sábado, 7 de março de 2026

Asas da Poesia * 158 *


Poema de
ZACARIAS MARTINS
Gurupi/TO

Sorriso enigmático

À noite,
ficava horas a fio
com aquele sorriso maroto,
mergulhada em seus pensamentos.
Jamais se conformou por ser apenas
uma dentadura num copo d´água!
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Soneto de
SÔNIA MARIA DE FARIA 
Paraisópolis/MG

Travessia 

Se num belo sonho se envolve a vida,
Traz ele novos ares de alegria,
Uma força com meta definida
E um desejo incontido se anuncia.

Mergulha o coração no desafio…
Busca firme traçar a sintonia
Entre dias de sol, noites de frio,
Nada fere sua essência, a euforia.

Se é difícil a paz na travessia,
São os sonhos as borbulhas de magia,
A força estranha, o caminho, a certeza…

Escolher sonhar é sabedoria:
É dos que sonham o raiar do dia…
É dos que lutam sua realeza. 
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Poema de
GUTEMBERG GUERRA
Marabá/TO

A questão

 Deu um tiro no peito
por ser cidadão com direito à busca
da (in)felicidade,
conforme o seu sentimento.

Morrer ou não é outra.
Ser ou não ser é uma.
A dor é
          a questão.

Deu um tiro no peito!
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto a Arthur Azevedo (In Memoriam)
 
Foi dramaturgo, poeta e contista, 
com “Arrufos”, um soneto forte, 
após desentender-se com a consorte, 
fez uns ares de quem do amor desista... 

Toma o chapéu e sai, sem que suporte, 
fingir que não mais ama e se contrista, 
mas algo o faz voltar e então persista 
a manter a paixão até a morte... 

Assim são os amores verdadeiros, 
ao menos na aparência dos amantes, 
que às vezes têm questiúnculas por nada... 

E quando voltam ficam companheiros 
para viverem todos os instantes, 
seguindo adiante pela mesma estrada…
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Poema de
ISABEL DIAS NEVES
Tocantinópolis/TO

Pomar de nós
         Para Marcelina Dias Neves, minha mãe

 É doce e vão esse pomar;
sombra feita,
flores fartas,
frutos gerados
sensualizam a boca.

Pomar que se almeja e conta
é o que se planta.

Sombra firme - reduzida,
flores novas - raras,
frutos fartos - racionados.
Tudo à mão - sem suor
 nem invenção.

Pomar que se almeja e planta
 é o que conta.

O trabalho com a terra
é um gesto de promessa:
molha a raiz com pranto e riso,
canta o plantio e a colheita,
sonha e arde a todo canto.

Pomar que se planta e conta
é o que se canta.
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Soneto de
LUCAS MUNHOZ
Indaiatuba/SP

O espelho do mar

Olha-me, pelo espelho... Os meus poderes!
Lembro-me, se cessar os teus fulgores;
Lembro-me, ao meu olhar dos ditadores
Ao luar poderoso, sem tolheres!...

 D´água que chora o Deus, pelos colheres!
 A lua primorosa, e os teus rigores
 Dos ares perfumosos, pelas flores
 Tens os entes perfeitos dos cozeres.

 Quanto a ti, pelos sonhos desejáveis!
 Lua, e os meus corações que me conheces
 São os deuses amáveis e adoráveis.

 Ao mar dos corações, pelo carinho!
 Amo-te, agora foste o mar que teces...
 Olho-te, pelo véu limpo, sozinho.
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Soneto de
CRUZ E SOUSA
Florianópolis/SC, 1861 – 1898, Antônio Carlos/MG

Ironia de Lágrimas
 
Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
da cova é como flor apodrecida.
 
A Morte lembra a estranha Margarida
do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda criatura
numa dança macabra indefinida.
 
Vem revestida em suas negras sedas
e a marteladas lúgubres e tredas
das Ilusões o eterno esquife prega.
 
