quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Wanda de Paula Mourthé (Semeando Trovas)

 

Ao se casar o carteiro,
o bebê chega depressa;
— Comigo o tiro é certeiro,
e a encomenda, via expressa!
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A Raimunda chega ao baile,
e logo se esquenta o clima,
pois alguns "cegos" em braile,
querem só tocar na rima!
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A toda pergunta feita
respondeu com tanto "não"
que lhe aplicou a Receita
multa por "só... negação"!
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A vendedora ladina
jura que não é trapaça:
— Olha o véu que a Messalina
"não" usou por ser devassa!
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Com Adão no paraíso,
Eva pensa ao ir pra cama;
— Ah! Se eu tivesse juízo,
dava pra ele... um pijama!
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Com tristeza e desencanto,
vejo um mundo injusto e louco;
Há tão poucos tendo tanto,
e há tantos tendo tão pouco!
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Convidado a ver pelada,
diz, irado, o garanhão;
— Mulher pelada? Que nada!
Só vi homem de calção!
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Diz a galinha-d'angola:
— Meu marido é mesmo um saco!
Quando tiro a camisola,
logo ele grita: — "Tô fraco"!
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Em meu sonho, a sogra berra:
— Joga mil no burro e dobra! —
Mas seu palpite me ferra;
burro fui eu... deu a cobra!
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Em teu amor não confio...
Já se acabou a ilusão,
pois ele é vento vadio:
sopra em qualquer direção.
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Fujo em estrada penosa,
temendo um amor adverso,
mas a saudade, teimosa,
percorre o caminho inverso.
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Imperfeita é minha lira:
meu "muso" é manco, coitado!
O verso que ele me inspira
sempre sai de pé quebrado!
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Mesmo em flagrante apanhado,
o malandro finca o pé:
— Trambique? Foi, delegado...
mas com toda a boa fé...
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Minha alma se enleva ao vê-las
em seu fulgor que seduz;
piscapiscando as estrelas
parecem ilhas de luz!…
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Minha mulher é nanica,
mas na cama é colossal:
ronca mais do que cuíca
em bloco de carnaval!
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Na feira de antiguidade,
ao ancião combalido,
perguntam, não sem maldade:
— Vem comprar ou ser vendido?
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Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não suspendeu o artigo...
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Não receio o que vier,
pois já vislumbro a partida...
mas luto, enquanto eu tiver
uma fagulha de vida!
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No escuro, sente a "mão-boba"...
Grita a velha: — Patifão! —
Mas, entre os dentes, diz: — Oba!
Bendito seja o apagão!
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O ladrão me deu pancada,
me roubou e saiu rindo...
Pra vingar, xinguei, danada,
cada nome feio lindo!
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— O meu marido é carteiro,
porém bem cedo aprendeu
que, no lar, o tempo inteiro,
só quem dá as cartas sou eu!
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O meu problema é pagar
altos custos de energia;
basta a luz eu apagar
que acesa fica a Maria!…
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— O que te disse o Doutor?
Te deu muita informação?
— Informação? Não, amor,
é bebê... "em formação!"
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Pão-duro, o cara declara:
— Ter cara-metade é asneira.
Se a metade já é cara,
imagina a esposa inteira!
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Pensa o luso: — Um pesadelo!
Tudo meu em hipoteca...
É de arrepiar cabelo!
A sorte é que sou careca...
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Pode a vingança depressa
ter consequências fatais.
Sabe-se como começa,
como termina, jamais!
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Quando a Zazá sai da linha,
o Zezé nunca se importa;
a mulher é uma galinha,
mas ele, um galinha-morta!
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Quis apagar a queimada,
mas caiu numa esparrela,
pois, estando "alambicada",
a mais queimada foi ela!
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— Que injustiça aos meus instintos!
Amo o galo, ando na linha,
choco ovos, cuido dos pintos
e me chamam de "galinha"?!!!
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Sem teu amor, meu fanal,
naufraguei entre os escolhos
na profundeza abissal
do mar azul dos teus olhos!
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Sendo tão feia a encalhada,
com reza só conseguiu
um cego, que, na "largada"
pelo braile... desistiu!
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— Senhor, escutai meu rogo,
dai-me um exímio parceiro!
— Filha, pra apagar seu fogo
só lhe arranjando um bombeiro!
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Suja o muro o pichador.
Preso, grita e faz baderna;
— Isto é um engano, Doutor!
Só fiz arte pós-moderna.
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Tendo o Zé imensa pança,
queixa-se sua mulher
que a barriga dele avança,
porém nunca o que ela quer.
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— Tenho grande novidade:
estou grávida. Que apuro!
— Foi contra sua vontade?
— Que nada! Foi contra o muro.
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— Vem furar onda comigo! —
propõe, na praia, a faceira,
Diz o luso; — Que castigo!
Eu não trouxe a furadeira...
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— Vendo pipoca, que é o fraco
da criançada, no recreio,
e de tanto que encho saco,
já estou de saco cheio!
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Wanda de Paula Mourthé (1929)
WANDA DE PAULA MOURTHÉ é uma das mais proeminentes e premiadas trovadoras e poetisas do estado de Minas Gerais. Reconhecida nacionalmente por sua sensibilidade e domínio técnico da trova, sua trajetória une a erudição acadêmica internacional à leveza da poesia popular. Wanda Lucca de Paula (nome de batismo) / Wanda de Paula Mourthé (nome de casada), nasceu na cidade de Miraí/MG, em 1929. Embora tenha nascido no interior mineiro, fixou residência de longo prazo em Belo Horizonte, além de ter morado e trabalhado no exterior por anos devido à sua carreira docente (notadamente em países como Argélia e França). Wanda Mourthé construiu um vasto e respeitado currículo no ambiente acadêmico internacional. Licenciada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Graduou-se também pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Argel, na Argélia. Atuou profissionalmente como professora de Língua Portuguesa na Université de la Sorbonne Nouvelle, em Paris, na França.
Sua jornada literária começou curiosamente no exterior: a primeira trova que escreveu foi uma reação de felicidade ao receber, de longe, notícias sobre o seu time de futebol, o Atlético Mineiro. Ao retornar ao Brasil, mergulhou de cabeça no universo dos certames literários, tornando-se uma figura indispensável no movimento da trova brasileira.
Acumula diversas distinções em torneios e Jogos Florais por todo o Brasil. Entre suas conquistas de destaque, recebeu o 1º lugar nacional no prestigiado Torneio Lilinha Fernandes (2014) e figurou constantemente nas classificações principais de eventos tradicionais como os Jogos Florais de Curitiba. A produção literária de Wanda encontra-se ricamente pulverizada em centenas de antologias oficiais, coletâneas de Jogos Florais nacionais, além de periódicos e portais especializados em trovas.
A importância de Wanda para a literatura reside em sua capacidade de transitar com maestria pelo humor e pelo lirismo. Ela ajudou a manter viva e pulsante a tradição da trova, provando que uma estrutura poética clássica e rígida pode expressar sentimentos cotidianos de forma profundamente acolhedora, moderna e acessível.

