sábado, 30 de maio de 2026

Chafariz de Trovas * 3 *

 

Aquele aspecto divino
que envolve certas pessoas
é o troféu com que o destino
condecora as almas boas.
A. A. DE ASSIS
 
Se há muita gente que gosta
de dizer o que bem quer,
é provável que, em resposta,
ouça aquilo que não quer!
ANA RODRIGUES
 
Às vezes a caridade,
que a paz e a esperança aspira,
põe no lugar da verdade
uma piedosa mentira…
ANGÉLICA VILLELA SANTOS
 
O Destino quis um dia
divertir-se de verdade.
Casou a dor e a alegria,
veio uma filha: a Saudade!
APARICIO FERNANDES
 
Quantos mortos trago vivos
no fundo do coração,
e dentro em mim quantos vivos
há muito mortos estão!
BELMIRO BRAGA
 
Rouba a luz do sol, maldosa,
o manto da madrugada,
que se afasta pressurosa,
na penumbra, encabulada...
CARMEN RUTH HOFFMANN
 
Quanto esta vida seria
difícil de suportar,
se não fosse esta mania
que a gente tem, de sonhar!
CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO
 
Minha vida ganha impulso
e mais impulso ganho eu,
sempre que sinto o teu pulso
pulsando junto do meu!...
CAROLINA RAMOS
 
Quando a solidão avança, 
trazendo tristeza e medo, 
o amor é a luz da esperança, 
qual farol sobre o rochedo.
CATERINA BALZANO GAIOSKI
 
Luar, viola e sertão
nos mostram com harmonia
como a própria solidão
precisa de companhia…
CÉZAR AUGUSTO DEFILIPPO
 
Hoje, livre da senzala,
abolidos preconceitos,
a humanidade se embala
nessa ilusão de direitos...
DARIA RIBEIRO DO CARMO
 
Contra toda a malvadeza, 
que causa tantos horrores, 
em resposta, a natureza 
vem cobrir o chão de flores!
DARI PEREIRA
 
Uma pergunta insistente
de vez em quando me ocorre;
- Por que é que toda gente
só fica boa se morre?
DALVA CAMPELO CASTANHEIRA
 
Juntando juncos, retalhos
no bom arranjo da tralha,
foram surgindo espantalhos
dos louros sonhos da palha...
DÉBORA NOVAES DE CASTRO
 
Moradores de um barraco,
fofoqueiros de "mão cheia",
preparam outro "barraco"
falando da vida alheia...
DÉCIO RODRIGUES LOPES
 
Ao beijar a tua mão
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu!…
DURVAL MENDONÇA
 
Gosto de viver sozinho,
não suporto amigo falso.
— Não pode plantar espinho
quem vive sempre descalço.
EDIZIO MENDONÇA
 
Ganhe um mundo mais feliz: 
leia livros, não seja ilha, 
e a própria vida nos diz: 
feliz é quem compartilha!
ELIAS PESCADOR
 
Uma emoção fugidia
também tem o seu cantor:
— Um trovador fantasia
qualquer história de amor!. . .
ELZA CAPANEMA LEITÃO
 
A Fé sem base é cegueira,
é fanatismo, é paixão.. .
— A Fé só é verdadeira
quando não teme a razão.
FERNANDO BURLAMAQUI
 
Nos lixões abomináveis, 
vejo vidas sem ter vida, 
na saga dos vulneráveis, 
batalhando por comida.
FRANCISCO GABRIEL
 
Naquela criança linda
que brinca, cheia de pressa,
o meu mundo que se finda,
fita um mundo que começa!
GALDINO ANDRADE
 
A saudade é simplesmente
um claro espelho encantado.
Mira-se nele o presente
e ele reflete o passado.
GERALDA ARMAND
 
Somos todos nessa vida
pescadores de ilusão
dedicando a nossa lida
aos anzóis de uma paixão.
GERALDO TROMBIN
 
Em jovem era uma uva,
cheia de vida e de graça.
Com a idade, o sol e a chuva,
a coitada virou “passa”.
HELENA KOLODY
 
Não rias da desgraçada
que por maus caminhos vai;
— na seda mais bem lavada
cai uma nódoa e não sai...
IRENE MARGARIDA CAMPOS DA SILVA RUIVO
 
Ah! Vontade de seus braços
me envolvendo com carinho.
Hoje, são apenas traços,
que ficaram no caminho!
JOSÉ FELDMAN
 
Se com fome estende a mão,
a criança mais procura
junto ao pedaço de pão,
uma sopa de ternura.
JOSÉ HENRIQUE DA COSTA
 
Mantenho viva a esperança
de ainda ter um jardim,
para soltar a criança
que brinca dentro de mim!
JOSÉ LAMARTINE
 
Tudo brilha nas alturas,
por tênue que seja a chama...
Há, porém, luzes mais puras
quando o brilho sai da lama!
JOSÉ MARIA GUIOMAR NETO
 
Minha mãe verteu mais pranto
que a mãe de Nosso Senhor.
— A Virgem chorou um santo;
minha mãe — um pecador!
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Em quantos dos sonhos meus
tantas vezes nos deixamos
e, em cada beijo de adeus,
na hora recomeçamos,
LILIAN MAIAL
 
Bravura é da água da fonte
que, aos tropeços, vem, contente,
vencendo as pedras do monte,
matar a sede da gente!
LILINHA FERNANDES
 
