Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sophia Irene Canalles (Ramalhete de Trovas)



1
Ah, se eu pudesse voltar
aos tempos de antigamente!
Não teria, em meu olhar,
esta angústia tão presente!
2
Ama com amor profundo,
reúne o sonho disperso,
e verás que neste mundo,
és grande como o universo!
3
Às vezes, um passarinho,
numa cantiga, nos prova,
que o mundo é só de carinho
e nossa alma se renova!
4
Do meu passado risonho,
Hoje, só resta a saudade...
parece que foi um sonho
que tive na mocidade!
5
É no palco que o ator,
mostrando sabedoria,
às vezes, esconde a dor
e a todos mostra alegria!
6
Era um carinho profundo
que tu sentias por mim...
Quem dera que todo o mundo
pudesse viver assim!
7
Esta saudade dorida,
que sinto dentro do peito,
faz parte da minha vida...
Quero esquecer...não tem jeito!
8
Eu gosto da madrugada
     com seu encanto e magia,
     do canto da passarada,
     anunciando um novo dia!
9
Eu saí devagarzinho,
     me embrenhei naquela mata,
     para ouvir , em meu caminho,
     o murmúrio da cascata!
10
Fiz um castelo de areia
naquela duna branquinha,
veio o vento e a maré cheia,
levaram tudo que eu tinha!
11
Nada mais me prende ao mundo,
depois que, daqui, partiste,
meu pesar é tão profundo
que, pra mim, mais nada existe!
12
Não sei escrever bonito,
     pois me falta inspiração,
     mas o que, aqui, está escrito
     eu sinto em meu coração.
13
Nessa vida atribulada,
quem não sofreu por amor,
dizendo não sentir nada,
como se fosse um ator?
14
Nesta vida em que me empenho,
cheia de desilusão,
parece que já não tenho
nem alma, nem coração!
15
No grande palco da vida
     os artistas, somos nós,
que depois, de tanta lida,
sempre ficamos a sós!
16
O sorriso da criança,
como o perfume da flor,
nos enchendo de esperança,
dá-nos paz, ternura e amor!
17
Pensar que no meu passado
     tudo era alegre e risonho...
     Hoje, só tenho ao meu lado,
     os fragmentos desse sonho!
18
Quero fazer um pedido:
– Quando chegar o meu fim,
quando eu já tiver partido,
leiam trovas para mim!
19
Se alguém ler estes meus versos,
me desculpe por favor,
são sonhos, ora dispersos,
de quem perdeu seu amor!
20
Se quiseres ser perdoada,
     perdoa teu inimigo,
     e no fim de tua estrada
     estarás feliz contigo.
21
Ser bonita se contesta.
Não é tudo o que se quer.
Tem que ser bastante honesta
para ser uma mulher!
22
Sereno da madrugada,
na folha do jasmineiro,
é como gota pingada
dos olhos do seresteiro!
23
Toda trova é um lenitivo.
que alivia a nossa dor,
por isso, é que sempre vivo
compondo  trovas de amor!
24
Todo aquele que sorrindo,
disfarça a mágoa que tem,
torna seu viver mais lindo
e não aflige ninguém! 

Conto Africano (Os Pequenos Acrobatas do Rio)

Na aldeia de Sakata, os meninos brincam à volta da árvore. Mas isso não os impede de estarem atentos a qualquer pequeno ruído que venha do Congo, o grande rio que corre perto dali. Estão à espera de que o barco passe.

— Ei! Olha o barco! Já lá vem o barco-correio!

Para Kembo é um dia importante. Quando o barco que transporta tantas mercadorias maravilhosas abrandar a velocidade, ele vai aproximar-se e pôr as mãos no casco. Até há de subir a bordo. A manobra é arriscada, mas Kembo está decidido.

— Mido, Eloni, vamos! Temos de ser os primeiros a acostar!

Enquanto Mido e Eloni pegam nos remos do pangaio, Kembo grita:

— Cuidado! A piroga vai meter água! Vejam que tem um buraco à frente!

Kembo tapa o buraco com um pouco de barro.

— Agora podemos ir. A minha mãe quer que lhe traga sabão e uma camiseta.

