Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Aviso aos assinantes sobre mudanças de servidor de assinaturas

O servidor feedburner para de enviar este mês as postagens por email. Contudo, para que não fiquem sem recebe-las encontrei um substituto, o https://follow.it.

Por isso, solicito a que façam novamente a sua assinatura em meu blog (https://singrandohorizontes.blogspot.com) colocando seu email, em "Assine para receber as postagens por email" que está acima de salvar em pdf ou imprimir, à direita.

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  Obrigado,
José Feldman


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Arquivo Spina 36: Solange Colombara

Não foi encontrado o nome do pintor do quadro acima.

Carolina Ramos (Coisas da vida!)

O Seixas e o Souza eram amigos. Ou… Pensando melhor, será que tinham sido amigos mesmo algum dia na vida?!

Amizade frouxa, que não deixa vínculos, pode ser tudo, menos amizade! Não passa de mero encontro temporário de interesses. Um casual esbarro existencial... Fato sem relevância alguma, que se apaga sem deixar rastro, nessas tantas andanças pelos labirintos da vida.

Mas... vamos ao começo, sem maiores considerações. Digamos que eram "amigos" o Seixas e o Souza, muito embora, algum dia, deixassem de o ser.

Contudo, quem deixa de ser amigo é porque amigo não era! Mas... também, não é por causa disto que ambos tenham que se tornar inimigos! - Pior é que, justamente isto foi o que aconteceu entre o Seixas e o Souza!

Os dois figurões em foco, se algum dia ligados por algum fio afetivo, hoje eram antagonistas declarados e dos mais ferrenhos! E todo mundo sabia disso, sem cobrar pormenores, a resguardar o sacro direito de manter-se neutro.

Desde que soubera não andar boa a saúde do Seixas, todas as manhãs, a primeira notícia que o Souza buscava nos jornais era a coluna necrológica, a ver se o maior inimigo havia "batido as botas". Ano após ano, a rotina era mantida com precisão cronológica.

A vida, entretanto, (ou a morte?) tem caprichos insuspeitáveis! Apesar das mazelas, o Seixas, que a correnteza levara para margens opostas, parecia ter fôlego de gato: - espasmos, cateterismos, duas safenas... e nada! Tudo rebate falso!

- "De hoje não passa!", diziam os mais chegados. E, contrariando as previsões, o Seixas passava galhardo para o dia seguinte, igual ao sol que agoniza... e, após noite repousante, renasce, pronto para luzir por mais um dia... ainda que mortiçamente.

- "O ano que vem ele não emplaca!" - agouravam os pessimistas e a euforia do Souza ia num crescendo até o último dia do ano. Declinava no ocaso de cada 31 de dezembro para despencar no abismo da desesperança nos dias subsequentes.

Por isso... Quando recebeu por telefone aquela "auspiciosa" notícia, o Souza custou a acreditar:

- "Como é?! O Seixas morreu?! Não acredito! Pneumonia?! Quando? Agora?!!!"

- "O Seixas morreu....O Seixas morreu !? – repetia perplexo. A repetição compulsória fê-lo aceitar a verdade... mas a aceitação custou-lhe caro!

Quando, segundos depois, a ficha realmente caiu, o impacto foi fulminante! - O Souza desabou como se um raio o tivesse atingido em cheio! Nem o cutelo de um carrasco teria ação mais rápida do que aquela sentença chegada por telefone. O Seixas morreu!... O SEIXAS MORREU!!!

A pulsação acelerou-se... a pressão subiu... a dor aguda apunhalou-o! O Souza levou a mão ao peito para tentar segurar o coração que estrebuchava. Arrastado pelo dono que se estatelara, o telefone foi também ao chão.

Laudo Médico: - Enfarte do miocárdio. Agudo!... Fulminante!

No dia seguinte, o jornal local estampava, lado a lado, na Seção necrológica, as fotos dos dois velhos desafetos - o Seixas e o Souza- anunciando-lhes a passagem para o outro mundo.

Chegados às portas do inferno quase juntos, longe de se estranharem, os dois adversários trocam cumprimentos e cortesias:

- Entre! - apressou-se em dizer o Seixas, a ceder lugar, gentilmente.

- Não, por favor, você chegou primeiro - Entre! - agradece o Souza, elegante, com simpática reverência.

- Em absoluto, meu caro, faço questão, passe, por favor! - insiste o Seixas,

Antes porém que o Souza tivesse tempo de revidar, dois diabinhos, já irritados com a demora, puseram fim à troca de amabilidades.

Aos trancos e garfadas, dois novos hóspedes foram parar, desconfortavelmente, na mesma caldeira fumegante, já reservada para ambos com bastante antecedência!

- Coisas da vida?!... Talvez!... Ou... quem sabe, coisas da morte?!

- Afinal... não é ela quem resolve tudo, sem estrilos... sem apelações?!

Fonte:
Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). Santos/SP: Mônica Petroni Mathias, 2021. Capítulo 5: Contos rústicos, telúricos e outros mais.
Livo enviado pela autora.

A Árvore em Versos – 3 –


Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo nosso vazio.
Khalil Gibran(1883 - 1931)


ARISTHEU BULHÕES
(Maceió/AL, 1909 – 2000, Santos/SP)
CONTRASTE

No chão do meu quintal, que rústico era,
Eu, que de sonhos enfeitava a vida,
Numa linda manhã de primavera,
Plantei ramos de uma árvore caída...

E, cheio de ilusão e de quimera,
Abandonei a terra estremecida
Como o viajante que atingir espera
A rósea meta, a que o Ideal convida...

Anos depois voltei... Na alma cansada
Nem mais um sonho, uma ilusão trazia
Porque tudo eu perdera na jornada.

Mas, cada ramo que plantei a esmo,
Era uma árvore imensa que floria
Para arrimo e conforto de mim mesmo.
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ)
ERA UMA ÁRVORE

Era uma árvore no passeio
e fosse tempo claro ou feio,
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho.

E foi vivendo. Viver gasta
músculo e flama de ginasta,
quanto mais uma arvorezinha
meio garota-de-sombrinha.
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FILEMON MARTINS
(Itanhaém/SP)
A ÁRVORE

Árvore amiga – símbolo sagrado,
– presente do bom Deus à criatura,
portadora de Paz ao que, cansado
vai procurar descanso da amargura.

Com sua sombra acolhe o desprezado
que passa pela estrada, sem ventura,
e o protege feliz, reconfortado,
para viver, lutar, sempre à procura

do seu destino – eterno caminheiro
em busca de um amor hospitaleiro,
onde a Felicidade fez guarida...

Pois desprezo a ganância do insensato
que põe abaixo as árvores e, ingrato,
– não percebe que mata a própria vida.
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JORGE SOUSA BRAGA
(Cervães/Portugal)
AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de ouro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
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JÚLIA LOPES DE ALMEIDA
(Rio de Janeiro/RJ, 1862 – 1934)
AFONSO LOPES DE ALMEIDA
(Rio de Janeiro/RJ, 1889 – 1953)

A LIÇÃO DA ÁRVORE

Vida, que a vida serves e alimentas,
Gramínea débil, melindroso arbusto,
Folhagens, franças, frondes opulentas,
Esguio caule, tronco alto e robusto;

Frutos e flores – pábulo e beleza;
Grão que dá vida e a vida perpétua,
Que enche de vida toda a Natureza
Se cai no sulco aberto da charrua;

Semente que germina, estala e engrossa,
Cresce e, tronco, frondeja e toma vulto,
- Árvore, amiga do homem, que ele possa
Fazer do teu amor um vasto culto;

Que aprenda, à luz do Sol que te redoura
A ramaria verde e o tronco bruto,
Que é Bondade – na sombra abrigadora,
E Generosidade, no teu fruto.

Árvore! Que o homem te ame sempre e veja,
Enternecido, em teu aspecto rude,
Que nada, amiga, fazes que não seja
Exemplo de moral e de virtude!
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LUÍS VAZ DE CAMÕES
(Coimbra/Portugal, 1524 – 1580, Lisboa/Portugal)
ÁRVORE, CUJO POMO, BELO E BRANDO

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando.

Que pois me emprestas doce e idôneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Fonte:
Sammis Reachers (org.). Árvore: uma antologia poética. 
São Gonçalo/RJ, 2018. E-book.

Contos e Lendas do Mundo (Irlanda: O homem que não sabia nenhuma história)

Há muito, muito tempo, os campos estavam cheios de pessoas, na sua maioria malabaristas, cantadores, violinistas e outros músicos. Chegou um momento em que os habitantes expulsavam da sua porta quem não soubesse tocar música ou executar qualquer outra diversão.

Mas houve uma vez um jovem caminhante chamado Paití Nábla Móire, que não sabia histórias, nem canções, e era tão triste que ninguém fazia caso dele, nem o queria receber em sua casa.

