quinta-feira, 26 de março de 2026

José Feldman (Presente Complicado)


Tiago encarava a vitrine de uma loja de cristais com a mesma expressão de um homem tentando desarmar uma bomba usando um palito de dente. O Dia dos Namorados era em doze horas, e o cérebro dele estava operando em modo de segurança.

Desesperado, ele abriu o grupo "Os Intocáveis (e o Tiago)" no WhatsApp.

Tiago: "Socorro. Emergência nível 5. O que eu dou para a Marcela? Orçamento: até 300 reais e minha dignidade."

A resposta foi instantânea. Beto, o amigo "fitness" que toma vitaminas no café da manhã, foi o primeiro.

Beto: "Mano, fácil. Um kit de suplementos e uma luva de academia nova. Ela vai entender que você se preocupa com a saúde dela. Amor é cuidado, parça."

Tiago: "Beto, a Marcela acha que 'fazer cardio' é andar do sofá até a geladeira. Se eu der isso, ela termina comigo antes do jantar."

Juca, o eterno romântico (e ligeiramente cafona), entrou na conversa.

Juca: "Não ouve o Beto, Tiago. Mulher gosta de sensibilidade. Compra um urso de pelúcia gigante. Aqueles que ocupam metade da cama e seguram um coração escrito 'Você é meu tudo'. É infalível."

Rodolfo, o pragmático do grupo, mandou um áudio de 30 segundos rindo.

Rodolfo (Áudio): "Urso, Juca? Sério? O Tiago quer namorar a menina ou montar uma creche? Tiago, escuta quem entende: dá uma AirFryer. É útil, é moderna e ela vai fazer batata frita pra você. É o presente que se paga sozinho."

O grupo virou um caos. As notificações não paravam.

Juca: "AirFryer? Que horror, Rodolfo! Você quer que ela se sinta uma dona de casa dos anos 50? O urso transmite afeto!"

Rodolfo: "O urso transmite ácaro, Juca! A AirFryer transmite crocância!"

Beto: "Se não for o kit de suplementos, dá um smartwatch que conta passos. Pelo menos ela monitora o sono."

Tiago: "GENTE, FOCO! Ela gosta de coisas fofas, mas nem tanto. Gosta de comer, mas não quer cozinhar. E ela odeia suar."

Aí apareceu a mensagem de Vini, o amigo que sempre tentava ser "cult".

Vini: "Tiago, dê uma planta. Mas não uma flor qualquer. Uma Costela de Adão. É estético, é hipster, simboliza o crescimento da relação."

Rodolfo: "Uma planta? O cara quer um presente, não uma obrigação de regar algo todo dia. Dá logo um cartão presente da Netflix e um balde de pipoca."

Juca: "Você é um monstro sem coração, Rodolfo. Tiago, ignora esses bárbaros. Compra uma estrela. Tem um site que você batiza uma estrela com o nome dela. É eterno."

Beto: "Batizar uma estrela? Ah não, Juca. Aí você zerou o game da cafonice. Tiago, se você der uma estrela, eu mesmo te bloqueio."

Tiago lia tudo suando frio. O grupo agora discutia se era melhor uma fritadeira elétrica ou um corpo celeste distante.

Tiago: "E se eu der um perfume?"

Rodolfo: "Risco alto. Se ela não gostar, vai dizer que você acha que ela é fedorenta."

Juca: "Dá uma joia! Prata! Um pingente de coração!"

Vini: "Muito clichê. Dá um livro de poesias búlgaras."

Beto: "Dá um tapete de ioga."

Tiago bloqueou o celular. A discussão no grupo já tinha migrado para "Qual a melhor marca de creatina" e "Por que o Rodolfo odeia romance". Ele entrou em uma loja de departamentos, viu uma luminária de mesa em formato de lua e uma caixa de bombons importados.

Ele comprou os dois.

No dia seguinte, no jantar:

— Tiago, que lindo! — disse Marcela, abraçando a luminária — É tão poético, parece que você trouxe a lua pra mim.

