sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Luiz Poeta (Trovas, com amor)

 

Aquele velho gabola
quis marcar um gol de placa,
tropeçou na própria bola,
coitado! Saiu de maca.
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Aqui, galo não se tem.
Relógio? ...deixa pra lá,
De manhã, me sinto bem,
quem me acorda é um sabiá.
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Caramba! Que desperdício!
Tanto alambique bacana
e o meu carrinho sem vício
movido a goles de cana!
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Coitada... pobre da gringa...
Quis sambar na passarela,
tropeçou na própria ginga
e a ginga tropeçou nela.
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Com a grana que ele roubou,
o doleiro se ufana.
por comer do que sobrou,
o pobre é quem vai em cana.
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Comilão come o que quer,
basta apenas sentir fome,
nem precisa de colher,
mete o dedo e tudo some.
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Fiel ao que a mestra ensina
com tanto amor e ternura,
orgulhosa, a pequenina
sorri ao fim da leitura.
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Filho e mãe, finda a leitura, '
adormecem… que obra prima!
É num toque de ternura
que a leitura se sublima.
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Há certo tipo de lama
que serve de adubação
e a semente nem reclama
da lama da podridão.
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Há lirismo e sentimento
em cada ramo que oscile,
polinizando, com o vento,
grinaldas de Bougainville.
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Há no caminho da trova
um preconceito exigente
de quem nunca se renova
nem sente o que a trova sente.
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Há poder na onda do mar;
há poder no Sol ardente,
mas há mais poder no olhar
de quem ama ardentemente.
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Hoje eu faço aniversário!
...estou vivo, quem diria
que esse meu itinerário
nem num caixão caberia!
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Nossa vida é um desafio:
o recém-nato que o diga;
sem um útero macio,
que ventre que nos abriga?
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Num rabisco num caderno,
a família reunida.
Quando um sentimento é terno,
um desenho ganha vida.
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Numa página molhada
pelo pranto, a poesia
ficou tão desfigurada,
que borrou a fantasia.
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Numa pequena gravura,
a família reunida.
Só Deus desenha a ternura
que representa uma vida,
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Numa trova sensual,
fiz o teu corpo de trilha,
mas meu verso irracional
tropeçou na redondilha.
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Num verso, se me confesso, 
nunca impeço a emoção
de escrever o que nem peço,
impeço, sim, a razão.
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Nunca fui muito bonito...
mas sempre fui sedutor:
seduzi o infinito
bonito do teu amor.
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O amor pede que eu siga
os rumos de um sonhador,
mas a mudez que me instiga,
se abriga na minha dor.
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O bonde do Corcovado
leva o povo embevecido
a cada vez que é trilhado
seu caminho colorido.
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Poeta nasce poeta,
mas o tempo o aprimora;
quando a vida é incompleta,
que poeta que não chora?
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Poeta que diz que mente,
certamente se desdiz,
pois só diz o que não sente,
quando mente que é feliz.
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Quando a alma está vazia
e o amor torna-se vago,
só se tem por companhia
a lembrança de um afago.
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Quem nunca tomou porrada,
não sabe nada da vida;
faz da avenida, a calçada
e da calçada, avenida.
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Quem parte, deixa uma parte,
encarte fora da obra,
mas quando a dor nos reparte,
a parte triste é que sobra,
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Quem prejulga e não se julga,
ou é tolo ou desvairado,
cachorro escondendo a pulga
nos pelos do condenado.
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Quem reclama o tempo inteiro
do tempo que Deus lhe deu,
será sempre prisioneiro
do tempo que já perdeu
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Quem se dedica ao ofício
sublime da poesia,
transforma esse dom em vício
e esse vício em fantasia.
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Quem se vai e a dor não deixa,
não se vai completamente,
pois se a solidão se queixa,
a saudade diz: "presente"!
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Quem te pôs, Drummond de Andrade,
dando as costas para o mar,
na certa quis que a cidade
pudesse te admirar.
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor,
não pintei nada na tela,
como é que se pinta a dor?
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Redondilhas d'além-mar,
poesia lusitana,
Portugal no meu olhar
na quadra camoniana
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Roubei tuas fantasias,
mas tu ficaste com as minhas;
guardaste mais que podias
e eu quis bem mais do que tinhas.
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Tantas dádivas divinas
e o homem, contestador,
