domingo, 28 de junho de 2026

Asas da Poesia * 196 *


Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Velhos sonhos resgatei,
buscando a sobrevivência,
e nos versos me amparei
para cantar uma ausência.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Migalhas
 
Que mais desejas, afinal, que eu faça
pra ter por meu o que de ti não tenho,
se já cansado estou com tanto empenho
de haurir de ti a mais suprema graça?
 
Há quanto tempo mendigando eu venho
um pouco mais que esta ventura escassa!
Do amor apenas pingos pões-me à taça
que eu sorvo ao jugo de pesado lenho!
 
Somente a um outro, nas liriais toalhas
da mesa de Eros serves tua paixão,
mesa em que, pródiga, teus bens espalhas!
 
E ali enjeitado, a farejar o chão,
o meu amor vive a lamber migalhas
que tu lhe atiras qual se fora a um cão!
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Aldravia de
BEGOÑA MONTES ZOFIO
Madri/Espanha

a
rede
continua
balançando
o
ar
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Soneto de
VICÊNCIA JAGUARIBE
Fortaleza/CE

Soneto Azul

A Terra é azul! – Informou o astronauta.
Azul também é o pássaro da felicidade.
Azuis são os sonhos da primeira idade
E azuis as mensagens do divino arauto.

Azuis eram os olhos de minha mãe falecida
Que não acreditava no pássaro da felicidade.
Azul também é a cor da imaterialidade
Azul devia ser também a aventura da vida.

No azul me diluo para despistar o inimigo.
De azul me visto e fujo do perigo.
São azuis as notas do Danúbio Azul.

Azul, a fada a quem Pinóquio enterneceu.
Para o azul queremos ir após o último adeus.
Está tudo bem? Dizemos está tudo azul.
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Trova Premiada de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombro os fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos…
e eis-me a sonhar outra vez! 
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Poema de
LYA LUFT
(Lya Fett Luft)
Santa Cruz do Sul/RS, 1938 - 2021, Porto Alegre/RS

Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.
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QUADRA POPULAR

Você diz que amor não dói?
Dói dentro do coração.
Queira bem e viva ausente,
veja lá se dói ou não...
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Soneto de
HORÁCIO PORTELLA
Piraquara/PR, 1934 -2012 

A Marcha do Tempo

Sem pressa as horas passam uma a uma,
escorrem para o túnel do passado,
– não se consegue segurar nenhuma -
pois cada qual já deu o seu recado.

Para a memória humana resta a bruma
que pode dar prazer ou desagrado.
Querendo nós ou não assim se esfuma
a vibração do tempo – este é seu fado.

Essa rotina segue sem descanso,
no transcorrer sutil da eternidade,
num caminhar tranquilamente manso.

Assim também os versos do soneto
vão no papel deixando a novidade
envelhecer no último terceto.
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Trova de
NATAL MACHADO
Brasília/DF

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
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Poema de
JÚLIA DA COSTA
Paranaguá/PR, 1844 – 1911, São Francisco do Sul/SC

Sonhos ao Luar

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Serás por acaso o eco
De meu triste cogitar?...

Eu também amo a saudade
Que me inspira a solidão;
Amo a lua que me fala
Do passado ao coração.

Como tu choro uma noite
De luar que se ocultou;
Como tu choro a esperança
De uma aurora que passou.

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Quem és tu que na minh’alma
Vens de manso dedilhar?...

Serás inda a sombra errante
De uma noite que morreu?...
Meigo raio de ventura
Que em meu seio se escondeu?...

Quem és tu? Dize quem és
Branca sombra lá do céu!
Dize o nome do teu canto
Que eu dir-te-ei quem sou eu!
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Haicai de
FERNANDO VASCONCELOS
Diamantina/MG, 1937 -2010, Ponta Grossa/PR

Arrulhos no galho: 
Rolinhas embevecidas 
Em prosa de amor. 
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Sextilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

O céu deve ser assim:
um jardim onde as avós
e as mães e os anjos do bem,
em coro, numa só voz,
pedem mil bênçãos a Deus
todo o tempo para nós.
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Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN
.
Do fogo no matagal,
na fumaça que irradia,
vejo um câncer terminal
no pulmão da ecologia!...
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI 
Catanduva/SP

MOTE: 
Tu vieste qual guarida
dando sentido ao meu passo.
E passaste em minha vida
qual nuvem, sem deixar traço. 
J. B. Xavier 
(São Paulo /SP)

GLOSA: 
Tu vieste qual guarida 
desde o Plano Superior; 
antes mesmo de nascida, 
incrustavas-me de amor. 

