sábado, 19 de setembro de 2026

Professor Garcia (Trovas do Meu Cantar)

 

A aquele que arrasta a cruz
e, aos ritos do amor se entrega...
Deus põe dois braços de luz
na cruz do bem que carrega!
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Adeus!... Passado tão lindo,
encanto dos dias meus!...
Disseste-me adeus, sorrindo
e, eu triste, te disse adeus!
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A ingratidão se resume
num coração descontente,
a um velho facão sem gume
cortando os sonhos da gente!
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A mão do bem que nos rege,
mostra-nos gestos de amor,
até na mão que protege
a inocência de uma flor!
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Amor de mãe, que esplendor,
ó, que divino mister...
Deus pôs a essência do amor
no coração da mulher!
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À noite, o que me conduz,
me acompanha e me rastreia,
é o tênue raio de luz
da solidão da candeia!
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Cantas preso, canarinho
consolando a tua dor!
Eu também canto sozinho
preso às redomas do amor!
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Com remendos e arremedos,
em desmedidos desvãos;
alguns vão sujando os dedos
na sujeira de outras mãos!
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Contra o Sol, não há censura
e, ao bom pintor se assemelha,
quando pinta com ternura
a aurora, de cor vermelha!
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Daquele amor tão risonho
que moldou nosso roteiro...
Guardo o derradeiro sonho
como se fosse o primeiro!
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Depois de feita a moldura
da aquarela do arrebol,
Deus pôs gotas de ternura
na rosa rubra do sol!
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De volta à tapera antiga,
ouço uma voz que à distância,
era a mesma voz amiga
que eternizou minha infância!
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Do mar, a mais linda prenda
que a espuma branca ponteia,
é a camisola de renda
que as ondas tecem na areia!
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Feliz, não dá passos vãos
a lua, era seu caminhar,
enquanto, entrelaça as mãos
na barba branca do mar!
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Hoje, eu refiz o meu ninho
e, abri janelas e portas,
para cantar com carinho
cantigas das tardes mortas!
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Lembro, mamãe, do teu canto,
num doce e breve estribilho,
tentando enganar o pranto
do choro triste do filho!
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Meu pensamento deduz,
seguindo os teus passos certos
que, a intensidade da luz
dobra em teus braços abertos!
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Minha fronte encanecida,
já, pelo tempo, aos borralhos,
põe as auroras da vida
nos meus cabelos grisalhos!
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Não há estação perdida
para quem no amor se esmera!
Quem ama o outono da vida,
vive a eterna primavera!
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Na vida há tantas essências
e aparências desiguais,
que, eu penso que as reticências
são velhos pontos finais!
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Neste Natal, meu Senhor,
quando a vida se refaz...
Teu vinho, é o sangue do amor
teu pão, o corpo da paz!
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No aceno das horas mansas,
vejo na humilde casinha,
da infância, as ricas lembranças
da pobre mansão que eu tinha!
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O amor, em seus embaraços,
e às vezes, com seus desvãos...
Entrelaçou nossos braços
e amordaçou nossas mãos!
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O mar, de fatos e lendas
quando se zanga e se alteia,
se joga em lençóis de rendas
e espicha os braços na areia!
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O ocaso da vida, é um sonho.
Quando se alcança esse prazo,
fica um pouco mais tristonho
nosso sorriso, no ocaso!
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O poeta, em suas cantigas,
em noites calmas, dá provas
de esquecer queixas antigas,
cantando as mágoas mais novas!
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O poeta e o passarinho,
são parecidos demais:
Quanto mais longe do ninho
mais cantam tristes seus ais!
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O sino desperta o sono
da tarde que silencia,
enquanto a lua sem dono
enche a noite de poesia!
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O tempo é roda fremente
num parque de diversões,
moendo os sonhos da gente
nessa roda de ilusões!
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Peço, ó tempo, que me acudas,
faz-me entender a canção
do canto das folhas mudas,
secas, mortas pelo chão!
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Por temor da noite ingrata
e, antes que, a treva se afoite,
surge uma luz, cor de prata,
no teto negro da noite!
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Posso dizer de joelhos
ante os teus pés andarilhos,
que escuto pai, teus conselhos
aconselhando os meus filhos!
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Que ingratidão tão mesquinha,
que ausência de amor e brilho,
viver a mãe tão sozinha
ao lado do próprio filho!
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Quem contempla o amor, percebe
e, a todo instante, deduz...
Que, em tudo quanto recebe,
há uma centelha de luz!
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Quem crê na fé, na alegria,
não torna seus sonhos vãos.
Pois, cada mão que nos guia,
tem digitais de outras mãos!
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Saudade é um sonho roubado,
que de forma inconsequente...
Vive no tempo passado,
numa ilusão do presente!
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Saudade! – Velhas raízes
da solidão dos meus ais,
longe das noites felizes
dos meus antigos Natais!
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Se a cruz pesar mais, descreve
o que dela se deduz:
Que tudo quanto se deve,
Deus põe nos braços da cruz!
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Se há estradas tão dolorosas
e há cardos pelos caminhos...
Larga o caminho das rosas.
Põe teus pés sobre os espinhos!
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Se for falta de agasalho,
ou porque não tenho escolha,
a escolha do meu trabalho
se agasalha em qualquer folha!
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Sei que a saudade me escolta,
mesmo triste e tão sozinho!...
Como é bom quando se volta,
mesmo velho, ao velho ninho!
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Seis horas!... E, em triste canto,
o sino em seu padecer...
Vai driblando a dor do pranto
nos dobres do entardecer!
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Sempre o mar nas horas calmas
dos sóis de suas manhãs,
liberta os grilhões das almas
presas, às ondas pagãs!
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Se o amor é cego e reclama,
reclama sem sentir dor;
quando um cego acende a chama,
é um feliz cego de amor!