A dor que nunca se esvai,
a dor que mais mortifica,
não é a do pranto que cai,
mas da lágrima que fica.
LINDOURO GOMES
 
Meu desejo percorreu
teu corpo como compasso,
circulando o que é tão meu,
na geometria do abraço.
LISETE JOHNSON
 
São delícias passageiras
as carícias da paixão,
como brisas forasteiras,
nem bem chegam, já se vão...
LOURDES APARECIDA CIONE
 
Duas vidas todos temos...
muitas vezes sem saber:
— A vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver.
LUIZ OTÁVIO
 
Do nascer à eternidade, 
tanta lição aprendida: 
ora riso, ora saudade, 
na viagem de uma vida!
MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA
 
Essa paixão envolvente, 
que nos une em comunhão, 
põe tanto amor entre a gente, 
que não cabe a solidão !
MARIA LÚCIA DALOCE
 
Só mesmo Deus sabe o custo
do resgate de uma dor,
principalmente se o justo
paga pelo pecador…
MÁRIO LINHARES
 
Oferecendo a miragem 
de uma vida sem escolta 
o vício vende passagem 
para a viagem sem volta.
OLYMPIO COUTINHO
 

Minha avó, que já está morta, 
queria tudo perfeito... 
Até fazendo uma torta, 
fazia torta direito! 
ORLANDO WOCZIKOSKY
 
Ah, que estranho desafio
e esquisita proporção:
quanto mais fica vazio,
mais nos pesa o coração!
PADRE CELSO DE CARVALHO
 
Ouço da flor que se arruma, 
as queixas da mesma saga, 
ao descobrir que perfuma 
a mão perversa que a esmaga!
PROFESSOR GARCIA
 
No olhar da bela princesa 
lágrima teima em correr. 
Tal qual água de represa 
que logo insiste em verter…
RENATO DA SILVA CARDOSO
 
Aprendi, desde menino,
uma lição permanente:
não fazemos o destino,
— o destino faz a gente!
SEBASTIÃO PAIVA
 
Esta vida é um buraco
cujo fundo não se vê.
Morre o bom, fica o velhaco
e ninguém sabe porquê.
SYMACO DA COSTA
 
Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria: 
-É propício pra sonhar,
mas, sem você... que ironia!!! 
VÂNIA ENNES 

A vida é só uma jornada, 
antes da grande viagem 
que não tem data marcada, 
nem destino e nem bagagem.
ZUNIR PEREIRA ANDRADE FILHO
 
Nas horas graves e calmas,
que só Deus mesmo me traz,
penso na paz dessas almas
que nunca tiveram paz!
ZALKIND PIATIGORSKY

A. A. de Assis (Um susto na redação)

Ivens Lagoano Pacheco, dono e diretor do “O Jornal de Maringá”, era um gaúcho de corpo volumoso e vasto bigode. Para completar, fumava charuto e usava óculos escuros. Na sala de redação, naquele início de tarde em 1963, estávamos Ademar Schiavone, João Amaro Faria, José Zimermann e eu.

Tudo parecia calmo, ouvindo-se apenas o teque-teque das máquinas de escrever. Súbito entrou um homem muito nervoso, com um canivete numa das mãos e na outra um jornal todo amassado. Aos gritos, dizia:

– Quero ver quem foi o desaforado que botou meu retrato aqui nesta porcaria e me xingou de indivíduo e desordeiro...

Tinha saído no matutino a notícia de uma briga de bar, na qual o tal fulano esteve envolvido. Por sorte, naquele momento o repórter responsável pelo noticiário policial havia saído para um trabalho na rua.                                    
Ivens estava na sala dele recebendo a visita de um amigo, o Doutor Newman da Silva Gomes, um dos primeiros dentistas de Maringá. De lá ouviu a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. O homem continuava esbravejando e fazendo ameaças. Ivens chegou peitando o sujeito e soltando baforadas de fumaça:

– Abaixe essa arma e converse como gente educada.  

O homem teve um tremelique, deixou o canivete cair e se desmanchou numa crise de choro.  Ivens mandou que ele se sentasse num sofá e disse:

– Olhe aqui, seu moço, isto aqui é um lugar de respeito. Se você tem alguma queixa a fazer, fale comigo. 

O homem enxugou os olhos com as mãos, disse que era um trabalhador desempregado e que estava de passagem por Maringá procurando trabalho. Metera-se na confusão do bar só por ter sido provocado.

Aí foi o bom Ivens que começou a chorar. Ligou para um restaurante que havia perto do jornal e mandou vir uma marmita bem recheada. Em seguida telefonou para um amigo empresário pedindo que arranjasse um servicinho para o rapaz até que aparecesse coisa melhor.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-5-2026)

Olga Agulhon (Na safra da vida, a magia das cores)

 Crônica Vencedora do Concurso Nacional de Crônicas do 3º Jogos Florais de Caxias do Sul /RS – 2011
No espelho não mais encontro aquela jovem que um dia foi a noiva de branco a se olhar uma última vez antes de se entregar… Um último retoque nos negros fios encaracolados; uma última ajeitada na grinalda de flores de laranjeira… e pronto! Tão linda imagem… perfeita! Estava ali a encarnação da esperança!

Tudo perfeito, afinal, naquele dia. Em cadeiras caprichosamente arrumadas sob a sombra do parreiral em cachos, amigos e familiares em sincera torcida… Quase toda a italianada da colônia…

As uvas pendiam roxas e perfumadas, indicando fartura e bons presságios ao alcance das mãos.