Tiago sorriu, aliviado, e sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma nova mensagem no grupo.

Rodolfo: "E aí, deu a AirFryer? Se não deu, me avisa que eu compro a minha, tá na promoção."

Tiago apenas guardou o celular e atacou os bombons.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Vai pro quintos dos infernos”


A expressão "QUINTOS DO INFERNO" surgiu na fase do Brasil Colônia, quando nosso país era o saco de pancadas de Portugal e os galegos mandavam e desmandavam aqui dentro. 

Era também a época das grandes navegações, quando Portugal reinava nos mares e inegavelmente conquistou locais longínquos com suas indefectíveis caravelas com a cruz de malta, posteriormente transformadas em colônias, sendo igualmente exploradas economicamente, propiciando aos lusos substanciais lucros, que sustentavam as tradições e o luxo da monarquia portuguesa.

Virou expressão costumeira quando nossos patrícios viam uma embarcação chegando de muito longe, proveniente do Brasil, quase em uníssono os circunstantes presentes no cais do porto dizerem: “Lá vem mais uma nau, dos quintos do inferno”. Esse indigitado “inferno” era como os portugueses chamavam o Brasil ainda em seus primórdios, selvagem e inculto. 

Que mal lhe pergunte: e os “quintos”, de onde mesmo surgiram? 

Pois é... Eles faziam referência ao imposto de 20% (correspondente a um quinto) de todo o ouro que era extraído das generosas minas brasileiras, cuja arrecadação, que se podia estimar em toneladas, era simplesmente levada via marítima para o território português, para abastecer as burras da monarquia, isso quando não passava diretamente para a Inglaterra, que com seu poderia bélico naval garantia o livre trânsito dos navios lusitanos, com suas preciosas cargas de especiarias e outros gêneros extremamente valiosos. 

Por isso, dizer para alguém que fosse para o quinto dos infernos, naquela época recuada significava mandar essa pessoa (muitas vezes banida) para o lugar longínquo e desconhecido que era o Brasil. A propósito, a cobrança dos tais 20% foi uma das principais causas da Inconfidência Mineira, revolta que acabou sendo reprimida em 1789 pela Coroa Portuguesa de forma draconiana, como sabemos.

Daí a ser consolidada como uma expressão de puro xingamento foi um passo, a partir principalmente de quando se descobriu a sensação de alívio ou desforra de mandar alguém chato ou impertinente, para o quinto dos infernos. 

Mutatis mutandis, dá também no mesmo mandar o distinto “pro raio que o parta”, outra expressão popular usada para extravasar a raiva, indignação ou desprezo em relação a outrem, com a subjacente sugestão de que o dito cujo desapareça, “vá cantar em outra freguesia” ou “vá plantar batatas”... Viu só como o nosso português de cada dia é rico em tiradas que o povo usa sem se dar conta ou saber das motivações que lhes deram origem?

Na música popular brasileira, um cantor intitulado “Missionário”, gravou em 2024 pela USADISCO a música denominada “QUINTO DOS INFERNOS”, que se ninguém nunca ouviu, não está perdendo absolutamente nada. 

Trata-se de uma espécie de xote gaúcho, que se por um lado desperta nos afoitos a vontade de dançar, mercê do ritmo marcante da sanfona, a letra revela-se grotesca, verdadeiro monumento ao mau gosto, em especial para os curtem os encantos e a magia do que temos de bom e de melhor na MPB.

Como se não bastasse, existe também uma cerveja mexicana batizada de “QUINTO DOS INFERNOS”, produzida pela cervejaria UberBrau, diz que elaborada para a celebração da vida, utilizando cinco maltes diferentes e uma única variedade de lúpulo, com aroma floral e sabor levemente caramelizado.

