domingo, 29 de março de 2026

Asas da Poesia * 169 *


Poema de
JULIÃO SOARES SOUSA
Bula/Guiné-Bissau

Cantos do Meu País

Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas

Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País
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Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN (1951 – 2013) Natal/RN

Cheia de brilho e de encantos,
loucamente apaixonada,
a lua faz chover prantos
nos olhos da madrugada.
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Soneto de
OTÁVIO VENTURELLI
Nova Friburgo/RJ

Ressonância

Há uma impotência enorme no vazio
que me rodeia o coração magoado,
já nem mais ao silêncio eu desafio,
embarguei minha voz, fiquei calado.

Igual à correnteza que há no rio
meu pensamento passa acelerado,
não tenho mais como encontrar o fio
de um novelo de amor embaralhado.

Hoje meus dias vou passando-os triste,
sem saber com certeza se ainda existe
um pouco de nós dois dentro de nós,

mas quando as vozes ao redor se calam,
nos meus silêncios as saudades falam
com as vozes iguais à tua voz…
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Trova Premiada na Academia Brasileira de Trova/1991 de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Queres vencer? - Pensa bem
e não dês passos a esmo,
ninguém pode ser alguém
sem conquistar a si mesmo.
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Maria Rita Rodrigo Octavio Moutinho
Rio de Janeiro/RJ

Soneto do equinócio adiado

Hoje o silêncio corta o fio do equador
e incomunicáveis os polos orbitam
desgarrados da esfera terrestre. O calor
e a ardência tropical, mudos, se gelificam.

No equinócio, dia e noite — assim como o amor —
se equivalem e por isso se presentificam
o equilíbrio, a medida-anel do cobertor
e do corpo gelado quando se unificam.

Estamos na distância e no incomunicável
por motivos que nem os astros nos explicam.
Medo? Será o medo que faz dissociável

a junção dos amantes que se estigmatizam?
A nódoa do pecado no imo é implacável.
E, súbito, equinócio e harmonia se adiam.
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Trova Popular

Inda que meu pai me mate,
minha mãe me tire a vida,
minha palavra está dada,
minha alma está prometida.
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Poema de
BERNARDO TRANCOSO
Vitória/ES

O disfarce

Cobre a máscara
O jeito verdadeiro que tens.
Quando estás próxima a mim,
Veste-a e finge ser um falso alguém.
Teu cheiro mostra-me o teu disfarce.
É por modéstia?
Temes não me agradar, pois,
Por inteiro, sendo honesta.
Mas, mesmo que eu
Deteste-a ao ver quem és,
De fato,
Vou primeiro partir por tua mentira
Ante a moléstia.
Se existe algum problema,
Algum motivo pra enganação,
Permite-me ajudá-la agora,
Antes que eu pense
Estar errado ao te amar.
Já tem sido inofensivo - não mais -
Meu coração que, hoje, te fala
Em forma de um soneto
Disfarçado.
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Soneto de
HERMES FONTES
Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes
Buquim/SE, 1888 – 1930, Rio de Janeiro/RJ

A odisseia do verso

Vieram da fonte sensitiva e casta
do Coração: filtraram-se em requinte,
nos centros cerebrais: são versos... basta.
É estrofá-los em luz, por conseguinte.

É escrevê-los em fogo, em tom que os pinte,
voz que os declame... E a língua mal se arrasta!
E a pena extrai-lhes a expressão seguinte
que os fixa nos papéis da minha pasta...

Levamos o impressor, a publicá-los.
Lá se vão os meus versos... E eu sucumbo,
ao despedir-me da alma, entre ais e abalos...

E, ante a máquina, agora, o olhar descerro:
— vejo o meu Sonho transformado em chumbo!...
— vejo a minha Arte reduzida a ferro!...
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

O detalhe de estar só
aguça o meu pensamento...
Vivo sem de mim ter dó;
- compor trova é doce alento!
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Poema de
CLEUSA PIOVESAN
Capanema/PR

Razões além de mim

Escrevo, sinto, preciso
arejar minhas ideias...
Partilhar as emoções.

