segunda-feira, 9 de março de 2026

Asas da Poesia * 159*


Poema de
ROBERT WALSER
Bienna/Suiça (1879 – 1956) Herisau/Suiça

Estrela D'Alva

Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.
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Poema de
MARIA LAURA ANDRADE LIMEIRA
Recife/PE

Inquietude

Passeio nas ruas, atravesso avenidas
Dobro esquinas, caminho nas calçadas
O tempo claro tornou-se escuro
E a chuva miúda vai espalhando
Um cheiro agradável de terra molhada...

O tempo nublado e a melancolia
Faz-me sentir triste, vazia...
Na rua, o barulho é tremendo!
Caminho apressada, com medo de tudo
Tomo um café na esquina
Arrumo o casaco, e sigo em frente...

Entro na loja e te busco entre aromas
Colônias, sabonetes, loções...
Volto para casa, escrevo um poema
Escuto aquela nossa música
Você está tão longe...

Escuto o telefone, quem dera fosse você...
Abro a caixa dos correios e não há nada lá
Tomo um banho, coloco o nosso perfume
Entro no quarto e deito-me à relaxar
Mas tua foto sorri na cabeceira da cama
Deixando-me nervosa a me desequilibrar...

A noite adentrou na madrugada
E a cidade lá fora continua nublada
Há muito a saudade só atormenta
Roubando-me a paz, deixando-me insone
Fazendo-me zanzar para lá e para cá
Deixando-me inquieta pelos cantos da casa
Nos recantos que há...
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TROVA POPULAR

Quem me dera ser a seda,
depois da seda o cetim,
para andar de mão em mão,
as moças pegando em mim!
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Saudades do amigo violão seresteiro

O violão me chama todo dia!
É meu AMIGO, quer meu forte abraço;
dou-lhe meu colo e a boca, quem diria:
para deitar, primeiro dou meu braço.

Passo-lhe as mãos no corpo...Que alegria!
Para agradar-lhe quase tudo faço...
Testar tarraxa, bem baixo, é mania!
Em cada corda tiro o tom, compasso...

Bem baixinho, pra nós dois são cantados
boleros, fados, valsas,  rock, canções!
Apaixonados pelos sons mostrados...

Olhos nos olhos, frente à frente vemos
composições famosas, que em lições
nos dão prazer que a vida toda temos.
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Trova do
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Alguns irmãos trovadores,
que se dizem tão... irmãos,
possuem tantos rancores,
que nem sequer dão as mãos.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Santo Antonio do Monte/MG

Reza

Abre-me os espaços, Senhor
No compasso das estrelas
Ilumina-me passos e janelas
Com velas e facho de sol
Mergulha-me em riacho limpo
Traze-me do "olimpo" caravelas cheias
Espanta-me as sentinelas da fome
Que consome o olhar da minha gente!
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Se põe pijama listrado,
de "zebra" a mulher o chama...
E alguém explica ao coitado:
"Zebra...é um burro de pijama"!
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Soneto de
VINÍCIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro/RJ (1913 – 1980)

Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
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Spina de
ZEZÉ DE DEUS
Contagem/MG

Fez-se de surdo

Crédito não lhe
davam, era tido
como um sonhador.

Jamais deu ouvidos a falas
contrárias; sempre firme nos seus
ideais, seguiu com bastante fervor.
Ao final comemorou, conquistou a
coroa, sorriu; venceu todo torpor.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO 
(Vicente Augusto de Carvalho)
Santos/SP (1866 – 1924)

Soneto da Defensiva

Enganei-me supondo que, de altiva,
Desdenhosa, tu vias sem receio
Desabrochar de um simples galanteio
A agreste flor desta paixão tão viva.

Era segredo teu? Adivinhei-o;
Hoje sei tudo: alerta, em defensiva,
O coração que eu tento e se me esquiva
Treme, treme de susto no teu seio.

Errou quem disse que as paixões são cegas;
Veem... Deixam-se ver... Debalde insistes;
Que mais defendes, se tu' alma entregas?

Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes)
Que tu, negando o amor que em vão me negas,
Mais a ti mesma do que a mim resistes.
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Trova Premiada em Blumenau/SC, 2016, de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

A vida, enigma estupendo,
com amor, comédia e drama,
com cuidados vai tecendo
uma fantástica trama.
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Poema de
ANUAR FARES
Barbacena/MG

Canto Festivo ao Amor Novo 

Nasceram palavras novas para o amor novo.
Nasceram ternuras novas para o amor novo.
Outros gestos surgiram
E morreram todas as saudades.
Nada houve antes dele e nada haverá depois.
Meus nervos hoje despertaram
E não mais irão adormecer.
Quando houver dias tristes e eu não os verei.
Quando houver dias alegres eu os sentirei melhor.
Todas as noites serão propícias.

Aleluia, porque chegou o grande dia do meu amor novo!
Serei panteísta.
Saberei cantar cousas festivas.
Serei simples e bom como S. Francisco.
Então os pássaros me entenderão.
Os meninos se acercarão de mim:
- A benção, poeta.
- Deus vos abençoe, crianças lindas.

Aleluia!
Hoje é o dia do meu amor novo.
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Sextilha de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

Vou vivendo feliz e bem contente
porque Deus me deu mais do que mereço;
deu-me a lira e a pena do poeta
que é um prêmio dos céus e de alto preço,
pois com ele eu transformo cada dia
num feliz e profícuo recomeço.
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Hino de 
ARAUCÁRIA/ PR

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Vem de longe o teu nome pioneiro
Teu passado remoto e feliz
Tens a fama do altivo pinheiro
Fostes chão dos briosos tinguis

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Vem de longe romântica era
A tua história tão plácida enfim
És aquela gentil Tindiquera
Para nós que te amamos jardim

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Ainda ontem num sonho fecundo
Pura e simples quanto hoje ainda és
Mais desperta pras lutas do mundo
Sobre a argila que dorme aos teus pés

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Sim despertas de um plácido sonho
Tuas culturas tem viço e frescor
Sob o braço do altivo colono
Hoje cantas um hino ao labor

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Sim despertas valente operária
Sempre moça e mais linda só tu
Que o progresso te chame Araucária
Nos murmúrios do manso Iguaçu

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná
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Poema de
GRAÇA GRAÚNA
(Maria das Graças Ferreira)
São José do Rio Campestre/RN

Escritura ferida
(à Florbela Espanca)

Atiram mil pedras
na charneca em flor.

Ossos do ofício:
no mais fundo do poço
retirar o poema
encharcado de mágoas.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A lebre e as rãs

Muito alapada, cismando,
Deixou-se a lebre ficar.
Quem vive só numa toca
Por força que há de cismar.

Ralava-a susto e tristeza,
Por isso entre si dizia:
«Quem veio ao mundo com medo
Não tem hora de alegria.

Nada me luz nem me sabe,
Meus passos vagam incertos,
E sou tal que, até dormindo,
Durmo com os olhos abertos!

É ter emenda! — convenho;
Mas quem é que a pode dar?
Neste ponto há de haver homens
Que me estejam muito ao par.»

Assim ponderava a lebre,
De olho vivo e orelha fita.
Se uma sombra ondula, treme,
Qualquer murmurinho a agita.

Eis que ouvindo um rumor leve,
Ao covil corre açodada.
No caminho havia um brejo
Onde as rãs tinham morada.

Estas mergulham de chofre,
Nas lapas buscando abrigo.
«Pois também eu causo medo,
Trazendo-o sempre comigo?

Pus o campo em debandada,
Em volta paira o terror!...
Não há poltrão neste mundo
Que não ache outro maior!»
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José Feldman (Sombras da Vida)


O bar de esquina, onde a luz pisca num tom âmbar cansado, estava vazio, exceto por uma mesa redonda ao fundo. Ali, quatro figuras se encaravam sobre copos de intensidades diferentes.

O Desânimo girava o gelo no copo com um dedo pálido. Ele usava um casaco cinza três tamanhos maior, como se o próprio tecido estivesse desistindo de manter a forma.

