quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 13 *


 Maria beijou Aurora
no portão do seu jardim.
— Perdulária, joga fora
o que nega para mim...
ALFREDO DE CASTRO
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A um burro dizia um sábio:
— Pobre animal sofredor,
a muitos convém teu nome,
a bem poucos teu valor...
ANA ATAÍDE FERREIRA DA SILVA
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Carinho pra quê? Me deixe!
Agora estamos casados…
E ninguém dá isca a peixe
depois dos peixes pescados.
ANATOLE RAMOS
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Uma mosca sem valor
pousa, com a mesma alegria,
na cabeça de um doutor,
como em qualquer porcaria!
ANTÔNIO ALEIXO
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Poliglota conhecido,
dominar as línguas logra.
Excetuando-se, é sabido,
as da mulher e da sogra...
ANTÔNIO TORTATO
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Jovens lindas como aquelas
dão trabalho ao hospital,
pois, na esquina, quem, ao vê-las,
não se esquece do sinal?
ANTÔNIO WEBER
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"Barrigudinho!" — brincava,
dando-me bola, a vizinha.
— E tanto ela me invejava,
que ficou barrigudinha...
APARÍCIO FERNANDES
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Vi teus braços... que ventura!
Teu colo... as pernas... que gosto!
Agora, tira a pintura,
que eu quero ver o teu rosto.
BELMIRO BRAGA
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Duvide lá quem quiser,
mas, ó vida, me insinuas:
melhor do que uma mulher,
não há dúvida, só duas...
BENNY SILVA
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A minha sorte ferina
me passou um grande logro;
o teu pai, linda menina,
devia ser o meu sogro.
CALIXTO DE MAGALHÃES
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Dei-te meu livro de trovas,
mas os teus olhos moleques
parecem dizer: "de trovas?..."
melhor se fossem "de cheques".
CARLOS GUIMARÃES
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A mulher quando se arruma,
quanta roupa! Já notou?
E foi sem roupa nenhuma
que Teresa se arrumou...
COLBERT RANGEL COELHO
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Não adianta nada agora,
eu já não perco a cabeça.
Mas, é bom ires embora,
antes que tal aconteça...
COLOMBINA
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O homem tem grande horror
ao vácuo, já descobri:
quando ele se vê vazio,
enche-se todo de si...
DJALMA ANDRADE
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Larápios de mil padrões
há neste mundo dispersos.
Até conheço ladrões
que roubam frases e versos...
ESMERALDO SIQUEIRA
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Meu amor, não cries caso,
se teu caso é se casar...
Se crias caso, não caso;
se não me caso... ora, azar!
FRANCISCO MADUREIRA
- - - - - –
A cova, que nos contrista,
serve, com a mesma avidez,
o talento de um artista
e a burrice de um burguês.
GUMERCINDO JAULINO
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A virtude, em muita gente,
é só falta de ocasião;
quanto virtuoso que sente
não ter sido um bom ladrão!
HÉLIO CHAVES
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De saia curtinha e rente,
estas garotas modernas
só sentam perto da gente
para mostrar-nos as pernas...
HERALDO LISBÔA
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É só, pois sente amizade
pelas mulheres feiosas.
E a mesma fraternidade
sentem por ele as formosas...
ILDEFONSO DE PAULA
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Até que deve a oratória
ser um dom dos mais divinos;
porém, tem levado à glória
muitos sujeitos cretinos...
JACY PACHECO
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Chamaste-me um dia, urgente,
para dizer-me um segredo!
— Nunca um homem tão valente
teve, talvez, tanto medo...
JOSÉ DUARTE COSTA
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Quem passa a vida sisudo,
só pensando em caixa alta,
depois que pode ter tudo,
não tem o que fez mais falta...
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
- - - - - -
Se todos fazem de si
tão duvidoso conceito,
menina, não queiras ter
a fama sem o proveito...
NOEL DE ARRIAGA
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Ouvi um cão indigente
a meu buldogue inquirir;
— O teu dono é inteligente?
— Se é? Só falta latir!
OLDEMAR LIMA DE ANDRADE
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Fiquei rindo de um gaiato
que caíra em plena praça,
não vi a casca de manga
e — pumba! — perdi a graça...
OLYMPIO S. COUTINHO
- - - - - –
Homens há tão insensatos
e de maneiras tão duras
que em vez de usarem sapatos
devem calçar… ferraduras!
PAULA FARIA
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Aquela jovem tão grácil
possui grandes qualidades:
além da palavra fácil,
tem outras facilidades...
PAULO EMÍLIO PINTO
- - - - - –
Se beijo pagasse imposto
junto aos cofres da moral,
que renda dava o teu rosto
nos bailes de carnaval!...
RENATO VIEIRA DA SILVA
- - - - - –
Quando por fraca poetisa
um critico se derrete,
o leitor logo ajuíza:
essa poetisa promete...
RODRIGUES CRESPO
- - - - - –
Na festa daquela gente,
o discurso que agradou
foi aquele, unicamente,
que depressa terminou...
SEBASTIÃO BENFICA MILAGRE
- - - - - –
O meu olhar é um peralta
que não tem jeito, mocinha:
aquilo que tanto escondes
o sem-vergonha adivinha...
SOARES DA CUNHA
- - - - - –

