quarta-feira, 30 de setembro de 2026

João Costa (Falando de Amor)

 

Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.

Um gosto de fim de festa,
tristeza, desilusão
É tudo, enfim, que nos resta
depois que os sonhos se vão...

Em meu delírio, cansado
de tanto em vão te esperar,
a saudade canta um fado
e faz minha alma chorar.

Peço-te perdão, querida ,
pela audácia de querer-te,
de sonhar-te em minha vida,
de imaginar merecer-te.

Nossas emoções primeiras,
sob o efeito da paixão,
são fortes, mas passageiras,
como chuvas de verão.

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…

Não me indagues por que te amo.
Não saberia dizer.
Eu te amo só porque te amo.
Que outra razão pode haver?

A vida é triste, sombria,
nesta minha solidão.
Sem a tua companhia,
é inverno em pleno verão.

A noite é perfeita e bela,
a lua encanta e seduz,
tecendo em nossa janela
uma cortina de luz.

Poesia, vida, beleza,
bem-aventurança, dor,
felicidade, tristeza…
É isso e bem mais o amor.

Jurei que não voltaria,
ao partir, e assim o fiz.
Lamento essa teimosia
que só me fez infeliz…

De príncipe me chamava
e a gente era tão feliz.
E quando não mais se amava,
nem como escravo me quis.

Tu me prendes com abraços,
torturas com tal paixão,
que, sendo algemas teus braços,
bendita seja a prisão!

Nem ouro nem o fulgor
dos diamantes trago, e sim,
no peito, a rosa do amor;
nas mãos, carinhos sem fim.

Passa o tempo… Passa a vida…
E eu não consigo esquecer-te.
Não me perdoo, querida,
pelo crime de perder-te.

É noite… Insone, penando,
nesta triste solidão,
ouço o silêncio gritando
dentro do meu coração.

Na despedida, confiei
na promessa que fizeste:
– Espera-me, eu voltarei!
Mas quando… não me disseste.

Dos bons acontecimentos
de minha vida, bendigo
aqueles doces mementos
que pude viver contigo.

Desiludido da vida,
do amor – em total entrega -,
sou folha no chão caída
que nem o vento carrega.

Desfeito o sonho mais puro,
longe de quem tanto quis,
para não sofrer, procuro
esquecer que fui feliz…

Não ambiciono o Eldorado.
Meu mundo, embora singelo,
contigo sempre ao meu lado,
é dos mundos o mais belo.

Relembrando tempos idos,
abro a agenda da memória
e encontro sonhos perdidos,
pedaços da nossa história.

Quero um relógio, querida,
cujo mágico processo,
atrase a tua partida
e abrevie o teu regresso.

– Eu volto! – me consolava.
Mas, em profunda agonia,
meu coração pressagiava
que ela jamais voltaria…

Somos metades perdidas
e eu espero te encontrar.
E esperarei quantas vidas
ainda tiver que esperar…

Cansado de tanto errar,
nessa procura infeliz,
já nem sei se ao te encontrar
eu me sentirei feliz.

Que te amo ao mundo proclamo.
Duvidas, mas eu insisto.
Se é mentira, amor, que eu te amo,
é mentira que eu existo.

O tempo passa…Demoras…
E eu aqui a te esperar.
Meu amor, quantas auroras,
nessa espera, vi chegar!…

Voltarás…Que importa quando?
Eu só sei que voltarás…
Estarei sempre esperando
o dia em que tu virás.

Por esta senda de espinhos,
vou sufocando meus ais,
pois eu sou, sem teus carinhos,
o mais triste dos mortais.

Quis-te para sempre, amor,
mas me deste a solidão.
Hoje és saudade e esta dor
é eterna em meu coração…

Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.

A noite é toda poesia.
Lua e estrelas a brilhar…
Mas, sem tua companhia
de que me serve o luar?…

De exuberância suprema,
que nos encanta e extasia,
cada alvorada é um poema
que Deus compõe todo dia.

Tua presença é poesia,
tudo de bom para mim;
teu sorriso pressagia
felicidade sem fim…

Os meus dias são tristonhos.
Tu não vens e o tempo avança.
Nem mesmo no mar dos sonhos
vislumbro a nau da esperança.

Quando eu me for desta vida,
irei a meu Deus pedir
que ele me faça, querida,
reencontrar-te no porvir.

Descobri, ao te perder,
que, sem direito a perdão,
fui condenado a viver
algemado à solidão.

De saudade angustiado,
faço versos soluçando
e cada trova é um recado
por teu regresso implorando.

Mais triste e pior castigo
do que o meu não pode haver:
- Não pode viver contigo,
sem ti não saber viver...

Nós dois... A felicidade...
Muito amor... Sonhos... Depois,
a distância e a saudade
como abismo entre nós dois...

Que importa o tempo passado,
se é tão grata a descoberta?
- Ao ver-te ainda ao meu lado,
sei que fiz a escolha certa!

Dei a ti meu coração,
muito te amei e te quis.
Se tudo foi ilusão,
não importa, eu fui feliz!...

Os meus versos se calaram,
à saudade sucumbi,
minhas lágrimas secaram
de tanto chorar por ti...

Ao partires, me disseste:
- Espera-me, eu voltarei!
O tempo passou... Não vieste...
E o pior: eu te esperei.