O noivo, de pé, no altar, com brilho de gel nos cabelos, vestia, com certeza, o seu melhor traje. Aguardava, aflito, a donzela que tomaria por esposa como quem espera, finalmente, começar a viver… Cheio de sonhos no olhar!

Não vi, ao caminhar em sua direção, nada além daqueles olhos de anil e promessas… Olhos que guardariam aquele momento para sempre em sua retina… Olhos que me diziam: – Venha, não tenha medo, ninguém aqui ousará ofendê-la, e hoje é o seu dia de rainha.

Unidos pelo santo laço do matrimônio, não mais enfrentaríamos a resistência dos sogros… Estava feito!

Outras safras vieram, ano após ano. Junto com a colheita da uva e a produção do vinho, comemorávamos o aniversário de casamento e, de quando em quando, a dádiva da vida sendo gerada em ventre fértil.

Nem tudo foi assim tão lindo do jeito que foi sonhado… Nem todas as promessas foram cumpridas… Algum encanto se desfez aqui ou acolá, mas tudo foi bem-vindo…  Estávamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Fomos abençoados com cinco valorosos filhos, que formavam lindo degradê, e nossas vidas estariam para sempre entrelaçadas. 

Volto a me buscar no mesmo espelho da penteadeira de imbuia, na mesma casa caiada com as cores da terra… e o meu amor está de partida.

Busco-me no espelho e não me vejo. Na imagem refletida, uma outra habita. Insisto e me procuro naquela imagem de cabelos de neve cobertos… Não reconheço nenhum traço. Não vejo quem sou, não encontro quem fui quando trocamos o “sim” diante do altar…

Lembro-me dos olhos de promessas cheios…  Éramos outros… Tão jovens!

A velhice enrugou o nosso olhar… Não me reconheço diante do espelho e meu loiro não pode me ajudar nesse momento, pois trava um longo combate com a morte, no quarto ao lado… Insisto, aprumo os óculos, fixo-me bem posicionada… nada! O velho espelho também exibe as marcas do tempo. Choro… e as lágrimas silenciosas escorrem lentamente, percorrendo os inúmeros sulcos esculpidos em meu rosto.

Recomponho-me! Aprendi a aceitar os punhados de dor que a vida me reserva e esconde entre tantos potes de felicidade.

Volto e sento-me a seu lado. Ainda ouço um último sussurro: – Te amo, minha nega!… E então, finalmente, me reencontro naquelas retinas, que sempre me viram além da cor e das marcas do tempo.

Firme, seguro sua mão até a travessia, com a certeza de que, na minha hora, ele estará me esperando na margem de lá, com a mão estendida…, e ao caminhar em sua direção não verei mais nada além daqueles olhos de anil e promessas…

Outra safra se aproxima e a saudade ainda machuca o peito, mas alegro-me com a chegada dos filhos ao nosso pedaço de terra nesse cantinho do mundo.
A natureza novamente em cachos perfumados e coloridos.

Agradeço ao Criador da vida! O meu quinhão de alegria sempre foi maior que o meu quinhão de dor…

Meus filhos, participando da colheita da uva, são como bálsamo para os meus olhos… Lindos e fortes, uma mistura perfeita de raças, o branco e o negro em profusão de amor: na safra da vida, a magia das cores!

Fonte:
Jornal O Diário. Caderno D+. 31 janeiro 2012.

Dicas de Escrita (Por que um leitor abandona um livro)

 
Imagem = IA Microsoft Bing
A decisão de interromper a leitura de um livro, mesmo já tendo avançado em suas páginas, é um fenômeno muito comum e complexo, que não se resume a uma única causa. Trata-se do resultado de uma combinação de fatores relacionados à obra em si, às características do leitor, ao contexto em que a leitura acontece e até às expectativas que foram criadas antes do início da leitura. Abaixo, explico detalhadamente cada um desses aspectos, desmembrando as razões que levam alguém a deixar um livro de lado.

1. Problemas relacionados à estrutura e à qualidade da narrativa

É, sem dúvida, o conjunto de razões mais frequente. Quando a construção da história, das personagens ou da linguagem não cumpre o que se espera, o vínculo entre leitor e obra se rompe.

Desenvolvimento fraco ou confuso da trama

Uma das primeiras causas é a falta de clareza ou de propósito na história. Muitas vezes, o autor  começa a narrar sem definir claramente qual é o conflito principal, qual é o objetivo das personagens ou qual é o rumo que a história vai tomar. O leitor passa capítulos inteiros sem entender para onde a narrativa está indo, e essa sensação de "estar perdido" gera desinteresse. Além disso, se a trama se arrasta por muito tempo sem que nada de relevante aconteça — o que chamamos de "encheção de linguiça" —, a leitura se torna cansativa. 

O oposto também é um problema: se os acontecimentos são muito rápidos, mal explicados ou se há mudanças bruscas que não fazem sentido lógico, o leitor não consegue acompanhar e acaba desistindo. 

Buracos na trama, ou seja, fatos que não são explicados, contradições entre o que foi dito antes e o que acontece depois, ou soluções fáceis e inverossímeis para problemas complexos também quebram a credibilidade da história.

Personagens que não geram identificação ou interesse

As personagens são o coração de qualquer narrativa. Se elas forem mal construídas — rasas, sem personalidade, sem motivações claras ou sem evolução ao longo da história, o leitor não se importa com o que acontece com elas. Não há razão para continuar lendo se não sente simpatia, curiosidade ou até mesmo antipatia por quem está sendo narrado. 

