domingo, 5 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 15 *


Casou-se. Tem nova vida.
E como me custa agora,
eu, que a chamei de "querida",
ter que chama-la "senhora"!
ANÍBAL VITRAL MONTEIRO
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Tropeço nos seus brinquedos...
Na saudade que me embala,
vejo marcas de seus dedos,
numa parede da sala!
ANTÔNIO CARLOS TEIXEIRA PINTO
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As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
ANTÔNIO SIÉCOLA MOREIRA
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Quando os sonhos esvanecem
e os amores acabarem,
os poetas aparecem
para ilusões recriarem.
ARTHUR THOMAZ
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Nós nos vemos com tal pressa
e tamanha raridade,
que, mal o encontro começa,
começo a sentir saudade.
BITENCOURT DE SÁ
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Veneno e inveja, empreiteiros
da enorme parede erguida
entre os nossos travesseiros
e entre a minha e a tua vida...
DARLY O. BARROS
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Sonhei que estava abraçando
alguém que tinha teus traços.
Quando acordei, soluçando,
tinha a saudade nos braços!
DULCE DE MELLO MONTEMÓR
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Vou meu rancho erguer no fundo
do sertão cheirando a flor,
e viver longe do mundo,
nos braços do meu amor.
DURVAL BORGES
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Saudade — tempo da infância,
que transcorre de repente...
A gente mede a distância
pela saudade que sente!
EDMUNDO RÊGO FERREIRA
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Na queda, não esmoreço:
levanto-me e sigo avante,
pois é a pausa de um tropeço
que torna o passo gigante!
EDWEINE LOUREIRO
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Contei ao céu meu desgosto
e o céu afligiu-se tanto
que pôs cinza sobre o rosto
e fogo desfez-se em pranto.
ELIAS BARBOSA
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Que me imporia ser um louco,
por gostar de ti, meu bem?!
Importa é que, pouco a pouco,
fiques louquinha também.
EVANDO MARINHO SALIM
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Sonhando escuto teu passo,,,
Doce raio de esperança!
— Tão distantes pelo espaço,
tão juntos pela lembrança!
EVANGELINA MAIA CAVALCANTE
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Amor de espécie tão vária!
— Quem teve a ideia de por
a tanta coisa contrária
o mesmo nome de Amor?
FERNANDES COSTA
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Há quem diga que sou feio,
que sou triste e vivo só.
Mas o calor de teu seio
dos outros me faz ter dó.
FERNANDO MEIRELLES
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Das glórias do meu passado,
a maior — meu peito diz —
seria haver conquistado
um amor que não me quis.
FLORÊNCIO ARGOLO
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— "Adeus!..." disseste-me, "esquece
minhas constantes ternuras..."
Ah, como se o sol pudesse
deixar a Terra às escuras!..,
FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
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A dor da tua partida,
que não me saí da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA
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Na Ordem dos Capuchinhos,
sem espinhos não há flores.
Haja flores sem espinhos
na Ordem dos Trovadores!
FREI MARCELINO DE ANGATUBA
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Se tens de vir e voltar,
não venhas, por caridade!
— Uma esperança a brilhar
sempre é melhor que a saudade...
FLÁVIO JARBAS
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Quando o teu rosto de santa
junto ao meu empalidece,
a minha ternura é tanta
que o beijo termina em prece!
GARCIA ROSA
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És mais bela do que a rosa,
és mais pura do que a neve:
não sei descrever-te em prosa,
e o verso não te descreve!
GERALDO ALVIM
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Ermo de ti, cheio de ânsia,
meu olhar nos longes erra...
Oh, como eu amo a distância,
quando a distância te encerra!
GÍLKA MACHADO
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Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra
sem que volte para lá.
GONÇALVES DIAS
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Ante a “maçã” do pecado,
na dúvida, vou sofrendo:
- Se como... sou castigado;
- Se não como... me arrependo!...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
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Benditas são as paredes,
testemunhas sem pudor,
que amparam ganchos e redes
... e ouvem murmúrios de amor!
HÉRON PATRÍCIO
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Triste é alguém ser como aquelas
paredes velhas, pesadas,
que têm portas e janelas
eternamente fechadas...
IZO GOLDMAN
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Amo-te mais, cada dia;
longe de ti — que sou eu?
Sou como a concha vazia
de quem o mar se esqueceu.
JENY DE LIMA
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O beijo da despedida
é triste, mas mesmo assim
podias passar a vida
a despedir-te de mim...
JERÔNIMO BRAGANÇA
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Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão:
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
JÉRSON LIMA DE BRITO
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Minha ventura, querida,
é ser, com o maior fervor,
escravo de tua vida
e dono do teu amor!
JOÃO GUIMARÃES
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Você ficou aturdida
na bagunça de meu quarto.
Se visse a da minha vida,
você teria um infarto.
JOSÉ EL-JAICK
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Olhos que brilham de vida,
mas o corpo já se cansa.
Em cada ruga, uma lida…
no tempo vive a lembrança.
JOSÉ FELDMAN
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Diz ela, vendo a intenção
de seu noivinho devasso:
- mude o rumo dessa mão...
Minha coceira é no braço!
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— "Não há mãe melhor que a minha!"
Diz a filha à mamãezinha.
E a mãe, sorrindo: — "Filhinha,
melhor que a tua, era a minha"...
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Que momentos cruciais
nos umbrais das invernadas,
quando ecoam nossos ais
pelas decisões erradas...
LUCIANA PESSANHA PIRES
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Se há tantos pobres que pedem
e a todos te vejo dar,
nunca teus olhos me neguem
a esmola do teu olhar.
MANUEL GIRALDES DA SILVA
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Na humildade dos seus passos,
lembre sempre a decisão
de dar a mão, nos fracassos,
a quem lhe estendeu a mão...!
MARA MELINNI GARCIA
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Não vou culpar o destino
pelos erros cometidos;
culpo, sim, meu desatino
por impulsos incontidos.
MARINA VALENTE
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O nosso nome, juntinho,
gravei num galho de ipê;
e o povo todo, todinho,
inveja a mim e a você!
NAIR STARLING
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É teu amor ouro puro,
por isso sou rica assim;
e as outras todas, te juro,
morrem de inveja de mim.
ODÉLIA BELÉM BONESCHI
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Sempre que a pinga os refresca,
qual mentira tem mais graça:
- a do Juca, quando pesca,
ou do Joca, quando caça?...
ORLANDO BRITO
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Ei-lo, de todos os casos,
o mais estranho do mundo:
como, nuns olhos tão rasos,
cabe um olhar tão profundo?
PEREIRA DA SILVA
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Decidiste impor intrigas,
mas a distância, sem voz...
Diz que é melhor nossas brigas
que esse silêncio entre nós!
PROFESSOR GARCIA
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Por crer sempre em que lhe deve,
meu coração é um credor
que vai sofrer muito em breve
perdas e danos no amor.
SÉRGIO BERNARDO
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Dá-me os teus olhos profundos
e o mundo pode acabar!
Que importa o mundo, se há mundos
lá dentro do teu olhar!...
SILVA TAVARES
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Naquele encontro fatal,
ao olhar nos olhos teus,
tive a certeza final:
não era encontro, era adeus!
SÔNIA MARIA SOBREIRA DA SILVA
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De alguém que amamos, a imagem,
que está longe, vemos perto...
— Saudade é como miragem
que engana o olhar no deserto.
STÉLIO AUTRAN
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Quando passa o encantamento
de um amor que nos devora,
fica um saído de tormento
que nunca mais vai embora.
VITORINA SAGBONI TEIXEIRA
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José Feldman (O Bilhete da Estação)

