segunda-feira, 22 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 11 *


Quem seu ciúme proclama,
fazendo questão de expô-lo,
insulta aquela a quem ama,
e ainda faz papel de tolo…
ADALBERTO DUTRA RESENDE
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Compaixão é sofrimento    
(a própria palavra diz)
assumir por um momento
a dor de um ser infeliz.
ADAMO PASQUARELLI
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Só verdade e compaixão
ponha no que você faz;
derrame amor e perdão
e deixe fluir a paz.
ADÉLIA MARIA WOELLNER
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Tratei de toda a colheita
feito um burro e ando na estafa!
O que o doutor me receita?
- No seu caso, chá de alfafa...
ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA
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Na busca eterna da paz,
a humanidade se enterra;
seus próprios sonhos desfaz
na luta inglória da guerra!
AMARYLLIS SCHLOENBACH
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Prato de vidro, vazio,
feito um espelho, em teu fundo
refletes o olhar sombrio
das injustiças do mundo!
ANTÔNIO DE OLIVEIRA
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Um fato triste, por certo,
não convém ser relembrado…
Jamais conserve por perto
as tristezas do passado!
BENEDITO MADEIRA
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Há quem chore por defunto
bem na beira do caixão,
mas ninguém quer ficar junto
do finado sob o chão.
CARLOS ALBERTO DE ASSIS CAVALCANTI
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Não somos um par perfeito,
mas, nas rusgas entre nós, 
a batuta do respeito
rege sempre o tom da voz...
DARLY O. BARROS
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A maldade em profusão
leva-nos ao caos profundo.
Rogo a Deus a compaixão
pelos pecados do mundo!
DÉCIO RODRIGUES LOPES
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Olhei a foto atrevida
de uma cena de nós dois:
Era o retrato da vida,
tão diferente depois!
DELCY CANALLES
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Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés… do nada!
DOROTHY JANSSON MORETTI
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Estranha contradição
que a Terra vira e revira:
Muita mentira é paixão,
muita paixão é mentira.
EMÍLIO DE MENESES
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Minha alma tão pequena
perto de um mar tão profundo,
torna-se grande e serena
para as ressacas do mundo.
FÁTIMA PANISSET
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Casar-se é sina dorida,
tolo modo de viver…
é bronca por toda vida
e se paga pra sofrer!
FERNANDO DE VASCONCELOS
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Quando a dor se manifesta,
não desisto, sigo em frente,
pois sei que a luz que me resta
é Sol para muita gente.
GERSON CESAR SOUZA
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Ó carreta, a nossa sorte
é bastante parecida,
quase no atalho da morte,
seguindo a estrada da vida!
HELENARA
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A saudade é dor pungente,
mora no meu coração...
Saudade de tanta gente
faz parte da solidão,
HELENA SCANFERLA
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Quando interrompo meus passos
com medo do anoitecer,
passeio pelos teus braços
onde é sempre amanhecer!
HÉLIO CASTRO
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Ciúme... será doença?
É zelo ou desconfiança
de quem, no amor vive, pensa,
perdido na insegurança...
HÉLIO DOS SANTOS PINTO
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Caminho por uma estrada
sem nunca ver o seu fim;
e, de quebrada em quebrada,
deixo um pedaço de mim!
HÉLIO GONÇALVES
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Sofre do velho à criança,
morre o gado e a plantação;
só não fenece a esperança,
quando há seca no sertão.
HÉLIO PEDRO SOUZA
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Palhaço, visão querida,
dos meus tempos de criança...
velha saudade escondida,
no meu baú de lembrança!
HELVÉCIO BARROS
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Quem se perde em devaneios
não vê que o tempo, ao passar,
vai girando e, em seus volteios,
não volta ao mesmo lugar...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
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Ao professor muito devo,
devo ao médico também.
Mas o livro é meu enlevo,
tudo que sei dele vem.
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
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Perdido em divagações
