sábado, 22 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 217 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ MACHADO STABILE
Uruguaiana/RS

A tua volta, querida,
é força que me renova;
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova!
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Soneto de 
ANALICE FEITOSA DE LIMA
Bom Conselho/PE, 1938 –, São Paulo/SP

Parece Tatuagem

Meu ser se incorporou à vida tua
de um modo tão incrível, tão seguro,
que eu tenho de deixar, mas continua
em ti minha esperança de futuro.

O meu apego tanto te cultua,
que o expresso em versos, rabiscando o muro.
E uma saudade ao meu redor flutua
enquanto no vazio eu te procuro.

Deixaste em meu viver enorme brecha
que sangra a todo instante e não se fecha,
porque a lembrança ao teu encontro vai.

Eu tento te esquecer mas não tem jeito.
E a tua imagem sufocando o peito,
parece tatuagem que não sai...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL MARIA RAMIREZ Y ANGUITA
Ponta Grossa/PR

Muito pouco significa
a amizade morna e muda.
Aquele que te critica
é sempre quem mais te ajuda.
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Poema de
FERNANDO PAIXÃO
São Paulo/SP

Aleijadinho

Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL JOSÉ LAMAS
Remoães/Portugal (1909 – 1973) Rio de Janeiro/RJ

Não vou além do que faço,
nem vou além do que digo.
Meu mundo está num abraço,
quando me abraço contigo...
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Poema de 
SÓLON BORGES DOS REIS
Casa Branca/SP

Contrários

 Alguém terá que ser o último,
para que sejas o primeiro.

E só serás proclamado o vencedor,
quando abaixo de ti houver vencidos.

Mas, o amor é mais generoso que a vitória.
Porque não se alimenta da derrota.
Nem está condicionado.
Absoluto, independe do contraste.
Só o amor prescinde dos contrários.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ERCY M. M. DE FARIA
Bauru/SP

Quis vingar “olho por olho”
e também “dente por dente”...
Mas, como, se era caolho
e a sogra só tinha um dente?!
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Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Escutar

Escuto o barulho dos tambores
no som dos homens trabalhando 
escuto o silêncio reservado do poeta
no alarido das crianças 
escuto o sentimento extravasado
no discurso do profeta
escuto o anoitecer no cão que late
ao pássaro no voo indelével
escuto o raspar da pedra sobre a pedra
ao escutar você e não escuto nada 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ESMERALDO SIQUEIRA
Pedro Velho/RN

Teu silêncio me exaspera.
por que estás sempre calada?
Pensas em mim? Quem me dera!
Talvez não penses em nada...
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Poema de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Todo o amor que não me tinhas

Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.

Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.

Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.

Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.

Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELISABETE AGUIAR
Mangualde/Portugal

No meu livro de memórias, 
guardo, com todo o recato, 
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
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Soneto de 
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Queria ser seu livro de cabeceira 

Sabe aquele livro que você tem o maior cuidado? 
E que volta e meia você o relé, e põe-se a refletir? 
Aquele que por nada e para ninguém é prestado? 
Aquele que você toca por ultimo antes de dormir? 

Sabe aquele livro no qual você viaja e lê entrelinha? 
Aquele que faz você preso, incondicional liberdade? 
Aquele que invade sua mente e seu coração aninha? 
Aquele com o qual você desabafa; é maior amizade? 

Sabe esse livro que é seu preferido, até tira a poeira? 
Esse que tem uma história que leva você às viagens? 
Esse que alivia seu estresse e lhe enche de bagagens? 

Então, queria muito de ser esse seu livro de cabeceira. 
Esse; precisamente esse que está sempre ao seu lado. 
Que carrega você desse mundo para outro encantado.
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Trova de
EPIFÂNIO DA FONSECA DÓRIA E MENESES
Tobias Barreto/SE (1884 – 1976) Aracaju/SE

A vida alheia respeite,
seja da paz sempre amante:
com rancores não se deite,
com ódios não se levante.
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Poema de 
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Algumas mudanças, nenhuma mudança 

Eu não deveria estar aqui! 
Mas estou! 
De pé diante de ti 
Com o olhar indignado! 
Mudo & Calado! 
Sem nada para te dizer... 
 
Eu não devia estar aqui! 
Deveria estar por lá fora! 
A gritar por liberdade. 
Da minha gente 
Do meu povo. 
 
Deveria estar na rua 
Em qualquer lugar 
E em todos os lugares. 
Mas não estou 
Estou diante de ti 
Mudo calado 
Sem nada para te dizer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELÍSIO DE SOUSA VASCONCELOS
Cametá/PA

Quando no rancho tu passas
a bailar alegremente,
ficas, Maria das Graças,
nas graças de toda gente.
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Poema de 
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Nasce o sol, outra manhã 
Se espreguiça, é novo dia 
E a morte, má, se anuncia 
No canto da acauã 
Ave de agouro, malsã, 
Que canta nossa desgraça 
Sobrevoando a carcaça 
Do boi que ontem era são 
Hoje inerte jaz no chão 
No pé do seco imbuzeiro 
O meu verso tem o cheiro 
Da poeira do sertão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

No jogo de apostas fartas
do mundo em que nós estamos,
a sorte embaralha as cartas
e nós apenas jogamos...
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Poema de
JOÃO FELINTO NETO 
Mossoró/RN

Gramatical

Só em letras imprimo minha alma.
Mais do que texto 
sou contexto indecifrável.
Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
 Um sujeito indefinido
 que é objeto de um erro
 gramatical.
 Entre modos e tempos,
 triste verbo
 que ecoa na forma nominal.
 Orações que são subordinadas
 aos meus vícios de linguagem.
 Um início em letras ordenadas
 e um fim
numa expressão oral.
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Aquele dia

Borboleta anil
que um louro alfinete de ouro
espeta em Abril
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Mensagem na Garrafa 212 = A meia-verdade

Imagem: IA Microsoft Bing

Relata-se o seguinte incidente envolvendo o profeta Maomé. O profeta e um dos seus companheiros entrou numa cidade para ensinar.

Logo um adepto dos seus ensinamentos aproximou-se e disse:

- Meu senhor, não há nada exceto estupidez nesta cidade. Os habitantes são tão obstinados! Ninguém quer aprender nada. Tu não irás converter nenhum desses corações de pedra.

O profeta respondeu bondosamente:

– Tu tens razão.

Logo depois, outro membro da comunidade abordou o profeta. Cheio de alegria, ele disse:

– Mestre, tu estás numa cidade abençoada. O povo anseia receber o verdadeiro ensinamento, e as pessoas abrem seus corações à tua palavra.

Maomé sorriu bondosamente e novamente disse:

– Tu tens razão.

– Ó mestre, – disse o companheiro de Maomé - tu disseste ao primeiro homem que ele tinha razão, e ao segundo homem, que afirmou o contrário, tu disseste que ele também tinha razão. Pois negro não pode ser branco.

