terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guirlanda de Versos * 80 *



Cão de Rua

Homenagem ao Cão Orelha, brutalmente assassinado, e a todos os cães que vivem abandonados na rua

Nas ruas frias, sob o céu sombrio,
caminha o cão sem ter onde deitar,
tremendo a alma ante o sopro do rio,
sem uma mão que o venha acalentar.

Onde está o brilho da inteligência,
que o homem diz ser seu maior tesouro?
Se nega ao bicho a mínima clemência,
e ignora o mudo e triste choro.

Olhos que buscam um resto de carinho,
encontram apenas o peso do desdém,
feridos na carne, sozinhos no caminho,
por quem se julga um ser do além.

É este o topo da escala evolutiva?
Causar a dor em quem só sabe amar?
Manter a alma em jaula, reativa,
e o próprio sangue no asfalto derramar.

Tu, que constróis cidades e foguetes,
e te orgulhas de tanta consciência,
por que permites que o mal se complete,
nesta cruel e vil indiferença?

Senhor, acolhe o uivo na calçada,
do cão que apanha sem saber por quê,
pois na jornada dessa vida amarga,
ele é mais nobre do que quem não vê.

Que a luz alcance o peito do humano,
para que aprenda o que é lealdade,
pois não há erro ou pior engano,
que a falta de amor e de piedade.

Mensagem na Garrafa 149 = Amor no Coração


Autor Anônimo
AMOR NO CORAÇÃO

Numa sala de aula havia várias crianças.

Quando umas delas perguntou a professora:

"Professora o que é o Amor?".

A professora sentiu que a criança precisava de uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava quase na hora do recreio, pediu que cada aluno trouxesse o que mais despertasse nela o sentimento do Amor. As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse:

"Quero que cada um mostre o que trouxe consigo".

A primeira criança disse: "Eu trouxe uma linda flor, não é linda?".

A segunda criança falou: "Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha?".

E assim as crianças foram se colocando. 

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Esta estava vermelha de vergonha, pois não havia trazido. 

A professora se dirigiu a ela e perguntou: "Meu bem, por que não trouxe nada?".

E a criança timidamente respondeu: 

"Desculpe professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que o seu perfume durasse mais tempo. Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portando trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que sentir nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?".

A professora agradeceu a criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora à única que percebera que só podemos trazer o Amor no coração.

Não precisamos destruir algo para perceber que existe coisas boas, basta apreciá-las e valorizá-las para que elas tenham valor na vida!

Fontes: 
Lendas para Reflexão
Imagem criada com Microsoft Bing

Newton Sampaio (Tríptico)


I. Botequim

Era um botequim. Muito triste, muito desajeitado. Perdido lá no fim daquele beco de luzes tímidas. Enfurnado no bairro mais esquecido da cidade.

Era um botequim. Triste, desajeitado, miserável. Bem como o rapaz de azul-escuro que ia entrando. Que ia entrando e pedindo um trago bem forte. O trago mais forte daquele comércio.

O portuga amansou a bigodeira e procurou a garrafa que era branquinha. O trio da mesa do fundo se virou sem discrição. O casal do lado direito se beijocou publicamente. Ele pegou na coxa dela, ela soltou um palavrão, os dois soltaram uma gargalhada enorme que fez eco e mais parecia uma vontade de se amarem ali mesmo, só pra divertir a vizinhança e matar de inveja o marinheiro de blusa encardida. O marinheiro fechou a cara, lembrou-se de quando esfaqueara um parceiro em qualquer porto sem importância do estrangeiro, afogou a raiva no copo de cerveja ordinária. Nem percebeu o agrado que lhe queria fazer um cachorrinho de cor inexplicável. O animal ficou mexendo o rabo, o qual era curto e quase sem pelo. De repente tomou coragem, lambeu-lhe a perna, saltou-lhe ao colo. Foi a conta. O marinheiro descarregou nele o que desejaria jogar sobre o rival. Socos, pontapés, e substantivos obscenos. Como convém a marinheiros solteiros em noite de feriado nacional...

