quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Vânia Ennes (Semeando trovas)

 

1
Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal... curativo...
é a humildade e o perdão!
2
A Curitiba hibernosa.
aumenta a temperatura.
Se aquece com verso e prosa
a Capital da Cultura!
3
Água límpida é preciosa
para o planeta, vital;
pura, líquida ou gasosa,
tesouro fundamental.
4
Afinal, eis a questão:
achei um rico alimento…
Somos gêmeos na emoção:
teu amor é o meu sustento.
5
Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.
6
Apesar da longa ausência,
sinto a sua vibração…
que marcou minha existência
e tatuou meu coração!
7
As melhores gargalhadas
chegam sempre de repente
em cenas abobalhadas
e tomam conta da gente!!!
8
As odes altissonantes,
vêm louvar o pinheiral
do Paraná verdejante
na minha terra natal.
9
Brasil, samba e carnaval
e os foliões tomam conta,
da festa descomunal,
quando a “escola”, enfim, desponta!!!
10
Carnaval e o “bicho pega”!
Batuque e samba no pé,
e a galera não se entrega,
sapateia e dá olé…!!!
11
Causador da minha insônia,
motivo do meu sorriso,
sem nenhuma cerimônia...
me transporta ao paraíso!
12
Com alma verde e amarela
o meu coração febril,
com muito orgulho revela,
o Trovador do Brasil.
13
Depois de uma noite calma,
numa manhã de verão,
no céu anjos esperavam
recebê-la em oração!
14
Descontraia sua testa,
sorrir é grande investida!
Quem transforma a vida em festa
vence tensão reprimida!
15
Desenvolvendo a pesquisa
para o ensino do saber
o professor realiza
evolução no aprender.
16
Desfilou lá na Avenida
Marquês de Sapucaí,
bebeu tanto, sem medida,
que acordou na UTI !!
17
Destemido e dedicado,
companhia cativante.
Com meu pai sempre ao meu lado,
sou forte como um gigante!
18
Dissipando a incerteza,
ânsia e conhecimento
o livro, vasta riqueza:
esclarece cem por cento!
19
Dormi… e sonhei contigo
na praia, com lua cheia!
Foi delírio, hoje prossigo
te procurando na areia!
20
Dos meus tempos de experiência,
na vida, trânsito e estrada,
deixo aqui uma advertência:
respeito… não custa nada!
21
Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!
22
Em tédio avassalador
daqueles que não têm cura,
num minuto o Trovador
transforma tudo em ventura!
23
Encantada olho os pinheiros,
formosos! Iguais? Não há.
Dos poetas são os parceiros
Que versam o Paraná!
24
Equilíbrio, um dom da vida,
dos sábios, grande virtude
junto a afeição consolida,
seu poder de plenitude.
25
Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz...
exatamente... ao teu lado!!!
26
Fazer da vida uma festa
é atitude que fascina.
Vamos rir! A hora é esta!
O bom humor contamina.
27
Fim de tarde, sol já posto…
Chega a noite enluarada,
satisfazendo o meu gosto,
consagrando a madrugada!
28
Força e coragem, criança,
a vida sorri lá fora…!
O estudo será a poupança
e há de chegar sem demora!
29
Hoje órfã de seu afeto,
carente de seu carinho,
queria você por perto...
a iluminar meu caminho!
30
Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!
31
Mesmo impaciente ou cansado
não descuide do volante
que a vida, este bem sagrado,
pode acabar... num instante!
32
Meu jogo, audaz e exigente,
encara a carta que der,
mas com você, frente a frente…
jogo charme de mulher!
33
Minha mãe com maestria,
vibrou forte de emoção,
quando em tarde de magia
fez pulsar meu coração!
34
Navegam os trovadores
em e-mails de ilusões,
computando riso e dores,
conectando as emoções!!!
35
Numa transfusão de afeto,
basta só abrir os braços
e o coração indiscreto,
se entrega sem embaraços!
36
Nunca morre o trovador,
se afasta fisicamente…
Sobrevive trova e autor,
no dia-a-dia da gente.
37
O coração destemido
transcende qualquer razão,
quando decide, incontido,
confessar a rendição!
38
O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
39
O que sei da faculdade,
das viagens e coisas mais
não representa a metade
do que aprendi com meus pais.
40
Pelos sonhos que dá,
Trova já virou mania...
e... infestou o Paraná...
... Numa “culta” epidemia!!!
41
Posso ver do meu terraço
na escuridão do infinito,
quando a lua abre espaço...
E dá seu show favorito!
42
Quando sopra o vento sul,
a trova viaja e vai fundo.
Seu caminho é o céu azul…
Espalha-se pelo mundo!
43
Quem se concentra no estudo
vence o mundo, sem esquema.
Leva consigo um escudo:
- Enfrentar qualquer problema.
44
Que o natal traga a engrenagem
da paz… do amor… da magia,
unindo o sonho à linguagem,
ao mundo azul da poesia…!
45
Que o Trovador lá de cima,
nosso vate preferido,
