segunda-feira, 13 de julho de 2026

Asas da Poesia * 201 *


Poema de
APARECIDO RIAMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Nada além 

De súbito,
vi você 
num repente,
e, de repente,
meu coração se alegrou... 
foi um instante envolvente,
mas também inconsequente;
você partiu... me abandonou
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Trova Humorística de
WANDERLEY GUEDES DA SILVA
Sete Lagoas/MG

Um fantasma estarreceu,
espantou, gelou o sol.
Minha sogra apareceu
enrolada num lençol.
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Poema de
DINAIR LEITE
Paranavaí/PR

Acordei

Hoje acordei...
Então vi há quanto tempo dormia
e não via a vida fluir...

Os momentos perdidos de viver
outro amor, outra vida, amores...

Eu me achava condensada
em paixão. Respirando você
que não olha e não vê esse amor
que envolve meu ser
me fazendo sofrer em anseios
de ter o meu corpo em seus braços
e sua boca, a minha, a beijar.

Acordei e deixei você ir.
Esvaziei o meu ser de você.
O meu ventre e o meu coração
nunca mais sofreram a carência
ilusão do sonhar...preencher
um vazio com ar.
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Aldravia de
MARILZA DE CASTRO
Rio de Janeiro/RJ

Pierrô
arlequim
colombina
amor
em
trilogia
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Soneto de
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS, 1972 – 2007, Rosário do Sul/RS

A Travessia

 "O mundo é um moinho... " (Cartola) 

Todos nós temos corda onde agarrar,
A vida nos dá sempre uma saída
Que nos evite o risco de abismar
No medo natural da própria vida.

Por certo cada um pega o que pode:
Um amor, uma paixão ou mesmo um vício;
Um poema, um soneto ou uma ode,
Um portal com a cruz no frontispício,

Ou então, o que é pior, com um convite
Para entrar mas deixando a Esperança, 
Última paz que o mundo nos permite... 

Mas pra saíres vivo do moinho,
Não como Don Quixote e Sancho Pança,
Terás que atravessar a ti sozinho...
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Trova Premiada de
SELMA PATTI SPINELLI 
São Paulo/SP

Até no “terreiro” em prece,
é preguiçoso, o farsante: 
quando o “santo” dele desce,
só vem… de escada rolante!
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Poema de
ARY DOS SANTOS
Lisboa/Portugal, 1937 – 1984

Estigma 

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
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Quadra Popular

Esta noite dormi fora, 
na porta do meu amor;
deu vento na roseira
me cobriu todo de flor.
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Soneto de
MANUEL DE ARRIAGA
(Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue)
Horta/Açores/Portugal, 1840 – 1917, Lisboa/Portugal

Alvorada

      Algures brilha o sol no azul do firmamento,
      E expõe com resplendor das coisas o espetáculo!
      Aqui, na escuridão, o mundo é tabernáculo
      Onde os frágeis mortais descansam um momento!...

      Além, o Sol incita o mundo ao movimento,
      Á luta pela Vida, o esteio e o sustentáculo
      Desde o ser da Razão ao mínimo animáculo,
      Aqui, o sono esparsa em todos novo alento!

      Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida,
      A essência do meu Ser, a minha própria Ideia,
      O próprio Deus, talvez!... Beleza, Amor, Verdade!

      Atrás de Ti caminha a Terra, mãe querida!
      Bendito caminhar! Por Ti minha alma anseia!...
      Bem vinda sejas, pois, oh doce claridade!
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Trova Humorística de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

O trovador tá empolgado
e até troféu quer ganhar!...
O tema é “Mar” e eis o “achado”:
- És meu mar... mas não faz mar!
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Poema de
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Poema de amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala; parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
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Haicai de
WAGNER MARQUES LOPES
Pedro Leopoldo/MG

Vão crescendo as plantas: 
amor de um agricultor 
a doar mãos santas. 
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Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

O sextilheiro padece
para se manter na trilha,
ou a internet demora
para trazer a sextilha,
ou, quando menos espera,
traz duas, três, uma pilha…
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Trova de
JOÃO COSTA
Saquarema/RJ

 Lá vou eu, de verso em verso
- seja suave ou dura a lida -,
compondo pelo Universo
o poema da minha vida!…
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

MOTE:
Se essa aventura sonhada
se tornasse realidade,
com a carícia esperada
viria a felicidade!
Carmen Patiño Fernandes 
Coruña/Espanha

GLOSA:
Se essa aventura sonhada
um dia chegasse ao fim,
a minha alma, apaixonada,
sinto, explodiria em mim!