Todos riram. Com exceção do portuga, por nobre prudência comercial. E do moço de azul-escuro, porque este tinha o pensamento muito longe. Tão longe que ia até saindo sem pagar a despesa. No que foi imediatamente impedido pela mesma prudência lusitana. Sentou-se outra vez, como represália à própria distração. E pediu um trago ainda mais carregado. O trago mais forte de todos os comércios.

Pediu, enquanto o casal da direita se entortava todo nos assentos, para que as mãos peludas do homem continuassem a fazer viagens proibidas...

II. Coreto

Era um coreto. Redondo, pequeno. Erguido numa pracinha sem nome glorioso. Na pracinha em que, aos domingos e feriados, as mulatas costumavam brilhar exuberantemente. Sobretudo quando a banda da polícia chega pra executar suas valsinhas enlanguescentes e aqueles trechos tão bonitos de operetas velhíssimas. Há, até, uma valsa em si menor cuja terceira parte consegue nutrir o pessoal de romantismo para todo o resto do mês. Nesse momento, ficam os olhares menos furtivos, e as palavras adquirem intenções mais perigosas, e os fins de noivado parecem infinitamente mais doloridos.

Era um coreto pequeno e redondo. Que sequer possuía bom teto. Porque a chuva atravessa aquela fenda antiga, e está caindo logo em cima do segundo banco. Nesse mesmo lugar que o clarinetista semanalmente ocupa, para a exibição (aliás comentadíssima) do seu grande talento suburbano.

Por causa da chuva, a praça permanece abandonada, sem cabrochas namoradeiras nem trigueiros galãs invencíveis. E o coreto está úmido, sem luz, silencioso. Silencioso, sem personalidade.

Porque a personalidade dos coretos das pracinhas existe em função das valsas em si menor. Dessas valsas e de quaisquer trechos de operetas velhíssimas...

Nos postes solitários, a chuva, que é fininha e impertinente, escorre mansamente e põe, nas bordas das lâmpadas, refrações instantâneas. Ao mesmo tempo, substitui a banda da polícia, executando, na cobertura do coreto, certa música esquisitíssima. A cobertura é de zinco e a água faz, sobre ela, um chiado monótono, desafinado, sem fim, capaz de adormecer todos os homens inquietos da vizinhança.

Então ele chega. Devagar, devagarinho. De mãos enterradas nos bolsos. Com os cabelos empastados na grande cabeça. Com os olhos brilhando em terríveis brilhos ignorados.

Ele chega, ladeia os postes, pisa as poças da pracinha adormecida, sobe ao coreto, senta-se no segundo banco, violando o privilégio do clarinetista. Continua de mãos nos bolsos, deixa que a água chegue pela fenda do teto de zinco e encharque ainda mais seus cabelos, e caminhe mansamente em seu rosto cheio de sombras.

Então, ele fica sendo, na noite quieta do bairro inútil, o homem mais triste, mais úmido, mais abandonado do mundo.

III. Cais

Encostou-se ao cais. Afundou olhos ansiados nas águas tão serenas, nelas procurando a solução para o mistério dos seres. Mas as águas continuaram serenas, não responderam nada.

Era úmido, o frio. Um frio que entrava nas carnes, que punha manchas, que punha discretas manchas arroxeadas no livre rosto do homem triste.

A luz das lâmpadas — das lâmpadas dispostas sem nenhuma regularidade — se refletia, tremelicando. Os reflexos não tinham sentido, mas eram fiéis, não cessavam.

Jogou as pernas no lado do poente. Caminhou até o fim. Até o ponto em que desaparecia o cais, rebatido pela montanha. Olhou-a, de frente. Pareceu-lhe mais inimiga, a montanha, protegida pela noite, dilatada pelas sombras. A lâmpada, que assinalava aquela fronteira, pendia de um poste carcomido, desnivelado, distante dos companheiros.

E a sua luz era fraquinha, agonizante, medrosa do vento de mar alto que chegava de vez em quando.

Debruçou-se no ângulo da terra com as águas. E sentiu ímpetos absurdos. O mistério crescia, crescia a angústia. As dúvidas se repetiam, renovando-se as torturas. A tortura de penetrar a misteriosa fundura dos destinos. De dominar o significado inicial das coisas. De compreender o sentido daquele coração pulsando magnífico, daqueles nervos que tanta sutileza sabiam colher.