fechando suas retinas
para as dádivas do amor.
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Tantas vezes a sorrir,
minha mãe me abençoava;
quando teve que partir,
foi seu filho quem chorava.
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Tanto achismo e tanto achado,
tanto eu acho e... "desachei",
que olhando o lado errado,
eu percebo que acertei.
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Tantos olhares perdi,
procurando me encontrar,
mas dos olhos que escolhi,
só me vi no teu olhar,
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Te traí comigo mesmo.
Não perguntes como fíz.
Amar quem me ama a esmo
sempre me fez infeliz.
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Tenho pena dessas pombas
que já nem têm mais pombais;
elas são pombas das bombas,
não são mais pombas da paz.
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Tem sempre alguém que nos planta;
e com carinho, nos colhe,
alguém que nos agiganta
e sempre alguém... que nos tolhe.
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Tem tanta gente que indaga
sobre seu destino vão,
porque além da ideia vaga,
Deus lhe deu um coração.
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- Tens tanto predicativo
no teu olhar sedutor...
e eu só uso um vocativo...
sabe qual é? Meu amor!
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Luiz Poeta (1950)
LUIZ GILBERTO DE BARROS, amplamente conhecido pelo seu pseudônimo patenteado LUIZ POETA, é um renomado professor, escritor, poeta, cantor e compositor brasileiro. Nasceu em 1950, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Desenvolveu toda a sua vida pessoal e artística estabelecido na própria cidade natal. Formou-se e atuou fortemente na área da educação como Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Lecionou em instituições tradicionais como os Colégios Santa Mônica, Itu e em escolas da rede pública do Município do Rio de Janeiro. É reconhecido também como gramático, revisor literário, prefaciador e tradutor. 
Sua veia poética começou a se consolidar fortemente a partir de 1967. Ele transita com extrema facilidade por diferentes vertentes da escrita, atuando como cronista, contista, ensaísta, trovador e adepto do movimento aldravianista. Pelo grande envolvimento e liderança em prol da cultura, Luiz Poeta acumula diversas condecorações institucionais de relevância: Presidente, Embaixador, Cônsul, Comendador e Chanceler em corporações de fomento às artes. Membro atuante e reconhecido no cenário das Federações e Academias de Letras e Artes do Brasil. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “ O Coruja “, de circulação universitária; membro da Academia Luso-Brasileira de Letras; Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras; Academia Paulista de Letras; Academia Aldrava, Letras e Artes; Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix; Divine Academie Française de Letters y Arts;  Cônsul dos Poetas del Mundo; Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais; Inbrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, etc..
Teve, inclusive, o seu nome imortalizado na Sala de Leitura Luiz Poeta, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (5ª CRE), uma homenagem direta ao seu legado acadêmico. Ao longo de sua jornada, Luiz Poeta recebeu expressivos prêmios lítero-musicais (muitas vezes competindo sob pseudônimos para preservar a avaliação cega de suas obras): Prêmio UNESCO: Foi premiado duas vezes pela UNESCO em reconhecimento ao valor humanitário e cultural de seus escritos. Melhor Poeta do Estado do RJ (2008), condecorado pelo Congresso da Sociedade de Cultura Latina (Seção Brasil) na categoria de Poesia Clássica. Prêmio de Ensaio Poético: Teve sua obra "Gullarearte" (um cordel em homenagem a Ferreira Gullar) premiada em um concurso literário em Porto Alegre. Na Pele da Poesia (2007): Uma de suas obras poéticas de maior circulação, onde reúne poesias que exploram o cotidiano, o lirismo e a sensibilidade humana. Canção de Ninar Estátuas (2019) – contos; Trov…Ansi…Arte(2022) – trovas.
Sua extensa produção literária e artística espalha-se por livros autorais, coletâneas, CDs e DVDs, possuindo traduções em cinco línguas (português, espanhol, italiano, inglês e francês). Entre suas principais contribuições estão: Participação em Antologias de Peso: Como a antologia "Poemas à flor da pele", além de inúmeros sonetos clássicos publicados no Brasil e no exterior (como no Portal CEN, de Portugal). Obra Lítero-Musical: Registro expressivo de composições poéticas transformadas em faixas de áudio e vídeo distribuídas no mercado fonográfico e literário.
A relevância de Luiz Poeta reside no seu papel como elo integrador entre a erudição técnica e a sensibilidade popular. Como professor e gramático, ele defende a pureza e a beleza da língua, mas despe a poesia de "rebuscamentos intelectualóides". Ele democratizou o acesso à leitura poética e influenciou gerações de alunos no Rio de Janeiro. Herdando o talento do pai (que tocava flauta de bambu), Luiz tornou-se violonista, cantor, produtor musical e compositor de mão cheia. Ele atuou como Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, e sua relevância técnica é tão vasta que ele foi integrado como membro do casting oficial de suporte artístico da Orquestra Sinfônica. No campo das artes visuais, ele se destaca de forma inovadora pela criação de telas plásticas utilizando técnicas singulares com esmaltes de unha.

