quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Gislaine Canales (Tertúlia da Saudade)

 

 1
A minha vida é uma Trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a Trova da vida!
2
A minha vida é um romance,
pois sonhando sou feliz...
Eu deixo que o vento trance
os sonhos que eu sempre quis!
3
A mistura de mil cores
e toda a luz do universo,
mais o perfume das flores,
desejo pôr no meu verso!
4
Amor à primeira vista,
foi isso, mar, que eu senti!
Ninguém há que te resista,
quando está diante de ti!
5
A noite recebe a tarde
num momento de magia...
No pôr-do-sol, o céu arde
e tudo vira poesia!
6
A paz mundial é utopia
dizem uns...Não é verdade,
se buscarmos na Poesia
as armas da Humanidade!
7
Aquela ponte que unia
nossas vilas ribeirinhas
une ainda, por magia,
suas saudades e as minhas.
8
A saudade da saudade,
varreu, de mim, a alegria,
levando a felicidade
que eu pensava que existia!
9
As eternas madrugadas
me encontram sempre a chorar.
A vida, cheia de nadas,
não me deixa mais sonhar!
10
A vida é renovação,
(é amor, é sonho e alegria),
é feita só de emoção,
recomeça a cada dia!
11
Cada livro é uma vitória
na memória de um País,
pois nos diz de sua glória
e é, da história, a geratriz!
12
Caminhei pelo infinito,
vaguei por milhões de espaços...
Até lá estava escrito
o meu regresso aos teus braços!
13
Canto as estrelas nos versos,
com minha alma apaixonada...
Vou acendendo Universos...
"Criando luzes...do nada!" 
14
É contrastante a ironia,
nesta verdade contida:
lindo o entardecer do dia,
triste o entardecer da vida!
15
É de ternura o momento
em que o Sol sorri do espaço,
se faz vida e sentimento
e lança ao mar seu abraço!
16
É mais que um deslumbramento
ver o sol nascer no mar,
é mágico esse momento
que vem as águas dourar!
17
Em meu coração alterno
as estações...todo o dia,
tornando, assim, meu inverno,
lindo verão de poesia!
18
"Enganam-se os ditadores"
que pensam poder tirar
do mundo, nós, trovadores
e o nosso jeito de amar!
19
Era da tecnologia
não deve afastar pessoas,
mas uni-las na alegria,
na curtição de horas boas!
20
Era noite e a escuridão
pensou que raiava o dia,
ao sentir com emoção
a luz da tua poesia!
21
Essas algemas partidas
representam liberdade,
salvação de muitas vidas,
e um mar de felicidade!
22
Eu gosto de navegar
nesse mar de azul infindo
formado por teu olhar.
Não existe mar mais lindo!
23
Eu prossigo o meu caminho,
procurando um grande amor,
que me envolva com carinho
e me aqueça com calor!
24
Eu quero poder cantar
meus versos aos quatro cantos,
talvez possa transformar
em risos, todos os prantos.
25
Eu tenho um sonho bonito:
Caminhar por sobre as águas
e ao chegar ao infinito,
esquecer todas as mágoas!
26
Fotos mostrando uma vida,
namoro, noivado e então,
a essência nela cumprida:
os filhos do coração!
27
Letras que formam poesia,
nos abraçam com carinho,
deixam rastros de alegria
em todo o nosso caminho!
28
Lutemos pela conquista
da paz mundial no universo,
numa guerra pacifista,
usando as armas do verso!
29
Menino e o sonho da bola,
pés descalços,  no campinho,
e esse chute desenrola
a visão do seu caminho!
30
Me envolve com mil abraços,
com mil beijos de afeição,
esse mar, de doces braços
com seus lábios de paixão!
31
Meu interior é risonho,
e posso a todos dizer
"que trago um mundo de sonho"
no meu modo de viver!
32
Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
33
Meu verso é meu companheiro
no cenário da ilusão
e o universo, imenso, inteiro,
se torna pequeno, então!
34
Não lembro de ti, passado,
pois, consegui te esquecer;
agora, só tenho ao lado
os sonhos que vou viver!
35
Não posso viver em vão,
eu preciso um filho ter,
plantar em fecundo chão
e um livro bom, escrever!
36
Na Primavera, chegando,
cheia de cor e beleza,
os jovens seguem cantando,
num aplauso à Natureza!
37
Navegando em meu veleiro,
num  mar , assim, tão bonito,
procuro meu companheiro,
nesse meu sonho infinito!
38
Nesta vida tão inquieta,
o meu consolo é pescar.
Sou pescadora-poeta,
que pesca versos no mar!
39
Numa troca de carinhos,
dois sorrisos se irmanaram,
e os dois, antes, tão sozinhos,
juntos, pra sempre, ficaram !
40
Nunca mais fiquei sozinha,
pois na Internet eu namoro
e essa solidão, que eu tinha,
não mora mais onde eu moro!
41
O amor é pura magia
e a ternura da emoção
traduz-se nessa alegria
plantada no coração!
42
O espelho mau me mostrou
algo que eu nem suspeitava…
Agora, eu sou como estou,
e nunca como eu sonhava!
43
Olhando o mar, eu diviso,
a areia branca a esperar
um beijo feito sorriso,
que as mansas ondas vêm dar!
44
Olhava o mar com temor,
numa espera preocupada:
nem peixes…nem pescador!
Tão só o vazio do nada!
45
O magro e a magra dançando…
Osso com osso batia…
E quem estava escutando
pensava ser bateria…
46
O magro era tão magrinho,
magrinho de fazer dó…
seu pijama listradinho
era de uma listra só!
