sábado, 24 de outubro de 2026

Cézar Augusto Defilippo (Semeando trovas)

 

1
Ao rir demais, trouxe ao clima
um trompete e um contrabaixo:
risada aguda por cima
e um som mais grave por baixo!
2
Ao ver-te mãe, insegura,
percebo em meio à pobreza
que o teu olhar de ternura
tem muito mais de tristeza.
3
Ausente dos teus abraços,
a dor do adeus se faz tanta, 
que o nó desfeito dos laços 
ficou preso na garganta!...
 4
Canoeiro chora ao marco
da seca, drama do estio,
ao ver carcaças do barco
no leito seco do rio...
5
Calouro alto, parrudo,
veterano era baixote,
junto aos demais, feito o estudo,
preferiram não dar trote!
6
Carícia é o amor surgindo
numa rosa que insinua:
– Pétalas que vão se abrindo
feito mão pedindo a sua…
7
Casulo de inércias fartas,
de indecisões em virose,
a Terra, contém lagartas
que odeiam metamorfose.
8
Circo pobre, elenco escasso,
e o dono, maior artista, 
troca a roupa de palhaço 
e volta, de trapezista.
9
- Com outro!  Venha flagrar
a sua esposa, agarrada! 
E o marido, ao constatar: 
- Ora!  É o mesmo. Que outro nada!
10
Em fila, ao vento, caídas,
dá, num vai e vem, a impressão, 
que folhas secas, unidas, 
dançam balé pelo chão... 
11
Em teu corpo, aventureiro,            
vou desbravando horizontes,
adolescente, pioneiro,
por entre vales e montes…
12
É o povo que sofre o efeito
quando do poder advém 
excesso de desrespeito 
e crise de homens de bem. 
13
Feito a lua, minha amada,
faz de mim seu mar e – atrai
maré alta na chegada,
maré baixa quando vai…
14
Lanço a bomba do meu sonho,
ogiva de paz e amor, 
e o cogumelo medonho 
ganha formato de flor. 
15
Leitura bem decifrada,
ciúme é momento mudo...
Voz e gestos não são nada
quando os olhos dizem tudo!
16
Luar, viola e sertão
nos mostram com harmonia
como a própria solidão
precisa de companhia...
17
Mantenha equilíbrio e calma,
seja forte ante um desgosto.
Quem tem harmonia na alma
tem sempre um riso no rosto.
18
Mostra a vida, discrepância
na demência de meu pai,
- ele, que não teve infância,
hoje da infância não sai…
19
Muita gente sofre e chora
porque trocou sem receio
toda certeza do agora
por um depois que não veio.
20
Na boemia, no abandono,
de tanta dor eu suspeito 
que até saudade sem dono 
faz morada no meu peito. 
21
Na ingratidão que és capaz
tua conduta me diz:
- Não passo de um “tanto faz”
para alguém que eu tanto fiz...
22
Não seja precipitado,
torne o tempo bem vivido,
mais vale um antes pensado
que um depois arrependido...
 23
Na palhoça, o sol sutil,
ante o abandono na rede, 
vai trincando o teu perfil 
no reboco da parede…
24
Na roça, gritando à mãe,
guri, sem ducha ambiente:
- Eu já vô tomá meu bãe,
tráis o barde de água quente!!!
25
Nas crises emocionais
– conquisto em mim – nas batalhas,
reversões que valem mais
do que troféus ou medalhas...
26
Nos meus momentos inquietos
pelos desgastes da lida, 
tenho a doçura dos netos 
tirando o amargo da vida…
27
Ofendo... Tu te magoas,
mas por força da paixão, 
eu bem sei que me perdoas 
sem que eu te peça perdão. 
28
O meu ontem foi mentira...
Falsos sonhos... glória vã...
Mas meu fracasso não tira
a esperança do amanhã.
29
Pão e circo, o povo, um berro
contra o furto e a distinção,
sobram cortinas de ferro, 
nas mesas faltando o pão…
30
Paquerou por hora inteira,
viu na janela, afinal,
que a moça namoradeira
é boneca artesanal!
31
Pesquiso ao sofrer a acédia*,
encontro amparo e saída
em meu pai, enciclopédia
das sapiências da vida…
==========
Acédia é um substantivo feminino que significa uma condição de profundo desânimo, indiferença, abatimento físico e mental, ou tédio em relação aos deveres e à vida
32
Pior que o adeus, na leitura
de seu recado, magoa,
ver a sua assinatura
num texto de outra pessoa.
33
Por força das emoções
eu te abraço de tal jeito 
que sinto os dois corações, 
batendo em nós, num só peito... 
34
– Pra debaixo, vamos nóis!
Pegou malas e pertences;
quando ela disse: - Lençóis,
ele entendeu maranhenses!
35
Raízes... braços em coma
no mangue que já morreu,
buscam no barro o bioma
que o homem não protegeu.
36
Roça... Saudade tem asas...