mostre o bem, o amor, a rima
e o seu rastro a ser seguido!
46
Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!
47
Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!
48
Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,.
vai ao céu... volta zoado:
Vive no mundo da lua!
49
Saudade vive e contesta,
me acorda de madrugada,
faz lembrar-me o fim da festa…
o beijo… e a noite estrelada!
50
Se falta a luz ou calor,
para isso tem saída...
Só a falta do teu amor
me apaga e congela a vida!
51
Sem escolha, oficialmente,
chegou lá, na luz de Deus.
Foi em paz… Solenemente…
Reencontrar com os seus!
52
Seu forte olhar, penetrante...
me acelera o coração.
O seu perfil estonteante
ofusca a minha visão.
53
Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria:
-É propício pra sonhar,
mas, sem você... que ironia!!!
54
Sou mulher, luto, decido,
sei de cor muitos poemas,
mas com seu beijo atrevido
esqueço até dos problemas!
55
Surge atrevida a saudade,
sem alarme e sem aviso,
ataca qualquer idade...
Se acaba com teu sorriso!
56
Tão doce e bem-humorado,
meu Pai, por suas virtudes,
deixou-me grande legado
nas palavras e atitudes.
57
Tendo um bom livro na mão,
alço voo... crio asa.
Mando embora a solidão...
Sem sair da minha casa…
58
Trovador por excelência,
tem nas veias o otimismo:
faz as trovas com sapiência,
e dá lições de altruísmo!
59
Vai ano velho, de vez,
leve o mal e o duvidoso,
que o Ano Novo em rapidez,
há de ser mais generoso!
60
Vence valores, de fato,
quando em meio à discussão,
se revolta de imediato,
mas, na ofensa… dá o perdão!!!
61
Vou dormir porque preciso
com você, mamãe, sonhar,
e sonolenta analiso:
não vou querer acordar!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Vânia Ennes 
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES é uma das figuras contemporâneas mais ativas do movimento trovadoresco e do cenário cultural do Paraná. Vinda de uma tradicional linhagem de intelectuais e poetas curitibanos, ela se destaca tanto na administração cultural quanto na criação poética. Nasceu em Curitiba/PR. Tem forte ligação histórica e afetiva com o ambiente cultural da capital paranaense (especialmente o histórico "Chalé da Marechal", residência de seus avós intelectuais). Possui uma sólida carreira na área administrativa e empresarial. Graduou-se em Administração de Empresas (com habilitação em Comércio Exterior) e também em Direito. Fez pós-graduação em Língua Francesa na França. Atuou fortemente no meio corporativo e foi diretora da empresa Capríssima Indústria e Comércio de Cosméticos Ltda. Exerceu papéis de liderança civil, como coordenadora na Business Professional Women (BPW), conselheira municipal da Condição Feminina e vice-presidente da Sociedade Eunice Weaver do Paraná.
Filha da poetisa Ariane Maria França de Souza e neta do ilustre intelectual Heitor Stockler de França (um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná) —, ela começou muito cedo. Publicou seu primeiro poema em jornal aos 9 anos. Sua trajetória institucional inclui: Teve papel de liderança máxima regional, atuando como presidente da UBT - Seção Curitiba por três gestões consecutivas e também como presidente da UBT no âmbito estadual do Paraná; Membro atuante do Centro de Letras do Paraná.
Prêmio Pablo Neruda dos Direitos Humanos; Medalha de Mérito Fernando Amaro (concedida pela Câmara Municipal de Curitiba por relevância cultural); Vencedora do Concurso Internacional de Trovas Brasil-Portugal (promovido pelo Elos Clube Internacional); Top Comercial (Associação Comercial do Paraná) por sua atuação corporativa; Diversos diplomas e premiações em concursos nacionais e locais de Trovas. Livros Publicados: Paraná em Trovas – Coletânea/antologia de trovas paranaenses organizada em três edições; Chuva de Trovas – Obra poética própria disponibilizada em formato de e-book; Livros de pesquisa genealógica (publicou quatro volumes dedicados à história de famílias tradicionais).
A importância de Vânia Ennes para a literatura se concentra em duas frentes: preservação histórica e revitalização do movimento trovadoresco. Como herdeira cultural de Heitor Stockler de França, ela atua como uma guardiã da memória literária do Paraná. No campo da trova, sua dedicação garantiu a continuidade dos tradicionais Jogos Florais, abrindo espaço para novos trovadores e organizando antologias cruciais, como o Paraná em Trovas, que mapeiam e registram a produção poética contemporânea da Região Sul. 