47
O mais bonito sorriso,
que eu ganhei, cheio de afeto,
revelar nem é preciso !
Foi do meu primeiro neto!
48
O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
49
O meu viver enfadonho,
só de amarguras composto,
põe as rugas do meu sonho
sobre as rugas do meu rosto!
50
O prazo que nós tivemos
para o nosso amor viver,
foi pouco. Nos esquecemos
antes do prazo vencer!
51
O sol dourado se espraia
tão lindo.com seu calor,
por toda a areia da praia
em doces beijos de amor!
52
O trem passando entre flores,
vai a infância recordando,
pai e mãe:  os meus amores...
e nós todos, viajando...
53
O Trovador, com seu sonho,
e sua grande emoção,
desenhou um Sol risonho
na preta poluição!!!
54
O trovador que em verdade,
faz da trova uma oração,
coloca com amizade
“A trova no Coração”!
55
Para mim, não há segredos,
meu mar, de infinito azul,
nós convivemos sem medos,
nas belas praias do Sul!
56
Quando unimos nossos braços,
aos braços de outros irmãos,
sentimos que os nossos laços
enfrentam todos os nãos!
57
Que a paz mundial, que sonhamos,
não seja mera utopia...
Para alcançá-la, vivamos
com muito amor cada dia!
58
Quero cantar pelo espaço
e, nas estrelas, rever
todas as trovas que eu faço.
Trova é prece em meu viver!
59
Sendo a vida embriagante
devemos vivê-la bem.
"Há sempre um mágico instante,"
há sempre um mágico alguém!
60
Sinto a imensa inspiração
desse escultor, se esculpindo,
mostrando, a nós, na emoção
sua  escultura surgindo!
61
Sinto as mãos da solidão
num carinho de verdade,
trazendo ao meu coração,
das tuas mãos, a saudade!
62
"Somos os dois um só mundo",
somos um só, na verdade,
e esse nosso amor profundo,
é mais que amor, é amizade!
63
Sou feliz ao relembrar
que realizei meu desejo...
Como foi bom te beijar!
Como foi bom o teu beijo!
64
Sou pescador de ilusões
e nesse pescar me ponho,
conquistando corações
com os anzóis do meu sonho!
65
Sou tão triste e tão sozinha,
que o eco do meu lamento,
desta saudade tão minha,
escuto na voz do vento!
66
Sozinhas nas madrugadas,
donas do mundo e da lua,
nossas mãos entrelaçadas
seguem juntas pela rua!
67
"Teu beijo pela Internet"
traz amor, traz alegria,
é sempre a melhor manchete
acarinhando o meu dia!
68
"Tua idade não importa,"
se feliz quiseres ser,
pois ao amor, não comporta
ter idade pra nascer!
69
Tudo é tão encantador,
nosso amor é tão bonito,
"que, em cada noite de amor"
ultrapasso o infinito!
70
Um bombeiro consciente,
alto, loiro, bonitão,
apaga o fogo da gente
mesmo sem água na mão!
71
Um gemido de dar medo,
eu ouvi… que coisa estranha!
Cravou o espeto no dedo,
em vez de ser na picanha!
72
Um mundo melhor...queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
73
Um segredo que me assusta:
-Não saber, se após a morte,
há uma vida boa e justa,
que não dependa da sorte!
74
Vamos a vida encantar
com nossa Trova querida,
e na Trova, então cantar,
um hino de amor à vida!
75
Vejo a tua silhueta
na sombra, bem definida,
e abro, em meu peito, a gaveta
de uma saudade escondida!
76
Vivemos juntos, mas sós,
nossa solidão somada
fez de ti, de mim, de nós,
a soma triste do nada!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Gislaine Canales (1938 – 2018)
GISLAINE CANALES foi uma das maiores figuras da vertente literária da trova no Brasil, reconhecida internacionalmente pelo seu empenho em conectar poetas de língua portuguesa e espanhola. Nascida em Herval/RS, em 1938, filha de Sophia Irene e Avelino Canales. Faleceu em Porto Alegre/RS, em 2018, aos 80 anos, vítima de um infarto. Residiu por longos anos e desenvolveu grande parte de seu trabalho cultural em Balneário Camboriú/SC, Formou-se como Bacharel em Pedagogia e Licenciada em Didática. Essa formação como educadora foi fundamental para estruturar sua didática ao coordenar oficinas, concursos literários e organizar movimentos coletivos de poesia. Autodefinia-se como "Poetisa, Trovadora, Glosadora e Pescadora" (com direito a registro oficial de pescadora). Ela dominava a arte das trovas e das glosas. 
Atuou de forma proeminente em diversas frentes acadêmicas e associativas: Foi delegada e presidente da seção de Balneário Camboriú/SC, onde organizou célebres edições dos Jogos Florais; Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (membro titular); Poetas del Mundo: Atuou ativamente como Cônsul. Recebeu inúmeras láureas nacionais e internacionais devido à sua dedicação à difusão da poesia.
A sua grande importância para a literatura reside no papel de internacionalização da trova brasileira. Gislaine usou a internet de forma pioneira para ligar o Brasil a poetas de países vizinhos. Graças ao seu esforço obstinado, os concursos de trovas cruzaram as fronteiras do Brasil, integrando intensamente países de língua espanhola, como a Argentina, Venezuela e Uruguai, criando uma verdadeira rede sul-americana de trovadores. 