Maomé respondeu:

– Cada um vê o mundo do jeito que espera que seja. Por que deveria eu refutar os dois homens? Um deles vê o mal, o outro, o bem. Tu dirias que um deles vê falsamente? Não são as pessoas aqui e em toda parte boas e más ao mesmo tempo? Nenhum dos dois disse algo equivocado, disseram apenas algo incompleto.

Laé de Souza (O grande diretor de teatro)


Faz tempo que não vejo o Ariolando. Pelos idos de 75, fizemos teatro juntos. Ator de pouca expressão, mas metido a diretor, palpitava em tudo quanto era peça que ensaiávamos. Meticuloso ao extremo. Em nosso grupo fazia sempre pequenas pontas, mas esnobava-se para os amigos, dizendo que sua participação era diminuta por sua própria imposição, vez que era mais necessário de fora, ajudando o diretor com opiniões e sugestões.

Aliás, gabava-se que o diretor era figurativo, já que na verdade era ele, Ariolando, quem dirigia o grupo. Afirmava que a sua participação, em cena, era mais para servir de calço a algum ator inexperiente, que sentia firmeza ao contracenar com alguém da categoria dele. Para um diretor, ter Ariolando como ator não era fácil e eu fui testemunha de muitos que perderam a cabeça entregando seus cargos.

Mas, enfim, num memorável dia, Ariolando reuniu todo o grupo e disse que, por falta de reconhecimento ao seu grande talento e, por prevalecerem ideias de incompetentes, renunciava e afastava-se de vez do grupo de teatro, desejando que fosse encontrado, para substituí-lo, alguém com pelo menos metade do seu gabarito.

Casou-se com a Dirolinda, que também teve uma passagem rápida pelo grupo, adquiriu o gosto por espetáculos. Eram sempre vistos nos teatros. Ela divertindo-se a valer, e ele sempre sisudo e observador. Quando questionado por ela sobre o texto, ele perguntava: “Que texto?” Desconcertada, ela complementava: “O enredo.” Ao que Ariolando caía de pau: “Com uma performance absurdamente fora do contexto, alguém do meu nível vai se ligar em enredo, mulher? Como se pode entender um desenrolar de cenas com uma direção estapafúrdia dessas? No meu tempo... Você nunca me viu dirigindo porque quando entrou, eu já estava saindo... Aliás, pelo seu teste, por mim nem teria entrado... Chamar esse pessoal de atores e aplaudir uma direção dessas é fazer Stanislavski mexer-se no caixão.

Diretor pior que esse, nunca vi em toda minha vida. Aquela cruzada de pernas, quando o homem sentou-se, tinha de demorar mais dois segundos; tinham de bater mais uma vez na porta, antes que ela fosse aberta; naquele cumprimento, tinha de apertar mais a mão e dar um pequeno balanço; quando o rapaz se dirigiu à janela, tinha de dar um tropeção para embelezar mais a cena e torná-la mais real; na cena da despedida, ao invés daquela luz branda, teria de ser forte e localizada no rosto da atriz, para que se percebesse a sua expressão. Ou, talvez, aí o diretor tenha sido bom, escondendo o despreparo de sua atriz, que só foi percebido por um expert como eu. Aquela cena de dirigir-se para a corda, demorou. Fração de segundos, é verdade, mas fugiu das boas técnicas.

Aquela personagem de cacoete, tinha de balançar um pouco mais a cabeça; na hora do adeus, a boca do ator tinha de se afunilar e ele estar virado para a lateral direita em direção à plateia. Como você queria que eu me ligasse em enredo, quando aconteciam erros crassos de direção, Dirolinda? Eu, como diretor desse elenco, não passaria ninguém como ator, porque eu conheço de longe quem interpreta com perfeição.”

Dirolinda só assentia com a cabeça.

Num belo dia, ao chegar em casa, Ariolando encontrou um bilhete da Dirolinda: 

“Ariolando, se você é um diretor tão bom, se conhece uma atriz de longe, por que não me reconheceu quando, ao teu lado, fingi o tempo todo te amar? Ou fui uma boa atriz? Adeus.”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

(Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018)

Luís Fernando Veríssimo (Os últimos quartetos de Beethoven)

A turma era apaixonada pela Livia. Todos os cinco. Livia lhes ensinara o “twist” e o beijo de língua. Livia usava brincos numa orelha só. Livia fora a primeira a fumar maconha e fazer tatuagem. Era Livia quem dizia o que eles deveriam ler, pensar e fazer, e não fazer. Foi da Livia a ideia do pacto de sangue para unir a turma até a morte. Seria um corte na palma da mão, depois decidiram que um corte num dedo produziria o mesmo efeito e não prejudicaria o desempenho da Livia no violoncelo. Um cortezinho no dedo, depois apertos de mão entre todos, finalmente seis mãos entrelaçadas num só nó sangrento, e o grito da Livia, “Até a morte!”. 

Mas o ritual acabara assustando em vez de unir mais a turma. O Maurinho, por exemplo, declarara que ficara nervoso com o sangue, que a Livia estava querendo puxar a turma para um lado escuro, que aquela coisa de líder e discípulos estava ficando séria demais, que eles não eram, afinal, apenas “a turma da Livia”, como os chamavam na escola, obrigados a seguir suas loucuras. 

Depois do pacto os cinco começaram a se distanciar, da Livia e uns dos outros. Continuavam indo a todas as apresentações de violoncelo da Livia e depois se reunindo no bar do seu Antonio, onde a Livia tomava cerveja preta com grapa para, como ela dizia, trazer de volta à Terra o espírito elevado pela música antes que ele evaporasse nas alturas. 

E a cara dos cinco ouvindo a Livia tocar violoncelo continuava sendo de adoração. “Embasbacados” era como o Lorival os descrevia. Os embasbacados da Livia. Mas o domínio da Livia sobre eles estava indo longe demais. O Maurinho foi o primeiro a desaparecer por completo depois do pacto de sangue. O Magro, o último. Suspeitava-se que o Magro era o único da turma que transara com a Livia e foi ele o último a acompanhar suas apresentações de violoncelo e depois ir beber, só os dois, no bar do seu Antonio, onde uma noite a Livia lhe dissera “Você também está dispensado”, decretando o fim oficial da amizade eterna. 

No fim não ficara nada da amizade, nem um vestígio, nem uma cicatriz, já que não tinham cortado a palma da mão. Foi cada um para um lado, sem saber que caminho obscuro levara Livia para longe deles, para outro Universo. Um dia, anos depois da formatura, anos depois do pacto, Maurinho encontrou-se com o Magro por acaso e perguntou se ele sabia por onde andava a Livia. O Magro não sabia. Não via mais nem seu nome no noticiário da música na cidade. Livia volatizara-se. Os dois brindaram a Livia batendo suas xícaras de cafezinho e dizendo “Linda!” “Linda!”. 