Filha amada, tu chegaste 
dando sentido ao meu passo. 
Eu nem sentia o desgaste 
diante de algum embaraço. 

Por força preconcebida, 
deixaste-me abruptamente. 
E passaste em minha vida 
qual um raio, de repente... 

Não me cabe lamentar, 
esse rude descompasso, 
pois tinhas que aqui passar 
qual nuvem, sem deixar traço.
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Aldravia de
LUIZ GONDIM
(Luiz Gondim de Araújo Lins)
Rio de Janeiro/RJ

fui
letra
depois
palavra
agora
oração
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Soneto de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ

Visões

Faço um esforço pra lembrar teu rosto,
mas apenas uma nuvem me aparece,
como se a encobrir todo o desgosto
daquilo que passou e não se esquece.

Ainda há pouco eu conseguia ver-te,
mas os contornos foram se apagando,
junto com a esperança de ainda ter-te,
mesmo que, como antes, eu chorando.

Não sei se agradeço o esquecimento
de como era teu rosto, ou se lamento
pois foi parte importante do passado.

Mas creio que ainda seja bem melhor
outro rosto procurar guardar de cor
do que querer restaurar esse, borrado.
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Trova Premiada de
SÉRGIO FERREIRA DA SILVA 
(São Paulo/SP)

Toda paixão se assemelha
à palha, por um detalhe:
basta uma simples centelha,
para que a chama se espalhe…
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Poema de
ODAIR ROBERTO DA SILVA
Ubiratã/PR

Amazônia

Oh! Pobre Amazônia!
Berço esplêndido de beleza infinda
Quanto tempo de vida terás ainda?
Teus sequazes predadores não pensam na dor
Que tua destruição provoca em nosso corações.
Humilde berço de um flamejante amor
Galhardeando em tuas razões.

Oh! Linda Amazônia!
Gáudios tempos foram aqueles áureos dias,
Quando a devastação tu ainda não sofrias
E em teu seio reinava a fulgente harmonia natural.
Doiravas ao sol, estrela de imponente ardor.
Deitavas as planícies, esbelta riqueza tropical,
Sonhavas teu futuro num meio de paz e amor.

Oh! Pobres diabos!
Aqueles que em ti cavam a própria sepultura!
Patrimônio da humanidade, berço de tanta agrura.
Falazes homens de monstrengas almas
A podar em ti a vida em seu porvir.
Quando na destruição de tua existência não te acalmas.
Pobres demônios vêm de tua morte rir.

Oh! Amazônia!
Passado, Presente e futura.
Vingarás um dia esta realidade dura.
Teus assassinos pagarão dobrado.
Quando na eternidade repousando estiveres,
Encurralados pagarão o alto preço de um pecado,
Chorando ante às memórias de teus caracteres.
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Triverso de
SANDRA REGINA BENATO
Botucatu/SP

vento gelado -
engana o céu sem nuvens
sobre o telhado
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Setilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

O Vírus e o Trovador!
 
Graças a Deus, que botou
um vírus que se irradia
no meio dos Trovadores,
dia e noite, noite e dia,
um vírus que bem comprova
a qualidade da trova
da nossa "trovadoria"!
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Trova de
GÉRSON CÉSAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Foi com pregos de desgosto
que a saudade, do seu jeito,
pôs retratos do teu rosto
nas paredes do meu peito...
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Hino de 
Caicó/ RN

Co’ o vaqueiro da prece lendária
Surge o manto do amor de Sant’Ana
Caicó, jovial centenária
Que os seus filhos queridos ufana.

Pela voz das cachoeiras
“Barra Nova” e “Seridó”
Cantam cantigas de inverno
Saudações a Caicó.

