sábado, 28 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 5. O Tapete do Destino

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites


"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), almas curiosas. Aproximem-se, pois o fio que vou tecer agora é feito de astúcia e de uma coragem que nem as tempestades de areia podem apagar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes contarei como a mente de uma mulher pode ser mais afiada que a espada de um mameluco*.

"Bismillah" (Em nome de Deus), comecemos a urdir esta trama.

Nas montanhas do Atlas, vivia uma jovem chamada Layla, famosa por seus tapetes que pareciam capturar as cores do por do sol. 

Um dia, um adivinho sombrio passou por sua aldeia e, ao olhar para a palma de sua mão, sentenciou: "Maktub (Está escrito): Antes que a próxima lua cheia se ponha, a pobreza baterá à sua porta e levará sua última gota de esperança."

Layla sentiu o frio do medo, mas não se curvou. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), pensou ela, "se o destino é um tecido, eu sou aquela que segura a agulha."

Ela não parou de trabalhar. Em vez de lamentar, Layla começou a tecer um tapete diferente de tudo o que já fora visto. Era um tapete de "Kohl" (Negro profundo), mas com fios de seda que brilhavam como prata sob a luz da lua. Nele, ela não desenhou flores ou figuras geométricas, mas sim o mapa das estrelas e os segredos do vento.

Quando a lua cheia chegou, o Destino, personificado na figura de um cobrador implacável enviado por um mercador ganancioso, bateu à sua porta. 

"Vim levar seus teares e sua casa por dívidas que seu pai deixou", disse o homem com voz de pedra.

Layla, com um sorriso calmo, disse: 

"Ahlan wa Sahlan" (Seja bem-vindo). "Antes de levar tudo, peço que avalie esta peça única. É o Tapete do Tempo. Dizem que quem pisa sobre ele pode ver o futuro, mas apenas se o seu coração for puro."

O mercador, movido pela ganância e pela curiosidade, pisou no tapete. Layla, com sua habilidade de tecelã, havia criado uma ilusão de ótica com os fios de prata; ao se mover sobre eles, o mercador sentiu como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés, revelando um abismo de estrelas. Assustado e acreditando estar diante de uma magia poderosa que punia os gananciosos, ele caiu de joelhos.

"Perdoe-me!" gritou o homem. "Afwan" (Perdão)! "Fique com tudo, apenas me deixe sair deste feitiço!"

Layla permitiu que ele fugisse. Ela não havia mudado o que estava escrito nas estrelas, mas mudou a forma como o mundo a via. A pobreza nunca entrou naquela casa, pois sua fama de "Sábia dos Tapetes" atraiu viajantes de todo o "Magrebe" (Ocidente Árabe), que pagavam fortunas para ouvir seus conselhos enquanto ela tecia.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a inteligência é o presente mais precioso dado aos mortais. O destino pode escrever a primeira linha, mas somos nós que terminamos a estrofe.

Obrigado por me ouvirem sob este manto de estrelas. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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Mamelucos = casta de soldados-escravos no mundo islâmico, frequentemente de origem cristã convertida, que ascendeu ao poder no Egito e na Síria (séculos XIII-XVI)

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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Silmar Bohrer (Croniquinha) 155


A casa do (bicho) homem é eterno habitat inconsequente.  Tantos e tantos vivem a vida a celebrar o bom viver.  Trabalho, risos, espinhos, dores, otimismo, alacridade, sempre festejando a existência. 

Antagonismos.

Outros tantos secularmente buscam conquistar o mundo material, e a gente não sabe onde querem chegar (nem eles !), mas não sossegam. São conflitos que vêm desde remotos tempos  - alguns ou poucos, ou nenhuns, entendem por que existem.

Discórdias e contendas constantes.  Para todo lado.  A rosa-dos-ventos do planeta não tem paz, nem sossego.  As hostilidades do ser humano têm a dita constância constante. Conflitos eternos pipocando num local, surgindo noutros, mostram que não temos calmaria.  Raros remansos. 

