sábado, 6 de junho de 2026

Asas da Poesia * 189 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/Guanajuato/México

Descida

De que adianta a rebeldia se, imediatamente, encontramos o universo intocado?
Emil Cioran (filósofo romeno, 1911 – 1995)

Descemos,
disso não há dúvida.

A frágil paz em que vivíamos
foi destruída para sempre.

O que nos resta?

Escolher entre a conformidade
e a sedição.

Permanecer em silêncio ou escrever,
é tudo o que resta.

Sim, de fato,
abominar a neutralidade,
existir apesar de tudo,
apesar dos presságios,
apesar da perdição.

Descemos,
como o sol ao fim do dia,
e como a lua,
nos rebelamos. 
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Trova Humorística de
NEWTON MEYER
Pouso Alegre/MG, 1936 – 2006

Careca? Não creio sê-lo, 
e o fato impede que eu minta:
Tenho um fio de cabelo,
mas, quase com metro e trinta!
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Poema de
LURDIANA ARAÚJO
Brasília/DF

Fogueira

Coração, deixa de besteira,
O amor é apenas uma fogueira
Queima a alma inteira.

Como fogo na lareira
Vai nos queimando como madeira
Nos consumindo a vida inteira.

É uma chama traiçoeira
Quer nos sufocar, apedrejar,
Aniquilar.

Nunca tente pular esta fogueira
Uma ferida corta a carne quer não queira,
E nos aprisiona nesta chama traiçoeira.

É inútil relutar, nem mesmo nossas cinzas,
Conseguem se libertar de alguma maneira.
O amor é apenas uma fogueira, chama traiçoeira.
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Aldravia de
GLÓRIA FONTES PUPPIN
Rio de Janeiro/RJ

transformar
  é
  difícil
    mexe
    com
      inconsciente
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Soneto de
CHICO MIGUEL
(Francisco Miguel de Moura)
Teresina/PI

Nós e o planeta

Nascemos num oceano de incertezas,
São vidas sobre vidas, muitas vidas.
Que no combate até desconhecemos
Se são amigos nossos ou inimigos.

A ciência desvenda-nos perigos
De vírus a bactérias, faz vacinas
Contra os males fatais que nos imolam,
Pois somos nós os monstros. E sorrimos.

Também, com relação ao universo,
Somos futuros vírus já dispersos,
Na Terra, onde seremos os seus réus.

Fazemos, desta casa azul, um lixo…
Pensando (ou sem pensar) que com tudo isto
Estamos, corpo e alma, indo pro céu.
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Trova de
CEZÁRIO BRANDI FILHO 
Juiz de Fora/MG

Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isso seria
trocar tristezas, somente.
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Poema de
ANA HATHERLY
(Anna Maria de Lourdes Rocha Alves Hatherly)
Porto/Portugal, 1929 – 2015, Lisboa/Portugal

Pensar é encher-se de tristeza

To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale

Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço seu imenso clamor
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Quadra Popular de 
MINAS GERAIS

Morena, se tu soubesses
o quanto eu te quero bem,
tu não rias, não brincavas,
perto de mim, com ninguém.
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Soneto de
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal

Adeus juventude

Depois da juventude ultrapassada,
a vida passa a ter outro sentido.
E todo o aprendizado adquirido,
Será o nosso guia de jornada!

Teremos pela frente, tudo ou nada.
Qual deles será de nós, o nosso adido?
Será que ficaremos no olvido?
Nossa porta estará sempre fechada?

Há que sorrir em cada despertar.
E nunca esquecer de comentar:
que há mais um dia todas as manhãs!