Não há dia para sonhar
mundos fora de mim. É 
ser, estar, ter, ver razões
pra existir, ir além, sorver,
amar, ter ar nos pulmões!
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Veja os mistérios que existem
contidos em um olhar.
Às vezes eles persistem...
outros, somem num piscar.
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Soneto de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP

Soneto-comentário sobre "São Francisco e o rouxinol", de Martins Fontes

Um rouxinol cantava”... é o primeiro verso
do encantador soneto de Martins Fontes
em cujo clássico teor eu me alicerço
para a louvação de seus vastos horizontes.

Cativa a todos a singela narrativa
do elo musical da ave com São Francisco
que no assobio alegre, imita a patativa
como se numa vitrola, emperrasse o disco.

Mas o santo cansa-se... o pássaro segue...
e o praiano bardo se descongestiona,
pondo no papel até que o dom descarregue

todo o amor dedicado ao humilde frade...
depois, relendo o poema, se emociona
e vê que pra versos nasceu, eis a verdade!
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Poema de
VICÊNCIA JAGUARIBE
Fortaleza/CE

Correndo com a liberdade

Correndo na calçada
Como quem não quer nada
Lá vem o Zezé
Na ponta do pé.

Atrás do Zezé
Com cara de índio
Corre o Mané.
Pra onde estão indo?

Vendo correrem os dois
Corre também a Verinha
Que tem cara de arroz
Mas é muito boazinha.

Levantando do meio-fio
Pedro segue os vadios.
E o João, sem o pé de feijão,
Quase entra na contramão.

A Lúcia, a Ana e a Teresa,
Quando tornam da surpresa,
Entram no rolo sem saber
Por que estão a correr.

Os curiosos perguntam
O motivo ou a razão
De tamanha confusão
De tanta criança junta.

Será que aqueles meninos
Correm de boi desenfreado?
Fogem de dentes caninos
Por eles desafiados?

Invadiram o pomar
Do afobado seu Oscar?
Ou mexeram no jardim
Do coitado seu Joaquim?

Os meninos diligentes
Só desejam, simplesmente,
Desfrutar a liberdade
Que lhes permite a idade.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Coceirinha furibunda, 
coça embaixo, coça em cima... 
Quando coça na cacunda, 
sinto cócegas... na rima!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Sertão

NO TOPO:
"No Sertão é tanta paz
Que eu chego a ouvir, da soleira,
O esforço que o vento faz
Tentando abrira porteira".
JOSÉ OUVERNEY
Pindamonhangaba/SP

SUBINDO:
"Tentando abrir a porteira"
que prende meus velhos sonhos,
ouço a saudade matreira
falando em dias risonhos.

"O esforço que o vento faz"
farfalhando no telhado
dá-me a sensação de paz
que ficou !á no passado.

"Que eu chego a ouvir, da soleira,"
uma canção de ternura
que a brisa sopra, ligeira,
tangendo a doce ventura,

"No Sertão é tanta paz"
e a vida para, intrigante,
que o coração é capaz
de sorrir, mesmo distante.
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Trova Humorística de
GERSON CÉSAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Vendo as listras do pijama
que vestia Dorotéia,
seu genro, bêbado, exclama:
- A zebra engoliu a véia!!!
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Hino de 
FÊNIX/ PR

I
Nos braços do Ivaí caudaloso
Que ergue forte e varonil
Ó Fênix meu torrão formoso
Terra rica e tão gentil

II
Vila Rica do Espírito Santo
Testemunha os autores da história
Esta plaga que eu amo tanto
E hei de ver eternamente em tom de glória

III
És Fênix, amada
Orgulho dos filhos teus
Nasceste predestinada
E abençoada por Deus

IV
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

V
Há de ter alguém no Norte
Qual majestoso pinheiro
Do povo ao Brasil forte
No labor é o primeiro

VI
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

VII
Aos heroicos pioneiros
Que ascendiam o sucesso
Nosso afeto verdadeiro
Pela glória e o progresso

VIII
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O bêbado e sua mulher

Nem medo nem vergonha contrariam
A natural tendência.
O conto que se segue
Tem, neste caso, a marca da evidência.

