quarta-feira, 4 de março de 2026

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) O maior perobal do mundo


Para que Maringá pudesse existir foi preciso pedir licença à natureza para roubar dela o que Jorge Ferreira Duque Estrada chamou de “o maior perobal do mundo”.

A grande floresta original era formada por paus-marfins, paus-d’alho, jacaratiás, figueiras, cedros, palmitos e outras espécies. Porém a peroba rosa predominava. Predominou até o começo dos anos 1940, quando aqui chegou um empreiteiro chamado João Tenório Cavalcanti, comandando um exército de 800 machadeiros, com a missão de abrir espaço para a entrada do “progresso”.

O sacrifício da mata fazia parte de um gigantesco projeto de colonização promovido pela Companhia Melhoramentos. Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena.

Mas aqueles 800 machadeiros, também conhecidos como “peões”, precisavam de comida, roupa, remédios etc. Foram chegando então os primeiros comerciantes e prestadores de serviços. Ângelo Planas e Napoleão Moreira da Silva logo se destacaram, visto que, além de abastecer a população pioneira com “secos e molhados”, funcionavam como uma espécie “bancos”.

Na medida em que “o maior perobal do mundo” ia sendo derrubado, iam se instalando nas clareiras os primeiros compradores de sítios. Erguiam ranchos e de pronto começavam a plantar café, feijão, milho e a criar galinhas e porcos.

Ao mesmo tempo iniciava-se a construção da cidade. Primeiro, lá no alto, o povoado do Maringá Velho; depois, na planície, o Maringá Novo.

Foram surgindo também, naturalmente, os primeiros líderes políticos. Planas e Napoleão depressa se caracterizaram como “pais de todos”. Chegavam a intervir até em brigas de casais, como pacificadores. Isso explica por que os nossos primeiros vereadores foram o próprio Napoleão e um irmão de Ângelo, o Arlindo, quando Maringá era ainda distrito de Mandaguari.

Depois foi acontecendo tudo o que vimos acontecer até hoje. No lugar do “maior perobal do mundo”, ergueu-se uma das cidades mais bonitas do planeta.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 26-2-26)

Texto enviado pelo autor. 

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 1


O personagem é a força motriz de um conto. Enquanto no romance temos espaço para digressões, no conto o personagem é definido pela sua relação com o conflito e pela sua unidade de efeito.

Aqui está uma explanação de como ele se define e como é construído:

1. O que é o Personagem do Conto?

Diferente da vida real, o personagem literário não é uma pessoa completa, mas uma construção funcional. No conto, ele costuma ser capturado em um momento de crise ou transformação. Ele não precisa de uma biografia inteira exposta; ele precisa de uma vontade e de uma resistência. 

2. Os Pilares da Construção

Para construir um personagem sólido em narrativa curta, trabalhamos três dimensões:

Dimensão Psicológica (O Interior): Qual é o desejo imediato do personagem? O que o move nesta cena específica? No conto, focamos em uma obsessão ou uma carência latente.

Dimensão Física e Social (O Exterior): Como ele se move? Como se veste? No conto, um único detalhe físico (uma cicatriz, o modo de roer unhas) deve sugerir todo o resto. Menos é mais.

A "Fenda": Todo bom personagem de conto tem uma contradição. É alguém que quer algo, mas teme as consequências, ou alguém que age contra seus próprios princípios sob pressão.

3. Onde se Constrói o Personagem?

A construção não acontece em uma ficha técnica guardada na gaveta, mas sim em três instâncias do texto: 

Na Ação (Dramatização): O personagem se revela pelo que faz, não pelo que o narrador diz que ele é. Se ele é generoso, ele deve realizar um ato de generosidade, em vez de o texto apenas carimbá-lo como "bom".

Na Linguagem (Voz): O vocabulário, o ritmo da fala e os pensamentos constroem a identidade. Um advogado e um adolescente não "enxergam" o mesmo cenário da mesma forma.

