mil infinitos laços
que a trova sabe engendrar.
Roza de Oliveira - PR

Um abraço com frequência
sempre muito amor nos traz,
ele destrói a violência,
constrói um mundo de paz!
Maria da Graça Stinglin de Araújo - PR

A amizade verdadeira
é infinita como o espaço,
mas se estreita e cabe, inteira,
nos limites de um abraço.
Waldir Neves - RJ

Se os elos de nossos braços
não mais se unirem na vida,
seremos sempre pedaços
de uma corrente partida.
Cezário Brandi Filho - MG

Um abraço carinhoso,
em qualquer situação,
é remédio milagroso...
Não tem contraindicação!
Istela Marina de Souza Gotelipe Lima – PR

O abraço bem apertado
encerra terna magia,
é belo gesto de agrado,
sentimental sintonia.
Beatriz Cartaxo Cotta - MG

Quando unimos nossos braços,
aos braços de outros irmãos,
sentimos que os nossos laços
enfrentam todos os nãos!
Gislaine Canales - RS
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor)

Laé de Souza (Maluco Beleza no emprego)


Dona Marieta chamou: “Ciro, senta aqui perto que eu quero conversar com você!” 

Maluco Beleza sabia que a conversa devia ser séria, pois a mãe, quando o chamava pelo nome e não pelo apelido, a coisa era pra valer. Encaminhou-se para ela, alisando a barba, pediu com jeitinho: “Me chama de Maluco Beleza, vai” e sentou-se no chão, colocando a cabeça no colo da dona Marieta, que não resistiu e lhe fez um cafuné. 

Feito o carinho, ela passou a lhe explicar da necessidade de ele arranjar colocação numa empresa. Aquela situação de uma coisa aqui, outra lá, recebe, gasta, não tinha futuro. “Tu fica pra lá e pra cá, zanzando; quando aparece algum servicinho, tu faz e, depois, fica um tempão sem nada. O melhor é uma coisa contínua”, dizia a mãe. 

Maluco Beleza assentiu e dona Marieta falou-lhe da vaga de garçom no restaurante, onde trabalhava o seu primo, que daria uma força, recomendando-o junto ao patrão.

Maluco Beleza, rapazinho obediente, concordou com a mãe, que aproveitou para lhe pedir que cuidasse do seu jeito de apelidar os outros. O garoto, como ninguém, tinha um vício incurável de colocar alcunha nas pessoas. Onde quer que estivesse, todos que cruzassem pelo seu caminho eram apelidados. Era Mosquito, Espetadinho, Queixo Duro, Pescocinho e, quando já tinha utilizado o apelido e não houvesse outro mais adequado, era Ratinho 3, Pelé 36, Clodovil 9, Xuxa 12. Muita gente já fora apelidada pelo Maluco Beleza (ele próprio se apelidou), mas essa mania o meteu em muitas enrascadas.

Começou o Maluco Beleza no restaurante e, no segundo dia, do cozinheiro ao dono, todos já tinham seus apelidos. Aos poucos, foi falando o de um para o outro e arranjou umas encrencas. A faxineira não gostou nada de ser chamada Sebosa e se queixou com o marido que foi tirar satisfação com o Maluco Beleza. 

O fulano - que foi apelidado pelo Maluco Beleza de Touro Bravo, em pensamento, claro – chegou esbravejando e afim de partir para a briga. Conseguiram amenizar, com a promessa do Maluco Beleza de que iria parar com a história. Por sorte, o patrão não estava e o gerente ainda não sabia que já ganhara o apelido de Bolão 131. Repreendeu-o e ficou por isso mesmo.

Os pedidos do Maluco Beleza para a copa eram passados assim: “Espoleta, manda um filé à milanesa para o Cebolinha da mesa 34; Pelezinho, tira um chope para o Cabeça de Mola; um suco de abacaxi com gelo para a Xuxa 17; mais uma coca para o Pimentinha 3 da mesa 21."

O Maluco Beleza apelidava não só os seus clientes, mas também os dos outros. Olhava por todo o restaurante e, em um ou outro cliente, demorava um pouco mais o olhar, procurando o apelido mais apropriado. Levava umas encaradas de alguns e procurava disfarçar. 