Um devoto de Baco arruinava-se
Por causa da goela;
De força andava baldo, e de pecúnia...
Nem sombras na escarcela.

Um dia em que perdera a tramontana
Bebendo a bom beber,
Numa espécie de tumba
Fê-lo a esposa meter.

Quando ele, enfim, saiu da raposeira,
Viu todos os sinais que indicam morte,
A lâmpada, a mortalha... «Ó Deus, que é isto?...
Fiz viúva a consorte?»

Esta, em trajos de parca disfarçada,
Do marido se abeira:
«Quem és?» — «Eu sou da lúgubre morada
A eterna despenseira.

Dou de comer à farta aos que repouso
No reino escuro tem».
E o marido a bradar muito aguçoso:
«E que beber, não vem?»
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Mensagem na Garrafa 165 = Como consertar o Mundo


GILBERTO COTRIN
São Paulo/ SP

Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de melhorá-lo. Passava dias em seu laboratório em busca de respostas para suas dúvidas.

Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo a trabalhar.

O cientista, nervoso pela interrupção, insistiu para que o filho fosse brincar em outro lugar.

Vendo que seria impossível de movê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objetivo de distrair sua atenção.

De repente deparou-se com o mapa do mundo, e pensou; é isto.

Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita
adesiva, o entregou ao filho dizendo;

- Você gosta de quebra-cabeças, não é ? Então vou dar-lhe o mundo para consertar.

Aqui está o mundo, todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho. Faça tudo sozinho.

Calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Algumas horas depois, ouviu a voz do
filho, que o chamava calmamente...

- Papai, papai, já fiz tudo. Consegui terminar tudinho.

A princípio o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível , na sua idade ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto.

Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança.

Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível?

Como o menino havia sido capaz?

- Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu até tentei, mas não consegui. Foi então que me lembrei do homem. Então, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu já conheço bem. Quando consegui consertar o homem, virei do outro lado e vi que dessa forma eu havia consertado o mundo.

Para consertar o mundo, primeiro teremos que consertar o homem...

André Ferreira (Sândalo)


Antes era tudo muito solitário. Estava no pátio daquela casa abandonada quando percebi novos moradores chegarem. Pelas janelas, observei que eram um casal e dois filhos: uma menininha bem pequena e um garotinho um pouco mais velho. Naquela tarde, vieram todos me ver. Sentaram-se ao meu redor, no pasto e ficaram conversando por horas, enquanto tomavam um suco de laranja que tinham trazido. Assim, meus dias já não eram solitários. As crianças brincavam e corriam por perto enquanto uma brisa agradável vinha dos arredores. Eu estava sempre vendo suas peripécias.

Um dia, o pai apareceu com um balanço e as crianças ficaram entusiasmadas. Pensei que eu poderia ser útil e sustentar o brinquedo para que elas pudessem brincar. Ele logo percebeu e amarrou o balanço em meu braço estendido. As crianças adoraram e a partir daquele dia, passávamos as tardes juntos brincando de balanço. Foram os dias mais felizes da minha vida.

Uma manhã, o garotinho chegou até mim e me abraçou, enquanto a irmã, já maiorzinha, brincava se escondendo dele. Como eram quentes aquelas mãozinhas cheias de vida! Eu podia sentir a alegria dele, enquanto a irmã disparava dando risadas. Lágrimas escorriam pelo meu corpo, enquanto eu os via brincando pelo gramado.

Infelizmente, um tempo depois as crianças pararam de me visitar e eu passava os dias sozinho. Porém, certa vez, o garotinho, já adolescente, apareceu e me senti vivo novamente. Vi que a irmã, crescidinha, o acompanhava. Ela disse que eu era perfumado e fiquei muito orgulhoso.

Fazia calor e tratei de exalar meu perfume com mais intensidade. Queria que sentissem que eu estava feliz por estar com eles. Mas o jovenzinho puxou um canivete e, mesmo diante de meus gritos silenciosos, cortou minha pele. Talhou em mim os nomes deles e a menina se sentou no balanço que eu ainda tinha pendurado no braço.