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Sigo do ocaso ao sol posto,
da vida não me envergonho.
O tempo enruga o meu rosto
mas não põe ruga em meu sonho!
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Sinto que o amor se agasalha,
nos teus olhos cor de mel...
Quando a lágrima enxovalha
meu lencinho de papel!
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Tuas juras, sempre vãs,
compromissos de ninguém,
são velhas juras pagãs
ferindo o orgulho de alguém!
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Um samba, dentre os mais belos
que, a memória perpetua...
E aquele, de teus chinelos
nas pedras de minha rua!
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Vejo que teus velhos braços
mantém a mesma medida,
com que mediste os meus passos
na primavera da vida!
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Professor Garcia (1946)
        FRANCISCO GARCIA DE ARAÚJO (conhecido por Professor Garcia)  é um dos maiores expoentes da cultura potiguar, destacando-se como poeta, trovador, escritor e compositor profundamente ligado a Caicó e à região do Seridó. Sua trajetória une a educação formal à preservação das tradições líricas e da literatura de cordel no Nordeste. Nasceu na Fazenda Acari, no município de Malta (PB), em 1946. Mudou-se para Caicó (RN), em julho de 1959, acompanhado de seu tio, o também poeta José Lucas de Barros. Desde então, fincou raízes na cidade e adotou o Seridó como seu lar definitivo. Graduou-se em Letras (Português e Inglês) e em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de possuir pós-graduação em Teologia e Éticas Especiais. Como educador, lecionou as disciplinas de Português, Francês, Inglês e Espanhol. Atuou profissionalmente como bancário. No setor público, exerceu forte representação política em Caicó, onde foi Vereador e Secretário Municipal.
Dedica-se ativamente à divulgação da poesia lírica e da trova, apresentando o programa semanal "Momentos Com Nossos Poetas" na Rádio A Voz do Seridó (100 FM). Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS); Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte (ATRN); Delegado e membro ativo da União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção de Natal/RN e Caicó/RN; Membro efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL), acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Alguns livros Publicados: Trovas que Sonhei Cantar (1974); Cantigas do Meu Cantar (2017).
Ao longo de sua carreira literária na cultura popular e no movimento trovadoresco brasileiro, obteve diversas classificações e menções honrosas em concursos nacionais de trovas promovidos pelas seções da UBT. O Professor Garcia desempenha um papel fundamental como guardião da identidade e da memória do Sertão do Seridó. A sua relevância reside na manutenção viva do Trovadorismo — uma vertente literária clássica e poética focada em composições rimadas de quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior). Ao liderar o Clube de Trovadores regional e utilizar os meios de comunicação de massa para espalhar a poesia nordestina, ele conecta a erudição da sua formação acadêmica com a pureza da cultura de raiz. Ele eleva a produção poética do interior do Rio Grande do Norte ao cenário nacional, garantindo que o lirismo sertanejo continue influenciando novas gerações de escritores.

Fontes:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras; Portal CEN; Severo Garcia; Universidade Estatual do Rio Grande do Norte (tese).

Arthur Thomaz (Novo Imortal da Confraria Brasileira de Letras, de Floresta/PR)


É com imensa honra e júbilo que a comunidade literária saúda o escritor e trovador Arthur Thomaz, natural de Campinas/SP (biografia no final), por sua histórica ascensão aos quadros da Confraria Brasileira de Letras.

Em 18 de setembro, o autor tomou posse oficial da prestigiada Cadeira de Número 19, consolidando seu nome entre os grandes imortais que dedicam a vida à salvaguarda, ao fazer poético e à difusão da Língua Portuguesa e da nossa riquíssima tradição literária.

A cadeira assumida por Arthur Thomaz carrega consigo uma responsabilidade e um lirismo singulares, tendo como patrono o saudoso e reverenciado poeta e trovador potiguar Ademar Macedo. Unindo o interior paulista ao Nordeste brasileiro pelo fio condutor da trova, essa sucessão celebra a imortalidade da poesia e perpetua o legado de Ademar através da sensibilidade artística, da métrica precisa e da dedicação cultural que o novo confrade sempre imprimiu em sua trajetória.

Vindo de Campinas, importante polo cultural do estado de São Paulo, Arthur Thomaz destaca-se na cena contemporânea por sua versatilidade nas letras. Autor de obras que transitam do lirismo poético à literatura — como o sensível livro Sofia e o Circo —, o escritor encontra na trova sua expressão mais íntima e vigorosa. A trova exige o rigor da técnica e a leveza do sentimento, virtudes que Arthur Thomaz domina com maestria.