Sites consultados = Centro de Letras do Paraná (facebook), Colaboração da Trovadora, Portal Cá Estamos Nós, Gazeta do Povo, Oceano de Letras, etc.

Eduardo Martínez (Almeidinha e o senegalês)

Não sei se você sabe, mas o meu grande amigo Almeidinha já passou um tempo em Londres, onde fazia parte da tripulação de um barco de turismo no famoso rio Tâmisa. Ele ajudava na cozinha e servia os clientes à bordo. Corria para cá, corria para lá, atendia a todos os pedidos com até certa gentiliza, levando-se em conta o seu temperamento nem sempre tão polido. Mas como estava na Inglaterra, isso poderia até passar despercebido, pois todos poderiam supor que aquele era o jeito da população local.

 Mas eis que um dia o Almeidinha, praticamente um inglês na pontualidade, chegou atrasado. O encarregado disse para ele e outro funcionário, um enorme senegalês que também havia chegado mais tarde, lavarem a louça da viagem anterior. O meu amigo, que não é de muita conversa, foi logo pegando uma esponja e o sabão e, em seguida, começou a cumprir a tarefa recebida. Já o seu companheiro de labuta se sentou na bancada logo atrás e começou a descascar uma banana calmamente. O Almeidinha olhou aquilo com certa raiva, mesmo porque os dois não se bicavam há tempos.

Quase dez minutos se passaram, e lá estava o meu amigo esfregando uma enorme panela cheia de restos de comida. Ele deu uma olhada para trás e viu o senegalês comendo outra fruta, desta vez uma maçã. O Almeidinha, ainda com a panela e a esponja nas mãos, perguntou: "Ei, se você for ficar aí me olhando trabalhar, melhor ir lá pra fora". 

Nisso, o senegalês, que tinha quase dois metros de altura e um corpo digno de um fisiculturista, respondeu: "Estou na minha hora de folga". Pra quê? 

O Almeidinha, que é até atarracado, mas não é maior que eu, que não sou alto, jogou a enorme panela na direção do senegalês. Este ainda conseguiu se desviar, mas uma comédia pastelão se instalou em plena cozinha, pois o Almeidinha, na ânsia de pular no pescoço do colega de trabalho, escorregou e caiu sentado no chão. E, antes que uma tragédia maior acontecesse naquele ambiente cheio de facas, eis que o encarregado apareceu e pôs fim àquela contenda. 

