Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

José Feldman (Saudade)

Foto por José Feldman

Olivaldo Júnior (Trovas para 30 de janeiro: Dia da Saudade)


Da saudade que me deste,
fiz meus pontos cardeais,
mas do Leste fiz Nordeste
e do Norte um Sul a mais...

Meu retrato da saudade
tem seu rosto em luz banhado
me falando sem vaidade
que inda sou seu bem-amado.

- A saudade até parece
um canteiro triste, torto,
cujas flores viram prece
por um jardineiro morto...

Ao matar tanta saudade,
não fui preso, nem a júri,
esperando que a verdade
da distância inda me cure...

A saudade que me impõe
faz de mim um resistente:
um chorão que sobrepõe
os chorinhos ao presente.

Fonte: O Autor

Olivaldo Júnior (Cartinha ligeira endereçada à Saudade)



Querida Saudade

            Sei que anda sem tempo para este poeta, este ser que lhe escreve meio às pressas, na hora do almoço, entre uma e outra garfada de arroz com feijão, marmita preparada pela mãe, que tanto amo, tanto a marmita quanto a mãe, é claro! Mas, se tiver um tempinho para mim, por favor, me deixe cumprimentá-la em seu dia. Sim, hoje é o Dia da Saudade! Sabia disso, menina? Inventaram um dia para você, só para lembrar que você existe e faz parte da vida.

            Já me nomearam de poeta do adeus há um tempo. Não acho que o seja, mas nomenclaturas e alcunhas são algo que não se escolhe. Assim, ao lado de Vinicius, de Cecília, de Bandeira, de Drummond, de Quintana e de tantos poetas cânones da Poesia dita Brasileira, saúdo você, Saudade, com as letras que aprendi na Escola! Saudade da primeira professora, Dona Zizinha, com quem a aprendi a ler e a escrever. Nem mesmo eu sabia que era poeta.

            Poeta, aliás, de forma geral, Saudade amiga, é amigo de você, que tanto ajuda a gente a ter assunto, afinal, como dizia Cecília, a Meireles, ”De que são feitos os dias? / - De pequenos desejos / vagarosas saudades, / silenciosas lembranças.”. Ê, Cecília, sempre certeira! É isso mesmo. Nossos dias são feitos de reminiscências, retalhos de vida que alinhavamos um no outro, para, ao fim da existência, na “noite da vida”, termos “coberta”.

            Sinto, amiga Saudade, muita saudade do que não fui, não consegui ser. E, além disso, da minha avó materna, dos meus avôs, da minha infância, quando eu não sabia nada de nada, e a vida era um acordar e ir para a escola, voltando para casa recolhendo flores de buganvília, a famosa primavera, só para ofertá-las a minha mãe ao chegar em casa. Saudade... Soluço abafado, lágrima exposta e logo enxuta, mas nunca estanque. Saudade, a grande saudade!

            Meu irmão pequeno, minha vida em cores, meu amigo que não chegou (meu burrinho azul, já que eu sou o menino azul, hehe), noites em que vi uma estrela cadente descendo à Terra, saudade, oh, Saudade, dos sonhos mais puros que não deram em nada! Sopro de ausência sobre todo o presente, você, Saudade, soluça comigo quando os olhos marejam e me perco em mim mesmo, no mar absoluto em que navego e, saudoso, transponho o meu mar.

Com saudade,

de algum lugar do passado,

Olivaldo

Fonte: O autor

Lairton Trovão de Andrade (Panaceia de Trovas) 1



A joana do joão-de-barro
sofreu crime passional;
teve um fim muito bizarro,
por causa do pica-pau.

Aquele gato é baiano,
assim nos diz o Lalau;
ouça o miado do bichano:
"Me-au, me-au, me-au, meau!"

Brada o gaúcho pampeiro:
- "Nos pampas, tchê, só tem macho!...
E o que tem Minas, mineiro?"
- "Uai!... tem macho e fêmea, diacho!"

Depois de muito ovo pôr,
a angola* aguça a matraca
e, festejando com suor,
canta: "tô fraca, tô fraca!"  

Diz a crença popular:
Não há coisa que enlouqueça
mais que a boca a relinchar
de uma mula-sem-cabeça!

É, na internet o namoro
paixão que "dá choque"... e muito:
A cada abraço - um suadouro...
e ao beijar - curto-circuito!

Era boa caipirinha
de esquentar qualquer "moringa"**.
- O que de bom é que tinha?
- "Açúcar, limão e pinga".

Foi assim que aconteceu
entre o meu tio e o Mansur:
- Você, meu filho, é ateu?!
- Não, senhor, eu sou Artur!

Há coisa que não te explico
na desditosa paixão:
Com quem me quer, eu não fico,
com quem quero me diz "não".

- Masculino ou feminino?
Perguntou o frei José;
- "Marculino ou Felisbino
não, não! É Zé que o pai qué"!

Nas matas de Pirapora,
já reinou o curupira;
o curupira é o caipora
do rude interior caipira.

Nos horários de verão,
os galos em trapalhada,
sem saber que horas são,
cantam sempre em hora errada.

No velório do riquinho,
há, no íntimo, festança:
"Choro sim, por meu padrinho
(mas que venha logo a herança)".

Ninguém é tão educado
como o fino do Joaquim;
nas lojas, mesmo calado,
saúda até manequim.

O plagiário é caricato
que no mundo se repete;
é escritor co'a mão do gato
e pintor que pinta o sete.

O pobre incauto eleitor
ficou feliz na procura;
diz que o voto é do doutor
que lhe deu uma dentadura.

O símio, bem natural,
exclama ao réptil, de pé:
"Oh, que boquinha sensual
tem o amigo jacaré!"

Quanta gente cuja obra
é cheia de desatino!
- Tem no cérebro de sobra,
o que é próprio do intestino.

Quem fala de mim é mico.
Minha vida é transparência.
Nasci pobre, fiquei rico...
- Milagre da "Presidência" ...

Só de ver a sucuri,
adoentou-se a saracura;
com licor de licuri***
nada sara, nada cura.
______________
Notas:
* angola: galinha d' Angola
** moringa: orelha, ouvido (expressão regional)
*** licuri: coquinho

Fonte:
Lairton Trovão de Andrade. Perene alvorecer. 2016.
livro gentilmente enviado pelo autor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Clarice Lispector (Mudança)


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus.

Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de TV, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.

Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.

Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. Jogue fora os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude.

Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Marina Colasanti (No Dorso da Funda Duna)


O sol atravessava lentamente o céu. E abaixo dele, bem abaixo, um emir com sua caravana atravessava o deserto. A claridade era envolvente como um sono. Mas de repente, pelas frestas dos olhos apertados, o emir viu a figura escura de um homem recortar-se no dorso de uma duna. De um homem e de uma cabra. 

Que parasse a caravana, ordenou o emir. Um homem sozinho no deserto é um homem morto.

- Mas não estou sozinho, nobre senhor - respondeu o homem levado à presença do emir.

E este, tendo logo pensado que uma cabra não é companhia suficiente em meio às areias, penitenciou-se no segredo da sua mente. Certamente aquele era um homem santo que vagava em penitência, e tinha a companhia da sua fé.

Assim mesmo, convidou-o a seguir viagem com eles. E, diante da recusa, ordenou que se lhe dessem alguns pães e um odre de água. Em breve, a caravana partia.

O homem apertou as espirais do turbante, puxou uma ponta do pano sobre a boca e, acompanhado pela cabra, recomeçou a andar.

O sol tinha refeito seu percurso muitas vezes e estava do outro lado da terra, quando um tropel de cavaleiros quase pisoteou o homem que dormia com a cabeça encostada na barriga da cabra. O primeiro cavaleiro puxou as rédeas, saltou na areia. O homem acordou num susto. O tropel parou.

- Um homem sozinho entre as dunas é um homem inútil - disse o cavaleiro, que chefiava aqueles piratas do deserto. E o convidou para que se juntasse ao bando. Mas, quando o homem recusou a oferta, acrescentando que certamente era um inútil embora não estivesse sozinho, o chefe dos piratas achou que debochava dele, e mandou que o surrassem. Sem demora e sem ruído, pois cascos não ecoam na areia, o tropel partiu.

Os ferimentos da surra há muito haviam cicatrizado, no dia em que uma caravana de peregrinos passou no seu caminho. E, assim como ele a viu chegar com prazer, também os peregrinos consideraram a presença daquele homem e daquela cabra como um sinal propício, e decidiram acampar ao seu lado no dorso da duna.

Armadas as tendas, acesos os fogos, o chefe da caravana convidou o homem a comer. Os peregrinos sentaram-se ao redor, a comida passou de mão em mão. Só quando ela acabou, o velho perguntou ao homem o que estava fazendo no deserto.E o sol ainda não havia se posto, e a lua ainda não havia surgido, quando o homem começou a contar.

Havia sido um homem próspero de uma próspera cidade, uma cidade que com seus minaretes e muros surgia em meio ao deserto. Marido de uma boa esposa, justo pai dos seus filhos, tinha sempre grãos na despensa, e a figueira junto à porta da sua casa a cada ano dava frutos. Um dia, chamado pelos negócios, havia partido em longa viagem. E, ao regressar, não mais havia encontrado sua cidade. Só depois de muito indagar entendera que o deserto, soprado pelo vento, havia passado por cima dos muros, engolindo os minaretes, as casas e a figueira. Toda a sua vida estava debaixo da areia. Mas onde, na areia? E havia começado a procurar.

- É por isso que até hoje anda no deserto? - perguntou o velho chefe da caravana.

Os dentes do homem brilharam à luz da lua que já se havia levantado.

- Ando porque ainda sou morador da minha cidade - respondeu. Inclinou-se, encostou o ouvido na areia, quedou-se atento por alguns minutos. - Há muito os encontrei - disse, erguendo-se.

Sorriu novamente. No ventre daquela duna, debaixo da caravana acampada, estavam os minaretes, as casas, a figueira. Estavam seus filhos e sua mulher. E ele podia ouvi-los a distância. Através da areia que os separava, podia ouvir os gritos dos pregões, as preces dos muezins, o riso da mulher e das crianças que certamente agora haviam crescido.

- Caminho para isso. Para estar sempre acima deles. Para escutar sua vida. - As dunas - acrescentou - vagueiam pelo deserto. E eu vou, acompanhando a minha.

Pouco faltava para a manhã. Ao alvorecer, os peregrinos partiram. Mas o vento tinha ouvido o relato do homem. E a próxima caravana que por ali passou já não o encontrou. A duna soprada grão a grão havia eriçado sua crista, cobrindo o homem e sua cabra como antes cobrira muros e minaretes. E abrindo caminho para eles, lentamente, até seu ventre.

Fonte:
Marina Colasanti. Um espinho de marfim e outras histórias. 
L&PM Pocket, 1999.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Oceano de Letras (Solidão) n. 4


Fernando Pessoa
Lisboa/Portugal , 1888 – 1935

Vendaval 

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atrai em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles – teu pulso divida
Minh’alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar –
Fosse pr’onde fosse, pra longe da ideia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver –
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais’scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
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Prof. Garcia
Caicó/RN

A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
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Sônia Sobreira
Rio de Janeiro/RJ

A Semente

Não vou plantar semente que me afaste
da luz perene e clara do luar,
nem vou deixar que a mágoa me desgaste,
ou que me faça em pedras tropeçar.

Não vou deixar que a solidão me arraste
nas tramas de uma história secular,
nem que uma dor no coração se engaste
e esta semente venha a germinar.

Eu vou plantar sementes de alegria
flores vermelhas, rimas de poesia
colher nas mãos um sonho que brotou.

Vou ser poeta e em minha estrada infinda,
mostrar que posso ser feliz ainda
e nunca mais serei o que hoje sou!
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Benedito de Góis 
Macaú/RN, 1924 - ????, Duque de Caxias/RJ

Há nos teus olhos ciúmes,
no teu corpo sedução.
No meu peito, uma saudade
nas noites de solidão.
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Mara Melinni Garcia
Caicó/RN

O Tempo Do Amor

Às vezes a resposta que eu preciso
Não vem de uma palavra, em expressão…
Mas do calmo calor do teu sorriso
Que manda embora a dor da solidão.

Se o meu gostar não encontra o jeito certo
Ou se é preciso um jeito de existir,
Que exista um jeito de estar sempre perto
E nesse jeito eu possa te sentir.

Nenhum querer possui uma medida,
Ninguém pode gostar pela metade.
Amar é o que dá vida à própria vida…

Ou ama, ou não se ama… Esta é a verdade.

O tempo não espera na estação
E o preço, embora pague um bom lugar,
Não traz escolha a quem, sem ter razão,
Não segue atrás do trem que viu passar…

As portas do destino guardam planos
Que as chaves certas abrem, logo à frente.
E às vezes, sem ter chave ou sofrer danos,
Há portas que se abrem, simplesmente.

Por isso, a cada sol, nascendo o orvalho,
Se vão, pelas manhãs, em cada flor,
As gotas tristes, no chorar do galho,
deixando suas lágrimas de amor.

A vida é a seiva mais pura do mundo,
é o mel que adoça o sonho de quem clama…
E o tempo, embora dure um só segundo,
se faz tempo bastante a quem se ama.

Eis sim, uma viagem passageira…
Que cumpre as curvas todas de uma estrada.
E um dia, já na curva derradeira,
Se não faltou amor… Não faltou nada!
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Charles Baudelaire
Paris/França, 1821 - 1867
Quem não sabe povoar sua solidão, 
também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão.
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J.G. de Araújo Jorge
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

A Pior Solidão 

Pior do que a solidão pura e simples,
a solidão dos ascetas
ou dos insanos

(a mansa solidão, torre de êxtase e prece
ou a áspera solidão que aterra e que apavora),

é esta povoada pelo fantasma de um amor
que havemos de carregar pelos anos afora…
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Ademar Macedo 
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

A mais triste solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração…
Olhar…e não ver ninguém!
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Cecília Meireles
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)
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Roberto Pinheiro Acruche
São Francisco de Itabapoana/RJ

Quando à noite, a solidão
e a saudade trazem dor,
vou dizendo ao coração:
- é o preço por tanto amor.
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Angela Togeiro
Belo Horizonte/MG

Solidão

Pela janela espio
O vazio do escuro da solidão da noite sem luas
Minha companhia.
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Ana Michel 
Cachoeirinha/RS

Solidão faz apertado
o coração sofredor,
que desperta, inebriado,
ao toque de um novo amor.
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Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG , 1902 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

Deus É Triste

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.
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Octavio Paz
Cidade do México/México, 1914 - 1998
A solidão é o fundo último da condição humana. 
O homem é o único ser que se sente só e que procura um outro.
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Maria Madalena Ferreira 
Magé/RJ

Embora o dia me açoite
com seus barulhos brutais,
lá no silêncio da noite…
a solidão bate mais!
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Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 – 1946, Rio de Janeiro/RJ

Ontem Ao Luar

Ontem ao luar 
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste
O que era a dor de uma paixão
Nada respondi, calmo assim fiquei
Mas fitando o azul 
Do azul do céu a lua azul
Eu te mostrei, mostrando a ti os olhos meus
Correr sem ti uma nívea lágrima e assim te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer de ver a lágrima
Dos olhos a sofrer

A dor da paixão, não tem explicação
Como definir o que só sei sentir
É mister sofrer, para se saber
O que no peito o coração não quer dizer
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta ao luar, do mar a canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
Se tu desejas saber o que é o amor e sentir

O seu calor o amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe o monte a beira mar ao luar
Ouve a onda sobre a areia lacrimar
Ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração
A pena a derramar os prantos seus
Ouve o choro perenal 
A dor silente universal
E a dor maior que é a dor de Deus
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José Feldman
Maringá/PR

Vivo em busca de carinho
em castelos de ilusão.
Tanto tempo estou sozinho...
quem me aquece é a solidão!
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Clarice Lispector
Chechelnyk/Ucrânia, 1920 – 1977, Rio de Janeiro/RJ

Plena De Tudo

Que minha solidão me sirva de companhia
Que eu tenha a coragem de me enfrentar
Que eu saiba ficar com o nada
E mesmo assim me sentir
Como se estivesse plena de tudo.
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Fonte:
Folhetim Literário "Desiderata" - n.5 - janeiro de 2019 - Tema: Solidão

Nilto Maciel (Jingle Bells)



Doca engoliu a cachaça, sem uma careta sequer, repôs o copo sobre o balcão e afastou-se, a cambalear.

– Morre, desgraçado – brincou Hélvio.

Os fregueses riram e se puseram a tagarelar. Aquilo só podia ser doença.

– Doença que nada. Isso é vício mesmo.

– Ou então vontade de morrer.

O bêbado falava só, do lado de fora do boteco.

– Quantas ele tomou?

Enquanto trocava o disco da vitrola, Hélvio prognosticou:

– Se durar mais um mês, dura muito.

E pôs-se a falar de sua experiência como dono de bar. Conhecia o grau do vício de cada cachaceiro. Sabia quanto podiam durar.

– Vocês se lembram do Tiquinho?

Na vitrola, Nelson Gonçalves enchia a rua com o nome de Carlos Gardel.

– Pois bem, eu disse que aquele não passava do carnaval. Passou?

O assunto prometia render uns bons minutos. Relembrar os mortos, os antigos frequentadores do bar, os maiores consumidores de cachaça do bairro, era outra das especialidades de Hélvio.

– Essa turma pensa que cachaça é água.

Entretidos, ninguém se lembrava mais de Doca, que já ia longe, aos trambecões. Feiúra ambulante. Trapos, só trapos. Piolhento, sujo, banguela.

Relembrado numa pausa da fala de Hélvio, falaram de suas rugas precoces, de sua família, de seu passado.

Na outra esquina, tropicou e caiu. Tentou levantar-se, pôs-se de quatro, tombou para um lado, virou-se e ficou a olhar para cima. Bolinhas e fiapos brancos corriam pelo azul do céu.

Um cachorro passou desconfiado a pouca distância, enorme no seu meio metro.

– Olha onde ele foi cair, pessoal!

Hélvio só se moveu para ir virar o disco. Os fregueses, porém, correram até a porta.

Doca fechou os olhos, resmungou, remexeu-se. Não dava para se levantar. O jeito era dormir. Não deu nem pra cochilar – abriu os olhos e só viu pernas, muito longas; depois braços, pendurados, feito cachos de banana; e queixos, buracos de venta, muitos olhos.

– Morre, filho de uma égua.

– Aguenta, filho da mãe.

Tentaram erguê-lo pelos sovacos. Puseram-no sentado. E depois de pé.

– Vai embora.

Cambaleou, rodopiou como um pião, equilibrou-se na parede, sorriu, agradeceu. E seguiu, tropegamente.

Os bons amigos riam, olhos dançarinos grudados no balé do bêbado.

– Agora ele vai.

E voltaram ao bar, a convite de Nelson: Faça como eu, acostume-se à derrota...

– Não adianta, amanhã ele volta, enche a cara de novo – concluiu Hélvio.

Mais longe do bar, Doca continuava seu caminho, arrastado pelo declive da rua, amparado pela parede das casas.

Nos dias seguintes, Hélvio não deixou de falar de sua experiência como dono de bar, enquanto Nelson Gonçalves enchia a rua com o nome de Carlos Gardel.

Numa noite em que na vitrola só rodava Jingle Bells, anunciaram a nova:

– Eu não disse que Doca não passava do Natal?!

Fonte:
Nilto Maciel. Babel. 
Brasília/DF: Editora Códice, 1997.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Ricardo Miró (Poemas Recolhidos)


AMOR

Uma vaga inquietude; um misterioso
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço.

O sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo.

Uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda ideia,

que turva toda paz e toda alegria;
porém... senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!

A ÚLTIMA GAIVOTA

Como uma franja agitada, rasgada
do manto da tarde, em rápido voo
se esfuma o bando pelo céu
buscando, acaso, uma ribeira desconhecida.

Atrás, muito longe, segue uma gaivota
que com crescente e persistente desejo
vai da solidão rasgando o véu
por alcançar o bando, já remoto.

Da tarde surgiu a casta estrela
e achou sempre voando a esquecida,
da rápida patrulha atrás a hulha.

História de minha vida compreendida,
porque eu sou, qual gaivota aquela,
ave deixada atrás pelo bando!

PÁTRIA
(tradução do espanhol por José Feldman)   

Oh, Pátria tão pequena, estendida sobre um istmo 
onde é mais claro o céu e mais brilhante o sol,
Em mim ressoa toda a tua música, o mesmo 
que o mar na pequena concha do caracol!

Revolvo o olhar e, às vezes, sinto espanto
quando não vejo o caminho que a ti me faz regressar.
Nunca saberia que te quero tanto
se o Fado não mandasse que eu atravessasse o mar.

A Pátria é a lembrança... pedaços da vida
envoltos em farrapos de amor ou de dor;
a folha da palmeira rumorosa, a música sabida,
o horto já sem flores, sem folhas, sem verdor

A Pátria são os velhos atalhos retorcidos
que o pé desde a infância sem trégua recorreu
aonde são as árvores, antigos conhecidos
cujos vestígios nos conversam de um tempo que passou.

Em vez dessas soberbas torres com áurea flecha,
aonde um sol cansado vem desmaiar,
deixa-me o velho tronco, onde escrevi uma data
aonde havia roubado um beijo, aonde aprendi a sonhar.

Oh, minhas vetustas torres, queridas e distantes
eu sinto a nostalgia de vosso repicar!
Eu vira muitas torres, ouvi muitas campainhas,
mas nenhuma imagino. Torres minhas distantes
cantar como vós, cantar e soluçar.

A Pátria é a lembrança... pedaços da vida
envoltos em farrapos de amor ou de dor;
a folha da palmeira rumorosa, a música sabida,
o horto já sem flores, sem folhas, sem verdor.

Oh, Pátria, tão pequena que cabes toda inteira
debaixo da sombra de nosso pavilhão
talvez foste tão pequena para que eu pudesse 
levar-te inteira dentro do coração!

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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