quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Lucília A. T. Decarli (Semeando Trovas)

 

1
A mensagem do poeta,
por muitos despercebida,
de forma sábia e completa
exalta a essência da vida!
2
Ante um fato contundente,
não podendo fazer nada,
é nas mãos do Onipotente
que eu coloco a minha estrada.
3
Antes que a vida se acabe,
não seja vão o viver
e aquilo que não se sabe,
que se comece a aprender.
4
As cinzas, na quarta-feira,
servem para nos lembrar
que esta vida é passageira
e que ao pó vamos tornar…
5
Da sua casa ao cartório
apenas um quarteirão...
Dada a preguiça, o casório
se fez por procuração.
6
Decretaste uma sentença
bem cruel, na despedida,
ao privar-me da presença
que era tudo em minha vida!
7
Deixando em mim forte anseio
pelo seu jeito de amar,
você se foi como veio:
- numa noite de luar!
8
Desde os tempos mais pagãos,
mulher, revelas quem és...
O mundo sempre nas mãos
e sempre um homem... aos pés!
9
Desprovida de coragem
não pude o amor declarar,
mas minha muda mensagem
estava escrita no olhar!
10
De volta, naquela viagem,
carregando o olhar tristonho,
via de perto a paisagem,
mas bem distante o meu sonho...
11
Envolvidos em discórdia,
a Deus pedimos perdão
e a "Eterna Misericórdia"
responde "sim"... de antemão!
12
Esta paixão, minha e tua,
transcende em cada arrebol…
Se é noite, ao clarão da lua,
e se é dia, à luz do sol!
13
Este ciúme, meu tormento,
brota em lágrimas veladas,
que, independente do intento,
revolvem "águas passadas"...
14
Foi pirraça inusitada
aquela da sogra à nora:
ficou com ela abraçada
para passar catapora!...
15
Levo pela vida afora
este dilema sem fim:
o "sim" que eu neguei outrora
fez mal ou bem para mim?!...
16
Mesmo em escrito disperso,
nossa língua portuguesa,
seja em prosa, seja em verso,
reveste-se de beleza!
17
Musa de tantos amores,
neles, inspirada a lua,
repete ao sol sem temores:
– “Incendeia-me… sou tua”!
18
Não conhece despedidas,
nem discórdias, nosso teto:
- é que ligam nossas vidas
os laços fortes do afeto!
19
Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz:
- grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
20
Na rua a multidão passa...
Humanos, juntos - é  certo -,
mas, vejo, pela vidraça,
cada qual no seu deserto.
21
Nas ruas de minha vida,
cada esquina uma lição,
e em cada etapa vencida,
muito zelo… de antemão!
22
Nau partindo – céu aberto,
nas verdes águas do mar;
navega com rumo certo
na incerteza de chegar!…
23
Nem sempre vamos vencer
nessa ou naquela disputa...
O que importa é não perder
a coragem para a luta!
24
No bilhete em que disseste:
"vou, mas volto sem demora",
por descuido não puseste
nem o dia nem a hora...
25
Nos ombros dilacerados
Tu carregaste, Senhor,
o peso dos meus pecados
e o meu vazio... de amor!
26
Nossa amizade é tão forte
que eu ouso exemplificar:
– se um corre risco de morte,
o outro morre em seu lugar!…
27
O café, condecorado
por ter sabor sem igual,
hoje, fato consumado:
– é bebida universal!
28
O destino, em nossas vidas
trouxe o reencontro, depois
das distâncias percorridas
nos caminhos de nós dois
29
O relógio, sem piedade,
marcando o tempo inclemente,
foi transformando em saudade,
a esperança decrescente…
30
Os abraços das chegadas
e os abraços das partidas,
com tantas datas marcadas,
vão marcando as nossas vidas!
31
O terapeuta sugere:
- “Apimente” a relação!
Mas a mulher interfere:
- “Tô fora! Pimenta não!
32
Para enxergar a cobiça
e amparar prejudicados,
não deveria, a Justiça,
manter seus olhos vendados!
33
Por nunca amar quem me ama
e amar quem nunca me quis,
as feridas do meu drama
deixam dupla cicatriz...
34
Prisioneira deste encanto
que transmite o teu olhar,
preciso fugir, no entanto,
não quero me libertar!
35
Quando fingir é preciso,
seriamente eu me concentro:
– levo na face um sorriso,
enquanto eu choro por dentro.
36
Quando vens, só de passagem
no escasso tempo, mas pleno,
o amor faz grande a coragem
e o medo fica pequeno!..
37
Quem julga o seu semelhante
carrega pedras na mão
e o que odeia a todo instante,
as guarda em seu coração!
38
Quero ser como o coqueiro,
que não desiste, jamais;
mesmo envergado, altaneiro
à fúria dos vendavais!
39
Repasso o livro da vida...
Nessas páginas viradas,
reverti muita partida
em momentos de chegadas!..
40
Sanar miséria contida
no coração do indigente,
não consiste em dar comida,
mas tratá-lo como gente!
41
Se és menos corpo, mais alma,
se o mundo te fez ancião,
leva no semblante a calma
de ver findando a missão.
42
Sendo a existência pautada
com regras de retidão,
que a marca maior da estrada
seja os passos do perdão!…
43
Se viveres, amiúde,
longas noites de boemia,
perderás tua saúde
e para sempre a alegria…
44
Todo homem tem na mulher
um mistério a desvendar:
- sempre ela sabe o que quer,
mas nem sempre quer falar!...
45
Vigiando o companheiro
ela fica no seu pé;
só se afasta indo ao banheiro,
mesmo assim, de marcha a ré...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Lucília A. T. Decarli (1939)
        LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova (poema de quatro versos setessílabos com rimas alternadas) e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Biografia = Folha do Norte do Paraná, UBT-Recife, Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná, Dário Indústria & Comércio, etc.