Nilto Maciel (Ilusões de Gato e Rato)


No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.

Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?

Num piscar de olhos, já dormia, já sonhava. Esquisito sonho. Era um ratinho cinzento e esperto. Vasculhava a cozinha à cata de um naco de queijo que lhe quebrasse o longo jejum. Andava por armários, prateleiras, latas, caixas. Súbito descobria o queijo de seus sonhos. Redondo, branco, enorme.

Nem queria acreditar naquilo. Talvez sonhasse. Ou se tratasse de armadilha. Os homens não perdiam o hábito da crueldade e da perfídia. Refinadas feras!

Aproximou-se do queijo, um olho na porta, outro na vida. Cheirou, a boca se encheu de água, encostou o focinho na casca. Deu mais uma volta pelo ambiente, olhos e ouvidos abertos. Não, ninguém para estragar sua festa.

E deu a primeira lambiscada.

Até fechou os olhos para melhor sentir a delícia que invadia sua boca, seu corpo inteiro.

De repente um calafrio percorreu-lhe a espinha. Virou-se, e eis diante de si um enorme e belo gato.

Tudo então se tornou feio para ele. Vida de rato — desgraça pura. Escondido nos buracos, perseguido dia e noite. Um inferno!

Corria, e o felino no seu rasto. Metia-se atrás dos móveis e a pata asquerosa o cutucava.