E que fim teria levado o resto da turma? Maurinho se comprometeu a reuni-los, se conseguisse localizá-los, para relembrar os velhos tempos. Talvez alguém tivesse notícia da deusa desaparecida. A verdade era que ninguém sabia muito a respeito dela mesmo quando se viam todos os dias. Ela era linda, ela lhes ensinava tudo o que sabia e eles não sabiam, mas nunca convidara a turma a subir ao seu apartamento quando iam buscá-la ou levá-la em casa, nem contara muito da sua família e da sua vida quando não estava com eles. Não sabiam onde ela conseguia maconha, e de onde tirava os livros que emprestava a quem prometesse lê-los e devolvê-los. Ela não contava e eles não perguntavam. Todos se contentavam em adorá-la sem fazer perguntas. 

Livia era Livia, as divindades não precisam contar os detalhes banais da sua existência. As divindades não precisam ter vida doméstica. Depois do encontro com Maurinho, Magro decidiu fazer o que deveria ter feito antes, investigar o desaparecimento da Livia, o que seria um pouco como investigar seu próprio passado. Estava entre empregos, tinha tempo de sobra. Ele também se assustara com o ritual de sangue, com o caminho que estava tomando aquela amizade, com a profundeza para a qual a Livia parecia querer atraí-los. Agora, anos depois, poderia encontrar a Livia sem medo, conviver com o mito sem o perigo de ser tragado pelo sumidouro. Procurou o edifício em que Livia morava. O porteiro ainda era o mesmo e se lembrava, sim, deles e da dona Livia, que vivia no quarto andar com o pai e a mãe. A mãe, dona Vitória, tocava piano. A mãe se suicidara. O pai, o porteiro não sabia. O seu José raramente saía de casa. Depois da morte da mulher tinha se mudado. Deixara tudo no apartamento do quarto andar, inclusive o piano da mulher. Mas não os livros, que levara para o novo endereço, caixas e caixas de livros. Não, o porteiro não sabia qual era o novo endereço. A dona Livia? O porteiro também nunca mais a vira. Gostava dela, apesar das suas esquisitices, das suas roupas malucas, dos brincos numa orelha só, do véu rendado que cobria o seu rosto quando ela saía à rua depois da escola. 

Magro deu uma risada. O véu! Ele se esquecera do véu. Quando Maurinho conseguiu reunir a turma, menos o Lorival, que fora viver em Curitiba, a primeira coisa que o Magro perguntou foi se todos se lembravam do véu.

— O véu! O que era mesmo que ela dizia? Que era para proteger não o seu rosto do sol, mas os outros da luminosidade do seu rosto. Uma luminosidade de santa.

— Dizia que não queria queimar a retina de ninguém.

— Agora estou me lembrando, ela dizia que tinha saído de um quadro do, como era mesmo?

— Boticelli. Era uma virgem luminosa do Boticelli.

— Metade do que ela dizia eu não entendia.

— Mas ela era linda.

— Ah, era.

— E você, Magro? Dormiu com ela ou não dormiu?

— Tá doido.

— Conta, Magro.

— Não pintou nada. Eu sou louco?

O Magro poderia dizer que chegara à beira do sumidouro, mas recuara. Não era louco.

— E vocês se lembram do pacto de sangue?

— O pacto de sangue... Até hoje eu não entendi o que ela queria com aquilo.

— O que ela esperava de nós...

O Magro contou que na última vez em que estivera com Livia ela dissera que ele estava dispensado. Tinha a permissão dela para também desaparecer, como os outros. Se a “turma da Livia” tinha uma missão a cumprir, tinha fracassado. Estavam todos dispensados. Livia desistira deles.

— Que fim terá levado?

Magro contou o pouco que sabia. O suicídio da mãe pianista, as caixas e caixas de livros do pai. E só. Também fracassara como investigador. Por ironia, foi Maurinho, o primeiro desertor, quem descobriu onde estava Livia. Por acaso. O primo de uma técnica em enfermagem que trabalhava numa clínica psiquiátrica contara que na clínica havia uma louca que tocava um violoncelo imaginário, e poderia ser a Livia. Alguém deveria ir visitá-la, para ter certeza. Só o Magro se animou. 

A clínica ficava num antigo casarão pintado de verde. Mesmo depois de tanto tempo, o Magro reconheceu o perfil da Livia, sentada perto de uma grande janela numa sala vazia e ensolarada. Não teve um choque com sua velhice, com seus cabelos desgrenhados ou com seu camisolão branco de tecido barato. Mas quase parou, emocionado, quando ela virou o rosto e viu que ele se aproximava, e sorriu — o sorriso era o mesmo! — e disse seu nome: “Felipe!” Ela se lembrava do seu nome! Ele curvou-se para beijá-la mas não conseguiu dizer uma palavra. Ela segurou sua mão e perguntou: “Como vão vocês?” 

Ele ainda demorou antes de poder dizer “Bem, bem” e depois mentir: “Todos mandam lembranças.” Depois ele foi buscar uma cadeira para sentar-se ao seu lado e ela pegou sua mão entre as suas outra vez e repetiu: “Felipe!” E disse que ele decididamente não podia mais ser chamado de Magro, e os dois riram, e o Magro teve que se controlar para que a risada não desandasse em choro. Perguntou se ela estava sendo bem tratada, se estava bem, se precisava de alguma coisa, e ela respondeu que estava ótima. Que tinha tudo que precisava. E tinha a sua música.

— Seu violoncelo está aqui?

— Não. Eles não deixaram. O que não quer dizer que eu não toque todos os dias.

E quando acabou de rir, ela disse:

— Até formei um quarteto de cordas. Ensaiamos sempre. Cada um com seu instrumento invisível, imagine só. Não é uma coisa de louco?

— São todos músicos?

— Não! A única música nesta casa sou eu. Os outros só fingem. Mas estamos progredindo. Vamos até dar um recital. Música para surdos, o que você acha? Vamos tocar exatamente o que Beethoven ouvia: nada. A sua música interna, a música da sua cabeça, um silêncio inconspurcado por sons. In-cons-pur-cado. O que você acha? Música sem a música para atrapalhar.

O Magro embasbacado.

Ela continuou:

— Lembra dos últimos quartetos de corda do Beethoven? Ninguém entendia o que ele queria dizer com aquilo, com aquela confusão, aquela quase cacofonia. Eu estou lhe aborrecendo?

— Não, não. Eu...

— Era diferente de tudo que Beethoven tinha feito até então. Ninguém entendia. Um pouco como o véu preto que eu usava para tapar o rosto, lembra? O que era aquilo? Loucura, só loucura. Era o que todo o mundo pensava.

— Nós não.

— Vocês também.

— Nós só achávamos... estranho.

