domingo, 27 de setembro de 2026

José Feldman (Minhas Setenta e duas primaveras)

Hoje, 27 de setembro de 2026, faço 72 anos.

Olho para o bolo à minha frente, com as velinhas acesas, e não consigo evitar um sorriso largo. Se alguém me dissesse, lá em 1954, o ano em que nasci, que eu chegaria a essa idade com toda essa vida fremente, provavelmente ririam. Naquela época, a expectativa de vida era outra, o mundo corria em outro ritmo. Hoje, celebrar mais um ano não parece o fechar de um livro, mas o início de um capítulo surpreendentemente vibrante. A ciência esticou o tempo, e eu estou aqui para aproveitar cada segundo.

Enquanto a criançada hoje corre segurando aparelhos celulares que têm mais tecnologia do que tudo o que existia no planeta quando eu era menino, minha mente viaja no tempo. Que privilégio foi testemunhar a grande metamorfose do mundo.

Eu vi a poeira levantar nas ruas com os primeiros carros que começaram a trafegar com mais frequência pelo bairro. Lembro com uma nostalgia gostosa da nossa primeira televisão. Era um caixote imenso, com imagem em preto e branco, movido a válvulas que demoravam uma eternidade para esquentar. A gente ligava e esperava, pacientemente, até que um ponto brilhante no centro da tela se expandisse e revelasse as imagens chuviscadas.

Antes da TV reinar, porém, o dono absoluto da sala era o rádio. Que saudades das radionovelas! A gente se reunia ao redor do aparelho, em absoluto silêncio, deixando a imaginação desenhar os cenários e os rostos dos atores pelas vozes dramáticas que saíam do alto-falante. E os programas de música? Eram a nossa trilha sonora, a nossa janela para o mundo.

Minha juventude foi moldada por objetos que hoje parecem peças de museu. Na escola, o cheiro a álcool do mimeógrafo impregnava as folhas de prova que a gente recebia, ainda úmidas — e quem nunca cheirou naquela época uma folha daquelas que atire a primeira pedra. O concerto rítmico das máquinas de escrever preenchia o ambiente, com o "plim" do parágrafo avisando que a linha tinha acabado. Para falar com alguém, era a paciência de girar o disco do telefone fixo, esperando o mecanismo voltar lentamente para a posição inicial a cada número discado.

Cada canto da minha casa de antigamente tinha sua alma: o filtro de barro na cozinha, a enceradeira que parecia querer levantar voo de tanto que vibrava, e quantas vezes não ri quando ela se soltava de minhas mãos e parecia estar possuída... as garrafas de vidro de leite de manhã cedo. O pãozinho quentinho da padaria, que comprava a mais, pois no caminho para casa ia comendo alguns... quentinhos, crocantes, deliciosos, os quais dividia com meu irmão.

Lembro do meu primeiro carro: um Fusca 1200. Ah, que orgulho! Aquele barulho característico do motor a ar era música para os meus ouvidos. Não tinha ar-condicionado, não tinha direção hidráulica, e a chave reserva vivia escondida em algum lugar do painel de metal. Mas ele me deu a liberdade. Rodamos quilômetros, colecionamos histórias e dividimos risadas. Numa cidade com tantas ladeiras, o que sofri com ele, subindo-as em primeira marcha e em zigue-zague, pois direto não tinha potência.

Olhando para essas velinhas hoje, percebo que a maior riqueza da minha jornada não veio da tecnologia que mudou, mas da base que me sustentou. Penso nos meus pais. Eles tinham pouca escolaridade, as mãos calejadas pela vida, mas uma sabedoria que nenhum livro acadêmico consegue ensinar. Nunca mediram esforços para me apoiar; o incentivo deles era o combustível que me fazia acreditar que eu poderia ir longe. Fecho os olhos e ainda consigo me ver sentado à mesa da sala, passando horas incontáveis jogando xadrez com o meu pai. Era o nosso momento de cumplicidade, um silêncio compartilhado cheio de afeto, enquanto, ao fundo, vindo da cozinha, subia o perfume delicioso da comida que minha mãe preparava com tanto carinho. Essa atmosfera de amor explodia de vez nos almoços de domingo. Aquela mesa cheia é a imagem mais viva da minha infância. Sentávamos todos juntos — eu, meu irmão, minha irmã e nossos pais. A gente conversava sobre a semana, dividia os planos, debatia bobagens e, acima de tudo, ria. Éramos sempre tão alegres. Não havia luxo, mas havia uma fartura de vida e de união que me moldou por inteiro. Lembro de minha mãe (que Deus a tenha) que sempre vibrava a cada conquista que eu obtinha, apesar da idade ela sempre fez questão de estar junto de mim e compartilhar minhas alegrias, e em meu baú de memórias, o sorriso dela por voos altos ou por bagatelas.

