terça-feira, 29 de setembro de 2026

Henriette Effenberger (Trovas Temáticas)

 

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SAUDADE
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Para falar de saudade
sempre se vai precisar
ter um pouquinho de idade
e coisas para lembrar...

Saudade de nossa infância,
saudade de tempos idos...
Saudade pela distância
dos nossos entes queridos.

Saudade de gargalhadas,
saudades da adolescência,
das noites enluaradas,
plenas de efervescência...

Saudade não é lembrança,
saudade não é sofrer.
Lembrança sem esperança,
isso ela pode até ser.…

A campa tão nua e fria
do morto desconhecido
recebeu a cortesia
de um ipê todo florido.

A saudade, envelhecida,
virou apenas lembrança
não dói mais como ferida,
pois já perdeu a esperança…

Na quietude da noite
onde até o silêncio dorme,
a saudade, qual açoite,
retalha o sonho disforme.

Nos meus momentos de insônia,
minha saudade acalanto
e ela, sem cerimônia,
repousa sobre meu pranto.

Pra espantar felicidade,
a maldade tanto fez
que se vestiu de saudade
pra machucar outra vez.

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DESTINO
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A vida que tenho agora
é apenas resultado
de escolhas de outrora,
de opções do passado...

Dizem que eu tive sorte,
que o destino me sorriu,
ao escolher o meu norte
todo caminho se abriu.

O que chamam de destino,
boa, má sorte ou maré
eu apenas denomino
fruto de trabalho e fé.

Sei que fiz o meu destino,
palmo a palmo, linha a linha,
nada veio repentino
nem tive fada madrinha...

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PAZ
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A paz nem sempre é perfeita,
esconde-se em descaminhos,
entre dores, fica à espreita,
como rosa entre os espinhos.

Paz: muitas vezes usada
para gerar tanta guerra,
palavra tão desgastada,
não a vemos cá na Terra.

Pedir paz é tão vulgar,
lugar comum, um clichê;
melhor mesmo é desejar
que a paz habite em você...

Viver na Paz do Senhor,
nos dizia a tia Sila,
só mesmo com muito amor
e com fé que não vacila.

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ESTAÇÕES DO ANO
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Bom seria cada dia
viver como a primavera,
trazendo luz e alegria,
pois o verão nos espera..

Na primavera me aninho,
sou colibri, beija-flor,
sou menina-passarinho
buscando por teu amor...

Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.

Verão agora é assim
chove, chove, sem parar.
Essa água não tem fim,
parece o céu a chorar...

Às vezes penso que o outono
por vir depois do verão
é uma estação de sono,
de invernos que chegarão...

O  verão com sol brilhando
e um azul no céu sem fim;
no fundo está preparando
o outono que existe em mim...