Uma noite, chegou a Teilionn e andou de porta em porta à procura de alojamento, mas ninguém o aceitava. Continuou, então, a caminhar e não se deteve até chegar a Glen, onde também não encontrou acolhimento. Por fim, bateu à porta de um homem que não era dali, cuja mulher disse:

— Como não tens qualquer diversão para oferecer, não te recebo com gosto, mas, em todo o caso, não acho acertado bater com a porta na cara de ninguém, sobretudo a uma hora tão avançada. Podes ficar até amanhã no palheiro que há aí fora.

— Agradeço-te de todo o coração.

Paití Nábla Móire encaminhou-se para lá e instalou-se o melhor possível entre a palha.

Havia algum tempo que estava deitado, quando entraram três homens que transportavam um cadáver, um dos quais lhe deu um pontapé.

— Levanta-te, Paiti Nábla Móire, e vela este homem até ao amanhecer — ordenou-lhe. — É o nosso pai, que morreu, e temos de ir procurar comida.

Acenderam uma fogueira junto do corpo sem vida.

— Aconteça o que acontecer, não deixes as chamas chegarem à mortalha.

O infortunado Paití ficou a guardar o cadáver o melhor que podia. Um pouco mais tarde, pareceu-lhe que o morto o olhava, pelo que se encolheu a um canto atrás da porta, fora do seu campo visual.

De repente, levantou-se uma forte rajada de vento que abriu a porta violentamente e espalhou o lume, pelo que a mortalha também ardeu, ante o profundo pavor de Paiti. Só Deus sabia a angústia terrível que o assolou!

Pouco depois, regressaram os três irmãos.

— Fizeste um bonito serviço, Paití Nábla Móire! A mortalha ardeu! Vais ter de pagar por isso. Lançar-te-emos ao lume, para que ardas também.

Dois deles seguraram-no pela cabeça e pelos pés, mas o terceiro disse:

— Larguem-no. Talvez nos possa ajudar a enterrá-lo.

Por conseguinte, levaram-no para fora do palheiro e começaram a abrir uma fossa com a pá. Ao mesmo tempo, puseram-se a discutir — um achava que era suficientemente grande e o outro pensava o contrário.

— Está bem — acabou por dizer um. — O Paití e o nosso pai são da mesma estatura. Atiremo-lo a ele para a cova. Se couber, também servirá para o pai.

Assim, pegaram no cada vez mais alarmado Paití, largaram-no na abertura e lançaram-lhe em cima algumas pasadas de terra. Quando tentava levantar-se, um dos irmãos atingiu-o com a pá na cabeça. Deste modo, permaneceu deitado até que ficou totalmente coberto, enquanto soltava uivos de medo tão intensos que quase poderiam comover as pedras.

Finalmente, o dono da casa ouviu os gritos e inteirou-se da loucura que se desenrolava no palheiro. Levantou-se da cama, correu para lá e, quando abriu a porta, o infortunado Paiti já perdera o juízo em virtude do pânico.

— Céus! — bradou. — Que aconteceu?

— Fiz mal em ficar na tua casa — lastimou-se Paiti. — Deus e a Virgem Maria sabem bem a noite que passei.

— Vem comigo — indicou o outro. — Dar-te-ei de comer antes que sigas o teu caminho.

— Não, obrigado.

— Tens de me acompanhar, para que te compense de certo modo dos aborrecimentos que sofreste.

— Passei a noite mais horrível de toda a minha vida.

Quando terminaram de tomar o café da manhã, o homem disse:

- Tiveste muita sorte em vir ontem a minha casa, depois de vagueares por aí sem que ninguém quisesse receber-te. Doravante, não haverá nenhuma em que queiras entrar sem que sejas bem recebido, pois já tens uma bela e longa história para contar!

Fonte:
Ulf Diederichs, Palácio dos Contos. 
Lisboa/Portugal: Círculo de Leitores, 1999.

Estante de Livros (Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello)

Título original: Sei Personaggi in cerca d´Autore
Autor: Luigi Pirandello (1867-1936)


Sinopse:

Escrita em 1921, esta obra relata um ensaio de teatro. O ensaio é invadido por seis personagens que, rejeitadas por seu criador, tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas.

No início, o diretor fica perturbado por ter seu ensaio interrompido, mas aos poucos começa a interessar-se pela situação inusitada que se apresenta diante de seus olhos. As personagens o convidam a encenar suas vidas, mostrando que mereciam ter uma chance. Com isso, acabam convencendo-o a tornar-se autor e tentam mostrar ao diretor que suas vidas são reais.

Comentários (José Monir Nasser):

“Luigi Pirandello é o maior renovador do teatro italiano e uma das maiores influências sobre o teatro moderno. Há quem veja nele o precursor do teatro do absurdo de Beckett e Ionesco. Originário da Sicília, região de fraca herança cultural, cresceu sob o Risorgimento, o movimento de unificação da Itália. Otto Maria Carpeaux diz que Pirandello tem três fases: a siciliana, a italiana e a europeia, transcendendo sua origem provinciana e atingindo a universalidade. Correspondentemente, o eixo da obra madura de Pirandello é o drama da identidade humana, de que é o maior intérprete dramático.

Apresentada pela primeira vez em 1921 no Teatro Valle em Roma, “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi recebida com hostilidade, aos gritos de “Manicômio”, “Manicômio”. A apresentação subsequente, em Milão, foi bem recebida. A peça aos poucos evoluiu para aceitação plena, até virar um clássico.

As discussões entre as personagens e o diretor compõem uma análise filosófica do teatro e da perda de consciência da existência humana, dentro da temática preferida de Pirandello que é a procura da identidade humana, ou seja: Quem somos nós? Assim, o peso da peça divide-se entre a narrativa em si, e os aspectos paratextuais, que ganham a cena.

Diretor e personagens discutindo constroem também uma querela de formas de fazer teatro. As personagens, tentando mostrar ao diretor que suas vidas são reais, em relação ao palco, e ele defendendo a relatividade do que está sobre o palco, toma como parâmetro a vida "real". A peça entra, assim, em um outro aspecto: torna-se um estudo metalinguístico do teatro, a arte discutindo a si mesma. A forma de representação proposta pelo diretor não é aceita pelas personagens. Não querem ser representadas pelos atores da companhia. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de uma personagem do que ela própria?

Resumo da narrativa:

Pirandello nos apresenta a estória de uma família de personagens que invade o ensaio de uma companhia teatral. De acordo com o artifício da ficção, as personagens de uma peça teatral estão consubstanciadas, agindo e atuando no mundo real, mas sofrem de uma forte lacuna de sua própria constituição, que é o fato de sentirem a necessidade de encontrar um lugar ou uma estória em que possam viver seus “dramas internos”. Isto acontece, dentro do contexto da peça, por conta da negligência do dramaturgo, que os criou, dando um conflito e uma vida interna a cada um deles, mas que desistiu de inventar uma estória necessária para fazê-los viver.

A tensão do drama está contida no espanto e na dificuldade em que o diretor da companhia e os atores têm em compreender a “vida” extraordinária dessas personagens. Deste ponto, Pirandello explora diversas situações limites, que oscilam entre o trágico e o cômico, e, ao mesmo tempo, discute diversos aspectos da natureza da personagem de ficção. O principal ponto de partida do dramaturgo é evidenciar que a “verdade” da personagem de ficção pode, muitas vezes, ser mais forte do que a “verdade” do ser humano. A personagem de ficção assim figura, pois ela está fixada no texto em todos os seus traços e seus conflitos, enquanto o ser humano é uma entidade em constante transformação e variação. No decorrer desse confronto entre essas duas “verdades”, fica evidenciado também que o que garante a “vida da personagem” e a “noção de identidade” num indivíduo do mundo real é um mesmo elemento: uma ficção, uma construção artificial. Enquanto na personagem esta construção permanece pronta e acabada, no ser humano, por estar vivo, ela permanece sempre indefinida e inacabada.

Trechos do livro:

“Mas por que – disse para mim mesmo – não descrever um caso como este, realmente inédito, de um autor que se recusa a dar vida a algumas de suas personagens já nascidas vivas na fantasia dele, bem como o caso de como essas personagens, por possuírem definitivamente, em si próprias, a vida, não aceitam ficar fora do mundo da arte? Afinal elas não estão separadas de mim, já vivem por sua conta, adquiriram voz e movimento, portanto, já se tornaram, por si mesmas, personagens dramáticas, mediante a luta pela vida que tiveram de travar comigo; personagens que podem mexer-se a falar por si sós; vêem a si próprias como personagens; aprenderam a se defender de mim e saberão defender-se igualmente dos outros. Então, vamos deixá-las ir para onde costumam se dirigir, a fim de poderem viver como personagens dramáticas: para o palco. E vamos ver o que acontece.”

“Dessas seis personagens, portanto, aceitei o ‘ser’ e recusei a razão de ser. Delas peguei o organismo, do qual tirei a função existente, emprestando-lhe outra mais complexa, onde a delas entra apenas como um dado de fato.”