Mas, foi num dia em que o Maluco Beleza falou para o outro garçom: “O Gigante é meu, deixa que eu atendo”, que a coisa pegou feio. Foi um descuido; o cliente tinha um ouvido apurado. O Gigante pegou o Maluco Beleza pelo pescoço e levantou-o a um palmo do chão. 

Concordo com o Maluco Beleza, o homem era um gigante mesmo. O proprietário interferiu, e o homem, cliente antigo, em consideração ao dono soltou e empurrou o Maluco Beleza que caiu de pernas para cima. 

No chão, gesticulando, gritava: “Não esquenta, não, seu Testão, que eu arrebento ele na capoeira." 

Levou um sopapo por conta do Testão, e o patrão, esquecido da sua posição, chamou o Gigante para ajudar a enxotá-lo do restaurante.

Lá fora, voz miúda, Maluco Beleza pedia ao outro garçom: “Me traz um copo d’água com açúcar, Pirilampo”.
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O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infanto-juvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fonte:
Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018.

Geraldo Pereira (Conversa de Fim de Noite)


Em mureta de contorno de prédio construído em dias da modernidade já, no Bairro do Recife, onde tudo remete ao passado, a velha prostituta fiava conversa com parceiro igualmente antigo, revivendo outros tempos. De cabelos ralos e louros, às custas da milagrosa água que doura o piloso manto feminino, dando graça às moçoilas em flor, vestiu-se com o melhor do que dispunha e se cobriu com longo casaco de frio, prevenindo-se do malfadado vento encanado, nascido nas entranhas do porto. E com uma toalha muito usada de se enxugar no banho recobriu as pernas, isolando-se dessa forma do mundo todo. Tinha a pele vincada pelas marcas dos caminhos e dos descaminhos, sulcos dos espinhos sem a trajetória dos ganhos. Mesmo assim recebeu o senhor de tez negra, vindo por certo das periferias urbanas para aquele centro citadino, recuperado graças às interveniências do alcaide, acolhendo-o na sala de visitas do recanto, um canto de muitos encantos. Viajaram no tempo, em busca das histórias vividas e revividas naquele instante mágico do reencontro, aprazado às vésperas, para que fossem recuperadas, na distância dos anos passados, vivências e convivências a dois, na alegria sepultada agora em tumba das saudades. Lembravam de tudo, das ambiências e dos amores, das músicas e das dores, dos afetos e dos desafetos, de afagos até, nascidos no embrionar dos sentimentos, ao som da música lenta ou dos acordes de um tango qualquer.

Testando o velho parceiro, a sua memória dos tempos idos e a sua capacidade de fixar momentos, indagou se lembrava em detalhes das noites no Chanteclair? Ora, respondeu, como esquecer daquilo tudo, da radiola de fichas tocando, dos pares se abraçando em rodopios no salão e das escapadelas aos quartos, para um quarto de hora que fosse, nos enlaces desses amores de ocasião! Jamais! Tanto é, complementou, que antes de estacionar o veículo de que se vale nesses dias que correm, depois de anos e mais anos de trabalho, circulara por lá, nas imediações da velha casa, sem poder ouvir os acordes dos antanhos, exauridos como estão nos ares das lembranças. Mas, deixou o toca-fitas do carro executar Gardel! Escutou a tudo com a atenção que a ocasião exigia, sentindo uma lágrima rolar pelo canto da face e pôde reviver os anos! Pôde rever marinheiros vestidos com a pureza do branco, tomando pelas mãos as damas de então e no largo salão das danças marcando os passos do ritmo, em amplexos precursores dos gestos, dos fatos e dos atos sobretudo. Onde andará toda essa gente, perguntou? Aparecem por cá, vez ou outra, como fazia ele próprio, ampliou a indagação? Não, senão raramente, respondeu a mulher! Muitos estão postos no muro das lamentações, tomados pelos achaques da vida e outros aposentados do tudo e do todo, dispensados assim dos outroras da vida!

