quinta-feira, 29 de julho de 2021

Adega de Versos 37: José Tavares de Lima

 

Júlia Lopes de Almeida (Sob as estrelas)

A Olavo Bilac


O padre Júlio voltava do Seminário, de coroa aberta e de batina, pronto para servir a Deus na sua vila mineira, alcandorada sobre precipícios de verdura e rochedos abruptos. Alto, branco e esguio, figura mística de quem sonha e prescruta mistérios, ele derramava o olhar pelas penedias da encosta, tachonadas de flores de quaresma, sem ânimo de perguntar pela sua amada de outrora, o seu único amor, aquela pobre Ianinha, tão ardente e apaixonada, que o enlaçava nos seus braços flexíveis como hastes de hera, queimando-o com o fulgor dos seus olhos negros de mineira inculta e imaginosa.

Juntavam-se de noite nos campos, ela fugida do casebre da avó cabocla, ele da casa do tio padre. Amavam-se sob as estrelas. Ianinha sabia contos do sertão, histórias de feiticeiras e lobisomens, que lhe contava risonha, achando graça nos seus terrores. Ele beijava-lhe a garganta túmida, pedindo-lhe que se calasse.

Tinham começado a mocidade juntos, ela era mais moça, mas muito mais precoce; ele adorava-a de joelhos, já um pouco voltado para o culto divino.

De repente interrompeu-se o idílio: o tio padre exigiu que o sobrinho fosse para o Seminário. Das fugas noturnas só eram sabedoras as estrelas. Júlio, tímido, obedecendo à vontade do velho e impelido mesmo pelo seu espírito religioso, despediu-se da amante com resignação. Ela é que teve transportes de louca, que se colou a ele como uma cobra a um tronco, dizendo-lhe que o amava, que lhe dera a sua virgindade, a sua alma, que a vida era aquilo, a liberdade, o beijo, o amor!

A tentação foi vencida, Júlio deixou-a sozinha, soluçando alto, na noite escura e silenciosa.

Agora, olhando para aquelas penedias, para aqueles vales enormes, pensava que antes a Ianinha tivesse morrido... e era essa a sua esperança! Queria ser puro, queria ser santo. Voltara-se para o Céu com fé arrojada; detestava o mundo e a carne. Vinha emundar a alma naquele mesmo desterro que enchera de beijos e abraços pecaminosos.

Nos seus êxtases a figura de Ianinha atravessava-lhe por vezes a mente, como uma tentação diabólica e terrível, mostrando-lhe a alvura dos dentes, a negrura das madeixas revoltas, a rijeza dos seios morenos... Excomungava-a, amaldiçoava-a, enchia-se de cilícios, e caía chorando, contrito, esmagado pelo remorso, numa alucinação dolorosa, sem achar meio de se purificar daquele passado que o assombrava.

Antes a Ianinha houvesse morrido... Para saber isso, e com medo de o perguntar, Júlio foi ao cemitério, que era um canteiro, de pequeno. Ajoelhou-se em frente de cada sepultura.

De quem era esta? de quem era aquela? perguntava. O coveiro sabia os nomes de todos os enterrados. Morria-se tão pouco, ali!

Uma era da tia Zefina, outra do Simeão, outra... Eram todos velhos, muito velhinhos já. A Ianinha, então, vivia ainda!

Júlio corou, com vergonha daquele pensamento cruel. O nome da moça queimar-lhe-ia os lábios, se o dissesse, e, estava certo, toda a gente tomaria conta do seu segredo. Não, não perguntaria por ela. E, abstrato, ajoelhou-se junto de uma sepultura coberta de flores selvagens.

– Esta é de uma criança, explicou o coveiro; não deveria estar enterrada em sagrado, mas enfim...

O padre ergueu o rosto longo e pálido, numa interrogação muda.

– É do filho de uma cabocla, Ianinha. A peste não o batizou. De mais a mais ninguém sabe quem era o pai. O povo afirma que era o diabo. Dizem que a voz do povo é a voz de Deus... Quem sabe?

Júlio baixou os olhos para a terra, cruzando as mãos com força sobre o coração. O seu rosto, alvo e macilento, nada dizia, mas a batina estremecia ao arquejar do busto curvado. Sabia bem... do fundo daquela terra subia alguma coisa que o chamava, que o solicitava e lhe dizia: “és meu!”

Aquelas flores selvagens não eram uma inscrição, um nome que lhe acusava a paternidade?

O dia caía gloriosamente. Franjas de ouro e mantos de púrpura arrastavam-se pelo horizonte em nuvens grossas, embebidas de luz. Pelas penedias escarpadas as bromélias erguiam os penachos cor de fogo; piteiras enormes eriçavam os despenhadeiros, e, lá embaixo, o rio passava numa curva, caudalosamente, refletindo o céu rubro, vermelho ele próprio como uma onda de sangue.

Toda a terra parecia vitoriosa, erguendo as suas montanhas colossais, a sua vegetação estupenda, o seu cheiro de força, de amor e de fertilidade.

Júlio teve ímpetos de escavar a terra, arrancar de lá o corpo daquele desconhecido, filho do seu amor e da sua carne, de chorar sobre os seus ossos despidos, de colar-lhe na caveirinha branca os seus lábios profanos, de lhe dizer que havia ternura no seu coração que debalde procurava tornar seco e estéril, que amava nele a sua virilidade, a sua juventude, e aquela pobre Ianinha...

Nisto levantou-se, frio e assustado. Como podia ele, religioso, padre, pensar na tentação da carne, naquela criatura que estilara peçonha e dor por toda a sua vida, aquela cúmplice do demônio, que assaltava sem temor os ninhos das corujas, mostrando ao luar o negror das madeixas e a alvura dos dentes no riso selvagem?

Antes fosse ela a morta... Demais, não a enterrara ele para todo o sempre na lembrança?

Nessa noite Júlio não dormiu. Voltava sem as ler as folhas do Breviário. Lá fora o vento soprava em roncos e uivos e a lua sumia-se em nuvens fumacentas. Se erguia o olhar, via sorrir-lhe o doce Jesus, do regaço materno, na parede em frente.

Uma criança, uma flor de carne e de sonho; que divina coisa! E ele tivera um filho, e não o vira nunca, e não o amara, e não o repousara sobre o seu coração frágil, morada do pecado e da vergonha, e não lhe beijara os pés acetinados, nem a boquinha já roxa pela morte!

Na solidão do seu quarto rezava pelo filho, aquela alma pagã criada pelo seu beijo, porque, sabia-o bem, a Ianinha não tivera outro amante; era ele o seu dono, o senhor absoluto e muito amado, o deus supremo daquela selvagem, filha da terra e amiga da terra, para quem a natureza era a única bíblia a que abria a sua alma simples. E ele voltava querendo achá-la morta!

Encostado à mesa, junto ao leito vazio, o padre compunha em mente as feições do filho, dava-lhe vulto, sentia nele o melhor da sua alma, o mais elevado dos seus ideais...

Súbito, um toque de sino vibrou rebelde e agudo na noite silenciosa. O padre ergueu-se, lívido. Que seria aquilo? Eram duas horas, o vento abrandara. Houve um rumor de asas algodoadas fugindo espavoridas do campanário. A vila dormia tranquilamente. Mas veio outra badalada do sino, tangida com nervo e raiva, atravessar o espaço negro como um grito de dor.

Àquele toque sucederam outros e outros, desordenados, como se o pobre sino da aldeia tivesse enlouquecido ou abrigasse no seu velho bojo todas as bruxas e duendes dos campos.

O padre, assustado, amparou-se ao crucifixo, ergueu-o e caminhou resoluto para a porta, que abriu de par em par. O campanário ficava à esquerda, dominando o vale enorme, todo cheio de sombra. Júlio seguiu para ali, com a cruz erguida e os lábios murmurando preces. Pareceu-lhe distinguir um vulto branco agitando-se na treva como um fantasma. Elevou bem alto o Cristo, e a poucos passos a sua voz forte retumbou num esconjuro formidável que abalou a terra.

O sino emudeceu; mas o vulto branco lá estava, desenhando uma curva pálida na escuridão. O padre chegou-se para o campanário, audaciosamente, sentindo-se bem apoiado no crucifixo e na sua fé religiosa.

A poucos passos estacou: a lua rompera o crepe das nuvens e iluminava Ianinha seminua, com a cabeça deitada para trás, o cabelo pendente, os olhos perdidos na abóbada estrelada. Ela ali estava, segura à corda do sino, aquele velho sino de aldeia, tão meigo, tão acostumado a só falar de paz às montanhas solitárias.

Ianinha quedou-se imóvel, sentindo Júlio perto, mas com medo de olhar-lhe para a batina. Depois falou, num queixume, murmurando as palavras. Disse que tivera dele um filho, lindo como os amores, que lá estava no cemitério muito sossegadinho.

Júlio estremeceu; os braços estenderam-se-lhe para prendê-la, os lábios moveram-se-lhe para beijá-la; mas conteve-se, hirto, de cruz alçada, livrando-se da tentação...

Ianinha chorou: aquele tempo antigo fora tão bom! O campo aí estava, aberto a todos os seres, fértil, com os hinos das aves e o perfume das plantas. A vida rebentava à toa em cada canto. Em troncos velhos viçavam lianas e parasitas; em corolas de flores aninhavam-se milhares de insetos; e os ninhos estavam povoados, e as tocas rescendiam a paz amorosa, e toda a terra desabrochava à espera de que eles fossem também, como noutros tempos, amar-se sob as estrelas.

Pecar? Não era pecado! Que seria o mundo, sem a perpetuação do amor!

Ianinha arrancava aquilo da sua imaginação caudalosa, lamentando-se por não ter nascido sob outra forma, por não ter a vida libérrima da ave, do inseto ou da flor! E estava formosa, formosa como nunca. Mas o padre sentia o peso do crucifixo nas mãos geladas. Certamente que no fundo da sua alma alguma luta havia que lhe cerrava os beiços e lhe iluminava a fronte larga e lívida. Mas a palavra de amor não lhe saía da garganta.

Voltou para dentro, de cruz erguida, com as faces banhadas de lágrimas. Consumou o sacrifício: entregava-se a Deus.

Lá fora o sino voltou a badalar na noite negra, desordenada, furiosamente, como se o próprio diabo o tangesse! Depois tudo emudeceu. As aves voltaram para o campanário; uma barra de luz indecisa abriu-se frouxamente no horizonte, e, só, no meio da noite, o cadáver da Ianinha, enforcado na corda do sino, olhava de face para o vale enormíssimo todo cheio de aromas e de treva.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. 2. ed. rev. Brasília : Senado Federal, 2020. Publicada originalmente em 1903.

Gislaine Canales (Glosas Diversas) XXVIII

RIOZINHO

MOTE:
Vai, riozinho, sem pressa...
Lembra ao mar, sem raiva ou mágoa,
que ele é grande, mas começa
num modesto olhinho d’água!
A. A. de Assis
(Maringá/PR)


GLOSA:
Vai, riozinho, sem pressa...
desliza tranquilamente,
não há nada que te impeça
de ser puro e transparente!

Quando chegares ao mar,
lembra ao mar, sem raiva ou mágoa,
que nesse teu desaguar
existe um amor em frágua!

Que do orgulho, se despeça
esse mar tão envolvente...
que ele é grande, mas começa
numa pequena vertente!

Sangas correm para o rio,
o rio, no mar deságua,
mas nasce a correr ...vadio,
num modesto olhinho d’água!
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A TROVA QUE OUVI...

MOTE:
A trova que ouvi dizer-me,
calou tão fundo em meu peito,
que sem conseguir conter-me,
chorei por não tê-la feito.
Edmar Japiassú Maia
(Nova Friburgo/RJ)


GLOSA:
A trova que ouvi dizer-me,

me emocionou tanto, ao ponto
de então, conseguir fazer-me,
ao ouvi-la, ficar tonto!

A sua enorme beleza
calou tão fundo em meu peito,
que eu senti a sutileza
de um verso mais que perfeito!

Conseguiu tudo dizer-me
com muita, muita emoção
que sem conseguir conter-me,
vibrou forte o coração!

Foi um êxtase de glória,
(não penses, que por despeito)
mas, ouvindo essa vitória
chorei por não tê-la feito.
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LEMBRANDO...

MOTE:
Vou de lembrança em lembrança
revivendo o meu passado...
- Lembrar-te nunca me cansa,
mesmo sofrendo dobrado!
Ercy Maria Marques Faria
(Bauru/SP)


GLOSA:
Vou de lembrança em lembrança

com carinho, dia-a-dia,
procurando uma esperança
que traga a mim, a alegria!

Sigo assim, horas e horas,
revivendo o meu passado...
Choro ao lembrar as demoras
quando longe do meu lado!

Nessa minha relembrança
eu me envolvo por inteira
- Lembrar-te nunca me cansa,
me faz quase feiticeira!

Sem conseguir te esquecer,
revivo o sonho dourado...
Assim que eu quero viver,
mesmo sofrendo dobrado!
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SERENO- BEIJO MOLHADO

MOTE:
Pondo pingos cor de prata
sobre os lençóis da alegria,
o sereno é serenata
com que a noite brinda o dia.
Flávio Roberto Stefani
(Porto Alegre/RS)


GLOSA:
Pondo pingos cor de prata
num brilho que nos seduz,
o orvalho nos arrebata,
enchendo tudo de luz!

Deita-se, languidamente,
sobre os lençóis da alegria,
apagando, suavemente,
toda e qualquer nostalgia!

Parece que ele contrata
uma orquestra, pra tocar...
O sereno é serenata
que vem, o dia acordar!

Sereno é um beijo molhado,
um beijo, pura magia...
Beijo mais que apaixonado,
com que a noite brinda o dia.
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ALGEMAS

MOTE:
A justiça, rica em falhas,
corrompida por esquemas,
enche com glória e medalhas
mãos que merecem algemas.
Gerson Cesar Souza
(São Mateus do Sul/PR)


GLOSA:
A justiça, rica em falhas,
por humanos, constituída,
erra, às vezes, nas batalhas
e, às vezes, até na vida!

Ao vermos a honestidade
corrompida por esquemas,
sentimos que a humanidade
enfrenta eternos dilemas.

Em vez de fortes muralhas
e falta de preconceitos,
enche com glória e medalhas
quem sequer possui direitos!

Vergonhosa é a situação
que abrange nossos sistemas,
premiando com distinção
mãos que merecem algemas.

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas Virtuais de Trovas XXI. In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. http://www.portalcen.org. Outubro de 2004.

Marques de Carvalho (Alegria gaulesa)

Enquanto esperávamos o almoço,— aquele almoço às pressas encomendado no mais que modesto hotel do Pinheiro, fomos dar um passeio pela mata, sob a sombra das grandes árvores copadas.

As senhoras haviam ficado na sala do hotel, aguçando o apetite no bom cheiro de refogado, que lhes chegava da cozinha.

O meu companheiro de passeio era um velhote de 50 anos, grande rosto quadrado, de longas suíças grisalhas em faces tostadas pelo sol da América.

Traváramos conhecimento no pequeno tombadilho da lancha que da cidade nos transportara ao Pinheiro.

Ainda não havia duas horas que nos conhecíamos, e já grande familiaridade se estabelecera entre nós,— essa familiaridade fácil, íntima, passageira, das pessoas que viajam.

Estávamos ainda a bordo, e já o meu simpático companheiro, sentado à amurada, contara-me ser francês, há muitos anos residente na província do Pará, onde tencionava ficar até ao fim da vida.

Sentia-me cada vez mais impulsionado para aquele sujeito cuja existência eu ignorava algumas horas antes, e que presentemente, por motivos que eu não tratava de saber, tão vivamente me atraía a curiosidade.

Quando saltamos para terra,— enquanto subíamos pela escada da ponte,— convidei-o para almoçar conosco, e ele aceitara rindo,— com um riso bonachão de quem é dotado de alma simples, sem duplicidade.

Fora ele quem me prepusera aquela excursão à mata, para darmos tempo a que o hoteleiro preparasse a refeição, que eu já previa frugal e triste, atendendo às condições da terra em que nos achávamos.

Aceitei-lhe de boamente a proposta, com aquela vivacidade alegre de quem vive meses inteiros encadeado ao cepo do trabalho quotidiano e toma, de tempos a tempos, um belo dia para descansar um pouco, em a paz duma povoação de arrabalde, refestelando-se preguiçosamente na relva odorífera dos nossos grandes e soberbos matagais.

E fomos por ali fora, seguindo um carreiro sinuoso, por baixo de farfalhante cúpula de ramos coloridos de um verde-escuro admirável, cuja uniformidade era quebrada pelo vermelho vivo, pelo amarelo e pelo branco das várias flores silvestres, cujas pétalas encolhiam-se um pouco, meio-fanadas pelos raios do sol.

Um forte vento refrigerante e consolador vinha do norte, do lado por onde a vista se perdia no infinito, após o rio que fugia para o mar. O cheiro acre da maresia andava no espaço, casado ao perfume sutil e excitante da baunilha, cujas compridas favas pendiam dos escuros e velhos galhos daquelas árvores seculares. Pássaros voavam céleres, num brando ruflar de asas, soltando pequeninos gritos estrídulos e alegres. De momento a momento, a curta distância de nós, lagartos cinzentos ou verdes fugiam assustados, fazendo estalar o folhedo seco que juncava o solo. E lá muito ao longe, no alto, sobre pedaços de céu de um azul deslavado, que nós entrevíamos pelos interstícios das ramas, urubus recortavam-se muito negros, muito pacíficos e espalmados, nos seus voos arredondados, pairando como numa contemplação enamorada da terra que os sustenta com suas putrefações, com seus resíduos infames e nojentos.

De repente, o meu companheiro disse-me:

— Sentemo-nos aqui. O Sr. já deve estar cansado desta longa caminhada.

Não tinha a mínima acentuação estrangeira; falava como um verdadeiro paraense.

Alongara-se por cima de uma camada de capim verde pouco espessa, de bruços, com o pescoço estendido e o grande chapéu de palha do Chile a descer-lhe para a nuca. Imitei-lhe o gesto, defronte dele.

Ficamos calados por alguns minutos.

Ele fitava o solo, com as narinas palpitantes, como sorvendo em longos haustos sensuais aquele bom cheiro acre e silvestre que a terra exalava. Perguntei-lhe de repente, não achando outra coisa a dizer-lhe:

— O Sr. é casado?

Fitou-me bem na menina dos olhos, com uma expressão investigadora de quem deseja conhecer o fundo do pensamento de seu interlocutor. Depois respondeu:

— Não... Fui... Agora estou novamente solteiro: sou viúvo.

— Ah!

— É verdade. Sou viúvo e tenho-me dado muito bem neste novo estado de quem vive sem as preocupações do homem casado, que tem uma família a sustentar. Bem tolo é quem se casa...

Calou-se, a mirar-se outra vez nos meus olhos.

Um pequeno sorriso enigmático frisava-lhe o lábio superior, traçando nas duas faces profundas rugas oblíquas que, nascendo das asas do nariz, partiam a perder-se nos longos fios grisalhos da parte inferior das suíças.

Eu não compreendia bem o que diziam aquelas palavras, assim sublinhadas por semelhante sorriso.

Ele pareceu-me haver adivinhado a minha dúvida, porque disse, apertando-me as costas da mão direita, como para chamar para si toda a minha atenção: — está curioso, não? Quer talvez saber quem seja esta velha ave de arribação que vive no seu país e que tanta alegria traz sempre no coração, no rosto,— nos lábios e no olhar? É uma história muito longa a minha, meu caro senhor. Sou muito franco: deseja ouvi-la? Não perderá nada com isso; pelo contrário, creio aproveitará alguma coisa com a moral que tirar das minhas palavras, depois de me dar toda a razão nos atos que pratiquei. Logo que me ouvir, o Sr. verificará que é muito certo o rifão: Tristezas não pagam dívidas, e adquirirá a certeza de que, neste mundo, o melhor meio de se gozar saúde e viver tranquilo, é ter o coração calmo como a bonança e grande como a barriga do desembargador Delfino. Ora vire pra cá as ouças e preste atenção.

Sentei-me. Ele fez o mesmo e começou, sorrindo sempre:

 — Quando cheguei ao Brasil, trazia algumas dezenas de contos de réis, herança de meu pai, morto quando eu era menino. Estabeleci-me, achando logo um sócio que possuía capital equivalente ao meu. Ganhamos rios de dinheiro, que o meu sócio conscienciosamente gastava, esbanjava com uma espanhola reles e velhaca de um hotel da cidade.

Um belo dia falimos,— por causa dessas extraordinárias despesas capazes de desfalcarem os repletos cofres de um Cresus. Cuida que apaixonei-me por isso, que fiquei triste, abatido, doente, desanimado, sem vontade para continuar no trabalho honrado? Qual, meu amigo! O meu espírito é refratário a tristezas,— o meu coração grande demais para fazer-se pequenino e mirrado por tão pouca coisa. Um ou dois contos de réis que pude ganhar em certo negócio, após o naufrágio a que fora conduzido pela doidice de meu sócio, empreguei-os em comprar algumas joias de ouro falso, em mercadorias de contrabando, e, com um volumoso carregamento barato, segui para o rio Madeira, a fim de explorar em meu único proveito a ingênua simplicidade dos seringueiros.

Não me falharam os cálculos: meses depois voltei ao Pará, e adquiri maior carregamento, que fui de novo impingir às remotas regiões do alto Madeira, onde os jacarés e onças respeitaram-me sempre a delicada posição de inofensivo estrangeiro, que carece de proteção, que não deve ser ofendido nunca em um país amigo!"

Calou-se. Em sua larga boca de expressão franca e descuidosa estava o eterno sorriso zombeteiro, aquele sorriso simpático, que me atraía para esse homem com toda a enorme força de um robusto afeto nascente.

Acendeu um charuto e continuou:

— Para encurtar prolixidades: seis anos depois de nossa falência, eu regressava definitivamente ao Pará, trazendo uma sólida fortuna amoedada em bons contos de réis palpáveis, em notas do Tesouro, no fundo da mala. Tratei logo de cumprir as imposições de um dever: paguei a todos os credores da massa falida, sem exceção de um só! Uma dessas dívidas da firma era uma anquinha,— uma anquinha! — que meu sócio havia comprado para a sua Vênus andaluza! Fiquei ainda com bastante dinheiro, com que estabeleci-me pela segunda vez,— dessa feita sem sócio, para não mais ser prejudicado por ninguém.

Quis a sorte que eu me apaixonasse por uma formosa rapariga paraense,— farta carnação morenamente excitante e grandes quadris arredondados, divinos,— filha de um subdelegado de polícia. Casei-me com ela alguns meses depois de a ver. Não tinha educação, era estúpida, mas possuía a convicção da beleza nas formas, a imponência da sensualidade no olhar, e eu amava-a! Que me importava o resto?

Dois anos vivi eu nos braços de uma felicidade ilimitada. Luíza a minha cativante mulher adorada, de dia para dia ganhava um palmo em minha infinita afeição serôdia, e cada vez mais revelava-me um esplêndido segredo de sua magnífica beleza de crioula! Era um delírio, uma loucura dulcíssima e purificadora, aquele amor que eu lhe votava com toda a vibrante virilidade do meu corpo e da minha alma! A pequenina casa em que vivíamos era para mim uma Cápua desejada, onde a minha languidez encontrava tranquilo bem estar, nos braços da sedutora Luíza O dia seguinte, que para muitos é um enigma aterrador, apresentava-se-me franca e gostosamente como a fiel reprodução inalterável da véspera e do dia presente. Horas suavíssimas de um amor intenso e bom, como fostes amadas pela pieguice da ingenuidade do meu espírito!"

Calou-se ainda, com o rosto demudado em uma espiritualização prazenteira. Mas fitou-me, e logo o tal sorriso irônico volveu a arregaçar-lhe a rubra ponta do lábio grosso e varonil.

E prosseguiu, após haver acendido o charuto que se apagara:

— Eu tinha inteira confiança em Luíza. Jamais a ideia de uma perfídia de sua parte me passara pelo tranquilo espírito de marido que confia. Como poderiam enganar-me aqueles olhos tão belamente claros e brilhantes, aquela boca de perfumosos lábios que davam beijos tão doces, tão sensuais, tão irritantes? Santa simplicidade das almas descuidosas! O meu espírito era o espelho onde se refletia o meu coração e onde eu supunha ver a alma de Luíza estava realmente a minha, a minha que em breve tinha de ser tão rudemente ferida pelos fatos!

É como lhe digo. Luíza era um demônio, longe de ser um anjo, como eu a fantasiava na benevolência do meu ilimitado amor. De imaginação criadora e ardente, apaixonara-se por um gordo vaqueiro de Marajó, que viera à cidade, e um belo dia, quando, ao cair da tarde, regressei a casa para jantar, não mais a vi: a safardana roubara-me todo o dinheiro que eu tinha em casa e fugira com o sobredito cujo mencionado vaqueiro, como vim logo a saber, por informações ministradas pela vizinhança, com grande vergonha dos meus brios de homem robusto, completo, valente e, na minha valiosa opinião, não de todo incapaz para o principal fim a que visava aquela ardente mulher material e voluptuosa.

E que pensa o senhor que eu fiz para a castigar? Que a persegui com as leis do seu país em punho? Que fui buscá-la ao meio dos touros de Marajó, onde, por certo, ela repousava, muito lânguida e sensual, nos braços do ciclópico vaqueiro? Que expus à irrisão pública, às chufas da plebe, a ignara patifaria de minha mulher e a irreparável desonra do meu nome? Nada disso, meu caro! Deixei-a ir, sem me incomodar! Olhe, mandei-lhe mesmo umas camisas e anáguas de que se esquecera com a precipitação da fuga! Veja até que ponto fui complacente. Veja que santa bondade a minha!

A desgraçada morreu um ano depois, vítima de béri-béri; pois bem; para mostrar a Deus que não sou de todo mau, mandei por alma de minha mulher rezar, na igreja do Carmo, uma triste missa de réquiem, a que assisti com respeito e piedade."

Calou-se, sem uma comoção no rosto ou na voz. Falava como se tratasse do tempo ou da cor do céu naquele momento: com a máxima placidez. E logo o seu velhaco risinho sarcástico saltou-lhe da boca e veio espreitar-me de sobre o lábio superior,— como se fosse um depoimento vivo da tranquilidade daquela alma em face de todos os extraordinários acontecimentos que por cima dela haviam passado, sem conseguirem emocioná-la.

O meu companheiro, o meu estranho conviva, ergueu-se e, acenando-me para que acompanhasse-o, seguiu em direção ao povoado, cantarolando esta pândega quadra do Dia e a Noite, de Lecocq:

Minha mulher, que Deus levou,
Foi-me infiel constantemente;
Nada disso me acabrunhou:
Levei o caso alegremente!


Marques de Carvalho (1866 – 1910)

João Marques de Carvalho (Belém, 6 de novembro de 1866 — Nice, 11 de abril de 1910) foi um escritor, diplomata e jornalista paraense. É autor da obra naturalista Hortênsia, de 1888, ambientada em Belém.

Em 1879, embarca para Lisboa a fim de continuar os estudos de humanidades. Dois anos depois transfere-se para a França. Volta ao Pará, em 1884, iniciando a carreira de jornalista como colaborador do Diário de Belém. Rompe no ano seguinte com esse periódico pela recusa em publicarem o conto "Que bom marido!", declarado imoral. No dia seguinte A Província do Pará o publica. Mais tarde, esse trabalho aparece em Contos Paraenses, 1889.

Em 3 de setembro é representada no Teatro Cosmopolita a comédia em um ato Entre Parentes..., na festa da atriz Aurora de Freitas.

Em 1887, é um dos fundadores e redator-chefe do diário Comércio do Pará.

Em 1888, publica sua obra máxima, Hortênsia, um romance naturalista que retrata um incesto entre dois irmãos. Foi impresso na tipografia da Livraria Moderna, em Belém. Foi reeditado, em 1989, e por último em 1997.

Em 1891, sendo ministro das Relações Exteriores (1891 a 1893) o paraense Justo Leite Chermont, inicia a carreira diplomática como cônsul brasileiro em Georgetown. No ano seguinte é transferido para Assunção como segundo-secretário de legação.

Em 1894, é transferido para Montevidéu como primeiro-secretário. Um ano depois vai para Buenos Aires como encarregado dos negócios. Em 1896, é demitido de suas funções por interferência do ministro Fernando Abbott, que o acusa dos crimes de peculato e estelionato. Volta então para Belém, reiniciando as atividades jornalísticas em A Província do Pará.

Em 1897, vai ao Rio de Janeiro para defender-se da acusação imposta ficando preso no quartel da Brigada Policial.

Em 1898, é condenado por peculato, grau médio, no Supremo Tribunal Federal. Por intermédio de seu advogado, é absolvido no ano seguinte.

Em 1900, funda a Academia Paraense de Letras, que só irá se estabelecer de fato em 1913.

Achando-se doente, fixa residência em Nice, onde falece.

Obras
Georgina, novela, Diário de Belém, 1884
Que bom marido!, conto, Província do Pará, 1885
Entre parentes..., peça, 1885
O sonho do monarcha, poemeto, 1886
Lavas, poemeto, 1886
Paulino de Brito, ensaio, 1887
Hortênsia, romance naturalista, Tip. da Livraria Moderna, Belém, 1888
O livro de Judith, versos e contos, 1889
Contos Paraenses, Tip. de Pinto Barbosa, Belém, 1889 (eBook)*
Entre as Nymphéas, contos e sensações, Buenos Aires, 1896 (eBook)*
A carteira de um diplomata, comentários, Typ. Aldina, 1889
Contos do Norte, tip. da Papelaria Silva, Belém, 1900 (eBook)*
A Bubônica, revista de volumes paraenses, 1904

Referência
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. São Paulo: Global.

* Os ebooks encontram-se disponíveis no Projeto Gutenberg.
Fonte:
Wikipedia

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Varal de Trovas n. 516

 

Stanislaw Ponte Preta (Garoto linha dura)

Deu-se que o Pedrinho estava jogando bola no jardim e, ao emendar a bola de bico por cima do travessão, a dita foi de contra uma vidraça e despedaçou tudo. Pedrinho botou a bola debaixo do braço e sumiu até a hora do jantar, com medo de ser espinafrado pelo pai.

Quando o pai chegou, perguntou à mulher quem quebrara o vidro e a mulher disse que foi o Pedrinho, mas que o menino estava com medo de ser castigado, razão pela qual ela temia que a criança não confessasse o seu crime.

O pai chamou Pedrinho e perguntou: — Quem quebrou o vidro, meu filho?

Pedrinho balançou a cabeça e respondeu que não tinha a mínima idéia. O pai achou que o menino estava ainda sob o impacto do nervosismo e resolveu deixar para depois.

Na hora em que o jantar ia para a mesa, o pai tentou de novo: — Pedrinho, quem foi que quebrou a vidraça, meu filho? — e, ante a negativa reiterada do filho, apelou: — Meu filhinho, pode dizer quem foi que eu prometo não castigar você.

Diante disso, Pedrinho, com a maior cara-de-pau, pigarreou e lascou:

— Quem quebrou foi o garoto do vizinho.

— Você tem certeza?

— Juro.

Aí o pai se queimou e disse que, acabado o jantar, os dois iriam ao vizinho esclarecer tudo. Pedrinho concordou que era a melhor solução e jantou sem dar a menor mostra de remorso. Apenas — quando o pai fez ameaça — Pedrinho pensou um pouquinho e depois concordou.

Terminado o jantar o pai pegou o filho pela mão e, já chateadíssimo, rumou para a casa do vizinho. Foi aí que Pedrinho provou que tinha ideias revolucionárias. Virou-se para o pai e aconselhou:

— Papai, esse menino do vizinho é um subversivo desgraçado. Não pergunte nada a ele não. Quando ele vier atender à porta, o senhor vai logo tacando a mão nele.

Fonte:
Stanislaw Ponte Preta. Dois amigos e um chato. 
Ed. Moderna, 1996

Apollo Taborda França (Provérbios em Trovas)

"Água mole em pedra dura"
— No ditado popular...
"Tanto bate até que fura",
não se tem o que negar!
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"A moda não incomoda"
clama incauta a sociedade...
Enquanto isso corre a roda
e se esvai a probidade!
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Amor à primeira vista,
das loucuras a maior...
Nos abaixa muito a crista
e nos cega, o que é pior!
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"Amor com amor se paga”,
é verdade inquestionável...
Cicatriza qualquer chaga,
mesmo que tida incurável!
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"Amor com Amor se paga".
Que emotiva sensação...
No coração sempre há vaga,
pra atender esse refrão!
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As palavras que são loucas,
que sacodem a razão...
Temos as orelhas moucas,
pra afastar a confusão!
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"Devagar se vai ao longe",
mas, não parar é preciso.,.
Usar a calma de um monge,
a cautela e o bom juízo!
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Dizem que "águas passadas
não movem moinho" qualquer...
Para muitos "latinadas",
entender se faz mister!
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Dizem "espeto de pau"
para a casa do ferreiro...
Que enriquece o seu mingau,
tendo "prata" o ano inteiro!
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Dizem que "quem planta vento,
colhe logo tempestade"…
Vira a vida num tormento,
pleno de adversidade!
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E "Quem com o ferro fere,
com ferro será ferido"...
Fica num tal miserere,
curtindo choro sofrido!
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E "Nem tudo o que balança
cai" — verdade, felizmente...
Reforça a minha esperança
e me torna mais prudente!
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E no afã da economia,
"barato sempre sai caro"...
Pãodurismo, que mania,
só nos leva ao desamparo!
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E "Quem planta vento colhe
tempestade" pela vida...
Se aniquila qual um molhe
que perdeu sua medida!
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E "Quem rouba de ladrão"
que se acautele na vida...
Ter cem anos de perdão,
promessa muito atrevida!
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Há exceção em toda a regra,
o sistema é flexível...
Pois, que a vida assim se alegra
nada ficando impossível!
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"Mais vale quem Deus ajuda"
na vertigem da semana...
"Do que quem cedo madruga"
sempre queimando a pestana!
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Não cantes loas ao Chefe,
sofrerás qual um proscrito,
levarás um tal tabefe,
pois, assim está escrito!
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Na verdade "Deus ajuda
quem trabalha com amor"...
Recebe honra graúda,
de inestimável valor!
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"Nem tudo o que reluz é
ouro", então, tomar cuidados...
Aparência e rapapé,
só nos deixam desconfiados!
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O bem não dura sem fim,
como o mal também não dura...
Então, vivamos assim,
na amizade e na brandura!
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"Para os outros nunca faças,
o que não queres pra ti" ...
As maldades são mordaças,
que perturbam qual saci!
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"Para quem ama o feio
o bonito lhe parece"...
Ter bondade é galanteio,
com nobreza é uma prece!
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"Para um bom entendedor,
só meia palavra basta"...
Para ele um grã-louvor,
por ter compreensão bem vasta!
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Pra você vencer na vida,
ter vitória assim perfeita...
Leve a sério a sua lida,
esta é a melhor receita!
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"Quem espera sempre alcança",
é hoje outra a verdade...
Quem espera só se cansa
e perde a oportunidade!
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"Quem mal cuida, quem mal usa",
mais um adágio importante...
Assim, há quem muito abusa,
jamais ouça o petulante!
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Que reluz nem sempre é ouro,
Que cai nem sempre balança...
Por isso chega de agouro,
não percamos a confiança!
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Sempre "o santo desconfia
quando a esmola é por demais".
Refinada hipocrisia,
a ilustrar nossos anais!
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Sempre que nos cessa a calma,
falta-nos a educação. ..
A rudeza nos fere a alma,
martiriza o coração!

Fonte:
Apollo Taborda França. Trovas maravilhosas.
Curitiba/PR: O Formigueiro, 1986.

Solange Colombara (Carreata de Micro-Contos) – 4 –

MEDO


Não sabe se foi o destino ou simplesmente medo que fez com que ficasse tanto tempo sozinha. Hoje, quase uma septuagenária, "mergulhou de cabeça" e vive intensamente esse grande amor.
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FRIAGEM

Do trem avistava aquele campo lindo, repleto de girassóis. Abriu a janela e sentiu o cabelo flutuando  no frescor da friagem matutina, enquanto sua mãe gritava: "— Fecha isso! Vai ficar doente!"
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MACARRONADA

Nos relances de lucidez sorria ao lembrar da família reunida aos domingos. Os homens jogando mora, a criançada correndo no quintal e o cheiro do molho da macarronada da nonna. Nesses instantes, cantava feliz aquela velha canção italiana.
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RETRATO
(micro-conto sobre a figura abaixo)

Todos os dias, no mesmo horário, ela ia naquele Café e não imaginava que o jovem pintor que ficava na calçada em frente, fazia seu retrato.

O tempo passou, o Café não existe mais e o que restou foi a tela em seu quarto.

Ainda sente o perfume dela nas tardes do verão parisiense.
 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Versejando 68

 


Dorothy Jansson Moretti (Criança tem cada uma)

…é o título de um segmento da seção "Fatos e Fofocas" deste jornal. E criança tem mesmo, cada uma!...

As duas que vou contar, acho que bem poderiam figurar com destaque numa dessas antologias de frases infantis.

A primeira foi em Sorocaba. Em casa de meus cunhados, estávamos todos na sala, assistindo à apresentação da novela "Selva de Pedra". Ao ver o sol elevar-se como em explosão, e os prédios emergirem por entre as rachaduras, um garotinho, filho de uma amiga da casa, saiu-se com esta incrível observação:

"Mamãe, agora eu já sei como é que casa nasce." (!!!)

A outra foi no Mackenzie. A professora de música estava ouvindo os pequeninos das séries primárias cantarem o Hino Nacional, e percebeu nitidamente quando um deles, sujeitinho minúsculo, pronunciou: "Em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do Cruzado resplandece..."

"Não é Cruzado", corrigiu ela, rindo. "É Cruzeiro!"

E o pedacinho de gente, muito sério e admirado, replicou:

"Mas não existe mais Cruzeiro, Professora." (!!!)
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Tribuna de Itararé — 09/07/1986

Fonte:
Dorothy Jansson Moretti. Instantâneos. São Paulo: Dialeto, 2012.
Livro enviado pela escritora.

Carla Rejane Silva (Poemas Avulsos) 1

FIM DA LINHA


Pois é: fiquei assim
Vazia de tudo
Principalmente de mim

De toda desiludida
Vencida
Pensei tivesse chegado ao fim

E, de fato, cheguei

Hoje não me encontro
Não me acho
Este é o ponto
Virei  alma
Em fracasso

Tento me soerguer
Viver, viver, viver...
Tornar a ser
Eu de novo
E deixar de sofrer
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DESEJO SECRETO

Eu só queria ser feliz
viver um imenso amor
como nunca vivi...
Como nunca senti!
Como, aliás, nunca consegui...

Em busca dele,
andei, procurei
fui, voltei, voltei, fui...
e afinal das contas, me cansei...
me cansei... me cansei...

Inconformada,
tornei a ir
E, de novo  regressar
Mas foi aí que não mais me achei!...
Verdade! Não mais me achei.

Não me encontrei...
e agora, às cegas
me questiono:
PARA ONDE... PARA ONDE  IREI?!

Confesso,
Me perdi na estrada
tão longa me vi
na caminhada
que até agora...

...Não sei onde foi que parei.
Não sei onde foi..
Não sei,
Não sei...
Onde foi que de fato, EU ME ABANDONEI!
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Carla Rejane da Silva Costa dos Santos (nome literário: Carla Rejane Silva). Cinquenta e cinco anos, viúva. Mineira de Araguari, onde nasceu em 1965. Escritora inveterada. Coleciona vários escritos. Pretende lançar seu primeiro livro em um futuro próximo. Sonha, todavia, em perpetuar na literatura que é a sua paixão e quer, simplesmente, ser uma partícula dentro dela e, num futuro próximo poder embriagar os corações de seus leitores. Ainda pequena, dando os primeiros passos como cronista. Tudo o que escreve vem do coração.

Fonte:
Poemas e biografia enviados pela autora.

Jaqueline Machado (Aruanda entre Nós) 3 – Sete Ondas


Sete Ondas sempre girando...
E, pelas ondas do mar,
de vermelho vem cantando
canções de amor ao luar...

 
Ela nasceu à beira mar, frágil e pequenina. Sua mãe, doce mulher, jovem, mas bastante sofrida pelo excesso de lida diária, sentindo–se muito fraca, sabia que ia morrer. Então despede-se da criança, a coloca num barco à deriva que se aproximava da areia e, ali, em meio a lágrimas, pede a Iemanjá, para que salve a sua menina. Depois do esforço físico e emocional, a mulher deita-se novamente na areia. E a mãe d’água, surge ao mote a navegar. Ao entender que a filha estava salva, a pobre mãezinha fecha os olhos e descansa em paz. Nesse momento sofrido, uma sereia vem apanhar sua alma e a conduz até o colorido vale das mães que passam por tal sacrifício.

No porto de uma ilha que em tempos longínquos, sofrera sete maremotos e que por isso acabou sendo batizada como a ilha das sete ondas, o bebê foi entregue. Horas depois a menina é encontrada por uma jovem senhora benzedeira que não podia ter filhos. A mulher, sentindo-se muito feliz, agradece a Iemanjá, o belo presente vindo de suas águas, e depressa vai contar a boa nova para o marido, um bondoso marceneiro que também sonhava em ser pai.

No pequeno povoado, a garotinha crescia saudável e contente. Conversava com as pequenas sereias que surgiam à beira d’água, e ajudava o seu pai nas pescarias. Com o passar do tempo, a menininha foi transformando–se numa linda adolescente. Seus cabelos longos, negros e ondulados, contrastavam com sua pele clara e seus olhos profundamente azuis. Ela possuía uma beleza embriagante. As íris daquele povo jamais refletiram perfeição igual.

A jovem era muito faceira, não perdia um luau e estava sempre cantarolando e dançando, dentro e fora das águas. Os garotos e até mesmo os homens velhos eram apaixonados por sua graça. Mas ela não se interessava por ninguém. Guardava–se para a chegada de um grande amor que sempre lhe surgia em sonhos.

E foi assim que aconteceu.

Certo dia, visitantes marinheiros vindos de uma outra ilha distante, desembarcam no cais e, dentre esses marinheiros, um atrai a sua atenção. Numa noite de festa e entrega de oferendas a Iemanjá, os dois se aproximam, contam histórias curiosas sobre seus povos, sorriem e choram. Tornam-se amigos e logo em seguida iniciam um bonito namoro. Apaixonado, o rapaz decide nunca mais partir. No decorrer de um ano, eles não se desgrudaram. Tinham planos de casar, ter inúmeros filhos e serem felizes para sempre. Mas, por uma misteriosa razão, quis o destino separa-los.

O rapaz foi convocado a defender o seu povo de uma invasão de piratas. Ele não queria ir embora, mas como poderia negar ajuda a seu povo? O marinheiro promete logo voltar, e deixa a moça chorando à beira do cais. Todos os dias ela ia até a beira do mar esperar pelo retorno do seu amado. Essa espera tornou-se um ritual.

Os dias passavam, as semanas, os meses, e o marinheiro não desembarcava de nenhum barco. Com isso, a jovem, foi perdendo a sua constante alegria e, aos poucos, deixou de se alimentar. Seus pais adotivos fizeram de tudo para que ela voltasse à vida normal. Mas os argumentos não foram capazes de recuperar o seu estado de espírito.

A jovem queria morrer, e a grande mãe d’água, não suportando mais vê–la sofrer por amor, em certo entardecer, quando a menina estava deitada sobre uma pedra, com seu jeito amoroso chama por sua protegida. A moça que tinha apenas dezoito anos, atende ao chamado, e Iemanjá, cumprindo a promessa de cuidá-la sempre, a leva para seu reino encantado. Ao chegar no fundo do mar, ela reencontra sua mãe biológica e também o seu amado.

Por ter sofrido muito por amor, a moça é nomeada pela falange dos oceanos, em homenagem à ilha onde cresceu, ao cargo de guardiã das SETE ONDAS, tendo como missão proteger os lares, os templos e os corações sofridos das jovens apaixonadas, que por muitas vezes se deixam naufragar pelas fortes ondas da desilusão.

Fonte:
Texto enviado pela autora.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Arquivo Spina 41: Solange Colombara

  
Fonte:
Solange Colombara e Ronnaldo de Andrade (orgs.). Primeira Antologia Spina.
São Paulo: Areia Dourada, 2021.
Livro enviado por Solange Colombara.

Evely Libanori (Hélio)

"Você pode fazer o favor de comprar ração para a gata do seu pai?" Isso foi quando nós duas acabávamos de chegar das compras do mercado. Me deu uma raiva... Meu pensamento falou: "Mas, mãe, por que a senhora não comprou no mercado?". Mas a minha boca ficou quieta.

Ela se esqueceu, e agora me toca ir ao pet shop, porque voltar no mercado eu não vou, com toda aquela gente de sábado lá, as filas que não têm fim... Fui ao pet shop. O medo de ir lá, o que eu vou ver... Evito passar perto de pet shop, mas de repente eu me vi entrando num deles para comprar ração para a gata do meu pai. Eu não queria ver, mas estava na minha frente: um gatinho tigrado dentro de uma gaiola. O único gatinho na gaiola. Ele era assim, como dizia a minha avó: ele era um gato carijó. Na minha infância houve o galo carijó e o gato carijó. Minha avó me explicava, Aproximava, na cor, as espécies diferentes e me ensinava o amor por todas elas.

Ele era um gatinho carijó, do pelo tigrado e cinza, preso numa gaiola de arame. Desviei o olhar. Lembrei: já tenho doze, não posso mais. Não olhei mais para ele, não olhei, me fiz forte. Fiz o meu pedido no balcão e não olhei mais para o gato tigrado, até que... eu olhei de novo, sim... Eu olhei de novo para o gato, que era tão lindo. E virei a estátua de sal, fiquei para sempre olhando aquela cena que até hoje eu vejo: o gato carijó na gaiola. Ele estava fazendo a coisa mais inocente do mundo: estava brincando.

Na gaiola, amarraram uns penduricalhos e ele brincava com as bolinhas, feliz. Tão lançado à própria sorte, tão abandonado e largado, tão longe de saber o que é a desgraça dos animais abandonados.

Aí eu entendi: "Eu, aqui, pensando que a vida é dura por ter que atender mãe e pai velhinhos, e você, gatinho, ah, e você, gatinho, que está preso sozinho nessa gaiola de arame porque ninguém te quis e está esperando adoção e sabe-se lá se alguém vai te querer e sabe-se lá o que a pessoa que te quiser vai fazer com você... Meu Deus, gatinho, você precisa aprender tudo sobre a vida e a realidade dos gatos sem lar".

O moço do balcão veio conversar e eu perguntei:

"E aquele gatinho ali?". "Vieram deixar aí faz uns quatro dias. Deixaram três e já levaram dois, mas esse aí ficou".

Um gatinho tigrado, pelo curto, rabo fino. Nem sinal de pedigree... E era tão lindo o gato. Um gato carijó...

Então o gato me ensinou uma lição: "Nada de pena de si, mocinha, Olhe ao seu redor. Reconheça quem, de fato, está encrencado". Eu o amei. E decidi: "Não, não vou fazer isso com você! Vou te livrar da miséria da vida porque você me ensinou uma lição". Ele estava tão ferrado e tão feliz, dentro da gaiola de arame... Ele brincava. E eu fui até ele: "Você virá comigo. Será que você é macho ou fêmea?" Tanto fazia, já o amava. Era macho. O nome dele ficou sendo "Hélio", porque é um nome alegre, aberto, e é o sol, o deus.

O Hélio vive comigo, no meu colo. Somos felizes. E essa é a verdadeira história.

Fonte:
Evely Libanori. Nós, animais. SP/RJ: Livro Expressão, 2013.
Livro enviado pela autora.

Therezinha Dieguez Brisolla (À Procura de Estrelas) 3

AMOR PLATÔNICO


De repente, o seu olhar
encontrei na multidão
e vi a vida passar...
Ele esqueceu... mas, eu não!


Desconheces que te amo e, com certeza,
não supões quanto eu sofro ao te encontrar.
Em meio à multidão, com que tristeza,
o meu olhar procura o teu olhar!

E passas sem me ver... eu, indefesa,
sufoco a dor, tentando disfarçar
a emoção que mantém a chama acesa
dessa paixão, que só me faz penar!

Ouço a razão... Mas, antes de partir
atendo o apelo do meu coração.
Quero passar por ti... e me iludir

que o teu olhar, amor de minha vida,
encontre, enfim, em meio à multidão,
meu triste e meigo olhar... de despedida!
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LAR... DOCE LAR…

Volto à casa, que "era minha",
risco a calçada e, feliz,
vou pular amarelinha
mas, o pranto apaga o giz!


Hoje, saudosa, eu volto ao lar antigo
e escancarando a porta semiaberta,
procuro em vão... vasculho o doce abrigo...
Nem pai... nem mãe... a casa está deserta!

E volto ao lar, que dividi contigo...
- Vaivém dos filhos, pela porta aberta...
- Visita alegre de um ou de outro amigo...
E, hoje, é a saudade que o meu peito aperta.

Mas, por deixar pegadas nos caminhos,
não fiquei só!... Cercada de carinhos,
eu sou feliz!... Se volta o sonho louco

do teu amor, acalmo o coração
pois, ao sentir que chega a solidão,
no amor dos filhos eu te encontro um pouco.
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O ORATÓRIO

Ao atender meu apelo
se a vida se faz ingrata,
chego a sentir o desvelo
com que Deus sempre me trata!


A casa, da fazenda, imensa e bela!...
No quarto, que o lampião iluminava,
um oratório... e, à noite, acesa a vela,
alegre ou triste, minha avó rezava.

A casa, na cidade, bem singela!...
No quarto, quando o dia se apagava,
um oratório... e eu lembro a imagem dela,
alegre ou triste, minha mãe orava.

No quarto simples, quando a noite cai,
um oratório... e, a sós, eu clamo ao Pai,
alegre ou triste, muito Lhe agradeço

os dons da paz, saúde, vida e amor
e, de mãos postas, louvo ao meu Senhor,
pois deu-me muito mais do que mereço.

Fonte:
Therezinha Dieguez Brisolla. À procura de estrelas.
Porto Alegre/RS: Odisséia, 2014.
Livro enviado pela poetisa.

Lima Barreto (A Sombra do Romariz)

DIZER QUE não trabalho mais à noite, no jornal, não é bem verdade. Licencieime por alguns meses, para lá não ir à noite. Quando há desses turumbambas políticos, na cidade, fujo do trabalho noturno. E faço semelhante coisa principalmente quando vejo certos nomes metidos neles.

Quem expunha isto era o tipografo Brandão a seu colega Barbalho que tinha observado àquele a sua ausência das oficinas do Diário Carioca, naqueles últimos dias.

Brandão continuou:

– Quando vejo tais nomes fico cheio de pavor, meu ânimo se estiola, não tenho coragem para nada, toda a minha personalidade é atingida de seca. Há dias, a mulher me pediu que fosse reconhecer a firma de um papel necessário a ela, a fim de receber uma pensão. Fui para a oficina, de manhã, hesitei, tive medo, afinal dei uma gorjeta a um aprendiz, para ir ao tabelião.

– Então, sempre estás trabalhando de dia?

– Que fazer? Preciso de algum dinheiro para as despesas inadiáveis; mas, à noite, nunca.

– Porque isto?

– É a sombra do Romariz.

– Quem é ou quem foi esse Romariz?

– Eu te conto. Em 1890, acabava-se de proclamar a República. Isto há trinta anos. Eu tinha vinte e poucos. De dia, trabalhava na Casa Mont’Alverne; e, a noite, fazia uns bicos, na Tribuna Liberal. Um jornal apaixonadamente monarquista que atacava o governo provisório sem peso, nem medida. A bem dizer, não o lia ou mal o lia, porque, quando deixava a oficina da Tribuna, para pegar o último bonde de Vila Isabel, onde morava, ele ainda não estava impresso. A campanha da Tribuna era superiormente feita e levada com rijeza, no dizer de todos. Começou-se a falar que iam empastelar a folha. O governo desmentiu, assinalando que era seu ponto de honra manter a liberdade de pensamento e de imprensa.

“Continuei a trabalhar com mais coragem e sossego. Vi senão quando, aí pelas oito ou nove horas, entrar pela oficina adentro o aprendiz assustado e avisando cheio de terror: “Fujam! Fujam! Lá vêm eles!” Perguntado o que havia, contou que descia pela Rua do Ouvidor um magote de gente, fardados e outros à paisana, a gritar: “Morram os sebastianistas! Morra a Tribuna Liberal! Viva o Marechal Deodoro!” etc., etc.

“À vista da narração do pequeno, todos trataram de fugir. Em nenhuma seção do jornal ficou viva alma. Redatores, revisores, compositores, impressores – todos fugiram. Só ficou no edifício o Romariz, um pobre revisor que dormia profundamente, descansando a cabeça sobre os braços cruzados e estes sobre a mesa de trabalho.

“Por mais que o sacudissem e o chamassem, não foi possível despertá-lo. O tempo urgia; e o infeliz revisor lá ficou abandonado. Ele vivia tresnoitado; trabalhava dia e noite para manter a mãe e os irmãos. Tinha um pequeno emprego na estrada de ferro, que mal lhe dava para pagar a casa em subúrbio longínquo; lançara mão do ofício de revisor de provas, para acrescentar sua renda. Saía tarde do jornal; havia poucos trucks naquele tempo; e, muitas vezes, só ia em casa para mudar o colarinho, comer um pouco e voltar à cidade, a fim de assinar o ponto na Central.

“Como te disse, foi ele o único que ficou, devido a seu profundo sono, perfeitamente explicável como tu já viste. Os assaltantes foram entrando, quebrando balcões, máquinas, derramando as caixas de tipos no chão, enquanto outros subiam ao primeiro andar cheios de raiva que, neles, nada explicava. Topando com o Romariz dormindo, nem se deram ao trabalho de despertá-lo. Foram-no desancando de cacete e de coices de armas na cabeça e ele mesmo sem saber porque. Vi-lhe o cadáver, estava hediondo; vi-lhe a família, que ficava na maior miséria: vi...”

– E daí?

– Daí é que quando há desses turumbambas políticos, vejo a sombra do Romariz que me diz: “Não vás trabalhar, à noite”.

– És espírita?

– Não; mas há muito mistério nesta nossa triste vida terrena.

Fonte:
Lima Barreto. Contos vários. Domínio Público.

sábado, 24 de julho de 2021

Adega de Versos 36: Hegel Pontes

 

Carolina Ramos (O Vencedor)

Filho de alfaiate, Robson não era um Petrônio porque a natureza não o ajudava. Baixinho... sem maiores predicados que o cabelo cheio e encaracolado, supria a ausência de atributos adicionais, sempre trajando-se com o mais cuidadoso apuro.

A profissão do pai colaborava... E muito! Havia também interesses profissionais... impossível negar. O filho era, indiscutivelmente, fator de publicidade ambulante, dos mais autênticos, para os negócios daquele pai que nele investia, conscientemente. Por sua vez, a baixo custo, Robson promovia a alfaiataria do pai.

O investimento interessava, portanto, a ambas as partes – autêntico negócio de família para ninguém botar defeito.

Robson escovou e alisou, cuidadosamente, o terno retirado da mala. Vestiu com ele o cabide e dependurou-o no lado esquerdo do guarda-roupa, como se aquele fosse lugar previamente reservado.

Custava-lhe ter de dividir espaço com aquele companheiro de quarto, imposto pelas circunstâncias. Olhou-o de soslaio. Baixinho como ele e, como ele... caladão.

A procura comum de um quarto, num hotel barato, unira interesses de ambos os lados. O moço de cabelos encaracolados, com pretensões a Petrônio, viera de Catanduva para enfrentar o vestibular da Faculdade de Direito, disposto a gastar o quanto menos possível. O que teria pela frente, após bater asas e deixar o ninho, exigia prudência e contenção de despesas.

Na portaria, aquele rapazote de jeito simplório, que não conseguia uma vaga, acabara por lhe vencer a resistência, levando-o a renunciar à independência de ter um quarto só para si. De mais a mais, quarto com duas camas, partilhado entre dois, pesaria menos nos bolsos de qualquer um. Por isso, ali estavam: - um, esvaziando a bagagem com desenvoltura; o outro, meio constrangido, ajeitando sacolas como quem não tem pressa de exibir-lhes o conteúdo.

Num impulso de cordialidade, Robson tentou quebrar o gelo:

- Olhe... eu fico com três cabides e você com os outros três. Tá bom?

O outro concordou com a cabeça, sem alterar a situação das sacolas.

- Meu nome é Robson. Sou de Catanduva. Você vem de onde?

- Altamiro... meu nome é Altamiro. Vim de Sergipe. Tô procurando meu pai que veio de Aracaju pra cá faz uns oito anos... e ele não voltou mais.

- ...E você não tem algum endereço para chegar até ele?

- Tenho, não... mas tenho o de um tio... irmão do meu pai, que também mora por aqui, há muito tempo.

Foi tudo. O sergipano fechou- se outra vez em copas.

Ajeitado o canto do seu guarda-roupa, o moço de Catanduva acariciou num último olhar o terno impecável, feito pelo pai "com agulha de ouro" para que o filho não cruzasse as tradicionais arcadas do Largo São Francisco menos apresentável do que os demais.

O segundo cabide estava vestido com a camisa que trazia no bolso a etiqueta "Winner", presente da mãe. Sabia que, por detrás dessa marca otimista, estavam as orações dela e das irmãs em busca da cumplicidade do Altíssimo para que ele, realmente, se tornasse um "Vencedor".

Insistiu, dirigindo-se ao companheiro que continuava indefinido a remexer sacolas.

- Como é... você vai ficar por aqui? Eu vou forrar o estômago. Quer que lhe traga alguma coisa?

- Não, não... obrigado. Pode deixar... não estou com fome... vou descansar um pouco... Não dormi nada esta noite.

Já que o moço não fazia questão de companhia, Robson despediu-se:

- Então, tchau! Fique à vontade. Durma bem!

Sozinho, solto na capital paulista, não teve pressa em retomar ao hotel. A rápida refeição estimulou-o a perder-se no burburinho da metrópole, encantado com o esplendor das luzes... arrebatado pelo dinamismo da noite sem sono.

Livre, como um coelho em campo aberto, e, ao mesmo tempo, receoso dos perigos embutidos nessa liberdade, Robson sentia-se como um pássaro em gaiola aberta, hesitante em cruzar os limites do desconhecido. Só quando o cansaço lhe pesou sobre os passos, noite alta, decidiu retomar ao Hotel Paratodos. Denominação eufêmica para um casarão mal cuidado, a esconder segredos em cada quarto, devendo, quando muito, ser chamado de Pensão Paratodos, embora o eufemismo ainda prevalecesse.

Pediu a chave ao porteiro sonolento.

- Está lá em cima com o seu companheiro.

Não chegou a bater... Percebeu que o quarto estava fechado por fora enquanto a chave permanecia na fechadura. Lamentou intimamente a negligência do sergipano. Saíra deixando o quarto praticamente aberto! Que imprudência! Por certo desconhecia os perigos da cidade grande!

Girou a chave, empurrou a porta e acendeu a luz. Não viu o companheiro e nem sequer seus pertences. Sobre a sua cama, apenas um bilhete: - Desculpe.

Sobre a cadeira, única, a sua maleta... aberta e vazia!

Correu para o guarda-roupa. Vazio também! Nem o terno "feito com agulha de ouro"! Terno feito pelo carinho paterno, especialmente para aquela ocasião! A camisa "Winner" também ali não estava, numa evidente demonstração de que tampouco as preces da mãe e das irmãs haviam tido força suficiente para conter a avidez do larápio!

Desceu as escadas aos saltos e, mais uma vez, sacudiu os sonhos do porteiro sonolento.

- Onde está o rapaz?

- Que rapaz?

- Que rapaz há de ser?! O que dividia o quarto comigo, ora!

Os olhos do porteiro sonolento mostravam perplexidade:

- Ele não está lá em cima?! Por aqui é que ele não passou, não!

- Como não passou?! Pulou a janela?!... Quem é ele, afinal? – Robson impacientava-se.

- Quem é não sei... ele subiu com o senhor e ficou de descer em seguida para trazer os documentos e assinar a ficha. Mas... ainda não desceu.

- Como não desceu, cara? Desceu, sim... e levando tudo o que era meu!

Os olhos do porteiro arredondaram-se afinal, vencendo o sono. Robson percebeu que dali não sairia nada a seu favor. A rua escura e deserta desestimulava qualquer busca.

Deu meia volta, irritado... e enfurnou-se no quarto, remoendo maus pensamentos:

- Se eu pego aquele infeliz!!!...

Na manhã seguinte, o moço de Catanduva gastava as parcas economias na compra de roupas novas apresentáveis, embora não tecidas com "agulha de ouro". Roupas que não o envergonhariam perante os colegas do vestibular.

Logo teve certeza de não terem sido totalmente vãs as pretensões da mãe e das irmãs – Foi aprovado!

Pouco mais de um mês, quando voltava das primeiras aulas de temo e gravata como exigiam os Estatutos das Arcadas vislumbrou, numa das filas de ônibus, o seu terno desaparecido e obviamente dentro dele, o sergipano confuso, que também já o vira e tudo fazia para esgueirar-se sem ser pego.

De um salto, Robson agarrou-o pela lapela do paletó. Não reagiu. A fila tumultuou-se. Aglomerada à volta dos dois, gente curiosa... pronta a fazer justiça.

A raiva, até então contida, subiu à cabeça de Robson.

- Seu... seu... Então é assim que se faz?! Confiei em você — Dividi com você meu quarto... e foi isto o que me aprontou, cara?!

A turma que os rodeava, disposta a fazer justiça, recuou desconcertada... Receio de imiscuir-se em questões íntimas.

Agarrado e aterrorizado ante a fúria do estudante, o faltoso encolhia-se, trêmulo, dentro daquele terno que tinha as exatas medidas de ambos.

Ante a ausência de reação... e ao ver o medo estampado nos olhos do rapaz, Robson acalmou-se um pouco mais, afrouxando a mão:

- Como é... encontrou seu pai?!

- Meu pai morreu... há quase um ano!... Meu tio, também, alguns meses depois – foi o que me contou o vizinho.

A mão que agarrava a lapela afrouxou um pouco mais.

- Lamento. - E o que você vai fazer agora?...

- ...Eu ia voltar pra minha terra... pra minha mãe... que precisa muito de mim... mas... se o doutor me entregar...não sei o que vai acontecer...

No olhar acuado, um misto de angústia... de temor... até de vergonha, quem sabe?! O paletó aberto deixava ver no bolso da camisa a marca - "Winner".

Robson sorriu... sem reprimir as cócegas da ironia. A raiva sumira completamente. Largou a lapela.

- Vai... vai embora. E vê se não esquece, nunca mais, do que aconteceu aqui. Da próxima vez... pode ser bem pior! Ah! se pode!!! Lembra bem disto rapaz!... Lembra mesmo!

O garoto ganhou vida! Agradeceu, respirando fundo: – Obrigado, doutor! - e sumiu no ônibus estacionado no ponto.

E aquele moço de cabelos encaracolados, que já envergava outro terno feito com "Agulha de Ouro", continuou seu caminho, num passo seguro de quem tinha plena consciência de ser, indiscutivelmente, um - Vencedor!

- Sequer tinha Diploma... e, em tão poucos minutos, fora chamado de "Doutor'' por duas vezes!...

Inflou o peito, confiante: - Com certeza... aquela não haveria de ser a última vez!!!

Fonte:
Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). Santos/SP: Mônica Petroni Mathias, 2021. Capítulo 5: Contos rústicos, telúricos e outros mais.
Livro enviado pela autora.

Jérson Brito (O Plantador de Sonhos)

I
Na casa de pau a pique
No sopé da serrania
Nonato, Rosa e mais seis
Tinham sua moradia,
Lutando pelo sustento,
Enfrentavam sol e vento
Com coragem, noite e dia.

II
Tinha cinquenta de idade
Seu Nonato, o lavrador,
Quarenta e dois tinha aquela
Que ele chamava de amor,
Uma incansável parceira,
Há vinte e três companheira
Daquele batalhador.

III
Roberto, Antônio, Marcelo,
Laurinha, Luiz e Rita
Eram os nomes dos filhos
De uma galera bonita,
Temente a Deus e valente,
Naquele solo inclemente
Tinha esperança infinita.

IV
Um pequeno galinheiro
E uma roça bem cuidada
Eram a fonte de renda
Da família abençoada:
Para manter cada filho,
Feijão, mandioca e milho
Era a colheita aguardada.

V
Beto e Tonho, adolescentes,
Fora do horário escolar
Ajudavam o seu pai
Nas tarefas e a cuidar
Da pequena plantação,
Conscientes da missão
Que cumpriam no lugar.

VI
As outras quatro crianças
Ficavam com Dona Rosa,
Atenta às coisas de casa,
Sempre muito carinhosa,
Mesmo envolta em afazeres,
Não esquecia os deveres
Que tem uma mãe zelosa.

VII
A vida era dura ali
Pra nunca faltar no prato,
Mas sempre, ao amanhecer,
Demonstrando ser bem grato,
Fazia sua oração
No seu pedaço de chão
O devotado Nonato.

VIII
Certa vez, a sequidão
Fez mirrar todo o plantio,
Oito meses se passavam
E não acabava o estio,
Um estirão de tristeza
Tomou lugar da beleza
No leito seco do rio.

IX
Nonato não se abalou
E preparou novamente
Aquele solo rachado:
Revirou, pôs a semente...
O velho chapéu de palha
Protegia, na batalha,
O rosto do combatente.

X
O rendimento da venda
De seus produtos na feira
Acabou ficando pouco,
Mas surgiu uma maneira
De fazer algum trocado,
Após Rosa ter lembrado
Seus dotes de costureira.

XI
O povo do vilarejo,
Por causa da pandemia
Que já vinha se alastrando
Decerto precisaria
Evitar a enfermidade
Procedente da cidade,
A todos assustaria.

XII
Compraram materiais
Com sua parca poupança
Para Rosa fazer máscaras,
Na torcida e na esperança
Do negócio florescer
E que pudessem vender
Nas casas da vizinhança.

XIII
Com o risco de Covid
Atormentando o local,
Suas vendas deram certo,
Até mais do que o normal;
Depois da boa surpresa,
Quanta alegria na mesa
Sentiu aquele casal.

XIV
A paixão pela lavoura
Era ainda firme e forte;
Apesar de algum abalo,
Nonato tinha suporte
Naquela fé nordestina
Na providência Divina,
No trabalho duro e sorte.

XV
Todo dia, em uma prece,
Contemplando o firmamento,
Pedia as águas de volta
Para aquele chão sedento;
A solução provisória
Louvava na rogatória,
Mas precisava de alento.

XVI
O Senhor não desampara
Um filho temente, honesto
E, assim, a bênção chegou
Para aquele lar modesto:
A chuva tão esperada
Deixou a terra encharcada,
Os risos contam o resto…

Contos e Lendas do Mundo (A Mirra)

A mirra é um corpo seco de homem que foi amaldiçoado. A terra não come a carne e esta vai ressecando em cima dos ossos.

Um rapaz muito vivo e engraçado entrou num cemitério com seus companheiros e ao sair viu uma mirra. Lembrou-se de dizer, por chiste:

— Está magra de fome. Venha daí cear comigo !

— Irei — disse a mirra, com uma voz fanhosa, toda passando pelo nariz. O rapaz ficou assombrado e foi dali lançar-se aos pés do vigário a quem tudo contou.

— Tens que cumprir o convite. Depois da ceia te convidará e aceitarás sem sinal de medo. Volta cá que te darei outro conselho.

O rapaz preparou a ceia e a mirra foi-lhe bater à porta à meia noite, sentando-se á mesa e comendo até não mais poder. Depois falou para o dono da casa:

— O bem que me recebeste em tua casa, devo retribuir de qualquer modo. Amanhã esperar-te-ei onde me convidaste.

E se foi embora. O rapaz não dormiu e pela manhã estava na casa do vigário que lhe deu um rosário indulgenciado, com o perdão da hora da morte e emprestou-lhe a capa com que saía.

O rapaz foi para o cemitério e encontrou a mirra.

— Está bem. Deixa a capa aqui e o rosário de que não tens necessidade lá dentro.

— Não, que está frio e do rosário não me separo!

A mirra teimou e o rapaz não cedeu. Estiveram debatendo esse ponto, quando a mirra declarou:

— Assim não te posso levar para cear comigo. Não posso ficar junto da capa dos ministros de Deus e das armas de Nossa Senhora. Vai-te, e não tornes a brincar com os que não vivem…

O rapaz pôs-se fora o mais depressa que pode e nunca mais disse graças com os mortos.
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Essa versão reforça uma opinião de Gustavo Barroso sobre o ciclo de Don Juan. A lenda, como a conhecemos e tem sido aproveitada em romance, teatro, poema e pintura, é uma concordância de dois elementos independentes: a) a conquista de mulheres; b) o convidado do morto, caveira, estátua, etc. Esta historieta pertence ao segundo elemento, assim como A Mirra que Teófilo Braga colheu no Algarve, e A estátua que come, do Sardoal. Não há país europeu ou americano que não possua uma variante.

Na estátua que come, Teófilo Braga obtém um elo português na tradição do convidado de pedra. Aristóteles fala na estátua de Mitis, em Argos, que tombou sobre o assassino de quem representava, esmagando-o (La Poetique, cap. IX, 23, trad. de Ch. Emile Ruelle, Paris). Em Lisboa, no ano de 1610, um clérigo obteve a proibição de S. Jorge acompanhar a procissão de Corpus Christi instalado num cavalo. Ante os protestos do povo, o bispo dom Miguel de Castro autorizou a inclusão do santo mas este não perdoou ao intrigante. É tradição que, no domingo imediato, quando o clérigo que levara o Prelado a decretar a proibição dizia missa no altar de S. Jorge, caiu ao Santo a lança e feriu-o na cabeça! (Jaime Lopes Dias, Festas e Divertimentos da Cidade de Lisboa, Lisboa, 1940).


Fonte:
Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Luís da Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944. Disponível em Consciência.org

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Varal de Trovas n. 515

 


Sammis Reachers (O meu vizinho)

Ontem o gritei, enquanto eu voltava da mercearia, onde fora comprar um real de pão e um quilo de açúcar Guarani – aquele intermediário entre o União e o Caravelas.

Ele passara por mim há pouco com sua bicicleta de carga e suas roupas indefectivelmente sujas, como de estivador. Eu queria dar-lhe alguns remédios que comprara para um dos gatos da casa, e que agora ficaram sem uso, e poderiam estar fazendo falta para alguém.

Ele é um desses alguéns e conhecedor de muitos outros como ele – um protetor de animais, um zelador da criação numa luta dantesca contra tantos gigantes – da coisificação dos animais ao discurso dos politicamente corretos de sofá & plantão – “Tanta gente precisando de ajuda, e você salvando cães?”.

Ele, que tem emprego fixo, após o expediente engata no segundo batente – coletor de reciclagens, cuja boa parte do lucro, eu o sei, é destinado a alimentar e cuidar de animais sob a guarda dele e de outros. Lida com lixo – o lixo humano que não entende a nobreza de suas ações, e o lixo produzido com tão desembestada fartura pelo bicho homem, a quem até nisso ele ajuda, recambiando os materiais para que a Terra, brevemente poupada, tenha um quilo a mais de fôlego.

É um camarada excepcionalmente fora da curva – ao menos da curva que nossos cansados e míopes olhos suburbanos alcançam. Arredio a festas e maiores confraternizações ou infernizações sociais, diz não pertencer “a nenhum sistema”; acredita na força superior que a tudo gerou e sustém.

Construiu sua grande casa praticamente sozinho, e nela vive sem aporrinhar ninguém, em nenhum dos trezentos e tantos dias do ano. Como acontece aos demais de sua espécie, a incompreensão leva os demais a cognominá-lo de “maluco”. Bem, até eu já carreguei essa bandeira nas costas. Em certos momentos ela vira até menção honrosa, escudo. Mas voltemos ao nosso homem. Ele se incomoda com carros largados em sua porta, ou a venda de drogas perto a seu portão? Sim. E você, não? Tem um pouco menos de medo que o normal dos homens, mas nada que o faça um Superman. A ninguém aborrece, a todos cumprimenta, e vive como pode sua inadequação.

Enquanto conversávamos em meu portão, vizinho ao dele, um casal de também vizinhos passou pela rua e lhe agradeceu – pela ajuda prestada, vim a saber, com um cachorrinho da tal família que havia ferido internamente o ouvido. Ele, com quem as pessoas têm pouca paciência de conversar – o abençoado insiste em não se enquadrar nos padrões, e olha que cada um de nós tem centenas de padrões pré-programados para engarrafar os outros – disse que fazia aquilo por missão, por senso de missão.

O homem, já senhor de seus sessenta e poucos anos, mas com cara de 45, firme calibre, disse não ser digno de agradecimentos. Pois é apenas um ser humano cumprindo seus propósitos de vida. E que o que fazia nada era, e que já fora, ele também, muito ajudado por muitas pessoas. “Dente da engrenagem, elo da corrente de Gaia”, pensei.

Sendo aguardado pela patroa, tive que me despedir. Enquanto trancava o portão, me surpreendi silenciosamente feliz por um homem de exceção como aquele, misantropo que tão bem conhece a miséria humana, mas a peita e contradiz, ter um tão grande e incompreensível carinho por mim. Oxalá eu, outro gauche na vida, como ele, como Drummond, esteja no caminho certo, seja um dos humílimos remadores contra a corrente?

Sérgio é o nome dele. Um dos muitos gonçalenses anônimos que sustentam essa terra de pé – reserva moral, reserva de amor, reserva de proatividade pró-vida – reserva sem reservas. Um dos quais o mundo não é digno, como diz a Bíblia (Hb 11.38) acerca de santos.

Ronnaldo de Andrade (Caderno de Trovas) – 3 –

Amor, você me conduz
a uma infinita paixão,
feito um cego guiado à luz
e o justo pela razão.
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Ao seu sorriso, querida,
não resisto e mal não tem.
Sendo ele fonte de vida,
ninguém resiste, ninguém!
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Canta, canta passarinho,
para alegrar o meu dia,
pois eu me encontro sozinho,
e a solidão me judia.
= = = = = = = = = = =

Com seu sorriso de santa,
que a mim encanta e diverte,
e essa voz que me acalanta,
qualquer ateu se converte.
= = = = = = = = = = =

Da moldura, teu retrato
rir para mim com desdém.
Quero odiar-te, isso é fato,
mas não consigo, meu bem.
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Daria tudo que tenho,
nadaria em mar de espinhos...
Deus sabe o quanto me empenho
por um só dos seus carinhos.
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Deus lhe pôs no meu caminho,
pra não me ver sofrer mais.
Você, rosa sem espinho,
calou todos os meus ais.
= = = = = = = = = = =

Ela partiu e deixou
minha alma crucificada,
no vestido que ficou
no degrau da velha escada.
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Ensaio a cada minuto,
pedir você em casamento,
mas em pensamento escuto
o não do seu pensamento.
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Eu e você bem juntinhos,
na rede se balançando,
parecemos passarinhos,
quando estão acasalando.
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Eu lhe quero em minha frente
para falar o que sinto,
pois tudo está diferente...
Creia, o amor chegou, não minto.
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Feito esse jardim imenso
que luta contra esse outono,
eu , também, luto e não venço,
o teu cruel abandono.
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Meu coração – em pedaços –
reclama a ausência do seu...
E eu, amor, sem seus abraços,
sou qualquer um, menos eu.
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Meu dedo sem aliança...
E na cama eu sem ninguém.
E quanto mais a hora avança,
chamo você que não vem.
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Não faça assim... Não maltrate
este pobre trovador.
Oh, linda flor, se retrate,
não por mim, por esse amor...!
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Ó coração, não reclama.
Maior do que Deus ninguém,
pois, hoje quem nos difama,
viveu na lama também!
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O nosso amor, meu Amor,
é romance que se encerra
sem mágoa, tristeza, dor...
E sem páginas de guerra.
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O nosso caso acabou,
e eu me questiono em vão:
– Errei? Errei, Amor, ou
nosso amor não tem razão?
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Para a sua e minha glória,
um sentimento surgiu;
temos hoje a mesma história:
– Somos dois que o amor uniu.
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Para você fui ingrato,
fui dor, tristeza, agonia...
Fui tudo, menos sensato,
pois te amei, e não devia.
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Por mais que eu queira não posso,
esconder coisas assim:
felicidade, remoço
e um amor chegado ao fim.
= = = = = = = = = = =

Quando amanheço ao seu lado,
sinto um frenesi sublime.
Não me seria pecado
não lhe amar; seria crime!
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Quando me chamas de amor,
eu sinto alguns arrepios;
meu rosto muda de cor,
meus olhos se tornam rios…
= = = = = = = = = = =

Relendo as cartas de amor
que para mim escreveu,
eu senti a maior dor...
Nosso amor, Amor, morreu!
= = = = = = = = = = =

Se eu lhe beijei com prazer
e dei o néctar da flor,
como é que irei esquecer
nossos momentos de amor?
= = = = = = = = = = =

Sempre que o amor ganhar a forma
de algo pesado e ruim,
claramente se transforma
em grande infortúnio em mim.
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Sou homem, porém eu cismo
não viver nova paixão,
porque conheço a abismo
que existe entre ela e a razão.
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Tens um perfil que encanta,
deixa-me bobo e disperso.
És para mim uma santa
e a inspiração do meu verso.
= = = = = = = = = = =

Tudo estava ao nosso alcance,
tanta chance o amor nos deu.
Leiamos hoje o romance
"que a própria vida escreveu...".

Fonte:
Trovas enviadas pelo autor.