“Tudo o que tem vida, justamente pelo fato de viver, possui forma e, por isso, está sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém, acontece o contrário: ela se perpetua viva, justamente porque é a forma.”

“Uma personagem, senhor, pode sempre perguntar a um homem quem ele é. Porque uma personagem tem, verdadeiramente, uma vida sua, assinalada por caracteres próprios, em virtude dos quais é sempre ‘alguém’. Enquanto que um homem – não me refiro ao senhor agora – um homem, assim, genericamente, pode não ser ninguém.”

Interpretação da obra:

1. As personagens são imortais e eternas.
2. Os atores são farsantes e volúveis.
3. A personagem tem existência fixa.
4. As personagens são mais duráveis que seus autores e atores.
5. A personagem não existe sem um ator.
6. As personagens precisam ser criadas por um autor. É o autor que faz a personagem existir.
7. As personagens são esquemas abstratos e só existem na boca dos atores.
8. A personagem é perpétua; para ela o tempo não existe!
9. A personagem vive sempre o momento eterno.
10. A personagem é alguma coisa: o homem pode não ser.
11. A personagem só existe no contexto para a qual ela foi criada.

Entendendo a Obra:

1. Vida real e vida teatral.
2. Arte é imitação da vida. Arte não pode ter vida, a vida é mais complexa que a arte.
3. A arte não pode ser idêntica à realidade, mas ela tem que ser verossímil.
4. A arte não consegue substituir a realidade.
5. As personagens da obra foram rejeitadas pelo autor.
6. As personagens não parecem mais humanas que os atores? Por quê? Porque elas representam a humanidade propriamente dita.
7. O que se pode compreender da futilidade dos atores?
8. As personagens estão a busca do seu criador.
9. O que o criador representa? A saudade do Paraíso perdido pelo pecado.
10. O que as personagens querem recuperar? O sentido da vida.
11. Os atores representam o projeto da vida humana.
12. As personagens são rebeladas contra o destino.
13. O homem está infeliz com aquilo que ele é.
14. Esta é uma história da perda da consciência da existência humana.
(José Monir Nasser)

terça-feira, 22 de junho de 2021

Adega de Versos 31: Professor Garcia

 

Sammis Reachers (A insanidade de Marival)

Finais da década de 90, eu havia acabado de entrar na função de cobrador, na empresa Ingá. Certo dia, em meio aos trabalhos, chegou a notícia de um feito quase inacreditável, de tão louco. Vamos aos fatos.

A linha era a 49-1 (mas naquela época as duas linhas 49 eram designadas, e não me pergunte o porquê, por 49-3 e 49-4). O cobrador era o Marival, mulato invocado e conhecido por seus arroubos de fúria. O dia de verão estava especialmente quente; eram por volta das três da tarde, os ônibus da linha ainda não possuíam ar condicionado. Para completar, o carro estava rodando 'no buraco', a muita distância do carro da frente, e já lotado.

O furioso Marival estava transtornado. As roletas ficavam na parte de trás do veículo, no meio do salão, e a lotação era tanta que nem uma brisa conseguia entrar pelas janelas e alcançar Marival. O bruto suava em bicas, o sol batia diabólicos 43 graus, e chegando à praia de Icaraí, pra fechar o caixão, um engarrafamento fora de hora...

O amigo Marival já estava sentindo tonteiras, e cheio, excepcionalmente transbordante. De repente, ele se levanta da cadeira e dá um berro lá pra frente:

– Chicão, abre aí! Abre essa droga de porta e espera que eu vou ali…

O motorista Chicão não entendeu nada, mas abriu a porta e viu Marival pular e correr para a praia.

– Vai pegar troco no quiosque – pensou o velho Chicão. Qual não foi sua surpresa quando, alguns segundos depois, um dos passageiros gritou:

– Motorista, o Cobrador mergulhou na água!

Ao se levantar para olhar para a praia, Chicão viu o maluco do Marival, com o uniforme encharcado, já correndo de volta pro ônibus. Subiu pela porta traseira, pulou a roleta, sentou-se no banco e, sob o olhar espantado dos mais de oitenta passageiros que lotavam o ônibus, gritou, tranquilo:

– Bora Chicão, agora pode tocar.

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes 
do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

Eduardo Cerqueira (Poemas Avulsos)

CREPÚSCULOS

Sumiram, por encanto, as pálidas estrelas.
A lua se escondeu entre as ondas do mar.
O pescador largou, içando as brancas velas,
grandes lenços que vão, muito longe, a acenar.

Os montes, na amplidão, quais negras sentinelas,
despiram, pouco a pouco, os encantos do luar.
No diáfano esplendor de inimitáveis telas,
a estrela da manhã começa a desmaiar.

Aves recruzam no alto, em álacre revoada.
Tudo canta e sorri, num mágico fulgor.
O sol brilha no Oriente, a fronte alevantada,

como um rei sem rival, feliz, dominador;
e a exsurgir do arrebol de esplêndida alvorada,
enche a terra de luz, num êxtase de amor.
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HOMO HOMINIS LUPUS

Tigres, leões, leopardos e panteras,
elefantes, pesados mastodontes,
ictiossauros, mamutes de outras eras,
pelas brenhas vagando e pelos montes;

os que viveram nas furnas e taperas;
corvos, revoando em turvos horizontes,
hienas, répteis terríveis, brutas feras,
monstros do mar, negros rinocerontes;

ursos bravos, bisões, touros ferozes,
lobos, chacais, em pelotões atrozes,
as selvas rebolcando em luta insana...

Todas as feras juntas deste mundo
são preferíveis ao horror profundo
da ingratidão e da maldade humana.
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O IPÊ


Árvore nativa dos campos e florestas do Brasil, cuja copa frondosa toda se cobre de flores de ouro, É o símbolo do Brasil no "Jardim da Paz" da cidade de La Plata, República Argentina.

Sobre a encosta do monte escarpado e sombrio,
onde o mato nativo esbraceja e descora
batido pelo sol, ergue-se, azul em fora,
lindo e frondoso Ipê, quase à beira do rio.

A linfa de cristal corre em leito vazio
e, sentindo-se pobre, envergonhada chora.
O Ipê, colmado de ouro, os espaços enflora,
dominando altaneiro esse sertão bravio.

À tarde vêm pousar os alados cantores
em sua copa erguida, encantada e tamanha
que de longe deslumbra em flavos esplendores,

E ele avulta, a atitude engalanada e estranha,
como a sugar da terra e a transformar em flores
o áureo veio, profundo, ignoto, da montanha.
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O UIRAPURU

Nas florestas imensas escondido,
bem alto, sobre as copas verdejantes,
donde não se ouve o mínimo estalido
das folhas secas dos oitis gigantes,

o pequeno cantor, despercebido,
em seus trilos agudos e vibrantes,
aprimora e traduz todo o sentido
com que desperta os corações amantes.

Assim o Uirapuru, álacre, canta.
des'que o sol da Amazônia se alevanta,
e o passaredo o imita na espessura.

Corre a lenda que o pássaro encantado
para quem o ouve é um símbolo sagrado,
o talismã do amor e da ventura.
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POETA

(Escrito aos 17 anos de idade)

Alma, feita de luz, para as trevas nascida
como os astros da noite e os faróis sobre os mares,
não mais sonhes, vagando ao palor dos luares,
alma feita de luz para as trevas da vida.

Tu, que foste à matéria e à ilusão sempre unida,
és senhora da terra e dominas os ares.
E, se podes galgar os cimos estelares,
por que vives assim, para a terra pendida?

Por que sangras assim tuas asas de neve,
nesse rastro de dor que teu voo descreve?
Por que trazes da noite esse aspecto tristonho?

E, no entanto, aí vais, entre o abismo e a ventura,
a arrastar, cruelmente, em eterna tortura,
o madeiro da vida ao calvário de um sonho.
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Eduardo Reis da Gama Cerqueira, advogado, jornalista e poeta. Nasceu em Cataguases,MG, em 1884  e faleceu em 1950, no Rio de Janeiro.

Filho de Eduardo Ernesto da Gama Cerqueira e Mathilã da Silva Reis Cerqueira. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte, em 1907. Foi funcionário efetivo da Fazenda por concurso realizado na Delegacia Fiscal de Minas Gerais, em 1905. Em 1908, em concurso realizado no Tesouro Nacional, no Rio de Janeiro, obteve o 1. lugar. Em 1910 foi designado para exercer, em comissão, o cargo de Secretário do Ministro da Agricultura, com as funções de Chefe do Gabinete do Ministro. Exerceu vários cargos de responsabilidade: foi Delegado Fiscal do Tesouro, Conferente da Alfândega do Rio de Janeiro, e finalmente Oficial Administrativo do Tribunal de Contas. Fiel cumpridor de seus deveres, elogiado e querido por seus chefes e colegas, estimado por todos, Gama Cerqueira deixou um marco brilhante em sua trajetória de trabalho.