E as companhias femininas daqueles anos, indagou mais uma vez? Desejava recompor as cenas, buscando nas coxias do hoje figurantes tão ativos de alegres encenações. Sabia de uma ou de outra, apenas! De Maria da Anunciação tivera conhecimento de logo, quando nos idos de sessenta deixara a casa e a zona por Antônio Maria, embarcadiço de passagem, enlouquecido pelo porte da morena matreira! Mulher de feições largas, rechonchuda de corpo, fazia com as cadeiras o acompanhamento cadenciado da música solta nos ares, de um bolero que fosse, como se de seus quadris emergisse a batuta de um maestro ou de um samba moroso, parindo saudades! E Maria Pureza, acrescentou, que só tinha pureza no seu sobrenome? Merecedora do cognome porque pecava, mas pagava a penitência, devidamente, segundo os preceitos e dentro do que lhe mandava o cura da Matriz. Contava ajoelhada as proezas todas das noitadas na zona, incitava até a certos devaneios o jovem padre, mas aguentava o repúdio das leis, feitas pra reis, dizia muitas vezes, não para a fragilidade da carne de mulheres simplórias, como ela mesma. Casara, soubera, fixando-se em cercanias do Mercado Público pras bandas de Afogados e no bairro não aparecera mais, apagando as lembranças e as faltas!

E quando a hora avançou, o parceiro de velhos e já muito distantes anos levantou-se. Afinal, tinha casa e tinha filhos, grandes é bem verdade, barbados todos, mulher a quem cuidar e netos a quem mimar! Tirou do carro um saco de pipocas e deu à companheira de seu passado, ligou o motor, manobrando o veículo e lá se foi, para a rotina da vida. A loura se assentou no banco da praça, enrolando-se, mais uma vez, com a toalha de banho e tirando as pipocas do saquinho, uma por uma, mastigou a solidão desadorada, lentamente! Pra não se dar por vencida ou pra não perder os hábitos daqueles antanhos, chamou pelo nome o flanelinha da esquina, menino nos seus vinte anos, convidando-lhe ao deleite de sua alcova carcomida, mas de todas as experiências. Dispensou resposta e só, sempre só, aguardou o movimento exaurir-se, para se exaurir também na finitude de seus tempos!
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O médico e escritor GERALDO JOSÉ MARQUES PEREIRA foi uma das figuras mais proeminentes da vida intelectual, acadêmica e científica do estado de Pernambuco. Nasceu em 1944, na cidade de Recife/PE e faleceu em 2015, aos 70 anos de idade, na cidade natal, em decorrência de complicações provocadas por doença pulmonar obstrutiva crônica.  Passou toda a sua vida e concentrou suas atividades residenciais e profissionais na capital pernambucana. Ele era filho do renomado jornalista e escritor Nilo Pereira. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1968, onde posteriormente também obteve seu título de mestre em Medicina Tropical. Foi professor titular de Patologia e Medicina Tropical da UFPE. Na área administrativa da instituição, ocupou os postos de diretor do Centro de Ciências da Saúde, chefe do Departamento de Medicina Tropical e fundador do Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (NUSP). Exerceu o cargo de vice-reitor da UFPE por oito anos (entre 1996 e 2004) e chegou a assumir a Reitoria em exercício durante o ano de 2003. Atuou fortemente na gestão de saúde do estado, integrando a Comissão Estadual de Saúde e a Comissão Científica de Combate à Dengue em Pernambuco.
Geraldo Pereira uniu de forma brilhante a ciência médica à paixão pelas letras. Teve uma intensa produção intelectual focada em crônicas, ensaios historiográficos e biografias. Membro da Academia Pernambucana de Letras (APL) desde março de 2011, exercia a função de vice-presidente da instituição no período de sua morte. Membro efetivo da Academia Pernambucana de Medicina (APM), instituição da qual também chegou a ser presidente. Membro ativo da seção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores (UBE), membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), onde atuou como membro suplente do conselho fiscal e colaborador assíduo de pesquisas históricas. Embora sua maior distinção tenha sido o reconhecimento institucional imediato e a eleição para as principais academias do estado de forma unânime por seus pares, suas produções científicas e ensaios históricos acumularam distinções e condecorações de mérito universitário e cultural em Pernambuco.
Sua escrita dividia-se entre a literatura humanista e os resgates documentais. Dentre as suas frentes de publicação destacam-se: 1. Ensaios profundos sobre a História da Medicina em Pernambuco (focando especialmente no período seiscentista e na influência holandesa sobre as ciências naturais, botânica e zoologia no estado); 2. Coletâneas de crônicas e artigos de opinião publicados regularmente em veículos de grande circulação, como o Jornal do Commercio; Textos biográficos sobre grandes vultos da ciência e da política pernambucana, além de poemas íntimos (alguns escritos inclusive em seus dias finais de internação).
A relevância de Geraldo Pereira reside na sua capacidade de atuar como um historiador da ciência e da sensibilidade. Em uma época de crescente especialização técnica, ele resgatou a tradição dos "médicos-humanistas". Suas pesquisas minuciosas sobre o século XVII em Pernambuco preencheram lacunas cruciais na historiografia local, conectando elementos de sociologia, artes e medicina social. Além disso, como gestor e acadêmico, transformou as instituições literárias em polos de preservação da memória cultural do Nordeste.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Biografia = Acata Médica, Academia de Letras do Pernambuco, Diário de Pernambuco, Wikipedia, Folha de São Paulo (cotidiano), etc.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Asas da Poesia * 205 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ouço ainda, ao longe, o canto
de um velho carro de boi...
Lembrança de um tempo e tanto,
que há tanto tempo se foi!
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Soneto de
MANUEL BOCAGE
(Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage)
Setúbal/Portugal, 1765 – 1805, Lisboa/Portugal