Não gosto de tempo frio
nem daquele céu cinzento.
O inverno, eu avalio,
é um velho rabugento...
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Henriette Effenberger (1952)
HENRIETTE EFFENBERGER é uma romancista, contista, poeta, memorialista e autora de literatura infantil da cena contemporânea brasileira. Destaca-se não apenas pela sensibilidade de sua produção, mas também por seu papel combativo na valorização das vozes femininas e como uma forte ativista cultural. Nasceu em 1952, na cidade de Bragança Paulista (SP). Desenvolveu toda a sua trajetória pessoal e profissional em sua terra natal, onde reside e mantém firme sua atuação na comunidade artística local. Formou-se professora primária (Magistério) em 1970. Em 1972, concluiu o curso Técnico em Contabilidade e, em 1975, graduou-se em Administração de Empresas pela Universidade São Francisco (USF). Conciliou suas formações técnicas com o engajamento social e cultural. Trabalhou inicialmente na APAE de sua cidade e, ao longo dos anos, uniu sua veia profissional ao resgate da memória e da história de diferentes instituições regionais por meio de livros encomendados e pesquisas históricas.
Henriette construiu uma carreira sólida na literatura independente nacional. É amplamente reconhecida como uma das criadoras e entusiastas do Mulherio das Letras, um coletivo literário feminista de grande relevância nacional que joga luz sobre a produção de escritoras mulheres. Pertence à ASES (Associação de Escritores de Bragança Paulista): sócia-pioneira, ex-presidente e diretora da instituição. Com uma produção vasta e diversificada, Henriette passeia por diferentes gêneros:
Romances e Ficção: A Ilha dos Anjos (2002, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro) e Quase nada de azul sobre os olhos (2022, seu elogiado primeiro romance solo).  
Contos: Linhas Tortas (2008): composto por contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, com apresentação de Ignácio Loyola Brandão e Fissuras (2018, publicado pela Editora Penalux). Em 2017, organizou a coletânea de contos: Horas partidas e a coletânea de contos e crônicas do Movimento Mulherio das Letras.
Literatura Infantil: As Aventuras do Superagora (2008) e Vida de Sabiá – O que sabiam os sabiás além de assobiar. vencedor do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, editado em 2009, pela Fundação Cultural de Belo Horizonte.
A autora acumula dezenas de prêmios em concursos literários nacionais e internacionais de poesia e prosa. Entre as principais honrarias, destacam-se: Prêmio João de Barro de Literatura Infantil (um dos mais tradicionais e importantes do segmento no Brasil); Prêmio Manaus de Literatura. Sua obra transcendeu as livrarias e tornou-se objeto de pesquisas universitárias. Seu livro Fissuras foi indicado como leitura na pós-graduação em Crítica Feminista da Universidade Federal Fluminense (UFF), e sua produção foi catalogada e estudada na obra acadêmica Vozes Femininas na Literatura Brasileira.
importância de Henriette Effenberger está profundamente atrelada à resistência da literatura descentralizada e ao fortalecimento da autoria feminina no Brasil. Ao criar narrativas que mergulham em fraturas cotidianas (como em Fissuras) e debater as complexidades do universo da mulher, ela subverte estruturas tradicionais e abre espaço para que temas intimistas e sociais caminhem juntos. Além disso, sua dedicação na liderança da ASES e no movimento Mulherio das Letras funciona como uma ponte fundamental para acolher, divulgar e pavimentar o caminho para as novas gerações de escritoras fora dos grandes eixos metropolitanos.

Biografia = Típico Local, Ser Mulher Arte, Papo D’Oro. Editora Penalux. Seção Bragança Paulista, etc.

Cantinho do Frata (Como caminhamos)

O difícil da nossa estrada é que, de repente e sem que esperemos, aparece uma bifurcação. E a incerteza nasce a indagar: esquerda ou direita? Qual direção tomar?

A hesitação ganha corpo e produz insegurança. Se não impede a escolha, ao menos a dificulta.

Nessa indecisão perdemos tempo, eis que "as horas mais tristes da vida são aquelas em que duvidamos de nós próprios"¹.

Mesmo porque a vida não nos mostra a estrada inteira. Ela quase sempre revela o próximo trecho só depois que vencemos o anterior. Etapa a etapa. Por isso, mais importante que a distância do primeiro passo é a firmeza com que o damos.

Dado esse, os demais serão consequência.

Por que digo isso? Porque a vida é eivada tanto de dádivas quanto de desafios. Dá-nos a graça de vivê-la e, junto dela, o peso de enfrentar aquilo que o viver exige.

O que seria do mar se ele produzisse apenas ondas difíceis e insuportáveis travessias? Ou o contrário? O que seria da roseira se no mesmo galho dos espinhos não nascesse a mimosa rosa perfumada?

É assim que o viver sentencia: uma coisa ao lado da outra. Por isso nos submetemos tanto à virtude quanto ao vício e seus asseclas: degradação e torpeza.

É o oscilar das escolhas entre um e outro que nos ensinará a procurar o equilíbrio e, esse, a que rejeitemos os excessos prejudiciais a nós próprios e, claro, a terceiros.

Esse oscilar será o conjunto de atos diários e constantes que desenhará quem somos.

Ninguém se perde de uma vez numa bifurcação, assim como ninguém se encontra a si próprio nessa condição. Na verdade, a vida não pede que acertemos sempre a direção, mas que fiquemos atentos na bifurcação. Porque o medo de errar tem o mesmo valor que a razão de acertar.

E não importa tanto a escolha do caminho, mas como faremos para percorrê-lo. Até o erro, quando reconhecido, pode nos fazer avançar. Sabe por quê? Ele é parte do caminho.
No fim, o que fica não é a direção à esquerda ou à direita. É a maneira como caminhamos.
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¹ Henry Ward Beecher
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Renato Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Texto enviado pelo autor)

Daniela Schlogel (Oportunidade?)

O Jhony é muito malandro, dizem até que ele é mau caráter e quando surgiu a proposta de dar uma vaga de estagiário a ele com acompanhamento da assistente social, todos foram contra, tinha um ou outro que era a favor, não muito a favor, podemos dizer que quem era a favor, era só porque sabia que os do contra ganhariam. E entre o discurso dos do contra dizia-se:

“Ah, aquilo ali é bandido”, “Dar emprego pra ele é arrumar sarna pra se coçar”.

E mesmo assim, havia quem acreditava que dar o emprego ao menino seria proporcionar a ele algumas horas de vivência em um ambiente moralmente saudável. E mandou-se o menino para a empresa e não era uma empresa qualquer, era uma empresa pública, economia mista e coisa e tal. No primeiro dia de trabalho colocaram-no para picotar papel, toda a manhã, e enquanto isso os funcionários trataram de espalhar a boa nova aos outros funcionários ainda desinformados.

”Aquele ali já foi preso num sei quantas vezes”, “Se eu não me engano já vi ele no programa Aterrorizando a Massa”.

E assim entre picotes de papel e nenhuma cordialidade dos companheiros chegou ao fim o primeiro dia de trabalho de Jhony e é claro que passou pela cabeça dele inúmeras observações:

“Será que vou passar o mês inteiro picotando papel?”, “Nem pra ter uma telefonista gatinha nesse lugar”, “Olha o tipo desse careca, fica só me olhando de cara feia”, “Ia ser mais massa se tivesse alguém pra conversar”.

No segundo dia o novo estagiário foi até sua orientadora de referência para saber a ordem do dia e ela foi categórica

– “Como você já picotou todo o papel e hoje eu tenho muitas tarefas financeiras as quais você não pode auxiliar, vai cuidar do nosso Laboratório de informática, fica ali na última porta a esquerda, não vai muita gente lá, todos os computadores devem ficar desligados e se alguém for até lá você deve ligar para pessoa utilizar e anotar o nome e o tempo que a pessoa permaneceu fazendo uso do mesmo. Sabe ligar o computador?”

– “Sim Senhora”.

– “Então pode ir”

E lhe passou as chaves. Jhony entrou naquela sala silenciosa, sentou-se e mais um milhão de observações lhe passaram na cabeça, estava sentado, olhando pro nada e com um “bico” que demonstrava indignação, quando chegou o careca, aquele careca que só ficava olhando pra ele de cara feia e a primeira pergunta que o careca fez foi

– “Por que você teve passagem?”

O menino não entendeu bem a pergunta e ele se explicou dizendo que queria saber o que o menino tinha feito de errado para ter sido apreendido, sem pudor nenhum. O menino contou ao careca que se desdobrou em perguntas, a cara do careca tinha mudado de descaso para interesse e isso fez o menino se sentir o grande protagonista, afinal ele tinha a atenção do careca e mais que isso ele despertou o interesse de outra pessoa, coisa que não lembrava ter acontecido muitas vezes desde a infância. Todos os fatos que o menino descreveu ao careca, é claro, chegariam aos ouvidos de todos os outros funcionários, mas o menino nem pensou nisso e nem em imagem perante aos colegas e nem em nada, a verdade é que o menino se embriagou na sensação de “ser interessante”.

Quando o careca deixou a sala, o menino estava convencido mesmo sem saber de que era realmente “do crime”. Era aonde as pessoas lhe reconheciam como pessoa. A experiência profissional estava reafirmando sua situação de exclusão. Ele teve a oportunidade, mas não aceitação e muito menos o pertencimento.