Eduardo Martínez (Carlota, a observadora)

Carlota, por detrás daqueles óculos escuros, usados até nas noites mais sombrias, adorava observar os outros. De tão observadora, era capaz de afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, quantos passos cada membro da família dava até o banheiro todas as manhãs. Agnaldo, o marido, arrastava a perna esquerda por conta de um furúnculo mal curado. Todavia, o velho insistia em dizer que era por conta da guerra, mesmo que não tenha enfrentado qualquer uma, a não ser a luta contra lombrigueira durante a infância em Caxias, a famosa terra de Gonçalves Dias, tão cantada por Luiz Gonzaga. 

Alberto e Roberto, os gêmeos, quase não paravam em casa, enquanto Sônia, a única dos três filhos que se sustentava e ainda ajudava nas despesas, andava à procura de um marido que prestasse. Os hormônios, cada vez mais ausentes, diziam que era agora ou nunca. 

A velha adorava arrumar intriga com a filha, que era a mais nova. Não que Sônia fosse merecedora de tamanha perseguição. Era o que se pode chamar de boa filha. Por outro lado, era toda mimos com os gêmeos, dois notórios vagabundos no alto dos 50 anos. Os dois viviam como adolescentes, às custas da aposentadoria dos pais. É certo que de vez em quando conseguiam um emprego aqui e ali, mas logo eram despedidos por pura falta de compromisso com o horário e o trabalho. Atrasavam quase sempre, menos aos domingos e feriados, dias das folgas.

Foi numa sexta-feira, durante o café da manhã, que Sônia resolveu contar a novidade, que tanto guardara por medo de não dar certo. Superstições, diriam alguns. Seja como for, ela se virou para os pais e os irmãos, todos sentados à mesa. Disse que precisava lhes contar algo muito bom, que mudaria a sua vida. Todos a olharam espantados, especialmente Carlota, que não conseguia disfarçar a ansiedade por detrás dos óculos escuros.

Sônia, com um sorriso maior que a própria cara, disse que iria se casar com Juvenal, seu colega no Banco do Brasil. A família sabia muito bem quem era o tal homem, mas todos imaginaram que se tratava de apenas mais um namorico da parenta.  Carlota, sem saber nem mesmo os detalhes, já quis protestar. Ela, talvez por hábito herdado, precisava discordar da sua filha. 

– Veja bem! Você nem conhece o rapaz direito. Além do mais...

A filha nem escutou as palavras da mãe ou, se ouviu, fez questão de fingir que não. O que se sabe é que o casório aconteceu no mês seguinte. Sônia e Juvenal se casaram apenas no civil. Até prometeram uma cerimônia para os mais chegados, coisa que nunca aconteceu. Saíram em lua de mel para João Pessoa. Gostaram tanto do lugar, que pediram para serem transferidos para uma agência naquela cidade. 

Carlota andou calada por um bom tempo. Quase não dizia uma palavra sequer durante o café da manhã. Diante do marido manco e dos filhos, sentia falta de Sônia. Ela ouvia as idiotices de Roberto, ao mesmo tempo em que observava a cara de imbecil de Alberto.  Dois trastes inúteis! Foi a gota d'água que faltava. 