Outro problema comum é quando as atitudes das personagens não condizem com o que foi apresentado sobre elas: por exemplo, uma personagem que é descrita como muito corajosa, mas que em momentos decisivos age de forma covarde sem explicação. Também afasta o leitor a criação de personagens excessivamente perfeitas, sem defeitos ou dificuldades, pois elas se tornam irreais e distantes da experiência humana.

Estilo de escrita inadequado ou cansativo

A forma como a história é contada influencia diretamente na experiência de leitura. Alguns autores usam uma LINGUAGEM EXCESSIVAMENTE REBUSCADA, COM PALAVRAS RARAS, frases muito longas e complexas, ou descrições minuciosas e intermináveis de ambientes, objetos ou sentimentos, que tornam a leitura lenta e difícil. Quando o leitor precisa parar a cada parágrafo para entender o que está escrito, a leitura deixa de ser prazerosa e se torna um esforço. 

Por outro lado, uma escrita muito simples, repetitiva ou com erros de coesão e coerência também afasta, pois demonstra falta de cuidado com a obra. O ritmo da escrita também importa: se todo o texto tem o mesmo tom, a mesma velocidade, sem momentos de tensão, de calma ou de emoção, a leitura fica monótona. O uso inadequado de pontos de vista — como mudar de quem está narrando sem avisar, ou usar um ponto de vista que não permite conhecer os pensamentos ou sentimentos das personagens — também cria distanciamento.

Diálogos artificiais ou irreais

Os diálogos são uma ferramenta essencial para contar histórias, mas quando são mal feitos, causam estranhamento. Se as personagens falam de forma muito formal, com frases que ninguém usaria na vida real, ou se os diálogos servem apenas para explicar coisas que o autor quer que o leitor saiba, ao invés de refletir a forma como as pessoas realmente se comunicam, a sensação é de falsidade. 

Além disso, diálogos que não avançam a trama, que são repetitivos ou que não revelam nada sobre quem está falando, são um motivo frequente para abandonar a leitura. 

Problemas na estrutura da obra

Alguns livros têm uma organização que dificulta o acompanhamento: por exemplo, saltos temporais muito frequentes e sem marcação clara, divisão de capítulos que não faz sentido, ou uma ordem dos acontecimentos que confunde a compreensão. Quando a estrutura não ajuda o leitor a navegar pela história, a sensação é de desorganização, e a leitura se torna desagradável.

2. Descompasso entre expectativa e realidade

Antes mesmo de começar a ler, o leitor cria uma ideia sobre o livro, baseada em sinopses, recomendações, resenhas, capa ou até mesmo no nome do autor. Quando o que ele encontra nas páginas é muito diferente do que esperava, a decepção é imediata e pode levar ao abandono.

Expectativas criadas pela apresentação da obra

A sinopse, na contracapa ou na apresentação, é um dos principais fatores de atração. Se ela promete uma história de mistério cheia de reviravoltas, mas o livro é, na verdade, uma narrativa lenta sobre relações familiares, o leitor se sente enganado. O mesmo acontece se a capa sugere um gênero (como fantasia ou romance), mas o conteúdo pertence a outro, ou se o livro é vendido como uma obra-prima, mas a qualidade percebida pelo leitor é muito inferior. 

Recomendações de amigos, críticos ou influenciadores também criam expectativas: se alguém que você confia diz que um livro é incrível, e você não encontra nada de especial nele, a frustração pode fazer com que você desista.

Gênero ou tema que não corresponde ao gosto do leitor

Muitas vezes, o livro é bem escrito, bem estruturado e tem boa crítica, mas simplesmente não agrada ao gosto pessoal de quem está lendo. Por exemplo, alguém que gosta de histórias dinâmicas, com muita ação, pode achar um livro de reflexão filosófica ou drama psicológico muito parado e chato. Da mesma forma, temas que não interessam, ou que são tratados de uma forma que não agrada, fazem com que o leitor não veja sentido em continuar. O gosto é algo subjetivo: o que é maravilhoso para uma pessoa pode ser insuportável para outra, e isso não significa que o livro seja ruim, apenas que não combina com quem está lendo.

Abordagem de temas sensíveis ou polêmicos

Alguns livros tratam de assuntos difíceis, como violência, traumas, discriminação ou sofrimento extremo. Se o autor aborda esses temas de forma excessivamente explícita, sem cuidado, ou se o leitor tem alguma ligação pessoal ou sensibilidade com o assunto, a leitura pode se tornar desconfortável, dolorosa ou até ofensiva. Nesse caso, o abandono é uma forma de proteção emocional, pois a pessoa não quer continuar exposta a sentimentos negativos ou situações que a afetam profundamente. Além disso, se a forma como um tema é tratado contraria os valores, crenças ou princípios morais do leitor, ele não se sente à vontade para seguir adiante.

3. Fatores relacionados ao leitor

O estado, a disposição e as características de quem lê também são determinantes para a continuidade ou interrupção da leitura.

Falta de disponibilidade de tempo ou de concentração

Vivemos em um mundo cheio de distrações e obrigações. Muitas vezes, o livro é bom, mas o leitor está sobrecarregado com trabalho, estudos, problemas pessoais ou atividades diárias, e não consegue encontrar tempo ou calma para ler com atenção. Quando as leituras são feitas em pedaços curtos, com interrupções constantes, é difícil se envolver com a história: ao retomar a leitura, já não se lembra o que aconteceu antes, quem são as personagens ou qual é o contexto, e isso faz com que a experiência seja fragmentada e pouco prazerosa. A falta de concentração também pode ser resultado de cansaço físico ou mental, que torna difícil absorver o conteúdo.