Desde os 17 anos, compôs e publicou versos, sonetos e artigos, colaborando em diversos jornais não só do Rio de Janeiro, como nos de São Paulo, Belo Horizonte, Juiz de Fora e outros. Foi principalmente colaborador incansável do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil. Publicou o poema "Portugal" em 1923 e "Luz e Sombras" em 1947. Deixou prontos para o prelo "Vinte e Duas Estrelas", e "Terra da Promissão" (este composto de poemas e sonetos históricos, descritivos e patrióticos, de exaltação do Brasil); e "Livro íntimo", transbordante de emoções diversas.

Tendo-se casado em 1908, ficou viúvo de D. Carmelita Barcellos Cerqueira, em 1941. Seus filhos: Célia Cerqueira Cavalcanti, Edgard Barcellos Cerqueira, Maria José Barcellos Cerqueira, Wilson Barcellos da Gama Cerqueira e Luiz Gonzaga de Barcellos Cerqueira, que lhe herdaram a sensibilidade poética.


Fonte:
Aparício Fernandes (org.). Anuário de Poetas do Brasil – Volume 4. Rio de Janeiro: Folha Carioca, 1979.

Nilto Maciel (Maneco, Futebol e Cerveja)

Morreu ontem Maneco, ou Manoel dos Santos Pereira. Há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante. Aliás, há raríssimos registros de sua passagem pelos clubes cearenses e muitos dirigentes e cronistas chegam a negar a sua existência como jogador de futebol. No entanto, parentes e amigos são testemunhas de sua vida dedicada ao esporte. A viúva, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo haver jogado no campeonato estadual. Nelson Silva, amigo de Maneco desde o ano anterior, nega as informações prestadas por dona Maria: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”. Outro amigo do craque, Jonas Craveiro, mais velho três anos, lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”. O historiador Rafael Macedo não nega as informações prestadas pelos amigos de Maneco. Pelo contrário, dá notícia da apresentação do jovem ao Ceará (talvez para se vingar da humilhação sofrida no time rival) e de nova decepção, pois nem sequer teria sido recebido pelo treinador. Jair Pereira, um dos filhos de Maneco, sabe de todas essas histórias e de outras. Segundo ele, o pai procurou todos os clubes da capital e por nenhum foi aproveitado. E é esta a razão de seu desgosto pelo esporte. O que fizeram ao seu pai não foi pouco. Segundo Perilo Duarte, outro amigo do falecido, a causa do fracasso do atacante só pode ter sido a bebida. “Desde muito novo o Maneco vivia na boemia. Eu, ele e outros amigos. Muita cerveja e futebol”.

Para Everaldo Silveira, amigo de infância do falecido, desde menino Maneco queria ser goleiro. Aos domingos, após as missas, realizavam-se jogos na Praça da Matriz de Palma. Pois Maneco não nasceu em Fortaleza, como muitos supunham, mas na pequena Palma. O “campo” lhe parecia enorme. No entanto, talvez não passasse de cinquenta metros de comprimento. Apenas uma parte da praça. Os rapazes vestiam uniformes coloridos, calçavam chuteiras. Os goleiros se paramentavam de joelheiras e camisas de mangas compridas. Muita gente saía à rua para ver o espetáculo. O garoto achava tudo maravilhoso. Vem desse tempo sua paixão pelo futebol. Da noite para o dia, porém, os jogadores sumiram. Não havia mais jogos na praça. O prefeito ou o vigário devem ter proibido tais jogos diante da Prefeitura e da Matriz.

Maria do Socorro lembra detalhes da infância de Maneco, apesar de se terem conhecido quando jovens, em Fortaleza. O menino morou em três casas em Palma. Casas enormes, de tetos muito altos e chão de tijolo. Quando chovia ou o sol esquentava demais, jogava bola, com os irmãos, na sala ou nos quartos. Os chutes desajeitados levavam a bola para o forro de pano da sala. E nem adiantava cutucá-lo com vara. Nunca mais a veriam. A não ser quando algum pedreiro ou pintor fosse trabalhar, levasse escada e atendesse seus rogos. Ou quando o pai resolvesse trocar o forro. Mesmo assim, as bolas estariam endurecidas, mofadas, rasgadas.

A mãe tinha horror a bolas. Menos aquelas das cartilhas. Mesmo quando os filhos confundiam bola com bala. Então vinham castigos físicos ou de proibição.  Três dias sem bola e sem bila. Ou três dias lendo bulas. Mas como viver sempre estudando? No quintal não havia lugar para jogos e brincadeiras. Somente árvores, plantas e animais domésticos. O gato caçava borboletas, a correr e saltar entre as bananeiras. As galinhas iam e vinham, a cacarejar, enquanto o galo passeava galante. Os porcos roncavam no meio da lama. As lagartas infestavam a horta.

Everaldo passa horas a falar do passado. Naquele tempo poucos garotos conheciam bolas de couro. Em compensação, todos tinham “bolas-de-meia” ou “bolas-de-pano”. A primeira denominação seria a do gênero; a segunda, a da espécie. De meia, porque o envoltório da bola era essa peça. Meia usada, furada, imprestável para o uso apropriado. O recheio podia ser de algodão, pano ou papel. Essas bolas não serviam para jogos em chão de terra. E menos ainda em dias de chuva. Os meninos jogavam nas calçadas. Quando não o jogo, os simples chutes de um lado para outro da rua. As paredes serviam de anteparo e, ao mesmo tempo, de linhas de gol. Às vezes dois garotos de cada lado. Um chute para cada “time”. Vencia quem fizesse primeiro de­terminado número de gols. Ao vencedor cabia, como “prêmio” (não seria “castigo”?), jogar, em seguida, com outro “time” ou jogador. Maneco se dedicava de corpo e alma ao futebol. Dedicou-se ao esporte como poucos. Apesar disso, há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante.

Na calçada, o pequeno goleiro quase voava, em busca da bola-de-meia. Os outros garotos o elogiavam. E ele se enchia de amor-próprio. Sim, quando se tornasse rapaz, iria jogar no Fortaleza. Por muito tempo sonhou tornar-se goleiro profissional. Não conhecia ainda estádio. Não sabia o significado de um espetáculo esportivo. O sonho, no entanto, cedo se desfez, e de forma melancólica. Convidado a treinar num time de futebol-de-salão, engoliu numa tarde mais de sete gols. Um fracasso! Maneco não passou do primeiro treino. Chamaram-no de frangueiro, e nunca mais o convidaram a entrar na quadra. Não o convidaram, é certo, porém voltou muitas vezes a ele, para ver a seleção municipal ser derrotada por times de outras cidades. Nelson Silva desconhece o primeiro fracasso do amigo. No entanto, conheceu muito o atacante: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”.

Lembra-se Everaldo daquele tempo como se hoje fosse. Às vezes ia à casa do amigo, para tirar dúvidas de português ou matemática. Porém, Maneco não estudava muito. Na hora do estudo, recortava fotos de jogadores e times dos jornais e das revistas e as colava num caderno velho. Passou a gostar de outras fotografias: atrizes de cinema, animais, carros, cidades. Adorava fotos de cidades grandes. Os arranha-céus o fascinavam. Passava horas a catar restos de revistas no lixo. Num terreno ao lado das salas de aula do colégio dos Salesianos. Deviam ter pertencido aos alunos internos.  

Havia um “muro” a separar os alunos internos dos externos. Aqueles vinham de outras cidades, sobretudo de Fortaleza. De famílias ricas. Os da cidade, eram quase todos pobres, filhos de comerciantes, funcionários públicos. Nunca os dois lados se misturavam. Brincavam em pátios separados. Até na igreja, construção contígua ao colégio, a separação se manifestava. Os bancos destinados aos internos se situavam na parte mais próxima do altar. Apesar disso, por algum tempo os alunos externos foram convidados a participar das brincadeiras e jogos de fim-de-semana no colégio. Entravam por um portão pequeno, que ia dar numa escolinha para crianças carentes, moradoras da periferia. Havia muitas mangueiras e o rio corria bem próximo a uma cerca. Os internos jogavam num campo grande, com traves, rede, uniformes, chuteiras, bola de couro. Os da cidade ficavam ao largo, chutando uma bolinha ou outra, junto aos meninos mais pobres. Para Maneco, a bola parecia excessivamente pesada. Nunca havia chutado uma bola de couro. Os pés só conheciam as bolinhas de meia. O capim molhado e alto feria os dedos.