A chegada de Arthur Thomaz à Confraria Brasileira de Letras representa não apenas o merecido reconhecimento a uma carreira dedicada à beleza das palavras, mas também uma promessa de continuidade. Ao saudar a memória de seu patrono Ademar Macedo, o novo acadêmico assume o compromisso de manter viva a chama da trova nacional, provando que a poesia permanece firme como pilar de nossa identidade cultural.

Damos as mais calorosas boas-vindas ao novo imortal. Que sua jornada na Cadeira 19 seja repleta de inspiração, belas rimas e profícua produção literária!
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Os membros imortais da Confraria são:

Cadeiras e Membros Titulares

01 - José Feldman (Floresta/PR)
02 - Carolina Ramos (Santos/SP)
03 - André Ricardo Rogério (Arapongas/PR)
04 - Carmo Braz de Oliveira (Foz do Iguaçu/PR)
05 - Luiz Antonio Cardoso (Taubaté/SP)
06 - Silmar Bohrer (Caçador/SC)
07 - Aparecido Raimundo de Souza (Vila Velha/ES)
08 - Renato Benvindo Frata (Paranavaí/PR)
16 - Sammis Reachers (São Gonçalo/RJ)
18 - Benevides Garcia (Benjunior) (Porto União/SC)
19 – Arthur Thomaz da Silva Neto (Campinas/SP)
20 - Vanice Elizabeth Zimerman Ferreira (Curitiba/PR)
23 - Edy Soares (Vila Velha/ES)
25 - Daniel Maurício (Curitiba/PR)
27 - Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta) (Rio de Janeiro/RJ)
29 - Cecy Barbosa Campos (Juiz de Fora/MG)
32 - Jorge Fregadolli (Maringá/PR)
36 - Luciano Dídimo (Fortaleza/CE)
38 - Therezinha Dieguez Brisolla (São Paulo/SP)
39 - Paulo Roberto Oliveira Caruso (Niterói/RJ)
41 - Luiz Damo (Caxias do Sul/RS)
42 - Sinclair Pozza Casemiro (Campo Mourão/PR)
43 - Filemon Francisco Martins (São Paulo/SP)
49 - Célio Simões de Souza (Belém/PA)
50 - Professor Francisco Garcia (Caicó/RN)
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Arthur Thomaz (1950)
        ARTHUR THOMAZ DA SILVA NETO é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Antônio Torres (Bodas e pêsames...)

Há duas situações sociais capazes de inspirar terror: a situação do noivo e a de representante da família de um defunto, logo depois da missa de sétimo dia. Um noivo, só por si, já é uma figura vagamente ridícula, pela maneira por que é pretendente: solicitando “a mão da noiva” por intermédio de terceiros; fazendo-lhe uma primeira visita, toda cheia de timidez e comoção, fiscalizado pelos pais ou pelos irmãos pequenos durante o tempo em que ele está na sala, no jardim, ou no alpendre com a prometida. Junte-se a esta carga de ridículo íntimo a sobrecarga das pompas mundanas de um casamento entre nós, e teremos a medida mais ou menos exata do constrangimento moral de um noivo, se ele é homem de sensibilidade. Eu não sei realmente como um homem não estoura de vexame, quando se mete com a noiva num landau enfeitado de flores de laranjeira e puxado por parelhas de cavalões brutais, de patas pintadas de branco e cheios de guizos e chocalhos e xiquexiques que fazem barulho de feira e recordam os palhaços que, no interior, saem à rua anunciando espetáculo no circo equestre. Casos desses justificam o suicídio...

Outra situação desesperadora é a de pessoas que convidam os amigos para ouvirem missa de sétimo dia por alma dos mortos queridos. Quer aqui no Rio, quer no interior, manda a etiqueta que, depois da missa, todos os convidados se aproximem das “pessoas da família” e as abracem. Começa, então, para cavalheiros e senhoras da família do defunto, um suplício de que não cogitou a Inquisição; abrir mecanicamente os braços, receber entre eles quem quer que se aproxime, apertar um pouco essa pessoa e dar-lhe nas costas as três palmadinhas do estilo, murmurando: “Muito obrigado”! Está bem visto que esses abraços nada significam de parte a parte, quanto à sinceridade; porque, em consciência, é impossível que quinhentas pessoas, sete dias depois da morte de um cidadão, de quem não são parentes, ainda estejam comovidas...