As folhas dos nenúfares agitam-se à passagem deles. Escondido debaixo da umbela de um cogumelo, um sapo está quase a apanhar um inseto. Que sossego! Mas, de repente, o sapo esconde-se, e os pássaros levantam voo com grande alarido. O que terá causado toda aquela agitação, pregando um susto de morte às crianças? A serpente negra que assombra o rio. Ela acaba de escapulir-se por entre as ervas altas. Kembo começa então a entoar a canção de Sakata, a Nossa Aldeia, uma canção que dá coragem.

No rio agitado, eh! eh!
É preciso remar com força eh!
No rio agitado
É preciso remar com força.

Ao longe, outras crianças pescadoras retomam o refrão. Kembo e os amigos voltam a subir a corrente com mais vigor. Em breve, a piroga sai das águas calmas da floresta e entra nas do rio. No sítio em que os dois braços de água se encontram, as ondas fervilham, formam um turbilhão. Mido e Eloni gritam:

— Temos medo! Kembo, voltemos para trás!

— Nem pensar — diz Kembo. — Não vamos desistir!

Um vento forte arrasta a piroga. O pânico apodera-se dos amigos de Kembo. Mas Kembo sabe desviar-se dos perigos, ultrapassar as armadilhas da água, e diz:

— Quietos! Nada de fazer força. Temos de nos deixar levar pela corrente.

A piroga é sacudida por todos os lados. E depois, de repente, ei-la que sai do turbilhão.

Kembo e os amigos esperam com impaciência a aproximação do barco, que abranda mas não para.

Os passageiros olham para as crianças, admirados. Alguns gritam:

— Afastai-vos! Os redemoinhos são perigosos

À primeira onda, a piroga sobe até à crista. Os passageiros do barco ficam embasbacados perante a destreza de Kembo e dos amigos, que, certos do sucesso da sua proeza, cantam com toda a força.

Da margem, os pais seguem o espetáculo.

— Oh! Que habilidade! Que acrobatas corajosos! Será que vão conseguir encostar o barco? Eu nem me atrevo a olhar!

Alguns pais gritam, manifestando o seu medo.

— Os nossos filhos trazem os amuletos, consigo ver daqui as fitas vermelhas!

Os rapazes não conseguiram a acostagem. O choque contra o flanco do barco foi duro e a emoção forte quando as crianças ouviram rebentar o pedaço de barro que tapava o buraco da piroga. Mas Kembo e os amigos mantiveram o sangue-frio.

— Depressa, a outra piroga — grita Kembo.

A outra piroga pertence, seguramente, a um pescador que já entrou no barco-correio.

Kembo salta para dentro, pega numa amarra e atira-a para as mãos que se agitam acima dele. De repente, a corda estica.

— Consegui! – grita Kembo, que já está a bordo.

Mas Eloni e Mido têm menos sorte, a piroga volta-se e ei-los na água. Falharam.

A bordo do barco-correio era um autêntico mercado. Vendia-se lá de tudo. Vê-se uma coisa amarela e preta a brilhar na penumbra. Será um brinquedo? Kembo aproxima-se. O produto à venda é uma jibóia.

— Nioka! Nioka! (Serpente!Serpente!) — grita Kembo, cheio de medo. E foge a correr.

Cheira muito bem debaixo da claraboia de madeira. Os passageiros saboreiam mandioca que as mulheres acabam de fritar em óleo de palma.

Fazem-se trocas e conversa-se.

Os habitantes ribeirinhos acabam de acostar, trazem peixe e banana para fritar. Mas Kembo não pode atrasar-se, tem compras a fazer.

Kembo escapa por entre as mercadorias. Chega diante da exposição de conservas, de vestidos e de tangas, onde, finalmente encontra o que procurava. Enquanto espera que o sabão e a camiseta sejam embrulhados, Kembo vê, ao fundo do barco, um carro carregado de caixotes.

- São medicamentos para um hospital da Cruz-Vermelha, explica o comerciante.

— Pega! Aqui estão as compras para a tua mãe!

A sirene apitou. Rápido, rápido! Temos de sair depressa, que o barco vai ganhar velocidade! Kembo esconde o embrulhinho com segurança dentro do calção e, splash!, mergulha. Nada como um peixe até chegar junto de Eloni e Mido, que estão na água.

O barco afasta-se. Balançados pelo turbilhão dos redemoinhos, as crianças disputam entre si a agilidade para saltarem para a piroga virada. Mido e Eloni estão desiludidos. Mas não passa de uma oportunidade perdida. Da próxima vez que o barco-mercado passar, subirão a bordo com o Kembo. Dessa vez, é certo que vão conseguir.