E quando já passados muitos anos,
não devemos chorar os desenganos,
mas olhar com orgulho nossas cãs!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer;
mas, zangado, morde e arranha:
- É gato? - Não... é mulher!
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Poema de
WALLACE STEVENS
Reading/ Pensilvânia/EUA, 1879 – 1955, Hartford/Connecticut/EUA

O Homem da Neve 

É preciso uma mente de inverno
 Para olhar a geada e os ramos
 Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
 Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
 Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
 Em qualquer miséria no som do vento,
 No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
 Cheia do mesmo vento
 Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
 E, ausente, observa
 Nada que não está lá e o nada que é.
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Haicai de
IRENE M. FUKE
São Paulo/SP

Mãos arroxeadas
Se aquecem ao sol de inverno.
Mendigo na praça.
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ

A velha mangueira

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
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Trova de
OLÍVIA ALVAREZ M. BARROSO
Parede/Portugal

A vida, com temperança,
vinda desde pequenino,
é rumo de confiança,
ensinamento divino.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE
Feito um filme de cinema,
ao beijar a tua face,
te dediquei um poema
do amor... que agora renasce!
JOSÉ FELDMAN 
(Floresta/PR)

GLOSA
Feito um filme de cinema,
daqueles, do tempo antigo,
onde a atriz era de extrema
beleza, sonhei contigo!

Na penumbra do cinema,
ao beijar a tua face
veio-me, logo, o dilema:
qual será o desenlace?

Hoje, lembrando da cena
passada na mocidade,
te dediquei um poema
para matar a saudade.

Desperto da sonolência
veio-me, como num passe
de mágica, a efervescência
do amor... que agora renasce!
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Aldravia de
MARÍLIA SIQUEIRA LACERDA
Ipatinga/MG

a
vida
corre
depressa
qual
aldravias
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Soneto de
ERNÂNI ROSAS
(Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida)
Florianópolis/SC, 1886 – 1955, Rio de Janeiro/RJ

Convalescente

Convalesço dos males da Quimera
partindo sempre de um desejo rude,
a malograda sorte da galera
que aportar com delírio nunca pude…

Do amor, nada pretendo com veemência
pela vida misérrima que arrasto!
Eu sinto o frágil coração tão gasto
às futuras e rudes penitências…

Desconheço o rigor dessa ironia
Quando o sol tomba na água e eril centelha
sem n´a apagar em fulva alegoria…

Amo a noite, amo o espelho do Universo
nunca a chaga de um Deus que se avermelha
no sangue que palpita no meu verso!…
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Trova de
ALMIR PINTO DE AZEVEDO 
Cambuci/RJ

Trovadores versejando
com dom divino e fecundo,
com suas mãos derramando
beleza e paz pelo mundo...
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Poema de
AIRES ALMEIDA SANTOS
Chinguar/Angola, 1922 - 1991, Benguela/Angola

Poema para minha filha

Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho

E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.

Deixa comigo o fel, 
A dor, o desespero 
Deixa que eu fira a pele 
Nos ásperos abrolhos 
Da vida.

Deixa chorar meus olhos
 Deixa comigo
 O peso do sonho tão antigo.

Para ti, querida 
Paz, amor, ternura 
Estrelas rutilantes, 
Rosas e Mel…
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Haicai de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Cansaço

Dormir sem sonhar
com os fatos de uma vida
pra não mais chorar.
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Setilha de
DELCY CANALLES
Porto Alegre/RS

O bálsamo da esperança
nos vem com a Primavera,
que chega alegre em setembro,
depois de uma fria espera,
pois ela é a estação das flores,
dos perfumes, dos amores,
dos sonhos e da quimera!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Laços quebrados

Fios partidos, nós soltos.
amarras que um dia foram fortes,
agora jazem no chão.
Fragmentos de um amor que não existe mais
e de tudo, restou apenas a solidão...

