domingo, 2 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 26 *


Teus olhos são dois poemas,
escritos na mesma cor;
são dois rosários de penas,
são duas trovas de amor.
ANTÔNIO LAFAYETTE 
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Embora mortos estejam,
não feches os olhos meus;
pois eles talvez te vejam,
por um milagre de Deus!
ARCHIMIMO LAPAGESSE 
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Sê franca e bem humorada,
mostra em tua alma e dulçor.
— Flor de corola fechada
nunca atraiu beija-flor!
ARGENTINA DE ARARIPE AIGNER
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A saudade tem tal arte,
é em bondade tão rica,
que não despreza quem parte,
nem abandona quem fica!
ARLETE REGINA
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Grande alegria me deste,
pois, quando eu me despedia,
numa lágrima disseste
tudo aquilo que eu queria!
APARÍCI0 FERNANDES
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Quis rasgar o teu retrato,
mas que tristeza, que sina...
— Até no papel, o ingrato
do teu olhar me domina!
BENNY SILVA
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O que é preciso na trova?
A paz, a delicadeza
de um beijo de lua nova
nuns lábios de camponesa...
BRITO MACHADO
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O Tempo ao Amor não mata...
é disso prova fiel
as nossas Bodas de Prata,
em plena Lua de Mel.
CARLOS GUIMARÃES 
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Vou pelo braço da noite,
levando tudo que ó meu:
— a dor que os homens me deram
e a canção que Deus me deu.
CECÍLIA MEIRELES 
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Eu da morte não me agrado,
mas morreria com gosto,
se fosse logo enterrado
na covinha de teu rosto.
CHRISTIANO TAVARES SIMÕES
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Tu não crês no que te digo,
o teu Sorriso me diz.
— Mas só quando estou contigo
é que me sinto feliz!
CLÓVIS RAMOS 
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Quanto mais por ti eu peno,
mais gosto tenho em penar.
— O mundo inteiro é pequeno
para a glória de te amar!
COLOMBINA 
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Fico a ver se ouço os teus passos,
quando estás para chegar,
que um só momento em teus braços
paga a pena de esperar!
DANIEL DE CARVALHO
- - - - - –