Se esse sonho que sonhei
se tornasse realidade,
tu serias o meu rei
e eu a tua deidade!

Fico até emocionada,
ardendo no meu desejo,
com a carícia esperada
com o calor do teu beijo!

Quero te amar com paixão
pois o amor não tem idade,
com ele, ao meu coração
viria a felicidade!
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

chuva
chorando
tristeza
invade
minha 
alma 
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

“As palavras perfumadas da confidência”
(Verso de Maria Goreti Andrade Carneiro Dias in “Textos de Amor", p. 40)

Palavras perfumadas de confidência
Dizias tu baixinho ao meu ouvido
E eu, delas tão sedento e atrevido
Ia perdendo, aos poucos, a inocência.

O amor ardia em nós com tal urgência
E como quase nada era proibido
Sem saber o caminho percorrido
Quase demos às portas da demência.

Dormem os nossos corpos saciados
Perdidos nos lençóis amarrotados
Envoltos numa paz que nos aquece.

Em redor tudo é calmo e é perfeito.
E eu sinto em mim que o mundo é o nosso leito
Como se nele nada mais houvesse.
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Trova Premiada de
ALBANO BRACHT 
Toledo/ PR

Decisão é coisa séria.
Convencido agora estou.
Quem concorda com miséria,
decidiu, mas não pensou.
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Poema de
RENATA PACCOLA
São Paulo/SP

A espera angustia

A espera angustia.
Você para,
a mente se esvazia.
Aí você acende um cigarro,
começa uma poesia,
e alguém,
que você nunca viu,
começa a encará-lo.
Aí você perde o embalo,
fica sem graça,
coça o braço,
e olha para o outro lado.

A saudade angustia.
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Triverso de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR

Esta vida é um mistério.
Perto da maternidade
também tem um cemitério.
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Setilhas para o Médico, de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Todo Médico ao se formar 
jura "Hipocraticamente" 
de todo mundo tratar 
com cuidado, infelizmente 
médico também se esquece, 
e quando isto lhe acontece, 
quem paga o pato é o indigente! 

Tirante a graça dos versos, 
sou mui grato ao "Doutor", 
que luta em campos diversos 
para amenizar a dor, 
seja do rico ou do pobre, 
um gesto deveras nobre, 
que o faz ser nosso credor!
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Trova de
JANSKE NIEMANN SCHLENKER
Curitiba/PR

Acordei (tinhas partido)
e me deixaste na estrada:
um pobre arbusto perdido
sem luz, sem pranto, sem nada…
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Ramalhete de Trovas sobre Palhaço, de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Quando o circo baixa a lona,
todo artista é feito o "clown":
cara em branco, bem pidona,
com tendência a ficar "down".
 
De carona num fusquinha,
com a mala colorida,
o palhaço é o "flanelinha"
no semáforo da vida.
 
Ao pintar o rosto pálido,
um Quixote em sofrimento
- o palhaço - torna válido
todo esforço contra o vento. 
 
O palhaço sempre insiste
numa alegre melodia,
sem saber que só existe
sua triste alegoria.
 
Palhacinho de mentira,
fui poeta de verdade,
que, no meio dessa lira,
foi embora da cidade.
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Poetrix de
JUCINEIA GONÇALVES
Belo Horizonte/MG

esperança

Arranco pétala,
por pétala,
os mal-me-queres dessa vida
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Soneto de
DIOGO BERNARDES
Ponte da Barca/ Portugal, 1530 – 1594, ??

Da branca neve, e da vermelha rosa
O Céu de tal maneira derramou
No vosso rosto as cores, que deixou
A rosa da manhã mais vergonhosa.

Os cabelos (d’amor prisão formosa)
Não d’ouro, que ouro fino desprezou,
Mas dos raios do Sol vos os dourou,
Do que Cíntia também anda invejosa.

Um resplendor ardente, mas suave,
Está nos vossos olhos derramando
Que o claro deixa escuro, o escuro aclara;

A doce fala, o riso doce, e grave
Entre rubis, e perlas lampejando
Não tem comparação por coisa rara.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ouça os sons da natureza:
as águas, pássaros, ventos...
- Que orquestra produz beleza
maior que esses instrumentos?
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Poema de
EDVANDRO PESSOATO
Belém/PA

Tiro direto

Somos da mesma espécie: manos
Por isso não me ameace: me abrace
Por isso não me confunda: me comova
Por isso não me apague: me navegue
Por isso jamais me ate: desate-me
Por isso não me torture: me ame
Por isso não me desacate: me acate

Somos da mesma árvore: mãe
Por isso não me entristeça: cresça
Por isso não me arranque: me plante
Por isso não me exploda: nem me explore
Por isso jamais me negue: se entregue
Por isso não me recolha: escolha
Por isso não me acabe: me encante
Por isso não fure os olhos: abra-os
Por isso não me afogue: me acenda
Por isso e por tudo mais
Sejamos da mesma espécie: manos
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Mensagem na Garrafa 195 = O velho e o neto

AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos tremendo. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava sopa na toalha e, quando, afinal, acertava a boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos.

O filho e a nora dele achavam que era uma porcaria e ficavam com nojo. Finalmente, acabaram fazendo o velho se sentar num canto atrás do fogão. Levavam comida para ele numa tigela de barro e - o que era pior - nem lhe davam bastante.

O velho olhava para a mesa com os olhos compridos, muitas vezes cheios de lágrimas.

Um dia, suas mãos tremeram tanto que ele deixou a tigela cair no chão e ela se quebrou. A mulher ralhou com ele, que não disse nada, só suspirou.

Depois ela comprou uma gamela de madeira bem baratinha e era aí que ele tinha que comer.

Um dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o neto do velho, que era um menino de oito anos, estava brincando com uns pedaços de pau.

- O que é que você está fazendo? - perguntou o pai.

O menino respondeu:

- Estou fazendo um cocho para papai e mamãe poderem comer quando eu crescer.

O marido e a mulher se olharam durante algum tempo e caíram no choro. Depois disso, trouxeram o avô de volta para a mesa. Desde então passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.
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Desta história, há uma música sertaneja, da dupla Teddy Vieira e Palmeira:

Couro de Boi

Conheço um véio ditado desde do tempo do Zagai
Um pai trata dez fio, dez fio não trata um pai
Sentindo o peso dos ano sem poder mais trabalhar
O véio peão estradeiro com seu fio foi morar
O rapaz era casado e a mulher deu de implicar
Vancê manda o véio embora se não quisé que eu vá
E o rapaz, coração duro, com o véinho foi falar

Para o senhor se mudar, meu pai, eu vim lhe pedir
Hoje, aqui da minha casa o senhor tem que sair
Leva este coro de boi que eu acabo de curtir
Pra lhe servir de coberta aonde o senhor durmir

O pobre véio, calado, pegou o coro e saiu
Seu neto de oito ano aquela cena assistiu
Correu atrás do avó, seu palito sacudiu
Metade daquele couro, chorando, ele pediu

O véinho, comovido, pra não ver o neto chorando
Cortou o coro no meio e pro netinho foi dando
O menino chegou em casa, seu pai foi lhe perguntando
Pra que você quer esse couro que seu avô ia levando?

Disse o menino ao pai: Um dia vou me casar
O senhor vai ficar véio e comigo vem morar
Pode ser que aconteça de nós não se combinar
Essa metade do coro vou dar pro senhor levar

Sammis Reachers (Em busca do fliperama perdido)


Durante minha infância e primeira adolescência, talvez o prazer maior, dos muitos que tínhamos, mesmo pobres, eram os games. Digo muitos prazeres pois na época (e isso a juventude de hoje precisa recuperar) dosávamos as atividades ao ar livre com as virtuais. Dentre as diversas amizades comuns à idade, cresci mantendo um núcleo principal de três amigos – Wilson, Ronaldo e Wilson – amizade que dura até hoje (tenho 41 aninhos já). Jogar nos consoles era ótimo, mas a experiência mais gratificante era com certeza os fliperamas. Primeiro porque a qualidade dos games era melhor: se em casa eu me debatia com um Phantom System, console nacional da Gradiente que operava o sistema Nintendo 8 Bits, ligado numa pequena TV em preto-e-branco, nos arcades eram placas do então poderoso, quase divino Neo Geo, e outras placas (e jogos) fenomenais da Sega, Capcom etc.

Eu e meus amigos nos digladiávamos para conseguir dinheiro para jogar algumas fichas. Era algo religioso: Não podíamos passar um dia sem “pranchar” ou “apertar uma ficha” – as gírias locais para jogar uma partidinha. O ritmo era de franca fraternidade: aquele que possuía grana no dia pagava para os outros. Com pena, mas pagava... Por vezes, catávamos ferro-velho (reciclagem) para conseguir algum money. Certa vez, desconhecedores das leis ambientais, fomos para a mata cortar lenha para vender a uma padaria que mantinha um forno à lenha (graças a Deus hoje os fornos são elétricos ou a gás!).

Quantas aventuras e andanças, em nossas velhas bicicletas ou no poder das finas canelas, em busca de novos fliperamas que abriam aqui e ali, e novos jogos que de quando em quando chegavam! Amigos, naquele tempo o momento máximo da experiência com arcades era jogar numa cabine para quatro jogadores. Isso mesmo: elas eram raras e enormes, pois apenas alguns jogos (geralmente de beat ‘em up) permitiam tal “luxo”. Como era maravilhoso chegar no maior fliperama das redondezas, ou ir até o shopping no centro da cidade de Niterói (RJ), em conjunto com meus três amigos, e poder jogar Tartarugas Ninja 2, Captain Commando, X-Men ou mesmo Cadillacs and Dinosaurs. Era um pandemônio, um arranca-rabo, um salseiro danado!!!

Cada um tinha seus personagens certos para jogar. E a jogatina tinha lá sua estratégia: eu era quase sempre o melhor jogador; assim, eu e mais um cuidávamos dos chefões, enquanto os outros cuidavam da arraia miúda, os retardatários que enchiam a tela na parte dos chefões. Por ser o melhor jogador, às vezes eu jogava com o pior personagem, para equilibrar a aventura (no Captain Commando, era o Baby; no Cadillacs, era a mulher ou o Jack). Eram exercícios de estratégia em conjunto, fraternidade e empatia. A regra geral era não deixar o companheiro ser moído na pancada!

Pois hoje há quem diga (e acredite: naquela época também!) que os games são instrumentos de solidão, que encerram jovens em seus quartos e corações. Não creio nisso.

Fiz dezenas de amigos de perto e longe em minha juventude, apenas frequentando fliperamas ou trocando (por empréstimos) fitas de videogame nintendinho, depois CDs de Playstation 1 ou mesmo Dream Cast.

A amizade com meus amigos fortaleceu-se em muito devido a essa convivência gamemaníaca. O tempo gasto com jogos era tempo em que permanecíamos juntos, estreitando nossos laços, nos conhecendo melhor, rindo, discutindo, sendo mais humanos.

A Bíblia diz que há amigo mais chegado que irmão. Esses meus amigos, os Três Mosqueteiros do Jardim Nazareth (eu era o Dartagnan) foram e de certa maneira são os irmãos que não tive, e devo isso em parte aos games. Nossa relação se tornou mesmo familiar, e minha casa era cidade aberta onde eles vinham praticamente todos os dias: dois deles, irmãos, perderam a mãe na infância e o pai, desequilibrado, os renegou; outro perdeu o pai igualmente ainda na infância. Hoje os três, mesmo absorvidos pelas responsabilidades da vida adulta e morando um pouco distantes uns dos outros, não deixaram de jogar seus consoles, e todos iniciaram seus filhos no mundo dos games, e jogam com eles, mantendo a corrente, construindo estratégias em conjunto, se divertindo, dando do que da vida não receberam e sendo o que pais e filhos devem ser: amigos.
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SAMMIS REACHERS é o pseudônimo literário de Sammis Reachers Cristence Silva, uma expressiva voz da literatura independente fluminense. Notabilizou-se no cenário nacional não apenas como um prolífico poeta e ficcionista, mas principalmente por sua intensa atuação como editor e um dos maiores organizadores de antologias literárias do país no século XXI.
Nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1978. Apesar do nascimento em Niterói, cresceu, vive e reside desde sempre no município de São Gonçalo/RJ. O cotidiano, a periferia e a identidade gonçalense são as principais raízes geográficas de sua escrita. Além da forte vocação para as letras, ele atua profissionalmente como professor de Geografia na rede de ensino. Ele costuma brincar dizendo que escreve "no tempo que lhe resta – ou vice-versa". Atua fortemente no universo editorial independente por meio de plataformas de auto-publicação (como a UICLAP) e selos alternativos, ajudando a viabilizar fisicamente e digitalmente obras de novos autores. 
Sammis iniciou sua trajetória literária no final da década de 1990, estreando com versos fortemente vinculados à sua vivência regional. No decorrer de mais de duas décadas de produção ininterrupta, ele construiu um vasto catálogo de títulos individuais. Paralelamente, o autor se consolidou no cenário nacional por uma impressionante atuação como antologista. Ele já idealizou e organizou mais de 50 antologias e coletâneas literárias temáticas (muitas de distribuição gratuita em formato digital), reunindo milhares de poemas e contos de centenas de autores marginais, cristãos e independentes de todas as regiões do Brasil. Focado no mercado literário periférico, alternativo e na internet, Sammis Reachers não integra o quadro de membros efetivos das Academias de Letras tradicionais de grande porte (como a ABL), mas se destaca ocupando uma cadeira na Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Sua atuação se dá de maneira descentralizada, dialogando diretamente com coletivos de escritores, jornais culturais locais (como o Jornal Daki e Editora Apologia Brasil) e plataformas de escrita. No Concurso Nacional de Divinópolis (2023) teve sua excelência literária reconhecida nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Concurso Nacional de Literatura, promovido pela Câmara de Vereadores de Divinópolis, em Minas Gerais.
Seu catálogo expandiu-se e conta com mais de doze livros de poesia, cinco volumes de contos/crônicas e incursões pelo romance histórico/ficcional.
Poesia: São Gonçalo de Todos os Santos (1999); Uma Abertura na Noite (2006); A Blindagem Azul (2007); Poemas da Guerra de Inverno (2012); Deus Amanhecer (2013); Pulsátil – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014); Grãnadas (2015); Cartas e retornos (2021).
Prosa: A Ordem Luterana da Cruz Combatente (Romance); 2000 Citações Missionárias (Pesquisa e Compilação); Poesia em 1000 Citações (Compilação Reflexiva); Renato Cascão e Sammy Maluco - uma dupla do balacobaco (histórias sobre a infância dele); Rodorisos (histórias hilárias sobre os motoristas rodoviários da época que ele era motorista). 
Organizou as antologias poéticas: Segunda Guerra Mundial - Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã, Poemas sobre Sua Majestade, o livro, etc.
A grande relevância de Sammis Reachers para a literatura brasileira contemporânea reside no seu papel de democratizador do fazer literário e articulador de pontes culturais. Em um país onde o mercado editorial tradicional é altamente centralizado e restrito a poucos nomes, ele utiliza a internet e as antologias cooperativas para retirar do anonimato centenas de novos talentos que não teriam recursos para publicar sozinhos.
Como escritor, sua obra poética transita com competência entre o lirismo cotidiano, a temática histórico-militar e a literatura de inspiração cristã-protestante, descentralizando a narrativa dos grandes eixos urbanos e provando que a periferia do estado do Rio de Janeiro abriga uma produção estética erudita, consciente e de alto impacto social.

Fontes:
Sammis Reachers. Fliperamigos: resenhas e crônicas retrogamers. São Gonçalo/RJ: Ed. do Autor, 2025, (ebook). Publicado originalmente no livro Muito Além dos Videogames: Crônicas dos Meus Amigos  em 13/07/2019
Biografia = Sites consultados: Amazon, Recanto das Letras, UICLAP, Apologia Brasil, Jornal Daki.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 1 – Conceito de Cidadania

Nota do blog:
Recebi do trovador potiguar Gonzaga da Silva o livro Trova e Cidadania, onde ele organiza uma compilação de trovas de trovadores de diversas regiões referentes a tópicos que envolvem a Cidadania. A partir de hoje coloco no blog, periodicamente alguns tópicos em trovas do excelente livro deste trovador. 
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CONCEITO DE CIDADANIA

O termo cidadania deriva do latim civitas, cidade. O conceito tem origem na Grécia antiga e designava o exercício dos direitos e deveres de cidadão, ou seja, do sujeito que vivia na cidade e que participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Entretanto, mesmo na Grécia, nem todos eram considerados cidadãos, ficando excluídos desta categoria os escravos, as mulheres, as crianças e os estrangeiros.

Atualmente, o termo cidadania está mais relacionado ao exercício dos chamados direitos fundamentais ou direitos humanos, previstos nos Tratados internacionais e nas Constituições dos estados. Mas esta previsão não assegura, por si só, o direito de cidadania.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?
Amália Max - PR

É necessário um esforço contínuo dos cidadãos para que os seus direitos sejam efetivados e respeitados. Nossos trovadores dizem o que é cidadania e como ela pode ser exercida.

Cidadania é civismo;
sobretudo é comunhão:
é ajuda mútua, é altruísmo,
partilha Justa do pão!
A. A. de Assis - PR

Exerce a cidadania
quem faz valer seu direito
e luta, no dia a dia,
por um mundo mais perfeito!
Renata Paccola - SP

Exercer cidadania,
em meio à desigualdade,
é conquistar, dia a dia,
um quinhão de liberdade!
Marisa Vieira Olivaes - RS

Exercer cidadania
é postar-se vigilante,
e com serena ousadia
lutar pelo semelhante.
Gonzaga da Silva - RN

Cidadania é o dever
do ser humano exemplar
gritar, com o seu poder,
por quem não pode gritar!
José Valdez de Castro Moura - SP

Com sentimento profundo
de pura cidadania
é que um povo afirma ao mundo
a sua soberania.
Sandro Pereira Rebel - RJ

Cidadania, em seus pleitos,
toda a grandeza contém
no conjunto dos direitos,
mas de deveres também.
Alonso Rocha - PA

Cidadania se exerce
com consciência e respeito,
pois se assenta no alicerce
do dever e do direito...
Élbea Priscila Souza e Silva - SP
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.

Sílvio Romero (A mãe falsa ao filho)

(Folclore do Rio de Janeiro)

HAVIA UM HOMEM DE FORÇA e de coragem, de nome Pedro, que retirou-se para a roça com sua mulher chamada Maria. Foram viver nos ermos, sustentando-se com caças do mato.  

Lá nos ermos nasceu-lhes um filho que se chamou João. Quando o menino tinha sete anos de idade morreu seu pai. Vendo o rapazinho que a vida dos ermos era rústica, pediu à sua mãe para se retirarem para a cidade, com o que concordou a mãe. 

Juntaram os seus bens, que consistiam num cavalo, uma espingarda e um facão, e entraram na cidade já pela noitinha. Correu o João toda a cidade e não encontrou ninguém; bateu em todas as portas e ninguém lhe respondeu. Foi ter a um sobrado, que foi o único que achou aberto, entrou, falou e ninguém lhe respondeu. Subiu a escada, correu toda a casa e não viu viva alma. Havia um único quarto que estava fechado, estando todos os mais abertos. Então aí se arranchou com sua mãe e passaram a noite. 

No dia seguinte não viu ninguém na cidade, nem sentiu movimento algum e, não tendo o que comer, foi para o mato caçar, conforme usava o seu pai. Quando ele estava no mato, apresentou-se à sua mãe no sobrado um gigante, dizendo-lhe que a havia de matar por ter ela se apoderado daquela casa sem a sua licença; mas que, por ser ela mulher, não a mataria com a condição de viverem juntos. 

A mulher lhe respondeu que tinha um filho na sua companhia. 

O gigante lhe disse: “O teu filho eu o como.” 

— “O senhor não pode com meu filho.” 

— “Então não é ele um homem?” 

— “Sim, é um homem.” 

— “Como não poderei eu com ele, se pude com todo o povo desta cidade, e acabei com todo ele?” 

— “O senhor não pode com meu filho, que tem muita força.” 

— “Pois se não posso com ele, aqui tens uma boa forma de lhe dar fim: quando ele chegar, tu deves te fingir de doente, gritando com uma dor nos olhos, e que tu sabes que o único remédio que existe para este mal é a banha de uma serpente que há no mato; ora, não podendo ele com a serpente, ela lhe dará cabo da pele.” 

Chegando o filho da caçada; assim fez a mulher, como lhe ensinou o gigante. O moço então voltou para as matas. No caminho encontrou um velho que lhe perguntou aonde ia. Respondeu que matar a serpente para tirar a banha para deitar nos olhos de sua mãe que estava doente. 

O velho lhe disse: “Não vás lá, que não podes com a serpente.” 

— “Como é para minha mãe, hei de ir, aconteça o que acontecer”, respondeu o mocinho. 

O velho lhe disse: “Pois vai, que serás feliz.” 

Foi ele e matou a serpente e tirou a banha. Na volta passou por casa do mesmo velho, que o reteve para jantar. Quando estava o mocinho jantando o velho mandou matar uma galinha e tirar a banha e trocar pela banha da serpente. Assim fez a moça que o velho criava em casa. 

João seguiu, e deitou o remédio nos olhos de sua mãe, que não tendo nada, nada sofreu. 

O gigante, no dia seguinte, ficou admirado, e, estando o João na caça, disse à mulher: 

– “É verdade; esse teu filho é homem. Amanhã, quando ele vier, faze o mesmo, e dize-lhe que nestas matas há um porco-espinho, cuja banha é o remédio que te pode servir; ele, que não pode com o porco-espinho, morrerá, e ficaremos livres dele.” 

Tudo fingiu a mulher, e o filho lá voltou para as matas a matar o porco espinho. Tornou a passar por casa do velho, que lhe fez outra recomendação, a que ele resistiu. 

“Vai, disse o velho, e serás feliz.” 

Foi e matou o porco-espinho. Tornou a passar por casa do velho que o reteve para jantar. Mandou matar outra galinha e trocou a banha do porco-espinho pela banha da galinha. João seguiu para a cidade e botou a banha nos olhos de sua mãe, que nada tinha. 

No dia seguinte, indo ele para a caça, apareceu o gigante e ficou ainda mais admirado da valentia do rapaz, e disse à Maria: 

– “Agora tu pegas estas cordas, e dize-lhe que ele não é capaz de as arrebentar.” 

Assim fez a mulher. Chegando o filho, ela lhe disse: “Tu és um homem, que nem mesmo teu pai fazia o que tu fazes; mas tu não és capaz de quebrar estas cordas em te enleando com elas.” 

João aceitou a proposta; a mãe o enleou, e ele forcejou e quebrou as cordas. 

A mãe lhe disse: “És homem como trinta!” 

João seguiu para a caça no dia seguinte. Veio o gigante, e, sabendo do acontecido, ficou ainda mais pasmado. 

“Amanhã, disse o gigante, dize-lhe que ele não é capaz de quebrar estas correntes.” 

Assim fez Maria, quando seu filho veio. 

“Isto não, minha mãe, correntes não posso quebrar.” 

— “Tu podes, meu filho, experimenta.” 

— “Vosmecê quer, vamos ver.” 

A mulher enrolou o filho com as correntes; ele forcejou e não as pôde quebrar. Aí apareceu o gigante armado de um facão e se arrojou ao menino para o matar. 

“Pode matar, disse João, só quero que me cumpra três pedidos que lhe quero fazer.” 

— “Cumprirei vinte, quanto mais três.” 

Os pedidos de João eram: não quero que faça uso dos objetos que meu pai deixou, nem do cavalo, nem da espingarda, nem do facão; quando me matar não me estrague o corpo e parta-me em cinco partes; bote-me dentro de dois jacás no cavalo com a espingarda e o facão.

Assim cumpriu o gigante. O cavalo seguiu desordenadamente e foi ter à casa do velho. Chegou a moça na janela e, conhecendo que era o cavalo de João, chamou o velho. Este chegou e disse: “Minha filha, o que ali vês é João que vem morto dentro dos jacás; traz-me para aqui o cavalo, que quero dar vida ao nosso João.” 

O velho pediu a banha de serpente, e juntou os diferentes pedaços do corpo de João, que logo sarou. 

– “Não sentes coisa alguma, nem te falta nada?”, perguntou o velho. 

Respondeu João: “Falta-me a vista.” 

O velho pediu a banha do porco-espinho, e untou com ela os olhos do rapaz, que logo recobrou a vista. 

– “Pega nas tuas armas, disse então o velho, e vai à casa de tua mãe e faz o mesmo ou pior.”  

João partiu; lá chegando encontrou a mãe dormindo com o gigante; pôs o seu facão nos peitos do monstro e o matou. A mãe se lhe atirou aos pés, pedindo que a não matasse; e ele a fez levantar-se dizendo-lhe que a não ofendia, por ser sua mãe. Voltou à casa do velho, contou-lhe o que tinha feito, salvando sua mãe.

O velho louvou a sua ação, e disse que era o seu anjo da guarda que o tinha vindo defender. Desapareceu, subindo para o céu, e João se casou com a moça que ele tinha criado.
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SÍLVIO ROMERO (nome literário de Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero) foi um dos maiores intelectuais, críticos literários, ensaístas e historiadores do Brasil no século XIX e início do século XX. Homem de personalidade combativa e polêmica, ele revolucionou a forma de se pensar a identidade nacional, sendo o pioneiro na historiografia literária científica no país e um dos maiores defensores do folclore e da cultura popular como bases da nossa literatura. Nasceu na Vila de Lagarto (atual município de Lagarto), Sergipe, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (então capital federal), em 1914, aos 62 anos. Passou a infância e as primeiras letras no Sergipe. Mudou-se para Recife/PE para realizar seus estudos preparatórios e superiores na Faculdade de Direito. Fixou residência definitiva a partir de 1880, no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira profissional, literária e política até o fim da vida. Foi professor de Filosofia no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cargo que conquistou por meio de um célebre e disputado concurso público em 1881. Posteriormente, lecionou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Atuou como advogado e foi promotor público na província de Minas Gerais (em Estrela do Sul) e em sua terra natal. Com a Proclamação da República, ingressou na vida política ativa. Foi eleito Deputado Federal por Sergipe em duas legislaturas (1891–1893 e 1900–1902), participando ativamente dos debates jurídicos e culturais da nova República.
Iniciou sua vida literária ainda estudante em Recife, colaborando com jornais acadêmicos. Ele fez parte da chamada Escola de Recife, um movimento intelectual liderado por Tobias Barreto que introduziu o positivismo, o evolucionismo e o criticismo filosófico alemão no Brasil. Romero abandonou cedo a poesia para se dedicar à crítica literária e ao ensaio sociocultural. Ele utilizava as teorias científicas de sua época (como o determinismo de Taine e o evolucionismo de Spencer) para analisar a produção literária brasileira sob uma ótica sociológica. Ficou conhecido por suas polêmicas ferozes com outros intelectuais da época, como Machado de Assis e José Veríssimo. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Participou ativamente das reuniões de fundação em 1897 ao lado de Machado de Assis, embora mantivesse uma postura crítica em relação ao formalismo excessivo da instituição.  Foi membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando o espaço para suas pesquisas historiográficas e geográficas. Na virada do século XIX para o século XX, não existiam prêmios literários institucionais de grande porte no Brasil (como o Prêmio Jabuti ou o Prêmio Camões, criados décadas mais tarde). O reconhecimento de Sílvio Romero deu-se por meio do enorme prestígio acadêmico, aclamação pública de seus pares e pela rápida consagração de suas obras como manuais de estudo obrigatórios nas faculdades do país.
Sua produção foi vasta e abrangeu a poesia, a crítica, a história e o folclore:
Historiografia e Crítica Literária: História da Literatura Brasileira (1888) — Sua obra-prima absoluta e divisora de águas; Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897); Evolução da Literatura Brasileira (1905).
Estudos de Folclore e Cultura Popular: Cantos Populares do Brasil (1883 e 1885)
Poesia (Fase Inicial): Cantos do Fim do Século (1878).
A importância de Sílvio Romero é monumental porque ele foi o fundador da crítica literária moderna e da historiografia científica no Brasil. Antes dele, a história da nossa literatura era vista de forma amadora ou meramente biográfica. Romero foi o primeiro a estruturar uma análise que conectava a produção artística à formação social, étnica e psicológica do povo brasileiro. Ele teve a sensibilidade genial de perceber que a verdadeira literatura brasileira não nascia da cópia dos modelos europeus, mas sim da mestiçagem cultural. Ao recolher, catalogar e publicar os cantos, contos e mitos do interior do país, ele salvou o folclore nacional do esquecimento e provou que as manifestações populares eram a base autêntica da nossa identidade. Sua obra abriu caminhos diretos para o Modernismo de 1922 e para os estudos sociológicos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Ebiografia, Wikipedia, Ricardo Velez, Cia. das Letras, Academia Brasileira das Letras, Infopedia, Revista da USP, Amazon, etc.