quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 27 *


Que bela sogra possuo!

Tão boa assim, nunca vi!
— A melhor sogra do mundo,
porque nunca a conheci...
ALMA SELVA
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O velho, a velha afagando,
fita triste a vela acesa,
ao ver o fogo apagando
no castiçal sobre a mesa…
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ
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Olho os decotes em V...
fico vesgo e nada vejo!
Sinto a atração dos abismos
e as torturas do desejo...
AUGUSTO LINHARES
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Com lucidez peculiar
quantos “doidos” são mais certos,
que os que pensam acertar
julgando-se muito espertos…
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG
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É fácil ser um herói
com uma espada e armadura;
mas é quando a alma dói
que se revela a bravura.
ELISABETE DO AMARAL AGUIAR
Mangualde/Portugal
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Nesta saudade, sem vê-la,
boêmio, só, pela rua,
faço queixa a cada estrela
e choro no ombro da lua.
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/ RS
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Num sarcasmo soberano
contra a humana criatura,
Deus pôs um cérebro humano
dentro da noz imatura!
HEITOR P. FRÓES
Cachoeira/BA (1900 –  ? )
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Na casa de Madalena,
que festa! Ninguém reclama!
— De dia, bater de boca;
de noite, ranger de cama...
HÉLIO MALLET
São Paulo/SP
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Menina pode ser tudo,
tudo o que bem quiser.
Não dê bola ao linguarudo
nem se é “coisa de mulher”…
HENRIETTE EFFENBERGER
Bragança Paulista/SP
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Para qualquer falador,
na mais opípara ceia,
foi sempre o melhor dos pratos
falar mal da vida alheia...
HERNAN CABEZA
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Século XX — mentira,
comédia rude e bem cômica:
“— Viver com penicilina
e morrer com bomba atômica!"
J. FERRAZ FREITAS
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Ao casar, o homem se deixa
vencer por uma mulher.
— Ele então pensa que manda,
mas faz sempre o que ela quer.
J. REVORÊDO NETTO
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Meu casório, realmente,
foi repleto de alegria.
— Nunca eu vira tanta gente
dentro da delegacia!...
JADIR VILELA JÚNIOR
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Sempre foi tão reverente
e tão pegado à etiqueta,
que, quando perde um parente,
só toma cerveja preta!
JOÃO RODRIGUES
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O gato nasceu valente
porque tinha de nascer...
— Já pensou se fosse a gente
trinta esposas defender?...
JOSÉ AMARAL
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Busco sempre ser feliz
e a sorte sempre me logra,
pois, me dando quem eu quis,
me deu também uma sogra..,
JOSÉ GOMES PIMENTA
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Perguntou-me o Joaquim
se do ócio não me canso.
Eu lhe respondi que sim:
que quando canso... descanso.
JOSÉ RAIMUNDO BANDEIRA
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Já vi bacharel artista
em causas insustentáveis;
e médico especialista
em doenças incuráveis...
LAURO SILVA
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Distraído, o passarinho,
vendo um rato entrar na toca,
deu-lhe um puxão no rabinho
pensando que era minhoca.
MARINA VALENTE
Bragança Paulista/SP
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Que por pilhéria não tomem
este epitáfio gozado:
"Aqui descansa, hoje, um homem
que nunca esteve cansado..."
NELSON GAMA DO NASCIMENTO

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Estes teus lábios rosados
e este decote atrevido
são dois grandes atentados
aos deveres de um marido.
NICOMEDES ARRUDA
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Quem pensa não casa! — diz-se
com frequência e com alarde.
Mas fazemos a tolice
de pensar quando já é tarde...
OTHON COSTA
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Se a feroz sogra o Veloso
matar por ódio ou temor,
não chega a ser criminoso,
mas um bravo caçador...
P. DE PETRUS
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Doutor que má fama tem
foi rever sua cidade.
Lá não foi matar ninguém:
foi só matar a saudade...
PYLADES GAMA
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Em nossos tempos, também,
não se despreza a mentira,
pois um tolo sempre tem
outro tolo que o admira...
RAUL OLIVEIRA RODRIGUES
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Naquela tarde, Teresa,
quis te falar de virtude.
— Minha boca ficou presa
à tua boca: não pude!
RENATO GOULART DA SILVEIRA
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Depois que se aposentou,
seu pijama é só frangalho,
pois nunca mais o tirou
para não lhe dar trabalho.
VANDA ALVES
Curitiba/PR
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Num pagode, em Ponta Rica,
quando estoura a confusão,
corre a moça e o homem fica
pra seguir de rabecão!...
WALDEREDO PEREIRA DE OLIVEIRA
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Nota: Os trovadores sem dados de nascimento, foram obtidos no livro Trovadores do Brasil, de Aparício Fernandes. 