Recomeça a nostalgia
quando o dia vai morrendo.
Não suporto esta agonia.
Volta, amor, estou sofrendo!

O tempo que tudo apaga,
promovendo o esquecimento,
em vez de apagar afaga
teu nome em meu pensamento.

Que em tua ausência dispare,
eu apelo ao tempo; e quando
estivermos juntos, pare,
o momento eternizando.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
João Costa (1952)
O poeta e trovador conhecido no meio literário como o "Trovador de Saquarema" é o escritor fluminense João Costa. Conhecido por sua dedicação irretocável à trova, ele marcou seu nome na história dos Jogos Florais do estado do Rio de Janeiro. Nascido no distrito de Monnerat, no município de Duas Barras, estado do Rio de Janeiro, em 1952. Embora tenha nascido em Duas Barras, viveu grande parte de sua infância, juventude e início de carreira na cidade de Nova Friburgo (RJ). Posteriormente, mudou-se para o município litorâneo de Saquarema (RJ), localidade onde se estabeleceu permanentemente e que lhe rendeu o carinhoso título regional. Antes de se dedicar integralmente à preservação e ensino da trova, João Costa construiu uma carreira sólida na comunicação. Trabalhou durante anos no meio radiofônico, atuando com destaque na histórica Rádio Nova Friburgo AM. Seu trabalho na radiodifusão foi o elo principal que o aproximou de intelectuais, poetas e do movimento trovadoresco do estado.
Sua caminhada na literatura é intimamente ligada ao resgate histórico e prático da trova fluminense. Em Nova Friburgo, conviveu e aprendeu com grandes referências do gênero, como Rodolpho Abbud, Aloízio de Moura, Nádia Huguenin e o próprio J. G. de Araújo Jorge (um dos maiores pilares da trova nacional). A partir dessa convivência, João Costa transformou-se em um embaixador do gênero, organizando e participando ativamente de tertúlias, saraus e oficinas para crianças em escolas públicas. Ao longo de décadas de dedicação à poesia, foi premiado e recebeu menções honrosas em diversos Jogos Florais (concursos específicos de trovas de âmbito nacional e estadual). Além disso, sua maior honraria é o reconhecimento pedagógico, sendo constantemente homenageado por redes municipais de ensino fluminenses através de projetos como a "Manhã Literária".
Sua publicação mais célebre funciona simultaneamente como uma autobiografia e um documento historiográfico, relatando minuciosamente a história e a evolução da trova em Nova Friburgo e no estado do Rio de Janeiro. A obra compila dezenas de trovas autorais marcantes, como os versos dedicados ao principal monumento rochoso friburguense. 
A relevância de João Costa para a literatura brasileira concentra-se em seu papel como guardião de uma tradição poética genuína. A trova é uma das formas de poesia mais democráticas e populares da língua portuguesa, e o trabalho de João Costa impede que ela caia no esquecimento. Ao levar o formato para dentro das salas de aula e registrar a memória histórica dos antigos trovadores fluminenses, ele atua não apenas como criador de beleza estética, mas como um educador patrimonial e incentivador da leitura para as novas gerações de poetas.

Fonte:
João Costa. Meu Caderno de Trovas. Saquarema, RJ: Edição Artesanal, 2011. Enviado pelo trovador.

Humberto de Campos (Autos e "Taxis")

 Com o pensamento, talvez, de aperfeiçoar a raça, já de si tão robusta e formosa, votou o Parlamento uruguaio um projeto de lei determinando às autoridades que não realizem mais casamentos sem que os noivos se tenham submetido, com resultado negativo, à reação de Wasserman. Acham os legisladores de Montevidéu que a mulher constitui para os homens uma cruz, e foi com pena deles, provavelmente, que se tomou a providência. Que seria, em verdade, do mortal que tomasse aos ombros a cruz da família depois de ter duas, ou três, constatadas num paciente exame de sangue?

Vindo de uma época excessivamente escrupulosa, em que os pais dos namorados sindicavam das condições sanitárias dos antepassados até à quinta geração, e em que os próprios noivos tomavam um purgativo de óleo de rícino oito dias antes do casamento, - eu não podia ser contrário à humanitária medida promulgada pelo governo do Uruguai. O meu espírito faltaria, entretanto, ao seu dever de sinceridade, aos hábitos de franqueza incondicional, se não confessasse o temor, que tenho, de que essa exigência venha reduzir, ali, o número de casamentos.

O casamento é, realmente, hoje, encarado por um prisma original, que degrada, é certo, a mulher, mas reintegra a espécie na natureza, permitindo-lhe a realização do seu verdadeiro destino. Dessa teoria, dava-me, ontem, uma perfeita imagem industrial o Sr. Roberto de Aguiar, agente de pneumáticos americanos, ao explicar-me, sem constrangimento nem entraves na língua:

- O casamento só pode ser julgado com segurança, Sr. conselheiro, por pessoa que já teve automóvel. A esposa ou o esposo definitivo é, para o homem ou para a mulher, uma espécie de automóvel particular. E nada há no mundo, como o senhor sabe, que, como um automóvel particular, dê tanto trabalho: um dia, é uma peça que falta; no outro, é a gasolina; mais tarde, é a capota, que está estragada. O dono de um automóvel vive a fazer despesas todos os dias, a incomodar-se a todo instante, e, quando mais precisa do carro, tem a noticia de que ele não pode funcionar!

