quinta-feira, 9 de abril de 2026

Asas da Poesia * 173 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Teu beijo, pela Internet,
vem sempre com tal calor,
que qualquer dia derrete
meu pobre computador!
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Poema de
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal (1888 – 1935)

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta
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Aldravia de
FRANCISCO NUNES
São Caetano do Sul/SP

não
enviei
condolências;
preferem
minha
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Nós, III

Estas e muitas outras cousas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.
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Trova de
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016

Das cordas de minha lira
ouço uma bela canção
que na saudade suspira
qual prece de uma oração!...
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Vida de poeta

Faz alguns dias que perdi a poesia.
Não tenho fantasia,
não tenho argumentos.
Será que meu coração está ficando lento?
Vamos tomar providências.
A primeira coisa é colocar alegria...
Aonde vou achar não sei dizer.
Olhando pela janela?
Ou dentro da minha panela?
Na geladeira, na cozinha, no quarto...
Na rua? Vai saber!
Paro, respiro fundo,
sinto a vida pulsar...
Estou viva devo me alegrar
e a poesia de novo encontrar!
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Quadra de
ANTÓNIO ALEIXO
(António Fernandes Aleixo)
Vila Real de Santo António/Portugal, 1899 — 1949, Loulé/Portugal

Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE (1862 – 1935) Aracati/CE

Ceará

Ave, Terra da Luz, Ó pátria estremecida,
Como exulta minha alma a proclamar-te a glória,
Teu nome refugastes inscreve-se na história,
És bela, sem rival, no mundo, engrandecida!

A dor te acrisolou a força enaltecida,
Conquistaste a lutar as palmas da vitória
Hoje és livre e de heróis a fúlgida memória
Jamais se apagará e a fama enobrecida.

O sol abrasa e doura os teus mares que anseiam
Em vagas que se irisam, que também se alteiam
A beijar com ardor teus alvos areais.

Eia! Terra querida, sempre avante!
Deus te guie no futuro em ramagem brilhante
Nas delícias do bem, nos júbilos da paz!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Quem confunde hiato e ditongo,
não sabe o que é diapasão;
mistura a língua do congo
com dialeto alemão.
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Poema de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

Poeta é aquele que vê
(A Márcio Marinho Nogueira)

Poeta é aquele que vê
o belo e o feio do mundo;
que capta, com suas antenas,
toda a essência das coisas
e em seus versos a traduz.
Poeta é aquele que sabe
colher com seus dedos longos,
pelas margens dos caminhos,
flores, e ninhos, e salmos.
Poeta é aquele a quem cabe
distribuir os seus dons
e, estando à sombra ou ao sol
de suas aspirações,
faz aos poucos uma história.
Poeta é aquele que crê
e proclama esta verdade:
só o amor tem fundamento;
o ódio, a cobiça, o ciúme
não têm, não, razão de ser.
Poeta é quem dá, afinal,
través daquilo que escreve,
das palavras de sua boca,
água a quem reclama sede,
pão a quem lhe diz ter fome,
o que cobrir ao que está nu,
e flores — a este, àquele —
flores a toda a gente,
indiscriminadamente,
mesmo a quem, ah! sobretudo
àquele que lhe atira pedras.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Foi o par pro beleléu...
e o fantasma, em tom moderno:
- Venho, à noite, aqui no céu,
ou você vai lá no inferno?
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

A Noite e a Tristeza

A noite cai e com ela, a tristeza,
coração sofredor por um amor perdido,
a escuridão envolve a alma com presteza
e a solidão se torna um peso sentido.

A falta de um amor traz desânimo,
e a noite parece não ter fim,
a tristeza se espalha como um veneno,
e o coração sofre sem alívio em esplim*.

A noite é silenciosa e a dor que sente
o coração chora, e a alma mergulha em fel,
a falta de um amor é um peso constante,
e a tristeza se torna um companheiro fiel.