O chefe perguntou que bagunça era aquela, e o meu amigo explicou o ocorrido, já se pondo à disposição para ser despedido. Todavia, para surpresa do Almeidinha, o senegalês é que foi mandado embora. Tudo parecia resolvido, até que o enorme africano olhou para o meu amigo e, com o indicador de uma das mãos, passou no próprio pescoço e disse: "Eu vou te matar!" Logicamente, o Almeidinha tremeu todo de medo, pois percebeu que o seu temperamento de pinscher miniatura havia arrumado confusão justamente com o pitbull do local. Aliás, um pitbull com o tamanho de um fila. 

Seja como for, o senegalês, que havia sido despedido, foi embora mais cedo, o que foi até um alívio para o Almeidinha. No entanto, assim que chegou a sua hora de também ir para o lar, doce lar, o meu amigo percebeu que, do outro lado da linha do metrô que ele pegava, lá estava aquela montanha de músculos esperando por ele. 

O meu amigo, antes do senegalês dar a volta na estação do metrô, entrou em uma linha, que nem era a sua, simplesmente para não tomar uma surra daquelas. E, ao entrar no vagão, para a sua sorte, encontrou um local vazio. Infelizmente, logo percebeu, pela umidade do fundilho da calça, que precisava aprender a controlar seu temperamento impetuoso.
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Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez), radicado em Porto Alegre, consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. É autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). 
Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum. Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino. Fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 10 de abril de 2022.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “Quem vai ao inferno se acostuma com o diabo”

 
A expressão “QUEM VAI AO INFERNO SE ACOSTUMA COM O DIABO” não tem origem em um fato ou episódio determinado. Nem se pode atribuir uma data em que surgiu ou mesmo a sua autoria, pois é tipicamente um produto da tradição oral e da sabença popular. 

É evidente que a frase tem forte caráter metafórico, ligado ao imaginário cristão da época medieval, sobre as punições reservadas no submundo das trevas, para quem dá com os costados por lá e encontra a pavorosa figura do “Capiroto” imperando, pintando e bordando em seu reino de maldades.

É nesse contexto que referido ditado popular, ouvido desde épocas imemoriais, serve para demonstrar a capacidade do ser humano em se adaptar a situações altamente adversas e até com elas se conformar, com o escoar do tempo. 

Se bem observado, em nosso ciclo de conhecimento, relações de parentesco, coleguismo ou amizades, revela-se patético como certas pessoas acabam por normalizar situações ruins, aflitivas ou tóxicas, em nome de um convívio pacífico, porém altamente desgastante, quando o correto seria dar um “chega prá lá” naqueles que se deleitam em aporrinhar a vida alheia.

Imagine-se alguém, por falta de opção, ter de conviver com gente falsa, hostil e interesseira, que acende uma vela a Deus e outra ao diabo e de lá não se afasta, preferindo suportar resignado, esse tipo de suplício psicológico. 

A explicação mais plausível é que o ser humano, em tais hipóteses, acaba por se habituar com aquelas figuras nocivas e desagregadoras que contaminam os variados espaços de convívio social. Configura-se, no caso, a hipótese em que “o vício do cachimbo deixa a boca torta”, outra conhecida expressão popular, que também enseja abordagem específica neste espaço.

A tolerância excessiva no trato com situações deletérias tem um componente moral indissociável, podendo ser identificada em alguém que ao se saber em péssimas companhias não as evita, agindo com forçada naturalidade, mesmo tratando reiteradamente com quem nada de útil lhe acrescenta.

O certo é que o dito popular em foco partilha da mesma lógica de conformismo e resignação diante de um cenário ruim. Historicamente, expressões que utilizam as figuras do "inferno" e do "Tisnado" (como "comer o pão que o diabo amassou" ou "o diabo a quatro") ganharam muita força na Península Ibérica na Idade Média e no período colonial. A Igreja Católica medieval utilizava o medo do inferno para moldar comportamentos, como aliás, ainda até hoje acontece.