Essa minha longa caminhada fez brotar caminhos floridos, me presenteando com amigos e amigas preciosos, e me trouxe uma companheira de alma e uma esposa, ainda que separados, com quem ainda divido a vida - até que a morte nos separe. E o que dizer da minha filha? Ela, que mesmo em um sopro breve de tempo, me inundou com uma alegria ímpar, um amor que desafia o próprio relógio e permanece vivo em mim. E as minhas irmãs de quatro patas? Nossa! Elas são o suprassumo do afeto puro, pura alegria em forma de pelos. Olho para trás e sinto um desprendimento bonito: se a minha jornada findasse neste exato minuto, eu partiria com o coração transbordando de paz e gratidão. Tive — e tenho — tantas felicidades nesta vida, que não há conta no mundo capaz de registrar.

Hoje, aos 72 anos, cercado por modernidades que eu sequer conseguiria sonhar na infância, sinto que sou o resultado de cada jogada de xadrez com o meu pai e de cada almoço de domingo. Não sou um sobrevivente do passado; sou um entusiasmado habitante do presente que carrega um alicerce indestrutível de amor. Soprar essas velas hoje é agradecer por ter vivido tantas vidas diferentes dentro de uma só, e por ter tido a sorte de começar a minha nos braços de pais maravilhosos, é celebrar não apenas os anos que se somaram, mas a beleza de ter vivido tantas vidas diferentes dentro de uma só.

Que venham os próximos anos.

sábado, 26 de setembro de 2026

Luiz Damo (Semeando Trovas)

 

A face pode não ter
a mesma força do olhar,
mas, nela podemos ler,
o que o dono quer falar.

A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.

Ampla e plena liberdade
à humanidade Deus deu,
mas a sensibilidade
nem a todos concedeu.

Ante as rochas da imprudência
todo o sonho se tritura,
só resta à sobrevivência
destroços de uma aventura.

Às aves Deus tira o medo,
de voarem nas alturas,
diz aos homens, vos concedo:
luz para as noites escuras!

A velha e frágil escada,
quase perdeu seu valor
de conduzir à sacada
alguém pelo elevador.

A verdade que hoje buscas,
num passado tão distante,
está na imagem que ofuscas
todo o dia, a cada instante!

Ávida, à vida a alma segue,
busca o porvir tão sonhado,
num presente que prossegue
carregando o seu passado.

Cada dia que somamos
à caminhada vivida,
nova flor acrescentamos
no ramalhete da vida.

Conquistas vão se somando,
pela subtração da dor,
divide, multiplicando,
teu sentimento de amor.

Dentro e fora da família,
tudo gire em torno dela,
sirva ao mundo de estampilha
sendo à paz sua chancela.

Destemido, o sol mergulha,
no horizonte debruçado,
deita à terra, tal fagulha,
sendo por ela abraçado.

De uma indigesta amizade
muitas vezes nada resta,
nem arestas de saudade
sobram pra fazer seresta.

Diz quem ama, à parte amada:
esquecer-te eu não consigo,
sem ti sou menos que nada,
mais que tudo, eu sou contigo.

É depois de um tratamento
que o doente convalesce
e ao sumir o sofrimento
a saúde lhe aparece.

Faça a verdade imperar
sobre qualquer julgamento
e assim a chance de errar
pode ser zero por cento.

Frágil corpo os pais nos deram,
vida e sinais que eram seus,
o corpo, os filhos o enterram,
mas a essência volta a Deus.

Há quem queira ser modelo
de uma vivência exemplar,
luta tanto e por não sê-lo
passa a se autocontemplar.

Jamais posso imaginar,
ou projetar meu porvir,
sem ao passado voltar
e no agora me inserir.

Longínquas tardes amenas
com o rubor da pitanga,
trazem imagens serenas
do sol dormindo na sanga.

Livro! Tua estrela brilha,
sob o cosmos da cultura,
iluminas quem palmilha
as estradas da leitura.

Mantenha a chama do embate
na luta, sem se apagar,
siga em frente no combate
com o exemplo a propagar.

Mesmo fraca, a dor na luta,
avança e nos faz sofrer,
nunca, se a nossa conduta,
for mais forte e não ceder.

Na contramão do sucesso
segue lento o pessimista,
finge que exista progresso,
pensando ser otimista.

Nada igual, nem mais fecundo,
que plantarmos bons valores
deixando assim para o mundo
um legado aos sucessores.

Nada igual, nem parecido,
com a flor desabrochando,
o campo fica florido
na primavera chegando.

Não chores se a dor te aflige
e impede de à vida alçares,
qualquer luta esforço exige
para o objetivo alcançares.

Não tem criança que esconda
a predileção em ter,
um simples carro de lomba
pra brincar e se entreter.

Nas esquinas do passado
deixo um pedaço de mim,
por alguém vai ser juntado
depois de chegar meu fim.

Nas mãos dos transportadores
quantos frutos transportados!
Transportam grandes primores,
depois dos bens transformados.

Ninguém cai do seu cavalo
quando passa a conhecê-lo,
a não ser que sem domá-lo
pensa estar sobre um camelo.

Ninguém morra brutalmente
por qualquer bala perdida,
de uma escolha inteligente
surja a proteção da vida.

No campo, traça caminhos,
quem planta e supera o pranto
ceifa a dor do próprio espinho
que tenta ofuscar o encanto.

Num contexto mais moderno
o saber rompe a fronteira.
Não tem SIM que seja eterno,
nem um NÃO pra vida inteira.

O autor de um crime confesso,
quando aos tribunais, entrar,
tem nos autos do processo
tão pouco a lhe acrescentar.

O Brasil vê com reserva
as matas diminuírem,
enquanto o mundo as observa
de longe, também sumirem.

O leitor quando mergulha
no universo da leitura,
dela faz nova fagulha
a brilhar na noite escura.

Ontem, no homem, seu bigode,
era igual a um documento,
hoje, o que assina, mal pode,
dar aos atos provimento.

Os primeiros imigrantes
venceram hostilidades,
não foram beligerantes
mas guerreiros nas vontades.

O tempo transcorre ameno,
para quem a paz imprime,
nos traços de algo sereno
vê-se o bem que o mal suprime.

Para Deus jamais afirmes
que os grandes males são teus.
Aos males nunca confirmes
que eles são frutos de Deus.

Parta e desate as amarras,
busque do sol o esplendor,
pra colher noutras searas
os frutos de um sonhador.

Passam meses, surgem anos,
mudam séculos, milênios,
o homem elabora planos
não maiores que decênios.

Pedra solta, rola imersa,
na água turbulenta e fria,
rija, impune e controversa,
companheira à travessia.

Por trás dos ventos hostis
a varrerem a esperança,
ouve-se uma voz que diz:
não temeis, virá a bonança!

Quando ao consultório fores
buscando, à dor tratamentos,
não sejam somente às dores,
mas, também aos sentimentos.

Quando na vida avistares
fartas nuvens de ciúmes,
lembra, não passam de entraves,
sob a forma de tapumes!

Quem oferece uma flor
pode ser autor confesso,
dum ato que exprima amor
ou de carinho em excesso.

Quem tomar uma atitude
em não mais se alimentar,
vê enfraquecer a saúde
e o corpo debilitar.

Ramo algum é superior
que a planta, mas pode um dia,
se romper, se o vento for,
maior que a sua energia.

Se a luta parece insana
e a batalha perniciosa,
mude tal conduta humana
numa senda prazerosa.

Se beberes, não dirijas,
nem deixes que alguém o faça.
Para que, por nada erijas,
teu sepulcro numa taça.

Se calado alguém consente
não sente a mesma emoção,
de falar tudo o que sente
guardado em seu coração.

Se ensinares à criança
ser instrumento de paz,
no céu terás uma herança
que a ninguém a perderás.

Seja a luz da vida, o fulcro
e a morte um fruto tardio,
tudo o que ocupa o sepulcro
sejam restos de um vazio.

Seja como a vela acesa
num candelabro a brilhar,
siga à vida com firmeza,
sem medo de iluminar.

Se não mudas teu passado
muda o teu jeito de ser,
nisso podes ter mudado
o mundo sem perceber.

Só quem luta sabe o quanto
o dor pesa na derrota,
seu rosto banhado em pranto
reflete o que ela denota.

Surge o sol nos horizontes,
as estrelas vão dormir
e o lençol cobrindo os montes
retira-o pra se vestir.

Todo passo na alegria
se veste de brevidade,
mas, à dor, numa agonia,
parece uma eternidade.

Vejo à noite um lampadário
sempre à mesma hora a acender,
nunca muda de cenário
para o brilho acontecer.

Velho tronco decepado
com vestígios de abandono,
na impunidade, ceifado,
pelas mãos do próprio dono.

Vida plena, alguém alcança,
se calcada na virtude,
numa constante mudança
ascendendo à plenitude.

Vida, vivida com a alma,
é arte nas mãos do escultor,
chama que arde lenta e calma,
na imagem do Criador.

Vi nas areias, pegadas,
de alguém que me precedeu
e as minhas, quase apagadas,
ninguém as reconheceu.
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Luiz Damo (1954)
Luiz Damo é um destacado poeta, intelectual e trovador gaúcho, amplamente reconhecido no Rio Grande do Sul e no cenário nacional por sua intensa atuação na preservação e difusão da trova literária. Nasceu na cidade de Casca/RS, em 1954. Reside e concentra suas principais atividades literárias em Caxias do Sul/RS, desde fevereiro de 1976. Construiu uma sólida trajetória multidisciplinar de formação acadêmica realizada na Universidade de Caxias do Sul e outras instituições da região. Atuou como Técnico em Contabilidade. Possui Licenciatura Plena em Filosofia, com pós-graduação em Moral e Ética em Kant, além de formação em Teologia. Cursou também as faculdades incompletas de Ciências Contábeis e Ciências Jurídicas (Direito). 
O autor é um ferrenho defensor da trova literária. Ele atua distinguindo-a com clareza da trova repentista de gaudérios. Sua poética abrange temas tradicionais da trova, reflexões filosóficas, o cotidiano e a identidade cultural do imigrante. É uma figura central na Seção Caxias do Sul, exercendo papel de liderança e presidência na organização de concursos. Membro titular da Confraria Brasileira de Letras (CBL), no Paraná. Membro efetivo da Academia Caxiense de Letras (ACL), onde ingressou no ano de 1991. Integra também diversas outras confrarias e academias brasileiras de caráter literário. Possui dezenas de condecorações e classificações de destaque em importantes certames nacionais, como os conceituados Jogos Florais pelo Brasil. Conquistou prêmios, menções honrosas e classificações em concursos tradicionais como o Concurso de Trovas de Cachoeira do Sul e os Jogos Florais de Curitiba.
O poeta possui 11 obras editadas de forma individual e participação em mais de 50 antologias no Brasil e no exterior. Entre seus principais títulos de destaque estão: As Faces da Trova (Obra de referência conceitual sobre a trova literária); Celebrando com Trovas (Coletânea poética de sua autoria); Academia Caxiense de Letras: 40 Anos de História (Livro historiográfico sobre a instituição literária caxiense).
A relevância de Luiz Damo para a literatura reside em ser um guardião ativo da memória e da técnica formal da trova. Em uma época de modernizações estéticas, ele dedica sua trajetória a ensinar e popularizar as regras rígidas da trova lírica e da cartrova por meio de oficinas, projetos subsidiados (como "As faces da Trova") e concursos integrados à grande Feira do Livro de Caxias do Sul. Sua atuação ajuda a descentralizar e manter viva a produção literária no interior do Rio Grande do Sul, fomentando novos talentos na poesia.

Carolina Ramos (A Cadeira Velha)

Pela segunda vez, passou pela calçada oposta. Agora, em sentido contrário.

Aquela cadeira velha, abandonada à porta do casarão, atraia-o, irresistivelmente. Jogada fora, não havia dúvida. E o que é jogado fora, não é de ninguém. E o que era de ninguém, bem que poderia vir a ser seu.

Cruzou a rua. Não em linha reta. Faltou-lhe coragem.

Andou um pouco para adiante do objeto da sua fascinação e, então, atravessou. Voltou, sem pressa, em direção à cadeira. Pisava macio, como quem não quer nada.

Parou diante dela. Namorou-a. Linda! Forro de veludo cor de ouro. Desbotado. E o que importava? Quantos dias de glória já teria tido! Tocou-a com carinho. Só tinha um braço. A cadeira, naturalmente. E para que mais? Pernas finas, torneadas com requinte. Uma delas rachada. Este, possivelmente, o estigma da condenação. Prometia um tombo de surpresa. Rico não conserta. Remediado, sim. Pobre, como ele, não despreza sobras. A cadeira tinha estirpe. Vinha, por certo, de família abastada. Tomou a acariciá-la. Experimentou-lhe o peso. Não seria difícil carregá-la. Acomodou-a sobre os ombros. Chegou a assobiar, enquanto caminhava.

Ao pé do morro, a coisa complicou-se. O peso e a ladeira podem tornar-se aliados temíveis.

Engoliu a vontade de assobiar. O suor a escorrer em bagas. Os ombros a reclamar do peso. Entrar no barraco, pela porta estreita, também não foi fácil. Venceram o jeito e a determinação.

A visão da cadeira à cabeceira da tosca mesa, compensou qualquer esforço. Desbotada, rachada, sem um braço, mas, sua! A sua cadeira. O trono de um rei! Nem ousou experimentá-la. Antes, um bom banho. Caprichou na aparência, como nunca o fizera. Só então, sentiu-se digno de ocupar tão nobre assento.

Sentou-se com extremo cuidado. Divina!

Sentiu-se um rei! Um rei sem coroa, sem súditos, mas, em pleno domínio de sua propriedade.

Lembrou-se da "coroa". Aquela "coroa" bonita, que não lhe saía da cabeça... a viúva do vizinho.

Era só: — Oi, bom dia... ou: — Oi, boa tarde...

Nunca lhe dissera nada de mais íntimo, nem mesmo quando sentia dois olhos tigrados, procurando os seus.

Gostaria de convidá-la para conhecer o barraco. Perdia a coragem, tão logo a via.

E lá estava ela, com toda a exuberante graça de mulher vívida, a acarinhar a cabeça do cachorro pulguento. Chegou a invejá-lo!

— Ei, dona, quer ver o que eu trouxe, lá de baixo?

Ela sorriu. Pela primeira vez, via o vizinho lavado, penteado e de roupa limpa. Com um misto de malícia e brejeirice, cruzou a porta do barraco.