Naquele dia mesmo ela comprou duas passagens de ida: uma para ela e outra pro Agnaldo. Iriam visitar a filha e, finalmente, conhecer o neto, que, diziam, corria pelas areias da praia de Cabo Branco. Parece que gostaram tanto, que já faz mais de ano que não voltaram para casa, ali no Guará.
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O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Biografia = Cultura SC; Jornal Cultural Rol; Notibras; Radar Digital Brasília; Casa Brasileira de Livros; Portal UFRRJ, etc.

Fernando Sabino (Reunião de Mães)


Na reunião de pais só havia mães. Eu me sentiria constrangido em meio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, e acabaria nem entrando – se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório, duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno.

Sentei-me numa das últimas filas, para não causar espécie à seleta assembleia de progenitoras. Uma delas fazia tricô, e várias conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. O Padre-Diretor tomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início à sessão.

Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo ao médico, mas desta vez cabia-me também participar antes da reunião. Afinal de contas andava mesmo precisando de verificar pessoalmente a quantas o menino andava.

O Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre o uniforme de gala a ser adotado. 

A gravatinha é azul? perguntou uma das mães. Meia três – quartos? – perguntou outra. E o emblema no bolsinho? – perguntou uma terceira. Outra ainda, à minha frente, quis saber se tinha pesponto – mas sua pergunta não chegou a ser ouvida.

Invejei-lhes a desenvoltura. Tive vontade de perguntar também alguma coisa, para tornar mais efetivo meu interesse de pai – mas temi aquelas mães todas voltando a cabeça, curiosas e surpreendidas, ante uma destoante voz de homem, meio gaguejante talvez de insegurança. Poderia também não ser ouvido – e se isso me acontecesse eu sumiria na cadeira. Além do mais, não me ocorria nada de mais prático para perguntar senão o que vinha a ser pesponto.

Acabei concluindo que tanta perguntação quebrava um pouco a solene compostura que devíamos manter, como responsáveis pelo destino de nossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir a explanação do Padre-Diretor:

– Chegamos agora ao ponto que interessa: o quinto ano. Depois de cuidadosa seleção, foi dividido em três turmas – a turma 14, dos mais adiantados; a turma 13, dos regulares; e a turma 12, dos atrasados, relapsos, irrequietos, indisciplinados. Os da 13 já não são lá essas coisas, mas os da 12 posso assegurar que dificilmente irão para frente, não querem nada com estudo.

Fiquei atento: em qual delas estaria o menino? Pensei que o Diretor ia ler a lista de cada turma – o meu certamente na 14. Não leu, talvez por consideração para com as mães que tinham filhos na 12. Várias, que já sabiam disso, puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa delas; levavam muito dever para casa, não se habituavam com o semi-internato. 

Uma – a do tricô, se não me engano – chegou mesmo a se queixar do ensino dirigido, que a seu ver não estava dando resultado.

Outra disse que tinha três filhos, faziam provas no mesmo dia, como prepará-los de uma só vez? O Padre-Diretor sacudiu a cabeça, sorrindo com simpatia – não posso nem ao menos lastimar que a senhora tenha tanto filho. E voltou a falar nos relapsos, um caso muito sério. Não vai esse Padre dizer que meu filho está entre eles, pensei. Irrequieto, indisciplinado. Ah, mas ele havia de se ver comigo: entre os piores!

E por que não? Quietinho, muito bem mandado, filhinho do papai, maria-vai-com-as-outras ele não era mesmo não. Desafiei o auditório, acendendo um cigarro: ninguém tinha nada com isso. Criança ainda, na idade mesmo de brincar e não levar as coisas tão a sério. O curioso é que não me parecesse assim tão vadio – jogava futebol na rua, assistia à televisão, brincava de bandido, mas na hora de estudar o rapazinho estudava, então eu não via? Quem sabe se procurasse ajudá-lo, dar uma mãozinha. Mas essas coisas que ele andava estudando eu já não sabia de cor, tinha de aprender tudo de novo. 

Outro dia, por exemplo, me embatucou perguntando se eu sabia como se chamam os que nascem na Nova Guiné. Ninguém sabe isso, meu filho, respondi gravemente. Ah, não sabe? Pois ele sabia: guinéu! Não acreditei, fui olhar no dicionário para ver se era mesmo. Era. Talvez estivesse na turma 13, bem que sabia lá uma coisa ou outra, o danadinho.