Era uma tarde de chuva fina na estação rodoviária da cidade, daquelas em que o chão fica escorregadio como piso encerado, e numa fração de segundos, a pessoa desavisada se estatela no chão; o ar cheira a café frio e todos impacientes, parece que todo mundo está com pressa de chegar a algum lugar que não seja ali. 

Eu esperava o ônibus para a minha cidadezinha, sentado num banco de plástico duro pra dedéu, que até minhas calças já estava se queixando, observando o movimento. Foi então que vi um bilhete: caído perto de uma lixeira, meio amassado, com letras impressas em tinta azul, ainda legível. Como estava matando o tempo, peguei só por curiosidade. Dizia apenas: “Para a Senhora Dona Eulália, na Rua dos Fundos, número 7 — assunto urgente, que ninguém deve saber”.

Não tinha nome de quem escreveu, nem assinatura. Apenas aquilo. E foi o suficiente para em seguida virar um fuzuê aquela rodoviária.

Logo apareceu Dona Marocas, uma senhora gorda, de chapéu de palha e voz que ecoava mais alto que o alto-falante, conhecida por saber da vida de todo mundo, parece que sabia antes mesmo da pessoa ter ideia do que ia acontecer. Ela passou por mim, viu o papel na minha mão, parou como se tivesse levado um choque e apontou o dedo grosso:

— O que é isso, moço? Deixa eu ver! — e, sem esperar resposta, arrancou o bilhete da minha mão. 

Leu em voz alta, devagar, soletrando como se cada palavra fosse uma bomba. Quando terminou, colocou a mão no peito, os olhos arregalados, e gritou para todo lado: 

— Meu Deus! É da Rua dos Cafundós! Lá só mora gente de… bem, gente que não é da nossa parte da cidade, né? Gente que vive de coisas que não se fala! Assunto urgente, o que ninguém deve saber… Ah, eu sabia! Sempre disse que aquela rua é um ninho de confusão!

Em segundos, a coisa ganhou tal vulto, que formou-se uma roda ao redor dela. Lá estava o Seu Arlindo, dono da loja de tecidos, que usava terno mesmo para viajar curtas distâncias e tinha o orgulho de ser “da família tradicional da cidade”. Ele pegou o bilhete, olhou com desdém, como se o papel estivesse sujo de lama, e disse, com aquele tom de quem sabe tudo sobre a natureza humana:

— Não me surpreende. Rua dos Cafundós… lugar onde ninguém quer morar, onde as casas são pequenas, as pessoas trabalham com o que aparece. É claro que lá tem segredos. Coisas que nós, trabalhadores, que temos um nome a zelar, não precisamos saber. Aposto que é dívida, ou roubo, ou… coisa pior. Coisa de gente que não tem educação, não tem modos.

Uma moça bem arrumada, com óculos de armação dourada e livro de bolso na mão, que parecia professora, concordou com a cabeça, séria:

— É o que sempre digo: a origem explica tudo. Se vem de lá, já sabemos o que esperar. Segredos, desonestidade… é a cultura do lugar, infelizmente.

E assim começou. O bilhete, que não dizia absolutamente nada, passou de mão em mão, e cada um acrescentava uma nova camada de história, baseada apenas no endereço. 

Em dez minutos, o “assunto urgente” já tinha virado: roubo de mercadoria, filho fora do casamento, dívida com agiota, até um plano para contrabandear algo proibido. Tudo porque a Rua dos Cafundós era, para eles, sinônimo de “gente problemática”, “gente que não é como nós”.

A coisa ia de mal a pior, quando apareceu um rapaz magro, de roupa simples, sapatos gastos, que estava sentado num canto, quieto, esperando o ônibus também. Ele ouvia tudo, e quando ouviu falarem mal de Dona Eulália, levantou a voz, tímido mas firme:

— Com licença… Eu conheço Dona Eulália. Ela é costureira, viúva, cria os netos sozinha, trabalha dia e noite para não dever nada a ninguém. É uma das pessoas mais honestas que existe.

Seu Arlindo olhou para ele de cima a baixo, com aquele olhar de desprezo que dói mais que tapa, e respondeu devagar:

— Ah, é? E você é quem, rapaz? Também mora lá, não é? Dá para ver logo pela roupa, pelo jeito que fala… Claro que vai defender os seus. Gente de um tipo igual ao seu só se entende, né? Não sabe o que é ter responsabilidade.

Vários concordaram com a cabeça, murmurando frases como “é assim mesmo”, “não adianta explicar”, “são todos iguais”. O rapaz abaixou a cabeça, calado, e voltou para o seu canto. Ninguém quis ouvir nada; eles já tinham a história pronta, desenhada nos seus preconceitos, e nada ia mudar.

Foi então que apareceu uma menina de uns dez anos, de tranças no cabelo, carregando uma sacola de plástico, olhando para todo lado, até que viu o bilhete na mão de Dona Marocas e gritou, aliviada:

— Achou! Era o meu! Eu deixei cair sem querer!

Todos pararam, olharam para ela, confusos.

— O que é isso, menina? — perguntou Dona Marocas, ainda desconfiada.