Ficaram ali, conversando um tempo. Eu estava dolorido pela agressão, mas depois que foram embora, pensei que, pelo menos, tinha ficado algo dos meninos gravado em mim. Depois disso nem ele nem a irmã apareceram mais para me ver.

O tempo passou. Podia perceber pelas janelas da casa que os pais envelheceram e foram morar em outro lugar. Não sei onde. Os garotos ficaram na casa. Depois, vi que a irmã foi embora. Eu estava muito chateado porque o menino, já de barba e óculos, nunca vinha me ver.

Até aparecer um homem que eu não conhecia. Conversou com o garoto adulto, decidiram algo e apertaram as mãos. No dia seguinte, o menino finalmente se aproximou. Fiquei exultante e comecei a exalar o aroma de meu perfume, para que ele sentisse logo.

Ele parou diante de mim e notei algo diferente em seu olhar. Tocou no meu peito as letras que gravara anos antes. Depois olhou para o vazio onde antes ficava o balanço. Notei-lhe uma lágrima discreta. O homem do dia anterior estava com ele, trouxe um carrinho-de-mão e ferramentas.

Quando a primeira machadada fendeu minha casca, perfumei o machado e joguei minhas lascas o mais longe possível. Queria deixar o meu aroma na roupa do garoto, no gramado, para que ele se lembrasse de mim quando eu não estivesse mais por ali. O que mais eu poderia fazer? Só sabia amar aquelas crianças.

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André B. Ferreira é formado em Letras, Português e Espanhol pela Universidade Federal do Pampa, Pós-graduado em Estudos da Linguagem pela Universidade da Grande Dourados. Foi premiado no concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, RS nos anos de 2007 e 2012 na modalidade conto. Em 2019, teve o conto "A vontade do Senhor" selecionado para publicação na antologia "Sementes", do Primeiro Concurso Nacional de Contos do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná. Tem dois livros publicados como autor independente: Lua Cheia, o despertar e A Grande Jornada de Art.

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Contos e Lendas do Mundo (Japão) O Coelho Branco de Inaba


O deus que era Mestre da Grande Terra tinha oitenta irmãos, os quais também eram deuses. Todos os oitenta irmãos deixaram as terras do Mestre da Grande Terra, pois todos eles desejavam se casar com a Princesa Yakami, de Inaba. Então, juntos, sairam em sua jornada rumo a Inaba, colocando nas costas de seu meio-irmão, o deus Okuninushi, toda a sua bagagem.

Quando chegaram ao Cabo Keta, encontraram um coelho deitado, sem pele, e disseram a ele:

-    Você deve se banhar nesta água do mar e depois deitar-se no topo da montanha para que o vento o seque.

O coelho seguiu as instruções dos deuses mas, quando a água do mar secou, o que restava de sua pele começou a fissurar, e o pobre coelho chorava em profunda dor. Mas o deus Okuninushi, que carregava todo aquele peso, passou por último, vendo o pobre animal, perguntou:

-    Por que você chora?

E o coelho respondeu:

-    Eu estava na Ilha de Oki e desejava atravessar o mar até aqui, mas não havia meios. Por isso, enganei os tubarões dizendo-lhes, “Vamos competir qual tribo tem maior número de animais. Vocês devem se alinhar até o Cabo Keta, formando uma fila, e eu pularei de um em um e lhe darei o número exato de membros. Assim, saberemos se há mais tubarões em sua tribo do que coelhos na minha”. Então eles se alinharam e eu pulei sobre cada um deles. Quando eu estava chegando ao fim da linha, eu lhes disse, “Eu enganei vocês!” E o último tubarão me pegou e dilacerou minha pele. Eu estava deitado, lamentando o ocorrido quando os oitenta deuses passaram e me disseram para banhar-me na água do mar e deitar-me ao vento. Eu fiz exatamente o que disseram, e agora estou aqui com meu corpo todo ferido!

Então, o deus Okuninushi disse:

-    Vá rapidamente até a nascente do rio e role de um lado para o outro e seu corpo será completamente restaurado.