Agora o Diretor falava na comida que serviam ao almoço. Da melhor qualidade, mas havia um problema os meninos se recusavam a comer verdura, ele fazia questão que comessem, para manter dieta adequada. No entanto, algumas mães não colaboravam. Mandavam bilhetinhos pedindo que não dessem verdura aos filhos.

Eis algo que eu jamais soube explicar: por que menino não gosta de verdura? Quando menino eu também não gostava.

Pedem às mães que mandem bilhetinhos e não é só isso: usam qualquer recurso para não comer verdura. Hoje mesmo me apareceu um com um bilhete da mãe dizendo: não obrigar meu filho a comer verdura. Só que estava escrito com a letra do próprio menino.

Chegada era a hora de levá-lo ao médico – uma professora amiga foi buscá-lo para mim.

– Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos:

– Em que turma você está? Na 12 ou na 13?

– Na 14 – ele respondeu, distraído. Respirei com
alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo?

– Fico satisfeito de saber – comentei apenas.

Ele não perdeu tempo:

– Então eu queria te pedir um favor – aproveitou logo – que você mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. O homem nu. Publicado originalmente em 1960.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

Interlúdio para Reflexão - 2 –

 

José Feldman (As ruas que antes eram nossas)


Quem viveu nas cidades há algumas décadas lembra bem: a rua era uma extensão da casa. Os meninos e meninas saíam cedo, com um aviso simples — “volta antes de escurecer” — e ninguém ficava olhando o relógio a cada minuto. Corriam nas calçadas, jogavam bola na praça, pedalavam sem rumo definido, paravam para conversar com vizinhos que conheciam pelo nome. 

Para os adolescentes, a liberdade era poder ir até o centro, andar a pé, encontrar amigos sem precisar avisar cada passo. Já os idosos saíam tranquilamente a qualquer hora do dia, iam à feira, ao banco, sentavam-se em bancos de praça para trocar histórias; sentiam-se parte do lugar, não estranhos nele.
 
Essa liberdade não era o acaso. Vinha de uma convivência mais próxima: vizinhos se conheciam, as ruas tinham movimento constante, as distâncias eram menores e o ritmo da cidade mais devagar. A confiança fazia parte do cotidiano.
 
Com o tempo, tudo foi mudando. O crescimento acelerado das cidades trouxe mais carros do que espaço para caminhar; calçadas estreitas, ruas barulhentas e perigosas afastaram as crianças e os mais velhos. A urbanização desordenada criou bairros sem praças, sem áreas seguras, sem pontos de encontro. A sensação de segurança diminuiu — não só por aumento da violência, mas também por uma convivência que se tornou mais distante: quem mora ao lado muitas vezes não sabe quem é o outro.
 
A tecnologia também interferiu. Hoje, muitos preferem ficar dentro de casa, conectados às telas, e a rua deixou de ser o principal espaço de sociabilidade. Pais, com medo dos riscos do trânsito e da violência, restringem a saída dos filhos. Idosos, com dificuldade de locomoção ou receio, ficam mais tempo dentro de suas casas.
 
Não é que a liberdade tenha desaparecido de vez, mas mudou de forma. Hoje ela é mais controlada, mais planejada, muitas vezes mais restrita. As cidades cresceram, mas parecem ter perdido um pouco daquela simplicidade que permitia a todos — crianças, jovens, velhos — caminhar, viver e pertencer ao espaço público com naturalidade.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Monsenhor Orivaldo Robles (O desperdício)


Faz anos, era véspera do aniversário de meu afilhado, criança dos seus quatro ou cinco anos. A comadre surpreende-o atirando ao lixo um monte de brinquedos. 

“Que é isso, filho?”. 

A resposta desconcerta-a: “Ah, mãe, amanhã é meu aniversário. Vai vir tudo novo”. 

A comadre não alisa. Faz desabar sobre o pequeno um sermão a respeito de crianças pobres, que se sentiriam felizes com um só daqueles brinquedos que ele estava jogando fora. O compadre reforça a bronca. Conta de sua infância na zona rural. Com os irmãos fabricava os próprios brinquedos utilizando carretéis de linha usados, sarrafos de madeira, vidros de remédio vazios e outras peças. 

