sábado, 17 de outubro de 2026

Hely Marés de Souza (Tertúlia da Saudade)

 

A neve, o frio, a trincheira...
o pracinha suportou.
Pela honra brasileira
ele não se intimidou.

A nossa brava Nação,
em festa de aniversário,
recebe nossa expressão
no seu quinto centenário!

Ao cair lento da tarde...
o sol reflete brilhante
como fogo sem alarde,
e se apaga num instante.

Ao festejar o natal
usemos a tradição:
para as crianças, presentes,
e aos pais, grande emoção!

Ao retornar vitorioso,
bandeira como agasalho,
pracinha chegou ansioso
pra dedicar-se ao trabalho.

Aos amigos trovadores
desejo um Feliz Natal
vinho de vários sabores
num abraço fraternal.

Aquelas nuvens revoltas
sob o imenso firmamento,
parecem ovelhas soltas
voando a favor do vento.

Brasil com quinhentos anos,
merece ser avaliado:
alguns curtem desenganos
e outros... feliz passado!

Bravo amigo e companheiro
caçador de sabiá.
Não precisa usar dinheiro
para aprender a trovar.

Com lua cheia, serena,
perscrutando o firmamento,
aos poucos me integro à cena...
voando em meu pensamento!

De uma pinha escultural
o pinheiro é gerador,
dá pinhão, castanha real...
de inexcedível sabor!

Deus fez o planeta Terra
e, pra companheira sua,
pelo valor que ele encerra,
num sopro... criou a lua!

Da poesia somos fãs,
por destino, combatentes!
A trova cria titãs,
a guerra cria valentes.

Esposa amada e amorosa,
feliz em meio à família,
trouxe ao mundo, esperançosa:
-A Vânia, o Hely e a Brasília...!

Glória ao Brasil, neste evento!
Junto a paz universal!
Saudemos, neste momento
a bandeira nacional.

Glória às forças brasileiras
em festa o povo gritava,
quando derrotou trincheiras
e o algoz que os torturava!

História, trova e civismo
a transbordar neste instante,
com salvas mui respeitosas
ao General Comandante.

Hoje, medalha no peito,
confirma seu destemor,
pracinha foi sem defeito,
à Pátria rendeu amor!

Já pronto pra trabalhar,
não terá dificuldade,
serviço não vai faltar
tamanha é a capacidade!

Mais uma etapa vencida,
cada importante vitória
foi à Pátria oferecida,
pra enriquecer nossa história.

Mascarenhas comandou
sempre a caminho da glória
e Deus o recompensou
com os louros da vitória.

Mascarenhas foi coerente
no comando e na ação,
quando impôs, pujantemente,
ao “tedesco” a rendição.

Mas, o que trouxe a vitória
alguém até já explicou:
-A Itália tem na memória
que a FEB a libertou.

Na guerra, audaz e engenhoso,
negou trégua ao inimigo,
sem se tornar rancoroso,
trouxe a vitória consigo.

Na guerra foi varonil,
na volta, um trabalhador.
O pracinha do Brasil
trouxe a paz e muito amor.

Na Itália o barco aportou,
a bordo um grande salseiro...
O Iwersen se apressou
e desembarcou primeiro!

Na Legião Paranaense,
“Casa do Expedicionário”,
a UBT em muito suspense
faz da Trova um relicário...

Nasci onde o vento bate
e junto a um grande terreiro,
ao lado um pé de erva-mate
e um majestoso pinheiro.

Neste dia tão festivo,
data em que você nasceu,
receba o abraço afetivo
de quem nunca o esqueceu.

No mundo da fantasia
que faz sorrir a criança,
o palhaço, na folia,
é o arauto da esperança!

No seu lar pleno de amor
neste natal reine a paz,
rememorando o esplendor
de dois mil anos atrás.

O Brasil foi ao Timor
salvar aquela nação.
Levou mensagem de amor
e cumpriu sua missão!

O Brasil, país ordeiro,
jamais pensou em maldade.
Foi à guerra o brasileiro
defender a liberdade.

O civismo e a poesia
são elos de ligação
que unem, com maestria,
Trovadores e a Legião!

O homem que foi à guerra,
água fresca em seu cantil,
por certo foi um gigante
na defesa do Brasil.

O pracinha da “Legião”,
sempre bem representada,
abraça o poeta irmão
e augura feliz jornada!

Padre Alberto, capelão
da FEB expedicionário,
na Itália com distinção
lutou como um missionário!

Persistir na caminhada
de trovas sensacionais,
é missão tão delicada
quanto regar os rosais!

Pracinha soldado bamba
em Camaiore atacou
com granadas fez um samba
e o tedesco se entregou.

Quero rever os meus pagos
e ouvir toda a velha história.
Quero sentir os afagos
da minha União da Vitória.

Saúdo o neto engenheiro!
sucesso terá na soma...
Provou ser bom brasileiro
e conquistou o diploma.

Se eu devo até navegar
nas ondas bravas da vida,
preciso com você estar:
Meu amor, minha querida!

Sem demonstrar seu cansaço
e sem pensar no porvir,
no picadeiro, o palhaço
faz a plateia sorrir.

Sob intensa artilharia
conquistou Monte Castello,
onde hasteou com galhardia
o pano verde e amarelo.

