domingo, 4 de outubro de 2026

Renato Alves (Plantando Trovas)

 

1
A água pura não tem cor,
nem branca, nem amarela;
não tem cheiro, nem sabor...
Mas ninguém vive sem ela!
2
Agradeço a quem quiser-me
como eu sou, como um irmão...
Não é na cor da epiderme
que se vê meu coração!
3
Ao receber tuas cartas
uma frustração me invade:
tu me dás notícias fartas,
mas me matas de saudade!
4
Ao repensar minha história,
encontrei com emoção
por trás de cada vitória
um mestre no coração!
5
Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
6
Beleza de mais efeito
que este colar de rainha
tu não tens sobre o teu peito,
dentro dele é que se aninha...
7
Com esplendor natural
e fulgor exuberante,
de uma gota no varal
o sol faz um diamante.
8
“Conhecer não é saber”
- ensina a douta ciência...
”Pôr alma no que aprender” ,
isto, sim, é sapiência!
9
Coração, relógio louco
que registra o meu desejo,
bate muito ou bate pouco,
na medida em que te vejo!
10
De meu pai herdei o nome,
de minha mãe, a ternura;
da pobreza herdei a fome,
a minha herança mais dura!
11
Eis meu desejo ideal,
minha utopia e quimera:
– Ver teus braços, afinal,
abrirem-se à minha espera!
12
Escute a voz da razão:
– Nunca esmoreça, persista!...
É com determinação
que o sonho vira conquista.
13
Mais rápido do que a luz,
através do imaginar,
pensamento nos conduz
a todo e qualquer lugar,
14
Mesmo em meio à dura lida,
fazer versos nos renova:
– Cabe todo o bem da vida
nas quatro linhas da trova!
15
Mil livros já devorei,
mas neles não achei graça,
até hoje eu nada sei...
– Muito prazer, sou a traça!
16
Minha vida era rotina
tão amarga quanto fel,
mas transformou-se, menina,
com sua chegada, em mel!
17
Não diga que é velho alguém
pela idade transcorrida...
Só é velho quem não tem
mais sonhos em sua vida!
18
Ninguém há que saiba tudo,
nem tudo pode saber...
Muito se aprende e, contudo,
há sempre o que se aprender!
19
No campo foi algodão,
tornou-se fio e tecido,
ganhou cor e confecção...
Está pronto o seu vestido!
20
Nunca condenes o irmão
sem de provas ter ciência;
dá-lhe, sem contestação,
a presunção da inocência.
21
O gajo, sendo um velhaco,
engajou-se bem no ofício:
– um cargo de puxa-saco
pra puxar palma em comício!
22
O mar geme nos rochedos
prantos tão desconsolados,
pois guarda muitos segredos
e sonhos dos afogados...
23
O mestre faz da alma um templo
para ouvir nossa oração,
e, assim, mostra que é o exemplo
que ensina qualquer lição!
24
O muro é separação,
produto de preconceito;
se você quer união,
construa pontes no peito!
25
O trabalho é punição,
uma herança do passado...
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!..
26
“O vinho seco faz bem!”
- recomendou sua avó...
E ele foi ao armazém,
e lá pediu: “Vinho em pó!”
27
Pandorga... cafifa... pipas...
tens nomes em abundância,
mas com todos participas
dos sonhos da nossa infância!
28
Planto o grão com uma meta:
- Gerar vida em profusão...
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
29
Pode ser pobre ou poeta,
sem perder a autoestima;
mas há de ter como meta
não ter pobreza na rima.
30
Quando a feia se “embeleza” ,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa quer eu sou mágico!...
31
Quando a humana insensatez
dissemina a poluição,
para ter sol outra vez,
só com imaginação...
32
Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
33
Quando estou no teu regaço,
tu me dás consolo e mel...
Como há sonho em teu espaço,
livro, amigo de papel!
34
Quando o amor é inconsequente,
nas mais tórridas paixões,
pode fundir-se a corrente
que liga os dois corações!
35
Quem de si não cede nada,
no céu não terá lugar.
Coisa mais abençoada
do que receber... é dar!
36
Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
37
Que nome você daria
ao que sente a mãe que chora
ao pé da cama vazia
de um filho que foi embora?...
38
Razão e Emoção, na gente,
são irmãs, mas não se dão:
a primeira habita a mente,
a segunda, o coração!
39
Se és de fato um vencedor