“O pai e os tios, meu filho, nem sonhavam com um brinquedo desses que enchem o seu quarto. Um só já nos tornaria felizes. Mas a gente não tinha dinheiro”. 

Confrange-se o coraçãozinho do garoto. Ele cai num pranto sentido, que pai e mãe precisam consolar.

Dias depois, na pia da cozinha aparece aberto um potinho de iogurte quase cheio. A repreensão vem na hora: “Filho, se você não aguentava tomar um inteiro, por que abriu? Quantos pobrezinhos desejam um iogurte...” 

Rápido, ele corta o discurso: “Ih, pai, não vem de novo com esse papo dos pobres, que outro dia eu fui obrigado a chorar por causa deles”.

A cena acontece todos os dias numa infinidade de lares brasileiros. Infelizmente, nem todos os pais são educadoras como o compadre e a comadre. Boa parte se preocupa com cortinas, camas, sofás e roupas. Cuidam que restos de comida ou bebida não os emporcalhem. Cuidado cosmético, beleza externa para os outros verem, só isso.

O desperdício é hábito generalizado, que importa combater desde cedo. A criança não tem ideia do uso correto das coisas. Não sabe se está gastando muito ou pouco. Precisa de orientação sobre o sentido exato de quantidades e valores. Senão, vai se acostumar com o esbanjamento. Se os pais não transmitem, também no consumo, noções de disciplina – pior, se eles mesmos dão exemplo de gastança irresponsável –, será difícil corrigir vícios arraigados no povo.

O acesso à comida de qualidade e em quantidade suficiente é direito de toda pessoa, de qualquer condição, em qualquer lugar do planeta. Como se tornar gente, na plenitude do termo, sem poder se alimentar?

A este absurdo chegamos: países cheios de pessoas doentes por comerem em excesso, enquanto em outros a população vem sendo exterminada pela fome. Dentro do Brasil convivemos com ambas as situações. Por isso, os bispos sentiram necessidade de se pronunciarem. Foi um grito em defesa das populações carentes deste país imenso. Temos gente desperdiçando, ao lado de quem não possui o necessário para comer.

O problema vem de longe. Não será resolvido da noite para o dia. Mas é preciso que todos se sintam comprometidos. Não adianta ficar lançando a culpa nas costas dos outros. Para o faminto pouco importa quem provocou a fome. O que ele quer é comida.

Nas propostas concretas, sugerem-se medidas possíveis, algumas bem simples, como “educar para o melhor aproveitamento do alimento produzido, evitando todo o desperdício”.

É urgente começar dentro de casa, educando as novas gerações. Como, desde muito, fazem os compadres.
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Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.

domingo, 28 de junho de 2026

Asas da Poesia * 196 *


Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Velhos sonhos resgatei,
buscando a sobrevivência,
e nos versos me amparei
para cantar uma ausência.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Migalhas
 
Que mais desejas, afinal, que eu faça
pra ter por meu o que de ti não tenho,
se já cansado estou com tanto empenho
de haurir de ti a mais suprema graça?
 
Há quanto tempo mendigando eu venho
um pouco mais que esta ventura escassa!
Do amor apenas pingos pões-me à taça
que eu sorvo ao jugo de pesado lenho!
 
Somente a um outro, nas liriais toalhas
da mesa de Eros serves tua paixão,
mesa em que, pródiga, teus bens espalhas!
 
E ali enjeitado, a farejar o chão,
o meu amor vive a lamber migalhas
que tu lhe atiras qual se fora a um cão!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
BEGOÑA MONTES ZOFIO
Madri/Espanha

a
rede
continua
balançando
o
ar
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Soneto de
VICÊNCIA JAGUARIBE
Fortaleza/CE

Soneto Azul

A Terra é azul! – Informou o astronauta.
Azul também é o pássaro da felicidade.
Azuis são os sonhos da primeira idade
E azuis as mensagens do divino arauto.

Azuis eram os olhos de minha mãe falecida
Que não acreditava no pássaro da felicidade.
Azul também é a cor da imaterialidade
Azul devia ser também a aventura da vida.