Mensagem na Garrafa 213 = A estrela verde

Imagem = IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez... Milhões e milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, lilases, prateadas, douradas, vermelhas, azuis.

Um dia, elas procuraram o Senhor Deus, Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo e disseram-lhe:

- Senhor Deus, gostaríamos de viver na Terra, entre os homens.

- Assim será feito, respondeu Deus. Conservarei todas vocês pequeninas, como são vistas, e podem descer à Terra.

Conta-se que naquela noite, houve uma linda chuva de estrelas. Algumas se aninharam nas torres das igrejas, outras foram brincar e correr com os vagalumes, no campo, outras misturaram-se aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada. 

Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para o Céu, deixando a Terra escura e triste.

- Por que voltaram? perguntou Deus, à medida que elas chegavam ao Céu.

- Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria, muita desgraça, muita fome, muita violência, muita guerra, muita maldade e muita doença.

E o Senhor lhes disse:

- Claro, o lugar real de vocês é aqui no Céu. A Terra é o lugar do transitório, daquilo que se passa, do ruim, daquele que cai, daquele que erra, daquele que morre, é onde nada é perfeito. Aqui no Céu, é o lugar da perfeição. O lugar onde tudo é imutável, onde tudo é eterno, onde nada padece.

Depois de chegarem todas as estrelas e conferindo o seu número, Deus falou de novo:

- Mas está faltando uma estrela. Perdeu-se no caminho?

Um anjo, que estava perto retrucou:

- Não, Senhor. Uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que seu lugar é exatamente onde existe imperfeição, onde há limites, onde as coisas não vão bem.

- Mas que estrela é essa? – voltou Deus a perguntar.

- Por coincidência, Senhor, era a única estrela dessa cor.

- E qual é a cor dessa estrela? insistiu Deus.

E o anjo disse:

- A estrela é verde, Senhor. A estrela verde do sentimento de esperança.

E quando então olharam para a Terra, a estrela não estava só.

A Terra estava novamente iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa.

Porque o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a esperança. Deus já conhece o futuro, e a esperança é própria da natureza humana. Própria daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que ainda não sabe como será seu futuro.

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Erro crasso”

General romano Crasso

A cultura popular incorporou essa expressão a partir do erro do general romano Marco Licínio Crasso, que em 53 a.C. perdeu a batalha de Carras e nela também a própria vida. Crasso era um figurão que dividiu o poder com Júlio César e Pompeu no ano 59 a.C, no período historicamente conhecido como Primeiro Triunvirato. Obcecado por conquistar o Império Parto, na Mesopotâmia, esse oficial atacou a cavalaria inimiga em campo aberto com uma tropa de infantaria a pé, e o resultado foi que teve seu exército dizimado. 

Assim, a expressão "Erro crasso", equivale a um erro grosseiro, visível, primário, inaceitável e possui duas conotações: a da sua origem linguística real e a aventura militar que devastou tantas vidas. 

A palavra deriva do latim “Crassus”, que literalmente significa gordo, denso, espesso, bruto ou volumoso. Com o tempo, passou a ser usada em sentido figurado para indicar algo sem refinamento, tosco ou muito evidente. Um "Erro crasso" é um erro elementar, percebido de cara, algo tão denso, volumoso e visível, que não pode passar despercebido. 

Quanto à origem histórica, como dito antes, a expressão é associada à tragédia das tropas do general romano Marco Licínio Crasso, que viveu de 115 a.C. a 53 a.C., o homem mais rico de Roma, cujo eco anabolizado e superlativa vaidade, eram infinitamente maiores do que sua própria fortuna pessoal.