Com o tempo, o povo passou a usar esses elementos religiosos para criar máximas filosóficas no cotidiano. Na expressão em análise, a sabedoria popular sintetizou a imensa capacidade do ser humano de se adaptar, inclusive às piores circunstâncias e toscas situações que a vida reserva para cada qual.

A expressão também sintetiza a estética das músicas de Bezerra da Silva e de célebres compositores dos morros cariocas como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, que transformaram a realidade das favelas em poesias eternas da Música Popular Brasileira produção musical que foi o pilar que deu identidade e formato ao samba urbano moderno. Em suas letras, o "inferno" representa a favela negligenciada pelo Estado, e o "diabo" simboliza a convivência forçada com a violência e a criminalidade, sínteses do cotidiano de quem precisa se acostumar com aquela brutal adversidade para conseguir sobreviver.

Em 1976, Belchior deu sua contribuição ao tema com “Como o diabo gosta” e Raul Seixas, o inesquecível “Maluco Beleza” marcou presença em “Fazendo o que o diabo gosta”, onde ele fala de um amor transgressor, fora dos padrões tradicionais da igreja e do casamento convencional. Conjuntos famosos se autodenominaram com essa temática infernal, como os Demônios da Garoa, deixando claro que esse ditado resume a ideia de resignação ou adaptação a uma ou a várias situações indigestas.

Na festejada Escolinha do Professor Raimundo, dona Cândida (interpretada pela atriz Stella Freitas), se apresentava trajada à moda caipira e descrevia os maus-tratos, os horrores e os hematomas causados pela violência do marido. E quando lhe perguntavam o porquê de suportar aquele suplício na tumultuada relação conjugal, o motivo de tanta humilhação, ela respondia sorridente recitando com forte sotaque seu afamado bordão: - Mas eu gosto!!!

O quadro da “Escolinha” retratava a situação na qual o lar virou um inferno e o marido encarna o próprio “Satanás”, com o qual as mulheres, suas vítimas prediletas, supostamente blindadas pela Lei Maria da Penha, acabaram se acostumando e assim vão tocando a vida. Elas certamente fazem isso talvez por necessidade, mecanismo de sobrevivência ou absoluta falta de opção.

Mais grave é aquela parcela do povo brasileiro, grande parte integrante da massa popular que vive de prebendas, que não só se acostumou com as nocivas peripécias do “Coisa Ruim”, das quais são as eternas vítimas, como por ele desenvolveu estranhos sentimentos de empatia, admiração e lealdade, deturpação psicológica que até Freud teria hoje dificuldade de explicar... 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Texto e imagem enviados pelo autor. 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Orlando Woczikosky (Colheita de Trovas)

 

1
A cantar, a minha vida,
eu canto em qualquer cidade,
  mas minha terra querida,
 eu não canto sem saudade!
2 
  Agora sou nau sem rumo,
que zarpou da mocidade,
para encalhar, eu presumo,
no banco duma saudade.
3 
A mãe da gente é uma luz
 que brilha, brilha e rebrilha:
dá-nos vida e nos conduz
pela mais sagrada trilha.
4
Amor que não tem saudade,
é planta que não dá flor;
 amor que é amor de verdade,
   na saudade é mais amor.
5 
A mulher é diferente
no terreno da emoção:
- O homem diz sim e consente,
ela consente e diz não!
6 
   Às vezes, na multidão,
estou só sem ver ninguém,
  porque a maior solidão
 é estar longe do meu bem.
7
A vagar pela cidade
hoje, bem longe de ti,
vejo, através da saudade,
o tesouro que perdi.
  8   
    Beba água mineral
   e viva despreocupado,
  porque água só faz mal
 para quem morre afogado.
9
Cônscio de que nada valho,
 quando te beijo, formosa,
eu sou uma gota de orvalho
 que tremeluz numa rosa.
10 
  Convidei a minha sogra
  pra passear no Butantã:
  a velha mordeu a cobra,
   e a cobra ficou tantã!
11   
Curitiba, paraíso
que mil encantos encerra,
    linda Cidade-Sorriso:
  – Sorriso da minha terra!
12
  Dentro de certas pessoas
   há duas forças latentes:
 uma que as torna tão boas,
 outra que as vira serpentes.
13
    Desde que cedo me acordo,
até que à noite me deito,
com saudade te recordo,
meu único amor perfeito!
14   
   Em noites de lua cheia,
no tênue alvor que se espraia,
 minha alma foge e vagueia,
   perambulando na praia.
15
     É nobre quem não exalta
     vitória já conquistada,
    pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
16  
   É nos olhos que a pimenta
    quando toca nos magoa:
quem tem sogra não a aguenta,
quem não tem diz que ela é boa.
17
    Esta saudade é uma luz,
    na noite da minha vida,
    o guia que me conduz
    à tua imagem, querida.
18  
      Eu fui a tua metade
e foste a minha, porque,
agora, só na saudade
inteiro a gente se vê!
19 
    Eu não gosto de sorteio
porque a sorte é contra mim:
talvez porque eu seja feio,
de uma feiura sem fim.
20
Eu não troco uma jazida
de ouro puro e refinado,
por uma hora vivida
na saudade do passado.
21
     Eu nasci pobre na vida,
   no entanto sei quanto valho,
    pois conheço a dor sentida
  dos que tombam no trabalho.
22
     Felicidade é a esperança
que está sempre em nós presente,
    mas a gente não a alcança
    e ela não alcança a gente!
23
  Flavo sol que as flores pintas
com doce tonalidade,
empresta-me as tuas tintas,
quero pintar a saudade.
24
  Minha avó, que já está morta,
queria tudo perfeito:
até fazendo uma torta,
fazia torta direito.
25
    Não fosse a necessidade
   de tanto, tanto te amar,
sufocaria a saudade
nas profundezas do mar.
 26 
  Não me comove a riqueza,
e nem lhe adoro a conquista,
pois, em saudade e pobreza
também sou capitalista.
27
  Não te incomodes, querida
se o meu peito a dor invade,
 sois, são temperos da vida
 a dor, o amor e a saudade.
28
Não vim pra te dar um beijo,
  vim pra te dar muito mais,
   vim dizer que te desejo
  O melhor dos teus Natais!
29 
Nesta vida de percalços
   todo mundo tem defeitos,
  mas entre honestos e falsos
   todos se julgam perfeitos.
30
    No dia dos namorados
   fico triste, simplesmente,
por ver que há muitos coitados
 sem ter a quem dar presente.
31
  O amor é a coisa mais bela
   deste mundo encantador!
   E é você quem me revela
    toda a beleza do amor!
32
   O amor é igual à comida:
   demais, não se dá valor;
 quando falta em nossa vida,
    dá-se a vida pelo amor!
33  
 Oh! doce mundo da infância,
   todo em saudade tecido,
   a recordar-te a distância,
  eu choro por ter crescido.
34
   Para trovar, certamente,
  não bastam apenas rimas;
     trovador inteligente
 faz das trovas obras-primas.
35
  Pela guerra não há glória:
  - Perder, vencer, tanto faz!
    - A verdadeira vitória,
    só se alcança pela paz!
 36  
Por mais que hoje louve a vida
  dos que fazem bem por lei,
  trago n'alma a dor sentida,
   dos males que pratiquei.
37 
Pra me esquecer de você,
tenho rezado à vontade!
Mas não te esqueço, porque
a minha reza é saudade.
38
     Quando a trova justifica
       sobejamente a valia,
    - Rima pobre ou rima rica -
     sempre é grande poesia.
39
Quando em meus braços te aperto,
       todo o infinito sorri,
  porque a vida é um céu aberto