E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
faminta, absconsa, imponderada cega!
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Poema de
XAVIER SANTOS
Marabá/TO

Infâncias

O mundo fez piruetas
Com o pé de manga-rosa
Pintou as bolas-de-gude
Com as sobras do arco-íris.
Brincavam de amarelinhas
Felizes muricizeiros.
Curiós, xexéus e sanhaços
Faziam o maior furdunço
Nas frutas, nos arvoredos.

Os anos de todos eles
A gente contava nos dedos.

Com argamassa dos sonhos
A terra forjava os homens:
Era Bruno, Erick, Carol e Rafa
Brincando de lobisomem.
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun da eterna ilusão

TEMA:
Foi pela guerra enlutada...
Mas a ilusão de Maria
Fincava os olhos na estrada
Quando a porteira batia!...
José Messias Braz 
Juiz de Fora/MG

PANTUN:
Mas a ilusão de Maria
era um eterno estribilho;
quando a porteira batia
ela ouvia a voz do filho.

Era um eterno estribilho;
quanto mais a mãe rezava,
ela ouvia a voz do filho
que da guerra não voltava.

Quanto mais a mãe rezava,
mais sentia entre os arcanjos
que da guerra não voltava,
que o filho estava entre os anjos.

Mais sentia entre os arcanjos
já chegando ao fim da estrada,
que o filho estava entre os anjos.
Foi pela guerra enlutada!...
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Hino de 
JUNDIAÍ/SP

Ó terra querida, Jundiaí
Teus filhos amantes são de ti
que Deus abençoe eternamente 
esta terra onde nasci.

Ó terra querida, Jundiaí
Teus filhos amantes são de ti
saudades mil levam 
os que passam por aqui.

Terra gentil, altruísta,
De ti me orgulho,
Pois és bem Paulista!
Teus filhos com devoção
Marcham pra luta como heróis
Cheios de fé em tua oração.

Que belas tardes amenas!
Que lindas noites,
Felizes, serenas!
Teu jardim, é um paraíso
Onde a mocidade sempre jovial,
Com seu odor, confunde o riso.

Quem poderia imitar
O teu céu com suas cores?
Com teus lindos fulgores?
Os teus campos, tuas flores?

Só a natureza guiada pelo Criador
É que pode pintar este arrebol
Que jamais vi,
Tardes ao pôr do Sol!
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Poema de
FRANCISCO PERNA FILHO
Miracema do Norte/TO

Estado

Embora presa,
a água borbulha solta na chaleira
efervescente.
É de fora
a sua natureza líquida.
Não há fôrma que a aprisione,
não há temperatura que a molde.

Embora verso,
embora prosa,
A poesia sabe-se leve,
sabe-se solta.
Amorfa,
não se prende ao vocábulo.
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Soneto de
AGRIPPINO GRIECO 
Paraíba do Sul/RJ, 1888 – 1973, Rio de Janeiro/RJ

Copo de Cristal

Naquele quarto estreito e abandonado,
onde passo estirado na rede,
horas de tédio, enquanto o sol despede
as setas de ouro sobre o campo ao lado,

esquecido num canto, e, da parede
junto, entre flores, vasos, e um bordado,
há um velho copo de cristal lavrado,
em que, às vezes, aplaco a dor da sede.

Contam-me que esse copo pertencera
outrora a uma esquisita e romanesca
jovem, que nele muita vez bebera.

E ainda hoje a extravagar – cabeça louca ! -
se ao lábio o levo, sinto na água fresca
o perfume e o sabor daquela boca...
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Aldravia de
ÂNGELA FONSECA
Belo Horizonte/MG

lápis
sobre
papel
tessitura
de
ideias
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Soneto de
VINÍCIUS GREGÓRIO
São José do Egito/PE

Eu e o Galo de Campina

Triste sina de um Galo-de-Campina
Que era alegre bem antes da prisão,
Mas foi preso nas grades do alçapão
E hoje chora no canto a triste sina.

Eu também tive a sina repentina,
Pois um dia fui livre e hoje não.
Na tristeza, esse Galo é meu irmão:
Minha sina da dele é copia fina.

Hoje a casa do Galo é a gaiola.
Notas tristes no canto é que ele sola.
A saudade do Galo - a vastidão.