A dor da perda, e a saudade,
ecoam em meu peito vazio;
o que restou de nós?
Apenas sombras de um passado
e eu me vejo aqui, ao nada prostrado

Mas talvez, em meio às cinzas,
um novo começo possa surgir
e embora os laços estejam quebrados
a tal da esperança ainda possa florescer...
e eu, de novo, volte a sorrir...
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

O mar, a jangada, o vento;
a bordo, ao luar, nós dois.
Construa no pensamento
a cena que vem depois...
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Hino de 
UBERABA/ MG

Da jornada de fé, corajosa
De bandeiras por todo o Brasil,
Tu surgiste, Uberaba formosa,
Na campina, sob um céu de anil.

És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão
Valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil

Não transiges com teu inimigo,
Mas acolhes, gentil, em teu colo,
Os que vêm ao trabalho, contigo,
Procurando elevar o teu solo.

És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil 

Tuas matas, teus campos, teu montes,
De riquezas sem par, peregrinas,
Construíram, entre teus horizontes,
A mais bela das joias mais finas!

És, Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central do Brasil.
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O Louvor à Terra do Zebu
O Hino de Uberaba, como muitos hinos municipais, é uma composição que exalta as qualidades e a história da cidade, localizada no estado de Minas Gerais, Brasil. A letra do hino destaca a bravura e a fé dos fundadores da cidade, que é descrita como tendo surgido corajosamente durante a expansão territorial do país, marcada pelas bandeiras, expedições que adentravam o interior do Brasil em busca de riquezas e terras para colonizar.

A canção prossegue enaltecendo Uberaba como um 'florão', uma joia preciosa e rica do sertão brasileiro, destacando sua beleza e valor. A menção ao 'Planalto Central' situa geograficamente a cidade, que embora não esteja no Planalto Central do Brasil, está em uma região elevada do território mineiro. A letra também faz referência à hospitalidade do povo uberabense, que acolhe a todos que chegam para trabalhar e contribuir com o desenvolvimento local.

Por fim, o hino celebra as riquezas naturais de Uberaba, como suas matas, campos e montes, que são comparados a 'riquezas sem par'. A cidade é conhecida por sua importância na agropecuária, especialmente na criação de gado zebu, e o hino faz jus a essa característica ao construir uma imagem de Uberaba como uma 'joia mais fina' entre as cidades brasileiras, ressaltando seu valor único e sua contribuição para a riqueza nacional.
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Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

doa-se

coração adestrado
com pedigree, vacinado,
só não obedece ao dono
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Soneto de
ELISA BARRETO
Santos/SP

Velhas fotografias

Velhas fotografias, amarelas,
lembram vidas da vida que passou.
São guardiãs fiéis, são sentinelas,
que a arte no papel eternizou.

Guardam características singelas
de épocas que a evolução tragou.
Na estrutura da vida são janelas
que o palácio do tempo conservou.

Olham-me da parede, penduradas,
como a indagar-me, muito admiradas,
por que eu as fito tão frequentemente . . .

È que as fotografias tomam vida
e a alma de alguém, quando nos foi querida,
nelas palpita misteriosamente.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Nas areias calcinadas
desse deserto sem fim...
A vida deixou pegadas
perdidas dentro de mim!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O doido que vende siso

Um doido, pelas ruas, pelas praças,
Dizia, em seu pregão: «Quem compra siso?»
E os sempre crentes homens acudiam
À compra diligentes.
Primeiro, de barato, dava o doido
Muita careta, muita monaria;
Mas, logo que ensacava na algibeira
Dinheiro dalgum zote,
Com um bofetão, que vinha rebolindo,
Lhe dava duas braças de barbante
Aos tais fregueses, em lugar de siso.
Uns se agastavam; mas que vale irar-se?
Ser, por iras, de todos mais zombado?
Rir como os outros fora mais acerto;
Ou safar-se, sem chus, nem bus, levando
O bofetão, e o fio.
Quer bem levar de todo a surriada
Quem esquadrinha sentido figurado
No proceder dum louco.
Que razão há que dar de doidarias?
Quanto chocalha em testos desvairados
A mão do Acaso o volve.
Mas fio e bofetão davam tortura
A certas cachimônias.
Um dos logrados vai-se ter com um sábio,
Que logo lhe emborcou, sem muito empacho,
O oráculo seguinte:
«Hieroglíficos meros vende o doido.
Deve o prudente duas braças pôr-se
Longe, de quem tem eiva no miolo,
Se afagos tais não quer recolher dele.
Bom siso vos vendeu. Não sois logrado.»
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Mensagem na Garrafa 184 = Crias à Venda


