Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 27 de março de 2020

Varal de Trovas n. 221


João Batista Leonardo (Uma Parte que se Foi)


Nas infindáveis perguntas sem respostas mais uma insinuante ao impossível e ao abstrato, incide curiosidade: companheiro, onde está você? Testemunho dos momentos no enfrentamento cotidiano, da continuidade, e do desgaste pelos idos tempos. Juntos sempre na mitigação das dores; no alívio dos sofrimentos; na força ao debilitado; na palavra ao desesperado; na participação intrigante no surgimento e fim da vida, do primeiro sorriso até o último choro.

Seria possível me responder ao menos: onde está você?

Sei que foi com as águas, evaporou e diluiu nos ares em continuação com nuvens, foi para o firmamento, levando um pouco de mim; por isso nas horas de dificuldades, alegrias e tristeza falo de você, e sei que existe, porque na natureza nada é destruído, tudo é transformado.

Sempre estivemos juntos e nunca disse que compúnhamos um todo, um, objeto do outro, um, consequência do outro. Nas lutas até injustas no picadeiro vivenciado, jamais nos destruíram, amigos bons não faltaram, amigos falsos jorraram, porém, em cada queda prontamente levantamos, pois entendemos que a humilhação não está na queda, mas sim, no sucumbir.

Começamos bem lá embaixo, galgamos valorosos degraus então os tempos nos sorriram, nós os vivenciamos, neles abraçamos as oportunidades e percebemos êxitos.

Construímos muito, destruímos poucos, causamos muitos sorrisos e pouco choro, trouxemos muitas vidas ao mundo e nenhuma tiramos. Semeamos a luz e a esperança por onde passamos, mesmo em meio aos percalços e incompreensões, éramos na certeza da boa intenção.

Nas alegrias também estivemos juntos; vivemos o esporte, nos banhamos nas grandes cachoeiras e passeamos por praias e praças engalanadas. Juntos vimos grandes espetáculos mundiais, andamos e respiramos nos quatro cantos da terra, conhecemos costumes de vida e gentes diferentes, porém, sempre valorizando a cultura e aprendizado.

Na aspereza dos tempos plantamos na terra nua, e dela fizemos um caminho firme, onde, com segurança pisamos e o mostramos aos menos corajosos. Nas horas amuadas, fomos ao campo buscar a flor do conhecimento, na sua fragrância encontramos a alegria e força da solidariedade, na valorização familiar e profissional. Em nossa seara embrenhamos luz, frutos e esperança, que por certo iluminaram e fortificaram a continuidade de tantos, na busca da gratificação. Na qualidade de humanos, cometemos erros e enganos, porém sempre desprovidos da maldade intencional.

Onde estiver saiba que tudo foi muito natural, propositalmente, e a soma dos fatos compõe o fardo dos tempos vividos, cujo conteúdo, sobretudo redunda, na boa ou má expectativa do inexorável fim; então na tristeza do choro ou na gratificação do sorriso, estarão os resultados.

Semeamos boas sementes em vários terrenos, geminaram, cresceram, arboresceram e prosperaram em nossa fertilidade e em benéficos frutos se transformaram.

Sei que a lógica nem sempre é exultante do exato, mas pensar em você, me volta os tempos, faço sondagens, revivo atitudes determinantes, hoje componentes do meu fardo, testemunho de mim mesmo. Vale a sondagem, me alegra e neste abstrativo momento, por que não esperançar? Onde está você meu suor derramado?

Fonte:
João Batista Leonardo Os tempos da esperança à razão. Maringá: Gráfica Primavera, 2008.

Alphonsus de Guimaraens (Baú de Trovas)

Afonso Henrique da Costa Guimarães

Como, Jesus, me esqueceste
nesta horrível soledade?
Aos trinta e três tu morreste...
E eu já tenho a tua idade!
- - - - - –

Nasci em leito de rosas
e morro em leito de espinhos...
Ó mães, que sois caridosas,
zelai por vossos filhinhos!
- - - - - –

O cinamomo floresce
em frente do teu postigo;
cada flor murcha que desce
morre de sonhar contigo.
- - - - - –

O coqueiro, todo em palmas,
beija o cinamomo em flor...
Imagem das nossas almas,
unidas no mesmo amor!
- - - - - –

Quando em teus olhos reluz
o carinho de uma prece,
se é dia, o sol tem mais luz,
se é noite, logo amanhece.
- - - - - –

