JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR
O Tempo
Corre o riacho de um modo constante,
leva este tempo que não volta mais,
deixa o cansaço no rosto ausente,
dores colhidas nos meus temporais.
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* É uma das formas nobres da poesia lírica, frequentemente usada para temas graves, filosóficos, patrióticos ou de exaltação.
O Canto Alcaico é composto de uma estrofe alcaica, que é uma estrutura poética tradicional de quatro versos (um quarteto), originária da Grécia Antiga. Criada pelo poeta lírico Alceu de Mitilene (contemporâneo de Safo) e, mais tarde, adaptada e imortalizada em latim pelo poeta romano Horácio. Na antiguidade, não usava rimas, mas sim a alternância de sílabas longas e breves (métrica quantitativa). A estrofe alcaica era composta por Decassílabos alcaicos (11 sílabas métricas na contagem clássica) no 1. e 2. versos. Eneassílabo alcaico (9 sílabas métricas) no 3. verso. Decassílabo dactílico (10 sílabas métricas) no 4. verso.
Como o português não diferencia sílabas longas e breves, os poetas modernos adaptaram a estrofe alcaica usando a acentuação tônica (ritmo). Na nossa literatura, esta estrofe se caracteriza por quatro versos (quarteto) sáficos (10 sílabas métricas); ritmo musical fixo, geralmente imitando a queda melódica do poema clássico; pode ou não conter rimas (embora os modernistas e parnasianos às vezes adicionassem rimas como o padrão ABAB ou AABB para dar sonoridade moderna).
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997
Poema épico
O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.
A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.
O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufelho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas;
- Eu já venho!
O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!
Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ
Quem, na solidão do ninho,
não faz de um ninho, prisão,
liberta esse passarinho
que habita em seu coração.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
Soneto a Catullo da Paixão Cearense – In Memoriam
Faz-me lembrar o tempo de menino,
no lar paterno, lá na velha aldeia,
com minha mãe, irmãos e irmãs, na ceia,
de noitezinha, ao bimbalhar do sino...
Depois, eu contemplava a lua cheia
e perguntava aos céus: qual meu destino,
neste mundo que roda e cambaleia,
com momentos de luz e desatino?!...
E ouvia a minha voz na voz do vento,
dizendo que eu tivesse paciência,
estudasse, aprendesse e na paixão
de adquirir maior conhecimento,
ingressasse no reino da sapiência...
Como era lindo o Luar do Sertão !…
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
Criado por Deus, o rio
nasce limpo e, como nós,
traz consigo o desafio
de limpo chegar à foz.
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Soneto de
ANTÓNIO BOTTO
Concavada/Abrantes/Portugal (1897 – 1959) Rio de Janeiro/RJ
Soneto
É difícil na vida achar alguém
Que seja na verdade um grande amigo,
E se assim penso – e com tristeza o digo,
É porque o sei, talvez, como ninguém.
Se a amizade é um bem – e se esse bem
Traz o conforto de um divino abrigo,
Por mim, direi, que nunca mais consigo
Iludir-me nas graças que ele tem.
Afectos, sacrifícios, lealdade!,
Tudo se apaga ou fica na memória
Se a ilusão dá lugar à realidade.
E ai daqueles que pensam na excepção:
Acabam por ficar dentro da história
De que a vida é um sonho e uma traição.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Preso ao tronco, em ais tristonhos,
geme o negro, sem alarde...
- para quem não tem mais sonhos,
a alforria chegou tarde...
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Poema de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ
Fracasso
Sem nada ter, vazio, sigo a carregar,
pesado, este cansaço...
Neste ponto do caminho, tenho que reconhecer
o meu fracasso:
que a Vida me perdoe...
Minha solidão cresceu entre dois trágicos amores:
um, cedo demais, que esfarinhei nos dedos,
outro, tarde demais, que me pisou...
e se foi…
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Trova de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR
Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.
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Soneto de
JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG
Desesperança
Eu conservo comigo, desde criança,
E trago no meu rosto sorridente,
A crença conformada da confiança
Que carrego na vida para frente.
Meu pai deu-me um sorriso por herança,
E eu fui, como o bom filho obediente,
Seguindo ruas, conhecendo gente,
Cheio de ingenuidade e de esperança!
Deixei abraços, saudações e avisos,
E em vez de deparar rostos serenos
Só encontrei olhares indecisos.
Não recebi de volta os meus sorrisos,
E nem os meus abraços: nem ao menos
Alguém retribuiu os meus acenos...
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Quadra Popular de
MINAS GERAIS
Bate, bate, coração,
quando não puder, descansa.
O alívio de quem ama,
é viver na esperança.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG
Prefácio prometido
Só por te amar “prefácio” quis fazer
e dei-te a rédea, pura, disse tudo,
soltei a corda, pude ter prazer,
paixão secreta? Incerta para o mundo.
No entardecer perfeito, meu querer,
por parecer um rio manso e surdo,
pude escrever, sem medo, por vencer,
barreira triste, quebrei...deixei mudo.
Fiz a promessa, juro quero ler,
sua “boneca” e então poder saber
completo, qual será o final? Romance...
Aguardarei os textos por correio
ou simplesmente mande-os via email:
- Não posso perder, chance ao meu alcance.
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Trova de
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Porto Alegre/RS
Brancos, negros e amarelos,
se a causa é justa e loquaz,
juntam braços, que são elos
forjando as cores da Paz!
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)
Uma impressão de D. Juan
Gastei no amor vinte anos — os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, em galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.
Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os...
Li, folha a folha, o livro dos amores.
Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!
E nada sei do amor... Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
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Trova de
PAULO EMÍLIO PINTO
Conselheiro Lafaiete (1906 – ????) Belo Horizonte/MG
A amizade mais o amor
cultivar bem que eu tentei.
Mas quanta praga, Senhor,
deu nos jardins que plantei!
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN
Lisboa/Portugal (1919 – 2004) Porto/Portugal
Bebido o luar
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
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Trova de
MARA MELINNI
Caicó/RN
A identidade que encobre
cada não e cada sim,
vem da verdade mais nobre
que eu trago dentro de mim…!
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ
Girassol
Florir no descampado ou no úmido recanto
De alguma ruína, ou mesmo em áspero alcantil,
É um orgulho que tem o redourado helianto
Dês que da terra emerge a plúmula eretil.
Quando ele desabrocha entre os glastos e o acanto,
Entre os mil tinhorões e as passifloras mil,
Tem-se à conta de um sol, nascido por encanto
Ao topo senhorial do tormentoso hastil.
É de vê-lo medir a força e o valimento,
Do orgulho vegetal, do seu orgulho em prol,
Ante o rival senhor de terra e firmamento!
É de vê-lo, tenaz, de arrebol a arrebol,
Do grande astro seguindo o régio movimento,
O áureo disco volver para encarar o sol!
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Poetrix de
ELIANA MORA
Juiz de Fora/MG
Agenda cheia
Marquei encontro comigo.
E [como sempre]
não fui.
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Soneto de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
São Mateus do Sul/PR, 1926 – 2021, Contenda/PR
Quem diria
Quem diria, meu Deus, oh quem diria
Que chegássemos a idade que chegamos
Ouvindo o eco do SIM que aquele dia
Há cinquenta anos nervosos pronunciamos.
Éramos dois, então, que se amavam
Há quanto tempo não sei eu, você ignora
Se nossas almas já antes se cruzavam
Ou se talvez o nosso amor nasceu agora.
O que eu sei, querida, é que esse amor é grande
Que junto a ti eu vivo onde quer que eu ande
Seja na terra, no mar ou nos espaços.
Meio século faz que juntos palmilhamos
Vivendo o mesmo amor que na paixão juramos.
Entre brigas de amor, beijos e abraços.
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Trova de
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizonte/MG
Gente que escolhe sem tino
as propostas da existência,
quando erra, culpa o destino
pela própria incompetência.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ
Poema-orelha
Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
História de algumas vidas
Noite. Um silvo no ar.
Ninguém, na estação. E o trem
passa sem parar.
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Poema de
BETE RAMOS
Campinas/SP
Não sei explicar esta dor...
Dor do fracasso, da ausência,
da solidão, da ingratidão...
Dor da saudade, e por que não?!
Meu peito se aperta, dilacerado...
Uma voz presa na garganta,
um grito silencioso que deságua em lágrimas.
Sozinha no meu quarto escuro, em agonia,
sem ninguém para me ouvir
e enxugar o meu pranto.
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