Aposto que nem chega aos pés da festejada aguardente “Santo Grau”, de qualidade superior, fabricada em Minas Gerais e ideal para confraternizações ou coquetéis à base de caipirinha, para celebrar os bons momentos da vida com os amigos na amena temperatura das Alterosas, quando se revela imbatível. Há os abstêmios que não chegam nem perto, é claro, mas isso são casos à parte... 
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Floresta (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

José Luiz Boromelo (Papagaio)


O casamento estava programado para o final do ano, depois de uma década de namoro. Jussara pensava em antecipar a cerimônia por conta dos problemas de saúde do pai, mas o quadro se agravou repentinamente e não houve como reverter a situação, deixando uma lacuna na família. A irmã mais velha morava distante e não demonstrou interesse em cuidar da mãe com idade avançada, mesma situação do caçula, que há muito deixara a casa materna para alcançar sua independência financeira. Depois de algum tempo a mãe acabou sucumbindo, acometida por profunda tristeza.

Logo ficou evidente a disputa entre os irmãos pela partilha dos bens. Por conta da enfermidade paterna, os gastos com assistência médica dilapidaram o patrimônio familiar, deixando uma extensa lista de compromissos assumidos. Depois de muita encrenca o imbróglio finalmente foi solucionado judicialmente com a divisão proporcional a cada herdeiro, após a quitação de todos os débitos junto aos credores. Ironicamente coube-lhe tão somente a guarda do estimado papagaio, recusado pelos demais por sua mania em incomodar os moradores com seu falatório ininterrupto impregnado de expressões proibidas para menores, uma lembrança viva do irreverente e saudoso pai.

Sem outra alternativa, a mulher se viu obrigada a cuidar do psitacídeo, mesmo contrariada com seu comportamento bizarro recorrente. Por diversas vezes tentou incutir em seu vasto repertório de interjeições promíscuas alguma coisa mais amena que permitisse a presença do animal na companhia de crianças e visitantes sem maiores constrangimentos, mas o empenado teimava em destilar seu repertório a quem quisesse ouvir, sem qualquer distinção. Ressentido com a ausência do dono repetia sistematicamente tudo o que lhe fora ensinado, exibindo suas tiradas escatológicas em volume considerável até que finalmente foi levado ao ambiente rural, onde poderia gritar à vontade sem que causasse incômodo a alguém.

Eis que um belo dia a filha se deparou com um envelope lacrado esquecido entre os pertences do genitor. Era um testamento registrado em cartório, que destinava alguns bens para os herdeiros legais, até então desconhecidos pela família. O pai fora previdente o suficiente, ocultando deliberadamente as propriedades dos imóveis no intuito de preservar parte do patrimônio ante a doença que lhe consumia lenta e inexoravelmente. Ocorre que uma cláusula condicionante exigia comprovadamente a guarda e o bem estar do bendito papagaio pela família, que diante da situação tentou desesperadamente reaver o animal. Em vão, pois o “louro” desbocado agora fazia companhia ao estimado dono, desfiando seus impropérios em outras paragens bem mais sublimes que as do insalubre convívio humano. Apesar das ações na justiça questionando a decisão maior do patriarca, sua derradeira vontade prevaleceu. A ave acabou contribuindo, sem querer, com diversas entidades assistenciais, contempladas com doações tão generosas e muito bem vindas.
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fontes:
Imagem criada com IA Microsoft Bing

Dicas de Escrita (A Crônica) 4. Crônica Reflexiva

Título: "As Pequenas Coisas"

Certa manhã, enquanto caminhava pelo parque, percebi a beleza do simples. O sol filtrava-se entre as folhas, criando uma dança de luz que iluminava o caminho. Um grupo de crianças brincava, suas risadas ecoando como música. Em meio à correria do dia a dia, muitas vezes esquecemos de apreciar esses momentos.

Parei para observar um velho banco de madeira, gasto pelo tempo. Quantas histórias não teria ele ouvido? Casais apaixonados, amigos se reencontrando, pessoas solitárias buscando um momento de paz. Cada rachadura era uma memória, cada lasca uma vivência.