— Era o que todo o mundo pensava dos últimos quartetos de Beethoven. Uma excentricidade. Uma coisa que não era para ser entendida, a não ser por ele mesmo, na sua reclusão de surdo. Mas não era isso. Os críticos também se enganaram. Mais tarde disseram que Beethoven estava, conscientemente, mudando o rumo da música. Que estava inaugurando a música moderna. Que o Beethoven dos últimos quartetos era o precursor direto de Schoenberg, de Stravinski, de Bela Bartok. E não era nada disso. Os quartetos não estavam começando nada, estavam terminando. Beethoven estava não só acabando com o período clássico como dizendo que a música racional não tinha mais para onde ir, que a própria racionalidade chegara ao fim. Ele mesmo não tinha mais para onde ir no mundo, a não ser para o seu exílio interior, para a sua loucura. A verdade é que os últimos quartetos de Beethoven não foram os últimos. Foram os penúltimos. Os últimos são os que nós tocamos. Ou fingimos que tocamos. Você quer ouvir?

— Como?

— Fique aqui. Daqui a pouco vamos ensaiar. No fim do dia. Agora me conte de vocês...

Naquela noite o Magro relatou a visita à Livia ao Maurinho. Contou que ao entardecer tinham chegado os outros três membros do quarteto, cada um arrastando uma cadeira e segurando um instrumento imaginário.

E tinham começado a fingir que tocavam, parando a intervalos para ouvir as correções e direções da Livia. Eram dois senhores e uma moça, todos de camisolão igual ao dela. Parecia um congresso de anjos. O apelido deles na clínica era “a turma da Livia”.

E o Magro contou que nunca vira uma expressão de felicidade como a do rosto da Livia tocando seu violoncelo invisível. Estava em outro Universo.

— Ela continua bonita?

— Linda. E o sorriso é o mesmo.

— Ela perguntou pela turma?

— Perguntou, perguntou. Queria saber tudo a nosso respeito.

Mas o Magro não disse ao Maurinho que se esforçara para encontrar alguma coisa para contar da turma. Algum sucesso profissional, alguma grande alegria, alguma notícia, por medíocre que fosse, que justificasse terem escolhido ficar no Universo de cá. E que, não encontrando nada para dizer, o Magro se vira, idiotamente, como se aquilo resumisse os feitos dos cinco, contando que o Lorival se mudara para Curitiba.
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(Luís Fernando Veríssimo. Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos. Publicado originalmente em 2013.)

Interlúdio * 22 *


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Teatro de Ontem e de Hoje (Como fazer uma peça de teatro) 1


COMPONENTES IMPRESCINDÍVEIS DE UMA PEÇA DE TEATRO
 
Uma peça de teatro é uma obra escrita para ser representada, então tem elementos próprios — sem eles, não existe texto teatral. Vamos separar em estrutura interna e elementos do texto:
 
a. Ação e Conflito —  O CORAÇÃO
 
É o mais fundamental de todos. Sem conflito não há teatro!
 
- Ação: o conjunto de fatos, comportamentos e mudanças que acontecem na história (o que se passa).

- Conflito: o choque entre forças opostas — desejo × obstáculo, personagem × sociedade, ele × ele mesmo… 
É o que faz a história avançar.
 
“O teatro não é só pessoas falando. É pessoas querendo algo e lutando para conseguir.”
 
b. Personagens — QUEM VIVE A HISTÓRIA
 
São os seres que realizam a ação. Precisam ter:
 
- Objetivo: o que cada um quer alcançar (motivação clara!)

- Relações: como se conectam entre si

Mesmo que seja um monólogo, precisa haver pelo menos um personagem — sem isso, não há peça.
 
c. Diálogo — A LINGUAGEM PRINCIPAL
 
É o veículo principal do teatro: o que os personagens dizem uns aos outros. Revela personalidade, avança a trama, mostra conflitos.
 
Inclui também monólogo (quando um só fala) e apartes (fala direta ao público, os outros não ouvem).
 
d. Estrutura Dramática — COMO SE ORGANIZA
 
Quase sempre segue essa sequência clássica:
 
1. Apresentação/Exposição: mostra quem são, onde estão, situação inicial

2. Nó/Conflito: o problema surge, a tensão sobe

3. Clímax: o momento de maior pressão — decisão ou acontecimento decisivo

4. Desenlace/Resolução: consequências e encerramento
 
e. Indicações Cênicas — O QUE O LEITOR/ATOR PRECISA SABER
 
São as instruções do autor, escritas fora das falas. Imprescindíveis no texto:
 
-Cenário e Lugar: onde acontece
-Comportamento dos personagens: entram, saem, sentam, gestos, tom de voz
-Tempo: época, hora do dia
-Elementos técnicos: luz, som, figurino — quando definidos pelo autor
 
f. Divisão em Partes — Formato Próprio
 
Todo texto teatral se divide em:
 
- Atos: grandes blocos da história (geralmente 1, 2 ou 3 atos)
- Cenas: muda quando entra ou sai um personagem — cada mudança = cena nova
- Em textos mais completos: pode ter Cena, Quadro e Episódio, mas Atos e Cenas são sempre presentes
 
g. Espaço e Tempo — ONDE E QUANDO ACONTECE
 
A história precisa se situar: não existe “em lugar nenhum, em tempo nenhum”. Pode ser um só local ou vários, um dia ou décadas — mas sempre definidos.
 
Resumo: Lista Curta — O QUE NÃO PODE FALTAR DE JEITO NENHUM
 1. Conflito / Ação dramática ⭐ — o mais essencial
2. Personagens
3. Diálogo / Fala
4. Estrutura (início → meio → fim)
5. Indicações cênicas
6. Espaço + Tempo
 
Diferença-chave: num romance o autor conta; numa peça o autor mostra por meio de falas e ações. Se faltar qualquer um dos 6 acima, vira texto narrativo — deixa de ser peça de teatro.
= = = = = = = = = = = = = =  
continua…

(A. I. Dola)

Anton Tchekhov (A princesa)

Pelo portão grande do mosteiro masculino de N ... entrou uma caleche (carruagem de dois assentos duplos) atrelada a quatro cavalos, bonitos, fartos; os padres regrantes e os noviços, reunidos junto da parte fidalga da pousada, reconheceram na pessoa dentro da caleche, ainda de longe, pelo cocheiro e pelos cavalos, a sua boa amiga, princesa Vera Gavrílovna.

O velho de libré saltou da boleia e ajudou a princesa a sair da carruagem. A senhora levantou o véu escuro e, sem pressas, aproximou-se de cada um dos monges para a bênção, depois, carinhosa, acenou com a cabeça aos noviços e foi na direção dos aposentos.

— Então, muitas saudades da vossa princesa? — perguntou aos monges que lhe levavam a bagagem. — Estive um mês inteiro sem vos visitar. Cá estou, agora, olhai para a vossa princesa. Mas onde está o padre arquimandrita (chefe do rebanho espiritual)? Meu Deus, estou a arder de impaciência! É um velho maravilhoso, maravilhoso! Devíeis orgulhar-vos por terdes um arquimandrita assim.

Quando entrou o arquimandrita, a princesa soltou um grito de admiração, cruzou as mãos sobre o peito e aproximou-se dele para a bênção.