deves sempre ter em vista,
não o prêmio e seu valor,
mas o prazer da conquista!
40
Se és duro de coração,
não perdes por esperar:
do céu só terá perdão
quem é capaz de perdoar.
41
Ser poeta é transformar
a palavra em brasa ardente
para com ela queimar
a emoção que está na gente!
42
Se tens pela vida apreço,
não entres na droga braba!
Tu decides o começo,
mas não sabes como acaba.
43
Sigo, no delírio infindo
da saudade que me arrasa,
uma só música ouvindo:
os teus passos pela casa!
44
Sob chuva ou sol que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
45
Tal qual pérola valiosa
que na ostra tem morada,
minha alma tão pretensiosa
mora no peito da amada.
46
Te enfeiticei, fui omisso,
quis um “caso” passageiro;
mas o Amor fez o feitiço
virar contra o feiticeiro!
47
Ter fé, amor, otimismo
e uma inabalável crença
nos faz saltar sobre o abismo
de qualquer indiferença!
48
Terrível palavra é o “não”
que corta, poda, cerceia...
Feliz quem, no coração,
traz o “sim” que a paz semeia!
49
Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
50
Tua pele o vento alisa,
sensual, com seu frescor.
Como eu invejo esta brisa
que te alisa, meu amor!...
51
Tu me prendes, me agrilhoas,
me escravizas sem sentir,
mas destas algemas boas
eu não pretendo fugir..
52
“Vitamina está na casca!”
- De um comilão eu ouvi...
E quase que ele se enrasca
ao comer abacaxi!
53
Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Alves (1939)
    O professor e trovador RENATO ALVES é uma das figuras mais respeitadas e influentes do movimento trovadoresco contemporâneo no Brasil, reconhecido por sua erudição técnica e sensibilidade lírica. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1939. Filho de Alberto Alves e da portuguesa Maria Thereza Alves. Desenvolveu toda a sua vida e trajetória intelectual radicado na própria capital fluminense. Renato Alves graduou-se como Licenciado em Letras pela Universidade do Brasil (a atual UFRJ). Dedicou grande parte de sua vida ao magistério, atuando como professor de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e privada de ensino do Rio de Janeiro. Ele permaneceu ativo nas salas de aula até sua aposentadoria, ocorrida em 2005.
Sua inserção no meio literário confunde-se com a história da própria Trova no Brasil. Destacou-se como um profundo estudioso da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas) e das estruturas de rima e ritmo da trova tradicional. Teve papel de liderança na diretoria da UBT - Seção Rio de Janeiro. Tornou-se também o editor do Informativo desta seção. Possui forte colaboração com certames e academias literárias fluminenses e nacionais (como a Academia Fluminense de Letras e a Academia Brasileira da Trova). É detentor de inúmeras premiações de relevância, incluindo medalhas de Ouro nos concursos de trovas da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), classificações de destaque nos Jogos Florais e primeiros lugares em disputas como o Concurso de Poesia da Bauernfest.
Sua produção poética está espalhada em dezenas de antologias oficiais da trova, almanaques trovadorescos e publicações coletivas. É muito reconhecido por sua faceta didática, sendo o autor de colunas críticas importantes como a "Comentando Trovas" e o "Manual de Orientação para Julgadores”. 
A relevância de Renato Alves para a literatura brasileira reside em sua atuação como guardião e pedagogo da Trova. Ele não se limitou a escrever poemas; ele dedicou-se a ensinar os critérios técnicos para que uma trova atinja o chamado "achado poético" (a imagem original condensada em 28 sílabas). Como uma das principais "cabeças pensantes" do movimento trovadoresco fluminense, ele moldou as diretrizes modernas de julgamento de concursos literários, ajudando a manter viva uma das manifestações mais tradicionais e populares da poesia em língua portuguesa.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)

Adélia Prado (Rodando)

Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato!

Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro.

Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia.

Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia.

Concluiu sonolenta, o mundo está certo.

Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições.

Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta.

Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada.

Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Adélia Prado (1935)
ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia De Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

 Fonte:
Adélia Prado. Filandras. RJ: Record, 2001
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)

José Feldman (Despindo os Farrapos da Guerra)

Texto construído tendo por base a trova de Edmar Japiassú Maia (Rio de
Janeiro/RJ)
De tudo o sonho é capaz...
E, ante o Bem que o amor encerra, 
quem veste o manto da paz, 
despe os farrapos da guerra!

De todas as forças que movem as engrenagens invisíveis do mundo, nenhuma possui a plasticidade do sonho. Ele não é uma fuga da realidade, mas a sua matéria-prima. Como bem anuncia a sabedoria da trova, de tudo o sonho é capaz. Ele é o construtor do invisível. Tudo o que hoje tocamos — as cidades de concreto, as leis que nos protegem, os livros que nos consolam — foi, em algum momento da história, apenas um rastro de fumaça na imaginação de um sonhador. O sonho é a teimosia humana contra a rigidez do agora.

Mas o poder do sonho não é neutro; ele exige uma escolha de vestimenta. A vida comum, desatenta e automatizada pelos conflitos cotidianos, costuma nos vestir com os farrapos da guerra. Andamos pelo mundo armados. Usamos o cinismo como escudo, a indiferença como armadura e a agressividade como espada. Essa roupa bélica nos protege do toque, mas nos isola do encontro. O farrapo da guerra é pesado, cheira a pólvora fria e a ressentimento acumulado. É o uniforme daqueles que acreditam que viver é apenas sobreviver ao ataque alheio.

A grande virada filosófica da existência ocorre quando o sonhador percebe o Bem que o amor encerra. Esse "Bem" não é um conceito abstrato de dicionário, nem um romantismo ingênuo. É uma força prática e cortante. O amor, do ponto de vista existencial, é o desarmamento unilateral do espírito. É a coragem de se apresentar ao mundo com o peito aberto, aceitando o risco da vulnerabilidade.

É nesse exato instante de lucidez que ocorre a troca de guarda da alma: quem veste o manto da paz, despe os farrapos da guerra.

Não é possível sobrepor essas duas vestes. Não se pode vestir a paz por cima da armadura da guerra; o tecido delicado se rasgaria nas pontas afiadas do metal. Para que o manto da paz toque a pele, é preciso ter a coragem de despir-se. É preciso deixar cair no chão os velhos hábitos da discórdia, o orgulho de ter sempre razão, a necessidade de revide e as pequenas violências com que alimentamos o nosso ego diariamente.

Despir os farrapos da guerra é um ato de desapego doloroso. Muitas vezes, nós nos apegamos às nossas feridas e aos nossos inimigos porque eles nos dão um senso de identidade e de propósito. A guerra nos mantém ocupados. A paz, por outro lado, exige o silêncio, a responsabilidade e o peso do próprio arbítrio. O manto da paz é leve, mas carrega a densidade dos homens livres.

Viver sob o manto da paz não significa habitar um mundo sem conflitos, mas escolher não ser o solo onde a guerra germina. É compreender que a paz é uma construção ativa, um sonho transformado em vestimenta diária. O verdadeiro sonhador é aquele que olha para o campo de batalha da vida cotidiana e, pelo simples ato de depor suas próprias armas內, força o mundo ao seu redor a repensar o sentido do combate.

Asas da Poesia * 219 *

 

Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP
AMOR À ROÇA

Idoso, já comendo de alpisteiro,
Sem condição alguma de voltar
À minha antiga faina de vaqueiro,
Eu passo o dia todo a meditar...

Mas não lamento estar o tempo inteiro
Deitado, sem poder me levantar,
Pois aproveito bem ainda o cheiro
Gostoso do curral que vem no ar...