O meu canto é um canto de lamento.
A gaiola é o meu apartamento.
E a saudade que eu sinto é do sertão.
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964

Fantasma

Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?

Tua longa barca desliza
por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na órbita imensa
de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto
e, então, com súbito desgosto,
vejo que teu rosto é o meu rosto,

e que vais levando contigo,
pelo silencioso perigo
dessa tua navegação,

minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!
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QUADRA POPULAR

Acordei antes da aurora
dando suspiros por ti,
suspirei o dia inteiro,
suspirando adormeci.
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Soneto de
PEDRO SATURNINO
Cabo Verde/MG, 1883 – 1953, Curitiba/PR

Cavalo Pampa

Devo contar (naturalmente em rima)
que também tive o meu cavalo pampa,
de muita fibra, de bonita estampa,
em que eu montava para ver a prima.

O soberbo animal de minha estima,
que bem marchava pela estrada escampa,
ao pé da casa dela, numa rampa,
estralava as ferragens rua acima.

Adivinhando que eu gostava dela,
com tal força batia as ferraduras,
que ela vinha postar-se na janela.

E eu lograva da flor do lugarejo,
das mais belas e gentil das criaturas,
um sorriso de amor melhor que um beijo! 
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Trovador Homenageado

Príncipe dos Trovadores
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP

1
Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio …
2
Às vezes, tenho pensado
que a nostalgia é, somente,
desejo de que o Passado
seja, de novo, Presente…
3
Brinquedo de porcelana
na mão de criança arteira...
Assim é a ventura humana,
tão frágil... tão passageira…
5
Creio em ti e sem favor…
Sabes bem que é mesmo assim!
E em mim tu crês, meu amor,
bem mais do que creio em mim!…
6
Enfrentando tantas provas,
ao desenrolar dos anos,
vou tirando da alma Trovas,
e enchendo-a de desenganos…
7
Glórias, riqueza, esplendor,
nunca te dei... e nem tive...
Porém, mais dura um amor
quando com pouco ele vive…
8
O que meu filho herdará?
(Esta dúvida me atrai...)
— Da mãe a franca alegria,
ou a tristeza do pai?!
9
Poupou-me, Deus não querendo
que eu filhos viesse a ter,
pois não quis me ver sofrendo,
vendo os meus filhos sofrer…
10
— Quem só deseja encontrar
no futuro lar; bonança,
entre rosas há de achar
um chorinho de criança…
11
Se foi sua alma ferida,
não culpe à Vida, rapaz...
— Não é má ou boa a Vida...
É só Vida... e nada mais…
12
Se trazes em ti, querida,
um amor igual ao meu,
ninguém jamais nesta vida,
amor assim conheceu...
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Eduardo Martínez (Meu amigo Marco Antônio)


Essa história aconteceu há tantos anos, que nem me lembrava mais, até que o frio aqui em Porto Alegre me pegou de jeito e, talvez, tenha feito o meu cérebro pegar no tranco. É que sou dessas raras pessoas que não suportam nem uma brisa leve, pois o corpo já fica todo arrepiado. Tanto é que gosto de repetir sempre uma frase: "Quem gosta de frio é pinguim ou picolé!"

Pois bem, lá estava eu no terceiro semestre do curso de jornalismo, sentado bem próximo à porta da sala, quando um rapaz, que eu já conhecia de vista, se sentou e puxou conversa. 

– E aí, fez o trabalho?

– Fiz. 

– Quem está no seu grupo?

– Eu fiz sozinho, pois o meu grupo me expulsou.

– Quem era do seu grupo?

– A Vívian, a Tatiana, a Fabiane e a Angelina. E você fez?

– Não. Também fui expulso do meu grupo.

– Quem era do seu grupo?

– A Cíntia.

– E quem mais?

– Só a Cíntia e eu mesmo.

– O quê? Como você conseguiu ser expulso de um grupo de apenas duas pessoas?

– Pois é...

– Coloque o seu nome aqui no meu trabalho. Melhor um grupo de dois que de um.

