sexta-feira, 3 de abril de 2026

Fernando Pessoa (Um grande português)


Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.

Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.

Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-as por vinte mil réis cada uma.».

«Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.»

O outro, porém, insistiu. Vigário cedeu um pouco regateando e por fim fez-se o negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, na qual se deveria efetuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.

Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.

Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por ser escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.

Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atônito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.

Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
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Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas e escritores da língua portuguesa e uma figura central do modernismo em Portugal. Sua obra é notável pela criação de heterônimos — personalidades literárias distintas com biografias, estilos e filosofias próprias — que assinaram grande parte de sua produção. Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 13 de junho de 1888. Após a morte de seu pai e o novo casamento de sua mãe, a família mudou-se para Durban, na África do Sul, em 1896. Ele viveu lá até 1905, onde recebeu uma educação em inglês e começou a escrever seus primeiros poemas nesse idioma. Ao voltar a Portugal, ele se matriculou no curso de Letras, mas logo o abandonou, dedicando-se à literatura e trabalhando em várias empresas como correspondente comercial. Pessoa estreou como crítico literário em 1912, na revista Águia. Introduziu o modernismo em Portugal e tornou-se um símbolo da cultura portuguesa. Apesar de sua importância, Pessoa publicou poucas obras em vida. Seu reconhecimento pleno veio após sua morte, com a descoberta de um grande número de textos inéditos em um baú. 
A criação de diferentes identidades literárias é a característica mais marcante de sua obra. Os mais conhecidos são: Alberto Caeiro: O "mestre" dos outros heterônimos, poeta bucólico e simples, que valorizava a natureza e o empirismo, com uma filosofia antirreflexiva; Ricardo Reis: Poeta clássico e neoclássico, com referências à mitologia greco-romana e uma busca pela tranquilidade interior; Álvaro de Campos: Engenheiro naval, poeta vanguardista e futurista, caracterizado pela exaltação da vida moderna e da velocidade, mas também pelo tédio e pessimismo; Bernardo Soares: Considerado um "semi-heterônimo", autor do Livro do Desassossego, que reflete sobre a vida, o existencialismo e a solidão. 
Embora tenha tido uma vida amorosa intensa, Fernando Pessoa nunca se casou ou teve filhos. Declarava-se um cristão gnóstico, mas não se filiou a nenhuma instituição religiosa, explorando a temática religiosa em seus escritos. Faleceu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, devido a uma cólica hepática. 

Fontes:
Fernando Pessoa, O banqueiro anarquista e outros contos filosofais. Disponível em Domínio Público.  
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 156


Era uma tarde úmida, fechada, fria. Horizontes velados. Já me preparava para o trecho da caminhada. Mas... saio para a rua olhar o céu e eis que vejo uma imagem legitimamente preta para os lados do sul do mundo. Foi-se o trecho hoje. Pensei que o mundo iria desabar. Não desabou. Então pude utilizar pela primeira vez neste ano a palavra que criei há tempo e que uso nestas condições: negro-ror-negrume.

Felizmente chegou apenas uma chuvinha serena, sem ventos, chuva céu-andante de outono.

Daqueles sustos que passamos na vida em tantos momentos, mas parecem ser amostras de que nossos caminhos pela existência têm instantes, horas ou dias que parecem nos pôr à prova de alguma coisa.

Tempos negros na atmosfera, tempos escuros nalguns dias, são nuvens passageiras que transitam existências carregadas de incertezas. Como existem as pandelícias, os pandemônios medram em proporções idênticas - temporais, céus azuis, espinhos e flores, o bom e o mau, pedras e urzes, o bem e o mal...

Dualidades que fazem parte dos sabores do viver.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
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O Conto Policial Noir


Policial noir (do francês noir, "preto") é um subgênero do policial que se caracteriza por um tom sombrio, atmosfera decadente, protagonistas anti-heroicos e exploração de temas como corrupção, moral ambígua, violência e desilusão. Diferente do policial clássico (focado na razão e na justiça), o noir destaca a fragilidade humana e a impossibilidade de uma justiça absoluta.
 
Origem
 
O gênero surgiu nos Estados Unidos na década de 1930, impulsionado pela Grande Depressão, que gerou um cenário de miséria, corrupção política e desconfiança nas instituições. Seus fundamentos estão em romances e contos de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, e foi popularizado nos anos 1940-1950 por filmes noir (cinema preto e branco com estética sombria). A influência se espalhou pela Europa e pelo resto do mundo, adaptando-se a diferentes contextos sociais.
 
