sábado, 15 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 214 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Versejas... contenho o amor,
numa ternura discreta,
me esquecendo de compor,
por ver compor meu poeta!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
JOSÉ MENDONÇA TELES
Hidrolândia/GO

Instante dez 

Passei o dia todo
com tantas coisas na
cabeça.

Passei a semana toda
com tantas coisas na
cabeça.

Aliviei-me dos problemas
quando você chegou
e virou minha cabeça.
========================

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Hora de ter saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MARI REGINA RIGO
Canoas/RS

No mundo da poesia
Todos nós somos iguais.
Loucos de amor
Mas só mostramos os sinais.

Nos alimentamos de quimeras
E assim vamos atravessando
Várias eras.

Nascer e viver, sonhar e amar
Lutar para merecer
Crer e sobreviver.

Para dizer que a lua é tua
É só passear pela rua
De mãos dadas com seu amor

As palavras são apenas sinais
De sentimentos iguais
À todos os mortais.

Homem, poeta e trovador.
============================

Trova de
CEZAR A. DEFILIPPO
Astolfo Dutra/MG

Na boemia, no abandono...
de tanta dor eu suspeito,
que até saudade sem dono
faz morada no meu peito!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ROGÉRIO SALGADO
Belo Horizonte/MG

Sobre todas as coisas

O meu amor tem dessas coisas 
de cultivar estrelas
no céu da tua boca 
ser criança, como quem ama
adolescentemente 
pela primeira vez.

O meu amor tem dessas coisas 
de dizer silêncios
quando te observa e se encanta 
no encontro de fazer milagres 
no coração.

Assim, o meu amor adormece 
e acorda no acorde de ser canção 
sobre todas as coisas assim 
o meu amor tem dessas coisas 
de sobre todas as coisas amar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Quadra de
IDEL BECKER
Porto Casares/Argentina, 1910 – 1994, São Paulo/SP

Eu não quero, nem brincando,
dizer adeus a ninguém:
quem parte, leva saudades,
quem fica, saudades tem.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ANA MARIA FÁZIO DE FREITAS 
Assis/SP

Como é grande o meu engano

Quando penso que deixei de te amar 
Eu percebo que te amo com loucura. 
Não consigo sem ti me imaginar,
Minha alma em meus sonhos te procura.

Quando penso em ir embora e te deixar, 
Ao teu lado uma força estranha me segura.
Já nem sei mais se devo ir ou se devo ficar, 
Pois os meus olhos só te enxergam com ternura.

Quando penso em minha vida recomeçar,
Partir para sempre, para bem longe, te esquecer, 
Meu coração em desespero começa a se agitar, 
Não adianta agir contrário ao seu querer.

Quando cansada da fadiga deste amor, 
Sonho encontrar nova paixão, me refazer, 
É tua imagem que me enche de calor, 
Percebo então que sem ti não sei viver.

Quando penso em desistir, seguir em frente, 
Mudar meu rumo, construir um novo ninho, 
A tua imagem serpenteia em minha mente, 
A cada passo eu tropeço em teu caminho.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
MARIA NELSI SALES DIAS
Santos/SP

Nem bem partiste... e a saudade
já me causando transtorno,
não vê num mar de ansiedade
a hora do teu retorno.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ANA ROSÁRIA SOARES DA SILVA 
Caxias/MA

Amor morto

Quando o silêncio me furtar a voz 
E meus olhos não enxergarem os teus 
É sinal que tua falta Amor,
Já não faz chorar os olhos meus.

Quando a noite me vier escura 
E o dia não der mais clarão 
É sinal que tua falta, amor, 
Encheu de pedra o meu coração.

Quando a lua eu não puder tocar 
E o sol não me der mais calor 
É sinal que tua falta, amor,
Eu já não sinto, tornou-se em dor.

Se meus versos não falarem mais
A poesia não descer em mim 
É sinal que tua falta faz 
O meu amor não pertencer a ti.