O vento cresceu, o mar engrossou, ficou violentando o cais estrepitosamente. As águas perderam a serenidade, mas guardavam – os olhos do homem – o mesmo brilho ansiado. Os olhos então se fixaram na lâmpada da fronteira, na lâmpada distante da grande curva iluminada do cais. A luz era fraquinha, parecia agonizar. Mas o homem não queria que ela morresse. Desejou, com todas as forças, que o poste carcomido adquirisse a segurança dos companheiros, e não tentasse tanto o amparo da montanha dilatada pelas sombras.

Lampadazinha solitária, não se apague, não se apague não! Porque aquele homem está desesperado, só lhe resta essa luzinha da fronteira, todas as outras luzes, todos os outros postes se anularam na tormenta.

A tormenta se declarou como nunca, o mar invadiu o cais, a cerração domina a cidade, todos os seres se recolheram ao abrigo mais próximo. Por isso não se apague, lampadazinha, não se apague não. A montanha já desapareceu, a água também perdeu a compostura, não sabe o que faz, sobe na terra, volta pro mar, gesticula no ar, doidamente. Só a luzinha da fronteira não fugiu aos olhos do homem. O homem não quer que ela se apague, porque então seu desespero não terá remédio. Luzinha, luzinha do poste carcomido! Vá resistindo, vá resistindo sempre, sempre, sempre. Mas, talvez não resista, a luzinha. Talvez acompanhe o coro das trevas, abandone o homem do cais. Agora está piscando. Piscando duas vezes, três vezes, quatro vezes. Ameaça desaparecer, começa a agonizar.

Um grito agudíssimo parte do peito do homem, daquele peito abrigando um coração que pulsava magnífico. O grito se perde, não encontra resposta, não ecoa na montanha nem ecoa no mar.

A luz ainda não morreu de todo, vai diminuindo, devagar.

Mas o homem pede que não o abandonem tanto. Por isso, luzinha do cais, não se apague. Não se apague, não, pelo amor de Deus!
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 149 *


Poema de 
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

Mulheres Indígenas na Pesquisa

Mulheres de rosto firme e olhar profundo,
Filhas da floresta, do rio, do mundo,
Carregam nos passos a voz dos seus 
Saberes antigos, herdados dos céus.

Entre cantos, rezas e sementes,
Erguem-se firmes, persistentes,
Nas aldeias e nas universidades,
Tecem pontes entre duas verdades.

Com lápis na mão e pés na raiz,
Desafiam o que antes se quis:
Silenciar vozes, calar coragens
Mas elas escrevem suas próprias margens.

Pesquisam a cura, o clima, a memória,
Com olhos de quem honra a história.
Sabem que o saber não é só papel,
Mas também fogo, tambor, céu.

Indígenas, sim, e doutoras também,
Na luta por justiça vão mais além.
Porque ciência com alma e coração
Nasce do povo, do chão, da canção.
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Poema de
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Oleiro e Barro

Acorda! Já é dia e o teu destino
é fazer teu destino caminhando!
Tu és, ao mesmo tempo, oleiro e barro;
Tu és, num só momento, o boi e o carro!

Acorda! O tempo urge... Tu não sabes
que deténs as rédeas da ação?
Tu és a solução dos teus problemas
e a chave que abre tuas algemas
repousa, eternamente, em tua mão!

Levanta! O sol se põe... Bate a poeira
acumulada por tantos verões!...
Tu és a vela-mestra da História,
o caminho que conduz à glória,
a semente das revoluções!
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Dobradinha Poética (trova e soneto) de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Reencontro

Na tua ausência formei
um rosário dos meus “ais”
e, hoje, que te reencontrei:
– Meu Deus, sofrer, nunca mais!

Antevendo o momento em que irei reencontrar-te,
repensando, feliz, quanto ainda te quero,
intento este preencher do meu tempo com arte,
vindo expor num soneto o amor puro e sincero.

A ansiedade me envolve e já sei que faz parte,
leva quase à loucura e quando eu desespero,
desse anseio sofrido, almejando o descarte,
ouço a voz da esperança e esta angústia, supero!

Com excelso desvelo eu desejo te olhar,
abraçar-te bem forte e, depois, mergulhar
na paixão que revela o que sinto por ti.

Hora e dia a apontar, terra e céu presenciando
o milagre da volta e eu prossigo rogando:
— teu amor para sempre... e esquecer que sofri!
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Poema de 
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

A cortina úmida 
Molha a terra que 
Entusiasmada exala 

O cheiro suave de seu ventre 
A água em livre demanda 
Carrega pelas sarjetas 

As mágoas da natureza 
Do nosso tempo, a alegria 
E a tristeza do viver.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal 1888 – 1935

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Trova Popular

Quem não nasceu pra sofrer
desafiar pode os fados,   
que os próprios deuses respeitam
os entes afortunados.
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Dor Oculta

Quando uma nuvem nômade destila
gotas, roçando a crista azul da serra,
umas brincam na relva; outras, tranquila,
serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
de folha em folha e, trêmula, cintila,
mas nem se lembra da que o solo encerra,
da que ficou no coração da argila!

Quanta gente, que zomba do desgosto
mudo, da angústia que não molha o rosto
e que não tomba, em gotas, pelo chão,

havia de chorar, se adivinhasse
que há lágrimas que correm pela face
e outras que rolam pelo coração!
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Poema de
CACO PONTES
São Paulo/SP

Nu olhar

 A gente vê
gente
pelas ruas da cidade
A gente vai passando
e fica só olhando
gente
fora das janelas
peixes sem aquário
A gente vê
besta certeza
guardada nu olhar
a gente quer ir
antes que chegue
a hora
as vezes
e vê gente
que diz assim:
- aí bicho, isso daí não tá cum nada!
rabisca, amassa, chuta
e tenta outra vez
A gente vê
mas no fim da parada
não enxerga quase nada.
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Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP 1884 – 1937

Como é Bom Ser Bom

Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.

Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão.

Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.

E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Morte do Poeta

Tu, poeta, cantas a vida,
Aquela que nunca finda.
Sutil brisa no alvorecer,
Pelo arrebol do Eterno Sol 
Que o mundo ilumina.

Tu, poeta, cantas a morte,
Arte despojada,
Estrutura informe, inacabada.
Vazia, sem réplica.
Da cor do mistério da terra muda.

Tu, poeta, falas de vida e de morte.
Um dia vive de alegria,
Noutro chora de tristeza.
Num só abraço
de braços sem força.

Tu, poeta, viverás para sempre…
Teus versos o vento jamais levará.
Cinzelados despontam De inúteis devaneios
Pela desconhecida morte
Inspirados!
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Desgaste

Se alguém diz que te ama se precisa
Que cuides de sua vida e dos negócios,
Cuidado! Pois de acordo com a pesquisa
É provável que acabe em dois divórcios.

Primeiro são os bens que já não tem
Pois  tudo divido já foi dantes
Que te arriscasses neste vai e vem
De filhos, ex-mulheres e amantes.

Mas o pior de tudo é perceber
Que por mais que se faça é olvidado
E quem nunca fez nada é premiado.

E teus neurônios vão se desgastando
Que às vezes já não pode ser levado
Um casamento assim, atrapalhado.
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Um Vazio

Um vazio põe além do horizonte 
Um querer que à distância se lança, 
Pois a ânsia que o barco desponte 
Jacta o falso sabor da esperança. 

Eu bem sei, não mudou a janela, 
Mas o barco de longe não vem. 
A saudade é bem mais do que "aquela" 
E a vontade do beijo também! 

É verdade que após as tormentas 
O mar calmo se faz tão presente, 
Como é certo que as nuvens cinzentas 
Põem o Sol a brilhar novamente. 

Por aqui, vejo a chuva caindo; 
Logo mais, chega a luz desde o leste, 
A mostrar todo o azul do céu lindo, 
Um desenho de Deus, inconteste! 

Pensamento vai longe, de vez! 
Traz, enfim, esse barco; reitero! 
Penso até que meu porto, talvez, 
Não comporte o navio que eu espero.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE 
Sai do bar - e já sem prumo - 
tropeçando, cuca em brasa, 
pergunta, todo sem-rumo: 
- "Onde fica a minha casa?" 
Héron Patrício  
Ouro Fino/MG, 1931 – 2018, Pouso Alegre/MG

GLOSA 
Sai do bar - e já sem prumo - 
com sua cabeça "feita", 
diz o Saraiva, sem rumo: 
- Eita calçadinha estreita! 

Caminhando em ziguezague 
tropeçando, cuca em brasa, 
o Saraiva, e não é blague, 
perdeu o rumo de casa! 

E neste seu desarrumo, 
o Saraiva, já abatido, 
pergunta, todo sem-rumo: 
será que eu estou perdido? 

A mulher, cheia de raiva 
respondeu: - Na cova rasa! - 
ao perguntar-lhe o Saraiva: 
- "Onde fica a minha casa?"
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Hino de 
Loanda/PR

Terra boa, Loanda querida
Berço augusto de sonho e de amor
Nasce em ti a esperança que agita
No sorriso de fé e de amor
O teu céu, o teu sol, tua gente,
Tudo é glória perene imortal
Que ilumina no porvir esplendente
Filho altivo de nosso ideal.

Em ti deixamos nossa esperança
Sempre inspirada no teu amor
E só por ti, querida Loanda,
Nos corações haverá louvor.
Em ti deixamos nossa esperança
Sempre inspirada no teu amor
E só por ti, querida Loanda
Nos corações haverá louvor.

Pioneira feliz do progresso
Sintetizas a paz e o labor
E teu solo bendito é acesso
As riquezas que são teu fulgor
O teu nome, Loanda querida
Será sempre divina canção
A inspirar nossos passos
A vida para a tua formosa ascensão.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sob as cinzas

… as saudades queimam mais do que brasas…
Silveira Bueno

Como supostas brasas apagadas,
que ao sopro de um vadio e inquieto vento,
livre das cinzas, não mais abafadas,
revivescessem, retomando alento,

certas recordações em nosso peito,
de há muito adormecidas e caladas,
revolvem-se, de súbito, no leito,
despertando agressivas e agitadas.

E essas lembranças todas revividas
que imaginávamos já recolhidas
ao abrigo silente do passado,

vêm ralar nosso peito de amargura,
e as saudades, em dúlcida tortura,
queimam mais que o carvão reativado.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O conselho dos ratos

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome,
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Ainda o rato mais machucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês,
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

«Enquanto o permite a noite,
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo;
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã,
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir.»

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem fizesse a diligência.

«Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão,
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: «Eu não, eu não!»

Tomou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal
Que o remédio que se encontra
Ainda é pior do que o mal.

Assim mil coisas se assentam
Numa assembleia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que têm dente de coelho.

Sammis Reachers (Gás Hélio)


Foi nomeado pela paixão do pai e fonte de sustento da família, desde antes dele fazer parte da mesma: Hélio.

Seu pai, Airton, era vendedor de balões ou bexigas infladas por gás hélio, aqueles bólidos flutuantes em forma de peixe, escudo do flamengo ou cabeça do Mickey.

Aluno destaque do sexto ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo/RJ, Helinho nutria carinho todo especial pelos balões que ajudaram a nomeá-lo e a provê-lo. O menino auxiliava o pai nos enchimentos e montagens, e sempre que podia era levado aos pontos de venda: Rotineiramente o Campo de São Bento, em Niterói, ou eventos sazonais, um aniversário de Itaboraí aqui, um feriado de São Gonçalo acolá, um festival de pipas em Maricá, por Trás-os-montes. O menino já conhecia toda a Região Metropolitana do Estado do Rio.

O mesmo não ocorrera com seu predecessor em chegada na família, Heitor, irmão mais velho. Aliciado no portão de casa, ponto de revenda de drogas no depauperado bairro Jardim Catarina, cedo tomou o caminho da marginalidade.

Morreu no dia primeiro do segundo ano de carreira, a 200 metros do portão da casa do “seu Airton do Gás”; seu portão, seu pai.

Baque no sonhador Helinho, bordoada de moer menino tenro. Notas decaíram, participação nas aulas, na igreja. Seu sangue e companheiro de pelada no quintal, seu parceiro de “playstation”, seu incentivador nas paqueras, seu torto herói se fora.

Na velha coleção de biografias achada por seu pai no lixo, nas portas de um grande edifício, ao chegar pela manhãzinha lá no niteroiense Campo de São Bento, Helinho mergulhava sua solidão. Numa das biografias, a do padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nosso primeiro inventor e pai do balão a ar quente, um estalo.

Inspirado numa prática de produção textual que aprendera na escola, o aluno destaque do Anita Garibaldi passou a escrever cartas; primeiro para si mesmo, refletindo sobre sua perda. Logo as endereçava a seu irmão. Por fim, o salto humanitário, digno de um Gusmão, uma Anita: Helinho passou escrever ternas mensagens para pessoas que tivessem perdido alguém, tal como ele perdera. E assim surgiram “Carta a uma mãe que perdeu um filho”, “Carta à criança que perdeu a avó”, “Carta a quem perdeu um irmão”. Contando brevemente sua história, Hélio contextualizava sua mensagem para diversos leitores em potencial.

Um belo dia, tendo impresso uma quantidade de cópias de cada cartinha, Helinho as atou a balões inflados de hélio – não os artísticos balões vendidos pelo pai, mas a modelos simples, como as bexigas de festa de aniversário – e, subindo para a laje de sua humilde casa, soltou os balões, vagões de sonho lotados de afeto, nos ares de sua São Gonçalo.

No primeiro dia foram 30. Quinze dias depois, o menino despachava mais 15. E assim, usando de suas economias, o menino adquiria os balões e inflava-os com os botijões de gás do pai, liberando suas mensagens pelo ar.

Em apenas três dias depois dos primeiros lançamentos, duas marcações no perfil do menino no Instagram apareceram. Pessoas curiosas, que encontraram uma das mensagens, nas quais constava também o endereço do menino, e seu perfil naquela rede social. Mas demorou 45 dias para chegarem as primeiras cartas. Cartas de papel, como as de Helinho. Uma mãe e uma irmã.

“Querido menino Hélio. Encontrei seu balão pendurado nos galhos de uma árvore em Alcântara. Era de manhãzinha, eu ia pro meu trabalho nos Correios. Sua mensagem me fez chorar no ônibus, pois perdi minha mãe há seis meses. Ainda sofro. Mas acredito que Deus usou você para me mandar uma mensagem de conforto. Obrigado, meu filho. Não te conheço, mas você já conquistou uma amiga.”

A segunda carta – outras viriam – era de uma adolescente de 17 anos, Ágatha. Ela vira o balão do menino caído em seu quintal, de tarde, ao chegar do cursinho pré-vestibular. Com a mensagem em mãos, Ágatha entrou no quarto de seu irmão, deitou-se em sua cama e chorou. Mateus partira ia pra um ano.

“Oie!

Me chamo Ágatha, sou moradora aqui do Vila Três, em São Gonçalo também. Cara, sua cartinha chegou a mim, bem no meu quintal! Eu perdi meu irmão assim como você. Meus sentimentos por sua perda.

Sua mensagem me trouxe uma alegria que não sei expressar; era como um recado de meu irmão, dizendo para mim e minha mãe sermos fortes, que ele está bem.

Precisei escrever para você. Ia mandar mensagem no privado em seu perfil, mas resolvi escrever uma carta, assim como você. Minha primeira carta. Nem sei como enviar! Mas vou no correio me informar.

Estou escrevendo essa carta na cama de meu irmão. Minha mãe doou as coisas dele, roupas e tais, mas deixou a cama como estava. Pra lembrar dele, sabe? Mas não sei se isso é saudável, pra nós duas. Pois ambas choramos muito nesta cama. Já a peguei de madrugada ajoelhada aos pés da cama dele, chorando sozinha, e dizendo ‘onde foi que eu errei?’ Mas somos tantas famílias nessa situação...

Hélio, venho agradecer seu gesto, sua forma de ajudar as pessoas. Você é um anjo que, não tendo asas, criou as suas com palavras e bexigas de gás. Obrigado obrigado obrigadooooo!”
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Voa, Helinho. Voa e trabalha, que faltam anjos no mundo, e os que desistem, no lugar de uma segunda chance, são mortos a bala.
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.

Fonte:
Mar Ocidental. 23.12.2025
https://marocidental.blogspot.com/2025/12/gas-helio-um-conto-sobre-acolhimento-e.html#comment-form