Antes de sair naquele dia, Jhony abriu um computador e tirou uma peça, ele nem sabia para quê servia, mas sabia que devia valer algum dinheiro. Escondeu a peça e não soube bem como fechar o gabinete aberto do PC. Foi embora e nunca mais retornou ao local. Aqueles que já não acreditavam no menino desde o início usaram a tão famosa frase “Eu já sabia”. Há alguns que dizem que isso se trata da profecia que se autocumpre. Todos nós queremos ser alguma coisa independente do que seja.
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Daniela Schlogel
DANIELA ANDREIA SCHLOGEL, economista, pesquisadora acadêmica e gestora pública de grande destaque no Paraná, viveu em Foz do Iguaçu (PR) durante seus anos de graduação e mestrado. Atualmente, devido às suas funções no governo estadual e no doutorado, divide sua rotina com Curitiba (PR) e Campinas (SP). Possui um currículo técnico altamente qualificado voltado ao desenvolvimento regional: Graduou-se em Ciências Econômicas (Economia, Integração e Desenvolvimento) pela UNILA, em Foz do Iguaçu; Concluiu o Mestrado em Integração Contemporânea da América Latina, também pela UNILA; É Doutoranda em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Atua como Economista da Secretaria de Estado do Planejamento do Paraná (SEPL), onde exerce o cargo de Coordenadora de Planejamento Regional e comanda o Programa Paraná Produtivo. Também atua como Secretária Executiva da Zona de Integração do Centro-Oeste da América do Sul (ZICOSUL) e conselheira no Conselho Estadual do Trabalho.
Ela não possui obras de ficção, romances ou poesias publicados. Sua produção escrita é estritamente acadêmica e técnica, composta por artigos científicos, dissertação de mestrado, notas técnicas de planejamento governamental e pesquisas sobre economia regional e fronteiras. O reconhecimento de seu trabalho ocorre no campo da gestão pública, economia e inovação regional.
Embora não tenha impacto na literatura artística, Daniela Schlogel possui grande importância para o desenvolvimento socioeconômico e o planejamento regional do Estado do Paraná. Como pesquisadora associada ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI Trinacional), ela contribui ativamente com estudos estratégicos para a região de tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), impactando diretamente as políticas públicas, a geração de empregos e a integração econômica da região de Foz do Iguaçu e do restante do estado.

Fonte:
Jornal Guata. Foz do Iguaçu. 22.janeiro.2010

A. A. de Assis (Era um tempo e tanto) Parte 1

 