— É um bilhete que a minha mãe escreveu para Dona Eulália, que é a minha avó — explicou a menina, pegando o papel de volta. — Ela pediu para eu entregar antes de viajar, porque a vovó está doente, e a mamãe foi comprar o remédio na cidade vizinha, e escreveu avisando que ia chegar mais tarde, para a vovó não ficar preocupada. Disse “urgente” porque a doença dela é complicada, e “o que ninguém deve saber”… ah, é porque a vovó tem vergonha de que as pessoas saibam que ela está doente, ela não gosta de dar trabalho a ninguém.

Silêncio total. Um silêncio tão grande que dava para ouvir uma formiga caminhando no chão da estação.

Seu Arlindo ficou vermelho, roxo, depois branco, como se tivesse engolido um ovo cru estragado. A professora guardou o livro rapidamente, como se quisesse desaparecer. Dona Marocas ficou com a boca aberta, sem saber o que dizer, pela primeira vez na vida. Todos aqueles que tinham inventado histórias, julgado, condenado uma rua inteira e uma mulher que não conheciam, apenas por causa de um endereço, agora estavam parados, calados, com o gosto amargo da própria estupidez na boca.

E para piorar, o rapaz magro, que eles tinham julgado também pela aparência, levantou-se, sorriu e disse para que todos ouvissem:

— Pois é. Dona Eulália é minha mãe. E o remédio que a minha irmã falou? É para uma doença que pega qualquer um — rico ou pobre, de rua bonita ou de rua de fundo. A doença não sabe ler endereço, nem olha a roupa que a gente veste. Diferente de certas pessoas, que acham que sabem tudo só de olhar para onde o outro mora.

Ninguém respondeu. Ninguém olhou nos olhos de ninguém. Cada um foi para o seu canto, arrumou as suas malas, sem saber onde enfiar a cara, mas com a certeza de que, daquela vez, quem parecia “gente de menos” era exatamente eles: cheios de regras, de rótulos, de certezas que não valiam nada — tal como o bilhete, que não tinha segredo nenhum, a não ser o segredo da própria ignorância deles.

O ônibus chegou. Eu entrei, sentei perto da janela, e fiquei pensando: “engraçado como as pessoas acham que o lugar onde a gente mora, ou o que a gente tem, ou como a gente se veste, diz tudo sobre quem somos. Na verdade, diz muito mais sobre quem julga — sobre o quanto eles precisam inventar defeitos nos outros para se sentirem melhores, mais importantes, mais ‘certos’”.

E, para mostrar a graça que a vida tem: quando o ônibus saiu, vi Seu Arlindo correndo atrás, com a mala aberta, porque tinha esquecido de fechar o fecho, e todos os seus tecidos caros caíram no chão, misturados com a lama da chuva. Ninguém parou para ajudar. Afinal, por ele ser “gente importante”, todo mundo achou que ele devia saber se virar sozinho. 

Justiça poética, não é mesmo?
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
       Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo. 
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
    1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
  2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
    3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 163

As estações do ano têm seus encantos, delícias, magias. Sempre obedecendo as leis da mãe-natura, normas intangíveis que regulam nossos desígnios no planetinha azul. E as complexidades, bem vistas, acatadas e vividas tornam-se normais no dia a dia. 

Neste maio outonal aparecem os primeiros frios trazidos pelos ventos polares que castigam os viventes, corpo e alma. O outono, como as outras estações, é um período de cultivo de tradições que aparecem sazonalmente.  E elas fazem parte dos calendários da rosa-dos-ventos deste país continente.  

É do fruto da pinha - o pinhão - que temos as principais iguarias nesta época do ano. Cozido na água, ou na chapa do fogão, nas grimpas embaixo do pinheiro, ele conquista paladares. Nas noites frias do inverno é o sabor que acompanha conversas e rodas de chimarrão nos estados do sul. 

O entrevero, a paçoca, a farinha de pinhão, são acepipes que põem o ser em festa e em êxtase nas noitadas de vidraças suadas- não esquecendo que o vinho é presença infalível inspirando almas e corações.
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       O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.

Arthur Thomaz (O hedonista*)

Literalmente nascido na orla do Rio de Janeiro. Teve o seu parto nas areias da praia de Ipanema, em uma madrugada, onde sua mãe, em um ato de desespero, aproveitando a escuridão, para não ser flagrada pelas câmeras de segurança.

Após seu nascimento e sem saber o que fazer, embrulhou-o em um velho cobertor, ainda ligado à placenta, e deixou-o em um quiosque na beira do calçadão.

Um corredor amador, no começo da manhã, ouviu algo estranho, parecendo um choro, e foi verificar o que era. Ligou para a PM, que acionou o Conselho Tutelar. Levaram-no a um hospital, onde foi medicado, ficando alguns dias em observação. Foi devolvido ao Conselho Tutelar, que o colocou no único orfanato em que havia vaga.

Os monitores o levaram ao cartório, onde o registraram com o nome de Hudson Edison em homenagem a uma dupla sertaneja. O cartorário, aborrecido, sonolento e sem paciência, registrou o nome da criança sem a letra inicial H, ficando Udson Edson.

Enfadado, perguntou qual era o sobrenome do menino. Elas responderam simultaneamente ser Silva, então o registrou como Udson Edson Silva e Silva.

Teve uma infância tranquila no orfanato, passando por alguns lares de adoção, onde foi devolvido por ter o espírito arredio, e por intimamente adorar o local onde foi acolhido com carinho.

Lá havia a monitora Gisele, fisiculturista, que orientou-o a cuidar do próprio corpo, através de exercícios e um rigoroso treinamento em academia de ginástica.

Ao chegar à puberdade, notou alterações anatômicas e hormonais nele e em suas irmãzinhas de orfanato. Pensou que iria dar problema e solicitou à diretoria que o colocasse para trabalhar como aprendiz, onde passaria o dia fora, para amenizar a situação.

Não se pode dizer que ele nunca trabalhou. Por alguns anos foi aprendiz, até completar a maioridade. Certa tarde, ouviu uma conversa entre seus patrões sobre um tal hedonismo. Interessado, foi pesquisar no Google e descobriu instantaneamente que seria um hedonista.

Pediu demissão do emprego e despediu-se com muitas lágrimas das pessoas do orfanato, prometendo voltar sempre para revê-los. Alojou-se em um modestíssimo albergue, cujo dono concedeu estadia em troca de ter a roupa de cama lavada por ele diariamente. Continuou cuidando do corpo, correndo pelas praias e aproveitando os aparelhos de musculação dos idosos nas praças públicas.

Constituiu assim um físico privilegiado. Correndo pelas praias, notou que atraía a atenção de muitas mulheres, impressionadas com o bronzeado e as formas bem delineadas de seu corpo.