Eduardo Martínez (Tereza, Armandinho e o angú)

 

 Adolescência é uma fase complicada para praticamente todos os mortais e, na verdade, não foi muito diferente para Tereza, pouco mais rechonchuda que a maioria, óculos fundo de garrafa, além das bochechas repletas de erupções conhecidas vulgarmente como espinhas. No entanto, a despeito de tais percalços, ela não tirava os olhos do Armandinho, que, caso desejasse ser ator, poderia facilmente interpretar qualquer galãzinho de seriado infantojuvenil.

    Veja você o que aconteceu certo dia! Pois lá estava a Tereza na festinha de formatura da turma, jogada num canto, como se tivesse sido esquecida ali. Ninguém a notava, muito menos o Armandinho, que recebia todos os olhares femininos, além de despertar a inveja nos rapazes. 

    Seja como for, pela primeira vez em toda sua existência, Tereza criou coragem para, finalmente, ir ao encontro ao seu amado. E foi! Foi mesmo, mas tudo aconteceu como o previsto por quase todos, menos pela pobre garota. Gente! Que fora a Tereza levou! Além de caras e bocas, o Armandinho ainda foi cruel, como praticamente todo adolescente sabe ser.

– Se enxerga, cara de pipoca!

   Todos caíram na gargalhada, o que contribuiu ainda mais para aumentar o posto de herói da galera. Tanto é que esse foi o assunto do dia seguinte, da semana inteira, quase perdurante pelo restinho do ano. O trauma foi tão grande, que Tereza desejou sumir do mapa. Não necessariamente do mapa, mas daquela rua. Por sorte, acabou passando no vestibular e até mudou de cidade. 

   Os anos se passaram, levando consigo aquelas marcas terríveis da adolescência. Tereza, agora com seus pouco mais de 30 anos, havia montado sua própria empresa de construção civil. Transformara-se numa mulher muito bonita, ainda mais porque o dinheiro havia dado uma forcinha para a natureza. Tereza poderia ser chamada de mulher que para qualquer trânsito. Se bem que essa frase não é a mais apropriada para se dizer em São Paulo, onde ela morava, já que o trânsito por lá, de tão caótico, vive parado.

   Os dias corriam ligeiros na capital paulista, mas nem por isso Tereza deixava de curtir as noites de sexta-feira. Aliás, ela tinha até uma frase pronta para essas ocasiões: "Preciso desopilar o fígado!" E foi justamente numa dessas saídas, na casa de uma amiga, que ela acabou reencontrando sua paixonite dos tempos de escola. Tereza logo o reconheceu, já que não havia mudado tanto assim. Na verdade, ela pensou: "Não é que o filho da mãe está ainda mais bonito!"

    Tereza fez questão de ser notada pelo seu antigo colega de sala. E foi! Tanto é que foi ele quem se aproximou, como se fosse um caçador certo de que iria se dar muito bem diante daquela caça tão formosa. Trocaram olhares sorridentes. "Não me lembrava que esse cretino tinha dentes tão lindos", pensou Tereza. 

    Passaram a noite toda praticamente conversando a sós. Ele, obviamente, parecia não a reconhecer. Ela, por sua vez, não fez a menor questão que ele soubesse. E, já na hora dos últimos batimentos cardíacos da festa, o irresistível Armandinho pegou suavemente a delicada mão de Tereza, ao mesmo tempo em que lhe lançou aquele olhar penetrante.

– Quer esticar a noite no meu apartamento?