No Contraste com o Ambiente: O personagem se constrói na sua reação ao entorno. Como ele se sente em um quarto vazio? Como ele reage ao barulho da cidade? O cenário é o espelho do estado interno do personagem. 

4. A Teoria do Iceberg (Hemingway)

No conto, a construção é baseada na omissão deliberada. O autor constrói 90% do personagem (passado, traumas, segredos), mas apenas 10% aparece no texto. Esses 10% visíveis devem ser tão densos que o leitor sinta o peso de tudo o que não foi dito.
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continua...

Aparecido Raimundo de Souza (Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho)


“ESTAR SÓ” é diferente de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só” pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de fantasmas, os mais diversos que atormentam com seus traços remotos e obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só” pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem os latidos cativos do cachorro. 

Nessa hora, o “estar só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a alma. 

Além de pegar pesado, se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se reveste de uma balbúrdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos dê o abrigo procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar revolto se apresenta insólito.   

O “estar só” vem com sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos, que do nada transformam tudo ao redor, numa via de mão incerta, de suspensão, sem escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no final ficará bem e em paz. Do mesmo modo, no “estar sozinho” encontramos algo raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta sem máscaras, e sem pressa de ir embora. 

O vazio de “estar sozinho” pode ser assustador, pedante, mas também pode ser fértil. É nele que germina a coragem de recomeçar. No “estar só” o vazio imensurável não se condensa em apenas o se sentir envolvido ou se quedar num talvez ou na ausência do sem companhia. É como se o mundo inteiro se recolhesse, deixando apenas o retumbar da própria existência. Nesse espaço sem portas abertas do “estar só” e se ver sem fronteiras, cada pensamento se amplia, cada lembrança se torna mais nítida, cada dúvida mais operosa e pesada. O vazio não tem divisória, mas aprisiona. Não tem relógio, mas prolonga o tempo. É um território onde o coração se pergunta se ainda pulsa por alguém ou apenas por si mesmo? 

No “estar sozinho” também há uma estranha beleza, verdade seja dita, nesse silêncio. E nele, percebemos que a solidão não é inimiga, mas espelho. O vazio nos devolve aquilo que tentamos esconder. Por assim dizer, medos, desejos, esperanças... eles de comum acordo nos obrigam a olhar para dentro, mesmo quando preferiríamos fugir de nós mesmos. Talvez seja nesse espaço imensurável que se revela a essência da vida: a consciência de que somos pequenos diante do infinito, mas ainda capazes de preencher o nada com significados. O vazio não é fim, é convite. Convite para escutar o que nunca ousamos dizer em voz alta. 

“Estar só” é dizer tudo, a bem da verdade, gritar a nós mesmos. Há momentos em que “estar só” não é apenas ausência de companhia, mas mergulho num espaço sem medidas. O vazio imensurável não se descreve: ele se sente. É como se o mundo se afastasse, deixando apenas o peso mórbido da própria consciência contida no Universo. Nesse silêncio, cada pensamento se torna um espelho. O que antes era distração vira revelação. O vazio não é apenas falta é presença de tudo aquilo que evitamos encarar. Ele nos devolve a nós mesmos, nos agrega, e o faz sem máscaras, sem ruídos, sem fuga.

No “estar só”, a solidão se torna paradoxal: vira um pássaro de voo incerto, ao mesmo tempo que nos assusta, do mesmo modo nos abre. Nesse abrir, nos revela por inteiro. O vazio nos lembra que somos finitos diante do infinito, mas capazes de dar sentido ao Nada. É nesse espaço suspenso que nasce a pergunta essencial: quem sou eu, quando não há ninguém para me definir? Talvez o estado de “estar só”, o vazio seja menos um abismo e mais um convite. Um convite para escutar o que sempre esteve dentro, mas que só se revela quando o mundo se cala. E, de certa forma, tenta nos emudecer também.