Características Principais
 
- Atmosfera: Cenários urbanos decadentes (becos escuros, bares mal-assombrados, escritórios sujos), clima opressivo e uso de luz e sombra para criar tensão.

- Personagens: Detetives amadores ou privados anti-heroicos (cínicos, mas com um código moral próprio), mulheres fatais (femme fatales) que atraem e traem, vilões que são reflexos da corrupção do sistema.

- Temas: Moralidade ambígua, poder e ganância, traição, solidão, a fragilidade da justiça e a decadência da sociedade.

- Narrativa: Ponto de vista em primeira pessoa (geralmente do detetive), linguagem crua e direta, enredos que misturam investigação com drama pessoal.
 
Principais Contos de Policial Noir
 
1. "O Campeão" (1923, Dashiell Hammett)
Um dos primeiros contos noir, com o detetive Continental Op investigando um crime envolvendo boxe e corrupção, estabelecendo o tom cínico do gênero.

2. "A Mulher Que Odiava os Homens" (1933, Dashiell Hammett)
Conto que apresenta uma femme fatale manipuladora, explorando a relação entre desejo e perigo.

3. "O Homem que Odiava os Animais" (1939, Raymond Chandler)
Primeiro conto com o detetive Philip Marlowe, onde ele investiga um crime envolvendo um homem rico e sua esposa, destacando a corrupção entre a elite.

4. "Fui Morto Ontem" (1940, Cornell Woolrich)
Conto que mistura noir com suspense psicológico, onde um homem acorda acreditando que foi assassinado e precisa descobrir a verdade sobre sua própria morte.

5. "A Janela Indiscreta" (1948, Cornell Woolrich)
Marco do gênero, com um homem acidentalmente testemunhando um crime ao observar a janela do vizinho — adaptado por Alfred Hitchcock para o cinema.

6. "O Cão que Não Latia" (1942, Raymond Chandler)
Conto de Philip Marlowe que investiga o desaparecimento de um cachorro, desvendando uma teia de crimes e traições.

7. "A Noite é Meia-Noite" (1947, David Goodis)
Conto que retrata um ex-presidiário tentando se redimir, mas envolvido em um novo crime — explorando temas de redenção e destino.

8. "O Assassino" (1953, Roald Dahl)
Conto que narra o crime do ponto de vista do assassino, invertendo os papéis tradicionais e destacando a crueldade e a banalidade do mal.

9. "A Estrada da Perdição" (1950, Jim Thompson)
Conto que segue um psicopata que planeja um assassinato para roubar dinheiro, explorando a mente do criminoso de forma crua e realista.

10. "O Crime do Século" (1955, Mickey Spillane)
Conto do detetive Mike Hammer, conhecido por sua violência e moralidade extremista, representando o lado mais duro do noir americano.

11. "A Cidade é um Labirinto" (1963, Ross Macdonald)
Conto do detetive Lew Archer, que investiga um crime envolvendo uma família rica e segredos de geração — misturando noir com drama familiar.

12. "O Caso do Juiz Que Sumiu" (1975, Rubem Fonseca)
Conto brasileiro que adapta o noir ao contexto urbano de São Paulo, explorando corrupção política e violência, com um tom cru e realista.

13. "A Morte e a Menina" (1992, Ariel Dorfman)
Conto que mistura noir com drama político, onde uma mulher confronta seu algoz de ditadura — explorando justiça e vingança em um contexto de opressão.

14. "Noite de Cães" (2005, Denis Johnson)
Conto que segue dois criminosos fugindo pela América rural, explorando temas de solidão, violência e o fim do sonho americano.

15. "O Homem que Teve Medo da Luz do Dia" (2012, Lawrence Block)
Conto do detetive Matthew Scudder, que investiga um crime envolvendo tráfico de drogas e corrupção policial — representando o noir contemporâneo.

Fontes:
A. I. Dola, 2026.
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Sílvio Romero (João Gurumete)

Nota do Blog:
O conto abaixo é uma variante brasileira do clássico conto de fadas europeu, popularizado pelos Irmãos Grimm, conhecido principalmente como "O Alfaiate Valente" ou "O Pequeno Alfaiate Valente".  As semelhanças com outras histórias baseiam-se no arquétipo do herói esperto e pequeno que supera oponentes fisicamente superiores (gigantes, monstros, reis) através da astúcia, inteligência e sorte.
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(Folclore do Pernambuco)
HAVIA UM SAPATEIRO MUITO TOLO que tinha um discípulo, que o aconselhava. Uma vez o sapateiro, botando um caco com goma para esfriar, caíram nele sete moscas, que ficaram presas e morreram. O discípulo, vendo aquilo, aconselhou ao mestre que escrevesse em letras grandes na copa de seu chapéu: João Gurumete que de um golpe matou sete. Assim ele fez. 