A noite é escura e a alma se cansa
num coração que sofre, sem esperança .
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* Esplim = enfado, tédio, melancolia
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Soneto de
JOSÉ CARLOS MOUTINHO
Maia / Porto / Portugal

Sonetos atrevidos

Saí para a rua, com outro espírito,
O mundo é meu, ninguém me tira,
Sou único no mundo, sem atrito
Tenho a alegria, que nunca sentira!

As ruas são minhas e toda a sua luz,
Com o perfume das flores que as ladeiam,
Toda esta beleza, com alegria me conduz
À paz que todos neste mundo anseiam!

Como estou feliz e sou teimoso,
Nem com a métrica me importo,
Porque não quero ser famoso

Deixo a análise para os entendidos,
Levo a estrutura com desporto,
Insisto em fazer sonetos atrevidos.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Enxugando em meu poente
muita lágrima sofrida,
você se fez, de repente,
alvorada em minha vida!
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Spina de
ARTUR JOSÉ CARREIRA
São Paulo/SP

Tortos 

Poema em vazio,
seu conteúdo só
sem seus versos.

Estrofes em desordem na rima 
tropeçam por entre letras, sons,
sentidos tortos em pele imersos.
Esses sons, meio loucos varridos,
descem pela alma, meio inversos!
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Num eclipse inesperado,
ficando só a espiar,
o sol se esconde ofuscado
pelo brilho em teu olhar.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

Esperança

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
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Poema de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

Atrás do tempo...

A hora que passa, o tempo que voa, 
igual ao pardal, que belisca à toa
a manga do meu quintal, e com o bico ainda sujo, põe-se a voar...

Eu espero assim...
Andando no tempo, tomando friagem na garoa gelada 
atrás de quimeras da doce primavera do botão da rosa... a desabrochar.
É o tempo correndo e a vida trazendo um novo amanhã...
no meu despertar...

Arranco um botão de minha camisa, pois chega o verão...
E eu ainda vestido de manga comprida num dia de sol, 
Que mede o tempo, arranhando o céu...

Com o corpo desnudo e a pele morena à beira do mar...
É tempo de amar...
...o ser que me envolve na ternura do cheiro, no perfume do ar.  

E a folha caída da velha mangueira no outono da vida
no caderno que leio a poesia que fiz...
Releio a folha marcada, já tão desbotada...
Pensei ser feliz...

E no sopro do vento que leva a folha e o tempo...
 e eu a esperar...
o encontro da espuma na gulosa areia o beijo do mar.

Mas o frio ardido do vento sulino começa a soprar...
E no fundo da alma, o inverno me acalma...
A noite me cobre, aquece meu corpo...
 me ponho a sonhar...

Acordo...
E ao ver no relógio o ponteiro girando, girando... 
Eu fico a pensar... 
...Na dura partida do amor e do tempo,
Que a vida nos faz... 
(Poesia classificada em 4º lugar no Concurso Internacional de Poesias Primavera 2003/2004 - S.Paulo/SP)
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Triverso de
FRANCISCO ASSIS DOS SANTOS
Santos/SP

Caminhos da infância…
As patas do cavalo
Na geada do campo.
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Navegando contra o vento 

Navegando contra o vento
sem levar mercadoria,
o seu barco sonolento
bordejava em agonia.

Sem levar mercadoria
num mar bravio e revolto
bordejava em agonia
um dos barcos, leve e solto.

Num mar bravio e revolto
num balanço tempestuoso
um dos barcos, leve e solto,
seguiu trajeto tortuoso.

Num balanço tempestuoso
naquele dia cinzento
seguiu trajeto tortuoso
navegando contra o vento.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Cada um para o seu lado...
ninguém entende ninguém...
Quando o respeito é quebrado,
o amor se quebra também!
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Hino de
SÃO JOÃO DEL REI/ MG

Salve, Terra gentil que fulguras,
No regaço da Terra de Minas,
Como um cofre das glórias mais puras,
Como um alvo das bênçãos mais divinas.

És estância de grato repouso
Aos que chegam cansados da luta!...
O teu seio é oásis formoso,
Onde uma alma o descanso desfruta!...