De maneira que essa etiqueta inquisitorial e ridícula só produz um efeito: ajuntar um tormento físico ao suplício moral da família. Eis por que compreendi perfeitamente a atitude de certa família de boa sociedade, que, convidando, há tempos, as suas relações para uma missa de sétimo dia, declarou nos convites que dispensava o abraço do costume; bastando que cada um dos assistentes deixasse o seu nome num livro adrede colocado à porta da igreja. Eis o que devia ser geralmente adotado; uma vez que o abraço é apenas a prova de que F. fez ato de presença, substitua-se o abraço pela assinatura num livro. Lucra a família, que se livra de uma tortura, e lucram os assistentes, que, depois de assinarem o nome no tal Registro de Pêsames, podem fugir tranquilamente à maçada de uma missa fúnebre.... Podemos ficar certos de uma coisa: é que, se se invertessem os papéis, quero dizer, se fôssemos nós que estivéssemos na cova, e se o defunto, que aliás não seria defunto, fosse à nossa missa de sétimo dia, faria o mesmo, isto é, assinava o nome na lista e fugia pela porta da sacristia...
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Antônio Torres (1885 - 1934)  
ANTÔNIO DOS SANTOS TORRES nasceu em Diamantina/MG, em 1885, e faleceu em Hamburgo/Alemanha, em 1934. Cursou Seminário, ordenando-se padre em 1908. No Seminário foi professor de português, latim, geografia, música e catecismo. Foi colaborador de alguns jornais como “A Estrela Polar”, “Pão de Santo Antônio”, “Voz de Diamantina”, “A Idea Nova” e “Diamantina”. Em 1911, depois de atritos provocados por artigos que escreveu, colocando-se contra a catequese de índios por sacerdotes estrangeiros, abandona a batina. Passa, então, a colaborar ativamente na imprensa carioca (O País, Correio da Manhã, Gazeta de Notícias, Revista ABC e A Notícia) e paulista (A Gazeta), tornando-se um dos mais veementes polemistas da imprensa brasileira. Também atuou na carreira diplomática, servindo como cônsul em Londres, Berlim e Hamburgo.
Como polemista, seus alvos principais eram a colônia portuguesa, o jornalista Paulo Barreto, o poeta Hermes Fontes, entre outros. Em As razões da Inconfidência (1925), descreveu o quadro da exploração a que os portugueses submeteram o Brasil. Seus livros de maior sucesso foram: Verdades indiscretas (1920), Pasquinadas cariocas (1921), Prós e contras (1922), As razões da Inconfidência (1925), etc.
Apesar de não ter participado do Modernismo, contribuiu para desmoralizar os parnasianos e passadistas. Segundo Alfredo Bosi, "foi temperamento virulento e polêmico, de fundo moralista, no mais amplo sentido da palavra: daí sua prosa de historiador e de cronista, que persegue, no fato diário, as contradições e fragilidades da sociedade carioca da época".

Fonte:
Antônio Torres. Uma antologia. RJ: Topbooks, 2002.

Silmar Bohrer (Jardim de Versos)

 

A VOZ DO SILÊNCIO

Nas horas mais doces do teu viver
quando o interior está em bonança,
procura ao recôndito então volver,
fazendo contigo mesmo uma aliança.

Dentro do ser encontrarás solução
para criar teu mundo sem arremedo,
penetra nos escaninhos do coração,
dentro de ti mesmo está o segredo.

O divino silêncio torna soberana
essa crisálida que aciona silente
o âmago da tua consciência humana.

Nos teus vagares foventes e a sós
procura ouvir essa musa aliciante
que fala no esconso de todos nós.
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CANETA NOVA

Eis que surge um versinho
para inaugurar nova caneta,
verso pobrete do esteta
recebido com carinho.

O verso pobrete do esteta
tem sido o meu diapasão,
os dias vêm, os dias vão,
vou tentando cobrir a meta.

Os dias vão, os dias vêm,
no versejar itinerante
estou vivendo como ninguém,

Caneta nova entre os dedos
é realmente contagiante,
tecemos versos sem arremedos.
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CANTILENAS

Na rude sina de escrever
não tenho o brilho de versejar,
sem o estro como me atrever
a alguma rima iluminar.

Lendo Confúcio e os sonetos
de Bilac reverberando,
nos parnasianos, nos analetos
a rabiscar vou bem lutando.

São cantigas mãos-atadas,
sem vigor e sem brilho, dezenas
de estrofes versalhadas,

São carmas sem nenhum matiz,
tantos versos cantilenas
e garatujas do bardo aprendiz.
= = = = = = = = = = = = = =  

MENSAGEM

Amados versos que faço nesta hora
todo satisfeito a relembrar o dia
que encarnei no íntimo essa magia
e o sentimento que me ocupa agora.

Não esqueço do seu gracioso olhar
eivando o amor a nossas primícias,
a voz ternura e as maçãs puníceas
são detalhes que não pude olvidar.

Meus olhos leram no seu doce olhar
a mensagem sublime do nosso porvir,
e embevecido, sem poder falar,

Imerso na candura do seu esplendor,
abri o véu da alvorada e vi surgir
a manhã radiosa do nosso amor.
= = = = = = = = = = = = = =  

POETA

Ser poeta!  Que esplêndida alegria
sentir a doçura das coisas amenas
para semeá-las nos mádidos poemas
que são versos nossos de cada dia.

Ser poeta!  Que estranha felicidade
cantar da vida as mais rudes penas,
liças. misérias, queixumes... dezenas
que abundam neste antro de maldade.

Ser poeta!  Que insólita dualidade
determinar nas rimas com harmonia
os quadros diversos da humanidade.

Ser poeta!  Qual arauto que anuncia
entre os males da vida e da bondade
um mundo eivado pela divina Poesia.
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PRISIONEIRO

Em nosso mundo cheio de aguilhões
onde os seres aspiram a liberdade,
e com toda força em seus corações
lutam por ela, lutam com ansiedade,

Em nosso mundo eivado de reclamos
onde muitos vivem com a incerteza
de horas felizes e sem desenganos,
embora encontrem neles sua defesa,

Em nosso mundo nocivo que molesta
os corações humanos com embaraços
estoicos aos anelos em cada gesta,

Eu quero ser mesmo um prisioneiro
que goza na peia dos teus abraços
as delícias do nosso amor fagueiro.
= = = = = = = = = = = = = =  

RIQUEZAS

Tirem-me tudo na vida,
mesmo os brilhantes ouropéis,
mas me deixem na guarida
da caneta e dos papéis.