Vem-me à lembrança o verde da campina
Bastante esbranquiçada de nelore,
Mal dissipava o sol toda a neblina...

E vou compondo versos, quanto possa...
Não quero que a saudade me estupore,
Com tanto amor que tenho pela roça!
= = = = = = = = = = = = = =  

Cidinha Frigeri
Londrina/PR

Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
= = = = = = = = = = = = = =  

Antonio Manoel Abreu Sardenberg 
São Fidélis/RJ
RUMO DA VIDA

Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...

Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...

Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
= = = = = = = = = = = = = =  

Nemésio Prata
Fortaleza/CE

Perdido em pleno deserto,
procurei, com muito prumo,
encontrar o rumo certo;
achei..., e mudei de rumo!
= = = = = = = = = = = = = =  

José Antonio Jacob 
Juiz de Fora/MG
ALMINHA

Desperto, pois que o sol já está lá fora,
E ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.

Que corre alegre, rodopia e trança
Entre o florado que a manhã decora,
Depois, como uma folha, vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.

Não se descuide minha alminha boa
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina e o tempo voa!...

E, antes que o dia, ao alto, se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve,
E acomoda-se, no meu colo, e dorme...
= = = = = = = = = = = = = =  

Miguel Malty
Brasília/DF

Clarão de cristais: 
Das brumas emerge a terra 
Na luz da alvorada. 
= = = = = = = = = = = = = =  

Cora Coralina
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás/GO, 1889 – 1985, Goiânia/GO
VELHO

Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
= = = = = = = = = = = = = =  

Ana Maria do Nascimento
Araçoiaba/CE

Ao surgir um trovador,
na minha estrada sem fim
o néctar de um pleno amor
pude descobrir em mim!
= = = = = = = = = = = = = =  

Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa... 
= = = = = = = = = = = = = =  

Esmeraldo Siqueira
Pedro Velho/RN

Crer no amor é crer na vida,
saber amar é viver.
Quem descrê do amor duvida
da própria razão de ser.
= = = = = = = = = = = = = =  

Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
SE UM DIA...

- Se um dia me disseres... se o disseres!
“Amo-te! Apesar dos teus defeitos!”
Serás a maior, mais falsa das mulheres,
dentre outras tantas. Sem quaisquer conceitos!
Dirás apenas que ... ”Por que me queres,
pois nenhuma de nós pensa em “direitos”?
Eis que somos apenas teus talheres,
das tuas refeições e teus confeitos!
Tenho o direito de dizer: Sou tua!
Enquanto vives tu, vives na rua,
e te queres achar seres meu dono!
Que mãe eu tive – se algum dia a tive?
Não a conheço e se tampouco vive.
...A quem pertenço – enfim - neste abandono?
= = = = = = = = = = = = = =  

Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
CARIDADE

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.
= = = = = = = = = = = = = =  

Miguel Russowsky
Santa Maria/RS ,1923 – 2009, Joaçaba/SC
SOLIDÃO

Depois que o amor passou... fez-se o vazio
e o desespero armou a sua tenda,
num leito triste abandonado e frio,
que nem a própria insônia recomenda.

Ficaram três promessas em contenda,
semi murchas e tortas , num desvio.
As ilusões gentis, em minha agenda,
entraram em completo desvario.

Sobrou a solidão que está comigo.
Sou bom anfitrião e dei-lhe abrigo,
pois prefere pessoas com idade.

A solidão é muito inteligente,
vive plantando, a sós, uma semente,
que nasce sob a forma de saudade.
= = = = = = = = = = = = = =  

Fabrício Avelino
Barbacena/MG

linha
reta
rotas
tortas
letras
alteradas
= = = = = = = = = = = = = =  

Professor Garcia
Caicó/RN
SENTIMENTOS

Quando o dia se apressa e vai embora,
num silêncio que fere e que angustia,
a tristeza me invade e me devora,
nas horas sepulcrais, do fim do dia.