Lembro a mãe  - que Deus a tenha - 
seu sopro, atiçando as brasas 
do velho fogão à lenha...
37
Sem seu pescador, a amada,
reconhece, após a cheia,
os destroços da jangada
que a maré deixou na areia…
38
Sem teto, à sombra do medo,
menina, a boneca alisa;
– dá carícias ao brinquedo
quem de carícias precisa.
39
Se o tempo – espelho sem aço –
me rouba a imagem e o brilho,
eu me vejo em cada traço
do rosto de cada filho.
40
Serve de exemplo na história
com grandeza habitual,
quem ao fracasso ou vitória
mantém a conduta igual!
 41
Sofre o revés mais que justo
quem da ambição não se esquece 
ao tentar a todo custo 
conquistas que não merece. 
42
Sou bonito, feito artista!
Diz gabando o Serafim. 
E a esposa muito sadista: 
- De cinema, o Rin Tin Tin.
43
Sozinho, meu caminhar,
mostra a razão mais sincera
se vivo sem regressar
é porque ninguém me espera.
44
Tendo a plástica da Estela
pele "daquele lugar",
vira e mexe a cara dela
tem vontade de sentar.
45
Teu corpo é tronco in natura
que meus olhos, dois formões,
ousam talhar na escultura
tua nudez e feições...
46
Teu corpo, tê-lo, sereia,
é sonho por desabar                     
feito escultura de areia
perto das ondas do mar…
47
Teu saber, mestre, em verdade,
tem a missão por igual:
– Nos bancos da faculdade
– Numa escolinha rural.
48
Urologista pôs medo,
matuto diz: - Não se zangue,
pelo tamanho do dedo
prefiro o exame de sangue!
49
Varrer o pé dá azar,
solteira, por precaução, 
sonhando ainda em casar 
só passa pano no chão. 
50
Velho espelho, corroído,
o tempo alterou meu clima
no rosto mal refletido
que já perdeu a autoestima…
51
– Volto já! Ouço calada,
teu amor é meu castigo, 
e eu me apego à madrugada, 
que espera a manhã comigo. 
52
Zigue-zague e me condenas
na BR feita aos cacos?
- Eu não bebo, estou apenas
desviando dos buracos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *    
Cézar Augusto Defilippo (1955)
CÉZAR AUGUSTO DEFILIPPO (também conhecido pelo pseudônimo e alcunha artística de Zé Gute) é um destacado advogado, jornalista, radialista, gestor cultural e renomado trovador brasileiro. Possui uma trajetória profundamente ligada à preservação e fomento da trova e da cultura regional em Minas Gerais. Nasceu em 1955, na cidade de Astolfo Dutra/MG, filho de Paschoal Defilippo e de Antônia Muros. Trabalhou por 25 anos como bancário, o que o levou a morar nas capitais Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Posteriormente, residiu por 16 anos em Juiz de Fora (MG) antes de retornar e se estabelecer definitivamente em sua terra natal, Astolfo Dutra. Atua solidamente como advogado, jornalista e radialista/apresentador sertanejo. Exerce papel de liderança pública em seu município, tendo atuado como Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo de Astolfo Dutra, coordenando a aplicação de leis de incentivo à cultura (como a Lei Aldir Blanc) e apoiando diretamente os agentes culturais da região. 
Sua trajetória oficial no mundo das trovas ganhou forte impulso em 1987, quando ingressou durante o período em que residia em Juiz de Fora. É um dos membros mais atuantes do movimento trovadoresco em Minas Gerais, servindo constantemente como coordenador e receptor de inscrições e integrando com frequência as Comissões Julgadoras de grandes concursos nacionais e internacionais de trovas. É detentor de inúmeros prêmios em Jogos Florais por todo o Brasil, destacando-se com o Troféu Revelação em Juiz de Fora e Troféu “Lilinha Fernandes” (2020), concedido em Porto Alegre. Sua produção literária está fortemente registrada em coletâneas, antologias oficiais de Jogos Florais
A importância de Cezar Augusto Defilippo reside na sua dupla função de criador e preservador. Como trovador, ele domina a técnica da trova, ajudando a manter viva essa tradicional e rica herança luso-brasileira. Como gestor cultural e jornalista trabalha nos bastidores para que novos poetas encontrem espaço para publicar, organizando concursos e garantindo o intercâmbio literário entre diferentes gerações de escritores no Brasil. 