Companhias singulares
que trago na algibeira,
repositório dos pensares
que revolvo a vida inteira.

E assim neste mundo material
vou cultivando perenidades
que fazem bem ao meu astral,

Quais delícias inefáveis
os meus versos raridades
são riquezas inalienáveis.
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 Silmar Bohrer (1950) 
        O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.
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Fonte:
Recanto das Letras do poeta
Biografia = Confraria Brasileira de Letras, etc.

Rubem Braga (A primeira mulher do Nunes)

Hoje, pela volta do meio-dia, fui tomar um táxi naquele ponto da Praça Serzedelo Correia, em Copacabana. Quando me aproximava do ponto notei uma senhora que estava sentada em um banco, voltada para o jardim; nas extremidades do banco estavam sentados dois choferes, mas voltados em posição contraria, de frente para o restaurante da esquina. Enquanto caminhava em direção a um carro, reparei, de relance, na senhora. Era bonita e tinha ar de estrangeira; vestia-se com muita simplicidade, mas seu vestido era de um linho bom e as sandálias cor de carne me pareceram finas. De longe podia parecer amiga de um dos motoristas; de perto, apesar da simplicidade de seu vestido, sentia-se que nada tinha a ver com nenhum dos dois. Só o fato de ter sentado naquele banco já parecia indicar tratar-se de uma estrangeira, e não sei por que me veio a ideia de que era uma senhora que nunca viveu no Rio, talvez estivesse em seu primeiro dia de Rio de Janeiro, entretida em ver as árvores, o movimento da praça, as crianças que brincavam, as babás que empurravam carrinhos. Pode parecer exagero que eu tenha sentido isso tudo de relance, mas a impressão que tive é que ela tinha a pele e cabelos muito bem tratados para não ser uma senhora rica ou pelo menos de certa posição, deu-me a impressão de estar fruindo um certo prazer em estar ali, naquele ambiente popular, olhando as pessoas com um ar simpático e vagamente divertido. Foi o que me pareceu no rápido instante em que nossos olhares se encontraram.

Como o primeiro chofer da fila alegasse que preferia um passageiro para o centro, pois estava na hora de seu almoço, e os dois carros seguintes não tivessem nenhum chofer aparente, caminhei um pouco para tomar o que estava em quarto lugar. Tive a impressão de que a senhora se voltara para me olhar. Quando tomei o carro e fiquei novamente de frente para ela, e enquanto eu murmurava para o chofer o meu rumo – Ipanema – notei que ela desviava o olhar; o carro andara apenas alguns metros e, tomado de um pressentimento, eu disse ao chofer que parasse um instante. Ele obedeceu. Olhei para a senhora, mas ela havia voltado completamente a cabeça. Mandei tocar, mas enquanto o velho táxi rolava lentamente ao longo da praia eu fui possuído pela certeza súbita e insistente de que acabara de ver a primeira mulher do Nunes.

– Você precisa conhecer a primeira mulher do Nunes – me disse uma vez um amigo.

– Você precisa conhecer a primeira mulher do Nunes – me disse outra vez outro amigo.

Isso aconteceu há alguns anos, em São Paulo, durante os poucos meses em que trabalhei com o Nunes. Eu conhecera sua segunda mulher, uma morena bonitinha, suave, quieta – pois ele me convidara duas vezes a jantar em sua casa. Nunca me falara de sua primeira mulher, nem sequer de seu primeiro casamento. O Nunes era pessoa de certo destaque em sua profissão e afinal de contas um homem agradável, embora não brilhante. Notei, entretanto, que sempre que alguém me falava dele era inevitável uma referência à sua primeira mulher.

Um casal meu amigo, que costumava passar os fins de semana em uma fazenda, convidou-me certa vez a ir com eles e mais um pequeno grupo. Aceitei, mas no sábado fui obrigado a telefonar dizendo que não podia ir. Segunda-feira, o amigo que me convidara me disse:

– Foi pena você não ir. Pegamos um tempo ótimo e o grupo estava divertido. Quem perguntou muito por você foi a Marissa.

– Quem?

– A primeira mulher do Nunes.

– Mas eu não conheço …

– Sei, mas eu havia dito a ela que você ia. Ela estava muito interessada em conhecer você.

A essa altura eu já sabia várias coisas a respeito da primeira mulher do Nunes; que era linda, inteligente, muito interessante, um pouco estranha, judia italiana, rica, tinha cabelos castanho-claros e olhos verdes e uma pele maravilhosa – “parece que está sempre fresquinha, saindo do banho”, segundo a descrição que eu ouvira.