Fonte:
Wanda de Paula Mourthé. Com…passos de emoções. Belo Horizonte: Flux, 2013. Enviado pela trovadora.
Biografia = Revista Encontro, Genealogia de Minas, Recanto das Letras, etc.

José Feldman (O calor da madrugada fria)

O relógio de parede insiste em ditar o ritmo do meu isolamento com o seu tique-taque impassível. São três horas da manhã. Para quem sofre de insônia crônica, a madrugada não é um período de descanso, mas um deserto de horas vazias, iluminado apenas pela luz branca e fria do monitor do meu computador.

Durante meses, meu ritual de sobrevivência ao silêncio do mundo consistia em escrever. Eu não redigia diários ou relatórios; eu escrevia cartas de amor. Eram textos longos, transbordando uma devoção febril, direcionados a um destinatário inexistente. Eu projetava na tela o olhar de uma afeição que não encontrava eco na minha realidade concreta. Escrevia para preencher o vazio, para fingir, por algumas horas, que o meu peito não abrigava uma solidão tão vasta quanto a noite lá fora.

Até que ela surgiu.

Não me lembro exatamente em qual fórum de literatura ou sala de bate-papo madrugadora nossos caminhos se cruzaram, mas o impacto de Liza foi imediato. Quando recebi sua primeira resposta, senti um calafrio que há muito não experimentava. Ela tinha uma escrita magnética, profunda e melancólica, que parecia ler os meus pensamentos mais ocultos. Em pouco tempo, as minhas cartas unilaterais ganharam um destino real. Ela tornou-se a guardiã das minhas noites em claro.

Passamos a nos corresponder diariamente, ou melhor, todas as madrugadas. Enquanto o resto da cidade dormia, o nosso romance prosseguia por madrugadas incontáveis. A paixão virtual estava acesa em nossas almas com uma intensidade avassaladora. Nós trocávamos confissões íntimas, promessas de um futuro juntos e juras de amor que pareciam esculpidas no mais puro sentimento. Cada notificação na tela era um batimento cardíaco a mais no meu peito. Eu me sentia vivo, finalmente compreendido por alguém que partilhava da mesma vigília forçada, do mesmo exílio noturno. Liza era a minha alma gêmea, a resposta para todas as minhas preces silenciosas.

