Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eliana Ruiz Jimenez (A Toalhinha de Natal)

(Conto premiado no Prêmio Nacional de Artes da Estância Turística de Tupã - 5º. Festival de Literatura - 2015)

Não sou do tipo que se comove com comercial de margarina no Natal e aproveito os feriados para mexer nas minhas coisas, organizar armários, sem necessariamente me sentir miserável por não ter uma família grande e festiva. Gosto principalmente de achar coisas de que não mais me lembrava e as ganho novamente como se novas fossem.

Naquela tarde, uma das gavetas que acabara de arrumar emperrou e eu não conseguia mais encaixá-la no lugar. A solução que me ocorreu foi remover todas as gavetas do armário para ver se não havia algo trancando por trás. Encontrei, nas catacumbas da minha falta de tempo, uma meia solitária que perdeu seu par há muito tempo e, mais ao fundo, uma toalhinha de lavabo delicadamente bordada com uma fileira de papais-noéis amarelados.

Como num portal do tempo, viajei trinta anos até o dia em que ganhei a toalha, presente de uma aluna. Professorinha recém-formada, fui contratada para lecionar Português e Literatura em curso matutino de supletivo. A turma era composta por senhoras já idosas, mas alegres, interessadas e esforçadas.  Inexperiente, julguei que, pela maturidade, poderiam se deliciar com O menino do Engenho, de José Lins do Rego, e indiquei o livro para um fichamento.

As senhoras da cidade grande ficaram horrorizadas com as aventuras de Carlinhos na fazenda do avô e certa manhã me esperavam consternadas para uma conversa séria. Questionaram o porquê de eu adotar um livro tão impudico, com meninos fazendo porcarias. “Onde já se viu, escrever uma coisa dessas”, disse uma delas,  apontando um trecho sublinhado em vermelho, onde se lia “tínhamos as nossas cabras e as nossas vacas para encontros de lubricidade”. Fui pega de surpresa e não defendi a obra. Seria inútil dizer que a premiada narrativa de 1932 retratava a realidade de uma época e estava bem longe de ser uma indecência. Recusaram-se a prosseguir na leitura e indiquei outro título para o trabalho, que de tão inócuo na literatura nacional, nem me recordo mais do nome.

Superado o episódio, continuamos com ótimo relacionamento e no final do ano recebi vários presentinhos, entre eles a toalhinha primorosamente bordada pela mais idosa da turma, que acredito estivesse já beirando os setenta anos na época. Hoje, passados mais trinta, a matemática me faz sentir uma pitada de dor por não conseguir imaginá-la centenária. Admito sentir certa culpa por não lembrar seu nome, mas me restou a lembrança de sua habilidade e gentileza em forma de toalha.

Meu primeiro ano como professora acabou em festa naquela turma de senhoras, mas foi também o meu último ano de magistério. Em dezembro o diretor daquela escola particular mandava embora todos os funcionários, porque era época de inflação alta e os contratados ganhavam aumentos que o mercado não acompanhava. Em fevereiro, fazia nova seleção, preenchendo o quadro de professores com recém-formados, pagando muito menos e aumentando os lucros. Foi assim que desisti da minha vocação de melhorar o mundo em sala de aula.

Fui trabalhar numa multinacional, apartando-me das Letras. Como alento, escrevia poesias tristes na hora do almoço:

Escritório
sina de todo dia
multidão comprimida
na total monotonia.
A porta fecha
deixando a vida lá fora
o relógio é moroso
e a saída demora.
Presos na caverna de luxo
onde o sol não entra
onde a chuva não molha
e até o ar é condicionado [...].

Passei por uma enchente nessa época em que trabalhava no escritório e perdi quase tudo o que havia de material na minha vida. Só me restaram as coisas laváveis ou as que não estavam comigo. Após alguns dias, recebi os livros que havia emprestado, gravações com as músicas favoritas, um álbum de fotos, meu caderno de poesias e outras coisas mais. Devagar, fui me resgatando nesses pedacinhos espalhados de mim.