Faminto por glória militar, liderou ele uma campanha contra o Império Parta (região onde está o Iraque), porém ignorou os conselhos dos oficiais do seu “staff”, recusou a ajuda de aliados e marchou com 40.000 soldados pelo deserto para o combate frontal, sem o devido respaldo tático ou logístico. O resultado dessa sandice foi que, ao encontrar as tropas adversárias na Batalha de Carras, a infantaria romana foi cercada e quase aniquilada pelos arqueiros partas, que disparavam flechas certeiras de um plano mais alto, montados em seus cavalos. 

Na refrega, que os apanhou desprotegidos, mais de 20.000 combatentes de sua tropa morreram, incluindo o general e seu filho, sendo os milhares de feridos e sobreviventes, capturados e aprisionados. Foi um dos piores desastres militares de toda a história de Roma, que desfrutava da fama de ser imbatível. 

Embora linguistas reforcem que o adjetivo “crassus”  já existia no latim com o sentido de "grosseiro" antes mesmo do general Crasso ficar famoso pela fragorosa derrota, que consolidou para sempre a expressão na cultura popular. 

No cotidiano, jornais, blogs, sites, redes sociais e o noticiário televisivo nos revelam notícias estarrecedoras sobre erros crassos cometidos nas mais diversas profissões, sejam manuais, técnicas ou intelectuais. 

Cirurgiões esquecem pinças no abdome de pacientes; engenheiros constroem prédios que desabam ao sopro mais vigoroso do vento; comandantes encalham navios por equívocos nas plotagens de rumos; motoristas morrem e matam ao ultrapassarem em locais proibidos; árbitros de futebol validaram gol feito com a mão em Copa do Mundo, dentistas erram nos moldes das próteses móveis e o cliente sai praticamente mudo do consultório...  

Na literatura, na música popular brasileira e em geral no cancioneiro nacional, o termo "erro crasso" é frequentemente usado por críticos literários, professores e linguistas para classificar graves desvios gramaticais, de concordância nominal ou verbal, inadvertidamente cometidos por desatentos autores. As petições judiciais, redigidas na refinada linguagem forense, é o território fértil onde argutos advogados alfinetam impiedosamente colegas que por pura desatenção cometem gafes primárias, denunciando-as ao juiz em termos respeitosos, porém destilando veneno contra “quem de direito”. Um exemplo, pinçado do anedotário jurídico, foi o que escreveu o causídico, contestando incisivamente o pedido feito pela parte contrária:

“MM JUIZ: O pedido da autora é improcedente. Ajuizou a presente ação de investigação de paternidade em favor do menor M.D.C, porém laborou em grave equívoco, pois na aludida ação figura como ré Marinusa da Silva(*). Trata-se, a toda evidência, de clamoroso, lamentável e imperdoável erro crasso de  para V. Exa., por impossível biologicamente, que a senhora Marinusa Silva não é o pai do menor M.D.C!!!...”

Ainda no universo das relações jurídico-processuais, os Oficiais de Justiça, quem diria, eventualmente engordam as extravagâncias forenses com suas certidões incorretas, imprecisas, quando não simplesmente anedóticas. Em “Ação de busca e apreensão de uma motocicleta” proposta por uma instituição financeira contra o cliente que deixou de pagar as prestações do financiamento, o zeloso meirinho certificou nos autos: 

“CERTIFICO E DOU FÉ, que no dia 28/07/1997 compareci ao endereço constante do mandato e lá chegando, fui informado na portaria do prédio que o requerido não mais residia naquele endereço. Dialogando com alguns moradores presentes ao ato, uma atenta e bem informada vizinha do réu declarou que tão logo soube da ação visando apreender sua moto, o devedor se evadiu para lugar ignorado, montado na mercadoria. Assim, devolvo o presente mandato para os devidos fins”. 

O festejado escritor, historiador, pesquisador, palestrante, artista plástico, acadêmico e advogado Sebastião Godinho, destacado membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo, que lidera quixotescamente as batalhas contra a dilapidação dos monumentos de Belém e a deturpação da memória história do Pará, recentemente se valeu da expressão “Erro crasso” para denunciar mais uma danosa omissão da Prefeitura, quanto à incorreta denominação dos logradouros da Capital paraense. Profligou ele, em sua apreciada página no Facebook e sem dissimular a indignação, a grafia incorreta da placa que identifica uma das nossas importantes ruas:

“Outro erro crasso que compromete o bom entendimento da História. Angostura e não Angustura era o nome da fortificação que se rendeu, sem combate, às forças brasileiras que a ocupou em 30 de dezembro de 1868, dentre os conflitos ensejados pela Guerra do Paraguai. Mais um equívoco que expõe a nossa ignorância a respeito do tema, sem que ninguém mova uma palha para retificá-lo. Enquanto isso, o presidente da câmara de Belém se preocupa em aprovar uma lei que eleva a condição de patrimônio imaterial do povo belenense, o som automotivo. Pode?”.