Amedrontado, vendo a morte a um palmo de seu focinho, o ratinho decidiu arriscar, buscar o derradeiro abrigo – estreita greta na parede. E correu. O felino deu um salto, escorregou, miou.

Coração aos pulos, o pobre rato conseguiu alcançar a fenda salvadora. Não, não seria aquele seu último dia. Muitos queijos roeria ainda. Muitas emoções sentiria ainda.

Nervoso, enfiou a cabeça no buraco, forçou a passagem. Porém o devorador de ratos já abocanhava seu traseiro. Mordia, arrastava-o para o suplício.

Preso aos dentes do monstro, o roedor apenas chiava. Só lhe restava esperar a morte. Nem Deus o salvaria das garras daquele demônio. Nem milagre. Talvez muita sorte. Sim, os gatos costumam praticar um ritual macabro, antes de matar e devorar suas presas. Fingem dar fim à tortura, concedendo-lhes um minuto de liberdade. A vítima tenta escapar, iludida, e recebe mais violenta mordida. É sempre assim. E quem não sabe disso?

Se tivesse sorte, aproveitaria da melhor maneira a oportunidade de fugir. Não buscaria mais a greta estreita. Esconder-se-ia debaixo da geladeira, dentro do fogão, detrás do armário. De tanto esperar, o torturador desistiria da perseguição. Cansado, dormiria, o preguiçoso.

Não havia concluído ainda seu raciocínio, e eis que o gato o libertou dos dentes, largando-o ao chão. Correr logo seria loucura. Melhor aguardar um cochilo da fera. Quando fechasse os olhos, coçasse a barriga, virasse a cabeça para alguma barata idiota.

O felino lambia os beiços, os olhos enormes fitos no rato encolhido, pensativo.

Aquele maldito não cochilava, não fechava os olhos, não coçava a barriga. Nem aparecia uma barata, uma aranha, um inseto qualquer.

E se se transformasse em gato? Por que não? Melhor ainda se aquele patife se transformasse em rato. Então a história seria outra.

Na sua ilusão, o ratinho perdeu o acanhamento, cresceu, levantou-se do chão e pôs-se a miar. Aquele animalzinho metido a valente precisava levar uma boa lição.

E partiu para o gato.

Ocorreu então a cena mais trágica da história: o felino desferiu uma tapa tão espetacular que o mísero rato rodopiou feito um pião e estatelou-se no chão. Não satisfeito, de um salto o malvado caiu sobre a inerme vítima e cravou-lhe os dentes.

— Deixa-te de ilusões, rato.

Debaixo da cadeira, o gato deu um pavoroso miado. E pôs-se a lamber as doídas ancas.

Já era noite.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet e colaboração do escritor

Estante de Livros (“Mistérios de Lisboa”, de Camilo Castelo Branco)

Mistérios de Lisboa, publicado em 1854, é uma das obras mais célebres, ambiciosas e labirínticas de Camilo Castelo Branco. Representante máximo da fase ultrarromântica da literatura portuguesa, o livro adota o formato do romance de folhetim (popularizado na França por Eugène Sue com Os Mistérios de Paris), caracterizando-se por uma narrativa empolgante, cheia de reviravoltas, segredos de família, vinganças, crises religiosas e identidades ocultas.

1. ESTRUTURA E RESUMO DA TRAMA (O Labirinto Narrativo)

A obra não possui uma linha narrativa única, mas funciona como uma rede de histórias entrelaçadas onde o final de um mistério abre as portas para o início de outro.

O Ponto de Partida: 
        A história começa com o jovem João, um órfão de 14 anos que estuda num colégio interno em Lisboa e sofre por não conhecer sua identidade. Ele é protegido pelo misterioso Padre Dinis.

As Revelações: 
        Padre Dinis revela a João que ele é, na verdade, Pedro da Silva, filho bastardo de uma aristocrata, a Condessa Ângela de Lima, com o fidalgo cego de amor, General Sebastião de Melo. O pai de Ângela (o tirânico Marquês de Montezelos) mandou assassinar o amante da filha e trancou-a, forçando-a mais tarde a um casamento infeliz com o conde de Santa Bárbara.