Se tua música eu ouvir tocar 
E nela eu não encontrar você 
É sinal que tua falta, amor,
Foi a causa do nosso Amor morrer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
NEY DAMASCENO
Curitiba/PR, 1924 – 2005, Rio de Janeiro/RJ

De uma longa enfermidade
que lhe minou os pulmões,
Jacob morreu, na verdade,
em suaves prestações.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CARLOS JORGE AZEVEDO
Santa Marinha do Zêzere/Baião/ Portugal

Carrossel

Ninguém diria que ao rodar 
O carrossel embriaga
Entre tanto voltear 
Disfarça-se qualquer chaga…

As voltas no carrossel 
Escondem a realidade 
Não são só rosas e mel 
Simulam-nos a verdade.

Ombreiam quase colados 
Os mais díspares intentos 
Giram juntos, irmanados, 
Parecem ir desatentos!

No meio de mais uma volta 
Entre tal ruído reinante 
Espreita bem desenvolta 
A morte, essa farsante!

Perversa crava o punhal 
No inocente coração 
Depois do golpe fatal 
Mistura-se à confusão…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizontes/MG

No barco, em águas da vida,
nosso amor desliza manso...
Já foi torrente incontida,
hoje se espraia em remanso...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CATARINA DINIS PINTO 
Amarante/Portugal

Grão de saudade

Guardo na mão, 
Pequenos grãos de areia 
Que se vão diluindo 
No tempo, em forma 
De desilusão secular. 
Fecha-se o ciclo,
A vida aos círculos, 
A respiração torna-se pesada
E o coração apenas desassossego 
Saudade do que não te pode tocar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELTON CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994

A consciência, tirana
que não perdoa ninguém,
é a corte mais desumana
das cortes que o mundo tem.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CONCEIÇÃO MACIEL 
Capanema/PA

O encanto do sabiá

Há que se sentir 
O cheiro que vem do mar 
A brisa da beira-mar 
O vento que toca o luar. 

O beijo a encantar 
O toque do teu olhar 
O verso que vem de lá 
No voo do Sabiá.

Há que se ouvir 
A prosa no teu falar 
O canto que aqui há 
O verso a declamar. 

A alegria no teu cantar 
O amor a declarar 
A beleza e o encanto 
No canto do Sabiá.

Há que se olhar 
A beleza em cada lar 
O amor no teu cantar 
O carinho no tocar.

O pássaro a voar 
As nuvens a vagar 
A Poesia a declarar 
O encanto do Sabiá.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
RENATO MATTOSINHOS
Juiz de Fora/MG

Na noite fria, esquecido,
eu vejo dramas bisonhos,
seu um boêmio perdido,
sem a mulher dos meus sonhos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ENI ILIS 
Campinas/SP

Ontem possuidores

Hoje caminhantes 
Amanhã?
Tudo o que era urgente 
necessário 
ambicionado
ficou em algum lugar 
quebrou 
esfarelou.

Tudo o que parafusava rotina 
forjava identidades 
repetia rituais
ficou em algum lugar 
desmanchou esvaneceu.
Tudo, 
tudo.

Ficou o corpo e no corpo o cansaço 
o frio 
o medo
os passos. 
Seguir, seguir adiante nos passos. 
Seguir, seguir com outros passos. 
Muitos.
Muitos que seguem para o amanhã.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
FRANCISCO ASSIS MENEZES
Porangatu/GO

Vendo o mundo sem brandura,
só cogitando da guerra,
tenho medo que a ternura
fuja da face da Terra.
= = = = = = = = = = = = = = 

Mensagem na Garrafa 209 = A raposa e o lenhador

Imagem: IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Em algum lugar existiu um lenhador que acordava às 6 da manhã e trabalhava o dia inteiro cortando lenha, e só parava tarde da noite. Esse lenhador tinha um filho lindo, de poucos meses; e uma raposa, sua amiga, tratava como bicho de estimação de sua total confiança.

Todos os dias o lenhador ia trabalhar e deixava a raposa tomando conta do seu filho. Todas as noites ao retornar do trabalho, a raposa ficava feliz com sua chegada. Os vizinhos do lenhador alertavam que a raposa era um bicho, um animal selvagem; e portanto; não era confiável. Quando ela sentisse fome, ela comeria a criança. 

O lenhador, sempre retrucando com os vizinhos , falava que isso era uma grande bobagem. A raposa era sua amiga e jamais faria isso. Os vizinhos insistiam:

- Lenhador, abra os olhos! A raposa vai comer seu filho!.