“Estar só” num vazio imensurável é como caminhar por dentro de nós mesmos, sem mapa, sem bússola. O silêncio se torna espesso, quase palpável, e a alma se pergunta se ainda há chão sob os pés. Mas há sempre um chão. Sempre! Para mim, ele tem cheiro de terra molhada. É nele, no “estar só”, que meus medos e receios trabalham entre o sol que castiga e a sombra que consola. Enquanto eles cuidam da vida que brota da Terra, eu me descubro refazendo a vida que jorra, que desponta, que cultiva os meus pensamentos.

O desabitado, de “estar só” num certo momento, deixa de ser apenas ausência. Ele se mistura ao canto dos pássaros, ao vento que atravessa o campo, ao ritmo lento das horas rurais. E nesse contraste, percebo que a solidão não é deserta, mas se faz dócil numa espécie de espaço fértil. O nada pode ser preenchido com raízes, memórias e pertencimentos. Talvez o oco imensurável do “estar só” seja apenas o outro nome do “estar só” Entre tapas e beijos, percebo que ambos buscam por alguma coisa.  É no silêncio do “estar só” que essa busca encontra repouso: entre o trabalho dos meus braços e o meu próprio mergulho interior. 

No “estar só”, ah, no estar só, existe uma ponte invisível que me lembra que não “estou só”. Aliás, resumindo, nunca estarei “totalmente só”. Jamais me verei, “completamente só”. Ambos os tempos mudam de nome, não importa. A toda hora, a todo momento algo novo aparece do nada e me renova o espírito. O “estar só” e o “viver só” me enaltecem, sobremaneira, me engrandecem, me aprimoram, vivificam a minha vida “sempre para melhor, como ser humano”. “Todos os dias, sobre todos os pontos de vista, como dizia Omar Cardoso, eu vou cada vez melhor”.  

Texto enviado pelo autor. 
Imagem: IA Microsoft Bing

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 156 *



Poema de 
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Existe uma beleza inexplicável
em tudo o que nos transcende,
no coração que acelera
com um simples olhar,
uma memória,
um beijo que se conseguiu roubar.
E o corpo incendeia-se
como se estivesse exposto ao fogo.
E, no entanto
somos mar
quando o abraço nos aperta!
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Trazes pombas na brancura das tuas mãos
Feridas por cicatrizar no peito dilacerado
O mar dos teus olhos fala de promessas e sonhos adiados
Candura do rosto emoldurando a beleza 
dessa fragilidade acesa e delicada.

Ofereço-te a frescura desta terna flor 
para que possas guardar em mim todos os segredos
Encontrar um abraço no sorriso dos meus olhos
E a coragem renovada de um novo recomeço.

Em cada manhã
Por cada suspiro de primavera
Me desassossegues com o oiro da tua luz
Sussurres brisas acordando a nossa paixão
Rasgando as densas sombras
E eu renascerei ao extinguir-me em ti.
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Soneto de
NATÁLIA CORREIA
Fajã de Baixo/São Miguel/Portugal, 1923 — 1993, Lisboa/Portugal

Mãe ilha

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que pra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti pras Índias do meu estranho caso
—ó danos que dos versos sois o engate!—
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.
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Poema de
DANIEL FELIPE
(Daniel Damásio Ascensão Filipe)
Ilha da Boa Vista/ Cabo Verde/Portugal, 1925 – 1964, Lisboa/Portugal

Morna

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta.)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
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Trova Popular

Quem roubou o meu amor    
deve ser um meu amigo...
Levou penas, deixou glórias,
levou trabalhos consigo...
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Soneto de
FERNANDO ECHEVARRÍA
Cabezón de la Sal/Espanha, 1929 – 2021, Porto/Portugal

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
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Poema de
MANUEL ANTÓNIO PINA
Sabugal/Portugal, 1943 – 2012, Porto/Portugal

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
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Soneto de
CESÁRIO VERDE
(José Joaquim Cesário Verde)
Lisboa/Portugal, 1855 – 1886, Lumiar/Portugal

Árvores do Alentejo

Horas mortas … Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido … e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção de uma fonte!