E foi assim que conheci o meu grande amigo Marco Antônio, o Kiko, que me fazia rir muito com as imitações do Michael Jackson cantando Billie Jean. Fizemos algumas investidas no campo jornalístico, criamos alguns fanzines e, até, um periódico chamado Catraca. Mas isso é uma outra história, que talvez eu conte um dia.
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Blog do Menino Dudu. 17.05.2022
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

José Feldman (O Pincel da Agonia e o Toque do Amanhã)


A praça nunca parecia ensolarada para Jaime, mesmo sob o meio-dia de verão. Para ele, a luz era apenas um fator que definia a nitidez das sombras. Sentado diante de seu cavalete descascado, ele movia o pincel com uma precisão gélida. A tela exibia um quarto escuro, onde as pinceladas de cinza e preto pareciam pulsar como hematomas.

Ele era um homem de pedra. O rosto, sulcado por rugas prematuras, jamais havia conhecido a elasticidade de um sorriso em trinta anos. Desde os quinze, quando o som do mundo se resumiu ao estalo do cinto de seu pai e aos gritos agudos de sua mãe que, em uma noite de tempestade e álcool, silenciaram-se para sempre, Arthur morava naquele quarto escuro da memória.

— Por que você usa tanta tinta preta? O azul do céu hoje está tão bonito.

A voz era fina, como o toque de um sino de vento. Jaime não desviou os olhos da tela.

— O céu não é azul, menina — respondeu ele, a voz rouca pelo desuso. — É apenas um vácuo que espera a noite chegar.

Uma garotinha, de no máximo nove anos, com um vestido cor de pêssego e olhos que pareciam guardar todo o brilho que Jaime havia perdido, inclinou a cabeça para o lado, observando a pintura.

— Mas esse quadro... ele dá vontade de chorar — disse ela, sem medo. — Por que você desenha a dor?

Ele finalmente parou o pincel, olhou para as mãos pequenas da menina e depois para o rosto dela.

— Eu desenho o que sobrou de mim. Quando eu era da sua idade, o mundo parou de ter cores. Meu pai chegava com o cheiro do inferno nas roupas e as mãos pesadas. Eu ouvia minha mãe gritar... e eu não podia fazer nada. Até que um dia, o silêncio dela se tornou o meu silêncio. Entende agora? Não há alegria em pincéis que viram o que eu vi.

A menina não recuou. Em vez disso, ela deu um passo à frente e, com uma audácia que gelou o sangue de Jaime, segurou a mão dele — a mão que segurava o pincel. A palma dela era quente, uma temperatura que ele não sentia há décadas.

— O senhor está olhando para dentro do quarto escuro de novo — disse ela suavemente. — Mas a porta está aberta. Venha ver.

— Não há nada para ver, criança.

— Tem sim. Venha.

Ela o puxou. Contra toda a sua vontade de ferro, ele se levantou. O cavalete ficou para trás, com sua tragédia em óleo ainda fresca. A menina o levou até o centro da praça, onde um ipê amarelo explodia em flores.

— Olhe para cima, senhor Pintor — ela apontou. — Veja como o sol atravessa as pétalas. Elas parecem feitas de luz, não de planta. E ouça... aquele passarinho não está preocupado com o ontem. Ele só sabe que hoje tem vento para voar.

Ele tentou desviar o olhar, mas a menina segurou seu rosto com as duas mãos pequenas.

— O senhor guarda os gritos daquela noite, mas esqueceu de ouvir o riso das crianças aqui no parque. O senhor guarda o sangue da sua mãe, mas esqueceu que ela amava o perfume das flores, não amava?

As defesas de Jaime começaram a rachar. Uma imagem dele, bem pequeno, entregando uma flor amassada para a mãe enquanto ela sorria escondendo um roxo no braço, atravessou sua mente como um relâmpago.

— Ela... ela gostava de margaridas — sussurrou ele.

— Então por que o senhor só pinta o escuro? Se o senhor pintar o que ela amava, ela estará viva no seu quadro, e não morta no chão daquele quarto.