No azul me diluo para despistar o inimigo.
De azul me visto e fujo do perigo.
São azuis as notas do Danúbio Azul.

Azul, a fada a quem Pinóquio enterneceu.
Para o azul queremos ir após o último adeus.
Está tudo bem? Dizemos está tudo azul.
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Trova Premiada de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombro os fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos…
e eis-me a sonhar outra vez! 
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Poema de
LYA LUFT
(Lya Fett Luft)
Santa Cruz do Sul/RS, 1938 - 2021, Porto Alegre/RS

Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

QUADRA POPULAR

Você diz que amor não dói?
Dói dentro do coração.
Queira bem e viva ausente,
veja lá se dói ou não...
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Soneto de
HORÁCIO PORTELLA
Piraquara/PR, 1934 -2012 

A Marcha do Tempo

Sem pressa as horas passam uma a uma,
escorrem para o túnel do passado,
– não se consegue segurar nenhuma -
pois cada qual já deu o seu recado.

Para a memória humana resta a bruma
que pode dar prazer ou desagrado.
Querendo nós ou não assim se esfuma
a vibração do tempo – este é seu fado.

Essa rotina segue sem descanso,
no transcorrer sutil da eternidade,
num caminhar tranquilamente manso.

Assim também os versos do soneto
vão no papel deixando a novidade
envelhecer no último terceto.
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Trova de
NATAL MACHADO
Brasília/DF

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
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Poema de
JÚLIA DA COSTA
Paranaguá/PR, 1844 – 1911, São Francisco do Sul/SC

Sonhos ao Luar

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Serás por acaso o eco
De meu triste cogitar?...

Eu também amo a saudade
Que me inspira a solidão;
Amo a lua que me fala
Do passado ao coração.

Como tu choro uma noite
De luar que se ocultou;
Como tu choro a esperança
De uma aurora que passou.

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Quem és tu que na minh’alma
Vens de manso dedilhar?...

Serás inda a sombra errante
De uma noite que morreu?...
Meigo raio de ventura
Que em meu seio se escondeu?...

Quem és tu? Dize quem és
Branca sombra lá do céu!
Dize o nome do teu canto
Que eu dir-te-ei quem sou eu!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Haicai de
FERNANDO VASCONCELOS
Diamantina/MG, 1937 -2010, Ponta Grossa/PR

Arrulhos no galho: 
Rolinhas embevecidas 
Em prosa de amor. 
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Sextilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

O céu deve ser assim:
um jardim onde as avós
e as mães e os anjos do bem,
em coro, numa só voz,
pedem mil bênçãos a Deus
todo o tempo para nós.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN
.
Do fogo no matagal,
na fumaça que irradia,
vejo um câncer terminal
no pulmão da ecologia!...
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI 
Catanduva/SP

MOTE: 
Tu vieste qual guarida
dando sentido ao meu passo.
E passaste em minha vida
qual nuvem, sem deixar traço. 
J. B. Xavier 
(São Paulo /SP)

GLOSA: 
Tu vieste qual guarida 
desde o Plano Superior; 
antes mesmo de nascida, 
incrustavas-me de amor. 

Filha amada, tu chegaste 
dando sentido ao meu passo. 
Eu nem sentia o desgaste 
diante de algum embaraço. 

Por força preconcebida, 
deixaste-me abruptamente. 
E passaste em minha vida 
qual um raio, de repente... 

Não me cabe lamentar, 
esse rude descompasso, 
pois tinhas que aqui passar 
qual nuvem, sem deixar traço.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
LUIZ GONDIM
(Luiz Gondim de Araújo Lins)
Rio de Janeiro/RJ

fui
letra
depois
palavra
agora
oração
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Soneto de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ

Visões

Faço um esforço pra lembrar teu rosto,
mas apenas uma nuvem me aparece,
como se a encobrir todo o desgosto
daquilo que passou e não se esquece.

Ainda há pouco eu conseguia ver-te,
mas os contornos foram se apagando,
junto com a esperança de ainda ter-te,
mesmo que, como antes, eu chorando.

Não sei se agradeço o esquecimento
de como era teu rosto, ou se lamento
pois foi parte importante do passado.

Mas creio que ainda seja bem melhor
outro rosto procurar guardar de cor
do que querer restaurar esse, borrado.
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Trova Premiada de
SÉRGIO FERREIRA DA SILVA 
(São Paulo/SP)

Toda paixão se assemelha
à palha, por um detalhe:
basta uma simples centelha,
para que a chama se espalhe…
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Poema de
ODAIR ROBERTO DA SILVA
Ubiratã/PR

Amazônia

Oh! Pobre Amazônia!
Berço esplêndido de beleza infinda
Quanto tempo de vida terás ainda?
Teus sequazes predadores não pensam na dor
Que tua destruição provoca em nosso corações.
Humilde berço de um flamejante amor
Galhardeando em tuas razões.

Oh! Linda Amazônia!
Gáudios tempos foram aqueles áureos dias,
Quando a devastação tu ainda não sofrias
E em teu seio reinava a fulgente harmonia natural.
Doiravas ao sol, estrela de imponente ardor.
Deitavas as planícies, esbelta riqueza tropical,
Sonhavas teu futuro num meio de paz e amor.

Oh! Pobres diabos!
Aqueles que em ti cavam a própria sepultura!
Patrimônio da humanidade, berço de tanta agrura.
Falazes homens de monstrengas almas
A podar em ti a vida em seu porvir.
Quando na destruição de tua existência não te acalmas.
Pobres demônios vêm de tua morte rir.

Oh! Amazônia!
Passado, Presente e futura.
Vingarás um dia esta realidade dura.
Teus assassinos pagarão dobrado.
Quando na eternidade repousando estiveres,
Encurralados pagarão o alto preço de um pecado,
Chorando ante às memórias de teus caracteres.
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Triverso de
SANDRA REGINA BENATO
Botucatu/SP

vento gelado -
engana o céu sem nuvens
sobre o telhado
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Setilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

O Vírus e o Trovador!
 
Graças a Deus, que botou
um vírus que se irradia
no meio dos Trovadores,
dia e noite, noite e dia,
um vírus que bem comprova
a qualidade da trova
da nossa "trovadoria"!
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Trova de
GÉRSON CÉSAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Foi com pregos de desgosto
que a saudade, do seu jeito,
pôs retratos do teu rosto
nas paredes do meu peito...
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Hino de 
Caicó/ RN

Co’ o vaqueiro da prece lendária
Surge o manto do amor de Sant’Ana
Caicó, jovial centenária
Que os seus filhos queridos ufana.

Pela voz das cachoeiras
“Barra Nova” e “Seridó”
Cantam cantigas de inverno
Saudações a Caicó.

Caicó das missões do Rosário
De alvoradas em belas manhãs
Sê tranquila no teu centenário
Como às águas tranquilas do Itans.

Teu berço de duras rochas
Te fez forte, Caicó
E o trabalho te elegeu
A rainha do Seridó.

Teus bovinos que longas manadas
Se apresentam nos vales e serras
Simbolizam as lides passadas
Na conquista penosa das terras.

Quadro de luta e letras
Inteligência e civismo
Nunca um filho teu negou
Tributo ao patriotismo.

Atalaia do alto sertão
Não se vencem cruéis empecilhos
Caicó eis farol e instrução
Aclamando os talentos dos filhos.
 
Terra de luz e calor
Fibras longas do mocó
Óh rainha centenária
Coração do Seridó.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Música

meu corpo canção
em acordes se afina
tocado por teus olhos
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Soneto de
ANTÓNIO BOTTO
Concavada/Abrantes/Portugal, 1897 – 1959, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

Casar, mas para quê, se o casamento 
Não significa o verdadeiro amor? 
E se ele existe – seja como for, 
Deixa de ser amor nesse momento. 

Leva-se a vida, então, no sofrimento 
De um conflito movido no torpor 
Que amortece o respeito e esse pudor 
Necessários ao lar e ao sentimento. 

Com pequenas e raras exceções 
O homem e a mulher andam no mundo 
Ao sabor das mais loucas tentações... 

E, mutuamente, embora não pareça, 
Desejam ambos libertar-se a fundo 
Ou esperam que a morte os favoreça.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!
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Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

A cigarra e a formiga

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.

«Amiga, — diz a cigarra —
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh, bravo! — torna a formiga;
Cantavas? Pois dança agora!»
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