Fonte:
Dominique Mwankumi. Les petits acrobates du fleuve. Paris, l’école des loisirs, 2000. Disponível em Contos de Encantar 

Clarice Lispector (A favor do medo)

Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.

Ora, em noite cálida, estava eu sentada a conversar polidamente com um homem cavalheiro que era civilizado, de terno escuro e unhas corretas. Estava eu, como diria Sérgio Porto, posta em sossego e comendo umas goiabinhas. Eis senão quando diz o Homem: “Vamos dar um passeio?” Não. Vou dizer a verdade crua. O que ele disse foi: “Vamos dar um passeíto?” Por que passeíto jamais tive tempo de saber. Pois que imediatamente, da altura de milhares de séculos, rolou em fragor a primeira pedra de uma avalancha: meu coração. Quem? Quem já me levou na idade da pedra para um passeíto do qual nunca mais voltei porque lá morando fiquei? Não sei que elemento de terror existirá na delicadeza monstruosa da palavra passeíto.

Rolado o meu primeiro coração, engolida atrozmente a goiabinha – estava eu ridiculamente assustada diante de um improvável perigo. Improvável digo eu hoje, muito da assegurada que estou pelos brandos costumes, pela polícia áspera, e por mim mesma fugidia que nem a mais mimética das enguias. Mas bem queria saber o que eu outrora diria, na idade da pedra, quando me sacudiam, quase macaca, da minha frondosa árvore. Que nostalgia, preciso passar uns tempos no campo. Engolia, pois, a minha goiabinha, empalideci sem que a cor civilizadamente me abandonasse o rosto: o medo era vertical demais no tempo para deixar vestígios na superfície. Aliás não era o medo. Aliás era o terror. Aliás era a queda de todo o meu futuro. O homem, este meu igual que me tem assassinado por amor, e a isto se chama de amar, e é.

Passeíto? Assim também diziam para o chapeuzinho vermelho, que esta só mais tarde cuidou de se cuidar. “Vou é me acautelar, por via das dúvidas debaixo das folhas hei de morar” – de onde me vinha essa toada? Não sei, mas boca de povo em Pernambuco não erra. 

Que me desculpe o Homem que talvez se reconheça neste relato de um medo. Mas nem tenha ele dúvida de que eu deveria tomar o convite pelo que ele na verdade devia ser, igual a ter me mandado antes rosas: uma gentileza, a noite estava tépida, ele tinha carro à porta. E nem tenha dúvida de que – na simplória divisão a que os séculos me obrigaram entre o bem e o mal – sei que ele era Homem Bom Caverna Direita Só Cinco Mulheres Não Bate Nenhuma Todas Contentes.

E por favor me entenda – apelo para o seu bom humor – sei que homem de fronteira, como ele, usa com simplicidade a palavra passeíto, o que para mim, no entanto, teve a terrível ameaça de uma doçura. Agradeço-lhe exatamente essa palavra que, por ser nova para mim, veio me dar o bom escândalo.

Expliquei ao Homem que não podia dar o passeíto, fina que sou. Séculos adestraram-me, e hoje sou uma fina entre as finas, mesmo como no caso, sem necessitar, por via das dúvidas debaixo das folhas hei de morar.

O Homem, esse não insistiu, se bem que não me pareça poder dizer com verdade que ele se agradou. Defrontamo-nos por menos de um átimo de segundo – com o decorrer dos milênios, eu e o Homem fomo-nos compreendendo cada vez melhor, e hoje menos de um átimo de segundo nos chega -, defrontamo-nos, e o não, apesar de balbuciado, ecoou escandalosamente contra as paredes da caverna que sempre favoreceram mais às vontades do Homem.

Depois que o Homem imediatamente se retirou, eis-me salvaguardada e ainda assustada. Por um triz um passeíto onde eu talvez perdesse a vida? Hoje em dia sempre se perde a vida à toa. Retirando-se o Homem, percebi então que estava toda alegre, toda vivificada. Oh, não por causa do convite ao passeio, nós todas temos sido durante milênios continuamente convidadas a passeios, estamos habituadas e contentes, raramente açoitadas. Estava alegre e revolucionada – mas era pelo medo.

Pois sou a favor do medo.