Zenóbio grande guerreiro
comandou a Infantaria,
mas não superou Cordeiro...
- Poderosa Artilharia!!!
_________________________________
Hely Marés de Souza (1923 - 2013)
    Hely Marés de Souza, nasceu em 1923, em União da Vitória/PR. Descende de tradicional família espanhola que introduziu o cultivo da erva-mate naquela cidade e construiu o Engenho do Mate no século XIX, localizado em Rondinha, Campo Largo. Formou-se em Direito, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde também cursou até o terceiro ano de Engenharia. Aos 19 anos, foi subitamente convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra Mundial, na Itália, quando o Brasil encontrava-se ameaçado pela tirania nazi-fascista. Participou do 6º Regimento de Infantaria, 2º Grupo de Artilharia, 9º Batalhão de Engenharia, 2º Grupo de Obuses Auto Rebocado e de todas as ações da artilharia brasileira nos combates de Monte Castello, Montese, Camaiore, Belvedere, Abetaia, Monte Della Castellina, Pietra Collina, entre outros. No seu retorno ao Brasil, foi um dos fundadores da Legião Paranaense do Expedicionário, sócio n° 22, entre os 2500 registrados e seu presidente por sete gestões.
    Como expedicionário, Hely fez a diferença. Ao retornar ao Brasil, vivenciou as dificuldades enfrentadas por muitos dos ex-companheiros de caserna, que diante dos horrores da guerra precisavam de apoio psicológico e financeiro. Se as famílias eram ajudadas pelo governo federal até então, o auxílio cessou com o retorno dos soldados. Diante disso, Hely se empenhou na formação e fundação da Casa do Expedicionário de Curitiba, onde atualmente localiza-se o Museu do Expedicionário, no bairro Alto da XV, para dar apoio aos ex-combatentes e suas famílias. Formou-se em Direito pela UFPR e trabalhou no Palácio Iguaçu, onde ocupou o cargo de Procurador do Estado, tornando-se o consultor das questões mais complexas do Direito Público. Durante 30 anos, trabalhou no Palácio Iguaçu, com 16 governadores. Foi, diretor jurídico do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE. 
    Foi condecorado com as medalhas de Campanha e de Guerra, concedidas pelo Ministério da Guerra; de Mérito, pelo Governo do Estado do Paraná; Mascarenhas de Moraes, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil; do Pacificador, conferida pelo Ministério do Exército; de Cavaleiro da Ordem do Mérito, medalha de ouro conferida pelo Governo Polonês, em Londres; de Reconhecimento, pela Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB); da Vitória, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil/RJ, e Max Wolff Filho, outorgada pela Legião Paranaense do Expedicionário. Grande incentivador da cultura e membro de várias entidades culturais: Membro efetivo do Círculo de Estudos Bandeirantes, Centro Cultural Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri, Soberana Ordem do Sapo, Sociedade dos Amigos de Alfredo Andersen, Academia de Cultura de Curitiba, Clube dos Vinte e Um Irmãos Amigos e ANVFEB do Rio de Janeiro. Foi escritor, poeta, pesquisador e trovador . Faleceu em 2013.

Fontes:
Trovas de Vânia França de Souza Ennes e Hely Marés de Souza. 
Coleção Terra e Céu. vol. LXVIII. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2016.

Raul Pompéia (As Canções Sem Metro)

VIBRAÇÕES

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C. BAUDELAIRE

Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas; vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos. Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem à semelhança os ânimos.

A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa à profunda e escura vibração das elegias.

Sonoridade, colorido: eis o sentimento.

Daí o simbolismo popular das cores.

VERDE, ESPERANÇA.

A impetuosa alegria da terra, à passagem de Flora, a primavera verde, compromisso maternal do outono e da opulência.

Náufragos no mar.

Sem pão, sem rumo. Em roda, o gume afiado do horizonte, a reverberação do sol nas águas e o silêncio solene da calmaria. A vela do barco, flácida, pendente — imagem do abatimento. Ligeira viração depois; denso nevoeiro... quatro dias! sudário de brumas que envolve o barco, elimina o céu. Vão acabar assim, amortalhados na bruma. Um ramo, apenas, sobre as águas, um ramo cor da esperança. Salvos! Adivinha-se o continente salvador através da névoa e o panorama verde das florestas.

AMARELO, DESESPERO.

Ouro e sol; ouro, o desespero da cobiça, sol, o desespero da contemplação: a cor dos ideais perdidos.

Sobre o leito, o cheiro mau das chagas era como uma antecipação da morte. Descamava-se a pele em crostas ásperas sobre o grude do pus. Ela morria, alcançada pelo sorteio inexorável da Peste. À porta, o anjo negro da maldição; longe, a espavorida caridade.

Ali, na parede, havia flores adornando um retrato de moço. Simples lembrança da Páscoa, flores da aleluia, colhidas numa escapada de amantes. Amor não faz quaresma... Cobertas de ouro as árvores... Ela também triunfante: ouro sobre o esplendor adorado do sexo... Agora fitava as flores secas. Junto dela, o filho, pequeno animal sem vontade, sem vida, que lhe chegava aos lábios um copo d’água.