Ressalve-se, por necessário, que no ilimitado universo da arte, em especial na poesia, o que poderia ser visto como "erro crasso" é tolerado e aceito como licença poética, recurso estilístico ou variação linguística necessária para manter a métrica, a rima e a identidade cultural de uma canção. 

Ildefonso Guimarães, saudoso mestre da ficção que no passado abrilhantou a Academia Paraense de Letras, em seu livro “Senda bruta” (que em 1963 merecidamente recebeu o Prêmio Samuel Mac Dowell da APL), discorrendo sobre as antigas festas juninas, nos mostra em “Caminhos do Vento” (p. 40/41) que fazer rimas perfeitas não é a única forma de dar musicalidade aos versos:

“Eu sou caçador afamado
Que vim lá da cabeceira;
Hoje eu mato esse boi,
Seja lá de que maneira!

Não caçador!
Faz pena, faz horror!
Não mate esse boi
Que meu amo criou!!!”

Um verdadeiro show, em especial por se tratar de texto da lavra de poetas anônimos, o que nem de longe significa escrever errado. E a prova disso são os versos de rima falsa que o genial escritor utilizou, como acima se vê. Regra geral, versos rimados precisam terminar com a mesma sonoridade, isto é, não se pode combinar singular com plural, som fechado com aberto, nem tônico com átono, etc. Por tal razão, fora do amplo espectro da licença poética, rimar de outra forma, sempre é vista pela crítica como “erro crasso”, expressão cuja origem o leitor agora já sabe exatamente de onde veio, assim como e porque se albergou em definitivo no nosso português de cada dia!
= = = = = = = = = = = = = =  
(**) Nome fictício
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem =  Zentral Media 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

Edy Soares (Cristais Poéticos) VII

 

EPÍLOGO

Já sem querer mudar o mundo,
Sinto-me apenas um sentinela,
Um simples vigia.

Arrisco olhares pela janela.
É imenso, é profundo
O abismo da cidade fria.

Nem frestas, nem lampejos,
Nem luz no fim do túnel.
Até me fraquejo!
Nada vejo; nada espero!

Ao que me parece,
No intervalo de cada prece,
Assim como as mentes,
As ruas ficaram vazias.

Sem luta, sem luto,
Sem recompensa,
Se finda a história.

Não há música,
Ninguém toca,
Ninguém mais escuta,
Não há mais, sequer,
Quem movimente a batuta.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

JANGADEIRO

Jangadeiro na noite escura,
Sem vela, sem armadura,
Sem remo, perdeu o norte.
Tá entregue ao acaso e à sorte.

Jangada que sob os pés se desfaz,
Socorro que não chega mais,
Pois a esquadra perdeu seu dono,
E os fuzileiros caíram no sono.

Tempestades que trazem medo,
Mares de céu cinzento,
Jangadeiro pede socorro,
À deriva vai noite adentro.

Na terra, ficou sem chão;
No mar, quase sem jangada
à procura de peixe ou pão,
Perdeu-se da enseada.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O SILÊNCIO

Silenciaram-se os sinos e buzinas,
O trem não mais saiu da estação.
Folhas vagam sopradas nas calçadas,
Faz algum tempo...
Muito tempo, desde aquele último clarão.

Da janela, nunca mais trancada,
A vista da rua gélida, fantasma.
Nada que tenha vida ou movimento,
A não ser coisas que o vento ainda sopra.

Imagens na memória, longínquas,
De pessoas sentadas na praça,
E gritos infantis nunca mais ouvidos,
Somente o ruído do vento que passa.

A lua...
Ah! A lua parada no céu,
Até o sol, não mais movimenta,
Parece que a terra agarrou em sua órbita,
Nem sei se é ela, ainda um planeta.

Apalpo nas coisas, me apalpo a toa,
Que susto!...
Nada sinto! Nada sinto!
Estou abstrato, não toco nem grito,
Não tenho um formato, tá tudo esquisito.

Pouco a pouco arisco, arrisco um grito,
Nada sai da garganta, me vem um arrepio!
Não há marcação de tempo, só ouço o vento,
Não há mais dia ou noite... Ficou infinito.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

QUANDO A ALMA SE VAI

Um dia a alma acorda,
Bate asas e vai-se embora.
Aqui ela deixa apenas
Saudades nos olhos que choram.