Orgulhoso, ele mostrou-lhe a cadeira, o seu trono.

E, por toda uma noite, foi verdadeiramente um rei!
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Carolina Ramos (1924)
CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho;  Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.
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Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras, etc.

Leon Eliachar (Aulas práticas para alunos teóricos)

A humanidade divide o seu tempo em duas partes: guerra e paz. Durante a paz, vive discutindo a guerra e durante a guerra vive implorando a paz.

A  guerra foi inventada por um sujeito que morreu na guerra. A paz ainda não foi inventada.

Há vários tipos de guerra: a guerra fria, a guerra quente,  a guerra morna, a guerra requentada e a guerra propriamente dita: dessa  ninguém escapa, porque todo mundo é convocado antes mesmo de começar a guerra.

Antigamente, a guerra era feita a pé: quando os soldados chegavam no país inimigo a guerra já tinha acabado. Hoje, a guerra é mais ligeira: basta apertar um botão que ela começa e acaba ao mesmo tempo - e quando acaba não se encontra nem o botão.

Durante a paz, os homens se preparam para a guerra, construindo tanques, aviões, submarinos, foguetes, táxis e ônibus elétricos.

Quem foge da guerra se chama desertor, quem fica se chama herói. O desertor foge da guerra pra não morrer nas mãos do inimigo, mas acaba morrendo nas mãos do amigo: é fuzilado. O fuzilamento é um processo de matar o sujeito que escapa da guerra - ao invés de morrer distraído, morre prevenido.

Antes de ir pra guerra, os médicos submetem os soldados a um exame físico completo: quem tiver boa saúde, pode ir e morrer tranquilo. Quando o homem se matricula na guerra, recebe um uniforme: quando entra na guerra, pinta o uniforme todinho pra ninguém ver que ele está de uniforme.

Existem guerras famosas: a de 14, porque sobraram catorze; a dos Cem Anos, que quando acabou só tinha velhinho, e a de 39 - que todo mundo pensa que acabou.

Antigamente, se fazia a guerra com baioneta calada, mas isso foi no tempo do cinema mudo. Hoje, a baioneta não só fala mas também canta - como se pode ver nos musicais de Hollywood.

Muitos combatentes são considerados malucos porque voltam pra casa com psicose de guerra, mas os psiquiatras não se preocupam a mínima com a psicose de paz - que é muito pior. E por incrível que pareça, o soldado mais conhecido da guerra é o soldado desconhecido.
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Leon Eliachar (1922 - 1987)
    Leonit Eliachar, imortalizado na literatura brasileira simplesmente como Leon Eliachar, foi um dos mais brilhantes escritores, cronistas e jornalistas de humor do Brasil. Autodenominado brincando como um "cairoca", ele marcou época na imprensa nacional com um estilo inovador, visual e repleto de nonsense. Nasceu na cidade do Cairo/ Egito em 1922. Teve um fim trágico e prematuro aos 64 anos. Foi assassinado no Rio de Janeiro em de 1987, vítima de uma emboscada armada por motivos passionais, crime encomendado por um fazendeiro paranaense.
Mudou-se com a família para o Brasil com apenas 10 meses de idade. Fixou residência e viveu praticamente toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Apesar de ser profundamente brasileiro em sua escrita, consta que ele nunca se naturalizou oficialmente. Leon iniciou na imprensa muito jovem, aos 16 anos. Atuou como jornalista, colunista, crítico de cinema, produtor de rádio e roteirista de televisão. Ele trabalhou nos principais veículos de comunicação de massa do país nas décadas de 1950 a 1980. Escreveu para revistas de grande circulação como O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Fon-Fon e Pif-Paf. Marcou época no histórico jornal Última Hora, onde assinava a página humorística "Penúltima Hora", que trazia o subtítulo satírico: "um jornal feito na véspera". Foi roteirista e autor de programas humorísticos nas grandes redes nacionais, incluindo as TVs Tupi, Excelsior, Rio, Globo e SBT, além das rádios Tupi e Mayrink Veiga.
Sua trajetória na literatura foi marcada por crônicas rápidas, aforismos, microcontos e, principalmente, pelo humor gráfico. Ele revolucionou o formato de seus livros ao misturar texto com diagramações inusitadas, colagens, fotografias e ilustrações. Devido ao seu perfil voltado ao jornalismo popular, à crônica de humor e ao rádio, não pertenceu às academias tradicionais de letras. Seu verdadeiro reduto intelectual eram as redações cariocas e a boemia literária, ao lado de grandes nomes do humor brasileiro. Atualmente, seu legado acadêmico está preservado no arquivo pessoal doado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Recebeu a Palma de Ouro (1956): O maior reconhecimento de sua carreira ocorreu na Europa, onde venceu o primeiro prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo, em Bordighera, Itália. Ele foi premiado por uma genial definição de humor. Publicou cinco volumes autorais marcantes e uma importante antologia em parceria: O Homem ao Quadrado (1960); O Homem ao Cubo (1963); A Mulher em Flagrante (1965); O Homem ao Zero (1967); 10 em Humor (1968): Livro antológico escrito em conjunto com a nata do humor nacional: Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Fortuna, etc.; O Homem ao Meio (1979)
A importância de Leon Eliachar reside em seu papel como pioneiro do modernismo gráfico no humor literário brasileiro. Ele antecipou conceitos de design e linguagem visual que hoje são comuns na literatura contemporânea. Eliachar tirou o humor do formato puramente textual da crônica clássica e o transformou em uma experiência visual, brincando com formas geométricas, tipografia e montagens fotográficas irreverentes. Ao lado de gênios como Millôr Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, ele usou a sátira inteligente e o nonsense para fazer a sociedade olhar no espelho. Suas piadas rápidas e "sacadas" ácidas expunham as contradições do cotidiano, da política, do sexo e da economia sem a necessidade de discursos longos. Sua obra provou que o humor gráfico e a crônica curta possuem altíssimo valor literário e sociológico.