Como quem diz adeus e triste chora,
vai-se o sol delirando de agonia,
e a cortina da noite, Deus decora,
com luz tênue, de vã melancolia.

Distante, bem distante, muito além,
a tristeza me acena, como quem
se despede de alguém, que já morreu,

foi apenas a luz de um dia lindo,
que cansada, acenou quase dormindo
e nos braços da noite adormeceu!
= = = = = = = = = = = = = =  

Ari de Santos Campos
Balneário Camboriú/SC

Areias soltas no chão, 
rolam pra lá e pra cá... 
Eu sou apenas um grão 
que só vive a Deus dará.
= = = = = = = = = = = = = =  

Fernando Pessoa
Lisboa/ Portugal, 1888 - 1935
DORME

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
= = = = = = = = = = = = = =  

Carlos Eduardo Novaes (Kni e Giv)

Desde que a nave espacial Viking amartissou (é isso mesmo?) Juvenal Ouriço e o Boca não descolam o ouvido do rádio. Parecem dois paraíbas de obra depois do expediente.  Juvenal aguarda com a maior ansiedade a notícia de que há vida em Marte. E afirma que quando a informação chegar vai dar uma festa. Causa-lhe uma profunda ansiedade a ideia de que ”nós, terráqueos, somos os únicos seres viventes em trânsito pela Via-Láctea”.

- Já imaginou a sensação de solidão universal? – diz arregalando os olhos. - Eu já não gosto de me sentir só nem em casa, que dirá no planeta?

Haverá vida em Marte? Tudo indica que sim, pois ao mesmo tempo que enviamos daqui a Viking, os marcianos mandavam de lá a nave Gnikiv, movidos pela mesma curiosidade: haverá vida na Terra? As duas naves, por sinal, se cruzaram ali pelo quilômetro 46 milhões 578 mil 300 da estrada do Sol. A Viking viaja por instrumentos. A Gnikiv, porém, traz dois cosmonautas a bordo: Kni e Giv. Quando Kni olhou pela escotilha e viu a nossa nave passando, berrou para o companheiro: ”Ei, Giv, olhe. Que é aquilo? Um disco voador?”

- Disco voador o quê, rapaz! Que mania a sua de pensar que todo objeto que se move no espaço é disco voador. Disco voador não existe.

- Pra mim existe. E lhe digo mais: é tripulado por seres da Terra.

- Duvido muito.

- Duvida por quê? Você não acha possível que exista uma civilização adiantada na Terra?

- Não sei nem se há vida na Terra.

- Claro que há. Pode não ser muito antiga, mas há. Alguns cientistas suspeitam de que a vida na Terra começou em 1945. Foi a partir dessa época que eles passaram a observar a formação de gigantescos cogumelos luminosos.

- Deixa de bobagem. Aquilo eram explosões provocadas pelo choque de meteoritos com a superfície do planeta.

- Então esse negócio que passou por aí veio de onde?

- Sei lá. Olha aí no mapa. Qual é a outra estação depois da Terra?

- Vênus.

- Vênus não deve ser. Tem outra?

- Tem Mercúrio, uma estaçãozinha pequena.

- Também não creio que seja de lá. E depois? Vem o quê?

- Depois acaba. Mercúrio é o fim da linha.

Os dois ainda discutiam a procedência da Viking quando a Gnikiv trepidou um pouco, perdeu altura e surgiu sobre o céu do Rio de Janeiro. Kni observou lá de cima e comentou com Giv: ”Creio que nos distraímos e saímos da rota”.

- É mesmo? Por que você diz isso?

- Está cheio de crateras lá em baixo. Acho que estamos sobrevoando a Lua.

Os dois tornaram a consultar os mapas, refizeram os cálculos e constataram surpresos que estavam realmente sobre a Terra. ”Engraçado” - disse Kni - ”os nossos mapas estão todos errados, eu nunca soube que havia tanta cratera na Terra”.

- Quem sabe não são erupções vulcânicas que ocorreram após nossa saída de Marte?