O povo quando viu aquilo ficou pensando que o sapateiro era um homem muito valente. Aconteceu que apareceu um bicho bravo, que andava acabando tudo, comendo a gente. Era um bicho de sete cabeças e sete línguas; todos os dias ele vinha buscar sua porção de gente, e de sete em sete, já tinha acabado os meninos da cidade e estava devorando as donzelas. 

O rei mandou suas tropas acabar com o bicho, mas nada puderam fazer. Foram dizer ao rei que havia na cidade um homem muito destemido que só dum golpe tinha matado sete, e que só ele é que podia dar cabo do bicho. O rei mandou chamar o João Gurumete e o mandou acabar com aquela fera. 

O sapateiro ficou muito assustado mas não deu a entender ao rei, e disse que ia matar o monstro. 

Saindo da presença do rei, foi ter com o discípulo, quase chorando, que o valesse, que desta feita ele morreria. O discípulo lhe disse: “Não tem nada; lá onde se encontra o bicho há uma igreja velha; você corra, quando o avistar, e entre pela igreja adentro, e saia por um buraco que tem no fundo, e deixe estar que o bicho há de entrar também, e então você feche a porta, e ele fica preso lá dentro e morre de fome, e está acabada a história.” 

João Gurumete ficou muito contente e partiu; muita gente o acompanhou para ver a morte do monstro. Quando o Gurumete avistou o bicho meteu-se no mundo largo numa desfilada e entrou pela igreja adentro. O bicho fera o acompanhou e entrou também. O sapateiro saiu pelo buraco que havia no fundo da igreja, e o bicho, por ser muito grande, não pôde passar por ali. O povo que estava da banda de fora fechou a porta, e o animal morreu lá dentro de fome. João, então, cortou-lhe as sete cabeças e foi levar ao rei, que lhe deu o título de conde e muito dinheiro.

Quando foi de outra vez apareceram três gigantes muito grandes e temíveis que estavam assolando tudo, matando e roubando, e ninguém podia dar cabo deles. Avisaram ao rei que só o Gurumete era capaz de acabar com aquela peste. O rei mandou-o chamar e lhe encarregou de livrar a cidade de tanto flagelo. 

O sapateiro desta vez saiu mais morto do que vivo, e foi ter com o seu discípulo, dizendo: “Agora sim, estou perdido; aquele bicho sempre era bicho e foi fácil o enganar; mas estes gigantes são gente, e como eu hei de acabar com eles? Desta eu me vou...” 

O discípulo lhe disse: “Não tem nada; vá escondido; antes dos gigantes chegarem, trepe-se num pé de árvore, onde eles costumam comer e descansar, e amarre lá em cima três pedras muito grandes que correspondam à cabeça de cada um. Quando eles estiverem dormindo, corte a corda de uma pedra e deixe cair a pedra em cima da cabeça do primeiro; depois a outra, e depois a outra, e deixe estar.” 

João Gurumete partiu; chegando na tal árvore muito grande, avistou logo as três covas, que já havia no chão, feitas pelo peso dos corpos dos gigantes, por ali dormirem. Pegou em três pedras muito pesadas e amarrou lá era cima em três galhos da árvore, que correspondiam às cabeças dos três gigantes, e trepou-se também lá muito quietinho e escondido nas folhas.

Quando os gigantes vinham chegando foi aquele zoadão, e o Gurumete teve tanto medo que quase roda de cima em baixo. Os gigantes lá chegaram, e quase batiam com as cabeças onde estava o mestre sapateiro. Ali comeram e beberam a rachar; ficaram muito tontos, se deitaram e pegaram no sono. 

Aí o João cortou a corda de uma das pedras que caiu bem em cima da cabeça de um deles, que acordou e disse: “Má está a história; vocês já começam com as brincadeiras, já estão me dando cocorotes*.” 