O Efeito Dominó: 
        A partir dessa premissa, a narrativa recua e avança no tempo. Descobrimos o passado do próprio Padre Dinis (que já foi o fidalgo Sebastião de Albuquerque, um homem de vida libertina e violenta que se regenerou na fé). Conhecemos também a história de Alberto de Magalhães (um "falso" fidalgo e próspero negociante com origens sombrias), a de piratas, ciganos, frades e duquesas. Cada personagem introduzido traz consigo um relato autobiográfico que justifica suas ações no presente.

2. ANÁLISE DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS

João / Pedro da Silva: 
É o fio condutor inicial da história. Representa o herói romântico ultra-sensível, marcado pela melancolia existencial (mal do século). Sua busca por identidade e sua fragilidade emocional o guiam por um caminho de desilusões amorosas e sofrimento, culminando em um destino trágico e precoce.

Padre Dinis: 
A figura central e moral da obra. É o elemento que conecta quase todas as personagens. Homem enigmático, aristocrata no passado, ele transita por todas as camadas sociais (da alta corte aos submundos de Lisboa). Sua trajetória simboliza a redenção pelo sofrimento e pela fé, atuando como um protetor dos injustiçados, embora carregue a culpa de seus próprios pecados de juventude.

Ângela de Lima (Condessa de Santa Bárbara): 
A personificação da mártir romântica. Vítima da tirania paterna e, posteriormente, dos abusos físicos e psicológicos de um marido sádico. Sua vida é um martírio contínuo, encontrando refúgio apenas na religiosidade.

Alberto de Magalhães: 
O contraponto pragmático e enérgico ao idealismo de Pedro da Silva. É um homem determinado, astuto, enriquecido e de caráter ambíguo. Não hesita em usar a força ou a inteligência para atingir seus fins, representando o novo homem burguês que ascende na sociedade oitocentista.

3. TEMÁTICAS CENTRAIS

Crítica à Aristocracia e Decadência Social
Camilo Castelo Branco traça um retrato feroz da nobreza portuguesa do século XIX. A aristocracia é pintada como uma classe hipócrita, decadente, movida pelo orgulho de casta, pela ganância e pelas aparências. Os casamentos são arranjos comerciais e políticos que destroem a vida dos filhos, gerando um ciclo infinito de bastardia, adultério e violência doméstica.

O Destino e a Fatalidade
No universo camiliano, as personagens estão presas a uma força fatalista da qual não podem escapar. Os erros dos pais recaem impiedosamente sobre os filhos. Há um determinismo trágico onde o amor raramente traz a felicidade; pelo contrário, o amor é quase sempre uma fonte de perdição, loucura e morte.

Religiosidade e Redenção
A Igreja e a vida monástica aparecem constantemente como o único refúgio possível para as almas estraçalhadas pelo mundo material. Personagens violentas convertem-se em padres; mulheres perseguidas encontram a paz nos conventos. A dor é vista como um instrumento necessário para a purificação da alma.

4. MECANISMO POÉTICO E ESTILO FOLHETINESCO

        Camilo domina perfeitamente as técnicas do folhetim, utilizando recursos que mantinham o leitor do século XIX ávido pelo próximo capítulo:

Técnica do Encaixe (Narrativas Moldura): 
Uma história principal serve de gancho para que uma nova personagem conte a sua própria história ("romance-mosaico").

Clifhangers* e ganchos de suspense: 
Interrupções abruptas no clímax de uma cena, adiando a revelação para capítulos posteriores.

*Clifhangers = é um recurso narrativo que interrompe uma história no momento de maior tensão, sem oferecer uma resolução imediata

Ironia Camiliana: 
Apesar do tom trágico, a voz do narrador frequentemente intervém com comentários irônicos, sarcásticos ou moralistas sobre o comportamento social da época.

Linguagem Rica: 
O vocabulário de Camilo é de um purismo vernáculo impressionante. Ele transita com fluidez entre a grandiloquência dramática e a crueza das descrições das tabernas e estalagens lisboetas.