E quando, manhã alta, o sol desponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores, corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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Poema de
CRISTÓVAM PAVIA
(Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho)
Lisboa/Portugal, 1933 – 1988

Ao meu cão

Deixei-te só , à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo… e apesar disso, sem o pedir,
Tentando insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia,
A debater-te
Com a morte.

E deixei-te só, à beira da agonia, 
Tão aflito, 
Tão só 
E sossegado.
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’ouro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente.
Como se fosse um bando de netinhos.
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Poema de
SAMUEL COSTA VELHO
Lisboa/Portugal

Tanto tempo sem nós

Deu tempo para lembrar tudo
enquanto o meu corpo embatia no chão.

Desde o primeiro olhar fresco que trocamos
até à ausência mútua,
revivi e desvivi, nesse instante.
Com os ossos a desistirem de resistir ao encontro
com o chão suave que me abraçava
e a dor/prazer/tu a começar a sentir-se.
Morri aos pedaços quando a queda acabou, quando
todo eu me apaguei contra o teu peito.
Deu tempo para um pensamento.

O amor ou a tua mão, pergunto-me com qual
me abandonaste primeiro.

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Pantun do
PROFESSOR GARCIA
(Francisco Garcia)
Caicó/RN/Brasil

Pantun da pedra escondida

TEMA:
Nas ruas da minha vida
quantas pedras eu saltei,
mas a pequena escondida,..
Foi nela que eu tropecei!
Vera Maria Bastos Braz 
Juiz de Fora/MG/ Brasil

PANTUN:
Quantas pedras eu saltei,
na menor de todas elas,
foi nela que eu tropecei
em meio a pedras tão belas.

Na menor de todas elas,
eu vi um brilho tão forte,
em meio a pedras tão belas
há nela, o brilho da sorte.

Eu vi um brilho tão forte,
e essa luz, eu não renego,
há nela, o brilho da sorte
da velha cruz que carrego.

E essa luz, eu não renego,
eis a forma desmedida,
da velha cruz que carrego
nas ruas de minha vida!
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Hino de 
SABARÁ/ MG/ Brasil

Entre as lindas montanhas mineiras, 
neste vale que Deus escolheu 
brava gente formando bandeiras 
as primeiras choupanas ergueu!

Em demanda de um vasto tesouro, 
o baiano e o paulista valente 
iniciaram com as minas de ouro 
o progresso da pátria nascente!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Fluorescente, risonha e formosa, 
enfeitando estas plagas louçãs, 
bem merece o prestigio que goza 
entre as belas cidades irmãs!

Lindos templos cristãos, onde entoa 
o bom gosto com a arte mais rara, 
em que Antônio Francisco Lisboa 
seu talento invulgar confirmara. 

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Aos chamados da pátria querida 
respondeste garbosa e de pé 
'fidelíssima" atenta e aguerrida 
em defesa da honra e da fé!

Grandes feitos se alinham na história 
pela fibra de um povo altaneiro, 
sempre em marcha e vibrante de gloria 
na vanguarda do solo mineiro!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Corre o aço de forno candente, 
movimenta-se a indústria fabril 
em favor do progresso crescente 
e a grandeza de nosso Brasil!

Salve, salve cidade adorada! 
Grandes filhos que deste ao país! 
Do porvir, na perene jornada, 
Deus te faça maior e feliz.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Quem vende a verdade?

Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios…

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmónica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede…
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de crochê do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O mono e o leopardo

O leopardo e o mono
Mostravam-se nas feiras
Enchendo as algibeiras.
Bradava o leopardo com entono:
«É conhecida a história
Da minha imensa glória.

O próprio rei quis ver
O meu pelo esquisito, e, ao contemplá-lo,
Ordenou que, no dia em que eu morrer,
Lhe façam um regalo
Da minha pele ondeada,
Zebrada, chamuscada,
Mosqueada, marchetada!»