Todo garoto de Palma jogava bola. E torcia por um time de Fortaleza. Essa torcida se manifestava também no jogo de botões. Futebol de botões. Cada menino possuía dois ou mais times. Os de Maneco chamavam-se Calouros do Ar e Gentilândia. Os irmãos se dividiam entre Ceará, América, Fortaleza, Ferroviário e Usina Ceará. A viúva do craque, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo que tenha jogado no campeonato estadual. Não importa se vestiu ou não vestiu. Pois os irmãos de Maneco também não se tornaram jogadores profissionais. Quando os times de um deviam se enfrentar, convocavam um dos irmãos para manejar os botões da equipe secundária. Os campeonatos duravam poucos dias. Aconteciam diversos jogos por dia. A mãe gritava: “Vão tomar banho”; “Venham almoçar”. Os garotos perdiam a noção do tempo, entretidos com os botões, quase todos de paletó. De onde vinham, como os adquiriam? Talvez nos armarinhos. Raspavam as bordas a gilete. E cada botão recebia um nome de jogador. Maneco sabia de cor os nomes de todos eles. Servia de campo uma mala de madeira, antiga, de mais de meio metro de altura. E a bola? Ah, a bola não rolava, porque nada tinha de redonda. Deslizava, atingida pelo botão. Ou voava para o gol, levantada pelo toque sutil ou violento do “jogador”. A bola parecia uma miniatura de panela – uma tampinha de creme dental. A meta, a baliza, o gol, a trave media cerca de dez centímetros de largura, cinco ou seis de altura. Feita de madeira, trazia ao fundo um pedaço de véu ou tecido mais resistente, como se fosse a rede. O goleiro equivalia a uma caixa de fósforos, recheada de pedras.

Desde Palma, Maneco acompanhava transmissões de jogos pelo rádio. Ao se mudar para a capital, não perdeu o hábito. Parava diante das lojas, para ouvir as locuções radiofônicas de jogos, quando voltava para casa, à noite, vindo do Liceu. Caminhava até o ponto do ônibus de Joaquim Távora. Às vezes ia e voltava a pé, com os dois irmãos. Quando perdiam o horário do ônibus ou quando os estudantes saíam às ruas em protestos. Arrancavam os paralelepípedos das ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha, para impedir a circulação dos veículos. Com medo, os motoristas recolhiam os ônibus às garagens. Ou por ordem dos patrões. Quase ninguém nas ruas. As luzes dos postes mal iluminavam as vias públicas. Cachorros ladravam.

Em Monte Castelo, onde a família de Maneco morou pela primeira vez em Fortaleza, havia sempre quermesses, festas populares, religiosas ou simplesmente um alto-falante todas as noites a irradiar canções em voga. Nelson Gonçalves, com “A volta do boêmio”, não parava de cantar.

Jonas Craveiro chora quando lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”.

Maneco foi sepultado no Cemitério Parque da Paz. Ao velório compareceram apenas os parentes mais próximos e dois ou três amigos e vizinhos.

Fonte:
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre: Bestiário, 2006.
Livro enviado pelo autor.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Varal de Trovas 510

 


Contos e Lendas do Mundo (O Morcego)

As borboletas, que hoje vemos pousar, leves, nas flores, na superfície das águas, e até mesmo paradas no ar, não chegam nem aos pés daquilo que em determinado tempo foi o morcego: a mais bela ave da criação.

Mas as coisas nem sempre foram assim: quando a luz e a sombra começaram a andar, ele era como o conhecemos agora e se chamava biguidibela: biguidi, mariposa; e bela, carne... Mariposa em carne, isto é, mariposa pelada. O morcego, era, então, a mais feia e desventurada de todas as criaturas.

Até que um dia não aguentando mais o frio, subiu ao céu e disse a Deus:

- Senhor, estou morrendo de frio, preciso de umas penas.

E como Deus, embora nunca pare de trabalhar, jamais volta a pôr as mãos em tarefas já cumpridas, não tinha nenhuma pena para lhe dar. Assim, disse-lhe que voltasse à Terra e suplicasse em seu nome uma pena a cada uma das aves existentes. Porque Deus sempre dá mais do que se lhe pede.

De volta à Terra, o morcego recorreu aos pássaros de plumagem mais vistosa: a pena verde do pescoço do papagaio, a azul da pomba azul, a branca da pomba branca, a furta-cor do colibri.

Assim, de todas as aves o morcego ganhou uma pena e tornou-se a mais linda das aves.

Orgulhoso, voava ao romper da manhã, e as outras aves, refreando o voo, paravam para admirá-lo. Havia sobre a Terra uma emoção nova, provocada pela beleza dessa nova criatura. Ao cair da tarde, voando com o vento do poente, coloria o horizonte.

Certa vez vindo do outro lado das nuvens, criou o arco-íris, como um eco de seu voo.

Sentado nos ramos das árvores, abria e fechava as asas, sacudindo-as num tremor que alegrava o ar. Todas as outras aves começaram a ter inveja dele, e o ódio tornou-se unânime, como unânime havia sido um dia a admiração.

Então um outro dia, subiu ao céu uma revoada de pássaros, com o colibri à frente. Deus ouviu sua queixa. O morcego fazia pouco deles; além disso, com uma pena a menos, sofriam com o frio. E eles mesmos, de volta, trouxeram uma mensagem dizendo que o morcego deveria comparecer ao céu.

Quando ele se apresentou, Deus o fez repetir os gestos que tanto haviam ofendido seus companheiros. E, ao sacudir as asas, ficou como antes, sem penas. Diz-se que durante um dia inteiro choveram penas do céu.

Desde então, o morcego só voa ao entardecer, em rápidos giros, caçando penas imaginárias. E não para nunca, para que ninguém possa ver sua feiúra.

Baú de Trovas XXXII


Coração feito de pedra
não nos pode dar amor,
é deserto onde não medra
a beleza de uma flor!
AGENOR DE OLIVEIRA FREITAS
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Só se acaba uma amizade
ou termina um grande amor
quando não fica a saudade
engaiolando uma dor.
ALAÔR E. SCISÍNI0
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Da vida revendo a história,
nas horas do outono, em calma,
pecados de amor são glória,
para enlevo de nossa alma!
ALMEIDA COUSIN
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O cinamomo floresce
em frente do teu postigo.
— Cada flor murcha que desce
morre de sonhar contigo...
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
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Vou rimando, com fervor,
duas frases, na verdade:
meu coração diz — amor,
e minha alma diz — saudade.
ALVAYR BRAGA ESTEVES
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Toda mãe que o filho embala
tem no olhar estranho brilho,
pois é o seu amor que fala
nos versos que canta ao filho.
ANA AMÉLIA CARNEIRO DE MENDONÇA
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Ah, meu amor, quando fores,
me escreve lá do caminho,
porque saudades são dores
que matam devagarinho...
ANA RODRIGUES
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Amor! Não podem dizer
os versos mais inspirados
o que dizem a tremer
nossos dedos enlaçados.
ANA ROLÃO PRETO MARTINS ABANO
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Estreias da minha angústia,
dizei-me, por caridade,
como pode amor tão breve
deixar tão longa saudade!
ANDERSON BRAGA HORTA
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Cai a chuva na calçada,
eu olho sem emoção...
— Ela não leva a saudade
que trago no coração.
ANGELA MARIA DE ALMEIDA OLIVEIRA
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Longe de ti, quantas vezes
me acabrunho em desenganos!
Meus dias parecem meses
e os meses parecem anos!
ANTÔNIO JUSTA
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Antes de ver-te, eu vivia
bem pobre de inspiração.
Mas agora és a poesia
vivendo em meu coração!
ANTÔNIO WEINDLER
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Não peças que não te aguarde!
É o próprio amor que me diz:
nesta vida nunca é tarde
para a gente ser feliz...
APARÍCIO FERNANDES
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Eu busco a felicidade
unicamente porque
quero, com toda humildade,
da-la inteirinha a você!
ARIVALDO    F. DE CARVALHO
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Minha alma trêfega e louca
adora as coisas mimosas.
— Por causa de tua boca
aprendi a amar as rosas.
ARNALDO DAMASCENO VIEIRA
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Quem disse que águas passadas
nunca mais movem moinhos?
Tenho antigas namoradas
vagando nos meus caminhos...
ARNALDO SERAPIÃO
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Sobre a brancura da neve
escrevi teu nome lindo,
para que um dia, de leve,
para o céu fosse subindo...
ARTHUR NUNES DA SILVA
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De uma beleza radiosa,
perfeitos, teus lábios são
duas pétalas de rosa
nos moldes de um coração.
ARY SIMÕES COELHO
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Minha casa tem fachada
bonita, e um jardim no centro.
Mas nela o que mais agrada
é a morena que tem dentro,
ATHAYR CAGNIN
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Eu amo as minhas lembranças,
minhas saudades e dores,
assim como amo as crianças,
os passarinhos e as flores.
AUTA DE SOUZA
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Saudade — sino que plange
na catedral do meu peito,
chorando a morte de um sonho
que tão cedo foi desfeito!
B. BARBOSA
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Já viste o que faz o orvalho
à noite, no campo-santo?
Chega às cruzes como orvalho,
cai das cruzes como pranto!
BENEDITO CUNHA MELO
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Debruçado na janela,
eu procuro a imagem tua.
Mas não a vejo e, sem ela,
como é triste a minha rua!
BRUNO A. GONÇALVES
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A vida na solidão
é também felicidade,
quando o amor no coração
se transfigura em saudade.
DURVAL LÔBO
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Muitas vezes, embebido
em cismas, tenho sonhado
que a vida é um sonho comprido
que a gente sonha acordado!
FERREIRA GULLAR
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Meu jardim ganha uma flor
de tons suaves, brejeiros,
quando você, meu amor,
penetra nos seus canteiros.
JADIR VILELA DE SOUZA
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Busco ver-te em toda parte,
graciosa moreninha...
Se nasci para adorar-te,
nasceste para ser minha.
JOÃO ESTÊVÃO
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Talvez que o Tempo me faça
esquecer tão grande amor...
 - quanto mais a Vida passa,
mais aumenta a minha dor!...
VIRGÍLIO DOMINGUES FILHO
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Na tarde em que tu não vens,
eu fico triste e suponho
que o amor que tu não tens
há de ser sempre o meu sonho!
ZULMIRO VIEIRA

Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972.