Quando dei de mim eu estava, de maneira mais ingênua, mais tola, mais veemente, apaixonado pela primeira mulher do Nunes. Devo dizer que nessa ocasião eu emergia de um caso sentimental arrasador – um caso que mais de uma vez chegou ao drama e beirou a tragédia e em que eu mesmo, provavelmente, mais de uma vez, passei os limites do ridículo. Eu vivia sentimentalmente uma hora parda, vazia, feita de tédio e remorso; a lembrança da história que passara me doía um pouco e me amargava muito. Além disso minha situação não era boa; alguns amigos achavam – e um teve a franqueza de me dizer isso, quando bêbado – que eu estava decadente em minha profissão. Outros diziam que eu estava bebendo demais. Enfim, tempos ruins, de moral baixa e ainda por cima de pouco dinheiro e pequenas dívidas mortificantes. Naturalmente eu me distraía com uma ou outra historieta de amor, mas saía de cada uma ainda mais entediado. A imagem da primeira mulher do Nunes começou a aparecer-me como a última esperança, a única estrela a brilhar na minha frente. Esse sentimento era mais ou menos inconsciente, mas tomei consciência aguda dele quando soube que ela ganhara uma bolsa esplêndida para passar seis meses nos Estados Unidos. Senti-me como que roubado, traído pelo governo norte-americano. Mas a notícia veio com um convite – para o jantar de despedida da primeira mulher do Nunes.

Isso aconteceu há quatro ou cinco anos. Mudei-me de São Paulo, fiz algumas viagens, resolvi parar mesmo no Rio – e naturalmente me aconteceram coisas. Nunca mais vi o Nunes. Aliás, nos últimos tempos de nossas relações, eu me distanciara dele por um absurdo constrangimento, o pudor pueril do que ele pudesse pensar no dia em que soubesse que entre mim e a sua primeira mulher… Na realidade nunca houve nada entre nós dois; nunca sequer nos avistamos. Uma banal gripe me impediu de ir ao jantar de despedida; depois eu soube que sua bolsa fora prorrogada, depois ouvi alguém dizer que a encontrara em Paris – enfim, a primeira mulher do Nunes ficou sendo um mito, uma estrela perdida para sempre em remotos horizontes e que jamais cheguei a avistar.

Talvez fosse mesmo ela que estivesse pousada hoje, pelo meio-dia, na Praça Serzedelo Correia, simples, linda e tranquila. Assim era a imagem que eu fazia dela; e tive a impressão de que seu rápido olhar vagamente cordial e vagamente irônico tentava me dizer alguma coisa, talvez contivesse uma espantosa e cruel mensagem: “eu sei quem é você; eu sou Marissa, a primeira mulher do Nunes; mas nosso destino é não nos conhecermos jamais…”
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Rubem Braga (1913 - 1990)
RUBEM BRAGA é considerado o maior cronista da literatura brasileira, tendo elevado a crônica jornalística ao status de alta literatura. Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 1913 e faleceu aos 76 anos, no Rio de Janeiro, em 1990, decorrência de um câncer na laringe. Embora tenha nascido no Espírito Santo, Rubem Braga foi um cidadão do mundo. Morou em Belo Horizonte e São Paulo no início da carreira. Viveu em Porto Alegre nos anos 1930 e passou uma temporada na Itália (como correspondente de guerra). Fixou residência definitiva no Rio de Janeiro, onde ficou famosa a sua cobertura em Ipanema, repleta de árvores frutíferas e passarinhos, que refletiam seu amor pela natureza. Também morou temporariamente em Santiago (Chile), Paris (França) e Rabat (Marrocos) devido a funções diplomáticas. A trajetória profissional de Rubem Braga esteve indissociavelmente ligada ao jornalismo. Formou-se em Direito em 1932, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou nos maiores jornais e revistas do país, incluindo Diários Associados, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Manchete. Em 1944, cobriu a Segunda Guerra Mundial na Itália como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mais tarde, exerceu cargos diplomáticos, atuando como Embaixador do Brasil em Marrocos no início da década de 1960. Em 1967, fundou a prestigiada Editora Sabiá ao lado do amigo Fernando Sabino.
Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar de seu imenso prestígio, ele era um homem de hábitos simples e avesso a formalismos ou rituais institucionais, preferindo manter-se focado no cotidiano das redações e na vida boêmia e intelectual carioca. Diferente de seus contemporâneos, que transitavam entre romances e poesias, Rubem Braga dedicou-se quase exclusivamente à crônica. Ele estreou em livro em 1936 e, ao longo de mais de 50 anos de carreira, escreveu milhares de textos jornalísticos que depois eram reunidos em volumes independentes. Recebeu diversas honrarias ao longo da vida, com destaque para o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Crônica e Novela" no ano de 1961, pelo livro Ai de ti, Copacabana. Também recebeu o prêmio de Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato) em 1968.
Principais livros publicados: O Conde e o Passarinho (1936) – Seu livro de estreia; Morro do Isolamento (1944); Ai de ti, Copacabana (1960) – Uma de suas coletâneas mais célebres e líricas; A Traição das Elegantes (1962); O Recado do Morro (1971); O Menino e o Tuim (1986).
A importância de Rubem Braga para a literatura é monumental: ele foi o responsável por consolidar a crônica como um gênero literário genuinamente brasileiro. Antes dele, o texto de jornal era visto como algo menor, efêmero e puramente informativo. Provou que era possível fazer alta literatura a partir das coisas mais simples do dia a dia. Com um estilo marcado pela extrema simplicidade, melancolia, lirismo e uma aguçada sensibilidade poética, ele transformava o voo de um passarinho, um encontro de esquina, a chuva que caía no Rio de Janeiro ou as memórias da infância em reflexões profundas sobre a condição humana. Apelidado de "O Sabiá da Crônica", Rubem Braga abriu caminhos para que gerações de escritores brasileiros fizessem do cotidiano a sua matéria-prima literária mais nobre.