Tornaram a pegar no sono. Aí o Gurumete pegou e cortou as cordas de outra pedra, que bateu na cabeça de outro gigante, e ele pensando também que era algum cocorote dado por um dos camaradas, zangou-se muito, e disse que se a coisa continuasse ele ia às vias de fato. Fizeram muita algazarra e tornaram a pegar no sono. Daí a pedaço o sapateiro largou a derradeira pedra, que bateu na cabeça do terceiro. Eles não tiveram mais dúvida, não: bateram mão nos alfanges e avançaram um para o outro, e brigaram até ficarem todos três estendidos no chão. João Gurumete desceu, cortou as cabeças dos três e levou-as para mostrar ao rei.

Houve muitas festas; o conde Gurumete recebeu o título de general e muito dinheiro, e ficou muito rico.

Daí a tempos saíram umas guerras para o rei vencer, e as tropas do rei estavam já quase acabadas e morto o general Lacaio, em quem os soldados tinham mais ânimo. O rei ficou muito desanimado, e os conselheiros lhe disseram que não havia remédio senão chamar o general conde João Gurumete, que de um golpe matou sete: o rei mandou-o chamar para ir vencer as guerras, e então lhe havia de dar sua filha em casamento. 

Desta feita o sapateiro quase cai para trás de medo. Foi ter com o discípulo e disse: “O bicho e os gigantes eram tolos, e agora as guerras com ferro e fogo... Valha-me Deus!”

O antigo discípulo o animou, dizendo: “Vista-se com a fardamenta do general Lacaio, monte-se no seu cavalo e deixe estar o resto.”

O Gurumete partiu; lá no acampamento dos soldados não sabiam ainda da morte do general Lacaio, porque os enganavam dizendo que ele tinha ido à corte falar com o rei. Gurumete meteu-se na fardamenta de Lacaio, montou-se bem armado no cavalo dele, e avançou pra frente. O cavalo disparou, e o sapateiro, que não sabia montar, ia caindo e pôs-se a gritar: “Lá caio, lá caio, lá caio!...” 

Os soldados, que ouviram isto, supuseram que era seu antigo general, avançaram com força e derrotaram os inimigos. Assim acabaram-se as guerras, ficando Gurumete por vencedor, e casou-se com a filha do rei.

Na noite do casamento houve uma grande festa, e o antigo sapateiro bebeu demais, e quando foi se deitar, caiu na cama como um porco roncando e pôs-se a sonhar alto: “Puxa mais este ponto, bate esta sola, encera a linha, olha a tripeça!” 

A princesa ficou muito espantada e desgostosa e queixou-se ao pai no outro dia que estava casada com um sapateiro, tanto que ele tinha sonhado toda a noite com os objetos de sua tenda. 

O rei mandou ficar tropa à espreita e disse à filha: “Se ele esta noite sonhar como ontem, me avisa que ele será preso e morto”.

O discípulo de Gurumete soube disto e o avisou: “Olhe que você está pra levar a carepa, se esta noite sonhar com coisas da tenda, como na noite passada; não beba hoje nada; e quando for pra cama finja que está dormindo e sonhando com uma guerra, grite aos soldados, pegue na espada, risque pelas paredes, e deixe estar.” 

Assim fez.

Na cama fingiu que dormia, pôs-se a gritar, comandando as tropas, pegou na espada e quase feriu a princesa que teve um grande susto. O rei, que ouviu isto, ficou muito satisfeito e repreendeu a filha, dizendo: “Estás casada com um grande homem, um valente guerreiro, e me andas com histórias de sapateiro! Não me repitas outra.” 

Daí por diante Gurumete dormiu em paz, sonhando sempre com suas solas e sapatos.
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Cocorotes = Assim chama-se a pancada dada na cabeça com os dedos fechados com força; é diferente de cafuné, que é um estalo doce dado com as unhas na cabeça.
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.  
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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Asas da Poesia * 170 *


Trova de
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA
Bandeirantes/PR

Por que tamanho barulho,
de um alarme por tão pouco?
Tocou tanto o tal bagulho...
que acabou ficando rouco!
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Poema de
JOÃO GARÇÃO
Guimarães/Portugal

Sentimento

A água está parada, muito quieta no meio da noite.
E é preciso perguntar-lhe: és água de um rio?
És água dum mar? És água dentro dum copo
sobre uma mesa muito antiga e sonhada?
És água para um cavalo beber? Para um cão se banhar?
Para um homem e uma criança se lavarem ao relento?
Para uma mulher, para um gato, para um lobo?

E a água talvez não te responda. Nunca te responda.
Ou te responda tarde de mais. Ou nem sequer te ouça.

