segunda-feira, 24 de agosto de 2026

José Feldman (Instantes Mágicos)


O tempo é uma substância estranha. Temos relógios para medi-lo em partes iguais, mas o coração ignora os ponteiros. O instante que vivemos pode ser o que há de melhor. Alguns momentos são tão preciosos que desejamos que durem para sempre, toca exatamente nessa ferida aberta da nossa existência: a nossa eterna briga com a efemeridade.

Preparamos a vida inteira para os grandes palcos. Estudamos anos para uma carreira, planejamos meses para uma viagem, economizamos décadas para o futuro. Porém, quando olhamos para trás em um momento de silêncio, o que nos sustenta não são os grandes blocos de horas planejadas. São os fragmentos. O instante exato em que o sol bateu no rosto de quem amamos e rimos de uma bobagem qualquer. O segundo de silêncio compartilhado antes de um abraço de despedida. O estalar de dedos em que a solidão deu trégua e nos sentimos parte do universo.

Há uma contradição bonita e dolorosa na busca humana pelo "para sempre". Queremos eternizar o que é bom porque a beleza nos assusta com a sua brevidade. Se o instante precioso durasse para sempre, ele deixaria de ser instante. Viraria rotina. Perderia o brilho exato que só a urgência do fim consegue dar. A eternidade de um momento não está na sua duração cronológica, mas na profundidade da marca que ele deixa na alma. Um segundo de felicidade plena é mais vasto do que um ano inteiro de dias cinzentos e automáticos.

O perigo da nossa era moderna é que estamos esquecendo como habitar o instante. Estamos sempre um passo à frente, antecipando o próximo compromisso, ou um passo atrás, remoendo o que já passou. Quando o instante precioso acontece, muitas vezes tentamos sacá-lo do fluxo do tempo com a câmera de um celular, tentando congelar o que só deveria ser sentido. Ao tentar registrar o momento para guardá-lo no futuro, esquecemos de estar presentes nele agora.

Alguns instantes mereciam o infinito. Como não podemos parar o relógio, nos resta a dignidade de viver esses momentos com entrega absoluta. Se não podemos fazer o tempo parar, que saibamos pelo menos expandir o agora, mergulhando de cabeça em cada segundo precioso. Afinal, a eternidade não é o tempo que nunca acaba; é o instante que nunca esquecemos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

domingo, 23 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 35 *

 

Sob a luz do sol nascente
segue o velho, estrada afora...
– É uma gota de poente
vagando dentro da aurora...
Adalberto Dutra de Rezende
Cataguazes/MG, 1913 – 1999, Bandeirantes/PR

= = = = = = = = = = =

Nossa alma é uma criança,
que nunca sabe o que faz.
Quer tudo que não alcança;
quando alcança, não quer mais...
Adelmar Tavares
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

= = = = = = = = = = =

A mais triste solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração...
olhar e não ver ninguém!
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

= = = = = = = = = = =

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem!
Só pelo bem – que há na vida,
de se poder querer bem.
Anis Murad
Rio de Janeiro/RJ, 1904 - 1962

= = = = = = = = = = =

Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando à flor!
Bastos Tigre
Recife/PE, 1882-1957, Rio de Janeiro/RJ

= = = = = = = = = = =

Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer;
mas, zangado, morde e arranha:
— É gato? — Não... é mulher!
Carolina Ramos
Santos/SP

= = = = = = = = = = =

Sou mais alta que esse morro,
mais vasta que aquele mar.
Há muito que me percorro
sem me poder encontrar.
Cecília Meireles
Rio de Janeiro RJ, 1901-1964

= = = = = = = = = = =

Hoje eu sei que foi loucura...
Mas, ao louco, que fui eu,
devo o pouco de ternura
que o bom senso não me deu.
Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP

= = = = = = = = = = =

Dando pra um beco o banheiro
da inquilina, uma "parada",
O Zezé ganha dinheiro
cobrando aluguel de escada...
Darli O. Barros
São Paulo/SP

= = = = = = = = = = =

Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho
Juiz de Fora/MG

= = = = = = = = = = =

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...
Durval Mendonça
Rio de Janeiro, 1906 – 2001

