JULIÃO SOARES SOUSA
Bula/Guiné-Bissau
Cantos do Meu País
Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas
Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar
Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças
Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País
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Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN (1951 – 2013) Natal/RN
Cheia de brilho e de encantos,
loucamente apaixonada,
a lua faz chover prantos
nos olhos da madrugada.
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Soneto de
OTÁVIO VENTURELLI
Nova Friburgo/RJ
Ressonância
Há uma impotência enorme no vazio
que me rodeia o coração magoado,
já nem mais ao silêncio eu desafio,
embarguei minha voz, fiquei calado.
Igual à correnteza que há no rio
meu pensamento passa acelerado,
não tenho mais como encontrar o fio
de um novelo de amor embaralhado.
Hoje meus dias vou passando-os triste,
sem saber com certeza se ainda existe
um pouco de nós dois dentro de nós,
mas quando as vozes ao redor se calam,
nos meus silêncios as saudades falam
com as vozes iguais à tua voz…
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Trova Premiada na Academia Brasileira de Trova/1991 de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Queres vencer? - Pensa bem
e não dês passos a esmo,
ninguém pode ser alguém
sem conquistar a si mesmo.
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Maria Rita Rodrigo Octavio Moutinho
Rio de Janeiro/RJ
Soneto do equinócio adiado
Hoje o silêncio corta o fio do equador
e incomunicáveis os polos orbitam
desgarrados da esfera terrestre. O calor
e a ardência tropical, mudos, se gelificam.
No equinócio, dia e noite — assim como o amor —
se equivalem e por isso se presentificam
o equilíbrio, a medida-anel do cobertor
e do corpo gelado quando se unificam.
Estamos na distância e no incomunicável
por motivos que nem os astros nos explicam.
Medo? Será o medo que faz dissociável
a junção dos amantes que se estigmatizam?
A nódoa do pecado no imo é implacável.
E, súbito, equinócio e harmonia se adiam.
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Trova Popular
Inda que meu pai me mate,
minha mãe me tire a vida,
minha palavra está dada,
minha alma está prometida.
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Poema de
BERNARDO TRANCOSO
Vitória/ES
O disfarce
Cobre a máscara
O jeito verdadeiro que tens.
Quando estás próxima a mim,
Veste-a e finge ser um falso alguém.
Teu cheiro mostra-me o teu disfarce.
É por modéstia?
Temes não me agradar, pois,
Por inteiro, sendo honesta.
Mas, mesmo que eu
Deteste-a ao ver quem és,
De fato,
Vou primeiro partir por tua mentira
Ante a moléstia.
Se existe algum problema,
Algum motivo pra enganação,
Permite-me ajudá-la agora,
Antes que eu pense
Estar errado ao te amar.
Já tem sido inofensivo - não mais -
Meu coração que, hoje, te fala
Em forma de um soneto
Disfarçado.
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Soneto de
HERMES FONTES
Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes
Buquim/SE, 1888 – 1930, Rio de Janeiro/RJ
A odisseia do verso
Vieram da fonte sensitiva e casta
do Coração: filtraram-se em requinte,
nos centros cerebrais: são versos... basta.
É estrofá-los em luz, por conseguinte.
É escrevê-los em fogo, em tom que os pinte,
voz que os declame... E a língua mal se arrasta!
E a pena extrai-lhes a expressão seguinte
que os fixa nos papéis da minha pasta...
Levamos o impressor, a publicá-los.
Lá se vão os meus versos... E eu sucumbo,
ao despedir-me da alma, entre ais e abalos...
E, ante a máquina, agora, o olhar descerro:
— vejo o meu Sonho transformado em chumbo!...
— vejo a minha Arte reduzida a ferro!...
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR
O detalhe de estar só
aguça o meu pensamento...
Vivo sem de mim ter dó;
- compor trova é doce alento!
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Poema de
CLEUSA PIOVESAN
Capanema/PR
Razões além de mim
Escrevo, sinto, preciso
arejar minhas ideias...
Partilhar as emoções.
Não há dia para sonhar
mundos fora de mim. É
ser, estar, ter, ver razões
pra existir, ir além, sorver,
amar, ter ar nos pulmões!
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP
Veja os mistérios que existem
contidos em um olhar.
Às vezes eles persistem...
outros, somem num piscar.
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Soneto de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP
Soneto-comentário sobre "São Francisco e o rouxinol", de Martins Fontes
Um rouxinol cantava”... é o primeiro verso
do encantador soneto de Martins Fontes
em cujo clássico teor eu me alicerço
para a louvação de seus vastos horizontes.