Sobrara-lhe um filho nos desperdícios do passado, para vigiar-lhe a agonia. Ninguém mais, ninguém mais, nem Deus com ela: apenas as flores do desespero e aquele copo d’água de vez em quando, que ela sorvia como uma medicina amarga de lágrimas...

AZUL, CIÚME.

Céu e oceano, a soledade sem fim. O ciúme é isolamento, queixa sem ecos do coração solitário.

Ao despertar, estava só na triste câmara. Enferma e abandonada! Calcadas aos pés as juras de ontem, como destroços de um ídolo quebrado. Fronteira ao leito, a janela parecia alargar-se mais e mais para mostrar o firmamento. Sob o reflexo azul sonhara Rosita o abandono, eles felizes numa concha de safira, levados à flor do grande lago, docemente, cantando, docemente, se a barcarola os levasse. Morreu, fechando na pálpebra a estampa diurna daquele azul fundo, deserto.

ROXO, TRISTEZA.

Tinta tomada à palheta do ocaso e às flores da morte.

Alegre, ela. Muita luz no espaço; bailava no ar o cântico sereno da manhã; na relva os arbustos orvalhados tinham um pequenino sol em cada folha. Somente as violetas sofriam, pungidas pelo dia.

Outra manhã, tudo mudado. Na atmosfera, um torpor gélido e sombrio. Os extremos da paisagem gastam-se na cerração como as orlas de uma pintura velha: nem sol nem pássaros na relva.

Agora, órfã.

As violetas revivem, as melancólicas, desabrochando em suspiros, sob as lágrimas da chuva.

VERMELHO, GUERRA.

Sangue, cólera, vingança, os hinos marciais, golpes, o incêndio, vermelho o manto dos tiranos e Marte, o astro dos combates.

Da casinha à beira-mar, olhos em febre, a velha mãe arguía a distância. Lá, mergulhara o vapor que lhe roubava o filho para a guerra. A tarde passa e a noite; a velha, imóvel, marmorizada na dor, como uma escultura do Stabat Mater. E vem a aurora, uma aurora brutal de chama e sangue. A mãe do soldado caiu como morta.

Ouvira, das bandas da aurora, um grito de morte e a voz perdida do agonizante era a voz do filho.

BRANCO, PAZ.

Arminho imaculado e virginais capelas, o sagrado leito das mães, o rosto calmo dos mortos, os tranquilos fantasmas.

"Terminada a luta, minha boa Irene. Torno a ver-te enfim e aos queridinhos. Ver-me-ás também. Como se fica velho neste ambiente de pólvora queimada!"

Dizia assim a carta, datada do acampamento. Irene ergueu os olhos para a tarde, os olhos rasos de pranto. Expirava o crepúsculo na ditosa agonia dos patriarcas, lenta e mansa; errava no ocidente a neblina lúcida da última hora, saudade apenas no dia extinto. A estrela plácida das tardes parecia olhar a terra; em frente alava-se a lua e o luar noctâmbulo ia, pelos caminhos, semeando a difusão suavíssima da paz.

Irene abandonou-se ao êxtase contemplativo, gozando o crepúsculo, como se lhe invadisse o sentimento a letargia edênica do anoitecer.

NEGRO, MORTE.

O contraste da luz é a noite negra.

Sente-se na epiderme a carícia do calafrio; envolve-nos um clima glacial; estranha brisa penetra-nos, feita de agulhas de gelo. Em vão flameja o sol a pino. Sente-se dentro na altura a noite negra, invernosa, polar; sofre-se o contato da Sombra. Tudo trevas, sinistramente trevas. O dia, resplandecente na alvura dos edifícios, produz o efeito da prata nos catafalcos. Vemos as flores, o prado. Monstros! Reclamam a carne do pé que os pisa; o verme sôfrego espreita-nos através da terra... Rir?! Mas o riso tem a cruel vantagem de acentuar, sob a pele, a caveira...

Há destas escuras noites no espírito.

ROSA, AMOR.

O sorrir das virgens, e o adorável pudor, e a primeira luz da manhã.

Esta criança pensativa. Acompanha com a vista o revoar dos pombos; escuta o misterioso segredo dos casais pousados. Vive-lhe ainda no semblante a candura da infância e nos formosos cabelos o cálido aroma do berço. Súbito, duas pombas partem. Vão. Longe, são como pontos brancos no azul; o bater das asas imita cintilações: vão, espaço a fora, estrelas enamoradas.

A cismadora criança experimenta a vertigem do azul e a alma escapa, sedenta de amplidão, e voa ao encalço das estrelas.

Há noites de pavor nas almas, há belos dias igualmente e gratas expansões matinais, auroras de rosa como em Homero.

Há também nas almas o incolor diáfano do vidro.

Dinheiro, amor, honraria, sucesso, nada me falta. O programa das ambições tracei, realizei. Tive a meu serviço a inteligência estudiosa do Ocidente e a sensualidade amestrada do Levante. Tive por mim as mulheres como deusas e os homens como cães. Nada me falta e disto padeço. Todos dizem: aspiração! e eu não aspiro. Todos sentem a música do universo e a harmonia colorida dos aspectos. Para mim só, vítima da saciedade! tudo é vazio, escancarado, nulo como um bocejo.