5. CONCLUSÃO

A inspiração de Camilo Castelo Branco para Mistérios de Lisboa brota de duas fontes principais: a sua própria vida tumultuada e as tensões políticas de Portugal da época (pós-Guerras Liberais). O próprio Camilo foi um filho ilegítimo, viveu amores proibidos, foi preso por adultério e conheceu de perto a miséria e a hipocrisia social.

Ao projetar suas dores e sua visão cética da humanidade nesta obra, Camilo não criou apenas um melodrama de entretenimento. Mistérios de Lisboa é um monumento literário que mapeia a transição da alma portuguesa do Antigo Regime para a modernidade burguesa, provando que, por trás das fachadas austeras dos palácios de Lisboa, escondiam-se os segredos mais sombrios da natureza humana.

6. SINOPSE

A Busca pela Identidade
A narrativa tem início em um colégio interno de Lisboa, onde conhecemos João, um menino de 14 anos, frágil e melancólico, que sofre profundamente por não saber quem é e por nunca ter conhecido os seus pais. Ele vive sob a rigorosa proteção do enigmático Padre Dinis, uma figura austera que transita tanto pela alta aristocracia quanto pelas vielas mais sórdidas da capital portuguesa.

O Segredo de Sangue
O mistério começa a se dissipar — e a se complicar — quando Padre Dinis decide revelar a João a verdade sobre sua origem. O jovem descobre que seu verdadeiro nome é Pedro da Silva e que ele é o fruto de um amor proibido e trágico. Sua mãe é a Condessa Ângela de Lima, uma nobre que foi brutalmente separada de seu grande amor, o General Sebastião de Melo, por ordens de seu tirânico pai, o Marquês de Montezelos. O Marquês mandou assassinar o amante da filha e a forçou a casar-se com o sádico Conde de Santa Bárbara, que passou a torturá-la fisicamente e psicologicamente. Para salvar o bebê bastardo da fúria do conde e do avô, Pedro foi entregue secretamente aos cuidados de Padre Dinis.

A Teia de Vinganças e Identidades Ocultas
A partir dessa revelação, o livro mergulha em um verdadeiro efeito dominó de narrativas. O leitor descobre que o próprio Padre Dinis carrega um passado violento e aristocrático: antes de tomar o hábito, ele era Sebastião de Albuquerque, um homem libertino marcado por duelos, paixões devastadoras e crimes de honra, que buscou no sacerdócio a redenção para a sua alma atormentada.
À medida que o tempo avança e Pedro da Silva cresce para tentar resgatar sua mãe do martírio e assumir seu lugar na sociedade, os seus caminhos cruzam com uma galeria de personagens ambíguos:
Alberto de Magalhães: um homem de negócios de origem obscura, enriquecido, astuto e impiedoso, cujo passado está diretamente ligado aos inimigos da família de Pedro.
Piratas, ciganos, assassinos de aluguel e duquesas decadentes: indivíduos que guardam, cada um, uma peça do quebra-cabeça sobre os crimes, adultérios e falências morais da elite portuguesa.

O Destino Inevitável
A obra se transforma em uma vertiginosa teia de perseguições, emboscadas, reencontros inesperados e acertos de contas que cruzam fronteiras, passando por Portugal, França, Itália e até pelo Brasil. No ápice da trama, as máscaras sociais caem e os pecados do passado cobram o seu preço em sangue. Fiel ao espírito ultrarromântico e fatalista de Camilo Castelo Branco, as personagens são arrastadas por um destino cego, onde o amor verdadeiro é sinônimo de perdição e a única paz possível para os sobreviventes só pode ser encontrada na solidão e na clausura dos conventos.

Fonte:
Análise detalhada da obra. Floresta: 29 out. 2026. Comunicação pessoal em formato de texto gerado sob demanda pelo usuário com IA Google.
Imagem criada com IA Microsoft Bing

Livros em Domínio Público (Download gratuito)

“Das leituras obrigatórias dos principais vestibulares de 2027, uma parte está em domínio público: os autores morreram há mais de 70 anos, e os textos podem ser lidos e baixados de graça, de forma legal. Reunimos aqui essas obras, vestibular por vestibular, com o texto integral em PDF e ePub, sem cadastro.”