Então certos medos – aqueles não mesquinhos e que têm raiz de raça inextirpável – têm-me dado a minha mais incompreensível realidade. A ilogicidade de meus dedos me tem encantado, dá-me uma aura que até me encabula. Mal consigo esconder, sob a sorridente modéstia, meu grande poder de cair em medos. Mas no caso deste medo particular, pergunto-me de novo o que me terá acontecido na idade da pedra? Algo natural não foi, ou eu não teria conservado até hoje esse olhar de lado, e não me teria tornado delicadamente invisível, assumindo sonsa a cor das sombras e dos verdes, andando sempre do lado de dentro das calçadas, e com falso andar seco. Algo natural não terá sido, posto que, sendo eu por força e sem escolha uma natural, o natural não me teria assustado. Ou já então – na própria idade das cavernas que ainda hoje é o meu mais secreto lar – ou já então eu fiz uma neurose sobre o natural de um passeíto? 

É, mas ter um coração de esguelha é que está certo: é faro, direção de ventos, sabedoria, esperteza de instinto, experiência de mortes, adivinhação em lagos, desadaptação inquietantemente feliz, pois descubro que ser desadaptada é a minha fonte. Pois bem se sabe que vai chover muito quando os mosquitos anunciam, e cortar minha cabeleira em lua nova dá-lhe de novo as forças, dizer um nome que não ouso traz atraso e muita desgraça, amarrar o diabo com linha vermelha no pé do móvel tem pelo menos amarrado os meus demônios. E sei – com meu coração que por nunca ter ousado expor-se no centro, e há séculos, mantém-se em sombra à esquerda -, bem sei que o Homem é um ser tão estranho a si mesmo que, só por ser inocente, é natural.

Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam
diretamente. Passeíto dá morte certa, e a cara espantada fica de olho vidrado olhando para a lua cheia de si.

Fonte
Clarice Lispector A Descoberta do Mundo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

José A. Jacob (Poemas Escolhidos)


ALMAS PRIMAVERAIS

A tarde brinca em meu quintal sem cores
E sem saber da dor que existe em mim,
Pendura um sol no céu, colore flores
E o meu quintal então vira um jardim.

Tardes primaverais chegam assim...
Desvanecendo nossos dissabores
E nos dão esperanças e favores
A nos sorrir e a nos dizer que sim.

Como essas tardes claras de esplendor,
Que um dia esquecemo-nos de notar,
Existem almas que só dão amor.

São essas almas as criaturas boas
Que só vieram ao mundo para amar
A vida sem amor de outras pessoas.

A MÃE E A ROSEIRA

Essa roseira, sempre silenciosa,
Não teve em sua vida outros caminhos
E desde que perdeu a última rosa
Dobrou-se sob o peso dos espinhos.

E essa mãe, que ora passa esperançosa,
Amparando os seus filhos com carinhos,
Faz-me crer de uma forma tão piedosa
Que vi Nossa Senhora e os seus anjinhos.

A roseira, a chorar as suas dores,
Fica no meu canteiro, ao sol e à lua,
Descrente do milagre de outras flores.

E a mãe que passa em frente, continua...
Esquecida dos próprios dissabores
Vai beijando os seus filhos pela rua...

CASINHA DE BONECA

Um dia ela guardou os seus segredos,
Pois que sentiu que o amor ao longe vinha,
Trancou no quarto todos seus brinquedos
E o sonho da boneca e da casinha.

E foi buscar aquilo que não tinha
No alegre faz de conta dos seus dedos,
Contou tristezas e chorou sozinha,
Depois sorriu das mágoas e dos medos.

Passou o tempo e ela seguiu a sina,
E assim, com a decência que ilumina,
Também andou por aonde o mal caminha...

Quanta ternura tem essa velhinha,
Que fica no seu quarto de menina,
Brincando de boneca e de casinha!

CRENÇA

Quando firmava o azul e o sol abria
Ao dia a sua bem-aventurança,
O homem bom repartia à vizinhança
Toda espécie de estima que sentia.

E amanhecia cheio de esperança
De vir o dia, após um novo dia,
Para lhe dar apreço e cortesia
Conforme a sua ingênua confiança.

Depois curvava a fé que lhe convinha
À soleira da porta, e de tardinha
Fiava as horas, crédulo a sorrir.

E a noite o recolhia nesse afã
De estar sempre esperando esse Amanhã
E sempre esse Amanhã tardando a vir...

DESESPERANÇA

Eu conservo comigo, desde criança,
E trago no meu rosto sorridente,
A crença conformada da confiança
Que carrego na vida para frente.