Caicó das missões do Rosário
De alvoradas em belas manhãs
Sê tranquila no teu centenário
Como às águas tranquilas do Itans.

Teu berço de duras rochas
Te fez forte, Caicó
E o trabalho te elegeu
A rainha do Seridó.

Teus bovinos que longas manadas
Se apresentam nos vales e serras
Simbolizam as lides passadas
Na conquista penosa das terras.

Quadro de luta e letras
Inteligência e civismo
Nunca um filho teu negou
Tributo ao patriotismo.

Atalaia do alto sertão
Não se vencem cruéis empecilhos
Caicó eis farol e instrução
Aclamando os talentos dos filhos.
 
Terra de luz e calor
Fibras longas do mocó
Óh rainha centenária
Coração do Seridó.
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Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Música

meu corpo canção
em acordes se afina
tocado por teus olhos
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Soneto de
ANTÓNIO BOTTO
Concavada/Abrantes/Portugal, 1897 – 1959, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

Casar, mas para quê, se o casamento 
Não significa o verdadeiro amor? 
E se ele existe – seja como for, 
Deixa de ser amor nesse momento. 

Leva-se a vida, então, no sofrimento 
De um conflito movido no torpor 
Que amortece o respeito e esse pudor 
Necessários ao lar e ao sentimento. 

Com pequenas e raras exceções 
O homem e a mulher andam no mundo 
Ao sabor das mais loucas tentações... 

E, mutuamente, embora não pareça, 
Desejam ambos libertar-se a fundo 
Ou esperam que a morte os favoreça.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!
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Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

A cigarra e a formiga

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.

«Amiga, — diz a cigarra —
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh, bravo! — torna a formiga;
Cantavas? Pois dança agora!»
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Mensagem na Garrafa 191 = O Pãozinho

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Há muitos anos, houve uma grande fome na Alemanha, e os pobres sofriam muito. Um homem rico, que amava crianças, chamou vinte delas e disse:

¾ Nesta cesta há um pão para cada um de vocês. Peguem e voltem todos os dias, até passar esta época de fome. Vou lhes dar um pão por dia.

As crianças estavam esfomeadas. Partiram para cima da cesta e brigaram pelos maiores pães. Nem se lembraram de agradecer ao homem que tivera tanta bondade com elas. 

Após alguns minutos de  briga e avanço nos pães, todos foram embora correndo, cada um com seu pão, exceto uma menininha chamada Gretchen. Ela ficou lá sozinha, a pequena distância do homem. Então, sorrindo ela pegou o último pão, o menor de todos, e agradeceu de coração.

No dia seguinte, as crianças voltaram e se comportaram pior do que nunca. Gretchen, que não entrava nos empurrões, ficou só com um pãozinho bem fininho, nem metade do tamanho dos outros. Porém quando chegou em casa e a mãe foi cortar o pãozinho, caíram de dentro dele seis moedas bem brilhantes de prata.

– Oh, Gretchen! - exclamou a mãe. Deve haver algum engano. Esse dinheiro não nos pertence. Corra o mais rápido que puder e devolva-o ao cavalheiro!

E Gretchen correu para devolver, mas, quando deu o recado da mãe, o senhor lhe disse:

– Não foi engano nenhum. Eu mandei cozinhar as moedas no menor dos pães, para recompensar você. Lembre-se de que as pessoas que preferem se contentar com o menor pedaço, em vez de brigar pelo maior, vão encontrar muitas bênçãos bem maiores do que dinheiro dentro da comida.

Renato Benvindo Frata (Themistoklis, o médico)


A tarde era quente e havia poucas pessoas na plataforma da estação. Eu terminara de engraxar o último par de sapatos do dia e já me preparava para voltar quando um homem de certa idade, corpulento e com a voz enrolada, perguntou-me num mal português sobre uma pensão. Vestia-se de branco, inclusive os sapatos, e trazia sobre os ombros, escorridos pelo peitoral, um cordão de borracha que mais tarde descobri ser um estetoscópio. Indiquei com o dedo e lhe disse que iria naquela direção, ao que ele me passou a mala menor, pesada e ergueu a maior, supostamente de roupas, colocando-a no ombro.

