1
Ao rir demais, trouxe ao clima
um trompete e um contrabaixo:
risada aguda por cima
e um som mais grave por baixo!
2
Ao ver-te mãe, insegura,
percebo em meio à pobreza
que o teu olhar de ternura
tem muito mais de tristeza.
3
Ausente dos teus abraços,
a dor do adeus se faz tanta,
que o nó desfeito dos laços
ficou preso na garganta!...
4
Canoeiro chora ao marco
da seca, drama do estio,
ao ver carcaças do barco
no leito seco do rio...
5
Calouro alto, parrudo,
veterano era baixote,
junto aos demais, feito o estudo,
preferiram não dar trote!
6
Carícia é o amor surgindo
numa rosa que insinua:
– Pétalas que vão se abrindo
feito mão pedindo a sua…
7
Casulo de inércias fartas,
de indecisões em virose,
a Terra, contém lagartas
que odeiam metamorfose.
8
Circo pobre, elenco escasso,
e o dono, maior artista,
troca a roupa de palhaço
e volta, de trapezista.
9
- Com outro! Venha flagrar
a sua esposa, agarrada!
E o marido, ao constatar:
- Ora! É o mesmo. Que outro nada!
10
Em fila, ao vento, caídas,
dá, num vai e vem, a impressão,
que folhas secas, unidas,
dançam balé pelo chão...
11
Em teu corpo, aventureiro,
vou desbravando horizontes,
adolescente, pioneiro,
por entre vales e montes…
12
É o povo que sofre o efeito
quando do poder advém
excesso de desrespeito
e crise de homens de bem.
13
Feito a lua, minha amada,
faz de mim seu mar e – atrai
maré alta na chegada,
maré baixa quando vai…
14
Lanço a bomba do meu sonho,
ogiva de paz e amor,
e o cogumelo medonho
ganha formato de flor.
15
Leitura bem decifrada,
ciúme é momento mudo...
Voz e gestos não são nada
quando os olhos dizem tudo!
16
Luar, viola e sertão
nos mostram com harmonia
como a própria solidão
precisa de companhia...
17
Mantenha equilíbrio e calma,
seja forte ante um desgosto.
Quem tem harmonia na alma
tem sempre um riso no rosto.
18
Mostra a vida, discrepância
na demência de meu pai,
- ele, que não teve infância,
hoje da infância não sai…
19
Muita gente sofre e chora
porque trocou sem receio
toda certeza do agora
por um depois que não veio.
20
Na boemia, no abandono,
de tanta dor eu suspeito
que até saudade sem dono
faz morada no meu peito.
21
Na ingratidão que és capaz
tua conduta me diz:
- Não passo de um “tanto faz”
para alguém que eu tanto fiz...
22
Não seja precipitado,
torne o tempo bem vivido,
mais vale um antes pensado
que um depois arrependido...
23
Na palhoça, o sol sutil,
ante o abandono na rede,
vai trincando o teu perfil
no reboco da parede…
24
Na roça, gritando à mãe,
guri, sem ducha ambiente:
- Eu já vô tomá meu bãe,
tráis o barde de água quente!!!
25
Nas crises emocionais
– conquisto em mim – nas batalhas,
reversões que valem mais
do que troféus ou medalhas...
26
Nos meus momentos inquietos
pelos desgastes da lida,
tenho a doçura dos netos
tirando o amargo da vida…
27
Ofendo... Tu te magoas,
mas por força da paixão,
eu bem sei que me perdoas
sem que eu te peça perdão.
28
O meu ontem foi mentira...
Falsos sonhos... glória vã...
Mas meu fracasso não tira
a esperança do amanhã.
29
Pão e circo, o povo, um berro
contra o furto e a distinção,
sobram cortinas de ferro,
nas mesas faltando o pão…
30
Paquerou por hora inteira,
viu na janela, afinal,
que a moça namoradeira
é boneca artesanal!
31
Pesquiso ao sofrer a acédia*,
encontro amparo e saída
em meu pai, enciclopédia
das sapiências da vida…
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Acédia é um substantivo feminino que significa uma condição de profundo desânimo, indiferença, abatimento físico e mental, ou tédio em relação aos deveres e à vida
32
Pior que o adeus, na leitura
de seu recado, magoa,
ver a sua assinatura
num texto de outra pessoa.
33
Por força das emoções
eu te abraço de tal jeito
que sinto os dois corações,
batendo em nós, num só peito...
34
– Pra debaixo, vamos nóis!
Pegou malas e pertences;
quando ela disse: - Lençóis,
ele entendeu maranhenses!