- Garoto, se você não aproveitou quando o angu estava quente, agora é que não dá mesmo!
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O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fonte: Blog do Menino Dudu. 28.09.2022.
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/09/tereza-armandinho-e-o-angu.html

Silmar Bohrer (Croniquinha) 166


Contam os cadernos de anotações da história - que as escolas não apresentam - que o nome "agosto", originário do latim "augustus", foi homenagem ao primeiro imperador romano. Antes no calendário romano, o mês era chamado de "Sextilis", por ser o sexto  mês do ano, que começava em março.  

Na esteira histórica surgiram as lendas e superstições que fazem parte do folclore brasileiro.  Dentre elas s assombrações das noites de inverno - aquele panos, toalhas, lençóis, usados para proteger flores e outros verdes das geadas e frialdades da estação.  

Desde que me conheço por um ser algo pensante ouço palavras e afirmações sobre agosto - mês do desgosto (herança dos portugueses navegadores, que evitavam casamento nesta época, pois as caravelas partiam e muitos homens não retornavam).  

Outra fama de agosto é ser mês de cachorro louco, associado à época em que os cães de rua ficavam agressivos devido à incidência de raiva durante o cio. Mas as vacinas antirrábicas sepultaram essas realidades. 

Não esquecendo que no sul do Brasil existe a frase corrente destes dias dizendo, "cuidado com o mês de agosto, ele tem levado gente buena e também os gaudérios", referência aos que bateram a cola na cerca" ou "pularam a cerca da vida" em agosto.

Tenho sido um agostinho gostador dos agostos, tanto quanto dos demais meses, assim como aprecio as quatro estações, partes comuns do viver-vida-nossa, espalhando eflúvios da poesia e dos encantos do mundo em mares e céus e terra e ares. 

Ave, agosto!
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.
      
Fonte: Texto enviado pelo autor. 

Interlúdio * 15 *

 

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação Parte 1

por José Feldman

1. O CONTO

Um conto é uma narrativa breve que explora um tema, um conflito ou uma situação específica. Seus componentes principais são:

1.1. Enredo
O enredo é a sequência de eventos que compõem a história. Geralmente, está estruturado em três partes:

1.1.1. Introdução: 
Apresenta os personagens e o cenário. Exemplo: No conto "A Cartomante", de Machado de Assis, somos apresentados a uma relação amorosa e ao ambiente em que se desenrola.
  
1.1.2. Desenvolvimento: 
É aqui que o conflito principal se apresenta e se desenvolve. Exemplo: No conto "O Aleph", de Jorge Luis Borges, o personagem encontra um ponto no espaço que contém todos os outros, gerando um intenso conflito interno.

1.1.3. Desfecho: 
Conclui a história, trazendo resoluções ou revelações. Exemplo: Em "A Última Flor do Lácio", de Olavo Bilac, o desfecho destaca a importância da língua portuguesa.

1.2. Personagens

Os personagens são essenciais para a narrativa. Eles podem ser:

1.2.1. Protagonista: 
O personagem principal, que enfrenta o conflito. Exemplo: Gregor Samsa em "A Metamorfose", de Franz Kafka.
  
1.2.2. Antagonista: 
O que se opõe ao protagonista. Exemplo: O destino implacável em "O Conto da Aia", de Margaret Atwood.

1.3. Tema
O tema é a ideia central que o conto explora. Pode ser algo como amor, morte, a condição humana, etc. Exemplo: O tema da solidão em "A Menina que Roubava Livros", de Markus Zusak.

1.4. Ambiente
O ambiente inclui o tempo e o lugar onde a história se desenrola. Exemplo: O ambiente gótico em "A Queda da Casa de Usher", de Edgar Allan Poe, contribui para a atmosfera sombria do conto.

1.5. Ponto de Vista
Refere-se à perspectiva a partir da qual a história é contada. Pode ser:

1.5.1.Primeira pessoa: 
O narrador é um personagem da história. Exemplo: "O Lobo e os Sete Cabritinhos", narrado por um dos cabritinhos.
  
1.5.2.Terceira pessoa: 
O narrador é externo à história. Exemplo: "O Gato Preto", de Poe, é narrado em terceira pessoa, permitindo uma visão ampla dos eventos.