Se vai pra lugar distante,
Repousar em outras esferas,
Preparar, talvez, lugares
Pra outras que aqui esperara.

De onde veio é incógnita,
Aonde vai não se sabe.
Se encontra lugar melhor,
Em nosso pensar não se cabe.

Se aonde vai é eterno,
A alma não é pequena,
Mas grande se prende ao fato
De que a vida aqui vale à pena.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

REBANHO PERDIDO

Estourada boiada, sem rumo,
Berrante que não ecoa,
Manada que, sem um norte,
Se perde correndo à toa.

Sem um campeiro nobre,
Condutor que conhece a trilha,
Tem lugar, tantos errantes,
Que entregam o rebanho à matilha.

Não andam mais, perfilados,
Dispersos e em desatino,
Pisoteia-se toda a manada.

Qual rebanho que, sem campeiro,
Em trote, vão sem destino
Ou perdidos em disparada.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Edy Soares (1964)
EDY SOARES (cujo nome de batismo é Edmardo Lourenço Rodrigues) é um poeta, sonetista clássico e trovador brasileiro. Nascido na cidade de Ibatiba/ES, em 1964, se destaca nacionalmente como uma das principais vozes da revitalização e preservação do movimento trovadoresco e do soneto clássico no Sudeste do Brasil. Nascido em solo capixaba e filho de pais agricultores, sua trajetória internacional e regional moldou sua vivência. Residiu nos Estados Unidos entre os anos de 1991 e 2006. Santo: Após retornar ao Brasil, fixou residência no município de Vila Velha/ES, onde vive, trabalha e mantém sua base de atuação cultural e empresarial. Paralelamente ao seu envolvimento de décadas com as letras, Edy Soares atua profissionalmente como empresário do ramo hoteleiro. Destaca-se por sua atuação em grandes eventos literários, tendo integrado ativamente as equipes de apoio, debates e programação da FLIC (Feira Literária Capixaba) nas edições de 2015, 2016 e 2017, além de participar da Bienal Capixaba do Livro.
Edy Soares possui uma vasta folha de serviços dedicados à comunidade literária de forma institucional, atuando de maneira marcante na liderança de agremiações de fomento à poesia. Exerceu o cargo de Presidente Estadual da UBT no Espírito Santo e presidiu a seção municipal em Vila Velha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO); Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA);* Acadêmico Correspondente da Academia Iunense de Letras (AIL); Membro da ASSEI (Associação de Escritores de Ibatiba), em sua terra natal.
O autor é amplamente reconhecido por dominar a técnica de formas poéticas fixas. Suas principais publicações incluem: Poemas, Canções e Sonetos; Flores no Deserto; Sonetos Sonantes; Três em Trovas (coautoria); Além de participação como prefaciador de obras regionais e publicação em dezenas de antologias e coletâneas literárias nacionais. Ao longo de sua trajetória na poesia acumulou importantes distinções, como Troféu Carlos Drummond de Andrade (2015): Recebido na histórica cidade de Itabira/MG, em reconhecimento à sua produção poética. Diploma Especial de Mérito Cultural concedido por academias literárias capixabas devido à sua dedicação e contribuição para a difusão da arte e das letras. Classificado recorrentemente em certames nacionais e internacionais e convidado frequente para compor comissões julgadoras de concursos de trovas.
A relevância de Edy Soares para a literatura contemporânea reside essencialmente no seu papel de preservador e articulador das formas poéticas tradicionais no Brasil. Em uma época literária amplamente dominada pelo verso livre, ele atua como resistência estética ao produzir e ensinar o soneto clássico e a trova. Mais do que produzir textos, sua importância manifesta-se no associativismo: ao liderar a UBT no Espírito Santo, ele ajudou a transformar a trova de uma prática de escrita solitária em um movimento coletivo forte. Edy estimula o surgimento de novos trovadores, organiza concursos de fomento à escrita rápida e sintética e atua ativamente conectando a literatura clássica às novas dinâmicas das redes sociais e feiras de livros modernas.

Fontes:
Edy Soares. Flores no deserto. Vila Velha/ES: Ed. do Autor, 2015. Livro enviado pelo poeta.
Biografia = Recanto das Letras, Academia Iunense de Letras, Facebook, Clério Borges, etc.

Vanice Zimerman (Premiada no Vladimir Devidé Haiku Award 2026)

George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira, da APB-PR, figura entre os segundos colocados, recebem menção no concurso que reuniu 237 poetas de 40 países e mantém viva a ponte cultural construída em torno do haicai.