Há nas rochas de tuas montanhas
Um poema de glórias escrito:
Teu denodo em grandes campanhas
Teu amor no trabalho bendito.

Tua história de sempre, aparece
Circundada de um halo de luz
Pois se a glória o teu nome enobrece,
De bondade o teu nome reluz.

As muralhas das tuas igrejas
São proclamas da Fé que tu tens,
Fé que anima o fervor das pelejas,
Fé que abranda da vida os vaivéns.

Salve Terra!… Entre terras mineiras
Tens um posto de grande fulgor
Foram tuas as vozes primeiras
Contra o mal de um governo opressor.

Salve, terra querida e formosa!...
Salve terra de São João Del-Rei!...
Sê tu sempre feliz e gloriosa,
Sentinela da Crença e da Lei!
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Poetrix de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR

peregrinação

Como o poeta sofre
Faz o caminho in-verso
para chegar na estrofe
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Soneto de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Pra quem quer fazer Soneto!

Soneto, peça rara da poesia,
tem rima, ritmo, métrica e estrutura,
motivo muitas vezes de agonia
pra quem, fazer soneto, se aventura.

A rima dá o tom da “melodia”,
a métrica mostra sua “escultura”,
no ritmo está sua “sonoplastia”,
e na estrutura a sua “assinatura”!

Composto de tercetos e quartetos,
depois dos dois quartetos, atenção,
os dois tercetos fecham o soneto.

Aviso: pode o Poeta, nos tercetos,
ser livre pra rimar. Pronta a “lição”, 
agora é só botar no branco o preto!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O burro e os donos

O burro de um hortelão
À Sorte se lamentava,
Dizendo que madrugava,
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores,
— O néscio burro dizia —
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
Com uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e berinjelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado, —
Dizia — andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado,
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da acelga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»

Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! — diz a Sorte em fúria —
Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!

Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»

Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.
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Mensagem na Garrafa 169 = Uma prova de amor...

Imagem: IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Há muito tempo atrás, um casal de velhinhos que não tinham filhos morava em uma casinha humilde de madeira, tinham uma vida muito tranquila, alegre, a qual ambos se amavam muito, eram felizes. 

Até que um dia aconteceu um acidente com a senhora. Ela estava trabalhando em sua casa quando começa a pegar fogo na cozinha e as chamas atingem todo o seu corpo.

O esposo acorda assustado com os gritos e vai a sua procura, quando a vê coberta pelas chamas imediatamente tenta ajudá-la e o fogo também atinge seus braços e mesmo em chamas consegue apagar o fogo. 

Quando chegaram os bombeiros já não havia mais fogo apenas fumaça e parte da casa toda destruída. Levaram rapidamente o casal para o hospital mais próximo, onde foram internados em estado grave.

Após algum tempo aquele senhor menos atingido pelo fogo saiu da UTI e foi ao encontro de sua amada. Ainda em seu leito a senhora toda queimada, pensava em não viver mais, pois estava toda deformada, as chamas queimaram todo o seu rosto. 

Chegando no quarto de sua senhora, logo ela foi falando:

- Tudo bem com você meu amor? 

- Sim respondeu ele, pena que o fogo atingiu os meus olhos e eu não posso mais enxergar, mas fique tranquila, amor, que a sua beleza está gravada em meu coração para sempre.

Então triste pelo esposo, disse-lhe:

- Deus vendo tudo o que aconteceu, meu marido, tirou-lhe a vista para que não presenciasse esta deformidade em que eu fiquei. As chamas queimaram todo o meu rosto e estou parecendo um monstro. 

Passando algum tempo recuperados, voltaram para casa onde ela fazia tudo para seu querido esposo e ele todos os dias dizia-lhe como a amava!

E assim viveram 20 anos até que no dia do enterro dela, quando todos se despediam então veio aquele senhor, sem seus óculos escuros e com sua bengala nas mãos, chegou perto do caixão, beijando o rosto e acariciando sua amada, disse em um tom apaixonante:

- "Como você é linda, meu amor, eu te amo muito".