1.6. Estilo
O estilo inclui a escolha de palavras, o tom e a voz do narrador. Pode ser:

1.6.1. Realista: 
Exemplo: "Conto de Natal", de Charles Dickens, tem um tom mais sério e descritivo.
  
1.6.2. Fantástico: 
Exemplo: Os contos de fadas como "A Bela Adormecida" têm um tom mais lúdico e mágico.

1.7 Considerações
Esses componentes se interconectam para criar uma narrativa coesa e envolvente. Analisando um conto, podemos entender como cada elemento contribui para a emoção e a mensagem que o autor deseja transmitir. Por meio da exploração desses elementos, chegamos a uma apreciação mais profunda da obra literária como um todo.
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continua…

Fonte:
José Feldman. Dissecando a Magia dos Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Machado de Assis (Como comportar-se no bonde)


Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

Art. I – Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: — ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

Art. II – Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

Art. III – Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

Art. IV – Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

Art. V – Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

Art. VI – Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

Art. VII – Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas à distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

Art. VIII – Das pessoas com morrinha

As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela.

Art. IX – Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.

Art. X – Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.
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JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS é o maior nome da literatura brasileira e um dos principais escritores do século XIX no mundo. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ no Morro do Livramento em 1839 e faleceu nesta mesma cidade em 1908, aos 69 anos. Viveu toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro. Sua residência mais famosa foi a casa na Rua Cosme Velho, onde passou seus últimos anos ao lado da esposa, Carolina Xavier de Novaes. Filho de um pintor de paredes negro e de uma lavadeira portuguesa, superou a pobreza e a falta de estudos formais. Começou na juventude como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e depois trabalhou como revisor de textos. Atuou intensamente como cronista, folhetinista, crítico teatral e tradutor em diversos jornais da época. Ingressou no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, onde fez carreira burocrática estável até se aposentar como diretor.
Seus primeiros livros seguiram a tradição do Romantismo, com narrativas lineares focadas em tramas amorosas e ascensão social. Em 1881, inaugurou o Realismo no Brasil. Rompeu com o sentimentalismo e adotou um tom irônico, pessimista e inovador. Destacou-se pelo uso da metalinguagem (conversas com o leitor), digressões, análise profunda do psicológico humano e crítica à hipocrisia burguesa.
Foi o principal idealizador e fundador da Academia Brasileira de Letras em 1897. Eleito como o primeiro presidente da ABL (Cadeira nº 23), cargo que ocupou até a sua morte. Por isso, a instituição é carinhosamente chamada de "Casa de Machado de Assis". Não existiam grandes prêmios literários estruturados no Brasil de sua época, mas ele recebeu a Ordem da Rosa do governo imperial e o maior reconhecimento público e intelectual em vida.  
Alguns livros publicados: 
Romances Românticos: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878).
Romances Realistas: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908).
Coletâneas de Contos: Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896) — contendo obras-primas como O Alienista, A Cartomante e Missa do Galo.
Também publicou peças de teatro, críticas literárias e diversas coletâneas de poesias (como Ocidentais).
Sua importância para a literatura é devido a que suas obras tratam de dilemas morais, egoísmo, vaidade e ciúme, que permanecem atuais em qualquer época ou cultura. Antecipou técnicas do Modernismo europeu ao quebrar a linearidade do tempo e criar narradores não confiáveis. Registrou com precisão cirúrgica a transição do Brasil Império para a República, criticando a elite escravocrata de forma sutil e implacável.

Fontes: 
Publicado originalmente em Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 04.julho.1883.
Biografia = Wikipedia, Brasil Escola, Guia do Estudante Abril, Educa mais Brasil, Português, Ebiografia, Casa do Saber, Portal São Francisco, etc. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 209 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Num jardim de alvenaria,
numa fenda da calçada,
uma flor, por ironia,
construiu sua morada.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Quem não sonha não vive

Peço a Deus, nessa nova caminhada,
que o meu sonho não seja prematuro;
Querer pingos de luz na minha estrada,
muitas gotas de amor, no meu futuro.

E amanhã, ao romper de outra alvorada,
ver a luz de um porvir, santo e seguro,
sentir paz na mais terna madrugada
e os encantos de tudo que procuro.