Com a caixa de engraxar e a mala dele, seguimos. No caminho, disse-me se chamar Themistoklis, era médico e procurava lugar que o abrigasse porque, segundo a história, fora roubado em São Paulo e o que lhe restam de dinheiro, mal pagaria uma semana de estadia, dai a
pressa em logo se instalar e clinicar.

Na portaria, uma surpresa; o atendente tinha sobre a cabeça uma toalha que lhe escorria pelos ombros. Tossia muito, ao que o chegado, agindo prontamente, pedindo licença, segurou suas mãos e as levantou até acima da cabeça, fato que logo fez cessar a crise. Aquele o olhou sem saber o que falar, tentou sorrir, mas baixou a cabeça.

- Esse diabo de tosse... desculpe... o senhor quer um quarto?

- Sim, - respondeu - o que o faz tossir dessa maneira, senhor, pela minha experiência tem nome, e não é uma tosse qualquer. O senhor está se tratando?

- Uso um xarope aí, mas acho que não tem resolvido, respondeu.

- O senhor fez exame microscópico de bacilos?

- Não. O que é isso? - Indagou.

- Um exame no seu catarro, pode ser tuberculose. Mas, não por acaso, trago o equipamento e, se quiser, poderemos fazer o exame daqui a pouco. Basta só me instalar. Procuro um. quarto que seja bom, bonito e barato. Estou momentaneamente com pouco recurso financeiro.

- Vai custar caro? Sou um simples dono de pensão e dinheiro aqui é manga de colete.

- Vai lhe custar... uma semana de hospedagem, mas após o exame receitarei o remédio. Quer experimentar?

- Topo! Do jeito que estou a tossir não irei longe... Trato feito. Darei ao senhor o melhor quarto que, por sorte, está vago.

Sorriram. Momento em que ele tirou do bolso uma nota de dois cruzeiros, passou-a às minhas mãos seguida de uma piscadela. Respirou aliviado, arriou as bagagens, endireitou-se espreguiçando-se, expeliu todo ar que armazenara, parecendo tirar da cacunda um peso extremo; uma semana abrigado em troca de uma consulta e um exame.

Além de arranjar onde ficar, também conseguiu primeiro cliente e, com isso, a porta da clientela se abria para outros, com certeza. Ato contínuo, destrancou a mala abrindo-a sobre a mesa de onde tirou um quadro envidraçado, que pendurou no primeiro prego disponível.

Estava escrito; "Dr. Themistoklis Lykaios, médico cirurgião e ginecologista."

Ao ver a placa, o dono da pensão voltou a sorrir, dizendo;

- Acho que terei o senhor aqui por muito tempo. Se quiser barganhar seu trabalho médico com a acomodação, tenho uma oferta a fazer; minha mulher está para ganhar bebê e não sabíamos a quem recorrer... tudo está pela hora da morte...

- Pois deixe que me instale e me banhe e logo a veremos. Vim para trabalhar, meu amigo, e não tenho medo em fazê-lo... conte comigo.

A você, menino - disse segurando em meu pescoço: – espalhe por ai o que aconteceu, diga que temos um novo médico na cidade, e que ele está pronto a novas amizades e trabalho, muito trabalho, e quero que me procure quando e se precisar de um amigo... que por sinal é médico, mas será seu camarada para quando e o que você precisar.

Trouxe a sorte que havia perdido...

São lembranças que retornam, quando puxamos o cordonê no qual enrolamos na lata do tempo para armazenar nosso passado.
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    RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais. Paranavaí/PR: EGPACK Embalagens, 2024. enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Ivan Lessa (Arroba pontinho com)


Neste domingo, como era primavera em Londres, choveu, ventou e fez frio. Por isso, fiquei em casa.

Vendo jogo de futebol na televisão, vendo documentário sobre arte na televisão, vendo Arquivos Secretos na televisão.

Como puderam notar, eu tenho televisão em casa.

Televisão a cabo, vídeo, controle remoto, tudo que a tecnologia pertinente me dá direito.

