sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Octávio Babo Filho (Trovas Avulsas)

 

1
A diferença que vejo
entre a virtude e o pecado:
– virtuoso - peca a varejo,
pecador - por atacado.
2
A facilidade imensa
com que os homens são julgados
simboliza bem a crença
de sermos todos culpados.
3
A força do inevitável,
já pela força que tem,
faz o destino imutável,
sem indagar quem é quem.
4
Ante a vinda inesperada
da indesejável cegonha,
de susto morre a empregada,
morre o patrão... de vergonha!
5
Ao partires, mãe querida,
deixaste a imagem comigo:
nem durante toda a vida
eu te segui como sigo!
6
A paz verdadeira e pura,
que a consciência enobrece,
é a que sente a criatura
que, para subir, não desce.
7
As desventuras da vida,
eu não as conto a ninguém,
pois mágoa, que é transmitida,
se multiplica por cem.
8
Bem que procuro ser santo,
mas não consigo, porque
eu encontro em cada canto
alguém que lembra você...
9
Buscando falsa razão
para razão que não tem,
ninguém ilude o irmão
sem iludir-se também.
10
Construíste mil castelos...
E a tua imaginação,
depois de sonhos tão belos,
quis morar num barracão...
11
Convém às vezes fugir,
porque a presença frequente   
não deixa a gente sentir
se sentem falta da gente.
12
Creio que ninguém duvida
desta inconteste verdade:
há mundo, mas não há vida,
quando falta a liberdade!
13
Dentro da imensa tristeza
que a minha alma sempre invade,
o que me mata é a certeza
de não sentires saudade.
14
Dois destinos são iguais,
na proporção em que dois,
sofrendo menos ou mais,
sofrerão juntos, depois.
15
Enquanto os povos discutem
a teoria da paz,
os mais fracos se desnutrem
e os mais fortes comem mais…
16
Esta Fé que hoje me invade,
traz tanto alento à minha alma
que, dentro da tempestade
sinto a natureza calma!
17
Eu perdi muita amizade,
defendendo injustiçados.
- É que o vento da maldade
sopra de todos os lados.
18
Eu rezo em casa, na igreja,
na rua, em qualquer lugar...
Duvido Deus não esteja
onde costumo rezar!
19
Façamos logo um acordo,
sem queixa, mágoa ou rancor:
– dividamos o ciúme,
multipliquemos o amor.
20
Gosto de moça formosa,
sabendo embora o perigo
- Eu não desprezo uma rosa,
temendo o espinho inimigo…
21
Mãe - é palavra sem rima,
buscá-la é inútil, não tente,
pois mãe está muito acima
de tudo, coisas e gente.
22
Minha mulher não perdoa
a quem me faça maldade.
Não porque ela seja boa:
– pretende é exclusividade!  
23
Na mentira a se perder,
não sabe aquele infeliz
que ele nunca se faz crer
nem nas verdades que diz.
24
Não dou ouvido ao lamento
e não escondo o porquê:
tudo, na vida, é um momento
- e o meu momento é você...
25
Não há calvários iguais,
toda cruz é diferente,
e as cruzes que pesam mais
são sempre as cruzes da gente.
26
Não lhe adivinhando o nome,
batizei-a de Maria.
E o remorso me consome:
– nunca vi tanta heresia!
27
Não nos feneçam os sonhos,
deles precisamos tanto!
Mudam pensares tristonhos
e secam fontes de pranto.
28
Nascemos sentenciados:
“Os que vierem se vão”.
E nem somos informados
do dia da execução...
29
Os santos de antigamente
só foram santos, porque,
conhecendo tanta gente,
não conheceram você...
30
Penetrei fundo demais
no poço das ambições.
Vejo, agora, o mal que faz
um sonho sem proporções.
31
Poeta mau não conheço,
mau poeta ah, isto sim!
Conheço e digo onde mora:
bem aqui… dentro de mim.
32
Por que será que você,
tendo os defeitos que tem,
os seus defeitos não vê,
vendo os dos outros tão bem?
33
Quando penso em falsidade,
teu nome logo me vem:
Teu nome: Felicidade!
- Felicidade? De quem?...
34
Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
- A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
35
Quem da riqueza faz praça,
muito cedo se esqueceu
de que Deus tira de graça
o que, de graça, nos deu.
36
Quem constrói seu barracão
no do vizinho apoiado,
pelo sim e pelo não,
confia... desconfiado!
37
Saber não ocupa espaço,
mas é preciso que a gente,
ao caminhar, passo a passo,
modere o passo da frente...
38
Saudade, o mundo embalando,
dói, de modo tão diverso,
que o poeta, mesmo chorando,
pode cantá-la em seu verso.
39
Se a morte nos avisasse
a respeito do seu dia,
não creio que nos matasse:
a gente é que morreria...
40
Se é por simples gentileza
que a mim você se anuncia,
não me leve a mal, Tristeza!
Prefiro a casa vazia!
41
Se o trabalho me enfastia,
eu dele logo me vingo,
fazendo, de cada dia,
a sucursal de domingo…
42
Se querer fazer mistério
de coisas tão triviais:
- É na paz do cemitério
que vivem todos em paz…
43
Se toda gente soubesse
como custa querer bem,
quanta gente gostaria
de não gostar de ninguém!
44
Tenham medo é dos medrosos
- fugidios, reticentes -,
mil vezes mais perigosos
que os atrevidos valentes...
45
Teus encantos, criatura,
mexeram tanto comigo
que eu vivo da desventura
de sonhar sempre contigo…
46
Toda mulher tem seu quê,
tem um encanto qualquer.
Não tendo, é o que a gente vê
naquela que a gente quer.
47
Trabalho, sem me cansar.
E é tão bom que seja assim!
- Chego, às vezes, a pensar
que Deus trabalha por mim.
48
Ventura... Felicidade...
Duas palavras vazias
que, depois de certa idade,
não enchem mais nossos dias.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
OCTÁVIO BABO FILHO, intelectual carioca de múltiplos interesses que uniu a agudeza do direito à sensibilidade da poesia e da música popular brasileira, nasceu em 1915, na cidade do Rio de Janeiro (RJ)  e faleceu na mesma cidade em 2003, aos 88 anos de idade. Viveu e construiu toda a sua história pessoal e profissional na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Direito e foi um advogado criminalista e trabalhista altamente conceituado na capital fluminense. Teve um papel de vanguarda social marcante: entre as décadas de 1950 e 1970, tornou-se um dos pioneiros na defesa dos direitos civis e na luta pelos direitos do consumidor no Brasil, antecipando discussões que só viriam a se consolidar juridicamente anos mais tarde. 
Primo do compositor Lamartine Babo, Octávio carregava a veia artística na família. Na literatura, dedicou-se apaixonadamente à arte da trova. Paralelamente, atuou na música popular como compositor e letrista. Sua obra musical mais famosa é a clássica marchinha natalina "O Velhinho" (composta em 1953), eternizada pelos versos "Botei meu sapatinho na janela do quintal...". Seu maior reconhecimento na poesia se deu pelo acolhimento de suas trovas na comunidade literária e em saraus fluminenses. Na música, a canção "O Velhinho" ficou originalmente em 3º lugar em um concurso natalino na voz de João Dias, mas obteve o maior prêmio possível: a consagração absoluta e atemporal do público brasileiro. 
Livros de trovas publicados: Cantigas das Horas Vagas; Ao Correr das Horas  
A relevância de Octávio Babo Filho reside na sua capacidade de manter viva e sofisticar a tradição da trova e da lírica popular brasileira. Em seus livros e escritos, ele demonstrava uma precisão cirúrgica para sintetizar grandes dilemas existenciais — como a melancolia, a finitude, o amor e a ironia do cotidiano — em pequenos blocos rimados de extrema beleza e acessibilidade. Além disso, sua contribuição cruza fronteiras literárias e musicais: ao compor "O Velhinho", ele ofereceu ao Brasil uma das raras e mais emblemáticas identidades de folclore natalino genuinamente nacionais, regravada por nomes que vão de Simone a Caetano Veloso e Roupa Nova.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 172 *

Sagrado e consagrado. A cada julho, na primeira semana o caminho é o sul fluminense, passando pelo litoral espetáculo paulista para chegar à paradisíaca Parati. Depois de tantas águas verdes, ilhas, grotões, pedras, mata atlântica nas costeiras bandeirantes, ali a última curva. Surge a magia, o casario centenário. 

Mas não é só a paisagem urbana, eis o Centro Histórico de ruas pé-de-moleque - calçamentos irregulares sem trânsito de carros.  O toque mágico, a arquitetura colonial portuguesa, casarões coloridos, sacadas de madeira, floridas. 

Neste ambiente que persuade e seduz é que acontece anualmente a FLIP - Feira Literária de Parati – - caleidoscópio cultural onde a gente anda pelas ruas em meio a escritores de toda estirpe, novos, antigos, Prêmio Nobel, todo mundo conversando com todo mundo.

Dentro desta festa da cultura, conversávamos ali no Centro Histórico, este escriba aprendiz, mais o Luiz Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, ambos aclamados no uso do verbo. 

O papo girava em torno de assuntos variados - família, literatura, morte, viagens...  Quando o Zuenir perguntou ao Luiz Fernando : 

- O que você acha da morte, Veríssimo?

- Eu sou contra! (risos)

E a conversa seguiu ao sabor de Parati.

Busquei esta croniquinha entre os alfarrábios para homenagear a vida e a memória do escritor Zuenir Ventura, que nos deixou nesta semana. Grande cultor das letras - livros, jornais, revistas -, criatura afável, sempre risonho, boa conversa, bonomia na intimidade. 

Que as Mansões do Altíssimo o recebam com alegria, com palavras, com os vinhos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

José Feldman (Uma reunião extraordinária)

A Biblioteca Universal dos Autores Falecidos ficava numa dimensão onde o tempo não passava, mas a burocracia prosperava. Seus corredores eram infinitos, os livros se reorganizavam sozinhos.

Naquela tarde sem tarde, três ilustres escritores haviam sido convocados para uma reunião extraordinária: Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e Stanislaw Ponte Preta.

Veríssimo chegou primeiro, carregando um jornal. Sabino apareceu em seguida, procurando café. Stanislaw entrou por último, com um paletó impecável e uma pasta intitulada “A Verdade, Quando Conveniente”.

— Estamos atrasados? — perguntou Sabino.

— Não — respondeu Veríssimo. — Aqui o tempo não passa.

— Então por que marcaram a reunião para as três?

— Para que a gente tenha a impressão de que está atrasado.

Stanislaw sentou-se.

— A burocracia é a única instituição capaz de sobreviver à própria morte.

Sobre a mesa havia uma pauta de quarenta páginas: “A situação da humanidade, a decadência do humor e o futuro da literatura.”

Veríssimo folheou o documento.

— Quarenta páginas? Isso é a versão resumida?

Um funcionário de pequenas asas e enormes óculos surgiu à porta.

— Sim, senhor. A versão integral tem doze volumes.

— Alguém leu? — perguntou Sabino.

— A leitura é facultativa.

Stanislaw bateu na mesa.

— Está explicado o estado da humanidade!

O funcionário, responsável pela ata, pigarreou.

— Podemos começar discutindo o cotidiano terrestre. Primeiro tema: trânsito.

— O trânsito é uma forma moderna de meditação — disse Veríssimo. — Você fica parado, olha para a frente e repete: “Eu não devia ter saído de casa.”

— Antigamente, o sujeito ficava preso no engarrafamento e xingava — acrescentou Stanislaw. — Hoje, tira uma fotografia e publica: “Gratidão por mais uma oportunidade de aprendizado.”

Sabino riu.

— E perde a consulta médica porque passou três horas agradecendo no trânsito!

O funcionário anotou tudo.

— Os senhores estão fazendo críticas à sociedade?

— Não — respondeu Veríssimo. — Estamos apenas descrevendo a realidade. Se ela se sentir ofendida, que procure um advogado.

O próximo assunto foi a tecnologia.

— Nunca houve tanta comunicação — observou Sabino — e tanta gente sem vontade de responder. Você manda uma pergunta simples e recebe um áudio de sete minutos contando a história da família inteira.

— Para descobrir se a pessoa comprou pão — completou Veríssimo.

Stanislaw balançou a cabeça.

— O ser humano inventou aparelhos inteligentes para demonstrar que não precisa ser inteligente.

A discussão avançou para os grupos de família, aqueles territórios onde uma tia enviava imagens de flores, um primo compartilhava teorias conspiratórias e um tio encaminhava mensagens ameaçando sete anos de azar a quem não as repassasse.

— É a religião digital — disse Veríssimo. — Não basta ter fé. É preciso encaminhá-la para quinze contatos.

— E o administrador do grupo? — perguntou Sabino.

— É sempre aquele que compartilha notícias falsas e depois pede respeito à opinião alheia — respondeu Stanislaw.

Os três gargalharam. O funcionário, porém, permaneceu sério.

— Peço moderação. Estamos numa biblioteca.

— E daí? — perguntou Stanislaw.

— O excesso de risadas pode perturbar a seção de poesia.

— A poesia está ali há séculos e nunca reclamou — disse Sabino.

— Reclamou, sim. Mas em versos, e ninguém entendeu.

Depois de uma breve pausa para o café — que estava frio havia cento e vinte anos —, a reunião passou à literatura.

— Ainda leem nossos livros? — perguntou Sabino.

— Alguns — respondeu o funcionário. — Os demais aguardam redescoberta.

— Redescoberta por quem? — perguntou Veríssimo.

— Pelos leitores.

Stanislaw suspirou.

— O escritor passa a vida escrevendo, morre e descobre que ainda precisa esperar numa fila.

— Falando em filas — disse Veríssimo —, proponho uma reflexão: toda fila possui alguém convencido de que escolheu a mais rápida.

— E nunca é essa pessoa — acrescentou Sabino.

— Se muda de fila, a anterior começa a andar — continuou Stanislaw. — A fila é um organismo vivo que se alimenta da ansiedade humana.

O funcionário levantou a mão.

— E qual seria a solução?

— Acabar com as filas — sugeriu Sabino.

— Impossível. Há uma fila para solicitar o fim das filas.

Veríssimo anotou no jornal: “O homem nasce, vive, morre e continua aguardando atendimento.”

A frase agradou aos três, mas a alegria durou pouco. O funcionário anunciou a última pauta: como incentivar as futuras gerações a ler.

— Minha proposta é resumir todos os clássicos em uma página — disse ele.

— E como resumir um romance de quinhentas páginas? — perguntou Veríssimo.

— Usando letras menores.

Sabino levou a mão à testa.

— Isso não é literatura. É tortura ocular!

— Outra proposta — continuou o funcionário — é transformar todos os livros em vídeos de quinze segundos.

Stanislaw levantou-se indignado.

— Como explicar a condição humana em quinze segundos?

— Com legendas.

— A humanidade finalmente encontrou uma maneira de não compreender nada em alta definição! — exclamou Veríssimo.

Nesse momento, entrou um rapaz carregando livros e um celular.

— Com licença. Vocês são aqueles escritores famosos?

— Depende — respondeu Stanislaw. — Você leu nossos livros?

— Não exatamente. Vi um vídeo sobre vocês.

Veríssimo fechou os olhos. Sabino suspirou.

— E o que deseja? — perguntou Stanislaw.

— Estou fazendo uma pesquisa sobre como me tornar escritor sem precisar ler muito.

Os três se entreolharam.

— Meu jovem — disse Stanislaw, colocando a mão em seu ombro —, você veio ao lugar certo. Aqui temos milhões de livros e a maior biblioteca do universo.

O rapaz sorriu.

— Ótimo! Por onde começo?

Stanislaw apontou para a saída.

— Por ali.

— Mas eu quero aprender a escrever!

— Então comece aprendendo a ler.

O rapaz guardou o celular e foi embora, pensativo.

A reunião finalmente terminou, depois que todos assinaram uma ata de vinte e sete páginas. Veríssimo acrescentou: “Esta reunião foi realizada, mas não necessariamente aconteceu.” 

Sabino escreveu: “Estive presente, embora não possa garantir que estivesse.” 

Stanislaw limitou-se a assinar, mas desenhou um cifrão ao lado do próprio nome.

— Por que fez isso? — perguntou Sabino.

— Nunca se sabe quando alguém vai querer publicar a ata.

Os três seguiram para uma pequena cafeteria da biblioteca. Pediram três cafés e, pela primeira vez naquela dimensão, receberam bebidas quentes.

— Ainda existe esperança — declarou Sabino.

O garçom colocou a conta sobre a mesa.

Stanislaw leu o papel e empalideceu.

— O que foi? — perguntou Veríssimo.

— Taxa de permanência, taxa de eternidade e contribuição obrigatória para o fundo de manutenção do além.

— E o café? — perguntou Sabino.

— Grátis — respondeu o garçom.

Os três sorriram.

— Finalmente uma boa notícia!

O garçom apontou para a última linha.

— As xícaras são cobradas à parte.

Stanislaw guardou a carteira.

— Cavalheiros, proponho que voltemos à Terra.

— Para quê? — perguntou Veríssimo.

— Porque, pelo andar da carruagem, a morte é a única coisa que ainda não inventaram de parcelar!

Os três desapareceram numa gargalhada que atravessou corredores, dimensões e séculos, chegando até uma biblioteca terrestre. Um leitor, sentado diante de um livro, começou a rir sozinho.

O bibliotecário aproximou-se.

— Algum problema, senhor?

O leitor fechou o livro e sorriu.

— Nenhum. Só estou pensando na vida.

— E o que há de engraçado nisso?

O leitor olhou para os lados, como se ouvisse uma risada distante.

— Ainda não descobri. Mas desconfio de que alguém esteja escrevendo a ata.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (Excerto Biográfico por Cailin Dragomir)

Jerson Brito (Devaneios Poéticos) = 1 =


AFLITO

Cambaleio perdido em estilhaços
Pelas sendas funestas da saudade
Densa bruma me cerca... Oh, frialdade!
Como são lancinantes esses laços!

Não consigo esquecer teus belos traços
Coração não sossega, a dor me invade
Não escuto os clamores da vaidade
E confesso: desejo teus abraços

Minhas mãos sem teu corpo estão aflitas
Minha boca padece sequiosa
Devaneios lascivos inda habitas

Dama amada, perfeita, perfumosa
De feições generosas, tu volitas
Em meu sonhos alegres, donairosa
= = = = = = = = = = = = = =  

DIVA

A noite é fria, é mais rude o tormento
Na imensidão deste quarto sombrio
Algo me falta... Que dor, que vazio!
Minh'alma brada em plangente lamento

Abro a janela, as estrelas espio
Há tanto brilho, ali busco um alento
Sorrir-lhes quero... Esse atroz sofrimento
Não me permite, sufoca-me o brio

Da vividez de um cenário tão belo
Resistem traços sutis, pequeninos
Oh, solidão, desumano flagelo!

Que o romantismo doutrora reviva
E um dia desses nos cruze os destinos
Estou carente de ti, minha diva!
= = = = = = = = = = = = = =  

LÁGRIMAS PERDIDAS

Cansado doutra noite mal dormida
Enfim, abro a janela... Riem flores!
Contemplo o colorido e vejo a vida
Mostrando para mim seus esplendores

Da rosa outrora linda, a preferida
Não posso mais haurir nobres olores
E penso: quanta lágrima perdida!
Oferta-me o jardim tantos sabores...

Jasmins, hortênsias, ledas violetas
Em seu aroma puro, confortante
Acolhem meus suspiros lamentosos

Experimento as dúlcidas facetas
Da caminhada agora deleitante
Repleta de sorrisos jubilosos
= = = = = = = = = = = = = =  

MEDO DO ESCURO

Cessados os tímidos passos, hesita
Seu rosto confessa pavor, inquietude
Perturbam-no feros demônios e grita:
"Fugiram meus anjos, não há quem me ajude!"

Vergasta seu corpo uma gélida brisa
O gosto é de fel, é de enxofre o perfume
Talvez impressões... Dalgum norte precisa
Perdido que está em completo negrume

Delira, deseja as blandícias de dantes
Voltar não consegue, há abismos gigantes
Das lidas vindouras ignora os segredos

Parece um menino assustado, inseguro
Das belas surpresas ocultas no escuro
Não sabe porquanto é refém de seus medos
= = = = = = = = = = = = = =  

O COLIBRI

Volita no jardim o colibri faminto
Enfeita gracioso as sendas coloridas
E rasga belamente o grande labirinto
Oscula girassóis, hortênsias, margaridas

A cena é singular, esparge puro encanto
Do ilustre visitante as flores afagadas
Saudade sentirão quando esse beijo santo
Fartar-se de dulçor noutras vitais jornadas

Assim, segue seu curso, em festa, a natureza
Esplêndida expressão de um criador jeitoso
São telas magistrais... Que zelo, que destreza!

Viaja o colibri, rompendo os ares, cruza
Dos prados divinais ao vale tenebroso
Em busca do sabor d’alguma nova musa
= = = = = = = = = = = = = =  

OUTONO

Sem destino certo bailam folhas
Voam soltas, secas, leves, mortas
Pobrezinhas, não têm mais escolhas
Traça o vento insanas rotas, tortas

De tristura choram nus os galhos
Mui saudosos doutros tempos fartos
Da verdura, do frescor, de orvalhos
Quando tinham mais vigor, quão hartos!

Segue assim seu ciclo a natureza
Transformando cenas, sem pudores
Na paisagem pobre, esmaecida

O arvoredo, em singular beleza
Renovado, logo explode em cores
Espetáculo de luz e vida
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Jerson Brito (1973)
JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Fontes:
Recanto das Letras do poeta.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Álvaro Posselt (Céu pela janela) * 2 *

O escritório fica num quartinho da casa, mas prefiro chamá-lo de ateliê de poesia. Por aqui passa um vento que balança as cortinas brancas. Concentrado no computador, paro para observar o mundo lá fora. Sempre é tempo de se conectar com a natureza, mesmo que seja por uma fresta.
Céu pela janela—
No pequeno infinito
voa a andorinha
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O poeta ÁLVARO MARIEL POSSELT é um dos principais nomes da poesia contemporânea paranaense, reconhecido especialmente por sua maestria na arte do haicai. Nasceu em Curitiba/PR, em 1971. Curitibano "de raiz", nasceu, cresceu e sempre morou em Curitiba. Graduado em Letras, atuou durante anos como professor de Língua Portuguesa, trabalhando com revisões de texto, aulas particulares e ensino de português para estrangeiros. Posteriormente, deixou as salas de aula tradicionais para se dedicar integralmente à carreira literária e cultural. Atualmente, administra a Casa Posselt, seu próprio lar transformado em centro cultural independente em Curitiba. No espaço, ele acolhe o público em geral e turmas escolares para a realização de oficinas, rodas de leitura e debates. 
Embora tenha começado a escrever aos 16 anos, seu primeiro livro foi publicado quando le tinha 40 anos. Seu grande despertar para o haicai aconteceu em 2003, durante uma visita à [Biblioteca Pública do Paraná. O estilo breve e preciso da poesia japonesa tornou-se sua principal marca registrada. Na dinâmica do mercado independente onde atua, Álvaro foca sua carreira na circulação autônoma, feiras e projetos de revitalização urbana, não acumulando grandes prêmios literários institucionais de cunho competitivo, mas colecionando homenagens públicas na capital paranaense. Possui mais de uma dezena de livros publicados (vários deles focados no haicai e na literatura infantil). Entre seus principais títulos destacam-se: Tão breve quanto o agora (2012); Um lugar chamado instante (2013); Entre arranhões e lambidas — haicais & gatos (2014); Kaki (2015); Na sopa do sapo (2016); etc.
A relevância de Álvaro Posselt reside em retirar a poesia dos livros e integrá-la ao cotidiano urbano e social. Ele é considerado o herdeiro direto da tradição do haicai paranaense, consagrada outrora por nomes como Helena Kolody e Paulo Leminski. Seus versos estampam muros da cidade pelo projeto "Giz e Aprendiz" e aparecem em vitrais públicos da capital através da Associação de Ciclomobilidade (ACGB). Além disso, seu incansável trabalho voluntário de levar oficinas de haicai a escolas públicas há mais de uma década desempenha um papel fundamental na formação de novos leitores e jovens poetas no Brasil.
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VERÔNICA FUKUDA, artista visual que vem se destacando no cenário da literatura infantojuvenil brasileira através de traços delicados e narrativas sensíveis. Nasceu em Registro/SP. Em 2001, mudou-se para Curitiba/PR, onde se radicou. Realizou sua formação artística em Curitiba, onde se graduou em Licenciatura em Artes Plásticas e posteriormente se especializou em Cinema Documentário. Atua há mais de 20 anos no mercado. Sua atuação profissional é bastante plural. Ilustradora e Ceramista: Divide seu tempo entre ilustrações de livros, produção autoral de cerâmicas de alta temperatura e esculturas de parede; Atelier Ma Fille: É fundadora e proprietária do Atelier Ma Fille em Curitiba, espaço voltado para oficinas de arte de diversas idades, servindo também como ponto de abrigo e mentoria para novos artistas. No ateliê, ela também desenvolve linhas de produtos (vestuário, papelaria, decoração e turismo) com estampas de suas ilustrações. Participou de programas de incentivo à cultura de governos municipais e estaduais e expôs em eventos importantes, como a 16ª Bienal Internacional de Curitiba no Museu Oscar Niemeyer.
Sua estreia no universo dos livros aconteceu em 2014, quando escreveu e lançou de forma independente a obra infantil Meu amigo Bóris (ilustrada por Rosangela Grafetti). A história lida de maneira poética e sutil com o amadurecimento e a superação de uma perda sob a ótica infantil. Desde então, ela ilustrou mais de duas dezenas de livros para várias editoras e participou das Bienais do Livro de São Paulo e do Rio de Janeiro. Algumas de suas obras e colaborações de destaque: Meu Amigo Bóris (Autora); Céu pela Janela (Ilustradora); Amarelo (Ilustradora, texto de Marilza Conceição); A Cura dos Sentimentos nos Pequeninos (Ilustradora, texto de Adriana Potexki); Em Algum Lugar Incrível (Ilustradora); A Menina da Saia Mágica (Ilustradora)
A relevância de Verônica Fukuda para a literatura — principalmente a infantojuvenil — reside na sua filosofia sobre o papel da imagem na construção da narrativa. Para ela, a ilustração não deve meramente "traduzir" ou repetir o texto literário em forma de desenho, mas sim estender a história para onde as palavras não alcançam, preenchendo lacunas de forma explícita e lúdica para as crianças. Ao criar uma "literatura em imagens", auxilia na alfabetização visual e no desenvolvimento da imaginação das crianças, tornando o livro um objeto artístico completo e sensorial.

Fontes:
Álvaro Posselt (Verônica Fukuda, ilustradora). Céu pela janela. Curitiba/PR: Insight, 2023.
Biografia de Verônica = Instagram, Atelier Ma Fille, Escotilha, Livaria Simples, Edtora Insight.
Biografia de Álvaro = Editora Insight, Biblioteca Pública do Paraná, Sesc PR, Recanto das Letras, Mural do Paraná, etc.

Aparecido Raimundo de Souza (Vexame)


SÁBADO, eu e minha neta Ellen fomos para o casamento do meu sobrinho Chiquinho e Lisbela. Aparecemos no pedaço arrumadinhos. Dava gosto nos ver. Minha figura de barba feita, terno novo, os sapatos brilhando na graxa. Até um perfume roubado de mamãe passei. Minha neta num longo branco os cabelos soltos ao vento, os sapatinhos impecáveis a fizeram se assemelhar a uma princesa saída dos contos de fadas. Adentramos no imenso salão nos fundos da igreja onde acontecia a festa após a troca de alianças. Uma multidão incalculável se desordenava maciça. Logo na entrada, uma garçonete de tirar o fôlego me brindou com um cálice enorme. 
 
Ingeri o líquido sem pestanejar.  Num piscar de olhos, mal havia esvaziado a taça, uma outra deusa encostou ao meu lado. Afoito, passei os cinco dedos em dois cálices de vez. Sem melindres, mandei o conteúdo pra dentro, acossando a sede. Ellen, nesse interregno, se juntou a algumas amiguinhas do prédio onde morávamos. A primeira coisa que me veio à cabeça, assim que ela largou meu braço, sem dúvida alguma, correr (ou pelo menos tentar chegar) perto dos recém casados e cumprimentá-los. 

Como num passe de mágica, uma terceira garçonete de sainha muito curta, esbarrou em mim. Troquei os cálices vazios por outros dois abarrotados até a boca. Juro por tudo quanto é sagrado, não atentei para o chão. Por conta disso, não dei na “telha” que ele estava impecavelmente enceradinho, brilhando mais que minha fuça deslavadamente suada em face do sol quente que ardia por todo o firmamento. Fui andando como pude, tirando um e outro da frente, os passos bonitos e elegantes, o queixo erguido… todo posudo, e de repente o meu sapato direito resolveu ir pra frente num ímpeto e o meu corpo em sentido oposto. 

Fiz um movimento leve que mais se assemelhava a uma dança desengonçadamente bamba e extravagante. Meus braços erguidos para cima, as pernas mal-ajambradas para um lado, o pé girando feito um pião que se desapartara de uma cordinha invisível, de um moleque inexistente, dava a impressão cênica de ter tomado um pileque daqueles. Não caí deitado. Em compensação, os dois cálices foram beijar o chão e se espatifaram estrondosamente. Fiquei ali tremelicando, oscilando, dançando, ziguezagueando sozinho fremindo o esqueleto no meio dos demais convivas em franca polvorosa.

Uns batendo palmas, outros rindo feitos hienas fora do bando, o salão inteiro, de canto a canto igualmente a mim, bailando sem simetria. Do nada, num estapafúrdio movimento pra além de desengonçado rodopiei a bel prazer de uma situação vexatória que até então nunca havia experimentado. Por azar, assediado num som barulhento, meu corpo magro desacostumado com os líquidos ingeridos em excesso, me flagrei inapto e desajeitado, e o mais inverossímil, sem ninguém se aproximando para me convidar a sentar num canto e sossegar os ossos. 

O pior é que quanto mais tentava me equilibrar, um balouçar emborrascado me agitava descontroladamente. Em questão de segundos, parecia um boneco de papel sendo levado por uma rajada. Sem noção, acometido por uma tonteira própria dos alcoolizados grudado numa garrafa de cachaça da braba, completamente mamado, gritei:

— ESTÁ TÃO BOM O SOM QUE O MEU CORPO JÁ COMEÇOU ANTES A VER O PARAÍSO!

O salão inteiro, sem tirar nem por caiu no escárnio de uma risada fácil! 

O Chiquinho jogou as flores para mim, Lisbela bateu palmas, Ellen gritou: “Vôôôô... vem sentar”. Dona Candoca mais seu Genaro, (os pais de Lisbela), berravam ao mesmo tempo em que faziam gestos com as mãos, tipo “vem, vem, sai fora, seu imbecil, se acomode...”. Outros partícipes na mesma sintonia meridiana sinalizavam gestos desengonçados, até que a banda tocou uma música de verdade, uma coisa mais digestível para eu poder obviamente terminar a dança sem dar um vexame mais corpulento. 

Indiferente aos clamores, segui elétrico como um boneco sem noção. Fui dançando sozinho, saracoteando a carcaça de um lado para outro, até que finalmente me apoiei numa mesa e parei, estanquei a folia todo respingado de vinho ou licor, sei lá, o suor gotejando, pela minha epiderme feito uma múmia paralítica que dava a impressão de ter tomado todas. E cá entre nós, tinha, de fato. Dona Candoca, me vendo bamboleante, abriu espaço e veio me dizer:

— Rapaz, ninguém nunca divertiu uma festa inteira tão rápido assim! O senhor é um artista nato! Parabéns. Vou lhe convidar mais vezes...

Chegando em casa, carregado por dois brutamontes, (coisa de quinze ou vinte minutos depois), tirei os sapatos e me preparei para o banho. Encarei minha neta:

— Ellen, olha, para seu avô e não diga que não fui elegante, falei ou tentei, a voz atordoada.  Vamos, responda. Você percebeu que fui literalmente aplaudido de pé!

E ela, se escangalhando numa gostosa gargalhada pra lá de estrepitosa, sentenciou a verdade:

— Eu vi, vô. Em dado momento, todos que estavam sentados entre as mesas, levantaram-se e aproximaram-se de sua pessoa pra rir melhor! 
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade). É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele provou que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé).  O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. O humor foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico, em um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)