Fontes:
Revista Manchete. RJ. Outubro de 1957
Wikipedia

Rachel de Queiróz (Terra nova)

Diz que certa vez o duque de Windsor, em Paris, foi visitar a exposição que lá fazia Portinari e se interessou por comprar um quadro:

―  O senhor não terá alguma pintura de flores?

E Candinho, botando o seu olho azul e irônico no ex-rei:

―  Não senhor. Só tenho miséria.
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Assim me sinto hoje em dia. Queria escrever uma história gentil, contando a adaptação de uma família pau-de-arara que deixou as asperezas da catinga nativa pelas grandezas de São Paulo. Mas não saem flores, só sai miséria.

Começa o caso com o embarque de trem no Quixadá, em procura do Crato, ponto final da linha de ônibus para São Paulo.

Mas passemos por alto essa viagem de quatrocentos e tantos quilômetros no trem superlotado, atrasado, descarrilado; a chegada ao Crato já tarde da noite, a procura de pensão, as crianças chorando, as trouxas perdidas, nem uma porta aberta onde se comprasse uma bolacha.

Passemos, ah passemos ainda mais por alto a viagem de ônibus, três mil e quatrocentos quilômetros através da Transnordestina e depois a Rio-Bahia e depois a Via Dutra. Tudo são dores e enjoo, calor e poeira, sacolejos e esperas de dias quando há um prego, sempre no maior desconforto, sem falar na saudade e no medo da mudança, que isso já nem são desconfortos, são metafísicas. E a gente queria contar uma história gentil.

Depois vem a chegada em São Paulo.

Foi Ribamar, o irmão, que numa loucura de generosidade mandou chamar a tribo toda, incluindo a mãe viúva, os irmãos casados, a mana solteira e os dois sobrinhos órfãos. Pagou as passagens, mas não os pôde esperar na estação. O ônibus não tem hora de chegada, quando muito tem um dia, e isso não contando os pregos. Felizmente o Ribamar teve a ideia de mandar em carta o número do telefone de um botequim de onde o poderiam chamar por favor na obra em que trabalhava.

Mas aí veio o problema de falar no telefone, coisa que ninguém da família sabia. E de onde telefonar? O Eliseu, o mais velho e mais expedito, teve a ideia de perguntar a um passante se ele sabia onde é que ficava aquele telefone. O paulista aí gozou a besteira do baiano, e o Eliseu foi se danando, porque para começo de conversa ele não é baiano, nunca teve parente baiano e até não gosta muito de baiano. Mas o paulista depois de gozar um pouco, mostrou a sua boa vontade e deu o telefonema, chamando o Ribamar. Que mandou a família esperar com paciência na rodoviária, enquanto ele tomava condução e os alcançava. Se acomodaram mal e mal pelos bancos da estação e ficaram esperando. Horas, horas. Cansados, com fome. E o frio? Frio aliás já vinha ocupando lugar importante na vida deles, penetrando os uniformes de brim dos homens, os vestidos delgados das mulheres, desde que haviam começado a escalar as altitudes de Minas Gerais. E agora ali na cidade, enquanto uma garoa fina começava a penetrar o ar escuro, o frio passava pelos panos de algodão como luz pelo vidro, furava a pele e ia morder os ossos.

Afinal apareceu o Ribamar ―  de óculos escuros, blusão de couro, quem visse dizia que era um aviador. Falando animado, mas sentia-se que estava um pouco tonto com aquele povaréu todo que lhe caía assim às costas, nove pessoas!

Como é que ia botar tudo no quartinho de aluguel que arranjara numa favela improvisada pros lados da Cantareira, por nome a Nova Bahia?

Aliás, segundo explicava um carioca lá residente, o povo só chama aquilo de favela é por ignorância. Porque favela, em linguagem do Rio, quer dizer morro, paisagem, arquitetura de passarinho e não aqueles barracos sujos entre a lama e o alagadiço. Favela é berço de samba, que o carioca dizia. Mas o pessoal deu para chamar favela a tudo que é acampamento de pobre e depois do diário da Carolina ficou por favela mesmo e pronto. Ninguém pode com literatura.

A tia da namorada do Ribamar arranjara-lhe um cartão de matrícula para a família na seção de empregos das Obras Sociais de São Jorge.

Mas caridade particular, quando é feita em escala muito larga, vira igual coisa de governo: se burocratiza. As moças da Obra têm muita boa vontade, fazem as cartas de recomendação solicitando emprego às firmas, mas não vão saber se as cartas são atendidas, não é mesmo?

Seria impossível acompanhar cada pobre. Ver se o bilhete é recebido. Se o hospital tem leito vago. Se há vaga de emprego.

Organiza-se uma imensa máquina para trabalhar pelo amor de Deus ― mas parece que Deus não gosta de máquinas. Ademais, os caminhos de Deus são tão difíceis. Quem faz o gesto já acha que fez muito. E acaba ficando tudo na formalidade da apresentação — depois se entrega a Deus. E parece que até Deus se cansa.