Não tenho — sou obrigado a confessá-lo, com uma certa vergonha —, não tenho computador em casa. Ou micro. Ou PC.

Nem sei direito como chamá-lo, tão distante estou da tecnologia que, para mim, não pode ser mais de ponta.

Mas tenho a intenção de me informatizar agora mesmo, em maio, e leio tudo que posso sobre o assunto.

Na BBC, sei — mal e porcamente, feito se dizia — dar uma chegada aos jornais brasileiros, entrar na parte do correio eletrônico, bater um papo com os amigos distantes, todos eles muito, mas muito mais por dentro do que eu.

Na verdade, quem não tem arroba no título vai de pontinho com.

Nessa história de cibermilionários, conheço pelo menos duas pessoas que estão — mais uma vez usarei gíria antiga — estão “numa boa”.

Os dois vão montar, se é esse o verbo, um website.

Os dois já me convidaram a participar com minha modesta colaboração.

O dinheiro? Também não pode ser mais modesto. É a título especulativo.

Deve dar um dinheirão, dizem — mas primeiro a gente tem que investir e encontrar patrocinador. Conheço esse problema.

Desde meus tempos de publicitário e jornalista, o problema era esse: o homem do dinheiro, o anunciante, o patrocinador.

Agora, em Seattle, estão decidindo algo importantíssimo, garantem-me.

Algo a ver com monopólio, Bill Gates, Microsoft.

Até sexta-feira, deverá sair uma decisão.

Ficarei sabendo pela Net, numa de minhas internatações.

Ou não deverei ficar sabendo.

Pelo seguinte: um desses meus dois amigos, futuro milionário, precisava falar comigo semana passada. Recebi, aqui, em local de trabalho, um bilhete eletrônico pedindo para eu responder nele mesmo dando o endereço de minha residência em Londres.

É que, na revista em que ele trabalha e dirige, os computadores pifaram e, em sua casa, em seu bairro, não havia luz, não havia energia.

Ele queria falar comigo urgente sobre minha colaboração eletrônica.

Não é que eu seja pessimista, mas, cá entre nós, dá para se desconfiar?
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IVAN PINHEIRO THEMUDO LESSA foi um dos jornalistas, cronistas e intelectuais mais brilhantes, irreverentes e ácidos do Brasil. Ele marcou a história cultural do país pelo seu estilo sarcástico e erudito, além de ter sido uma das vozes mais contundentes de oposição à ditadura militar. Nasceu em 1935, em São Paulo (SP). Ele era filho de pais escritores e jornalistas célebres: Orígenes Lessa e Elsie Lessa. Faleceu em 2012, em Londres (Inglaterra), aos 77 anos, em decorrência de um enfisema pulmonar. Apesar de ter nascido na capital paulista, mudou-se muito cedo e foi criado no Rio de Janeiro, vivenciando a efervescência cultural carioca da Zona Sul nas décadas de 1940 e 1950. Em janeiro de 1978, partiu para um autoexílio definitivo em Londres, onde residiu até o fim da vida. Foi um dos fundadores e principais pilares do lendário semanário satírico O Pasquim (criado em 1969), que usava o deboche e a inteligência para desafiar a censura da ditadura militar. Junto com o cartunista Jaguar, Ivan criou o ratinho Sig (inspirado em Sigmund Freud), que se transformou no símbolo oficial do Pasquim. Colaborou com veículos de imenso prestígio nacional, incluindo a revista Senhor, Veja, Playboy, e os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Durante suas décadas morando na Inglaterra, trabalhou extensivamente para o serviço brasileiro da BBC, onde produzia crônicas radiofônicas e digitais frequentes.
Ivan era considerado o "mestre do escracho e da ironia ferina", misturando referências da literatura clássica com o humor norte-americano e o linguajar urbano brasileiro. Ele usava heterônimos, como Edélsio Tavares, para dialogar consigo mesmo em seus textos. Não pertenceu a nenhuma academia de letras. Ele rejeitava solenemente o formalismo institucional e as convenções da literatura tradicional. Não buscou ou acumulou prêmios literários convencionais, preferindo manter o status de um "saltimbanco do texto". Seu maior reconhecimento sempre veio da aclamação de seus pares intelectuais e de leitores fiéis. Embora sua produção em jornais tenha sido monumental, Lessa foi econômico ao lançar livros, tendo três obras principais: Garotos da Fuzarca (1986) – Seu aclamado livro de contos ficcionais; Ivan vê o mundo: Crônicas de Londres (1999) – Compilado de seus textos escritos para a BBC entre 1987 e 1999; O Luar e a Rainha (2005) – Coletânea que reúne o melhor de seus textos satíricos da fase digital.
Ivan Lessa revolucionou a crônica ao reinventar o humor literário no Brasil. Ele foi responsável por moldar o pensamento crítico de gerações ao cunhar expressões emblemáticas que entraram para a história do país, como o apelido "Bananão" para se referir ao Brasil de forma tragicômica. Ele também imortalizou o aforismo satírico "Brasil: ame-o ou deixe-o — o último a sair apaga a luz do aeroporto", subvertendo o slogan oficial da ditadura militar. Sua prosa única provou que o jornalismo diário e o humor satírico podem alcançar o patamar da mais alta literatura e sofisticação intelectual.