Fontes:
Colaboração de Samuel Dias, criador do site GLivros
Imagem criada com IA Microsoft Bing

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Nei Garcez (Semeando Trovas)

 

1
A justiça nos ensina
o equilíbrio que nos deu:
o teu direito termina,
bem onde começa o meu!
2
A maior sabedoria
de quem sabe o seu saber,
é saber que a cada dia
sempre tem o que aprender.
3
Amizades que são boas
e, atitudes tão singelas,
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.
4
A nossa fisionomia,
que se expressa no facial,
de tristeza, ou de alegria,
é um idioma universal.
5
Aprecie a natureza
aprendendo o que ela ensina;
é uma mestra de grandeza,
e a primeira disciplina.
6
As pessoas nunca morrem,
simplesmente elas encantam,
vivem sempre e nos socorrem
com as obras que aqui plantam!
7
A virtude que enalteço,
num discurso coloquial,
é fazer com que o começo
fique perto do final.
8
Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos
e, seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.
9
Com dois cães dentro de mim,
um que é manso, cem por cento
e, um feroz, mas tão ruim...
Vence o que mais alimento!
10
Com sua Universidade,
centenária, mais antiga,
Paraná é a realidade
da docência que hoje abriga.
11
Conhecendo-se a ciência
que, ilumina uma verdade,
toda crença, sem coerência,
é um atraso à humanidade.
12
Construtor de propriedade,
João-de-Barro, arquiteto,
sem cursar a faculdade
cria e monta o seu projeto.
13
Da poesia, ou da cantiga,
a Trova, em repercussão,
é, na história, a mais antiga
e de lírica expressão!
14
Desde os nossos ancestrais,
daquela Roma de outrora,
que os nossos Jogos Florais
saúdam a Deusa Flora!
15
Deus criou toda a ciência
para que a investigação,
através da inteligência
nos conduza à evolução.
16
Deus fez tudo o que quisera,
fez o céu e fez as flores,
fez mais linda a primavera
e depois, os trovadores!
17
Enfim, que é o partir
da pessoa querida de cá,
senão, o chegar, o vir,
visto do lado de lá!
18
Entendei com bons ouvidos
o conselho e, contemplai-vos:
crescei, em todos sentidos,
e depois, multiplicai-vos!
19
Escrever é um simples conto
que não é grande epopeia:
maiúscula, mais o ponto
e, no meio, só a ideia!
20
Evitando o próprio enfarte,
o amor é o único bem
que, quanto mais se reparte
bem maior fica também.
21
Foi no embalo, tão silente,
de teu ventre, aquecido,
que ganhei maior presente
só por ter de ti nascido.
22
Há emoções que a gente sente
e, que encantam tanto, tanto,
que, se expressas, verbalmente,
perdem parte deste encanto.
23
José Feldman, todo dia, 
informando ao bom leitor, 
é o arauto da Poesia 
e, da Prosa, o difusor.
24
Nos poemas que energiza, 
Júlia da Costa nos dá 
a primeira Poetisa 
do Estado do Paraná...
25
Nunca ligue o celular
dirigindo ao seu volante,
mas se acaso ele tocar,
não atenda, siga adiante.
26
O alfabeto discutia 
onde a letra é mais formosa: 
que seria da Poesia 
se não fosse a própria Prosa?
27
O altruísmo da amizade,
quando em nossa vida ocorre,
tem a mesma intensidade
de um amor que nunca morre.
28
O astronauta, que flutua, 
muito tem a lamentar... 
Quanto mais perto da Lua, 
mais distante do luar!
29
O Brasil é a pátria amada
cantada em linda canção,
que tem a terra adorada,
e é mãe gentil da nação.
30
O Paraná cresceu tanto
com os povos que acolheu
e, hoje, agradece o encanto
que cada etnia lhe deu.
31
Por mais que estudemos tudo 
sobre Deus, inquestionável, 
esse estudo, sobretudo, 
será, sempre, inesgotável!
32
Por ser Lei do Criador, 
como quis o próprio Esteta, 
para ser um Trovador 
necessário é ser Poeta!
33
Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.
34
Quase preso como um réu,
muitas vezes sem ninguém,
todo cão vai para o céu...
e algumas pessoas também!
35
Quem pratica a temperança
e cultiva o dom do amor,
tem, na imagem, semelhança
com seu próprio Criador.
36
Quem recebe a caridade
repassando-a para frente,
faz um bem à humanidade
ao formar esta corrente.
37
Revendo os porta-retratos
que o tempo guarda, sem fim,
eu vejo, em tempos exatos,
cada pedaço de mim! 
38
Sempre ao ver que a bola rola
guie o carro em segurança
porque, sempre atrás da bola,
vem correndo uma criança.
39
Sem saber de quando em quando,
face aos fatos imprecisos,
vive, o homem, oscilando
entre lágrimas e risos.
40
Se podemos dizer tudo
em apenas quatro versos,
o porquê de um conteúdo
com dizeres tão dispersos?
41
Tão pequena na estrutura,
muito esbelta na linguagem,
a Trova, em nossa cultura,
tem grandeza na mensagem.
42
Toda trova que, bem feita,
respeitando-se a elisão,
haverá de ser eleita
em qualquer competição.
43
Toda trova tem, na rima,
e na métrica, a riqueza,
tendo ainda, assim por cima,
na elisão, a sutileza.
44
Toda trova tem, por meta,
eloquente descrição,
numa síntese completa,
dando, ao tema, a compreensão.