Depois de todos esses anos, a velha toalha de Papai Noel, que resistiu à enchente e bravamente me acompanhou, mesmo escondidinha no fundo do armário, mostrou a importância de dedicar a quem nos cerca aquilo que temos de melhor: um trabalho, uma obra, um poema, um pensamento. Agradeço àquela minha aluna por ter ensinado essa importante lição à professora: só permanecemos além da própria existência naquilo que repartimos.

Fonte:

Samuel da Costa (Poemas Escolhidos) II

Vênus negra e o luar em sangue
Para Vanessa Martins da Mata 

Rezo ao amanhecer 
De um novo dia
Que a noite chegue logo
E que tu venhas para mim

Rogo para todos 
Os deuses e deusas 
Do universo infinito
Para que nunca me deixes sozinha
Nesta vida 
Nem na outra

Oro nas noites do negro luar
Da lua em sangue
Que o desejo cósmico infindável
Desperte-te
Do sono eviterno
Incendeie-te por inteiro
Que venhas rápido
Voraz e sedento
Ao encontro meu
Na nossa alcova etérea
E me abraces bem forte
Que me possuas 
Completamente
_______________________________

Halfeti 
Para a negra Valquíria 

São noites místicas! 
Ignotas 
Encantadas... 
De um outono sem fim 
Que em tediosas horas 
Perco-me 
Na névoa mítica... 

Tomo o cálice encantado... 
Das delicadas mãos de Afrodite... 
Saúdo Baco 
Dionísio 
Bebo o sacrossanto vinho! 
Embriago-me 
Por fim... 

Percebo 
Que a musa sagrada... 
Não veio... 
Que ela nunca virá! 

Ouço o cântico sagrado... 
Da Fênix em chamas 
Ao longe ele me chama... 
Clama por mim 

Percebo que não estou a dormir... 
Que o sonho não vem! 
E o sono não chega! 
Que a perdi para sempre.
________________________

Quase existência (a minha arte final) 
Para Fáh Butler Rodríguez 

A realidade liquefeita... 
Trouxe para junto de mim 
Quem não me queria 
Ter por perto... 

A realidade relativa 
E pós-moderna 
Afastou completamente de mim... 
Quem eu mais queria 
Ver a meu lado. 

Agora tenho nevoentas 
E vagas lembranças... 
Daquilo que nunca vi 
Daquilo que nunca vivi. 

Ficou então somente 
As marcas de um tempo surreal... 
Que o relógio nano-tecnológico 
Deixou de marcar a tempos atrás! 
Restando como testemunhas oculares 
As cinzas das horas 
Em Eras remotas 

Uma Era perdida 
No descontínuo tempo 
E no espaço abstrato 

Quem sabe... 
O mundo sintético na pós-contemporâneo... 
Não comporte mais... 
A minha quasimodesca... 
E frágil existência vazia e despropositada. 

Restando-me então somente... 
Ver as areias do destino... 
Desintegrou aquilo que um dia 
Eu pensei ser 
Uma relação perfeita. 
Quando eu mentia para mim mesmo
____________________________

Agora é tarde amor!
Para Fáh Butler Rodríguez 

Hoje me deixe, 
Dormindo até mais tarde... 
Amor da minha vida!
A sonhar contigo.
Meu anjo bom!

Não me desperta...
Com o hialino toque teu...
Deixe-me... 
No nosso leito sozinho.
Perdido em mim...
Perdido de amor por ti.

Não me desperte...
Deixe-me 
Em paz comigo mesmo. 
Devaneando contigo...
Luz da minha vida,

Deixe-me adormecido...
Quando tu fores embora,
Quando passares pela porta afora...
Para nunca mais voltar.
Para desaparecer da minha vida,
Para todo sempre!
______________________

O derradeiro fim... 
Para João da Cruz e Sousa 

No caminho do martírio
Ninguém ouvira seus gritos
Muito menos seus prantos

No lago o Cisne Negro e as águas cristalinas
E no céu: as nuvens brancas
Os astros
A lua
As estrelas

Na terra: O lamento
Os gritos de dor
O martírio
Do negro
Do pobre
Do artista
Do trabalhador

Fonte: O Autor

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Odenir Follador (Apólogo: A caneta e a folha de papel)


Após um exaustivo dia de trabalho, um escritor encerra apressadamente suas atividades. Era véspera de Natal e muitos afazeres lhe cobravam o tempo restante. 

Na penumbra e sossego do escritório, tem início o diálogo entre uma caneta e uma folha de papel:

- O que você faz aí nessa mesa, pálida e preenchida com tantos rabiscos?  Pergunta-lhe a caneta com ar superior.

- Veja só quem fala! Uma simples caneta, velha e quase sem tinta, largada num canto qualquer da mesa. E eu não sou pálida, sou branca, uma folha de papel que o escritor preencheu com seu lindo conto que está produzindo.

- E daí? Se não fosse por mim, não haveria nada escrito em você; seria só uma folha branca, não serviria para nada! Quem iria pegar uma folha em branco para ler?

- E ainda por cima é petulante! Pense bem... se não fosse o escritor lhe segurar entre os dedos, e usando de suas habilidades, dando forma às letras, para que você se prestaria?

- Mas eu ainda insisto... Graças a minha forma que lhe facilita como ferramenta de escrita, meu conteúdo é que preenche os espaços, dando sentido no que ele escreve às suas linhas, ó branca e pálida folha.

- Sei, mas veja bem suacaneta ambiciosa!  Depois que nosso escritor termina o seu trabalho é a mim que ele se dirige, olhando com muita delonga, apreciando todo o texto que escreveu.

- Grande coisa! Ele também fica me segurando, me olhando e às vezes me faz coçar sua cabeça, enquanto pensa em alguma coisa para escrever.

- Ainda tem mais, escute lá! Quando fico pronta eleme carrega a muitos lugares, algumas vezes, em grandes palestras onde discursa, sendo novamente observada por ele e por grandes plateias, que no final aplaudem efusivamente. 

- Pois bem! Posso até admitir que você consiga algum sucesso... Mas, e quanto as suas irmãs, aquelas que não deram certo? Estão lá, veja! Todas amassadas, amarrotadas, jogadas na cesta de lixo!

- Isso eu também explico... Somos todas por uma e uma por todas!Portanto, uma de nós sempre estará em plena atividade junto ao nosso querido escritor. Depois somos arquivadas ou fazemos parte de um lindo livro que ficará à posteridade. E você? O que acontecerá quando acabar a sua tinta? Com certeza terminará seus dias no fundo de uma gaveta, ou até mesmo numa cesta de lixo.

Moral da história: “A solidariedade deve prevalecer sobre o egoísmo”.

Olivaldo Junior (Buquê de Trovas Comemorativas)


Dia da Árvore
21 de setembro: Dia da Árvore 

De semente pequenina,
grande árvore nasceu; 
faz de conta que é menina, 
mas, no fundo, já cresceu... 

Numa curva da ribeira, 
dentre as pedras do riozinho, 
a mais linda laranjeira 
põe seus frutos no caminho!... 

Campo aberto, noite adentro, 
guarda as árvores que avisto; 
chega um dia, e acabo dentro 
de uma delas, que conquisto. 

Da sombrinha que nos dá, 
do carinho que nos tem, 
do arvoredo, "Shangri-Lá": 
esperança para alguém. 

- Sim, fui árvore, oh, menino, 
em longínqua encarnação!... 
Mas, sem água, meu destino 
foi morrer ao sol, sem pão... 

No jasmim que é só perfume, 
numa noite de Natal, 
cada mero vaga-lume 
vira enfeite natural... 

O papel que foi caderno, 
vão suporte de um poema, 
pode ter um ciclo eterno 
se o "reciclo" vira um lema.
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Setembro Amarelo
(Mês da prevenção do suicídio)

'Amarelo' é atenção,
"prevenção" a se adotar;
o vermelho coração,
em setembro, quer falar.

Do edifício mais bonito,
da varanda em primavera,
quis ganhar seu infinito
quando a vida em si já era...

Nosso filho mais amado,
nossa amiga mais querida...
Todo mundo é delicado
se tem alma, e ela é ferida.

Um sorriso que conforta,
um abraço bem gostoso,
e o diálogo abre a "porta"
da conversa ao ser idoso...

Pelo fio do telefone,
ou de um chat na Internet,
CVV, para um insone,
faz que a mente se aquiete.
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Dia do Filósofo
16 de agosto: Dia do Filósofo

O Filósofo se esquece
sobre a pilha de tratados,
para ver se refloresce
cada um de seus legados...

Na (in)certeza dos saberes,
paira o "sol" da descoberta;
quanto mais tu aprenderes,
menos fica a luz (in)certa(?).

Pré-socrático, ou socrático,
mito grego, (des)engano...
Meu regime é democrático:
ser divino é ser humano.

No Café do Amor Platônico,
bebo só com a Solidão,
pois meu bem ficou irônico
ao pedir-lhe a sua mão...

Aristóteles me "impõe"
sua arte de poesia,
e meu peito recompõe
toda a vã Filosofia...
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Dia Nacional do Teatro
19 de setembro: Dia Nacional do Teatro

No tablado de carvalho,
ou na praça da Cidade,
um ator faz seu trabalho
com a maior felicidade!...

No Brasil de antigamente,
nosso índio contemplava
o teatro que outra gente,
lá de longe, lhe encenava...

Vem, menina, pinta o rosto,
veste as roupas da titia!...
Num 'teatro', sente o gosto
que é viver em fantasia...

Se essa vida é uma tragédia,
ponho a máscara da dor;
mas, se surge uma comédia,
saltimbanco, minha flor!

Luz na cara, em vã quimera...
Nove meses ensaiando!...
De repente, o fim da espera:
a plateia está gostando!

No porão da Ditadura
- torturados em segredo -,
o Teatro era a ternura
que calava todo o medo.

Da coxia, o 'meu' amor
vira a estrela de uma peça
cujo clown é professor,
só procura o que interessa...

Neste clássico imperfeito,
que interpreto com paixão,
sinto a vida no meu peito:
sou mocinho, ou sou vilão?

Faz de conta que me ama,
que lhe compro até anel,
pois o amor é puro drama,
não importa o seu papel...

Cada lágrima que escorre
dos "olhinhos" de um ator
molha a alma que socorre
quando encena com amor.

Fonte: O Autor

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Nilton Manoel (A Copa de um Grande Atleta)