Fontes:
Luiz Poeta. Trov... Ansi... Arte. RJ: ZMF Ed., 2022. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Dicionário MPB, Recanto das Letras, O Secular Soneto, Portal CEN, Confraria Brasileira de Letras, etc.

Cantinho do Frata (Estrelas Pisadas)

Acordou pisando estrelas, estendeu a mão direita no peito apertando o coração descompassado, abriu o sorriso motivado pelo sonho cortado ao meio, respirou fundo com os olhos semicerrados e instintivamente fez um pensamento positivo. O dedão da mão esquerda se enfiou entre o indicador e o pai-de-todos construindo uma figa. O dia prometia. Cobriu melhor Pedrinho que dormia, correu para a pequena sala e com um toco de lápis anotou as dezenas.

Era dia de mega-sena e sonho sonhado em que números que rolavam ao seu encontro era mais que um sinal positivo.

- É hoje que a onça perde as pintas! - Disse ao encostar o joelho no chão diante de Mãe Aparecida. Botou a marmita em banho-maria, terminou de se arrumar e conferiu as horas: cinco e dois. 52!

Pensou e anotou os números. Logo correria a se juntar no ponto dos cortadores de cana, e ouvir a tagarelice das companheiras, as piadas porcas dos homens; sentir o vento gelado cortar-lhe o rosto e o carinho do sereno de fim de noite a lamber seus cabelos formando neles cristais de cobre. Mas seria o dia da redenção: o sonho fora real por demais, diferente de todos os sonhos.

- Vou ganhar na mega! E como primeira coisa comprarei a caixa de lápis de 72 cores para Pedrinho... ~ Prometeu no momento em que o remorso calou na consciência e a fez engolir saliva engrossada com fel por não ter dado ao filho todos os materiais da lista da escola; e acabou com uma caixa de 12 cores no pacote.

Os olhos tristes do menino disseram tudo, mas o que fazer se a grana curta mal dava para o armazém e a farmácia? Fuçou na bolsa, catou a única nota de R$ 2,00, enrolada, tomou o facão e, com farnel às costas fechou a porta. Entregaria o dinheiro ao motorista que era encarregado das apostas do pessoal.

Pedrinho acordaria com o despertador e iria sozinho para a escola; e só o veria de novo na boca da noite quando estaria quem sabe, a pintar as tarefas escolares com 12 cores ao invés de 72. Menino bom, sem maldade no pensar e no agir. O filho que toda mãe gostaria ter.

- O que faria com o prêmio? - Pensava nos solavancos da condução. - Uma casa linda com uma amoreira na janela de onde pudesse dali catar frutas sem ter que ir ao quintal. E uma tonelada de lápis de cor ao Pedrinho para compensar a caixa de 72 que não pôde dar. Melhor, compraria lápis às crianças da cidade, para que não sentissem a vergonha que o filho passara ao ser repreendido por se apresentar com o material escolar incompleto.

- Liga não, filho, - teria dito - dia haverá em que um arco-íris pousará nas mãos e te trará um pote de ouro - e limpou as lágrimas do rosto.

- Só queria os lápis, mãe. - respondera Pedrinho.

Deu de ombros para a lembrança e: - se sonho vale, que se vá o último tostão para conseguir o intento - e o barulho do ônibus abafou sua doideira.

Imaginou-se num quarto lindo, de paredes forradas com papel colorido e um lustre pendente sobre a cama.

Sonho simples como ela.

Lembrou-se dos buracos do zinco que o barraco real carregava desde sempre; e da luz do poste lá fora, quarada da lâmpada de mercúrio, injetada na escuridão do aposento lançando estrelas pelo chão. - Pisava nelas.

Sorriu enviesado entre a certeza do resultado de logo mais e a realidade do aconchego pobre, mas seguro.
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Renato Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (CBL). O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.
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Fontes:
Renato Benvindo Frata. Azaringo e o caga-fogo. Paranavaí/PR: Paranavaí Ed. Gráfica, 2014. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Paraná, Confraria Brasileira de Letras e UCPPARANA.EDU

José Feldman ( Um dia daqueles)

Amanheceu como se fosse um dia comum, mas o universo tinha outros planos para o Sr. Otávio. Ele abriu os olhos, esticou o braço para o despertador e… caiu da cama. Não com a elegância de um galã de novela, mas com a graciosidade de um saci: rodopiou, bateu o joelho no chão e ficou lá, olhando o teto como quem pensa: “bom, aí não era o plano.”