— Não, não! Quero beijar-lhe a mão! — disse ela, agarrando-lhe na mão e beijando-lhe três vezes, ansiosamente. — Oh, padre santo, estou tão feliz por voltar finalmente a vê- lo! O padre, se calhar, já se tinha esquecido da sua princesa, mas eu, em imaginação, vivi a cada instante no seu querido mosteiro. Isto aqui é tão bom! Há um encanto tão especial nesta vida consagrada a Deus, longe do mundo das vaidades, padre santo, que eu sinto isso com toda a alma, mas sou incapaz de exprimi-lo em palavras !

As faces da princesa estavam coradas, os olhos marejados de lágrimas. Falava sem parar, com ardor, e o arquimandrita, velho dos seus setenta anos, sério, feio e acanhado, calava-se, só dizendo de vez em quando, entrecortadamente, à maneira militar:

— Sim, alteza... às ordens ... com certeza... compreendo...

— Por quanto tempo nos honrará com a sua visita? — perguntou o velho.

— Hoje durmo cá e, amanhã, vou visitar a Klávdia Nikoláevna (há muito que não nos vemos); depois de amanhã volto e fico mais três ou quatro dias. Quero descansar aqui a alma, padre santo ...

A princesa gostava de visitar o mosteiro de N ... Nos últimos anos afeiçoara-se tanto ao lugar que vinha quase todos os meses de Verão, ficava dois ou três dias, às vezes a semana inteira. Noviços tímidos, silêncio, tetos baixos, o cheiro a cipreste, refeições modestas, cortinas baratas nas janelas — tudo isto a enternecia e predispunha para a contemplação e os bons pensamentos. Bastava-lhe ficar meia hora nestes aposentos e já se sentia também tímida e modesta, já lhe parecia que também cheirava a cipreste; o passado afastava-se para longe, perdia o valor, e a princesa dava em pensar que, apesar dos seus vinte e nove anos, tinha muitas semelhanças com o velho arquimandrita e, tal como ele, não nascera para a riqueza, para as grandezas e o amor mundanos, mas para uma vida quieta, escondida do mundo, crepuscular como os aposentos ...

Acontece às vezes que na cela escura de um asceta mergulhado em oração espreita por acaso um raio de sol, ou pousa na janela um pássaro a cantar a sua canção; o severo asceta sorri involuntariamente, e no seu peito, sob o pesar doloroso dos pecados, como de sob uma pedra, jorra subitamente, como um ribeiro, a alegria sem pecado. Também a princesa parecia trazer consigo lá de fora a mesma consolação do raio de sol ou do passarinho. O seu sorriso alegre e simpático, o seu olhar meigo, a sua voz, as suas brincadeiras, em suma, toda ela, pequenina, bem feita, com um simples vestido preto, tinha de provocar nesta gente singela e rigorosa um sentimento de ternura e felicidade. Olhavam para ela e deviam pensar: «Deus mandou-nos um anjo»... E a princesa, sentindo em cada um esse pensamento involuntário, sorria com maior simpatia ainda, e tentava parecer um pássaro.

Depois de ter tomado chá e repousado, saiu a passeio. Já o sol se pusera. Dos canteiros monásticos soprou para a princesa a fragrância úmida da resedá acabada de regar, da igreja chegou-lhe o canto baixo das vozes masculinas que, assim de longe, parecia muito belo e triste. Era o ofício da noite. Nas janelas escuras em que apenas tremeluziam, meigas, as chaminhas de lamparinas, nas sombras, na figura do velho monge sentado no adro, ao lado do ícone, com a caneca das esmolas, havia tanta e plácida paz que a princesa sentiu vontade de chorar. ..

Atrás do portão, na álea entre o muro e as bétulas, ladeada de bancos, já descera o crepúsculo. Ia escurecendo rapidamente. A princesa passeou pela álea, sentou-se num banco e mergulhou nos seus pensamentos.

Seria bom instalar-se para sempre no mosteiro, pensava ela, onde a vida era serena e despreocupada como um anoitecer de Verão; seria bom esquecer-se para sempre do príncipe, ingrato e depravado, da fortuna enorme que era a dela, dos credores que a incomodavam todos os dias , dos infortúnios , da criada Dacha que ainda hoje de manhã estava com uma expressão impertinente na cara. Seria bom ficar sentada toda a vida neste banco e ver, por entre os troncos das bétulas, a neblina noturna a vaguear em flocos lá em baixo, no sopé do monte; as gralhas a voarem numa nuvem negra, como um véu, lá ao longe, muito longe, à procura de sítio para pernoitarem; dois noviços — um num cavalo malhado, o outro a pé — que levam os cavalos para o pasto noturno e, felizes da liberdade, brincam com as crianças; as suas vozes jovens ecoam sonoras no ar imóvel, é possível distinguir cada palavra. É bom ficar sentada escutando o silêncio: ora sopra um ventinho que afaga as copas das bétulas, ora o relógio do campanário, por trás do muro, tange os quartos de hora... Deixar-se ficar sentada, imóvel, a ouvir e pensar, pensar, pensar...

Ao lado passou uma velha com um bomal. A princesa pensou que seria bom mandá-la parar e dizer-lhe umas palavras de carinho, do fundo do coração, ajudá-la... Mas a velha nem uma vez virou a cabeça e dobrou a esquina.

Um pouco depois surgiu na álea um homem alto de barbas cinzentas e chapéu de palha. Ao passar pela princesa tirou o chapéu e fez uma vênia; pela sua grande calva e pelo agudo nariz de águia, a princesa reconheceu aquele doutor Mikhail Ivánovitch que, uns cinco anos atrás, trabalhara na sua propriedade de Dubóvki. Lembrou-se de alguém lhe ter dito que, no ano passado, lhe morrera a mulher, e quis exprimir-lhe as suas condolências, consolá-lo.

— Doutor, parece que não está a reconhecer-me? — perguntou, sorrindo com simpatia.

— Sim, conheci-a logo, princesa — disse o doutor, voltando a tirar o chapéu .

— Obrigada, pensava que também o doutor se tinha esquecido da sua princesa. As pessoas só se lembram dos inimigos e esquecem os amigos. Também veio cá em oração?

— Durmo cá todos os sábados, por obrigação. Dou consultas aqui.

— Então, como tem passado? — perguntou a princesa, suspirando. — Ouvi dizer que morreu a sua esposa! Que desgraça!

— Sim, princesa, para mim é uma grande desgraça.

— Não se pode nada contra isso. Temos de suportar as desgraças com submissão. Sem a vontade da Providência divina, nem um cabelo cai da cabeça do homem.

— Sim, princesa.

O doutor respondia com frieza e secura ao sorriso simpático da princesa: «Sim, princesa.» E a expressão do seu rosto era também fria e seca.

«O que mais lhe poderei dizer?», pensou a princesa.

— Há quanto tempo não nos víamos, realmente! — disse. — Cinco anos! Durante este tempo correram tantas águas, houve tantas mudanças, que até mete medo pensar nisso! Sabe, casei-me, era condessa e tomei-me princesa. E já tive tempo de me divorciar.