A rotina me consumia. Eu passava os dias como um zumbi, ansioso apenas pelo momento em que o sol se deitaria e eu poderia me conectar novamente àquela mulher misteriosa e perfeita. Eu vivia num estado permanente de torpor, flutuando entre a exaustão física do dia e a adrenalina emocional da noite.

Até que, gradualmente, uma névoa estranha começou a se dissipar.

Tudo aconteceu em uma terça-feira cinzenta, quando o cansaço acumulado de anos parecia pesar toneladas sobre os meus ombros. Eu estava diante do teclado, esperando a resposta de Liza para um poema que eu lhe enviara minutos antes. Olhei para a caixa de entrada. Olhei para o histórico de mensagens enviadas. Senti uma leve tontura, aquela velha sensação de estar meio dormindo e meio acordado, onde a fronteira entre o sonho e a realidade se torna perigosamente tênue.

Fixei os olhos na tela e comecei a reler os nossos diálogos desde o início. Um detalhe incômodo me chamou a atenção. O estilo de escrita de Liza... as metáforas que ela usava... o ritmo das suas frases... tudo era perfeitamente idêntico ao meu. Olhei para o relógio de envio das mensagens dela. Coincidiam exatamente com os momentos em que eu entrava em transe criativo, datilografando furiosamente para aplacar a ansiedade.

Um frio absurdo subiu pela minha espinha. Abri as configurações da conta com as mãos trêmulas. Fui até o perfil dela. O endereço de e-mail de recuperação associado àquela conta era um antigo e-mail meu, há muito esquecido.

O castelo de cartas desmoronou com um estrondo silencioso. Deixei o corpo cair para trás na cadeira, tomado por um desânimo devastador, uma tristeza que parecia congelar o sangue nas minhas veias.

Liza não existia.

Por estar sempre naquele estado crepuscular, com a mente sabotada pela falta de sono crônica, eu havia criado um monólogo disfarçado de diálogo. Aquela paixão avassaladora era, na verdade, fruto da minha própria imaginação. Minha mente, desesperada pelo isolamento, manifestava-se de tal modo que passei a acreditar piamente que havia outra pessoa do outro lado da rede. Eu criara a mulher perfeita, a alma gêmea ideal, que respondia exatamente o que eu precisava ouvir, no tom exato em que eu precisava receber.

Não havia malícia no que fiz a mim mesmo; havia apenas uma dor profunda. Aquela farsa inconsciente era o grito de socorro de um homem que se sentia muito sozinho e que, no fundo, precisava desesperadamente de alguém para conversar. Eu inventei o amor para não morrer de solidão na madrugada.

Fechei a aba do navegador. Apaguei a conta que eu mesmo alimentara em minhas noites de delírio. O monitor voltou a projetar apenas o reflexo do meu próprio rosto cansado, com olheiras profundas e olhos marejados de lágrimas. 

Olhei para o lado, para o espaço vazio na cama. A verdade era dura, fria e solitária. Mas, pela primeira vez em muitos meses, fechei os olhos sem o peso da expectativa de uma mensagem. Naquela noite, embalado pela melancolia da minha própria mente, eu finalmente consegui adormecer.

No monitor, tudo apaga,
o silêncio engole a dor,
pois na mente que naufraga,
eu inventei o meu amor.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (27.set.1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Possui 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
        É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 169 *

Quando nasci ali no Chapadão, meia dúzia de quilômetros do centro canelinha, minha avozinha me recebeu da parteira, olhou, sorriu, me levou à janela.

Junho, vinte, na porteira do inverno, a vó Veleda queria me mostrar o quê?  O dia? A vida? O mundo?  Eu nem sabia que vivemos de imprevistos .

Naquele recanto sossegado vendo um buraco que dá pro Paranhana (rio do RS), de um lado, e pirambeiras do outro lado, passei quase dois anos me adaptando a este planiverso, planeta universo, aprendendo aos poucos que a vida é assim mesmo - opaca, colorida, obscura, luminosa, risos, dores, alternâncias constantes.  

Certa manhã acordei vendo uma imensidão de mundo - coxilhas subindo, coxilhas descendo, vales, campos, águas, horizontes pra lá da lonjura deles mesmos . . . 

Campos de Cima da Serra, papai, mamãe, o menino, dispostos a enfrentar o minuano, o frio de congelar água da sanga, tirar a neve do telhado naqueles invernos austrais.  

A vida não é só enxergar e não "ver". 

Olhos abertos, ideias brotando, o mundo surgindo diante do guri. Minutos em que um dos meus EUS ligou o modo curiosidade, palavrinha "imensa" nos dada pela nossa língua-mãe latina significando "desejo, busca, anseio por conhecimento". 

Começou ali uma cruzada que enlanguesceu anos e anos, pensares acelerando - avidez da busca pelo aprendizado, a investigação, a crítica, e as leituras, querendo sempre mais do mais.