Quando os teus olhos, Senhora,
repousam no meu olhar,
fica mais formosa a aurora,
mais formoso fica o luar.
- - - - - -

Tradições, quimeras, lendas...
Ninguém crê na Eterna Voz!
Que vale, Senhor, que estendas
o teu carinho até nós?
- - - - - –

Tristeza das tardes ermas,
das noites brancas de luar!
As almas que estão enfermas
no teu seio vão chorar...
- - - - - –

Tu não sabes porque a lua
é triste e nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
— Os poetas moram ali.
- - - - - –

Fonte:
Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva,

Francisca Júlia (Os Dois Mendigos)


Caminhava pela estrada real um moço de aspecto nobre, feições agradáveis, e trajava de maneira modesta, porém distinta.

Tinha os cabelos enrolados em anéis que lhe cobriam o pescoço, e um ar simpático que condizia bem com a graça natural da sua pessoa.

Seu principal encanto estava com certeza nos olhos claros, de uma expressão infantil, penetrados da mais encantadora doçura.

Caminhava distraidamente, os olhos fixos no chão.

Em sentido contrario vinham dois mendigos maltrapilhos, as roupas esburacadas, animados aos bordões, a cabeça caída para a frente, como vergados ao peso dos anos. A idade e os sofrimentos tinham-lhes arrancado os cabelos, cavado grandes rugas na face e enfraquecido todos os músculos.

Como tivessem caminhado muito, tinham os pés inchados e umedecidos do sangue que vertiam; sentiam fome; estavam extremamente pálidos, os passos trôpegos, os lábios trêmulos, de modo que nem podiam falar, mas apenas balbuciar como as crianças.

O vento impiedoso impelia-os para a frente, forçando-os a andar depressa e fazendo-os tropeçar nos calhaus da estrada.

Quando se aproximaram do moço, caíram de joelhos, mais por cansaço do que por desejo de implorar a piedade, e gemeram ao mesmo tempo:

— Uma esmola, senhor.

O moço sentiu as lágrimas empanar-lhe a vista e, penetrado de compaixão, apalpou os bolsos; mas, como encontrasse apenas uma moeda, e a justiça divina manda que se distribua a esmola em partes iguais, disse com malícia:

— Perdoai-me, pobres velhos, a vossa miséria sensibilizou minh'alma e acordou soluços em meu peito; porém não tenho um real para consolar vossos sofrimentos.

Os velhos levantaram-se.

O primeiro olhou o rapaz com mal contido rancor, os olhos intumescidos de cólera, e gritou brandindo o bastão com a pouca de forças que lhe restavam:

— Maldito sejas tu e malditos todos os teus; que o fogo devore a tua propriedade; que as águas engulam a nau em que embarcares; que teus afetos pereçam e que um vento de desgraça passe sobre a desolação da tua existência!

E partiu.

O outro velho fitou com ternura a face do jovem, e falou-lhe:

— Sê feliz, mancebo, que as minhas mãos tremulas possam tirar de sobre tua fronte as pragas do meu companheiro; que a tua propriedade seja firme, que as águas sejam mansas na tua viagem e que a bênção do Senhor esteja sempre suspensa sobre tua cabeça.

Então o moço tirou do bolso a moeda de ouro e deu-a ao mendigo.

Assim devemos praticar sempre: nunca devemos dar esmola, principalmente quando o nosso dinheiro é escasso, sem observar se a pessoa que nos pede é merecedora da nossa piedade.

Fonte:
Poeteiro

quinta-feira, 26 de março de 2020

Varal de Trovas n. 220


Fortuna (Agência Pensiero)


Um dia, defronte do espelho de fazer a barba, não viu o rosto. Primeiro verificou se não se tratava de uma peça — pregada além da sua estatura. Depois, procurando manter a cabeça fria dentro do súbito afogueamento, apalpou-a concentradamente à altura das suíças, que voltaram ao latejar normal: não, não tinha cortado a cabeça num gesto mais distraído da navalha (por via das dúvidas seria aconselhável comprar um barbeador elétrico). A cabeça lá estava com toda segurança sobre o pescoço — à distância de um milímetro já sentia o roçado da barba nas impressões digitais —, simplesmente suas feições amarelaram como uma foto de carteira de identidade e sequer a lembrança da mais recente distinguia agora no espelho.

Sentou-se no bidê que usava amiúde seco, para pensar e ficou de mão no queixo como uma estátua de mão no queixo.