— Pois, ouvi falar disso.

— Deus tem-me enviado muitas provações! O senhor, com certeza, também ouviu dizer que estou quase arruinada. Para pagar as dívidas do desgraçado do meu marido tive de vender Dubóvki, Kiriakovo e Sófiino. Fiquei apenas com Baránovo e Mikháltsevo. É assustador olhar para trás: tantas mudanças, tantas desgraças , tantos erros !

— Sim, princesa, muitos erros.

A princesa ficou um pouco embaraçada. Conhecia os seus erros, mas eram todos tão íntimos que só ela podia pensar e falar neles. Não resistiu a perguntar-lhe:

— Que erros tem em mente?

— A senhora é que os mencionou, portanto, lá sabe ... — respondeu o doutor e soltou uma risadinha. — Para quê falar deles?

— Não, diga-me, doutor! Ficar-lhe-ia muito grata. E, por favor, não faça cerimônias comigo. Gosto de ouvir as verdades.

— Não sou seu juiz, princesa.

— Não é meu juiz? Com que tom me diz isso! Portanto, sabe alguma coisa. Diga.

— Está bem, já que assim quer. Lamentavelmente, não tenho o dom da palavra e nem sempre é possível fazer-me compreender.

O doutor pensou um pouco e começou:

— Os erros são muitos, mas, na minha opinião, o essencial deles, no fundo, é o espírito geral com que ... que reina em todas as suas propriedades. Como vê, não sei exprimir-me. Ou seja, o essencial é a falta de amor, é aquela repugnância pelas pessoas que se sentia praticamente em tudo. Era na base dessa repugnância que estava construído todo o seu sistema de vida. Repugnância pela voz humana, pelos rostos, pelas nucas, pelos passos ... numa palavra, por tudo o que constitui o ser humano. Em todas as portas e em todas as escadas estão os lacaios, sebentos, brutos e preguiçosos, de librés, para não deixarem entrar quem não estiver convenientemente vestido; o átrio está cheio de cadeiras de espaldares altos para que, nos bailes e nas recepções, os lacaios não sujem com as nucas o papel de parede; em todas as salas há tapetes felpudos para abafar os passos humanos; cada pessoa que entra é avisada, obrigatoriamente, de que tem de falar baixinho e o menos possível, que não pode dizer nada que possa ter um efeito desagradável na imaginação e nos nervos. No seu gabinete, não se estende as mãos às pessoas nem são convidadas a sentar-se, do mesmo modo que agora a senhora não me estendeu a mão nem me convidou a sentar...

— Se quiser, faça o favor! — disse a princesa, estendendo-lhe a mão e sorrindo. — Credo, ficar zangado por uma insignificância destas ...

— Por que pensa que estou zangado? — riu-se o doutor, mas logo a seguir exaltou-se, tirou o chapéu e, brandindo-o, pôs-se a falar com ardor: — Confesso que espero há muito pela oportunidade de lhe dizer tudo, tudo ... isto é, que a senhora olha para toda a gente à Napoleão, como se toda a gente fosse carne para canhão. Mas o Napoleão, ao menos, tinha uma ideia qualquer, e a senhora, além da repugnância, não tem nada!

— Com que então eu tenho repugnância pelas pessoas! — sorriu a princesa, encolhendo os ombros de espanto. — Eu!

— Sim, a senhora! Quer fatos? Eu dou-lhes! Na sua Mikháltsevo vivem por esmola três antigos cozinheiros seus que ficaram cegos nas suas cozinhas por causa do calor dos fogões. Tudo o que há de gente saudável, forte e bonita nas dezenas de milhares de “jeiras” (0,2 hectares) das suas terras é levado pela senhora e pelos seus vassalos para ser criadagem, lacaio, cocheiro. Todas essas criaturas bípedes foram educadas no servilismo, emporcalharam-se, enrudeceram, perderam a fisionomia humana, numa palavra... Distraem do seu trabalho os jovens médicos, agrônomos, professores, isto é, os trabalhadores intelectuais em geral, meu Deus, distraem-nos do seu trabalho honesto e obrigam-nos, pela fatia de pão, a entrar em farsas de marionetes que fazem vergonha a uma pessoa decente! Um jovem, em menos de três anos de serviço, toma-se hipócrita, bajulador, delator. .. Acha bem? Os seus feitores polacos, esses espias infames, todos esses Kazimierzes e Kaetanes, correm de manhã à noite pelas dezenas de milhares de jeiras e, para agradarem à senhora, tentam esfolar três vezes o mesmo boi. Peço perdão, falo sem sistema, mas não importa! O povo simples, para vós, não é de seres humanos. Mesmo esses príncipes, condes e prelados que iam visitá-la eram, para a senhora, elementos de cenário, não eram pessoas vivas. Mas o principal, o que mais me revolta, é a senhora ter uma fortuna de mais de um milhão e não fazer nada pelas pessoas, nada!

A princesa estava espantada, assustada, ofendida, sem saber o que dizer, como se comportar. Nunca antes lhe tinham falado neste tom. A voz irritada e irritante do doutor e a sua fala desajeitada e tartamuda produziam-lhe nos ouvidos e na cabeça um barulho agudo, tamborilante; depois já lhe parecia que o doutor, gesticulante, lhe batia com o chapéu na cabeça.

— Não é verdade! — disse baixinho, com súplica na voz. — Fiz muitas coisas boas pelas pessoas, o senhor mesmo sabe-o bem!

— Deixe-se disso! — gritou o doutor. — Será que continua a pensar que a sua caridade é uma coisa séria e útil, e não uma farsa de marionetes? É que isso, do princípio ao fim, sempre foi uma comédia, o jogo do amor pelo próximo, um jogo tão óbvio que até as crianças e as campônias estúpidas o compreendiam! Por exemplo, essa sua, como é? casa de acolhimento para idosas desamparadas, em que me obrigou a ser uma espécie de médico-chefe, sendo a princesa a tutora honorífica. Oh, Nosso Senhor dos Céus, que linda instituição! Construíram uma casa com soalho de parquê e um catavento no telhado, selecionaram pelas aldeias uma dezena de velhas e obrigaram-nas a dormir debaixo de cobertores de flanela, em lençóis de cambraia holandesa e a comer rebuçados.

