A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
Teu beijo, pela Internet,
vem sempre com tal calor,
que qualquer dia derrete
meu pobre computador!
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Poema de
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal (1888 – 1935)
Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta
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Aldravia de
FRANCISCO NUNES
São Caetano do Sul/SP
não
enviei
condolências;
preferem
minha
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
Nós, III
Estas e muitas outras cousas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.
Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.
Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.
Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.
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Trova de
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016
Das cordas de minha lira
ouço uma bela canção
que na saudade suspira
qual prece de uma oração!...
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP
Vida de poeta
Faz alguns dias que perdi a poesia.
Não tenho fantasia,
não tenho argumentos.
Será que meu coração está ficando lento?
Vamos tomar providências.
A primeira coisa é colocar alegria...
Aonde vou achar não sei dizer.
Olhando pela janela?
Ou dentro da minha panela?
Na geladeira, na cozinha, no quarto...
Na rua? Vai saber!
Paro, respiro fundo,
sinto a vida pulsar...
Estou viva devo me alegrar
e a poesia de novo encontrar!
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Quadra de
ANTÓNIO ALEIXO
(António Fernandes Aleixo)
Vila Real de Santo António/Portugal, 1899 — 1949, Loulé/Portugal
Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE (1862 – 1935) Aracati/CE
Ceará
Ave, Terra da Luz, Ó pátria estremecida,
Como exulta minha alma a proclamar-te a glória,
Teu nome refugastes inscreve-se na história,
És bela, sem rival, no mundo, engrandecida!
A dor te acrisolou a força enaltecida,
Conquistaste a lutar as palmas da vitória
Hoje és livre e de heróis a fúlgida memória
Jamais se apagará e a fama enobrecida.
O sol abrasa e doura os teus mares que anseiam
Em vagas que se irisam, que também se alteiam
A beijar com ardor teus alvos areais.
Eia! Terra querida, sempre avante!
Deus te guie no futuro em ramagem brilhante
Nas delícias do bem, nos júbilos da paz!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ
Quem confunde hiato e ditongo,
não sabe o que é diapasão;
mistura a língua do congo
com dialeto alemão.
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Poema de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ
Poeta é aquele que vê
(A Márcio Marinho Nogueira)
Poeta é aquele que vê
o belo e o feio do mundo;
que capta, com suas antenas,
toda a essência das coisas
e em seus versos a traduz.
Poeta é aquele que sabe
colher com seus dedos longos,
pelas margens dos caminhos,
flores, e ninhos, e salmos.
Poeta é aquele a quem cabe
distribuir os seus dons
e, estando à sombra ou ao sol
de suas aspirações,
faz aos poucos uma história.
Poeta é aquele que crê
e proclama esta verdade:
só o amor tem fundamento;
o ódio, a cobiça, o ciúme
não têm, não, razão de ser.
Poeta é quem dá, afinal,
través daquilo que escreve,
das palavras de sua boca,
água a quem reclama sede,
pão a quem lhe diz ter fome,
o que cobrir ao que está nu,
e flores — a este, àquele —
flores a toda a gente,
indiscriminadamente,
mesmo a quem, ah! sobretudo
àquele que lhe atira pedras.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP
Foi o par pro beleléu...
e o fantasma, em tom moderno:
- Venho, à noite, aqui no céu,
ou você vai lá no inferno?
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)
A Noite e a Tristeza
A noite cai e com ela, a tristeza,
coração sofredor por um amor perdido,
a escuridão envolve a alma com presteza
e a solidão se torna um peso sentido.
A falta de um amor traz desânimo,
e a noite parece não ter fim,
a tristeza se espalha como um veneno,
e o coração sofre sem alívio em esplim*.
A noite é silenciosa e a dor que sente
o coração chora, e a alma mergulha em fel,
a falta de um amor é um peso constante,
e a tristeza se torna um companheiro fiel.
A noite é escura e a alma se cansa
num coração que sofre, sem esperança .
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* Esplim = enfado, tédio, melancolia
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Soneto de
JOSÉ CARLOS MOUTINHO
Maia / Porto / Portugal
Sonetos atrevidos
Saí para a rua, com outro espírito,
O mundo é meu, ninguém me tira,
Sou único no mundo, sem atrito
Tenho a alegria, que nunca sentira!
As ruas são minhas e toda a sua luz,
Com o perfume das flores que as ladeiam,
Toda esta beleza, com alegria me conduz
À paz que todos neste mundo anseiam!
Como estou feliz e sou teimoso,
Nem com a métrica me importo,
Porque não quero ser famoso
Deixo a análise para os entendidos,
Levo a estrutura com desporto,
Insisto em fazer sonetos atrevidos.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR
Enxugando em meu poente
muita lágrima sofrida,
você se fez, de repente,
alvorada em minha vida!
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Spina de
ARTUR JOSÉ CARREIRA
São Paulo/SP
Tortos
Poema em vazio,
seu conteúdo só
sem seus versos.