Estado emocional ou mental inadequado

O nosso humor e o que estamos vivendo na vida real influenciam muito o que lemos e como lemos.

Um livro que é engraçado, leve e divertido pode ser exatamente o que precisamos em um momento de alegria, mas se estamos tristes, ansiosos ou passando por um problema difícil, pode parecer superficial ou inadequado. Da mesma forma, uma história densa, profunda ou triste pode ser muito pesada para alguém que já está emocionalmente abalado. 

Em certos momentos, a pessoa só quer algo que a distraia, e não algo que exija reflexão ou que mexa com sentimentos intensos. Se o livro não se adapta ao que a pessoa precisa ou está disposta a receber naquele momento, ele é deixado de lado.

Falta de afinidade com o estilo ou a proposta do autor

Alguns autores têm uma forma muito própria de escrever, de estruturar histórias ou de ver o mundo. Mesmo que a obra seja reconhecida como excelente, o leitor pode simplesmente não se identificar com essa forma de ver e contar as coisas. Pode ser que ele não concorde com as ideias apresentadas, que não goste da forma como o autor pensa ou que ache a perspectiva adotada distante ou incompreensível. Essa falta de sintonia faz com que a leitura não gere conexão, e sem conexão, não há motivação para continuar.

Dificuldade de compreensão ou conhecimento prévio

Certos livros exigem um repertório cultural, conhecimento específico ou maturidade que o leitor ainda não tem. Obras clássicas, livros com referências históricas, filosóficas ou científicas, ou textos com linguagem de uma época diferente podem ser difíceis de entender para quem não tem a base necessária. Quando a pessoa sente que não consegue acompanhar, que não entende o que está sendo dito, ou que precisa estudar para ler, a leitura deixa de ser um prazer e se torna uma tarefa, levando ao abandono.

4. Fatores externos e de contexto

Além da obra e do leitor, o ambiente e a situação em que a leitura acontece também têm peso na decisão.

Concorrência com outras atividades ou interesses

Hoje, temos inúmeras formas de entretenimento e informação: séries, filmes, jogos, redes sociais, podcasts, entre outros. Muitas vezes, o leitor começa um livro, mas encontra outras atividades que acha mais interessantes, mais rápidas ou mais fáceis de consumir. A leitura exige dedicação e atenção, que muitas pessoas preferem direcionar a outras coisas que lhes dão prazer ou retorno mais rápido. Além disso, se surge um novo interesse, um novo assunto ou um novo livro que desperta mais curiosidade, o que estava sendo lido é deixado para trás.

Problemas com a edição ou a apresentação física do livro

Parece pequeno, mas detalhes físicos importam muito. Edições com letras muito pequenas, páginas muito finas, papel de má qualidade, diagramação confusa, muitos erros de impressão ou ortografia, ou ainda livros muito grandes, pesados ou desconfortáveis de segurar tornam a leitura cansativa e desconfortável. Se cada página lida é um esforço físico ou visual, a pessoa vai preferir parar.

Influência de outras pessoas ou do meio

Às vezes, o leitor está gostando do livro, mas ouve comentários negativos de pessoas que ele respeita, ou percebe que ninguém ao seu redor conhece ou gosta da obra. Essa influência pode fazer com que ele passe a ver o livro com olhos diferentes, comece a achar defeitos que não via antes e, por fim, decida abandoná-lo. Também acontece de a pessoa sentir vergonha do que está lendo, por achar que não é um livro "importante" ou "adequado" perante os outros, e parar de ler por causa disso.

5. O limite pessoal e a decisão de parar

Há também um ponto que se refere à postura do próprio leitor em relação à leitura. Muitas pessoas sentem que precisam terminar todos os livros que começam, como se fosse uma obrigação ou uma forma de cumprir uma meta. Mas, ao longo da experiência de leitura, a pessoa percebe que não está gostando, que não está ganhando nada com a obra, ou que simplesmente não tem mais vontade de continuar. Nesse momento, a decisão de abandonar o livro é também uma escolha de respeito a si mesmo: reconhecer que o tempo e a disposição são valiosos, e que não faz sentido gastá-los com algo que não traz satisfação, conhecimento ou prazer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Abandonar um livro não é um sinal de que o leitor não sabe ler, ou de que o livro é necessariamente ruim. É, antes de tudo, um reflexo da complexidade da relação entre quem escreve, o que é escrito e quem lê. Cada leitor é único, cada livro tem suas características, e cada momento da vida traz necessidades e interesses diferentes. As razões para parar são sempre uma mistura de todos esses elementos, e compreendê-las ajuda a entender que a leitura é, acima de tudo, uma experiência pessoal e subjetiva. O importante não é terminar todos os livros, mas encontrar aqueles que fazem sentido, que tocam, que ensinam ou que divertem — e que fazem valer a pena cada página lida.

Fonte:
Jfeldman. Dissecando a magia dos textos. Floresta/PR: A.I. Dola, Biblioteca Sunshine.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Esclarecimento

 Devido a problemas de saúde não poderei publicar novas postagens, contudo em junho devo retornar às publicações.