Fontes:
Leon Eliachar. O homem ao zero. Publicado em 1967.
Biografia = TV Saudades; Wikipedia, Recanto das Letras, Museu da TV, Casa Rui Barbosa, etc.

Vicência Jaguaribe (Minipoemas)

 

A DOR PSICOLÓGICA

A dor entalada na garganta
exige uma providência.
Como foi parar na garganta
esta dor que nasceu
em um momento impróprio?
E existe momento próprio
Pra dor nascer e florescer?
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A ESPERANÇA

A esperança é a última que morre.
A minha nasceu prematura
E foi a primeira a morrer.
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A INFÂNCIA

Um à vontade
uma espontaneidade
com tempo marcado
uma eterna brincadeira.

Então, digam por que
existem traumas de infância?
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DESILUSÃO

Dançarinos de tango no salão.
Bandoneon tocando Por una cabeza.
Tomba a cabeça do bandoneonista.
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DOR FÍSICA

A sensação da impotência.
A certeza da dependência.
Um esgar e um gemido.
A vida suspensa por algum tempo.
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ENCONTRÁRIOS

Ele, impressionista,
ela, meteorologista.

Mal se conheceram
pintou um clima.
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O DIA SEGUINTE

O dia seguinte…
Há dias para os quais
não deveria haver um dia seguinte:
o da morte de uma pessoa amada,
o de uma derrota ou o de uma decepção,
o do Natal.
O dia seguinte é avassalador
como um tsunami.
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E AGORA, JOHN?

Homem nenhum é uma ilha…

e esta porção de mim 
cercada de mágoa
por todos os lados?
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ESCÁRNIO

Arrancaste de mim a alegria.
Amputaste-me a vontade de viver.
Decepaste-me a confiança.
O corpo esquartejado
expuseste ao escárnio público.
Ao menos deste aos restos mortais
a bênção de uma sepultura?
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HÓSTIA

Tem dias que tudo que se quer
é um pão com manteiga na chapa,
um pingado e uma cena de ciúme.
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REMORSO

Ânsia de vômito
Tontura
Dor de cabeça
– Uma enxaqueca psicológica.
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SONHO

Alguns metros de tule
Um espaço aberto
Passos de balé clássico.
Toca estridente o despertador.
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Vicência Jaguaribe (1948)
VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE nasceu em 1948, em Jaguaruana (CE), no Vale do Jaguaribe. Embora tenha raízes profundas em sua cidade natal,, também viveu nas cidades vizinhas de Russas e na capital, Fortaleza, locais onde realizou seus estudos. Dedicou toda a sua trajetória ao magistério. Graduou-se em Letras e obteve o título de Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como professora da educação básica (curso médio) e, posteriormente, consolidou sua carreira no ensino superior como Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará (UECE), onde hoje se encontra aposentada. Suas pesquisas acadêmicas focam em Estilística e Literatura Brasileira.
Leitora voraz desde a infância, desenvolveu uma sólida produção literária voltada especialmente para os gêneros da crônica, do ensaio acadêmico e da poesia. Seus textos frequentemente exploram o cotidiano, temas sociais, o papel da mulher na sociedade e a forte identidade regional ligada ao Vale do Jaguaribe. Ela é uma colaboradora ativa de portais literários digitais, como o Recanto das Letras. É membra fundadora e imortal da Academia Jaguaruanense de Letras, onde atua ativamente na preservação da memória e no incentivo à leitura na região de sua terra natal. Por ter uma carreira fortemente atrelada ao meio acadêmico universitário e à escrita de crônicas regionais, seu reconhecimento se dá principalmente através de homenagens institucionais, deferências na Universidade Estadual do Ceará e o prestígio comunitário no circuito literário do interior cearense, não acumulando grandes prêmios comerciais nacionais de editoras.
Além de dezenas de crônicas, poesias e artigos publicados em jornais, antologias e plataformas literárias como "Fazendo omelete num país patchwork" e "Como se fosse uma visita", destaca-se sua contribuição na organização de coletâneas, ensaios literários em congressos acadêmicos e materiais voltados para o estudo da Língua Portuguesa e Estilística.
A importância de Vicência Jaguaribe reside em seu papel como guardiã da memória cultural do Vale do Jaguaribe e como ponte de conhecimento. Através das salas de aula da UECE, ela formou gerações de novos professores e pesquisadores da literatura cearense. Na escrita criativa, suas crônicas e ensaios dão voz à identidade do interior nordestino com um olhar sofisticado e sensível, provando que a literatura de alto nível no Ceará pulsa com força para além das fronteiras da capital, Fortaleza.