Fontes:
Ivan Lessa. O luar e a rainha. Publicado originalmente em 31 de março de 2000 na BBC Brasil.
Biografia – Cronica Brasileira, O Globo, Wikipedia, Gazeta do Povo, Revista Exame, Amazon, etc.

Nelson Rodrigues (Um Caso Perdido)


A princípio, a família foi contra:

— Esse sujeito não presta! É um bestalhão! Um conversa-fiada!

Talvez fosse isso e muito mais. Para começar não trabalhava, nem queria nada com o trabalho. Além disso, bebia, jogava, vivia metido com desclassificados de ambos os sexos, em pagodes espetaculares. Apontava-se, mesmo, uma fulana, de péssimos antecedentes, que, segundo se dizia, o sustentava. Os parentes de Edgardina tentaram dissuadi-la da paixão inconveniente e escandalosa:

— Homem é o que não falta. Escolhe outro, escolhe um que valha a pena.

— É de Humberto que eu gosto. Os outros não me interessam.

Amava-o desde menina; e, através dos anos, não achara graça em mais ninguém. Podiam dizer o diabo do rapaz que ela mesma explicava: “Entra por um ouvido, sai pelo outro”. A rigor, só ficou impressionada uma vez, uma única vez. Foi quando lhe disseram que o namorado vivia às custas da tal fulana. Edgardina saltou: “Mentira! Calúnia!”. Mas, apesar da reação inicial, muito veemente, a dúvida ficou. Acabou fazendo ao bem-amado uma pergunta frontal:

— Que negócio é esse que me contaram?

— Que foi?

Ela, sem tirar os olhos dele, disse:

— Que você toma dinheiro de mulher.

A CONFISSÃO

Prensado pela pequena que, na verdade, era seu primeiro e grande amor, Humberto teve, diante de si, dois caminhos: ou negar ferozmente ou… Ia negar, em pânico. Mas quando abriu a boca, deu uma coisa nele, uma espécie de heroísmo súbito, quase histérico. De olhos esbugalhados, os beiços trêmulos, transpassou a pequena com a revelação:

— É verdade, sim. Tomo dinheiro de mulher. Sempre tomei.

A menina cobriu-se de uma palidez mortal, como nos velhos romances. Mal pôde suspirar:

— Humberto!

Foi uma cena magnífica e atroz. Ele, que pegara embalagem, foi até o fim, contou tudo, sem omitir nada. Disse que, sem emprego, sem níquel, aceitava dinheiro de uma, de outra. Batia nos peitos, atirava patadas no assoalho. Por fim, flagelou-se, cruelmente, aos olhos da pequena; chamou-se de “canalha”, “patife”, “caso perdido”. E terminou, num desafio frenético:

— Você sabe tudo. E agora pode me cuspir na cara. Cospe! Anda, cospe!