sento à beira do caminho…
Como se as recordações
não me deixassem sozinho!
IALMAR PIO SCHNEIDER
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Quanto na vida sofri,
quanto pranto derramei.
Não foi somente por ti,
chorei foi por que te amei.
IGNEZ FREITAS
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Teus olhos têm a magia
da nobre e verde esmeralda.
Fascínio que ludibria
o amor... sem véu ou grinalda.
ILZA DAS NEVES
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Uma colcha de retalho,
só de lembranças de outrora,
é hoje o grande agasalho,
que aquece o inverno de agora.
ILZE DE ARRUDA CAMARGO
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Eu te juro; há só verdade
neste amor grande e profundo,
que me traz felicidade
do tamanho deste mundo.
IONE TAGLIALEGNA
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Deu-me a sorte, sem piedade,
meu sonho por destruído
e uma absurda saudade
do que nunca foi vivido.
IRACI PIETRANI
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Os teus lábios tão risonhos,
resplandecem de doçura,
são estrelas no meus sonhos,
reluzindo em noite escura.
IRAMAR MEIRELES GONÇALVES 
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As lembranças de nós dois
fui guardando nas caixinhas...
para descobrir depois...
que em verdade... eram só minhas!
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA
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A saudade em nossa vida
dilacera o coração!
Mas... não dói como a ferida
da palavra Ingratidão! 
JACINTO BARBOSA DE CAMPOS
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A velhice, meu irmão,
não é uma questão de idade.
É quando vai-se a ilusão
E vem chegando a saudade…
JAIME PINA DA SILVEIRA
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A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…
J. G. DE ARAÚJO JORGE
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Sinto uma grande alegria 
e o alvo sempre persigo: 
conquistar a cada dia 
um novo e leal amigo.
JESSÉ NASCIMENTO
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Zureta é minha vizinha,
foi perder o seu pivô…
Pudera! Era tanta linha,
costurou em seu tricô.
JOSÉ FELDMAN
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Não penses que estás distante
de uma estrada mais florida,
há sempre um mágico instante
que muda os rumos da vida!
JOSÉ LUCAS DE BARROS
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A ponte tem dois destinos,
tanto leva, como traz,
leva e traz os desatinos,
mas também amor e paz.
JUDITE DE OLIVEIRA
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Se a revolta me alucina
e a solidão me consome,
a saudade sempre assina
seu nome sobre o seu nome!...
LEDA COSTA LIMA
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Da sua casa ao cartório
apenas um quarteirão...
Dada a preguiça, o casório
se fez por procuração.
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
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Todos querem sufocar,
com disfarces atrevidos,
e sordidez invulgar,
o grito dos excluídos .
LUIZ CARLOS ABRITTA
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O porco acordou suando,
pois teve um sonho confuso:
- Sonhou que estava morando
com a porca... de um parafuso!
LUIZ MONTEZI EVANGELISTA
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Às vezes o mar bravio
dá-nos lição engenhosa:
afunda um grande navio,
deixa boiar uma rosa!
LUIZ OTÁVIO
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Seca: quanta desventura
enche a terra de tristeza!
O homem sofre, mas a cura
vem da própria natureza.
MARA MELINNI GARCIA
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A vida é, para os meus passos,
uma rua de tropeços ...
Mas, se é rua de fracassos,
também é ... de recomeços! ...
MARCELO ZANCONATO PINTO
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Acenda a luz da esperança
ante a angústia de um momento...
Com revolta não se alcança
o cessar de um sofrimento!
MARIA ANTONIETA B. DUTRA
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Zé foi ver o Boitatá
e virou lenda daqui:
não levou a esposa lá
e se tornou Boitaqui... 
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
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Aos Teus pés eu me ajoelho, 
erguendo graças Senhor! 
- Quem me dera ser espelho 
para a Luz do Teu Amor!
RODOLPHO ABBUD
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Eduardo Martínez (A linda mulher no cavalo branco)