E o ingênuo, o infantil, a ignorância foram engolidos pela curiosidade, esta pá carregada do todo e do tudo, que abastece cabeças com aprendizagem e saberes.

A pá - humilde - é ferramenta especial.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Silmar Bohrer (1950)
    O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Atualmente reside em Itapoá/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Texto enviado pelo autor. 

Francisca Júlia (Poemas Recolhidos)

 

ADAMAH
(à Júlia Lopes d’Almeida)

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terrena substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…
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AS DUAS IRMÃS

Vem a primeira a fala-lhe em segredo:
“Amiga, vê, (nem sei como isto conte!)
Como correm as águas desta fonte:
Tal corre a vida, e acaba-se tão cedo!

Ama, pois!” A segunda, em cuja fronte
Brilha um raio de luz, murmura, a medo,
Apontando-lhe o chão: “Este é o degredo
Perpétuo e atroz do teu amor insonte.

Contudo, espera.” E somem-se a Esperança
E a Saudade. E ela fica, como doida,
A olhar o rastro dessas deusas belas...

E ela fica esperando-as.... Cansa, cansa
De esperá-las assim, a vida toda,
Sem jamais receber notícias delas! ...
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CARLOS GOMES

Essa que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa,

Guarda nas cordas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora arrasta
Ora do mar as queixas, ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda; mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que, muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que su’alma lançou aos quatro ventos.
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MÃE

Embora a mágoa a aflija e a sorte a oprima,
O seu amor, como celeste esmola,
É um perfume sutil que se lhe evola
Do peito e sobe deste mundo acima.

Com que ternura a sua voz me anima,
Quando, pelo meu rosto, o pranto rola!
Ninguém, como ela, a minha dor consola,
Ninguém, como ela, o meu pesar lastima.

Julgo-me só e chamo-a... Ela não tarda!
Volta, acode-me, alegre; e, num momento,
Desfaz a dor que o coração me enluta.

Ela é a mais fiel, a mais constante guarda
Que, no meio da noite, o ouvido atento,
O meu suspiro entrecortado escuta.
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NATUREZA

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.
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A UMA SANTA

Foge, sem ódio, ao mal; o bem pratica;
Se a dor lhe dói, cuida-a gostosa e boa,
Ou faz então com que ela lhe não doa;
Na pobreza em que está julga-se rica;

O mal, sabe que passa, o bem, que fica;
Por isso o bem acolhe e o mal perdoa.
Quanto mais vive, mais se aperfeiçoa,
Quanto mais sofre, mais se glorifica.

Por essa alta moral os atos regra;
Em nenhum outro esforço em vão se cansa,
Por nenhum outro ideal se bate em vão.

E é feliz, mais feliz porque se alegra
Não com o muito que a sua mão alcança,
Porém com o pouco que já tem na mão.
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A UM VELHO

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
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DE VOLTA

Mais encanto que a mais populosa cidade,
Dentre tantas que viu, a sua aldeia encerra,
— Uma nesga de gleba e socalcos de serra
Sob um céu sempre azul, de ampla serenidade.

Por tudo o olhar derrama ungido de saudade,
E, evocando o passado, os tristes olhos cerra.
Neste instante feliz, nada há que mais lhe agrade
Que sentir-se entre os seus em sua própria terra.

Chega. O primeiro amigo a quem a mão aperta,
Quase à meiga pressão se esquiva, indiferente,
E de outras efusões mais vivas se liberta.

Nessa mão, que recua, outras, frias, pressente…
Antes exílio e dor, pão duro e vida incerta,
Que o desprezo arrostar da sua própria gente.
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PÉRFIDA

Disse-lhe o poeta: “Aqui, sob estes ramos,
Sob estas verdes laçarias bravas,
Ah! quantos beijos, trêmula, me davas!
Ah! quantas horas de prazer passamos!

Foi aqui mesmo, — como tu me amavas!
Foi aqui, sob os úmidos recamos
Desta aragem, que uma rede alçamos
Em que teu corpo, mole, repousavas.

Horas passava junto a ti, bem perto
De ti. Que gozo então! Mas, pouco a pouco,
Todo esse amor calcaste sob os pés”.

“Mas, disse-lhe ela, quem és tu? De certo,
Essa mulher de quem tu falas, louco,
Não, não sou eu, porque não sei quem és…”
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NO BAILE

Flores, damascos… é um sarau de gala.
Tudo reluz, tudo esplandece e brilha;
Riquíssimos bordados de escumilha
Envolvem toda a suntuosa sala.

