quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Amilton Maciel Monteiro (Semeando Trovas)

 
1
A alegria das crianças
faz tão bem a todos nós,
renovando as esperanças
dos pais, dos tios e avós!
2
A beleza da floresta
é tamanha aos olhos meus
que ao fitá-la, só me resta,
dar muitas graças a Deus!
3
Abraço a Literatura
sempre com muito prazer,
pois sua desenvoltura
é que me ajuda a crescer!
4
A estrada da minha vida
é cheia de sobe e desce,
mas na subida ou descida
um sol radiante aparece!
5
Ainda bem que a Ecologia
está educando a gente
e, mais dia, menos dia,
só haverá gente decente!
6
Amigos também são Anjos
com que Deus cuida de nós;
eles sempre têm arranjos
que desatam nossos nós…
7
A natureza agredida
não se defende e nem xinga,
mas no decorrer da vida
cedo ou tarde, ela se vinga.
8
A noiva diz que "ele aceita"
e vai se casar feliz,
porque está bem satisfeita:
achou o noivo que quis!
9
Aprendi, vendo um faquir,
algo que ninguém me disse:
é importante saber rir
com a própria caduquice!
10
A vida já me ensinou,
tal qual um bom professor,
que, quase tudo que eu sou,
aos outros devo o favor!
11
Céu calmo, rede macia,
no peito um grande calor...
Você falava, eu ouvia
embriagado de amor!
12
De bom exemplo um só grama
vale muito, muito mais,
que uma arenga que se inflama
com mil conselhos banais.
13
De fato, não há ciência,
pois é caso constatado,
somos todos consequência
do que fomos no passado.
14
Eu oro a Deus todo dia
pedindo paz em meu lar
e muita sabedoria
em meu agir e falar!
15
Há um farol em teu olhar
que ilumina a minha vida;
sem ele (estou a cismar),
ficarei cego, querida!
16
Inteligência apurada
tem o meu cão lavrador;
só olho, sem dizer nada,
e ele para ao meu dispor!
17
Inteligência maior
que eu possuo é a do meu corpo;
sempre me aplica de cor
qualquer tipo de anticorpo!
18
Juntemos as nossas mãos
para elevar nossa Terra,
que também é dos irmãos
com maravilhas que encerra!
19
Meu barquinho de papel
não só conduz ilusão,
vagando de déu em déu,
te leva  o meu coração!
20
Minha maior alegria
foi saber que Deus me ama!
Isso é tudo o que eu queria,
para por fim ao meu drama!
21
Não importa a cor da pele
e nem a força dos braços;
mais vale o que nos impele
aos amorosos abraços!
22
Não suporto mais o gato,
um xodó do meu vizinho,
que ao invés de comer rato,
quer caçar meu canarinho!
23
Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
24
Nossa vida é mesmo assim,
qual um rolo de papel...
quanto mais perto do fim,
mais dispara o carretel!
25
O clarão desse luar,
de tom azul-celestial,
me lembra teu meigo olhar
tão profundo e divinal!
26
O fogo do teu amor
é lindo e polivalente,
que amacia o trovador
e arrebenta até corrente!
27
O medo é perturbador
e afeta a nossa razão;
faz que coisas sem valor
pareçam mais do que são.
28
Onde o chão tem muita pedra
é difícil cultivar;
o que se planta não medra
e nem adiante adubar!
29
O porte de uma palmeira
me fascina e até me assombra,
pois apesar de altaneira
a ninguém ela faz sombra!
30
Pachorra não é fobia
de trabalhar obrigado;
penso que seja mania
de se achar sempre cansado.
31
Paraíso ou Liberdade?
Eis minha grande questão!
Placas de Rua em verdade
perturbam o meu coração!
32
Pode pintar na fumaça...
Pinte o sol onde quiser,
mas duvido que ele faça
brilho igual ao da mulher!
33
Por sentir-me inacabado,
tenho que me retocar,
pois quero estar alinhado
para levá-la ao altar!
34
Procure a felicidade
que sempre existe em doar-se
a quem tem necessidade.
Mas sem alarde. Disfarce...
35
Qualquer coisa feito bola
que os guris possam chutar,
fez do futebol escola
do esporte mais popular!
36
Qual vertente transbordante
sob os fortes temporais,
meu peito não é bastante
à enxurrada de seus ais!
37
Quanto mais vivo, mais creio,
pelo que vejo na vida,
que só o amor sabe o meio
de curar alma ferida!
38
Quem busca a Felicidade
acha mil bifurcações,
mas siga a fidelidade...
Não tem contra-indicações.
39
Quem quiser bem conhecer
alguém em profundidade
basta só lhe conceder
um pouco de autoridade...
40
