sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 31 *

 


 Regresso e de peito aberto,
dás-me perdão às mancheias:
- quem anda no rumo certo
entende as culpas alheias…
Carlos Guimarães
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997
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Não quero morrer agora,
quero contigo viver;
quero ver chegar a hora
desse sonho acontecer!
Dalvina Fagundes Ebling
Cruz Alta/RS (?? – 2020)
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Sofrem tantos na agonia
do delírio, dito "amor";
isso tudo acaba um dia:
faz frio após o calor…
Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
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Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…
Domingos Freire Cardoso
Ilhavo/Portugal
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O desencanto magoa,
ás vezes sem compaixão,
quando a saudade agulhoa
bem fundo no coração!
Dorothy Miranda
Salvador/BA
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Despedimos no portão,
senti seu beijo gelado...
Descobri, sem ilusão,
que estava tudo acabado.
Ed Louzi
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Em sua inspirada prece
com muita serenidade
é que São Francisco tece
toda a trilha da verdade!
Eduardo Domingos Bottallo
São Paulo/SP
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Minha identidade eu vejo
no teu olhar refletida,
e tudo o que mais desejo
é ser teu amor, na vida!
Eleandra Bonatto
Santiago/RS
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Com o mais lindo sorriso
e aquele olhar da ternura,
me levaste ao paraíso
quase cheguei à loucura.
Gledis Tissot
Balneário Camboriú/SC
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Quero só o que mereço,
pelos princípios morais;
fazer festa a qualquer preço,
é sempre caro demais!
Hélio Castro
São Paulo/SP
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Por minhas inúteis fugas,
entre tormentos medonhos,
deu-me a Vida, nestas rugas,
todo o prêmio dos meus sonhos.
Helvécio Barros
Macau/RN, 1909 – 1995, Bauru/SP
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Feito o sol da madrugada,
tu chegaste de mansinho,
e minha alma enamorada
aqueceu-se em teu carinho!
Ieda Marini de Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
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Se encontrei tudo na vida,
acho que posso falar:
você é tudo querida,
o que eu queria encontrar!
Isaías Teves
Amparo/SP
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O poeta voa leve...
Além da vida e da mente,
mas teima em dizer que escreve
bem menos do que ele sente.
Jair Sales de Almeida
Tomé Açú/PA
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Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.
João Costa
Saquarema/RJ
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Unindo-me a ti pensei
"união de eternos laços"…
Hoje eu vivo como um rei
enlaçado em teus abraços!...
José Manuel Veloso Galvão
São Paulo/SP
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Até podes dizer não
mas não te esqueças, jamais,
de que, na vida, é o perdão
que faz que sejamos mais.
José Roberto Pereira de Souza
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As rugas são, com certeza,
se grande for o desgosto,
as estradas que a tristeza
vai abrindo em cada rosto!
Lavinio Gomes de Almeida
Barra do Piraí/RJ, ?? – 2009
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Pelas vias pedregosas,
com sacrifício eu subia...
mas, ao descer, colhi rosas
que me encheram de alegria!
Lourdes Borelli
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O barco dos meus desejos,
vencendo tempos e espaços,
entre carícias e beijos,
ancorou-se nos teus braços.
Luiz Machado Stabile
Uruguaiana/RS
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Coração que canta e chora,
coração tão desigual,
que não tem, até agora,
um parecido ou igual.
Maria Aparecida Pires
Curitiba/PR
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Se é virtude, ou se é defeito,
sei não... Sei que ages assim:
da mansidão do meu peito
tiras proveito de mim...
Maria de Fátima S. Oliveira
Juiz de Fora/MG
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Paixões, eu digo e sustento,
pela inconstância da forma
são dunas de sentimento
que o tempo varre e transforma!
Maria Helena O. Costa
Ponta Grossa/PR
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Alvorada, em teu regaço,
de encantos indescritíveis,
eu vejo ampliar-se o espaço
em que os tenho - são possíveis!
Marlê Beatriz Araújo
Viamão/RS
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É feliz quem faz na vida,
sem, em troca, pedir nada,
da fé — ponto de partida -
do amor - meta de chegada!
Nádia Huguenin
Nova Friburgo/RJ, 1946 -2008
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Se a amizade for além
demais, entre o gato e o rato;
sobra ao dono do armazém
um prejuízo de fato!
Roberto Nini
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A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor,
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
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Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
Trigueiro Lins
Santos/SP
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Na infância, o sumo interesse;
- calças longas, sem demora!…
(Ah, se a vida devolvesse
as calças curtas de outrora!…)
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
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Qual uma fonte de luz,
o sorriso resplandece
e tira da alma o capuz
da tristeza, que a fenece...
Wildman dos Santos Cestari
Taubaté/SP
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Renato Benvindo Frata (O 'Vazio' de Clarice)


Sentado no sofá, costas amparadas pelo encosto, pernas descansadas no macio, cotovelos apoiados em seus braços e com Clarice aberta entre dedos, encuquei. Ao falar de vazio, ela escreveu: "Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno."

Mastiguei o cérebro, ruminei a frase e por não a ter assimilado de primeira, li-a novamente e mais uma vez, até conseguir saborear a majestade do seu pensar: a poetisa quis dizer justamente aquilo que entendemos por contrassenso, algo à primeira vista ilógico, absurdo, eis que vazio quer dizer 'o que nada contém' (ou que contém apenas ar), ou 'quase nada', e 'pleno', pelo contrário, é o cheio, o completo, o repleto, o inteiro, o perfeito.

Meu olhar perdido nessa questão conquistou um espaço em meio aos pontos de interrogação em quase caos, após ter ficado à mercê dessa dúvida, me perguntei: como compreender como correto o que não tem nada, portanto, vazio, comparando-o ao que tudo tem, no caso, o pleno?

E aí veio a luz baseada na dinâmica da vida que cria vazios ao tempo que os elimina, os enchendo. Sim, porque vivemos a encher vazios.

Se comemos, enchemos o vazio do estômago, se entramos no carro, enchemos aquele canto do veículo ocupando o espaço que até ali se mantinha vazio. É o que diz a lei de Newton sobre a impenetrabilidade da matéria, em que dois corpos nunca ocupam o mesmo espaço.

Agora sim, fiquei satisfeito: o 'pleno' por ela apontado, se referiu ao 'todo' vazio de sua alma enquanto tomado por imensa tristeza, melancolia, insatisfação, considerando que significado de 'vazio' trata da consequência da falta de contato com algo que proporciona prazer, o que nos leva a imaginar que ao redigir a frase, Clarice não estava nos seus melhores dias.

Pois dessa forma, a saudade (o que ela sentia) - tenho comigo, é uma boa fabricante de vazios - grandes ou pequenos a quem chamo de monstros; e tanto os fabrica que acaba por alojá-los bem no centro do nosso coração e que, por sua vez, os recebe e cuida acumulando-os, deixando-os dispostos como em prateleiras de depósito.

Nesse sentido ao longo da vida, vamos acumulando vazios: vazios deixados por pessoas amigas que se foram, por acontecimentos especiais que se perderam, de carinhos trocados e que se transformaram em leves pegadas no tempo e que foram tão importantes que permaneceram pulsantes, independentemente do tempo em que se deram.

O 'pleno' dito pela Clarice, acho, se dava nos momentos em que ela fugia de si própria correndo para longe da tristeza, da angústia, do medo e da solidão insistentemente nela alojadas. Ali ela se virava, mexia, chacoalhava-se, mas tudo de infrutífera solução.

Os seus vazios de alma eram tão intensos e tão influentes no seu modo de ser que deram à sua escrita a sublimidade da poesia em um contexto. 
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Jornal Cultural Farol da Poesia. Fascículo 4. Agosto de 2026. Enviado pelo autor. ) 

Interlúdio * 19 *



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    LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da Seção Bandeirantes, da UBT, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a ALCAB e a UBT, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Dumitrița Stoica (Uma fila pequena)

(tradução do romeno por José Feldman)
Era uma vez uma fila em um posto improvisado do outro lado da rua da Rodoviária Militares. Eu costumava ir com minha sogra para o interior, não sei mais por quê. Talvez para um frango, alguns legumes e um queijo com vinho. Em um espaço do tamanho de uma sala de um bloco comunista, várias pessoas se amontoaram e se amontoaram para de alguma forma alcançar quem as preparou e vendeu. A fila se alargou na calçada, em um ar de verão irrespirável e quente demais, ônibus, asfalto e chaminés de fábrica. Entre as moscas, você não podia jogar uma agulha, elas amassavam próximas, avançavam com os cotovelos, alcançavam o balcão por direções diferentes.

Nos anos 80, sair para a rua quando criança ou qualquer outra coisa comestível era um evento. Agradável de algum jeito, porque havia a chance de comer algo, completamente desagradável, porque você tinha que esperar horas. De vez em quando, a tristeza cinzenta de viver no sofá dava lugar à ansiedade. O que vi do outro lado da rua da rodoviária não era uma fileira de pessoas sentadas uma a uma ou duas a duas, a alguma distância, mesmo que fossem dois ou três centímetros, mas um palco onde a farsa da sobrevivência era encenada. Um dragão cheirando a carne queimada, entranhas podres e perfume barato, com dezenas de cabeças agitadas, perturbados pela necessidade iminente de devorar.

Nas bordas haviam mesas altas onde algumas pessoas felizes comiam, em pé, as pequenas com mostarda e as poucas fatias de pão branco, feitas de papelão quadrado. Fiquei impressionada com uma mulher morena, com cabelo tingido, branco na raiz, vestida com um vestido barato de verão com pipoca, sozinha em uma mesa. Eu olhava para ela, enquanto minha sogra continuava me incentivando a sentar na fila, ela tinha trabalho em algum lugar, ela viria depois; Ela ainda não tinha descoberto que eu não tinha o hábito de ficar em filas. Eu disse para ela ir embora porque eu veria o que eu estava fazendo.

Eu conhecia a estranha que comia devagar, com pausas, como quando você não quer que acabe rápido demais. Ela olhava ao redor, depois para a avenida, tentei encontrar o olhar dela, mas ela não parecia ver ninguém. Ela tinha olhos vermelhos, com algo febril neles, como um mendigo perseguido que não aceita seus estigmas, mas também não tem forças para esconder. Ela comia os pedaços de comida com o rosto decomposto, o que já é escandaloso desde o início. Não é apropriado. Você tem que estar alegre. Ou desistir. Só se algo quebrar por dentro, você não consegue mais. Você se perde fascinado pelo abismo da miséria. Depois de um tempo, ela limpou a caixa de mostarda com o último pedaço de pão.

Não era qualquer conhecida, perdido na multidão de rostos que passam por nossas vidas ao longo dos anos, difíceis de trazer à tona da memória, porque sua marca afetiva não é forte o suficiente. Ela tinha sido minha professora de história no ensino médio, só por um ano, mas não dava mais aula lá, eu não sabia o nome dela. As aulas dela não se pareciam com as dos outras professoras, eram, eu diria que hoje, normais. Trate-nos do mesmo jeito que trata as pessoas que precisam de você, converse com elas, com confiança e paciência. Ela não tinha nem o culto à autoridade, nem a vaidade da excelência.

Não consegui sair do meu lugar. O que ela teria feito em sua dor com o abraço de um estranho? E como você pode dizer a ela que não há ironia mais insuportável do que essa aula de história indesejada? À luz de uma tarde de verão, estridente, ao ritmo de trompas, não de rock and roll. Desmascarada, sem fingimento, sem esperança. Depois de terminar com os pedaços de comida, ela partiu na direção oposta, para um quarteirão sórdido de apartamentos no bairro, onde provavelmente ninguém a esperava. Minha sogra me encontrou em um banco, observando a fila de uma distância segura, pelo menos por um dia.
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DUMITRITA STOICA é formada pela Faculdade de Letras da Universidade de Bucareste, doutora em filologia com tese sobre o teatro poético de orientação moderna no início do século XX. Ela publicou livros didáticos para o ensino médio, materiais didáticos, artigos de opinião e ensaios em diversas revistas culturais. É autora de dois romances: "Nu me touche" (2011), e "Na beira do mundo" (2018). Publicou textos curtos em prosa na "Literomênia", na seção "Contos de Flash Fiction" (2017-2018). Em 2019, contribuiu para a antologia "Prof de Romeno. Uma antologia diferente de textos".

(Revista Literomania. Literatura feminina n. 140 (2019). Disponível em https://www.litero-mania.com/o-coada-la-mici/)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 8)

curso ministrado por José Feldman
8. ANÁLISE DO ESTILO DE ESCRITA

Aqui está uma análise do estilo de escrita apropriado para crônicas filosóficas, românticas, do cotidiano, de exposição de situações e de recordações, junto com os erros mais comuns a serem evitados.

8.1. CRÔNICAS FILOSÓFICAS

8.1.1. Estilo de Escrita

8.1.1.1. Reflexivo e Introspectivo: 
A linguagem deve ser profunda e provocar pensamentos.

8.1.1.2. Uso de Metáforas: 
Comparações que enriquecem o significado e a compreensão do tema.

8.1.1.3. Tom Ponderado: 
O autor deve transmitir uma sensação de sabedoria ou dúvida que faça o leitor refletir.

8.1.2. Erros Comuns

8.1.2.1. Abstrações Excessivas: 
Ser vago ou usar linguagem muito técnica pode alienar o leitor.

8.1.2.2. Falta de Conexão Pessoal: 
Não incluir experiências pessoais pode tornar a crônica fria e distante.

8.1.2.3. Desorganização de Ideias: 
Saltar de um pensamento para outro sem uma estrutura clara pode confundir o leitor.

8. 2. CRÔNICAS ROMÂNTICAS

8.2.1. Estilo de Escrita

8.2.1.1. Emocional e Poético: 
Linguagem rica em sentimentos e sensações, evocando a intensidade do amor.

8.2.1.2. Detalhes Sensorais: 
Descrições vívidas de momentos, olhares e toques.

8.2.1.3. Diálogos Naturais: 
Conversas que soem autênticas e reveladoras dos sentimentos dos personagens.

8.2.2. Erros Comuns

8.2.2.1. Clichês Românticos: 
Usar frases e situações repetitivas que podem tornar a crônica previsível.

8.2.2.2. Falta de Profundidade Emocional: 
Não explorar as complexidades do amor pode fazer a narrativa parecer superficial.

8.2.2.3. Inconsistência no Tom: 
Alternar entre um tom leve e um muito sério sem justificativa pode confundir o leitor.

8.3. CRÔNICAS DO COTIDIANO

8.3.1. Estilo de Escrita

8.3.1.1. Acessível e Humorístico: 
Linguagem simples que dialoga com o leitor, muitas vezes utilizando humor.

8.3.1.2. Observações Detalhadas: 
Atenção aos pequenos detalhes da vida diária que tornam a narrativas interessantes.

8.3.1.3. Narrativa Descontraída: 
Um tom leve que transforma o ordinário em algo notável.

8.3.2. Erros Comuns

8.3.2.1. Monotonia: 
Focar em eventos muito triviais e não oferecer qualquer reflexão pode entediar o leitor.

8.3.2.2. Falta de Conexão: 
Não estabelecer uma relação entre as observações e um tema ou reflexão mais ampla.

8.3.2.3. Diálogos Fracos: 
Conversas artificialmente forçadas que não parecem naturais podem descredibilizar a crônica.

8.4. CRÔNICAS DE EXPOSIÇÃO DE SITUAÇÕES

8.4.1. Estilo de Escrita

8.4.1.1. Crítico e Persuasivo: 
Linguagem que desafia o leitor a compreender e refletir sobre o tema apresentado.

8.4.1.2 de Dados e Exemplos: 
Incluir fatos relevantes para reforçar o argumento.

8.4.1.3. Narrativa Estruturada: 
Apresentação de problemas claras, causas e possíveis soluções.

8.4.2. Erros Comuns

8.4.2.1. Falta de Foco: 
Abordar muitos tópicos sem um foco claro pode dispersar a mensagem.

8.4.2.2. Argumentação Fraca: 
Falta de evidências para apoiar as alegações pode enfraquecer a crônica.

8.4.2.3. Tom Excessivamente Pessimista: 
Não apresentar um ângulo esperançoso ou soluções pode desanimar o leitor.

8.5. CRÔNICAS DE RECORDAÇÕES

8.5.1. Estilo de Escrita

8.5.1.1. Nostálgico e Contemplativo: 
Linguagem que evoca emoção e sentimentos de saudade.

8.5.1.2. Descritivo e Detalhado: 
Enriquecer a narrativa com detalhes que transportam o leitor para o passado.

8.5.1.3. Conexão com o Presente: 
Relacionar as memórias ao estado atual do narrador, criando uma linha do tempo.

8.5.2. Erros Comuns

8.5.2.1. Falta de Contexto: 
Não fornecer informações suficientes sobre a recordação pode confundir o leitor.

8.5.2.2. Nostalgia Excessiva: 
Focar apenas em memórias sem reflexão pode tornar a crônica monótona.

8.5.2.3. Desorganização Temporal: 
Saltar entre tempos sem clareza pode desorientar o leitor.

8.6. CONSIDERAÇÕES

Cada tipo de crônica tem um estilo que deve ser refletido no texto para ressoar com os leitores. Evitar os erros comuns ajuda a fortalecer a narrativa, proporcionando uma experiência mais rica e envolvente. A prática e a leitura crítica são essenciais para aperfeiçoar esses estilos.
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continua…
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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 213 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Canto Alcaico* de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Tempo

Corre o riacho de um modo constante,
leva este tempo que não volta mais,
deixa o cansaço no rosto ausente,
dores colhidas nos meus temporais.
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* É uma das formas nobres da poesia lírica, frequentemente usada para temas graves, filosóficos, patrióticos ou de exaltação.
O Canto Alcaico é composto de uma estrofe alcaica, que é uma estrutura poética tradicional de quatro versos (um quarteto), originária da Grécia Antiga. Criada pelo poeta lírico Alceu de Mitilene (contemporâneo de Safo) e, mais tarde, adaptada e imortalizada em latim pelo poeta romano Horácio. Na antiguidade, não usava rimas, mas sim a alternância de sílabas longas e breves (métrica quantitativa). A estrofe alcaica era composta por Decassílabos alcaicos (11 sílabas métricas na contagem clássica) no 1. e 2. versos. Eneassílabo alcaico (9 sílabas métricas) no 3. verso. Decassílabo dactílico (10 sílabas métricas) no 4. verso.
Como o português não diferencia sílabas longas e breves, os poetas modernos adaptaram a estrofe alcaica usando a acentuação tônica (ritmo). Na nossa literatura, esta estrofe se caracteriza por quatro versos (quarteto) sáficos (10 sílabas métricas); ritmo musical fixo, geralmente imitando a queda melódica do poema clássico; pode ou não conter rimas (embora os modernistas e parnasianos às vezes adicionassem rimas como o padrão ABAB ou AABB para dar sonoridade moderna).
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO 
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997

Poema épico

O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.

A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.

O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufelho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas;
- Eu já venho!

O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!

Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Quem, na solidão do ninho,
não faz de um ninho, prisão,
liberta esse passarinho
que habita em seu coração.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto a Catullo da Paixão Cearense – In Memoriam

Faz-me lembrar o tempo de menino,
no lar paterno, lá na velha aldeia,
com minha mãe, irmãos e irmãs, na ceia,
de noitezinha, ao bimbalhar do sino...

Depois, eu contemplava a lua cheia
e perguntava aos céus: qual meu destino,
neste mundo que roda e cambaleia,
com momentos de luz e desatino?!...

E ouvia a minha voz na voz do vento,
dizendo que eu tivesse paciência,
estudasse, aprendesse e na paixão

de adquirir maior conhecimento,
ingressasse no reino da sapiência...
Como era lindo o Luar do Sertão !…
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Trova de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Criado por Deus, o rio 
nasce limpo e, como nós, 
traz consigo o desafio 
de limpo chegar à foz. 
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Soneto de
ANTÓNIO BOTTO
Concavada/Abrantes/Portugal (1897 – 1959) Rio de Janeiro/RJ

Soneto

É difícil na vida achar alguém 
Que seja na verdade um grande amigo, 
E se assim penso – e com tristeza o digo, 
É porque o sei, talvez, como ninguém. 

Se a amizade é um bem – e se esse bem 
Traz o conforto de um divino abrigo, 
Por mim, direi, que nunca mais consigo 
Iludir-me nas graças que ele tem. 

Afectos, sacrifícios, lealdade!, 
Tudo se apaga ou fica na memória 
Se a ilusão dá lugar à realidade. 

E ai daqueles que pensam na excepção: 
Acabam por ficar dentro da história 
De que a vida é um sonho e uma traição.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Preso ao tronco, em ais tristonhos,
geme o negro, sem alarde...
- para quem não tem mais sonhos,
a alforria chegou tarde...
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Poema de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

 Fracasso 

Sem nada ter, vazio, sigo a carregar,
pesado, este cansaço...

Neste ponto do caminho, tenho que reconhecer
o meu fracasso:
que a Vida me perdoe...

Minha solidão cresceu entre dois trágicos amores:
um, cedo demais, que esfarinhei nos dedos,
outro, tarde demais, que me pisou...
e se foi…
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Trova de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.
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Soneto de
JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Desesperança

Eu conservo comigo, desde criança,
E trago no meu rosto sorridente,
A crença conformada da confiança
Que carrego na vida para frente.

Meu pai deu-me um sorriso por herança,
E eu fui, como o bom filho obediente,
Seguindo ruas, conhecendo gente,
Cheio de ingenuidade e de esperança!

Deixei abraços, saudações e avisos,
E em vez de deparar rostos serenos
Só encontrei olhares indecisos.

Não recebi de volta os meus sorrisos,
E nem os meus abraços: nem ao menos
Alguém retribuiu os meus acenos...
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Quadra Popular de
MINAS GERAIS

Bate, bate, coração,
quando não puder, descansa.
O alívio de quem ama,
é viver na esperança.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Prefácio prometido

Só por te amar “prefácio” quis fazer
e dei-te a rédea, pura, disse tudo,
soltei a corda, pude ter prazer,
paixão secreta? Incerta para o mundo.

No entardecer perfeito, meu querer,
por parecer um rio manso e surdo,
pude escrever, sem medo, por vencer,
barreira triste, quebrei...deixei mudo.

Fiz a promessa, juro quero ler,
sua “boneca” e então poder saber
completo, qual será o final? Romance...

Aguardarei os textos por correio
ou simplesmente mande-os via email:
- Não posso perder, chance ao meu alcance.
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Trova de
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Porto Alegre/RS

Brancos, negros e amarelos,
se a causa é justa e loquaz,
juntam braços, que são elos
forjando as cores da Paz!
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

Uma impressão de D. Juan

Gastei no amor vinte anos — os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, em galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.

Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os...
Li, folha a folha, o livro dos amores.

Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!

E nada sei do amor... Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
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Trova de
PAULO EMÍLIO PINTO 
Conselheiro Lafaiete (1906 – ????) Belo Horizonte/MG
 
A amizade mais o amor
cultivar bem que eu tentei.
Mas quanta praga, Senhor,
deu nos jardins que plantei!
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN
Lisboa/Portugal (1919 – 2004) Porto/Portugal

Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
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Trova de
MARA MELINNI
Caicó/RN

A identidade que encobre
cada não e cada sim,
vem da verdade mais nobre
que eu trago dentro de mim…!
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Girassol

Florir no descampado ou no úmido recanto
De alguma ruína, ou mesmo em áspero alcantil,
É um orgulho que tem o redourado helianto
Dês que da terra emerge a plúmula eretil.

Quando ele desabrocha entre os glastos e o acanto,
Entre os mil tinhorões e as passifloras mil,
Tem-se à conta de um sol, nascido por encanto
Ao topo senhorial do tormentoso hastil.

É de vê-lo medir a força e o valimento,
Do orgulho vegetal, do seu orgulho em prol,
Ante o rival senhor de terra e firmamento!

É de vê-lo, tenaz, de arrebol a arrebol,
Do grande astro seguindo o régio movimento,
O áureo disco volver para encarar o sol!
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Poetrix de
ELIANA MORA 
Juiz de Fora/MG

Agenda cheia

Marquei encontro comigo.
E [como sempre]
não fui.
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Soneto de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

Quem diria

Quem diria, meu Deus, oh quem diria
Que chegássemos a idade que chegamos
Ouvindo o eco do SIM que aquele dia
Há cinquenta anos nervosos pronunciamos.

Éramos dois, então, que se amavam
Há quanto tempo não sei eu, você ignora
Se nossas almas já antes se cruzavam
Ou se talvez o nosso amor nasceu agora.

O que eu sei, querida, é que esse amor é grande
Que junto a ti eu vivo onde quer que eu ande
Seja na terra, no mar ou nos espaços.

Meio século faz que juntos palmilhamos
Vivendo o mesmo amor que na paixão juramos.
Entre brigas de amor, beijos e abraços.
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Trova de
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizonte/MG

Gente que escolhe sem tino
as propostas da existência,
quando erra, culpa o destino
pela própria incompetência.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema-orelha

Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém, na estação. E o trem
passa sem parar.
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Poema de
BETE RAMOS
Campinas/SP

Não sei explicar esta dor...
Dor do fracasso, da ausência, 
da solidão, da ingratidão...
Dor da saudade, e por que não?!

Meu peito se aperta, dilacerado...
Uma voz presa na garganta,
um grito silencioso que deságua em lágrimas.

Sozinha no meu quarto escuro, em agonia,
sem ninguém para me ouvir
e enxugar o meu pranto.
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