Obrigado por navegar em meu blog. São quase 20 mil postagens, desde dezembro de 2007. Neste meio tempo, aproveite para navegar nas postagens anteriores.

Abraços,

José Feldman

domingo, 17 de maio de 2026

Concurso Literário da Estante de Talentos (Prazo: 23 de Junho)


SOBRE O CONCURSO
1ª edição | Narrativas Possíveis
Tema: Histórias que não cabiam em lugar nenhum

Esta antologia reúne histórias que ficaram esquecidas, guardadas em arquivos ou deixadas de lado pelo mercado editorial. Imagine que um arquivista curioso encontra esses textos e percebe que eles não foram ignorados por falta de qualidade, mas porque não seguiam padrões comuns ou não chamavam atenção de forma imediata. São narrativas que escolheram ser fiéis a si mesmas, em vez de buscar aprovação fácil.

Ao longo da leitura, a intenção é que surja uma reflexão importante sobre quem define o que merece ser publicado e valorizado. Quando apenas algumas vozes ganham espaço, muitas outras experiências e visões acabam sendo deixadas de fora.

Os textos funcionam como um reflexo da forma como a sociedade seleciona e descarta, e também como uma abertura para pensamentos mais profundos, cheios de conflitos e questões sem respostas simples. São as mais variadas histórias que encontram aqui a chance de existir, crescer e alcançar o leitor.


EDITAL
Regulamento Geral de Concursos Literários

ATENÇÃO:
Todas as regras precisam ser seguidas à risca, caso contrário, sua participação será cancelada.

Leia o regulamento quantas vezes for necessário.

Nota: Este regulamento é padrão para todos os concursos. As especificidades de cada concurso estarão discriminadas na descrição do mesmo.

1 – Participantes

1.1 – O concurso destina-se a escritores de língua portuguesa, sendo aberto tanto a escritores iniciantes quanto a autores já publicados anteriormente. Os participantes devem ser residentes no Brasil e maiores de 18 (dezoito) anos. Não será admitida a participação de menores de idade, mesmo com autorização dos responsáveis legais. Em caso de descumprimento, o autor será desclassificado no momento da assinatura do contrato.

1.2 – A inscrição é GRATUITA. Nenhum valor será cobrado dos candidatos para participação no concurso, nem para a posterior publicação do livro. 

1.3 – A Estante de Talentos reserva-se o direito de indicar alterações visando à melhoria dos textos selecionados, sempre que julgar necessário. Os textos selecionados somente serão publicados caso estejam dentro dos padrões e diretrizes editoriais da editora.

1.4 – Todos os participantes devem acompanhar os comunicados oficiais do concurso exclusivamente pelo e-mail cadastrado no momento da inscrição. Após a confirmação da inscrição, todas as informações serão enviadas por e-mail, não sendo necessário o envio de contatos adicionais para acompanhamento do andamento do concurso.

2 – Orientações

2.1 – Os textos inscritos devem ser INÉDITOS em sua totalidade, ou seja, não podem ter sido
publicados anteriormente de nenhuma forma — seja em formato digital (blogs, plataformas de leitura, redes sociais, sites pessoais, Wattpad, Amazon ou qualquer outra mídia online) ou em formato impresso (revistas, jornais, livros, fanzines etc.). O texto deve ser original e nunca divulgado publicamente em nenhum meio ou suporte.

2.2 – Editores, organizadores, tradutores ou quaisquer outros colaboradores da editora, bem como autores convidados, poderão participar do concurso enviando seus textos.

2.3 – Os textos deverão ser encaminhados exclusivamente por meio do formulário disponível no site https://estantedetalentos.com.br

2.4 – O arquivo a ser enviado deve seguir obrigatoriamente as seguintes especificações:

• Formato: Word (.docx) — PDF não será aceito;
• Tamanho de página: A4;
• Espaçamento entre linhas: 1,5;
• Fonte: Arial, tamanho 11;
• Margens: superior e esquerda com 3 cm; inferior e direita com 2 cm;
• O nome do arquivo deve conter apenas o título do texto. Ex.: "Nome do texto.docx";
• O texto não poderá conter o nome do autor, pois os trabalhos serão avaliados de forma
anônima;
• O texto deve ter no mínimo 2 (duas) páginas completas e no máximo 3 (três) páginas;
• Evite diálogos e/ou frases em outros idiomas. Caso necessário, inclua tradução em nota de
rodapé;
• O texto não pode conter imagens.

2.5 – Cada autor poderá participar com apenas um texto.

2.6 – O texto deve ser integralmente de autoria do participante e não pode ser versão de texto já criado anteriormente, mesmo que inédito em publicações. Deve ser uma obra original.

2.7 – Não serão aceitos textos que contenham conteúdo pejorativo, discriminatório ou que incitem ódio e preconceito. Salvo indicação prévia na descrição do concurso, também não serão aceitos textos com conteúdo sexual, referências a drogas ou condutas ilícitas. O descumprimento desta norma resultará na desclassificação do texto.

2.8 – Não serão aceitos textos em coautoria.

2.9 – Evite notas desnecessárias. Em hipótese alguma inclua dedicatórias no corpo do texto.

3 – Publicação

3.1 – Caberá exclusivamente à Editora Estante de Talentos definir a arte de capa e o estilo de
diagramação do livro.

3.2 – Será realizado um financiamento coletivo (crowdfunding) para que a obra seja publicada nos formatos impresso e digital.