Mas tu pergunta. Pergunta e espera pela resposta.
Mesmo que os minutos passem entre ti e a água
E devagar uma silhueta se desloque
e depois se detenha no meio das árvores imóveis.
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Trova de
ANGÉLICA VILLELA SANTOS
Guaratinguetá/SP, 1935 – 2017, Taubaté/SP

Com tudo desmoronando
na batalha pela vida,
fica a Esperança, amparando
nossa força  esmorecida.
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Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES

Reminiscências

Lá se foi a mocidade.,.
A minha turma animada,
minha pacata cidade
e os campinhos de pelada.

Bate uma baita saudade
quando eu lembro a molecada,
saltitante e sem maldade,
se encharcando na enxurrada.

Eu brinquei de pega-pega,
de pique-lata e carrinho;
cama de gato e corrida...

Em cada briga uma esfrega,
eu fui bandido e mocinho
na melhor fase da vida!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Fim de romance

– “Tudo acabado entre nós...
Sejas feliz em tua jornada...”
Eu notava em sua meiga voz,
que toda aquela expressão era forçada...

Mas a tudo ouvia sem dizer-lhe nada,
Sabendo ser falso o seu prazer atroz...
E ela resoluta e com a voz embargada:
– “Esqueça o feliz tempo em que vivemos sós...”

E seguimos um para cada lado
Num orgulho de tudo terminado,
Sem sequer volvermos os olhos para trás...

Todavia eu notei... Notei enquanto ela falava,
Que da flor dos olhos seus brotava
uma lágrima dorida, um sofrer a mais!...
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Trova Popular

Se tu fosses pé de pau
eu queria ser cipó:
vivia em ti enroscado
no teu corpo dando nó.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Ternura e carícias

Mês de setembro mato a dor da espera!
A decantar paixão, minha alma agora
não quer inverno... canta a primavera!
Não perco a chance! Venho sem demora.

Jamais pensei viver real paquera!
Demorei tanto pra mandar embora
a solidão que esconde triste fera!
Quem tem ventura e paz feliz não chora!

Não fujo mais! Esqueço o tal passado!
Neste presente quero seu momento,
provar do mel, carinhos, só delícias,

sentir na boca o gosto ser amado
no corpo nu, sem mágoa ou sofrimento...
Trago ternura, beijos, mil carícias!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Tanto achismo e tanto achado,
tanto eu acho e "desachei",
que olhando do lado errado,
eu percebo que acertei.
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Poema de
MARY BASTIAN
Joinville/SC

Parado no ar

Largo solto no ar
Tal como ventania
Meu brado de protesto
Meu grito de agonia
Por ver passar o tempo
Como calmaria
E a vida se acabar
Como um fim de dia

O brado corta o tempo
À procura do eco
Pra todos ouvirem
O grande protesto
Da vida vazia
Como balão da festa
Que finda afinal
Sem nem ter começado

Mas o eco é surdo
Não ouve o protesto
Não escuta o grito
E o brado emudece
O grito agoniza
A vida se acaba
Como um fim de dia
Como um fim de festa
Como calmaria

No ar só o vento
Num grito de agonia
No fim do meu dia
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Os dois donos têm receio
que a maloca caia e, agora,
toda noite tem sorteio:
enquanto um dorme... o outro escora!
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Miragem

Tua volta, arrependido,
não passou de uma miragem,
mas meu coração sofrido,
buscou no sonho uma aragem!…

Meu telefone, em plena madrugada
toca, insistente, pronto a me assustar!…
Atendo e, então, ouço uma voz velada,
que o meu ouvido adentra a sussurrar.

Assim, baixinho, segue a voz amada:
pede perdão, jamais me quis deixar;
diz que o viver sem mim é mais que nada,
e, sem demora, quer comigo estar.

Ante a surpresa tento responder,
espanto as mágoas, pois desejo crer
nesse argumento, frente ao qual renasço…

E, por amar demais, bem sei, não minto,
murmuro, agora, quanta falta eu sinto
desse sussurro e, mais… do seu abraço!
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Poema de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Depois da chuva 

Gorjeios no arco-íris 
encantam aos olhos,
fluem no entardecer,

aquietando todo o meu ser.
Em um relance de nuances 
carmins, a vida é benquerer.
As marcas da chuva secam
sem pressa, até o alvorecer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Se recordar é viver
duas vezes um instante,
mil vezes quero rever
nosso momento distante.
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Soneto de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

Amor em dois tempos

Rompendo a neblina que embaça o passado,
o sol em minha alma desperta a saudade
e eu volto contente à feliz liberdade,
ao álacre jogo do tempo encantado,

do idílio inocente, do beijo apressado
temendo os olhares do pai da beldade.
Depois uma flor do gentil namorado
no peito da amada era a felicidade!…

Não sei em que ponto perdeu-se o lirismo
do amor que os "ficantes", em seu modernismo,
mataram o encanto e a pureza ideal.