Fica o coitado andando de Pilatos a Herodes, com o cartãozinho da Obra. Quando os homens do emprego desenganam logo, ainda bem, mas quando ficam cozinhando com pouco fogo ― venha amanhã, venha depois, só passadas cinco horas, amanhã não que é sábado, segunda também não, pensando bem só na terça... E o pobre tomando condução pra lá e pra cá, e gastando sapato, e paciência, e esperança... Ai, só quem sente sabe.

No fim foram vendo que só podiam contar com eles mesmos, e como eram nove, não incluindo o Ribamar, era afinal bastante gente.

Quem primeiro se empregou foi mesmo o Eliseu. Numa construção. Imagine quem toda a vida foi vaqueiro, no costume de não carregar nem o próprio corpo, pois só andava montado, virar servente de pedreiro, com o mestre a toda hora gritando pela massa, e o pobre de chouto com a lata na cabeça. Já estava de moleira baixa de tanto carregar peso.

E ainda se dava por feliz porque sendo ele o primeiro a se empregar, foi a bem dizer também o único. Os outros ainda estão na mão. A Zuila se colocou de aprendiz num salão de manicure, mas sem salário. O Francisquinho está pensando em sentar praça para ter caderneta de serviço militar. Os pequenos precisam é de escola. A velha, quando arranja o quê, cozinha. E tudo comendo, vestindo, andando, gastando calçado e condução. E tirando de onde?

O Ribamar que o diga — já vendeu o blusão de couro, os óculos, e empenhou o relógio.

Ai, São Paulo é muito bom, mas cidade grande é fogo. E o Ceará tão longe! E ainda por cima ser tratado de baiano.
*

Desculpem. Mas eu não disse que só tinha miséria?
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Rachel de Queiróz (1910 - 2003)
RACHEL DE QUEIRÓZ foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira, consagrada como a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e um dos principais nomes da segunda fase do Modernismo (Geração de 30). Nascida em Fortaleza/CE, em 1910. Pelo lado materno, era descendente da estirpe de José de Alencar. Faleceu aos 92 anos, no Rio de Janeiro em 2003, vítima de um enfarte enquanto dormia em sua rede. Passou a primeira infância na Fazenda Junco, em Quixadá/CE. Em 1917, para fugir dos impactos da histórica seca de 1915, migrou com a família para o Rio de Janeiro e, logo em seguida, para Belém/PA. Retornou a Fortaleza em 1919. Na idade adulta, dividiu sua vida por décadas entre o apartamento no Rio de Janeiro, onde trabalhava e a sua amada fazenda "Não Me Deixes", em Quixadá, seu refúgio sertanejo no Ceará. Diplomou-se professora de história aos 15 anos. Contudo, destacou-se massivamente como jornalista e cronista, escrevendo por mais de 30 anos para a revista O Cruzeiro e para jornais como O Povo e Diário de Notícias. Atuou intensamente como tradutora, vertendo mais de 40 obras de autores clássicos (como Jane Austen e Dostoiévski) para o português. Teve também uma importante atuação política na juventude, ligada ao Partido Comunista (do qual se afastou posteriormente), e chegou a ser cotada para o cargo de Ministra da Educação. 
Fez história em 1977 ao ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição (Cadeira nº 5). Também foi membra da Academia Cearense de Letras. Sua estreia na literatura ocorreu de forma meteórica em 1930, aos 20 anos de idade, com o romance O Quinze. O livro causou grande impacto nacional pela maturidade com que uma jovem mulher tratava a tragédia social e humana da seca nordestina. Recebeu o Prêmio Graça Aranha por O Quinze (1931). Ao longo da carreira, foi agraciada com o Prêmio Jabuti (1970) e o Prêmio Juca Pato (1993). Em 1993, quebrou mais um tabu ao ser a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o reconhecimento literário mais importante da língua portuguesa. 
Principais livros publicados: O Quinze (1930) – Romance de estreia e marco do regionalismo modernista; João Miguel (1932) – Romance focado na realidade carcerária do sertão; Caminho de Pedras (1937) – Obra de forte teor político e social; As Três Marias (1939) – Livro que discute a condição feminina urbana; O Galo de Ouro (1950) – Romance publicado inicialmente em folhetim; Memorial de Maria Moura (1992) – Épico sobre o cangaço e sua última grande obra-prima, adaptada com enorme sucesso como minissérie de TV; Lampião (1953) – Peça de teatro de grande sucesso.
A relevância de Rachel de Queiroz é imensurável sob dois aspectos fundamentais: artístico e social. No plano artístico, ela ajudou a redefinir o romance regionalista brasileiro, despindo o sertão de qualquer romantismo idealizado. Sua prosa era firme, enxuta, realista e de uma sensibilidade cortante, focada nas dores da desigualdade, do patriarcado e da miséria. No plano social, Rachel foi uma pioneira absoluta na emancipação e ocupação de espaços pelas mulheres no ecossistema intelectual do país. Em uma época na qual o meio literário era dominado quase que exclusivamente por homens, ela impôs sua voz e abriu as portas da Academia Brasileira de Letras para as escritoras que viriam depois. Sua escrita deu voz aos esquecidos do sertão e fixou para sempre o ponto de vista feminino na história literária nacional.

Fontes:
O Cruzeiro. RJ: 16 jun 1962
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