— Por que diabos nós marcamos isso? — resmungou ele, a voz arrastada como lixa em madeira velha. — O esforço de subir essa ladeira quase me convenceu a ficar deitado no meio do caminho.

A Alegria, que usava uma jaqueta amarela vibrante e parecia incapaz de piscar sem sorrir, deu um tapa sonoro na mesa, fazendo o gelo do Desânimo pular.

— Ora, Des, pare com isso! É o nosso encontro centenário! Olhe para este lugar, tem um charme... rústico! — Ela gesticulou para a parede descascada como se fosse uma obra no Louvre.

— É mofo, Alegria. É apenas mofo — rebateu a Solidão, que estava sentada um pouco mais afastada da borda da mesa. Ela usava um cachecol azul marinho que subia até o queixo e segurava uma taça de vinho tinto com uma elegância silenciosa. — Mas o mofo tem o seu valor. Ele não exige companhia para crescer.

— Mas nós exigimos! — interveio a Esperança, que tinha olhos que pareciam refletir uma luz que não vinha de nenhuma lâmpada do bar. Ela segurava uma xícara de café quente, o vapor subindo como uma promessa. — Se não nos encontrarmos de vez em quando, os humanos lá fora perdem o equilíbrio. Se um de nós domina a mesa por muito tempo, a história deles vira um rascunho mal escrito.

O Desânimo soltou um suspiro profundo, daqueles que parecem esvaziar os pulmões de toda a cidade.

— Eles já estão exaustos, Esperança. Você vende um produto que eles não podem pagar. Ontem, um rapaz olhou para o currículo e depois para o teto por quatro horas. Eu sentei no colo dele. Foi confortável. Nós dois apenas... fomos.

— E por que você não me deixou entrar? — perguntou a Alegria, inclinando-se para frente, os brincos balançando. — Eu estava logo ali, na notificação de um vídeo de gato que um amigo mandou pra ele! Eu tentei, juro que tentei!

— Ele não precisava de um vídeo de gato — disse a Solidão, com a voz suave e profunda. — Ele precisava de mim. Precisava entender que o silêncio do quarto não era um inimigo, mas um espelho. Eu estava lá, no canto, esperando ele parar de lutar contra o vazio. Mas o Desânimo é ganancioso, ele se deita em cima das pessoas e não deixa espaço nem para o meu silêncio.

A Esperança tocou o braço da Solidão.

— Você é necessária, Sol. Mas ele precisa saber que o espelho que você segura não é o fim da estrada. — Ela se virou para o Desânimo. — E você... você é um descanso que insiste em virar residência. Isso não é justo.

— Justiça é uma palavra muito pesada para uma terça-feira — retrucou o Desânimo. — Eu só dou o que eles pedem: o direito de não sentir nada. Sentir dói. A Alegria cansa, a Solidão corta, e você, Esperança... você é a mais cruel. Você faz eles correrem maratonas com as pernas quebradas.

A mesa ficou em silêncio por um momento. O garçom, um homem que parecia ser a personificação da Paciência, trouxe mais uma rodada.

— Eu não sou cruel — disse a Esperança, a voz baixa mas firme. — Eu sou a única razão pela qual eles remendam as pernas. Eu sou o "talvez" que impede o ponto final.

A Alegria deu um gole no seu drink colorido.

— Eu acho que vocês pensam demais. Sabe o que eu fiz hoje? Uma senhora achou uma nota de dez reais no bolso de um casaco de inverno. Foi um brilho puro! Três segundos de "uau!". Foi simples, foi leve. Por que tudo tem que ser uma tragédia existencial com vocês?

— Porque dez reais não pagam o aluguel da alma, Alegria — disse a Solidão, voltando seu olhar para a janela escura. — Eles me buscam quando os dez reais acabam. Eles me buscam quando você vai embora e deixa aquele eco barulhento na sala de estar.

— Eu não deixo eco! — protestou a Alegria, ofendida.

— Deixa sim — confirmou o Desânimo. — Depois que você sai da festa, eu entro com o pé na porta. O contraste é o meu melhor marketing.

A Esperança levantou sua xícara, brindando ao nada.

— O segredo é que nenhum de nós ganha a discussão. Desânimo, você dá o repouso que vira tédio. Solidão, você dá a profundidade que vira abismo. Alegria, você dá o brilho que vira saudade. E eu... eu dou o caminho que, às vezes, não tem mapa.

— E o que fazemos agora? — perguntou o Desânimo, fechando os olhos, quase cochilando.

— O de sempre — sorriu a Alegria, levantando-se e ajeitando a jaqueta. — Vamos lá fora. Tem um show de comédia ruim começando em dois quarteirões, um término de namoro acontecendo num banco de praça e um artista plástico começando uma tela em branco.

— Eu vou para o banco da praça — disse a Solidão, levantando-se com graça. — O rapaz vai precisar de um tempo comigo antes de procurar a Esperança.

— Eu vou com o artista — anunciou a Esperança. — Ele está achando que não tem talento. É o meu momento favorito para sussurrar.

— E você, Des? — perguntou a Alegria, puxando-o pela manga do casaco imenso.

O Desânimo bocejou, esticando os braços.

— Vou para o show de comédia. Alguém tem que garantir que as piadas não tenham graça nenhuma para o cara da terceira fila que acabou de perder o emprego.

Eles saíram juntos do bar. 

Na calçada, as luzes da cidade brilhavam sobre as poças de chuva. Por um breve segundo, antes de seguirem em direções opostas, as quatro sombras se misturaram no asfalto, formando uma única silhueta humana, complexa, confusa e terrivelmente viva.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) Sururu na circular


Pouquíssimas pessoas devem se lembrar. Foi um dos entreveros mais assustadores até hoje acontecidos em Maringá. Se deu no ano em que aqui cheguei, 1955, num ônibus da Circular, quando os concessionários do transporte coletivo na cidade eram os Irmãos Polônio.

Começou quando, dentro de um bus superlotado, um sujeito atrevido buliu com a mulher de um sujeito zangado. O sujeito zangado não gostou do abuso e num surto de ciúme e brio partiu com socos e pontapés pra cima do sujeito atrevido. 

Num instante estavam os dois embolados no corredor, aprontando o maior auê. Os outros passageiros tentaram inicialmente desapartar a briga, mas a confusão se esparramou e num súbito todo mundo estava trocando sopapos. O motorista estacionou perto do Posto Maluf e entrou também no sururu. Os passantes paravam, formando uma multidão em redor. 

Alguém das lojas vizinhas telefonou espalhando a notícia e aí foram chegando o jipe da polícia, os carros da imprensa e do rádio, os curiosos em geral, até que apareceu o carro-pipa dos bombeiros com as mangueiras apontadas para o palco da batalha. Só então começaram a esfriar os ânimos e os passageiros foram saindo, uns empurrando os outros. Cena medonha: caras arranhadas, braços quebrados, roupas rasgadas, fotógrafos pendurados nos galhos das árvores registrando os “melhores” lances.

A Rádio Cultura ficou o resto do dia  falando do furubudum. Os dois jornais locais (O Jornal e A Hora), no dia seguinte publicaram (como de costume ampliando as dimensões) todos os detalhes do pancadoroso evento.

Só que, no meio de todo aquele forrobodó, o tal sujeito atrevido, que bulira com a mulher do sujeito zangado, aproveitou pra sumir. Queriam que ele fosse em cana pra deixar de  ser desaforado, mas no fim só quem foi levado pra prestar satisfação foi o sujeito zangado, logo porém liberado pra virar um quase-herói, com direito a dar entrevistas e ver sua foto na primeira página dos matutinos.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 18.9.2025)
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A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 8 de março de 2026

Mensagem na Garrafa 155 =Tudo que Deus faz é perfeito


AUTOR ANÔNIMO

Há muito tempo, num Reino distante, havia um Rei que não acreditava na bondade de Deus. Tinha, porém, um súdito que sempre lhe lembrava dessa verdade.

Em todas situações dizia:

- Meu Rei, não desanime, porque Tudo que Deus faz é Perfeito. Ele Nunca erra!

Um dia, o Rei saiu para caçar juntamente com seu súdito, e uma fera da floresta atacou o Rei. O súdito conseguiu matar o animal, porém não evitou que sua Majestade perdesse o dedo mínimo da mão direita.

O Rei, furioso pelo que havia acontecido, e sem mostrar agradecimento por ter sua vida salva pelos esforços de seu servo, perguntou a este:

- E agora, o que você me diz? Deus é bom? Se Deus fosse bom eu não teria sido atacado, e não teria perdido o meu dedo. 

O servo respondeu:

- Meu Rei, apesar de todas essas coisas, somente posso dizer-lhe que Deus é bom, e que mesmo isso, perder um dedo, é para seu bem! Tudo que Deus faz é Perfeito. Ele Nunca erra!!!

O Rei, indignado com a resposta do súdito, mandou que fosse preso na cela mais escura e mais fétida do calabouço.

Após algum tempo, o Rei saiu novamente para caçar e aconteceu dele ser atacado, desta vez por uma tribo de índios que viviam na selva. Estes índios eram temidos por todos, pois sabia-se que faziam sacrifícios humanos para seus deuses.

Mal prenderam o Rei, passaram a preparar, cheios de júbilo, o ritual do sacrifício. Quando já estava tudo pronto, e o Rei já estava diante do altar, o sacerdote indígena, ao examinar a vítima, observou furioso:

- Este homem não pode ser sacrificado, pois é defeituoso! Falta-lhe um dedo!

E o Rei foi libertado. Ao voltar para o palácio, muito alegre e aliviado, libertou seu súdito e pediu que viesse em sua presença.

Ao ver o servo, abraçou-o afetuosamente dizendo-lhe:

- Meu Caro, Deus foi realmente bom comigo! Você já deve estar sabendo que escapei da morte justamente porque não tinha um dos dedos. Mas ainda tenho em meu coração uma grande dúvida: Se Deus é tão bom, por que permitiu que você fosse preso da maneira como foi? Logo você, que tanto o defendeu!?'

O servo sorriu e disse:

- Meu Rei, se eu estivesse junto contigo nessa caçada, certamente seria sacrificado em teu lugar, pois não me falta dedo algum! Portanto, lembre-se sempre: Tudo o que deus faz é perfeito. Ele nunca erra!

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 3


Para criar um personagem a partir de um sentimento, você inverte a lógica: em vez de dar uma profissão a ele, você personifica a emoção. O sentimento deixa de ser algo que o personagem sente e passa a ser a lente pela qual ele enxerga o mundo.

Aqui estão três exemplos de como transformar um sentimento em um esboço vivo:

1. Partindo da Solidão

Aqui, a solidão não é apenas estar sozinho, mas a incapacidade de ser ouvido.

O Personagem: Um técnico de reparo de relógios antigos.

A Manifestação do Sentimento: Ele fala com as peças dos relógios como se fossem pessoas, dando nomes e personalidades a cada engrenagem.

O Conflito no Conto: O relógio de uma cliente para de funcionar exatamente no dia em que ela decide se mudar da cidade. Ele quer consertar o objeto "mal", para que ela precise voltar à loja no dia seguinte.

O Contraste: Ele frequenta estações de metrô lotadas apenas para sentir o esbarrão físico de estranhos, o único "toque" que recebe.

2. Partindo da Vingança

A vingança no conto funciona melhor quando é uma obsessão fria, um cálculo que consome o presente.

O Personagem: Uma ex-professora de piano, agora aposentada e com artrite.

A Manifestação do Sentimento: Ela mantém um caderno onde anota a rotina minuciosa de um antigo desafeto (alguém que a humilhou décadas atrás). Ela não quer matar a pessoa; ela quer tirar dela algo que ela ama.

O Conflito no Conto: Ela descobre que o neto do seu inimigo vai participar de um concurso de música. Ela decide se tornar a mentora anônima do rival do menino.

O Contraste: Apesar do ódio, ela ainda chora ao ouvir a música que o inimigo costumava tocar, mostrando que a vingança é o único fio que ainda a liga ao amor que sentiu um dia.

3. Partindo da Euforia (Mania/Entusiasmo)

A euforia é perigosa no conto; ela é o sentimento de quem está no topo da montanha-russa, prestes a descer.

O Personagem: Um jovem inventor que acredita ter descoberto como prever números da loteria através do padrão de voo das moscas.

A Manifestação do Sentimento: Ele não dorme há três dias. Seus movimentos são rápidos, a fala é acelerada e ele vê conexões divinas em manchas de café.

O Conflito no Conto: Ele gasta o último dinheiro do aluguel da família em bilhetes de loteria, convencido de que o "universo lhe deu o sinal".

O Contraste: No auge da sua alegria e certeza, ele tem momentos súbitos de pavor absoluto ao olhar para o silêncio da esposa, que arruma as malas ao fundo.

Dica de Ouro: A "Materialização"

Para que o sentimento não fique abstrato (e chato), dê a ele um objeto:

A Solidão pode ser um rádio ligado em chiado.
A Vingança pode ser uma pedra guardada no bolso há anos.
A Euforia pode ser uma gravata amarela berrante em um funeral.
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continua...
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Imagem criada com IA Microsoft Bing

Nilto Maciel (Trapos)


Tomás olhava para os carros em movimento. Trânsito maluco! Os motoristas dirigiam em alta velocidade. Agarrado ao volante, Gilberto nem piscava. Já se tinha acostumado àquilo. Dirigia em Brasília havia quase vinte anos. E também no Rio, em São Paulo, outras cidades, estradas. Não apenas acostumado: não sentia nenhuma dificuldade em dirigir. O colega afrouxou o laço da gravata, coçou o queixo e se voltou para ele. Como as pessoas podiam se acostumar ao caos? Carro, o grande mal da humanidade. Se o homem não acabasse com o carro nos próximos dez anos, a vida ia ficar insuportável. Não falava apenas da poluição, porque os combustíveis usados hoje podiam ser substituídos por não poluentes. Falava do excesso de veículos nas ruas, dos engarrafamentos, dos atropelamentos, dos acidentes. Além disso, as pessoas não andavam mais, viviam dentro dos carros. Gilberto tentou falar. O outro aumentou o tom da voz. Sempre mais solidão, o isolamento das pessoas. Gilberto sorriu e levou a mão direita ao boné. Ora, não fossem os carros, seria muito mais difícil viver nas grandes cidades.

Estacionado o veículo diante do shopping, o motorista trancou as portas. Um rapaz se aproximou. Podia vigiar o carro? Tomás acendeu um cigarro. Os dois se puseram a caminhar. A falta de policiamento na cidade deixava todos inseguros. Se não havia polícia suficiente, os desempregados viravam guardas dos cidadãos. Gilberto contestou o amigo. Vigias davam segurança às pessoas. Portanto o desemprego não significava necessariamente um mal. Quem vigiaria os carros? Duas moças caminhavam à frente dos dois homens. Tomás chamou a atenção do companheiro: a pobreza deixava as mulheres feias. Se se alimentassem bem, se vivessem condignamente, como seriam belas. Gilberto discordava disso: mesmo maltratadas, as brasileiras não deixavam de ser bonitas. O parceiro diminuiu o tom da voz: Mesmo sem dentes, sem carnes, descoradas? O outro gargalhou. Importava apenas o sexo. Ou Tomás não apagava a luz quando se deitava com alguma mulher?

Sentaram-se em cadeiras de um bar, na calçada do Conjunto Nacional. Gilberto suspirou e voltou-se para o Teatro Nacional. Havia tempos não via uma peça. Um menino se avizinhou deles. Se queriam engraxar os sapatos. Tomás ajeitou a gravata e examinou a cara do garoto. Os olhos do pequeno brilhavam. Um garçom se acercou da mesinha. Cerveja ou chopes? Gilberto arregalou os olhos. O comparsa aceitou a proposta do menino e esticou a perna na direção dele. Outros engraxates passavam ao largo, com suas caixinhas. Tomás encarou o colega: Não gostava daquele lugar, tão perto da Rodoviária, sem sossego. Por outro lado, a infância abandonada, trabalhando duro, sem estudo, sem nada. Gilberto reclamou da demora do garçom: pior na África, onde nem trabalho havia. As coisas estavam melhorando no Brasil, apesar dos governos. O garçom se abeirou deles, conduzindo dois copos. Tomás não acreditava mais em mudanças. O sonho socialista tinha acabado. A humanidade não se sentia ainda preparada para grandes mudanças sociais. O menino batia na caixinha. Gilberto sorveu metade da bebida. Concordava, em parte, com o amigo. A humanidade mudaria às custas das invenções, das descobertas, das máquinas. Nova revolução se dava no mundo, graças ao computador. 