Eduardo Martínez (O professor de matemática)

      Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.
            Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.
            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro cigarro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.
            - Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 
            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.
            A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.
            Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.
            As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 
            Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.
            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.
            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.
            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.
            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 
            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 
            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.
            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.
            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.
            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.
            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: "Prazer, sou o Olegário!”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 25.12. 2023
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Álvaro Posselt (Céu pela janela) * 4 *

A noite chega mais cedo e a luz dos postes dá um ar de tranquilidade à rua. De vez em quando os faróis dos carros brilham no asfalto, mostrando as gotinhas pelo ar. Na falta de um guarda-chuva, acelero os passos. O caminho se torna mais curto. Estar em casa é sempre confortante.

Rastros pelo chão —
Trago um pouco da garoa
pra dentro de casa
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Álvaro Posselt (1971)
O poeta ÁLVARO MARIEL POSSELT é um dos principais nomes da poesia contemporânea paranaense, reconhecido especialmente por sua maestria na arte do haicai. Nasceu em Curitiba/PR, em 1971. Curitibano "de raiz", nasceu, cresceu e sempre morou em Curitiba. Graduado em Letras, atuou durante anos como professor de Língua Portuguesa, trabalhando com revisões de texto, aulas particulares e ensino de português para estrangeiros. Posteriormente, deixou as salas de aula tradicionais para se dedicar integralmente à carreira literária e cultural. Atualmente, administra a Casa Posselt, seu próprio lar transformado em centro cultural independente em Curitiba. No espaço, ele acolhe o público em geral e turmas escolares para a realização de oficinas, rodas de leitura e debates. 
Embora tenha começado a escrever aos 16 anos, seu primeiro livro foi publicado quando le tinha 40 anos. Seu grande despertar para o haicai aconteceu em 2003, durante uma visita à [Biblioteca Pública do Paraná. O estilo breve e preciso da poesia japonesa tornou-se sua principal marca registrada. Na dinâmica do mercado independente onde atua, Álvaro foca sua carreira na circulação autônoma, feiras e projetos de revitalização urbana, não acumulando grandes prêmios literários institucionais de cunho competitivo, mas colecionando homenagens públicas na capital paranaense. Possui mais de uma dezena de livros publicados (vários deles focados no haicai e na literatura infantil). Entre seus principais títulos destacam-se: Tão breve quanto o agora (2012); Um lugar chamado instante (2013); Entre arranhões e lambidas — haicais & gatos (2014); Kaki (2015); Na sopa do sapo (2016); etc.

Fontes:
Álvaro Posselt (Verônica Fukuda, ilustradora). Céu pela janela. Curitiba/PR: Insight, 2023.. Enviado pelo autor.
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Cantinho do Frata (Num só suspirar)

Procurei no dicionário e me arrepiei: a definição de idoso é braba!
Veja o que diz: idoso é o que ou quem tem muitos anos de vida; velho. Até aí, tudo bem. Sabemos que não somos mais aquela "Brastemp", mas ao analisarmos os termos semelhantes ao velho, sentimos o bombardeio. Eis aí: idoso se assemelha a ancestral, anoso, antigo, antiquado, arcaico, avelhantado, bolorento, borocoxô, broco, caduco, carcomido, decrépito, embolorado.
Se procurarmos em outros dicionários; os Michaelis, Brasileiro da Língua Portuguesa, Caldas Aulete, Priberam, Houaiss, Aurélio e o dicionário de Sinônimos, encontraremos por nossa conta e risco outros sinônimos a nos colocarem pra baixo.
Aí, eu ergo a minha espada (que não é a do He-Man) – lembram-se dele? Pois é, lá se vão os anos... para dizer que não aceito esses termos que reputo pejorativos. 
Posso até ser ancestral, mas por descendência dos bravos italianos que abandonaram a fome na Itália para enfrentá-la no Brasil, e conviver com ela por bom tempo. Posso ser antigo (as minhas pregas de pele juntadas à calvície, as pintas que não plantei, os músculos transformados em gordura e os cabelos que caíram porque quiseram), o dizem. 
Posso aceitar ser antiquado, afinal, presenciei a mudança desse mundão com o Elvis, os Beatles, o Cauby, em um "momento primordial da história da música com quebras de paradigmas em relação à do passado, e com seu ritmo ascendendo e superando barreiras"; também a modificação da indústria fonográfica, as conquistas tecnológicas, o comportamento das pessoas em nivel universal, a transformação do comportamento social, dos direitos e dos costumes, da própria religião e da política.
Presenciei o homem indo à lua e voltando dela, os experimentos humanos, a clonagem de seres, e a indústria farmacêutica a ficar trilionária. 
E posso ainda, de cara amarrada, aceitar que o velho é broco (que palavra feia!), pois seu significado é ser bronco, abobalhado, sem vivacidade, aquele que é passado pra trás e não revida, por não conseguir fazê-lo.
Convenhamos: por ser idoso, não sou isso. Não mereço esses adjetivos pejorativos. Não mereço.
Meus amigos não se enquadram nessa definição, nem minha mulher que me acompanha nos acertos e nos erros com seus sorrisos e suas queixas. Nem sou ou me considero bolorento, borocoxô, caduco, carcomido, decrépito, embolorado.
Ainda penso, reflito e produzo; ainda sei dizer sim e dizer não, ainda sinto na boca o gosto adocicado da manhã em meio ao jardim florido, ainda piso em gramas verdejantes a sentir sua maciez e ainda vejo, mesmo com a visão turvada, nas curvas rebolativas da vizinha que passa a fazer desfeita a mim que, do banco do jardim, cuido a atirar pedras para que essas malditas maritacas não descasquem os fios da minha casa...
A não ser que esse deslize seja coisa de quem está decrépito...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Estante de Livros (“A loja de antiguidades”, de Charles Dickens)