Nestas horas lembramos das Escrituras : "Acautelai-vos, que ninguém vos engane. Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; olhai, não vos perturbeis, porque forçoso é que assim aconteça. Mas ainda não é o fim ".
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor 

Dicas de Escrita (A Crônica) 5. Crônica Humorística

Título: "A Arte de Não Fazer Nada"

No último fim de semana, decidi que era hora de praticar a arte de não fazer nada. Afinal, em um mundo tão corrido, quem não merece um tempo para relaxar? Com esse pensamento, me acomodei no sofá, munido de um controle remoto e um pacote de pipoca. O plano era simples: maratonar séries sem culpa.

Mas, como sempre, o universo tinha outros planos. Primeiro, o cachorro resolveu que era hora de brincar. Ele trouxe um brinquedo que mais parecia uma bomba de barulho. Cada vez que eu tentava mudar de canal, lá vinha ele, como um ninja peludo, atacando meu pé.

Depois, a vizinha, que parece ter um PhD em fofoca, apareceu na porta. “Oi, você viu o que aconteceu com a Maria?” E lá se foram 30 minutos da minha vida, ouvindo o último babado do bairro. Quando finalmente consegui voltar ao meu sofá, percebi que a pipoca tinha se transformado em um bloco de cimento.

E assim, entre tentativas frustradas de relaxar e interrupções inesperadas, percebi que a arte de não fazer nada é, na verdade, uma habilidade raríssima. O que deveria ser um momento de paz se transformou em uma maratona de imprevistos. No final das contas, talvez eu devesse mudar meu título para “A Arte de Não Fazer Nada, Mas Fazer Tudo”.

Análise dos Elementos Utilizados

1. Narrador:

- A voz do narrador é leve e bem-humorada, compartilhando suas experiências cotidianas de forma divertida e autocrítica.

2. Tema:

- O tema central é a dificuldade de relaxar em um mundo cheio de distrações e interrupções, abordando a ironia de querer não fazer nada.

3. Estilo Humorístico:

- O tom é engraçado e sarcástico, utilizando situações comuns para criar humor e identificação com o leitor.

4. Elementos Descritivos:

- Descrições vívidas e exageradas (como o cachorro “ninja” e a pipoca “bloco de cimento”) ajudam a criar imagens cômicas que enriquecem a narrativa.

5. Exagero:

- O uso de hipérbole, como na transformação da pipoca, é um recurso comum no humor, intensificando a situação para provocar risadas.

6. Conexão com o Leitor:

- A crônica fala sobre experiências universais, como a luta para relaxar, permitindo que o leitor se identifique e ria de suas próprias frustrações.

Esse exemplo e análise mostram como uma crônica humorística pode entreter e fazer o leitor refletir sobre situações cotidianas de uma forma leve e divertida.
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continua…

Beatrix Potter (O conto do esquilo Nutkin)

Uma história para Norah


Esta é uma história sobre um rabo – o rabo de um pequeno esquilo vermelho, chamado Nutkin.

Ele tinha um irmão chamado Twinkleberry e muitos primos: eles moravam em um bosque à beira de um lago.

No meio do lago havia uma ilha coberta de árvores e arbustos de avelã; e entre essas árvores, erguia-se um carvalho oco, que era a casa de uma coruja chamada Old Brown.

Certo outono, quando as nozes estavam maduras e as folhas dos arbustos de avelã estavam douradas e verdes, Nutkin, Twinkleberry e todos os outros esquilos saíram do bosque e foram até a beira do lago.

Eles fizeram pequenas jangadas com galhos e remaram sobre a água até a Ilha da Coruja para colher nozes.

Cada esquilo tinha um saquinho e um remo grande, e abriu o rabo como vela.

Levaram também três ratinhos gordos como presente para o Old Brown e os colocaram na soleira da porta dele.

Então, Twinkleberry e os outros esquilos fizeram uma reverência e disseram educadamente:

"Velho Sr. Brown, o senhor nos daria a gentileza de colher nozes na sua ilha?"