Simples de explicar: nascera, crescera, estudara: noções de: moral, civismo e tiro ao alvo, línguas vivas e tumulares, ciências exatas e hipotéticas, desenho artístico, canto orfeônico e trabalhos manuais, quando recebeu o diploma estava preparado para ingressar no Parnaso. Nas páginas classificadas dos jornais do Brasil, que pediam "contact men", public relations", "executive secretaries", encontrou facilmente o que procurava:

"Precisa-se de um pensador, com prática."

Entre dezenas de candidatos, centenas dos quais prensadores com esperança de um erro de imprensa, foi o único aprovado: durante todo o teste não fez mais que pensar. Passou o primeiro mês inteiro pensando e no dia 30 recebeu o ordenado integral. Estimulado, na segunda quinzena do segundo mês transformou em palavras o seu pensamento:

"As mães estão cada vez mais cedo."

Foi chamado à direção:

— A Agência Pensiero é uma organização que fornece máximas, verbetes, pensamentos para folhinhas, almanaques de pensamentos, noites de autógrafos, colunas sociais e de amenidades, house organs; home organs, garden organs. Já vê que pensamentos revolucionários, só de revolucionários já justiçados e consagrados. Você volte para o seu bidê e procure assimilar a técnica do Marquês de Maricá.

Nesse primeiro estágio ele produziu maricacas, com admirável fluência:

"Antes ser rabo de leão do que cabeça de formiga" e "Antes ser cabeça de formiga do que rabo de leão."

Depois passou por outros pensadores anti-sociais da maior aceitação. Foi quando lhe aconteceu aquilo com o rosto.

— Agora — pensava pela primeira vez para si mesmo — o jeito é usar o espelho no lugar do rosto.

Levantou-se e prendeu ali o espelho. assim as pessoas que o mirassem não o veriam sem rosto: julgá-lo-iam mesmo uma delas. Tanto que o diretor, ao dar consigo nele, abriu um sorriso:

— Agora sim, refletes.

Logo, melhorou seu existir.

Fonte:
10 em Humor. RJ: Expressão e Cultura, 1968.

Doce Aconchego das Trovas n. 4


Piedade – termo sublime
profundo sentido encerra:
é Deus redimindo o crime
que assola a face da terra.
Adamores
São José dos Campos/SP

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Não há motivo que faça
dizer-se toda a verdade,
se antes disso ela não passa
na peneira da piedade
Alba Christina Campos Netto
São Paulo/SP

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Dai atenção e carinho
a quem te quer e te afaga:
- Se o mal se paga com o bem,
amor com amor se paga...
Antonio Carlos de Oliveira Mafra
Rio de Janeiro/RJ

- - - - - –

Enquanto choro, tu cantas
e indagas por que te amei...
Do amor as razões são tantas,
que as causas nem mesmo eu sei...
Antonio Carlos de Ribeiro Andrada
Rio de Janeiro/RJ

- - - - - –

Vou em rápida descida
como o rio, sem cansaço,
deixando às margens da vida
os tristes versos que faço.
Antonio Carlos Teixeira Pinto
Juiz de Fora/MG

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Vai pelo azul a andorinha
novos climas procurar;
vai, porém não vai sozinha,
cada qual leva seu par...
Antonio Chaves
Teresina/PI, 1883 - 1938

- - - - - –

Sem um gesto amigo ou nobre,
todo o homem, com maldade,
até vai roubar o pobre
sem ter dó ou piedade.
António José Barradas Barroso
Parede/Portugal

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Saudade! Névoa serena,
caindo além, lá na serra...
Luar de maio, novena
rezada na minha terra.
Antonio Justa
Rio de Janeiro/RJ

- - - - - -

De tanto ser visionário
num mundo de ingratidões,
hoje possuo um rosário
de vazias ilusões.
Antônio José Lima
 Januária/MG

- - - - - -

Antes de ver-te, eu vivia
bem pobre de inspiração.
Mas agora és a poesia
vivendo em meu coração!
Antonio Weindler
Nova Iguaçu/RJ

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Vivo a sós, compenetrado
nos sonhos, com meu amor.
Vôo mundos, desligado...
- Piedade, eu sou trovador!
Ari Santos de Campos
Balneário Camboriú/SC

- - - - - –

A piedade bem situada,
é tão nobre sentimento,
é sensação alcançada
que mitiga o sofrimento!
Carlos Imaz Alcaide
Torre Vieja Alicante/Espanha