Ofereceu o rosto. E como Edgardina, petrificada, não dissesse uma palavra, não esboçasse um gesto, ele caiu em uma crise medonha de choro. Então, a menina, que era um anjo autêntico, teve uma dessas comoções que não se esquecem, uma dessas piedades incoercíveis. E, se já o amava antes, agora muito mais. Aos seus olhos, a confissão do bem-amado o purificara de tudo e de todos. Disse mais:

— Não interessa o que você fez, meu filho. Eu gosto de você, pronto, acabou-se.

E ele:

— Você é um anjo. Se não fosse você, eu metia uma bala na cabeça, já, imediatamente!

Então, mais calmos, os dois combinaram tudo: data do casamento etc. etc. No fim, Edgardina impôs apenas uma condição:

— Você vai me prometer uma coisa.

— O quê?

— Que nunca mais aceita dinheiro de mulher. É tão feio!

— Te juro! Te dou minha palavra de honra!

O CASAMENTO

E, de fato, a partir da confissão, Humberto foi outro homem. Deixou de beber, de jogar e quando entrava num café e vinha o garçom, ele, erguendo o rosto numa espécie de desafio às potências do álcool, dizia:

— Água mineral!

E fez mais: devolveu à tal fulana que o sustentara um relógio, um anel com suas iniciais, um cinto com fivela de prata, um porta-chaves caríssimo. Rompeu, em termos definitivos, com todas as suas antigas ligações. Os amigos tentavam seduzi-lo:

— Deixa de ser besta!

Mas ele, embora com água na boca, tinha um repelão furioso: “Esse negócio, para mim, acabou. Estou noivo, vou me casar, stop”. Foi uma mudança tão patética que o próprio futuro sogro, que era um espírito de porco, se deixou impressionar: “Parece que meu genro tomou vergonha”. E o resto da família em coro:

— Tomara! Tomara!

Dois dias antes do casamento, Humberto ia chegando em casa quando deu de cara com a fulana que o sustentara. A alma caiu-lhe aos pés. Em pânico, olhou para todos os lados: “Imagine, se vissem”. Arrastou-a para um canto discreto; e, lá, discutiram, em voz baixa. A mulher fez uma súplica desesperada, que o horrorizou. Insistiu, cravando as unhas nas mãos do rapaz:

— Só essa vez! Só essa vez!

— Você está maluca? Não pode ser! Vou me casar amanhã!

A outra agarrava-se a ele:

— É a despedida, Humberto! — E teimava no argumento: — “Pela última vez!”.

Na verdade, o que a tentava, naquele momento, era o noivo alheio, o noivo da outra, na antevéspera do casamento. E ele, que era um fraco diante da mulher em geral, mesmo das feias, mesmo das sem graça, quase sucumbiu àquele assalto noturno. Lembrou-se, porém, de Edgardina e, fazendo das tripas coração, desprendeu-se histericamente, arremessou-se para dentro de casa.

Ofegante, descabelado, fechou as portas atrás de si, arriou as trancas. Já então a fulana, do lado de fora, uivava:

— Te dei muito dinheiro, cachorro! Olha, não me troco pela lambisgóia da tua noiva!

Caras espavoridas apareciam em várias janelas. No dia seguinte, Humberto contou tudinho à noiva. Descobrira que era negócio dizer a verdade e, mesmo, exagerar a verdade. A noiva, maravilhada com esta sinceridade, deu-lhe um beijo na testa.

O DESTINO

O rapaz não tinha emprego. Mas o sogro foi de uma magnanimidade impressionante. Chamou-o:

— O negócio é o seguinte: para mim, tanto faz que meu genro trabalhe ou deixe de trabalhar. Contanto que trate bem a minha filha.

Dito e feito. Casaram-se e nunca faltou nada naquela casa. Todos os dias, de manhã, Edgardina, da maneira mais delicada e sutil possível, enfiava no bolso da calça do marido uma cédula, ora de vinte, ora de cinquenta, ora de cem mil-réis.