Mas Nutkin era extremamente impertinente. Ele balançava a cabeça para cima e para baixo como uma cerejinha vermelha, cantando:

"Decifra-me, decifra-me, rot-tot-tote!
Um homenzinho, de casaco vermelho!
Um cajado na mão e uma pedra na garganta;
Se você me disser esta charada, eu lhe darei um grão."

Ora, esta charada é tão antiga quanto as montanhas; o Sr. Brown não deu a mínima atenção a Nutkin.

Ele fechou os olhos teimosamente e adormeceu.

Os esquilos encheram seus saquinhos com nozes e voltaram para casa à noite.

Mas na manhã seguinte, todos retornaram à Ilha da Coruja; e Twinkleberry e os outros trouxeram uma bela toupeira gorda e a colocaram sobre a pedra em frente à porta de Old Brown, dizendo:

"Sr. Brown, o senhor nos concederia sua gentil permissão para colhermos mais nozes?"

Mas Nutkin, que não tinha respeito algum, começou a dançar de um lado para o outro, fazendo cócegas no velho Sr. Brown com uma urtiga e cantando:

"Velho Sr. B! Enigma-me-ree!
Hitty Pitty dentro do muro,
Hitty Pitty fora do muro;
Se você tocar em Hitty Pitty,
Hitty Pitty vai te morder!"

O Sr. Brown acordou de repente e levou a toupeira para dentro de casa.

Ele fechou a porta na cara de Nutkin. Logo, um fiozinho azul de fumaça de uma fogueira subiu do alto da árvore, e Nutkin espiou pelo buraco da fechadura e cantou:

"Uma casa cheia, um buraco cheio!
E você não consegue juntar uma tigela cheia!"

Os esquilos procuraram nozes por toda a ilha e encheram seus saquinhos.

Mas Nutkin colheu maçãs-de-carvalho – amarelas e escarlates – e sentou-se num toco de faia jogando bolinhas de gude e vigiando a porta do velho Sr. Brown.

No terceiro dia, os esquilos levantaram bem cedo e foram pescar; pegaram sete peixinhos gordos como presente para Old Brown.

Remaram pelo lago e desembarcaram sob uma castanheira torta na Ilha da Coruja.

Twinkleberry e outros seis esquilos pequenos carregavam um peixinho gordo cada um; mas Nutkin, que não tinha boas maneiras, não trouxe presente nenhum. Ele correu à frente, cantando:

"O homem no deserto me disse:
'Quantos morangos crescem no mar?'
Respondi-lhe como achei melhor:
'Tantos arenques vermelhos quantos crescem na floresta.'"

Mas o velho Sr. Brown não se interessava por enigmas – nem mesmo quando a resposta lhe era dada.

No quarto dia, os esquilos trouxeram um presente de seis besouros gordos, tão bons quanto ameixas em um pudim de ameixa para Old Brown. Cada besouro estava cuidadosamente embrulhado em uma folha de azeda, presa com um alfinete de agulha de pinheiro.

Mas Nutkin cantou tão grosseiramente como sempre:

"Velho Sr. B! charada-me-ra-ra
Farinha da Inglaterra, fruta da Espanha,
Encontraram-se em uma chuva torrencial;
Colocaram-se em um saco amarrado com um barbante,
Se você me disser esta charada, eu lhe darei um anel!"

O que era ridículo da parte de Nutkin, porque ele não tinha nenhum anel para dar a Old Brown.

Os outros esquilos vasculharam os arbustos de nozes; mas Nutkin recolheu alfinetes de pombo-de-peito-ruivo de um arbusto de sarça e os encheu de alfinetes de agulha de pinheiro.

No quinto dia, os esquilos trouxeram um presente de mel silvestre; Era tão doce e pegajoso que eles lamberam os dedos ao colocá-lo sobre a pedra. Tinham-no roubado de um ninho de zangões no topo da colina.

Mas Nutkin saltitava para cima e para baixo, cantando:

"Hum-a-bum! Zum! Zum! Hum-a-bum, zumbido!
Quando passei por Tipple-tine,
Encontrei um bando de porcos bonitos;
Alguns de pescoço amarelo, outros de dorso amarelo!
Eram os porcos mais bonitos
Que já passaram por Tipple-tine.”

O velho Sr. Brown revirou os olhos, desgostoso com a impertinência de Nutkin.

Mas ele comeu todo o mel!

Os esquilos encheram seus saquinhos com nozes.

Mas Nutkin sentou-se em uma grande pedra plana e jogou boliche com uma maçã-brava e pinhas verdes.

No sexto dia, que era sábado, os esquilos voltaram pela última vez; trouxeram um ovo recém-posto em uma cestinha de junco como presente de despedida para Old Brown.

Mas Nutkin correu na frente, rindo e gritando:

"Humpty Dumpty jaz no riacho,
Com uma colcha branca em volta do pescoço,
Quarenta doutores e quarenta carpinteiros,
Não conseguem consertar Humpty Dumpty!"

Então o velho Sr. Brown se interessou por ovos; abriu um olho e o fechou novamente. Mas continuou sem falar.

Nutkin tornou-se cada vez mais impertinente:

"Velho Sr. B! Velho Sr. B!
Hickamore, Hackamore, na porta da cozinha do Rei;
Nem todos os cavalos do Rei, nem todos os homens do Rei,
Conseguiram expulsar Hickamore, Hackamore,
da porta da cozinha do Rei."

Nutkin dançava de um lado para o outro como um raio de sol; mas Old Brown continuava sem dizer absolutamente nada.

Nutkin recomeçou:

"Arthur O'Bower rompeu seu bando,
Ele vem rugindo pela terra!
O Rei dos Escoceses, com todo o seu poder,
Não consegue deter Arthur do Bower!"

Nutkin fez um ruído estridente para imitar o vento e deu um salto em cima da cabeça de Old Brown!...

Então, de repente, houve um bater de asas, uma confusão e um grito alto!

Os outros esquilos correram para os arbustos.

Quando voltaram com muita cautela, espiando por trás da árvore, lá estava Old Brown sentado no degrau da porta, completamente imóvel, com os olhos fechados, como se nada tivesse acontecido.
* * * * *

Mas Nutkin estava no bolso do colete dele!

Parece o fim da história; mas não é.

Old Brown carregou Nutkin para dentro de casa e o segurou pelo rabo, com a intenção de esfolá-lo; Mas Nutkin puxou com tanta força que seu rabo se partiu em dois, e ele disparou escada acima e escapou pela janela do sótão.

E até hoje, se você encontrar Nutkin em cima de uma árvore e lhe fizer uma charada, ele jogará gravetos em você, baterá os pés, resmungará e gritará:

"Cuck-cuck-cuck-cur-r-r-cuck-k-k!" 
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HELEN BEATRIX POTTER (Londres, 1866 — Lakeland/Inglaterra, 1943) foi uma escritora, ilustradora, micologista e conservacionista inglesa, célebre por seus livros infantis de grande originalidade e valor intemporal. Sua obra mais famosa é A História do Pedro Coelho. Ela estudou em casa e recebeu das governantas uma educação vitoriana.  O Coelho Benjamim foi uma das primeiras personagens que Beatrix Potter vendeu a uma editora. Beatrix começou por ilustrar contos tradicionais como "Cinderela", "A Bela Adormecida", "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", "O Gato das Botas" etc, mas muitas das suas ilustrações incluíam os seus animais de estimação. Beatrix Potter teve bastantes dificuldades em encontrar uma editora que publicasse as suas histórias. Depois de receber várias cartas de rejeição, ela decidiu tratar do assunto sozinha e criou um livro pequeno a preto e branco com a histórias dos quatro coelhinhos e publicou 250 cópias do mesmo que pagou com o seu próprio dinheiro. Frederick Warne & Co, que já tinha rejeitado as histórias de Beatrix, decidiu publicar o que apelidou de "livro dos coelhinhos". A mudança de posição deveu-se ao fato de a editora querer entrar no mercado dos livros infantis de formato pequeno. A História do Pedro Coelho foi publicado em 1902 e foi um enorme sucesso, vendendo 20 000 cópias até ao Natal desse ano. No ano seguinte, foram publicados A História do Esquilo Trinca-Nozes e O Alfaiate de Gloucester. Nos anos seguintes, Beatrix trabalhou com o editor Norman Warne e publicou entre dois e três livros de formato pequeno todos anos, atingindo um total de 23 obras publicadas na sua carreira. Em 1905, Beatrix e Norman Warne, o seu editor, ficaram noivos. O noivado foi mantido em segredo pois a família de Beatrix desaprovava um noivo que vivia de sua profissão de editor, por considerá-lo de classe inferior. Tragicamente, em 25 de agosto de 1905, um mês depois do pedido, Norman morreu de leucemia, quando tinha 37 anos. Isso deixou Beatrix devastada, mas ela fez o máximo para superar esse momento difícil, trabalhando ainda mais do que o costume. Em 1913, aos quarenta e sete anos, Beatrix casou-se com William Heelis, um procurador local, e foi morar em Sawrey. Ela passou a desenhar e a escrever menos, dedicando-se às atividades da fazenda, à criação de carneiros e a comprar muitas terras em Lakeland, para preservá-las. Quando Beatrix Potter morreu, em 1943, deixou mais de 4 000 acres e 15 fazendas para o National Trust, uma organização destinada a preservar lugares de interesse histórico ou de grande beleza cênica, na Inglaterra. Beatrix e William tiveram um casamento feliz que durou trinta anos. Apesar de não terem filhos, Beatrix era um elemento importante da família de William e teve uma relação muito próxima com as suas sobrinhas, que ajudou a educar. Beatrix faleceu em 1943, devido a uma pneumonia e complicações cardíacas em sua residência, chamada Castle Cottage, localizada em Lake District. Os seus restos mortais foram cremados. O seu marido continuou cuidando das propriedades e do trabalho literário e artístico da esposa até à sua morte, em agosto de 1945. Em 2006, a vida de Beatrix Potter foi transformada em um filme, Miss Potter, com Renée Zellweger e Ewan McGregor como protagonistas. 

Fontes:
Biografia =https://pt.wikipedia.org/wiki/Beatrix_Potter
Beatrix Potter. The Tale of Squirrel Nutkin, publicado originalmente em 1903. Tradução por José Feldman. Disponível em Domínio Público.  

sexta-feira, 27 de março de 2026

Asas da Poesia * 168 *


Poema de
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Retrocesso

Sonhos menineiros
acordam-me manhãs de saudade.
E eu caminho
pelas calçadas antigas do passado,
à procura do carinho criança
que deixei brincando
com as mentiras da vida;
da bondade ternura que o coração perdeu
pelas esquinas do mundo;
das venturas inocentes que deixei por aí
rabiscadas
nas paredes envelhecidas do tempo.
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Soneto de
ANIBAL BEÇA
Manaus/AM (1946 – 2009)

Soneto de aniversário

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfundível som do último acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bashô sonhara, é despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Auto retrato

O homem
Só descobre o verdadeiro
Sentido do ridículo
Quando se vê aprisionado
Na estupidez
A que ele próprio
deu causa.
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Trova Popular

Se eu pensara quem tu eras,
quem tu havias de ser,
não dava meu coração
para tão cedo sofrer.
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Soneto único

Vejo a sombra partir-se pelo meio
e pôr-me duas pálpebras na face;
minha boca de sede bebe o seio
de alguma estrela que me amamentasse;

tem um peso de terra o corpo alheio
que há no meu corpo; em meus ouvidos nasce
uma árvore cantando um vento cheio
de céu em cada enlace e desenlace;

em minhas mãos paradas pousam ninhos;
vão os passos de todos os assombros
andando as minhas veias de caminhos;

e há, para o voo aceso numa aurora,
pressentimentos de asas nos meus ombros
— quando a Moça da Foice me namora.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Cada vez que faço um verso,
A inspiração se renova...
como pode o universo
caber dentro de uma trova?
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Cada amigo tem um jeito
que eu não julgo nem desdenho.
Ninguém, no mundo, é perfeito…
Defeitos? … eu também tenho!
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Soneto de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Despedida 

O mais duro de todos os momentos, 
que magoa fortemente o coração, 
é quando o pranto escorre com emoção 
cheio de dor, cheio de desalentos! 