Fontes:
Colaboração da autora, em 19. janeiro. 2010.
Biografia = Memórias de Jaguaruana, Recanto das Letras, Escavador, etc.

Carlos Drummond de Andrade (Contos diversos) 1

NOVO DICIONÁRIO

Qual não foi o pasmo de Matias ao abrir em casa o dicionário de português que comprara para o filho colegial, e verificar que ele era todo feito de palavras cruzadas.

— O garoto não vai estudar palavras cruzadas, vai estudar português — explicou ao balconista da livraria, pedindo a troca do volume.

— O dicionário está certo — respondeu-lhe o rapaz.

— Como está certo, se não começa pela letra A e termina pela letra Z, a exemplo de todos os dicionários de português desde que a língua existe?

— Estou vendo que o senhor não acompanhou a evolução do português. Com as últimas aquisições da ciência linguística e as recentes pesquisas lexiológicas, e mais o uso literário da língua, o português é hoje considerado jogo de palavras cruzadas. Cruzadíssimas.

— Hem? Não estou entendendo.

— Não precisa entender, desde que o senhor tenha habilidade para decifrar palavras cruzadas. Mestres universitários da maior categoria assim resolveram, e os editores lançaram dicionários de acordo com os novos moldes. Procure ler os tratados e revistas de lexicologia, os estudos sobre linguagem, os ensaios de crítica literária, as dissertações universitárias. Tudo palavras cruzadas. Seu filho ainda não tem a nova gramática cruzacional? É indispensável. E muito cuidado no cruzamento das ruas. As placas também vão cruzar.
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O AMOR DAS FORMIGAS

— O amor das formigas, você já observou o amor das formigas? — perguntou Otávio a Isadora.

– Não, Isadora nunca observara o amor das formigas.

— Nem eu — confessou Otávio. — Aliás, nunca ninguém observou o amor das formigas — sentenciou.

— Mas os entomologistas… — ponderou Isadora.

— Os entomologistas pensam que observaram — retrucou Otávio —, mas as formigas são muito discretas. Não são como os homens e as mulheres, que amam em público.

A conversa continuava nessa trilha de formiga, em zigue-zague, quando a formiga apareceu na ponta da toalha de mesa e foi subindo.

Outra formiga veio em seguida. As duas caminharam às tontas, depois juntaram as cabecinhas num movimento elétrico, e se afastaram, cada uma para o seu lado.

— Você acha que elas se amaram? — perguntou Isadora. — De modo algum — respondeu Otávio. — Trocaram sinais de serviço, apenas. E daí, querida, ninguém ama com a cabeça, é exatamente o contrário: cabeça atrapalha.

— Pois eu acho o contrário do contrário — disse Isadora. — As formigas podem ser mais evoluídas do que nós, e amar acima do coração, de um modo perfeito.

Mas a conversa não conduziu a nada, e os dois tomaram chá.
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Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.

Fontes:
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Publicado em 1981
Biografia = Wikipedia, Carlosdrummond.com.br, e-biografia, Brasil Escola, Rio Memórias, Academia Brasileira de Letras, etc.

Nilto Maciel (Homens de negócios)

 A alta do dólar deixou Adão muito feliz. Aquilo merecia comemoração. E convidou sua mulher para jantarem fora. No Restaurante Business.

A felicidade do marido de pronto contagiou Cândida. Nem queria saber que mecanismos da economia haviam levado dinheiro aos bolsos de Adão. Importavam o presente e o futuro próximo: o jantar e mais joias, vestidos, viagens…

Sentaram-se à mesa e trocavam ideias sobre o primeiro drinque. Ele preferia uísque. Ela pensava em champanhe, vinho ou licor.

Passava próximo à mesa deles o colunista social Patrício. E parou para cumprimentá-los.

– Já me falaram de sua vitória de hoje. Parabéns!

Adão sorriu e disse duas ou três palavras sem sentido aparente. O outro seguiu em frente.

– Não sei como ele vai conseguir ler aquele livro.

– Que livro?

– Você não viu?

Patrício conduzia um livro de título em inglês. Com certeza sobre economia.