Um dia, o lenhador muito exausto do trabalho e muito cansado desses comentários, ao chegar em casa, viu a raposa sorrindo como de sempre e sua boca totalmente ensanguentada... o lenhador suou frio e, sem pensar duas vezes, acertou o machado na cabeça da raposa...

Ao entrar no quarto, desesperado, encontrou seu filho no berço, dormindo tranquilamente, e ao lado do berço uma cobra morta...

O lenhador enterrou o machado e a raposa juntos. Neste lugar nasceu uma linda árvore que jamais seria cortada...


"Se você confia em alguém, não importa que os outros pensem a respeito... Siga sempre seu caminho, não se deixe influenciar ... não vale a pena."

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul ) O Voo das Brasas Eternas

Antes de darmos início à nossa jornada , precisamos desvendar o mistério do companheiro mais leal dos heróis romenos. O Calul Năzdrăvan (o Cavalo Místico ou Fantástico) não nasce como uma montaria comum. Nas lendas, ele costuma aparecer inicialmente como um potro magro, sarnento e rejeitado por todos no estábulo. O segredo de seu poder oculto só é revelado quando o herói, seguindo conselhos antigos, limpa o animal e o alimenta não com feno, mas com brasas vivas e incandescentes. Ao consumir o fogo, o cavalo passa por uma metamorfose espetacular: ganha asas invisíveis, a capacidade de falar a língua dos homens, sabedoria profética e a habilidade de voar "tão rápido quanto o pensamento" ou "tão rápido quanto o vento", escolhendo a velocidade de acordo com a urgência da justiça.
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A noite estava fria em Valea Verde. No estábulo dos fundos da cabana de Moșneagul, o jovem Făt-Frumos olhava com tristeza para o animal que havia escolhido. Era um cavalo fraco, de pelagem cinzenta e sem brilho, que tremia a cada lufada de vento. Os homens da aldeia haviam ridicularizado a escolha do herói, dizendo que aquela criatura não aguentaria sequer o peso de sua armadura de prata.

Moșneagul aproximou-se lentamente, carregando uma velha pá de ferro cheia de brasas vermelhas e fumegantes tiradas diretamente do coração da lareira sagrada.

— Não julgue o poder pela casca, meu jovem príncipe — disse o Moșneagul, com a voz mansa. — Na nossa terra, o que parece cinza muitas vezes esconde o fogo mais puro. Ofereça isto a ele.

Făt-Frumos, confiando cegamente na sabedoria ancestral do ancião, pegou a pá. Com cuidado, estendeu as brasas ardentes em direção ao focinho do animal. Para sua surpresa, o cavalo não recuou. Seus olhos outrora opacos brilharam como ouro derretido. Ele relinchou suavemente e, com avidez, começou a comer as brasas como se fossem a mais doce das maçãs.

A cada centelha engolida, uma transformação mágica operou-se. A pele sarnenta do animal caiu, revelando uma pelagem negra e brilhante como a noite estrelada. Suas patas ganharam cascos de bronze que faiscavam ao tocar o chão, e duas imensas asas, feitas de pura energia e vento, desdobraram-se invisíveis aos olhos dos homens comuns, mas visíveis ao coração do herói.

O cavalo ergueu a cabeça orgulhosamente e, fitando o príncipe, falou com uma voz profunda e melodiosa:

— Obrigado, Făt-Frumos. Você despertou o fogo de Năzdrăvan que corria em minhas veias. Agora, diga-me: como deseja que eu voe? Como o vento, que corta as copas das árvores, ou como o pensamento, que chega ao destino antes mesmo de o corpo partir?

— Voaremos como o pensamento, meu amigo — respondeu Făt-Frumos, maravilhado. — Pois o tempo é curto e a justiça não pode esperar.

Moșneagul sorriu e entregou ao herói uma rédea tecida com fios de linho benzido.

— Lembre-se, Făt-Frumos: o Calul Năzdrăvan não é apenas sua montaria, ele é sua mente e seu escudo. Ele enxerga os perigos que seus olhos humanos não podem ver. Ouça os conselhos dele na escuridão.