= = = = = = = = = = =

Pelos caminhos que sigo,
a dor não me pesa tanto,
quando encontro um lenço amigo
para enxugar o meu pranto...
Edmar Japiassú Maia
Nova Friburgo/RJ

= = = = = = = = = = =

Quem da astúcia é mais capaz?
Num concurso singular
vence a mulher; Satanás
fica em segundo lugar!
Élbea Priscila Sousa e Silva
Caçapava/SP

= = = = = = = = = = =

Um apito na estação...
Um lenço acena tristonho...
O aperto no coração
e a saudade em vez do sonho!
Fernando Câncio de Araújo
Fortaleza/CE, 1922 – 2013

= = = = = = = = = = =

Tudo muda, tudo passa,
neste mundo de ilusão:
vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.
Guilherme de Almeida
Campinas/SP, 1890 – 1969, São Paulo/SP

= = = = = = = = = = =

Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade...
O trem ficando pequeno
e, em mim, crescendo a saudade...
Hermoclydes Siqueira Franco
Niterói/RJ, 1929 – 2012, Rio de Janeiro/RJ

= = = = = = = = = = =

Saudades, sempre saudades
Dos anos que já vivemos.
Cultuando as amizades
Que tivemos e as que temos.
Hildemar Cardoso Moreira
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

= = = = = = = = = = =

Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim.
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

= = = = = = = = = = =

Oxalá flores nascentes
em vergéis adormecidos
despertem as novas mentes
aos caminhos coloridos.
João Batista Xavier Oliveira
Bauru/SP

= = = = = = = = = = =

Para voltar, não me peças…
Seria uma insensatez
eu crer nas tuas promessas
e arrepender-me outra vez.
José Tavares de Lima
Juiz de Fora/MG

= = = = = = = = = = =

Rosas vermelhas, paixão…
Com perfume embriagador,
despertam meu coração
para os acordes do amor!…
Lucília Alzira Trindade Decarli
Bandeirantes/PR

= = = = = = = = = = =

Era Natal - eu me lembro!
nosso pinheiro enfeitado...
Hoje a saudade em dezembro,
põe enfeites... no passado!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR

= = = = = = = = = = =

Embora o dia me açoite
com seus barulhos brutais,
lá no silêncio da noite
a solidão bate mais!...
Maria Madalena Ferreira
Magé/RJ

= = = = = = = = = = =

A coroa do Tancredo
dando a idade é tão avara,
que nem vê que faz segredo
de um troço que está na cara!
Maria Nascimento Santos Carvalho
Rio de Janeiro/RJ

= = = = = = = = = = =

A mulher do meu vizinho,
que em amores não se aperta,
mesmo errando no caminho,
chega em casa na hora certa.
P. de Petrus
São Paulo/SP, 1920-1999

= = = = = = = = = = =

Por mais que eu seja fraterno
socorrendo o pobre irmão,
pior que o frio do inverno,
é o frio do coração.
Romilton Faria
Juiz de Fora/MG

= = = = = = = = = = =

Chove... E no espaço suspenso,
vertendo luz, sem alarde,
o Sol é um doirado lenço
que enxuga o pranto da tarde!...
Sérgio Bernardo
Rio de Janeiro/RJ

= = = = = = = = = = =

Flor singela, delicada,
a rosa, flor do carinho.
É linda mas anda armada,
protegida pelo espinho.
Silvia Svereda
Irati/PR

= = = = = = = = = = =

Ao disfarçar a paixão
quando na rua, se olharam
bem à luz do lampião,
suas Sombras... se abraçaram!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
= = = = = = = = = = =

Taíssa da Silva Daniel (Em Três Minutos)


Usar o liquidificador me traz dor de cabeça. Olha o meu pé já batendo. Para pé! Presta a atenção nessas frutas se misturando e se desfazendo dentro do cilindro. Quantas combinações de moléculas devem estar se quebrando e se criando nesse exato momento tão trivial e não faço ideia? Eu não lembro nada de química.