3.3 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação, o livro estará disponível no catálogo da editora.

3.4 – Os autores não são obrigados a contribuir financeiramente com o crowdfunding, mas é de
grande importância a divulgação da campanha para que a meta seja atingida e a publicação da obra seja viabilizada. Será disponibilizado material de divulgação digital.

3.5 – Será realizado um único registro ISBN contemplando todos os textos do livro.

3.6 – A participação do autor selecionado somente será confirmada após o recebimento dos contratos devidamente assinados.

4 – Direitos Autorais

4.1 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação, cada autor receberá direitos autorais (royalties) sobre as vendas futuras do livro impresso, conforme estipulado em contrato. Os percentuais serão definidos de acordo com cada obra, tendo em vista a quantidade de autores participantes. Situações específicas serão comunicadas na chamada do concurso ou no momento da assinatura do contrato.

4.2 – Todo autor selecionado receberá 10 (dez) exemplares impressos da obra, 1 (um) exemplar digital em formato PDF (eBook) e o Certificado de Registro de Direitos Autorais (CBL), após a publicação bem-sucedida mediante o atingimento da meta do financiamento coletivo.

4.3 – Todo autor, da obra publicada, poderá adquirir exemplares adicionais com desconto (conforme disponibilidade de estoque), arcando com os custos de frete, para comercialização conforme sua conveniência.

4.4 – Os exemplares vendidos aos autores da obra com desconto serão contabilizados na base oficial de vendas da editora; no entanto, por serem comercializados com valor reduzido, não gerarão participação no pagamento de direitos autorais.

5 – Seleção e Resultados

5.1 – O conselho editorial da Estante de Talentos será responsável pela leitura de todos os textos inscritos e pela seleção dos preferíveis para publicação.

5.2 – O resultado será divulgado nas redes sociais da Estante de Talentos, nos siga!

5.3 – Por e-mail, serão disponibilizadas informações sobre o andamento do processo e orientações adicionais para a etapa de publicação.

DISPOSIÇÕES IMPORTANTES

Ao ter seu texto selecionado, o autor cederá à Estante de Talentos o direito de publicar seu texto na obra resultante desta chamada, em formato digital e impresso, com exclusividade pelo prazo de 3 (três) anos, contados a partir da data de assinatura do contrato.

A cessão do direito de publicação se estende a todos os meios e mídias direta ou indiretamente vinculados à Estante de Talentos, para fins exclusivos de divulgação da obra resultante desta chamada.

Durante o prazo de exclusividade de 3 (três) anos, o autor não poderá publicar nem autorizar terceiros a publicar o texto por quaisquer outros meios — incluindo plataformas digitais como Wattpad, Amazon, blogs ou similares —, salvo para fins de divulgação da antologia resultante desta chamada.

A comercialização será exclusiva da Estante de Talentos durante o período de exclusividade. Após esse prazo, pode-se renovar o contrato caso haja interesse de ambas as partes, o autor fica livre para utilizar e reproduzir o texto como desejar, em projetos pessoais ou outras obras.

Ao aceitar participar do concurso, o autor se compromete a integrar o livro final. Caso necessite desistir, que o faça antes da assinatura do contrato, evitando a quebra contratual. O mesmo vale para textos com pendências de direitos. Certifique-se de que o texto está apto antes do envio. A seleção dos textos considera não apenas a qualidade literária, mas também a adequação à linha editorial que a editora deseja para a obra. A não seleção de um texto não implica necessariamente que ele precise ser melhorado — pode simplesmente não se encaixar na proposta do projeto. Não serão enviados pareceres individuais sobre textos não selecionados.

Os textos selecionados passarão por revisão e preparação para adequação às normas gramaticais e editoriais, podendo sofrer alterações sem que seu conteúdo seja modificado. Caso algum trecho precise ser adaptado para estar em conformidade com as diretrizes da editora, o autor será comunicado. A recusa em realizar as adaptações solicitadas poderá resultar na desclassificação do texto, mesmo após a seleção.

Em casos de desclassificação após a divulgação do resultado, novos autores serão convocados conforme a ordem de classificação no concurso, respeitando uma lista de espera previamente definida.

Após o envio do texto, a confirmação de recebimento será exibida na própria página do formulário. 

Não será enviado e-mail de confirmação, e questionamentos individuais sobre o recebimento não serão respondidos.

A editora reserva-se o direito de alterar este regulamento sempre que julgar necessário, para mantê-lo atualizado com suas políticas, diretrizes e as demandas do mercado.

Última atualização: 09/05/2026

Ao submeter seu texto pelo formulário do site, você declara que leu e está de acordo com todos os termos deste regulamento.

Fonte:
Enviado pela Estante de Talentos.

JFeldman ( O Mundo sob as unhas de terra)

Crônica tendo por base a trova de Eduardo A. O. Toledo (Pouso Alegre/MG)
Quem dera se o povo inteiro
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!

A trova que ecoa esse desejo singelo — a humanidade trocando armas e pressas por pás e sementes — carrega uma utopia que não cheira a papel, mas a terra molhada. Se o povo inteiro decidisse, em um levante silencioso, tornar-se jardineiro, a primeira coisa que desmoronaria seria a nossa arrogância.

Ser jardineiro é, antes de tudo, aprender a gramática da paciência. No jardim, nada é para "ontem". O botão da rosa não acelera o passo porque o mundo está em crise; ele exige o tempo justo do sol e a dose exata do cuidado. Se fôssemos todos cuidadores de canteiros, talvez as guerras cessassem por um motivo muito prático: quem tem uma roseira para podar e uma muda para proteger não tem as mãos livres para carregar o ódio.