01.
Ouço ainda o canto
de um velho carro de boi.
Era um tempo e tanto.

02.
Memórias, memórias.
Volta e meia volta a minha
me contando histórias.

03.
Passeio ao passado.
Passe livre pra quem curte
recurtir saudade.

04.
Suave chegava
o som de uma serenata.
O luar luava.

05.
Ouvi gramofone,
ouvi discos de vinil.
Ouvi sabiás.

06.
Bem-traçadas linhas,
acanhadas confissões.
As cartas de amor.

07.
Eram tão mamães
as cantigas de ninar.
Tão mamães os colos.

08.
Jipe, jardineira,
teco-teco, DC-3.
Pioneiros chegando.

09.
Semente na mão.
O pai plantando o futuro
do filho doutor.

10.
O pilão de milho,
o moinho de café.
Chuveiro de balde.

11.
Prosa na cozinha.
Requentando a canja,
recontando casos.

12.
A Páscoa, o Natal,
a festa do Padroeiro.
Famílias à mesa.

13.
Tardes de verão.
Vizinhança na calçada
pondo o assunto em dia.

14.
Será que ainda contam
histórias de era uma vez?
Conta mais, Dindinha.

15.
Hoje o hoje é hoje,
amanhã já será ontem.
Tudo assim, num zás.

16.
Do vapor ao jato.
Súbito o mundo virou
de ponta-cabeça.

17.
Voar era o sonho,
até que o sonho voou.
O céu é das asas.

18.
Chaplin, Pavarotti,
Gandhi, Churchill, Luther King.
Riquíssimo século.

19.
Garrincha e Pelé.
Depois deles nunca mais
houve igual olé.

20.
Faz tempo houve um tempo
em que a gente olhava o céu.
Via e ouvia estrelas.

21.
Repicam os sinos.
Os mesmos que os meus ouvidos
de menino ouviram.

22.
Ele na primeira,
eu na derradeira infância.
O bisneto e o biso.

23.
Dedão destroncado,
braço preso na tipoia.
Garoto levado.

24.
Mindim, seu-vizim,
pai-de-todos, fura-bolo.
Ao sobrante, o piolho.

25.
Tão longe, tão ontem.
Era uma vez eu menino
ensaiando a vida.

26.
Salgados, refrescos.
Lá ia alegre a moçada
para o piquenique.

27.
Baile na penumbra.
Pares de rostos colados
e um bolero ao fundo.

28.
Moradas sem muros,
simbólicas taramelas.
Cidade sem medo.

29.
Bença mãe, bom dia,
por favor, me dá licença.
Os belos bons modos.

30.
A pasta da escola.
Cartilha, papel manilha,
e o mata-borrão.
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Continua...
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A. A. de Assis (1933)
         ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiro

Fonte:
A. A. de Assis. Era um tempo e tanto. (triversos). Ed. Do Autor, 2021. Ebook enviado pelo autor.

Nilto Maciel (O Pecado de André Gide)

Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.

Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa, os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala, o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável  – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.

Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.

A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.

Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.

Súbito, o braço agudo irrompeu de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.

No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.

De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo inundava o quarto. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.

E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.

De manhã, correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima. O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.

Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?

Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”
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Nilto Maciel (1945 – 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. Itinerário: contos. Fortaleza, CE: Ed. do Autor, 1974. Livro enviado pelo autor. 

Júlia Lopes de Almeida (A Boa Lua)

 À Maria Clara da Cunha Santos

O milho caía em granulações de ouro, por entre os dedos rugosos, curtos, cor de fumo seco, do velho Samé.

Os bisnetos riam-se às escâncaras, acompanhando o andar vacilante do bisavô, que mal arrastava os pés doentes sobre os laivos azinhavrados do chão úmido. Chovera, e o campo abria-se por ali fora, nu, só com uns velhos tocos de madeira podre, onde zumbiam abelhas e despontavam róseas orelhas-de-pau pra lhes ouvir a música.

O tio Samé fizera cem anos pelo S. Miguel; dera de enfraquecer, pelos últimos tempos; estava a acabar todos os dias.

Nos seus olhinhos garços já havia a névoa da idiotia, a ausência da alma, que se lhe desprendia do corpo aos pedaços.

Caíam-lhe falripas brancas, ásperas e lisas, como pálida moldura às carquilhas do seu rostinho sumido, de maxilas salientes e pele azeitonada. Todo ele era miúdo e enrugado. O pobre tinha perdido a fé e a memória das coisas, menos do tempo das sementeiras e das colheitas. Contava as luas, sabia de cor o calendário. Não atinava com os nomes dos netos nem da criançada. Confundia todos: já nem sabia o número dos filhos nem a graça da sua defunta mulher, que o fora por longuíssimos anos, nem mesmo saberia responder pelo seu nome – Samuel, que lhe valera o doce apelido de Samé; contudo, aconselhava do seu canto quando se devia cortar a mandioca, bater o arroz, colher o feijão ou a batata, e o seu aviso era ouvido como de sábio, seguido como de Deus!

Inda assim, se morria alguma criança em casa, a mãe, desesperada, ressumava rancor contra esse velho, teimoso em viver e que bem poderia ter-se ido embora, em lugar do filhinho inocente. E nesses dias a comida era-lhe atirada como a um cão intruso, sem direito ao carinho de ninguém.

Com cem anos e cinco meses, ainda o Samé quis ajudar numa sementeira de milho. A lua era boa, grossas carradas haveriam de ranger por ali, atulhadas de espigas maduras, secas, aos montões.

Os netos enchiam a roça de barulho; uma gralhada! Ele media os passos, silencioso; de tempos a tempos entreabria os dedos e os grãos de milho caíam, um a um, como contas de um rosário de ouro partido por um santinho velho, das antigas lendas.

E foi andando assim, devagar, devagar, com as pernas em tesoura, os pés cada vez mais inchados, o olhar embebido no sol, que abria no fundo horizonte um enorme meio círculo vermelho.