     quando estou perto de ti.
40
     Quando tu fores velhinha
e eu também, da mesma idade,
sentirás saudade minha,
sentirei de ti saudade.
41
  Quem diz que não tem saudade
     e se é verdade o que diz,
       não teve a felicidade
        de já ter sido feliz.
42
 Quem se afunda na bebida,
   para afogar sua mágoa,
  descobre, no fim da vida,
que a melhor bebida é água.
43
Que não valha a minha trova
 por nada do que ela exiba,
 senão por tudo o que prova
    do valor de Curitiba.
44  
   Revivendo, na saudade,
   a minha casa paterna,
choro! Mas tenho vontade
 que a saudade seja eterna.
45
 Saudade é a lembrança viva
 daquilo que já morreu;
é fogo que inda se ativa
das cinzas do escombro seu.
46
Saudade é coisa que nasce
à tona do pensamento,
e, por mais que o tempo passe,
paramos nesse momento.
47
    Saudade é lua que vaga
nas sombras do sol do amor;
  quanto mais o sol se apaga,
 mais a lua traz langor.
48
    Saudade é luz matutina
    no crepúsculo da gente.
  Sol que o passado ilumina
 quando escurece o presente.
49
  Se, à noite, chega o negror
e todo o meu ser invade,
clareia-se o meu amor,
dentro da luz da saudade.
50
   Se eu de você fico ausente
  e alguém os meus olhos vê,
lendo os meus olhos pressente,
     no fundo deles, você!
51
     Se partes, fica o desgosto
   da minha alma sem a tua,
   e eu pareço um rei deposto
     perambulando, na rua.
52
Sou feliz por te dizer,
   em palavra comovida,
que minha vida é um prazer
  se há prazer na tua vida.
  53
 Tudo que é bom, nesta vida,
    foge-nos celeremente,
 somente a dor mais sentida
    fica na vida da gente.
   54  
  Vermelho igual ao tomate,
   meu coração é um bife:
quanto mais alguém lhe bate,
    mais amolece o patife.
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Orlando Woczikosky (1927 – 2019)
ORLANDO KRUMANN WOCZIKOSKY, conhecido carinhosamente como o "Trovador da Saudade", foi um dos maiores expoentes da poesia rimada do Sul do país. Conquistou o título honorífico de "Príncipe dos Trovadores do Paraná" devido à sua imensa dedicação e maestria na arte da trova. Nasceu em 1927, em Curitiba/PR, e faleceu nesta mesma cidade aos 91 anos em 2019. Viveu e residiu durante toda a sua vida em Curitiba, mantendo uma ligação profunda com o bairro Xaxim e com as paisagens do estado. Cursou o Ginásio e o Técnico Industrial na Escola Técnica de Curitiba e graduou-se pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Lecionou Desenho no Senai de Curitiba por mais de 30 anos; Ensinou Desenho e Caligrafia na Escola Técnica de Comércio de Plácido e Silva; Foi professor de Desenho e Educação Artística no Colégio Parthenon; Atuou no Ministério do Trabalho ministrando Leitura e Interpretação de Desenho no Curso de Segurança do Trabalho.
A paixão pela poesia começou na infância por influência da avó materna, que lhe declamava quadras populares. Sua primeira poesia formal nasceu em 1948, inspirada pela vista do Pico do Marumbi na Serra do Mar. Foi um dos sete fundadores históricos da UBT - Seção Curitiba em 1966 e o último remanescente vivo desse grupo. Presidiu a seção nos biênios 1973–1974 e 1981–1982, tornando-se mais tarde Presidente de Honra da UBT Estadual do Paraná. Membro da Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná; Academia de Letras José de Alencar; Associação Profissional de Escritores do Paraná (APEP).
Recebeu uma vasta gama de condecorações ao longo de décadas de atuação, incluindo diplomas de honra, louvor e mérito cultural em concursos de trovas pelo Brasil. Teve uma produção sólida e focada na concisão da trova: Publicou 10 livros de trovas. 1 livro de poemas. Participou ativamente de dezenas de antologias literárias nacionais e regionais, além de jornais e revistas especializadas.
Orlando Woczikosky foi uma figura fundamental para a preservação e a difusão da trova no Brasil. Orlando dominava a estrutura da trova com uma sonoridade e fluidez ímpares, sendo frequentemente elogiado pela musicalidade de seus escritos. Sua relevância reside em ter consolidado a identidade da literatura paranaense por meio do lirismo e do bucolismo regional, traduzindo as paisagens do estado em poesia. Como guardião e um dos pilares da trova, ele ajudou a manter viva a tradição trovadoresca e serviu de ponte e inspiração para novas gerações de poetas do Sul do país.