1. CONTEXTO DA OBRA

Publicação e Recepção
- Publicada originalmente em fascículos, de 1840 a 1841, na revista Master Humphrey's Clock — formato que ditava o ritmo da narrativa, com capítulos que encerravam em momentos de tensão
- Iniciada com narrador em primeira pessoa (o próprio "Mestre Humphrey"), a obra migra para terceira pessoa, técnica que Dickens aprofundaria em romances posteriores
- O desfecho provocou comoção pública sem precedentes: multidões aguardavam em cais de Nova York o último fascículo, e a morte de Nell foi recebida como falecimento de uma pessoa real
- É uma das obras mais representativas do sentimentalismo vitoriano, ao mesmo tempo que expõe com crueza a miséria e a exploração na Inglaterra da época

Contexto Histórico
- Ambientada na Londres industrial e no interior inglês, retratando a miséria urbana, a desigualdade social e a fragilidade das famílias sem proteção
- A obra insere-se numa fase em que Dickens aprofunda a crítica social: denúncia da usura, do jogo, da negligência institucional e da degradação humana gerada pelo capitalismo descontrolado

2. ANÁLISE DAS PERSONAGENS

Nell Trent — A Inocência Perseguida
Protagonista moral; símbolo da pureza vitimada pelo mundo. Doce, corajosa, abnegada — protege o avô em vez de ser protegida. É criança, mas carrega responsabilidade de adulto; fragilidade física vs. força moral. Para alguns leitores, excessivamente idealizada; para outros, figura de compaixão universal. Sua morte não é derrota sem sentido: desperta bondade em quem a conheceu.

O Avô — Amor e Obsessão
Representa todos os avós, o pai de família vulnerável. Tem por motivação garantir segurança à neta — mas escolhe caminho ilusório: o jogo. Sua loucura gradual mostra que o desespero pode consumir o amor que o origina. Simbolicamente, é a sociedade que confia na sorte e na riqueza rápida em vez do trabalho honesto

Daniel Quilp — A Encarnação da Maldade
Um dos maiores vilões da literatura dickensiana: deformado fisicamente, também o é moralmente. Sádico, deleita-se em humilhar a esposa, aterrorizar devedores, perseguir os fracos. Não tem motivação "compreensível", o mal por si mesmo — o que o torna mais assustador. Afoga-se nas águas escuras, justiça poética. Na crítica atual, o recurso à deformidade física como marca de maldade reflete estereótipos hoje questionáveis.

Kit Nubbles 
Lealdade e retidão; recompensa da virtude comum. 

Dick Swiveller 
Evolução do desleixo à responsabilidade; prova que é possível redimir-se 

Sra. Jarley 
Bondade prática, mas limitada; ajuda, mas não pode salvar.

Família Garland 
Contraponto: lar estável, generosidade, proteção — o que Nell e o avô não tiveram.

3. TEMAS CENTRAIS

A Loja como Metáfora
- O espaço que dá título é símbolo vivo: objetos antigos, empoeirados, sem uso — representam uma sociedade que se apega ao passado e ao material, negligenciando o humano. A ruína da loja acompanha a ruína dos que nela habitam: quem só guarda coisas, perde as pessoas.

Inocência vs. Corrupção
- O contraste entre Nell e o mundo que a rodeia é absoluto: ela não se corrompe, mas não tem força para sobreviver. A obra levanta pergunta angustiante: por que o bem sofre e perece? A resposta de Dickens não é consolo fácil — a bondade transforma quem a testemunha, mesmo que não salve a vítima.

O Vício e a Falsa Esperança
- O jogo não é apenas defeito pessoal: é metáfora de sistema econômico que promete riqueza sem esforço. O avô não é vil, mas vítima de ilusão: crê que o dinheiro pode comprar segurança e afeto.
- A mensagem: confiar na sorte é abandonar a realidade — e a realidade cobra preço cruel.

Família e Desamparo
- Sem rede de proteção, os mais fracos ficam à mercê de agiotas, patrões desumanos e instituições omissas. A jornada de Nell é também denúncia: não há lugar seguro para criança sem família na Inglaterra vitoriana. O contraste entre a solidão do casal e os laços que se formam ao longo do caminho mostra que a comunidade pode ser abrigo — mas chega tarde demais.

Justiça e Redenção
- Quilp cai; Kit é absolvido; Dick Swiveller renasce — há ordem moral que se restabelece. Mas o preço é alto: os bons não vencem sem perda. A justiça existe, não devolve o que foi levado.

4. ESTILO E LINGUAGEM

      Tom = Alterna ternura e horror; melodrama vitoriano, mas com observação realista 
     Narrativa = Começa em primeira pessoa, transita para terceira — aproximação e distanciamento.
      Descrição = Detalhes sensoriais: o cheiro de mofo na loja, o frio da estrada, a luz doente no rosto de Nell.
       Personagens = Exagero deliberado — figuras que parecem desenhos vivos, para acentuar virtude ou vício. 
    Simbolismo = Cabelo, luz, sombra, caminho, repouso — cada elemento carrega peso emocional.

5. RECEPÇÃO E LEGADO

- Sucesso imediato: a morte de Nell comoveu leitores em todo o mundo; correspondência de personalidades e leitores comuns testemunha o impacto
- Crítica moderna: alguns apontam sentimentalismo excessivo e idealização de Nell; outros reconhecem a força da denúncia social e da compaixão
- A obra permanece essencial porque interroga sobre o preço de sermos bons num mundo que premia a astúcia
- A loja original, em Londres, tornou-se atração turística — prova de que a ficção se confundiu com a realidade

6. CONCLUSÃO

A Loja de Antiguidades é mais que uma história de lágrimas: é um espelho de sociedade. Dickens mostra que o que acumulamos em vida não são objetos, mas laços — e que quando invertemos a ordem, dando primazia à riqueza sobre o afeto, perdemos o que realmente importa. Nell não vence no mundo dos vivos, mas vence no que conta: deixa todos melhores do que os encontrou. É uma obra que dói, mas que também ensina: a bondade não é fraqueza — é a única coisa que, mesmo perdida, permanece.

7. SINOPSE COMPLETA

Parte I — A Loja
Nell Trent, uma menina de quase catorze anos e órfã, vive com o avô materno — cujo nome nunca é revelado — numa loja de objetos antigos e curiosidades em Londres. Os dois são muito apegados; Nell é dedicada e carinhosa, e seu único amigo é Kit Nubbles, jovem honesto que trabalha na loja e a quem ela ensina a escrever. O avô ama profundamente a neta e, temendo que ela venha a morrer na miséria como fizeram os pais dela, decide secretamente enriquecer através do jogo. Passa a sair todas as noites para jogar, mas perde sempre. Para continuar, contrai pesadas dívidas com Daniel Quilp, um agiota deformado, cruel e sádico. Quando o avô perde tudo o que restava, Quilp executa os empréstimos, apodera-se da loja e despeja os dois. O avô sofre um colapso mental; Nell, assustada mas corajosa, leva-o consigo e foge de Londres.

Parte II — A Jornada
Sem dinheiro e sem rumo, Nell e o avô percorrem vilarejos, feiras e cidades industriais do interior da Inglaterra. A menina cuida do avô, que vai perdendo gradualmente a lucidez; ela trabalha, pede ajuda e faz de tudo para mantê-lo seguro. Encontram pessoas generosas — como a dona de um museu de figuras de cera, Sra. Jarley, que a emprega temporariamente, e um mestre-escola que os acolhe — mas também enfrentam frio, fome e perigos. Em paralelo, Kit Nubbles, despedido por Quilp, consegue emprego com a bondosa família Garland e busca incansavelmente por Nell e o avô. Quilp, por sua vez, não desiste de persegui-los, contando com a ajuda de Fred, irmão de Nell, e de Dick Swiveller — que acreditam haver uma fortuna escondida e querem encontrá-la para se aproveitar.

Parte III — A Busca e as Intrigas
Dick Swiveller, inicialmente leviano e interessado apenas no dinheiro, vai amadurecendo aos poucos. Descobre um plano de Quilp e dos irmãos Brass para incriminar Kit por furto; com a ajuda de uma jovem criada da casa dos Brass — apelidada carinhosamente de "Marquesa" — consegue provar a inocência de Kit e desmascarar as mentiras. Entretanto, Quilp continua à solta. Um cavalheiro misterioso, que hospeda-se na casa dos Brass, revela ser o irmão do avô de Nell — ou seja, o tio-bisavô da menina — e há muito tempo procura o parente desaparecido. Reúne-se com Kit e organizam uma expedição para resgatar Nell e o avô, cujo paradeiro foi finalmente descoberto.

Parte IV — O Desfecho
Quando chegam ao vilarejo onde Nell e o avô se instalaram — numa casinha junto à igreja, onde Nell cuidava do jardim e do cemitério — já é tarde. Exausta pela jornada, pela fome e pelo desgaste, Nell falece. O avô, cuja razão já se fora, não compreende a morte da neta; senta-se junto ao túmulo dela, à espera de que volte, até que também ele adoece e morre. Quanto a Quilp, perseguido pela justiça e abandonado por todos, tenta fugir atravessando o rio Tâmisa e afoga-se. Dick Swiveller casa-se com a "Marquesa" e prospera; Kit é acolhido definitivamente pela família Garland e vive feliz. O tio-bisavô de Nell, embora rico, passa o resto da vida triste, visitando com frequência o túmulo da sobrinha-neta que não pôde salvar.

A obra encerra mostrando que a bondade de Nell, embora não tenha salvo a própria vida, tocou e transformou todos que a conheceram — um legado que sobrevive à morte.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Domingos Freire Cardoso (Semeando Trovas)

 

Além do horizonte temos
mais outro horizonte, além,
porque, por mais que sonhemos,
atrás de um sonho... outro vem!.

A maior felicidade
entre tantos desenganos,
é manter a mocidade
na alma ao correr dos anos.

A vida faz-se tecendo
finos elos que nos atam
aos sonhos que vão morrendo
e que, morrendo, nos matam...

Cada lágrima é cristal
puro, pequeno e brilhante,
com que me pagas o mal
que te causo a todo instante.

Em vai-e-vem de marés,
nessa valsa de salão,
teceram os nossos pés
enredos do coração…

Juntas, duas alianças,
no dedo da mão esquerda,
são permanentes lembranças
da minha infinita perda...

Levando vida tão crua,
com a fome pela frente,
qualquer criança de rua
vira adulto sem ser gente.

Nem o Tempo nem a História
vão lavar com seu perdão
a tortura da memória
das trevas da escravidão.

No meu relógio os ponteiros
são como dois namorados:
passa uma hora e, matreiros,
estão de novo abraçados...

Nossos corpos se entenderam
no samba, de tal maneira,
que nossas vidas nasceram
ao fechar-se a gafieira…

O meu lar é como um ninho
abrigando horas amenas
feitas de amor e carinho
e à mistura... algumas penas!

O riso na tua face
tão doce, puro, inocente,
é como luz que passasse
por um cristal transparente.

O silêncio inteligente,
próprio de quem tem razão,
pode ser mail eloquente
do que a mais sábia lição.

Pão nosso de cada dia
pedimos em oração
sem pedirmos a alegria
de a ninguém faltar o pão.

Perguntei ao coração
O que o fazia viver:
"Sonhos!... que só morrerão
Quando deixar de bater".

Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…

Quando chegaste ao portão
para saber quem batia,
batia o meu coração
que de saudades morria.

Roça: mata, fogo, chão,
Força, braço, homem, dor;
Plantas, flores, frutos, pão,
Terra, vida, infância, amor!!!…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Domingos Freire Cardoso (1946)
DOMINGOS FREIRE CARDOSO é um dos mais prestigiados poetas, trovadores e investigadores da cultura popular contemporânea em Portugal. Com uma técnica poética refinada e um profundo amor às suas origens, ele se destaca internacionalmente no movimento trovadoresco e no resgate da identidade linguística e histórica da região de Aveiro. Nasceu em 1946, em Chousa-Velha, em Ílhavo, Portugal. Passou a infância e a juventude na região de Ílhavo e Aveiro. Licenciou-se inicialmente em Física pela Universidade de Coimbra e, posteriormente, concluiu o curso de Engenharia Químico-Industrial no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, em 1971. Após iniciar sua carreira docente, fixou residência na cidade do Porto, onde passou a maior parte de sua vida madura. Embora diplomado em engenharia, descobriu sua verdadeira vocação no ensino. Atuou por mais de 30 anos como professor de Física e Química no ensino secundário de Portugal (iniciando no Liceu Nacional de Leiria e lecionando longamente no Porto), tendo se aposentado em 2007.
Seus laços com a escrita poética iniciaram-se ainda na juventude, mas foi no verão de 1983 que ele começou a participar intensamente de Jogos Florais e concursos literários. Tornou-se mestre na poesia de formas fixas (especialmente o soneto e a trova), aproximando-se fortemente de agremiações e movimentos de trovadores tanto em Portugal quanto no Brasil. Frequentemente convidado para academias e associações culturais lusófonas devido ao seu prestígio literário transatlântico. Ele também é membro ativo da Academia de Saberes de Aveiro (AEJE). É um dos poetas contemporâneos portugueses mais laureados em certames de trovas e poesia. Venceu e foi classificado dezenas de vezes em prestigiados Jogos Florais e concursos literários tanto em Portugal quanto no Brasil, onde é imensamente respeitado no meio trovadoresco. Sua obra engloba a poesia lírica e a investigação histórico-cultural: O Terceiro Vértice – Livro inteiramente dedicado à sua refinada produção poética; Pedras sem Tempo do Cemitério de Ílhavo (2012) – Uma detalhada pesquisa histórica baseada em atas camarárias e na evolução social da sua terra natal; Palabras co bento no leba (2018) – Uma monumental obra de resgate linguístico (com mais de 500 páginas e acompanhada de um CD áudio) que cataloga expressões típicas, ditos e o falar característico do povo de Ílhavo.
A importância de Domingos Freire Cardoso para a literatura lusófona consolida-se como uma ponte onde ele atua como um dos maiores embaixadores da trova portuguesa contemporânea no Brasil, ajudando a revigorar o intercâmbio literário da poesia de métrica rígida e redondilha maior entre os dois países. Através de suas pesquisas lexicográficas e históricas, Domingos combate diretamente a uniformização da língua e a erosão do tempo. Ao registrar os falares das gentes de Ílhavo, ele imortaliza a identidade cultural e a memória oral de sua região na literatura.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet e livro do autor) 

José Feldman (Fuzuê no Cartório)

O relógio do Cartório do 1º Ofício de Registro Civil marcava dez da manhã, mas o clima no salão de espera lembrava o desembarque de um aeroporto em véspera de feriado, combinado com a queima de estoque de uma loja de departamentos.

Três casamentos civis estavam agendados com intervalos de exatos dez minutos. Devido a um atraso crônico do juiz de paz — que, segundo boatos, tentava desatolar o carro de uma poça de lama —, a sala de recepção tornou-se um caldeirão de ternos apertados, estresses pré-nupciais e salgadinhos contrabandeados em bolsas de madrinhas.

Havia três núcleos distintos que, inevitavelmente, começaram a colidir:

1. O Casamento Tradicional-Ostentação: Comandado por Beto e Marcela. Ela usava um vestido sereia com uma cauda de três metros que funcionava como uma rede de arrasto para poeira e canapés.

2. O Casamento Rocker-Gótico: Estrelado por Igor e Trevas (nascida Cleide). Ambos de preto, com coturnos pesados e convidados que pareciam saídos de um filme do Drácula.

3. O Casamento Natureba-Hippie: Liderado por Cauã e Luna. Roupas de linho cru, coroas de flores naturais e um aroma persistente de incenso de sândalo que brigava com o perfume adocicado das madames.

— Alguém tira o salto daquela mulher de cima do meu véu! — sibilou Marcela, os dentes trincados, apontando para uma convidada gótica.

— Relaxa, noiva, tudo é energia — disse Cauã, oferecendo um sorriso pacífico enquanto tentava ajeitar sua guia de miçangas sobre a bata branca. — O espaço é público, o amor é livre.

— Livre vai ser a minha mão na sua cara se você não tirar esse cheiro de defumador de perto de mim! — retrucou o pai de Marcela, um senhor cujo pescoço já estava roxo de tanto que o colarinho o sufocava.

Nesse momento, as portas da sala de audiências se abriram de chofre. Um escrevente magro, com óculos na ponta do nariz e cara de quem não dormia desde 2014, gritou com a voz pastosa:

— Próximo casal! Documentos na mão! Rápido, que o juiz está faminto!

O que se seguiu foi o equivalente humano a uma manada de antílopes cruzando um rio cheio de crocodilos. 

O cerimonialista de Marcela empurrou um grupo; a mãe de Igor soltou um grito de guerra; as madrinhas de linho de Luna começaram a cantar um mantra para "limpar o ambiente". No empurra-empurra, o véu de Marcela enganchou no coturno de Igor, que tropeçou em Cauã, que caiu nos braços da mãe de Beto.

Quando a poeira baixou e a porta da sala de assinaturas se fechou administrativamente, o cenário lá dentro era de pura demência burocrática.

O escrevente, sem olhar para cima, batia carimbos como se estivesse jogando fliperama.

— Nome do noivo! — exigiu ele.

— Carlos Roberto, mas me chamam de Beto... — começou o rapaz do casamento tradicional, olhando em volta, atordoado. Ele percebeu, com um sobressalto, que a mulher ao seu lado não tinha três metros de cauda. Tinha mechas roxas no cabelo e um batom preto retinto. Era Trevas.

— Nome da noiva! — cortou o escrevente.

— Trevas do Apocalipse. Mas no RG tá Cleide Souza — respondeu a noiva gótica, achando graça da gravata borboleta rosa-choque de Beto.

— Ótimo. Assina aqui, assina ali. Testemunhas!

Duas pessoas deram um passo à frente. Uma era a tia carola de Marcela, segurando um terço de ouro; o outro era um rapaz com uma tatuagem de guilhotina no pescoço e três piercings no supercílio.

— Espera aí! — gritou Beto, tentando puxar a caneta. — Ela não é a minha Marcela! Cadê a Marcela?

Enquanto isso, no corredor, a verdadeira Marcela avançava furiosa contra a porta trancada, segurada pelo braço por... Igor.

— Me solta, seu morcego de terno! — bofetava ela. — Beto! Beto! Estão roubando meu marido!

— Moça, meu nome é Igor e você está pisando no meu pé — disse o gótico, calmamente, embora seu delineador estivesse borrando com o suor. — E, tecnicamente, quem me pegou pelo braço e me arrastou até aqui foi a sua mãe.

— O quê?! — A mãe de Marcela olhou para o rapaz de preto, depois para o terno que tinha escolhido para o genro. — Valha-me Deus, achei que o Beto tinha mudado de estilo de última hora para me provocar!

Do outro lado do saguão, Cauã olhava encantado para Luna, que por sua vez estava de mãos dadas com um padrinho de smoking que chorava copiosamente de nervoso.

— Olha, Luna, a sincronicidade do universo — filosofou Cauã. — Fomos separados pela correnteza do destino, mas nossas almas continuam vibrando na mesma frequência.

— Cauã, seu pateta, aquela ali na mesa do juiz assinando os papéis com o seu nome é a noiva do terno rosa! — gritou Luna, apontando pela fresta do vidro.

Lá dentro, o caos se oficializava. O escrevente, operando no mais puro modo automático de fim de expediente, já estava na terceira certidão.

— Então fica assim: Carlos Roberto casado com Cleide Souza. Cauã Silva casado com Marcela Albuquerque...

— O QUÊ?! — Marcela arrombou a porta com uma ombrada digna de um zagueiro de futebol, desmanchando o coque de três mil reais. — Eu casada com um bicho-grilo que cheira a capim-santo? Nunca! Beto, o que você fez?!

— Eu não fiz nada! Essa moça de preto assinou primeiro! — defendeu-se Beto, desesperado.

— Ah, agora a culpa é minha? — protestou Trevas. — Você que pegou na minha mão e disse "vamos logo que eu não aguento mais essa burocracia, meu docinho de coco".

— Eu achei que era a Marcela! Eu estava tão nervoso que nem percebi!

O juiz de paz, um senhor de oitenta anos que até então parecia cochilar acordado atrás da mesa, bateu com o martelo de madeira na mesa.

— Silêncio no tribunal... digo, no cartório! Quem está casando com quem aqui? Organizem-se em pares!

A tentativa de organização foi ainda pior. Como as testemunhas e padrinhos já tinham entrado misturados, ninguém sabia quem deveria assinar o livro de quem. O padrinho gótico acabou assinando como testemunha do casamento hippie, enquanto a tia carola de Marcela, em estado de choque, carimbou o dedão no documento do casal gótico.

— Pronto — anunciou o escrevente, limpando o suor da testa com um lenço encardido. — Já foi para o sistema.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala.

— O que foi para o sistema? — perguntou Beto, com a voz fina.

— O casamento de Carlos Roberto com Cleide Souza, e o de Cauã com Marcela. Parabéns aos noivos. Podem beijar... quem quer que seja que vocês casaram.

Marcela olhou para Cauã, que lhe ofereceu um ramo de arruda. Ela soltou um grito estridente, agarrou a cauda do próprio vestido como se fosse uma corda e começou a abanar o rosto. Beto olhou para Trevas, que deu de ombros e disse: "Se você curtir heavy metal, a gente pode tentar fazer funcionar".

— Tem como cancelar? — perguntou Igor, que ainda estava perto da porta, segurando o buquê de flores do campo de Luna.

— Só por processo de divórcio ou anulação por erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge — recitou o escrevente, finalmente sorrindo. — Mas a taxa do divórcio é o dobro. Próximo!

No final das contas, os três casamentos foram desfeitos e refeitos judicialmente ali mesmo, numa sessão extraordinária regada a muitas ameaças de processo, choro e duas fatias de bolo gótico que Luna aceitou comer porque "não continha glúten".
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)