E o coelho fez exatamente o que o deus o havia instruído. Aquele era o Coelho Branco de Inaba, o deus Coelho.

E o Coelho disse então ao deus Okuninushi:

-    Nenhum daqueles oitenta deuses se casará com a Princesa Yakami. Embora carregue a bagagem, será você que se casará com ela.

Neste mesmo instante, a Princesa Yakami respondia ao pedido dos oitenta deuses:

-   Não me casarei com nenhum de vocês. Eu me casarei com o Okuninushi.

Os oitenta deuses ficaram furiosos e decidiram acabar com o Okuninushi. Chegando ao Monte Tema, eles disseram a ele:

-    Nessa montanha, vive o gande javali vermelho. Nós iremos espantá-lo lá de cima e quando ele descer, você deverá segurá-lo. Se você não o fizer, nós acabaremos com a sua vida.

Assim dizendo, subiram ao topo da montanha, onde pegaram uma rocha em forma de javali, acenderam uma grande chama em volta dela e rolaram-na montanha abaixo.

Quando eles desceram, avistaram Okuninushi preso entre a rocha em chamas e uma árvore, e ele estava morto.

Em vista da grande atrocidade cometida ao bom deus, a Princesa Concha e a Princesa Ostra levaram água do mar e lavaram o corpo do deus. Ele se tornou um belíssimo jovem e se levantou.

Ao avistá-lo vivo, os oitenta deuses novamente enganaram Okuninushi, levando-o para as montanhas, onde o torturaram até a morte.

Seus pais, lamentando mais uma vez a morte de seu filho, devolveram-lhe a vida e disseram:

-    Se você permanecer aqui, será mais uma vez destruído pelos oitenta deuses.

E mandaram-no rapidamente ao palácio do Príncipe da Grande Casa, na terra de Ki. Lá, os oitenta deuses tentaram destruí-lo, e por algum tempo continuaram tentando, mas falharam.

Okuninushi finalmente chegou à terra de Inaba e desposou a Princesa Yakami, que deu-lhe um filho, o deus da Boa Sorte.

Fontes:

Dicas de Escrita (A Crônica) 6. Crônica Narrativa


Título: "O Último Trem"

Era uma noite fria de inverno quando decidi pegar o trem de volta para casa. O relógio na estação marcava 23h58, e eu sabia que o último trem partiria em dois minutos. Com um pouco de pressa, atravessei a plataforma, observando as luzes brilhantes do trem se aproximando.

Ao entrar, notei que o vagão estava quase vazio, exceto por um velho senhor sentado no canto, lendo um livro. A luz suave da lâmpada iluminava seu rosto, e eu me perguntei quais histórias ele guardava em suas páginas. Encontrei um lugar ao seu lado, tentando me aquecer com o calor humano que ainda restava ali.

Enquanto o trem seguia seu caminho, o velho levantou os olhos do livro e começou a conversar. Ele me contou sobre sua juventude, as viagens que fez e as pessoas que conheceu. Cada palavra dele era como uma janela para um mundo que eu nunca havia visto. Fui absorvendo suas histórias, encantado com a maneira como ele falava sobre a vida.

De repente, o trem parou abruptamente. As luzes piscaram, e um aviso ecoou pelo vagão: “Atenção, estamos enfrentando um problema técnico. Pedimos desculpas pelo transtorno.” O velho olhou para mim e sorriu. “Ah, a vida é cheia de imprevistos, não é mesmo?”

A conversa continuou, e o tempo passou sem que eu percebesse. Quando finalmente o trem reiniciou a marcha, percebi que já estávamos quase chegando à minha estação. O velho se despediu, me deixando com uma sensação estranha de que, em apenas uma viagem de trem, eu havia aprendido mais sobre a vida do que em meses de rotina.

Análise dos Elementos Utilizados

1. Narrador:

A voz do narrador é em primeira pessoa, permitindo uma conexão íntima com suas emoções e experiências durante a viagem.

2. Tema:

O tema central é a conexão humana e a troca de experiências, explorando como momentos inesperados podem trazer aprendizados valiosos.