A TROVA EM SALA DE AULA

Trago a trova estruturada,
que apresento hoje a vocês,
para ser utilizada
nas lições de português.

Quem consegue imaginar
nosso mundo sem a escrita,
sem podermos registrar
o que a nossa mente dita?

Nesta conta aqui, confira,
qual resultado que indica:
quem de vinte cinco tira,
me respondam, quanto fica?

Trova é pequena oração
com valor gramatical
igual, por comparação,
à prosa convencional.

Trova é rima de versos
que, com métrica, bem feita,
entre os temas mais diversos,
forma a estrofe assim perfeita.

O segredo de uma trova
está sempre na elisão,
pois é esta que comprova
sua grande precisão.

Toda trova se pratica
como andar de bicicleta:
se no início o tombo fica,
logo mais se torna atleta.

Pra fazer trova bem feita,
com melhor vocabulário,
eu vou dar minha receita:
usem sempre o dicionário.

Uma coisa desastrada,
e que muito compromete,
é escrever de forma errada
como ocorre na internet.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nei Garcez (1944)
NEI GARCEZ é um renomado poeta e trovador brasileiro, amplamente reconhecido como uma das principais referências da trova no Paraná. Com uma trajetória dedicada à preservação, ao ensino e à difusão da poesia metrificada, ele desempenha um papel fundamental na manutenção da identidade lírica do estado. Nasceu na cidade de Curitiba/PR, em 1944. Possui formação superior, sendo graduado em Direito. Ao longo de sua carreira jurídica, atuou profissionalmente no estado do Paraná. Paralelamente ao exercício de sua profissão técnica, sempre manteve as portas abertas para a atuação cultural, sendo visto também como um mentor literário. 
Sua vida literária confunde-se com a própria história da trova contemporânea na capital paranaense. Conhecido generosamente por seus pares como o "Trovador das Araucárias", Garcez destaca-se pela produção de trovas. Devido ao seu prestígio e vasta produção, integra instituições culturais como Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná. É detentor de inúmeras premiações e classificações de destaque em diversos Jogos Florais realizados de norte a sul do Brasil. Possui coletâneas e antologias de suas composições líricas, com destaque para trovas. 
A relevância de Nei Garcez para a literatura reside em preservação da memória regional, Suas trovas com frequência homenageiam os símbolos, a fauna e a flora do sul do país — como nos célebres versos que escreveu sobre a gralha azul e o pinheiro paranaense Garcez é um grande entusiasta e pioneiro no desenvolvimento de projetos voltados para introduzir a trova no ambiente escolar. Ele defende que a facilidade de memorização e o ritmo da trova funcionam como ferramentas pedagógicas perfeitas para despertar o gosto pela leitura e pela escrita em crianças e jovens.