Quem vê o verde da mata
e esse céu da cor de anil,
cheio de araras, constata,
só pode ser o Brasil!
41
Quer saber por que razão
 eu uso tanto “por quê”?
 Só tem uma explicação:
 porque rima com você!
42
Se amamos todos a vida
(ninguém deseja ser morto...);
que estupidez essa lida,
dos que defendem o aborto!
43
Sinal de maturidade
de alguém em qualquer momento
é manter serenidade,
se lhe assalta o sofrimento.
44
Todo dia nós chegamos
mais perto da eternidade
e deixamos nossos ramos
formando a posteridade!
45
Tomara Deus eu consiga,
para melhorar meu ser,
agir tal qual a formiga
que do querer faz poder!
46
Um casamento feliz,
sem danos ou dissabores,
é feito, como se diz,
de dois bons perdoadores.
47
Vate sem inspiração
é igual à faca sem corte,
pior que braço sem mão
e riqueza após a morte!
48
Velho trem me faz lembrar
os meus tempos de menino,
em que eu me punha a cismar
qual seria o meu destino...
49
Vendo este mar doce e calmo,
como o seu quadro retrata,
penso em Deus e rezo um Salmo
por minha vida pacata!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Amilton Maciel Monteiro (1931)
AMILTON MACIEL MONTEIRO é um proeminente advogado, professor, historiador, poeta e trovador brasileiro. Conhecido no meio literário como uma das vozes mais ativas do Vale do Paraíba, ele dedicou grande parte de sua produção intelectual a resgatar e preservar a história e os grandes nomes da região de São José dos Campos. Nasceu em 1931, na cidade de Guaratinguetá/SP,  Mudou-se para São José dos Campos/SP em 1959. Fixou residência definitiva na cidade, onde viveu por mais de meio século e construiu toda a sua vida familiar e profissional. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1969 pela então Faculdade de Direito do Vale do Paraíba. Atuou como advogado e obteve aprovação em concurso público para Juiz do Trabalho. Trabalhou durante muitos anos como funcionário do Banco do Brasil, de onde se aposentou. Desenvolveu carreira como professor universitário. Lecionou disciplinas como Direito Constitucional e Teoria do Estado por mais de dez anos na instituição onde se formou (atual Univap - Universidade do Vale do Paraíba), além de ministrar aulas no ensino básico estadual. Colaborou também com o CTA (Centro Técnico Aeroespacial). 
Começou a escrever suas primeiras poesias e sonetos na juventude, influenciado por professores e por sua irmã mais velha, Maria Antonia. Seu primeiro trabalho marcante foi o soneto "Súplica". Destacou-se tanto na prosa de caráter histórico quanto na poesia clássica (sonetos) e na trova. Atuou ativamente em congressos, saraus e grêmios literários do Vale do Paraíba. No universo da trova, é fortemente ligado aos movimentos trovadorescos, representando a vertente poética joseense. Conquistou diversas premiações, classificações e menções honrosas em concursos de trovas de âmbito nacional e regional. Entre elas, destacam-se a Menção Especial em Natal (2008) e classificações de destaque no tradicional Concurso de Trovas de Taubaté (2008), além de participações frequentes em coletâneas nacionais de trovas temáticas. Livros Publicados: Mitos, Fatos e Memória – Sobre a origem e os primeiros avanços de São José dos Campos; Elementos Históricos da UNIVAP e de seu Berço: São José dos Campos (2002); Cassiano - Fragmentos para uma Biografia (2003) – Um denso estudo de mais de 400 páginas que serviu de base para documentários sobre o célebre poeta modernista Cassiano Ricardo.
A importância de Amilton Maciel Monteiro firma-se como pesquisador, sua contribuição foi vital para preservar os passos de grandes nomes das letras nacionais nascidos na região, em especial sua monumental pesquisa biográfica sobre o poeta modernista Cassiano Ricardo. No campo da poesia pura, ele ajudou a manter viva a tradição poética da trova e do soneto nas cidades paulistas do Vale do Paraíba. Através do humor fino, da sensibilidade e do rigor métrico de seus versos, ele garantiu que a trova seguisse como um patrimônio cultural acessível e vivo no cotidiano joseense. 