3. Estilo Narrativo:

A crônica segue uma estrutura narrativa, contando uma história com um começo, meio e fim, o que a torna mais envolvente.

4. Elementos Descritivos:

Descrições detalhadas da estação, do trem e do velho senhor ajudam a criar uma atmosfera vívida, permitindo que o leitor visualize a cena.

5. Diálogo:

As falas do velho adicionam profundidade ao personagem e tornam a narrativa mais dinâmica, permitindo que o leitor se conecte emocionalmente.

6. Moral ou Reflexão:

A crônica termina com uma reflexão sobre a vida e a importância das conexões humanas, deixando o leitor com uma sensação de nostalgia e aprendizado.

Esse exemplo mostra como uma crônica narrativa pode contar uma história envolvente, utilizando elementos literários para criar uma conexão emocional e reflexiva.

Fontes:
I.A. Dola, 2026
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sábado, 28 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 5. O Tapete do Destino

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites


"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), almas curiosas. Aproximem-se, pois o fio que vou tecer agora é feito de astúcia e de uma coragem que nem as tempestades de areia podem apagar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes contarei como a mente de uma mulher pode ser mais afiada que a espada de um mameluco*.

"Bismillah" (Em nome de Deus), comecemos a urdir esta trama.

Nas montanhas do Atlas, vivia uma jovem chamada Layla, famosa por seus tapetes que pareciam capturar as cores do por do sol. 

Um dia, um adivinho sombrio passou por sua aldeia e, ao olhar para a palma de sua mão, sentenciou: "Maktub (Está escrito): Antes que a próxima lua cheia se ponha, a pobreza baterá à sua porta e levará sua última gota de esperança."

Layla sentiu o frio do medo, mas não se curvou. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), pensou ela, "se o destino é um tecido, eu sou aquela que segura a agulha."

Ela não parou de trabalhar. Em vez de lamentar, Layla começou a tecer um tapete diferente de tudo o que já fora visto. Era um tapete de "Kohl" (Negro profundo), mas com fios de seda que brilhavam como prata sob a luz da lua. Nele, ela não desenhou flores ou figuras geométricas, mas sim o mapa das estrelas e os segredos do vento.

Quando a lua cheia chegou, o Destino, personificado na figura de um cobrador implacável enviado por um mercador ganancioso, bateu à sua porta. 

"Vim levar seus teares e sua casa por dívidas que seu pai deixou", disse o homem com voz de pedra.

Layla, com um sorriso calmo, disse: 

"Ahlan wa Sahlan" (Seja bem-vindo). "Antes de levar tudo, peço que avalie esta peça única. É o Tapete do Tempo. Dizem que quem pisa sobre ele pode ver o futuro, mas apenas se o seu coração for puro."

O mercador, movido pela ganância e pela curiosidade, pisou no tapete. Layla, com sua habilidade de tecelã, havia criado uma ilusão de ótica com os fios de prata; ao se mover sobre eles, o mercador sentiu como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés, revelando um abismo de estrelas. Assustado e acreditando estar diante de uma magia poderosa que punia os gananciosos, ele caiu de joelhos.

"Perdoe-me!" gritou o homem. "Afwan" (Perdão)! "Fique com tudo, apenas me deixe sair deste feitiço!"

Layla permitiu que ele fugisse. Ela não havia mudado o que estava escrito nas estrelas, mas mudou a forma como o mundo a via. A pobreza nunca entrou naquela casa, pois sua fama de "Sábia dos Tapetes" atraiu viajantes de todo o "Magrebe" (Ocidente Árabe), que pagavam fortunas para ouvir seus conselhos enquanto ela tecia.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a inteligência é o presente mais precioso dado aos mortais. O destino pode escrever a primeira linha, mas somos nós que terminamos a estrofe.

Obrigado por me ouvirem sob este manto de estrelas. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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Mamelucos = casta de soldados-escravos no mundo islâmico, frequentemente de origem cristã convertida, que ascendeu ao poder no Egito e na Síria (séculos XIII-XVI)

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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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