Pressentiu que poderia levar a vida sem muito esforço investindo nesse ramo. Iniciou correndo pelas areias do Leblon. Reparou em uma mulher, talvez beirando 50 anos, sozinha sob um colorido guarda-sol, ostentando um enorme chapéu e alguns reluzentes colares, e que o fitava insistentemente.

Parou a corrida, aproximou-se dela e perguntou algo banal, mas suficiente para iniciarem uma conversa que obvia mente terminou na cama da enorme suíte de uma cobertura no mesmo bairro.

Foi então que Udson aprendeu a primeira e dolorida lição em sua iniciante vida de hedonista. Ao término, a mulher, visivelmente frustrada com a performance dele, deu-lhe alguns trocados para um táxi de volta e, na lacônica despedida, disse-lhe que esperava algo melhor do que ele proporcionara.

Envergonhado, sentou-se em um banco no calçadão para colocar as ideias em ordem e traçar planos.

Claramente faltava a ele mais experiência em relacionamentos amorosos. 

Na noite seguinte foi até a Vila Mimosa procurar ajuda nessa atividade. Encontrou uma moça bonita e que mostrou-se disposta a ensinar as artimanhas do sexo mediante o pagamento das aulas.

Com o tempo, Olinda afeiçoou-se ao rapaz. E, nas madrugadas após o término do movimento no local, teve muito tempo para o ensino. O que transformou-o em um mestre, quase com doutorado na arte do amor.

Agora, Udson, com muito mais confiança, retornou às atividades nas praias. Desfilava pelas areias conquistando incautas mulheres e também algumas que, interessadas apenas em desfrutar o seu corpo, não se envergonhavam de retribuir esses favores com muito dinheiro ou presenteando-o com objetos de valor. Ele viveu por muitos anos aproveitando o dinheiro das mulheres, sem sequer pensar em guardar alguma economia para o futuro, afinal, julgava-se um eterno hedonista.

Mas o tempo é implacável e, logo após completar 40 anos, percebeu que algumas gorduras teimavam em se alojar em sua cintura. Pediu a uma das incautas que pagasse um ano de mensalidades na melhor academia da Zona Sul. E a uma outra, que pagasse uma estadia em um caríssimo SPA. Enfim, infrutíferas tentativas.

Sua onda de sucesso na praia desapareceu, não causando mais o efeito naquelas mulheres. Chegou até a passar uma noite com fome e sem abrigo.

Certa tarde, correndo para ver se ainda obtinha alguma conquista, reparou em uma mulher de quase 50 anos, que lia um livro no banco do calçadão. Resolveu aproximar-se e, ela notando os olhares, ofereceu-lhe um assento ao seu lado.

Ester era uma professora dedicada ao ensino que resolvera não assumir compromissos sérios com homens, mantendo sua independência.

Entabularam uma conversa e Udson, sem muita opção para alimentação e pernoite, acompanhou Ester até a sua pequena casa na periferia, onde ela serviu um jantar caseiro e o acolheu em seus braços.

Na manhã seguinte, despediram-se sem promessas de outro encontro. Mas Udson, novamente após uma corrida pela praia, sem chamar a atenção de nenhuma mulher, encontrou-se novamente com Ester em sua leitura habitual no mesmo banco. A cena repetiu-se, até que um dia ele passou a morar com Ester.

O hedonismo terminou com Udson trabalhando em uma oficina do bairro, limpando o quintal, cuidando do jardim e dando comida aos gatos.
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*Hedonista é a pessoa que orienta sua vida, suas escolhas e seu comportamento pela busca do prazer e pela evitação do sofrimento. O termo tem origem na filosofia grega antiga, baseando-se na ideia de que o prazer é o propósito supremo e o maior indicador de felicidade humana
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

Interlúdio = 4 =




PROFESSOR GARCIA (nome artístico de Francisco Garcia de Araújo) é um dos maiores expoentes da cultura potiguar, destacando-se como poeta, trovador, escritor e compositor profundamente ligado a Caicó e à região do Seridó. Sua trajetória une a educação formal à preservação das tradições líricas e da literatura de cordel no Nordeste. Nasceu na Fazenda Acari, no município de Malta (PB), em 1946. Mudou-se para Caicó (RN), em julho de 1959, acompanhado de seu tio, o também poeta José Lucas de Barros. Desde então, fincou raízes na cidade e adotou o Seridó como seu lar definitivo. Graduou-se em Letras (Português e Inglês) e em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de possuir pós-graduação em Teologia e Éticas Especiais. Como educador, lecionou as disciplinas de Português, Francês, Inglês e Espanhol. Atuou profissionalmente como bancário. No setor público, exerceu forte representação política em Caicó, onde foi Vereador e Secretário Municipal.
Dedica-se ativamente à divulgação da poesia lírica e da trova, apresentando o programa semanal "Momentos Com Nossos Poetas" na Rádio A Voz do Seridó (100 FM). Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS); Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte (ATRN); Delegado e membro ativo da União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção de Natal/RN e Caicó/RN; Membro efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL), acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Alguns livros Publicados: Trovas que Sonhei Cantar (1974); Cantigas do Meu Cantar (2017).
Ao longo de sua carreira literária na cultura popular e no movimento trovadoresco brasileiro, obteve diversas classificações e menções honrosas em concursos nacionais de trovas promovidos pelas seções da UBT. O Professor Garcia desempenha um papel fundamental como guardião da identidade e da memória do Sertão do Seridó. A sua relevância reside na manutenção viva do Trovadorismo — uma vertente literária clássica e poética focada em composições rimadas de quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior). Ao liderar o Clube de Trovadores regional e utilizar os meios de comunicação de massa para espalhar a poesia nordestina, ele conecta a erudição da sua formação acadêmica com a pureza da cultura de raiz. Ele eleva a produção poética do interior do Rio Grande do Norte ao cenário nacional, garantindo que o lirismo sertanejo continue influenciando novas gerações de escritores.

Fontes da Biografia = Confraria Brasileira de Letras; Portal CEN; Severo Garcia; Universidade Estatual do Rio Grande do Norte (tese).

Humberto de Campos (As "gaffeuses")

Um dos encantos da alta sociedade carioca são as senhoras que cultivam, nos salões e na intimidade, os deliciosos cogumelos da "gafe". Educadas, finas, inteligentes, essas figuras da "elite" constituem, geralmente, legítimos ornamentos da família brasileira; há, porém, no inferno uma classe de demônios irreverentes que se divertem zombando das mulheres lindas, e o resultado são esses deliciosos delíquios do espírito, e o desgosto que se apossa, depois, das pobres vítimas dessa maliciosa brincadeira diabólica.