O Brasil voltou a ocupar espaço no circuito internacional do haicai. George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira estão entre os autores reconhecidos na edição de 2026 do International “Vladimir Devidé” Haiku Award, concurso que reuniu 237 poetas de 40 países. O resultado foi definido pelo júri formado por Tomislav Maretić, Boris Nazansky e Drago Štambuk e divulgado em 22 de agosto, data que marca a morte de Vladimir Devidé. O Brasil teve 19 participantes, atrás apenas da Croácia, dos Estados Unidos e da Índia em número de concorrentes.

O prêmio leva o nome de Vladimir Devidé, matemático, japanólogo, tradutor e poeta croata que se tornou um dos responsáveis pela difusão do haicai e da cultura japonesa na Europa. A trajetória da premiação nasceu associada ao trabalho de Drago Štambuk e Joseph Haldane e ao ambiente institucional da The International Academic Forum — IAFOR, que registra o prêmio como aberto a haicais inéditos escritos em inglês, sem estabelecer preferência entre a forma tradicional e as experiências modernas do gênero. A própria IAFOR relaciona à história da iniciativa o apoio da Haiku International Association, do Haiku UNESCO Promotion Council e da The Haiku Foundation.

Em 2026, a chamada internacional foi divulgada também pela The Haiku Foundation como a décima edição do International Vladimir Devidé Haiku Award. Cada participante poderia enviar um haiku em inglês, e os resultados seriam anunciados justamente em 22 de agosto. A divulgação oficial da edição ficou a cargo do Društvo hrvatskih književnika — Sociedade dos Escritores Croatas, instituição que publicou a relação dos premiados e informou que os trabalhos escolhidos seriam reunidos em edição própria.

George Goldberg, ligado ao Haikai Zen, aparece no grupo dos runners-up, correspondente à segunda faixa de premiação. Seu haicai trabalha a chegada de uma folha seca e a passagem por um cemitério — chamado, no poema, pela expressão inglesa “God’s Acre”. Em três versos, o movimento mínimo da folha desloca o leitor para uma percepção de finitude:

arrives suddenly
one more dry leaf
through God’s Acre

O poema faz aquilo que o haicai exige quando levado à sua economia maior: não explica a morte, não discorre sobre o tempo e não transforma a imagem em discurso. Apenas coloca a folha, o movimento e o espaço diante do leitor. A leitura nasce do intervalo entre essas três informações. George Goldberg foi relacionado oficialmente entre os autores da segunda premiação do concurso.

Vanice Zimerman Ferreira, integrante da Academia Poética Brasileira — Seccional Paraná, recebeu reconhecimento na categoria Commended. Seu poema parte de outra paisagem e de outra temporalidade:

in the morning light - 
the sunflower seeds
freshly planted

Há luz, sementes e um ato recém-concluído. Não existe no texto a necessidade de anunciar esperança ou futuro; a própria semente plantada realiza essa função sem que o poema a nomeie. Essa capacidade de retirar a explicação e conservar a imagem está no centro de parte importante da tradição do haicai: dizer menos para ampliar o campo de percepção de quem lê. O júri incluiu o texto de Vanice entre os trabalhos reconhecidos da edição de 2026.

No caso de Vanice, a premiação também encontra continuidade em um percurso dedicado ao haicai. Nascida em Curitiba, formada em Letras Português/Inglês, escritora e artista plástica, ela participa há anos de antologias e concursos ligados ao gênero, inclusive na Croácia. Em entrevista publicada em 2024, relatou que seu processo de escrita frequentemente começa na observação de folhas, gotas d’água, insetos, imagens, cores e alterações de luz — elementos que ajudam a compreender a origem de muitos de seus poemas. Em junho de 2026, a própria autora registrava participação em antologias croatas desde 2015.

Há ainda um dado que reforça a continuidade desse trabalho. Poucas semanas antes do resultado internacional, Vanice obteve primeiro lugar, na categoria adulto estadual de flora, no 10º Concurso de Haicai de Toledo — Kenzo Takemori 2026, com 

“silente manhã — 
jacarandá florido 
tinge a janela”. 

Não se trata, portanto, de uma aparição isolada em concursos: existe produção, participação, leitura, exercício de forma e circulação do haicai.

E é exatamente nesse ponto que cabe o elogio da Academia Poética Brasileira à sua integrante. Vanice Zimerman chegou a um júri de outro país levando três versos e uma cena: luz da manhã, sementes de girassol, terra recém-plantada. O júri respondeu incluindo seu nome entre os autores reconhecidos. Para a APB-PR, esse resultado representa trabalho transformado em presença brasileira fora das fronteiras do país. Não é necessário acrescentar qualificativos ao fato. A premiação já contém a medida do reconhecimento.