AUTOR ANÔNIMO

O lojista estava a colar na porta da loja um cartaz: "Crias à Venda". Cartazes como esse têm o poder de atrair crianças pequenas e, na verdade, um garotinho apareceu sem demora.

"Por quanto vai vender as crias?", perguntou.

"Entre 30 e 50 dólares."

O menino enfiou a mão no bolso e tirou uns trocos.

"Tenho 2,37 dólares, posso dar uma olhadela?"

O dono da loja sorriu, assobiou e, do canil, saiu Lady, seguida por cinco pequeninas bolinhas de pelo. Uma das crias tinha ficado consideravelmente para trás. Imediatamente, o garotinho indicou a cria atrasada, que se movia com dificuldade, e disse:

"O que é que tem aquele cachorrinho?"

O dono da loja explicou que o veterinário o tinha examinado e descobrira que ele não possuía uma articulação do quadril. Iria coxear para sempre. Seria defeituoso para sempre. 

O garotinho ficou animado.

"Este é o cachorrinho que quero comprar."

O dono da loja disse: "Não, não pode comprar este cachorrinho Se realmente o queres, eu dou-te."

O garotinho ficou muito aborrecido. Olhou diretamente nos olhos do dono da loja, com o dedo em riste, e disse:

"Eu não quero um presente. Aquele cachorrinho vale exatamente tanto como os outros e eu pagarei o preço real. Na verdade, eu dou-te 2,37 dólares agora, e cinquenta centavos por mês, até que tenha pago tudo."

O dono da loja opôs-se: 

"Não queres realmente comprar esse cãozinho. Ele nunca será capaz de correr, saltar e brincar contigo como os outros."

O garotinho, com a simplicidade das crianças, baixou-se e enrolou a perna da calça, revelando uma perna gravemente deformada, amparada por um aro de metal. 

Olhou para o dono da loja e replicou suavemente:

"Bem, eu também não corro tão bem, e o cachorrinho precisará de alguém que compreenda isso!"

José Feldman (“A Alquimia do Tempo”) O banco da praça


O banco de ferro fundido e ripas de madeira envelhecida era o mesmo, mas o solo sob os pés de quem ali sentava parecia pertencer a planetas diferentes.

De um lado, o Sr. Fidelsino, cujas mãos pareciam um mapa de estradas de terra, de tantas rugas e vincos. Ele não olhava para o relógio; olhava para o movimento das folhas de um carvalho. Para ele, o tempo não era uma seta disparada, mas um ciclo que insistia em se repetir. Do outro lado, separado por apenas alguns palmos de madeira descascada, estava o jovem Luigi, de dezoito anos, com os olhos fixos em uma tela de vidro que brilhava mais que o sol daquela tarde.

Fidelsino observava o real: o gari que varria a calçada com uma rítmica preguiçosa, a pomba que disputava uma migalha com um pardal, o modo como a luz do fim da tarde dourava o topo dos prédios. Ele via o espaço. 

Luigi, por sua vez, habitava o fluxo. Seus dedos dançavam freneticamente sobre o vidro, saltando de uma rede social para outra, de um meme em Tóquio para uma notícia em Londres. Ele estava ali fisicamente, mas sua mente habitava um "não-lugar", uma dimensão onde a geografia não importava e o silêncio era um erro de conexão.

— Você reparou que a luz está mudando? — perguntou Fidelsino, sem tirar os olhos do horizonte.

Luigi sobressaltou-se. Levou um segundo para desconectar o cabo invisível que o ligava à nuvem.

— A luz? Ah, sim... vai escurecer, né? — respondeu, já sentindo a vibração de uma nova notificação no bolso.

— Não é só que vai escurecer, meu jovem. É que a cor das coisas morre um pouco antes de renascer amanhã. É o momento em que o mundo descansa o olhar.

Luigi sorriu, um sorriso educado, mas tingido de uma certa impaciência moderna.

— Eu vejo o pôr do sol todo dia no meu feed. Fotos incríveis, em alta resolução, de lugares que o senhor nem imagina.

Fidelsino assentiu devagar.

— A foto guarda a imagem, mas não guarda o vento. Ela congela o tempo, mas não te deixa sentir o tempo passar. Você vê o mundo inteiro por esse aparelho, mas será que sente o cheiro da chuva que está vindo ali daquela nuvem escura?

Luigi olhou para cima. Realmente, o céu pesava. Ele não tinha percebido. Estava tão ocupado acompanhando a vida de mil "amigos" distantes que não notou a natureza se manifestando a dois metros do seu nariz.

Ali, naquele banco, chocavam-se duas filosofias de existência. Fidelsino era a contemplação: o valor do que é lento, único e perecível. Luigi era a acumulação: o valor do que é instantâneo, múltiplo e arquivável. Um via o mundo como um jardim a ser cultivado com a paciência do olhar; o outro via o mundo como um cardápio de estímulos a serem consumidos com a voracidade do clique.

O velho via a beleza na cicatriz do tronco da árvore; o jovem buscava o filtro que escondesse as cicatrizes da realidade.

Quando os primeiros pingos grossos de chuva começaram a bater na madeira do banco, Luigi levantou-se num salto, preocupado em proteger o celular. Fidelsino levantou-se devagar, fechando o casaco, sentindo a água fresca no rosto com uma gratidão quase religiosa.

— O mundo é muito grande para caber no seu bolso, rapaz — disse o velho, antes de caminhar sob o temporal.

Moral:
A tecnologia nos deu janelas para o mundo inteiro, mas corremos o risco de esquecer como abrir a porta e sair para a rua. Quem só enxerga através de telas acaba conhecendo a imagem de tudo, mas a essência de nada. A vida não acontece no registro, mas no momento em que os olhos encontram a realidade sem filtros.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal).  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
FELDMAN, José. A Alquimia do Tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Imagem criada com IA Microsoft Bing

Antônio Maria (O pior encontro casual)

O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: "Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro". Como são desprezíveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peço os jornais, sento à mesa e tomo meu café reforçado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "café reforçado!" E a explanação continua: "Nos jornais, vocês me desculpem mas, a mim, só interessa o artigo de Macedo Soares e as histórias em quadrinhos". Nessa altura o autobiográfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade política (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histórias em quadrinhos).

E vai daí para outra modesta homenagem a si mesmo: "Aí, então, é que vou me vestir. Quanto à roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha paciência, eu mudo todo dia". O "tenha paciência" é porque está absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritório". Gente que chama a mulher de "minha senhora" está sempre pensando que: não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz: "Só aí vou para o escritório, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se há alguma coisa". Esse "passar no jornal" é um pouco difícil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de não ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas ações ou pertence a um primo, ou amigo íntimo.

Vai por aí contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: "À noite, eu sou da família!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sofá e vou ver a televisão, com as crianças em cima de mim". Está aí o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que é triste, além de numeroso, está em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "café reforçado", os de "Macedo Soares e das histórias em quadrinhos" (os que gostam só de Macedo Soares ou só de histórias em quadrinhos são ótimos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritório". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sofá, com as crianças em cima. Ah, essa gente me procura tanto!

19/10/1959
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ANTÔNIO MARIA ARAÚJO DE MORAIS, cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fonte:
"Com Vocês, Antônio Maria". RJ: Paz e Terra, 1994.