O doutor soltou uma gargalhada maldosa para dentro do chapéu e continuou, titubeante mas rápido:

— Brincavam a isso, pois! A criadagem do asilo esconde os cobertores e os lençóis, fecha-os à chave, para as velhas não os sujarem: que durmam no chão, as velhas bruxas! A velhota não se atreve a sentar-se na cama nem a vestir um casaco, nem a andar pelo parquê encerado. Era tudo guardado para os dias de parada, escondido das velhas como dos ladrões, e as velhas, à socapa, angariavam a comida e a roupa a mendigarem uma esmola por amor de Cristo e, dia e noite, rogavam a Deus que pudessem fugir o mais depressa possível da prisão e dos sermões dos canalhas cevados a quem a senhora encarregara de as vigiar. E que faziam os empregados superiores? Uma maravilha! Duas vezes por semana, mais ou menos, ao anoitecer, chegavam a galope trinta e cinco mil estafetas a anunciar que no dia seguinte a princesa, ou seja, a senhora, estaria no asilo. Tal significava que no dia seguinte seria preciso abandonar os doentes , ataviar-se e ir assistir à parada. E pronto, eu ia. As velhas, vestidas de lavado e de novo, formam uma fila e ficam à espera. Ao longo desta formatura vai passando uma ratazana de guarnição reformada: o encarregado do asilo com o seu sorrisinho melífluo de delator. As velhas bocejam e trocam olhares, mas têm medo de se queixar. Esperamos. Chega a galope o subfeitor. Meia hora depois chega o feitor-chefe, depois o gerente do escritório de assuntos econômicos, depois mais alguém, e mais alguém ... um sem-fim deles! Todos com fisionomias enigmáticas e solenes. E nós esperamos, esperamos, mudamos de pé, olhamos para o relógio: tudo num silêncio mortal, porque todos nos odiamos mutuamente e estamos de mal uns com os outros. Passa uma hora, outra hora e, finalmente, avista-se ao longe uma caleche e ... e ...

O doutor desatou aos risinhos e articulou numa voz fininha:

— A senhora apeou-se da caleche, e as velhas, a um sinal da ratazana de guarnição, começam a cantar: «A glória do Senhor em Sião é incapaz a língua de exprimi-la...» Bonito, não é?

O doutor ria-se agora num tom de baixo, às gargalhadas, a abanar a mão como que a dizer que, assim a rir-se, não conseguia dizer palavra. Ria-se de um modo pesado, brusco, com os dentes apertados, como se riem as pessoas sem bondade, e pela voz, pela cara, pelos olhos brilhantes, descarados, percebia-se que desprezava profundamente a princesa, o asilo, as velhas. Não havia nada de cómico no que contava, tão desajeitada e grosseiramente, mas ria-se com prazer, mesmo com alegria.

— E a escola? — continuou, ofegando de riso. — Lembra-se de ter desejado dar aulas, a própria princesa, aos filhos dos mujiques? Pelo visto, dava-lhes umas aulas excelentes porque muito rapidamente todos os garotos fugiram, de maneira que, depois, foi preciso açoitá-los e dar-lhes dinheiro para que frequentassem as suas aulas. E lembra-se de ter desejado alimentar a biberão (mamadeira), pessoalmente, as crianças de peito que tinham as mães a trabalhar nos campos? A senhora andava pela aldeia a chorar porque não havia criança nenhuma dessas para seu serviço, uma vez que todas as mães as tinham levado com elas para o campo. Depois o regedor deu ordem às mães para que deixassem, de vez, um bebê para a senhora se divertir. Coisa de espantar! Toda a gente fugia, como o rato do gato, da sua benfeitoria! E porquê? É simples! Não porque o nosso povo seja ignorante e ingrato, como a senhora explicou nessa altura, mas porque em todas as suas fantasias, desculpe a expressão, não havia uma gota de amor nem de misericórdia! Havia apenas a vontade de se divertir com bonecos vivos, mais nada... Quem não sabe distinguir os seres humanos dos caniches não deve meter-se em obras de caridade. Asseguro-lhe que entre as pessoas e os caniches há uma grande diferença!

O coração da princesa batia terrivelmente, tamborilava-lhe nos ouvidos; continuava com a sensação de que o doutor lhe estava a martelar na cabeça com o chapéu. O doutor falava muito depressa, com ardor e sem graça, titubeava e gesticulava exageradamente; para a princesa apenas era claro que ali, à sua frente, estava a falar com ela um homem rude, mal-educado, maldoso e ingrato, mas o que pretendia esse homem e do que estava a falar — isso ela não compreendia.

— Vá-se embora! — disse numa voz lamuriosa, levantando as mãos para proteger a cabeça do chapéu do doutor. — Vá-se embora!

— E como a senhora trata os seus empregados! — O doutor continuava a indignar-se. — Não os considera seres humanos e despreza-os, como aos piores dos vigaristas. Por exemplo, permita que lhe pergunte: por que me despediu? Prestei os meus serviços durante dez anos ao seu pai, depois à senhora, honestamente, sem férias nem feriados, ganhei a afeição de toda a gente numa roda de cem “verstás” (*1,06 quilometros), e um belo dia, de repente, declara-me que já não há lugar para mim! Porquê? Até hoje ainda não percebi! Sou doutor em medicina, fidalgo, formado pela Universidade de Moscovo, pai de família, enfim, um zé-ninguém tão miserável e insignificante que se pode pôr no olho da rua sem lhe explicarem os motivos! Cerimônias comigo para quê? Vim a saber mais tarde que a minha mulher, às escondidas de mim, foi ter com a senhora por três vezes, para pedir por mim, e que a senhora não a recebeu nenhuma vez. Disseram-me que ficou no átrio, a chorar. Nunca perdoarei o que fez à minha defunta! Nunca!

O doutor calou-se e apertou os dentes, procurando com esforço mais qualquer coisa desagradável e vingativa para dizer. Lembrou-se e, subitamente, o seu ar carrancudo passou a radiante.

— Vejamos, por exemplo, as suas relações com este mosteiro! — disse, numa ânsia. — A senhora nunca poupou ninguém, e quanto mais sagrado é o lugar, tanto mais provável será que leve pela tabela grande da sua misericórdia e da sua meiguice angélica. O que vem cá fazer? O que precisa daqui, da casa dos monges, se me permite a pergunta? O que lhe interessa Hécuba, e que interesse tem Hécuba por si? Mais uma vez, isto é uma brincadeira para si, um capricho, o escárnio pela pessoa humana, mais nada. É que a senhora não tem fé no Deus dos monges, o seu coração tem o seu próprio deus, a quem chegou por sua própria conta nas sessões de espiritismo; olha para os rituais da Igreja com condescendência, não vai aos ofícios, nem noturnos, nem matutinos, dorme até ao meio dia... o que vem cá fazer, então? ... Vem ao mosteiro alheio com o seu próprio deus e imagina que o mosteiro considera isso uma grande honra para ele! Queria! A propósito, pergunte aos monges quanto lhes custam as suas visitas! Dignou-se aparecer cá hoje ao fim da tarde, mas já anteontem passou por cá um estafeta a cavalo mandado do escritório para avisar da sua visita. Ontem passaram o dia a preparar-lhe os aposentos e ficaram à espera. Hoje veio a vanguarda: uma criada de quarto descarada que não parava de correr pelo pátio, de fazer barulho, de incomodar toda a gente com perguntas, de mandar em todos ... detesto! Hoje, os monges estiveram todo o dia alerta: porque, se não for recebida com todo o cerimonial, será uma desgraça! Fará queixa ao bispo! «Saiba, reverendíssimo, que os monges não gostam de mim. Não sei como posso ter provocado a hostilidade deles. É verdade que sou uma grande pecadora, mas também sou tão infeliz!» Já um mosteiro teve sarilhos (confusão) por causa da senhora. O arquimandrita é um homem ocupado, um cientista, mas a senhora, volta e meia, chama-o aos seus aposentos. Não tem respeito nenhum pela velhice, nem pela reverência. Se ainda, ao menos, fizesse umas boas doações, já a coisa não seria tão ofensiva, mas nestes anos todos, nem cem rublos receberam de si! 