Ouvindo e vendo aquela cena, um amigo que estava ao lado perguntou se o que tinha acontecido era um milagre, e olhando nos olhos dele o velhinho apenas falou:

- "Nunca estive cego, apenas fingia, pois quando a vi toda queimada sabia que seria duro para ela continuar".

Foram vinte anos vivendo ambos muito felizes e apaixonados!!!

Germán Aguirrezabala (As Aventuras de Cerdinando e Ternestina)

(o autor é de Montvidéu/ Uruguai)
(tradução do castelhano por JFeldman)


Chovia suavemente. O aroma de jasmim invadia o quarto dos fundos, onde Gardel cantava num rádio que estava sempre ligado.

Por uma dessas reviravoltas da política, ele fora eleito Presidente da República: é simplesmente muito difícil explicar como algo assim pôde acontecer. Ela, por sua vez, estava ao seu lado como sempre estivera. Serviu-lhe mate e colocou mais biscoitos no prato de melamina verde.

Desfrutavam de um momento de paz. Era raro o telefone não tocar ou alguém não bater à porta para lhes pedir alguma coisa. Até Dom Ángel, o policial de serviço na entrada, lhes piscara o olho, pedindo "um lugarzinho".

"A verdade é, Ernestina, que tenho medo de cometer um erro", disse Ferdinando, apelidado de Cerdinando pelos jornalistas mais insidiosos e populares, ao notar que ele estava um pouco acima do peso; Eram os mesmos jornalistas que tinham forçado todos os outros a se demitirem, e agora tinham que aturar essa, que não lia jornais, não assistia aos noticiários e não entendia as indiretas.

"Bem, gordinho, o que você quer que eu diga?", respondeu ela, seu olhar bovino percorrendo a toalha de mesa de plástico coberta de migalhas e marcas em forma de ferradura deixadas por copos pousados sabe-se lá quando. "Só cometa erros, não tenha medo.”

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “Não precisa ser nariz de santo”


Essa expressão popular, não muito conhecida pelas gerações mais jovens, era de usada por nossos pais e avós, quando desejavam descrever um trabalho ou tarefa que não exigia grande perícia ou versatilidade de quem o executaria, nem acarretava grande responsabilidade técnica do seu operador - ao contrário do trabalho pormenorizado, delicado e especializado que é esculpir e moldar o nariz da imagem de um santo, danificada por fatores externos ou pelo desgaste natural do tempo.

Assim, dizer que para ultimar determinada atividade que ela "Não precisa ser nariz de santo", resta claro a intenção de dizer a quem vai executá-la, que não é exigível perfeição, nada rigorosamente impecável, inquestionável ou que o executor deva ter alta especialização para realizá-la, bastando aquele conhecimento básico daquilo que vai ser realizado. 

A expressão reforça a ideia de que a imperfeição humana é aceitável e que os erros ou defeitos encontrados na elaboração de qualquer obra, não impedem o reconhecimento da competência ou da boa intenção do executor, porquanto a boa intenção e a vontade de acertar de alguém, importa mais do que a fama ou da perfeição, que muitas vezes serve de mote para cobranças abusivas da contraprestação daquilo que foi feito, só porque o sujeito tem fama de “expert”. Na prática, é o reconhecimento de que todos nós temos falhas, ainda que toleráveis.

E qual seria a origem dessa curiosa expressão? 

Tudo indica que ela decorre do imaginário religioso vinculado à arte sacra, com destaque para o período do barroco no Brasil, estilo predominante no período colonial do século XVII, caracterizado pelo contraste, pela riqueza de detalhes, pela temática essencialmente religiosa e pela forte influência europeia adotada pelo Brasil daquela época, tendo seu auge ocorrido na escultura, na pintura na  arquitetura), principalmente em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. 

Na fase barroca, as imagens dos santos da Igreja eram esculpidas de forma perfeita, delicada, serena e inalterada, com os traços faciais e o próprio nariz bem definidos, realçando a beleza física idealizada pelo ser humano e a completa ausência de qualquer defeito física na obra de arte elaborada.