Cativa a todos a singela narrativa
do elo musical da ave com São Francisco
que no assobio alegre, imita a patativa
como se numa vitrola, emperrasse o disco.
Mas o santo cansa-se... o pássaro segue...
e o praiano bardo se descongestiona,
pondo no papel até que o dom descarregue
todo o amor dedicado ao humilde frade...
depois, relendo o poema, se emociona
e vê que pra versos nasceu, eis a verdade!
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Poema de
VICÊNCIA JAGUARIBE
Fortaleza/CE
Correndo com a liberdade
Correndo na calçada
Como quem não quer nada
Lá vem o Zezé
Na ponta do pé.
Atrás do Zezé
Com cara de índio
Corre o Mané.
Pra onde estão indo?
Vendo correrem os dois
Corre também a Verinha
Que tem cara de arroz
Mas é muito boazinha.
Levantando do meio-fio
Pedro segue os vadios.
E o João, sem o pé de feijão,
Quase entra na contramão.
A Lúcia, a Ana e a Teresa,
Quando tornam da surpresa,
Entram no rolo sem saber
Por que estão a correr.
Os curiosos perguntam
O motivo ou a razão
De tamanha confusão
De tanta criança junta.
Será que aqueles meninos
Correm de boi desenfreado?
Fogem de dentes caninos
Por eles desafiados?
Invadiram o pomar
Do afobado seu Oscar?
Ou mexeram no jardim
Do coitado seu Joaquim?
Os meninos diligentes
Só desejam, simplesmente,
Desfrutar a liberdade
Que lhes permite a idade.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
Coceirinha furibunda,
coça embaixo, coça em cima...
Quando coça na cacunda,
sinto cócegas... na rima!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP
Sertão
NO TOPO:
"No Sertão é tanta paz
Que eu chego a ouvir, da soleira,
O esforço que o vento faz
Tentando abrira porteira".
JOSÉ OUVERNEY
Pindamonhangaba/SP
SUBINDO:
"Tentando abrir a porteira"
que prende meus velhos sonhos,
ouço a saudade matreira
falando em dias risonhos.
"O esforço que o vento faz"
farfalhando no telhado
dá-me a sensação de paz
que ficou !á no passado.
"Que eu chego a ouvir, da soleira,"
uma canção de ternura
que a brisa sopra, ligeira,
tangendo a doce ventura,
"No Sertão é tanta paz"
e a vida para, intrigante,
que o coração é capaz
de sorrir, mesmo distante.
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Trova Humorística de
GERSON CÉSAR SOUZA
São Leopoldo/RS
Vendo as listras do pijama
que vestia Dorotéia,
seu genro, bêbado, exclama:
- A zebra engoliu a véia!!!
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Hino de
FÊNIX/ PR
I
Nos braços do Ivaí caudaloso
Que ergue forte e varonil
Ó Fênix meu torrão formoso
Terra rica e tão gentil
II
Vila Rica do Espírito Santo
Testemunha os autores da história
Esta plaga que eu amo tanto
E hei de ver eternamente em tom de glória
III
És Fênix, amada
Orgulho dos filhos teus
Nasceste predestinada
E abençoada por Deus
IV
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná
V
Há de ter alguém no Norte
Qual majestoso pinheiro
Do povo ao Brasil forte
No labor é o primeiro
VI
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná
VII
Aos heroicos pioneiros
Que ascendiam o sucesso
Nosso afeto verdadeiro
Pela glória e o progresso
VIII
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O bêbado e sua mulher
Nem medo nem vergonha contrariam
A natural tendência.
O conto que se segue
Tem, neste caso, a marca da evidência.
Um devoto de Baco arruinava-se
Por causa da goela;
De força andava baldo, e de pecúnia...
Nem sombras na escarcela.
Um dia em que perdera a tramontana
Bebendo a bom beber,
Numa espécie de tumba
Fê-lo a esposa meter.
Quando ele, enfim, saiu da raposeira,
Viu todos os sinais que indicam morte,
A lâmpada, a mortalha... «Ó Deus, que é isto?...
Fiz viúva a consorte?»
Esta, em trajos de parca disfarçada,
Do marido se abeira:
«Quem és?» — «Eu sou da lúgubre morada
A eterna despenseira.
Dou de comer à farta aos que repouso
No reino escuro tem».
E o marido a bradar muito aguçoso:
«E que beber, não vem?»
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