Refletindo sobre isso, percebi que a vida é feita de pequenas coisas. Não são os grandes eventos que nos definem, mas os instantes simples que nos tocam. Um sorriso, uma conversa despretensiosa, a brisa fresca no rosto. Às vezes, é preciso desacelerar para enxergar o que realmente importa.

A correria nos faz perder a conexão com o presente. Estamos tão focados no futuro que esquecemos de viver o agora. Ao final do dia, o que levamos conosco? Não são os planos que fizemos, mas as memórias que construímos. E, neste momento de reflexão, decidi que, a partir de hoje, vou valorizar mais as pequenas coisas.

Análise dos Elementos Utilizados

1. Narrador:

A voz do narrador é introspectiva e pessoal, compartilhando suas reflexões sobre a vida e a importância dos momentos simples.

2. Tema:

O tema central é a valorização das pequenas coisas da vida, destacando a necessidade de desacelerar e apreciar o presente.

3. Estilo Reflexivo:

O tom é contemplativo, convidando o leitor a pensar sobre suas próprias experiências e a importância de viver o momento.

4. Elementos Descritivos:

Descrições sensoriais (como a luz do sol e o som das risadas) ajudam a criar uma atmosfera que envolve o leitor, permitindo que ele sinta a cena.

5. Metáforas e Simbolismos:

O banco de madeira simboliza a passagem do tempo e as experiências acumuladas, enriquecendo a reflexão sobre a vida.

6. Conclusão Pessoal:

O autor conclui com uma decisão pessoal, que serve como um convite para o leitor também reavaliar suas prioridades e valorizar o presente.


Esse exemplo e análise demonstram como uma crônica reflexiva pode tocar o leitor, utilizando elementos literários para criar uma conexão emocional e convidar à introspecção.
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continua...

Fontes:
A. I. Dola , 2026.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

quarta-feira, 25 de março de 2026

Asas da Poesia * 167 *


Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

É Natal... (será?)

Saudades daqueles Natais folguedos 
quando eu, igual a toda meninada,
pedia pro Papai Noel, brinquedos:
uma bola, um carrinho ou uma espada!
Na cartinha, escrevia: Meu querido
Papai Noel, eu quero de presente...
e nela eu descrevia o meu pedido
da maneira mais simples e inocente!
Hoje vejo um Natal bem diferente,
quando as lojas, com seus "papais noéis",
procuram, de maneira indiferente,
tão somente exaurir os saquitéis,
impondo a todos tudo é "presente",
e pondo Jesus Cristo pra viés!
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Soneto de
BENI CARVALHO
Aracati/CE, 1886 – 1959, Rio de Janeiro/RJ

O cais

Quando te vejo, velho cais, em ruínas,
perscruto a tua vida secular:
— Manhãs radiosas em que te iluminas!
— Serenas noites de encantado luar!

Viste, partindo, ao canto das matinas,
velhas naus, brancas velas, pelo mar:
— Dourados sonhos, ilusões divinas,
ânsia de descobrir e conquistar!

Hoje, todo em tristeza, te esbarrondas;
mas uma voz oculta, dentre as ondas,
te diz: "A sorte não te foi tão má:

Terás, em ti, esta legenda impressa:
— Recolheste o sorrir do que regressa
e a saudade de quem não voltará".
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Trova Premiada na Academia Brasileira de Trova/1991 de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Eu sempre lutei sentindo,
nesta arena em que se vive,
a mão de Deus dirigindo
cada conquista que eu tive. 
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Perguntas vãs

Que me vale a vida sem amor;
amor sem carinho;
carinho sem ternura;
ternura sem meiguice;
meiguice sem querer;
você em saudade;
saudade sem você?!
– Nada!...
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Trova Popular

Eu amante e tu amante,
qual de nós será mais firme?
Eu como o sol a buscar-te,
tu como a sombra a fugir-me?
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

Tenho a alma vestida de saudade
(Maria Paulina de Sousa in "Coração à Solta'', p. 45)

“Tenho a alma vestida de saudade”
Como a noite se cobre de negrume
A dor se desabafa num queixume
E a candura se enfeita de verdade.