À frente desse exército de "gafeuses" marcha, com as "gafes" que tem cometido na terra, a jovem senhora Cardoso Nunes, esposa do Dr. Abelardo Nunes, conhecido corretor e capitalista. Formosa e gentil, D. Clotilde é incapaz de uma perfídia, de uma insinuação malévola, de uma perversidade punidora. As amigas estimam-na profundamente e só não fazem o mesmo as inimigas, porque D. Clotilde, com franqueza, não as tem. A sua simplicidade destrói todas as prevenções, e de tal modo que os seus íntimos lhe perdoam as "gafes", mesmo quando se trata de casos duvidosos, como o de anteontem.

A roda de convidados era enorme e seleta, no grande terraço dando para o mar, predominando nela o número de figuras femininas. Palestrava-se vivamente sobre o nervosismo de certas senhoras, algumas das quais nutrem uma aversão às baratas, às rãs, aos grilos e a outros pequenos seres repugnantes.

- Eu tenho horror é ao caramujo! - informava Me. Costa Meireles, com a papada a repousar, como a do Chaby, sobre o peito volumoso. - Quando eu vejo um caramujo, fico toda arrepiada!

E, fechando as mãos muito redondas, muito gordas, a fez estremecer toda, dos pés à cabeça a formidável montanha de toucinho.

- Pois, eu não, - atalhou Mlle. Pinheiro César; - o que me horroriza é o percevejo. Quem me quiser ouvir gritar, é por um percevejo no meu caminho!

Foi por essa altura que D. Romualda Brito, a ilustre senhora tão conhecida pelas suas leviandades galantes, interveio, informando:

- Pois, eu, não tenho medo de nada disso. Nenhum desses bichinhos me faz, como a vocês, qualquer mal aos nervos.

E contou:

- Imaginem que outro dia, eu estava em pé na sala de espera do cinema de Copacabana, quando senti de repente uma coisa subindo pela minha perna!

- Meu Deus! - gemeu Mme. Cunha Andrade, mostrando o braço arrepiado. - Olhem como eu estou!

E a outra continuou:

- Sem me mover, eu compreendi que era um rato!

- Que horror! - gritaram as outras senhoras.

- Quieta estava, quieta fiquei. O rato subiu, primeiro, para meu sapato. Depois, passou à meia. E assim, subiu-me, aos poucos, pela perna!

As senhoras, em silêncio, mostravam-se horrorizadas com o acontecido. E foi no meio dessa impressão, que D. Clotilde interveio, muito séria:

- O rato subiu, mesmo, pela perna da senhora?

- Subiu, menina!

E D. Clotilde, logo, com a maior ingenuidade do mundo:

- Mas desceu, depois; não desceu?
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fonte:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público.

Hans Christian Andersen (O gargalo)


Na viela estreita e tortuosa, entre outras casas pobres, havia uma casinha de taipa, estreitinha e de considerável altura; maltratara-a tanto o tempo, que já estava se desconjuntando por todos os lados. Abrigava gente pobre, e certamente era a água-furtada (sótão que abre a janelas para as águas do telhado) parte mais miserável. Ali, mesmo debaixo do telhado, junto da única janelinha, pendia uma gaiola velha e também desconjuntada; e apanhava os raios do sol um passarinho que nem sequer possuía um bebedouro: serviam-lhe a água num gargalo de garrafa, voltado com a boca para baixo, e fechado com uma rolha.

A solteirona que estava ao pé da janela pusera alpiste na gaiola, e o pequenino pintarroxo saltitava de um poleiro para o para o outro, cantando alegremente.

- Sim - disse o gargalo - tu, sim podes cantar...

Cumpre notar que o gargalo não se exprimia como nós: um gargalo não pode falar. Ele pensava lá de si consigo, no seu íntimo, como nós, homens, falamos com os nossos botões. Mas continuou:

- É, tu podes cantar, tens intatos todos os teu membros... Queria que visses o que é a gente perder a parte inferior, e ficar somente com pescoço e boca, e ainda assim com ela fechada por uma rolha, como eu! Isso sim, que não cantarias! E, contudo, é bom que haja gente alegre no mundo. Eu cá não tenho motivos para cantar, e nem  posso cantar, mesmo. Mas quando era uma garrafa sã, costumava cantar, quando me esfregavam com uma rolha. Então chamava-se "calhandra (cotovia), uma verdadeira calhandra", e "grande calhandra". Foi quando fiz o piquenique no mato com a família do curtidor, e a filha contratou casamento. Lembro-me como se fosse hoje! Já passei muitos trabalhos na vida; já estive no fogo e na água, no fundo escuro da terra e em lugares mais altos do que a maioria das pessoas pode alcançar... E agora aqui estou, no canto desta gaiola, exposto ao ar e à luz do sol. Sim: acho que valeria a pena ouvir a minha história.

E o gargalo começou a contar a sua história, que era bastante estranha, na verdade. Contava-a para si mesmo, recordando-a silenciosamente lá no seu íntimo. O passarinho cantava alegremente a sua canção, e lá embaixo, na rua, era grande o tráfego e a correria. É que lá cada um pensava nas coisas que lhe diziam respeito - ou em coisa nenhuma. Só o gargalo não deixava de meditar. Lembrou-se da fábrica, do cadinho em brasa onde, com um sopro, o tinham chamado à vida. Lembrava-se  ainda que sentira então muito calor, e que deitara olhares para o grande fogão sibilante, que era o seu berço, e sentira um grande desejo de voltar para ali em um pulo. Mas, ao passo que ia resfriando, ia-se sentindo mais à vontade, no sítio onde o tinham deixado. Via-se alinhado em uma fila, com um regimento inteiro de irmãos e irmãs, todos saídos do mesmo fogão; é certo que algumas tinham a forma de garrafas de champanha, outras de cerveja - e isso traz sempre alguma diferença. Mais tarde, lá no mundo, pode acontecer que uma garrafa de cerveja venha a conter o mais delicioso Lacrima Christi, e a champanha se veja cheia de graxa de sapatos; mas ao menos se verá, pelo feitio, para o que a gente nasceu. Nobreza é sempre nobreza, ainda que só contenha graxa no bojo.