Querer raios solares me beijando,
e o sossego das nuvens passeando
em meus sonhos febris, angelicais...

Despertar todo dia, entre os arranjos,
escutando os clarins da voz dos anjos
pelo sopro das brisas matinais!
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Triverso de
MILLÔR FERNANDES
Rio de Janeiro/RJ, 1923-2012

Eremita, me afundo
No deserto, pra ser
O centro do mundo.
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Spina de
CLEUSA PIOVESAN
Capanema/PR

Tecelã

Tecelã de destinos
visto-me de gala
modelo grandes alegorias.

Alinhavo meus sonhos, pesponto dores,
costuro a roupa de Carnaval
com plumas, paetês, purpurina: fantasias!
Caio na sarjeta na quarta-feira
despojada de tecer os dias!
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Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

O amor que trazes no olhar
transcende à própria magia
e eu nem ouso questionar
se é real ou fantasia…
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Poema de
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Homem

Um homem de verdade não despreza
o filho que gerou e pôs na terra;
pelo contrário, é genitor que preza
a bênção que essa graça em si encerra.

O homem como tal, ajoelha e reza,
pedindo a Deus, que é bom e nunca erra,
para jamais ser pai que menospreza
o filho que a família até descerra!

Um homem de verdade tem que honrar
a integridade com a qual nasceu
e dar o exemplo para o filho seu.

Não pode ser assim, por conseguinte,
um pai que represente até um acinte,
gerando um filho e não o querer criar!
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Poetrix de
DIANA PILATTI
Campo Grande/MS

Versos dolorosos

sangra insone
lambe a poesia ferida
– poeta sem nome.
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Spina de
TÂNIA MARIA ALVES
São Paulo/SP

Lua e garoa

Olhava a lua
embaçada, brilho fosco,
indefinida cor fugidia.

Minha lua, essa luz úmida
desliza tom marrom de céu,
aumenta dor, meu peito judia.
Garoa... Poste... Luz trêmula, encanto...
Assim a lua iluminou... Tardia!
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Velhice

Uma folha morta.
Um galho no céu grisalho.
Fecho a minha porta.
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Soneto de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Utopias

Cabocla bonita de olhar penetrante
que me olhas sorrindo do computador 
te vejo, a um só tempo, tão perto e tão distante
dos sonhos, dos olhos e do meu amor.

No ventre da noite, te busco ofegante,
rabisco um poema, rascunho uma flor
na tola ilusão de no mais breve instante,
te ter entre as dobras do meu cobertor.

Te vejo na teia dos teus afazeres
envolta entre sonhos, projetos urbanos…
E a vida é tão curta, um traço de giz!…

E eu, a esgrimir contra a fúria dos anos,
invento utopias, desenho prazeres
e em sonhos, contigo, me sinto feliz!
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 Trova de 
LUIZ VIEIRA
Irati/PR

Quando as palavras na trova
forem sendas para o místico,
em cada verso se prova
a essência do dito artístico.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Pedido

Vai, me leva pra casa,
quero ser o seu amor.
A minha imaginação,
só de pensar, cria asas;
apesar do seu desamor...
Porém, não sou de desistir
nem de entregar os pontos...
um dia, você vai descobrir:
somos dois seres “velhos e tontos”.
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Trova de
FILOMENA ZOREK
Irati/PR

Em decisão acertada,
nos seus lábios de veludo,
fizeram do quase nada
transformar-se em quase tudo.
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Spina de
RITA QUEIROZ
Salvador/BA

Lucidez e loucura

Saudades jazem absortas.
Incompletudes de mar
na peregrina escrita.