O herói montou no cavalo místico. Com um único salto, o animal rompeu a gravidade da terra e rasgou os céus, deixando para trás um rastro de faíscas douradas. Eles cruzaram os Cárpatos em segundos, voando acima das nuvens mais altas.

De repente, o cavalo falou na mente do herói:

— Cuidado, Făt-Frumos! À nossa frente está o Desfiladeiro dos Gritos, onde as bruxas da floresta lançam feitiços de ilusão. Se você olhar para baixo, verá moedas de ouro e banquetes falsos, e cairemos no abismo.

Făt-Frumos segurou firme as rédeas.

— Confio em suas asas e em sua voz, Năzdrăvan. Guie-nos além do engano.

O cavalo bateu suas asas invisíveis com mais força, emitindo um relincho poderoso que quebrou as ilusões sonoras das bruxas como se fossem vidro. Ele desviou de tempestades mágicas e flechas de gelo lançadas pelas sombras, usando sua percepção profética para antecipar cada perigo antes mesmo que ele acontecesse.

Graças aos conselhos e à velocidade mental de Calul Năzdrăvan, o herói conseguiu contornar as armadilhas do território inimigo sem precisar derramar uma única gota de sangue, pousando em segurança no topo da montanha onde o tesouro espiritual da região estava guardado.

Ao retornarem vitoriosos para Valea Verde na manhã seguinte, o cavalo místico recolheu suas asas e voltou a pisar calmamente na grama do vale. Făt-Frumos saltou da sela e abraçou o pescoço do animal, olhando em seguida para o Moșneagul, que os aguardava.

— Aprendi a lição, Moșneagul — disse o príncipe com gratidão. — A força bruta de um guerreiro nada realiza se ele não tiver ao seu lado a sabedoria que sabe enxergar além das aparências e a velocidade espiritual para desviar do mal.

Moral:
O verdadeiro potencial para a grandeza muitas vezes se esconde sob as aparências mais humildes e necessita de sacrifício e do "fogo interno" das provações para despertar. Além disso, na jornada da vida, o vigor e a coragem do jovem só alcançam o sucesso absoluto quando caminham em perfeita sintonia com a intuição e a sabedoria que alertam contra as ilusões do caminho.

(Texto enviado pelo autor.)

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e cidadania) 9: Terceira idade


Implacável é a idade,
todos os dias morremos
um pouco, com a saudade
daqueles que não mais vemos. 
José Feldman - PR

Os velhos morrem porque já não são amados 
(Montherlant - Paris/França, 1896 - 1972)

Uma das formas de se apreender se um povo exercita de fato a cidadania, é verificando como este povo trata o velho, que se convencionou chamar de terceira idade. Pensamos que este tema ainda é tratado com ambiguidade. Por um lado, há os que não têm o menor respeito pelo idoso, por outro, há os que exageram, tratando os velhos de uma maneira piegas.

Nosso amor pela pessoa velha não deve ser uma opressão, uma tirania a inventar cuidados chocantes, temores que machucam... Libertemos os velhos de nossa fatigante bondade (Paulo Mendes Campos).

Trate o velho com respeito;
dê-lhe o amor que possa dar.
Mas não lhe roube o direito
de a SI mesmo governar!
A. A. de Assis - PR

Para o trovador, a velhice é constantemente associada à saudade:

Sempre que a praça atravesso
curvada ao peso da idade,
por onde passo eu tropeço
num canteiro de saudade…
Ercy Maria Marques - SP

Curvada ao peso da idade,
a vovó, serena e bela,
distrai o tempo e a saudade
entre o novelo e a novela.
A. A. de Assis - PR

Os anos trazem cansaços,
nossa vida é sempre assim,
e a saudade segue os passos
da velhice até o fim.
José Lucas de Barros - RN

Outras vezes, a velhice é também associada à tristeza e morte dos sonhos:

Vai findando a mocidade
e, nos meus dias tristonhos,
em surdina, uma saudade
chora a morte dos meus sonhos...
Izo Goldman - SP

Depois de muitas andanças,
cansado de tanta lida,
hoje vivo de lembranças,
juntando os cacos da vida...
Raimundo Andrade de Paiva - CE

Mas os sonhos não envelhecem, ou não deveriam envelhecer. Por mais que se tornem difíceis de serem realizados, não devemos abandoná-los.