Estrofes em desordem na rima
tropeçam por entre letras, sons,
sentidos tortos em pele imersos.
Esses sons, meio loucos varridos,
descem pela alma, meio inversos!
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP
Num eclipse inesperado,
ficando só a espiar,
o sol se esconde ofuscado
pelo brilho em teu olhar.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)
Esperança
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
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Poema de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021
Atrás do tempo...
A hora que passa, o tempo que voa,
igual ao pardal, que belisca à toa
a manga do meu quintal, e com o bico ainda sujo, põe-se a voar...
Eu espero assim...
Andando no tempo, tomando friagem na garoa gelada
atrás de quimeras da doce primavera do botão da rosa... a desabrochar.
É o tempo correndo e a vida trazendo um novo amanhã...
no meu despertar...
Arranco um botão de minha camisa, pois chega o verão...
E eu ainda vestido de manga comprida num dia de sol,
Que mede o tempo, arranhando o céu...
Com o corpo desnudo e a pele morena à beira do mar...
É tempo de amar...
...o ser que me envolve na ternura do cheiro, no perfume do ar.
E a folha caída da velha mangueira no outono da vida
no caderno que leio a poesia que fiz...
Releio a folha marcada, já tão desbotada...
Pensei ser feliz...
E no sopro do vento que leva a folha e o tempo...
e eu a esperar...
o encontro da espuma na gulosa areia o beijo do mar.
Mas o frio ardido do vento sulino começa a soprar...
E no fundo da alma, o inverno me acalma...
A noite me cobre, aquece meu corpo...
me ponho a sonhar...
Acordo...
E ao ver no relógio o ponteiro girando, girando...
Eu fico a pensar...
...Na dura partida do amor e do tempo,
Que a vida nos faz...
(Poesia classificada em 4º lugar no Concurso Internacional de Poesias Primavera 2003/2004 - S.Paulo/SP)
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Triverso de
FRANCISCO ASSIS DOS SANTOS
Santos/SP
Caminhos da infância…
As patas do cavalo
Na geada do campo.
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP
Navegando contra o vento
Navegando contra o vento
sem levar mercadoria,
o seu barco sonolento
bordejava em agonia.
Sem levar mercadoria
num mar bravio e revolto
bordejava em agonia
um dos barcos, leve e solto.
Num mar bravio e revolto
num balanço tempestuoso
um dos barcos, leve e solto,
seguiu trajeto tortuoso.
Num balanço tempestuoso
naquele dia cinzento
seguiu trajeto tortuoso
navegando contra o vento.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Cada um para o seu lado...
ninguém entende ninguém...
Quando o respeito é quebrado,
o amor se quebra também!
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Hino de
SÃO JOÃO DEL REI/ MG
Salve, Terra gentil que fulguras,
No regaço da Terra de Minas,
Como um cofre das glórias mais puras,
Como um alvo das bênçãos mais divinas.
És estância de grato repouso
Aos que chegam cansados da luta!...
O teu seio é oásis formoso,
Onde uma alma o descanso desfruta!...
Há nas rochas de tuas montanhas
Um poema de glórias escrito:
Teu denodo em grandes campanhas
Teu amor no trabalho bendito.
Tua história de sempre, aparece
Circundada de um halo de luz
Pois se a glória o teu nome enobrece,
De bondade o teu nome reluz.
As muralhas das tuas igrejas
São proclamas da Fé que tu tens,
Fé que anima o fervor das pelejas,
Fé que abranda da vida os vaivéns.
Salve Terra!… Entre terras mineiras
Tens um posto de grande fulgor
Foram tuas as vozes primeiras
Contra o mal de um governo opressor.
Salve, terra querida e formosa!...
Salve terra de São João Del-Rei!...
Sê tu sempre feliz e gloriosa,
Sentinela da Crença e da Lei!
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Poetrix de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR
peregrinação
Como o poeta sofre
Faz o caminho in-verso
para chegar na estrofe
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Soneto de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE
Pra quem quer fazer Soneto!
Soneto, peça rara da poesia,
tem rima, ritmo, métrica e estrutura,
motivo muitas vezes de agonia
pra quem, fazer soneto, se aventura.
A rima dá o tom da “melodia”,
a métrica mostra sua “escultura”,
no ritmo está sua “sonoplastia”,
e na estrutura a sua “assinatura”!
Composto de tercetos e quartetos,
depois dos dois quartetos, atenção,
os dois tercetos fecham o soneto.
Aviso: pode o Poeta, nos tercetos,
ser livre pra rimar. Pronta a “lição”,
agora é só botar no branco o preto!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O burro e os donos
O burro de um hortelão
À Sorte se lamentava,
Dizendo que madrugava,
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores,
— O néscio burro dizia —
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
Com uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e berinjelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado, —
Dizia — andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado,
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da acelga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»
Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! — diz a Sorte em fúria —
Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!
Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»
Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.
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