Aparecido Raimundo de Souza (Coriscando) 20: Foi tudo culpa da pia

TENHO UM AMIGO COMUM, o José Cardoso, excelente compositor, que impreterivelmente não deixa de beber a sua cachaça. Chova ou faça sol, haja algo ou não para comemorar, lá está ele, fiel à sua companheira. Outro dia, ao socorrer um cidadão que fora atropelado no trânsito, fui parar, quase às duas horas da madrugada, num pronto socorro desta cidade. Para surpresa minha, quem não encontro na recepção, com a cara toda arrebentada preenchendo uma ficha para ser atendido?

Ele mesmo, o José Cardoso. Entre espantado e boquiaberto (ou mais boquiaberto e desesperado, pelo fato de ter me visto), lhe perguntei, de chofre, o que havia acontecido. Meio estonteado e titubeante, mais para lá do que para cá, o coitado explicou com a voz meio rouca.

— Foi a pia. Se estou aqui, agora, neste estado lastimável que você está presenciando, agradeço à ela. Unicamente à ela...

— A pia? Mas que pia?

— Pelo amor de Deus, Barbosinha. Você não sabe o que é uma pia?

— Claro que sei o que é uma pia. Mas que relação pode haver entre uma pia e este seu estado deplorável?

— Vou tentar explicar. Como sempre faço, depois do serviço, passei na birosca do Aleijadinho. Tomei umas geladinhas com alguns amigos de copo para calibrar o organismo debilitado. Depois de algumas boas rodadas, acabei de chegar no ‘lar, doce lar’. Entrei direto para o banho, jantei, vi um pouco de novela na televisão e, então, segui para um quartinho que tenho nos fundos.

— Não entendi. Quartinho nos fundos?

— Precisamente. Não sei se você sabe, faz tempo que não nos vemos, mas eu construí um espaço nos fundos lá de casa. Na verdade, fiz uma puxadinha para a Narcisa, minha filha que vai casar até o final deste ano. Lembra da Narcisa? Você foi convidado por ela para ser padrinho...

— Cardoso, esquece o resto. Quero saber, neste momento, da história da pia. Não enrola e conta logo...

— Calma, homem, eu chego lá. Como estava dizendo, me dirigi para o quartinho. Sempre que resolvo ‘embriagar’ a alma, para compor alguma coisa nova, me tranco nesse aposento e ‘meto bronca’.

José Cardoso aparentando um certo cansaço, tomou fôlego e prosseguiu.

— Bebi até o copo fazer bico e a garrafa pedir arrego. Minha mulher, a Rita, que você conhece melhor que eu, não aprova a ideia. Aliás, ela nunca aprovou. Odeia quando bebo alguma coisa. Acredito até pretendia ‘tirar uma’ e eu não estava muito disposto a chacoalhar os ossos. Conclusão: a filha da mãe da minha querida esposa me pegou de porrada e a coisa acabou neste quadro que o companheiro está vendo com os próprios olhos.

— Mas espera lá! Você não falou que não foi a Ritinha?

— De fato. Não foi!

— Então, José Cardoso?

— As ‘cacetadas’ que a Ritinha me deu, você sabe, não fizeram nem cosquinha. De mais a mais, tapinhas de amor, não doem. Me ajudam até pensar numa poesia e numa música mais romântica. A culpa, realmente, foi da pia.

— Está bem, quero um relatório detalhado. Sou todo ouvidos...

— Vou procurar ser o mais claro possível. Na verdade, tenho sempre em casa, doze garrafas de aguardente da ‘boa’. Gosto deste número, o doze. Me dá sorte. Inclusive foi a minha primeira música gravada pelo saudoso Orlando Dias...

Voltou a renovar o fôlego e seguiu com seu relato.

— Acontece que a Ritinha bateu na porta do quartinho e me chamou para ir deitar. Iniciamos uma pequena discussão. Entre tapas e beijos, ela resolveu medir as forças e avançou, resoluta para cima de mim, de cabo de vassoura e me obrigou a jogar as garrafas fora. Imagine...

— Você não obedeceu, não é mesmo?

— Nem poderia, Barbosinha. Como já estava grogue, ou para lá de Bagdá, entrei em ação. Peguei a primeira garrafa, bebi mais um copo e joguei o resto na pia...

— Na pia?

— Sim, na pia. Em seguida, peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei, também, o que havia sobrado dela, na pia. Parti para a terceira garrafa e aí fiz o seguinte: mandei para dentro o resto da água que os passarinhos não bebem e joguei o copo na pia. Com toda força. Voou caco de vidro para tudo quanto é lado. Com a quarta garrafa, não foi diferente. Bebi na pia e joguei o resto no copo...

— Como é que é...?

— Você já vai entender: calma ai. Na quinta garrafa, eu me armei de uma tigelinha cheia de tira-gosto, joguei a tampa da tigelinha nos cornos da Ritinha, abri a quinta garrafa nos dentes e ingeri, de um só gole, toda a bagaceira. Depois passei a mão na sexta garrafa, corri para a pia, bebi seu conteúdo sem ao menos contar até cem. Na sequência, para não perder o pique, joguei o copo no resto. Na sétima, meu camarada, a bagunça se fez hilária. Peguei no resto, enfiei o dedo nos olhos da nossa empregada que veio correndo quando se apercebeu do bafafá comendo solto e, antes dela me xingar todinho, bebi a pia...

— Bebeu... bebeu a pia?

— Na seguinte, nem lhe conto. Que loucura! Passei a mão no copo, arranquei a pia do lugar e a arremessei, com tudo, contra a nona garrafa. O troço caiu no chão e explodiu como uma bomba dessas caseiras. Pense numa bomba caseira fazendo um estardalhaço dos infernos. Por derradeiro, joguei a décima garrafa no copo, por azar tropecei na décima primeira e, cego de raiva, fora de mim, me atirei, sem mais demora ou delongas, literalmente (enquanto segurava a décima segunda garrafa debaixo do sovaco), de cabeça, na pia.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

I Concurso Estadual de Cartrovas (Prazo: 31 de Outubro)


Atenção: somente para o Rio Grande do Sul


A União Brasileira de trovadores, Seção Caxias do Sul, em vista do aniversário dos 700 anos de morte do grande poeta italiano Dante Alighieri, decidiu iniciar uma inovação em seu Concurso Estadual de Trovas. O mesmo consiste em escrever um “poema Cartrova”.

A cartrova deverá constar de 4 trovas (estrofes). Cada estrofe deve conter 4 versos setessilábicos, sendo que o primeiro verso deve rimar com o terceiro e o segundo com o quarto verso (ABAB).

Por ser uma carta, não há uma palavra “tema”. Toda ela deve ser direcionada a um dos personagens escolhidos, Dante Alighieri (autor da Divina Comédia), ou Beatrice Falco Portinari (eterna Musa do escritor).

Atenção: se a carta for escrita pelo “Dante”, deve conter os sentimentos do mesmo por sua musa, Beatrice. E assim, vice-versa.

Abaixo, exemplos de cartrova:

De: Dante
Para: Beatrice


Beatrice, ó grande amor,
por ti, meu coração chora!
És, da luz, seu resplendor,
que refulge, em mim, agora.

Tua face espelha o quanto
Deus, fiel, tem se mostrado,
não quero secar meu pranto
com o lenço de um frustrado.

No teu “ser” vislumbro a estrada
com ampla desenvoltura,
que por mim vai ser trilhada
sobre as linhas da ternura.

Beatrice, enfim, te aceno...
Sou Dante, um apaixonado!
Quisera, teu “ser” sereno,
ficasse sempre ao meu lado.
(Autor: Luiz Damo)

De: Beatrice
Para: Dante


À noite, passei escrevendo
e velando o sonho teu.
Pasme! Escutei-te dizendo:
Beatrice, doce amor meu.

Então esse amor platônico,
música em teu coração,
é um sentimento sônico,
faz parte de uma oração.