Todas as garrafas foram encaixotadas, e com elas a nossa conhecida. Naquela época não lhe passara pela cabeça que havia de terminar a sua carreira reduzida a um gargalo, elevado pelo esforço próprio à categoria de bebedouro, o que é , afinal, uma existência honrosa, pois que sempre a gente representa alguma coisa.

A garrafa só tornou a ver a luz do dia quando, na adega do negociante de vinhos, foi desencaixotada com as companheiras, e lavada pela primeira vez. E que coisa  curiosa! Ali estava ela, vazia e sem tampa, com a estranha sensação de que lhe faltava alguma coisa, embora não soubesse o que era. Afinal encheram-na de vinho, e de um vinho excelente. Deram-lhe também uma rolha, e selaram-na. Colaram-lhe no bojo um rótulo que dizia: "Primeira qualidade"; e ela se sentia como se tivesse tirado o primeiro lugar em um exame, Mas o vinho era na verdade bom, e a garrafa também era boa. A gente moça tem queda para a poesia, e ela sentia vibrarem e ressoarem dentro de si coisas que nem sequer conhecia, e que falavam de verdes colinas iluminadas pelo sol, onde cantam e se namoram alegres vinhateiros e vinhateiras. Ah! Como é bela a vida! Pois tudo isso ressoava e cantava dentro da garrafa, tal e qual como se passa com os jovens poetas, que muita vez nem compreendem o que é que canta dentro deles.

Um dia foi comprada. O aprendiz de curtidor viera buscar uma garrafa de vinho, " do melhor". Meteram-na no cesto do farnel, ao lado do presunto, do queijo e do salame. E com ela iam também a manteiga mais fina, o pão mais fofo. A própria filha do curtidor arranjava a merenda no cesto. Era moça e bela, e brincava-lhe o sorriso nos olhos e nos lábios. tinha as mãos macias e brancas- não tão brancas como o pescoço e o peito. Via-se logo que era uma das moças mais lindas da cidade, e, ainda assim, não tinha noivo.

Achava-se o cesto de provisões no colo da moça, quando o carro que levava a família partiu para o mato. O gargalo da garrafa espiava por entre as pontas do guardanapo branco. Na rolha havia um verniz vermelho. A garrafa olhou bem para o rosto da moça; encarou também o jovem marinheiro que ia sentando ao lado dela. Era um  amigo de infância, filho de um retratista. Saíra-se muito bem, ainda há pouco tempo, no exame que fizera para primeiro piloto, e no dia seguinte devia partir em um navio que ia para longe, para um país exótico. Enquanto arrumavam o cesto, falavam nisso, e a alegria parecia então desaparecer dos olhos e da boca da bela filha do curtidor.

Passeava os jovens pela floresta verde, e conversavam. O que diriam não o ouvira a garrafa, que ficara no cesto da merenda. Só depois de muito tempo é que ela foi retirada dali, mas já então tinha havido muita alegria. Riam todos, e também a filha do curtidor; mas a moça falava menos que antes, e nas faces brilhavam-lhe duas rosas vermelhas.

O pai pegou na garrafa cheia e no saca-rolhas. Sim, é coisa esquisita, quando desarrolham uma garrafa pela primeira vez, e o gargalo nunca pode esquecer aquele momento solene. Alguma coisa, lá no seu peito, dissera "poc! quando saltou a rolha. E que estranho glu-glu-glu fazia o vinho, ao ser deitado nas taças!

- Vivam! Vivam os noivos! - disse o velho pai.

E os copos foram esvaziados, e o jovem piloto beijou sua bela noiva.

- Sejam muito felizes! - disseram os pais.

O moço encheu de novo, as taças, dizendo:

- Regresso e casamento daqui a um ano!

Esvaziados os copos, apanhou a garrafa, ergueu-a bem alto, e disse:

- Tu, que estiveste presente no dia mais belo da minha vida, não tornarás a servir a mais ninguém!

E atirou-a para o ar.

Naquele instante, mal poderia a filha do curtidor imaginar que havia de ver outra vez voar aquela garrafa. E contudo, havia de ser assim!

Mas naquele momento a garrafa foi cair no denso caniçal que havia à beira do lago do bosque. O gargalo ainda tinha bem viva recordação do tempo que ali passara, pensando:

- Dei-lhes vinho, e eles me dão água do pantanal. Mas a intenção era boa, isso era....

Agora já não via os noivos, nem os alegre velhos, mas durante muito tempo ainda ouvira seus cantos de regozijo. Finalmente apareceram ali dois filhos de um camponês, que espiaram pelo juncal; descobriram a garrafa e levaram-na. Agora, estava ela bem guardada.

Em casa do camponês, na mata, o filho mais velho, que era marinheiro, estava preparando-se para uma longa viajem, e tinha vindo passar o dia com a família, em despedida. Naquele momento a mãe empacotava algumas coisas que ele devia levar; e o pai iria levar-lhe, à noite, o pequeno fardo, quando fosse vê-lo pela última vez, na cidade. Já fora embrulhada uma garrafinha de aguardente, infusão de ervas, quando entraram os meninos com a outra garrafa, maior e mais resistente, que acabavam de achar. Disseram à mãe que naquela caberia mais infusão, e que "aguardente era coisa muito boa para o  estômago, porque continha ervas". Achavam pois que era a garrafa grande, e não a pequena, que devia ir.

E foi assim que ela recomeçou a peregrinação. Foi para bordo com Peter Jensen, foi para bordo do mesmo navio em que navegava o jovem piloto. Mas este não viu a garrafa, nem a teria reconhecido, se a visse, e nem sequer imaginar que era a mesma com que tinham celebrado o noivado, e dado vivas ao regresso.

É verdade que ela já não oferecia vinho; mas abrigava agora no bojo uma coisa igualmente boa. Quando Peter Jensen a tirava da mala, os companheiros a chamavam de "farmácia", porque ela sempre lhes oferecia um excelente remédio, o remédio que curava o estômago. Fora uma quadra cheia de alegria, e a garrafa cantava, quando a acariciavam com a rolha: chamavam-na então a grande calhandra, a calhandra de Peter Jensen.