Meu pai deu-me um sorriso por herança,
E eu fui, como o bom filho obediente,
Seguindo ruas, conhecendo gente,
Cheio de ingenuidade e de esperança!

Deixei abraços, saudações e avisos,
E em vez de deparar rostos serenos
Só encontrei olhares indecisos.

Não recebi de volta os meus sorrisos,
E nem os meus abraços: nem ao menos
Alguém retribuiu os meus acenos...

DESPERCEBIMENTO

Dentro dos seus sapatos desbotados
Ele saiu de casa e foi distante;
E foi além da conta: andou bastante,
Até achar caminhos nunca achados.

Esse homem, descontente e itinerante,
Não deu adeus quando se foi aos lados,
Deixou atrás de si rostos molhados
E colocou a Sorte vida adiante.

Depois voltou trazendo na memória
O que o Mundo não lhe pode servir;
E entrando em sua casa, ó Sorte inglória!

Nenhum sorriso amado viu sorrir:
Chamou, cantou, chorou, contou história,
Mas ninguém quis saber e nem ouvir...

HISTÓRIA SEM FINAL

Abro o caderno onde escrevi outrora
As minhas ilusões de amor e rima
E o que esses versos me dirão agora
Se já não tenho crença e nem estima?

Procuro uma palavra que me exprima
Um pensamento bom, que não se aflora,
E quando a luz da idéia se aproxima
A sombra da esperança vai embora.

Meus frágeis versos, vítimas de mim,
Leguei-lhes toda herança do meu mal
Em pobres frases vãs e inacabadas.

Serão eternos por não terem fim
E viverão nas páginas fechadas
Do meu livro de história sem final.

O VENDEDOR DE BONEQUINHOS

De manhãzinha à beira da calçada
Todo dia uma corda eu estendia
E pendurava nela uma braçada
De bonequinhos feios que eu vendia.

Eram polichinelos que eu fazia
De trança de algodão, à mão desfiada…
No pano das feições não conseguia
Puxar-lhes traços de melhor fachada.

Ao desbotar o azul no fim do dia,
Quando eu os desatava dos alinhos,
Desse varal de cordeação brilhante,

Esses desengonçados bonequinhos
Desciam-me nas mãos com alegria
E me davam abraços de barbante!

PORTA-RETRATOS

Vivemos em distâncias sem medida,
Depois do agora existe o além do após,
As horas estão sempre de partida
E nada volta inteiro para nós.

O Amanhã é uma crença indefinida,
(Não há ninguém que escute a mesma voz?)
O Tempo passa os dias com a Vida
A nos fazer de filhos, pais e avós...

Por isto flerto os seus olhos abstratos,
Que me espreitam da estampa do papel
Pelos vitrais do seu porta-retratos...

Preciso ir ao infinito lhe encontrar!
Vou entrar nestes olhos para o céu
E nunca mais voltar do seu olhar!

SONETO PARA O POETA TRISTE

Nessas horas de folga e de doçura,
Que passo o tempo a ler meu poeta triste,
Eu sinto o quanto a sua idéia apura
E o espírito de luz que nela existe.

O meu poeta que é doloroso insiste
Compor num poema de elegância pura
As dores que a minha alma não resiste
E eu sinto pena dele com ternura.

Fecho o livro e me ponho a caminhar
Pelo parque sem cor, e as horas morrem,
E outros soluços sobem-me no olhar.

E quando passo sobre o açude, as águas,
Que dos meus olhos lentamente escorrem
Entornam lá no lago as minhas mágoas.

VELHO ÓRFÃO

Desde cedo esperei o que não vinha
E a minha vida foi perdendo o prazo:
Fui vendo a minha sombra mais sozinha
E o meu destino cada vez mais raso.

Enquanto andei do quarto até a cozinha,
Pesou-me o passo e me causou atraso,
Desfolharam-se os dias na folhinha
E o tempo foi morrendo em meu ocaso.

Súbitos longos anos tão estreitos,
Sinto vê-los perdidos sem proveitos,
E sem proveitos não me presto mais...

Eu sou aquele velho desolado,
Que vive a andar atrás do seu passado,

Como a criança órfã que procura os pais.