Há quem diga que o operário 
não lê jornal nem poesia, 
nem tem tempo para a vida. 
O trabalho toma-lhe o dia 
e a noite sobra somente 
ao serviço que diariamente 
uma casa propicia. 
Tudo é difícil, tão caro, 
ao homem de curto salário. 
O sacrifício é doído 
para o valente operário... 
Quem tem pouco para gastar 
só vê a burguesia de bar 
curtindo o chope diário... 
Em sua longa jornada 
vai à luta e faz pilhéria 
sonhando com melhor dia... 
Vida de operário é séria... 
Quem manda não ter dinheiro 
para poder ser engenheiro 
e não pensar em miséria. 
Que interessa o pioneiro 
que plantando vai à frente. 
O alicerce esplendoroso 
de ouro do mais luzente 
não é para o seu conforto. 
Sem fantasia, absorto, 
tem sonhos como toda gente. 
Enquanto ébrios de chope 
gozam o preço do café, 
a garrafinha operária, 
não quer bolso barnabé; 
Distante da humilde boca 
bom cigarro é coisa louca... 
Dobradinha? Não dá pé! 
Reportam tanta notícia 
para a esperança do povo. 
Dizem que saco vazio 
cheio ele não fica não... 
No atacado, vejam só 
o preço amargo do jiló! 
quanta gente não tem pão! 
No tacho, o arroz e feijão 
não tem tempero opulento. 
Ovo de granja, fraquinho, 
na panela do sustento 
tem até sabor de glória. 
Quem tem a vida simplória 
quase que vive de vento. 
Nem correr pelos cestões 
ajuda o consumidor... 
Tornou-se caro o alimento 
ou o real não tem valor?? 
e a vaca da gorda teta 
dá ralo leite sem treta. 
Ah, paladar sonhador! 
De Deus é a Terra e de irmãos 
parco o traçado do chão! 
Sem terra não há verdura; 
alface, couve, agrião 
já vivem fora do prato! 
A carne? que espalhafato. 
Verde, não cai no fogão. 
A tristeza ainda é maior 
na loja do vestuário. 
Camisa, calça ou tecido 
custam quase que um salário. 
... e o solado da botina? 
tem fabricação tão fina... 
dura menos que o crediário! 
10 
O que importa o tormento 
de quem dobra o seu trabalho? 
Se de um lado há velório 
noutro há festa! O árduo o malho 
não assusta a feras bravas. 
Nem faltarão mãos escravas 
para o patronal baralho. 
11 
Tem gente com mordomias 
e outros sem ocupação... 
Há funcionário graduado 
que julgando-se o patrão 
usa e abusa do subalterno 
até pra tirar do terno 
os cisquinhos de ilusão. 
14 
Tantos falam em mutirão 
e em comunitárias hortas. 
Sem dar semente ao chão 
não se tem safra às portas. 
e o trabalhador silente 
até esquece que é gente 
perdido em ilusões tortas. 
15 
Cair vivo em qualquer trecho 
é fácil... constantemente! 
Vestido só de ilusão 
como sofre a humilde gente... 
e quando o riso da parca 
chega ao pobre, fere e marca 
como a lâmina mais pungente. 
16 
O morto tem tempo rápido 
e o comércio funerário, 
não perde tempo, trabalha! 
Tem tudo que o salário 
não deu conta pela vida... 
A honra fúnebre é florida. 
A saudade? Um crediário! 
17 
A vida é cheia de sonhos 
e a escolha envolve o saber. 
Não vive de espalhafato 
quem luta para bem viver... 
A vida nos seus desvãos 
pesa nos calos das mãos 
do que não pode escolher... 
18 
A educação brasileira 
precisa de animação 
pra deixar de ser cabide 
de política na gestão 
com eternos dirigentes 
longe de temas docentes 
segurando a evolução. 
19 
Basta de efetivação 
que adote o ministério 
a carteira de trabalho... 
Na ambição, fique sério! 
aposentados na ativa, 
e o novato sem saliva 
só se rala nesse império. 
20 
Vimos que na educação 
o governo ao professor 
nunca dá salário digno 
e a sina do educador 
é a eterna mixaria 
deputados? que poesia 
nenhuma moção de valor. 
21 
Creio que é bom repensar 
no superior via postal 
Sem sacrificar o descanso 
quem quer a vida real 
em casa todo contente 
estudará facilmente 
também pelo virtual... 
22 
Nem todo laboratório 
quer guarida num salão, 
quando a leitura é constante 
revigora a profissão 
a melhor catedrática 
demostrada é a prática 
de quem tem inclinação. 
23 
A vida é correspondência 
na suprema perfeição, 
banco escolar não é tudo 
depois da alfabetização. 
As entidades de classe 
nunca tiram desse impasse 
o operário em profissão. 
24 
A vida faz-se tranquila 
quando a família é feliz. 
Quem tudo pode fazer 
tem pensamentos sutis 
na mais franca atividade 
é fé da comunidade 
e sempre faz o que diz. 
25 
A jornada do operário 
em sua constante lida 
deve ser emocionante, 
cuidadosa, produzida, 
com sonhos de bom futuro 
quem não se perde no escuro 
tem próspera a luz da vida. 
26 
O lar que é felicidade 
da pátria a miniatura, 
é riqueza, é porvir, 
de tranquilidade segura, 
é moldura do batente 
do homem feliz e contente 
em sua dedicação pura. 
27 
Quem quer ser bom cidadão 
e gozar do seu direito 
gosta de tudo que é bom 
pondo à distância o imperfeito, 
pois quem tem bom coração 
reparte sempre o seu pão, 
não passa a vida no leito. 
28 
Felizmente o mundo é grande... 
- demonstra no dia a dia 
que a vida é laboriosa 
tem sempre à terra a poesia, 
daquele que não se cansa 
e trabalha com esperança 
de não ter vida vazia...

Fonte: O Autor

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Olivaldo Junior (Poemas Escolhidos) II


A Senhora Aparecida

A Senhora Aparecida
tão cedinho, de manhã,
recomeça a sua vida:
ser do povo um talismã.

Dando a todos a guarida,
seja irmão, ou seja irmã,
sempre ajuda na "subida"
para a 'Terra de amanhã'.

- 'Negra mãe do nosso povo',
há trezentas primaveras
vem tornando o velho novo!...

Guardiã de "mil" esferas,
nesse mundo, que é um ovo,
aparece e doma as feras!
____________________________

Para São Francisco
04 de outubro: Dia de São Francisco de Assis

Para São Francisco,
o canário, o alpiste,
a vassoura, o cisco,
que um poeta triste
quer correr o risco
de saber que existe...

Para São Francisco,
verso e prosa a gosto,
que sequer eu pisco
quando o sol do rosto
do melhor Francisco
em meu verso é posto!...

Para São Francisco,
minha "vista" gasta,
meu abraço arisco,
o que se contrasta
quando tudo arrisco
e Francisco basta.
________________________________

À moda de um deus
Para Luís Felipe 

Cansado demais,
parei entre os meus,
na beira do cais,
à moda de um deus.

Cansado demais,
andei entre os seus,
curti os meus ais,
no encalço de Deus.

Cansado, sem ar,
fiquei sem saber
se é rio, se é mar

o mundo a correr,
a gente a sonhar,
o sonho a morrer...
________________________

Poesia, irmão, poesia!...

Poesia, irmão, poesia!...
Que essa vida fantasia
quando vem o Carnaval,
quando vai o funeral!...

Poesia, irmão, poesia!...
Que essa vida, hipocrisia
quando vem o bacanal,
quando vai o bom casal!...

Poesia, irmão, poesia!...
Que uma rosa se anuncia
numa tela, num jornal!...

Poesia, irmão, poesia!...
Que uma lua, luz do dia
num poema original...
______________________

Mil lampadazinhas

Olho o japonês
ir cuidar das plantas.

Paro e fico olhando,
para ver se enxergo...

Cego, não dos olhos,
mas da triste alma,
miro, mas não vejo...

Olho o japonês
ir jantar, e é tarde.

Paro e fico olhando
seu jardim de inverno...

Terno, e sem demora,
bem à flor da palma,
eis que vejo a aurora:

- Mil lampadazinhas!...
__________________________

Príncipe de alma 

Pelas horas que levo na mochila,
pelas lágrimas secas em minh'alma, 
todo dia sem tempo me aniquila, 
leva as horas que iria ter em calma... 

Rubra rosa que velo à mão tranquila, 
eu, pequeno ser, "Príncipe de Alma", 
todo o tempo só penso em possui-la, 
jardineiro que as flores só desalma!... 

No relógio que a lida me desmonta, 
nestes olhos que secam sua fonte, 
eis o ser que à nobreza já desponta, 

sol que à rosa parece um horizonte, 
peregrino senhor que faz de conta 
que do corpo há de vir a sua 'ponte'.

João do Rio (O que se vê nas ruas) Pequenas Profissões

O cigano aproximou-se do catraieiro (1) . No céu, muito azul, o sol derramava toda a sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios, das fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que vão dar ao cais, a vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda mais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da rampa, viscoso de imundícies e de vícios. O cigano, de frack e chapéu mole, já falara a dois carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vítima, a vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre (2) esfomeado.

Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia negativamente com a cabeça.

— Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.

— Mas eu não quero.

— Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.

Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça cor de castanha.

— Para o serviço! Dois mil réis, só dois!...Eu tenho família, mãe, esposa, quatro filhos menores. Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis...não gosta de anéis?

O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o frack, cheio de súbito receio.

— É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas. Tudo dez mil réis, conta redonda!

O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo braço, pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação; ninguém naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade, olhava sequer para o negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex-Largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.

— Admiraste aquele negociante ambulante?

— Admirei um refinado “vigarista”...

— Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de um exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade, enfim, arrasta muita gente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? Há lá uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...

É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes. O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra coisa na sua vida senão vender calçar velhas e anéis de plaquet (3) , aí tens tu uma profissão da miséria, ou se quiseres, da malandrice — que é sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por aí pelas praças parece sem ofício, sem ocupação. Entretanto, coitados! o ofício, as ocupações, não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporteres.

Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas, dos ratos, dos magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na natureza. A polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados pelos adelos (4) , pelos ferros-velhos, pelos proprietários das fábricas...

— As pequenas profissões!... É curioso! 

As profissões ignoradas. Decerto não conheces os trapeiros sabidos, os apanha-rótulos, os selistas, os caçadores, as ledoras de buena dicha. Se não fossem o nosso horror, a Diretoria de Higiene e as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.

— Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões sem academia! Até parece que não estamos no Rio de Janeiro...

— Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e, vê tu, até nisso há vocações! Os trapeiros, por exemplo, dividem-se em duas especialidades — a dos trapos limpos e a de todos os trapos. Ainda há os cursos suplementares dos apanhadores de papéis, de cavacos e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar a existência esforçada. Outros abundam em pormenores e são um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de crianças, filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às costas, para cavar a vida nas horas da limpeza das ruas.

De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense é a dos caçadores, que formam o sindicato das goteiras e dos jardins. São os apanhadores de gatos para matar e levar aos restaurants, já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tostões no máximo. 

Uma só das costelas que os fregueses rendosos trincam, à noite, nas salas iluminadas dos hotéis, vale muito mais. As outras profissões são comuns. Os trapeiros existem desde que nós possuímos fábricas de papel e fábricas de móveis. Os primeiros apanham trapos, todos os trapos encontrados na rua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os pedaços de pano, que serão em pouco alvo papel; os outros têm o serviço mais especial de procurar panos limpos, trapos em perfeito estado, para vender aos lustradores das fábricas de móveis. As grandes casas desse gênero compram em porção a traparia limpa. A uns não prejudica a intempérie, aos segundos a chuva causa prejuízos enormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando não há sol, com o céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!

— Falaste, entretanto, dos sabidos?

— Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas e os sapatos velhos, e batem-se por duas botas iguais com fúria, porque em geral só se encontra uma desirmanada. Esses infelizes têm preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os compradores, os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400 réis, um par de sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos sapatos. Uma bota só, porém, não se vende por mais de 100 réis.

— Mas é bem pago!

— Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por seis e sete mil réis! E o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes como o cigano que acabamos de ver — os belchiores compram as roupas para vendê-las com quatrocentos por cento de lucro. Há ainda os selistas e os ratoeiros. Os selistas não são os mais esquadrinhadores, os agentes sem lucro do desfalque para o cofre público e da falsificação para o burguês incauto. Passam o dia perto das charutarias pesquisando as sarjetas e as calçadas à cata de selos de maços de cigarros e selos com anéis e os rótulos de charutos. Um cento de selos em perfeito estado vende-se por 200 réis. Os das carteiras de cigarros têm mais um tostão. Os anéis dos charutos servem para vender uma marca por outra nas charutarias e são pagos cem por 200 réis. Imagina uns cem selistas à cata de selos intactos das carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos de todos os maços de cigarros e de todos os charutos comprados neste país de fumantes; e calcula, após este pequeno trabalho de estatística, em quanto é defraudada a fazenda nacional diariamente só por uma das pequenas profissões ignoradas.

— Gente pobre a morrer de fome, coitados...

— Oh! não. O pessoal que se dedica ao ofício não se compõe apenas do doloroso bando de pés descalços, da agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham também na profissão os malandros de gravata e roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins e à porta das charutarias.

— E é rendoso?

— Rendoso, propriamente, não; mas os selistas contam com o natural sentimento de todos os seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo do charuto e rasgar a parte selada das carteirinhas sem estragar o selo.

— Mas os anéis dos charutos?

— Oh! isso então é de primeiríssima. Os selistas têm lugar certo para vender os rótulos dos charutos Bismarck — em Niterói, na Travessa do Senado. Há casas que passam caixas e caixas de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova, porém, dessas profissões, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande cidade, é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as ratoeiras das estalagens e a Diretoria de Saúde. Ratoeiro não é um cavador — é um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e bibocas da parte velha da urbe, vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata na mão. Quando está muito cansado, senta-se na calçada e espera tranquilamente a freguesia, soprando de espaço a espaço no cornetim. Não espera muito. Das rótulas há quem os chame; à porta das estalagens afluem mulheres e crianças.

— Ó ratoeiro, aqui tem dez ratos!

— Quanto quer?

— Meia pataca.

— Até logo!

— Mas, ô diabo, olhe que você recebe mais do que isso por um só lá na Higiene.

— E o meu trabalho?

— Uma figa! Eu cá não vou na história de micróbio no pêlo do rato.

— Nem eu. Dou dez tostões por tudo. Serve?

— Heim?

— Serve?

— Rua!

— Mais fica!

E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho...

Tínhamos parado à esquina da Rua Fresca. A vida redobrava aí de intensidade, não de trabalho, mas de deboche. Nos botequins, fonógrafos roufenhos esganiçavam canções picarescas; numa taberna escura com turcos e fuzileiros navais, dois violões e um cavaquinho repinicavam. Pelas calçadas, paradas às esquinas, à beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda atrás da orelha e chinelinho na ponta do pé, carregadores espapaçados (5) , rapazes de camisa de meia e calça branca bombacha com o corpo flexível dos birbantes (6), marinheiros, bombeiros, túnicas vermelhas e fuzileiros — uma confusão, uma mistura de cores, de tipos, de vozes, onde a luxúria crescia. De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na Rua Fresca, um rapaz doceiro arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o braço aos exercícios de um petiz da altura de um metro. Junto ao grupo, o cigano, com outro embrulho, falava.

— Vês? Aquele pequeno é marcador, faz tatuagens, ganha a sua vida com três agulhas e um pouco de graxa, metendo coroas, nomes e corações nos braços dos vendedores ociosos. O cigano molambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-inércia do rapaz para lhe impingir
qualquer um dos seus trapos...um psicólogo, como todos os da sua raça, psicólogo como as suas irmãs que lêem a buena dicha por um tostão e amam por dez com consentimento deles.

Oh! essas pequenas profissões ignoradas, que são partes integrantes do mecanismo das grandes cidades! O Rio pode conhecer muito bem a vida do burguês de Londres, as peças de Paris, a geografia da Manchúria e o patriotismo japonês. A apostar, porém, que não conhece nem a sua própria planta, nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e exóticos, de todas as profissões que constituem o progresso, a dor, a miséria da vasta Babel que se transforma. E entretanto, meu caro, quanto soluço, quanta ambição, quanto horror e também quanta compensação na vida humilde que estamos a ver.

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...

Mas o meu amigo não continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro apareceu rubro de cólera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao aproximar-se do cigano.

De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.

— Apanhei-te, gatuno!

O cigano voltara-se lívido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda de chinelas, fúfias, rufiões, soldados, ociosos, vendedores ambulantes.

— Gatuno! Então vendes como ouro um anel de plaquet? Espera que te vou quebrar os queixos. 

Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanhá-lo com uma bofetada. O cigano porém caiu num bolo, distendeu-se e partiu como um raio por entre a aglomeração da gentalha, que ria. O catraieiro, mais corpulento, mais pesado, precipitou-se também. Os vagabundos, com o selvagem instinto da caça, que persiste no homem — acompanharam-no. E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros revérberos, à disparada entre os squares sucessivos, a ralé dos botequins, aos gritos, deitou na perseguição do pobre cigano molambeiro, da pobre profissão ignorada, que, como todas as profissões, tem também malandros.

Então Eduardo sentenciou.

— Tu não conhecias as pequenas profissões do Rio. A vida de um pobre sujeito deu-te todos esses úteis conhecimentos. Mas, se esse pobre sujeito não fosse um malandro, não conhecerias da profissão até mesmo os birbantes.

A moral é uma questão de ponto de vista. Para julgar os homens basta a gente defini-los segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver definir os profissionais humildes pela tua última impressão, emprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modificação:

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Corriendo por los caminos...
___________________________
Notas
(1) Barqueiro de catraia (bote de um só lugar).
(2) Ave de rapina.
(3) Imitação de ouro.
(4) Quem compra e vende objetos usados; brechó.
(5) Desengonçados.
(6) Patife, malandro.

Fonte:
João do Rio. A Alma Encatadora das Ruas. Fundação Biblioteca Nacional.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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