domingo, 12 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 17 *


É tão carola a velhinha,

que, quando se sente mal,
faz primeiro uma rezinha,
depois toma um São Risal.
A. A. DE ASSIS
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Inspirado na bonança,
de pensamentos diversos,
o poeta é uma criança
brincando de fazer versos.
ADOLFO MACEDO
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Que exemplo o do vaga-lume
que vive na noite escura;
quanto maior é o negrume,
mais ele voa e fulgura!
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
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Quem vive ofensas perdoando
e por amor tudo faz,
vai sempre em punho levando
uma bandeira de paz!
ANALICE FEITOSA DE LIMA
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Qual fantasia perdida
que se desfaz na amplidão,
tudo é efêmero na vida,
feito bolha de sabão!
ANTÔNIO COUTINHO
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Passa na estrada um camelo
e um corcunda palpitante
de alegria, disse ao vê-lo:
- “Mas que animal elegante!”
ANTÔNIO SALES
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Ralha o chefe, quando chego
atrasado e irritadiço...
Eu até gosto do emprego;
só não gosto é de serviço!
ANTONIO VALENTIM RUFATTO
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Sede balança amiúde
ao pesar os vossos feitos;
vereis gramas de virtude,
toneladas de defeitos.
ARISTÓTELES LACERDA JÚNIOR
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Destino é força que esmaga...
– Credor austero, tremendo,
manda a conta e a gente paga
sem saber que está devendo.
BARRETO COUTINHO
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Traça os rumos com carinho,
pondo firmeza nos traços,
que a retidão do caminho
dá segurança aos teus passos.
CAROLINA RAMOS
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Veleiro de vela panda,
perdeste o rumo e, a bailar,
vais brincando de ciranda
nas águas verdes do mar!
CÉLIO GRUNEWALD
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Já com cabelos grisalhos,
mas inda pensando em ti,
vejo a saudade em retalhos
nas cartas que recebi.
CIDOCA DA SILVA VELHO
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Range a carroça, à distância,
e o boi num passo indolente
me traz lembranças da infância,
faz do passado... presente.
CINCINATO PALMAS AZEVEDO
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Um abajur sobre a mesa,
na velha jarra uma flor;
um “Tango para Teresa”,
saudades de um velho amor.
DALMIR PENA
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Tenho, sim, muito mais ouro
e fortuna que um ricaço:
não há no mundo tesouro
que pague as trovas que eu faço!
DARLY ANGÉLICA O. BARROS
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Num reino que tanto mata,
onde a ambição desatina,
mesmo sem ouro e sem prata,
o rei... é quem se domina!
DICHE GALVÃO CAMPOS
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A união se faz maior
em noite fria que tenha
uma família ao redor
de um velho fogão de lenha!
EDUARDO A. O. TOLEDO
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Assim é este mundo,
todo cheinho de loucos...
E mais este vagabundo
que te quer bem como poucos!
FRANCISCO C. ROCHA
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Nem sempre a briga é conflito
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
HAROLDO RODRIGUES DE CASTRO
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Eu prefiro a arte caduca,
pois receio a evolução.
Quanto mais ela se educa,
mais aumenta a confusão.
HUMBERTO DEL MAESTRO
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Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não faz por merecê-lo.
IZO GOLDMAN
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Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– Por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
JAIME PINA DA SILVEIRA
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Sacudiram minha vida,
duas coisas, te confesso:
a tua triste partida
e o teu alegre regresso.
JOÃO BATISTA SERRA
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Não foste a minha metade,
pois jamais me deste um “sim”…
Mas fizeste que a saudade
fosse a metade de mim.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
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Se alguém brigou por amor,
ou é ciúme, ou intriga...
– Quem ama não tem rancor,
e por amor ninguém briga!
JOSÉ VITOR DE PAIVA
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Se aos outros deres bom trato,
respeito, a qualquer momento,
receberás – de imediato,
o mesmo e igual tratamento.
JOSIAS PAIVA PINHEIRO
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Cabeça, triste é dizê-lo!
Cabeça, que desconsolo!
por fora não tem cabelo,
por dentro não tem miolo!
LAURINDO RIBEIRO
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O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
LILINHA FERNANDES
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A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.
LUIZ DAMO
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor;
não pintei nada na tela;
como é que se pinta a dor?
LUIZ POETA
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Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer…
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
MAGDALENA LÉA
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Ai, meu Brasil, quem me dera
eu partir de Portugal
numa linda caravela
bem ao lado de Cabral!...
MANOEL FERNANDES MENENDEZ
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Respeita o empenho constante,
o eterno recomeçar
de quem erra e segue avante,
na esperança de acertar.
MARIA H. C. M. DUARTE
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Quando o verso é costurado
com sentimento e magia,
parece vir cravejado
de ternura e de poesia.
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
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De um cantinho da Bahia,
chamado Porto Seguro,
parte o Brasil – sob a guia
de Iemanjá – rumo ao futuro.
MARIA MADALENA FERREIRA
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Numa alegria sem fim,
o meu coração criança
faz da ilusão trampolim
e mergulha na esperança...
MARTA MARIA P. BARROS
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Se de amor, em asas plenas,
um "sim" disseres, discreto,
com as três letras apenas
me darás o céu completo.
MIGUEL EPSTEJN RUSSOWSKY 
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Mal termina a serenata,
um silêncio, sorrateiro,
derrama gotas de prata
nos olhos do seresteiro...
MILTON SEBASTIÃO SOUZA 
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Sem ter fé, és indefeso 
no estirão para o futuro; 
Igual não teres aceso 
nenhum fósforo no escuro.
NAIKER DÁMASO
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Esperar muito da vida,
das pessoas, é ilusão.
É um beco sem saída
que termina em decepção.
NILSA ALVES DE MELO
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Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO
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A existência é dividida
em dois extremos da idade:
- um, alvorada da vida,
outro, arrebol de saudade!
PROFESSOR GARCIA
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Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
RENATO ALVES
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Não temo quedas, barreiras,
por mais que a tristeza insista.
Águas que são cachoeiras
não tem lodo que resista!
RITA MARCIANO MOURÃO
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O rancho de tantos causos
alegres, sempre bravios
desperta muitos aplausos
e afasta os dias sombrios.
SINCLAIR POZZA CASEMIRO
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As águas em calmaria
brotando em tua nascente,
são rios em romaria
em um queixume doente.
SOLANGE CALOMBARA
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Nós precisamos sorrir,
mesmo sendo vergastados,
pois ninguém leva, ao partir,
os patrimônios roubados.
SWAMI VIVEKANANDA
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Ao pai dela, o cafajeste
explica: "Foi num pagode"...
O velho é um "cabra da peste"
e a moça explica: "Deu bode!”
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Velha viola, na orfandade,
calou-se, pois seus segredos
não suportam a saudade
nem o toque de outros dedos!
ZAÉ JÚNIOR
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José Feldman (Um Homem e Seu Guarda-Chuva)


A vida urbana é um imenso tabuleiro de xadrez onde o cidadão comum joga sempre com as pedras sem o rei. Como um observador profissional das miudezas da existência — cargo que exerço voluntariamente da minha janela no quarto andar ou de uma mesa de café estrategicamente posicionada na calçada —, cheguei à conclusão de que o otimismo é apenas uma falta grave de informação. E nada sintetiza melhor a trágica comédia humana do que a relação de um homem com o seu guarda-chuva.

Era uma terça-feira de céu cor de chumbo derretido. O ar pesava como uma cobrança de IPTU atrasada. Da minha mesa, avistei o nosso protagonista. Ele vestia um terno cinza-grafite impecável, sapatos que refletiam a luz frouxa dos postes e carregava, com a dignidade de um lorde britânico, um guarda-chuva imponente. Não era um desses modelinhos portáteis e vagabundos de camelô, que quebram com o sopro de uma criança asmática. Era um exemplar de cabo de madeira envernizada, tecido impermeável duplo e hastes de aço que pareciam projetadas pela NASA para resistir a furacões de categoria cinco. Um monumento à prevenção.

O homem caminhava com o peito estufado de quem triunfou sobre a meteorologia. Ele olhava para os lados, contemplando os reles mortais desprotegidos com uma indisfarçável ponta de superioridade intelectual. "Vocês vão se molhar", dizia o seu andar arrogante, "mas eu previ o apocalipse".

Foi então que o universo, que tem um senso de humor peculiar e refinadamente cruel, decidiu agir.

Primeiro ato: as nuvens finalmente desabaram. Mas não foi uma chuva comum. Foi um dilúvio bíblico concentrado, daqueles que transformam bueiros em fontes termais e asfalto em corredeiras. O homem, com a precisão de um espadachim, sacou seu portentoso guarda-chuva e o abriu com um estalo seco e triunfal. Ele estava seguro. O terno continuava seco. A dignidade permanecia intacta. Ele sorriu, um meio-sorriso amargo de quem sabe que a prudência é a única virtude que resta na metrópole.

Segundo ato: o vento mudou de ideia. Na selva de concreto, o vento não sopra em linha reta; ele faz curvas, ganha velocidade entre os prédios e cria mini-tufões geométricos. Uma rajada súbita, vinda de baixo para cima — violando todas as leis da física e do bom senso, atingiu o guarda-chuva por dentro.

O que se seguiu foi uma dança grotesca. O objeto imponente virou instantaneamente do avesso, transformando-se em uma bacia de pano inútil, apontando para o céu como um receptor de parabólica quebrado. O homem foi arrastado dois passos para trás. Sua expressão de lorde britânico desmoronou, substituída pelo pânico de quem vê o próprio escudo de armas se rebelar contra o mestre.

A partir dali, a melancolia da cena atingiu níveis poéticos. Ele tentou, com as duas mãos e o uso do próprio joelho, desvirar o monstro de metal. Enquanto lutava contra o nylon rebelde, a água da chuva acumulada na calha do prédio ao lado caiu de uma vez só, bem no seu terno cinza. Em menos de trinta segundos, o homem mais preparado da cidade estava mais ensopado do que os pedestres que corriam sem lenço e sem documento. Seus sapatos caros agora emitiam um som de esponja velha a cada passo: flesch, flesch, flesch.

A maior tragédia da vida urbana não é a falta de sorte; é o esforço monumental que fazemos para tentar manter o controle sobre o caos. Aquele homem gastou dinheiro, carregou peso o dia todo e alimentou o orgulho de estar protegido, apenas para que a natureza provasse que um pedaço de pano e algumas hastes de ferro são totalmente irrelevantes diante do mau humor do cosmos.

O desfecho foi de uma beleza plástica irretocável. Percebendo a derrota completa, o homem parou de lutar. Aceitou o batismo forçado da cidade. Com os cabelos colados na testa e a água escorrendo pelo paletó arruinado, ele caminhou até a lixeira mais próxima e, sem olhar para trás, depositou o cadáver retorcido do seu guarda-chuva de luxo. Continuou seu caminho andando devagar, sob o temporal, agora liberto da ilusão da segurança.

Olhei para o fundo da minha xícara de café, pensando que todos nós somos, de alguma forma, aquele homem. Passamos a vida carregando proteções pesadas, planejando defesas contra o futuro, orgulhosos da nossa suposta esperteza, até que a vida vira o nosso guarda-chuva do avesso e nos obriga a caminhar encharcados até o próximo compromisso. 

Paguei a conta, abri a minha modesta jaqueta de plástico e saí para a chuva, rindo baixinho da nossa comovente e ridícula fragilidade.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Giuseppe Caonetto (Cicatrizes)

Ao menos você é escritor, não faltará histórias pra contar, disse ela enquanto tirava o automóvel da garagem. Aquelas palavras chegaram a meus ouvidos carregadas de ruídos, e ainda ressoam em minha mente. Deveria ter sido mais um encontro, de tantos outros, aquecidos por aquele transbordante sentimento, inexplicável ao tempo, senhor da razão, mas servo da paixão insana. Foi o último, interrompido pela filha que retornou mais cedo para casa, sem aviso. Ficou apenas o sabor do beijo, o último de nossas bocas. Depois da fuga pela porta da cozinha, com os cuidados de um agente da CIA ao fechar a porta do carro sem bater, percorreu-me o corpo a frieza de um ladrão, logo transferida para os suores a me denunciar. Desci do carro a duas quadras da sua casa, e permaneci parado no meio da rua, não acreditando nos fatos, com o olhar imóvel a acompanhar a imagem do veículo virando a esquina, na direção do colégio onde lecionava.

Nos conhecemos pelas redes sociais. Depois, uma conversa na biblioteca da faculdade. Meus olhos, na verdade, miraram os livros das prateleiras, fugindo da leitura daquele texto que jorrava pelas retinas que me fitavam. Vieram outros momentos, conversas por aplicativos, assuntos variados, um café no shopping, um encontro próximo à rodovia e o primeiro beijo para selar a clandestinidade. Iniciativa dela, sem direito a reação, senão entregar-me à boca que me buscava com sede. Seu sabor preencheu-me, não havia mais espaços em mim. Talvez esperasse, naquele dia, degustá-la. Mas voltei embriagado para casa.

As semanas que se seguiram, os meses que vieram, os dias vividos entre a primeira e última embriaguez, compõem hoje um tempo somente comparável a uma pausa musical. É como se a vida, naquele módulo, tivesse fugido para outra saudade, deixando-me livre para escrever um passado presente para sempre.

Vou me separar, ele saiu de casa, escreveu-me numa noite, sem se alongar. E tudo o que meu coração me disse, embevecido pelo amor que sequer havia cantarolado, se transfere para páginas e páginas de um manuscrito comestível, como se a existência da vida dependesse unicamente do pronunciamento das palavras surdas, servido na mesa do café. Confusão.

O que houve? Como assim? Por que? O que vai fazer? E nós? Perguntas que deveriam ter mastigadas, mascadas, engolidas sem ruminar. Ali, hoje sei, em cada ponto de interrogação está a curva da minha insensatez, que me fez perdê-la para sempre. Nossa condição de vida não nos permitia, naquele momento, a revogação dos sigilos. Mas foi neste segredo que ela buscou o colo por tantas vezes oferecido, agora ocupado pelo medo.

Naquela noite, quando retornava para meu veículo, estacionado próximo à casa, olhei para seu jardim, o portão de entrada, as luzes acesas, vida habitando a sala, e a sensação de nunca mais.

Hoje realizo seu pedido. Ao transcrever cicatrizes, sinto-me escritor e componho este texto para seus olhos, ainda que ela, neste momento, imite meu gesto e mire seu olhar em outro livro, de outra prateleira, outra biblioteca.
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GIUSEPPE CAONETTO é o nome artístico do poeta, escritor e editor José A. Cauneto, uma expressiva voz contemporânea da poesia e da difusão literária no estado do Paraná. Ele possui uma sólida produção voltada principalmente à poesia lírica, à tradição dos sonetos e à edição de novos autores por meio de seu próprio selo editorial. Nasceu em Tamboara/PR, em 1962, embora tenha o seu registro civil na vizinha cidade de Paranavaí. Viveu parte de sua adolescência na zona rural do estado de Mato Grosso do Sul, onde estudou em escola pública. Posteriormente, retornou para o Paraná e fixou residência definitiva no município de Paranavaí, onde atua ativamente na cena cultural. Construiu uma carreira de quase 37 anos na Justiça do Trabalho (TRT da 9ª Região), tendo ingressado em 1986. Aposentou-se em 2023. Ao longo desse período, exerceu cargos importantes de liderança, atuando como Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho (1994–2001) e de Paranavaí (2006–2015). É graduado em Letras (1989) e especialista em Língua Portuguesa (1992) pela Fafipa/Unespar. Também obteve o título de bacharel em Direito em 1997. No campo da escrita criativa, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores pela Metamorfose Cursos (2022). 
A escrita despertou cedo em sua vida, por volta de 1976 na zona rural, inspirada por poemas contidos em livros didáticos. No entanto, sua produção poética adormeceu durante os anos em que priorizou a carreira e os estudos acadêmicos. O retorno definitivo à literatura aconteceu em 1999, impulsionado pelo surgimento da internet e a conexão com comunidades virtuais de escritores. Após sua aposentadoria em 2023, fundou a Doarte Edições, editora voltada à publicação e promoção de obras poéticas e literárias no circuito paranaense. 
Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (ALAP); membro do Centro de Letras do Paraná. Foi selecionado e integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE) em 2023, coordenado pela Casa das Rosas de São Paulo. Foi um dos autores premiados na categoria Poesia durante a 54ª edição do aclamado Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP) em 2019, um dos festivais literários mais tradicionais e longevos do sul do país.
Livros Publicados: Santo Rosário: um tesouro mariano (2010) — Obra voltada à tradição religiosa; Para que os olhos falem: poemas ternos (2012); Doarte (2016) — Livro de poemas que mais tarde inspiraria o nome de sua editora; Trilhas sazonais: versos liturgos (2020) — Livro em coautoria com a escritora Lilia Souza; O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (2023); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (2024) — Obra em celebração à sua trajetória de vida, explorando a estrutura clássica dos sonetos; Tantum: apenas tanto (2025) — Reunião de poemas maduros escritos ao longo de uma década.
A contribuição de Caonetto reside na interiorização da produção literária e no fortalecimento do mercado editorial independente fora das grandes capitais brasileiras. Ao unir o rigor formal da poesia clássica — como visto na escrita de sonetos — a uma linguagem sensível sobre o cotidiano, o afeto e a passagem do tempo, ele ajuda a consolidar o norte e o noroeste do Paraná como polos produtores de cultura de alto nível. Além disso, por meio de palestras, rodas de conversa em universidades e da atuação na Doarte Edições, o escritor cumpre um papel fundamental de agente cultural, abrindo portas para novos poetas e estimulando o hábito da leitura nas novas gerações.

Fonte;
Biografia = Doarte, Site Giuseppe Caonetto, Ana Justra Federal, etc.

Interlúdio * 6 *

 

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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

O. Henry (O hábil detetive)


Meses atrás, Thomas Keeling instalou um pequeno escritório detetivesco. Ofereceu seus serviços ao público em condições bastante modestas. Não aspirava a eclipsar a glória de Nick Carter, pois preferia trabalhar por caminhos menos arriscados.

Se um patrão desejava indagar os hábitos de um empregado, ou uma senhora queria investigar as idas e vindas de um marido um tanto alegre, Keeling era o homem indicado. Homem de princípios, tranquilo e estudioso. Lia Gaboriau e Conan Doyle[*] e esperava galgar algum posto mais elevado em sua profissão. Três dias depois de inaugurado o escritório, apareceu uma jovem de vinte e cinco anos, mais ou menos, alta, esbelta e bem vestida. Usava um véu finíssimo que tirou ao ocupar a cadeira que Keeling lhe ofereceu. Seu rosto era distinto e delicado. Tinha olhos vivos e maneiras levemente nervosas.

— Vim vê-lo, senhor — disse com uma suave (mas um pouco triste) voz de contralto —, porque é relativamente estranho nesta cidade e me seria impossível tratar de assuntos particulares com algum de meus amigos. Desejo que vigie os movimentos de meu marido. Por humilhante que essa confissão seja para mim, acho que não tenho mais o seu amor. Vivemos cinco felizes anos de casamento, mas, recentemente, uma jovem, que meu marido conhecera em solteiro, mudou-se para esta cidade e tenho razões para suspeitar que lhe dedica as suas atenções. Quero que o vigie e virei aqui saber o que descobriu. Sou a Sra. Randall. O meu marido, que é muito conhecido, é dono de uma pequena joalheria na Rua dos Álamos. Aqui tem algum dinheiro por conta dos seus honorários.

Keeling tomou o dinheiro e assegurou à jovem que cumpriria os seus desejos ao pé da letra. E pediu-lhe que voltasse dois dias mais tarde, às quatro horas, para receber a primeira informação.

No dia seguinte, realizou as primeiras investigações. Descobriu a joalheria, onde entrou sob o pretexto de mandar consertar o vidro do relógio. Randall, o joalheiro, era um homem de trinta e cinco anos, aproximadamente, e de modos tranquilos. Sua loja era pequena, mas bem sortida de relógios, diamantes e joias. Outras pesquisas permitiram Keeling verificar que Randall era um homem de bons costumes, não bebia nunca, e trabalhava continuamente na loja.

Keeling espreitou durante várias horas as proximidades da loja e recebeu sua recompensa quando viu entrar nela uma jovem morena. Aproximou-se da porta, de onde podia observar todo o interior. A jovem entrou sem cerimônia alguma e, inclinando familiarmente, falou com Randall. Por fim, o joalheiro entregou-lhe algumas moedas. A moça saiu e foi andando rua abaixo.

A cliente de Keeling apresentou-se no escritório para saber dos resultados. O detetive contou-lhe ao que assistira.

— É ela — disse quando Keeling lhe descreveu a moça atrevida que entrara na loja. — Atrevida! E Charles dando-lhe dinheiro! Nunca pensei que isso me acontecesse...

E levou um lenço os olhos para conter as lágrimas.

— Sra. Randall — disse o detetive —, o que deseja agora que eu faça?

— Quero ver com meus próprios olhos para convencer-me. Também preciso de testemunha para o processo do divórcio. Não suportarei mais esta vida.

No dia seguinte, quando ela voltou ao escritório de Keeling, este lhe disse:

— Estive esta tarde na joalheria sob um pretexto qualquer. A jovem estava lá, mas não ficou muito tempo. Antes de partir disse: “Charlie, esta noite teremos um jantar especial, como você pediu. Depois voltaremos aqui e conversaremos, enquanto você termina o trabalho deste broche de brilhantes". Esta noite, senhora Randall, lhe proporciona uma boa oportunidade para agir.

— Canalha! — gritou a jovem com os olhos relampagueando. —Disse-me que esta noite tinha que ficar fora até tarde para um trabalho importante. E é deste modo que passa o tempo longe de mim!

— Sugiro — disse o detetive — que a senhora se esconda na loja para ouvir o que disserem. Quando tiver ouvido bastante, pode chamar as testemunhas e acareá-las com seu marido.

— Muito bem. Penso que o policial que fica nas proximidades é um velho conhecido de minha família. O senhor podia explicar-lhe o assunto e, quando eu tiver ouvido o suficiente, o senhor e ele podem aparecer como testemunhas.

— Falarei com ele — disse o detetive. — Venha aqui depois de escurecer e combinaremos tudo para pegá-los.

O detetive procurou o policial e explicou-lhe tudo.

— É curioso — disse este. — Não sabia que o Sr. Randall andasse com essas coisas. Não se pode pôr as mãos no fogo por ninguém. De modo que sua esposa quer esconder-se na joalheria e ouvir o que dizem... Há um pequeno quarto do fundo, onde Randall guarda caixas e papéis. A porta está fechada à chave, naturalmente, mas se o senhor conseguir que a moça entre ali, poderá esconder-se em qualquer canto. Não gosto de meter-me nestes assuntos, mas simpatizo com ela. Conheço-a desde que era menina.

Ao escurecer, a cliente do detetive entrou apressadamente no escritório. Vestia-se de preto, com simplicidade e tinha um véu no rosto.

— Se Charlie me visse —disse —, não me reconheceria.

Foram para perto da joalheria e viram, às oito horas, a jovem entrar na loja. Imediatamente depois, saiu com Randall, de braço dado e ambos se afastaram rapidamente. O detetive sentiu que o braço da moça tremia.

— Bandido! — disse com amargura. — Julga-me em casa, esperando-o como uma boba, enquanto sai com esta mulherzinha! Ah, como os homens são pérfidos!

 Keeling levou sua cliente à porta de trás da casa. Não lhes custou forçar a porta e entrar.

— Na loja — disse a moça —, perto do banco em que meu marido trabalha, há um pano que chega até o chão. Se me escondesse ali, eu poderia ouvir tudo.

Keeling tirou o molho de chaves do bolso e, em pouco, encontrou uma que abria a porta da joalheria, onde brilhava uma luz pálida. A moça disse, entrando na loja:

— Vou fechar esta porta por dentro e quero que o senhor siga meu esposo. Veja se estão jantando e, quando regressar, avise-me com três pancadinhas na porta. Depois que eu tiver ouvido a conversa, abrirei e nós enfrentaremos os culpados. Quero que o senhor esteja a meu lado para proteger-me.

O detetive foi procurar o joalheiro e sua companheira. Viu que jantavam num tranquilo restaurante das proximidades. Quando viu que saíam, Keeling correu para a porta posterior e deu três pancadinhas.

Poucos minutos depois, o joalheiro entrou acompanhado da moça e Keeling viu que a luz brilhava mais intensamente. Voltou então à rua e pôde ver Randall, através da vitrine, trabalhando, e a jovem sentada ao seu lado.

Keeling, para dar-lhes um pouco de tempo, encaminhou-se até a esquina. Ali encontrou o policial, a quem disse que a Sra. Randall estava escondida na joalheria e que o plano ia às mil maravilhas. Voltaram juntos e o guarda lançou um olhar pela vitrine.

— Parecem entender-se muito bem — disse ele. — Onde está a outra mulher?

— Como? Sentada a seu lado, não vê?

— Pergunto pela moça que Randall levou para jantar.

—Mas não estou dizendo...

— Parece que estamos confusos — disse o guarda. — Conhece esta mulher ali?

— Pois é a mulher com que Randall foi jantar.

— Pois é a esposa de Randall. Há quinze anos que a conheço.

— Então... quem?... — balbuciou o detetive. — Deus Todo-Poderoso, quem está embaixo do pano?

Keeling bateu na porta da loja. Randall veio abrir e ele e o guarda entraram.

— Olhem debaixo da mesa, depressa, gritou o detetive.

— O policial se inclinou e tirou um vestido negro, um véu e uma peruca.

— Essa... essa senhora... é sua esposa? — Perguntou Keeling, apontando para a jovem de olhos escuros que o olhava com inexprimível surpresa.

— Naturalmente, respondeu o joalheiro. — Agora explique-me que diabo quer dizer tudo isso.

— Procure suas joias, Sr. Randall — disse o guarda, que começava a compreender a situação.

As joias e os relógios roubados importavam numa boa quantia, que, no dia seguinte, o detetive pagou com o último centavo de suas economias.

Nesta mesma noite, Keeling, no escritório, pôs-se a revistar algumas fotografias de ladrões conhecidos. Por fim encontrou uma. Sob a fotografia de um jovem de traços delicados, dizia a inscrição:

"James H. Miggles, aliás, ‘Simon’ ou ‘A Viúva Chorona’, ou ‘Himmy, o Suave’, escroque e ladrão. Trabalha geralmente com disfarces femininos. Muito agradável e perigoso. A polícia o procura em vários Estados".

Por essas razões, Keeling abandonou sua agência de detetive.
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[*] Émile Gobariou (1832 – 1873), escritor francês, foi um dos primeiros autores da ficção policial. O escocês Atrhur Conan Doyle (1859 – 1930) é o criador do célebre detetive Sherlock Holmes.
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O. HENRY é o pseudônimo literário de William Sydney Porter, um dos maiores mestres do conto da literatura mundial. Famoso por sua escrita ágil, humor sagaz e, acima de tudo, por seus finais surpreendentes e irônicos (técnica conhecida como twist ending), ele marcou profundamente a narrativa curta do século XX. Nasceu em Greensboro, Carolina do Norte (EUA), em 1862. Faleceu precocemente em Nova York (EUA), em 1910, aos 47 anos, em decorrência de cirrose hepática, complicações de diabetes e problemas cardíacos. Sua vida itinerante moldou diretamente sua obra. Passou a infância e juventude na Carolina do Norte, Mudou-se para o Texas em 1882 por motivos de saúde (para tratar uma tosse persistente), vivendo em ranchos, em Austin e em Houston. Fugiu para Trujillo, em Honduras, para escapar de acusações criminais nos EUA. Foi lá que ele cunhou a famosa expressão "República das Bananas". Cumpriu pena na Penitenciária de Columbus (Ohio). Fixou residência a partir de 1902, em Nova York, cidade que adotou como cenário para a maioria de suas histórias mais famosas, apelidando-a de "Bagdá do Metrô". Antes de viver exclusivamente da escrita, teve uma carreira profissional bastante variada e conturbada. Trabalhou na farmácia de seu tio e foi desenhista técnico no funcionalismo público do Texas. Atuou como bancário (caixa) no First National Bank de Austin. Em 1894, foi acusado de desfalque e peculato pelo banco. Em 1898, foi considerado culpado e condenado a cinco anos de prisão. Cumpriu três anos em regime fechado em Ohio devido ao bom comportamento. Na prisão, trabalhou como farmacêutico do hospital do presídio.
Começou a escrever contos de forma profissional enquanto estava na prisão para conseguir dinheiro e sustentar sua filha, Margaret. Para ocultar sua verdadeira identidade de ex-presidiário, ele criou o pseudônimo O. Henry. Embora existam várias teorias sobre a origem do nome, a mais aceita é que ele se inspirou no nome de um guarda da prisão (Orrin Henry) ou no nome do biólogo francês Étienne Omer Henry. Ao sair da prisão em 1901, sua carreira decolou. Ele se mudou para Nova York e chegou a escrever um conto por semana para o jornal New York World, tornando-se imensamente popular. O. Henry não pertenceu a Academias de Letras formais. Sua literatura era de apelo popular, publicada em jornais e revistas de grande circulação, e ele mantinha uma vida pessoal reservada e boêmia. Não recebeu grandes prêmios em vida, mas sua importância gerou o O. Henry Award (Prêmio O. Henry), criado em 1919 pela Sociedade de Artes e Ciências dos EUA. É, até hoje, um dos prêmios anuais mais prestigiados do mundo para contos publicados em revistas americanas e canadenses.
Publicou centenas de contos, compilados em livros de enorme sucesso comercial: Cabbages and Kings (1904) – Seu único romance (composto por contos interligados passados em Honduras); The Four Million (1906) – Contém suas obras-primas: "O Presente dos Magos" e "O Policial e o Hino"; The Trimmed Lamp (1907); Heart of the West (1907); The Voice of the City (1908); Options (1909); Strictly Business (1910); Sixes and Sevens (1911) – Coletânea póstuma que inclui o conto satírico "O Hábil Detetive". 
A importância de O. Henry reside na revolução da estrutura do conto moderno. Ele conseguiu capturar a essência da vida urbana do início do século XX, dando voz e dignidade aos cidadãos comuns de Nova York: balconistas, policiais, mendigos, artistas pobres e pequenos vigaristas. Sua principal marca registrada — o final com reviravolta inesperada — influenciou gerações de escritores de mistério, drama e comédia ao redor do mundo. Ele provou que narrativas curtas e de consumo rápido em jornais podiam carregar uma profunda sensibilidade humana, misturando melancolia e ironia de forma genial. Ele transformou o cotidiano em uma caixinha de surpresas e ditou o ritmo de como contar uma boa história com dinamismo e precisão.

Fontes: 
Revista “Carioca”, 07.04.1945. Publicado originalmente na coletânea póstuma "Sixes and Sevens" no ano de 1911.
Biografia = Wikipedia, Brasil Escola, Literatura Inglesa (site), Amazon, 

Mariane Veigas Pepes (O caso do frade)


Excepcionalmente na sexta-feira fui escalada para o turno noturno. Uma semana tumultuada e um dia cheio, achei que as últimas doze horas seriam silenciosas. Por certo estava enganada. Já em fins do plantão,  precisamente às 4h07 da manhã, recebi uma ligação me chamando para avaliar um óbito. Ainda no escuro, arranquei uma saia longa e uma camisa qualquer do armário. O cartório só abriria às 9h30, que família chega tão cedo?

Não demorei no percurso, não havia trânsito. E, antes que pudesse bocejar uma segunda vez, o corpo estava à minha frente sobre a fria mesa do necrotério. Era um homem idoso e magro, em hábito capuchinho, novo e limpo. Com um leve cheiro adocicado. Afrouxei o nó do cordão que prendia a cintura. Não havia quaisquer marcas de violência ou doença. 

Corri rampa acima, a que fica ao lado do cemitério e leva ao escritório. O cheiro do começo da manhã se misturava ao do hipoclorito e a briga entre a noite e dia já começava na linha do horizonte. 

Entrei, retirando minha pasta com as Declarações de Óbito da bolsa, e cumprimentei os presentes na ampla recepção. Jaques, o colega da madrugada, levantou-se chamando os dois homens sentados nas cadeiras de espera. Um em cada canto da sala.

Puseram-se de pé num instante e, de certa forma, ri-me de como se contrastavam. Aquele que ocupava a cadeira da esquerda era baixo; o da direita, alto. O da esquerda, bojudo e calvo. O da direita, esguio e de negra cabeleira. Eram elegantes em seus ternos, embora houvesse uma afetação excêntrica em ambos. 

Sentaram-se à minha frente sem se olharem. 

— Bom dia, mademoiselle — o da esquerda ajeitou o bigode.

— É ainda "boa noite", meu caro — o outro abriu um relógio de bolso.

— Já é manhãzinha.

— Não é tempo, ainda!

Mexi na papelada sobre a bancada, pasmada pelo embate àquela hora, fosse do dia ou da noite. 

— O seu — procurei pelo documento de atendimento do SAMU  —  Guilherme era parente de vocês?

— Un ami.

— Um conhecido.

— Certo — peguei uma caneta sobre a bancada. 

— Ele era da Igreja, certo?

— Creio ser óbvio pelas vestimentas.

— Meu caro — o careca repreendeu —, deixe a pobre moça trabalhar. Ele era frade.

— E, hum...  O óbito foi em casa, mesmo? 

— Depende do que você chama de casa.

— Ora, ponha as células cinzentas para funcionar, meu jovem. Ela quer dizer o local para onde se endereçam os documentos pessoais de alguém.

Astuto! Não conseguiria me expressar de melhor jeito.

— Devidamente — o magro recostou-se na cadeira, olhando-me fixamente. 

— Monsieur Guilherme residia com os monges desta sua cidade há alguns bons meses.

— Compreendo — rabisquei com força num rascunho, tentando tirar tinta da caneta. —  E vocês sabem me dizer se ele tratava alguma doença, se tomava algum medicamento?

— De forma alguma, mon ami era um homem muito vivaz.

— E vocês sabem me dizer se ele apresentou algum sintoma, alguma queixa? Se estava tratando algo?

— Pensa em morte de origem natural?

Eu senti uma gota de suor descer por minha nuca. Troquei a caneta.

— Aqui só cuido de mortes naturais. 

— Acredito ter havido um engano, minha jovem. — Um segundo de suspense. Reclinou-se para frente — Monsieur Guilherme foi assassinado.

O outro articulou em concordância.

Mas era só o que me faltava, pra fechar a tampa do baú. Àquela hora da matina?

— Bom, ele tinha 82 anos, foi encontrado no próprio quarto, sem sinais de violência...

— Besteira. Você não se atentou aos detalhes.

— Senhor — parei na área do local de ocorrência, a nova caneta borrava o papel. —  Temos um protocolo para a avaliação de mortes suspeitas. Esse não é o caso aqui.

— Desta vez, devo concordar com o monsieur Holmes. Você não percebeu os detalhes.

Detalhes? Quais? A caneta travou em algum lugar e a ponta rasgou o papel. 

— Ai, que ótimo! — Rasgar uma Declaração de Óbito é sempre uma dor de cabeça. — Com todo respeito, vocês estão me atrapalhando.

— Poirot, precisamos elucidá-la de nossas suspeitas.

Ambos levantaram-se. 

— Aonde vão? 

— Gostaria de pedir permissão para explicar nossa hipótese, ao lado do corpo.

Dirigi um olhar para os recepcionistas da madrugada, compartilhávamos o mesmo pensamento.

— Vocês já fizeram o reconhecimento do corpo, não?

— Sim, e pudemos nos atentar aos detalhes.

— Tudo bem! 

Levantei-me, a cadeira arranhou o chão.

— Acompanhem-me!

Deixei como estavam minhas coisas, saí sem me certificar se me seguiam. O barulho dos passarinhos do lado de fora me fez sentir falta da minha cama.

Descemos o mesmo corredor que eu subira mais cedo.

— Sua cidade é muito bem estruturada! O necrotério fica ao lado do cemitério. — Pobre Poirot, quis fazer sala.

— Pertence ao cemitério! — Empurrei a porta do laboratório.

— Permite? 

— Claro.

Sherlock avançou até o cadáver.

— Não, credo! — Estendi a caixa de luvas para os dois — Aqui.

— Você mexeu nas roupas, não é?

— Claro, eu preciso expor o corpo para examiná-lo.

— Percebeu como ele estava vestido?

— Roupas da Igreja.

— Não o que vestia, mas como vestia.

Passaram-se alguns minutos, somente o barulho de tic-tac do relógio.

— Sabe, minha jovem, não a culpo por não ter percebido. As coisas parecem todas no lugar certo.

— Exceto que estavam certas nos lugares errados — Poirot retirou as luvas. —  A corrente estava amarrada para a esquerda.

— E com apenas um nó. Não é muito religiosa, não é?

— Mas como isso significa que ele foi assassinado? — Agora eu fui bem ríspida. — Ele tomou banho e poderia estar desorientado.

— Roupas novas, vestidas de forma errada. Um frade que viveu seis décadas sob o comando da Ordem?

— As roupas limpas foram trocadas por alguém que não sabia o que estava fazendo.

— Mas pra quê? 

— Precisava encobrir o vômito.

— Mademoiselle, venha até aqui. Observe o canto da boca.

— Esse líquido pode sair normalmente depois da morte.

— Sinta o cheiro.

— Eu... — Não me aproximei muito, mas era o cheiro de antes. Algo doce, amendoado. — O que é?

— Cianeto.

— Meu Deus, envenenamento. — Arregalei os olhos. 

— E Guilherme lutou com o agressor — disse Holmes. — Unhas cortadas, para que não se achasse o material debaixo delas.

Havia bem ali, na unha do indicador, um corte, sem sinal algum de coagulação. 

— Feito depois da morte.

— Exatamente, minha cara. Exatamente. 

— Como é que vocês sabiam só de olhar?

— Detalhes.
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MARIANE VEIGAS PEPES é uma escritora contemporânea, pesquisadora e médica brasileira. Sua trajetória é caracterizada por uma atuação híbrida, na qual divide o tempo entre o universo da medicina/bioética e a escrita literária independente. Ela se autodescreve como uma "interiorana nascida em capital". Nasceu em Curitiba/PR, em meados da década de 1990, concluiu o ensino médio no ano de 2014. Embora tenha nascido na capital, cresceu e fixou residência na cidade de Umuarama, no interior do Paraná. Também morou temporariamente no estado de Santa Catarina (na região de Joaçaba) para a realização de seus estudos de formação acadêmica superior. Graduou-se em Medicina pela Universidade do Oeste de Santa Catarina. Atua ativamente no campo da Bioética, com ênfase no direito e autonomia dos pacientes. É coautora de artigos científicos de impacto nacional, como o estudo Diretivas antecipadas de vontade: instrumento de autonomia para pacientes oncológicos, publicado na Revista Bioética do Conselho Federal de Medicina.
Mariane transita pela escrita ficcional e crônicas do cotidiano, compartilhando suas produções principalmente por meio de plataformas digitais focadas no fomento de novos autores, como a Plataforma de Escritores. Seus textos dialogam frequentemente com as percepções de quem carrega o "ritmo e as paranoias de cidade grande" vivendo na calmaria do interior. Um de seus contos conhecidos na rede é a narrativa ficcional intitulada "O Caso do Frade".  Por integrar uma geração jovem e independente de escritores, ainda não possui livros em formato físico de grande circulação comercial, prêmios literários de nível nacional ou filiação a Academias de Letras tradicionais. Suas publicações formais de maior destaque concentram-se na literatura científica e médica.
A importância de nomes como Mariane Veigas Pepes para o cenário atual reside na democratização e descentralização da escrita por meio das mídias digitais. Ela faz parte de um crescente movimento de profissionais de outras áreas (como a saúde) que utilizam a literatura como uma ferramenta de humanização e escape criativo. Ao publicar de forma independente, autores com esse perfil ajudam a renovar o público leitor na internet e a oxigenar a produção literária do interior do estado do Paraná com crônicas e contos de forte apelo contemporâneo.

Fontes:
Biografia = Revista Bioética, Plataforma de Escritores.