Partindo, tu levaste a claridade
Desse dia sem paz e sem perfume
Na lareira apagou-se o brando lume
E de mim fizeste uma só metade.

Tenho o corpo dorido pela espera
Que tu voltes e faças Primavera
No chão que tanta chuva já bebeu.

Vem antes que eu me torne um malfeitor
A saudade me faça um pecador
E eu vá deixando, aos poucos, de ser eu.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Cinema mudo: o pianista,
na solidão da coxia,
valorizando o artista,
tocava.., ninguém o via.
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Tu passaste por este jardim

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de amoras pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu.

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo nas rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor.

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se os íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor.

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansas nos leitos
Deste lindo amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sanguíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor.

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Flagrando a esposa e o banqueiro,
pensa bem e esquece o orgulho:
-Vou precisar de dinheiro...
e sai... sem fazer barulho!
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Soneto de
CARLYLE MARTINS
Fortaleza/CE (1899 – 1986)

O enterro do sol

O sol empalidece entre a seda macia
de um leito de rubis e opalas recamado.
As montanhas, entoando o funeral do dia,
de aromas sem iguais vão perfumando o prado.

Há um pesar pela terra inteira, que dir-se-ia
tudo na escuridão já ficou mergulhado.
Ao longe na ampla várzea enlutada e sombria,
vagaroso  se arrasta, em fileiras, o gado.

Torpor e indecisão. Vai chegando a penumbra.
Nuvens fogem do céu. Nada mais se vislumbra
nas matas onde a treva está quase a envolvê-las.

A noite, como um duende, a estender-se por tudo,
atira sobre a terra um manto de veludo
e desfia, no espaço, um rosário de estrelas.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Só poderás vivenciar
no amor toda a imensidão,
se souberes retirar
as pedras do coração!
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Poema de
ROSE ROSÁRIO
Bragança/PA

Broto de sensível inteligência 

Escritor lavra letras!
Traz real significado. 
Dignifica a existência.

Perpetua com louvor, sua vivência 
tanto mais alegre caminhante liberto, 
seguindo toada, pegadas da essência.
Tenros raios, poeticidade, o aurorescer 
cúmplice, vê brotar sensível inteligência.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

É um mero gesto, impensado,
mas causa tamanha dor,
tentar voltar ao passado
e reviver um amor!
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Soneto de
AMÉLIA TOMÁS
Cantagalo/RJ (1897 – 1992)

Canta!

Encarcera em teu verso, a cantar, tudo quanto
te cerca: — a luz, o som, a flor que o aroma encerra.
E celebra, em glorioso e sempiterno canto,
o céu, a noite, o sol, o luar, o campo e a serra.

Que o riso estue e vibre, e guaie e gema o pranto
dentro do verso teu como dentro da Terra!
Haja nele, da tarde ao pôr-do-sol, o encanto,
e haja o heroico clangor das trombetas da guerra!

Guarda do vento a raiva e as queixas merencórias.
Prende a sua expressão dentro da rima escassa,
desde o sopro da brisa à vergasta de Bóreas!

E canta o teu Amor num surto honesto e terso:
Celebra-o! Exalta-o! pois que Deus te fez a graça
de saberes cantar a tua mágoa em verso!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Pintura Íntima

Teus predicados ocultos são tantos,
Tens, com eles, as bênçãos de Jesus.
Atenta que os picos de teus encantos,
Vistos por Deus, não são vistos à luz.

Destarte, faz teu coração magnânimo
Comandar, desde dentro de teu peito,
A prática do bem com todo o ânimo;
Sem alarde, sem vangloriar o feito.

Faz sempre prevalecer a moral
Frente ao foco material desprezível.
É o bem tomando o lugar do mal,
É o imortal se impondo ao perecível.

Fortalece-te mais interiormente,
Pondo à frente de tudo o coração.
Para os necessitados, sê presente;
Estende a mão amiga a teu irmão.