Lembro quando estudava na escola, era muito difícil para mim, absorver. Mas o menino que sentava na minha frente... Giovani era o nome dele? Ele tentava me explicar a matéria depois da aula. Eu estava caidinha por ele, não escutava nada. Só observava em suas sardas ao longo de ambas as bochechas. Isso deixava a sua aparência um tanto fofa, menos máscula.

Isso me lembra que sempre gostei de meninos que exalavam certa sensibilidade. O que as pessoas às vezes chamam de feminilidade, até. Não concordo. Eu penso que se todos nós fossemos mais delicados, o mundo se tornaria melhor. Deve ter sido esse o meu problema. Eu casei com um homem rude. Tão rude que nunca cuidou de nossos filhos. Fui me apaixonar pela pessoa errada. Ainda amo ele. Mas ele saiu de casa. Sim, estou na fossa.

Eu peço para a minha mente pensar em outra coisa, até nesse barulho insuportável do liquidificador, mas cá estou eu a pensar nele de novo. O que será que ele está fazendo, agora? Os anos que vivemos juntos se apagaram tão rápidos assim? Por que não fez questão nem mesmo de levar nada de casa? Isso só deve significar que já tem um outro caso. Melhor não imaginar, só me faz mal.

Ainda não consigo pensar como será daqui para frente. Por favor, Helena! Não se force. Eu não estou pronta para pensar nisso. Para! Por favor. Olha o liquidificador...

É uma graça como crianças tornam tudo mais leve. E o Zé e a Carol dançando na sala, ao ritmo daqui do liquidificador? Meu Deus! Como ser criança é bom! Mesmo sem verem mais o pai voltar para casa a cada noite, eles parecem bem. Mas será que estão bem mesmo? Acho que vou pagar uma psicóloga para eles. Mas e o dinheiro? Preciso me separar, recorrer a direitos e... Afe!! Não pensa.

Pensa só em segurar as arestas do que já está aqui na minha frente. Esse é o foco. Calma, Helena! Calma! Maldita aula de química. Hoje ainda não tinha lembrado do Giovani.

O suco está pronto! Desliga o liquidificador, Helena.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
TAÍSSA DA SILVA DANIEL, carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança. Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 12: Ganância e avareza


O pobre carece de muitas coisas,
o avaro de tudo (Sêneca)

A ganância é um fenômeno humano que destrói tanto o próprio ganancioso quanto a todos os que estão no mesmo meio social. É o acúmulo insaciável de bens materiais, em geral em prejuízo dos outros seres humanos. O ganancioso não se contenta em obter o suficiente para viver bem. O acumular torna-se o único objetivo, à custa dos valores éticos, do bom senso e muitas vezes da legalidade. É um fenômeno destrutivo, incompatível com a cidadania.

Num Brasil de ouvidos moucos
a vida perde os encantos
quando a ganância de poucos
promove a fome de tantos!...
Antônio Juraci Siqueira - PA

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos.
Ademar Macedo - RN

Seres vis, gananciosos,
movidos pela torpeza,
com seus atos criminosos
saqueiam nossa riqueza.
Gonzaga da Silva - RN
 
A avareza é reconhecida no Velho Testamento como um dos sete pecados capitais. Ganância e avareza são atitudes muito próximas, mas com certeza o avarento sofre mais do que o ganancioso. Podemos dizer que o avarento é um pobre coitado. Enquanto o ganancioso trocou o ser pelo ter, o avarento trocou o ser pela possibilidade de ter. Segundo Horácio, o avarento vive sempre na pobreza.

O avarento é estranho ser
- só quer dinheiro guardar;
o seu medo de perder
faz a ganância aumentar.
Lairton Trovão de Andrade - PR

Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
Lairton Trovão de Andrade - PR


(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Enviado pelo autor. )

Renato Benvindo Frata (Um não com sabor de sim)


O amigo Davi se apaixonou pela colega de trabalho. Uma sansei de cílios longos, olhos amendoados e lábios vermelho-tomate. Seus cabelos lisos floriam na espátula, e as mãos de unhas rosadas, macias e de brandura de menina instigavam nele, paixão.