Eu encarei o homenzinho, disposto a deixá-lo, àquela hora da madrugada, na primeira esquina da Avenida, e ele continuou:

- Com a amante, ou o amante, não; o amante, qualquer que seja o sexo, é o "taxi" do coração: a gente toma-o, paga-o, e salta onde entende, sem perguntar, sequer, o nome da "garage". Marido ou amante, auto particular ou "taxi", que importa à mulher, ou ao homem, a espécie do veículo, se ele faz a viagem da mesma maneira? E isso com a vantagem de, ao abandonar o carro, não ter passageiro que se incomodar com o estado do motor, nem com a qualidade dos lubrificantes.

Nesse momento, soavam, monótonas, em uma torre da Avenida, três badaladas metálicas, quebrando o silêncio da noite, quase acabada:

- Três horas! - espantou-se o major Afonso Gomide, que ia conosco. - Vamo-nos?

O agente americano estendeu os olhos pela Avenida deserta, e lamentou:

- Sim, senhor! Nem um "taxi"!... E agora?

- Vamos no meu automóvel, - convidou o major, fazendo sinal ao seu chofer.

Desabituado desses luxos, eu continuei o meu caminho, a pé…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Humberto de Campos (1886 – 1934)
HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Sua importância para as letras nacionais combina o sucesso comercial de massa à ocupação de um espaço central na cultura oficial da época. Humberto de Campos alcançou um feito raro para a sua época: viver exclusivamente de seus direitos autorais. Seus livros alcançavam tiragens impressionantes e esgotavam rapidamente. Ele conseguiu aproximar o grande público da literatura por meio de uma escrita acessível, fluida e cativante, tornando-se o cronista mais lido do Brasil nos anos 1920 e 1930. Como jornalista e escritor, ele refinou e popularizou a crônica urbana e humorística. Sob o pseudônimo de Conselheiro XX, publicava textos repletos de ironia, sátira política e observações do cotidiano. Ele dominava a arte de contar anedotas históricas e fofocas dos bastidores da corte e da República, humanizando figuras históricas e tornando o passado atraente para o leitor comum. Sua presença ajudou a consolidar o prestígio da ABL perante a sociedade civil, usando sua enorme projeção nos jornais para aproximar a Academia do público e valorizar a carreira do escritor profissional no Brasil. Suas obras autobiográficas, em especial Memórias (1933) e Os Olhos Comidos pelo Peixe, são consideradas primores do memorialismo brasileiro. Nestes livros, ele registrou com sensibilidade e crueza a sua infância pobre no Maranhão e as dificuldades da juventude, deixando um retrato sociológico e histórico valioso sobre a vida nas províncias e na capital federal no início da República. Mesmo após a sua morte em 1934, o nome de Humberto de Campos continuou no centro de um dos episódios mais singulares da história literária e jurídica do Brasil. O médium Chico Xavier começou a psicografar livros de crônicas e mensagens atribuídas ao espírito do escritor (assinando como Humberto de Campos e, posteriormente, Irmão X). O estilo literário dessas obras psicografadas (como Crônicas de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho) era tão fiel ao estilo irônico e refinado do autor vivo que a família de Humberto de Campos moveu um famoso processo judicial nos anos 1940 para reivindicar os direitos autorais. Esse fenômeno estendeu a influência do seu estilo literário por mais várias décadas, integrando o seu nome de forma definitiva à cultura popular e religiosa do país.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. 1925.

José Feldman (Arquitetura do Invisível)

Texto tendo por base a trova de Maria Thereza Cavalheiro (São Paulo/SP, 1929 – 2018)

Eu terei sempre a alma cheia 
de esperança e sonhos belos, 
pois de simples grãos de areia 
faço pontes e castelos…

Dizem que o tempo é um senhor impiedoso que tudo consome, em sua sabedoria de quatro versos, parece ter descoberto o segredo para dobrar as horas e se desviar das ruínas. Não precisa de mármore, cimento ou grandes investimentos para erguer seu império. O essencial é o que sobra nos vãos dos dedos: o grão de areia.

Viver, para muita gente, é um exercício de peso. Acordamos preocupados com o tamanho dos muros que precisamos levantar para nos proteger ou com a largura dos abismos que nos separam dos outros. Olhamos para o chão e só enxergamos a poeira, o resíduo, o ínfimo. Mas a alma que carrega esperança tem uma visão de engenheiro e uma delicadeza de artista.

Onde o cético vê apenas um deserto árido ou a sujeira que o sapato traz da rua, o sonhador vê matéria-prima. É uma questão de escala e de fé. A ponte não começa no arco de aço; começa na vontade de atravessar. O castelo não nasce da pedra bruta; nasce do desejo de ter um lugar onde a beleza seja a única regra.

Fazer pontes de grãos de areia é a metáfora perfeita para a nossa capacidade de reconciliação e de alcance. É entender que os grandes afetos são construídos de gestos minúsculos: um "bom dia", uma escuta atenta, um olhar que não julga. São partículas de humanidade que, somadas, permitem que a gente chegue ao outro lado sem molhar os pés na amargura.

E os castelos? Ah, esses são os nossos refúgios internos. Ter a "alma cheia de esperança" é manter as torres desses castelos sempre altas, mesmo quando o vento do mundo sopra contra. É saber que, se a maré da realidade vier e levar a construção da tarde, a areia continuará lá, sob o sol, pronta para ser moldada outra vez amanhã.

A trova é um convite à leveza. Ela nos ensina que não precisamos de muito para construir um destino grandioso. Basta o olhar que transforma o pequeno no imenso e a paciência de quem sabe que toda eternidade é feita de instantes — um grãozinho por vez.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, em 1954, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. 
(dados biográficos por Cailin Dragomir)

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Custar os olhos da cara”

A origem mais conhecida dessa expressão, revela o alto preço pago por Diego de Almagro (1475-1538), companheiro de Orelana e dos Pizarros, que no Século XVI, representando os espanhóis, conquistaram o Peru pelo Pacífico e retornaram à Europa descendo o Amazonas até a foz a partir de Quito - ao contrário de Pedro Teixeira, que representando Portugal, subiu o grande rio desde o Atlântico até os Andes, tendo o mérito de implantar vários povoados, que no futuro viraram cidades. 

Após ouvir lendas sobre um povo que comia e bebia em vasilhas de ouro no Novo Mundo, os exploradores espanhóis navegaram com suas tropas, em 1524, rumo às terras desconhecidas. A primeira expedição chegou até o Equador, porém na segunda, surgiram evidências sobre a existência do Império Inca.

Assim, em 1526 saíram eles do Panamá em dois pequenos barcos, desembarcando na costa da atual Colômbia. Na ocasião, tiveram o primeiro contato com a riqueza daquele povo, confirmada também mais ao sul, onde a expedição foi confrontada por jangadas repletas de guerreiros Incas, que admitiram a existência de muitas outros tesouros naquela desabitada região.

Tais notícias encheram os ouvidos dos reis da Espanha, que buscavam avidamente ouro e prata em suas colônias para salvar a economia do país e com esse desiderato, os citados aventureiros foram autorizados a conquistar o Peru. E foi aí que a empreitada bélica vitimou Almagro, pois na tentativa de invadir uma fortaleza Inca, perdeu ele um dos olhos, atingido por uma flecha.

Sujeito sortudo, sobreviveu ao ataque e anos depois, ao pessoalmente relatar ao rei da Espanha Carlos V, os imensos custos e sacrifícios humanos da viagem destinada a conquistar as terras peruanas, Almagro declarou enfaticamente: “Defender os interesses do rei custou-me um olho da cara”.

A par da narrativa feita diretamente ao monarca, o conquistador continuou alardeando o heroico feito e seu enorme ônus pessoal para quem quisesse ouvi-lo. E esse episódio de tão exaustivamente repetido, chegou aos ouvidos dos soldados sob seu comando e deles, para a boca do povão.

O relato de Almagro ganhou tom metafórico, espalhou-se pela Península Ibérica e a expressão acabou incorporada ao espanhol, sendo adaptada depois ao português, para descrever qualquer coisa extremamente cara ou de valor exorbitante que alguém tem que pagar para conquistar algo que reputado valioso, quando não, para satisfazer caprichos pessoais. Nas compras que fazemos há sempre estabelecimentos comerciais que praticam preços convidativos e aqueles famosos por cobrarem “Os olhos da cara”. 

Frutas sazonais encarecem nas entressafras, e o melhor exemplo disso é o nosso festejado açaí, base da alimentação do povão. Fruta típica do verão, no inverno amazônico evapora dos pontos de venda e quando é encontrado, mesmo com aquele gosto insípido de palha velha, custa os olhos da cara.

Há quem diga que a origem dessa expressão é bem mais antiga, vinda do hábito dos povos da Mesopotâmia de arrancar os olhos de quem pudesse colocar em risco a estabilidade do governo. Os assírios organizavam guerras sangrentas e os prisioneiros tinham as mãos, pés, orelhas e olhos arrancados, para tornar os inimigos, assim cruelmente cegos e mutilados, completamente inofensivos (...felizmente esse ritual macabro não pegou por aqui!...).

Na musica popular brasileira, a expressão virou mote para a canção "Os olhos da cara", de Mauro Aguiar e foi gravada no álbum “Transeunte” (ano de 2010), refletindo o preço emocional de uma paixão. Vejamos uma das estrofes: 

“Entrando em cena sem me mostrar
meu coração dispara
não para de interpretar da boca pra fora
e sigo trocando as falas
por cima das horas ralas
arquitetando um filme no ar
só de sequências raras
que me poderá custar os olhos da cara”.

Quem ainda fala da Copa do Mundo deste ano? Nela, o ingresso mais em conta, estava por estratosféricos USS-2.200 cobrados pela FIFA, preço acessível apenas a quem pertence à elite econômica. Isso afastou muita gente boa que sonhava comparecer com a família à tradicional competição esportiva, que a cada quatro anos galvaniza todas as atenções, mesmo daqueles que nem se ligam muito em futebol. 

Cada qual gasta sua grana, seja farta ou minguada, como acha que deve, é claro! Mas, “no meu fraco pensar” como dizia o saudoso vaqueiro Gregório antes de manifestar sua opinião entre os doutos, em vez de ir a eventos esportivos internacionais, onde se gasta os tubos, acho mais válido ficar por aqui mesmo, poupar os trocados e assistir a um eletrizante Remo X Paysandu no belo Estádio do Mangueirão, com ingressos infinitamente mais acessíveis dos que os da Copa, pois na Capital paraense, quando esses dois ícones do esporte se enfrentam, é de cediço conhecimento que apenas os flanelinhas “cobram os olhos da cara” para fingir que vigiam os nossos carros.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (de Floresta/PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com IA Microsoft Bing
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras. 

A. A. de Assis (Era um tempo e tanto) Parte final

 

31.
De nublar a vista.
Vestida de azul e branco
passa a normalista.

32.
Meninas de tranças
cantando canções de roda.
Voltarão à moda?

33.
As artes da infância,
a turma da escola, o rio.
A terra natal.

34.
Namoro na praça.
Quanta história teve início
num flerte no footing.

35.
Tal e qual nos filmes.
No restaurante do trem
o jantar a dois.

36.
Pião, bilboquê,
bolinha de gude, ioiô.
Não tem mais por quê?

37.
Dou um Superman
por um Marvel e um Tarzan.
Troca de gibis.

38.
A santa saída.
Na porta da igreja os moços
esperando as moças.

39.
Ridentes passeios.
Vovô leva o neto ao bosque
para ouvir gorjeios.

40.
Bibibi-fonfom.
Carangos e calhambeques
na hora do rush.

41.
De repente o choque.
Eu da geração da valsa
vi nascer o rock.

42.
Outrora cantavam
de tardezinha as cigarras.
Onde mora o outrora?

43.
Moça na janela.
Na rua em frente um violino
sola o Autumn Leaves.

44.
Em nobre moldura
o retrato oval do avô.
Gratidão da prole.

45.
Um homem na rua
assobia o Hino à Alegria.
Obrigado, irmão.

46.
Abaixo o estilingue.
O pito da professora
na molecadinha.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
A. A. de Assis (1933)
        ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fonte:
A. A. de Assis. Era um tempo e tanto. (triversos). Ed. Do Autor, 2021. Ebook enviado pelo autor.

Mário Quintana em Prosa * 1 *

5005618942

Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso — antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?

Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.

Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

A BELA E O DRAGÃO

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLÍ, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
* * * * * * * * * * * * * * * *

AH! ESSAS PRECAUÇÕES...

Para desespero de seus parentes, o velho rei Mitridates, como todo mundo sabe, conseguiu tornar-se imune a todos os venenos... até que um bom tijolaço na cabeça liquidou o assunto.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

APARIÇÃO

Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! - a lua ensanguentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.
* * * * * * * * * * * * * * * *

EPÍLOGO

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.
* * * * * * * * * * * * * * * *

ESTUFA

Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo...
* * * * * * * * * * * * * * * *

HISTÓRIA URBANA

Dona Glorinha lê o convite de enterro de João, cujo sobrenome não declaro aqui, para evitar essas divertidas e constrangedoras explicações e declarações de nome igual, mera coincidência etc. Dona Glorinha conhecera João “no seu tempo” de ambos e depois nunca mais o tinha visto — pois constitui um dos mistérios labirínticos das cidades grandes isso de conhecidos e namorados se perderem definitivamente de vista. Dona Glorinha, pensando isto mesmo com outras palavras, vai ao velório de João, encaminha-se direto a ele, ergue-lhe o lenço da face, exclama: “Mas como ele está bem conservado!”
* * * * * * * * * * * * * * * *

INFERNO

Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens, que formavam alas para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra janela: faltava-lhe alguma coisa. Faltava... Faltavam os meus desafetos. Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos num palanquim de ouro!
* * * * * * * * * * * * * * * *

O ESPIÃO

Bem o conheço. Num espelho de bar, numa vitrina ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vezes um súbito e inquietante olhar. Não, isto não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!?
* * * * * * * * * * * * * * * *

TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA

Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!
* * * * * * * * * * * * * * * *
Mário Quintana (1906 – 1994)
MÁRIO DE MIRANDA QUINTANA foi um dos poetas mais queridos e traduzidos da literatura brasileira. Conhecido por sua simplicidade, ironia sutil e sensibilidade para as pequenas coisas do cotidiano, ele transformou o comum em poesia mágica. Nasceu em 1906, em Alegrete/RS, e faleceu em 1994 (aos 87 anos), em Porto Alegre/RS. Embora tenha nascido em Alegrete e estudado temporariamente em Curitiba, ele passou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Morou grande parte de sua vida adulta em hotéis, sendo o mais famoso deles o Hotel Majestic, no centro da capital gaúcha (espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana). Trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público. Passou por jornais importantes como O Estado do Rio Grande e o Correio do Povo, onde manteve por décadas a famosa coluna "Caderno H". Como tradutor renomado, verteu para o português obras de grandes autores mundiais como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Graham Greene.
Estreou oficialmente na literatura em 1940 com a publicação de A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos que foi muito bem recebida pela crítica. Ele nunca se casou e não teve filhos, dedicando sua vida quase que inteiramente às palavras e à observação poética do mundo. Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas não foi eleito em nenhuma delas. Ao ser convidado a se candidatar uma quarta vez com a promessa de unanimidade, ele recusou, imortalizando o episódio com o famoso "Poeminho do Contra" ("Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!"). Ele fez parte, no entanto, da Academia Rio-Grandense de Letras. Obteve Prêmio Fernando Chinaglia (1966) pelo livro Antologia Poética ; Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano (1980); Prêmio Machado de Assis (1980), concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Sua vasta produção literária incluiu poesia, prosa poética e literatura infantojuvenil. Entre suas principais obras destacam-se: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Caderno H (1973); Apontamentos de História de Galpão (1976); A Vaca e o Hipogrifo (1977); Esconderijos do Tempo (1980); Baú de Espantos (1986); Preparativos de Viagem (1987).
Mário Quintana ocupa um lugar único na literatura brasileira por sua capacidade de democratizar a poesia sem perder a profundidade. Ele rompeu com o formalismo rígido e aproximou o leitor de temas universais — como a morte, o tempo, a infância e o amor — usando uma linguagem fluida, bem-humorada e despretensiosa. Sua importância reside em ter humanizado a figura do poeta; ele provou que o lirismo não precisa ser erudito ou inacessível para ser genial. Quintana transformou a melancolia em beleza e a rotina urbana em arte, consolidando-se como o "poeta das coisas simples" e uma das vozes mais autênticas e atemporais da cultura nacional. 

Fontes:
Mário Quintana. A Vaca e o Hipogrifo. Publicado originalmente em 1977.
Mario Quintana. Sapato florido. Publicado originalmente em 1948.
Biografia = Wikipedia, etc.

Júlia Lopes de Almeida (Ânsia Eterna)

A João Luso

- E o teu livro? quando aparece o teu livro? perguntou Rogério Dias ao amigo, refestelando-se numa almofada de marroquim do escritório.

– Parece-me que nunca...

– Por quê?!

– Por isto: o que eu quero não é escrever meramente; não penso em deliciar o leitor escorrendo-lhe na alma o mel do sentimento, nem em dar-lhe comoções de espanto e de imprevisto. Pouco me importo de florir a frase, fazê-la cantante ou rude, recortá-la a buril ou golpeá-la a machado; o que eu quero é achar um engaste novo onde encrave as minhas ideias, seguras e claras como diamantes; o que eu quero é criar todo o meu livro, pensamento e forma, fazê-lo fora desta arte de escrever já tão banalizada, onde me embaraço com a raiva de não saber fazer nada de melhor. Estamos sós; sabes que sou contigo absolutamente sincero; dir-te-ei tudo.

Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim; livro rebelde, sem adulações, digno de um homem. Se eu tivesse gênio, não me faltaria o resto, porque não escrevo por amor da turba ingrata, nem preciso da pena para ganhar a vida; sou rico e só escrevo por uma obsessão que me verga, tal como o furacão verga o caniço.

Não te rias; a ordem vem do incognoscível, não a discuto, aceito-a como uma lei de Deus. E não cuides que a aceitei sempre com resignação e sem relutância; tenho rasgado muitas páginas, incendiado muitas palavras, assoprado muita cinza aos quatro ventos!

Ao princípio, mal desfazia uma página achava-me a fazer outra. Este martírio ainda dura; todo o meu protesto de acabar fica onde começa o desejo de criar mais e melhor. Posto o ponto final em um livro, abre-se-me logo a vontade de escrever o primeiro período de outro livro. E é sempre assim; afinal, por que e para quê? Se os velhos como os novos trabalhos não me trazem à consciência nem glória nem tranquilidade? Para quê? não sei... Por quê? porque é preciso obedecer, porque a natureza me fez tal o caniço...

E a propósito dir-te-ei que a natureza foi cruel para mim, visto que o meu ser moral não se confunde com o meu ser intelectual. Não nasci para escritor, sou orgulhoso, a popularidade ofende-me; não sei que melindre é este, que antes cresce do que diminui com o correr do tempo, fazendo-me cada vez mais sensível e descontente de mim mesmo. De que vale tanto esforço?

És inteligente, vê se entendes isto: embora eu não me preocupe com o leitor, há sempre diante de mim, quando escrevo, um desconhecido, sombra no vácuo, indecisa, impalpável, mas que basta para enregelar-me os dedos quando a frase quer cair despida e franca na brancura do papel. Ah! o preconceito! o preconceito!

E é uma criatura atada a ele, e assim orgulhosa e tímida, que pensa em fazer um livro sadio, calmo, de regeneração e de esperança, como início de outra vida mais perfeita. Mas como hei de eu, dependente e fraco, fazer tal livro independente e forte? Eu, que pratico o mal, não posso sem ironia ensinar o bem. A minha boca, que mente, o meu pensamento, que atraiçoa, não são dignos de fazer uma apoteose à verdade absoluta, como a única fonte da felicidade humana.

O livro a que aludiste é o meu martírio: penso nele à proporção que vou fazendo os outros, e sinto-o sempre à mesma distância, inatingível e sereno. O meu livro! mas qual será o escritor que não pense no seu livro definitivo, único? Dize!

– Que hei de dizer? Que, talvez, mudando de hábitos alcançasses a tranquilidade necessária para um bom trabalho. Casa-te.

– Não. Eu traria para casa uma inimiga. Por mais doce e modesta que fosse, ela teria a pouco e pouco ciúmes disso tudo... As leituras são absorventes, e as mulheres não admitem preterições. Têm razão, talvez.

De mais a mais eu tenho medo das mulheres...Vou agora contar--te, com muita oportunidade, o meu último episódio amoroso, que bem pode servir de síntese a tudo que te disse.

– A respeito do livro?!

– Sim... podes pôr dentro desse sonho este outro sonho, certo de que a solução será a mesma. Deixa-me mandar vir café. Tu jantas hoje comigo.

– Sim, jantarei contigo.

– Minha mãe vai ficar contentíssima; não imaginas, está linda, com os cabelos brancos; alta, sempre muito direita... Chamo-lhe a minha torre da fé, iluminada! Escuta agora a tal história; é pequenina.
* *

Entrei um dia com um amigo no Passeio Público, com o pretexto de combinarmos a colaboração de um drama. Sentamo-nos num banco, na aleia esquerda, lembro-me bem; e enquanto eu fazia o meu cigarro, ele começou a expor o seu plano. A ideia era dele. Eu ao princípio ouvia-o com atenção, sem deixar por isso de olhar para duas crianças, vestidas à inglesa, que brincavam pela aleia ensombrada. Em frente a nós, num outro banco de pedra, duas moças conversavam baixinho.

É muito frequente em mim pensar paralelamente em dois fatos diferentes, até que um absorva o outro. Sem deixar de compreender o magnífico assunto do meu amigo... o Josino, conheces? Pois é esse; sem deixar de o ouvir, eu pensava na doçura que deveria haver em ser-se pai de umas crianças como aquelas que ali estavam, tão lindas e tão bem lavadas. Tal pensamento fez-me voltar os olhos para as duas moças. Uma, mais alta e mais nutrida, era evidentemente a mãe das crianças; tinha no colo os chapéus de palha à marinheira, e chamava de vez em quando os pequenos para arranjar-lhes o cabelo e compor-lhes a toilette*. A outra, mais franzina, era de uma beleza singular e comovente. Trazia um vestido de lã simples e um chapeuzinho de palha que mal lhe encobria a trança loira e grossa. Todos os seus traços eram regulares; mas, de tudo, o que mais me impressionou, viva e extraordinariamente, foram os seus olhos, de um azul escuro, triste, onde me pareceu sentir uma alma grande, séria, capaz de todas as lutas e de todos os sacrifícios. Nunca vi uns olhos assim. Num instante, desviando-se da companheira, eles voltaram-se para os meus... e não te posso explicar a sensação deliciosa que me agitou. Todas as minhas mágoas negras se purificaram àquela luz; assaltou-me logo uma ideia: eu podia ter um chalé, num canto de arrabalde, onde as rosas trepassem para o telhado e em que duas crianças saltassem no jardim, enquanto a mãe as vigiasse de um banco, como aquela que ali estava em frente. A minha vida não se consumiria na febre de um desejo vão; teria um lar feito por mim, risonho e confortável.

Os olhos azuis da moça diziam-me no seu brilho discreto e sagrado:

– Eu farei a tua felicidade. Sou educada, sou ativa, sou modesta; compreendo e amo as artes e tenho o coração aberto para as ternuras conjugais e maternas. Vê como sou simples.

Fixamo-nos longamente. Aqueles olhos não se desviaram dos meus com o pudor pretensioso das moças, nem tampouco tiveram arrogância ou malícia: continuaram serenos e claros, tristes sem afetação, com uma franqueza de alma limpa.

Junta a isto a beleza das últimas horas do sol e o perfume das dracenas em flor. Acredita que o perfume é o cúmplice de muitas paixões, muitas!

Quando saímos do Passeio ainda elas lá ficaram. Durante a noite pensei várias vezes naqueles olhos azuis. Nesse tempo minha mãe estava fora, tinha ido fazer a sua estação em Caldas, de modo que ao meu quarto faltava o apuro a que me acostumara. Pela primeira vez vi pó no espaldar da minha cama, e encontrei gelhas nos lençóis. No dia seguinte, a minha mesa de trabalho, com o tinteiro transbordante e o cálice de conhaque sujo, irritou-me; e ao almoço, mal servido, lamentei a falta de uma salinha de jantar, alegre, onde os olhos azuis da minha esposa tivessem observado e prevenido tudo...

Que influência profunda pode ter no destino, já determinado pela vontade de um homem, o simples relancear dos olhos de uma mulher! Por que voltava assim ao meu espírito aquele clarão azul?

Decididamente, eu encontrara a realização da minha ventura – o casamento. Arte? ora, adeus! fazer arte aqui, para que, para quem? Não valia a pena sacrificar o coração pela liberdade de artista e de boêmio.

Assim pensei, e fiz-me piegas como um namorado de quinze anos. Acreditarás que eu ia todos os dias ao Passeio Público? Percorria-o inutilmente: não a encontrava nunca; em todo caso não desistia, a esperança de ver os olhos azuis guiava-me através das ruas ensombradas.

Se as árvores falassem, que diriam de mim aquelas árvores! Que idílios, que lindos devaneios tive ali! eram verdadeiros sonhos de adolescente, perfumando a vida profanada do homem desiludido e amargo.

Ela já tinha para mim uma designação puríssima, era a minha noiva, e eu procurava-a, parecendo-me que só com o vê-la os meus dias se tornariam risonhos e plácidos. Vê-la não era tudo; eu queria ser visto, ser notado; queria falar-lhe, ouvir-lhe a voz, dizer-lhe que a amava! E tudo me parecia fácil, desde que a encontrasse!

Exatamente no dia em que entrei no Passeio mais desanimado, e certo da inutilidade da procura, foi que vi, no mesmo banco, a doce mamãe, com os chapéus dos filhos nos joelhos, e a seu lado a beatificada da minha alma. Nunca senti o coração bater-me com tanta força.

Ela voltara-se para mim, via-me ir chegando... Não te posso dar uma ideia da minha comoção; eu nem sabia onde pisava, quando um acaso me favoreceu: uma das crianças caiu a poucos passos de mim e abriu a boca num choro de assustar e pôr a nado os patos.

Tomei-a imediatamente nos braços e levei-a, depois de a acariciar, às duas moças.

A mãe ergueu-se, e veio apressadamente ao meu encontro, agradecendo muito; a outra ficou sentada. Cumprimentei-a timidamente; não me respondeu. Corei, interdito. A mamãe então murmurou com tristeza, indicando-a com um gesto, num tom de desculpa:

– É cega…
______________________
* Toilette – Palavra francesa que pode ser aqui traduzida como “visual”.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934)
A escritora, cronista e teatróloga Júlia Lopes de Almeida é uma das figuras mais importantes da literatura brasileira da virada do século XIX para o XX, sendo considerada a primeira mulher a viver profissionalmente de seus direitos autorais e de sua escrita no Brasil. JÚLIA VALENTINA DA SILVEIRA LOPES DE ALMEIDA, nasceu em 1862, no Rio de Janeiro/RJ, onde faleceu em 1934 (aos 71 anos), vítima de malária. Embora tenha nascido na capital fluminense, mudou-se na infância com a família para Campinas/SP, onde cresceu e iniciou sua carreira. Morou temporariamente em Lisboa e Porto/Portugal, onde se casou em 1887, e viajou extensamente por países da Europa, África e América do Sul. Posteriormente, fixou residência definitiva no Rio de Janeiro. Ao contrário da maioria das mulheres de sua época, Júlia teve uma intensa atuação no jornalismo de grande circulação, escrevendo crônicas e artigos de opinião para periódicos de peso, como o O Paiz, Gazeta de Notícias e o Jornal do Commercio. Foi uma atuante ativista social, trabalhando ativamente em prol do abolicionismo, da causa republicana e do direito das mulheres à educação formal e ao voto. Em 1919, uniu-se a Berta Lutz para fundar a Legião da Mulher Brasileira, exercendo o cargo de presidente honorária.
Sua estreia ocorreu em 1886 com o livro de crônicas Traços e Iluminuras, publicado em Lisboa. Ela alcançou enorme prestígio crítico e comercial na chamada Belle Époque brasileira, sendo aclamada como a "Rainha das escritoras". Júlia foi uma das idealizadoras e fundadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Seu nome constava na lista original de fundadores ao lado de nomes como Machado de Assis e Olavo Bilac. No entanto, na reunião de instalação, os acadêmicos decidiram seguir o modelo estrito da Academia Francesa, permitindo apenas homens. Impedida de ocupar sua própria cadeira (a de número 3) por ser mulher, os membros elegeram em seu lugar o seu marido, o poeta Filinto de Almeida — que anos mais tarde admitiria o absurdo da exclusão. Na virada do século XIX para o XX, as premiações literárias institucionais no Brasil eram quase inexistentes. O verdadeiro prêmio da autora foi o sucesso comercial sem precedentes para uma mulher. Ela era uma das autoras mais publicadas da Primeira República, disputando tiragens e vendagens diretamente com os maiores romancistas masculinos da época.
Escreveu mais de 40 títulos, incluindo romances de fôlego, peças de teatro, contos e livros didáticos: Contos Infantis (1887) – Escrito em parceria com sua irmã Adelina Lopes Vieira, foi adotado por décadas nas escolas primárias brasileiras; A Família Medeiros (1892) – Romance que aborda a transição da sociedade escravocrata para o trabalho livre no interior paulista; A Falência (1901) – Sua obra-prima. Um romance realista de crítica social demolidora que narra a derrocada financeira e moral de uma família burguesa envolvida no comércio de café no Rio de Janeiro; Eles e Elas (1910) – Livro focado nas complexidades das dinâmicas psicológicas e matrimoniais; A Silveirinha (1913) – Obra que discute as limitações impostas às mulheres na sociedade urbana.
A importância de Júlia Lopes de Almeida vai muito além de sua excelente prosa realista-naturalista. Ela foi uma pioneira na profissionalização da escritora mulher no Brasil, provando que a literatura produzida por mãos femininas poderia ter apelo comercial de massa e alta densidade psicológica e intelectual. Em seus romances, ela ousou retirar a idealização romântica das relações familiares e expôs as hipocrisias da burguesia carioca. Foi uma das primeiras vozes literárias a defender abertamente o divórcio, a emancipação financeira feminina e a urgência de educar as mulheres não para o casamento, mas para a autonomia. O resgate moderno de sua produção corrige uma das maiores injustiças históricas da história cultural do Brasil.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. 2. ed. rev. Brasília : Senado Federal, 2020. Publicada originalmente em 1903.