Sites consultados = Gazeta do Povo, Bem Paraná, Oceano de Letras.

Monsenhor Orivaldo Robles (Eucaliptos e abobreiras)

Mesmo sem licença e contando com sua compreensão, tomo emprestada uma reflexão que Padre Marino van de Ven, de Miradouro (MG), fez em texto que mandou imprimir num calendário de 2004. Fiquei encantado com ensinamento tão simples e, ao mesmo tempo, tão rico de sabedoria. Diz ele que existem em nossas comunidades pessoas que são eucaliptos e pessoas que são abobreiras.

O eucalipto fica comprido, cresce bem alto, aparece demais. Mas não dá fruto nenhum. Gasta toda a seiva para sustentar a própria vaidade, para manter a pose. Seca todo o terreno ao seu redor. Para ele só existe ele mesmo. Ninguém pode crescer ao seu lado.

A abobreira, ao contrário, não tem o menor interesse de aparecer. Não se preocupa com defender a aparência de importante. Por isso toda a sua seiva vira fruto. A terra coberta por ela conserva a fecundidade. Ela a protege, conservando-lhe o frescor e garantindo sua capacidade de gerar vida. Devolve ao solo mais do que retira.

Impressionou-me a justeza da comparação. É difícil alguém pôr em tão poucas palavras tanta verdade e exatidão. Basta olhar em volta para confirmar.

Não é certo que há por aí muitos eucaliptos, gente que não dá sombra de jeito nenhum? Fruto, então, nem pensar. Vivem unicamente para si. Parecem crer que Deus criou o universo em função deles. Alguns até se mostram zelosos, trabalham, participam dos eventos da comunidade. Mas apenas quando podem fazer de si mesmos o centro de tudo. Não servem à comunidade, servem-se dela. Estão presentes enquanto são considerados como o polo para o qual convergem todas as atenções. Para brilhar como estrela única, sem concorrência, não precisa ninguém melhor. Tratou, porém, de se colocar a serviço, de se abrir à partilha com os irmãos, de ser um entre muitos, de trabalhar em equipe, aí..., pode esquecer.

Pessoas-eucalipto constituem um problema. Não admitem que ninguém se desenvolva ao seu lado. Nada produzem para a comunidade. Brilham, chamam a atenção, mas são completamente estéreis.

Bem outro é o comportamento das pessoas-abobreira. Não estão nem aí para o que pensam ou dizem a seu respeito. Têm o olhar e o coração voltados para o bem de todos. Só visam o crescimento da vida comum. Raramente se lembram de que existe a palavrinha “eu”. Quase nunca a empregam. Vivem em função de outra: a chamada “nós”. Entendem que o bem comum está acima do individual. São donas de um coração largo, onde não cabem mesquinhez nem egoísmo. Não guardam mágoas. Não cultivam ressentimentos. Passam por cima de decepções, de ofensas ou de ciúmes, sem perder o entusiasmo nem cair no desânimo. Não ameaçam, como crianças mimadas, abandonar tudo quando ouvem um “não” às suas pretensões e caprichos. Revelam a maturidade e a grandeza interior das grandes almas. De quem sabe que a vida vale pelo bem que conseguimos criar à nossa volta. Não pelos confetes que, desesperadamente, os tolos vivem buscando a todo custo.
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Monsenhor Orivaldo Robles (1941 – 2019)
Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Recanto das Letras do Autor. 10.01.2012
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.