Quando alguém a incomodava, não a compreendia, a ofendia e quando não sabia o que devia fazer ou dizer, a princesa, habitualmente, começava a chorar. Também desta vez acabou por tapar a cara com as mãos e, num tom fininho e infantil, começou a chorar. O doutor calou-se de repente e olhou para ela. Ficou sombrio, a cara severa.

— Desculpe-me, princesa — disse numa voz surda. — Fui levado por maus sentimentos e exagerei. Está mal da minha parte.

Tossiu, embaraçado e, esquecendo-se de pôr o chapéu, afastou-se rapidamente da princesa.

No céu já cintilavam as estrelas. Do outro lado do mosteiro devia ver-se a lua, porque o céu estava claro, transparente e terno. Ao longo do muro branco do mosteiro voavam, sem barulho, os morcegos.

O relógio bateu pausadamente três quartos de hora, talvez o quarto para as nove. A princesa levantou-se e foi devagar até ao portão. Sentia-se ofendida e chorava, parecia-lhe que as árvores, as estrelas e os morcegos tinham todos pena dela; e que, se o relógio dera as horas tão melodiosamente, fora para lhe exprimir compaixão. Chorava e pensava que seria bom entrar no mosteiro para toda a vida: no calmo crepúsculo estival, passearia sozinha pelas alamedas, ofendida, insultada, mal compreendida, e então só Deus e o céu estrelado veriam as lágrimas da sofredora. Na igreja prosseguia ainda o ofício noturno. A princesa parou e pôs-se a escutar o canto: que bem soava no ar escuro e parado! Que doçura chorar e sofrer ouvindo este canto!

Ao entrar nos seus aposentos, olhou no espelho o seu rosto banhado em lágrimas e pôs pó-de-arroz, depois sentou-se para jantar. Os monges sabiam que ela gostava de esturjão em vinagre, de cogumelos minúsculos, de vinho de Málaga e de doces de mel simples que deixam na boca o aroma do cipreste; então, sempre que a princesa vinha, serviam-lhe tudo isso. Comendo os cogumelozinhos e acompanhando-os de Málaga, a princesa sonhava que ficaria definitivamente arruinada e abandonada, que todos os seus feitores, gerentes, escriturários e criados, por quem tinha feito tanto, a trairiam e começariam a ser malcriados com ela, que todas as pessoas do mundo a atacariam, troçariam dela, usariam de má-língua para com ela; que abdicaria do seu título de princesa, do luxo e da vida em sociedade, que iria para o mosteiro e não diria a ninguém qualquer palavra de ressentimento; que rezaria pelos seus inimigos e, então, toda a gente a compreenderia, viria pedir-lhe perdão, mas já seria tarde ...

Depois do jantar ajoelhou-se no canto, diante do ícone, e leu dois capítulos do Evangelho. A seguir, a criada fez-lhe a cama e a princesa deitou-se. Espreguiçando-se debaixo do cobertor branco, suspirou doce e profundamente, como se suspira depois do choro, fechou os olhos e começou a ser levada pelo sono. ...

De manhã acordou e olhou para o seu reloginho: nove e meia. Estendia-se ao longo do tapete de cama uma estreita e claríssima faixa de luz que caía da janela e alumiava tenuemente todo o quarto. Por trás da cortina escura da janela zumbiam as moscas.

«É cedo!», pensou a princesa, e fechou os olhos.

Na cama, espreguiçando com moleza, lembrou-se do encontro com o doutor e de todos os pensamentos que tivera antes de adormecer; lembrou-se de que era muito infeliz. Depois vieram-lhe à memória o marido que vivia em Petersburgo, os feitores, os médicos, os vizinhos, os funcionários públicos seus conhecidos ... Uma longa fila de rostos masculinos familiares esvoaçou pela sua imaginação. Sorriu ao pensar que, se todas essas pessoas pudessem penetrar na sua alma e compreendê-la, cairiam todas aos seus pés ...

Às onze e um quarto chamou a criada.

— Vamos, Dacha, anda vestir-me — disse em voz lânguida. — Não, vai primeiro mandar atrelar os cavalos. Tenho de ir visitar a Klávdia Nikoláevna.

Saindo dos aposentos e dirigindo-se para a carruagem, teve de apertar os olhos por causa da luz do dia brilhante e riu de prazer: o dia estava admirável! Observou com os olhos piscos os monges que se tinham reunido à entrada para se despedirem dela, acenou-lhes carinhosamente com a cabeça e disse:

— Até breve, meus amigos! Até depois de amanhã!

Ficou agradavelmente surpreendida ao ver também o doutor à entrada, misturado entre os monges. A cara dele estava pálida e severa.

— Princesa, — disse ele, tirando o chapéu e sorrindo com uma expressão de culpa - há muito que estou aqui à sua espera. Perdoe-me, por amor de Deus ... Um sentimento mau, vingativo, levou-me ontem a dizer-lhe ... asneiras. Numa palavra, peço desculpa.

A princesa sorriu com simpatia e levou a sua mãozinha aos lábios dele. O doutor beijou-lhe e corou.

Imaginando-se um passarinho, a princesa pousou na carruagem e acenou com a cabeça para todos os lados. Tinha a alma cheia de alegria, luz e ternura; ela própria sentia que o seu sorriso estava extremamente carinhoso e meigo. Quando a carruagem se pôs a rolar na direção do portão, depois pelo caminho poeirento, passando ao lado das isbás (casa de campo na Rússia) e dos pomares, ao lado dos compridos comboios de carroças com mercadorias e dos peregrinos que iam em fila para o mosteiro, ainda a princesa estreitava os olhos e sorria docemente. Pensava que não havia maior prazer no mundo do que transportar sempre consigo, para todo o lado, a alegria, a luz e a ternura, perdoar as ofensas e sorrir com carinho aos inimigos. Os mujiques que vinham em sentido contrário faziam-lhe vênias, a caleche fazia um barulhinho rocegante (arrastado), de sob as rodas levantavam-se nuvens de poeira que o vento levava para os campos de centeio dourado, e parecia à princesa que o seu corpo não balançava entre as almofadas da caleche, mas sim entre as nuvens, e que ela própria se assemelhava a uma nuvem levezinha, transparente ...

— Que feliz eu sou! — sussurrava, de olhos fechados. — Que feliz!
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(Conto publicado originalmente em 1889, no Jornal russo Novo Tempo)