No inferno, me procuraste;
No purgatório, também...
Tu, no Eterno; então entraste,
para encontrar-me, meu bem.

À terra ainda pertencias...
A ela voltaste, então.
Agora, sem heresias,
Dante, dá-me tua mão.
(Autora: Luci Barbijan)


Observação:

1) sugere-se que, numa das trovas apareça o nome daquele a quem o poema está sendo dedicado (Dante, ou Beatrice), mas isso não é obrigatório.

2) solicita-se que, no final da cartrova, ao invés do nome do autor (a) seja usado um pseudônimo.

Participantes: podem participar trovadores (as) a partir dos 16 anos de idade, com até duas cartrovas.

Classificação: medalhas e certificado até o quinto lugar e certificado de participação para os demais.

Prazo de envio: de 20 de junho até 31 de outubro de 2021.

O envio poderá ser feito:

Via Correios, para:
I Concurso Estadual de Cartrovas da UBT, Seção Caxias do Sul-RS 2021
A/C: Luiz Damo
Rua Visconde de Pelotas, 449 apto 901 – Centro
CEP. 95020-180, Caxias do Sul, RS.


Num envelope menor e lacrado, enviar: nome completo do concorrente, endereço, telefone, e-mail e pseudônimo usado na cartrova. Inserir num envelope maior e no verso deste, deve constar: remetente: Luiz Otávio e endereço: o mesmo do destinatário.

Via e-mail, para:

damocaxias@gmail.com


Data, local e horário da premiação: dia 4 de dezembro de 2021, no Palco Central da 37ª Feira do Livro de Caxias do Sul, Praça Dante Alighieri, das 10 às 12 horas.

ATENÇÃO: O cronograma poderá ser alterado em virtude da pandemia. Caso as circunstâncias impeçam, o prêmio e os certificados, serão enviados pelos correios.

Dúvidas, informações, com Luiz Damo damocaxias@gmail.com

Caxias do Sul, 15 de junho de 2021
Luiz Damo
presidente

domingo, 20 de junho de 2021

Versejando 63: José Feldman

 

Jaqueline Machado (Aruanda entre Nós) 1 – Iemanjá


Capítulo da série: Aruanda* entre nós - os mais belos contos sobre Orixás.

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Iemanjá, dinda minha,
cuide do meu coração.
Nunca me deixe sozinha
nas trevas da solidão!

 
No princípio dos tempos uma certa musa era a protegida do exército de Ogum, pois a sua luz guardava as virtudes dos mundos.

Seus olhos ocultavam os mistérios que dividem o céu e a terra.

Seus cabelos escondiam a mais especial das inteligências.

Sua pele inspirava afagos e carinhos e o seu sorriso manifestava uma mescla de recato e liberdade...

Ela era perfeita. E tudo que é belo e perfeito demais deve ser protegido.

Por vezes, escondido. Assim como fazem com os tesouros.

Porque senão o mal vem com suas garras e toma para si.

O nome dela era Iemanjá...

Seus dias e noites eram vigiados pela milícia que tinha como missão, protegê-la das maledicências do mundo.

Mas sua sede por liberdade era imensa, assim como imenso é o oceano.

Não resistindo ao desejo de ser livre, ela ludibriou o poderoso exército e foi ao encontro de uma grande rocha que ficava na encosta do mar.

E lá, despida em sua mais pura essência, deitou-se para sentir o calor dos primeiros raios da manhã tocarem sua maculada pele.

Sorria para o romper da aurora e com seus olhos de lua, namorava o sol, fazendo vibrar a chama de um eclipse repentino que ao amanhecer logo se quebrou.

Nessa hora ela respirou feliz todo o espaço que ali havia.

Mas quis o destino que o seu momento de liberdade fosse breve. Logo o seu olhar tornou-se tenso ao mirar um bando de más criaturas que no impulso dos seus instintos animalescos, partiram ao seu encontro, a fim de tocá-la.

E, ela para defender-se, usou de sua sabedoria erguendo das águas um enorme espelho.

Ao serem refletidos, as criaturas viram-se como monstros deformados. Assustaram-se tanto, que fugiram das suas próprias figuras.

Arrependida, a linda virgem nunca mais fugiu da guarda de Ogum.
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* Aruanda é um conceito presente nas religiões afro-brasileiras, sobretudo na Umbanda, bem como no Espiritismo brasileiro. Descreve um local no mundo espiritual, que varia muito de acordo com a corrente religiosa, mas que de modo geral poderia ser equiparado a uma espécie de paraíso espiritual.

Frequentemente é entendida como uma cidadela espiritual que orbitaria a ionosfera do planeta Terra.

A palavra Aruanda, é uma corruptela ou uma forma diferente de se referir a Luanda. Os negros escravizados, desejavam voltar para sua terra natal, Luanda ainda em vida. Com o tempo e com o afastamento da Umbanda das tradições africanas, Aruanda acabou se tornando uma terra mística.

O termo Aruanda pode possuir diversos significados, dependendo do terreiro, ou centro espiritualista no qual seja mencionado. É, inclusive, utilizado por outras religiões espiritualistas tais como quimbanda e candomblé, em referência genérica a “plano espiritual”, o local onde morariam as entidades superiores.

Para a Umbanda tradicional, fundada em 1908, os habitantes de Aruanda são espíritos trabalhadores do bem e da caridade, sejam recém-desencarnados em aprendizagem, sejam espíritos de luz que há muito não retornam à esfera física pela reencarnação. Estes guias espirituais, apesar de sua evolução espiritual, permanecem na dimensão vibratória de Aruanda para continuar auxiliando encarnados e desencarnados, se manifestando na Terra sob a roupagem fluídica (em tipologia espiritual) de pretos-velhos, caboclos e crianças.

Para o Espiritismo (codificado por Allan Kardec), Aruanda seria a denominação de uma colônia espiritual, assemelhada à colônia Nosso Lar, descrita no livro Nosso Lar, de André Luiz (espírito), psicografado pelo médium Chico Xavier. Em Aruanda, porém, estariam presentes elementos magísticos da cultura africana, em sincretismo com simbolismos da cultura judaico-cristã.


Fontes:
Texto e trova enviados pela autora.
Aruanda =https://pt.wikipedia.org/wiki/Aruanda
Montagem da capa por José Feldman, com imagem de Aruanda 
obtida no site Belas Artes,  sem autoria.

Nemésio Prata (Panaceia de Versos) – 1

São versos enviados em diversos dias pelo trovador Nemésio em correspondência com Feldman (eu).

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Nós, Trovadores, estamos,
hoje, em alegria, imersos,
pois no Café desfrutamos
de sua Chuva de Versos!
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Se a lua inspira o Poeta...
também o faz o arrebol;
venturoso é para o esteta
ter os dois por seu farol!

Trovar não é brincadeira,
e quando se é "corrigido"
pelo Feldman, nem "peixeira"
faz ele tomar "partido"!
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Ao botar o seu negócio
botou sócio e se "ferrou".
Foi o "sabido" do sócio
no negócio que "enricou"!

ou

Ao botar o seu negócio
cuidado pra não botar
um "sabido" como sócio:
ele pode lhe "ferrar"!
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Curitiba, capital
do Estado do Paraná,
além de urbe escultural,
tem parte com Ceará,
através das Poesias,
que dão cor aos cinzas dias,
vindas lá de Maringá!

Vida longa, Curitiba!
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Se achando muito inspirado,
(o babalaô da Trova!),
um bardo se pôs a prova
num concurso, e o inesperado:
na trova..., foi reprovado!
Se sentindo injustiçado,
não muito "civilizado",
acusou a comissão
pela sua frustração
de trovador... Ah, coitado!
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Logo chega a primavera,
todas flores vão florir...
Novos dias no porvir.
E o Nemésio, uma fera
que sumiu de nossa esfera.
Há uns tempos sem notícia,
devo chamar a polícia?
Foi por um ET abduzido?
Ou dos pobres escondido?
Qual será sua felícia?

(José Feldman)

Resposta do Nemésio:


Caro José, sem polícia!
Eu confesso: estou faltante
nas trovas, mas nesse instante
quero dar-lhe uma notícia;
estou cheio de felícia!
Sem sair da nossa esfera
fui até a estratosfera
ao "ouvir" esta delícia
de notícia, sem "malícia":
O Nemésio é uma fera!

Pena não ser verdadeiro
o que dizes. Eu, uma fera?!
Ai, ai, ai, como eu quisera!
Na verdade, companheiro,
sou só um reles troveiro!
Sabedor que não mereço,
mesmo assim eu agradeço
esta franca exaltação,
te afirmando, de antemão,
que este encômio não tem preço!
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Ao meu amigo José,
pessoa fenomenal,
que de forma colossal
enfrenta dura maré,
pelo que tiro o boné,
só desejo que seu Deus
como faz aos filhos Seus,
cuide desta enfermidade,
dando-lhe longevidade:
pois não é hora de adeus!