Laços materializam a insustentável leveza
dos corpos que brotam cactos,
tornando inexata a caminhada finita.
No devir das horas imprecisas,
vontades inacabadas me dão guarita.
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Trova de
MARIA SILVANA PRADO
Irati/PR

Para este mal, não tem cura,
grande é o amor que me invade.
Se vens, vibro de ternura
se vais, morro de saudade.
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Poema de
ATÍLIO ANDRADE
Curitiba/PR

O fim

Sem mala , sem nada 
No vão  do caminho
Na moita de espinho 
Que fere seu ninho
Tenta o caminho encontrar
Na escura despedida
Que vem de mansinho 
A vida... levar,
A passo, de  passarinho.
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Trova de
SÍLVIA MARIA E. SVEREDA
Irati/PR

Só uma folha em branco quando,
a inspiração vem em mim,
tal qual pássaros em bando,
pousando no meu jardim.
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Spina de
ROSANGELA BRUNO SHMIDT CONCADO
Florianópolis/SC

Agora floresço

Escrevo meus poemas
com tanto amor,
que só floresço.

Mesmo não sendo musa, enrubesço,
jardim abandonado, solitário sem brilho,
me encanto com jardineiro, incandesço.
Penso como moça à janela...
Agora flor viçosa, bela, rejuvenesço!
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Trova de
CATERINA BALSANO GAIOSKI
Irati/PR

Raças, cores e sabores,
nas rodas de chimarrão,
falam de sonhos e amores,
bendizendo este chão.
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Poema de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Dores

Uma dor que fica lá dentro
da qual não se pode falar
mas que finca, com agudeza,
incurável,
sem desvio nem esperança.
Sem revelar o motivo
a vida vai me levando
e a dor comigo persiste,
por dentro me lacerando.
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Haicai de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR, 1912 – 2004, Curitiba/PR

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.
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Mensagem na Garrafa 204 = A cruz e a ponte

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Certa vez um homem que foi visitado pôr um certo anjo do senhor, disse a ele: – Eu vim trazer a sua cruz para que você possa carrega-la na sua jornada. 

Ele pegou a cruz e seguiu. Quando ele já estava bem adiante de sua jornada, ele encontrou um homem que disse a ele o seguinte:

- Como vai, tudo bem? O que você está fazendo com esta cruz ai? Está maluco? Ela dever ser muito pesada.

E o outro respondeu: 

- Não estou maluco não, cada um deve carregar a sua cruz. Mas ela realmente é pesada.

- Então por que você não corta um pedaço do pé da cruz? Vai ficar mais leve.

- Eu não posso fazer isso, é a minha cruz eu tenho que carregá-la.

- Que besteira, isso é besteira. Corta só um pedacinho ninguém vai saber. Assim vai ficar mais leve para você carregar. 

E o homem o convenceu de cortar um pedaço.

- Viu, não ficou mais leve?

- É, você tinha razão, só um pouco não vai fazer mal. 

E ele continuou seguindo sua jornada. Bem mais lá na frente de sua longa caminhada eis que ele encontra novamente aquele homem.

- Como vai? Você continua carregando isso ai? Achei que tivesse desistido.

- Sim, eu continuo carregando a minha cruz.

- Mas ela deve estar muito pesada. Por que você não corta mais um pouco? Vai ficar mais leve.

- É, pode ser, não doeu nada da outra vez.

- Vamos cortar. Só que vamos cortar um pouco mais pra ela ficar bem mais leve né?

Ele concordou em cortar e depois seguiu sua jornada.

Muito tempo depois ele avista a cidade maravilhosa, cheia de ouro, pedras preciosas, prata. Era a visão mais maravilhosa que ele já teve em toda a sua vida. Era tão iluminada que não precisava do sol. Brilhava tanto...

Quando sem esperar ele se depara com um abismo e ele não entendeu o porque o abismo. E tamanho era o desespero que ele começa a gritar e gritar e gritar:

- Socorro, me ajudem, quero atravessar, socorro alguém por favor me ajude quero entrar na cidade!!!

Cansado de tanto gritar, ele vê do outro lado do abismo o anjo, aquele que entregou a cruz. E o anjo pergunta a ele:

- O que você esta fazendo aí do outro lado? Por que você ainda não atravessou?

- Como? Não vê o abismo que nos separa?

- Sim, vejo, respondeu o anjo.

- Então, como que eu vou atravessar?

- Onde esta a ponte que eu te entreguei?

- Que ponte? Você me entregou uma cruz e ela está comigo.

E o anjo disse: 

- Então coloque-a no meio do abismo, porque o tamanho dela é exato para que você possa atravessar.