quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Waldir Neves (Colheita de Trovas)

 

1
Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
2
A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…
3
A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.
4
A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!
5
Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!
6
Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
7
Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri!
8
A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…
9
Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…
10
Circo novo na cidade!
- No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!
11
Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu desejo,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…
12
Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
- O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…
13
Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.
14
Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!
15
Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.
16
Enquanto eu durmo, querida,
minh’ alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.
17
Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ôxente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente?…
18
É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!
19
Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
- Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…
20
Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”
21
Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…
22
Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….
23
Homem sem rasgos nem brilho,
a quem a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.
24
Importuno e impertinente,
o desejo insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…
25
Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!
26
Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado!…
27
Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!
28
Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.
29
Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.
30
Muito moço inconsequente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.
31
Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.
32
Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o desejo e a conquista,
há sempre pedras no meio…
33
Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…
34
No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…
35
No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.
36
No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
- É uma estrela embriagada
que volta da boemia!
37
Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…
38
Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de desejo,
e arde em fogo, novamente…
39
No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores
40
O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…
41
O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…
42
O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…
43
O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”
44
O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.
45
Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.
46
O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
- acha pesada demais!
47
Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…
48
Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…
49
Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…
50
Por topadas em excesso
- um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.
51
Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.
52
Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”
53
Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.
54
Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.
55
Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…
56
Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar!
57
Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor!…
58
Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.
59
Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
- queixume que me faz triste;
- tristeza que me consola!…
60
Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.
61
Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …
62
Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida frequência,
ao velho oeste da gente!
63
Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!
64
Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!
65
Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
- Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…
66
Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…
67
Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…
68
Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo que ainda te resta
neste mundo desigual!
69
Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.
70
Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!
71
Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…
72
“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”
73
Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!
74
Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!
75
Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.
76
Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”
77
Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Waldir Neves (1924 – 2007)  
WALDIR NEVES foi um dos maiores expoentes do movimento trovadoresco no Brasil, reconhecido nacionalmente pela maestria técnica e sensibilidade lírica com que moldou a trova contemporânea. Nasceu no Rio de Janeiro - RJ, em 1924, filho de Armindo Gonçalves Neves e Laura Molinari Neves. Faleceu na mesma cidade em 2007, aos 82 anos. Viveu e construiu grande parte de sua trajetória pessoal, profissional e artística na capital fluminense. Discreto em relação à sua vida profissional fora das letras, Waldir Neves dedicou-se ao serviço e à sua vida familiar ao lado de sua esposa, Conceição Tavares Neves. No cenário cultural e institucional, atuou fortemente na administração e organização do movimento literário da trova, servindo muitas vezes como jurado de grandes concursos de poesia em todo o país.
Waldir Neves dedicou décadas de sua vida à Trova. Teve papel fundamental na estruturação de agremiações poéticas e na consolidação de concursos nacionais. Integrou os quadros mais prestigiados do movimento, destacando-se como membro de destaque da Seção Rio de Janeiro, instituição máxima da difusão desse gênero no país. Foi agraciado com o título honorífico de Magnífico Trovador. Ao longo de sua vasta estrada na poesia, acumulou diversas classificações e vitórias nos Jogos Florais em vários municípios brasileiros, como em Nova Friburgo e no próprio Rio de Janeiro. Também ficou conhecido internacionalmente no meio trovadoresco por receber repetidas "notas dez" de comissões avaliadoras e por sua generosidade ao julgar e incentivar novos poetas. Grande parte de sua produção esteja eternizada em antologias coletivas, folhetos de Jogos Florais e no acervo histórico. 
Waldir Neves é amplamente reverenciado como um Mestre da Trova. Sua relevância para a literatura brasileira baseia-se em três pilares fundamentais:
1. A Definição da Arte: Ficou imortalizado por cunhar uma das frases conceituais mais bonitas e precisas sobre o gênero: "A trova é a arte de acomodar o infinito nos limites de um grão de areia".
   2. Rigor Técnico e Estilo: Ele provou que a quadra popular podia carregar erudição, filosofia e profundidade sem perder a simplicidade, a harmonia e a musicalidade essenciais ao gênero. Transitava com facilidade entre a trova lírica, a filosófica e a humorística.
   3. Legado e Mentoria: Mais do que escrever, Waldir foi um formador de poetas. Ele incentivou gerações de novos trovadores, ajudando a manter viva uma das tradições poéticas mais ricas e democráticas da língua portuguesa no Brasil.

Fonte = Confraria Luso Brasileira de Trovadores

Cantinho do Frata (Retrato do ontem)

Riscos de nuvens vermelhas coloriam o céu de verão enquanto o sol ia sendo empurrado como moeda grande num cofrinho no horizonte. Era a noite que chegava de manso. A poeira levada pelo vento para aqui e ali petecava qual jogo de moleques, e tingia de marrom as folhas dos pés de mamona, o casario da avenida, as roupas dos varais para desassossego das mães. Que sujeira, meu Deus! - Lamentavam.

Estávamos ali há algum tempo, minha irmã e eu sentados na soleira do portão quando, lá no começo da rua, sinais de fumaça mostraram o último ônibus do dia da Viação Garcia.

Rimos coniventes. Em pouco chegou bufando e gemendo, mas impoluto e poeirento foi manobrado e estacionou na estação rodoviária. O sopro do ar dos freios foi o último barulho forte que ouvimos. Parecia que o ar comprimido saía dizendo: Arre! Ainda bem que chegamos... No mais, pessoas desciam do monstrengo em busca de malas e embalagens retiradas do bagageiro do teto. Tudo empoeirado, mas fazer o quê?

Meu pai estava entre eles. Era vendedor-viajante que saía na segunda de madrugada para voltar apenas na sexta naquele horário. Vestia um sobretudo de algodão e sob ele o terno escuro com paletó de seis botões e chapéu de feltro que lhe davam ar senhorial, como eram as vestimentas sóbrias dos anos cinquenta. Parecia cansado como o ar dos freios.