E enquanto eles "ficam", ao som da balada,
o amor vai perdendo a feição encantada,
mudando-se em coisa sem graça e banal.
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Poema de
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Calmaria

Esse entardecer que demora
é dia que se vai embora;
é azul que mergulha o poente;
é nuvem que foge no ar;
é onda que desliza macia;
é brisa que sopra de fora;
é barco que volta do mar.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

– Chamaste meu pai de otário?
Repete-o, se és homem, vem!
– Chamei não, pelo contrário,
mas que ele tem cara, tem!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Felicidade

NO TOPO:
"Felicidade não é
Despejada como o vinho,
Vem de dentro, como a fé,
Pondo flores no caminho..."
Carlos Ribeiro Rocha
Ipupiara/BA, 1923 – 2011, Salvador/BA

SUBINDO:
"Pondo flores no caminho"
o Amor presente se faz
e mesmo estando sozinho
planta a semente da Paz.

"Vem de dentro, como a fé"
em silêncio, ela aparece,
é preciso estar de pé
que a bondade vem, floresce.

"Despejada como o vinho"
a Verdade humildemente
traz a Luz e de mansinho
ilumina a nossa mente.

"Felicidade não é"
impossível a ninguém,
é tão simples, pode até
ser a prática do Bem.
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Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!
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Hino de 
Itanhaém/ SP

Num dia assim, como se fosse o maior,
Esta paisagem se pintava de azul,
Nas formas vivas, vistas lá do alto,
A natureza de Calixto em tons de amor.

Num dia assim, todo banhado de sol,
Martim Afonso ancorava as caravelas,
De paixão por estas serras, céu e mar, beleza e cor.

Itanhaém, gente da terra,
O som da pedra e do mar,
Tem novo canto, um Deus de encanto,
Anchieta a ensinar,
O que nasce de glória só tem
por destino iluminar,
Na raiz de teu povo, razão pra sonhar.

Itanhaém, ilha do tempo,
A foz do rio de abraço ao mar
Lição da vida querida,
Não param de chegar
Os teus filhos do leste,
Do norte, nordeste, de todo lugar,
O caminho da história, no berço do mar.
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Poema de
SIDNEI OLÍVIO
São José do Rio Preto/SP

o que era doce se acabou

você me pede um poema
e o papel acabou
você diz que ainda me ama
e aquele tempo passou

você não me procura mais
você reclama se inflama
e ensandece
você já não é o que parece
e o nosso amor morreu na chama

o nosso amor era uma flor
murchou
o nosso amor era um ardor
michou
o nosso amor
que pena

o nosso amor cansou de ser: será?
o nosso amor gorou: sei lá!
o nosso amor se queimou
no sertão do Ceará

o nosso amor esmoreceu
no pé de uma árvore
apodreceu
o nosso amor adormeceu
agora é tarde

o nosso amor pirou
se afogou no mar de Ipanema
que pena

eu me conformo me contenho
eu confesso:
o nosso amor transfigurou
na tela do cinema
evaporou (que pena)
no verso ausente
de um poema:
que pena!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem de meia idade

Um homem que era já de meia idade,
Tomando impertinências por vontade,
Teve duas mulheres; uma antiga,
Outra que era ainda muito rapariga.
A velha, que o queria semelhante,
A fim que fosse dela bem amante,
Todo o cabelo preto lhe arrancava;
A moça, que mais moço o desejava,
O branco lhe tirava. De maneira
Que a cabeça era já uma caveira.

Ninguém seja tão néscio que presuma
De ajuntar de mulheres um processo:
Raro com uma só tem bom sucesso,
Que sucessos terá tendo mais de uma?
Terá quem sem dar tréguas o consuma,
Quem peça e talvez furte com excesso;
Não fará em ter bens algum progresso,
Fazendo elas que tudo se lhe suma.

Cada qual das perversas, como aspira
A tirar o que é mais do seu agrado,
Arrepela sem pena de que fira.
Em puxar e arrancar vai o cuidado;
Por isso o menos mal, que o louco tira,
É sair-lhe das unhas bem pelado.
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