Determinando que era hora de levantar, Otávio se pôs de pé — e a lei das mobílias traiçoeiras entrou em vigor. Ao levantar a cabeça, encontrou com o móvel ao lado do travesseiro numa pancada que o fez ver estrelinhas, com direito a bico de papelão. “Ótimo”, murmurou, esfregando a testa, quando decidiu checar o estrago com a mão. Exatamente: pôs a mão na cabeça e, como se fosse combinado com o cosmos, seu cotovelo encontrou o criado-mudo num encontro amoroso e fulminante.

— Aiii! — berrara ele, num som que alarmou até o gato do vizinho. O cotovelo e o criado-mudo trocaram impressões. O criado-mudo, claro, saiu-se melhor: rígido, imponente, sem sequer um arranhão. O cotovelo, porém, passou a temporada seguinte pedindo aposentadoria por invalidez.

Respirando fundo (ou tentando), Otávio achou que já tinha completado as tragédias do amanhecer. Errou. Ao tentar caminhar até a cozinha em busca de um remédio, o pé escorregou num canto traiçoeiro do tapete — aquele tapete que sempre fica com cara de suspeito. Em câmera lenta, ele descreveu um arco digno de circo, tentou um passo de dança moderna, mas terminou batendo o joelho bem no pé da cama. Foi um concerto de sons: rangido da madeira, gemido do joelho e, no fundo, um “cloque-cloque” como se o destino risse.

Quando finalmente ficou sentado no chão, parecendo um personagem de desenho animado que levou um episódio inteiro de pancadas, os vizinhos (atraídos pelo berreiro) começaram a aparecer. Dona Marlene do 3ºB trouxe um pano quente; o João, que trabalha na oficina, veio com uma caixa de ferramentas “só por precaução”; até a vendedora de pão bateu na porta com uma sacola de biscoitos e olhares preocupados.

— O que aconteceu? — perguntou Dona Marlene, já disposta a aplicar uma compressa e um sermão de mãe.

Otávio, meio atordoado, contou a ópera das injúrias domésticas numa sequência de gemidos e gestos dramáticos. Mas, ao se ver de pé (com a ajuda do João), observou o conjunto: cortinhos, hematomas e uma mistura de sujeira no joelho que lembrava um mapa de batalha. As pessoas trocaram olhares rápidos e, sem querer, começaram a montar uma versão alternativa dos fatos.

— Ele estava numa briga, não foi? — sussurrou a vendedora de pão, com o instinto jornalístico aflorado.

— Ou então tentou parar um assalto! — afirmou João, triunfante, ajustando o avental como quem inspeciona um troféu.

Dona Marlene não ficou atrás: já inventou uma história de defesa heroica da honra de uma senhora que (talvez) tivesse sido empurrada, ou algo assim. Em questão de minutos, o pobre Otávio havia passado de vítima de seus próprios móveis a protagonista de uma luta épica contra bandidos invisíveis e capangas do destino.

As redes sociais do prédio não precisaram esperar: a notícia circulou pelo corredor como pólvora. O zelador, com a credencial de repórter amador, trouxe um pedaço de jornal com o título: “MORADOR DO 2º ANDAR ENFRENTA BANDIDOS”. O porteiro, tentando acalmar a situação, ofereceu-lhe chá. Otávio olhou os rostos arregalados à sua volta e, por um segundo, quase acreditou na própria lenda.

— Não… gente, eu só… — tentou explicar, apontando para a mesa, para o tapete, para a cama e para o cotovelo traidor. Mas as palavras soaram tão improváveis quanto “fui atacado por um polvo de almofadas”.

A vizinhança, porém, já havia decidido: se houve briga, havia herói — e heróis merecem história, e histórias merecem bolos. Em poucos minutos, Dona Marlene voltou com um pedaço generoso de bolo de cenoura e um buquê improvisado de guardanapos.

Otávio, com o bolo na mão e vários curativos imaginários, sorriu meio sem jeito. No fim das contas, a manhã que começou com uma queda boba terminou com elogios, biscoitos, e uma fama instantânea que nenhum aplicativo poderia comprar. Ele ganhou um apelido novo: “O Lutador do 2º” e, claro, o respeito incondicional do corredor.

À noite, enquanto curava os hematomas e pensava na epopeia doméstica, Otávio fez um pacto silencioso: reposicionar o criado-mudo, ensinar o tapete a não conspirar e, sobretudo, tomar cuidado com o cotovelo traquinador. Mas ficou com o ego leve e aquecido — afinal, onde mais ele poderia ganhar um bolo e um título de herói por simplesmente levantar da cama?