O impacto das palavras foi como um dique rompendo. Ele caiu de joelhos no asfalto quente da praça. O choro, represado por trinta anos de orgulho e dor, irrompeu em soluços que sacudiram seus ombros largos. Ele chorou pela mãe e pelo menino que foi quebrado.

A menina permaneceu ali, a mãozinha em seu ombro, firme como uma âncora.

Minutos depois, ele limpou o rosto com a manga da camisa. Quando levantou a cabeça e olhou para a garotinha, algo milagroso aconteceu. Os cantos de sua boca, atrofiados pela tristeza, moveram-se. Primeiro com hesitação, depois com entrega. Jaime sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno, que iluminou seus olhos pela primeira vez desde a adolescência.

— Obrigado — ele disse, a voz agora mais leve. — Eu... eu acho que vou comprar tinta amarela amanhã. Como você se chama, pequena?

A menina sorriu de volta, um brilho quase sobrenatural emanando de seu rosto, e começou a caminhar em direção à luz do sol que inundava o outro lado da praça. Antes de sumir entre as pessoas, ela olhou para trás e respondeu:

— Meu nome é Esperança.

Moral: 
A dor do passado pode cegar nossos olhos para as cores do presente, mas enquanto houver um sopro de esperança, sempre haverá tempo para trocar o pincel da agonia pelas tintas do recomeço.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mensagem na Garrafa 154 = Os Sete Pecados Capitais


AUTOR ANÔNIMO

Certo dia, um casal ao chegar do trabalho encontrou algumas pessoas dentro de sua casa. Achando que eram ladrões, marido e mulher ficaram assustados, mas um homem forte e saudável, com corpo de halterofilista disse:

- Calma pessoal, nós somos velhos conhecidos e estamos em toda parte do mundo.

- Mas quem são vocês? - pergunta a mulher.

- Eu sou a Preguiça - responde o homem másculo. - Estamos aqui para que vocês escolham um de nós para sair definitivamente da vida de vocês.

- Como pode você ser a preguiça se tem um corpo de atleta que vive malhando e praticando esportes? - indagou a mulher.

- A preguiça é forte como um touro e pesa toneladas nos ombros dos preguiçosos, com ela ninguém pode chegar a ser um vencedor.

Uma mulher velha curvada, com a pele muito enrugada, que mais parecia uma bruxa diz:

- Eu, meus filhos, sou a Luxúria.

- Não é possível! - diz o homem - Você não pode atrair ninguém com essa feiúra.

- Não há feiúra para a luxúria, queridos. Sou velha porque existo há muito tempo entre os homens; sou capaz de destruir famílias inteiras, perverter crianças e trazer doenças para todos até a morte. Sou astuta e posso me disfarçar na mais bela mulher.

E um mal-cheiroso homem, vestindo roupas maltrapilhas, que mais parecia um mendigo, diz:

- Eu sou a Cobiça, por mim muitos já mataram, por mim muitos abandonaram famílias e pátria; sou tão antigo quanto a Luxúria, mas eu não dependo dela para existir.

- E eu, sou a Gula - diz uma lindíssima mulher com um corpo escultural e cintura finíssima. Seus contornos eram perfeitos e tudo no corpo dela tinha harmonia de forma e movimentos.

Assustam-se os donos da casa, e a mulher diz:

- Sempre imaginei que a gula seria gorda.

- Isso é o que vocês pensam! - responde ela. - Sou bela e atraente, porque se assim não fosse seria muito fácil livrarem-se de mim. Minha natureza é delicada, normalmente sou discreta, quem tem a mim não se apercebe, mostro-me sempre disposta a ajudar na busca da luxúria.

Sentado em uma cadeira num canto da casa, um senhor, também velho, mas com o semblante bastante sereno, com voz doce e movimentos suaves, diz:

- Eu sou a Ira. Alguns me conhecem como cólera. Tenho muitos milênios também. Não sou homem, nem mulher, assim como meus companheiros que estão aqui.

- Ira? Parece mais o vovô que todos gostariam de ter! - diz a dona da casa.