Creio que você não sabe
(se sabe, você não crê...):
— Não há no mundo o que acabe
meu grande amor por você!
DELMAR BARRÃO 
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Se ela de mim chega perto
e há troca de saudação,
sua mão é um lírio aberto
perfumando minha mão!
DIAS MONTEIRO
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Enfrentando o mundo bronco,
ponho, apesar das perfídias,
ternura do velho tronco
alimentando as orquídeas.
DORMEVILLY NÓBREGA
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Esse teu beijo, querida,
profundo, louco, fremente,
tem tudo que, nesta vida,
desgraça a vida da gente!
DURVAL MENDONÇA 
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Não chores, linda menina,
não chores, botão de flor!
— O teu sorriso ilumina
as trevas da minha dor.
EDGAR REZENDE
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Saudade, lembrança triste
de tudo que já não sou.
Passado que tanto insiste
em fingir que não passou...
EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA 
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Queres partir? Sê feliz!
Porém te digo sincero:
ninguém te quer como eu quis,
ninguém te quis como eu quero!...
EDGAR DE ALENCAR
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Saudade é tudo que fica
de uma ventura fugaz,
no pranto que não se explica,
no verso que não se faz!,..
ERASMO SILVA
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Retornado ao pó obscuro,
coração, urna de pranto,
quem saberá no futuro
que amaste e sofreste tanto?
ESMERALDO SIQUEIRA
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Saudade, velha canção,
saudade, sombra de alguém,
que os tempos só levarão
se me levarem também.
FERNANDES SOARES
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Contemplar, risonha, a face
de uma criança contente,
é como se o céu cantasse
para a ternura da gente!
FERNANDO BURLAMAOUl
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Não tremas ingenuamente,
nem te cubras de rubor!...
O beijo é coisa inocente
na velha história do amor.
F. LUZIA NETTO
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Na pureza da inocência
e no cálice da flor
há, decerto, a florescência
sublime e santa do amor!
LUIZ G. CASTELLIANO
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É na tarde que desmaia, 
é numa canção dolente 
que a saudade se atocaia 
para apunhalar a gente. 
LOURDES STROZZI 
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Por nunca amar quem me ama 
e amar quem nunca me quis, 
as feridas do meu drama 
deixam dupla cicatriz... 
LUCÍLIA A. T. DECARLI
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Poesia estado de graça, 
chama da alma em delírio. 
É prazer que nos abraça 
mas, também nos traz martírio. 
LÚCIO DA COSTA BORGES 
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Saudade, quase se explica
nesta trova que te dou:
Saudade é tudo que fica
daquilo que não ficou.
LUIZ OTÁVIO 
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Só, eu vivo bem comigo, 
pois sou boa companhia; 
nem preciso de um amigo 
para sentir harmonia. 
LYGIA LOPES DOS SANTOS 
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Longe vão minhas andanças 
e, em meu trêmulo cansaço, 
tento fazer das lembranças... 
bastão... e assim firmo o passo. 
MARIA CONCEIÇÃO FAGUNDES
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Ao longo desta jornada 
percorri "sobes e desces", 
mas sempre bem humorada 
envolvida em minhas preces! 
MARIA DE LOURDES AKEL
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Se a vida apaga as estrelas
e espalha trevas na estrada,
meu sonho pode acendê-las
criando luzes...do nada!...
MARIA LUA
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Em meus rascunhos guardados, 
não há mistérios… Porquê 
nos versos que são lavrados 
o tema é sempre… você! 
MARIA LÚCIA DALOCE
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Quisera ser um brinquedo
ou ser fios de esperanças,
para morar em segredo
no coração das crianças!
MARIA NASCIMENTO A. CARVALHO
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Vem, andorinha migrante,
pois aqui já é verão;
o teu voo esfuziante
alegra o meu coração.
MARINA VALENTE
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É fácil de fazer trovas 
quando se tem grande amor. 
Mil ideias sempre novas 
descem dos céus em louvor! 
MARITA FRANÇA
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Sobre a vida do vizinho, 
o porteiro argumenta... 
já faz dele um picadinho... 
se puder... joga pimenta! 
MARIZA SOARES DE AZEVEDO 
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O amor chega de mansinho 
como quem está brincando… 
Mostra a flor, esconde o espinho, 
e acaba nos machucando! 
MAURÍCIO LEONARDO 
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Minhas trovas são singelas, 
sem marcas nem pedantismo, 
pois eu faço, assim, com elas, 
arautos do romantismo. 
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH 
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A melhor sogra do mundo, 
que não é uma qualquer, 
encontrei-a num segundo 
e a dei pra minha mulher. 
NEI GARCEZ 
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Soprei. Apagou-se a chama.
disse-te adeus em seguida.
– Quem diz adeus a quem ama
diz adeus à própria vida!
OLEGÁRIO MARIANO 
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Se a saudade em mim subisse 
como me sobe a pressão, 
o dia em que eu não te visse 
me explodia o coração. 
ORLANDO WOCZIKOSKY 
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A liberdade do poeta,
está num verso... Num grito...
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
PROFESSOR GARCIA
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No espaço, brilhando inquieta,
cadente estrela me induz
a pensar que algum poeta
faz no céu versos de luz.
RITA MOURÃO
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Depois da aviária e a suína, 
mais folga o aluno cobiça: 
quer que venha, repentina, 
a gripe bicho-preguiça! 
ROZA DE OLIVEIRA 
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Ó Senhor, com o teu poder,
deixa na praia eu sonhar,
pois as ondas irão ver
que eu também pertenço ao mar!
SARAH RODRIGUES
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À primeira claridade, 
da manhã fresca e bonita, 
a nossa bela cidade 
desperta alegre e se agita. 
SERAFIM FRANÇA 
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Amigos que não convém
São aves de arribação:
- Se faz bom tempo eles vêm...
- Se faz mau tempo eles vão...
SOARES DA CUNHA 
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A Trova é tão pequenina 
mas quanta Beleza encerra, 
feliz de quem tem a sina 
de espalhá-la pela Terra!... 
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO  
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Da vida no grande coro, 
eis nosso destino atroz: 
Seguirmos de choro em choro, 
até que chorem por nós. 
TASSO DA SILVEIRA  
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Ao operar seu nariz
perdeu um olho, o Batista.
Vem outro louco e, então, diz
que o pagamento era a vista!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
TRIGUEIRO LINS 
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Pelo bem, lute na terra, 
com garra: seja tenaz; 
Pois é através da guerra 
que só se consegue a paz. 
VANDA ALVES DA SILVA
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Num dos lances mais astutos
que a vida tem-me inspirado,
eu mostro os olhos enxutos,
e escondo o lenço molhado.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
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Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.
VÃNIA ENNES
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Estudar é necessário 
quanto o alimento tomar. 
Saber é chave do armário 
pra experiência acumular. 
VASCO TABORDA RIBAS 
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Angústia é isto: este anseio, 
pássaro aflito, doente. 
Nem se sabe de onde veio 
pra sofrer dentro da gente! 
VERA VARGAS  
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Quando chora um trovador 
não é o seu pesar somente, 
canta, sofre e chora a dor 
colhida de toda gente. 
VICTORINA SAGBONI 
Curitiba/PR 
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Seja estrela sorridente 
no seu modo de viver, 
e com força transcendente 
faça o bem acontecer! 
VIDAL IDONY STOCKLER 
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Quando encontram-se as amigas, 
mil fofocas vão pro ar... 
Sob a trança das intrigas, 
se divertem: tudo ao par! 
WALDEREZ DE ARAÚJO FRANÇA 
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No caminhar, vença o atalho 
da vida, exercite a messe, 
veja o exemplo do carvalho, 
demora a crescer, mas cresce! 
WALNEIDE FAGUNDES S. GUEDES 
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Passa o tempo... e a mocidade 
vai deixando, em seu lugar, 
pegadas para a saudade, 
um dia, me procurar! 
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ 
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Adélia Prado (Cacos para um vitral)