Florbela Espanca (Sonetos Escolhidos)

 

ÁRVORES DO ALENTEJO
Ao Prof Guido Battelli

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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QUEM SABE?…
Ao Ângelo

Queria tanto saber por que sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber por que seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!

Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!

Quem sabe se este anseio de Eternidade,
A tropeçar na sombra, é a Verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?
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A MINHA PIEDADE
A Bourbon e Meneses

Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!

Tenho pena de mim… pena de ti…
De não beijar o riso duma estrela…
Pena dessa má hora em que nasci…

De não ter asas para ir ver o céu…
De não ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e não ter sido Eu…
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SOU EU!
À minha ilustre camarada Laura Chaves

Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves pousam nos meus ombros…

Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!

Ecos longínquos de ondas… de universos..
Ecos dum Mundo… dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!

Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
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PANTEÍSMO
Ao Botto de Carvalho

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Ouço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
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MINHA TERRA
À J. Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa…

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu…
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada…

Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite…
Terra, quero dormir… dá-me pousada!
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A UMA RAPARIGA
À Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!…
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MINHA CULPA
A Artur Ledesma

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém…

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estátua truncada de alabastro…
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…
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TEUS OLHOS

Olhos do meu Amor! Infantes louros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesouros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Berço vinde do céu à minha porta…
Ó meu leite de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!…
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Florbela Espanca (1894 - 1930)
FLOR BELA LOBO, adotou literariamente o nome de Florbela d'Alma da Conceição Espanca, foi uma das figuras mais celebradas e intensas da literatura em língua portuguesa. Conhecida por sua poesia confessional e de altíssima sensibilidade, ela revolucionou a escrita feminina ao tratar do amor, do desejo e do sofrimento com uma entrega visceral e sem precedentes. Nasceu em 1894, em Vila Viçosa (região do Alentejo), em Portugal, filha ilegítima, fruto da relação de seu pai com uma camponesa, mas foi criada pelo pai e pela madrasta. Faleceu em 1930, no dia em que completava 36 anos, em Matosinhos/Portugal, suicídio por overdose de barbitúricos, após anos batalhando contra uma profunda depressão. Viveu sua infância em Vila Viçosa. Na juventude, mudou-se para Évora para estudar. Também residiu na vila de Redondo, na capital Lisboa (durante seus estudos universitários) e passou seus últimos anos em Matosinhos. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso liceal (secundário). Mais tarde, fez história ao se tornar a primeira mulher a ingressar no curso de Direito da Universidade de Lisboa, embora não tenha chegado a exercer a advocacia. Para além da escrita de seus livros, Florbela trabalhou como professora particular e de ensino primário (tendo aberto uma escola com seu primeiro marido em Redondo), além de atuar como jornalista colaboradora em jornais locais e tradutora de romances franceses.
Florbela não pertenceu a nenhuma academia de letras e não recebeu prêmios literários em vida. O conservadorismo e o machismo da sociedade portuguesa da época marginalizaram sua produção e sua conduta pessoal (ela divorciou-se duas vezes, algo escandaloso para o período). O reconhecimento oficial veio de forma póstuma — hoje, a Câmara Municipal de Vila Viçosa organiza o prestigiado Prémio Literário Florbela Espanca em sua homenagem. Começou a escrever poesias ainda na infância, aos 8 anos. Sua obra é célebre pelo formato do soneto e dividida entre a dor profunda (acentuada pela trágica morte de seu irmão Apeles) e o panteísmo erótico.
Livros publicados em vida: Livro de Mágoas (1919); Livro de Sóror Saudade (1923).
Principais publicações póstumas: Charneca em Flor (1931 — sua obra-prima, enviada para publicação pouco antes de morrer); As Máscaras do Destino (1931 — livro de contos e prosas; Juvenília (1931).
A importância de Florbela Espanca reside no fato de ter sido a pioneira da poesia intimista e erótica feminina na literatura portuguesa. Em um cenário dominado por homens, onde se esperava que as escritoras mantivessem um tom recatado, Florbela ousou colocar o corpo, o desejo, o orgulho de ser mulher e a emancipação sentimental no centro de seus sonetos. Sua poesia antecipou discussões do movimento feminista em Portugal ao recusar o papel de musa passiva e assumir o de sujeito desejante. Com uma técnica técnica impecável, musicalidade única e uma capacidade rara de transformar o sofrimento psicológico em arte, ela influenciou gerações de poetas e permanece como uma das vozes líricas mais cultuadas e viscerais de todos os tempos.

Fontes:
Florbela Espanca. Charneca em Flor. Publicado originalmente em 1931.
Biografia = Wikipedia, Wikisource, E-biografia, Jornal de Poesia, Brasil Escola, Recanto das Letras, Mar Alto, Jornalismo Júnior, etc.