- - - - - –

Piedade, meu amor,
é um sentimento sutil
que vive inteiro na flor
da alma... mesmo em abril.
Cidinha Frigeri
Londrina/PR

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Trazem paz, felicidade,
quando ditas a um irmão,
palavras sim, com piedade,
pronunciando o perdão.
Conceição Parreiras Abritta
Crucilândia/MG, 1934 - 2015, Belo Horizonte/MG

- - - - - –

Se tu conheces o amor,
sabes também de bondade,
não sofrerás ante a dor,
por saber sentir piedade !
Cristina Oliveira Chavez
Creekside/Califórnia/Estados Unidos

- - - - - –

Meu irmão, tende piedade
por quem tem sede e tem fome!
Praticai a caridade;
dai pão para quem não come!
Delcy Rodrigues Canalles
Porto Alegre/RS

- - - - - –

Sem ação sentir piedade
é piedade de si mesmo,
na falta de caridade,
na vida vivendo a esmo.
Fahed Daher
Apucarana/PR

- - - - - –

Os gritos de liberdade
abafados por censuras,
viram ecos de piedade
nos porões das ditaduras!
Francisco José Pessoa
Fortaleza/CE

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Em toda essa Humanidade
que se envolve em tanta guerra;
Senhor derrama piedade,
amor e paz sobre a terra.
Garibaldy Martínez
Santo Domingo/República Dominicana

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Há tanta gente sem nome
a sofrer pela cidade.
Muitos morrendo de fome
por falta de piedade.
Geraldo Amâncio
Fortaleza/Ceará

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Tem piedade de alguém
quem ajuda qualquer um,
pensando em fazer o bem
sem pedir retorno algum.
Jair Maciel de Figueiredo
Natal/RN

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Quem o privilégio tem
de só dormir num colchão,
tenha piedade de quem,
sempre só dorme no chão.
Joel Hirenaldo Barbieri
Taubaté/SP

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Eu fico muito tristonho
e tenho imensa piedade
daquele que não tem sonho,
de quem não sente saudade.
Lino Vitti
Piracicaba/SP
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Crianças vivem nas ruas
devido a necessidade,
sem comida e quase nuas
imploram por piedade.
Luiz Victor de Moraes Cavalcanti
Recife/PE

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Homem de boa vontade
empenhando-se na paz,
tendo na alma piedade
em tudo será capaz
Luz Sampaio
Okayama-ken/Japão

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Piedade, chama divina,
que acende a cada aflição,
é fonte que me ilumina
quando concedo o perdão.
Marcos Medeiros
Natal/RN

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Rogo, Espírito, piedade,
dai amor ao coração,
num mundo com crueldade
não existe compaixão.
Maria Cristina Fervier
Salto Grande/Provincia Santa Fe/Argentina

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Ó Espírito de Amor,
o teu “dom” de piedade
me acompanhe aonde eu for
espargindo só bondade!
Maria Ignez Pereira
Mogi-Guaçu/SP

- - - - - –

Piedade, tens irmão
pelos que estão a sofrer.
Mas, não estendes a mão
quando à porta vão bater!
Maria Marlene Nascimento Teixeira Pinto
Taubaté/SP

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Ante os pobres, ter piedade,
ter doçura e compaixão,
é provar a suavidade
que brota do coração.
Marina Gomes de Souza Valente
Bragança Paulista/SP

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É supremo o dom de Deus,
se piedade ainda persiste...
na aurora dos dias meus ,
a maldade não existe.
Mariza Soares de Azevedo
Curitiba/PR

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No dom piedade - mergulho,
caminho na compaixão
que banindo todo orgulho
faz florir o coração.
Mifori
São José dos Campos/SP

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Quando o desamor atinge
um romance envelhecido,
a piedade azul se finge
desconhecer o ocorrido.
Miguel Russowsky
Santa Maria/RS ,1923 – 2009, Joaçaba/SC

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Não é pena, nem bondade,
e nem se livrar de um resto:
quem pratica a piedade
não quer luz sobre o seu gesto.
Milton Sebastião Souza
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018 Cachoeirinha/RS
 
- - - - - –

Te peço por piedade,
não zombe do meu amor.
Teu ciúme é falsidade
que só me provoca dor.
Neiva Fernandes
Campos dos Goytacazes/RJ

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Por piedade peço amor,
teus braços são meu abrigo,
se me deixas, será dor!
E minha vida um castigo.
Nora Lanzieri
Buenos Aires/Argentina

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Procurando claridade
para os olhos de quem chora,
vou clamando piedade
para os pobres sob a aurora!
Olivaldo Júnior
Mogi-Guaçu/SP

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Das bofetadas que a vida
me deu sem muita piedade,
tu foste a mais dolorida
e a que mais deixou saudade.
Thalma Tavares
São Simão/SP

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A Piedade é uma virtude
que nos incita a acolher,
quem ante a vicissitude
perde o gosto por viver.
Wandira Fagundes Queiroz
Curitiba/PR

João Ubaldo Ribeiro (Pensamentos, Palavras e Obras)



Em matéria de pecados, aliás em matéria de religião geral, eu sempre achei que a pior coisa é os pensamentos. Na aula de catecismo, que era depois da missa e antes do futebol, quer dizer, a gente só pecando porque não queria assistir o catecismo, nessa aula dona Maria José, com aquelas blusas dela de mangas fofolentas e os olhos piscando o tempo todo e a cara de doente, dizia que se peca por pensamentos, palavras e obras. Palavras e obras, certo, muito certo, certo. Mas pensamento é muito descontrolado, de maneira que todo mundo tinha dificuldades nessa parte, talvez somente dona Maria José não tivesse, porque tudo o que ela pensava era catecismo.

Muitas vezes perguntei a minha mãe — e não perguntei a dona Maria José, porque o que a gente perguntava a ela, ela mandava a gente estudar e escrever uma dissertação, para ler alto no outro domingo — como é que a pessoa fazia para não pecar por pensamentos e ela me disse que bastava não pensar nem besteira nem safadagem. Ora, isso está todo mundo sabendo, a questão é que a besteira e a safadagem aparecem o tempo todo, sem ninguém chamar. Mas de fato era uma coisa muito de admirar que os crescidos todos, na hora da comunhão, iam sem pestanejar, quer dizer, não tinham pecado nem por pensamento, por que senão não iam arriscar a receber o corpo de Cristo com tudo por dentro sujo imundo de pecados. Eu não, eu sempre tive problemas, porque primeiro nunca deixava de esquecer algum pecado e na hora que saía é que eu lembrava e aí ficava com vergonha de voltar ao padre e aí ficava achando que ia comungar sujo imundíssimo. Mas minha mãe disse que não podia fazer lista de pecados, onde já se viu, que na hora o Espírito Santo ajudava, mas ele nunca me ajudou, pelo menos eu nunca notei nada. Enfrentei bastante sofrimento.

No primeiro ano, eu não tive o problema do pecado, porque a comunhão foi na Páscoa do colégio e eu era o único aluno que ainda não tinha feito comunhão, de forma que minha mãe me mandou com uma fita branca desta largura amarrada no braço e descendo com umas franjas, que eu fiquei envergonhadíssimo. Na outra mão, minha mãe mandou eu segurar uma vela também amarrada de fita e fiquei mesmo um espetáculo, de forma que me considerei fazendo penitência o tempo todo e, de qualquer jeito, só conseguia pensar na fita e na vela, uma coisa tristíssima de se ver que eu estava e todo mundo me olhando e só não dando risada porque era uma questão de comunhão. Mas ainda assim eu fiquei desconfiado e aí, na hora que o colégio todo ficou sentado na igreja, esperando a missa começar, consegui falar com dona Maria José, para saber se podia fazer uma confissão de última hora. E somente um reforço, disse eu, a senhora sabe, a pessoa vai andando, vai pecando. Palavras e obras, não, mas pensamentos sempre uma coisa ou outra vai escapando, disse eu, e ela ficou vermelhíssima. Então ela me levou até um padre alto que estava na sacristia e perguntou a ele se ele podia ouvir a confissão de última hora de um rapaz e eu ali me sentindo todo besta, com a fita e aquela vela na mão, mas eu queria estar garantido, com essas coisas não se brinca, e o padre era desses que vem logo querendo dar porrada, desses que puxam o queixo da pessoa e passam uns tapinhas na cara, não suporto. Ah, quer dizer que veio para a primeira comunhão e não se confessou, não é, falou ele, puxando minha fita que quase esculhamba tudo e me deu grande preocupação, porque minha mãe ia botar a culpa em mim e, se eu botasse a culpa no padre, ainda ia tomar um cachação. Não senhor, eu me confessei, é que eu estou com um problema. E então o padre foi mais simpático, me chamou para o canto e disse: qual é o problema? Raiva da mãe, disse eu para não perder tempo, porque a missa ia começar e, se eu não estivesse lá na frente, minha mãe ia se aborrecer. Por causa dessa fita e dessa vela, disse eu. Ah, disse o padre, dois padre-nossos. Achei barato naquela hora, rezei os dois padre-nossos, assisti a missa, comunguei e achei que estava tudo ótimo. E a inocência.

No segundo ano não tinha mais a fita nem a vela, foi um grande alívio, porém durou pouco, justamente porque, não tendo nem fita nem vela, sobrou mais espaço para pecados de pensamento e, além disso, a pessoa vai ficando mais velha e vai pecando mais, é a lei da vida. Felizmente nesse ano teve retiro no sábado e comunhão no domingo, de forma que a gente saía correndo da confissão e ia comungar, para não dar tempo de pecar por pensamento. Também Valdilon, que tem um irmão padre e deve saber dessas coisas, explicou que o camarada fecha os olhos, tapa os ouvidos e fica fazendo barulhos os mais altos possíveis com a boca fechada, que ressoa no ouvido e faz aquele escarcéu etc etc e a pessoa vai evitando o pecado. Com treino, acho que é possível e de fato Valdilon treinou diversos, mas eu nunca treinei porque ficava com vergonha de esperar a comunhão no meio daqueles sujeitos tudo de olho fechado, ouvido tapado e fazendo mmmnnn-mmmnnn e bzzzz-bbzzz. Mas, de qualquer maneira, essa segunda comunhão correu muito bem, porque eu comunguei em cima da confissão, saí leve, leve. Quase na certeza.

Na terceira é que foi muitíssimo pior, porque eu estava numa idade de viver pecando por pensamentos. É aí que eu até entendi por que o catecismo fala tanto nos pensamentos, é porque tem gente que se torna assim como eu me tornei: não faz nada, só pensa maus pensamentos, todos os tipos. Mesmo fazendo força, não adiantava nada. Era parar, era estar tendo maus pensamentos. Às vezes eu dizia assim, franzindo até a testa: não vou ter, não vou ter, sai pra lá, e cantando músicas alto — vestida de branco ela apareceu, trazendo na cinta as cores do céu, ave, ave, ave Maria — mas não resolvia: o mau pensamento zipt! Pronto. Nessa situação, era mais do que difícil uma boa comunhão, ainda mais que eu dei para achar que os outros não tinham esse problema, que era tudo obra das tentações do diabo do cão, não se podia confiar em ninguém.

E teve coisas piores nesse ano. Minha irmã ia fazer primeira comunhão e minha mãe fez uma mesa especial, muito mais especial do que a minha, que nem foi especial. Quer dizer, pecado da inveja. E depois tinha de ficar em jejum e eu quase como uma bolachinha de goma, só não comendo porque meu anjo da guarda foi forte e apareceu gente na hora de pegar a bolacha. Pecado da gula, mais sacrilégio. A madrinha de minha irmã apareceu da Bahia e eu fiquei olhando para as pernas dela: conte ai mais pecados, começando de cem. Meu pai me deu dez mil réis e deu cinco a minha irmã e pediram para eu comprar um santinho para mim e um para ela, todos os dois com meu dinheiro e eu não gostei. Pecado da avareza e mais diversos quebrados e mistos.

Quando chegou na igreja, eu já estava suando e nesse dia não era uma questão de esquecimento na confissão, nem nada disso. Cada respirada que eu dava, tome uma pecada. A missa ia andando, ia andando e eu vendo a danação chegando, até que não aguentei mais e aproveitei que meu pai assistia missa lá de fora fumando, e minha mãe não podia gritar comigo na igreja e então disse a meu pai que queria ter uma conversa com ele de homem para homem, se ele não ia rir. Não vou rir, disse meu pai. Pois então, pois então eu quero ficar aqui na igreja até a outra missa, possa ser a missa das nove, das dez, das onze ou de meio-dia. Quero ficar para comungar depois de confessar direito. Muito bem, disse meu pai, quando voltar traga uma garrafa de clarete único da bodega de seu Barreto e volte antes de uma hora.

Minha mãe ainda quis que eu fosse com todo mundo e ainda quis muitas conversas, mas minha irmã estava com asas de anjo e tudo e tinha a madrinha altamente granfina da Bahia, de forma que eu fiquei. Confessei às nove, faltando um pouco. Pequei logo na saída, quis regressar, titubeei, fiz que ia mas não ia, acabei fazendo o sinal da cruz, rezando a penitência, assistindo a missa, mas não tive coragem de comungar, porque, na hora, eu parecia uma cabeleira pendurada de piolhos de pecados, um aspecto péssimo. Voltei, confessei às dez. Achei que, se corresse para o altar de Santo André e rezasse até a hora da comunhão, ia conseguir segurar o pecado. Mas quando fui ajoelhando no altar, veio uma onda de pensamentos de pecado e fiquei com vontade de comer um pastel com guaraná e até pensei que qualquer coisa eu dava para não estar ali e estar em outro lugar comendo um, ou dois ou três pastéis com guaraná. A missa toda eu passei pensando em comida e, quanto mais eu queria não pensar, mais eu pensava. Não comunguei, estava cada vez mais triste. Às onze, confessei rapidamente, ofereci minha fome a São Judas Tadeu e rezei cinco minutos de olhos fechados, acho que sem pecar. Mas, quando abri os olhos um minutinho, estava uma porção de moças passando lá fora para a praia e pequei, pequei, pequei! Uma fome enorme e uma vontade de chorar e então eu rezei todas as rezas que sabia e me confessei às doze horas para a missa do meio-dia e, ali ajoelhado, esperando a hora, fui sabendo que estava pecando, fui vendo aquela fieira de pecados passando por mim e até fiquei como que de fora, assistindo cinema. E nem me lembro como foi que eu me levantei e fui receber a comunhão, boiando no meio de todos aqueles pecados e, Deus me perdoe, quase tenho um engulho de arrependimento na hora da hóstia entrar em minha boca. A fome passou e acho que tive febre e até hoje não gosto de me lembrar disso, mas vivo me lembrando. Até hoje, tenho certeza de que vou para o inferno. E é só por isso que eu não quero morrer agora, porque, tirante isso, eu queria.

Fonte:
João Ubaldo Ribeiro. Livro de histórias. RJ: Nova Fronteira, 1981.

Gioconda Labecca (Baú de Versos)


TROVAS

Adoro o Bem e a Verdade,
como mandou Jesus Cristo:
— Há melhor felicidade
do que viver para isto?
- - - - - –

A trova é tão pequenina
e quanta coisa ela diz!
— De uma ideia repentina
nasce um conceito feliz.
- - - - - –

Eu agradeço a Jesus
por ter no meu coração
um lugar cheio de luz
para abrigar o perdão.
- - - - - –

Garoando… garoando…
essa garoa, sem fim,
é qual saudade pingando
lembranças dentro de mim…
- - - - - –

Meu coração é pequeno
mas é cheio de esperança,
e desconhece o veneno
do demônio da vingança.
- - - - - –

Nada tenho, nada quero,
nem posição, nem vitória.
Tudo na vida o que espero
é que este amor tenha glória.
- - - - - -

Não desesperes, querido,
e penses um pouco em mim…
— Não há mal por mais sentido
que nunca tenha seu fim.
- - - - - –

Por favor, não faças isso,
não me lances esse olhar...
Os teus olhos têm feitiço,
vão os meus enfeitiçar.
- - - - - -

Quanto tempo decorrido
nesta luta insana, inglória,
vendo o meu tempo perdido
e nem sinal de vitória!
- - - - - -

Rindo e cantando, nós vamos
no mundo a nos enganar...
Quantas vezes nós cantamos,
quando queremos chorar?
- - - - - –

Tu dizes que eu sou ingrata
e que não te trato bem...
— Não sabes que se maltrata
àquele a quem se quer bem?
- - - - - –

SONETOS

EXÓRDIO


Abre este livro meu leitor amigo
co’a alma limpa e o coração bem puro…
— Vem solitário, caminhar comigo
e junto a mim tu estarás seguro

Pelos Jardins caminharei contigo
e verás coisas belas, te asseguro,
e terra azul, no chão florindo o trigo
e a lua branca iluminando o escuro

Nossa estrada será plena de flores,
no ar os suavíssimos odores
dos mais raros perfumes de Paris.

— Nossas almas em franca transcendência
diáfana, sutis e só essência
compreenderão que é fácil ser feliz.
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SEMPRE TUA

Não penses, não, querido, que algum dia
eu possa desprezar o teu amor;
Passem homens por mim em romaria
que hei de amar-te, talvez, com mais ardor.