Os netos cantavam alto, os bisnetos riam ao longe, ruidosamente; e aquela bulha era para ele como a do vento que passasse, arrastando folhas mortas, varrendo caminhos, abrindo ramadas, carregando sementes e fecundando a terra. Sorria o velhinho para o sol poente como a um amigo velho de quem se despedisse com um afago, quando os pés já dormentes lhe negaram outras passadas e ele caiu para a frente, sobre o peito chato.

Não lhe doeu a queda; a terra estava fofa, a carne amortecida; teve uma tontura, sumiu-se-lhe tudo da lembrança; mas a pouco e pouco voltou-lhe a ação e procurou levantar-se, tateando um velho tronco negro, cavernoso, que ali estava em frente, roído de bichos, mal ligado à terra.

Tio Samé não conseguiu mover-se, mas reparou que irrompia daquela ruína um galhinho verde e tenro, macio ao tato, doce à vista, e quedou-se a olhá-lo espantado, com a boca aberta, a baba em fio, as falripas brancas caídas sobre as largas orelhas.

Julgara aquela árvore morta havia muito, e num relance fugitivo invejou as coisas que duram longo tempo, ou que não morrem nunca, como aquele sol vermelho sempre quente e aquele tronco que nas suas fibras despedaçadas ainda encontrava seiva para novas gerações! E o tio Samé beijou a terra, o seu único amor verdadeiro, beijou-a uma, duas, muitas vezes, com os braços abertos, as unhas fincadas no chão.

– Bisavô morreu! gritaram de longe; e vieram buscá-lo ao colo, como a uma criança.

Levaram-no para dentro, afirmando que ele estava no fim. Uma neta fez-lhe a cama de limpo, outra vazou-lhe o caldo pela boca, alagando-lhe o peito, com impaciência. A nora acendeu o oratório e baixou da parede o crucifixo de ébano.

Samé passeava os seus olhinhos de cem anos por tudo, como a perguntar – para quê?

Estavam feitos os preparativos para a morte.

Quando ela entrasse encontraria chamas de velas, toalhas de crivo, ramos de flores, imagens de santos e uma alma abençoada pelo padre, que um dos bisnetos fora chamar à pressa.

O padre veio e, perguntando ao Samuel pelos seus pecados, ouviu em resposta que as sementes germinariam depressa, porque a terra estava úmida e o sol ardente...

Riram-se uns, sorriam outros. O padre afastou-os e, tornando à cabeceira do velhinho, disse-lhe:

– Todo homem vive sujeito à tentação do inimigo; confessa sem pejo os teus pecados!

Samuel respondeu, sorrindo, que a lua ia ser propícia: os pescadores fariam boas pescas, os agricultores ótimas colheitas. A estação seria favorável aos pobres.

Caiu a absolvição sobre a cabeça branca do velho.

Filhos e netos rezaram uma ladainha arrastada e tristonha. Samé ouvia aquele ruído sem determinar-lhe o sentido, como se fora o de vento passando à noite fora das portas de sua casinha rústica. Depois da ladainha a ceia, depois da ceia o sono – todos adormeceram; só o tio Samé ficou abrindo para a lamparina os seus olhinhos de cem anos e foi assim que ele viu uma sombra esguia, longa, desenrolar-se das traves do teto e descer devagar, devagar, pela parede fronteira, sem barulho, com a cautela de um assassino...

Tio Samé tremeu. Uma das netas dormia ali mesmo, no chão, com o seio nu, os braços nus, o queixo erguido, a garganta bem iluminada. A cobra desceu e sumiu-se entre os lençóis, sem nem mesmo fazer rumor na esteira... Samé abanava os braços, mudo, inerte e espavorido, até que a rapariga, sacudida por uma convulsão tremenda, gritou alto, e o réptil fugiu, cascalhando, pela parede acima...

Na manhã seguinte morria a neta do velho Samé; mas ele ficou ainda, movendo os dedos trêmulos sobre o lençol branco, no gesto de semear a terra e aproveitar a boa lua…
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Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) 
   A escritora, cronista e teatróloga Júlia Lopes de Almeida é uma das figuras mais importantes da literatura brasileira da virada do século XIX para o XX, sendo considerada a primeira mulher a viver profissionalmente de seus direitos autorais e de sua escrita no Brasil. JÚLIA VALENTINA DA SILVEIRA LOPES DE ALMEIDA, nasceu em 1862, no Rio de Janeiro/RJ, onde faleceu em 1934 (aos 71 anos), vítima de malária. Embora tenha nascido na capital fluminense, mudou-se na infância com a família para Campinas/SP, onde cresceu e iniciou sua carreira. Morou temporariamente em Lisboa e Porto/Portugal, onde se casou em 1887, e viajou extensamente por países da Europa, África e América do Sul. Posteriormente, fixou residência definitiva no Rio de Janeiro. Ao contrário da maioria das mulheres de sua época, Júlia teve uma intensa atuação no jornalismo de grande circulação, escrevendo crônicas e artigos de opinião para periódicos de peso, como o O Paiz, Gazeta de Notícias e o Jornal do Commercio. Foi uma atuante ativista social, trabalhando ativamente em prol do abolicionismo, da causa republicana e do direito das mulheres à educação formal e ao voto. Em 1919, uniu-se a Berta Lutz para fundar a Legião da Mulher Brasileira, exercendo o cargo de presidente honorária.
Sua estreia ocorreu em 1886 com o livro de crônicas Traços e Iluminuras, publicado em Lisboa. Ela alcançou enorme prestígio crítico e comercial na chamada Belle Époque brasileira, sendo aclamada como a "Rainha das escritoras". Júlia foi uma das idealizadoras e fundadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Seu nome constava na lista original de fundadores ao lado de nomes como Machado de Assis e Olavo Bilac. No entanto, na reunião de instalação, os acadêmicos decidiram seguir o modelo estrito da Academia Francesa, permitindo apenas homens. Impedida de ocupar sua própria cadeira (a de número 3) por ser mulher, os membros elegeram em seu lugar o seu marido, o poeta Filinto de Almeida — que anos mais tarde admitiria o absurdo da exclusão. Na virada do século XIX para o XX, as premiações literárias institucionais no Brasil eram quase inexistentes. O verdadeiro prêmio da autora foi o sucesso comercial sem precedentes para uma mulher. Ela era uma das autoras mais publicadas da Primeira República, disputando tiragens e vendagens diretamente com os maiores romancistas masculinos da época.
Escreveu mais de 40 títulos, incluindo romances de fôlego, peças de teatro, contos e livros didáticos: Contos Infantis (1887) – Escrito em parceria com sua irmã Adelina Lopes Vieira, foi adotado por décadas nas escolas primárias brasileiras; A Família Medeiros (1892) – Romance que aborda a transição da sociedade escravocrata para o trabalho livre no interior paulista; A Falência (1901) – Sua obra-prima. Um romance realista de crítica social demolidora que narra a derrocada financeira e moral de uma família burguesa envolvida no comércio de café no Rio de Janeiro; Eles e Elas (1910) – Livro focado nas complexidades das dinâmicas psicológicas e matrimoniais; A Silveirinha (1913) – Obra que discute as limitações impostas às mulheres na sociedade urbana.
A importância de Júlia Lopes de Almeida vai muito além de sua excelente prosa realista-naturalista. Ela foi uma pioneira na profissionalização da escritora mulher no Brasil, provando que a literatura produzida por mãos femininas poderia ter apelo comercial de massa e alta densidade psicológica e intelectual. Em seus romances, ela ousou retirar a idealização romântica das relações familiares e expôs as hipocrisias da burguesia carioca. Foi uma das primeiras vozes literárias a defender abertamente o divórcio, a emancipação financeira feminina e a urgência de educar as mulheres não para o casamento, mas para a autonomia. O resgate moderno de sua produção corrige uma das maiores injustiças históricas da história cultural do Brasil.
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Fontes:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. 2. ed. rev. Brasília : Senado Federal, 2020. Publicada originalmente em 1903.
Biografia = Brasiliana Fotografica (Acervo da Biblioteca Nacional), Periodicos da UNESP, E-biografia, Brasil Escola, Wikipedia, Mundo Educação, etc.

Mário Quintana em Verso * 1 *

 

 A RUA DOS CATAVENTOS

VII

Avozinha Garoa vai contando
Suas lindas histórias, à lareira.
"Era uma vez... Um dia... Eis senão quando..."
Até parece que a cidade inteira

Sob a garoa adormeceu sonhando...
Nisto, um rumor de rodas em carreira...
Clarins, ao longe... (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)

Cerro os olhos, a tarde cai, macia...
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa...

E a chuva um'outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

VIII
Para Dyonélio Machado

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino.., acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

IX
Para Emilio Kemp

A mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: - ALEGRIA - RISOS
Depois do circo já ter ido embora!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

X

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!"
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.

"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"
Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XI

Contigo fiz, ainda em menininho,
Todo o meu curso d'alma... E desde cedo
Aprendi a sofrer devagarinho,
A guardar meu amor como um segredo...

Nas minhas chagas vinhas por o dedo
E eu era o Triste, o Doído, o Pobrezinho!
Amava, à noite, as luas de bruxedo,
Chamava o por-do-sol de meu padrinho...

Anto querido, esse teu livro "Só"
Encheu de luar a minha infância triste.
E ninguém mais há de ficar tão só:

Sofreste a nossa dor, como Jesus...
E nesta Costa d'África surgiste
Para ajudar-nos a levar a Cruz!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XII

Tudo tão vago... Sei que havia um rio...
Um choro aflito... Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...

O menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...

E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria, junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...

Eras tu... que, ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Mário Quintana (1906 – 1994)
MÁRIO DE MIRANDA QUINTANA foi um dos poetas mais queridos e traduzidos da literatura brasileira. Conhecido por sua simplicidade, ironia sutil e sensibilidade para as pequenas coisas do cotidiano, ele transformou o comum em poesia mágica. Nasceu em 1906, em Alegrete/RS, e faleceu em 1994 (aos 87 anos), em Porto Alegre/RS. Embora tenha nascido em Alegrete e estudado temporariamente em Curitiba, ele passou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Morou grande parte de sua vida adulta em hotéis, sendo o mais famoso deles o Hotel Majestic, no centro da capital gaúcha (espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana). Trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público. Passou por jornais importantes como O Estado do Rio Grande e o Correio do Povo, onde manteve por décadas a famosa coluna "Caderno H". Como tradutor renomado, verteu para o português obras de grandes autores mundiais como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Graham Greene.
Estreou oficialmente na literatura em 1940 com a publicação de A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos que foi muito bem recebida pela crítica. Ele nunca se casou e não teve filhos, dedicando sua vida quase que inteiramente às palavras e à observação poética do mundo. Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas não foi eleito em nenhuma delas. Ao ser convidado a se candidatar uma quarta vez com a promessa de unanimidade, ele recusou, imortalizando o episódio com o famoso "Poeminho do Contra" ("Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!"). Ele fez parte, no entanto, da Academia Rio-Grandense de Letras. Obteve Prêmio Fernando Chinaglia (1966) pelo livro Antologia Poética ; Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano (1980); Prêmio Machado de Assis (1980), concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Sua vasta produção literária incluiu poesia, prosa poética e literatura infantojuvenil. Entre suas principais obras destacam-se: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Caderno H (1973); Apontamentos de História de Galpão (1976); A Vaca e o Hipogrifo (1977); Esconderijos do Tempo (1980); Baú de Espantos (1986); Preparativos de Viagem (1987).
Mário Quintana ocupa um lugar único na literatura brasileira por sua capacidade de democratizar a poesia sem perder a profundidade. Ele rompeu com o formalismo rígido e aproximou o leitor de temas universais — como a morte, o tempo, a infância e o amor — usando uma linguagem fluida, bem-humorada e despretensiosa. Sua importância reside em ter humanizado a figura do poeta; ele provou que o lirismo não precisa ser erudito ou inacessível para ser genial. Quintana transformou a melancolia em beleza e a rotina urbana em arte, consolidando-se como o "poeta das coisas simples" e uma das vozes mais autênticas e atemporais da cultura nacional. 

Fonte:
Mário Quintana. A Rua dos Cataventos. Publicado em 1940.