Contos e Lendas do Mundo (O Sapo e a Borboleta)

Esta é a história de Priscila Buterfly que nasceu e viveu na floresta de Florzi junto ao mar e ao lago verde-musgo.

Não, ela não era bonita quando nasceu. Ela era muito feia. O seu cabelo quebra pente era amarelo e marrom misturado e seus dentes eram muito dentro da boca, fazendo parecer rindo todo tempo. Raposas, coelhos e jacarés tinham medo dela.

Ela vivia pela floresta colhendo lenha para o fogão da mãe. Nunca ninguém brincava com ela, porque ela não tinha tempo. Quando não apanhava lenha, então carregava água ou então cuidava dos irmãos menores.

Não podia ir até o mar, onde a floresta terminava, porque os meninos atiravam pedras nela, então corria para dentro da floresta e se escondia.

Aos treze anos levou um grande susto. Quando olhou para dentro do lago verde-musgo, ela viu um rosto refletido na água. Descobriu que o rosto era o seu. Então ela percebeu que os meninos tinham razão para enxotá-la. E ela foi reclamar com a sua mãe e sua mãe levou-a até o quintal. Olhando bastante para as folhas conseguiu achar uma lagarta. A mãe explicou que aquela lagarta horrível ao sair do casulo seria então uma linda borboleta. E disse para Priscila que ela ficaria tão linda quanto uma borboleta. “Nós podemos ser feios, mas depois ficamos lindos”. Priscila sorriu e se sentiu feliz esperando que o tempo ao passar a fizesse bonita como as outras meninas. Mas ela não olhava mais para dentro do lago verde musgo.

Um dia ao apanhar lenha na floresta, viu um menino olhando para o lago verde-musgo. Ela quis saber dele, o por quê de olhar tanto para aquele lago. Ao chegar perto do menino, descobriu que ele era um dos quatro que sempre lhe jogava pedras. Então ela correu e se escondeu atrás das árvores. Quando o menino escutou o barulho de folhas se movendo, olhou para trás e conseguiu ver parte do vestido roxo listrado de branco de Priscila. Então ela notou que ele não olhava mais para o lago. Ele olhava sempre para o local em que ela estava escondida. Então não quis mais sair de trás da árvore, porque ele não mais desviava os olhos dali. Mas ela viu que ele estava só e por isso perdeu o medo. Os outros meninos malvados não estavam ali. Mesmo assim ela achou melhor não sair dali. Mas lembrou que a mãe a esperava com o feixe de lenhas para fazer a janta. Mesmo assim, não conseguia sair dali. "E se os meninos malvados aparecerem?" – pensava ela.

- Priscila! - gritou o menino.

Ela levou um grande susto porque nunca havia ouvido alguém gritar seu nome, exceto sua mãe. O pai ela não conheceu, havia sido morto por um leão.

- Priscila Buterfly! - gritou mais uma vez o menino.

Agora o susto foi maior, porque nem mesmo sua mãe gritava seu nome assim. Ele estava agora em pé e de costas para o lago. E ela resolveu aparecer. Gritou:

- O que você quer?

Ele levou tempo para responder. Quase um minuto para responder.

- Preciso falar com você!

Ela saiu lentamente por detrás das árvores. Neste momento ela leva outro susto. Uma borboleta azul pousa rapidamente em seu nariz. Quando ela levanta as mãos, a borboleta voa e some no meio das árvores. Ela, Priscila, anda bem devagar em direção ao menino, mas para a cinco metros de distância. E diz:

- O que você quer?

- O que você acha de mim?

– Um sapo!!!

Ele abaixa a cabeça tristemente.

- Eu disse um sapo! – grita ela, - tem um atrás de você!

Ele pula para o lado. O sapo se assusta e pula no lago. Ele levanta a cabeça e diz:

– Pensei que o sapo era eu...

- E o que você acha de mim? - pergunta Priscila.

– Muito linda! - diz ele.

– Mentira! Eu não sou linda!- Retruca Priscila.

Ele aponta para a borboleta azul voando atrás dela.

- Tenho de ir, minha mãe me espera com a lenha! – diz ela.

Ele se abaixa para apanhar a lenha e se oferece para levar. Carrega a lenha no ombro pela trilha da floresta. Enquanto andam pela floresta, ele a convida.

–Vamos ao mar?

– Sou muito nova para amar!

– Eu disse vamos ao mar!

- Ela entende e diz – Minha mãe é quem sabe!

