quinta-feira, 30 de julho de 2026

Asas da Poesia * 207 *

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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Mesmo que a mágoa te doa, 
esquece esta mágoa agora
que a mágoa, de quem perdoa,
se desfaz e vai embora!
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Poeta e o Tempo

Vejam os anos que o teu corpo trazem,
quantas batalhas passadas,
lindas memórias na tua alma jazem,
pelas estradas que foram trilhadas.

Mãos que esculpindo velhos versos fazem
cantar o vento pelas madrugadas.
As brancas nuvens no teu teto correm,
deixando as cores quase desbotadas.

O tempo passa mas a voz resiste,
poeta santo que a beleza prega,
neste corpo onde o rancor não existe.

A tua mão que tanto amor entrega
escreve o canto que o teu peito assiste,
enquanto à noite, solitário, navega.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Fantasias são castelos
construídos com areia;
quando eles se tornam belos,
se perdem na maré cheia.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ ES

Passageira

Você 
chegou
de repente...
vindo  
do nada
e eu, sorri
de felicidade
e encantamento...
Contudo, 
do nada, você se foi
e, ainda agora,
aqui estou preso,
preso e amarrado.
nessa saudade enorme
que você deixou
largada... 
contudo, bem sedimentada 
no meu sofrimento…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ DAMO
Caxias do Sul/RS

Quando um debate começo
e a ignorância estufa o peito,
peço vênia e me despeço
de quem falta com respeito.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Primavera

Primavera.
Amanheceu poesia
tudo sorria.
Dentro de mim,
o velho menino
sozinho de sempre.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES

Epígrafe

Aqui jaz um poeta – a contragosto -
último verso escrito, por Soares,
ainda em vida e… plena por suposto,
gozando de alegria com seus pares…

Mesmo que eu goste tanto dos pomares,
desses jardins florindo em todo agosto,
desse arrebol bonito que o sol posto
deixa pintando as tardes sobre os mares…

Mesmo que em tudo eu veja vida e graça,
inexoravelmente o tempo passa,
e meus escritos, sei… serão dispersos.

Por isso eu fiz meu verso derradeiro,
que alguém o entregue às mãos do irmão coveiro…
Que a lapide eternize um dos meus versos!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Que, afinal, a paz se faça
e, num mundo sem rancores,
em vez de fogo e fumaça,
os canhões atirem flores!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Zelo de escritor

Papel, caneta e um tema ao seu dispor…
Decide desdobrá-lo em ricas frases;
concatenar palavras eficazes 
e apresentar um texto de valor.

Na busca dos vocábulos capazes 
de elucidar o assunto, o atento autor
que escreve tendo em vista o seu leitor,
rabisca… e anula os termos não sagazes.

Perscruta o escrito, ainda pensativo…
“Equivocou-se em seu entendimento,
ou o argumento aflora, persuasivo?…”

Importa a quem escreve, discernir
que, expor ao mundo o seu fiel talento,
inclui-se na missão de bem servir!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EMÍLIA POSSÍDIO
Fortaleza/CE

Não sigo a trilha sozinho,
tenho irmãos para abraçar,
a cada um com carinho
quero um presente ofertar.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Magia de escrever

O verso, quando grita, não consigo 
deter o seu impulso apaixonante,
elevo o pensamento e vão comigo
as emoções que afloram nesse instante.

Do gáudio ao sofrimento, a verve instigo,
consinto que a palavra se agigante,
transcenda a realidade, seja abrigo
porque componho para ser viajante.

A chama inspiradora não definha
depois de acesa e erijo, linha a linha, 
um monumento às artes, meu prazer.

Da gênese ao desfecho me desnudo,
divago sem pudor e entrego tudo,
servido da magia de escrever.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
HÉLIO PEDRO DE SOUZA
Caicó/RN

De Deus provar a existência
com a absoluta certeza,
basta se olhar a imponência
das obras da natureza.
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Soneto de
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ

Enigma
 
Seu olhar  já não têm  tanta   expressão
como  existia  nele   antigamente ...
e eu busco desvendar por que razão
o tempo o fez ficar tão diferente.

Malgrado  não  se  encontre explicação,
para exprimir o seu olhar ausente,
apelo para a voz do coração,
e a resposta não vem, infelizmente...

 A  mágoa embarga a voz, turba os sentidos ...
e inventa   pensamentos proibidos
que até você se nega a confessar ...

No anseio de  entender  tanta mudança,
eu me apego  ao milagre  da esperança
de ler frases de amor em seu olhar …
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Neste mundo de tormentos,
apesar da vida dura,
nunca faltem os momentos
para o culto da ternura!...
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal

O meu beijo queima a tua pele como o sol 
Refresca como o rio que sentes em ti
Gosto de te ver feliz,
posso ser rouxinol
canto de manhã na janela do teu quarto
Para te acordar e te fazer sorrir
Para que sintas o calor do sol
Não esqueças o meu toque
Suave e profundo
Quero conquistar o teu mundo…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ORLANDO BRITO
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA

Sonho um mundo de homens puros,
sem fronteiras, sem entraves,
onde as casas não têm muros;
onde as portas não têm chaves.
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Poema de 
SÔNIA CARDOSO
Ponta Grossa/PR

Logro 

O Logro
Do malogro 
Insiste 
Na desistência 
No deixar-se ir 
Mas insistente 
Persistente...
Persisto 
Proseando, poetando 
Plantando 
Amando.
Dane-se o malogro.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
A.A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Hoje os rios se parecem
com certos tipos sabujos:
quanto mais descem, mais crescem,
quanto mais crescem, mais sujos.
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Poema de 
VIVALDO TERRES 
Itajaí/SC

A velha casa

Saudades sinto eu da velha casa,
Em que outrora nos serviu de teto amado,
Quando nos tempos de casados,
Não cotávamos com o fim do nosso amor,
Mas que infelizmente tudo acabou.

Hoje meditando um pouco... 
...me deu o desejo de passar por lá!
Para relembrar os momentos... 
Que o tempo não esqueceu!
Que foram lindos, vividos por você e eu.

A casa, a velha casa quase deserta,
Parece-me desolada e triste,
Vivendo de um passado tão bonito,
Mas que infelizmente não mais existe.
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Mensagem na Garrafa * 202 * = Palavras ao vento

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AUTOR ANÔNIMO

Um senhor, há muito tempo, tanto falou que seu vizinho era ladrão que o rapaz acabou sendo preso! Dias depois descobriram que era inocente. O rapaz foi solto e processou o homem. No tribunal, o velho diz ao juiz:

- Comentários não causam tanto mal, senhor juiz...

E o juiz respondeu:

- Escreva os comentários que o senhor fez num papel, depois pique-o e jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença.

O senhor obedeceu e voltou no dia seguinte. Antes da sentença, o juiz diz:

- O senhor terá de catar todos os pedaços de papel que espalhou ontem.

O velho responde:

- Não posso fazer isso. O vento deve tê-los espalhado, já não sei onde estão.

O juiz então diz:

- Assim, desta mesma maneira, um simples comentário pode destruir a honra de um homem, a ponto de não podermos mais consertar o mal. Que lhe sirva a lição.

E ministrou-lhe uma pena de prisão.

Marcelo Henrique Marques de Souza (A gangorra)


Depois de velho, visitava a velha cidade da infância. Digladiava-se em silêncio. Por um lado, tudo tão diferente, o progresso passando a perna nas lembranças; por outro, o contraste que algumas ruas de terra batida resistentes produziam com a distância estrangeira a que se submetera, ao escolher a cidade grande, há mais de três décadas.

Ao contrário do que geralmente acontece, foi ele a abandonar a cidade natal e não os filhos. Plantou as sementes e cortou as raízes. Voou, folha de outono, a trair as cercas de casa.

Abandonou o ritmo compassado do pequeno lugarejo, para aportar no mar de ilhas nômades da selva urbana. Trocou o povoado solitário pela solidão compartilhada da terra das multidões.

Queria, entretanto, visitar o neto. Recebera-o em casa, quando ainda de colo, mas desejava vê-lo andar com as próprias pernas, tropeçar nos próprios impasses, sem o abrigo excessivo de todos aqueles colos.

O neto devolveu-lhe o abraço com um sorriso tímido e um silêncio respeitoso, desses de quem passa pela ponte de um rio imenso. E então o velho sentenciou, Vais com o vô, dar uma volta na praça. O menino, de lá de baixo dos seus seis anos, olhou para a mãe, à espera do sinal verde. – Voltem para o almoço...

A praça tinha traços do passado e do presente. O coreto permanecia, mas com outra pintura. A velha estátua do poeta ainda servia de palanque ao sarau dos pequenos pássaros. Enquanto que os velhos brinquedos, gangorras, balanços e cubos labirintos, agora dividiam espaço com uma espécie de horto, separado do resto por uma grade comprida, porém espaçada.

Depois de passear um pouco, avô e neto decidiram, em silêncio, pela gangorra. Uma forma de conciliarem o afã do menino com o cansaço do velho.

Nas grades do horto, insinuava-se uma comprida trepadeira, natureza que insiste, apesar de todo o espaçoso mundo humano. O menino fitou-a com a escada dos olhos, enquanto descia no suave balé da gangorra.

Os olhos do velho buscavam o nó que ancorava o encontro. A esperança de que o neto crescesse livre dos tropeços do destino. Sentimento que nutria mais por obrigação do que por experiência. Sabia que o destino não admite delírios retilíneos. Que a vida acaricia, mas também agride.

Conduzia a gangorra com cautela, distância segura dos extremos. O neto ainda perdia os olhos nas curvas da estranha corda vertical.

Na cordilheira dos instantes, o sol abraçava o ambiente inteiro. O dia corava e corria, pincel de pequenos plágios. O baralho dos velhos, as mães e as proles, coração da vida que pulsa.

Somos todos analfabetos de futuro. E, entretanto, como somos também algo reféns do passado, deliramos o presente, a exigir redundâncias em excesso. O avô desenhando, dedos de Narciso, o asfalto do porvir do neto. Ao mesmo tempo em que sabia que no mapa do tempo não há estrada sem neblina, buracos ou encruzilhadas febris.

Vô, essa corda cresce até o céu?, o menino interrogava, sem desgrudar os olhos do topo do horto. Uma dessas perguntas que foge do script. Teatro sem roteiro. Esse voo da infância, que desconhece a gaiola da gravidade.

Eu nunca vi nenhuma chegar ao céu. Mas quem sabe?... Essa um dia vai chegar...

Nesse instante, um avião cortou os céus. Como se sonho da trepadeira a enfeitiçar a cena. Gritava a sua pressa, ignorando a mesma gravidade que um dia desceria o menino da sua liberdade sem mapas. A mesma gravidade que agora cambaleava da estrada firme do avô, que vacilava entre a planta e a aeronave.

Um pequeno tranco trouxe o velho de volta. O neto caído, subitamente. O corpo pesou para frente, tombando expatriado na gangorra. Solavanco violento no pequeno coração. Era grave. Todos os projetos pleonásticos perdiam agora o sentido. Era preciso correr. Antes que a trepadeira chegasse ao seu destino cedo demais.
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MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA é um escritor, ensaísta, poeta, pesquisador e professor brasileiro, cuja trajetória ganhou repercussão pública não apenas por sua produção intelectual, mas também por sua comovente história de superação pessoal contra a depressão severa. Nascido em 1975 reside e atua profissionalmente na cidade do Rio de Janeiro, com fortes vínculos na Zona Norte (bairro da Tijuca). Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Candido Mendes em 2006. Concluiu o mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atuou fortemente na educação básica e no ensino superior como professor de Filosofia, Literatura, Redação e Teoria em faculdades de pedagogia e colégios particulares no Rio de Janeiro. Diagnósticos de depressão profunda iniciados em 2007 culminaram na perda de seus empregos. Entre 2018 e 2019, o professor enfrentou uma crise financeira extrema e passou a viver temporariamente em situação de rua na Avenida Maracanã (Tijuca), carregando consigo apenas seus livros e referências filosóficas. A repercussão do caso gerou correntes de solidariedade para sua reinserção social e médica. 
Sua escrita transita principalmente pelo ensaio acadêmico, crônicas, contos e pela poesia reflexiva. É autor de pelo menos oito livros publicados ao longo de sua carreira, podendo-se destacar: "A viralatice brasileira: transformática para o Quarto Império": Importante dissertação e ensaio publicado via Repositório Institucional da UFJF, onde analisa criticamente o "complexo de vira-lata" sob a ótica da identidade nacional; Textos e contos avulsos como "No fundo da estante". Embora seja um autor prolífico com múltiplos livros editados e reconhecido no meio universitário da comunicação/letras, Marcelo construiu sua carreira de forma majoritariamente independente e acadêmica, não figurando nos registros tradicionais das grandes academias jurídicas ou imortais de letras, nem com premiações comerciais de grande porte.
A real relevância de Marcelo reside na intersecção entre a erudição clássica e a vulnerabilidade humana. Mesmo nos momentos mais difíceis de sua condição psicossocial, ele manteve a produção e a defesa do livro como ferramenta de dignidade. Sua pesquisa sobre a comunicação e a "viralatice" no Brasil ajuda a compreender as dores da cultura e da política nacional. Na esfera social, sua história tornou-se um símbolo contemporâneo urgente sobre a necessidade de suporte à saúde mental de professores e intelectuais no país.

Fonte:
Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (org.). Coletânea de contos & crônicas.. Vitória : EDUFES, 2015. (Coleção II Prêmio UFES de Literatura)
Biografia: Escavador, Portal R7, II Prêmio UFES,  O Globo.

Minhas Trovas Premiadas * 6 *

 

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JOSÉ FELDMAN (71), trovador desde 1991, pertenceu à Seção São Paulo/SP, Delegacias de Arapongas/PR e Campo Mourão/PR, Delegado de Ubiratã/PR. Radicado em Maringá/PR desde 2011, representa a cidade de Floresta/PR

Anton Tchekhov (No outono)


Anoitecia.

Na taberna do tio Tíkhon estava um grupo de cocheiros e peregrinos. Escorraçara-os para dentro da taberna a chuvada outonal e o furioso vento molhado que fustigava as caras como um chicote. Os viajantes encharcados e extenuados sentavam-se nos bancos corridos ao longo das paredes e, ao som da ventania, dormitavam. Pintava-se em todas as caras o enfado. Um dos cocheiros, rapaz de cara bexigosa e aranhada, tinha sobre os joelhos uma concertina molhada: tocou, tocou, e parou.

Por sobre a porta, à volta da lanterna baça, ensebada, rodopiavam salpicos de chuva. O vento uivava como um lobo, gania e, pelos vistos, tentava arrancar dos gonzos a porta da taberna. Do terreiro chegava o bufar dos cavalos e o chapinhar na lama. Estava úmido e frio.

Por trás do balcão sentava-se o próprio tio Tíkhon, um mujique alto, carrancudo, com uns olhinhos sonolentos e balofos. Diante dele, do lado de cá do balcão, estava um homem dos seus quarenta anos, vestido de sujo com tudo o que há de mais barato, mas à maneira dos intelectuais. Trazia um sobretudo de Verão amarrotado e enlameado, calças de algodão estampado e galochas de borracha. Calçadas sem meias. Tremiam-lhe como de sezões a cabeça e as mãos metidas nos bolsos e os cotovelos magros, aguçados. De vez em quando uma convulsão ligeira percorria-lhe todo o corpo magro, desde o rosto terrivelmente macilento até às galochas de borracha.

— Deita-me um, por amor de Deus! — pedia a Tíkhon num tenor quebrado, rangente. — Um copinho só ... esse pequenino. A crédito, eu depois pago!

— Esquece ... O que há mais por aqui são tipos como tu, uns bandalhos!

O bandalho olhava para Tíkhon com desprezo, com ódio. Se pudesse, matava-o!

— Tenta perceber, seu estúpido ignorante! Não sou eu quem pede, são as minhas entranhas que pedem, como se diz na tua linguagem de mujique! Vê lá se fazes por perceber!

— Não temos cá nada que perceber... Desanda daqui...

— Se eu não beber agora, nota bem, se eu não satisfizer a minha paixão, posso cometer um crime! Só Deus sabe o que eu posso fazer! Tu, vilão, já viste na tua vida taberneira muita gente bêbada: será que, até hoje, ainda não percebeste que gente é essa? São doentes! Acorrenta, espanca, esfaqueia essa gente, mas dá-lhe vodka! Está bem, eu peço-te, encarecidamente! Faz-me o favor! Humilho-me ... Santo Deus, o que eu me humilho!

O bandalho moveu a cabeça e cuspiu devagar.

— Venha o dinheiro, então haverá vodka! — disse Tíkhon.

— Onde é que eu arranjo o dinheiro? Gastei tudo na bebedeira! Tudo até às últimas! Só me resta o sobretudo. Não te o posso dar, por baixo estou em tronco nu ... Queres o chapéu?

O bandalho estendeu a Tíkhon o seu chapelzinho de pano grosso donde assomava nalguns sítios o forro de algodão. Tíkhon pegou no chapéu, examinou-o e abanou negativamente a cabeça.

— Nem dado ... — disse. — Lixo ...

— Não gostas? Se não gostas, então dá-me fiado. No caminho de volta da cidade pago-te os cinco copeques. E que te engasgues depois com a moedinha! Engasga-te!

— Estás a ver o malandro que tu és? Que espécie de homem és tu? O que vieste cá cheirar?

— Quero um copo. Eu não, quem quer é a minha doença! Vê se compreendes!

— Por que me incomodas, hã? Sois muitos os bandalhos por esse caminho fora! Vai, vai pedir a esses cristãos que te deem alguma coisinha por amor de Deus, se quiserem, que eu, por amor de Deus, só dou um bocado de pão. Velhaco!

— Chupa-lhes tu o sangue, aos pobres, que eu ... nem penses! Não serei eu quem os vai depenar! Eu, não!

O bandalho interrompeu de repente o seu discurso, ficou muito vermelho e dirigiu-se aos peregrinos:

— Aliás, a ideia é boa, cristãos! Quem me pode doar cinco copeques? São as minhas entranhas que pedem! Estou doente !

— Bebe água — o rapaz da cara bexigosa soltou uma risada.

O bandalho sentiu vergonha. Tossiu e calou-se. Um minuto depois já andava à volta de Tíkhon a implorar. Por fim desatou a chorar e já propunha o sobretudo encharcado por um copinho de vodka. Na escuridão não se lhe viam as lágrimas e ninguém aceitou o sobretudo, já que estavam na taberna peregrinas que não quiseram ver a nudez do homem.

— Que faço agora? — perguntou o bandalho numa voz desesperada. — O quê? Tenho de beber um copo sem falta. Senão cometo um crime ou suicido-me ... O que faço agora?

Deu uns passos pela taberna.

Ouviam-se os guizos de um carro da posta a aproximar-se. O carteiro, todo molhado, entrou, emborcou um de vodka e saiu. O carro da posta seguiu o seu caminho.

— Dou-te uma coisa de ouro — dirigiu-se o bandalho a Tíkhon, ficando de repente pálido como um lençol. — Dou-te isto, pronto. Seja ... Bem sei que é ignóbil, que é nojento da minha parte, mas toma ... É uma ignomínia que eu faço, mas privado das minhas capacidades mentais ... Até o tribunal me absolveria ... Toma lá isto, mas com uma condição: depois devolves-mo, quando eu voltar. Entrego-to na presença de testemunhas ...

O bandalho meteu a mão molhada ao peito e tirou um pequeno medalhão de ouro. Abriu-o e relanceou os olhos pelo retrato.

— Devia tirar daqui o retrato, mas não tenho onde guardá-lo, estou todo encharcado. Pronto, rouba-me assim com o retrato, c'os diabos. Mas com uma condição ... Meu caro, meu querido ... peço-te ... Não toques neste rosto com os teus dedos ... Imploro-te, querido! Perdoa-me a grosseria, fui mal educado ... Sou um estúpido ... Não lhe toques com os dedos nem olhes para este rosto ...

Tíkhon pegou no medalhão, olhou para a marca de contraste e meteu-o ao bolso.

— Às tantas, relógio roubado — disse, enchendo o copo. — Está bem ... Bebe ...

O alcoólatra pegou no copo, fitou-o com um brilho nos olhos, na medida em que uns olhos turvos de bêbado podiam brilhar, e bebeu ... bebeu sentidamente, num compasso espasmódico. Agora, que tinha pago a bebida com o medalhão, baixou os olhos envergonhados e afastou-se para um canto. Instalou-se no banco ao lado de uma peregrina, encolheu-se, fechou os olhos.

Passou meia hora, em silêncio. Só a bulha do vento na chaminé, cantarolando a sua rapsódia outonal. As peregrinas começaram a rezar a Deus e a acomodar-se debaixo dos bancos para dormir, vagarosas. Tíkhon abriu o medalhão e não tirava os olhos da cabecita de mulher que, da sua moldurazinha dourada, sorria para a taberna, para Tíkhon, para as garrafas.

No pátio rangeu uma carroça. Ouviu-se um «xó-ó-ó!» e alguém a chapinhar na lama... Pela taberna irrompeu um mujique baixote de samarrão comprido e barba aguçada. Vinha encharcado e sujo.

— Enche aí! — gritou, batendo com a moeda no balcão. — Sai um «madeira», do legítimo! Enche!

E, rodando num pé com galhardia, virou-se e encarou toda a assembleia.

— Derretidinhos como açucre, meus lindos, meus pátegos! Acuados c'oa chuva, seus bebedolas! Que mimosinhos! E este, que melro é este?

O mujique pequenote deu um salto na direção do bandalho e espreitou-lhe para a cara.

— Esta agora! O meu amo! — disse. — Sernion Serguéitch! O patrão! Então? Por que raio passa o tempo aqui na taberna? Então isto é lugar para si? Eh, eh ... mártir desgraçado!

O amo olhou para o mujique e tapou a cara com a manga. O pequenote suspirou, abanou a cabeça, abanou as mãos com desespero e foi ao balcão beber a vodka.

— É o nosso amo — cochichou a Tíkhon, apontando com a cabeça para o bandalho. — O nosso patrão Sernion Serguéitch. Estás a vê-lo? No que as pessoas se tomam! Hã? Isso mesmo ... até que ponto a bebedeira...

O pequenote esvaziou o copo, limpou a boca à manga e continuou:

— Sou da aldeia dele. Quatrocentas verstás daqui, Akhtílovka ... Éramos servos do pai dele ... Que pena, amigo! Que pena! Era um patrão tão bom... Olha ali aquele cavalinho, no pátio! Estás a vê-lo? Oferta dele! Hã, hã! Que sina malvada!

Dez minutos depois já estavam sentados à volta do mujique os cocheiros e os peregrinos. Numa voz de tenor baixinha e nervosa, ao som do rumor do Outono, contou-lhes a história. Sernion Serguéitch continuava no seu canto, com os olhos fechados, a resmungar. Também ouvia.

— Aquilo sucedeu tudo por fraqueza de espírito — contava o mujique, remexido, gesticulante. — Por fartura... Era um patrão rico, de alto lá com ele em toda a província, pois claro ... Comes e bebes: à discrição! Assisti com os meus próprios olhos ... Tantas vezes o homem passava aí de caleche à beira desta mesma taberna. Se era rico ... Lembro-me, há de haver uns cinco anos, atravessou o rio na balsa de Mikíchkino e, quais cinco copeques, pega lá um rublo ... A ruína dele começou por uma coisa de nada. Primeiro que tudo, foi essa mulher. Lá gostou dela, coitado, de uma dessas da cidade... Diz que a amava mais do que à vida ... Há quem tome a coruja por gavião... A gaudéria chamava-se Mária Egórovna e tinha cá um apelido mais esquisito que eu nem sou capaz de o soletrar. Diz que se apaixonou por ela, pede-a em casamento, tudo nas regras como entre bons cristãos. E ela, pois claro, que aceitava, então se aquilo era um senhor de primeira categoria, um homem correto a nadar em dinheiro ... 

“Uma ocasião, assim ao fim da tarde, lembro-me que vou a passar pelo jardim dele e espreito: lá estão os dois num banquinho a beijocarem-se. Ele prega-lhe um beijo e ela, essa víbora, logo dois. Ele pega na mãozinha dela, e ela, ah!, encosta-se a ele, aperta-se toda contra ele, raios que a partissem! “Amo-te, Sénia”, diz-lhe ela... E o Sénia, como um maluquinho, anda feito parvo por tudo o que é sítio a gabar-se da felicidade ... Dá um rublo a este, dá dois àquele ... A mim deu-me dinheiro para comprar o cavalo ... Era tanta a felicidade que até nos perdoou as dívidas a todos. Chegou o dia do casamento ... Casaram-se a preceito, na igreja, como deve ser... E ela, nessa mesma hora em que os convidados se iam sentar à mesa, ela, arranca no coche... Fugiu para a cidade, para ao pé do advogado, o amásio dela! Logo a seguir ao casamento, a cabra! Hã? Naquele exato momento! Hã? O certo é que o homem a partir daí se desvairou, entrou na bebedeira ... Não estais a vê-lo? ... Anda como um pasmado, só a pensar ainda na cabra. Amor! Agora vai a pé até à cidade, acho eu, para a ver nem que seja só com um olho ... 

“Em segundo lugar, irmãos, a ruína dele foi por causa do cunhado, portanto marido da irmã dele ... Aceitou ser fiador do cunhado na sociedade bancária ... fiador de uns trinta mil, ou coisa assim... O cunhado, já se sabe, é um aldrabão de primeira, saca o dele e não quer saber de mais nada, o cabrão, e ao pobre do homem é que foram cobrar os trinta mil inteirinhos ... O homem parvo paga pela parvoíce... A mulher põe-se a fazer filhos com o advogado dela, o cunhado compra uma herdade para os lados de Poltava, e o lorpa do patrão anda por aí como se vê, pelas tabernas, metido com os mujiques e a queixar-se a eles: «Perdi a fé, meus irmãos! Já não tenho ninguém para confiar!» 

“Espírito fraco! É que a desgraça toca a todos, de vez em quando. E então? Um homem mete-se logo na bebedeira? Por exemplo, o síndico, é um supor. A mulher dele mete o mestre-escola em casa à luz do dia, derrete o dinheiro do marido em vinho, e o síndico é como se não fosse nada com ele, anda por aí com um sorriso na cara... Só mirrou um bocadinho...”

— A cada qual Deus não deu uma força igual... — suspirou Tíkhon.

— Lá isso é, a força não é igual, é verdade ...

O baixote do mujique demorara a contar a história ... Quando terminou, caiu o silêncio na taberna.

— Eh, tu ... como se chama o homem? ... Homem desgraçado! Anda cá, bebe! — disse Tíkhon dirigindo-se ao senhor.

O senhor aproximou-se do balcão e bebeu com prazer a esmola ...

— Dá cá o medalhão só por um bocadinho! — sussurrou a Tíkhon. — Só olho uma vez e ... torno a devolvê-lo ...

Tíkhon carregou o sobrolho e entregou-lhe, em silêncio, o medalhão. O rapaz da cara bexigosa suspirou, olhou para os lados e pediu vodka.

— Toca a beber, meu amo! Eh! Sem vodka é que é bom, e com vodkazinha ainda melhor! Com a vodkazinha nem a desgraça é desgraça! Anda lá, bebe para a frente!

Depois de cinco copos, o senhor foi para o canto, abriu o medalhão e, com os olhos turvos, bêbados, pôs-se à procura do rosto querido. Mas não estava lá rosto nenhum ... Fora raspado do medalhão pelas unhas do virtuoso Tíkhon.

A lanterna fulgurou e apagou-se. Num canto, uma peregrina em delírio murmurava uma ladainha veloz. O rapaz da cara bexigosa rezou a Deus em voz alta e estendeu-se no banco. Chegou mais alguém ... Chovia, chovia sem fim... O frio era cada vez mais cortante, parecia que não tinha fim este Outono mal-dito, escuro. O senhor continuava a perscrutar com os olhos o medalhão, em busca do rostozinho feminino ... A vela esmorecia e apagava-se.

Primavera, onde estás?
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ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes: 
Publicado originalmente na revista russa humorística Budilnik. Edição n. 37, 24 de setembro de 1883, sob o pseudônimo de Antosha Chekhonte. Disponível em Domínio Público.  

Hans Christian Andersen (A sopa de espeto) Parte 3, final


FALA A QUARTA RATINHA, ANTES DA TERCEIRA

- Dirigi-me imediatamente para uma grande capital, cujo nome não me ocorre agora: minha memória é péssima para nomes. Levaram-me da estação, entre alguns gêneros confiscados, para o tribunal. Dali escapei, e fui ter à casa do carcereiro. Falando ele dos presos, referiu-se especialmente a um, que tinha dito palavras imprudentes. Palavra puxa palavra; e atrás daquelas outras vieram, que foram ditas, escritas e relatadas.

" - Afinal - terminou ele - tudo isso não é mais que sopa de espeto; mas é uma sopa que lhe pode custar a cabeça!

" Aquilo despertou em mim um grande  interesse pelo prisioneiro, e, aproveitando a primeira oportunidade, fui ter à sua cela. Porque há sempre um buraco de rato atrás de cada porta fechada. Era um homem muito pálido; tinha a barba crescida e os olhos grandes e brilhantes. A lâmpada que ardia na cela deitava muito fumo, mas as paredes eram já tão enegrecidas, que a fuligem não podia aumentar aquele pretume. O prisioneiro matava o tempo traçando desenhos e versos em branco naquele fundo negro. Não os li, mas creio que ele se aborrecia na cela, porque me recebeu muito bem. Atraiu-me com migalhas, e assobios, e palavras amáveis. Mostrou-se muito contente com a minha companhia, e acabou por me inspirar confiança: tornamo-nos amigos. Repartia comigo seu pão e sua ração de água, tratava-me a queijo e salsicha, de sorte que eu tinha vida farta. 

“Devo dizer, contudo, que foi principalmente a sua boa companhia que me reteve. Consentia que eu lhe passeasse pelas mãos, pelos braços, entrasse dentro de suas mangas, e me escondesse na sua barba. Chamava-me sua amiguinha, e eu gostava realmente dele, pois a amizade é uma coisa que deve ser recíproca. Esqueci-me inteiramente da missão que me levara a correr o vasto mundo, e cheguei a esquecer o meu espeto, que deve estar ainda lá, cravado em uma fenda do chão. Queria ficar com o prisioneiro, porque, se me retirasse, o pobre ficaria sem um único amigo no mundo. E como isso não me parecia direito, fiquei. Fiquei, mas quem partiu foi ele. Estava muito triste a última vez que me falou. Deu-me o dobro do pão e do queijo costumado, e ao retirar-se atirou-me um beijo. Depois saiu e não mais voltou. Não sei o que foi feito dele.

 " Sopa de espeto, dissera o carcereiro, pois fui procurá-lo. Mas aquele não era homem em quem a gente se fie. Tomou-me nas mãos, com muita gentileza, sim, mas para me meter em uma gaiola giratória, máquina infernal, em que a gente corre, corre, sempre, e quanto mais corre menos avança. E, além de tudo, ainda fica sendo a risota de todo o mundo.

" A neta do carcereiro era uma menina encantadora; tinha o cabelo feito cachos de ouro, os olhos brilhantes de alegria, e uma boquinha risonha. Quando me viu naquela horrenda prisão, disso logo: " Coitadinho do ratinho" ! E torceu o trinco da gaiola. Saltei para o peitoril da janela, e dali para a goteira. Livre! Livre! Não pensava me mais nada, e até esqueci do objetivo da minha viagem.

"Já ia escurecendo. Instalei-me em uma velha torre de uma sentinela e de uma coruja. Não confiava em  nenhum deles, e menos ainda na coruja que no outro. É que as corujas  são como os gatos: tem o péssimo vício de comer ratos. Mas é verdade que a gente às vezes se engana; e foi o que me aconteceu, nesse caso; aquela coruja era uma senhora muito bondosa e muito instruída também. Sabia mais que o guarda, e tanto como eu mesma. Os filhos armavam um grande escarcéu por qualquer ninharia; então a mãe dizia: " Ora vejam lá se já vão fazer disto uma sopa de espeto!" E era tão extremosa com a ninhada, que nunca dizia palavras mais ásperas do que essas, nos seus ralhos.

" Esses modos me tranquilizaram a tal ponto, que da fresta onde me ocultara lhe dirigi um cumprimento " Cuic, cuic!" Agradou-lhe essa prova de confiança, e prometeu tomar-me sob a sua proteção: não permitiria que animal algum me fizesse mal, e me pouparia alguma coisa para o inverno, tempo em que escasseiam os mantimentos.

'Era dama entendida em tudo. Disse-me que o guarda não sabia mais nada senão tocar a buzina que lhe pendia do cinturão. Mas que estava tão cheio de si com aquela habilidade, que se julgava uma coruja de torre. É rematou, dizendo:

'"- Quer dar-se muita importância, mas não tem nenhuma, é o que é. Aquilo não passa de sopa de espeto.
                                           
" Pedi-lhe, então que me desse a receita dessa sopa, e ela me explicou:

" - Sopa de espeto é uma expressão que os humanos usam, como " água de barrela", e outras muitas. Cada um lhe dá a interpretação que bem entende. Cada um imagina também que a sua é a melhor, a exata; mas no fundo essa locução nada significa.

" - Nada? - guinchei eu. - Que pena! Nem sempre a verdade é agradável, não! Mas " a verdade acima de tudo!"

" Ora, a velha coruja também era dessa opinião. E, pensando no caso, vi claramente que se eu voltasse trazendo aquilo que " está acima de tudo", traria alguma coisa muito melhor do que sopa de espeto. Dei-me pressa pois, em voltar, para chegar aqui a tempo, trazendo a melhor de todas as coisas, alguma coisa que está acima de tudo o mais, e que é a verdade. Nós, os ratos, somos uma raça muito ilustrada, e o nosso rei é o mais ilustrado de todos nós. Ele é capaz de me fazer rainha, por amor da verdade".

Mas nesse momento a ratinha que ainda não tinha dito o que sabia, brandou:

- Tua verdade é mentira! Eu sei preparar a sopa e vou prová-lo!"
 
A PREPARAÇÃO DA SOPA
                                                    
   - Pois eu cá não andei viajando - informou a terceira ratinha. - Fiquei em casa, que era o que mais convinha. Não havia necessidade de viajar, visto que temos aqui tudo quanto é preciso. Portanto, fiquei aqui mesmo. Não fui aprender o que sei de criaturas fabulosas, nem as engoli; tão pouco não pedi lições à coruja. Descobri tudo em minhas próprias meditações. Vamos ! Ponham sobre o fogão um caldeirão bem cheio d'água... Isso! Agora, mais lenha!  Aticem o fogo, até que a água ferva...É preciso que esteja fervendo! Agora - o espeto para dentro do caldeirão! Pronto! E agora - quer o nosso rei de ter a bondade de se dignar meter a cauda na água fervendo, e agitá-la com toda a força? Quanto mais agitar o rabo, mais saborosa ficará a sopa. Não se gasta nada... não é preciso mais ingrediente algum: é só mexer, e mexer.

- E não pode essa sopa ser mexida por outra pessoa? - indagou o rei.

- Não: só o rabo do rei tem a virtude de dar o toque necessário.

Fervia a água em borbotões. O rei dos ratos foi-se chegando para o tacho, com muito medo, porque aquilo lhe parecia perigoso; estendeu o rabo, como fazem os ratos na queijeira, para desnatar uma tigela de leite, lambendo depois com delícia a nata que ficou pegada á cauda. Mas assim que sentiu o arder do bafo, deu um salto e foi parar longe. E declarou:

- É claro que serás a rainha. Quanto á sopa... pode ficar para oferecemos aos convivas nas nossas bodas de ouro. Assim meus vassalos terão um prazer duradouro, com essa expectativa.

E o casamento celebrou-se, no mesmo dia.
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HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público