Acrescente-se que historicamente, a quebra do nariz das imagens ou estátuas era vista como mutilação apta a negar, tirar a honra e a ultrajar a respeitabilidade da obra representada, isso tanto no Brasil como em outros países, num quadro de lamentável vandalismo religioso, social, amoroso ou político.

É possível que alguns ainda lembram da icônica novela Roque Santeiro, exibida pela TV Globo entre 24/06/85 a 22/02/86, que galvanizou a audiência do público brasileiro, tendo como autores Dias Gomes e Aguinaldo Silva, um dos maiores sucessos de audiência da história da televisão brasileira, durante a qual houve a quebra do nariz da estátua do protagonista, pelo professor Astromar Junqueira (que na calada da noite “se gerava” em vampiro...). 

A quebra do nasal da estátua de Roque, que dominava a pequena praça em frente à igreja local, configurou ato de vandalismo motivado por ciúmes, com a intenção de ridicularizar o ídolo da minúscula Asa Branca, tudo para chamar a atenção de Mocinha, deixando, entretanto, a população absolutamente chocada. Foi ato pensado pelos autores como forma de desmistificar a figura do herói, utilizando um gesto de destruição para gerar conflito, revolta e ciúme.

Assim, se em algum momento for dito por alguém da geração passada, que para a realização de qualquer obra, peça ou tarefa “Não precisa ser nariz de santo", tenha a certeza que tal metáfora indica de modo induvidoso que a  aludida missão não exige alta performance para ser realizada, que o labor a ser desenvolvido terá seu valor e legitimidade reconhecidos e que eventuais deslizes durante a execução ou no resultado final serão tolerados...
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários. 

Texto e Imagem enviados pelo autor 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 8. O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso


 "Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.

Diz-se, que vivia em uma cidade entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa e sete filhos.

Certa manhã, após lançar suas redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel de ferro preso a uma laje de mármore branco.

Ao puxar o anel, a laje se abriu, revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de coral e o chão de pérolas brutas.

No centro do salão, repousava um Gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam como brasas.

— "Não tema, mortal," trovejou o Gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de cristal. Ele contém a Água da Verdade. Quem a beber verá o mundo como ele é, e não como os homens o pintam."

Abdallah, embora cercado de ouro, pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou para ajudar os injustiçados. 

Quando um mercador rico acusou um órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.

A fama do "Pescador da Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que sussurravam lisonjas, quis testar o homem.

— "Pescador," disse o Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me: quem em minha corte é meu maior inimigo?"

Abdallah derramou a última gota na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.

Como recompensa, o Sultão nomeou Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra, mas no que a verdade liberta.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Assina seus escritos por Floresta/PR.. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo; Minhas irmãs de quatro patas (crônicas sobre gatas e cadelas).
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Eduardo Martínez (Sérgio, o verdadeiro Don Corleone)


Há pessoas que nos fascinam sem nem mesmo conhecê-las. Uma dessas é o Sérgio, que é amigo de um amigo meu, o Cleidson. Pode até parecer que estou tentando inventar algo apenas por falta de assunto, mas lhe garanto que isso realmente aconteceu.

Pois bem, lá estava o Cleidson me contando algumas situações curiosas da sua vida e, então, começou a falar do Sérgio. Este, segundo o meu amigo, sempre foi fascinado pelo Vito Corleone, patriarca da família de mafiosos do filme "O Poderoso Chefão". Dessa forma, o Sérgio costuma levar ao pé da letra as falas do Marlon Brando: "Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade" ou "Não odeie seus inimigos. O ódio atrapalha o raciocínio".

A despeito de tantos ensinamentos do afamado mafioso do cinema, a frase mais emblemática repetida pelo Sérgio nem é uma dessas, mas a dita pelo Michael Corleone, filho do Vito: "Meu pai me ensinou muitas coisas aqui, neste gabinete. Ensinou-me que mantivesse os amigos por perto e os inimigos mais ainda". 