A cor sempre agradou. Cada qual ia,
Olhava, e nada mais, depois saía.
E o macaco a gritar: «Vinde, senhores,
A ver o rei dos escamoteadores.
Deixai gabar-se o leopardo, que ele
Só tem a variedade à flor da pele:
É vazio no espírito! — Simão,
Vosso servo, que é primo coirmão
E genro de Gaspar,
Que foi mono do papa noutras eras,
Acaba de chegar em três galeras
Só para vos falar.

Sabe falar, cantar, dança e rebola,
Salta, pula, marinha e cabriola,
Faz caretas e partes,
Fura paredes e arcos,
Tudo isto por uns parcos
Quatro vinténs: vinde animar as artes.
E, o que ainda mais importa,
Se a alguém lhe não agrada,
Ensina-se-lhe a porta
E não se leva nada.»

Dou razão ao macaco. Na verdade
A mim não me cativa a variedade
No exterior; chega a cansar a vista.
O espírito, não há quem lhe resista,
Renova-se e seduz.
São certos figurões como o leopardo,
Das galas do trajar fazem alardo,
Tendo os cérebros nus.
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Mensagem na Garrafa 153 = Lição de vida


Autor Anônimo

Uma mãe e um bebê camelo estavam por ali, à toa, quando de repente o bebê camelo perguntou:

- Mãe, mãe, posso te perguntar umas coisas?

- Claro! O que está incomodando o meu filhote?

- Por que os camelos têm corcova?

- Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água.

- Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?

- Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas eu posso me movimentar pelo deserto melhor do que qualquer um! - disse a mãe, toda orgulhosa.

- Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.

- Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! - disse a mãe com orgulho nos olhos.

- Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto.... Então que diabos estamos fazendo aqui no Zoológico?

Moral da história:
"Habilidade, conhecimento, capacidade e experiência são úteis se você estiver no lugar certo".

Monsenhor Orivaldo Robles (Menos, por favor!)


Nunca me contagiou o entusiasmo com que pessoas exibem fotos de viagem ou álbum de casamento. Como troféus reunidos para exposição pública. Passeios ou eventos podem ser interessantes para quem lá esteve. Para quem ouve contar, ou tem que ver fotos que não acabam mais, eles se tornam, quase sempre, um aperreio. Mais de uma vez me questionei se pensar assim não seria azedume ou deselegância de minha parte. Vai ver, todo o mundo aprecia. Eu é que sou diferente do resto dos mortais, o único do contra. A infância pobre da roça deixou-me um tanto arredio a práticas com que não fui acostumado.

Por isso, me confortou a leitura de um conselho, que julguei de muita sabedoria: “Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só para quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve”. Mais preparada que eu, a autora responde pelo nome de Ivone Boechat. Expõe no currículo títulos de mestre em Educação, pedagoga, conferencista e escritora. Estou, portanto, em apreciável companhia. Generalizar é injusto, mas para certas pessoas mostrar fotos não seria uma afirmação de superioridade? De deixar bem claro: eu sou superior, porque estive neste lugar maravilhoso?

Desde o berço, através do choro, sentimos necessidade de marcar nossa presença. Precisamos mostrar que o mundo gira em volta do nosso umbigo. Há mais de cinquenta anos, antes, portanto, da invenção do celular, foi feita uma pesquisa na central telefônica de Nova Iorque, onde ficavam registradas todas as ligações. O objetivo era saber que palavra os usuários falavam com maior frequência. Ganhou de lavada uma palavrinha de apenas uma letra, em inglês: I (eu). Vale dizer: eu sou mais importante que tudo. Não só lá; no mundo inteiro. Basta conferir. Numa foto de várias pessoas, no meio das quais também estamos, para qual olhamos primeiro? Se vamos falar de um grupo do qual fazemos parte, por quem começamos? Enumeramos assim: eu, fulano, sicrano, beltrano etc. não é? Quem vai à frente? Claro, o mais belo, inteligente e importante de todos, que sou eu. Assim agimos todos, desde que nos conhecemos por gente. Achamos a coisa mais natural do mundo. Estranhamos se alguém faz o contrário.