- E a grande maioria me tem! - responde o vovô. - Matam com crueldade, provocam brigas horríveis e destroem cidades quando me aproximo. Sou capaz de eliminar qualquer sentimento diferente de mim, posso estar em qualquer lugar e penetrar nas mais protegidas casas. Mostro-me calmo e sereno para mostrar-lhes que a Ira pode estar no aparentemente manso. Posso também ficar contido no íntimo das pessoas sem me manifestar, provocando úlceras, câncer e as mais temíveis doenças.

- Eu sou a Inveja. Faço parte da história do homem desde a sua criação. - diz uma jovem que ostentava uma coroa de ouro cravada de diamantes, usava braceletes de brilhantes e roupas de fino pano, assemelhando-se a uma princesa rica e poderosa.

- Como inveja, se é rica e bonita e parece ter tudo o que deseja? - diz a mulher da casa.

- Há os que são ricos, os que são poderosos, os que são famosos e os que não são nada disso, mas eu estou entre todos. A inveja surge pelo que não se tem e o que não se tem é a felicidade. Felicidade depende de amor, e isso é o que de mais carece a humanidade... Onde eu estou, está também a Tristeza.

Enquanto os invasores se explicavam, um garoto, que aparentava cerca de cinco a seis anos, brincava pela casa. Sorridente e de aparência inocente, característica das crianças, sua face de delicados traços mostravam a plenitude da jovialidade, olhos vívidos...

E você, garoto, o que faz junto a esses que parecem ser a personificação do mal?

O garoto responde com um sorriso largo e olhar profundo:

- Eu sou o Orgulho.

- Orgulho? Mas você é apenas uma criança?

Tão inocente como todas as outras. O semblante do garoto tomou um ar de seriedade que assustou o casal, e ele então diz:

- O orgulho é como uma criança mesmo, mostra-se inocente e inofensivo, mas não se enganem, sou tão destrutível quanto todos aqui, quer brincar comigo?

A Preguiça interrompe a conversa e diz:

- Vocês devem escolher quem de nós sairá definitivamente de suas vidas. Queremos uma resposta.

O homem da casa responde:

- Por favor, deem dez minutos para que possamos pensar.

O casal se dirige para seu quarto e lá fazem várias considerações.

Dez minutos depois retornam.

- E então? - pergunta a Gula.

- Queremos que o Orgulho saia de nossas vidas.

O garoto olha com um olhar fulminante para o casal, pois queria continuar ali. Porém, respeitando a decisão dirige-se para a saída.

Os outros, em silêncio, iam acompanhando o garoto quando o homem da casa pergunta:

- Ei! Vocês vão embora também?

O Menino, agora com ar severo e com a voz forte de um orador experiente, diz:

- Escolheram que o Orgulho saísse de suas vidas e fizeram a melhor escolha. Porque onde não há orgulho, não há Preguiça, pois os preguiçosos são aqueles que se orgulham de nada fazer para viver ... não percebendo que na verdade vegetam. Onde não há orgulho não há luxúria, pois os luxuriosos têm orgulho de seus corpos e julgam-se merecedores. Onde não há orgulho, não há cobiça, pois os cobiçosos têm orgulho das migalhas que possuem, juntando tesouros na terra e invejando a felicidade alheia, não percebendo que na verdade são instrumentos do dinheiro. Onde não há orgulho, não há gula, pois os gulosos se orgulham de suas condição e jamais admitem que o são, arrumam desculpas para justificar a gula, não percebendo que na verdade são marionetes dos desejos. Onde não há orgulho, não há ira, pois os irosos com facilidade destroem aqueles que, segundo o próprio julgamento, não são perfeitos, não percebendo que na verdade sua ira é resultado de suas próprias imperfeições. Onde não há orgulho, não há inveja, pois os invejosos sentem o orgulho ferido ao verem o sucesso alheio seja ele qual for; precisam constantemente superar os demais nas conquistas, não percebendo que na verdade são ferramentas da insegurança. 

Saíram todos sem olhar para trás, e, ao baterem a porta, um fulminante raio de luz invadiu o recinto. O casal desintegrou-se... 

Dizem que viraram Anjos!