A despedida é mais que uma agressão, 
que chega destruindo os sentimentos, 
numa tempestade de fortes ventos, 
como se fosse o adeus, uma explosão! 

Roubando, assim, toda a felicidade, 
sinto no peito, essa cruel verdade: 
As despedidas são violações! 

Dizer adeus é algo que angustia, 
como um mar negro, pleno de agonia, 
onde se afogam tantas emoções!
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Restou a imensa saudade,
pois no tempo, que passou,
a ingrata felicidade
o próprio rastro apagou.
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Poema de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Semente

Renasço cada manhã,
ecoando em silêncios
esta intensa sensação

de sentir-se viva, uma ilusão
em que fragmentos da alma
unem-se aos ecos no chão,
germinando de novo a vida...
abraçando a voz do coração.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

O resplendor deste olhar
ilumina o meu caminho.
Pássaro errante a voar,
volto sempre ao nosso ninho.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Veio

Di-lo tanto fulgor maravilhoso, di-lo
Este clarim de sol rubro do meu anseio,
Este verde de mar, como um sono tranquilo,
Este límpido céu azul, como um gorjeio,

Alto, bem alto, assim, para que eu possa ouvi-lo,
Que ela, vencendo o mar, transpondo o serro, veio,
Todo cheirando, em flor, o perfumado seio,
Bela, sonora, ideal, como a Vênus de Milo...

Fosse vaidade ou amor, desespero ou ciúme,
Que a trouxeram aqui, como um leve perfume,
Ou fossem, ai! de mim! raivas e temporais,

Veio, mas com a graça e a própria luz do dia...
Ó prazer que me faz soluçar de alegria,
E respirar, e crer nos deuses imortais!
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Trova Premiada em São Paulo/SP, 2013 de
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
Juiz de Fora/MG

Nos bons e nos maus momentos,
quando a emoção cala a voz,
externando os sentimentos,
as rosas falam por nós.
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Rita

Você era tão bonita…
De uma beleza sem igual.
Eu, como tal,
encantado com a sua silhueta
retratava na memória
você vestida de azul…

De um azul que cintilava
como o céu na sua mais fascinante imagem.
Lembro-me ainda de quanta bobagem
o tempo que desperdicei
por não ter coragem
de revelar pra você a minha fascinação.
Não mereço perdão!

Devia castigar-me
por ter sido tão covarde.
Talvez fosse a idade
Talvez a timidez.
Só sei que a perdi de vez.
 
Perdi você Rita, que era tão bonita,
pra alguém que sequer merecia o seu olhar.
E você olhou
apaixonou-se
entregou-se
E se acabou na desventura
acreditando naquela criatura
que não soube amá-la
não soube respeitá-la
acabando por entregá-la
ao desgraçado mundo da ilusão.

Dói-me o coração
de vê-la descuidada
desiludida, acabada, desfigurada,
como não existisse mais nada…

Ou razão pra viver.
Ah! Rita, você era tão bonita…
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

No carrão recém-comprado
da motorista barbeira:
“Atenção, muito cuidado...
amaciando carteira!”
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Saudade

NO TOPO:
A distância é que nos mata
porque vem logo a saudade;
saudade - presença ingrata
de antiga felicidade.
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

SUBINDO:
De antiga felicidade
que o tempo tentou levar,
meu coração tem vontade
de outra vez recomeçar.
    
Saudade - presença ingrata
que no coração perdura,
minha imagem não retrata
0 meu viver de amargura.

Porque vem logo a saudade
morar em meu peito agora?
Antes que tudo se acabe
quero ver a luz da aurora.