Fonte:
Versos enviados pelo poeta.
Imagem por Gael Mac Tireban

Milton S. Souza (A Índia e o Peão)

Os dois moravam no fundo da fazenda do patrão, num velho galpão abandonado transformado em morada. Não eram felizes e nem infelizes: ele sabia que precisava dela para superar a velhice; e ela sabia que não tinha mais ninguém no mundo. E assim, mesmo sem amor ou paixão, dividiam as vidas e as poucas coisas que possuíam. Ele tinha mais tristezas para carregar: fora o maior peão da fazenda. Os cavalos que domava orgulhavam o patrão, ganhavam carreiras de cancha reta e rendiam na lida campeira. Era o maior domador. Mas a idade foi chegando. E quando o patrão sentiu que o peão não daria mais lucro, resolveu fazer uma “obra de caridade” com ele: ofereceu o velho galpão para servir de moradia, com o trato dele zelar pelos arames das cercas. Foi com muita dor no coração que retirou os seus poucos pertences do alojamento dos peões. Nem cavalo tinha, pois nunca recebeu nada pelo que fazia. Era cama, comida e muito trabalho…

Quando chegou no galpão, uma surpresa: já havia uma moradora. Logo reconheceu a velha índia que seguidamente ia até a fazenda para benzer algum peão picado por cobra ou com ferida braba. Enquanto arrumava um canto para acomodar os trastes, ela, imediatamente, começou a fazer uma trouxa com suas roupas velhas e cacarecos. Mas ainda restava um pouco de ternura no coração daquele peão. Com poucas palavras, ele disse que ela podia ficar, pois havia lugar para os dois. Um pouco desconfiada, ela recolocou as suas coisinhas no lugar. Ficaram morando cada qual no seu canto. Ele fez alguns consertos no galpão, para pode morar melhor. Ela olhava, sem dizer nada.

Mas o destino resolveu aproximar os dois: ele levou um tombo quando consertava uma parede, ficando desacordado. Ela, mesmo frágil, conseguiu arrastar o velho peão até o quartinho dele. E ficou dias e noites cuidando do doente, fazendo ele tomar alguns chás amargos, tratando com folhas e plantas os seus machucados. Ficou curado. E não deixou ela levar de volta os seus trastes. Ficaram morando juntos.

Mas o tombo havia deixado marcas. E o velho peão, algum tempo depois, sofreu um derrame cerebral. A velha índia, notou a gravidade da situação. E resolveu ir até a fazenda buscar ajuda. Demorou muito para ser entendida. Insistiu. E o patrão resolveu mandar uma carroça buscar o doente e levar até o posto de saúde na vila.

Foi quase um dia de viagem. E a índia junto, em silêncio, preocupada com aquele homem que era seu sem ser seu. Foram largados no posto de saúde. Como o estado do doente era grave, a prefeitura encaminhou, numa ambulância, para um hospital na capital. Ela sempre junto, de carona.

Os 400 quilômetros de ambulância debilitaram mais o doente. O peão foi direto para a UTI. E ela, durante 18 dias, ficou acompanhando o caso, dormindo nos bancos do corredor do hospital, comendo alguma coisa quando alguém ficava com pena, usando os sanitários para lavar as suas roupinhas velhas e fazer a sua higiene. Ficou conhecida como a “velha do peão”. Só podia entrar na UTI e ficar ao lado dele meia hora por dia. Era o seu momento mais feliz.

Mas a felicidade dura pouco: o peão não resistiu. E ela chorou baixinho por ele e também por ela: sozinha naquele lugar, sem nenhum conhecido, sem nada...

Uma freira, que estava com um familiar no hospital, entendeu todo o drama. E levou a velha índia para o colégio católico onde trabalhava. Hoje, quase um ano depois daqueles dias sofridos, ela cuida do jardim da escola. E tem o seu quartinho para morar com dignidade. Está garantindo uma velhice mais feliz. De vez em quando, quando brota uma saudade no coração, ela colhe uma das flores mais bonitas e oferece para Nossa Senhora. A Virgem entende o que diz o seu silêncio: ela só quer, algum dia, poder encontrar o seu peão nos jardins da eternidade. Por certo vai conseguir…

Fonte:
Recanto das Letras
Imagem por Gael Mac Tireban

Silmar Böhrer (Croniquinha) 26

Uma questão crônica das crônicas (croniquinhas) é a definição do tema a abordar. Porque são tantos os até pequenos detalhes, que de repente focamos num deles mais apreciado, mais comentado, mais vivido.

Tenho por hábito constante caminhar.

Milhares de dias, milhares de quilômetros ambulando. E bem ou mal comparados, os caminhos e os caminhares são como as leituras - nos mostram, atiçam as ideias, ensinam a enxergar mais longe, fazem pensar nas nuances e matizes das trilhas.

Nas andanças corriqueiras pela veredas da mata, aprendemos a ver a natureza com outros olhos - o riacho caudaloso, os nambus à beira d'água, as curucacas na campina, a orquestra da passarada - musicalidade junto ao som daquele silêncio ensurdecedor nos caminhos.

Nestas constância pelos carreadores vivemos legítimas vilegiaturas, buscando a essência dos bons dias. Caminhadas são fruição: como na vida, devemos aproveitar as delícias da paisagem.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.
Imagem por Gael Mac Tireban

sábado, 19 de junho de 2021

Adega de Versos 30: Luciano Dídimo

 


Solange Colombara (Carreata de Micro-Contos) – 2 –

MADRASTA


Sua vida madrasta finalmente teve fim ao cruzar os portões do Paraíso. Realizara seu maior sonho: Ser mãe.
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CIMO

No cimo da nostalgia, Adalgisa quase conseguiu tocar a lua.

Desceu a montanha cantarolando ao luar.
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MEDO

Sentia de tudo um pouco: Palpitação, mãos suadas, dor no estômago. Mas ao sentir aqueles olhos lhe sorrindo, o medo passou e o primeiro beijo aconteceu.

Fonte:
Textos enviados pela autora.

Brasil Andrade Holsbach (Caderno de Poemas) – 1 –

BEM DISTANTE, NO SERTÃO...

Lá nos pagos, onde eu moro,
bem distante... no sertão...
quando a lua faz clarão,
toco viola, canto e choro!

O meu canto de saudade
ecoa longe, sobe o monte...
se escoa pela fonte
em que brinquei na mocidade!

Minha prenda foi viver
n’outra choça, junto a Deus...
me deixou na solidão...

Vou cantar-lhe até morrer
pra me abrir a porta dos Céus
e curar meu coração!
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GÊNESE DUM SONETO

As cortinas se abrem em sonho e fantasia!..
Um artista tosco dança em palco aos turbilhões
em vil papel a exibir assombrações...
É que anoitece no portal da poesia!

Mas há também a entidade a pugnar
e expugnar o mau pensar que a alma corrói...
No versejo de palavras meu herói
escande os versos para a métrica ajustar.

Peço aos céus me confortar co’ a luz divina
e Deus a verve sopra em mim para inspirar
verso rimado numa plateia a aplaudir.

De madrugada a estrela d’alva me ilumina
e meu soneto vem ao mundo pra animar
um coração que por mim pulsa a sorrir!...
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NÃO HÁ TEMPO RUIM PRA AMAR

Hoje o dia ‘stá chuvoso,
não tem noite de luar;
não há tempo ruim pra amar
- nosso tempo é dadivoso!

Como pode reclamar
(quando o dia está adverso)
quem tem Deus no Universo
sempre pronto a confortar?!

Se a tristeza te abater,
por querela de amor,
não te ponhas a chorar.

De manhã, no alvorecer,
Quem, perene, rega a flor
nosso amor há de irrigar!…
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PELOS VERDES CAMPOS DA MINHA TERRA

Pelos verdes campos da minha terra,
o vento que sopra, inverno e verão,
traz o bom tempo para a plantação
rir e florir nas nascentes da serra.

Planta a semente para a passarada
alimentar-se em qualquer estação;
trinar e pulsar como um coração
que ama mais brando no alvor da alvorada.

O Deus deste mundo, sábio, perfeito,
fez o livre arbítrio e fez o perdão...
enviou o Filho do amor pra perdoar...

Se a chama se esfria... dentro do peito
haverá brasa, calor e paixão
que o sopro do amor não deixa apagar!...
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POR QUEM BATE O CORAÇÃO?

Por quem bate o coração?
- Por aquele a quem mais ama:
o seu bem a quem declama
os suspiros da paixão!

Fantasia?... Pois que seja
essa musa da vivência
que lirismo em pura essência
ao poeta inspira, enseja!...

Vou fazer uma poesia
pra dizer-lhe quanto a amo:
não suporto mais calar-me.

No meu mundo fantasia
lindo verso a ti declamo
porque quero entregar-me!...

Fonte:
Facebook do poeta.
https://www.facebook.com/brasil.holsbach