Importa descobrirmos nossa real identidade. Cinco séculos antes de Cristo, o filósofo Sócrates já prescrevia: “Conhece-te a ti mesmo”. Para isso os mestres da vida cristã aconselham a saudável prática do exame de consciência. Ele nos revela, sem perigo de engano, nossas virtudes e defeitos. Nossas potencialidades e limitações. Quem se conhece não fica aborrecendo os outros com o cansativo relato de sua grandeza, quase sempre ilusória. É extremamente enfadonho conviver com um egocêntrico. O desconfiômetro do infeliz está sempre avariado e nenhuma oficina conserta. Vira e mexe, seu papo cai naquilo que mais adora: deitar louvação de si mesmo. De sua pessoa, de suas conquistas e vantagens, sempre maiores do que tudo o que os outros conseguiram. Quem pode sentir-se bem ao lado de quem se julga sempre superior? Que graça tem saber de antemão que seremos tratados como inferiores?
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 23.06.2012

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nilto Maciel (O perdão)

“– Tu aguenta mesmo um homem?"
 Os anões, Moreira Campos
O anão chorava abraçado ao corpo da anã. Descontrolado, fazia a rede balançar, como se embalasse a morta. 

Uma vizinha entrou no casebre. Por que chorava o anão? Nem sequer olhou para a mulher. Outros vizinhos se aproximaram da porta da casinha. Meninos tentavam sondar o interior da sala e saíam correndo para o mar. 

Amanheceu morta, o coração parado. Pobre Lourdinha! Coitada, deve ter morrido dormindo. Melhor assim; não sofreu para morrer. 

O anão chorava sem parar. Acendessem uma vela. Onde arranjar vela? Uma mulher se esgueirou. Lembrava-se de um toco de vela em cima da mesa. Ia num pé e voltava noutro. Começassem a reza. O bater das ondas na praia cadenciava a reza. Ave-maria, cheia de graça. Trouxeram uma garrafa de cachaça. O anão recusou a bebida. Precisava chorar. Sua pobre Lourdinha havia sofrido muito. Não por causa dele, mas dos outros. Nunca nela bateu e ela estava ali como testemunha. Outros, sim, quiseram usar o corpo dela, tão pequeno, como de menina. Como aquele negro safado, anos atrás. 

Consolavam o anão. Bebesse um tiquinho para se acalmar. Ele voltava à rede, ao corpo da mulher. Ave-maria, cheia de graça. Acenderam o toco de vela. Ia ter caixão? Procurassem o padre na igreja. E se Lourdinha estivesse ainda dormindo? Costumava beber muito de noite? Nunca, nunca bebia. E como tinha sido a história do negro? 

Muitos anos atrás, quando ainda moravam num armazém abandonado, perto do Mercado Central, um homem arrombou uma das portas. Acordaram assustados. Na mão do bandido o relógio de ouro de Lourdinha. E o pior: o deboche, a perguntar se ela aguentava mesmo um homem. Não conseguia esquecer aquilo. Anos e anos passados e ainda assim a figura do negro aparecia diante dele, a resmungar imundícies. 

Depois daquilo, Lourdinha nunca mais foi a mesma, sempre nervosa, com medo de tudo e de todos, chorosa, querendo ir embora para bem longe. Uma casinha na beira da praia. Não rezavam mais, a garrafa de cachaça vazia e o toco da vela apagado. E o padre? 

Tome um golinho, vizinho. Não lhe pronunciavam o nome nem o chamavam de anão. Quem ia arrumar a defunta para o enterro? 

Súbito assomou à porta a figura musculosa de um negro. O anão arregalou os olhos, fez um esgar, rangeu os dentes, retesou-se todo. E correu para junto da rede e do corpo da anã. Os outros se afastaram para os cantos das paredes. O mar rugia feito um monstro em fúria. O visitante juntou as mãos, como se fosse rezar, e disse: vim pedir perdão pelo que fiz e trazer um relógio de ouro para a sua mulher.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.