Passaram-se longos dias, e meses. A garrafa já se achava vazia, em um canto. Aconteceu então - se foi na ida ou na volta, não sabia dizer a garrafa, porque nunca desembarcara - aconteceu, porém, que se levantou uma tempestade. Enormes vagalhões se acercavam, pesados e sombrios, e erguiam e sacudiam o navio. Partiu-se o mastro grande. Uma vaga arrebentou uma da tábuas do costado. As bombas não davam vencimento. E à altas horas da noite o navio afundou. No ultimo instante o jovem piloto escreveu em uma folha de papel: "Em nome de Cristo, estamos naufragando!" Escreveu o nome da noiva, o seu, e o do navio; pôs a folha em uma garrafa que havia enchido, outrora, para ele e para noiva, a taça da alegria e da esperança. E agora anda aquela a garrafa balançando nas ondas, carregando no bojo a mensagem de despedida e a notícia fatal.

Afundou-se o navio, e com ele a tripulação, enquanto a garrafa voava como uma ave; afinal ela escondia em si um coração, uma carta de amor. O sol nasceu e tornou a se esconder. A garrafa sentia aquele mesmo anseio que experimentava quando nasceu nas brasas do fogão; sentia desejos de voar outra vez para o lugar de onde saíra - tinha saudades.

Passou por calmarias e sofreu novas tempestades. Contudo não bateu em nenhum recife, nem foi devorada por nenhum tubarão. Andou boiando, dias  e anos, ora para o lado do Norte, ora para o Sul, ao sabor da corrente. Afinal, ela era livre, senhora de seus atos; mas o certo é que até disso a gente pode sentir-se farta.

A folha escrita, o último adeus do noivo à noiva, levaria somente pesar, se um dia caísse nas mãos da destinatária; mas onde estavam aquelas mãos tão brancas e tão macias, que naquele dia do noivado tinham estendido sobre a fresca relva da mata verde a toalha tão branca? Onde estava a filha  do curtidor? Sim, onde estava o país, e qual era, dentre os outros países, o que lhe ficava ao lado? Não o sabia a garrafa; boiava, e continuava boiando, até sentir-se farta daquelas andanças, que não eram afinal, do seu ofício. E, ainda assim, prosseguiu vagando, até que um dia alcançou terra, num país estranho. Não entendia uma palavra do que ali diziam; não era aquele  o idioma que ouvira falar outrora. E, quando a gente não entende a língua, muita coisa se perde!

A garrafa foi pescada e examinada por todos os lados. retiraram o bilhete que trazia, e também este foi examinado e virado de todos os lados; mas as pessoas daquele lugar não entendiam o que estava escrito naquele papel. Compreenderam, é claro , que a garrafa tinha sido arrojada ao mar, e que o papel dizia alguma coisa a esse respeito, mas que diria ele? Isso ninguém podia saber. Tornaram pois a colocar o bilhete dentro da garrafa e puseram-na em cima de um grande armário. E ali ficou ela, na vasta sala de um casarão.

Cada vez que aparecia algum forasteiro o bilhete era retirado da garrafa; viravam-no e reviravam-no, e o texto, escrito a lápis, aí ficando de dia a dia menos legível. Afinal já não se via letra alguma no papel. E por mais um ano viveu a garrafa sobre o armário; dali a levaram para o sótão; e foi-se cobrindo de poeira e de teias de aranha.

Como se lembrava agora de dias melhores, do tempo em que, na fresca mata verde, oferecera vinho tinto; e dos anos que levara, dançando nas ondas do mar, guardando no seio um segredo, uma carta, um suspiro de adeus! E lá ficou naquele sótão vinte anos bem contados. Poderia ter ficado mais tempo, se não fora a reforma da casa. Demolindo o telhado, viram a garrafa. Falaram a seu respeito, é verdade; ela, porém, não entendia a língua - isso não se aprende, nem em vinte anos, só pelo fato de ficar lá no sótão.

- Se me tivessem deixado na sala - pensava ela - provavelmente saberia agora o idioma daqui.

Foi então lavada e enxaguada, o que era bem necessário. Viu-se clara e transparente, remoçada, apesar da idade; mas o bilhete que conservara fielmente, perdeu-se na lavagem.

Encheram-na de sementes. Ela não compreendia o que aquilo representava. Foi tampada e embrulhada com cuidado; tanto, que não via mais luz de vela nem da lanterna, e menos ainda o sol ou a lua. Ora, quando se viaja, é preciso ver alguma coisa; mas a garrafa nada viu; contudo, fez o que era mais importante; partiu e chegou ao lugar do seu destino, e lá foi enfim desembrulhada.

- Quanto trabalho tiveram eles, lá no estrangeiro, com esta garrafa! - ouviu ela que alguém dizia. - E agora, hão de ver que está quebrada!...

Não não estava, não. E a garrafa entendia o que diziam: era a língua que ouvira ao pé do fogão, e em casa do negociante de vinhos, e na mata e no navio; a única língua velha e boa, que a gente podia entender! Regressara à sua terra, e aquele idioma era para ela uma saudação de boas-vindas. De tanta alegria, quase saltou das mãos que a desenrolavam. Nem notou que lhe tiravam a rolha, e despejavam o conteúdo; transportaram-na depois para o porão, onde ficou guardada e esquecida. Mas a terra da gente é sempre o melhor lugar do mundo, ainda que seja para viver em um porão!

Nunca lhe passaria pela mente a ideia de verificar quanto tempo passou ali. Ficou bem acomodada, e isso durante anos e anos. Finalmente um dia desceu alguém, que levou todas as garrafas que havia no porão, e ela lá se foi com as outras.

Lá fora, no jardim, havia uma grande festa. Tinham feito fieiras de lâmpadas acesas, suspensas nos galhos; lanternas de papel, postas sobre colunas, pareciam grandes tulipas brilhantes. A noite estava esplêndida, clara e serena. As estrelas cintilavam. Era lua nova, mas avistava-se no céu o disco inteiro, azul-acinzentado, dourado na beira - um belo espetáculo para os que tinham boa vista.

Até os caminhos mais distantes do jardim tinham sido iluminados, de modo que as pessoas podiam andar por toda a parte. Entre a folhagem das sebes havia garrafa com velas acesas, e entre elas estava também aquela que já conhecemos, e que havia de acabar a carreira feito bebedouro. Ela achava tudo aquilo maravilhosamente belo: encontrava-se de novo ao ar livre, via-se outra vez no meio da alegria e da festa, ouvia cantos e música, e a  algazarra e o murmúrio de muitas pessoas que passavam, vindo principalmente da parte do jardim onde ardiam as lâmpadas, e as lanterna de papel ostentavam a pompa de suas cores. É verdade que estava em um caminho solitário, mas isso também tinha certo encanto, todo contemplativo: sustentava no gargalo sua vela, pois estava ali para utilidade e prazer dos outros, como é nosso dever. E num momento assim a gente até chega a esquecer os vinte anos passados no sótão, e esquecer também faz bem.

