sexta-feira, 5 de junho de 2026

Jessier Quirino (Vou-me embora pro passado)


Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui, ó!"
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.

Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado.

No passado tem Jerônimo
Aquele Herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação.

Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
"Tá Com a Pulga na Cueca"
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais!
Lá tem meninas "quebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho.

E lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de organdi
Com gola de tafetá.

Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho Diagonal
Camisas Lunfor, a tal
Sapato Clark de cromo
Ou Passo-Doble esportivo
Ou Fox do bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Cintilante como o sol.

Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom!
Os mais velhos inda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo Besame Mucho
Solfejando a meio tom.

No passado é outra história!
Outra civilização...
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho
Aprontando a gozação
Tem assustado à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long-Play da Mocambo
Mas Rosenblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson, tem Lesse
Túnel do Tempo, tem Zorro
Não se vê tantos horrores.

Lá no passado tem corso
Lança perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator
Tem rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso
Com notícias atuais.

Tem petisqueiro e bufê
Junto à mesa de jantar
Tem bisquit e bibelô
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brinca de cabra cega
De drama, de garrafão
Camoniboi, balinheira
De rolimã na ladeira
De rasteira e de pinhão.

Lá, também tem radiola
De madeira e baquelita
Lá se faz caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estuda a tabuada
De Teobaldo Miranda
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo
E a palmatória é quem manda.

Tem na revista O Cruzeiro
A beleza feminina
Tem misse botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Astória
Tem o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Glostora
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.

Se ouve página sonora
Na voz de Ângela Maria
"- Será que sou feia?
- Não é não senhor!
- Então eu sou linda?
- Você é um amor!..."

Quando não querem a paquera
Mulheres falam: "Passando,
Que é pra não enganchar!"
"Achou ruim dê um jeitim!"
"Pise na flor e amasse!"
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de "tudo X"
E sai dizendo "Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.

No passado tem remédio
Pra quando se precisar
Lá tem Doutor de família
Que tem prazer de curar
Lá tem Água Rubinat
Mel Poejo e Asmapan
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Pílulas de Vida do Dr. Ross
Tem também aqui pra nós
Uma tal Robusterina
A saúde feminina.

Vou-me embora pro passado
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
Nem asfalto nem entulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma cama Patente
Daquelas do selo azul
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais futuro
Vou-me embora pro passado
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O vídeo com a poesia pode ser vista em:
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A poesia "Vou-me Embora pro Passado" é de autoria do arquiteto, escritor e poeta paraibano Jessier Quirino.

O texto foi publicado originalmente no livro Prosa Morena, em 2001. Trata-se de uma paródia saudosista e bem-humorada estruturada diretamente sobre "a casca" do célebre poema "Vou-me embora pra Pasárgada", escrito por Manuel Bandeira em 1930.

Enquanto Bandeira busca refúgio em uma utopia imaginária onde ele é "amigo do rei", Quirino viaja no tempo em direção ao interior do Nordeste de décadas passadas. Ele substitui os elementos idealizados de Pasárgada por marcas e costumes antigos reais, mencionando carros como o Gordini e a Rural, programas de TV antigos como Rim Tim Tim e refrigerantes como a Grapette.

A análise da poesia "Vou-me Embora pro Passado" revela como Jessier Quirino constrói o lirismo saudosista por meio de recursos estilísticos marcantes.

Abaixo estão as principais figuras de linguagem e mecanismos literários utilizados:

INTERTEXTUALIDADE (PARÓDIA)

É a base de todo o poema.

O autor reconstrói a estrutura de "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira.

Substitui o espaço utópico e imaginário (Pasárgada) por um tempo real e afetivo (o passado da infância).

ALUSÃO

Referência direta a elementos culturais, marcas e personalidades externas ao texto.

Menção a Grapette, Gordini, Celly Campello, Rim Tim Tim e Vigilante Rodoviário. Localiza o leitor cronologicamente nos anos 60 e 70, ativando a memória afetiva imediata.

ANÁFORA

Repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos.

A repetição exaustiva da frase "Lá eu..." ou "Vou-me embora pro passado". Reforça a insistência do desejo de fuga e dita o ritmo musical do poema.

IRONIA E ANTÍTESE

Aproximação de ideias opostas ou o uso de humor para contrastar realidades.

O confronto sutil entre a modernidade tecnológica atual (frequentemente vista como fria) e o atraso tecnológico confortável do passado. Romantiza as limitações do passado, transformando dificuldades da época em puro charme.

REGIONALISMO (METONÍMIA CULTURAL)

Uso de termos e expressões típicas de uma região para representar toda uma identidade.

O vocabulário e o sotaque matuto incorporados na declamação e na escrita, humaniza o poema, trazendo a universalidade da saudade para o cenário específico do Nordeste brasileiro.

Fontes: 
Análise: IA Google
Imagem: IA Microsoft Bing

Laé de Souza (Adeus e pronto)

Separação é difícil, machuca e tal, mas também nada de ficar na fossa. Isolar-se, nem pensar. Tem gente que começa a mexer no guarda-roupa e pega aquelas roupas antigas para usar. Não é uma boa. Afinal, se ainda houver chance de partir para a reconquista, deve-se estar nos “trinques” para estimular o arrependimento do outro. Mesmo que não haja retorno, ela tem de estar preparada para novas paqueras, porque o mundo não acabou e sempre se pode encontrar alguém. 

Estão superados aqueles preconceitos, passados pela mamãe, de que a mulher deve ter um homem só por toda a vida. Também, não vá exagerar e sair galinhando. Ficar só por uns tempos é uma boa, mas tem de curtir cinema, teatro, festa, passear, divertir-se a valer. Se por acaso encontrar com ele em uma festa, nada de ficar dizendo “Se ainda me trocasse por coisa melhor...” Pega mal. Além disso, e se fosse melhor, que diferença faria? Já me disseram isso e eu, sinceramente, achei que a troca foi melhor. Portanto, o que se deve fazer é cumprimentar, numa boa, e procurar curtir o momento com quem estiver. 

Lembre-se de que não é nenhuma vergonha estar sem namorado. Mas, sempre existe a chance de conseguir outro. Está certo que você não é nenhuma Vera Fischer, mas também não vai querer namorar nenhum Felipe Camargo, não é? Por outro lado, não corre o risco de sair por aí com o braço quebrado e dando aquele show ou de ser “convidada” a se retirar da novela.

E tem outra, se estiver de namorado novo, nada de ficar naquela “Ai que saudade dele”, “Acho que vou morrer”, “Não confio mais em homem nenhum”, é meio chato e cafona. E homem nenhum vai querer dar seu ombro para você ficar chorando por outro. Também, nos primeiros meses, evite aquelas lamúrias de dores na coluna, reumatismo, enxaqueca... segure firme. 

Nos restaurantes, procure não comer demais e sempre se ofereça para dividir as despesas. E, uma vez ou outra, pague mesmo. Só que fique atenta para não ser explorada, porque tem gente que se aproveita desses momentos.

E os filhos. A minha ex-mulher, sempre que me via com uma namorada, procurava infernizar meu fim de semana. Se fosse prolongado, principalmente. Antes ligava, claro:

- Você tem algum programa para o fim de semana?

- Tenho um compromisso, sim - respondia na maior inocência e, também, pelo medo de que ela me convidasse para fazer algo juntos.

- Acho bom que inclua os seus filhos nesse passeio porque eu também tenho e não vou poder levá-los.

Não adiantava discutir. Meia hora depois, tocava a buzina na porta de casa e deixava os coitados na calçada. Uma loucura! 

Nas primeiras vezes, eu recorria aos amigos. Depois, quando senti que a cara dos amigos já não era lá de muito amigos, comecei a me socorrer com uma família que cuidava deles mediante pagamento. Mas, ela sempre achava ruim. 

- Meus filhos, com estranhos? Eu me sacrifico e você não... realmente, é muito difícil.

E criança quando serve de estopim... sofre. Via de regra, a guarda é da mulher, porém, a responsabilidade ainda é do casal, que deve cuidar para magoar os filhos o mínimo possível.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Acontece... Crônicas. SP: Ecoarte, 2018

Arthur Thomas (O dia da criação)

No dia da cerimônia de criação do Universo, o local e as adjacências apresentavam uma frenética agitação.

Alguém perguntou.

– Ei, você aí de bermuda colorida, o que faz aqui?

– Amigo, eu estava na praia. Ainda não sei bem, mas alguma força estranha trouxe-me aqui. E você?

– Sou jornalista de um tabloide sensacionalista, e enviaram-me para cobrir o evento da criação do Universo.

– Ah! então é isso?

– Venha, vamos tomar uma cerveja ali no Bar “Gole Inicial” e aguardar os acontecimentos e as comitivas de políticos que, com certeza virão, e irão querer sair nas fotos do evento.

Após o pedido para trazer uma “gelada”, disse o garçom, solícito:

– Aqui, logicamente só servimos a cerveja número 1, e gargalhou estrondosamente.

Todos acompanharam a risada e continuaram a conversa.

– Amigo, por acaso saberia dizer-me como está o movimento da bolsa de apostas? Quem está liderando o ranking de favoritos para ser o criador do Universo?

– Amigo, não sei precisar, mas existem muitos nomes concorrendo. Eu mesmo já fiz minha “fezinha” antes de vir para cá.

– Você fez bem, porque eu estou tentando fazer daqui, mas o wi-fi é péssimo nessas paragens.

Nessa hora, aproximou-se Protógenes, o dono do estabelecimento, e disse:

– Amigos, tem um tal de Big Bang querendo tomar uma com vocês.

– Opa! Pode entrar, seja muito bem-vindo. Você é um dos fortes concorrentes, segundo a comunidade científica. 

– Mas sem fazer estrondo, disse o de bermuda colorida.

Gargalharam, todos, incluindo o recém-chegado.

Quase simultaneamente perguntaram ao proprietário:

‐ Protógenes, aquele casal histérico lá nos fundos do salão, você sabe quem eles são?

– É o casal de apresentadores de um telejornal de uma mal falada emissora. Estão reclamando que o sinal de satélite aqui é fraco e que esqueceram de enviar a equipe de maquiadores.

Ao gigantesco estádio erguido somente para essa cerimônia, por empreiteiras de uma republiqueta sul-americana, com valores superfaturados e com verbas desviadas de várias estatais, começaram, então, a chegar as delegações para assistir ao evento, todos carregando variados cartazes e faixas.

Os católicos estavam com a imagem de Jesus Cristo e gritavam pelo seu nome.

Os umbandistas carregavam uma enorme estátua de Iemanjá.

Alguns asiáticos exibiam a imagem de um rotundo Buda em porcelana.

Alguns torcedores uniformizados da Gaviões da Fiel, acompanhados de uma barulhenta “charanga”, cantavam e gritavam o nome de Vicente Matheus.

Um outro grupinho de homens barbudos e mulheres mal vestidas, com um megafone, exigiram que a cerimônia da Criação do Universo fosse interrompida, porque isso afetaria o ecossistema da Amazônia.

Em um camarote, com direito a churrasco temperado com pitadas de ouro em pó, mais de 50 reis, sheiks e príncipes árabes tinham uma enorme faixa enfeitada com diamantes. Nela estava escrito Allahu Akbar (Deus é Supremo).

O estádio inteiro aguardava, com expectativa, quem iria cortar a fita inaugural. A tesoura feita de ouro cravejada de diamantes já estava na mesa colocada atrás da fita multicolorida e que emitia feixes de luz neon.

As “autoridades” foram aproximando-se, cercadas por dezenas de repórteres e cinegrafistas, quando uma enorme quantidade de poeira cósmica, que vagava pelas galáxias, encobriu toda a região.

Os olhos do público encheram-se da poeira, sendo atendidos imediatamente pelas unidades do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel do Universo).

Promotores do evento adiaram a data da criação do Universo para uma ocasião mais propícia.

O casal de âncoras, ao ver sua apresentação frustrada, tiveram uma crise histérica, tendo que ser removidos para uma casa de acolhimento especializada em transtornos mentais. 

E assim permaneceu o mistério em relação ao nome do criador do Universo…
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 5 *


 Olhando as folhas caídas
que o vento arrasta no chão,
fico a pensar nessas vidas
a que ninguém deu a mão.
ANA ROLÃO PRETO
Soalheira/ Portugal
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Saboreando a lembrança 
das artes de um meninote, 
me sinto outra vez criança 
roubando doces de um pote. 
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR
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No refúgio de teus braços
encontro a felicidade,
mas, longe de teus abraços,
viro refém da saudade!
ALICE CRISTINA VELHO BRANDÃO †
Caxias do Sul/RS
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Se de barro fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos
partilhando a mesma sina.
ANTONIO FACCI †
Maringá/PR
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A vida é um laço apertado
que nos tortura sem dó;
e quanto mais amarrado,
mais atado fica o nó!
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG 
São Fidélis/RJ
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Sou feliz! Não vivo ao lado
das estrelas na amplidão,
mas posso ter um punhado
de vaga-lumes na mão.
ANTONIO ROBERTO FERNANDES †
Campos dos Goytacazes/RJ
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A mulher, eu sei, confesso, 
é luxo da natureza... 
Fruir seu corpo é acesso 
às loucuras da beleza! 
APOLLO TABORDA FRANÇA †
Curitiba/PR
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Diz um sábio singular 
este aforismo, a valer: 
Deus criou o bem e o mal 
compete à gente escolher. 
ARGENTINA DE MELLO E SILVA †
Curitiba/PR 
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Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
ARTHUR THOMAZ 
Campinas/SP
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Velha foto esmaecida 
deixou lágrima de herança! 
Hoje a vejo colorida 
pelo cristal da lembrança! 
ÁTILA SILVEIRA BRASIL †
Cornélio Procópio/PR 
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Quantas vezes, sem maldade,
dizemos que estamos sós...
E é quando Deus, na verdade,
está mais perto de nós!
CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO
Recife/PE, 1909 - ????, Curitiba/PR
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Quem se agarra a uma quimera,
quem persegue uma utopia,
age como se soubera
que sem sonhos... morreria!
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
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É verdade, neste inverno, 
vou dar tudo a quem não tem, 
porque sei que para o inferno 
nunca vai quem faz o bem. 
CECIM CALIXTO †
Tomazina/PR
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A canção do amor primeiro
o teu sorriso gravou...
Mas foi assim tão ligeiro,
como o vento que passou!
CIDINHA FRIGERI †
Londrina/PR
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Da Tribuna, manda o aviso:
 - Não roubo por ser ladrão,
 tampouco porque preciso,
 mas por coceira na mão!
CLÁUDIO DERLI SILVEIRA
Porto Alegre/RS
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Coincidência que me arrasa,
que me assusta e me espezinha…
– Meu marido chega em casa
quando chega o da vizinha!
CLENIR NEVES RIBEIRO
Nova Friburgo/RJ
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Não pule do trem do tempo
em desembarque apressado.
Viaje sem contratempo
e não pare adiantado.
DINAIR LEITE
Paranavaí/PR
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Bendigo a mão calejada
que, num trabalho fecundo,
presa ao cabo de uma enxada,
dá cabo à fome do mundo!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ
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Quem dera se o povo inteiro,
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!
EDUARDO A. O. TOLEDO
Pouso Alegre/MG
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Andar por ínvios caminhos
buscando a Felicidade,
é como colher espinhos
na Rosa da Eternidade.
ELISABETE DO AMARAL
Mangualde/ Portugal
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Vassoura de bruxa arrasa, 
é enorme a sua ação, 
depois de limpar a casa, 
inda vira condução! 
FERNANDO VASCONCELOS †
Ponta Grossa/PR
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Nesta vida de atropelos
os empecilhos são tantos,
que já afoguei meus apelos
na correnteza dos prantos.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA †
Fortaleza/CE
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Quem no lar planta o carinho 
sempre colhe muito mais: 
o filho molda o caminho 
pelas pegadas dos pais! 
GERSON CEZAR SOUZA 
São Leopoldo/RS
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O meu amor é bonito,
é grande, imenso, sem fim...
É bem maior que o infinito,
mas cabe dentro de mim!
GISLAINE CANALES †
Porto Alegre/RS
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Na vidraça do passado,
onde revivo os meus sonhos,
sinto a saudade ao meu lado
nos longos dias tristonhos.
GUTEMBERG LIBERATO DE ANDRADE
Fortaleza/CE
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Minha mãe, que orava aqui, 
é nos céus que reza agora; 
foi no meu sonho que a vi 
aos pés de Nossa Senhora! 
HARLEY CLOVIS STOCCHERO †
Almirante Tamandaré/PR
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Nasci onde o vento bate 
e junto a um grande terreiro, 
ao lado um pé de erva-mate e 
um majestoso pinheiro. 
HELY MARÉS DE SOUZA †
União da Vitória/PR
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Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.
HENRIETTE EFFENBERGER
Bragança Paulista/SP
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As lembranças de nós dois 
fui guardando nas caixinhas... 
Para descobrir depois... 
Que em verdade... Eram só minhas! 
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA 
Bandeirantes/PR
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Cartas de amor escondidas, 
no meu baú de esperança, 
são testemunhas de vidas 
que ficaram na lembrança. 
JANETE DE AZEVEDO GUERRA 
Bandeirantes/PR 
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Meu barracão na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela,
não tem vidraça: -Tem céu!
JOSÉ ANTONIO JACOB
Juiz de Fora/MG
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Ao perder-se um grande amor 
nosso coração dá um brado: 
– Por favor, tire essa dor! 
Oh, pranto! Fique calado!!! 
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR
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Se toda literatura, 
fosse obra de certos críticos, 
carecia sepultura 
pra enterrar versos raquíticos. 
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE 
Pinhalão/PR
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Monsenhor Orivaldo Robles (Deus quis assim)

Eram quatro irmãs jovens e lindas. Iam dos dezesseis aos vinte e três anos, mas não aparentavam. A caçula passaria por uma criança de treze. Não tinham antes chamado, de forma especial, minha atenção. Eu as via sempre juntas nas missas dominicais. Era de onde me conheciam. Agora, entram na sala de atendimento as quatro de uma vez. À minha frente, quatro rostos de imensa beleza e profundamente tristes.

Sua história me encheu de dor. Também de revolta com gente que fala o que não sabe. Eram de outra cidade, distante mais de cem quilômetros. O pai aqui as colocara para estudarem. A mãe se dividia entre marido e filhas; mais tempo para elas do que para ele. Proprietário rural trabalhador, ele dava duro, de segunda a sexta, no sítio, mas o final de semana era da família. Chegava, às vezes, quando ainda dormiam. Apaixonado pelas meninas, junto delas virava um moleque. Acordava-as atirando pedrinhas na janela do apartamento. Elas despertavam aos saltos e se atiravam, todas juntas, no seu pescoço. Sufocavam-no com excessos de carinho que raros pais tiveram a felicidade de experimentar. O sábado e domingo eram, para a família, uma festa de quarenta e oito horas.
 
Esse idílio de amor inocente um caminhão canavieiro destruiu de forma brutal. No caminho da propriedade, atropelou e matou o pai das garotas. Mãe e filhas sentiram o chão fugir-lhes sob os pés.

Então, apareceu o estranho conforto que alguns oferecem nessa hora: “Consolem-se. Deus quis assim. Vocês precisam aceitar a vontade de Deus”. A educação cristã sugada com o leite materno perigou de sofrer um abalo. Fitavam-me angustiadas, inquirindo mais com o coração do que com os lábios: “Deus quis mesmo o acidente que matou nosso pai? Foi vontade dele?”

Quando a aflição é por demais intensa, prende-se a voz no peito. Fitei-as, uma a uma, mergulhando no oceano de dor e saudade daquelas lágrimas quentes. Lutei para segurar as minhas. Elas buscavam apoio em quem imaginavam forte. Mas forte como, num caso assim?

Espero ter-lhes devolvido a certeza de que Deus é o pai de cujo amor e doçura, elas tiveram em casa, desde que nasceram, a mais deliciosa amostra. Melhor do que ninguém elas têm autoridade para falar que Deus não quis aquela tragédia. Que pai ia fazer aquilo?

Ocorre que um misterioso elo de solidariedade nos liga tanto para a alegria quanto para a dor. Somos pessoas vivendo ao lado de pessoas. Queiramos ou não, nossos caminhos se cruzam. Nesse cruzamento, existe a dolorosa possibilidade de produzirmos luto em vez de festa. Fomos dotados de inteligência, de criatividade, de vocação para o bem, para a verdade, unidade, beleza... Também dispomos, para nossa grandeza ou vilania, do livre arbítrio. Deus não manda em nós. Não toma nossas decisões. Não violenta nosso querer. Nosso agir é decidido por nós. Se há erros, nós os cometemos.

Não há liberdade para o mal, para agravo à consciência, que é instância próxima da vontade de Deus. Mesmo que muitos, por desfaçatez e descaso do bem, se atribuam o direito de praticar atos condenáveis.

Inseparável da liberdade, a responsabilidade é sua irmã gêmea. Sem ela, a liberdade se converte em anarquia. Quando ocorre, é desgraça a caminho e sofrimento na certa.
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras 12.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3436391

Nilto Maciel (Um simples boneco)

Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas.

Seguiu em frente e chegou ao banheiro. Nada escapava ao seu olhar vigilante. Precisava ver se também lá havia ordem e respeito. Um dia pegaram um rapaz e uma moça agarrados no banheiro destinado ao público, ao fundo do corredor.

Empurrou a porta, como se tivesse medo de encontrar fantasmas, e virou pedra. Que horror! Deus, que horror! Meu Deus!!! Um corpo pendurado, horrível, rijo, apavorante. Ou não era verdade, sonhava, delirava? Abriu, arregalou os olhos. Talvez fosse pura impressão, um pensamento de medo, desses de todo dia. Olhou para o vaso, a pia, o espelho. Sim, havia um corpo pendurado, os pés enormes entre o chão e a vida. E se estivesse vivo, se ainda não tivesse morrido?

Desesperado, Joaquim tocou o corpo, exatamente a perna do enforcado, e, a esperança num olho, a piedade noutro, olhou o rosto desfigurado do morto. E deu um pavoroso grito. Aquele corpo era o seu. Sim, tudo no outro assemelhava a ele.

Preocupado, deu dois passos para trás e se viu no espelho, triste e pesaroso. Ora, aquilo devia ser um boneco. Brincadeira dos colegas. Sim, só podia ser um boneco. Horrível boneco morto.

Olhou mais uma vez para a língua estirada do outro. Aquele rosto, na verdade, parecia o seu. As mesmas feições, os mesmos braços cabeludos, sua roupa preferida, aqueles sapatos rotos e sujos, tão idênticos aos que usava todo dia. Pura coincidência, mero acaso, como diziam. E, decidido, puxou a porta do banheiro. Precisava avisar a polícia. Antes da chegada dos colegas. Com urgência. Um crime bárbaro na repartição, uma desgraça, um suicídio talvez. E pôs-se a discar números e mais números. Que não davam em nada. Discava, discava, e nada. Melhor mesmo ir à polícia. Pegava um táxi, contava tudo ao motorista e, em poucos minutos, se livrava daquilo. Deixava janelas e portas abertas. Os colegas chegariam logo. Não podia esperar.

— Quem é o morto, Seu Joaquim? — irritou-se o policial de plantão.

Não sabia, talvez o conhecesse, porém não lhe sabia o nome. Além do mais, podia ser um simples boneco. Trabalho perfeito, obra de artista. O policial trancou a cara mais ainda, deu um murro na mesa e urrou. Não admitia gracinhas. Ou Joaquim não desconfiava das boas surpresas reservadas a quem brincava com a polícia? E acendeu um cigarro nauseabundo, soprou a fumaça na direção do interrogado, gargalhou.

— Confesse logo, seu engraçadinho.

Joaquim diminuiu de tamanho, encolheu-se todo e pôs-se a balbuciar inúteis defesas. Sim, tudo não passava de sonho. Ninguém se matara, ninguém se enforcara. Não havia corpo nenhum pendurado no banheiro da repartição. Que tolice procurar a polícia para contar sonhos!

— Confesse, Seu Joaquim — gritou de novo o policial, arma apontada para a cabeça do pequenino informante, que diminuiu ainda mais de tamanho.

  E os colegas? Já teriam visto o cadáver? Certamente lamentavam seu derradeiro ato. Tão trabalhador, tão honesto, tão cumpridor dos deveres! Por que se matara? Dívidas? Amor? Dúvidas? Tumor? Precisava voltar logo, tudo não passara de sonho, alucinação, pensamento ruim. Continuaria abrindo a porta e as janelas da repartição, averiguando palmo a palmo as salas, como sempre fizera.

— Confessa ou não confessa? — berrou mais alto o policial.

Assustado, Joaquim Xavier fechou a porta do banheiro. Os colegas chegavam, em grupo, na alegria de um novo dia.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.