O dia amanheceu lindo com o sol vermelho por trás das serras e um céu cor de anil, azul bem escuro. Algumas nuvens bem brancas espalhadas pelo céu azul. Todas as crianças, seus irmãos pequenos estavam prontos para o passeio. Até a mãe de Priscila também queria ver o mar. Finalmente ela iria esquecer um pouco o fogão de lenha e a choupana no meio da floresta. Quando chegaram finalmente ao fim da trilha, com o final da trilha surge o mar.

As crianças pequenas ficaram encantadas com o mar e uma delas correu em direção a ele. Outra ficou agarrada a saia da mãe rindo muito de alegria. E o menorzinho chorou, mas era um choro de alegria. Porque enquanto chorava também sorria. A mãe de Priscila viu quando os quatro meninos apareceram e disse.

– Lá vem os quatro meninos malvados!

Priscila responde:

– Não mãe, agora só três são malvados, o mais lindo é muito bom!

Os quatros chegaram devagar... Quando um deles se aproxima de Priscila Buterfly, então a olha por um minuto e dá um sorriso e ela também sorri para ele. Os outros três ficam de longe observando sem nada entender. Não quiseram mais a amizade daquele que se aproximou de Priscila.

Por algum tempo ficaram ali próximo ao mar mas depois foram embora. Priscila correu na beira do mar e também fez um lanche junto dos seus irmãos e do novo amigo. Ao jogar para ela uma bola feita com pano e folhas ele lhe diz:

- Ontem você não me chamou de sapo, certo?

– Mas se eu te der um beijo você se torna um príncipe! E... daquele dia em diante, realmente ela o viu como um príncipe. Mas agora ela se via sempre no lago e no mar e, quando se via no espelho da água, se via cada vez mais linda e agora tinha a companhia de raposas, coelhos e jacarés.

Com quinze anos ela via o príncipe como um sapo novamente e vivia conversando com os três malvados que como raposas, coelhos e jacarés tinham a sua companhia.

Todos os meninos gostavam dela. Todas as meninas estiveram em sua festa. Cada um deles levou um presente para ela. Ela era odiada pelas meninas por ser a mais bonita da floresta.

O sapo já não aparecia por um bom tempo. Por pouco tempo ele foi um príncipe para ela. Mas ela preferiu a amizade de todos em vez do amor dele somente. Quando lembrava dele só lembrava do lago verde-musgo. Dos outros meninos malvados lembrava o mar de Florzi.

Esta foi a historia de Priscila Buterfly que nasceu e viveu na floresta de Florzi. Morreu com febre aos trinta anos numa casa abandonada. Seus irmãos não quiseram saber dela porque a consideravam ingrata.

Sua mãe havia sido morta por jacarés. Priscila Buterfly morreu muito feia e por isso os meninos malvados não quiseram vê-la mais.

Fonte:
Ribeiro Braz, in http://www.quemtemsedevenha.com.br/sapo_e_a_borboleta.htm Acesso em 10.12.2011.

Aparecido Raimundo de Souza (Celulares)

NO ÔNIBUS LOTADO, O CELULAR do passageiro, sentado ao lado da porta da saída, entoa a 9ª Sinfonia de Beethoven.

No terceiro toque o sujeito decide.

- Alô? Alô? Alô?...

Diante da mudez do aparelho, o cidadão espia, meio desconcertado, para um lado e outro, a fim de averiguar se alguém olha para ele. Ninguém parece preocupado, embora todas as atenções estejam discretamente voltadas para sua pessoa. Nova chamada. Dessa vez, espera uns segundos. Atende, ansioso.

- Alô? Alô? Droga! Alôooa?...

Nada.

Uma moça trajando conjunto verde - parece um abacate amarrado pelo meio - viaja logo atrás. O telefone dela, com o “Vamos fugir” também resolve se fazer presente. Ao atender, seu
rosto se ilumina num sorriso mágico.

- Tô chegando, amor...

Há uma pequena pausa.

- Você já está no ponto? Devo pintar aí dentro de uns cinco ou seis minutos...

Novo intervalo.

- Te amo. Beijos.

Um terceiro celular começa a encher com a Pantera Cor de Rosa. A colegial com o rosto abarrotado de espinhas emite uns gritinhos estridentes antes de iniciar a conversação.

- Rodriguinho, seu sem vergonha. Isso lá é hora de ligar?

A 9ª Sinfonia de Beethoven volta à baila e se mistura com a voz da adolescente.

- Alô? Alô? Alô?

Desta vez a ligação se completa. O passageiro ao lado da porta da saída consegue, finalmente, manter o diálogo com seu interlocutor.

- Legal, cara. Parabéns!

Gesticula e fala alto o suficiente para irritar um defunto. Sem um pingo de decência, age como se perto dele não houvesse uma leva de pessoas que merecesse, ao menos, respeito e educação.

- Até que enfim. Então você está indo pra Portugal? Faça uma boa viagem, meu amigo. O Pedro te manda um abraço. A Luíza um beijo, o Carlos um puxão de orelhas...

“Vamos fugir” volta a disparar no telefone da moça de verde. Ela prontamente atende:

- Amor, tenha um pouco de paciência. Que loucura! O quê? Fala mais alto...

De repente, a coisa toma proporções descomunais. A colegial pisa em ovos de tão indignada e irritada.

- Vá pro inferno, Rodriguinho. Não me racha a cara!

O sujeito no banco ao lado da porta parece um lunático.

- Seu avião sai a que horas? As 19?De onde? Eu...O quê?

Lado esquerdo do coletivo, um casal assiste a tudo com os olhos arregalados. A certa altura, o rapaz comenta, num cochicho:

- É mole ou quer mais?

- As pessoas – observa a moça igualmente aos murmúrios - perderam o senso do ridículo. A sensatez foi pro brejo. Ninguém respeita mais a individualidade.

- Virou febre esse negócio. Todo mundo agora tem celular. Li, ontem, no jornal, que estão à venda, no mercado, aparelhos celulares de última geração para cachorros.

Risos.

- Fala sério? Qual o quê! Isso é piada!
- Não é não. Agora, além de hospitais, hotéis e restaurantes, os cachorros poderão contar com mais essa vantagem. Celular para cães e gatos.

- Se for verdade o que está me dizendo, minha nossa. Será o cúmulo do absurdo. A que ponto chegamos. Olhe só para essa gente. Parece um bando de alucinados. Ninguém se entende.

Um homenzarrão puxa a campainha. Pessoas se levantam. Outras tantas tomam posição para apear.

- Vá se danar, Ro...

- Olhe, se lá em Portugal não tiver mulher que sirva, volta e leva uma brasileira. As mais bonitas do mundo estão aqui, meu chapa...

- Rodriguinho, eu pensava, até agora, que você fosse do conceito. Me enganei redondamente. Vá pro inferno, tá ligado?

A moça de verde pula do banco ao ver o rapaz que a espera, na calçada defronte à porta de acesso de uma loja de departamentos. Passa a mão no telefone e disca um número da memória.

- Ei, amor, olha euzinha aqui. Cheguei. Já me enxergou? Estou te vendo. Me dê adeusinho!

Nessa hora, então...

- A mãe te manda um abraço. Vá com Deus. Chegando em Lisboa, ligue... Entendeu? Ligue, ligue, ligue, surdo!...

No mesmo clima.

- Rodriguinho, ô, sem noção, o bagulho por aqui tá tenso. Meu namorado não vai gostar. Com certeza levará um “lero” contigo, e, depois, com certeza, te comerá na porrada, meu...

A moça de verde, afoita:

- Com licença, meu senhor... Com licença...

- Calma, senhorita. Vou ficar aqui também. Deixe ao menos o motorista parar e liberar a traseira.

- ... De Lisboa? Que droga!!

- ... Ro, Ro, cuidado com a tribo, malandro. Quer saber? Estou injuriada. Vá se danar de verde e amarelo...

- ...Amor, amor, estou descendo...

Sobra o casal acomodado no lado esquerdo, rindo da galera a mais não poder.

– Odeio celular – pondera a jovem, depois que todos saem - parece que esses trocinhos controlam nossa vida. Aliás, dominam, vivem no nosso pé. Jogaram, definitivamente, para o ralo a nossa intimidade.

- Estou com você – completa o rapaz – O negocio é bom, mas, em certas horas, se torna deselegante, cai no vulgar. Tira a privacidade. Imagine, daqui a algum tempo, como lhe falei, ainda há pouco, a gente cruzando na rua, com essas madames, metidas à besta, atendendo ao telefone. “É pra você, Fifizinha!”. E o animal, posudo: “– Agora não posso, estou ocupada, lendo Os Melhores Contos de Cães e Gatos do meu amigo Flavio Moreira da Costa. Peça para me ligar mais tarde”.

A jovem se abre num sorriso contagiante. Pensa em responder alguma coisa. Entretanto, seu celular estronda Tchaikovsky.

- Desculpe. Meu marido...

Pede licença, baixa a cabeça. Sem tirar o aparelho do ouvido se acomoda num banco lá na frente, ao lado do cobrador.
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
     O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Aparecido Raimundo de Souza. A Outra Perna do Saci. São Paulo: Ed. Sucesso, 2009.
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor