segunda-feira, 6 de abril de 2026

Asas da Poesia * 172 *


Poema de
A. M. A. SARDENBERGER
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis/RJ

Travessia

Peguei o rumo da estrada
Marcando firme o compasso
E fui buscar meu espaço
No romper da madrugada.

Atravessei as cancelas,
Saltei valas e valões,
Abri portas e janelas,
Penetrei pelas favelas,
Andei muitos quarteirões.

Busquei fé e esperança,
Dividi o pão que tinha,
Rezei muitas ladainhas,
Pedi a DEUS proteção…
Dei o abraço apertado
No meu tão sofrido irmão!

Passei fome, senti sede,
Pisei em pedras e espinhos,
Nunca fugi dos caminhos
Que pela vida encontrei
Pois quem foge é covarde
E eu nunca me acovardei.

Fui em busca de um amor,
Movido pela paixão.
Machuquei meu coração,
Que tanto tinha pra dar,
Mas fingi não sentir dor
Conjugando o verbo amar.
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

O vento está dormindo na calçada
(Mário Quintana in "A rua dos Cataventos", p. 20)

“O vento está dormindo na calçada”
A tempestade o pôs fora de portas
Já ia alta a noite, a horas mortas
Quando ele entrou no lar de madrugada.

Andou a perseguir uma noitada
Que se agitava amena, em curvas tortas
Pelos campos lavrados, junto às hortas
E nela se enredou, noite fechada.

Não foi, de modo algum, um caso sério
Somente as aparências de adultério
Que agora paga, exposto ao pó da rua.

Em casa todos dormem sem cuidados
Só os raios do luar, sempre acordados
O cobrem com a luz que vem da lua.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Acabou

Fim de romance... nossa despedida.
E os teus olhos nada revelaram...
Nem sequer um instante vacilaram,
Na hora triste da cruel partida!

Chaga imensa se abriu em minha vida
Desde o instante em que se afastaram
Nossas almas que sempre caminharam
Juntas, unidas, numa mesma lida.

Apartaram-se. Fim do nosso amor
... melhor assim...
Sigamos, pois, esse destino enfim,
Sem queixa, lamúria, ou rancor,

Saiba, tudo farei para um dia esquecer
... sem sofrer...
Mas... Não! O que estou a dizer?!
Oh! Não te vás! Não me deixe, meu amor!...
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Quadra do Folclore Português

Todo homem que arrasta asa
à mulher deste ou daquele
merece, perto de casa,
outro homem igual a ele.
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Soneto de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cansaço

No cansaço da noite, entre os cansaços, 
tive um sonho esquisito e diferente,
pois, sonhei abraçado noutros braços,
entre os braços da noite, descontente.

Ante um sonho, outro sonho e, de repente,
eu me sinto algemado noutros laços,
como quem segue a vida loucamente,
controlando as pegadas de outros passos...

E, eu sonhando e sonhando pouco a pouco,
fui ficando no sonho quase louco
nessa louca paixão que não passou...

Se os teus beijos, neguei sem ter ressábios,
quero agora, pagá-los noutros lábios
esses beijos que a vida me negou!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Na banda surrealista
havia um som com falsete;
o bebum clarinetista
pôs pinga no clarinete.
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Idílio de
BOCAGE
(Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage)
Setúbal/Portugal (1765 – 1805) Lisboa/Portugal

Poema dedicado à saudade pelas belezas naturais da cidade ática de Filena

Que terna, que saudosa cantilena 
Ao som da lira Melibeu soltava 
O pastor Melibeu, que por Filena, 
Pela branca Filena em vão chorava! 

Inda me fere o peito aguda pena, 
Quando recordo os ais que o triste dava, 
O pranto que vertia, amargo e justo 
A sombra que ali faz aquele arbusto.
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Idílio, termo de origem grega para uma pequena composição poética de inspiração pastoril, geralmente tratando de assuntos amorosos, religiosos ou utópicos. O lirismo destas composições é marcado pela forte afetação do discurso, repleto de confidências e pensamentos íntimos. 
O primeiro grande cultor deste tipo de poesia foi Teócrito, que nos legou Idílios, mas o modelo clássico mais copiado é sem dúvida o de Virgílio e as suas Bucólicas. Na poesia de Virgílio, o termo reservado para definir este tipo de composição é o de écloga, o que levou a confundir os dois gêneros, bastante semelhantes no tratamento temático, mas diferentes na extensão: o idílio tende a ser mais breve e de versos mais curtos. 
A partir do século XVII e até ao Romantismo, registram-se nas literaturas de expressão portuguesa e castelhana variadíssimos exemplos, que concorrem com inúmeras imitações de Teócrito e Virgílio. Bocage foi um dos cultores portugueses mais encantados pela forma clássica do idílio, escrevendo composições de temas marítimo, pescatório e pastoril. 
O cenário de um idílio obriga à idealização da vida campestre e ao elogio permanente dos seus atributos. O ideal de vida campestre assegura uma paz de espírito e uma serenidade de comportamento que muitos poetas não resistem a cantar, criando cenários mágicos e recorrendo a uma retórica recheada de figuras de pensamento e de linguagem.     (Carlos Ceia. e-Dicionário de Termos Literários)  
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Jaz o ancião na cascata!...
Seu anjo, que é seu abrigo,
já velho e com catarata,
não viu a placa "PERIGO"!
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATTO
Poços de Caldas/MG

A Esperança

Como um cisne a nadar por sobre o lago,
Vejo-te quando friso as águas cristalinas.
Por entre as flores, num espaço vago,
Dando inveja às palmeiras das campinas.
 
Vejo duas pombas, que num doce afago,
No galho balançam quais as bailarinas...
Toca em meu coração o anseio que trago
Que tu desconheces e nem imaginas.

Mas confessar-te eu jamais poderia,
Se nunca me olhas, como ousaria,
Falar de amor a quem só me ignora?

Contento-me a contemplar tua face...
Um dia morre logo outro dia renasce...
A esperança há de voltar com a aurora.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Os meus momentos felizes,
logo o vento os dissipou...
Trago, porém, cicatrizes,
que nem o tempo apagou.
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Poema de
MARCELO RICARDO
Rio de Janeiro/RJ

Seria loucura pura 
Dar apenas razão 
Ao próprio poder

De pensar? Pensar estar certo 
O tempo todo é colocar
Sempre a mesma capa. Ser
Ou não ser termina soando 
Como uma coisa a perecer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Do conquistador, a lábia,
terminou em um relance,
quando a moça, muito sábia
exigiu casto romance...
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Soneto de
ALINE BRITTO SOARES
Rio de Janeiro/RJ

Cântico do nordeste

Já não ouvem as palmas dos coqueiros
doces palavras vindas de além-mar;
não lhes sussurram cânticos brejeiros
trêfegos ventos vindos de ultramar.

Onde andarão os vendavais arteiros
que suas folhas vinham estalar,
pelas noites sem fim, dias inteiros,
nuvens de areia levantando ao ar?

Já outras nuvens que, rolando ao léu,
bailavam, céleres, no azul do céu,
não sombreiam os belos coqueirais.

O árido solo de cuidados urge.
Torna-se agreste a cada sol que surge.
Secam-se os rios nos mananciais!
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Indriso de
SÔNIA DE FÁTIMA MACHADO SILVA
Coromandel/MG

Tardes de abril
 
 Escancaro a janela ...  sinto o ar ainda morno
filtrado pela brisa já quase despida de sol
a soprar as leves folhas amarelas...
 
Meu pensamento rodopia ao longo da rua
misturado às folhas e saudades
sob um  ocaso luminoso e outonal...
 
Dançam as folhas dos arvoredos...
 
Recolho-me às minhas lembranças…
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Trova de
BELMIRO BRAGA 
Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG

As almas de muita gente
são como o rio profundo:
- A face tão transparente,
e quanto lodo no fundo!…
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Doa-se um Coração

Doa-se um bom coração...
Muito afoito e destemido!
Já viveu tanta paixão,
apesar de ter sofrido...

Muito afoito e destemido,
um eterno sonhador.
Apesar de ter sofrido
da solidão tem horror.

Um eterno sonhador,
por muitos, manipulado.
Da solidão tem horror;
quer amar e ser amado.

Por muitos, manipulado
mas ainda em condição...
Quer amar e ser amado
... Doa-se um bom coração!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Braços brancos, amarelos,
ou negros, cor de café,
unidos, são fortes elos
que ao futuro dão mais fé!
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Hino de 
ENGENHEIRO BELTRÃO - PR

I
Qual a estrela que a história ocultasse
Entra as sombras do velho sertão
Eis agora a esplender sua face
Minha terra Engenheiro Beltrão
Há em seu nome crescente homenagem
Ao herói que este chão desbravou
E no seio da agreste paisagem
Uma nova cidade plantou.

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.

II
Teu progresso é vibrante mensagem
De trabalho, de amor e de fé.
Que mudou a floresta selvagem
Em perene caudal de café.
Pelas dignas mãos dessa gente
Que o teu alto destino conduz
Qual rosário deslizam sementes
Que germinam searas de luz

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.
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Poetrix de
JUSSARA MIDLEJ
Jequié/BA

Palavras

Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
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Poema de
ANTÓNIO BARAHONA
(António Manuel Baptista Barahona da Fonseca)
Lisboa/Portugal

Naufrágio

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem e o bosque

Um homem por um bosque um certo dia entrou,
E assim com branda frase às árvores falou:
«Propício o céu vos seja, e nunca o rijo vento,
Nos ares combatendo em furacão violento,
Da rama vos despoje, ou faça baquear
Dos vossos um só tronco». E vendo-as exultar
Com suas expressões, o astuto lisonjeiro
Prossegue: «Oh! tende dó de um triste passageiro
Que de pesada marcha em tal cansaço vem,
Que a força o abandona, em pé mal se sustém.
Dai-me um estéril ramo, a que eu possa encostado
Os passos dirigir». E apenas lhe foi dado,
Com muita prontidão da casca o despojou,
E numa extremidade um ferro lhe ajeitou.
Peita a bipene* assim, o bosque foi cortando;
Com hórrido estampido à terra vem rodando
Piramidal cipreste, o teixo carpidor,
O louro, que coroa o vate, o vencedor:
Rui o frondoso ulmeiro, os choupos alvejantes,
O pinho, o roble, o buxo, o mirto dos amantes:
E todos ao cair, diziam a uma voz:
«Para a desdita nossa os meios demos nós!»

Aquele que armas dá da pátria ao inimigo,
Por suas próprias mãos procura o seu castigo.
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* Bípene = machadinha romana de dois gumes.
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Mensagem na Garrafa 168 = O Rei e a Pedra

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO 
 
Em tempos bem antigos, um rei colocou uma pedra enorme no meio de uma estrada. Então, ele se escondeu e ficou observando para ver se alguém tiraria a imensa rocha do caminho.

Alguns mercadores e homens muito ricos do reino passaram por ali e simplesmente deram a volta pela pedra. Alguns até esbravejaram contra o rei dizendo que ele não mantinha as estradas limpas mas nenhum deles tentou sequer mover a pedra dali.

De repente, passa um camponês com uma boa carga de vegetais. Ao se aproximar da imensa rocha, ele pôs de lado a sua carga e tentou remover a rocha dali.

Após muita força e suor, ele finalmente conseguiu mover a pedra para o lado da estrada.

Ele, então, voltou a pegar a sua carga de vegetais mas notou que havia uma bolsa no local onde estava a pedra.

A bolsa continha muitas moedas de ouro e uma nota escrita pelo rei que dizia que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do caminho.

O camponês aprendeu o que muitos de nós nunca entendeu: "Todo obstáculo contêm uma oportunidade para melhorarmos nossa condição".

Muitas vezes desviamos-nos do nosso caminho para não encarar a realidade pela sua dificuldade e com isso não só passamos o problema para outros por não termos assumido a nossa parte da responsabilidade, como também podemos estar nos privando de muitas coisas boas, no mínimo a satisfação de ter realizado um grande feito.

E todos devemos aprender que os obstáculos, somos nós mesmo que colocamos, na maioria das vezes.

Irmãos Grimm (Os dois irmãozinhos)


O irmãozinho tomou a mão de sua irmãzinha e lhe falou assim:

- Desde que mamãe morreu, não tivemos mais uma hora de felicidade; a madrasta nos bate todos os dias e nos trata a pontapés. Como alimento só temos as duras migalhas que sobram do pão, e até o cãozinho embaixo da mesa leva uma vida melhor, pois de vez em quando lhe jogam alguma coisa boa para comer. Que Deus tenha piedade de nós! Se a nossa mãe soubesse disso! Vem, vamos sair daqui e correr mundo.

Caminharam o dia inteiro e, quando começou a chover, disse a irmãzinha:

- É Deus e os nossos corações que choram juntos!

Á noite chegaram a uma grande floresta e, como estivessem cansados de chorar e de tanto caminhar, e ainda por cima com fome, sentaram-se no oco de uma árvore e ali adormeceram.

Na manhã seguinte, ao despertarem, o sol já estava bem alto no céu e seus raios ardentes envolviam a árvore . Queixou-se, então, o irmãozinho:

- Estou com sede, irmãzinha; se soubesse de uma fonte, iria até lá beber. Parece que estou ouvindo um barulhinho de água.

E, levantando-se, pegou a menina pela mão e saíram à procura da fonte. A madrasta malvada, porém, era uma bruxa e percebera que as duas crianças haviam fugido de casa. Disfarçadamente, como fazem as bruxas, saíra atrás delas e enfeitiçara todas as fontes da floresta. 

Quando os dois encontraram um pequeno regato que saltava, alegre, por sobre as pedras, o irmãozinho quis saciar a sede, mas sua maninha ouviu que o regato murmurava:

- Quem bebe da minha água se transforma em tigre!

A menina, então, exclamou:

- Por favor, não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num tigre e me devorarás.

Embora estivesse com muita sede, o menino obedeceu, dizendo:

- Esperarei até a próxima fonte.

Chegaram ao segundo regato e a garotinha ouviu que também esse falava:

- Quem beber da minha água será um lobo, quem beber da minha água erá um lobo!

Novamente ela pediu:

- Por favor, irmãozinho, não beba; senão te transformarás num lobo e me devorarás.

O garoto não bebeu, mas retrucou:

- Vou esperar até encontrarmos outra fonte; aí, então, beberei , digas o que disseres, pois minha sede é grande demais.

Quando chegam ao terceiro regato, a menina ouviu-o murmurar:

- Quem beber da minha água será um cervo, que beber da minha água será um cervo!

A irmãzinha voltou, de novo, a insistir:

- Peço-te que não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num pequeno cervo e fugirás de mim.

Mas o menino já se ajoelhara junto à fonte para beber e, quando as primeiras gotas molharam os seus lábios, transformou-se num pequeno cervo.

A garotinha pôs-se a chorar, vendo seu pobre irmão enfeitiçado e o cervinho chorou também, deitado muito triste aos pés dela. Por fim disse a menina:

- Sossega, meu bonito cervo; eu nunca te abandonarei.

E, desatando uma das suas ligas dourada, colocou-a no pescoço do animalzinho; depois colheu alguns juncos e trançou uma corda bem macia. Com ela prendeu, o pequeno cervo e ambos foram andando cada vez mais para o interior da mata.

Andaram por muitas horas e finalmente chegaram a uma pequena casa. A menina espiou para dentro e, como estivesse vazia, pensou: " poderíamos ficar morando aqui.". 

Com folhas secas e musgos, preparou um leito macio para o cervo. Todas as manhãs saía em busca de frutinhas e nozes para si mesma; quanto ao animalzinho, trazia-lhe capim bem tenro e alegrava-se brincando ao seu redor. Quando à noite, cansada, já havia rezado as suas orações, ela deitava a cabeça sobre o dorso do pequenino cervo; era o seu travesseiro e ali adormecia suavemente. Se o menino tivesse conservado a forma humana, seria uma vida maravilhosa aquela!

Assim ficaram por algum tempo, sozinhos no bosque. Um dia, porém, o rei daquele país organizou uma grande caçada, e por toda a floresta ecoou o som das trombetas, o latido dos cães e o grito alegre dos caçadores. O pequenino cervo, ao ouvir tudo aquilo, sentiu uma vontade irresistível de assistir à caçada.

- Irmãzinha, - disse, - deixa-me acompanhar a caçada, não posso mais conter-me.

E tanto pediu, que ela, por fim, o deixou partir.

- Mas à noite terás de estar de volta, - recomendou a menina. - Fecharei a porta por causa desses caçadores. Para que possa reconhecer-te, deverás bater e dizer: " Irmãzinha, deixa-me entrar. " Se não fizeres assim, não abrirei.

O animalzinho saiu correndo e saltando, feliz com a liberdade. O rei e seus caçadores viram-no, porém, e o perseguiram sem que o conseguissem apanhar. Quando pensavam que já iam alcança-lo, ele saltava por cima das moitas e desaparecia. Ao escurecer, regressou à casinha, bateu à porta e disse:

- Irmãzinha,  deixa-me entrar!

A porta foi aberta e, correndo para dentro, o cervo descansou a noite inteira em seu leito macio. 

Na manhã seguinte a caçada recomeçou, e mal ouviu ele o som das trombetas e o "Hô! Hô!" dos caçadores, não teve mais sossego e pediu:

- Irmãzinha, abre a porta que eu quero sair.

A menina atendeu, recomendado:

- Mas presta atenção, à noite deves estar de volta e dizer as palavras que te ensinei.

Assim que o rei e seus homens avistaram, de novo, o cervo do colar  dourado, saíram todos em seu encalço. O animalzinho no entanto, era mais rápido e ágil do que eles, A perseguição durou o dia inteiro e somente ao anoitecer os caçadores o tinham, finalmente, cercado, sendo que um deles o feriu de leve numa das patinhas. Manco, o pequeno cervo só pode escapar andando muito devagarinho. Um dos homens o seguiu até a casinha e ouviu quando ele gritou:

- Irmãzinha, deixa-me entrar!

Viu que lhe abriram a porta e logo a fecharam. Foi ao rei e contou-lhe o que tinha visto e ouvido. E o rei respondeu:

- Amanhã faremos outra caçada!

A irmãzinha assustou-se muito quando viu que seu querido cervo estava ferido. lavou-lhe a pata suja de sangue, colocou ervas na ferida e disse-lhe:

- Vai para o teu leito, querido, até ficares bem bom.

O ferimento, porém, era tão leve que, na manhã seguinte, o animalzinho nada mais sentiu e, ao perceber de novo, lá fora, a alegre caçada, disse à irmã:

- Não resisto, preciso tomar parte.

A irmãzinha, chorando, exclamou:

- Vão matar-te e ficarei sozinha  na floresta, abandonada por todo o mundo! Não posso permitir que saia.

- Então morrerei de tristeza, - respondeu o cervo.- Quando ouço a corneta de caça, fico doido por sair correndo.

Incapaz de resistir àquela súplica, a garotinha abriu a porta, com o coração pesaroso, e logo o cervo se precipitou, alegre, pelo mato a dentro. O rei, ao avistá-lo, disse a seus caçadores.

- Persigam-no até anoitecer, mas que ninguém lhe cause dano.

Assim que o sol desapareceu no horizonte o rei chamou o caçador e lhe falou:

- Mostra-me, agora, a casinha do mato.

Ao encontrar-se diante da porta, bateu e pediu:

- Deixa-me entrar, irmãzinha querida!

Abriu e o rei entrou. À sua frente apareceu uma jovem tão bela como não vira outra igual. Ela assustou-se quando viu um homem, de coroa de ouro na cabeça entrar na casa, mas o rei olhou amavelmente para ela e, estendendo-lhe a mão, disse:

- Queres vir comigo para o meu castelo e ser a minha esposa?

- Sim. - retrucou a jovem, - mas o cervo terá de acompanhar-me; não me separo dele.

- Ficará contigo enquanto viveres e nada lhe faltará. - concordou o rei.

Nisto, o animalzinho entrou correndo e a irmã tornou a prendê-lo com a corda de juncos. A seguir, abandonaram a casinha da floresta.

O rei colocou a linda moça na garupa e partiram para o castelo, onde foi celebrado o casamento com grande pompa. Ela passou então a ser rainha e durante muito tempo viveram felizes. O pequeno cervo era bem tratado e vivia saltando, alegre, pelos jardins do castelo.

Entretanto, a madrasta malvada, que havia sido a causa de terem eles fugido de casa, pensava que a menina fora devorada pelas feras e seu irmão, transformado em cervo, morto pelos caçadores. Quando lhe chegou aos ouvidos que os dois viviam felizes e satisfeitos, seu coração quase arrebentou de inveja não a deixando em paz. Pôs-se a maquinar uma maneira de desgraçá-los! 

A filha dela, que era feia como a noite e tinha um olho só, espicaçava a mãe, dizendo-lhe:

- Eu é que deveria ser rainha.

- Acalma-te!- retrucou a velha. - Quando chegar a hora, saberei o que fazer.

Passado algum tempo, a rainha deu à luz um lindo menino. Como o rei, nesse dia, se afastara para caçar, a velha bruxa tomou a forma da camareira, entrou no quarto da rainha e disse-lhe:

- O banho está preparado e lhe fará bem; venha depressa antes que esfrie.

A filha da bruxa também estava presente e ambas levaram a rainha, ainda debilitada, ao quarto de banho, onde a meteram na banheira. Fecharam a porta e logo fugiram, pois tinham acendido ali um fogaréu dos diabos, que asfixiou a jovem e bela soberana.

Feito isto, a velha pôs uma touca na cabeça da filha e fê-la deitar-se na cama da rainha. Deu-lhe também a forma e o aspecto desta; só não pode restituir o olho que faltava e, para que o rei não lhe notasse o defeito, ordenou que se deitasse sobre o lado dele. À noite, quando o rei voltou da caça e soube que havia nascido um filho, alegrou-se de todo o coração e dirigiu-se ao leito da sua esposa, com o propósito de vê-la. Mas a bruxa apressou-se a dizer-lhe:

- De modo algum! Deixe as cortinas fechadas, que a rainha não suporta a luz e necessita de repouso.

O rei, então, se retirou, ignorando que na cama havia uma falsa rainha.

Mas aconteceu que, à meia-noite, quando todos dormiam, a ama, que velava sozinha junto ao berço, no quarto da criança, viu a porta abrir-se e entrar a rainha verdadeira. Debruçando-se sobre o bercinho, tomou nos braços o recém-nascido e o amamentou; depois ajeitou-lhe o travesseirinho e, feito isso, deitou novamente a criança. Também não esqueceu o pequeno cervo. Foi ao lugar em que estava deitado e lhe acariciou o pelo. Logo depois, saiu do quarto. 

Na manhã seguinte, a ama perguntou aos guardas se tinham visto alguém entrar no castelo durante a noite, mas eles responderam:

- Não, não vimos ninguém.

A cena repetiu-se ainda muitas noites, sem que a rainha fantasma pronunciasse uma só palavra. E, embora a ama sempre a visse, não se animava a contar o que estava acontecendo.

Decorrido algum tempo, a rainha, numa de suas visitas noturnas, quebrou o silêncio e começou a falar:

"Como vai meu filho? Como vai meu cervo? Virei mais duas noites, depois nunca mais."

A ama ouviu tudo quieta, mas, depois que a rainha desapareceu, foi ao rei e lhe contou o que se passara. Este, surpreso, exclamou:

- Meu Deus! Que significa isso? Amanhã de noite ficarei de guarda junto à criança.

Quando anoiteceu foi ao quarto do principezinho e à meia-noite a rainha apareceu e disse:

" Como vai meu filho? Como vai meu cervo?
Vim mais uma vez, depois nunca mais."

O rei, não podendo mais conter-se, exclamou:

- Não pode ser outra, senão minha esposa querida!

Ao que ela respondeu:

- Sim, eu sou a tua esposa.

Naquele mesmo instante, com a graça de Deus, voltou à verdadeira vida. Estava tão forte, rosada e bem disposta como antes. Contou logo ao rei o crime que a bruxa malvada e sua filha haviam cometido contra ela. 

O rei ordenou então que ambas fossem levadas perante um tribunal. Este as condenou à morte. A filha foi conduzida à floresta, onde as feras a estraçalharam, ao passo que a bruxa, condenada à fogueira, teve morte horrível. 

Depois que ela foi reduzida a cinzas, o pequeno cervo, transformando-se de novo, recuperou a forma humana, e o irmãozinho e a irmâzinha viveram juntos e felizes até o fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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domingo, 5 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 7. O Caçador do Silêncio

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

Lá, ele encontrou um "dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

"Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

"Shukran" (Obrigado), murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Assina seus escritos por Floresta/PR.. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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