- Não creio. Não daria tempo. É muita erupção pra pouca viagem.  Você se esquece de que viemos praticamente ali da esquina. Foram apenas 384 milhões de quilômetros.

O módulo da Viking amartissou, auxiliado por três foguetes e um para-quedas em 3h20min. A Gnikiv demorou menos. Pouco mais de meia hora. Bem verdade que já nos movimentos finais a nave foi auxiliada em terra por dois crioulos que orientavam as manobras: ”Dá ré, agora vira tudo pra direita, isso, chega um pouquinho à frente, tá bom aí”. Os marcianos saltaram e um dos crioulos logo perguntou:

 ”Posso tomar conta?”

A nave desceu num local ermo, próximo à Favela da Rocinha. Ao botar os pés na Terra, Giv farejou o ar, respirou  fundo e observou: ”Estou sentindo um cheirinho de nitrogênio”.

- Eu também - disse Kni puxando ar - mas pra mim está misturado com oxigênio. E se você respirar na direção do vento ainda vai sentir um leve aroma de argônio. Sentiu?

- Senti. Acho que com essa composição é muito difícil haver vida na Terra.

A atmosfera em Marte é quase toda composta de anidrido carbônico. Sua temperatura é mais baixa que a nossa. Os marcianos estranharam o calor. Um crioulo ao lado sorriu e disse: ”Os senhores não são os primeiros, tudo quanto é gringo reclama do nosso calor”.

Kni virou-se para o crioulo e foi direto ao assunto: ”Será que você pode nos informar se existe vida na Terra?” O crioulo pensou alguns segundos, encavalou o lábio inferior no superior e balançou a cabeça negativamente: ”Não sei não senhor”.

- Ele não sabe de nada - aparteou o outro crioulo - é completamente analfabeto.

- E você sabe? Sabe se existe vida na Terra?

- Eu? - perguntou o outro crioulo que era meio folgado. - Eu acho que não tem não, mas não posso dar certeza.

Explicou que estava começando o Mobral agora, mas ”se os senhores quiserem a gente pode perguntar ao meu irmão que tem algum estudo”. Os três iniciaram então uma caminhada pelo atalho (o outro crioulo ficou tomando conta da nave) até o barraco. Enquanto andavam, Kni e Giv assediavam o crioulo com perguntas: ”Você sabe se há mais alguma coisa no ar, aqui, além de nitrogênio, oxigênio e argônio?”

- Não sei dizer, não senhor. Dizem que há muita poluição mas eu mesmo nunca vi.

- E de que é a camada que cobre a superfície da Terra?

- De que é? De asfalto.

- Isso que nós estamos pisando é asfalto?

- Não senhor. Aqui é terra.

- Que é a Terra eu sei. Vocês são quantos aqui?   .

- Na Rocinha?

- Não. Na Terra.

- Toda? - perguntou o crioulo fazendo uma bola com os braços. - Não sei não senhor, mas deve ser mais de 2 milhões.

Os três chegaram ao barraco. O crioulo apresentou aquelas figuras (cada um imagina o seu marciano como quiser) ao irmão explicando antes que ”estes senhores acabaram  de chegar de . . de onde mesmo? Nevoer quê?”

- Não. Nós viemos de Marte.

- Pois é - prosseguiu o crioulo na maior tranquilidade, provavelmente  imaginando que Marte ficasse ali depois de Nova  Iguaçu - esses senhores chegaram de Marte e estão querendo saber se existe vida na Terra. Eu não soube responder. Você sabe?

- Bem - disse o irmão do crioulo meio indeciso – eu acho que existe.

- De que forma? - perguntou Kni. - São moléculas?

- Isso eu não sei.

- Claro que são - intrometeu-se o crioulo folgado.

- Eu me lembro de quando era garoto as pessoas chegavam pra mim e diziam: ”Não faça isso, seu molécula”.

Kni e Giv se entreolharam e cheios de dúvidas pediram maiores explicações ao irmão do crioulo. Os quatro sentaram-se  em volta de uma mesa (uma mesa de dois pés). O irmão do crioulo, então, foi desfiando toda a sua existência, desde o dia em que nasceu naquele mesmo barraco.

Ao terminar, Kni, incrédulo, perguntou-lhe: ”Isso que você acabou de contar: é essa a vida que existe na Terra?” O irmão do crioulo disse que sim.

- Não. Não é possível - disse Kni. - Você está brincando. Isso não é vida.

Os dois saíram. Voltaram à nave e de lá informaram a Marte que não havia vida na Terra.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Carlos Eduardo Novaes (1940)
O escritor, jornalista e dramaturgo Carlos Eduardo Novaes é amplamente reconhecido como um dos maiores cronistas contemporâneos do Brasil. Ele se destacou por usar o humor refinado, a ironia e a sátira política para retratar e criticar o cotidiano caótico das grandes metrópoles e a sociedade brasileira. CARLOS EDUARDO DE AGOSTINI NOVAES nasceu em 1940, no Rio de Janeiro/RJ.
Embora seja carioca nato, mudou-se em 1958 para Salvador/BA, onde viveu por dez anos. Em 1969, retornou em definitivo para o Rio de Janeiro, onde fixou residência e desenvolveu a maior parte de sua carreira profissional. Durante sua estadia em Salvador, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1965. Antes de viver da escrita, exerceu atividades variadas, trabalhando como agente rodoviário, proprietário de uma empresa de dedetização e sócio de uma fábrica de sorvetes. Atuou intensamente no jornalismo, iniciando sua carreira no jornal carioca Última Hora. Teve uma consagrada passagem de 17 anos pelo tradicional Jornal do Brasil (JB), onde começou cobrindo prognósticos bem-humorados da Loteria Esportiva e tornou-se um dos cronistas principais da casa. Na gestão pública, ocupou o cargo de Secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro (1991). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT).
Sua entrada na literatura deu-se de forma orgânica por meio de suas crônicas diárias na imprensa escrita nas décadas de 1970 e 1980. Ao dividir espaço com nomes consagrados do Caderno B do Jornal do Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, firmou sua identidade autoral focada no humor urbano. Não pertence à Academia Brasileira de Letras (ABL) e seguiu sua trajetória focada no mercado editorial e nas produções teatrais e televisivas. Embora não possua uma galeria de grandes prêmios acadêmicos tradicionais, o autor alcançou o que muitos consideram o maior prêmio literário: o sucesso massivo de público, figurando frequentemente nas listas de bestsellers nacionais nas décadas de 1970, 1980 e 1990, além de ter textos adotados em exames de vestibulares e até em aulas de português no exterior (como na Universidade de Línguas de Pequim).
Com mais de 40 livros publicados, transitou pelo conto, crônica, romance e literatura infantojuvenil. Seus títulos de maior destaque são: O Caos Nosso de Cada Dia (1974) – Seu livro de estreia, que reuniu crônicas de sucesso; A Próxima Novela (1977) – Sátira ao vício dos brasileiros por telenovelas; O Menino sem Imaginação (1991) – Um de seus maiores sucessos infanto-juvenis, criticando o impacto excessivo da televisão na mente das crianças; Capitalismo para Principiantes (1995) – Livro didático e bem-humorado; Crônicas, taokey?: Retratos 3x4 do Governo do Capitão (2021) – Um de seus lançamentos recentes focados na sátira política moderna.
A relevância de Carlos Eduardo Novaes está em seu papel como renovador e popularizador da crônica jornalística e urbana no Brasil. Herdeiro do estilo humorístico de Stanislaw Ponte Preta e Luis Fernando Verissimo, ele conseguiu traduzir as crises econômicas, a burocracia, a transição política e os absurdos cotidianos do Brasil da Ditadura à redemocratização sob uma ótica extremamente cômica, acessível e inteligente. Ele estendeu pontes importantes entre a literatura e o público jovem com suas obras para escolas, mostrando que a leitura crítica do país pode andar de mãos dadas com o riso.

Fonte:
Carlos Eduardo Novaes. O Quiabo Comunista. RJ: Nórdica, 1977.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)