Tomás se voltou para o teatro e lembrou conversa de dias atrás: as salas de cinema amesquinhavam-se nos shoppings ou cediam lugar para templos de seitas messiânicas, as pessoas se trancavam em casa para ver televisão e computador. Quando menino, a maior diversão era ir ao cinema: Tarzan, caubóis. O garoto não parava de observar os dois homens. Gilberto chamou o garçom. Não deixava de ser interessante ver filmes em casa. Mais sossegado, mais seguro. E o direito de ir ao banheiro, a qualquer lugar, quando bem quisesse. Quanto custava mesmo o serviço? Tomás deu o dobro do pedido. O menino sorriu e agradeceu a ajuda. 

Gilberto suava: apesar do conforto de ver filmes em casa, preferia o cinema. A tela grande, a sala repleta de espectadores, o som. O amigo acendeu outro cigarro. Importava mais a história do filme. Por isso, preferia filmes dublados. O outro se fez indignado: não, de jeito nenhum. A legenda matava a originalidade do filme. A fala, a voz dos atores: absolutamente fundamental. Tomás se engasgou com a bebida. Quem iria assistir a uma peça de teatro em outra língua? Seu interlocutor arregalou os olhos: ora, impossível colocar legendas em teatro. Passou uma jovem rebolando pela calçada. Gilberto olhou de soslaio para ela: Não existiam mais raparigas, mulheres de vida fácil. O companheiro despejou chope na boca. Raparigas eram moças, mulheres de vida fácil não existiam, nem tinham existido nunca. Vida difícil para todas. Passavam duas mulheres em requebros pela calçada. Tomás apalpou a carteira de cigarros. O parceiro tinha estado ultimamente com Celina? Gilberto esfregou as costas da mão na testa. Celina, uma pobre coitada. Ele não queria nada com a colega. Ela bebia muito. Sem contar outros defeitos. Como não saber se comportar na cama. Tomás gargalhou. Comportar-se bem ou mal? O outro apanhou o copo. Gostava de mulheres fogosas, criativas. E Tomás gostava de quê tipo de mulher? O comparsa pôs um cigarro nos lábios: De pele branca, se possível alva; cabelos claros ou negros; magra, porém de quadris arrebitados; seios pequenos; estatura baixa ou mediana. Para ele, bastava um simples toque, um olhar demorado, a aproximação dos corpos, e já sentia o início de uma revolução nos países baixos. 

O garçom corria entre as mesas, atônito. Gilberto retirou os óculos e os esfregou na camisa: O colega tinha lá suas razões, porém ele preferia as gordas, morenas, peitudas. Ao longo da vida havia se deitado com dezenas desse tipo. Tomás não sorriu: Cátia gostava de outro e por ele nunca sentiria nada, a não ser asco. Ao lado, um homem se pôs a vomitar. Muitos outros se levantaram de suas cadeiras, se afastaram, protestando. Gilberto ajeitou o boné. Normal aquilo: muita bebida. O outro arregalou os olhos. O homem vomitava sangue. Um garçom se achegou. Logo, ao redor do homem se formou um grupo de curiosos. O doente caiu no chão, a estrebuchar. O chão se encharcava de sangue e vômito. Um odor forte tomava conta do ambiente. Gilberto suava e limpava os óculos. Talvez água fria resolvesse a situação. O cúmplice anunciava morte. Pouco a pouco o homem se foi paralisando, em estertores lentos. Gilberto levou as mãos ao boné: O bêbado iria descansar, dormir. Tomás acendeu um cigarro: O moribundo se acabava feito um trapo.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.
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