E os dias passam, que vou contando lento, lento torturado pela implacável cor de vidro que me persegue.

Há, enfim, a coloração indistinta dos sentimentos, nas almas deformadas.

Veio de longe, muito longe, mísero! Teve outrora um céu, uma pátria, muitas afeições, a cabana da aldeia. Agora só tem o ódio. O ódio mora-lhe no peito, como um tigre na furna. Tiraram-lhe a pátria, a companheira, votaram-lhe à morte os filhos, as filhas à torpeza; deram-lhe em compensação... Mostrava a face preta, o sangue a correr. Quem são os teus algozes?

— Os homens brancos.

Ela odeia os homens brancos; odeia a torre aguda, ao longe, como um punhal voltado contra os céus: odeia o trem medonho de fogo e ferro, que muge e passa, troando, escândalo do ermo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Raul Pompéia (1863 – 1895)
RAUL D'ÁVILA POMPÉIA foi um dos escritores mais marcantes da literatura brasileira do século XIX, consagrado como o autor de O Ateneu, obra-prima que transita de forma única entre o Realismo, o Naturalismo e o Impressionismo. Nasceu em 1863, em Angra dos Reis/RJ, e faleceu em 1895, na cidade do Rio de Janeiro, aos 32 anos. Cometeu suicídio no dia de Natal, após uma série de polêmicas públicas e fortes crises depressivas. Passou a infância em Angra dos Reis. Na juventude, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Colégio Abílio e no Colégio Pedro II. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (Largo de São Francisco) em 1885, após ter iniciado os estudos em Recife, retornando depois à capital fluminense, onde residiu até o fim da vida. Atuou intensamente como jornalista de combate, cronista e caricaturista em diversos jornais da época (como Gazeta de Notícias e O Paiz). Foi um defensor ferrenho das causas abolicionista e republicana. Após a Proclamação da República, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional pelo presidente Floriano Peixoto, de quem era aliado fiel. Também lecionou Mitologia na Escola Nacional de Belas Artes.
Começou a escrever muito jovem. Sua escrita é caracterizada por uma prosa expressionista, densa, com rigor estético e profunda análise psicológica. Livros publicados em vida: Uma Estampa (1880) – Seu livro de estreia, uma novela; Canções sem Metro (1881) – Coletânea de poemas em prosa; O Ateneu (1888) – Sua obra-prima e único romance, publicado inicialmente em folhetins na Gazeta de Notícias. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) em vida, pois a instituição foi fundada em 1897, dois anos após a sua morte. No entanto, ele é o Patrono da Cadeira nº 33 da ABL. Seu grande reconhecimento veio dos elogios da crítica contemporânea (como Machado de Assis) e do sucesso de público de O Ateneu.
Raul Pompéia é crucial para a história literária brasileira porque rompeu os limites dos estilos de sua época: Embora seja classificado no Realismo/Naturalismo, O Ateneu antecipa características do Impressionismo e do Expressionismo, focando na deformação da realidade através das memórias e das emoções do narrador. Introduziu na nossa literatura o conceito de "romance de formação" (Bildungsroman) pelo viés crítico, mostrando a perda da inocência e a corrupção moral de um jovem dentro de um internato. Usou a ficção como uma alegoria cruel da própria sociedade brasileira do final do Império, marcada pelo autoritarismo e pelas aparências.

Fontes:
Academia Brasileira de Letras. http://www.academia.org.br/. 
Canções sem Metro, publicado originalmente em 1881. Disponível em Domínio Público.  

Estante de Livros (“Rosshalde”, de Hermann Hesse)

 Rosshalde é o quarto romance de Hermann Hesse, publicado em 1914 . É frequentemente considerado o seu "romance do casamento", sendo uma das obras mais autobiográficas do autor, refletindo diretamente a crise do seu próprio casamento com Maria Bernoulli naquela época . A obra situa-se entre os primeiros romances realistas e as obras mais místicas e introspectivas que viriam depois, como Siddhartha e O Lobo da Estepe.
 
 1, ENREDO
 
A trama
 A história se passa na bela propriedade suíça de Rosshalde, onde vive Johann Veraguth, um pintor consagrado e rico. Apesar do sucesso e da beleza do lugar, o casamento com Adèle está em ruínas: ambos habitam a mesma casa, mas vivem emocionalmente separados — Veraguth passa a maior parte do tempo em seu ateliê . O único elo que ainda o liga à família é Pierre, seu filho caçula, uma criança sensível e doce. O filho mais velho já se afastou, alinhando-se à mãe.
 
A chegada de um velho amigo, Otto, que retorna da Índia, incentiva Veraguth a abandonar Rosshalde e buscar uma vida mais autêntica e livre . Ele hesita, pois não quer separar-se de Pierre. Quando o menino adoece gravemente, Veraguth enfrenta um sofrimento profundo e, após a morte do filho, finalmente compreende que precisa partir: deixa Rosshalde e parte rumo ao Oriente em busca de si mesmo .
 