Justiça se faça a Humberto: aceitava a situação com esplêndida naturalidade. Lá fora, nas esquinas, nos cafés e nas residências, dizia-se o diabo do rapaz. Era chamado de “palhaço”, de “sem-vergonha”, de “sujo”. Edgardina soube; solidarizou-se com o marido:

— Não liga, meu filho. O que eles têm é inveja.

Feliz, realizada, contava para os amigos: — “Bebeto é da seguinte teoria: — entre homem e mulher, não há perversão. Vale tudo!”.

A pequena estava, então, no quinto mês de gravidez. Não deixava o marido fazer nada: ela pagava as contas, dirigia a casa. Dir-se-ia o homem ali dentro. Humberto não queria saber de nada, não assumia responsabilidade alguma, no horror de qualquer iniciativa. Dizia sempre:

— Isso é com minha mulher. Não tenho nada com isso.

Queria sossego. E quando o sogro, com a autoridade de quem corre com as despesas, exigiu um neto, Humberto relutou. Teve medo do parto, do filho; confidenciou com a mulher: “As crianças são muito levadas. Dão um trabalho danado”. Mas o sogro fez pé firme; queria um neto de qualquer maneira. Incapaz de resistências prolongadas, Humberto aquiesceu, afinal. E quando o velho soube que Edgardina ia ter neném, meteu a mão no bolso, tirou uma cédula de quinhentos e mandou a filha dar ao genro.

O fato é que a perspectiva do filho tirou o sossego do rapaz. Vivia atribulado com as possíveis doenças que o guri pudesse ter. Gemia: “Imagine se ele apanha uma coqueluche braba”. Enfim, passaram-se os meses e chegou o grande dia. Apavorado, Humberto viu a mulher pôr a boca no mundo: “Uai!”. O sogro berrou: “Vai buscar a parteira, que é pra já!”. Ele arremessou-se pelas escadas abaixo, à procura da profissional que morava duas quadras adiante. E não voltou, nunca mais.

ANOS DEPOIS

O parto foi feito de qualquer maneira. Uma vizinha improvisou-se em parteira, enquanto a outra, a autêntica, não aparecia. E a criança nasceu perfeitíssima. Então começaram a procurar o pai.

Foram à polícia, ao hospital, ao necrotério. Nada. A hipótese de fuga ou suicídio era absurda. Humberto vivera, em casa, como um paxá. Um mês depois, já não havia mais dúvida: estava morto. Não se sabia onde, mas era óbvio. E então, a viúva, no seu luto fechado, começou a fazer questão do cadáver. Exigia, em brados medonhos:

— Quero o corpo! Quero o corpo!

Havia um rio próximo. Supôs-se que o rapaz se tivesse afogado. E, no mínimo, as águas o levaram para outras e longínquas terras. Edgardina teve que se conformar; mas ficou, na sua alma, o ressentimento de viúva espoliada no seu defunto. Imersa numa fúria petrificada, dizia: “Eu não enterrei meu marido”.

E os anos, sem que ela percebesse, foram passando, um a um. Edgardina sempre de preto; e feliz, envaidecida, porque a dor não arrefecia no seu coração. Doze anos depois, consentiu, enfim, em ir, pela primeira vez, a um circo, que estava de passagem.

Foram os dois: ela, de luto, e o filho, com doze anos, vestido à marinheira. Assistiam à função quando, de repente, a bateria da charanga cria a ilusão do perigo, do abismo. É um número mundial de equilibrismo. Um benemérito surge no arame, de sombrinha aberta. Edgardina crispa-se na cadeira. Não é possível, não pode ser… Sopra, afinal, ao ouvido do filho:

— Teu pai… Teu pai…

Rompe, no circo, o grito da criança:

— Papai! Papai!

O equilibrista estaca; olha, apavorado. Larga a sombrinha, larga tudo, desaba lá de cima. Depois, no hospital, houve cenas delirantes. Humberto estava de perna engessada e suspensa. Quis saber se o filho já tivera coqueluche. Quando informaram que sim, gemeu:

— Ótimo… Ótimo…

Fizeram espetacularmente as pazes.

Mas nunca se soube por que desaparecera, naquela noite, doze anos atrás.
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NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. A vida como ela é… Publicado originalmente em 1961
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, etc.