No quarto ao lado do meu na república de jovens, ele se trancava a mascar o amor não correspondido. Não poucas vezes, trocava o mascar pelo sorver - no bico do litro. Fernet, conhaque, vinho, cachaça. Qualquer líquido que desse corda à paixão que sentia. Como se dá linha ao papagaio posto ao vento. 

E deixá-la voar no amplo céu de seu ardor. 

Essa atitude virou piada. Estávamos na idade do não comprometimento, razão que levava a não nos preocupar com o verbo amar, mas com os pegar, ficar, comparecer e um monte de outros terminados em ar, er, ir, or, ur, menos aquele.

No expediente de trabalho e com ela na mesa ao lado, ele se mantinha sóbrio como charuto apagado. Cuidava tão somente das tarefas, aliás, que dividia com ela no setor de faturamento. Isso o levava a se aproximar dela com observações funcionais. Outras, a criar essa condição para sentir seu perfume.

Davi a amava. Derretia-se e se amargurava. Curtia sua presença nas oito horas de trabalho e lamuriava sua ausência nas outras doze. Até que lhe demos um prazo para se declarar. Ou nós o faríamos.

Munido de vodca e campari, trancou-se no quarto resolvido a lhe escrever uma carta. Faria o pedido por escrito, com receio de não suportar o “não” que ela lhe enfiaria goela abaixo. E, na manhã seguinte, mostrou-me um pedaço de papel. Não havia carta, mas dois versos, que li:

No copo vazio,
A ausência e a presença.
Sua e a da tristeza.
Não se sabe quem sai, ou fica.

Sorvo um líquido entintado.
Ele me tinge a boca, os lábios, escorre...
Dá-me sensação ácida de não.
Depois, um saboroso sabor de sim:
Do beijo-prazer, o do ficar!

Paro, ou continuo?

Às seis, logo na saída, os vimos de mãos dadas.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
(Texto enviado pelo autor)

Teatro de Ontem e de Hoje (Como fazer uma peça de teatro) 2

Imagem: Adobe Firefly
Modelo Completo de Peça de Teatro — Com Todos os Elementos
 
TÍTULO: O DIA EM QUE O GATO FUGIU
 
Elementos básicos (Espaço + Tempo)
 
Espaço: Sala de estar de uma casa simples. Sofá, mesa de centro com vaso de flores, porta da cozinha à direita, porta de saída à esquerda.

Tempo: Tarde de sábado, sol forte lá fora.

Personagens:
CARLOS — cerca de 35 anos, calmo, um pouco desajeitado
MARIA — cerca de 32 anos, falante, prática e impaciente
 
ATO ÚNICO · CENA 1
 
(As luzes se acendem. CARLOS está de pé, de costas para o público, olhando para o canto da sala. MARIA entra pela porta da cozinha com uma vassoura na mão, para e olha para ele.)
 
INDICAÇÃO CÊNICA — diz o que vemos, onde estão e o que fazem
 
MARIA
— Carlos? Você ainda está aí? Não encontrou ele?
 
CARLOS (vira-se devagar, as sobrancelhas juntas, voz baixa e preocupada)
— Procurei embaixo do sofá, dentro do armário, atrás das cortinas… Nada. Nem sinal do Felpudo.
 
MARIA (deixa a vassoura encostar na parede, aproxima-se, tom de voz sobe)
— Mas como?! Ele nunca sai da sala! Você deixou a porta aberta de novo, não foi? Sempre você!
 
CARLOS (levantando as mãos em defesa)
— Eu não deixei! Juro que fechei! Ele deve ter… deve ter encontrado algum buraco, ou… ou pulou pela janela!
 
MARIA (parada, olha firme para ele, depois olha para a janela aberta lá no fundo)
— A janela está no terceiro andar, Carlos. Gatos não são pássaros. Qual é o seu plano agora? Ficar aí discutindo ou ir procurar?
 
CARLOS (pega o chapéu sobre a mesa, anda depressa em direção à porta)
— Vou! Já vou! E quando eu achá-lo, aposto que ele estava escondido no lugar mais óbvio do mundo… e nós dois passamos o dia inteiro sem ver!
 
(Carlos sai depressa batendo levemente a porta. Maria fica sozinha, respira fundo, olha para o sofá, aproxima-se devagar, abaixa-se… e puxa debaixo do móvel um gato cinzento e gordo que mia suavemente. Ela olha para a porta por onde Carlos saiu, balança a cabeça sorrindo.)
 
MARIA (falando só para o gato, baixinho)
— Você viu? Ele já foi. Agora podemos ter sossego, meu pequeno trapaceiro.
 
(As luzes se apagam lentamente.)
 
DESENLACE — fim da cena
 
 VAMOS MARCAR CADA COMPONENTE:
 
NOME DO PERSONAGEM (instrução de comportamento) — fala aqui.
Sempre assim: nome em destaque + indicação entre parênteses + o que diz.

Conflito/Ação 
O gato desapareceu → Carlos e Maria procuram e discutem → no final, ele estava escondido o tempo todo 

Personagens 
Carlos e Maria — cada um com sua personalidade e objetivo: achar o gato! 

Diálogo 
Tudo que está em negrito — é a história avançando pelas falas deles 

Indicações cênicas 
As linhas entre parênteses — descrevem gestos, movimentos, cenário, luz 

Espaço + Tempo 
Definidos logo no início: sala de estar, tarde de sábado 

Estrutura 
Início (gato sumiu) → Meio (discussão e busca) → Fim (estava escondido!) 

Divisão 
Ato Único · Cena 1 — formato oficial de texto teatral 

sábado, 22 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 217 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ MACHADO STABILE
Uruguaiana/RS

A tua volta, querida,
é força que me renova;
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
ANALICE FEITOSA DE LIMA
Bom Conselho/PE, 1938 –, São Paulo/SP

Parece Tatuagem

Meu ser se incorporou à vida tua
de um modo tão incrível, tão seguro,
que eu tenho de deixar, mas continua
em ti minha esperança de futuro.

O meu apego tanto te cultua,
que o expresso em versos, rabiscando o muro.
E uma saudade ao meu redor flutua
enquanto no vazio eu te procuro.

Deixaste em meu viver enorme brecha
que sangra a todo instante e não se fecha,
porque a lembrança ao teu encontro vai.

Eu tento te esquecer mas não tem jeito.
E a tua imagem sufocando o peito,
parece tatuagem que não sai...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL MARIA RAMIREZ Y ANGUITA
Ponta Grossa/PR

Muito pouco significa
a amizade morna e muda.
Aquele que te critica
é sempre quem mais te ajuda.
= = = = = = = = = = = = = =

Poema de
FERNANDO PAIXÃO
São Paulo/SP

Aleijadinho

Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL JOSÉ LAMAS
Remoães/Portugal (1909 – 1973) Rio de Janeiro/RJ

Não vou além do que faço,
nem vou além do que digo.
Meu mundo está num abraço,
quando me abraço contigo...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
SÓLON BORGES DOS REIS
Casa Branca/SP

Contrários

 Alguém terá que ser o último,
para que sejas o primeiro.

E só serás proclamado o vencedor,
quando abaixo de ti houver vencidos.

Mas, o amor é mais generoso que a vitória.
Porque não se alimenta da derrota.
Nem está condicionado.
Absoluto, independe do contraste.
Só o amor prescinde dos contrários.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ERCY M. M. DE FARIA
Bauru/SP

Quis vingar “olho por olho”
e também “dente por dente”...
Mas, como, se era caolho
e a sogra só tinha um dente?!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Escutar

Escuto o barulho dos tambores
no som dos homens trabalhando 
escuto o silêncio reservado do poeta
no alarido das crianças 
escuto o sentimento extravasado
no discurso do profeta
escuto o anoitecer no cão que late
ao pássaro no voo indelével
escuto o raspar da pedra sobre a pedra
ao escutar você e não escuto nada 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ESMERALDO SIQUEIRA
Pedro Velho/RN

Teu silêncio me exaspera.
por que estás sempre calada?
Pensas em mim? Quem me dera!
Talvez não penses em nada...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Todo o amor que não me tinhas

Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.

Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.

Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.

Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.

Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELISABETE AGUIAR
Mangualde/Portugal

No meu livro de memórias, 
guardo, com todo o recato, 
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Queria ser seu livro de cabeceira 

Sabe aquele livro que você tem o maior cuidado? 
E que volta e meia você o relé, e põe-se a refletir? 
Aquele que por nada e para ninguém é prestado? 
Aquele que você toca por ultimo antes de dormir? 

Sabe aquele livro no qual você viaja e lê entrelinha? 
Aquele que faz você preso, incondicional liberdade? 
Aquele que invade sua mente e seu coração aninha? 
Aquele com o qual você desabafa; é maior amizade? 

Sabe esse livro que é seu preferido, até tira a poeira? 
Esse que tem uma história que leva você às viagens? 
Esse que alivia seu estresse e lhe enche de bagagens? 

Então, queria muito de ser esse seu livro de cabeceira. 
Esse; precisamente esse que está sempre ao seu lado. 
Que carrega você desse mundo para outro encantado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EPIFÂNIO DA FONSECA DÓRIA E MENESES
Tobias Barreto/SE (1884 – 1976) Aracaju/SE

A vida alheia respeite,
seja da paz sempre amante:
com rancores não se deite,
com ódios não se levante.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Algumas mudanças, nenhuma mudança 

Eu não deveria estar aqui! 
Mas estou! 
De pé diante de ti 
Com o olhar indignado! 
Mudo & Calado! 
Sem nada para te dizer... 
 
Eu não devia estar aqui! 
Deveria estar por lá fora! 
A gritar por liberdade. 
Da minha gente 
Do meu povo. 
 
Deveria estar na rua 
Em qualquer lugar 
E em todos os lugares. 
Mas não estou 
Estou diante de ti 
Mudo calado 
Sem nada para te dizer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELÍSIO DE SOUSA VASCONCELOS
Cametá/PA

Quando no rancho tu passas
a bailar alegremente,
ficas, Maria das Graças,
nas graças de toda gente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Nasce o sol, outra manhã 
Se espreguiça, é novo dia 
E a morte, má, se anuncia 
No canto da acauã 
Ave de agouro, malsã, 
Que canta nossa desgraça 
Sobrevoando a carcaça 
Do boi que ontem era são 
Hoje inerte jaz no chão 
No pé do seco imbuzeiro 
O meu verso tem o cheiro 
Da poeira do sertão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

No jogo de apostas fartas
do mundo em que nós estamos,
a sorte embaralha as cartas
e nós apenas jogamos...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
JOÃO FELINTO NETO 
Mossoró/RN

Gramatical

Só em letras imprimo minha alma.
Mais do que texto 
sou contexto indecifrável.
Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
 Um sujeito indefinido
 que é objeto de um erro
 gramatical.
 Entre modos e tempos,
 triste verbo
 que ecoa na forma nominal.
 Orações que são subordinadas
 aos meus vícios de linguagem.
 Um início em letras ordenadas
 e um fim
numa expressão oral.
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Aquele dia

Borboleta anil
que um louro alfinete de ouro
espeta em Abril
= = = = = = = = = = = = = =  

Mensagem na Garrafa 212 = A meia-verdade

Imagem: IA Microsoft Bing

Relata-se o seguinte incidente envolvendo o profeta Maomé. O profeta e um dos seus companheiros entrou numa cidade para ensinar.

Logo um adepto dos seus ensinamentos aproximou-se e disse:

- Meu senhor, não há nada exceto estupidez nesta cidade. Os habitantes são tão obstinados! Ninguém quer aprender nada. Tu não irás converter nenhum desses corações de pedra.

O profeta respondeu bondosamente:

– Tu tens razão.

Logo depois, outro membro da comunidade abordou o profeta. Cheio de alegria, ele disse:

– Mestre, tu estás numa cidade abençoada. O povo anseia receber o verdadeiro ensinamento, e as pessoas abrem seus corações à tua palavra.

Maomé sorriu bondosamente e novamente disse:

– Tu tens razão.

– Ó mestre, – disse o companheiro de Maomé - tu disseste ao primeiro homem que ele tinha razão, e ao segundo homem, que afirmou o contrário, tu disseste que ele também tinha razão. Pois negro não pode ser branco.

Maomé respondeu:

– Cada um vê o mundo do jeito que espera que seja. Por que deveria eu refutar os dois homens? Um deles vê o mal, o outro, o bem. Tu dirias que um deles vê falsamente? Não são as pessoas aqui e em toda parte boas e más ao mesmo tempo? Nenhum dos dois disse algo equivocado, disseram apenas algo incompleto.

Laé de Souza (O grande diretor de teatro)


Faz tempo que não vejo o Ariolando. Pelos idos de 75, fizemos teatro juntos. Ator de pouca expressão, mas metido a diretor, palpitava em tudo quanto era peça que ensaiávamos. Meticuloso ao extremo. Em nosso grupo fazia sempre pequenas pontas, mas esnobava-se para os amigos, dizendo que sua participação era diminuta por sua própria imposição, vez que era mais necessário de fora, ajudando o diretor com opiniões e sugestões.

Aliás, gabava-se que o diretor era figurativo, já que na verdade era ele, Ariolando, quem dirigia o grupo. Afirmava que a sua participação, em cena, era mais para servir de calço a algum ator inexperiente, que sentia firmeza ao contracenar com alguém da categoria dele. Para um diretor, ter Ariolando como ator não era fácil e eu fui testemunha de muitos que perderam a cabeça entregando seus cargos.

Mas, enfim, num memorável dia, Ariolando reuniu todo o grupo e disse que, por falta de reconhecimento ao seu grande talento e, por prevalecerem ideias de incompetentes, renunciava e afastava-se de vez do grupo de teatro, desejando que fosse encontrado, para substituí-lo, alguém com pelo menos metade do seu gabarito.

Casou-se com a Dirolinda, que também teve uma passagem rápida pelo grupo, adquiriu o gosto por espetáculos. Eram sempre vistos nos teatros. Ela divertindo-se a valer, e ele sempre sisudo e observador. Quando questionado por ela sobre o texto, ele perguntava: “Que texto?” Desconcertada, ela complementava: “O enredo.” Ao que Ariolando caía de pau: “Com uma performance absurdamente fora do contexto, alguém do meu nível vai se ligar em enredo, mulher? Como se pode entender um desenrolar de cenas com uma direção estapafúrdia dessas? No meu tempo... Você nunca me viu dirigindo porque quando entrou, eu já estava saindo... Aliás, pelo seu teste, por mim nem teria entrado... Chamar esse pessoal de atores e aplaudir uma direção dessas é fazer Stanislavski mexer-se no caixão.

Diretor pior que esse, nunca vi em toda minha vida. Aquela cruzada de pernas, quando o homem sentou-se, tinha de demorar mais dois segundos; tinham de bater mais uma vez na porta, antes que ela fosse aberta; naquele cumprimento, tinha de apertar mais a mão e dar um pequeno balanço; quando o rapaz se dirigiu à janela, tinha de dar um tropeção para embelezar mais a cena e torná-la mais real; na cena da despedida, ao invés daquela luz branda, teria de ser forte e localizada no rosto da atriz, para que se percebesse a sua expressão. Ou, talvez, aí o diretor tenha sido bom, escondendo o despreparo de sua atriz, que só foi percebido por um expert como eu. Aquela cena de dirigir-se para a corda, demorou. Fração de segundos, é verdade, mas fugiu das boas técnicas.

Aquela personagem de cacoete, tinha de balançar um pouco mais a cabeça; na hora do adeus, a boca do ator tinha de se afunilar e ele estar virado para a lateral direita em direção à plateia. Como você queria que eu me ligasse em enredo, quando aconteciam erros crassos de direção, Dirolinda? Eu, como diretor desse elenco, não passaria ninguém como ator, porque eu conheço de longe quem interpreta com perfeição.”

Dirolinda só assentia com a cabeça.

Num belo dia, ao chegar em casa, Ariolando encontrou um bilhete da Dirolinda: 

“Ariolando, se você é um diretor tão bom, se conhece uma atriz de longe, por que não me reconheceu quando, ao teu lado, fingi o tempo todo te amar? Ou fui uma boa atriz? Adeus.”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

(Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018)