Gente, não que o Sérgio seja um mafioso de verdade, pois, até onde sei, nunca mandou matar ninguém ou, então, cometeu algum crime diferente daqueles que todos nós, ao longo da nossa existência, também cometemos. Todavia, a aura do Vito Corleone, o Capo di tutti capi, sobrevive no Sérgio. 
Eu, que não o conheço, sequer vi uma foto do Sérgio, já sofri a marcante influência dele. Sim, isso mesmo! Pois bem, depois das histórias contadas pelo Cleidson, acabei dormindo no sofá da sala, onde tínhamos comido alguns cachorros-quentes.

Acordei sentindo algo gosmento e pegajoso nas costas. Rapidamente, coloquei as mãos e as levei bem pertinho do rosto. Meus dedos estavam completamente vermelhos. Tomei aquele susto. Eu me virei para o lado, certo de que havia uma cabeça de cavalo ali mesmo. Que nada, eu simplesmente havia me deitado sobre o frasco de ketchup.
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:

Contos e Lendas do Mundo (Japão) O omusubi rolante


Um dia, um velho servo feudal foi às montanhas para cortar lenha. Era o meio-dia. O velho servo estava com fome e começou a comer os omusubi (bolinhos de arroz) que ele havia carregado no bornal.

De repente, um dos omusubi caiu do bornal e rolou ladeira abaixo. Acabou entrando no buraco que existia na raiz de uma das árvores.

"Omusubi kororin sutonton*... envie-nos mais omusubi!" Eram vozes que, surpreendentemente, o velho servo ouviu do interior do buraco.

"Estranho", pensou o velhinho, "muito estranho". Decidiu dar uma olhada no buraco; mas como o buraco estava completamente escuro, não pôde ver coisa alguma. Novamente pensou como tudo aquilo era estranho.

O velhinho resolveu deixar mais um omusubi cair no buraco para ver se aquela música viria de dentro novamente. Assustado, ouviu a mesma música: "Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

O velhinho riu até cair e disse, "Engraçado! É engraçado!!!", e pela terceira vez jogou mais um omusubi no buraco.

"Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

"Engraçado, engraçado!", dizia o velho servo, pulando de alegria como uma criança. Pensou consigo mesmo: "se eu pular no buraco, o que será que eles cantarão?" Logo em seguida o velhinho rolava para dentro do buraco.

"Ojiisan (avô) kororin sutonton... envie-nos mais velhinhos!"

Deus do céu! Nem acreditava no que via! O interior do buraco era um palácio, e o teto e paredes brilhavam magnificamente.

O velhinho estava atônito. Seus olhos estavam esbugalhados, e olhava para todos os lados.

E, para completar sua surpresa, havia coelhos — muitos, muitos! — dentro do buraco.

"Vovô, seja bem-vindo em casa", cumprimentavam o velho servo todos os coelhos do buraco.

Havia um coelho maior na frente de todos os outros coelhos. Ele disse, "Este é o País dos Coelhos. Por favor, fique à vontade e divirta-se".

Muitos coelhos trouxeram comidas deliciosas para o velho servo. E dançavam, e cantavam. Parecia que vivam em completa harmonia e gozo.

O velho servo começou a dançar e cantar com os coelhos. Estava se divertindo como nunca o fizera antes.

A noite estava despontando no horizonte e o velhinho disse aos coelhos, "Estou indo embora". O coelho maior trouxe alguns omusubi para ele. "Este é o omusubi do País dos Coelhos. É muito delicioso. Aceite este omusubi como um presente do nosso país".

O velho servo agradeceu-lhe, cumprimentou a todos os coelhos e voltou para casa. Ele nunca havia provado um omusubi tão gostoso como aquele.
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* Omusubi kororin sutonton = Bolinho de arroz rolante
Omusubi: Bolinho de arroz.  Kororin: Onomatopeia japonesa para algo rolando.  Sutonton: Som rítmico, frequentemente associado ao som do bolinho caindo no buraco.

Fontes:
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