A presença simultânea de George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira entre os escolhidos de 2026 também chama atenção para a inserção do haicai produzido no Brasil em uma tradição que há mais de um século encontrou leitores e praticantes no país. Num concurso em que 40 nacionalidades se encontraram por meio de poemas de três versos, dois brasileiros atravessaram o processo de seleção. George com a folha seca que chega ao território dos mortos; Vanice com sementes de girassol lançadas à terra sob a luz da manhã. Entre aquilo que cai e aquilo que acaba de ser plantado, o Brasil terminou a edição de 2026 representado por duas imagens que cabem em poucas palavras — justamente onde o haicai começa.
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Vanice Zimerman (1962)
VANICE ZIMERMAN FERREIRA (que assina artisticamente como Vanice Zimerman) é uma poetisa, haicaísta, artista plástica, fotógrafa e ilustradora brasileira. Nascida em Curitiba/PR, em 1962, ela se consolidou na capital paranaense — onde reside e trabalha — como uma das principais referências contemporâneas no diálogo entre a poesia de matriz japonesa (o haicai) e as artes visuais. A carreira de Vanice Zimerman une umbilicalmente as Letras e as Artes Visuais. Graduou-se em Letras (Habilitação em Português e Inglês) pela Faculdade Machado de Assis (FAMA), concluindo o curso em 2010. Também estudou Artes Visuais na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Atua como escritora, artista plástica e educadora. Desenvolve um trabalho dinâmico ministrando oficinas de haicais e técnicas de aquarela, integrando a sensibilidade poética à expressão visual e às texturas das tintas (frequentemente usando elementos orgânicos como café, vinho e chás em suas telas). 
Embora escreva poesia desde os 13 anos de idade, sua inserção formal no mercado editorial e em concursos teve início a partir de 2007. Sua marca registrada é a dedicação ao haicai clássico — poema conciso de três versos focado no momento presente e na natureza. Ela pertence à Academia Poética Brasileira (APB) (onde é membra acadêmica ativa) ; Centro de Letras do Paraná (CLP) ; International Writers and Artists Association (IWA), entre outras.
Dona de uma produção literária vasta, ela possui textos espalhados em mais de 115 livros entre coletâneas, antologias nacionais e internacionais, e-books e revistas culturais. Destacam-se A Lâmpada e as Estrelas (Coletânea de Haicais, 2012) ; Poemas & Imagens (2013); Samoborski Haiku Susreti / Samobor Haiku Meeting (Antologias internacionais publicadas na Croácia, nas quais participa consecutivamente); Kabocha (Antologia internacional, 2016); Atuação como prefaciadora e capista de materiais didáticos sobre o gênero, como o manual O Passo a Passo do Haicai.
Premiada em concursos internacionais de haicai na Croácia (como as seleções de Kabocha em 2016 e as premiações em Ludbreg. Medalha Monteiro Lobato (2015): Distinção por seu papel na disseminação cultural. A relevância de Vanice reside sobretudo em sua atuação como divulgadora e mestra da vertente do haicai no Brasil. Ela é uma das vozes que mantém viva e descentralizada a tradição do poema curto de origem japonesa no Sul do país, demonstrando que a concisão poética (de apenas 17 sílabas) pode capturar a imensidão do cotidiano. Além disso, sua importância se expande através do conceito de Haiga (a união clássica entre a pintura e o haicai). Ao unir suas fotografias e aquarelas aos seus escritos, ela constrói pontes raras entre a literatura e as artes plásticas, educando novas gerações de escritores por meio de suas oficinas práticas.

Fontes:
Plataforma Nacional do Facetubes'Card' internacional, 
Por: Mhario Lincoln. 24/08/2026 – Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
https://www.facetubes.com.br/noticia/8115/dois-brasileiros-colocam-o-brasil-entre-os-laureados-do-vladimir-devide-haiku-award-2026
Biografia = Singrando Horizontes, Recanto das Letras, Facetubes, Kakinet, Clube de Autores, etc.

Nilto Maciel (Anedota Medieval)

As núpcias do arquiduque Filipe e da duquesa Isabel ensejaram dias e dias de festa no castelo. Instituiu-se até uma nova ordem – a do Velocino Dourado. Afinal, o senhor tornava-se mais poderoso. A moça trouxera algumas cidades como dote.

Passada a lua-de-mel, Dom Filipe anunciou a primeira separação. Devia participar de uma cruzada. Nas longínquas terras dos infiéis.

Perdida no imenso castelo, cercada de condes, duques, marqueses, viscondes, barões – Isabel estaria por demais exposta ao pecado. E, na ausência de Filipe, quem a velaria? Quem a defenderia? Quem a vigiaria? Ora, um guarda. Sim, um bom e robusto vigia. Um eunuco.