Um sonho de juventude
não morre nunca, eu suspeito,
pois me assusta a inquietude
que ainda carrego ao peito.
Gonzaga da Silva - RN

Beirando a terceira idade
me aproximando do fim…
Vejo em grande atividade
a criança que há em mim.
Francisco Macedo - RN

Não importa a face externa
do corpo que envelheceu:
juventude é sempre eterna
no sonho que não morreu.
Antônio Bispo dos Santos - RJ

Se a mocidade se afasta,
não julgue a vida tristonha.
- A ação do tempo não gasta
o coração de quem ama!
Aparício Fernandes - RJ

Em outros momentos, a velhice é vista com mais naturalidade e até com certo entusiasmo:

Minhas netas, sempre rindo,
são meu alegre evangelho:
- musgo verde revestindo,
de esperança, um muro velho!
Lilinha Fernandes - RJ

Mas sociedades em que a preocupação com a produção de bens materiais não é um fim em si mesmo, o velho é visto como um ser que acumulou experiência e sabedoria e, portanto, tratado com mais respeito e dignidade. É o que está expresso nestas sábias travas:

Quanto mais a idade aumentou
e a ilusão se distancia,
a gente mais se alimenta
do pão da sabedoria.
Ercy Maria Marques - SP

O tempo tira a beleza,
rouba da gente a vaidade,
o tempo dá-nos firmeza,
sabedoria e bondade.
Nair Starling - MG

Velhice não é demência
nem é vã filosofia;
é fonte de experiência
que nos traz sabedoria.
Hélio Pedro Souza - RN

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.

Humberto de Campos (Malitia sexus)

Não obstante as teorias espalhadas pelos moralistas modernos, a virtude máxima da mulher será, sempre, o pudor. Afirmem embora que este não é um aliado permanente da inocência, argumentando, para isso, com as crianças e os selvagens; eu continuarei a considerá-lo a flor mais mimosa da castidade e a atribuir à sua ausência a maior parte dos venenos que dissolvem a sociedade e a família. Aos meus olhos, o pudor está para a honestidade como o fumo está para o fogo. Compreender honestidade sem pudor seria admitir fogo sem fumo.

Essa convicção não é, entretanto, privilegio meu; e não foi sem alegria que li há dias, em uma revista europeia, a solidariedade de um eminente magistrado francês, patenteada em uma lição oportuna, e rigorosa, a algumas dúzias de senhoras parisienses.

Em um dos tribunais de Paris debatia-se, em uma das últimas sessões do ano último, um processo escandaloso, cujas peças documentais, que deviam ser lidas e mostradas, atentavam, de modo clamoroso, contra a pudicícia das damas que enchiam, naquele momento, a sala do tribunal. Constrangido ante aquele público feminino, o velho magistrado que presidia a sessão fez tilintar o tímpano, pedindo atenção. Feito silêncio, o juiz avisou:

- É dever meu, como magistrado e chefe de família, comunicar às damas presentes neste recinto que vão ser exibidos, aqui, alguns documentos do processo capazes de ferir as suscetibilidades femininas. Nessas condições, eu peço, pois, às senhoras pundonorosas que se afastem da sala, de modo que os interessados possam discutir essas provas sem constrangimento.

A esse aviso, as sessenta ou setenta senhoras presentes no tribunal entreolharam-se, consultando-se tacitamente. De tantas, porém, duas, apenas, se levantaram, retirando-se, deixando-se ficar as demais nos seus respectivos lugares.

Ao fim de dois minutos, o juiz indagou, alto:

- Nenhuma das senhoras que se deixaram ficar sentadas se mostrarão escandalizadas com as peças repugnantes que vão ser exibidas?

Silêncio geral.

Ante essa resposta muda, o magistrado enrubesceu, revoltado com aquele espetáculo de despudor, e virando-se para o comandante da força, ordenou:

- Chefe da guarda, mande pôr fora da sala o resto das senhoras!

E a guarda cumpriu a ordem.

(Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público.)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 9)

9. O QUE EVITAR NA CONSTRUÇÃO DE UMA CRÔNICA

9.1. NA CONSTRUÇÃO DO TEXTO

9.1.1. Clichês: 
Evite frases ou ideias prontas que tornem o texto previsível.

9.1.2. Ambiguidade Excessiva: 
Seja claro na sua mensagem; ambiguidade pode confundir o leitor.

9.1.3. Falta de Foco: 
Mantenha um tema central; divagar demais pode dispersar a narrativa.

9.2. NO DESENVOLVIMENTO

9.2.1. Diálogos Fracos: 
Não inclua diálogos que soem artificiais ou forçados. Eles devem fluir naturalmente.

9.2.2. Descrições Superficiais: 
Detalhes vagos não transportam o leitor. Use descrições sensoriais que criem imagens vívidas.

9.2.3. Mudanças de Tom: 
Mantenha um tom consistente. Alternar entre formal e informal sem justificativa pode desorientar.

9.3. NO ARREMATE FINAL

9.3.1. Final Previsível: 
Evite fechar a história de forma óbvia. Um final impactante ou reflexivo é mais cativante.

9.3.2. Falta de Conclusão: 
Não deixe o leitor se sentindo perdido. Um desfecho coerente deve amarrar as ideias apresentadas.

9.3.3. Menos Reflexão: 
Quando apropriado, use o final para provocar uma reflexão, não apenas para encerrar a história.

9.4. O QUE EVITAR NA CONSTRUÇÃO DE UM CONTO

9.4.1. Na Construção do Texto

9.4.1.1. Personagens Unidimensionais: 
Crie personagens complexos com motivações e emoções.

9.4.1.2. Trama Muito Complexa: 
Uma narrativa cheia de reviravoltas sem clareza pode confundir o leitor.

9.4.1.3. Introdução Lenta: 
Começar com longas descrições sem ação pode desestimular o leitor.

9.4.2. No Desenvolvimento

9.4.2.1. Exposição Excessiva: 
Evite informações desnecessárias que não avancem a narrativa ou desenvolvimento de personagens.

9.4.2.2. Incoerências Lógica: 
Certifique-se de que a trama e as reviravoltas sejam plausíveis e coerentes.

9.4.2.3. Tensão Inconstante: 
Mantenha um ritmo apropriado; oscilações drásticas no ritmo podem frustrar.

9.4.3. No Arremate Final

9.4.3.1. Desfecho Aberto Sem Justificativa: 
Se optar por um final em aberto, ele deve ser bem amarrado ao tema.

9.4.3.2. Resolução Fácil: 
Não simplifique demais a resolução do conflito; deve refletir as complexidades da trama.

9.4.3.3. Menos Impacto: 
O final deve ser memorável; evite encerrar de forma apressada ou trivial.

9.5 ORGANIZAÇÃO DO TEXTO

9.5.1. Planejamento:
   - Defina o tema e a mensagem que deseja transmitir.
   - Esboce uma estrutura básica (introdução, desenvolvimento, conclusão).

9.5.2. Introdução:
   - Apresente a situação ou o conflito de maneira intrigante.
   - Crie um gancho que prenda a atenção do leitor.

9.5.3. Desenvolvimento:
   - Aprofunde os personagens, a trama e a ambientação.
   - Mantenha o foco no tema central, evitando divagações desnecessárias.

9.5.4. Conclusão:
   - Feche a narrativa de forma lógica e satisfatória.
   - Inclua uma reflexão ou um pensamento que mantenha o leitor pensando após terminar.

9.6. CONSIDERAÇÕES

Ao evitar armadilhas comuns e seguir uma estrutura organizada, você pode criar narrativas mais envolventes tanto em crônicas quanto em contos. A clareza de propósito e a atenção aos detalhes são essenciais em cada etapa do processo de escrita.
= = = = = = = = = = = = = =  
Continua…
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(curso ministrado por José Feldman)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 31 *

 


 Regresso e de peito aberto,
dás-me perdão às mancheias:
- quem anda no rumo certo
entende as culpas alheias…
Carlos Guimarães
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997
= = = = = = = = =

Não quero morrer agora,
quero contigo viver;
quero ver chegar a hora
desse sonho acontecer!
Dalvina Fagundes Ebling
Cruz Alta/RS (?? – 2020)
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Sofrem tantos na agonia
do delírio, dito "amor";
isso tudo acaba um dia:
faz frio após o calor…
Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
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Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…
Domingos Freire Cardoso
Ilhavo/Portugal
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O desencanto magoa,
ás vezes sem compaixão,
quando a saudade agulhoa
bem fundo no coração!
Dorothy Miranda
Salvador/BA
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Despedimos no portão,
senti seu beijo gelado...
Descobri, sem ilusão,
que estava tudo acabado.
Ed Louzi
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Em sua inspirada prece
com muita serenidade
é que São Francisco tece
toda a trilha da verdade!
Eduardo Domingos Bottallo
São Paulo/SP
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Minha identidade eu vejo
no teu olhar refletida,
e tudo o que mais desejo
é ser teu amor, na vida!
Eleandra Bonatto
Santiago/RS
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Com o mais lindo sorriso
e aquele olhar da ternura,
me levaste ao paraíso
quase cheguei à loucura.
Gledis Tissot
Balneário Camboriú/SC
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Quero só o que mereço,
pelos princípios morais;
fazer festa a qualquer preço,
é sempre caro demais!
Hélio Castro
São Paulo/SP
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Por minhas inúteis fugas,
entre tormentos medonhos,
deu-me a Vida, nestas rugas,
todo o prêmio dos meus sonhos.
Helvécio Barros
Macau/RN, 1909 – 1995, Bauru/SP
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Feito o sol da madrugada,
tu chegaste de mansinho,
e minha alma enamorada
aqueceu-se em teu carinho!
Ieda Marini de Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
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Se encontrei tudo na vida,
acho que posso falar:
você é tudo querida,
o que eu queria encontrar!
Isaías Teves
Amparo/SP
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O poeta voa leve...
Além da vida e da mente,
mas teima em dizer que escreve
bem menos do que ele sente.
Jair Sales de Almeida
Tomé Açú/PA
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Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.
João Costa
Saquarema/RJ
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Unindo-me a ti pensei
"união de eternos laços"…
Hoje eu vivo como um rei
enlaçado em teus abraços!...
José Manuel Veloso Galvão
São Paulo/SP
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Até podes dizer não
mas não te esqueças, jamais,
de que, na vida, é o perdão
que faz que sejamos mais.
José Roberto Pereira de Souza
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As rugas são, com certeza,
se grande for o desgosto,
as estradas que a tristeza
vai abrindo em cada rosto!
Lavinio Gomes de Almeida
Barra do Piraí/RJ, ?? – 2009
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Pelas vias pedregosas,
com sacrifício eu subia...
mas, ao descer, colhi rosas
que me encheram de alegria!
Lourdes Borelli
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O barco dos meus desejos,
vencendo tempos e espaços,
entre carícias e beijos,
ancorou-se nos teus braços.
Luiz Machado Stabile
Uruguaiana/RS
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Coração que canta e chora,
coração tão desigual,
que não tem, até agora,
um parecido ou igual.
Maria Aparecida Pires
Curitiba/PR
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Se é virtude, ou se é defeito,
sei não... Sei que ages assim:
da mansidão do meu peito
tiras proveito de mim...
Maria de Fátima S. Oliveira
Juiz de Fora/MG
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Paixões, eu digo e sustento,
pela inconstância da forma
são dunas de sentimento
que o tempo varre e transforma!
Maria Helena O. Costa
Ponta Grossa/PR
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Alvorada, em teu regaço,
de encantos indescritíveis,
eu vejo ampliar-se o espaço
em que os tenho - são possíveis!
Marlê Beatriz Araújo
Viamão/RS
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É feliz quem faz na vida,
sem, em troca, pedir nada,
da fé — ponto de partida -
do amor - meta de chegada!
Nádia Huguenin
Nova Friburgo/RJ, 1946 -2008
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Se a amizade for além
demais, entre o gato e o rato;
sobra ao dono do armazém
um prejuízo de fato!
Roberto Nini
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A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor,
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
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Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
Trigueiro Lins
Santos/SP
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Na infância, o sumo interesse;
- calças longas, sem demora!…
(Ah, se a vida devolvesse
as calças curtas de outrora!…)
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
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Qual uma fonte de luz,
o sorriso resplandece
e tira da alma o capuz
da tristeza, que a fenece...
Wildman dos Santos Cestari
Taubaté/SP
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