35
Raízes... braços em coma
no mangue que já morreu,
buscam no barro o bioma
que o homem não protegeu.
36
Roça... Saudade tem asas...
Lembro a mãe - que Deus a tenha -
seu sopro, atiçando as brasas
do velho fogão à lenha...
37
Sem seu pescador, a amada,
reconhece, após a cheia,
os destroços da jangada
que a maré deixou na areia…
38
Sem teto, à sombra do medo,
menina, a boneca alisa;
– dá carícias ao brinquedo
quem de carícias precisa.
39
Se o tempo – espelho sem aço –
me rouba a imagem e o brilho,
eu me vejo em cada traço
do rosto de cada filho.
40
Serve de exemplo na história
com grandeza habitual,
quem ao fracasso ou vitória
mantém a conduta igual!
41
Sofre o revés mais que justo
quem da ambição não se esquece
ao tentar a todo custo
conquistas que não merece.
42
Sou bonito, feito artista!
Diz gabando o Serafim.
E a esposa muito sadista:
- De cinema, o Rin Tin Tin.
43
Sozinho, meu caminhar,
mostra a razão mais sincera
se vivo sem regressar
é porque ninguém me espera.
44
Tendo a plástica da Estela
pele "daquele lugar",
vira e mexe a cara dela
tem vontade de sentar.
45
Teu corpo é tronco in natura
que meus olhos, dois formões,
ousam talhar na escultura
tua nudez e feições...
46
Teu corpo, tê-lo, sereia,
é sonho por desabar
feito escultura de areia
perto das ondas do mar…
47
Teu saber, mestre, em verdade,
tem a missão por igual:
– Nos bancos da faculdade
– Numa escolinha rural.
48
Urologista pôs medo,
matuto diz: - Não se zangue,
pelo tamanho do dedo
prefiro o exame de sangue!
49
Varrer o pé dá azar,
solteira, por precaução,
sonhando ainda em casar
só passa pano no chão.
50
Velho espelho, corroído,
o tempo alterou meu clima
no rosto mal refletido
que já perdeu a autoestima…
51
– Volto já! Ouço calada,
teu amor é meu castigo,
e eu me apego à madrugada,
que espera a manhã comigo.
52
Zigue-zague e me condenas
na BR feita aos cacos?
- Eu não bebo, estou apenas
desviando dos buracos!
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Cézar Augusto Defilippo (1955)
CÉZAR AUGUSTO DEFILIPPO (também conhecido pelo pseudônimo e alcunha artística de Zé Gute) é um destacado advogado, jornalista, radialista, gestor cultural e renomado trovador brasileiro. Possui uma trajetória profundamente ligada à preservação e fomento da trova e da cultura regional em Minas Gerais. Nasceu em 1955, na cidade de Astolfo Dutra/MG, filho de Paschoal Defilippo e de Antônia Muros. Trabalhou por 25 anos como bancário, o que o levou a morar nas capitais Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Posteriormente, residiu por 16 anos em Juiz de Fora (MG) antes de retornar e se estabelecer definitivamente em sua terra natal, Astolfo Dutra. Atua solidamente como advogado, jornalista e radialista/apresentador sertanejo. Exerce papel de liderança pública em seu município, tendo atuado como Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo de Astolfo Dutra, coordenando a aplicação de leis de incentivo à cultura (como a Lei Aldir Blanc) e apoiando diretamente os agentes culturais da região.
Sua trajetória oficial no mundo das trovas ganhou forte impulso em 1987, quando ingressou durante o período em que residia em Juiz de Fora. É um dos membros mais atuantes do movimento trovadoresco em Minas Gerais, servindo constantemente como coordenador e receptor de inscrições e integrando com frequência as Comissões Julgadoras de grandes concursos nacionais e internacionais de trovas. É detentor de inúmeros prêmios em Jogos Florais por todo o Brasil, destacando-se com o Troféu Revelação em Juiz de Fora e Troféu “Lilinha Fernandes” (2020), concedido em Porto Alegre. Sua produção literária está fortemente registrada em coletâneas, antologias oficiais de Jogos Florais
A importância de Cezar Augusto Defilippo reside na sua dupla função de criador e preservador. Como trovador, ele domina a técnica da trova, ajudando a manter viva essa tradicional e rica herança luso-brasileira. Como gestor cultural e jornalista trabalha nos bastidores para que novos poetas encontrem espaço para publicar, organizando concursos e garantindo o intercâmbio literário entre diferentes gerações de escritores no Brasil.