Ataliba não conseguia se esquecer daquela mulher maravilhosa que conheceu há tempos. Não sabia exatamente se ela era real ou, então, fora simplesmente um sonho que havia sonhado em mais um momento durante a hora de almoço no trabalho. Na verdade, pelo que se lembrava, ela surgiu montada em um lindo cavalo branco, bem lá naquelas colinas. Todos ficaram boquiabertos com aquela figura tão esplendorosa, que poderia muito bem ter saído de uma tela de cinema. Talvez tenha sido isso mesmo, já que Ataliba amava os clássicos hollywoodianos dos anos 1950.

Decidido a decifrar tal enigma, remexeu a ampla estante repleta de vídeos antigos. Espanou o velho videocassete. A poeira lhe causou uma tosse quase instantânea. Recomposto, conectou os fios à televisão. Passou todo o final de semana numa busca frenética por aquela mulher. Nada!!! Não havia Grace Kelly, Ingrid Bergman, Sophia Loren nem Elizabeth Taylor que pudesse substituí-la.  

Na segunda-feira, as olheiras o acompanharam até o trabalho, e com ele permaneceram até sexta. Mal conseguiu prestar atenção ao serviço. Todavia, ninguém pareceu notar, pois todos estavam entretidos com suas tarefas. Talvez apenas Heloísa, a moça da copa, tenha percebido, já que Ataliba mal tocou nos inúmeros cafezinhos deixados em sua mesa. 
 
Voltou para casa o mais rápido possível. Caminhou sem se dar conta de que havia esbarrado em pelo menos duas pessoas durante o trajeto. Uma o xingou, é verdade. Não se sabe se percebeu que tal injúria era para ele ou, então, simplesmente a ignorou, pois tinha uma missão a cumprir. Descobrir quem era aquela mulher havia se tornado uma obsessão. 

Dezenas de filmes mais. Nada!!! Nenhuma imagem da sua amada. Sim, Ataliba agora tinha certeza de que amava aquela mulher. A paixão era o único sentimento que o impulsionava nessa busca incessante. E foi assim pelos próximos meses. A mesma rotina.

Ataliba havia perdido alguns quilos. Mal sentia o gosto da comida, às vezes até se esquecia de se alimentar. Já nem se preocupava em fazer a barba, pentear os cabelos. A roupa amarrotada, a mesma que havia lhe feito companhia na última sexta-feira, lhe conferia o aspecto de desleixado. As olheiras completavam o cenário, que agora parecia de pura frustração.

O homem adormeceu. A encantadora mulher, montada no lindo cavalo branco, finalmente surgiu bem diante dos seus olhos. Ela abriu o mais belo sorriso que Ataliba havia visto. Que emoção!!! O seu coração acelerou como nunca. Parou! Seu corpo só foi encontrado depois de quase uma semana. Os vizinhos começaram a reclamar do fedor vindo do apartamento daquele homem solitário.
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O escritor Eduardo Martínez (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 30.01.2023
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2023/01/a-linda-mulher-no-cavalo-branco.html
Referências da Biografia = Cultura SC; Jornal Cultural Rol; Notibras; Radar Digital Brasília; Casa Brasileira de Livros; Portal UFRRJ, etc.

Luís Fernando Veríssimo (O Homem Trocado)

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.

– Eu estava com medo desta operação…

– Por quê? Não havia risco nenhum.

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… 

E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.

– Seu nome não é Lírio?

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

– O senhor não faz chamadas interurbanas?

– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?

– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.

– É. A operação era para tirar o apêndice.

– Não era para trocar de sexo?
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LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fontes:
Luís Fernando Veríssimo. Comédias da vida privada. Publicado originalmente em 1994.
Biografia = Wikipedia; Diplomatique; Ebiografia; Revista Cândido; Academia Brasileira de Letras; Brasil Escola; Estadão; Itaú Cultural, etc.

Clarice Lispector (Os Bonecos de Barro)


O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro — o que ninguém lhe ensinara. Trabalhava numa pequena calçada de cimento em sombra, junto à última janela do porão. Quando queria com muita força ia pela estrada até ao rio. Numa de suas margens, escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia desejar: branco, maleável, pastoso, frio. Só em pegá-lo, em sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles pedaços timidamente vivos, o coração da pessoa se enternecia úmido quase ridículo. 

Virgínia cavava com os dedos aquela terra pálida e lavada — na lata presa à cintura iam se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os pés descalços e ela mexia os dedos úmidos com excitação e clareza. As mãos livres, ela então cuidadosamente galgava a margem até a extensão plana . No pequeno pátio de cimento depunha a sua riqueza. Misturava o barro à água, as pálpebras frementes de atenção — concentrada, o corpo à escuta, ela podia obter uma porção exata de barro e de água numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matéria clara. e tenra de onde se poderia modelar um mundo.

Como, como explicar o milagre… Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa.

Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina.

Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo… de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.

Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando… Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, m:to eram nada…Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!…

Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. 

Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. 

No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.

Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.

— Bonito… bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce.

Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível.

As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.

E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranquila.
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CLARICE LISPECTOR (Chaya Pinkhasivna Lispector) foi uma das escritoras mais importantes, originais e influentes da história da literatura em língua portuguesa. Associada à Terceira Geração do Modernismo Brasileiro (Geração de 45), ela revolucionou a ficção nacional ao trocar as narrativas focadas em fatos externos por mergulhos profundos e psicológicos na alma humana. Nasceu em 1920, na aldeia de Chechelnyk, na Ucrânia. Sua família, de origem judaica, fugia dos horrores da Guerra Civil Russa e da perseguição antissemita. Ela chegou ao Brasil ainda bebê, com poucos meses de vida. Clarice sempre se declarou profundamente brasileira e pernambucana. Faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.
Embora tenha se formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1943, Clarice nunca exerceu a advocacia. Trabalhou como redatora e repórter em veículos como a Agência Nacional, Diário da Noite e Correio da Manhã. Sob os pseudônimos de Helen Palmer e Ilka Soares, escreveu crônicas e conselhos de beleza, moda e comportamento para o público feminino em jornais da época. Dominando vários idiomas, traduziu grandes autores internacionais para o português, incluindo Agatha Christie, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Ao se casar com o diplomata Maury Gurgel Valente, viveu quase duas décadas no exterior (Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra), dedicando-se à escrita e aos deveres sociais da função do marido.
A estreia de Clarice na literatura foi um verdadeiro terremoto cultural. Ao longo de sua carreira, construiu uma obra vasta que abrangeu romances, contos, crônicas e literatura infantil. Em 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. A obra recebeu aclamação imediata da crítica pelo estilo inovador, que rompia com o regionalismo realista que dominava a época. Seus textos ficaram marcados pelo conceito de "epifania" — momentos em que ações banais do dia a dia (como olhar para um cego mascando chiclete ou quebrar um ovo) disparam crises existenciais profundas em seus personagens. Consagrou-se com livros fundamentais como Laços de Família (1960 - contos), A Paixão segundo G.H. (1964 - romance) e Água Viva (1973). Seu último livro publicado em vida foi A Hora da Estrela (1977). A obra narra a comovente e trágica história de Macabéa, uma datilógrafa nordestina invisível na metrópole do Rio de Janeiro.
A relevância de Clarice Lispector para a literatura mundial é monumental por redefinir a própria forma de contar histórias:
Foi pioneira no Brasil ao utilizar de forma radical o fluxo de consciência e o monólogo interior. A trama física importa pouco em seus livros; o verdadeiro cenário da ação é o pensamento caótico e subjetivo dos personagens; Muito antes dos debates contemporâneos, ela expôs o sufocamento da mulher burguesa presa aos papéis tradicionais de esposa e mãe (como visto nos contos de Laços de Família), revelando a angústia oculta atrás da normalidade doméstica; Clarice não usava as palavras apenas para descrever coisas, mas para criar sensações físicas e filosóficas. Sua escrita é poética, enigmática e quebra a lógica gramatical tradicional para tentar traduzir o que é "inexpressável".

Fontes:
Clarice Lispector. O Lustre. Publicado originalmente em 1946.
Biografia = Revista Pernambuco; Brasil Escola; Casa do Saber; Jornal de Letras; Mundo Vestibular, Itaú Cultural, UNICAMP, Correio Braziliense, FFLCH USP, Revista Rascunho, etc.

domingo, 21 de junho de 2026

Asas da Poesia * 194 *


Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Amigo

É a verdade nua,
tantas vezes vertida na lágrima da palavra
que a mentira piedosa não conforta.

É o abraço fidedigno
estreitado no lamento das árduas horas
na improbabilidade da chegada.

É o doce afago,
que no coração não cansa
quando a distância não alcança.

É a incondicional compreensão
que as aparências não julga,
os erros não condena.

É o olhar cuidado
raio de sol cintilante,
que o tempo não ofusca.

É a saudade perene,
rosto que não se esvanece de ausência.
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Aldravia de
MADAGLOR DE OLIVEIRA
(Maria da Glória Jesus de Oliveira)
Porto Alegre/RS

rutila
seduz
olhos
de
mar
menina
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Soneto de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Mocidade

Lindo tempo o do sonho e da vontade!
Sem palavra, sequer, que bem o exprima,
o pensamento a erguer-se bem acima
da montanha da vida em claridade!

Tempo feliz da nossa mocidade
que a luz do amor e da ilusão sublima,
quando tudo nos prende e nos anima
ao fio e à teia da felicidade!

Não há quem não conheça, e, conhecendo,
não dê tudo de si para que nunca
deste tempo de paz vá se esquecendo.

Mágoas? Feliz de quem puder vencê-las,
e ver que a mão de alguém seus passos junca
de pérolas, de rosas e de estrelas!
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Trova de
CORIOLANO HENRIQUE CAMPOS 
Maringá/PR

- O que tens, minha netinha,
com este choro profundo?
- Morreu a sua filhinha...
E eu perdi tudo no mundo...
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Poema de
NÉLIO CHIMENTO
Rio de Janeiro/RJ

O cão não distingue cores
Mas percebe suas dores
Não sabe o seu salário
Não se importa se você é letrado
Ou se não conhece o dicionário 

É bálsamo que acalma
Que não trata com indiferença
As angústias de sua alma
Nos momentos de aflição

Não tem malícia nem dissimulação
Apenas amor no coração
Recebe sempre com gratidão
O que lhe é oferecido
Seja um alimento enriquecido
Ou apenas um pedaço de pão

Não importa se tem casa bonita
Ou vagueia pela avenida
Sua amizade é infinita
E sua "alma" por Deus bendita

O cão não magoa, não se ofende
Não te abandona por nada
Enfrenta qualquer parada
Na doença, no frio, na solidão...
Com a alegria sincera
De quem te ama de paixão

Um cão, ainda que combalido
Não te deixará desprotegido
Diante de qualquer perigo
Dizem que o amor não tem definição

Discordo, tem sim!
O amor se chama CÃO!
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TROVA POPULAR

Quem tem amores não dorme,
nem de noite, nem de dia;
dá tantas voltas na cama,
como o peixe na água fria.
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Poema de
ANTONIO CASTILHO
Avaré/SP

Trabalhar 

Olhando pela janela
Ouço os pássaros cantar
O sol se por
E vejo a lua brilhar

Depois de tantos anos
Só agora venho apreciar
Depois dos cabelos branco 
e da pele enrugar
De tanto trabalhar

Eu não pensava em nada
Não passeava muito menos ia viajar
Só queria ganhar dinheiro
Pra depois sossegar

Mas fiquei velho
Não vi o tempo passar
Hoje vivo no asilo, numa cama
Pois não posso mais andar

Nem família tenho pra me visitar
Nem filho pra me amparar
Amigos, tive pouco
E hoje não sei onde esta

Pra que tanto dinheiro
Se não tenho a onde gastar
De que me valeu trabalhar tanto
Se a juventude que perdi
O meu dinheiro não dá para comprar
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Trova de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR

Para muitos a ventura
é clarão que vem e passa, 
um sorriso que não dura,
um reflexo na vidraça.
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Poema de
ATÍLIO ANDRADE
Curitiba/PR

Flores

Flores que enfeitam
O inverno que não vêm
Brancas, azuis, vermelhas tem
A beleza e o perfume  que encantam...
O soprar do vento une
O gosto das fragrâncias
No cheiro das distâncias
Que afogam no perfume
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Haicai de
VANICE ZIMERMAN FERREIRA
Curitiba/PR

névoa de inverno -
manhãs em tons de gris
oculta o telhado
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Soneto de
CIDOCA DA SILVA VELHO
São Luís do Paratinga/SP, 1920 – 2015, Jundiaí/SP

Poente da vida

É impossível voltar ao tempo antigo,
com tudo começando novamente!
Mesmo assim, quero ser o teu abrigo,
nesta fase da vida de sol poente!

Quantas horas perdemos, meu amigo,
na escalada dos tempos, tristemente!
E passou a ilusão que hoje eu bendigo,
por ver-te em minha estrada, frente a frente.

Foge do vento frio dos caminhos!
Escondido nos galhos farfalhantes,
vê quanto amor existe pelos ninhos.

Há de florir em versos palpitantes
o nosso amor, só feito de carinhos,
num turbilhão de rimas delirantes...
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Quadra Humorística de
IDEL BECKER
Porto Casares/Argentina, 1910 – 1994, São Paulo/SP

O amor dum estudante
não dura mais que uma hora:
toca o sino, vai pra aula,
vêm as férias, vai-se embora.
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Poema de
MARIA ANTONIETA GONZAGA TEIXEIRA
Castro/PR

Viver de Sonhos

Viver de sonhos
é alegrar-se com os detalhes,
é perambular pelas ruas
e voar pelos ares.
Viver de sonhos
é caminhar nos campos,
apreciar ao vento
madeixas sem grampos.
Viver de sonhos
é ser gente
que vislumbra o mundo
e vive contente.
Viver de sonhos
é ser caminhante,
amante da vida,
de sonho errante.
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Aldravia de
MARZO SETTE TORRES
Belo Horizonte/MG

tantos
falsos
deuses
tantos
descrentes
fazem
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Soneto de
COLBERT RANGEL COELHO
Pitangui/MG, 1925 - 1975, Rio de Janeiro/RJ

O luar de minha terra

Neste luar de minha terra vejo
matizes de saudade pelo espaço,
na evocação do meu primeiro beijo,
na timidez do meu primeiro abraço.

Este luar desperta meu desejo
e volto à juventude; e, passo a passo,
eis-me à beira do cais, no rumorejo
de um passado feliz que eu mesmo traço.

À tua espera, minha grande ausente,
pelo facho de luz que vem da serra,
vejo que surges como antigamente.

E, quando surges, neste mesmo cais,
revivem no luar de minha terra
noites distantes que não voltam mais.
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Trova de
LILINHA FERNANDES
Rio de Janeiro/RJ, 1891 – 1981

- Sábio, na vida tão rude,
quem te dá força? - A oração.
- Quem te dirige? - A virtude.
- Quem é teu mestre? - A razão.
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Ela
Era onda de alegria.
Ia
Ria...
Até no bater do peito 
Pois sabia que de outro jeito,
Era um quase nada,
Espumas,
Era um recuar de maré.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Vinha quente o tempo.
De repente vira o vento,
volte o vinho então.
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

O medo 

Sucinto, te sinto
às vezes silente
em raro decanto

ou pressinto teu mavioso canto.
Um instinto quase animal revela
teu êxtase, em peculiar encanto.
Escorres por minhas frestas em
ecos, és o labirinto sacrossanto.
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Trova sobre Casamento de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
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Hino de 
CASTRO/ PR

De pequena freguesia
e pousada de tropeiro
se elevou a vila um dia
pelos bravos pioneiros.

Já cidade em belo trilho
no mérito das conquistas
exaltou com grande brilho
a alma dos seus artistas

Castro, cidade alegria
orgulho e prazer nos dá
Castro, cidade poesia
jardim do meu Paraná.

Engastada em verde mata
e traçada em linhas retas
quando em flores se desata
como inspira seus poetas.

Tem recanto de turismo,
tem belezas naturais,
tem poesia e tem lirismo
e tem lindos pinheirais.
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Castro: A Poesia e Orgulho do Paraná
A música 'Hino de Castro - PR' celebra a história e as belezas naturais da cidade de Castro, localizada no estado do Paraná. A letra começa destacando a origem humilde da cidade, que começou como uma pequena freguesia e pousada de tropeiros. Esses tropeiros eram responsáveis pelo transporte de gado e mercadorias, e a cidade se desenvolveu graças ao esforço e coragem dos pioneiros que a elevaram ao status de vila.

O hino continua exaltando as conquistas da cidade, que se transformou em uma bela cidade, reconhecida pelo mérito de suas realizações. A letra destaca a importância dos artistas locais, cuja alma e talento contribuíram para o brilho e a cultura de Castro. A cidade é descrita como um lugar de alegria, orgulho e prazer, sendo um verdadeiro jardim no estado do Paraná.

A música também enfatiza a beleza natural de Castro, mencionando suas matas verdes, linhas retas e flores que inspiram poetas. A cidade é apresentada como um recanto de turismo, com belezas naturais, poesia, lirismo e lindos pinheirais. A letra do hino é uma ode à cidade, celebrando sua história, cultura e paisagens deslumbrantes, e reforçando o sentimento de orgulho e pertencimento dos seus habitantes. 
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Poetrix de
ODETE RONCHI BALTAZAR
Criciúma/SC

Outono

As árvores, nuas,
exibem silhuetas
de provocar inveja.
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Soneto de
ELTON CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994

Lavrador

Nem bem surgiu o rubro da alvorada,
nem bem a noite se aquietou no monte,
já vai o lavrador levando a enxada
e se perde nos longes do horizonte.

E, após uma exaustiva caminhada,
antes mesmo, sequer, que o sol desponte,
rega a terra querida e abençoada
o suor que lhe escorre pela fronte!

Os que tratam da terra todo o dia
e fazem do trabalho uma alegria
têm a chama divina dos heróis.

Há centelhas de luz nos seus destinos:
lavradores são deuses pequeninos
que, da terra e do nada, criam sóis!
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Trova de
ARTHUR EDUARDO PEREIRA
Brusque/SC

Quando há segredo de amores,
como envelopes lacrados,
se abertos são como flores
e eternos, quando fechados.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O financeiro e o remendão

O remendão cantava noite e dia,
Era um gosto escutá-lo!
Feliz em sua pobreza, parecia
Um nababo nadando em opulência.

Seu vizinho não tinha igual regalo,
Nem quieto repouso.
Apesar da riqueza, a consciência
Trazia-o cuidadoso.

Era um grão financeiro o tal vizinho;
Vivia maldizendo a Providência
Por não ter feito o sono e a alegria
Uma mercadoria
Que se comprasse como o pão e o vinho.

Se às vezes dormitava,
Do remendão o canto o acordava!

Fê-lo ir à sua casa o financeiro
E perguntou-lhe: «Ó mestre, quanto ganha
Você num ano inteiro?

— Não posso calcular conta tamanha...
Tantos santos há hoje na folhinha
Causando feriados,
Que não ouso dizer, por vida minha,
Minha renda anual... Alguns cruzados.

Para não morrer de fome chega apenas
O que faço por dia,
Miserando salário,
Após muito trabalho, rudes penas!...

— Pois toma esta quantia,
Retruca o milionário,
Quero dar-te a fartura.
Não mais trabalharás em tua vida.»
E entregou-lhe uma bolsa bem sortida.

Foi às nuvens o pobre sapateiro!
Julgou-se logo o dono
De todo o ouro da terra!
Apressado correu ao seu telheiro,
Aonde esconde e enterra
Não só o ouro... a alegria e o sono!

Adeus, ledas cantigas!
Qualquer ruído o põe em sobressalto;
Se dorme, escuta vozes inimigas,
E treme até do leve andar do gato!

O mísero maldiz do seu contrato,
E prestes o desfaz;
Vai ter com o financeiro,
Que tranquilo dormia,
E diz-lhe: «Aqui tem o seu dinheiro,
Guarde-o, eu guardarei a cantoria,
E o meu dormir em paz!»
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Colaborações: gralha1954@gmail.com