No caderno de Glória: um romance é feito das sobras. A poesia é núcleo. Mas é preciso paciência com os retalhos, com os cacos. Pessoas hábeis fazem com eles cestas, enfeites, vitrais, que por sua vez configuram novos núcleos. Será este pensamento vaidoso? Por certo. Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão. 
  
Glória decifrou o garrancho na nota de um cruzeiro: "Ontem fiz quinze anos e fui a primeira vez na Figueirinha. Dei Cr$ 50,00 pra mulher, ela ainda me deu troco. Não tava ruim, nem bom." 
  
Juca entrou esfregando as mãos: 

- Tá um frio de matar velho! 

- Se quer capote, na segunda prateleira da cozinha tem. 

Juca bebeu e saiu. Tivesse ou não, brigado com a Naná, a cada dia ele bebia mais. Estará certo, pensou Glória, facilitar desse modo a cachaça do Juca? Estarei sendo leviana? Estava. 
  
Ritinha: - Mãe, se eu morrer cê chora? 

Glória: - Ih! Choro até secar. 
  
Glória ouviu de relance os peões almoçando na obra: 

- Rico tinha que nascer tudo morfético. 

- Tem rico legal, sô! 

- Tem não. 
  
Ritinha chegando da escola: 

- Mãe, eu laía e a Fostina envinha. Ela envinha aqui? 

- Que é isso? Existe o verbo lair e envir? 

- A senhora também fala assim. 

- Falo mesmo. 

- Então... 

- Então nada. É porque eu gosto muito da minha filhinha e quando a gente gosta, chateia um pouquinho. 
  
Anselmo Vargas beijava Sônia Margot na novela das sete. O menininho de Matilde pediu: mãe, muda o programa. Meu pintinho fica ruim. 
    
- Dona Glória, eu fiquei incurvida. 

- O quê? 

- É, sobrou pra mim a obrigação de catar neste quarteirão as esmolas pro Natal dos pobres. 

- Ah! 

- O apostolado, cuja eu sou membra é que me incurviu. Entra, Fostina. 

- Não, se eu delatar, atrasa pra mim. 
  
A placa indicava na estradinha de chão: Sítio do AU PURO. Alguém tinha consertado: Sítio do AR PURO. Gabriel parou o carro e escreveu em baixo, sítio do AL PURO. No lugar voava sem pressa uma linda borboleta amarela e preta. 
  
Copiado por Gabriel, do sanitário da rodoviária: PEDE NÃO HORINAR NO VÁS. 
  
Remexendo papéis, Glória achou uma notação com sua letra: "retalho de poesia dá excelente prosa." Não se lembrava mais por que escrevera aquilo. "Retalho de poesia dá excelente prosa, como retalho de hóstia dá excelente sopa", descobriu escrito mais embaixo. Ainda: "Privada pública" é uma impropriedade. Empregada chama as amigas invariavelmente de colegas. Deus é fiel, no entanto vacilo, amo com reservas, deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Quando serei evangelicamente generosa, confiante como um menino para quem o Reino está preparado?" 
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    ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia de Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

Fonte: 
Adélia Prado. "Cacos Para Um Vitral",  publicado em 1989. 