A beleza física não perdura.
Ela escapa do progresso moral.
Daí, a busca por outra pintura;
Pintura íntima, espiritual.
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Sonho

NO TOPO:
"Naquele dia, tristonho,
Pousaste os olhos nos meus:
- Vivi na tarde do sonho,
Morri na noite do adeus!"
MARIA THEREZA CAVALHEIRO
São Paulo/SP , 1929 – 2018

SUBINDO:
"Morri na noite do adeus"
quando de casa, saíste,
meu sofrimento só Deus
sabe que ainda persiste.

"Vivi na tarde do sonho"
quando entraste em minha vida,
tornei-me um homem risonho,
mas, chorei na despedida.

"Pousaste os olhos nos meus"
dando-me luz e esperança,
quase fui um semideus
e sorri como criança.

"Naquele dia, tristonho"
como doeu, ao saber,
que foste embora, suponho,
por deixar de me querer.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

A liberdade germina
quando um povo pulsa e anseia,
qual semente pequenina
que rasga o solo e se alteia!
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Hino de 
PARANAGUÁ/ PR

Aos nossos mares vieram dantes,
Altivas naus, velas possantes,
Inflando à brisa de monção...
E, a voz dos lusos pioneiros,
O Itiberê viu os primeiros
Sinais de civilização.

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Hulhas éris de cataratas,
Onde rebrilham tantas pratas!
Terras verdes dos pinheirais!
Talvez não fosseis Paraná
Sem lusas quilhas vindo cá,
Em busca de ouro e de cristais...

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Sejamos pela liberdade
Ao lado da fraternidade,
Em fortes elos da união,
Que o nosso orgulho e a nossa glória
Têm uma página da história
Do Paraná e da Nação!

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Seja a grandeza nosso Norte
A paz e o amor - numa coorte
De bênçãos sempre a nos sorrir
E à luz da estrela do civismo
Entre canções de patriotismo
Eia! Marchemos ao porvir!

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!
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Poema de
ZACHAROULA GAITANAKI
Atenas/Grécia

Primavera

A natureza se levantou
e se vestiu em cores familiares,
o ar transporta milhares de cheiros,
fragrâncias de flores
e o sol brinca na terra.
Em toda parte está 
a sabedoria de Deus
e a gente faz silêncio.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O leão vencido pelo homem

Pôs-se em venda uma pintura
Onde estava figurado
Leão de enorme estatura
Por mãos humanas prostrado.

Mirava a gente com glória
O painel. Eis senão quando,
Um leão que ia passando,
Lhe diz: «É falsa a vitória.

Deveis o triunfo vosso
A ficção, blasonadores!
Com mais razão fora nosso,
Se os leões fossem pintores.»
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Mensagem na Garrafa 163 = A parábola da rosa


AUTOR ANÔNIMO

Um certo homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente e, antes que ela desabrochasse, ele a examinou.

Ele viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinhos sobre o talo e pensou, Como pode uma bela flor vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados?

Entristecido por este pensamento, ele se recusou a regar a rosa, e, antes que estivesse pronta para desabrochar, ela morreu.

Assim é com muitas pessoas.

Dentro de cada alma há uma rosa: as qualidades dadas por Deus e plantadas em nós crescendo em meio aos espinhos de nossas faltas.

Muitos de nós olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos, os defeitos.

Nós nos desesperamos, achando que nada de bom pode vir de nosso interior. Nós nos recusamos a regar o bem dentro de nós, e, consequentemente, isso morre.

Nós nunca percebemos o nosso potencial.

Algumas pessoas não veem a rosa dentro delas mesmas;

Alguém mais deve mostrá-la a elas.

Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas.

Esta é a característica do amor - olhar uma pessoa e conhecer suas verdadeiras faltas.

Aceitar aquela pessoa em sua vida, enquanto reconhece a beleza em sua alma e ajuda-a a perceber que ela pode superar suas aparentes imperfeições.

Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, Elas superarão seus próprios espinhos.

Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes.