domingo, 18 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 221 *


Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
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Poema de
OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Justiça

Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça
Em prantos a Mamãe.

“Que foi, meu filho?”

—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!
Outros, no meu colégio, com mais brilho,
Tiveram prêmios, livros e medalhas...
Só eu não tive nada!”

—“Mas porque não trabalhas?

Porque é que, a uma existência dedicada
Ao trabalho e ao estudo,
Preferes os passeios ociosos?
Os outros, filho, mais estudiosos,
Pelas suas lições desprezam tudo...
Pois querias então que, vadiando,
Os outros humilhasses,
E que, os melhores prêmios conquistando,
Mais que os outros brilhasses?
Para outra vez, ao teu prazer prefere
O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:
E aprende: mesmo quando isso te fere,
É preciso ser justo!”
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Trova de
ROZA DE OLIVEIRA 
Santo Antônio de Pádua/RJ,  1942 – 2026, Curitiba/PR

Minhas trovas são abraços,
mil braços vou abraçar,
nos mil infinitos laços
que a trova sabe engendrar.
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Poema de
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Jenipapeiro/PI

Paisagem por dentro

 Abro os braços
para a paisagem
descortinada janela a fora,
aos olhos que se arregalam.

 E o coração:
- a vida é bela bebida aos poucos.

 O verde enverdece o sol,
o amarelo traz fruta – esperança,
a saudade em chuva e orvalho
cai (dos tempos de criança).
Bate-me por dentro, nas laterais:
- as narinas sentem
e os ouvidos ouvem
o vento
e seus mistérios e eflúvios,
arrepiando a pele como tentáculos.

 A alma que voava
me pousou
na beira do sonho.
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Trova de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Se este mundo tão bisonho
te nega paz e guarida,
usa o refúgio do sonho,
onde o amor sustenta a vida!
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Soneto de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Chuva

Lá fora cai a chuva docemente...
dos meus olhos uma chuva de saudade,
no peito bate um coração ardente
e na alma um quê de felicidade.

Que esta chuva caindo sobre a terra,
transforme em vida todas as sementes,
fertilizando de forma tão materna
ternura que brotou dentro da gente.

Estamos sós, a vida quis assim...
não adianta isso lamentar,
estar longe não quer dizer o fim.

E amanhã quando despontar a aurora,
vou-me lembrar da chuva que caiu,
sentir sozinho, o que sinto agora!
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Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ

Não julgues a sorte ingrata,
pois Deus, que tudo divisa,
bem sabe a medida exata
da ajuda de quem precisa…
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Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Porções de mim

E em cada frase que escrevo
Lá estou eu toda derramada
Inspiração em mim é enlevo
E a poesia se faz tão sagrada.

Um verbo fala muito de mim
E posso estar em um adjetivo
Quem sabe o reverso sem fim
E na entrelinha: meu objetivo.

Escrever é junção de pedaços
O amontoado de livres letras
 Dos meus cacos em abraços.

Escrevo , escrevi e escreverei
Vinculo com a escrita meu ser
Caso parta; inda assim ficarei.
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Trova de
DOROTHY JANSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés… do nada!
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Poema de
JÚLIO CESAR BRIDON DOS SANTOS
Gaspar/SC

O poeta e a vida

As lágrimas vertidas
De um poeta sonhador
Traduzem suas virtudes
No trilhar sereno da saudade.

Apagaram-se as mágoas,
Caiu a máscara das verdades
E o poeta, maus uma vez,
Transformou seu sonho em realidade.

Navegou por mares sem fim,
Elevou-se ao infinito dos céus,
Tocou de leve as estrelas
E pousou seus olhos no luar prateado.

De sonhador a criador
Transpôs sua própria visão
E deu um gigantesco salto
Na direção de seus anseios.

Agora, o poeta não mais sonhava
Com algo inacabado
Pois, finalmente, seus desejos
Tinham sido conquistados.
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Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz…
Grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
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Poema de
RITA VELOSA
(Rita Bernadete Sampaio Velosa)
Araraquara/SP

Faroleiros de Almas

Assim somos nós, faroleiros de almas:
Iluminando os penhascos,
Clareando os abismos,
Perscrutando  segredos,
Fincados em meio ao nada,
Presos no mar revolto
Girando, girando, girando...
Focando os perigos,
Alertando os incautos,
Orientando os perdidos;
Uma luz de esperança no mundo,
Faroleiros de almas!

Mas quem acenderá uma luz  para nós?
Nossa dor é grande:
Vemos demais, sentimos demais
E nada podemos fazer por nós mesmos.
Solitários  em alto mar,
Brilhando e consumindo-nos loucamente,
No desespero da lucidez,
Em chama interna,
Luz eterna,
No calor da esperança,
Girando, girando, girando...
Perscrutando desesperadamente!
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Felicidade?… É a que eu tenho
quando na vida ajo assim:
– Quero alguém feliz… me empenho…
e esqueço um pouco de mim!
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Soneto de
JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Crença

Quando firmava o azul e o sol abria
Ao dia a sua bem-aventurança,
O homem bom repartia à vizinhança
Toda espécie de estima que sentia.

E amanhecia cheio de esperança
De vir o dia, após um novo dia,
Para lhe dar apreço e cortesia
Conforme a sua ingênua confiança.

Depois curvava a fé que lhe convinha
À soleira da porta, e de tardinha
Fiava as horas, crédulo a sorrir.

E a noite o recolhia nesse afã
De estar sempre esperando esse Amanhã
E sempre esse Amanhã tardando a vir...
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Trova de
MARIA CALIL ZAMBON
Novo Horizonte/SP (1935 – 2012) Bandeirantes/PR

Em toda Mulher se vê:
o charme, o encanto, a alegria
e em todas elas há um quê
da doçura de Maria!
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964)

Encomenda
 
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
 
Como tenho a testa sombria, 
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
 
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta, 
ponha uma cadeira vazia.
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Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Felicidade! – Eu te estudo
e não decifro a “charada”:
– Uns – infelizes com tudo…
– Outros – felizes sem nada!!!
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Anton Tchékhov (A Obra de Arte)

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
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Anton Tchekhov (1860 - 1904)
ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes:
Anton Tchékhov. Histórias Variadas. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.  
Biografia = Wikipedia; Livrista; Portal da Literatura; Mundo Educação; Brasil Escola; LPM; Revista Cult, Jornal Opção, Plug Literário, etc.

Estante de Livros (“O Tronco do Ipê”, de José de Alencar)

 O Tronco do Ipê, publicado em 1871, é um dos principais romances regionalistas de José de Alencar, inserido na segunda fase de sua produção ficcional. A obra integra o projeto literário do autor: construir uma identidade nacional brasileira por meio da literatura, retratando o homem e a paisagem do interior, longe da influência da civilização urbana e europeia.
 
Ambientado na década de 1850, na Fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, região cafeeira do interior do Rio de Janeiro, o romance mescla drama amoroso, mistério, lendas populares e crítica social. Foi publicado em um momento crucial: intensos debates sobre a abolição da escravatura e a identidade nacional, temas que perpassam toda a obra .
 
 1. ENREDO E ESTRUTURA
 
A história gira em torno de Mário e Alice, jovens que se amam, mas vivem impedidos de se unir por um segredo familiar que envolve a morte do pai de Mário, José de Freitas .
 
Parte I — O Mistério
- Mário acredita que o Barão de Almeida (pai de Alice) assassinou seu pai anos antes. Essa convicção gera nele um conflito doloroso: ama Alice, mas não pode aceitar ser genro de um suposto assassino.
- O tronco seco de um ipê, às margens do Boqueirão (uma lagoa com redemoinhos), é o centro simbólico da narrativa — ali repousa o segredo que Pai Benedito guarda há anos .
- Pai Benedito, um escravo liberto respeitado e sábio, vive numa cabana próxima à fazenda. É ele quem detém a verdade sobre o passado.
 
Parte II — A Revelação
- Em um momento de desespero, Mário tenta se suicídio, mas é impedido por Pai Benedito, que finalmente revela a verdade: José de Freitas não foi assassinado. Ele morreu afogado no Boqueirão em um acidente; seu corpo foi levado pelas águas e sepultado junto às raízes do ipê seco. O Barão nunca foi culpado — apenas protegeu a honra do amigo falecido .
- Com o mal-entendido desfeito, os obstáculos se dissipam: Mário e Alice podem finalmente viver seu amor livremente.
 
2. PERSONAGENS PRINCIPAIS
 
Mário 
Jovem órfão, sensível e impulsivo 
Representa o jovem brasileiro em formação; aprende que o ódio e a vingança não são caminhos 

Alice 
Filha do Barão, doce e firme 
Símbolo da pureza e da força do amor que transcende conflitos 

Barão de Almeida (Joaquim) 
Senhor de terras, íntegro e generoso 
Figura do "bom senhor", leal à amizade e à honra 

Pai Benedito 
Escravo liberto, sábio, guardião do segredo 
Alma da comunidade; representa a sabedoria popular e a bondade que transcende hierarquias sociais 

Adélia 
Prima de Alice, jovem sensata 
Contraponto equilibrado ao drama central 
 
3. SIMBOLISMO CENTRAL
 
O Tronco do Ipê
- Árvore viva = vida e prosperidade; tronco seco = passado e segredo enterrado. O ipê, flor típica do Brasil, é símbolo nacional por excelência — sua morte representa uma fase que se encerra, mas que precisa ser compreendida para que algo novo floresça.
- Túmulo e testemunha: guarda os restos mortais de José de Freitas e, com eles, a verdade. Só quando a verdade é revelada é que o futuro pode se abrir.
 
O Boqueirão
- A lagoa com redemoinhos representa o mistério, o inconsciente, as forças ocultas da natureza e do destino. Engole o passado para devolver a verdade no momento certo.
- Evoca a lenda de Iara, a mãe d'água — elemento do folclore nacional que Alencar integra à narrativa, reforçando a brasilidade da obra .
 
 4. TEMAS PROFUNDOS
 
1. Verdade vs. Vingança
O conflito de Mário nasce de uma suposição transformada em certeza. O romance demonstra como a falta de verdade gera ciclos de ódio e sofrimento. A mensagem é clara: a vingança não restaura o passado; só a verdade liberta o futuro.
 
2. A Natureza como Espelho Moral
Alencar não apenas descreve a paisagem — ela participa da narrativa. A exuberância da natureza brasileira contrasta com as pequenas misérias humanas; ao mesmo tempo, ela é palco e juízo dos destinos dos personagens. A fazenda em decadência espelha uma ordem que precisa de renovação.
 
3. Escravidão e Relações Raciais — Uma Leitura Crítica
Este é um dos aspectos mais complexos da obra:
- Pai Benedito é a figura mais nobre moralmente do livro, mas ocupa uma posição subalterna. Alencar o humaniza, mas não questiona estruturalmente a escravidão .
- O autor, membro do Partido Conservador, constrói uma imagem harmônica e paternalista das relações entre senhores e escravos: não há violência explícita; Pai Benedito é fiel e respeitado. A crítica contemporânea aponta que Alencar apresenta uma visão idealizada que ameniza a dureza da escravidão, num contexto político em que ele defendia uma abolição gradual e sem rupturas .
- Ainda assim, ao dar a Pai Benedito o papel de guardião da verdade e da justiça moral, Alencar eleva o personagem a um centro ético da narrativa .
 
4. Honra e Amizade
O Barão guarda o segredo por lealdade ao amigo morto. O silêncio por nobreza gera um sofrimento desnecessário a todos os envolvidos. A obra levanta uma questão delicada: até que ponto o sigilo protege a honra, e quando ele se torna uma prisão para quem ama?
 
5. Amor que Transcende Barreiras
Mário e Alice representam a possibilidade de reconciliação entre gerações e famílias divididas. O amor deles não apaga o passado, mas sobrevive quando a verdade vem à tona. É uma metáfora para o próprio Brasil: um país que precisa conhecer sua história para poder avançar unido.
 
5. ESTILO E ESTRUTURA LITERÁRIA
 
- Gênero: 
Romance regionalista / Romance rural, com traços de romance místico e de mistério.

- Foco narrativo: 
Em terceira pessoa, com voz que ora se aproxima, ora se afasta dos personagens; há um quadro inicial com um viajante que observa a paisagem e ouve Pai Benedito, estabelecendo uma distância reflexiva.

- Linguagem: 
Cuidadosa, rica em descrições da natureza, com diálogos que refletem a hierarquia e os costumes da sociedade rural oitocentista.

- Dupla unidade: 
A obra divide-se em duas partes — o enigma e a solução — estruturadas como uma jornada da ignorância à luz da verdade.
 
5. AVALIAÇÃO CRÍTICA E POSIÇÃO NA OBRA DE ALENCAR
 
- Construiu um cenário genuinamente brasileiro, integrando paisagem, lendas e costumes nacionais.
- Criou em Pai Benedito uma das figuras mais memoráveis e humanas da nossa literatura oitocentista .
- Usou a metáfora da árvore como elemento unificador — recurso poético de grande eficácia.
- A resolução do conflito depende de um mal-entendido prolongado de forma um tanto artificial.
- A representação da escravidão é idealizada e não aborda suas contradições estruturais, refletindo a posição política conservadora de Alencar .
- O final feliz é rápido demais, sem explorar as consequências profundas da revelação.
 
Lugar na Literatura Brasileira
O Tronco do Ipê situa-se entre Iracema (1865) e Til (1872). Se nas obras indígenas Alencar busca as origens, aqui ele examina a sociedade brasileira já constituída, com suas contradições de classe, raça e herança colonial. Não é sua obra mais célebre, mas talvez a que melhor expressa o desejo de Alencar por um Brasil unido, onde o passado não seja uma corrente, mas uma raiz compreendida.
 
6. CONCLUSÃO
 
O Tronco do Ipê é muito mais que uma história de amor e segredos. É uma reflexão sobre como lidamos com nosso passado: se o enterramos e deixamos aprisionar nossa vida, ou se o reconhecemos em verdade e seguimos adiante. O ipê seco não é apenas uma relíquia morta — é onde a verdade repousa, esperando ser desenterrada para que a vida possa florescer novamente.
 
Mensagem : 
Não há futuro possível sem verdade sobre o passado. E o amor, para ser pleno, precisa ser também honesto.
 
7. RESUMO
 
A história se passa na Fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, uma propriedade rural na zona da mata fluminense, por volta de 1850. O cenário é dominado por uma lagoa chamada o Boqueirão, famosa por seus redemoinhos e pela lenda da Iara (a mãe d'água), que supostamente atraía pessoas para as águas. Às margens da lagoa erguia-se um velho tronco seco de ipê, outrora uma árvore frondosa. Ali morava, numa pequena cabana próxima, Pai Benedito, um escravo liberto, sábio e respeitado por todos, que guardava um grande segredo .
 
Parte I — A Infância e o Primeiro Encontro com o Perigo
Na fazenda viviam Mário, um menino órfão que ali crescera sob a proteção do Barão de Almeida, e Alice, filha do Barão. Os dois cresceram como amigos próximos, mas um dia, ainda crianças, Alice aproximou-se demais da margem do Boqueirão. Atraída pela lenda da Iara, que parecia chamá-la das águas, a menina caiu na lagoa e foi levada pelo redemoinho.
 
Mário, sem hesitar, lançou-se à água para salvá-la. Com a ajuda de Pai Benedito, que estava próximo, conseguiram trazer Alice de volta à margem e reanimá-la. O Barão, profundamente grato, prometeu cuidar da educação de Mário como se fosse seu próprio filho e enviou o menino para estudar na Corte (Rio de Janeiro).
 
Antes de partir, porém, Mário ouviu comentários que despertaram nele uma suspeita terrível: diziam que o Barão de Almeida teria sido o responsável pela morte de seu pai, José de Freitas, anos antes. Essa convicção passou a atormentá-lo.
 
Parte II — O Retorno e o Amor Impedido
Passam-se sete anos. Mário retorna à fazenda na véspera de Natal, agora formado em engenharia. Ele e Alice se reencontram e percebem que o afeto de infância transformou-se em amor profundo. No entanto, a suspeita sobre a morte de seu pai o atormenta incessantemente.
 
Para Mário, amar Alice significaria aceitar como pai o suposto assassino de seu próprio pai. Ele oscila entre a paixão e o ódio, entre o desejo de ser feliz e a lealdade à memória do pai. Trata Alice com frieza e conflito, deixando-a confusa e triste. O amor deles é puro, mas está bloqueado por um segredo não revelado.
 
O Barão, ao perceber o sofrimento da filha e a atitude estranha de Mário, também se entristece e se angustia, sem compreender o que se passa.
 
Parte III — O Clímax: O Boqueirão e a Verdade
A situação atinge seu ponto mais crítico. O Barão, abatido e sentindo-se responsável pela infelicidade de Alice, dirige-se ao Boqueirão com a intenção de tirar a própria vida, sentindo que essa seria a única forma de livrar a filha daquele sofrimento.
 
Mário, ao perceber a intenção do Barão, corre até a lagoa e salva-o, impedindo que ele se jogue no redemoinho. Nesse momento de tensão máxima, Pai Benedito aparece e finalmente revela a verdade que guardara por todos aqueles anos :
 
O pai de Mário não foi assassinado. José de Freitas estava passeando de barco no Boqueirão quando o barco virou e ele afogou-se acidentalmente. Seu corpo nunca foi encontrado; foi levado pelas águas e repousava, enterrado pela terra, junto às raízes daquele tronco de ipê seco. O Barão não era culpado de nenhum crime — apenas prometera ao amigo, antes de morrer, guardar silêncio sobre os últimos momentos, para preservar a honra da família. O segredo prolongou-se demais e gerou toda aquela desgraça .
 
Parte IV — A Reconciliação e o Final
Com a verdade revelada, tudo se esclarece:
 – O Barão é inocente;
– Não há mais obstáculo entre Mário e Alice;
– O passado não é mais uma sombra, mas uma lembrança honrada.
 
O segredo guardado junto ao tronco do ipê finalmente vira luz. A árvore seca deixa de ser símbolo de mistério e torna-se memorial respeitado. Mário pede perdão ao Barão por sua desconfiança; os dois se abraçam. O amor de Mário e Alice, livre da sombra da vingança e da suspeita, pode enfim florescer. Eles se casam e a paz retorna à Fazenda do Boqueirão.
 
O romance encerra com a mensagem de que nenhuma felicidade pode existir sem a verdade, e que o silêncio, mesmo quando feito com boa intenção, pode aprisionar vidas inteiras.
 
 8. LINHA DO TEMPO
 
Passado:
 José de Freitas afoga-se acidentalmente no Boqueirão; Barão guarda o segredo 
Infância:
Alice cai no Boqueirão; Mário a salva; Barão manda Mário estudar na Corte 7 anos depois; Mário retorna; ama Alice, mas crê que o pai dela matou o seu 
Clímax: 
Barão tenta suicídio; Mário o salva; Pai Benedito revela a verdade 
Resolução: 
Inocência provada; Mário e Alice unem-se; paz na fazenda 

sábado, 17 de outubro de 2026

Hely Marés de Souza (Tertúlia da Saudade)

 

A neve, o frio, a trincheira...
o pracinha suportou.
Pela honra brasileira
ele não se intimidou.

A nossa brava Nação,
em festa de aniversário,
recebe nossa expressão
no seu quinto centenário!

Ao cair lento da tarde...
o sol reflete brilhante
como fogo sem alarde,
e se apaga num instante.

Ao festejar o natal
usemos a tradição:
para as crianças, presentes,
e aos pais, grande emoção!

Ao retornar vitorioso,
bandeira como agasalho,
pracinha chegou ansioso
pra dedicar-se ao trabalho.

Aos amigos trovadores
desejo um Feliz Natal
vinho de vários sabores
num abraço fraternal.

Aquelas nuvens revoltas
sob o imenso firmamento,
parecem ovelhas soltas
voando a favor do vento.

Brasil com quinhentos anos,
merece ser avaliado:
alguns curtem desenganos
e outros... feliz passado!

Bravo amigo e companheiro
caçador de sabiá.
Não precisa usar dinheiro
para aprender a trovar.

Com lua cheia, serena,
perscrutando o firmamento,
aos poucos me integro à cena...
voando em meu pensamento!

De uma pinha escultural
o pinheiro é gerador,
dá pinhão, castanha real...
de inexcedível sabor!

Deus fez o planeta Terra
e, pra companheira sua,
pelo valor que ele encerra,
num sopro... criou a lua!

Da poesia somos fãs,
por destino, combatentes!
A trova cria titãs,
a guerra cria valentes.

Esposa amada e amorosa,
feliz em meio à família,
trouxe ao mundo, esperançosa:
-A Vânia, o Hely e a Brasília...!

Glória ao Brasil, neste evento!
Junto a paz universal!
Saudemos, neste momento
a bandeira nacional.

Glória às forças brasileiras
em festa o povo gritava,
quando derrotou trincheiras
e o algoz que os torturava!

História, trova e civismo
a transbordar neste instante,
com salvas mui respeitosas
ao General Comandante.

Hoje, medalha no peito,
confirma seu destemor,
pracinha foi sem defeito,
à Pátria rendeu amor!

Já pronto pra trabalhar,
não terá dificuldade,
serviço não vai faltar
tamanha é a capacidade!

Mais uma etapa vencida,
cada importante vitória
foi à Pátria oferecida,
pra enriquecer nossa história.

Mascarenhas comandou
sempre a caminho da glória
e Deus o recompensou
com os louros da vitória.

Mascarenhas foi coerente
no comando e na ação,
quando impôs, pujantemente,
ao “tedesco” a rendição.

Mas, o que trouxe a vitória
alguém até já explicou:
-A Itália tem na memória
que a FEB a libertou.

Na guerra, audaz e engenhoso,
negou trégua ao inimigo,
sem se tornar rancoroso,
trouxe a vitória consigo.

Na guerra foi varonil,
na volta, um trabalhador.
O pracinha do Brasil
trouxe a paz e muito amor.

Na Itália o barco aportou,
a bordo um grande salseiro...
O Iwersen se apressou
e desembarcou primeiro!

Na Legião Paranaense,
“Casa do Expedicionário”,
a UBT em muito suspense
faz da Trova um relicário...

Nasci onde o vento bate
e junto a um grande terreiro,
ao lado um pé de erva-mate
e um majestoso pinheiro.

Neste dia tão festivo,
data em que você nasceu,
receba o abraço afetivo
de quem nunca o esqueceu.

No mundo da fantasia
que faz sorrir a criança,
o palhaço, na folia,
é o arauto da esperança!

No seu lar pleno de amor
neste natal reine a paz,
rememorando o esplendor
de dois mil anos atrás.

O Brasil foi ao Timor
salvar aquela nação.
Levou mensagem de amor
e cumpriu sua missão!

O Brasil, país ordeiro,
jamais pensou em maldade.
Foi à guerra o brasileiro
defender a liberdade.

O civismo e a poesia
são elos de ligação
que unem, com maestria,
Trovadores e a Legião!

O homem que foi à guerra,
água fresca em seu cantil,
por certo foi um gigante
na defesa do Brasil.

O pracinha da “Legião”,
sempre bem representada,
abraça o poeta irmão
e augura feliz jornada!

Padre Alberto, capelão
da FEB expedicionário,
na Itália com distinção
lutou como um missionário!

Persistir na caminhada
de trovas sensacionais,
é missão tão delicada
quanto regar os rosais!

Pracinha soldado bamba
em Camaiore atacou
com granadas fez um samba
e o tedesco se entregou.

Quero rever os meus pagos
e ouvir toda a velha história.
Quero sentir os afagos
da minha União da Vitória.

Saúdo o neto engenheiro!
sucesso terá na soma...
Provou ser bom brasileiro
e conquistou o diploma.

Se eu devo até navegar
nas ondas bravas da vida,
preciso com você estar:
Meu amor, minha querida!

Sem demonstrar seu cansaço
e sem pensar no porvir,
no picadeiro, o palhaço
faz a plateia sorrir.

Sob intensa artilharia
conquistou Monte Castello,
onde hasteou com galhardia
o pano verde e amarelo.

Zenóbio grande guerreiro
comandou a Infantaria,
mas não superou Cordeiro...
- Poderosa Artilharia!!!
_________________________________
Hely Marés de Souza (1923 - 2013)
    Hely Marés de Souza, nasceu em 1923, em União da Vitória/PR. Descende de tradicional família espanhola que introduziu o cultivo da erva-mate naquela cidade e construiu o Engenho do Mate no século XIX, localizado em Rondinha, Campo Largo. Formou-se em Direito, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde também cursou até o terceiro ano de Engenharia. Aos 19 anos, foi subitamente convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra Mundial, na Itália, quando o Brasil encontrava-se ameaçado pela tirania nazi-fascista. Participou do 6º Regimento de Infantaria, 2º Grupo de Artilharia, 9º Batalhão de Engenharia, 2º Grupo de Obuses Auto Rebocado e de todas as ações da artilharia brasileira nos combates de Monte Castello, Montese, Camaiore, Belvedere, Abetaia, Monte Della Castellina, Pietra Collina, entre outros. No seu retorno ao Brasil, foi um dos fundadores da Legião Paranaense do Expedicionário, sócio n° 22, entre os 2500 registrados e seu presidente por sete gestões.
    Como expedicionário, Hely fez a diferença. Ao retornar ao Brasil, vivenciou as dificuldades enfrentadas por muitos dos ex-companheiros de caserna, que diante dos horrores da guerra precisavam de apoio psicológico e financeiro. Se as famílias eram ajudadas pelo governo federal até então, o auxílio cessou com o retorno dos soldados. Diante disso, Hely se empenhou na formação e fundação da Casa do Expedicionário de Curitiba, onde atualmente localiza-se o Museu do Expedicionário, no bairro Alto da XV, para dar apoio aos ex-combatentes e suas famílias. Formou-se em Direito pela UFPR e trabalhou no Palácio Iguaçu, onde ocupou o cargo de Procurador do Estado, tornando-se o consultor das questões mais complexas do Direito Público. Durante 30 anos, trabalhou no Palácio Iguaçu, com 16 governadores. Foi, diretor jurídico do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE. 
    Foi condecorado com as medalhas de Campanha e de Guerra, concedidas pelo Ministério da Guerra; de Mérito, pelo Governo do Estado do Paraná; Mascarenhas de Moraes, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil; do Pacificador, conferida pelo Ministério do Exército; de Cavaleiro da Ordem do Mérito, medalha de ouro conferida pelo Governo Polonês, em Londres; de Reconhecimento, pela Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB); da Vitória, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil/RJ, e Max Wolff Filho, outorgada pela Legião Paranaense do Expedicionário. Grande incentivador da cultura e membro de várias entidades culturais: Membro efetivo do Círculo de Estudos Bandeirantes, Centro Cultural Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri, Soberana Ordem do Sapo, Sociedade dos Amigos de Alfredo Andersen, Academia de Cultura de Curitiba, Clube dos Vinte e Um Irmãos Amigos e ANVFEB do Rio de Janeiro. Foi escritor, poeta, pesquisador e trovador . Faleceu em 2013.

Fontes:
Trovas de Vânia França de Souza Ennes e Hely Marés de Souza. 
Coleção Terra e Céu. vol. LXVIII. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2016.