Pescaria de Palavras


Beth Ramos
Campinas/SP

Se...
eu pudesse escolher alguém pra amar, com certeza seria você.
Pessoa maravilhosa, com esse seu jeito vai me encantar.
Despertando em mim um sentimento estranho e confuso.
Estranho pois não o conheço ainda, confuso porque tô aqui perdida, sem conseguir me encontrar.
Será que isso é amor?
Se é não sei, só sei que te amaria sem medo ou pudor.
Me perderia em seus braços, te entregando todo o meu amor.

Luís Fernando Veríssimo (Atitude suspeita)


Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso "em atitude suspeita". É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida  e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.  

- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?  

- Suspeita.  

- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que  ele alega?

- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra  a prisão.

- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria  medo de vir dar explicações.

- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!  

- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

- Mas eu só estava esperando o ônibus!  

- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a  nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o  próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

- Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias  para ir pra casa! Sou inocente!

- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

- Fugir, como?  

- Fugir no ônibus. Quando foi preso.  

- Mas eu não tentava fugir. Era o meu ônibus, o que eu  tomo sempre!

- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é  criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus,  em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes  da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.  

- Ah, uma confissão!  

- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O  senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude  suspeita?

- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

- Delegado...  

- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês  querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta  atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar  em atitude suspeita, é um pouco...

- Um pouco? Um pouco?  

- Suspeita.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fonte:
Luís Fernando Veríssimo. O gigolô das palavras. Publicado originalmente em 1987.

Contos e Lendas do Mundo (Inglaterra) Capa de Juncos


Era uma vez um homem abastado que tinha três filhas. Um belo dia, lembrou-se de comprovar até que ponto o estimavam e perguntou à primeira:

- Gostas muito de mim, querida?

- Tanto como da minha própria vida.

- Assim é que me agrada ouvir. 

E perguntou à segunda: 

– Gostas muito de mim, querida?

- Mais do que tudo neste mundo.

- Assim é que me agrada ouvir. 

- E dirigiu-se à terceira: 

- Gostas muito de mim, querida?

- Tanto como a carne tenra gosta do sal.

Sim, foram estas as palavras da jovem. E nem fazem uma ideia de como ele ficou fulo!

- Não gostas absolutamente nada de mim! - bradou. - Por conseguinte, não há lugar para ti nesta casa!

Ato contínuo, pôs-a na rua e fechou-lhe a porta na cara. Ela cansou-se de andar até que chegou a um bosque, onde reuniu um monte de juncos, com os quais confeccionou uma espécie de vestido e uma capa para se cobrir da cabeça aos pés e ocultar as roupas elegantes que usava. Depois, continuou a caminhar, até que bateu à porta de uma casa suntuosa.

- Precisam de uma criada? - perguntou.

- Não, estamos servidos - foi a resposta seca.

- Não tenho para onde ir. Não peço qualquer salário, e executo toda a espécie de trabalhos.

- Bem, se queres lavar louça e panelas, podes ficar.

A jovem foi, pois, admitida para as tarefas menos agradáveis da faina doméstica. E, como não disse como se chamava, tratavam-na por Capa de Juncos.

Um dia, realizou-se perto dali uma grande festa, com baile, à qual os serviçais podiam assistir. No entanto, Capa de Juncos disse que estava demasiado cansada para acompanhar os outros e ficou em casa. Mas, quando se encontrou só, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile, onde se tornou notada por ser quem melhor trajava.

E quem estava lá senão o filho do seu amo? E que fez ele senão enamorar-se dela no instante em que a viu pela primeira vez? Na verdade, não quis dançar com mais ninguém.

Mas, antes de o baile terminar, ela retirou-se sem dar nas vistas e regressou apressadamente à casa. Quando as outras criadas chegaram, já voltara a vestir a capa de juncos e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, disseram-lhe:

- Nem imaginas o que perdeste, Capa de Juncos!

- O quê? - perguntou ela, fazendo-se de novas.

- A senhora mais formosa que jamais se viu, com um vestido verdadeiramente deslumbrante e elegante. O nosso amo não lhe tirava os olhos de cima.

- Sim, teria gostado de a ver.

- Esta noite, há outro baile, e ela talvez apareça.

Mas, quando anoiteceu, Capa de Juncos alegou cansaço excessivo para poder acompanhar as colegas. No entanto, assim que partiram, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile.

O filho do amo estava a contar tomar a vê-la e não dançou com mais ninguém, nem conseguia tirar-lhe os olhos de cima. Mas, antes de o baile terminar, ela retirou-se sem dar nas vistas e regressou apressadamente a casa.

Quando as outras criadas chegaram, já voltara a vestir a capa e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, voltaram a dizer-lhe:

- Devias ter estado lá para veres a bela dama! De novo elegante como na véspera, e o nosso amo não lhe tirava os olhos de cima.

- Que pena! Teria gostado de a ver!

- Logo à noite, volta a haver baile. Tens de ir, pois é quase certo que ela há de comparecer.

Mas, quando anoiteceu, Capa de Juncos alegou cansaço excessivo para poder acompanhar as colegas. No entanto, assim que partiram, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile.

O filho do amo regozijou-se quando a viu. Não dançou com outra mulher, nem lhe tirava os olhos de cima. Como ela se recusou a divulgar o nome e origem, ele ofereceu-lhe um anel e declarou que, se não a tomasse a ver, morreria. Todavia, antes de o baile terminar, Capa de Juncos escapou e regressou a casa.

Quando as criadas chegaram, já voltara a vestir a capa de juncos e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, perguntaram-lhe:

- Porque não vieste conosco, ontem? Agora, já não poderás ver a bela dama, pois os bailes terminaram.

- Sim, teria gostado muitíssimo de a ver!

O filho do amo fez o impossível para averiguar o paradeiro da deslumbrante mulher, mas, por mais que perguntasse, não conseguia apurar o menor indício. Entretanto, emagrecia e definhava a olhos vistos, consumido pelo amor por ela, até que teve de recolher à cama.

- Prepara um purê de aveia para o nosso amo mais jovem – indicaram à cozinheira. - De contrário, morre de nostalgia pela mulher amada.

A cozinheira concentrava-se na confecção do purê, quando Capa de Juncos entrou.

- Que estás a fazer? - perguntou.

- Um purê de aveia para o nosso jovem amo e evitar que morra de nostalgia pela mulher amada.

- Eu trato disso.

A princípio, a cozinheira recusou, mas acabou por transigir, pelo que Capa de Juncos preparou o purê de aveia. No final, antes que a outra o levasse ao enfermo e sem que se percebesse, depositou nele o anel.

O jovem removeu o purê com a colher, viu o anel no fundo do prato e ordenou:

- Chamem a cozinheira.

Quando esta se achou na sua presença, perguntou-lhe:

- Quem preparou este purê de aveia?

- Fui eu - disse ela, com receio de revelar a verdade.

Ele olhou-a com intensidade e replicou:

- Não, não foste tu. Diz-me quem foi, e garanto-te que não te acontecerá nada.

- Muito bem. Foi Capa de Juncos.

- Diz-lhe que venha.

Quando a jovem entrou no quarto, ele inquiriu:

- Foste tu que preparaste o purê de aveia?

- Sim, fui eu.

- Onde foste buscar o anel?

- Deram-me.

- Quem és, na realidade?

- Vou elucidar-te.

Com estas palavras, ela despiu a capa de juncos e apresentou-se com as suas elegantes roupas.

Talvez não acreditem, mas o seu jovem amo curou-se imediatamente e quis casar com ela sem a mínima demora. Seriam uns esponsais invulgares, pelo que convidaram toda a gente, tanto quem vivia perto como longe. Por conseguinte, o pai de Capa de Juncos foi incluído, sem que, todavia, ninguém lhe dissesse quem era a noiva.

Antes da boda, a jovem procurou a cozinheira e ordenou-lhe:

- Quero que prepares toda a comida sem uma pedra de sal.

- Mas vai ficar horrivelmente insípida - disse a mulher.

- Não importa.

- Muito bem.

Uma vez consumada a cerimênia, todos foram ocupar os seus lugares para o banquete.

Quando provaram a carne, estava tão insípida que não a puderam comer.

No entanto, o pai de Capa de Juncos provou uma das iguarias e depois outra e começou a chorar.

- Que se passa? - quis saber o noivo.

- Eu tinha uma filha à qual perguntei se me estimava muito e respondeu que me apreciava tanto como a carne tenra precisa do sal. Expulsei-a de casa, porque pensei que isso era uma prova de que não me dispensava o menor afeto. Compreendo agora que era a que mais me estimava. E talvez morresse sem o meu conhecimento.

- Não, pai, aqui me tens - disse Capa de Juncos, que correu para ele e o abraçou.

A partir de então, foram todos muito felizes.

Fonte:
Ulf Diederichs. Palácio dos Contos. Lisboa: Círculo de Leitores, Maio de 1999.