Apenas vi do dia a luz brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá em Setúbal no empório celebrado,
Em sanguíneo caráter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
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Sextilha Agalopada de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Ninguém quer sucumbir em luta inglória,
por mais tosca que seja sua lança,
porque a vida é um tesouro inestimável
que no campo dos sonhos se balança,
e por ela assumimos neste mundo
as melhores promessas de esperança.
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Aldravia de
AUXILIADORA DE CARVALHO E LAGO
Belo Horizonte/MG

fugitivo
solitário
é
meu
coração
sagitário
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Soneto de
PADRE MANUEL ALBUQUERQUE
(Manuel Rebouças e Albuquerque)
São Felipe (hoje Eirunepé)/AM 1906 – 1977, Rio de Janeiro/RJ

Prova Infalível

Quando eu soltar meu último suspiro;
quando o meu corpo se tornar gelado,
e o meu olhar se apresentar vidrado,
e quiserdes saber se inda respiro,

eis o melhor processo que eu sugiro:
—  Não coloqueis o espelho decantado
cm frente ao meu nariz, mesmo encostado,
porque não falha a prova que eu prefiro:

— Fazei assim: — Por cima do meu peito.
do lado esquerdo, colocai a mão.
e procedei, seguros, deste jeito:

—  Gritai “MARIA!” ao pé do meu ouvido,
e se não palpitar meu coração,
então é certo que eu terei morrido!
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Poema de
JORGE FILÓ
Recife/PE

Idas e Idas

Nunca é tarde a partida
E sempre cedo é a ida
Pra quem um fio de vida
Servia de inspiração
Cada gole um novo tema
Em cada trago um poema
Tudo dentro do esquema
Sem dar-se trela à razão.

Vai-se cedo mais um forte
Sem precisar de transporte
Nessa bússola sem norte
Sem que se saiba o destino
Na visão do indeciso
Viaja sem dar aviso
Pois num instante impreciso
Bate o derradeiro sino.
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Spina de
CLEUSA PIOVESAN
Capanema/PR

Saldo Final 

Velhice sem idade,
Idade sem traumas,
Medo? Só sobreviver.

Saldo de noites mal dormidas,
Bem vividas em poesia insone,
Instigam minha ânsia de viver.
Tive amores, paz, medo, dores...
Tenho benção de não esquecer!
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Acróstico* de
ANTONIO CABRAL FILHO
Jacarepaguá/RJ

Acróstico Rimado

Agora eu preciso ver
Como a jiripoca chia,
Riscar e não escrever
O que a caneta exigia;
Sair por aí sozinho
Tonto como a vaca louca,
Irritando meu vizinho
Com mais outro bate-boca,
Ou então cair de quina
Rumo à terra do Drummond
Inventando um mal na esquina
Mais que a dona Trianon,
Ainda que a mesma seja
Dependente de cerveja
Ou eu cumpra minha sina.
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Soneto de
LUIS VAZ DE CAMÕES
Coimbra/Portugal, 1524 – 1580, Lisboa/Portugal

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se d'uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio
Que d'uns e d'outros olhos derivadas
S'acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
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Trova Premiada do
PROFESSOR GARCIA 
Caicó/RN