Não sintas, pois, assim, tanto temor
desta que é toda sonhos e euforia,
quando em teus braços cheia de fervor
canta sonetos de melancolia.

Só tu encerras o que eu quero tanto,
ninguém tem mais talento e mais encanto,
nem mais saber, nem experiência.

Venham todos os homens e os conjuro,
pois a ti dei meu sentimento puro,
minh’alma, meu amor, minha decência.

Fontes:
Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva,
Academia de Letras da Grande São Paulo
Angelo Rigon

Gioconda Labecca

Gioconda do Carmo Labecca de Castro, nasceu em Campanha/MG, em 1931. Filha de Humberto Labecca e Iria de Resende Labecca, descendentes de italianos. Sua mãe foi professora na cidade de Campanha e aposentou-se por lá. Teve treze irmãos, todos falecidos.

Seus primeiros estudos foram feitos em Campanha e formou-se professora em Varginha/MG.

Desde muito cedo revelou um extraordinário talento para a composição de poesias. Seu primeiro poema foi publicado no "São Lourenço Jornal" quando contava apenas treze anos de idade.

Após a aposentadoria de sua mãe, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, à procura de melhores condições de estudo para os filhos.

Tendo conhecido pessoalmente o Presidente Getúlio Vargas, foi nomeada como Investigadora no Departamento Federal de Segurança Pública, desde que era seu desejo trabalhar na Polícia.

Após dois anos como Investigadora, prestou concurso para o Ministério da Fazenda, no Depto. Administrativo do Serviço Público (DASP). Sendo transferida, posteriormente, para a Receita Federal, onde se aposentou.

Nessa época, ocupava suas noites ministrando aulas de dicção e oratória, conciliando o trabalho no Ministério da Fazenda com os estudos.

Noiva do Oficial da Aeronáutica Antônio Firizola, vivenciou a terrível tragédia de perdê-lo num desastre aéreo.

No rico ambiente cultural do Rio de Janeiro, envolveu-se com a intelectualidade, participando de vários grupos literários, notadamente, com o grande poeta general Arnaldo Damasceno Vieira, Presidente da Sociedade de Homens de Letras do Brasil, que a introduziu no meio literário, assim como com o poeta Manuel Bandeira, que a considerava a melhor declamadora de seus versos.

Fez cursos de Parapsicologia, Psicologia, Pirâmides, Radiestesia, Cromoterapia, na “Associação Mens Sana”. Curso de Parapsicologia no Hospital Santa Catarina SP. Curso Intensivo de Legislação Trabalhista no Palácio Tiradentes/RJ. Literatura na Academia Brasileira de Letras/RJ. História no Ateneu Paulista. Literatura na Academia Paulista de Letras, entre outros.

Sua estreia foi com o livro "Trinta Mensagens de Amor" lançado pela editora dos Irmãos Pongetti. O sucesso deste livro foi celebrado por muitos críticos literários que a comparavam a Olavo Bilac. Foi considerada a "Poetisa do Amor" pelo desassombro de seus versos. Após esse início auspicioso, seguiram-se mais vinte e um livros, ao longo dos anos, entre poesias, trovas, haicais e sonetos, evidenciando sua enorme energia criadora.

Membro da Academia de Brasileira de Trova/RJ (Cadeira de Teófilo Dias); Círculo de Cultura Luso-Brasileira e Luso-Espanhol – Portugal; Sociedade de Homens de Letras do Brasil/RJ; Academia Internacional Americana; Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes/RJ; Instituto Histórico e Cultural Pêro Vaz de Caminha/SP; Sociedade Geográfica Brasileira/SP; Ateneu Angrense de Letras e Artes (Angra dos Reis/RJ); Academia de Letras e Artes de Paracambi/RJ; Pen Club de Curitiba/PR. Foi Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo (Cadeira de Augusto dos Anjos) nos Bienios 2009/2010, 2011/2012 e 2013/2014.

Algumas de suas obras:

Trinta Mensagens de Amor - 1954 ; Cânticos - 1956; Sonetos Escolhidos - 1970; A Estória do Zé Cachorro - 1973 ; Brasil dos Meus Sonhos - 1977; Ao Som de uma Flauta Doce - 1992 ; Conte Histórias Recitando - 1998 ; Voltando ao Passado - 2006 ; Trovas da Madrugada - 2010; Réquiem para a Saudade - 2011.

Fonte:
Wikipedia
Academia de Letras da Grande São Paulo

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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