2. PERSONAGENS PRINCIPAIS

 - Johann Veraguth: artista bem-sucedido, sensível, introspectivo, dividido entre suas obrigações familiares e a necessidade interior de liberdade e autenticidade.
- Adèle: esposa distante, rígida, que não compreende a natureza do marido e vive ressentida; representa as convenções burguesas e a incomunicabilidade conjugal .
- Pierre: coração emocional da obra — símbolo da pureza, da conexão verdadeira e da inocência que sucumbe à incompreensão dos adultos .
- Otto: o catalisador — traz a perspectiva de outro mundo e lembra Veraguth de que a vida é curta demais para viver em falsidade.
 
 3. TEMAS CENTRAIS
 
1. Casamento e incomunicabilidade
Rosshalde é um retrato doloroso de um casamento que se esvaziou. A casa, que deveria ser lar, torna-se símbolo de isolamento e silêncio. Hesse questiona a instituição burguesa do casamento: pode duas pessoas viverem juntas sem se ferir, quando já não há entendimento? A distância não é física, mas existencial — e isso é o mais doloroso .
 
2. O artista entre a família e a liberdade
Veraguth é o único artista de sucesso retratado por Hesse , mas seu sucesso vem acompanhado de solidão. O romance explora um conflito eterno: a vocação artística exige um isolamento que a vida doméstica nem sempre comporta. Será possível ser um bom artista e um bom esposo/pai ao mesmo tempo? A resposta de Hesse é melancólica: há um preço a pagar.
 
3. Perda, luto e transformação
A morte de Pierre não é apenas uma tragédia; é um ponto de virada existencial. O sofrimento arranca Veraguth da zona de conforto da infelicidade a que se acostumara. Só perdendo tudo é que ele ganha coragem de partir. Aqui já vemos um tema recorrente em Hesse: a dor como caminho de autoconhecimento .
 
4. Busca interior e viagem rumo ao Oriente
O final — com Veraguth partindo para a Índia — antecipa os caminhos espirituais que Hesse aprofundaria em obras posteriores. Não é uma fuga, mas uma busca por integridade interior: ele deixa para trás não apenas uma casa, mas uma versão de si mesmo que já não era verdadeira .
 
4. ESTILO E SIMBOLISMO
 
- A propriedade de Rosshalde: representa a beleza que aprisiona — conforto material que não consegue preencher o vazio interior.
- A pintura: para Veraguth, inicialmente é refúgio; ao final, deve tornar-se caminho de verdade. A arte não deve ser fuga da vida, mas expressão de quem realmente somos .
- A natureza: sempre presente, bela e indiferente ao sofrimento humano — espelha a solidão do indivíduo .
- Tom: sóbrio, contido, melancólico. A prosa é clara, mas carregada de tensão emocional silenciosa .
 
 5. CONTEXTO NA OBRA DE HESSE
 
Fase e Características 
Primeiros romances: Mais realistas, focados em conflitos cotidianos e relacionais (Peter Camenzind, Gertrude, Rosshalde) 
Período de crise: Profunda crise pessoal após a Primeira Guerra Mundial, leva a obras mais sombrias e psicanalíticas (Demian, O Lobo da Estepe) 
Fase espiritual/oriental: Busca de sabedoria interior e síntese entre Ocidente e Oriente (Siddhartha, O Jogo das Contas de Vidro) 
 
Rosshalde marca uma fronteira importante: ainda ancorado na realidade cotidiana, já prenuncia a jornada espiritual que se tornaria central em Siddhartha .
 
 6. CONCLUSÃO
 
Rosshalde é uma obra pequena em tamanho, mas profunda em emoção. Não é um livro de grandes acontecimentos, mas de grandes silêncios e sofrimentos contidos. Hesse nos mostra que:
 
✔️ Viver em aparências é mais destrutivo do que partir para o desconhecido;
✔️ O amor não basta se não há compreensão;
✔️ Às vezes, a perda é o único caminho para a liberdade;
✔️ A fidelidade a si mesmo é a mais difícil das lealdades .
 
Não é uma obra que oferece consolo barato, mas uma que nos convida a olhar com coragem para aquilo que nos aprisiona — mesmo quando parece confortável e seguro.

7. RESUMO
 
 Parte I: A Vida em Rosshalde
 A história se passa na bela e isolada propriedade suíça de Rosshalde, onde vive Johann Veraguth, um pintor célebre e bem-sucedido. Embora possua riqueza, fama e uma casa maravilhosa, sua vida pessoal é um vazio: seu casamento com Adèle está completamente desfeito. Eles habitam a mesma mansão, mas vivem como estranhos — Veraguth mora em seu ateliê, afastado da família, e só encontra a esposa nas refeições, onde reinam silêncios tensos e uma cortesia fria.
 
Veraguth comprou Rosshalde anos antes, quando ainda havia esperança no casamento. Agora, porém, ele e Adèle se veem com olhos de estranhamento: ela não compreende sua natureza artística, ele se sente incompreendido e aprisionado pelas convenções que ela representa. Têm dois filhos:
 
- Albert, o mais velho, que estuda fora e já se alinhou à mãe, nutrindo ressentimento pelo pai;
- Pierre, o caçula, uma criança doce, sensível e de cerca de sete anos — o único laço verdadeiro que ainda une Veraguth àquela casa.
 
Pierre é o sol de Veraguth. Toda manhã, o menino visita o ateliê do pai; juntos passeiam pelo jardim, conversam e compartilham uma conexão pura e sem palavras. É por causa de Pierre que Veraguth ainda suporta viver ali: "Enquanto Pierre estiver aqui, não posso partir", repete para si mesmo.
 
 Parte II: A Chegada de Otto
 Um velho amigo de Veraguth, Otto Burkhardt, retorna de uma longa viagem à Índia e visita Rosshalde. Otto é um homem livre, sem amarras, e representa para Veraguth o espelho de uma existência possível — fora das convenções e do casamento morto. Eles conversam longamente: Otto observa a tristeza do amigo e diz com franqueza:
 
"Você está desperdiçando sua vida. Esta casa, este casamento, esta beleza — tudo isso é apenas uma prisão dourada. A vida é curta demais para vivermos em mentira." 
 
Otto parte, mas deixa em Veraguth uma inquietação profunda. O pintuth começa a sonhar com a viagem ao Oriente, com a liberdade, com uma vida mais autêntica. Mas a ideia de deixar Pierre o paralisa. Ele hesita, oscilando entre o dever e a necessidade de ser fiel a si mesmo .
 
 Parte III: A Doença de Pierre
 No auge desse conflito interno, Pierre adoece. Começa com uma febre que não passa; os sintomas pioram rapidamente. O médico diagnostica meningite (ou encefalite) e alerta que é grave .
 
As semanas seguintes são um calvário silencioso. Veraguth abandona tudo — a pintura, seus hábitos — e passa os dias e noites ao lado do filho. Ele e Adèle, diante da dor comum, aproximam-se brevemente, mas a incomunicabilidade entre eles persiste, mesmo na tragédia. O menino, consciente de sua condição, mostra uma serenidade que comove o pai: ele pergunta sobre o céu, sobre os pássaros, diz que não tem medo.
 
Veraguth, desesperado, sente que está perdendo o único sentido que ainda o prendia àquela existência. Ele pensa: "Se Pierre morrer, nada mais me prende aqui. Mas se ele ficar, continuarei nesta prisão para sempre." É um dilema cruel — a felicidade do filho significava a própria liberdade perdida .
 
 Parte IV: A Morte e a Despedida
 Pierre morre nos braços do pai, após semanas de sofrimento. A dor de Veraguth é imensa, silenciosa e absoluta. A casa de Rosshalde, antes bela, transforma-se em um monumento à perda: cada canto, cada árvore, cada caminho no jardim lembra o menino que já não está.
 
Os dias passam. O luto aprofunda a consciência de Veraguth: ele percebe que, na verdade, Pierre era seu escudo e também sua corrente. A criança mantinha unida uma realidade que já estava morta. Agora, sem esse elo, não há mais razão para permanecer .
 
Ele conversa com Adèle. Não há brigas, nem acusações — apenas uma tristeza tranquila e definitiva. Ele explica que partirá, que não pode mais viver ali. Ela aceita, com dignidade: ambos sabem que essa separação era inevitável, apenas Pierre os mantivera adiando o fim.
 
Veraguth organiza tudo: deixa para trás a propriedade, a fortuna, a fama estabelecida. Termina uma pintura que começara há tempo — um quadro simbólico — e prepara a partida. Não é fuga; é renascimento doloroso. Ele compreende que precisa perder tudo para reencontrar a si mesmo .
 
 Parte V: A Partida
 Na manhã da despedida, Veraguth olha pela última vez para Rosshalde. A casa está bela como sempre, mas já não é seu lar. Ele parte rumo ao Oriente, em direção à Índia — terra prometida de sua busca interior. O romance termina sem dizer o que o futuro lhe reserva: o importante não é o destino, mas o passo corajoso de abandonar uma vida que já não era sua.
 
"Ele não sabia o que o esperava. Mas sabia, com uma certeza que doía, que não havia mais caminho de volta para Rosshalde — e que era preciso ir."
 
 SÍNTESE FINAL
 
Início:  
Veraguth vive solitário e infeliz em seu casamento; Pierre é seu único consolo 
O conflito:  
Otto desperta nele o desejo de liberdade e de uma vida autêntica 
A crise: 
Pierre adoece gravemente; Veraguth enfrenta o medo e a impotência 
A perda: 
Pierre morre; o sofrimento dissolve os últimos laços que o prendiam ali 
A decisão: 
Veraguth compreende que precisa partir; deixa Rosshalde e parte para o Oriente em busca de si mesmo 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Apollo Taborda França (Tertúlia da Saudade)

  

1
A beleza da mulher
tem aura de alacridade…
Como a flor, um bem-me-quer,
inspira a fidelidade!
2
 “Água mole em pedra dura”
   – No ditado popular…
  “Tanto bate até que fura”,
  não se tem o que negar!
   3
   A minha trova é silente,
    toda de luz e calor…
 Ponho na rima meu poente,
   meu universo de amor!
    4
  “A moda não incomoda”
 clama incauta a sociedade...
 Enquanto isso corre a roda
   e se esvai a probidade!
 5
    Amor à primeira vista,
   das loucuras a maior…
  Nos abaixa muito a crista
  e nos cega, o que é pior!
6
“Amor com amor se paga”,
 que emotiva sensação…
No coração sempre há vaga,
  pra atender esse refrão!
  7
   A silhueta do Pinheiro
é expressão de elegância…
Tão bela como um cruzeiro,
  se destaca na distância!
  8
A Trova boa, sentida,
fluindo com emoção…
 É como a prece florida
  que brota do coração!
   9
A Trova não morre nunca,
Retempera a humanidade
e vence a tristeza adunca,
 alegrando a mocidade!
  10
  A Trova que tem valor
 é muito simples, singela…
 E diz um mundo de amor,
com tintas de uma aquarela!
11
Aves grandes e pequenas,
  de refulgentes roupagens...
 Cores que vão às centenas,
 celebrizando as plumagens!
 12
Borboletas, aves, flores,
 que bem nutrem os florais...
  Dão contornos às silhuetas
   Dos esbeltos pinheirais!
    13
Cada página da vida,
Faz lembrar um grande amor...
É você, minha querida,
  a que guardo com fervor!
   14
Cai a tarde, fico triste,
pressuroso como o quê...
O coração não resiste
a saudade de você!
15
   Com garra de trovador,
vou seguindo meus caminhos...
Venturoso e com amor,
  num roseiral sem espinhos!
 16
 Coração que ama não chora
males que afligem a gente;
 exalta e nunca deplora
  a mágoa dura, pungente!
17
Curitiba é chão de amores,
  toda feita de candura…
 O seu perfume é de flores,
 Deus namora lá na Altura!
 18
 Das rosas do meu jardim,
 Maria sempre a mais bela...
perfuma mais que o jasmim,
 que floresce em torno dela!
19
 “Devagar se vai ao longe”,
 mas, não parar é preciso...
Usar a calma de um monge,
  a cautela e o bom juízo!
  20
 Disse adeus à virgindade,
 optou, em seus dilemas...
Quis amar com pouca idade:
 – Está cheia de problemas!
21
  Dizem “espeto de pau”
  para a casa do ferreiro...
Que enriquece o seu mingau,
 tendo “prata” o ano inteiro!
 22
   E no afã da economia,
 “Barato sempre sai caro”...
  Pãodurismo, que mania,
 só nos leva ao desamparo!
23
E “Quem planta vento colhe
   tempestade" pela vida...
  Se aniquila qual um molhe
   que perdeu sua medida!
24
  Eu sinto as trovas nas veias,
  meu sangue todo alvoroço…
  Verso me envolve nas teias,
   meu coração é de moço!
25
 Há exceção em toda a regra,
      o sistema é flexível…
Pois, que a vida assim se alegra,
   nada ficando impossível!
26
 “Mais vale quem Deus ajuda”
   na vertigem da semana...
 “Do que quem cedo madruga”
 sempre queimando a pestana!
27
Melhor fora não amar,
não ficaria à mercê...
Não seria mais vulgar,
de pensar tanto em você!
28
    Meu coração é valente,
não chora o mal que me fez...
E diz que bem de repente,
termina a sua altivez!
29
Minhas trovas são pingentes,
   incrustadas no aranhol…
    São idéias imanentes,
   lindas gemas sob o sol.
30
   Na limpeza e na saúde,
  os sucessos dessa lida…
   Valorizam certo, amiúde,
    as asperezas da vida!
31
  Não cantes loas ao Chefe,
  sofrerás qual um proscrito,
    levarás um tal tabefe,
   pois, assim está escrito!
32
  Nossa marca é o Pinheiro,
  soberano sobre a mata…
   É esbelto, sobranceiro,
  seu murmúrio uma sonata!
33
  O bem não dura sem fim,
como o mal também não dura…
    Então, vivamos assim,
  na amizade e na brandura!
  34
    O teu sorriso menina
  é feiticeiro demais...
   Tão forte qual vitamina,
 muito alvoroça meus ais!
35
Página triste da vida,
não se guarda na lembrança...
Sim, aquela bem querida,
que nos trouxe a esperança!
 36
    Para fazer boa trova,
  verso puro que se integra,
  cuide a rima, como prova,
   e respeite bem a regra!
37
   “Para quem ama o feio
     o bonito lhe parece”...
   Por bondade é galanteio,
   com nobreza é uma prece!
  38
  “Para um bom entendedor,
   só meia palavra basta”...
   Para ele um grã-louvor,
por ter compreensão bem vasta!
39
 Poeta diz sempre o que quer,
na verdade ou de impulsão...
 Tenho certeza e assim penso,
com você e sem vaidade!
 40
Por trovador, eu me esmero,
   no rito de bem compor…
 Nas minhas trovas sou mero,
  puro instrumento do amor!
  41
   Pra você vencer na vida,
  ter vitória assim perfeita…
   Leve a sério a sua lida,
   esta é a melhor receita!
    42
Quando a gente ama não sente,
  o mal que fazem prá nós
 Escondemos d' alma silente,
   num secreto albornoz!
     43
“Quem espera sempre alcança”,
   é hoje outra a verdade…
   Quem espera só se cansa
   e perde a oportunidade!
44
 Quem falou que a trova é dura,
 sem valor, um tanto azeda?…
  Pois que certa ela perdura,
   se consagra de vereda!
45
 Quem tem estro e tem cultura
    e se inclina à poesia,
   vai na Trova com lisura,
  cheio de graça e estesia!
46
 Que reluz nem sempre é ouro,
 que cai nem sempre balança…
  Por isso, chega de agouro,
  não percamos a confiança!
   47
  Sempre no pequeno frasco
 é que está a grande essência…
   E a Trova traz no casco,
     o rigor dessa exigência!
     48
  Sempre “o santo desconfia
quando a esmola é por demais”...
 Refinada hipocrisia,
    a ilustrar nossos anais!
49
 Sempre que nos cessa a calma,
    falta-nos a educação…
   A rudeza nos fere a alma,
     martiriza o coração!
50
    Sete sílabas por cima
com idéia sempre nova,
e cadência, boa rima,
numa quadra…a bela Trova!
  51
    Sou trovador e entendo
   a rima, em forma de flor…
   E tal qual um reverendo,
    só rezo trovas de amor.
52
Sou trovador sem remendo,
   o verso meu é de cor…
 Vou com assombro dizendo
 as minhas trovas de amor!
 53
 Sou trovador, tenho senso
 da importância da poesia:
 Encerra tudo o que penso,
realidade e fantasia.
54
Sou trovador venturoso,
conheço desse fulgor…
Trovar de modo charmoso
sobre a mulher, com sabor!
55
Trova tem aura dileta,
enebria o pensamento…
É magia do poeta,
arroubo do seu talento!
   56
Trova tem sabedoria,
é tão fértil como a terra…
Bons conceitos ela cria,
pelas verdades que encerra!
57
Trovas são um doce encanto,
delicadas por demais…
Nelas vibro, com espanto,
no calor dos meus florais.
58
Uma Trova de cadência,
conteúdo e expressão…
Precisa de inteligência
e muita reflexão!
59
Uma Trova…um belo tema,
Pra dizer o que se quer;
Quando o poeta é bom, da gema,
Inspira-se…na mulher!
60
Você quer boa saúde,
com perfeita digestão?…
Mastigar bem, é virtude,
esta a nossa sugestão!
61
Vale mais do que um troféu.
é letra favorita,
Decisiva e dá apogeu;
Valoriza toda escrita.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Apollo Taborda França (1926 – 2017)
APOLLO TABORDA FRANÇA foi uma das personalidades mais marcantes da vida cultural, acadêmica e literária do Paraná. Vindo de uma ilustre linhagem de intelectuais, ele aliou o lirismo da trova com uma prolífica atuação como advogado, jornalista e professor. Nasceu em Curitiba/PR, em 1926. Filho do célebre poeta Heitor Stockler de França e de Brasília Taborda Ribas de França (e tio da trovadora Vânia Ennes). Faleceu na mesma cidade, em 2017, aos 90 anos de idade. Graduou-se em Direito (1952) e em Ciências Econômicas (1959) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Formou-se também em Jornalismo pela Faculdade Católica de Filosofia (atual PUCPR). Exerceu a chefia da Consultoria e Procuradoria Jurídica do Sesi/PR por 18 anos. Foi redator do matutino O Estado do Paraná por mais de duas décadas. Essa vasta experiência serviu de base para sua carreira como professor e coordenador do Curso de Jornalismo da UFPR, onde lecionou por muitos anos. Fundou e dirigiu ainda o quinzenário Tribuna de Guaratuba.
Dono de um estilo focado na clareza e na musicalidade da poesia clássica, liderou as principais instituições literárias do estado: Academia Paranaense de Letras (APL): Foi o primeiro ocupante da cadeira nº 36 e o jornalista responsável pela revista oficial da instituição (Academus); Centro de Letras do Paraná: Presidiu a entidade na gestão 1993/1994; Academia de Letras José de Alencar: Foi presidente na gestão 1969/1970; Teve papel de liderança máxima na trova, presidindo a UBT Seção Curitiba (em duas gestões), a UBT Estadual do Paraná e atuando como vice-presidente do Conselho da Região Sul. Comandou de 2004 a 2010 a tradicional Soberana Ordem do Sapo, uma famosa confraria cultural curitibana.
Recebeu diversas honrarias civis e literárias ao longo de sua trajetória, incluindo o reconhecimento de entidades como o Rotary Club de Curitiba (onde criou concursos de poesia) e premiações em Jogos Florais pelo Brasil. Publicou 17 livros no total, divididos entre prosa, ensaios, poesias e trovas. Entre eles, destacam-se cinco livros inteiramente dedicados às Trovas.
Apollo Taborda França foi fundamental para o fortalecimento do ecossistema literário paranaense no século XX. Ele não apenas herdou a tradição literária de sua família, mas expandiu-a ao formar gerações de novos comunicadores e escritores através das salas de aula de jornalismo da UFPR. No universo da trova, sua importância está ligada à defesa ferrenha da estrutura técnica perfeita do gênero. Ele usava as trovas como ferramentas de sociabilidade, distribuindo-as em cartões para amigos e alunos, e consolidou Curitiba como uma das capitais mais ativas do movimento trovadoresco do país. 

Sites Consultados = Academia Paranaense de Letras, Singrando Horizonte (dados enviados por Vânia Ennes), Gazeta do Povo, Portal Cá Estamos Nós, Oceano de Letras, Academia Brasileira Rotária de Letras Paraná.