Cadeira velha, esquecida, 
sem dono e sem mais ninguém… 
Só a saudade atrevida 
reclama a ausência de alguém.
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Poema de
CLEVANE PESSOA
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG

Lunar

Nasci sob teus signo e sinais.
Se estou em solidão, recolho-me minguante,
à míngua de carinhos entressonhados
ou já vividos...
Se a esperança acena sua mãozinha de jade
alegro-me,  permito-me imaginar, crescente...
Quando empobreço de cansaço, perdas e ausências,
visto-me de dourado, alma nua,
em campo aberto, deixo que tua luz me envolva,
vestido longo e fascinante,
seda pura...
E então, volto a bailar...
Quando engravido,
meu corpo é semi=plenilúneo,
ventre túmido, imenso.
E nasce um novo ser...
Minha mente abre a porta do imaginário 
e criativa, dá à luz
tudo que nela foi gestado...
Lua, lua, sou lunar,
minha bela fada madrinha ,
inspiração perene,
rainha...
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* Acróstico  é um gênero de composição geralmente poética, que consiste em formar uma palavra vertical com as letras iniciais ou finais de cada verso gerando um nome próprio ou uma sequência significativa.

Os acrósticos já existiam na antiguidade com escritores gregos e latinos e na Idade Média com os monges. Foi um gênero muito utilizado no período barroco, durante os séculos XVI e XVII, e ainda hoje é muito utilizado por pessoas de várias faixas etárias, classes sociais e culturas diferentes.

A palavra ACRÓSTICO originou-se da palavra grega Ákros (extremo) e stikhon (linha ou verso), onde o prefixo indica extremidade, apontando a principal característica desse tipo de composição poética: as letras de uma das extremidades de cada verso vão formando uma palavra vertical. Mas as letras podem também aparecer no meio do verso.

Segundo a Enciclopédia Britânica, o acróstico é utilizado desde a antiguidade, inclusive nos livros bíblicos dos Provérbios e dos Salmos.

Em português o acróstico apareceu no Cancioneiro geral (século XVI) e chegou a ser feito por Camões, no soneto CCIX, cujo primeiro verso é “Vencido está de amor meu pensamento".

Há muitas variantes: o acróstico alfabético, em que se vai enfileirando o alfabeto verticalmente; o mesóstico, em que as letras da palavra-chave aparecem no meio da composição, no final de cada primeiro hemistíquio ou início do segundo; e outras modalidades ainda mais complicadas.

Fizeram-se acrósticos em prosa, com as letras do começo de cada parágrafo, e se chegou a verdadeira mania de acrósticos nos tempos do barroco.

Os acrósticos podem ser simples, com frases, nomes ou palavras que não tenha ligação entre si, ou ainda poemas completos. Podem ser encarados como atividade lúdica, tornando-se um jogo muito interessante. Assim, uma das funções pode ser ressaltar as qualidades ou defeitos de alguém.

Pode-se dar evidência às letras em cada verso para evidenciar a quem são dedicados, ou ainda deixá-las sem evidência alguma, para torná-las secretas. Depende da intenção com que se fez o acróstico. Os acrósticos são ainda encontrados na Bíblia, principalmente nos Salmos, e em alguns poemas com o objetivo de revelar sua autoria.

Podemos dizer que o acróstico parece englobar três funções: 1) uma procura de virtuosidade própria dos poetas palacianos; 2) um caráter lúdico que designa todo um jogo de espírito sutil; 3) um certo gosto pelo secreto.

O duplo acróstico é uma composição difícil, na qual a leitura de duas séries de letras separadas forma uma frase significativa. Mas se relermos o repertório das curiosidades poéticas deparamos com o pentacróstico que repete cinco vezes a mesma palavra, em cinco partes verticais dos versos (v. Tratatus de Executoribus de Silvestre de Morais, Tome II, Lisboa, 1730, p. 11).

O acróstico dissimula a palavra, que ele dá, escondendo-a; e requer do leitor uma certa esperteza para descobrir a sua sutileza. Relaciona-se com a adivinha e liga-se logicamente com ela pois existem enigmas em verso cujo nome figura em acróstico. Um autor pode assinar com um tipo de assinatura  cifrada o seu próprio nome em acróstico.
(Fonte: Ana Paula de Araújo, in http://www.infoescola.com/literatura/acrostico