E Platão se instalou no castelo, para defender, velar e vigiar a duquesa.

Longe do marido, Isabel sofria. Para onde ia, também ia o eunuco.

A beleza da senhora aturdia Platão. Dias e noites a mirá-la. No entanto, ela mal olhava para ele. Além de plebeu, eunuco. A solidão, porém, aproximou um do outro. Conversavam e até riam. Ela fazia perguntas, ele contava episódios de sua vida. Não gostava do próprio nome. Muito menos de filosofia. Se pudesse, se chamava Plutão. Adorava mitologia.

Cada vez mais aturdido, o eunuco não continha palavras para satisfazer a curiosidade de Isabel. Servira no serralho do palácio do sultão Abu Talib, em Constantinopla. Guardava as esposas e concubinas do grão-senhor. Beldades fascinantes. Nenhuma, porém, mais formosa que ela, Isabel.

E descrevia cada centímetro do harém.

De Dom Filipe nem notícias. As batalhas se sucediam nas terras dos mouros e os mensageiros falavam apenas de morte e destruição.

Insensível às dores do mundo, Platão só vivia para adorar Isabel. E morria de paixão. Amor impossível. Verdadeiramente platônico. Ora, ela casada e nobre, e ele um pobre eunuco. Não, jamais poderia possuí-la.

Cada vez mais triste, Platão descuidava-se de vigiar Isabel. Refugiava-se em seu quarto. Chorava, imaginava fugir, esquecer aquele amor absurdo. Matar-se, talvez.

Desesperado, decidiu revelar seus sentimentos à duquesa. Qual, porém, não foi sua surpresa! Ela também o amava.

Longe, muito longe do castelo, os cruzados do arquiduque enfrentavam as cimitarras sarracenas. E matavam e morriam com fé, mas sem amor.

Apaixonados, Platão e Isabel ora riam, ora choravam. Riam porque amavam. Choravam ante a deformidade dele.

Noites e noites se passaram. E mais o amor dos dois se exacerbou. Porém, como consumá-lo?

Platão se rendeu de novo à tristeza. Passava horas e horas trancado em seu quarto, longe de Isabel. Um desgraçado! Melhor morrer.

Teve então um sonho. O Dr. Hipócrates, após complicada cirurgia, tornava-o um homem como outro qualquer.

Embora médico competente, o tal Hipócrates tinha suas fraquezas humanas. Assim, só aceitava um tipo de pagamento pelo seu trabalho: Platão se encarregaria da morte imediata de Filipe. Se a cruzada durasse muito tempo, o eunuco partiria para o oriente. E ele, Hipócrates, desposaria a viúva.

Ora, o cirurgião guardava o segredo de sua técnica. Nenhum outro médico no mundo conseguira ainda realizar, com êxito, aquele tipo de implante.

Platão não aceitou de pronto a proposta. Teria de cometer um homicídio. Além disso, D. Filipe era um nobre. A vingança viria sem detença e cruel. Talvez mesmo antes do crime. Pois guerreiro, cruzado, emérito espadachim.

No entanto, para que viver, se não passava de um eunuco? Melhor selar o acordo com Hipócrates.

E partiu para as terras mouriscas.

Ao regressar, já a notícia da morte de Filipe parecia uma antiguidade. E os guardas não o deixaram transpor o portão. O arquiduque Hipócrates não gostava de cruzadas e nunca se ausentava do castelo. Isabel não carecia de eunucos.

D. Filipe, no entanto, deixara um testamento. O arquiducado passaria às mãos de quem contraísse novas núpcias com a duquesa e mantivesse Platão como “eunuco de Isabel, por toda sua vida”.

Embora caviloso, o médico acatava leis e cumpria contratos. E aceitou conversar com seu comparsa. Se o testamento garantisse a este o direito de vigiar Isabel, só restava a ele, Hipócrates, partir em defesa do cristianismo ameaçado.

E leu e releu as últimas vontades do falecido Filipe XX, o Aspado. Não havia dúvida: Platão não poderia mais exercer vigilância sobre a duquesa. Ora, deixara de ser eunuco.

Assim, porém, não pensava Platão. O testamento dizia claramente que ele seria eunuco (guardião) de Isabel “por toda sua vida”.

Por toda a vida de quem? De Platão ou de Isabel?

No calor da discussão, os dois acabaram sem razão. Enfureceram-se. De ofensas verbais passaram a agressões físicas.

Finda a luta, os corpos jaziam em poças de sangue.
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        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. Itinerário: contos. Fortaleza, CE: Ed. do Autor, 1974. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.