Finalmente decidida pelo champanhe, Cândida voltou a sorrir. Os olhos de Adão não a viam, porém. Preferiam ver as pessoas em volta de outra mesa. Pareciam muito mais alegres que sua mulherzinha. Especialmente o colunista.

– Ele está falando de nós dois.

– Quem, meu bem?

Esvaziada sua taça, Adão perguntou se seria conveniente tomar outro uísque.

– E o jantar?

Ele nem percebeu o sentido da pergunta. Olhava para os movimentos de Patrício. Levantara-se, afastara a cadeira e caminhava no rumo deles.

– Ele está vindo para cá.

– Quem, meu bem?

O colunista queria apresentá-los a uns amigos. Ora, a noite devia ser de muita alegria. Por que não se juntarem todos?

– Vamos então para a mesa de vocês.

Cândida sorriu. Seu champanhe já devia estar morno. As grandes letras do livro de Patrício brilhavam: Galbraith ou Gallbrat?

Chegados à grande mesa, o colunista tratou de apresentar Adão e Cândida aos outros. Eram três senhores: Fausto, Celestino e Petrônio. Fumavam e bebiam. Uma garrafa de uísque quase vazia balançava no centro da mesa. O odor de cigarros fumados infestava o ar. Os cinzeiros estavam repletos de pontas.

Não havia nenhum indício de que fossem jantar. O garçom não parava de servir bebidas. Das bocas dos homens os sons irrompiam feito lavas. Como se ninguém ouvisse ninguém. E ora riam, ora pareciam zangados.

– Vamos sair daqui, meu bem – murmurou Cândida. – Estou tão cansada…
Ao mesmo tempo, um dos homens dizia qualquer grande verdade. Pois os outros, calados, olhavam para ele.

– Se não for a alma, é o espírito – completou Fausto.

E todos gargalharam e fizeram um brinde à inteligência do médico. Exceto Cândida, que repetiu o apelo.

Adão, porém, parecia mais interessado na filosofia dos negócios. Aqueles senhores pertenciam ao seu mundo. O jantar ficaria para depois. Afinal, queria comemorar a alta do dólar. E nada mais oportuno para a ocasião do que um legítimo scotch.

Derrotada, Cândida sorriu e olhou para trás. E viu mesas, cadeiras e pessoas como aquelas de seu ambiente. Havia até um belo rapaz parecido com Adão. Apenas mais novo. E uma bonita moça parecida consigo. Talvez namorados ou noivos. Deviam se amar. Como ela e Adão se amaram. A primeira noite e o sonho romântico a desfazer-se. O amor não passava daquilo. Animalidade pura.

Quando se voltou para a frente, um olho malicioso piscava para ela. Buscou o marido, sua couraça. Ele gargalhava, como se tivesse uma convulsão. Um dos homens dava palmadas nas costas de outro.

– A do Armando é pior, meus amigos.

O olho malicioso deixou de piscar, Adão enxugou os seus e o homem das palmadas coçou as costas.

– Dizem que sustenta um pobretão de vinte e poucos anos.

Mais dois ou três comentários sobre a mulher de Armando, e Patrício aproximou a boca do ouvido de Fausto. Quase não disse nada. Ciciou apenas. Logo, porém, chegou aos ouvidos de Celestino uma versão das palavras do colunista social. Não tardou, até Cândida se inteirou do teor do cochicho.

Por último, Adão alcançou a ponta da maledicência. E, alegando cansaço e embriaguez, decidiu ir embora.

Com a retirada do casal, as gargalhadas voltaram à mesa.

– É mesmo verdade, Patrício?

– Ora, minhas informantes não mentem.

Mais uísque beberam, mais cigarros fumaram, mais palavras disseram. Fulano gostava de domésticas, sicrano de mocinhas, beltrano de rapazes.

– Você gosta de quê, Celestino?

Houve risadas e a expectativa da resposta terminou impondo silêncio.

– Não vai dizer? – insistiu Patrício.

Celestino engoliu dois dedos de bebida.

– Ele adora brincar com as filhinhas do Fausto.

– Mentira! Mentira, seu safado!

– Não, não é mentira. Mas não fique nervoso. Você não será levado à fogueira. Não estamos mais na Idade Média.

Enquanto o colunista falava, os outros bebiam sofregamente. Celestino, porém, não quis ouvir a lengalenga do companheiro. E retirou-se. No banheiro trancou-se. Olhou para o espelho. Aquele homem feio não precisava mais viver. Retirou o revólver do bolso e apontou para o ouvido.

O estampido chamou a atenção dos garçons e fregueses do Business. Houve correria, confusão.

Horas depois, Adão e Cândida acordaram assustados. Ao telefone, uma voz trôpega falava da morte de Celestino. E eles deveriam prestar declarações à polícia.
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Nilto Maciel (1945 - 2014)
O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nelson de Oliveira (org.). 15 cuentos brasileiros. tradução de Federico Lavezzo. Córdoba/Argentina. Publicado originalmente em 2007.