sexta-feira, 17 de julho de 2026

Minhas Trovas Premiadas * 1 *

 

Chafariz de Trovas * 19 *


A empregada de hoje em dia
quando vai para o fogão,
cozinha em banho-maria
as "cantadas" do patrão.
ADELIR COELHO MACHADO 
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Todo rio na corrente
busca um lago, um rio, um mar.
Mas o destino da gente
quem sabe onde vai parar?
ADELMAR TAVARES 
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Tem cão que mora no morro,
outro morando em mansão;
porque nem todo cachorro
leva uma vida de cão.
ADEMAR MACEDO 
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Realejo, lembrança forte
que a memória não embaça,
você passa, e a minha sorte
nunca mais deixou a praça!
ALBA CRISTINA CAMPOS NETO
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O tolo sempre se engana,
ao julgar o seu saber;
o sábio nunca se ufana
e passa a vida a aprender.
ALBA HELENA CORRÊA 
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Uma batalha perdida
jamais nos deve abater;
cada experiência vivida
é uma fonte de saber.
ALMERINDA LIPORAGE 
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Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco ao meu lado
mas meu lado está vazio.
AMÁLIA MAX
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Onde a esperança?... Eu explico:
    - Ela está no fiapinho
que as aves levam no bico,
quando estão fazendo ninho!...
ARCHIMIMO LAPAGESSE
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Olhos tristes ou risonhos
vejo entre a gente do povo
dos restos dos velhos sonhos
fabricando um sonho novo…
BASTOS TIGRE 
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Bondade não tem medida,
mas tem a grandeza e o porte,
de quem agrada na vida,
os deserdados da sorte!...
CAMPOS SALES 
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Melhor o mundo seria,
se no horizonte se lesse
a palavra AMOR... E, um dia,
nesse AMOR ... o mundo cresse!
CAROLINA RAMOS
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O que me intriga e fascina,
nesse mundo do saber,
é a vida, escola que ensina
a quem não quer aprender!...
CLENIR NEVES RIBEIRO 
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Aposentados na praça
jogam as cartas, sem pressas,
matando o tempo que passa,
ladrão de tantas promessas...
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
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"Voltarei" dizes depressa
num agrado à despedida;
fica comigo, a promessa
e em tuas mãos, minha vida!
DOMITILLA BORGES BELTRAME 
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Que bela seria a vida
se acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!
DOROTHY JANSSON MORETTI 
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Naqueles tempos de antanho,
de escribas e fariseus,
um Homem do meu tamanho
tinha o tamanho de Deus!
DURVAL MENDONÇA 
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A esperança é o quem-me-dera,
o Deus-te-ouça, a oração;
une a vida ao que se espera,
como um traço de união.
EDGAR BARCELOS CERQUEIRA
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Revela sabedoria
quem, ante a ofensa do irmão,
acende a luz da harmonia
e, humilde, lhe estende a mão!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA 
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Na praça dos desalentos,
pobres meninos de rua
que só têm por aposentos
os frios quartos da lua.
F. LUZIA NETTO
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Seja cobrado... ou de graça,
num paradoxo profundo,
por melhor que algo se faça,
não se agrada a todo mundo!
HELOÍSA ZANCONATO PINTO 
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As flores, na primavera,
desabrocham sem pudor,
se eu pudesse, quem me dera
desabrochar sem temor.
HENRIETTE EFFENBERGER
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Somente para agradar-te
e não ficares sozinha,
a minha alma se reparte
e é mais tua do que minha!
HÉRON PATRÍCIO 
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Enquanto faz uma jarra,
canta, o oleiro, uma cantiga
que lhe agrada ser cigarra,
sem deixar de ser formiga!
IZO GOLDMAN
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Avisto já no horizonte,
em pleno declínio, o sol;
mas não me abato, ergo a fronte
e aguardo um novo arrebol.
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO
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Quantas pedras removidas
e quantas por remover.
Provações em nossas vidas
que só nos fazem crescer!
JOÃO BATISTA XAVIER DE OLIVEIRA
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Sei da magia e poder
do amor que edifica impérios,
mas não sei de algum saber
que lhe decifre os mistérios!
JOÃO FREIRE FILHO  
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Bate o relógio sisudo,
mede a vida com rigor,
e o tempo, que vence tudo,
não vence a força do amor.
JOSÉ LUCAS DE BARROS 
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Parece imenso, e é restrito
o SABER que o Homem cultua:
quer conquistar o infinito
e, apenas, pousou na Lua,
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO  
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Não falar de coisa triste
com muito agrado eu queria...
Porém, depois que partiste,
como falar de alegria?...
JOSÉ TAVARES DE LIMA 
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Quem não se importa onde pisa,
na escalada desta vida,
sobe muito mas desliza
e escorrega na descida.
LUIZ HÉLIO FRIEDRICH
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A noite desfez, em contas,
o seu colar de cristal
e fez agrados nas pontas
da grama do meu quintal!...
MARINA BRUNA 
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Há de rir quem encontrar
a luz da felicidade.
Mas quem não sabe chorar,
nunca vai rir de verdade.
NISKIER DÀMASO
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Minha razão distraída
por teus agrados sem fim
deixa outra vez iludida
que a emoção fale por mim!
RITA MARCIANO MOURÃO 
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Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
     inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Praça limpa... Todo dia.
Há tanta gente que passa
e quase nem vê Maria
que varre o lixo da praça...
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
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Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO
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Se eu perdesse, de repente,
tudo o que a vida me deu,
tendo a Esperança, somente,
- bem pouco perdera eu!...
WALDEMAR SOARES CARNEIRO
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Muito saber que deslumbra,
e cujo brilho norteia,
vem do estudo na penumbra,
à luz frouxa da candeia...
WALDIR NEVES 
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Aparecido Raimundo de Souza (Só vou gostar de quem gosta de mim)


DIZEM QUE O SONHO é só ilusão, tipo uma imagem criada que a cabeça inventa enquanto dormimos. Mas o que eu vivi não foi apenas um sonho. Na verdade, eu diria, sem medo de errar, foi algo inusitado, estranho, algo que entrou fundo, que tocou o meu peito e deixou marca, como se a vida, a minha vida tivesse parado por um instante para me mostrar o que é o fim. Eu sonhei que tinha morrido. Ou pensei, sei lá. Nunca vou saber ao certo. Meu Deus, que loucura! 

Morri cedo, deixei de respirar antes do tempo que eu imaginava ainda ter pela frente. Uma morte, eu diria, prematura, daquelas que chegam sem avisar, que não esperam a gente arrumar a casa, terminar o que começou, perceber o que ficou guardado. E nesse caminho, passei por altos e baixos que pareciam mais reais do que muita coisa que vivi acordado. Senti o peso do silêncio se engrandecer, aquilatei a distância de tudo o que me era caro fluir pelos vãos dos dedos. 

Nesse sonho meio estrambótico, vi rostos entristecidos que choravam, outros que alimentavam uma certa ironia e pareciam indiferentes, e me deparei, no mesmo trilho, ou até aliviados, e isso doeu mais do que a própria morte. Pensei em tudo o que deixei para depois: os abraços que não dei, as palavras que engoli, os sonhos que não tentei realizar, o tempo inerte que gastei com coisas insignificantes. 

No minuto seguinte, subi ao ponto mais alto da consciência, onde tudo parecia claro, e da mesma forma desci ao fundo da dúvida, perguntando ao meu “eu” interior: 

— Era mesmo esse o meu fim? Tudo o que eu vivi até hoje, acabou assim?

Mas no meio de todo esse caminho, algo do nada mudou. Não foi o fim. Eu não morri. Não passei para o outro lado. Voltei. E voltei radiante. 

No momento em que regressei, abri os olhos e percebi que estava aqui, respirando, com o coração batendo forte, assustado, mas energicamente vivo.

E foi aí que entendi: essa “morte prematura”, ou seja, lá o nome que essa coisa possa ter, e que eu confesso que vivi, foi um aviso. Não foi a desgranhenta para me levar de vez, mas para me fazer ver que a vida não espera. Muitas vezes andamos por aí como autômatos, como se fôssemos viver para sempre, deixando o amor para depois, as mudanças para amanhã, a felicidade para um dia qualquer. Esse encontro com o meu próprio fim mostrou-me que o tempo é curto, que o amanhã não é garantido. Talvez nem chegue...

Nesse momento, após me refeito do susto, ainda agora, quando lembro desse fato, melhor dito, desse sonho, não tenho mais medo da morte em si. Tenho medo, aliás um receio mórbido de viver uma vida pela metade, como se já estivesse morto e enterrado de fato e por dentro antes de realmente partir. O que passei foi um alerta: ganhei de novo a chance de viver de verdade, de falar o que sinto, de valorizar quem está ao meu lado, de fazer valer cada dia.

Não foi só um sonho. Foi mais que isso. Acredito, uma lição que a vida me deu de um jeito duro, mas a meu ver, encarecidamente necessário. Morri um pouco para renascer melhor. E agora, de volta ao meu mundo do lado de cá, vivo com mais calma, mais verdade e gratidão. Porque no fundo da minha alma, bem lá no “escondidinho” dela, sei que, por enquanto, ainda estou aqui. E para completar, é maravilhoso estar e me ver de volta. 

Pois bem! Resumindo esse medo que me fez sair do chão, entre tapas e beijos, mortos e feridos, porradas e safanões, filhos distantes e desgarrados do meu amor, netos que nem sabem que eu existo, amigos idem, colocarei em prática, o método usado anos atrás pelo Roberto Carlos. “Só vou gostar realmente de quem gosta de mim”. 
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O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

Interlúdio * 8 *

 
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Biografia do trovador no Interlúdio 7, em

Camilo Castelo Branco (Aventuras de um boticário de aldeia)


O Sr. Manuel Pires, farmacêutico aprovado por outro farmacêutico que não foi aprovado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica numa aldeia do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratório químico era um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no colo por um cilindro de lata. A sua livraria era o Médico lusitano, in folio; uma Farmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado — Segredos da natureza. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro vidrado, atapulhados (obstruídos) de ervas, que tinham o merecimento cronológico de serem contemporâneas dos garrafões. Afora isto, não sei que líquidos verdes e amarelos e azuis variavam um dos lotes que, pelos modos, continha os remédios heroicos, como óleo de amêndoas doces, extrato de amoras, solimão, e óleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o Sr. Manuel Pires fosse um sábio, não digo consumado, mas superior à inteligência de alguns cirurgiões daquela redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hipócrates honrou as cinzas de seu pai fazendo a cura radical de uma espinhela caída na pessoa da Sra. Terezinha da Fonte. Este triunfo da farmácia sobre a espinhela elevou o Sr. Pires, não direi até às colunas do Zacuto, mas até onde podiam levá-lo as suas aspirações de mestre Manuel Pires, como respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos fregueses.

Um segundo triunfo veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A cura de uma ostrução, que eu não sei o que é, e outra de umas almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aqueles arredores.

O Sr. Manuel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providência lhe cedera. Relacionou-se com o pároco, com o regedor, com o juiz de paz, e associou-se assim a um triunvirato, que decidia dos destinos da freguesia. E o que eles não fizessem dez léguas em redor ninguém o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antônio da Poça que o sobredito juiz de paz se correspondia com os governos de Lisboa. Não posso abonar na sua íntegra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a coisa, atendendo à importância de um juiz de paz, quando se trata de fazer um deputado.

O boticário era uma figura incapaz das honras anatômicas do romance. Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das bochechas caíam-lhe em forma de sanefas sobre os colarinhos engomados com pós de batata. As ventas eram dois vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes acavalados simulavam uma Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capitéis.

Como quer que fosse, o Sr. Manuel Pires, aos quarenta anos, contava quarenta conquistas das melhores raparigas da freguesia. E, honra lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que desse o menor escândalo. Lá como ele fazia as coisas, e a felicidade dos seus triunfos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus pecados, quiser ler uma página altamente dramática da biografia do nosso amigo.

Manuel Pires foi chamado um dia para curar uma dor de rins na pessoa da tia Maria do Eiró. Não é necessário dizer que a moléstia obedeceu. Na mesma casa curou da triz o tio João, e por fim talhou o bicho com perfeição e felicidade à Mariquinhas, rapariga de uma vez, e coisa de pôr a cara a um lado a mais de quatro Antonis de socos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura.

O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o dicionário das ciências médicas. Fiquemos com a nossa ignorância; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso nunca talhar o bicho. O caso é que o mestre Manuel Pires falou ao coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu arcanjos, serafins, e brisas, e raios de lua a pratear lagos de anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os olhos da cara para ver o Sr. Manuel Pires, que, diga-se a verdade, não era cético, nem carpia tristezas por desoras ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava à porta.

Felizmente para ele, o dono da casa foi atacado de um estalecídio (asma) que lhe caiu nos bofes, segundo a opinião do boticário, e a cura demorada desta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes ocasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de porem o coração em maré-cheia de poesia chula.

O diálogo, que mais concorreu para a solução final, foi incontestavelmente o seguinte:

ELE — O deus Cupido fez dos olhos de vosmecê duas setas, que trespassaram o meu coração.

ELA — E as palavras de vosmecê, como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que não regeste meu sensível peito.

ELE — Eu bem queria dizer a vosmecê as ternuras do meu coração, e as congeminências (intuitos) do meu pensamento. Vosmecê é mais bonita que Vênus, e Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vosmecê

ELA — Pois se vosmecê me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o outro que diz.

ELE — O fim para que eu falei a vosmecê só eu o sei; e a troco desse negócio faz míngua falarmos outra vez.

ELA — Quando vosmecê quiser, e Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim não é. Uma rapariga que tem seus créditos não deve de perdê-los, e vosmecê bem entende as coisas que é sábio e homem de cabeça, por muitos anos e bôs.

ELE — E vosmecê que os conte. Ora pois; o que se há de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se vosmecê me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá da minha boca as afetíveis ternuras do meu amante coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras setas.

ELA — Pois se vosmecê promete de ter toda àquela de... sim, dizia eu, se vosmecê promete de ter toda àquela... sim... como diz lá o ditado...

ELE — Pelo deus Cupido lhe prometo a vosmecê de lhe não pôr a minha mão, nem palavra lhe direi que seja contra a honra de vosmecê.

A resistência da rapariga era impossível! Quando a eloquência, assim inspirada do íntimo da alma, regurgita em jorros nos lábios de um amante, é certo o triunfo. O amor é realmente o galvanismo dos estúpidos, desses cadáveres morais, que se levantam do túmulo da inteligência, e cantam lerias num alamiré (diapasão) celeste! Não nos recordamos de ter lido em romances franceses um diálogo tão fértil de imagens, tão vibrante de afetos, tão digno, enfim, de ser copiado na carteira destes obtusos amadores das salas, para os quais não há assunto, se lhes falharem as reminiscências do borda d'água.

Manuel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro cáusticos para a numerosa clínica que o esperava. Sem exagero, este farmacêutico era uma pílula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes da revalenta arábica. Logo que o anjo da guarda, não pudesse salvar o enfermo das agressões mefíticas do espírito mau,Manuel Pires, anjo sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, quer na boca do estômago, quer nos bofes quer nos miolos! Este homem desprezava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros criadores de nomes bárbaros que não fazem nada à saúde do cidadão. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma coisa enorme de cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que pitonisa mágica e, por fim de contas, era um relógio, cujo invólucro supria à farta uma bacia de semicúpios.

Eram 8 horas. Na aldeia é esta a hora dos amantes. Manuel Pires enfiou as suas meias de lã até à cintura, calçou os sapatos confidentes de mil empresas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarelo, e partiu.

Às 8 e um quarto, estava Manuel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a ansiedade própria da sua organização nervosa. Maus fados quiseram que naquela noite, e a tais horas, andasse fora de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticário, enquanto o pai não recolhesse. Quis primeiro sumi-lo na corte das vacas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava ir afagar a sua vaca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitara sete moedas e um quarto! Meteu-o, depois, na loja da égua, mas a bestinha, egoísta e ciumenta da manjedoura, não compreendeu que o Sr. Manuel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de coices, que por um triz o não remeteu à galeria póstuma dos farmacêuticos ilustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surpreendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fê-lo descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.

— Que fazes tu aí, rapariga? — bradou ele.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos. Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe roubava das caixas o seu saco de milho, que vendia para comprar, à surrelfa, o seu cordãozinho de ouro.

Na loja, onde o boticário desceu, estavam as caixas do milho, e não há nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em flagrante delito.

— Onde está a chave deste alçapão, rapariga? interpelou o tio João no mesmo diapasão.

— A chave tem-na vosmecê.

O homem entrou no seu quarto, próximo da cozinha, e veio com a chave, resmungando:

— Ora deixa-te estar, que não hás de cá tornar pô-lo vezo, minha cabra de não sei que diga!

Fechou o alçapão, e foi-se deitar.

A loja não tinha outra saída. O boticário, portanto, achava-se numa posição falsa, diz o leitor. Ele sabia lá o que eram posições falsas! O que ele fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá consigo: “no chão não me deito eu.” Continuou fleumaticamente a fazer o seu juízo crítico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz num presunto. Não obstante, o Sr. Manuel Pires tirou uma segunda conclusão: “de fome não morro eu.” Mais adiante esbarrou numa pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para ver se estava cheia. E o caso é que estava! Manuel Pires era um onagro de felicidade! “Deixa correr o mundo!...” disse ele, e estirou-se francamente sobre a caixa à espera de um sono regalado.

Passara-se uma hora, e o boticário, começando a pensar seriamente na sua situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Aplicou o ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha.

Sentiu frio, por que em dezembro não é fácil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos maquinais, buscando uma saída qualquer, e encontrou um albardão. “Valha-nos ao menos isto,” disse ele, e pegou do albardão, colocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora falemos das cólicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua o seu querido farmacêutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua dor sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor sorte.

O pai ressonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e saiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judite não saiu mais contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alçapão com sutileza, mas, no momento em que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um saco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: “ó rapariga!”

Não se diz, em linguagem Portuguesa, sem um conhecimento profundo dos clássicos, a atrapalhação da cachopa! O tio João procurou as calças, e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (proh pudor!) saltou do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o quinteiro.

O tio João, contra todas as leis da decência, foi atrás de sua filha, e filou-a pelo gasnete:

— O que ias tu fazer à loja, Maria?

— Raios me parta (disse ela a chorar) se eu ia à caixa do pão ou dos feijões!

— Então a que ias tu lá, diabo?

— Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...

O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; mas... ai dele!...o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de família resvalou com todo o peso da sua bestialidade até à loja.

Manuel Pires soltou um urro de surpresa, que já não foi ouvido pelo João do Eiró, que desmaiara.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruído, mas supôs que era o cair do alçapão. Atravessou a cozinha, amaldiçoando a sua sorte, e meteu-se no seu quarto a pensar no desenlace daquela tragédia.

A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu ciúmes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do íntimo, três vezes, o seu João, e como ninguém lhe respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando responsos a Santo Antônio, de mistura com não sei quantas pragas, que ela rogava ao sumidouro das suas socas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria acendeu a candeia, e foi direita à cozinha, que era o ponto convergente de todas as operações daquele drama. Viu o alçapão aberto, e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror daquela fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janela e grita desentoadamente “aqui del-rei ladrões!” A vizinhança alarmou-se, e pouco depois os 60 fogos daquela aldeia aglomeravam-se no quinteiro do tio João do Eiró.

Os mais destemidos rapazes da aldeia desceram à loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por dois lados, e não sei quantas costelas desmanchadas. Reinou o silêncio do mistério! Ninguém conjecturava a causa daquele estranho sucesso, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo de um albardão! Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o albardão, soltou um brado terrível de espanto:

— O senhor mestre Manuel Pires!

Hão de ter visto nos dramas descabelados um encapotado, que é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma súcia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o efeito que o boticário produziu na chusma de valentões de foice roçadora, que o cercavam.

O tio João, tornando a si, foi direito ao boticário para agradecer-lhe a prontidão com que viera curá-lo. Mas a tia Maria pôs tudo em pratos limpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflito.

Mestre Manuel Pires ia ser apregoado ladrão, por que a sua importância, passado o momento da surpresa, começava a sofrer uma grande baixa na opinião dos lavradores. Mas o seu caráter repelia tamanha afronta! A hora solene de uma honrosa satisfação estava chegada. O farmacêutico, superando com a sua voz o ruído da turba conspirada, disse:

— Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negócio como ele é.

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos de amante, o segredo da coisa, quis logo ali partir a cabeça do seu rival.

— Oh su’alma do diabo!...exclamou ele.

Contiveram-no. O Sr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era uma cascata de lágrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a sua fim, como ela depois disse.

A sua aparição impôs às multidões um respeitável silêncio. Mestre Manuel Pires falou assim, com ar de inspirado, e o braço direito em atitude profética:

— Esta rapariga é minha mulher, se ma derem. Eu vim aqui a troco dela. Em bom pano cai uma nódoa. Mal remediado é mal acabado. Amanhã se Deus quiser leem-se os banhos, e não há nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia num sino. Os pais, desses não se fala. Mestre Manuel era o casamento mais vantajoso da freguesia. Endireitou as costelas ao sogro, bebeu à saúde da boa companhia, e casou com grande préstito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar nesse fausto dia o hábito de Cristo na casaca. Nas bodas célebres para sempre, nos anais de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.

Já lá vão cinco anos.

Mestre Manuel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este ano veio a banhos de mar, e viu por aí baronesas, que lhe despertaram o louvável desejo de o ser.

E há de ser, se Deus quiser.
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CAMILO FERREIRA BOTELHO CASTELO BRANCO foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente de seus rendimentos literários. Figura central da segunda fase do Romantismo português, ele se tornou um dos autores mais prolíficos, populares e brilhantes do século XIX. Nasceu em 1825, em Lisboa/ Portugal e faleceu em 1890, em São Miguel de Seide, no município de Vila Nova de Famalicão/Portugal. Suicídio por arma de fogo, motivado pelo desespero da cegueira progressiva causada pela sífilis. Ficou órfão muito cedo e teve uma vida marcada pela itinerância geográfica pelo norte de Portugal: Onde foi criado em Vila Real por uma tia e uma irmã mais velha após a morte dos pais. Na cidade do Porto viveu a boemia estudantil, cursou medicina (sem concluir) e onde foi preso na Cadeia da Relação por adultério. Na Aldeia no Minho, em São Miguel de Seide se fixou na maturidade com sua grande paixão, Ana Plácido, e onde hoje funciona a sua Casa-Museu. 
Sua vida profissional confunde-se inteiramente com sua produção literária. Ele trabalhou ativamente como jornalista, cronista, tradutor e crítico literário para diversos periódicos. Como precisava de dinheiro para se sustentar e pagar suas dívidas, escrevia em um ritmo industrial e frenético. Sua vida foi cercada de escândalos amorosos e polêmicas públicas. O episódio mais famoso foi o seu envolvimento com Ana Plácido (casada com um comerciante), o que levou ambos à prisão em 1860 sob a acusação de adultério. Foi justamente na prisão que ele escreveu sua obra-prima em apenas 15 dias. Pelo reconhecimento de sua vasta obra, o rei D. Luís concedeu-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho em 1885. 
No século XIX, o sistema de academias de letras em moldes modernos ainda não estava consolidado em Portugal (a Academia das Ciências de Lisboa era o foco). Camilo foi nomeado Acadêmico Correspondente da Real Academia Sevillana de Buenas Letras na Espanha. Não existiam grandes prêmios literários institucionais em sua época. Ironicamente, sua importância hoje é tão grande que seu nome batiza premiações contemporâneas de prestígio, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. 
Sua bibliografia ultrapassa as 260 obras, englobando poesia, teatro, ensaios e romances. Os principais destaques são: Amor de Perdição (1862): O auge do ultra-romantismo português; Memórias do Cárcere (1862): Relato autobiográfico de seu período na prisão; Amor de Salvação (1864); A Queda dum Anjo (1866): Uma sátira política e social mordaz; A Brasileira de Prazins (1882).
Camilo é o pilar do Ultraromantismo. Ele consolidou o romance passional baseado no sofrimento, no amor proibido e nas barreiras sociais. Sua relevância fundamenta-se em que possuía um dos vocabulários mais ricos, dinâmicos e puristas da língua portuguesa, dominando tanto a linguagem erudita quanto a popular. Rompeu com a tradição de que a escrita era apenas um passatempo para nobres ou burgueses ricos, inaugurando a era do escritor profissional no ecossistema lusófono. Embora puramente romântico, suas crônicas sociais e retratos psicológicos da sociedade do Minho abriram caminho para as correntes realistas e naturalistas que viriam logo a seguir.

Fontes:
Camilo Castelo Branco. Cenas contemporâneas. Publicado originalmente em 1862.
Biografia = Sites consultados: Wikipedia, Brasil Escola, Livrista, Ebiografia, etc.

Beatrix Potter (O Conto do Leitão)


O Conto do Leitão acompanha o pequeno e sensato Leitão numa viagem ao mercado que rapidamente se transforma numa aventura imprevisível. Separado do irmão travesso Alexander, Leitão fica perdido numa noite de tempestade e acaba capturado pelo misterioso e ameaçador Sr. Peter Thomas Piperson. Dentro da cabana trancada, descobre Pig-wig, uma porquinha roubada que pode tornar-se a sua perdição — ou a sua salvação. Com os papéis trocados e o perigo a fechar-se à volta deles, Leitão terá de agir com toda a sua calma e astúcia.
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Era uma vez uma velha porca chamada Tia Dedinhos. Ela tinha oito filhos; quatro porquinhas, chamadas Nhon-nhon, Suck-suck, Yock-yock e Spot; e quatro porquinhos, chamados Alexander, Leitão, Chin-Chin e Atarracado. Atarracado sofreu um acidente no rabo.

Os oito porquinhos tinham um apetite muito bom – “Sim, sim, sim! Eles comem e de fato comem!” disse tia Dedinhos, olhando para sua família com orgulho. De repente, houve gritos de medo; Alexander havia se espremido dentro dos aros do cocho dos porcos e ficou preso.

Tia Dedinhos o puxou pelas patas traseiras.

Chin-Chin já estava em desgraça; era dia de lavar roupa e ele tinha comido um pedaço de sabão. E dentro de uma cesta de roupas limpas encontramos outro porquinho sujo! 

— “Tchut, tut, tut! O que significa isso?” resmungou tia Dedinhos.

Toda a família dos porcos é rosa, ou rosa com manchas pretas, mas essa criança suína era toda preta e suja; quando foi colocado em uma banheira, provou ser Yock-yock.

Entrei no jardim; lá encontrei Nhon-Nhon e Suck-suck arrancando cenouras. Eu mesmo os puxei pelas orelhas. Nhon-Nhon tentou me morder.

“Tia Dedinhos, tia Dedinhos! Você é uma pessoa digna, mas sua família não foi bem educada. Todos eles se meteram em travessuras, exceto Spot e Leitão.”

“Sim, sim!” suspirou tia Dedinhos. “E eles bebem baldes de leite; terei de arranjar outra vaca! O bom Spot ficará em casa para fazer o trabalho doméstico; mas os outros devem ir. Quatro porquinhas e quatro porquinhos são demais.” 

“Sim, sim, sim”, disse tia Dedinhos, “haverá mais para comer sem eles.”

Então Chin-chin e Suck-Suck foram embora em um carrinho de mão, e Atarracado, Yock-yock e Nhon-Nhon foram embora em uma carroça.

E os outros dois porquinhos, Leitão e Alexander, foram ao mercado. Escovamos seus casacos, enrolamos suas caudas e lavamos seus rostinhos, e nos despedimos deles no quintal.

Tia Dedinhos enxugou os olhos com um grande lenço de bolso, depois enxugou o nariz de Leitão e derramou lágrimas; então ela enxugou o nariz de Alexander e derramou lágrimas; então ela passou o lenço para Spot. Tia Dedinhos suspirou e grunhiu, e dirigiu-se aos porquinhos da seguinte forma:

“Agora, Leitão; filho Leitão, você deve ir ao mercado. Pegue seu irmão Alexander pela mão. Cuide de suas roupas de domingo e lembre-se de assoar o nariz” (Tia Dedinhos passou o lenço novamente) – “cuidado com as armadilhas , poleiros de galinha, bacon e ovos; ande sempre sobre as patas traseiras.” 

Leitão, que era um porquinho tranquilo, olhou solenemente para a mãe; uma lágrima escorreu por sua bochecha.

Tia Dedinhos virou-se para o outro – “Agora, filho Alexander, pegue a mão” – “Wee, wee, wee!” riu Alexander – “pegue a mão de seu irmão Leitão, você deve ir ao mercado. Lembre-” “Wee, wee, wee!” Alexandre interrompeu novamente. “não saia para longe”, disse tia Dedinhos — “Observe as placas de sinalização e os marcos; não coma ossos de arenque…” “E lembre-se”, disse eu de forma impressionante, “se você atravessar a fronteira do condado, não poderá voltar. Alexander, você não está presente. Aqui estão duas licenças que permitem que dois porcos entrem no mercado em Lancashire. Faça isso Alexandre. Tive muitos problemas para conseguir esses documentos do policial.” 

Leitão ouviu com seriedade; Alexander estava irremediavelmente balançado.

Prendi os papéis, por segurança, dentro dos bolsos de seus coletes; Tia Dedinhos deu a cada um balas de menta e um pacotinho com assuntos apropriados para conversar em pedaços de papel. Então eles começaram.

Leitão e Alexander trotaram continuamente por uma milha;

Pelo menos Leitão fez. Alexander percorreu a estrada pela metade novamente saltando de um lado para o outro. Ele dançou e beliscou seu irmão, cantando:

“Este porco foi ao mercado, este porco ficou em casa,
“Este porco comeu um pouco de carne — 
vamos ver o que eles nos deram para o jantar, Leitão!”

Leitão e Alexander sentaram-se e desamarraram seus fardos. Alexander engoliu seu jantar rapidamente; ele já havia comido todas as suas próprias balas de menta 

– “Dê-me uma das suas, por favor, Leitão?” 

“Mas desejo preservá-los para emergências”, disse Leitão em dúvida. Alexander caiu na gargalhada. Então ele picou Leitão com o alfinete que prendia seu papel de porco; e quando Leitão o esbofeteou, ele deixou cair o alfinete e tentou pegar o alfinete de Leitão, e os papéis se misturaram. Leitão reprovou Alexander.

Mas logo eles fizeram as pazes novamente e saíram trotando juntos, cantando:

“Tom, filho de Tom, o flautista, fugiu e um porco roubou!
“Mas todas as melodias que ele sabia tocar eram ‘A Canoa Virou!'”

“O que é isso, jovens senhores? Roubou um porco? Onde estão suas licenças?” disse o policial. Eles quase correram contra ele em uma esquina. Leitão pegou seus papéis; Alexander, depois de se atrapalhar, entregou algo amarrotado.

“Está tudo bagunçado. Docinhos e papeizinhos de conversa” 

“O que é isso? Isso não é uma licença.” 

O nariz de Alexander alongou-se visivelmente, ele a havia perdido. “Eu tinha uma, de fato eu tinha, Sr. Policial!”

“Não é provável que eles deixem você continuar sem. Estou passando pela fazenda. Você pode caminhar comigo.” 

“Posso voltar também?” perguntou Leitão. 

“Não vejo razão, jovem senhor; seu papel está certo.” 

Leitão não gostava de ir sozinho e estava começando a chover. Mas não é sensato discutir com a polícia; ele deu uma bala de menta ao irmão e o observou sair de vista.

Para concluir as aventuras de Alexander – o policial caminhou até a casa na hora do chá, seguido por um porquinho subjugado e úmido. Dispensou Alexander na vizinhança; ele se saiu muito bem quando se acalmou.

Leitão continuou sozinho, desanimado; ele cruzou estradas e uma placa de sinalização – “Para o Mercado da cidade, 5 milhas”, “Sobre as Colinas, 4 milhas”, “Para a Fazenda da Dedinhos, 3 milhas”.

Leitão ficou chocado, havia pouca esperança de dormir na cidade e amanhã era a feira de contratações; era deplorável pensar quanto tempo havia sido desperdiçado com a frivolidade de Alexander.

Ele olhou melancolicamente ao longo da estrada em direção às colinas e então partiu, caminhando obedientemente para o outro lado, abotoando o casaco para se proteger da chuva. Ele nunca quis ir; e a ideia de ficar sozinho em um mercado lotado para ser observado, empurrado e contratado por algum grande e estranho fazendeiro era muito desagradável…

“Gostaria de ter um pequeno jardim e cultivar batatas”, disse Leitão.

Pôs a mão fria no bolso e apalpou o papel, meteu a outra mão no outro bolso e apalpou outro papel — o de Alexandre! Leitão deu um gritinho e voltou correndo freneticamente, esperando alcançar Alexander e o policial.

Ele pegou uma curva errada – várias curvas erradas, e ficou completamente perdido.

Escureceu, o vento assobiou, as árvores estalaram e gemeram.

Leitão ficou assustado e gritou: “Wee, wee, wee! Não consigo encontrar o caminho de casa!”

Depois de uma hora vagando, ele saiu da floresta; a lua brilhava por entre as nuvens e Leitão viu um país que era novo para ele.

A estrada cruzava uma charneca; abaixo havia um amplo vale com um rio cintilando ao luar e além – na distância enevoada – ficavam as colinas.

Ele viu uma pequena cabana de madeira, dirigiu-se a ela e entrou furtivamente – “Receio que seja um galinheiro, mas o que posso fazer?” disse Leitão, molhado, com frio e bastante cansado.

“Bacon e ovos, bacon e ovos!” cacarejou uma galinha em um poleiro.

“Armadilha, armadilha, armadilha! có, có, có!” repreendeu o galo perturbado. “Para o mercado, para o mercado! Jiggetty jig!” cacarejou uma galinha branca choca empoleirada ao lado dele. Leitão, muito alarmado, decidiu partir ao raiar do dia. Nesse ínterim, ele e as galinhas adormeceram.

Em menos de uma hora estavam todos acordados. O proprietário, o Sr. Peter Thomas Piperson, veio com uma lanterna e uma cesta para pegar seis aves para levar ao mercado pela manhã.

Ele agarrou a galinha branca empoleirada ao lado do galo; então seu olhar caiu sobre Leitão, espremido em um canto. Ele fez uma observação singular – “Olá, aqui está outro!” – agarrou Leitão pela nuca e jogou-o no cesto. Então ele jogou mais cinco galinhas sujas, chutando e cacarejando na cabeça de Leitão.

O cesto contendo seis galinhas e um leitão não era leve; foi levado morro abaixo, instável, com solavancos. Leitão, embora quase arranhado em pedaços, dava um jeito de esconder os papéis e as balas de menta dentro de suas roupas.

Por fim, o cesto foi jogado no chão da cozinha, a tampa foi aberta e Leitão foi retirado. Ele olhou para cima, piscando, e viu um homem idoso ofensivamente feio, sorrindo de orelha a orelha.

“Este veio de si mesmo”, disse o Sr. Piperson, virando os bolsos de Leitão do avesso. Ele empurrou o cesto para um canto, jogou um saco sobre ele para fazer as galinhas ficarem quietas, colocou uma panela no fogo e desamarrou as botas.

Leitão puxou um banquinho e sentou-se na beirada dele, aquecendo timidamente as mãos. O Sr. Piperson tirou uma bota e jogou-a contra o lambril no outro extremo da cozinha. Houve um ruído abafado – “Cale a boca!” disse o Sr. Piperson. 

Leitão aqueceu as mãos e olhou para ele.

O Sr. Piperson tirou a outra bota e atirou-a depois da primeira, houve novamente um barulho curioso – “Fique quieto, sim?” disse o Sr. Piperson. 

Leitão sentou-se bem na ponta do banquinho.

O Sr. Piperson pegou a refeição de um baú e fez mingau, parecia a Leitão que algo no outro extremo da cozinha estava demonstrando um interesse reprimido em cozinhar; mas ele estava com muita fome para ser incomodado por ruídos.

O Sr. Piperson serviu três pratos: um para si mesmo, um para Leitão e um terceiro – depois de olhar feio para Leitão – ele guardou com muita briga e trancou. Leitão jantou discretamente.

Depois do jantar, o Sr. Piperson consultou um almanaque e apalpou as costelas de Leitão; já era tarde demais para curar bacon e ele ressentia sua refeição. Além disso, as galinhas tinham visto esse porco.

Ele olhou para os pequenos restos de um peixe e então olhou indeciso para Leitão. “Você pode dormir no tapete”, disse o Sr. Peter Thomas Piperson.

Leitão dormiu como uma pedra. De manhã, o Sr. Piperson fez mais mingau; o tempo estava mais quente. Ele olhou quanta refeição restava no baú e parecia insatisfeito – “Você provavelmente vai seguir em frente de novo?” disse ele a Leitão.

Antes que Leitão pudesse responder, um vizinho, que estava dando carona ao Sr. Piperson e às galinhas, assobiou do portão. O Sr. Piperson saiu apressado com o cesto, ordenando a Leitão que fechasse a porta atrás de si e não se intrometesse em nada; ou “Voltarei e esfolarei vocês!” disse o Sr. Piperson.

Passou pela cabeça de Leitão que, se ele também tivesse pedido uma carona, talvez ainda tivesse chegado a tempo de ir ao mercado.

Mas ele desconfiava de Peter Thomas.

Depois de terminar o café da manhã à vontade, Leitão deu uma olhada no chalé; tudo estava trancado. Ele encontrou algumas cascas de batata em um balde na cozinha dos fundos. Leitão comeu a casca e lavou os pratos de mingau no balde. Ele cantava enquanto trabalhava:

“Tom com seu cachimbo fez tanto barulho,
Ele ligou para todas as meninas e meninos—
E todos correram para ouvi-lo tocar,
Depois das colinas e longe dos rios!-“

De repente, uma pequena voz abafada entrou na conversa—

“Sobre as colinas e muito longe,
O vento vai arrancar meu topete!”

Leitão largou um prato que estava limpando e escutou.

Depois de uma longa pausa, Leitão ficou na ponta dos pés e espiou pela porta da cozinha da frente; não havia ninguém lá.

⁠Depois de outra pausa, Leitão aproximou-se da porta do armário trancado e espiou o buraco da fechadura. Estava bem quieto.

⁠Depois de outra longa pausa, Leitão empurrou uma bala de menta por baixo da porta. Foi sugado imediatamente.

⁠No decorrer do dia, Leitão empurrou todas as suas seis balas de menta restantes.

Quando o Sr. Piperson voltou, ele encontrou Leitão sentado diante do fogo; ele havia escovado a lareira e colocado a panela para ferver; a refeição não foi possível.

⁠ Sr. Piperson era muito afável; ele deu um tapa nas costas do Leitão, fez muito mingau e esqueceu de trancar a caixa de refeição. Ele trancou a porta do armário; mas sem fechá-lo corretamente. Ele foi para a cama cedo e disse a Leitão para não incomodá-lo no dia seguinte antes do meio-dia.

Leitão estava sentado perto do fogo, jantando.

De repente, ao seu lado, uma vozinha falou: “Meu nome é Pig-wig. Faça mais mingau para mim, por favor!” Leitão saltou e olhou em volta.

Uma adorável porquinha Berkshire preta estava sorrindo ao lado dele. Ela tinha olhos pequenos e brilhantes, um queixo duplo e um nariz curto e arrebitado.

Ela apontou para o prato de Leitão; ele rapidamente deu a ela e correu para o baú de comida – “Como você veio aqui?” perguntou Leitão.

“Roubada”, respondeu Pig-wig, com a boca cheia. Leitão serviu-se da refeição sem escrúpulos. 

“Pelo que?” 

“Bacon, presuntos”, respondeu Pig-wig alegremente. 

“Por que diabos você não foge?” exclamou o horrorizado Leitão.

“Vou depois do jantar”, disse Pig-wig decididamente.

Leitão fez mais mingau e a observou timidamente.

Ela terminou um segundo prato, levantou-se e olhou em volta, como se fosse começar.

“Você não pode ir no escuro”, disse Leitão.

Pig-wig parecia ansioso.

“Você conhece o seu caminho à luz do dia?”

“Eu sei que podemos ver uma casinha branca das colinas do outro lado do rio. Para onde você está indo, Sr. Leitão?”

“Para o mercado – tenho dois papéis de porco. Posso levá-la até a ponte; se você não fizer objeções”, disse Leitão muito confuso e sentado na beirada de seu banquinho. 

A gratidão de Pig-wig foi tamanha, e ela fez tantas perguntas, que ficou embaraçoso para Leitão.

Foi obrigado a fechar os olhos e fingir que dormia. Pig-wig então ficou quieta, e havia um cheiro de hortelã-pimenta.

“Eu pensei que você os tinha comido.” disse Leitão, acordando de repente.

“Só os cantos”, respondeu Pig-wig, estudando os papéis com muito interesse à luz do fogo.

“Gostaria que não comesse; ele pode sentir o cheiro deles através do teto”, disse o alarmado Leitão.

Pig-wig guardou as pastilhas de menta no bolso; “Cante alguma coisa”, ela exigiu.

“Sinto muito… estou com dor de dente”, disse Leitão muito consternado.

“Então eu vou cantar”, respondeu Pig-wig, “Você não vai se importar se eu disser iddy tidditty? Esqueci algumas das palavras.”

Leitão não fez nenhuma objeção; ele sentou-se com os olhos semicerrados e a observou.

Ela balançou a cabeça e balançou, batendo palmas e cantando com uma doce voz grunhida:

“Uma velha e engraçada porca vivia em um chiqueiro, e três porquinhos a tinham;
“(Ti idditty idditty) umph, umph, umph! e os porquinhos disseram xixi!”

Ela cantou com sucesso três ou quatro versos, apenas a cada verso sua cabeça balançava um pouco mais e seus olhinhos cintilantes se fechavam…

“Aqueles três porquinhos ficaram pontudos e magros, e magros eles podem muito bem ser;
“Pois de alguma forma eles não podiam dizer umph, umph, umph! e eles não eram pequeninos, pequenininhos!

“Pois de alguma forma eles não podiam dizer“

A cabeça de Pig-wig balançou cada vez mais baixo, até que ela rolou, uma pequena bola redonda, profundamente adormecida no tapete da lareira.

Leitão, na ponta dos pés, cobriu-a com uma mantinha.

Ele estava com medo de dormir; pelo resto da noite, ele ficou sentado ouvindo o chilrear dos grilos e os roncos do Sr. Piperson acima de sua cabeça.

De manhã cedo, entre a escuridão e a luz do dia, Leitão amarrou sua trouxa e acordou Pig-wig. Ela estava excitada e meio assustada. “Mas está escuro! Como podemos encontrar o caminho?”

“O galo cantou; devemos começar antes que as galinhas saiam; elas podem gritar para o Sr. Piperson.”

Pig-wig sentou-se novamente e começou a chorar.

“Venha, Pig-wig; podemos ver quando nos acostumarmos. Venha! Posso ouvi-los cacarejando!”

Leitão nunca disse Xô! para uma galinha em sua vida, sendo sincero; também se lembrou do cesto.

Ele abriu a porta da casa silenciosamente e a fechou atrás deles. Não havia jardim; o quintal do Sr. Piperson estava todo arranhado por galinhas. Eles escaparam de mãos dadas por um campo desordenado até a estrada.

O sol nasceu enquanto atravessavam a charneca, um deslumbramento de luz sobre os cumes das colinas. A luz do sol descia pelas encostas até os tranquilos vales verdes, onde pequenas casinhas brancas se aninhavam em meio a jardins e pomares.

“Isso é Westmorland”, disse Pig-wig. Ela largou a mão de Leitão e começou a dançar, cantando…

“Tom, filho de Tom, o flautista, fugiu e um porco roubou!
“Mas todas as melodias que ele sabia tocar eram ‘A Canoa Virou!'”

“Venha, Pig-wig, devemos chegar à ponte antes que as pessoas comecem a acordar.” “Por que você quer ir ao mercado, Leitão?” perguntou Pig-wig agora. 

“Eu não quero, eu quero plantar batatas.” 

“Tem uma bala de hortelã?” perguntou Pig-wig. 

Leitão negou bastante irritado. 

“Seu pobre dentinho dói?” perguntou Pig-wig. Leitão grunhiu.

A própria Pig-wig comeu a bala de hortelã e seguiu pelo lado oposto da estrada. 

“Pig-wig! mantenha-se sob a parede, há um homem arando.”; eles correram colina abaixo em direção à fronteira do condado.

De repente, Leitão parou; ele ouviu rodas.

Subindo lentamente a estrada abaixo deles, veio a carroça de um comerciante. As rédeas batiam nas costas do cavalo; o dono da mercearia lia um jornal.

“Tire essa hortelã da boca, Pig-wig, podemos ter que correr. Não diga uma palavra. Deixe comigo. Fique de olho na ponte!” disse o pobre Leitão, quase chorando. Ele começou a andar horrivelmente manco, segurando o braço de Pig-wig.

O merceeiro, concentrado em seu jornal, poderia ter passado por eles se seu cavalo não tivesse recuado e bufado. Ele puxou o carrinho transversalmente e segurou o chicote. 

“Alô? Onde você está indo?” – Leitão olhou para ele vagamente.

“Você é surdo? Você vai ao mercado?” Leitão assentiu lentamente.

“Foi o que pensei. Foi ontem. Mostre-me sua licença.”

Leitão olhou para a ferradura traseira do cavalo do merceeiro, que havia pegado uma pedra.

O dono da mercearia sacudiu o chicote: “Documentos? Licença de porco?” Leitão remexeu em todos os bolsos e entregou os papéis. O merceeiro os leu, mas ainda parecia insatisfeito. 

“Este porco aqui é uma jovem; o nome dela é Alexander?” 

Pig-wig abriu a boca e tornou a fechá-la; Leitão tossiu asmaticamente.

O dono da mercearia correu o dedo pela coluna de anúncios de seu jornal: “Perdido, roubado ou extraviado, recompensa de dez xelins”; ele olhou desconfiado para Pig-wig. Então ele se levantou na armadilha e assobiou para o lavrador.

“Espere aqui enquanto eu dirijo e falo com ele”, disse o dono da mercearia, pegando as rédeas. Ele sabia que os porcos são escorregadios; mas certamente, um porco tão manco nunca poderia correr!

“Ainda não, Pig-wig, ele vai olhar para trás.” 

O dono da mercearia assim o fez; ele viu os dois porcos parados no meio da estrada. Então ele olhou para os calcanhares de seu cavalo; era coxo também; a pedra levou algum tempo para cair depois que ele chegou ao lavrador.

“Agora, Pig-wig, AGORA!” disse Leitão.

Nunca os porcos correram como esses porcos correram! Eles correram, gritaram e dispararam pela longa colina branca em direção à ponte. As anáguas da pequena e gorda Pig-wig esvoaçavam e seus pés faziam pitter, patter, pitter, enquanto ela saltava e saltava.

Eles correram, correram, desceram a colina e atravessaram um atalho na relva verde ao fundo, entre canteiros de seixos e juncos.

Chegaram ao rio, chegaram à ponte – atravessaram-na de mãos dadas – então sobre as colinas e longe dali, ela dançou com Leitão!
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HELEN BEATRIX POTTER (Londres, 1866 — Lakeland/Inglaterra, 1943) foi uma escritora, ilustradora, micologista e conservacionista inglesa, célebre por seus livros infantis de grande originalidade e valor intemporal. Sua obra mais famosa é A História do Pedro Coelho. Ela estudou em casa e recebeu das governantas uma educação vitoriana.  O Coelho Benjamim foi uma das primeiras personagens que Beatrix Potter vendeu a uma editora. Beatrix começou por ilustrar contos tradicionais como "Cinderela", "A Bela Adormecida", "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", "O Gato das Botas" etc, mas muitas das suas ilustrações incluíam os seus animais de estimação. Beatrix Potter teve bastantes dificuldades em encontrar uma editora que publicasse as suas histórias. Depois de receber várias cartas de rejeição, ela decidiu tratar do assunto sozinha e criou um livro pequeno a preto e branco com a histórias dos quatro coelhinhos e publicou 250 cópias do mesmo que pagou com o seu próprio dinheiro. Frederick Warne & Co, que já tinha rejeitado as histórias de Beatrix, decidiu publicar o que apelidou de "livro dos coelhinhos". A mudança de posição deveu-se ao fato de a editora querer entrar no mercado dos livros infantis de formato pequeno. A História do Pedro Coelho foi publicado em 1902 e foi um enorme sucesso, vendendo 20 000 cópias até ao Natal desse ano. No ano seguinte, foram publicados A História do Esquilo Trinca-Nozes e O Alfaiate de Gloucester. Nos anos seguintes, Beatrix trabalhou com o editor Norman Warne e publicou entre dois e três livros de formato pequeno todos anos, atingindo um total de 23 obras publicadas na sua carreira. Em 1905, Beatrix e Norman Warne, o seu editor, ficaram noivos. O noivado foi mantido em segredo pois a família de Beatrix desaprovava um noivo que vivia de sua profissão de editor, por considerá-lo de classe inferior. Tragicamente, em 25 de agosto de 1905, um mês depois do pedido, Norman morreu de leucemia, quando tinha 37 anos. Isso deixou Beatrix devastada, mas ela fez o máximo para superar esse momento difícil, trabalhando ainda mais do que o costume. Em 1913, aos quarenta e sete anos, Beatrix casou-se com William Heelis, um procurador local, e foi morar em Sawrey. Ela passou a desenhar e a escrever menos, dedicando-se às atividades da fazenda, à criação de carneiros e a comprar muitas terras em Lakeland, para preservá-las. Quando Beatrix Potter morreu, em 1943, deixou mais de 4 000 acres e 15 fazendas para o National Trust, uma organização destinada a preservar lugares de interesse histórico ou de grande beleza cênica, na Inglaterra. Beatrix e William tiveram um casamento feliz que durou trinta anos. Apesar de não terem filhos, Beatrix era um elemento importante da família de William e teve uma relação muito próxima com as suas sobrinhas, que ajudou a educar. Beatrix faleceu em 1943, devido a uma pneumonia e complicações cardíacas em sua residência, chamada Castle Cottage, localizada em Lake District. Os seus restos mortais foram cremados. O seu marido continuou cuidando das propriedades e do trabalho literário e artístico da esposa até à sua morte, em agosto de 1945. Em 2006, a vida de Beatrix Potter foi transformada em um filme, Miss Potter, com Renée Zellweger e Ewan McGregor como protagonistas. 

Fontes:
Beatrix Potter. The Tale of Pigling Bland. Publicado originalmente em 1913.
Biografia =https://pt.wikipedia.org/wiki/Beatrix_Potter