Passou junto dela um casal de namorados, como outrora aqueles noivos na floresta, o piloto e a filha do curtidor. Pareceu-lhe que viva tudo aquilo pela segunda vez. passeavam no jardim não somente os convidados, mas também outras pessoas, às quais fora permitindo olhar para aqueles, e admirar toda aquela pompa. Entre estas andava uma solteirona, que vivia só no mundo, pois não tinha parentes. E passavam-lhe pela cabeça os mesmos pensamentos que acudiam à garrafa; lembrou-se da mata verde, e de um jovem casal de noivos que lhe era muito caro, e cuja sorte muito lhe interessava: tomara parte no passeio, naquela hora - a mais feliz da sua vida. Uma hora assim nunca se esquece, nem mesmo depois da velha solteirona! Contudo, ela não reconheceu a garrafa, e nem esta lhe notou a presença. E é assim que neste mundo vamos passando uns pelos outros - até que um dia se dê o reencontro. E que tornara a se encontrar é certo, pois viviam ambas na mesma cidade.

Do jardim foi mais uma vez a garrafa levada à casa do negociante de vinhos; e venderam-na ao aeronauta que no domingo seguinte pretendia subir em um balão.

Grande era multidão que se reunira para "ver aquilo". Muitos preparativos tinham sido feitos, até uma banda de música fora contratada. Do cesto, onde se achava ao lado de um coelho vivo, a garrafa via tudo. o coelho estava pasmado, pois bem sabia que ia subir com o aeronauta, para ser lançado em um paraquedas. A garrafa, essa nada sabia de subidas nem descidas. Via apenas o balão, que se enchia, e ia ficando cada vez maior, maior, e quando não podia já aumentar de volume, ergue-se do chão, ficando cada vez mais inquieto. Foram cortados os cabos que o prendiam, e, levando consigo o aeronauta, o cesto, o coelho e a garrafa, lá subiu o balão, enquanto tocava a música e a multidão gritava:

- Viva! Viva!

- Que viagem esquisita, assim pelos ares! - pensava a garrafa. - É uma nova espécie de viagem à vela... Aqui em cima a gente ao menos não pode esbarrar em nada!

Milhares de pessoas acompanhavam o balão com os olhos, e a velha solteirona também olhou para ele. Estava à janela do seu sótão, sob a qual se via pendurada a gaiola do pintarroxo, que então ainda não possuía bebedouro: tinha de se contentar com uma xícara. No peitoril da janela havia também um vaso com um pé de murta; não fora posto no centro, para que não o deitasse abaixo a solteirona, quando se debruçasse a ver o que se passava na rua. E ela viu nitidamente o aeronauta e o balão, e viu-o descer o coelho no paraquedas; viu-o, finalmente, atirar a garrafa para o ar. Mas nenhum instante lhe veio à lembrança que já tinha visto aquela mesma garrafa a voar assim, e em honra de si própria e do seu noivo, naquele alegre dia, na mata verdejante, no tempo da mocidade.

A garrafa não teve tempo de meditar. Viera-lhe subitamente, da maneira mais inesperada, a sensação de que se achava no apogeu da existência. As torres e telhados ficavam muito distantes, lá embaixo ; e os homens pareciam uns pigmeus.

Mas agora ia caindo, caindo, e com uma velocidade muito diferente da do coelho! Ela dava cambalhotas no ar; sentia-se tão moça, e tão completamente livre!

Ainda continha vinho, até pelo meio, talvez; mas isso não durou muito. Que viagem! O sol fazia luzir, os homens olhavam par ela; o balão já estava longe, e em poucos minutos também a garrafa se sumia; caíra sobre um telhado e despedaçou-se, mas os cacos traziam tamanho impulso que não puderam ficar ali deitados, continuaram a saltar, e assim chegaram ao pátio, onde ficaram enfim parados, mas reduzidos a caquinhos ainda menores. Apenas o gargalo ficou inteiro: parecia cortado a diamante.

- Este dá um excelente bebedouro – disse alguém lá no porão.

Ora eles não possuíam gaiola, nem passarinho, e comprar uma coisa dessas, só porque agora tinham um gargalo que poderia servir de bebedouro, era exigir muito! Mas... e a solteirona, lá do sótão? Quem sabe se ela poderia aproveitá-lo?

E foi assim que o gargalo foi ter às suas mãos. Fecharam-no com uma rolha, e a parte que dantes ficava para cima foi parar embaixo, como acontece muitas vezes, nas revoluções. Deitaram-lhe água fresca, e suspenderam-no na gaiola do passarinho. que gorjeava alegremente.

- É, tu sim, podes cantar! - disse o gargalo.

E é de notar que era um gargalo notável, pois viajara em um balão. Não  se sabia mais nada da sua história. mas agora servia de bebedouro, ouvia de lá o zunzum da rua, e a voz da solteirona no quarto.

Fora visitá-la uma velha amiga, e conversaram - não a respeito do gargalo, não: falavam da  murta da janela:

- É isso: não precisas gastar um vintém com a grinalda de noiva de tua filha. Eu quero oferecer-lhe um belo ramalhete, bem cheio de flores. Vês como a planta se desenvolveu? Pois ela provém de um raminho que me deste no dia  em que contratei casamento: dessa muda eu devia tirar a minha grinalda de noiva, um ano depois. Mas... esse dia nunca chegou! Fecharam-se os olhos que estavam escolhidos para me iluminar a vida, para me trazerem bênçãos e alegria. E o meu leal amigo dorme no fundo do oceano... A murta cresceu, era já uma árvore, envelheceu, mas eu envelheci mais ainda, e quando a árvore estava já muito velha tirei o seu último raminho verde e plantei-o. Esse ramo chegou a ser uma grande árvore também; e a murta poderá afinal servir num casamento: será a coroa de noiva de tua filha.

A velha solteirona tinha os olhos cheios de lágrimas. Falou do amigo da infância, do noivado no bosque; vieram-lhe muitos pensamentos, mas nunca teve a menor ideia de que bem perto dela, mesmo ao pé da janela, estava outra recordação daqueles tempos: o gargalo da garrafa que dera um grito de júbilo quando a rolha estourara, na hora do noivado.

Mas o gargalo tampouco a reconheceu: não ouvia o que ela contava, porque só pensava em si próprio.
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HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. 
Disponível em Domínio Público