José A. Jacob (1950)

José Antonio de Souza Jacob, filho do comerciante Antônio José Jacob e Heloisa Gonçalves de Souza Jacob, nasceu em Juiz de Fora (MG), em 11 de fevereiro de 1950, onde realizou seus primeiros estudos, ingressando no curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais "Vianna Júnior”.
         No final dos anos 70 foi redator da Gazeta Comercial, tendo nessa época se aprofundado no estudo de Filosofia e Letras e logo em seguida foi admitido, por concurso, na área de Recursos Humanos da Companhia Telefônica de Minas Gerais, tendo se aposentado do serviço público em 2005.
         Desde as primeiras letras, o menino foi estimulado a ler poetas, levado pela mão de seu pai, que apreciava poesia, especialmente a dos brasileiros e dos portugueses. Entre as leituras de sua adolescência estão poesias de Raul de Leoni, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, António Nobre, Cesário Verde, Fernando Pessoa, José Gomes Ferreira, Charles Baudelaire, entre outros.
         Da mãe Heloísa herdou a doçura das palavras e a maneira singela de contemplar a vida sem ser alienado. Seu estilo simples e requintado de escrever poesia conquistou grandes poetas e escritores, de sua cidade, de quem passou a desfrutar de convivência contínua, mesmo ainda muito jovem.
         Por sua perfeição na metrificação e na qualidade poética é considerado por muitos que conhecem sua obra como “um dos mais importantes sonetistas da língua portuguesa na atualidade”. Recusa-se a escolher seu verso do coração e a participar de escolas e grupos literários, preferindo o sossego da vida bucólica nos arredores de Juiz de Fora.
         No final de 2006 foi indicado pelo poeta, escritor, editor e crítico literário, de Portugal,. Eugénio de Sá, o mais importante poeta sonetista do Brasil de 2006, juntamente com o poeta português Eugénio de Andrade, o melhor poeta de Portugal do mesmo ano.    
         A 27 de abril de 2007 foi indicado pelo vereador Bruno Siqueira para receber a insigne Medalha do Mérito Legislativo, Mérito Excepcional em Poesia, e foi condecorado na Câmara Municipal de Juiz de Fora.
         A 06 de julho de 2007 foi sancionado pelo prefeito de Juiz de Fora o "Título Honorífico de Cidadão Benemérito de Juiz de Fora".
         Atualmente o poeta reside em  Muriaé/MG.

H. G. Wells (A Loja Mágica)

Eu já tinha visto várias vezes a Loja Mágica, a distância; já tinha passado diante da sua vitrine cheia de objetos curiosos, bolas mágicas, galinhas mágicas, cones coloridos, bonecos de ventríloquo, material para mágicas usando cestos, baralhos que pareciam comuns, todo tipo de coisa; mas nunca me ocorrera entrar ali até que um dia, quase sem aviso, Gip me puxou pelo dedo até aquela vitrine, e se comportou de tal forma que não tive escolha senão entrar ali com ele. Eu não lembrava que a loja ficava justamente ali, para falar a verdade — uma fachada de tamanho modesto em Regent Street, entre uma loja de fotografias e uma loja cheia de pintos recém-saídos das incubadoras. Mas lá estava ela. Eu tinha imaginado que ela ficava mais perto de Piccadilly Circus, ou depois da esquina, em Oxford Street, ou mesmo em Holborn; sempre a vira do outro lado da rua e um pouco inacessível, com algo em sua posição que lembrava uma miragem; mas aqui estava ela, agora, sem nenhuma dúvida, e a ponta do dedinho gordo de Gip batia com ruído na vitrine.

— Se eu fosse rico — disse Gip, apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. 

— E aquele também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”.

— Qualquer coisa — explicou Gip — desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai, está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro lado para cima, para ninguém perceber como é feito.

Gip, bom menino, herdou as boas maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas intenções eram muito claras.

— Olhe aquilo — disse, apontando a Garrafa Mágica.

— E se você tivesse uma dessas? — perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão promissora.

— Eu ia mostrá-la a Jessie — respondeu ele, como sempre pensando nos outros.

— Faltam menos de cem dias para seu aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.

Gip não respondeu, mas agarrou meu dedo com mais força, e assim entramos na loja. Não era uma loja como as outras; era um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha conta.

A loja era pequena, estreita, não muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho, entrou no aposento.

De qualquer modo, em certo momento ali estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso, pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o bico de uma bota.

— Em que posso ajudá-los? — disse ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.

— Gostaria de comprar alguns truques simples para o meu filho — respondi.

— De prestidigitação? — perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?

— Tem alguma coisa divertida? — perguntei.

— Hmmm... — disse o lojista, e coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa assim? — perguntou, estendendo a bola.

Aquilo foi inesperado. Eu já tinha visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava esperando por ele ali.

— Muito bom — falei, com uma risada.

— Não é mesmo? — disse o lojista.

Gip estendeu a mão que estava livre para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.

— Está no seu bolso — disse o lojista. E lá estava mesmo!

— Quanto custa? — perguntei.

— Não cobramos pelas bolas de vidro — disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... — tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.

— Pode ficar com estas também — disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta, da minha boca. Olhe aí!

Gip me olhou calado em busca de orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio seguinte.

— É assim que obtemos nosso material mais barato — observou o lojista.

Dei aquela risada de quem soube entender a piada.

— Em vez de ir ao armazém de atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.

— De certa forma, sim — disse o lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.

Pensei que ele estava mantendo a piada com bastante seriedade. Ele se virou para Gip com o mais afável dos sorrisos.

— E você, sabia? É o Tipo Certo de Garoto.

Fiquei surpreso com o fato de ele saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.

— Somente o Tipo Certo de Garoto consegue entrar por aquela porta. 

E então, como que para ilustrar o que ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase guinchando se ouviu do lado de fora.

— Nãããão... Eu quero entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão... 

E depois a voz cansada de um pai, cheia de consolos e promessas.

— Está fechada, Edward — dizia ele.

— Mas não está! — disse eu.

— Está, senhor — disse o lojista. — Sempre está, para esse tipo de criança.

Enquanto ele falava tive pela vitrine o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro mágico.

— Não adianta, senhor — disse o lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos berros.

— Como consegue fazer isto? — perguntei, já mais à vontade.

— Mágica! — disse o lojista, fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras da loja.

— Você estava dizendo — falou ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?

Gip, com um valoroso esforço, respondeu:

— Sim.

— Está no seu bolso.

E inclinando-se sobre o balcão — ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.

— Papel! — disse ele, e tirou uma folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. — Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o rolo). Depois ele acendeu uma vela no nariz de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o pacote.

— E há também o Ovo Que Desaparece — lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip, que os apertou de encontro ao peito. Ele quase não disse nada, mas seu olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira. Então, com um sobressalto, senti alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás do tigre.

— Ora, ora! — exclamou o lojista, tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado, e ainda por cima chocando!

Ele balançou meu chapéu e derramou na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio, mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.

— Todo tipo de coisa se acumula, cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo... 

O monte de papel amassado acumulava-se e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente oculto, menos sua voz, que prosseguia.

— Nenhum de nós sabe na verdade o que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos, cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas, sepulcros caiados por fora...

Sua voz parou, exatamente como quando a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçar do papel se interrompeu, e tudo ficou muito calmo...

— Ainda precisa do meu chapéu? — perguntei, após um intervalo.

Não houve resposta.

Olhei para Gip, e Gip olhou para mim, e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...

— Acho que vamos embora agora — falei. — Pode me dizer quanto foi?

— E depois de uma pausa, num tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também
o meu chapéu.

Pensei ter ouvido um fungado por trás da pilha de papel amassado.

— Vamos olhar atrás do balcão, Gip — falei. — Ele está brincando conosco.

Conduzi Gip e demos uma volta em torno do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se afastou dando pulinhos.

— Pai! — disse Gip, com um sussurro culpado.

— O que é, Gip?

— Eu gosto desta loja, pai.

“Eu também deveria estar gostando”, pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a atenção de Gip para esse detalhe.

— Coelhinho! — disse ele, estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. — Coelhinho, faça uma mágica para Gip!

Seus olhos acompanharam o bichinho enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu, tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.

— Acho que gostaria de ver a nossa sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica genuína demais.

— Acho que não temos muito tempo — falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala de demonstrações.

— Todo o material é da mesma qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis. — Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica genuína, com todas as garantias. Se me der licença...

Ele estendeu a mão e puxou alguma coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda. A criaturinha mexia-se sem parar, tentando morder sua mão, mas ele logo o atirou para trás de um balcão afastado. Claro que aquilo não passava de um bonequinho de borracha, mas, por um instante...! E o gesto dele foi exatamente o de quem pega a contragosto algum bichinho repulsivo e que morde. Olhei para Gip, mas Gip estava com o olhar pregado num cavalinho mágico. Alegrei-me por ele não ter visto aquela coisa.