Moços, moças levantam-se; a quadrilha
Rompe; um suave perfume o ar trescala;
E Flora, a um canto, envolta na mantilha,
Espera que o marquês venha tirá-la…

Finda a quadrilha. Rompe a valsa inglesa.
E ela não quer dançar! ela, a marquesa
Flora, a menina mais formosa e rica!

E ele não vem! Enquanto finda a valsa,
Ela, triste, a sonhar, calça e descalça
As finíssimas luvas de pelica!
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OUTRA VIDA

Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio…
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NOTURNO

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério…
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de um misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua…
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.
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QUADRO INCOMPLETO

Foi um rico painel. Traço por traço,
Nele notava-se a paixão do artista.
Via-se, ao fundo, a tortuosa crista
De altas montanhas a beijar o espaço.

No centro, um rio, a distender o braço.
Selvas banhavam em triunfal conquista.
Ao longo, dois amantes, pela lista
De um carreiro, seguiam, passo a passo.

Foi um rico painel. Uma obra finda
A primor, que, apesar de velha, ainda
Conservava das cores a frescura.

Hoje, porém, não é como era dantes:
Pois no ponto onde estavam os amantes,
Existe apenas uma nódoa escura.
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Francisca Júlia (1871 - 1920)
    FRANCISCA JÚLIA CÉSAR DA SILVA MÜNSTER foi uma das vozes do Parnasianismo brasileiro, reconhecida por sua técnica impecável, rigor formal e objetividade poética. Elogiada por grandes nomes da crítica, como Olavo Bilac, ela se destacou em um cenário literário predominantemente masculino. Nasceu em 1871, em Xiririca (atual município de Eldorado), no estado de São Paulo e faleceu em 1920 (aos 49 anos), em São Paulo (SP), em decorrência de uma overdose de sedativos, logo após o sepultamento de seu marido, o telegrafista Philadelpho de Castro, que havia morrido de tuberculose no mesmo dia. Nascida no interior paulista, mudou-se na juventude com a família para a capital, São Paulo, e também residiu por algum tempo em Barretos (SP). Dedicou-se ao magistério, trabalhando como professora, além de colaborar intensamente com a imprensa da época. 
Estreou no jornal O Estado de S. Paulo em 1891, sob a tutela do crítico literário Júlio Mesquita. Inicialmente, sua poesia era tão técnica, fria e perfeita que o crítico Raimundo Correia chegou a duvidar de que os versos tivessem sido escritos por uma mulher, suspeitando que fossem obra de algum poeta experiente sob pseudônimo. Ela colaborou com diversos periódicos importantes, como A Mensageira. Foi uma das fundadoras da Academia Paulista de Letras (APL). Na Academia Brasileira de Letras (ABL), ela não pôde ingressar, pois a instituição não aceitava mulheres na época. Contudo, na sessão de instalação da ABL em 1897, seu nome foi publicamente elogiado por Olavo Bilac. 
Livros Publicados: Mármores (1895) – Livro de estreia que a consagrou no Parnasianismo; Livro de Infância (1899) – Versos dedicados ao público infantil e escolar; Esfinges (1903) – Coletânea ampliada que consolidou sua técnica; Alma Infantil (1912) – Escrito em parceria com seu irmão, Júlio César da Silva; Versos Áureos (1921) – Publicação póstuma organizada por seus familiares.
Ocupa um lugar de destaque na história literária brasileira por demonstrar o domínio absoluto da estética parnasiana. Em uma época na qual as escritoras eram frequentemente associadas apenas à poesia sentimental ou confessional, ela rompeu barreiras ao entregar uma obra marcada pelo impassibilismo, precisão métrica e descrições plásticas e visuais (daí o título de seu primeiro livro, Mármores). Ela provou a força da autoria feminina no ambiente intelectual da República Velha, tornando-se uma referência de rigor formal na poesia nacional.

Fontes:
Elson Froes. Sonetário
Francisca Júlia da Silva. Mármores. Brasília: Senado Federal, 2020. Publicado originalmente em 1895.

Sammis Reachers (Jaú “Liquid-Paper”)

O cidadão conhecido por Jaú era antigo motorista da empresa Fortaleza, de Niterói.

Certa feita, enquanto o hoje também motorista Nildo era ainda manobreiro na mesma Fortaleza, lá chegou Jaú, à noite, recolhendo o carro após sua última viagem. Sempre tranquilo e conversador, naquele dia Jaú estacionou o veículo no meio do pátio e saiu apressado. Assim que ele desceu do veículo, um dos manobradores logo assumiu o volante, pois aquele carro estava na escala para ser lavado (a cada noite eram lavados alguns veículos). Enquanto ele manobrava o carro para posicioná-lo no lavador, Nildo observava e ajudava, de fora do veículo, na manobra.

Porém, logo que os primeiros jatos de água bateram na lataria do ônibus, Nildo notou algo estranho: como num passe de mágica, uma extensa linha começou a surgir na lateral do veículo, em sua parte branca (naquela época os veículos da empresa eram bicolores; branco e marrom). Mas aquela linha não estava ali, Nildo tinha certeza. Ao se aproximar, mesmo molhando-se, nosso amigo percebeu que se tratava na verdade de um enorme arranhão, e que em algumas partes quase rasgara a lataria.

Se você já foi manobreiro, sabe que em muitas empresas o veículo deve ser observado quando retorna à garagem, para verificar se há alguma avaria; caso exista, o motorista é notificado e em geral deve pagar pelo prejuízo. Por outro lado, se o motorista coloca o carro na garagem e ninguém nota nada na hora, depois fica difícil arrumar alguém para assumir a culpa; o motorista pode alegar que não foi ele, que foi o parceiro do outro turno, que já estava assim, ou pior: que a avaria fora feita pelos manobradores, pelo que eles então deveriam pagar.

Isso tudo passou rápido pela cabeça de Nildo, ao perceber aquela enorme linha surgir milagrosamente no veículo. Havia um tipo de tinta sobre o arranhado, mas a tal "tinta" não aguentou a água! Ao olhar lá para a frente, Nildo ainda pôde divisar o velho Jaú, passo apressado, saindo da garagem.

Nosso amigo não perdeu tempo: disparando como um Usain Bolt, Nildo conseguiu alcançar Jaú, a quem segurou pelo braço.

- Peraí, malandro! Tem alguma coisa errada lá no seu carro! Tá com uma enorme avaria lá na lateral! E tinha um tipo de tinta fresca cobrindo!

– Avaria? Tá doido? - tentou desconversar Jaú.

Nisso um dos chefes, que observava a situação, se aproximou e encostou Jaú na parede:

- Como é, seu Jaú? O carro está arranhado e tinha tinta sobre ele?

Jaú tentou se desvencilhar da acusação e gaguejava dando desculpas, nitidamente nervoso, quando o chefe o cortou:

- Olha, você está gaguejando muito, e nem quero saber o que houve: é melhor o senhor admitir agora e pagar o pequeno prejuízo numa boa, uma merreca, do que tomar uma justa causa no dia de amanhã. Vai tomar uma justa causa, hein! Você que sabe. E aí, o que você fez afinal?

Pego de calças arriadas, não teve jeito. O pilantra do Jaú confessou:

- Sabe o que é, chefia... Eu levei uma fechada de um parceiro da (empresa de ônibus) Pendotiba, um barbeiro do #$%&*@, e acabei arranhando a lateral numa caçamba de entulho. Poxa, esse mês eu estou durinho, e pago duas pensões... Aí eu comprei um vidrinho de Toque Mágico, sabe, esses Liquid Paper que usam no colégio, e pintei o arranhado...
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Sammis Reachers (1978) 
SAMMIS REACHERS é o pseudônimo literário de Sammis Reachers Cristence Silva, uma expressiva voz da literatura independente fluminense. Notabilizou-se no cenário nacional não apenas como um prolífico poeta e ficcionista, mas principalmente por sua intensa atuação como editor e um dos maiores organizadores de antologias literárias do país no século XXI.
Nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1978. Apesar do nascimento em Niterói, cresceu, vive e reside desde sempre no município de São Gonçalo/RJ. O cotidiano, a periferia e a identidade gonçalense são as principais raízes geográficas de sua escrita. Além da forte vocação para as letras, ele atua profissionalmente como professor de Geografia na rede de ensino. Ele costuma brincar dizendo que escreve "no tempo que lhe resta – ou vice-versa". Atua fortemente no universo editorial independente por meio de plataformas de auto-publicação (como a UICLAP) e selos alternativos, ajudando a viabilizar fisicamente e digitalmente obras de novos autores. 
Sammis iniciou sua trajetória literária no final da década de 1990, estreando com versos fortemente vinculados à sua vivência regional. No decorrer de mais de duas décadas de produção ininterrupta, ele construiu um vasto catálogo de títulos individuais. Paralelamente, o autor se consolidou no cenário nacional por uma impressionante atuação como antologista. Ele já idealizou e organizou mais de 50 antologias e coletâneas literárias temáticas (muitas de distribuição gratuita em formato digital), reunindo milhares de poemas e contos de centenas de autores marginais, cristãos e independentes de todas as regiões do Brasil. Focado no mercado literário periférico, alternativo e na internet, Sammis Reachers não integra o quadro de membros efetivos das Academias de Letras tradicionais de grande porte (como a ABL), mas se destaca ocupando uma cadeira na Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Sua atuação se dá de maneira descentralizada, dialogando diretamente com coletivos de escritores, jornais culturais locais (como o Jornal Daki e Editora Apologia Brasil) e plataformas de escrita. No Concurso Nacional de Divinópolis (2023) teve sua excelência literária reconhecida nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Concurso Nacional de Literatura, promovido pela Câmara de Vereadores de Divinópolis, em Minas Gerais.
Seu catálogo expandiu-se e conta com mais de doze livros de poesia, cinco volumes de contos/crônicas e incursões pelo romance histórico/ficcional.
Poesia: São Gonçalo de Todos os Santos (1999); Uma Abertura na Noite (2006); A Blindagem Azul (2007); Poemas da Guerra de Inverno (2012); Deus Amanhecer (2013); Pulsátil – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014); Grãnadas (2015); Cartas e retornos (2021).
Prosa: A Ordem Luterana da Cruz Combatente (Romance); 2000 Citações Missionárias (Pesquisa e Compilação); Poesia em 1000 Citações (Compilação Reflexiva); Renato Cascão e Sammy Maluco - uma dupla do balacobaco (histórias sobre a infância dele); Rodorisos (histórias hilárias sobre os motoristas rodoviários da época que ele era motorista). 
Organizou as antologias poéticas: Segunda Guerra Mundial - Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã, Poemas sobre Sua Majestade, o livro, etc.
A grande relevância de Sammis Reachers para a literatura brasileira contemporânea reside no seu papel de democratizador do fazer literário e articulador de pontes culturais. Em um país onde o mercado editorial tradicional é altamente centralizado e restrito a poucos nomes, ele utiliza a internet e as antologias cooperativas para retirar do anonimato centenas de novos talentos que não teriam recursos para publicar sozinhos.
Como escritor, sua obra poética transita com competência entre o lirismo cotidiano, a temática histórico-militar e a literatura de inspiração cristã-protestante, descentralizando a narrativa dos grandes eixos urbanos e provando que a periferia do estado do Rio de Janeiro abriga uma produção estética erudita, consciente e de alto impacto social.
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Fontes:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Amazon, Recanto das Letras, UICLAP, Apologia Brasil, Jornal Daki, Confraria Brasileira de Letras.

Dílson Catarino (Como uma vírgula acabou com um namoro do dia dos namorados)

Conta-se que, em Palmeirinha do Vale, cidade de dezessete mil viventes, que se situa perto de Santana do Arrebol do Oeste, havia uma professora de português, extremamente rígida, de nome Austeresa de Jesus. Ela era de tal modo rigorosa para com os alunos que estes temiam encontrá-la mesmo no dia a dia, na praça central, na mercearia, na farmácia.

Dizem que ela interpelava seus pequenos educandos, estivessem onde estivessem, sobre as mais variadas regras gramaticais. Ai de quem não soubesse a resposta: ela sacava seu caderninho rosa, anotava o nome da vítima, a pergunta que lhe fizera, a resposta dada –ou a falta dela– e o quanto valia relativamente à nota escolar.

Dependendo do grau de dificuldade da pergunta, ela diminuía 0,1, 0,2 ou 0,5 da nota que o aluno tirasse na prova seguinte. Era um suplício para as pobres crianças palmeirinhenses.

Quando Austeresa era jovem, enamorou-se de um belo rapaz, também professor de português, de nome Telos Alonso. Ele, porém, não tinha a mesma capacidade intelectiva dela nem a mesma habilidade em sala de aula nem a mesma rigidez. Era um moleirão a bem dizer, que nem gostava muito de estudos aprofundados. As maldizentes até comentavam que ele não era homem para uma mulher como Austezinha, como a chamavam carinhosamente.

O namoro entre eles durou exatamente onze meses e vinte e sete dias. O estopim para o término do relacionamento foi um cartão que ele lhe mandara no dia dos namorados em que escrevera “Para a minha namorada Austereza de Jesus”. Ao ler esses dizeres, quase teve uma síncope; chegou a perder o juízo. Pegou de uma caneta e imediatamente escreveu-lhe uma pequena carta, em que dizia:

“Telos Alonso, é de conhecimento geral em Palmeirinha que tolero os maiores sofrimentos, que suporto as maiores provações. É, no entanto, também comentário corrente que há duas situações que jamais enfrentarei: traição e erro gramatical. E você, meu ex-amado, acabou de cometer ambos: você, professor de português, sabe muito bem que os nomes próprios femininos formados pela posposição do sufixo -esa ao radical se escrevem com S, não com Z.

Como meu namorado há quase um ano ainda erra meu nome, trocando letras? Não me importo tanto pelo erro de meu nome, mas importo-me –e muito– com o trocar letras. Poderia ter-me chamado de Austerise; não me atenazaria tanto, pois teria usado as letras adequadas: nomes femininos terminados em -ise se escrevem com S, como Denise e Anelise; mas ignorar que se escrevem com -ês e -esa nomes de pessoas, como Inês, Teresa e o meu, logicamente, Austeresa, adjetivos pátrios, como português e portuguesa, e títulos sociais ou nobiliárquicos, como camponês e camponesa, marquês e marquesa e ainda princesa, a maneira como me tratava, é demais para mim.

Fico agora a pensar: cada vez que me chamava de princesa, sua mente produzia princeza? Não. É demais para mim. Não suporto tal provação. E a traição? Como a descobri? Você mesmo se delatou: ‘…minha namorada Austereza’. Assim escreveu você; sem vírgula. Assim escolheu me mostrar que tem outra namorada. Não teve coragem de me contar pessoalmente, contou-me por subterfúgio, e eu entendi.

Ao não colocar vírgula entre meu nome e o substantivo que ele especifica, mostrou-me que não sou a única. Se o fosse, ter-me-ia escrito ‘…minha namorada, Austeresa’, com vírgula. Muito perspicaz foi você, dar-me a conhecer uma situação por meios gramaticais: substantivo próprio que especifica substantivo comum, sem vírgula entre eles, restringe, ou seja, há mais de um: ‘Professora Austeresa’, sem vírgula, pois não sou a única professora, há muitas; mas substantivo próprio que especifica substantivo comum, com vírgula entre eles, explica, ou seja, só há um: ‘…minha namorada, Austeresa’, com vírgula; eu seria a única, mas não o sou; sei-o agora.

Aliás, nem me importo mais com o namoro. Mesmo não havendo a traição, não quero mais tê-lo como namorado, pois dois erros de português em uma única frase cometidos por um ‘professor de português’ é demais para mim. Adeus.”
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Dílson Catarino
O professor, escritor e filólogo paranaense DÍLSON CATARINO é uma das maiores referências do Brasil no ensino prático e descomplicado da Língua Portuguesa. Ele alia o rigor técnico da gramática tradicional à sensibilidade da veia artística poética e musical.  Desenvolveu toda a sua consolidada jornada acadêmica e profissional na cidade de Londrina/PR, que serve como pano de fundo para grande parte de suas inspirações artísticas. Atua no magistério desde 1980, acumulando décadas de experiência em salas de aula. É graduado em Letras e em Pedagogia, além de possuir pós-graduação em Psicopedagogia. É o criador e mantenedor do célebre portal Gramática On-line(https://gramaticaonline.com.br/), lançado em 1999. O site foi uma das primeiras e mais importantes ferramentas da internet brasileira voltadas exclusivamente ao esclarecimento de dúvidas linguísticas, redação e pegadinhas gramaticais. Ganhou grande projeção nacional ao comandar quadros de sucesso na rádio (como a coluna de gramática na Rádio CBN) e participações em emissoras de TV, destrinchando o português com dinamismo e humor. Também lançou o projeto de imersão digital Gramática Absoluta.
Dílson transita entre a precisão técnica da língua e o lirismo da poesia e das composições musicais. Por ter uma carreira fortemente focada na educação executiva, filologia, jornalismo e infoprodutos digitais, Dílson Catarino construiu seu legado de forma independente, sem vínculos oficiais duradouros a academias tradicionais de letras ou ao circuito de premiações competitivas de ficção. Seu reconhecimento público é medido pelo impacto didático de suas colunas e pelo engajamento de suas centenas de milhares de alunos e seguidores. Embora seja amplamente conhecido por apostilas didáticas, e-books (como "Português Sem Medo") e artigos voltados à Nova Reforma Ortográfica, ele possui três livros de poesia publicados e um romance infanto-juvenil de destaque: Tendão Rompido: Coletânea poética; Boêmia Londrina: Livro de poemas que homenageia e retrata a atmosfera cultural de Londrina;. O Dono do Manto da Insônia: Terceira publicação voltada à sua produção de versos íntimos; O Caçador de Sabedoria (2008): Obra voltada para o público jovem com foco em valores e aprendizado.
A importância de Dílson Catarino reside no seu papel como um democratizador da Língua Portuguesa. Em uma época em que o estudo da gramática era visto como algo rígido, intimidador e puramente decorativo, ele foi um dos precursores em utilizar a internet e os meios de comunicação de massa para provar que falar e escrever bem é um direito acessível a todos. Ao transpor seus conhecimentos técnicos para a poesia, Catarino demonstra que as regras gramaticais não servem para aprisionar a criatividade, mas sim para dar ferramentas e polimento à expressão literária e musical do país.

Fontes:
Língua Portuguesa
https://www.linguaportuguesa.blog.br/virgula-acabou-com-um-namoro
Biografia = Hotmart, Gramática online, Blog Dilson Catarino.