O gesto de plantar uma rosa no mundo é um ato de rebeldia contra o cinza do asfalto e a frieza dos algoritmos. Imagine o cenário: o político que, antes de discursar, precisasse retirar os matos secos do caminho; o vizinho que, em vez de erguer muros de concreto, plantasse cercas vivas de perfume. A política do jardim é a política da vida. Nela, o sucesso não é medido pelo que se acumula, mas pelo que se faz florescer no espaço que é de todos.

No entanto, ser jardineiro do mundo exige um "amor profundo", como diz o verso. Não é um passatempo de domingo, mas um compromisso de alma. É entender que a rosa que eu planto na minha calçada é o perfume que o vento levará para a sua janela. É a percepção de que o planeta não é um almoxarifado de recursos, mas um solo sagrado que pede cuidado constante sob as nossas unhas.

Se trocássemos o ego pelo adubo, descobriríamos que a beleza é a única riqueza que aumenta quando é dividida. Enquanto esse dia não chega, resta a cada um de nós cuidar do pequeno quadrado de terra que o destino nos deu. Porque, no fundo, todo mundo que sorri para uma flor já começou, sem saber, a sua revolução.
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JFELDMAN (JOSÉ FELDMAN) (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal).  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
JFeldman. Caleidoscópio da Vida. vol. 2. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing

Iara Tonidandel (A Melhor Estação)


Os dias frios do inverno acenam lentamente em sinal de despedida, desejando-me: "Cuide-se... até o próximo ano!" Em pensamento, retribuo o gesto, pedindo aos céus que as três próximas estações desacelerem os relógios, retardando o desnudamento das árvores, o branco que reveste as campinas e, principalmente, o retorno de chuvas com ventos avassaladores que fazem com que eu passe dias a observar o mundo pelos vidros embaçados e lacrimejantes das janelas de minha casa.

Ela será a primeira a instalar o período de cores e calor pelos ares que respiro. Sim, a primavera é o portal que, ao abrir-se, levará meu olhar a admirar o jardim que estará a florir em breve. Mas flores em canteiros e pergolados não acontecem ao acaso, certo? Aprendi com minha mãe que há várias questões a serem atendidas até que os perfumes exalados por elas transformem em puro êxtase nossos dias e noites. E esses atendimentos antecedem a chegada dessa estação do ano.

Desenhe um contorno de jardim que fará você dançar ao percorrê-lo e, de acordo com o sentido que seus pés tomarem, o ritmo da música poderá variar. Assim, a monotonia de um cotidiano dificilmente se instalará, tornando seu jardim o palco de uma coleção de melodias a serem bailadas.

Arejar e adubar a terra é essencial, tal como manter e renovar os livros de nossas bibliotecas. Pesquise e descubra manejos, produtos e equipamentos inovadores, mantendo os clássicos cuidados já testados e, comprovadamente, eficientes e eficazes. Assim como alimentar nossas ideias com aprendizados nos conduz à ampliação de conhecimento, remexer a terra cria espaços que serão fertilizados por bactérias, fungos e pelo húmus produzido por minhocas que nela, ao se instalarem, se multiplicam.

Escolher quais as plantas e flores a serem cultivadas é um ponto-chave em qualquer instalação de jardim. Quase tão essencial quanto a definição da lista de convidados de uma festa e a disposição destes nas mesas. Na lista, observe se as plantas e flores selecionadas estão presentes em sua região, considerando os aspectos climáticos. Importante avaliar as tensões existentes entre cada uma delas ao dispô-las no ambiente, promovendo harmonia e equilíbrio entre as diferenças que as caracterizam. Defina o local em que o jardim deverá apresentar maior exuberância, para ali plantar as mais próximas de seu gosto pessoal e de sua essência.

O plantio é um momento de apogeu. Luminoso! Veste-se de roupa de festa, sendo regido por uma orquestra sinfônica que apresenta desde os clássicos até os mais irreverentes ritmos, com acompanhamento de variados trinados e penas coloridas. Toque na terra e sinta a energia que dela emana. Saboreie-a como quem degusta um prato do chef mais famoso do planeta.

No transcorrer dos meses em que as flores brotarem, abrindo suas pétalas e folhas em resposta ao piscar dos olhos solares, enfeitando as noites abrilhantadas pela deusa lunar, lembre-se de, cuidadosamente, retirar o inço que ali aparecer. O inço pode ser comparado com aquele que inveja tudo que é belo e busca, de forma sorrateira ou não, ofuscar o que faz bem aos olhos e ao coração. Retirá-lo é trabalho constante, tipo orar antes do adormecer ou reafirmar seu amor ao ente amado.

Finalmente, no transcorrer do novo inverno, a poda. Podar não é cortar. O corte pode eliminar uma planta. A poda, longe de ser um ato que promove a dor, é ação que brinda à renovação, ao renascer, favorecendo a florescência e o crescimento. É como dar limites às crianças e jovens, sem desrespeitá-los.

Lembrando a voz de minha mãe: um jardim não é um conjunto de plantas e flores, mas sim a soma dos sentimentos e emoções de quem o constrói. Jardim não se olha. Jardim se sente, se admira.

Na primavera, reflito sobre meu jardim e as possibilidades que ele me oportuniza.

Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
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