— Veja só — falei em voz baixa, indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês não têm muitas dessas coisas por aqui, não?

— Não, não é nosso! Provavelmente entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E virandose para Gip: — E então? Algo lhe interessou? 

Muitas coisas ali tinham interessado Gip.

Ele virou-se para o comerciante com uma mistura de confidencialidade e respeito.

— Aquela é uma Espada Mágica? — perguntou.

— Uma Espada Mágica de Brinquedo. Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança, sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.

— Oh, pai! — exclamou Gip.

Tentei me informar sobre o preço, mas ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos, mas mesmo assim... 

Fui acompanhando os dois, falando pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito. Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade. Era um lugar enorme, desordenado, uma espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes, pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de aparência estranha. Tudo era tão fora do comum que acabei me vendo incapaz de apontar a porta por onde tínhamos entrado. 

O lojista mostrou a Gip trens mágicos que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe, aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.

— Vai levar esta caixa? — perguntou o homem.

— Sim, vamos levar, a menos que você cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum magnata.

— Deus meu! Não! — exclamou o lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo, amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!

O homem riu ao ver o meu espanto.

— Esta é a mágica genuína — disse. — A coisa de verdade.

— É genuína demais para meu gosto — falei novamente.

Depois ele se dedicou a mostrar outros truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.

Eu não lhe dei a atenção que deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era, para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto, no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era possível a uma máscara de gesso.

De súbito, meu olhar foi atraído por um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível.

Parecia uma coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para diante, como um pescador que atira a linha de sua vara. Pensei de imediato que Gip não deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie de barril grande.

— Vamos brincar de esconder, pai! — gritou Gip. — Você me procura!

E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi de imediato o que aconteceria.

— Tire isso daí! — ordenei. — Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí! 

O homem das orelhas desiguais me obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção, mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...

Vocês conhecem, talvez, aquela sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso, decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o que aconteceu comigo.

Fui na direção do lojista e dei um chute no banquinho, jogando-o para longe.

— Pare com essa palhaçada — disse. — Onde está meu filho?

— Está vendo? — disse ele, ainda mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...

Estendi a mão para agarrá-lo pela lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo, e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.

— Pare! — gritei, e ele recuou, rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão. 

Thud!

— Meu Deus! Desculpe, senhor, não vi que estava aí!

Eu estava em Regent Street, e tinha acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa, estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me perdido de vista. E carregava quatro pacotes embaixo do braço!

Imediatamente apossou-se do meu dedo.

Por um segundo fiquei completamente perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só, não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as incubadoras!...

Fiz a única coisa que me foi possível no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.

— Vamos de carro! — exclamou Gip, no auge da exultação.

Ajudei-o a subir; com algum esforço lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me. Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante, joguei-a pela janela do carro.

Gip não disse nada.

Durante algum tempo nenhum de nós falou.

— Pai! — disse ele daí a pouco. — Aquela, sim, é que era uma loja!

Aquilo me serviu de deixa para começar a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao peito.

Que diabos! O que poderia haver dentro deles?

— Hmmm... — falei. — Garotos não podem ir todos os dias a uma loja como aquela.

Ele recebeu isto com seu estoicismo habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave. Mas foi somente quando começamos a abrir os pacotes que me senti mais seguro. Três deles continham caixas de soldados, soldadinhos de chumbo bem comuns, mas de tão boa qualidade que Gip logo esqueceu terem sido eles, originalmente, parte de um truque mágico do tipo mais genuíno; e o quarto pacote continha um gatinho, um pequeno gatinho branco, vivo, com excelente saúde, excelente temperamento e um notável apetite.

Acompanhei a abertura dos pacotes com um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto, durante um tempo maior que o normal.

Isto aconteceu há seis meses. E agora estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia desejar. E Gip?

Os pais mais inteligentes devem compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado. O máximo que consegui, certo dia, foi isto. Falei:

— Não gostaria que seus soldados ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?

— Os meus fazem isso — disse ele. — Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.

— E então eles marcham sozinhos por aí?

— Oh, claro, pai. Eu não ia gostar se não fosse assim.

Não externei nenhuma surpresa inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os vi se comportar magicamente. É tão difícil perceber. Há também a questão financeira. Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja.

Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação está cumprida, e, já
que o nome e o endereço de Gip são conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem, nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.

Fonte:
H. G. Wells. O País dos Cegos e outras histórias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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