A distância é que nos mata
e o castigo tem sabor:
- quanto mais forte a chibata,
mais aumenta o nosso amor.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Se me pisas com descaso,
eu gemerei dolorida,
que as flores morrem num vaso,
porém, num jardim, têm vida!
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Hino de 
TERESINA/ PI

Risonha, entre dois rios que te abraçam
Rebrilhas sob o Sol do Equador
És terra promissora onde se lançam
Sementes de um porvir pleno de amor

Do verde exuberante que te veste
Ao Sol que doura a pele à tua gente
Refulges, cristalina, em chão agreste
Lírio orvalhado, resplandente

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

O nome da rainha, altivo e nobre
Realça a faceirice nordestina
Na graça jovial que te recobre
Teresa, eternizada Teresina

Cidade generosa, a tez morena
Do povo honrado, alegre, acolhedor
A vida no teu seio é mais amena
Na doce calidez do teu amor

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Teresina, eterno raio de Sol
Manhã de claro azul no céu de anil
És fruto do labor da gente simples
Humilde entre os humildes do Brasil

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória
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Soneto de
ALBERTO DE OLIVEIRA
Palmital de Saquarema/RJ (1857-1937) Niterói/RJ

A Casa da Rua Abílio

A casa que foi minha, hoje é casa de Deus.
Tem no topo uma Cruz. Ali vivi com os meus,
Ali nasceu meu filho, ali, na orfandade
Fiquei de um grande amor. Às vezes a cidade

Deixo e vou vê-la, em meio aos altos muros seus.
Sai de lá uma prece, elevando-se aos céus.
São as freiras rezando. Entre os ferros da grade,
A espreitar-lhe o interior, olha a minha saudade.

Um sussurro também, em sons dispersos,
Ouvia não há muito a casa. Eram meus versos.
De alguns, talvez, ainda, os ecos falarão.

E em seu surto, a buscar eternamente o belo,
Misturado à voz das monjas do Carmelo,
Subirão até Deus nas asas da oração.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Sob os feitiços do amor 
e amante desse pecado, 
como é bom ser pecador, 
refém de um beijo roubado!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O gato e o macaco

Ratão era um malandro. Se era um gato!
Beltrão, outro maior, porque era mono.
Gozavam ambos um viver pacato,
Servindo com preguiça o mesmo dono.

Este par de tratantes
Tinha perdido o medo a toda a gente.
Furtavam a valer! E felizmente
Que — não sendo os criados vigilantes —
Não punham pé em casa dos estranhos.
O Beltrão, que larápio! E malfazejo.
O Ratão, esse andava atento ao queijo
E já nem se importava com murganhos.

Um dia os dois, sentados
À lareira,
Recebendo o calor, muito chegados,
Viam assar castanhas. E pensavam,
Sentindo comichões de ladroeira:
«Quem as surripiasse! Tinha graça!»
Era um belo petisco que papavam,
E pregavam por cima uma pirraça.

Beltrão, já com a boca muito aguada,
Pespegou no colega uma palmada
E disse-lhe, a sorrir, com muitas manhas:
«Quero admirar a tua habilidade!
Tu dizes que és esperto,
Que tens agilidade...
Ora vê lá se safas as castanhas!...
Não és capaz. Vamos a ver se acerto.

É difícil, é fato,
Mas... Ah! que se eu tivesse mãos de gato,
As castanhas saltavam cá para fora!»
Ratão, sem mais demora,
Inchado de fumaças de quem pode,
Com muita ligeireza
Arreda a cinza, escalda-se, sacode
Os dedos, vai com mais delicadeza...
Pá! rola uma castanha, duas, três!...
Beltrão ria-se, vendo
Executar esta partida nova.
«Que grande ligeireza!» E ia comendo.
Chega a criada... Zut! Mas desta vez
O hábil Ratão saiu-se mal. Que sova!

Uma observação aqui registro:
Seria muito fácil quanto a mim,
Mudar este macaco num ministro
E transformar o gato em galopim*.
(tradução: Garcia Monteiro)
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* Galopim = cabo eleitoral.
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