Biografia = Genealogia Mineira, Portal CEN, O Secular Soneto, Centro de Documentação Musical de SJC,

Rabindranath Tagore (Nas Margens do Ganges)

Se gostas de ouvir narrações dos tempos passados, então senta-te nesse degrau e presta atenção ao chapinhar da água.

Estávamos nas proximidades do mês de Ashwin (setembro). A ribeira ia cheia. Da escadaria que descia, somente quatro degraus estavam fora da água. Na margem da ribeira cresciam tufos de plantas compactos sob os ramos dos bosques de mangueiras, onde a corrente formava um ângulo e deixava a descoberto três grandes montões de tijolo As barcas de pesca, amarradas aos troncos de babilas, balançavam-se indolentemente. Os grandes caniços que cobriam o banco de areia captavam os primeiros raios de sol e começavam a florir antes de atingir o seu pleno desenvolvimento.

Os barcos abriam as suas velas sobre a ribeira cheia de sol. O sacerdote, com os seus vasos rituais, dispunha-se a tomar o banho. As mulheres, em grupos, vinham buscar água. Era a hora em que Kusum tinha o costume de aparecer no alto da escadaria e tomar banho.

Mas naquela manhã não a vi chegar. Diante do ghât (Escadaria onde se toma banho), Bhudan e Swarno lamentavam-se. A sua amiga - diziam - tinha sido levada para casa do marido, uma localidade muito afastada da ribeira, e que se distinguia por uma população estranha, casas estranhas e caminhos estranhos.

Entretanto ela quase desapareceu da minha memória. Passou um ano. As mulheres que vinham tomar banho falavam novamente de Kusum. Uma tarde, porém, estremeci ao reconhecer dois pés familiares. Mas ai, eles não traziam anéis e tinham perdido o seu tilintar musical de outrora!

Kusum estava viúva. Dizia-se que o marido fora chamado a uma cidade longínqua e que ela apenas o vira uma ou duas vezes. O correio trouxera-lhe a notícia da sua morte. Viúva aos oito anos, apagara na fronte o sinal vermelho de casada, despojara-se dos seus braceletes e voltara para a velha casa à beira do Ganges. Mas encontrou poucas amigas dos tempos de solteira. Bhudan, Swarno e Amala tinham casado e partido; só Sarat ficara; mas afirmavam que se dispunha a casar em Dezembro.

Da mesma forma que o Ganges, na estação das chuvas aumenta gradualmente de volume e transborda, assim Kusum se aproximava, dia a dia, da plena floração de beleza. Mas com vestes brancas e sem enfeites, de rosto pensativo e atitude calma, lançavam-lhe um véu sobre a juventude e ocultavam-na, como uma bruma, aos olhos dos homens. Dez anos tinham decorrido sem que ninguém reparasse que Kusum se desenvolvia.

Uma manhã, há muitos anos e por esta mesma temperatura de fim de Setembro, um sannyasi (asceta ou monge) jovem e de pele clara, chegado não se sabe donde, veio abrigar-se no templo de Sivá, na minha frente. A notícia da sua chegada em breve se espalhou por toda a aldeia. Abandonando as bilhas, as mulheres acorriam ao templo para saudar o santo homem.

A multidão aumentava de dia para dia. A fama do sannyasi depressa se espalhou entre as mulheres. Ele, ora recitava o Bhagvat ora comentava o Gita (Bagvat-gita: obra filosófica que faz parte do Ramugana), ou pregava no templo acerca do tema que escolhiam num livro santo. Uns pediam-lhe conselhos, outros os seus sortilégios ou a sua ciência de curar.

Passaram-se meses. Em Abril, na época do eclipse solar, os banhos do Ganges atraíam uma multidão considerável. Uma feira se organizou sob as árvores de babla. Entre os numerosos peregrinos, acorridos para saudar o sannyasi, vinha um grupo de mulheres da aldeia onde Kusum fora casada.

Era uma manhã. O sannyasi, sentado num degrau, rezava, quando, de súbito, entre os peregrinos, uma mulher fazendo sinal a uma das suas companheiras, murmurava:

- Mas é o esposo de Kusum!

A companheira, afastando um pouco o véu exclamou:

- Palavra, é bem ele! É o filho mais novo dos Chattergi, que habita na minha aldeia!

Uma terceira, disse por sua vez:

- Ele tem exatamente a mesma testa, o mesmo nariz e os mesmos olhos.

Enquanto uma outra, sem mesmo olhar para o sannyasi, agitava a sua bilha na água, suspirando:

- Ai! Ele não é nem será o que foi! Pobre da Kusum!

Uma delas objetou então: «Ele não tinha uma barba tão grande»; e outra: «Ele não era tão magro»; uma outra ainda: «Parecia-me mais alto». E a discussão ficou por aí.

Uma noite de lua cheia, Kusum veio sentar-se perto da água, no mais alto dos meus degraus.

A sua sombra projetava-se sobre mim.

Estávamos sós junto do ghât. Os grilos cantavam à nossa volta. O tanger dos gongos e das sinetas do templo tinham cessado e o murmúrio da água era cada vez mais fraco, para se perder em breve, como a saudade dum som, nos bosques indistintos da margem oposta. Um raio da lua brilhava nas águas escuras do Ganges. Ao montante do rio, sob as sebes e arbustos, sob o pórtico do templo e sob os bosques das palmeiras, perfilavam-se sombras de formas fantásticas. Os morcegos balouçavam-se nos ramos de chatuns. Na proximidade das habitações, os chacais soltavam uivos arrepiantes e prolongados.

O sannyasi saiu do templo com o seu passo lento. Desceu alguns degraus ghât e viu uma mulher só. Ia afastar-se quando de súbito Kusum ergueu a cabeça; voltou-se. O véu caiu e a lua iluminou-lhe o rosto.

Um mocho voou por cima da sua cabeça. Ao ouvir o pio da ave ela estremeceu, ajustou o véu e prosternou-se aos pés do sannyasi.

O Sannyasi deu-lhe a bênção e perguntou:

- Quem sois?

Ela respondeu:

- O meu nome é Kusum.

Nessa noite não trocaram mais palavra. Kusum voltou para casa, lentamente, e o sannyasi permaneceu durante longas horas nos degraus do ghât. Quando, enfim, a lua emigrou do este para o oeste, o Sannyasi levantou-se e entrou no templo.

Vi todos os dias Kusum vir prosternar-se aos pés do sannyasi. Quando ele comentava os livros sagrados, permanecia a um canto e escutava-o; quando acabava as suas orações da manhã, ele chamava-a para junto de si e conversava com ela sobre assuntos religiosos. Kusum não podia compreender tudo, mas escutava-o com atenção e fazia esforços para o compreender. Ele dirigia-a e ela obedecia-lhe escrupulosamente. Kusum ajudava o serviço, sempre pronta à adoração de Deus, colhendo flores para a oferenda e indo buscar água ao Ganges para lavar o chão do templo.

O inverno ia terminar. Os ventos eram ainda frios, por vezes; à noite, a brisa quente da primavera soprava bruscamente do sul e o céu tornava-se azulado; depois dum longo silêncio ouvia-se novamente o som das flautas e a música da aldeia. Os barqueiros deixavam ir os barcos ao sabor da corrente, paravam de remar e entoavam cânticos a Krishna. Era a primavera.

Nesta altura, perdi Kusum de vista. Havia alguns dias que ela deixara de aparecer no templo, no ghât ou diante do sannyasi.

Ignoro o que se passou então, mas, pouco depois, os dois encontraram-se de novo, uma noite, nas escadarias.

Com os olhos baixos, Kusum perguntou:

- Senhor, chamou-me?

- Sim, porque não vinhas? Porque esqueceste, há algum tempo, o serviço de Deus?

Ela ficou silenciosa.

- Diz-me o teu pensamento, sem receio.

Voltando o rosto, ela respondeu:

- Senhor, eu sou uma pecadora, faltei ao meu dever de adoração.

O sannyasi disse-lhe:

- Kusum, eu sei que a tua alma está perturbada.

Ela estremeceu ligeiramente; depois, cobrindo o rosto com o Sari, sentou-se no degrau aos pés do sannyasi e começou a chorar.

Ele recuou um pouco e continuou:

- Diz-me o que tens no coração; eu te mostrarei o caminho da paz.

Ela respondeu com fé e palavras entrecortadas:

- Se me ordena, falarei. Mas receio que não possa exprimir-me com clareza. Mestre, certamente adivinhou tudo. Eu adorei um ser humano como a um Deus, venerei-o, e, ao render-lhe este culto, o meu coração transbordou de felicidade. Mas uma noite, eu sonhei que o Senhor da minha alma estava sentado num jardim, estreitando a minha mão direita na sua mão esquerda e murmurava palavras de amor. A cena não parecia de forma alguma estranha. O sonho desfez-se, mas a sua impressão ficou. No dia seguinte, quando os meus olhos se levantaram para ele, pareceu-me diferente. A imagem que me apareceu no sonho continuava a perseguir-me. Atemorizada tentei fugir para longe, mas a imagem não saía do meu espírito. Desde então, a minha alma não conhece a paz, e tudo em mim se tornou sombrio!

Enquanto enxugava as lágrimas ao mesmo tempo que falava, o Sannyasi martelava convulsivamente, com o pé, o degrau de pedra.

Quando ela acabou de contar, o Sannyasi perguntou:

- Diz-me: quem viste no teu sonho?

Com as mãos juntas, ela suplicou:

- Não posso.

Ele insistiu:

- Deves dizer-me tudo.

Ela contorceu as mãos e interrogou:

- Assim o deseja?

- É teu dever! - respondeu o sannyasi.

Então ela exclamou:

- Senhor, fostes vós que eu vi!

E deixando-se cair no degrau, começou a soluçar profundamente.

Quando sossegou e pôde levantar-se, o Sannyasi disse numa voz meiga:

- Deixarei este lugar esta mesma noite e não me verás mais. Sabes que sou um sannyasi e que não pertenço a este mundo. Deves esquecer-me.

Kusum respondeu em voz baixa:

- Assim farei, Senhor!

O sannyasi murmurou:

- Digo-te adeus...

Sem dizer palavra, Kusum inclinou-se e tocou os pés do sannyasi com a fronte.
E o santo homem deixou a aldeia.

A lua desaparecera; a noite tornou-se escura. Ouvia-se o chapinhar da água. O vento soprava furiosamente nas trevas, como se quisesse varrer as estrelas do céu.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Rabindranath Tagore (1861 – 1941)
RABINDRANATH THAKUR (Tagore) foi um dos maiores poliglotas, filósofos e escritores da história moderna, revolucionando a literatura e a música de sua região. Ele foi o primeiro não europeu a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913. Nasceu em 1861, em Calcutá/Índia. Faleceu em 1941 (aos 80 anos), nesta mesma cidade. Passou a maior parte da vida em sua cidade natal, e na propriedade da família em Santiniketan (Bengala Ocidental). Também viveu temporariamente na Inglaterra durante a juventude para estudar e viajou por mais de 30 países ao longo da vida para dar palestras. Tagore não seguia os moldes profissionais tradicionais, pois vinha de uma família aristocrática e intelectualizada. Estudou direito na University College London (Inglaterra), mas não concluiu o curso. Preferiu focar no estudo independente de literatura e música. Além de escritor, atuou como educador, reformador social e filósofo. Em 1921, fundou a Universidade Visva-Bharati em Santiniketan. Ele buscava criar uma alternativa ao sistema educacional britânico, unindo o melhor das tradições orientais e ocidentais. Embora não tenha sido um acadêmico de carreira no sentido burocrático (ele rejeitava a educação formal rígida), recebeu o título de Cavaleiro (Knighthood) da Coroa Britânica em 1915 (título que ele renunciou em 1919 em protesto contra o Massacre de Jallianwala Bagh). Foi amplamente celebrado por instituições globais e manteve diálogos intelectuais com figuras como Albert Einstein e Mahatma Gandhi.
Tagore começou a escrever poesia ainda na infância (aos 8 anos) e publicou sua primeira coletânea importante aos 16. Ele escrevia originalmente em bengali e, mais tarde, traduzia suas próprias obras para o inglês, o que o tornou um fenômeno mundial. O ponto alto de sua carreira foi o Prêmio Nobel de Literatura em 1913, concedido principalmente pelo impacto de sua obra Gitanjali. Tagore possui um feito único no mundo: ele é o autor dos hinos nacionais de dois países diferentes: Índia (Jana Gana Mana) e Bangladesh (Amar Shonar Bangla)
Sua produção foi massiva, incluindo milhares de poemas, canções (conhecidas como Rabindra Sangeet), romances e peças de teatro. Destacam-se:
Gitanjali (Oferenda Lírica): Sua coletânea de poemas mais famosa, repleta de misticismo e amor à natureza; The Home and the World (O Lar e o Mundo): Romance que reflete sobre o nacionalismo indiano e o choque entre tradição e modernidade; Chokher Bali (Areia nos Olhos): Romance que discute temas sociais complexos da época, como a condição das viúvas na sociedade indiana; O Carteiro do Rei (Dak Ghar): Uma de suas peças de teatro mais conhecidas e encenadas no mundo.
A relevância dele para a literatura mundial baseia-se em três pilares principais:
1. Modernização da Literatura Bengali: Ele libertou a língua bengali dos moldes clássicos e rígidos do sânscrito antigo, introduzindo o uso da linguagem coloquial, novas formas de versos e a prosa moderna.
2. Ponte Cultural entre Oriente e Ocidente: Tagore apresentou a rica espiritualidade e a filosofia indiana ao Ocidente de uma forma acessível, sem os preconceitos da era colonial. Ele provou que a alta literatura asiática tinha valor universal.
3. Humanismo Universal: Sua literatura defendia a paz, o internacionalismo e a liberdade individual, criticando os nacionalismos agressivos. Ele via a arte como a expressão máxima da conexão espiritual entre a humanidade e a natureza.

Fonte:
A Chave do Enigma e Outros Contos. Publicado originalmente em 1943, em Portugal com tradução de Telo de Mascarenhas. Disponível em Domínio Público. 
Biografia obtida com IA