Corremos ao seu encontro com as boas vindas semanais e arrancamos dele um largo sorriso, um abraço apertado de pai, um passar de mãos nas cabeças e uns trocados tirados do bolso do paletó, reservados talvez para a ocasião. O deixamos com a mala de couro e corremos ao Bar do Zé Enxerga.

Como era gostoso sorvete de palito com guaraná! Uma mordida na massa gelada e um gole no líquido efervescente que espirrava respingos no nariz davam sensação de prazer. Nossos olhos brilhavam, nossos rostos irradiavam felicidade e nossas bocas, mãos e braços se lambrecavam de sorvete escorrido. Mas quem se importava? A cada mordida e a cada gole parecia que os anjos das lombrigas bailavam de contentamento, fazendo festa ern nossas barrigas.

O tempo com seu cofre de esconder sol passou rápido e cobriu de asfalto a estrada e a avenida, e a poeira infernal diminuiu para alegria das mães; os ônibus que bufavam foram substituídos, o Zé Enxerga vendeu o bar, meu pai trocou de emprego, a soleira do portão não serviu mais de assento para nós que crescemos e nos esticamos para o mundo; e Bandeirantes, como uma flor de lis que desabrocha na madrugada para enfeitar o dia, se tornou uma bela e pujante cidade e vive um momento de crescimento, cria condições melhores para o futuro com suas escolas e com seu povo que desde o desbravador ao empreendedor atual, continuam a escrever com maestria, orgulho e com pontinhos de saudade do ontem a sua história. É um retrato que enternece pela lembrança boa que produz.

Muita coisa mudou de lá para cá; só não mudou o sabor inigualável de sorvete de palito com guaraná.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes: 
Livreto dos XXVIII Jogos Florais de Bandeirantes – 2014: Jubileu de Carvalho de Bandeirantes. Santo Antonio da Platina/PR: JK Artes Gráficas, 2014.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Laé de Souza (Esmeraldo, o garçom)


Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garçom e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.

Esmeraldo, educadamente, perguntou:

- Como é o seu nome, senhor?

O cliente mais irritado ainda respondeu:

- Jonas.

- Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. - A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.

Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores?

O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor!

Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente:

- O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.

Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um "pois não", bem macio.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Laé de Souza (1962)
O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infantojuvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fontes:
Biografia = AFPESP, Projetos de Leitura, Jornal da Franca, Prefeitura Municipal de Jequié, etc.

José Feldman (Chafariz de Versos) * 1 *


1 - Minha Careca

Que inveja... cabelos brancos... 
Quisera eu os ter também. 
Hoje aos trancos e barrancos 
nenhum fio se mantém, 
pois nesta minha careca 
onde o tempo - este vilão - 
me fez tremenda meleca, 
"tô" mais liso que um melão.

2 - Caleidoscópio da Vida

 No caleidoscópio da vida,
vitórias e derrotas…
Ficamos na torcida.

3 - Cativo

 Ó pai, tanto te agradeço,
dos versos que sou cativo,
pois, sem eles, reconheço…
seria só um morto-vivo!

4 - Realidade

Não somos mais que esboços,
desenhados por outras mãos.
Olhos que veem sem ver.
Fantasmas do passado
assombrando o amanhã.

5 – Tédio

Verão terminando.
A chuva está implacável…
e eu em casa mofando!

6 - Dúvida

Minha vida são muitas reticências
entre vários parênteses.
Às vezes provoca exclamação,
mas de vírgula em vírgula
no final de todo parágrafo
sempre fica uma interrogação…

7 - Vida Lascada

Sigo pela estrada...
um tapete de cascalhos:
– Êta vida lascada!

8 - Destino

(Para o Professor Garcia, Carolina Ramos e A. A. de Assis)

Vou caminhando pela vida sem rumo,
entregue aos ventos do destino,
carrego apenas uma vela,
acesa na fonte do divino.
Qualquer que seja a minha lida,
seguirei mesmo que contra a maré.
Meu coração é a parafina,
e a chama acesa é a minha fé.

9 - Gratidão

Sou grato, todos os dias,
por eu ser um trovador,
transformando fantasias,
em tantos versos de amor.

10 - A Velha Chata
 
Essa é uma história ridícula,
com certeza é puro papo,
que vivia em uma edícula
uma velha... que era um trapo.
 
Sempre estava resmungando,
sobre todos, sobre tudo,
e sua vida, estagnando
em seu modo carrancudo.

Passam horas, passam dias,
se esvaindo as alegrias 
passa o tempo sem cessar.
 
Só esta velha não passa,
chata... parece pirraça,
a todos a azucrinar.

11 - Balança do Tempo

 Nosso tempo é uma balança,
com subidas e descidas,
cujo manto de esperança
acalenta nossas vidas.

12 – NINO

(Ubiratã/PR, 11 julho 2003 – 08 setembro 2021, Maringá/PR)

Lá se foi o meu menino
deixando muita saudade.
Seu nome… era apenas Nino,
mas enorme em lealdade.

Tantos anos o ralhei
por seu miado constante,
contudo jamais pensei
num silêncio angustiante.

Acaba a noite… outro dia
e eu com minha alma a chorar.
Já não há mais alegria

nem porquê comemorar.
Sem miados… a agonia
insiste em me torturar.
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Nascido em São Paulo em 1954, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (Excerto Biográfico por Cailin Dragomir)

Contos e Lendas de Portugal (A Sobrinha do Papa)

Havia um rei e uma rainha que tinham um filho. Quando este era já homem, sonhou com a sobrinha do Papa, que em sonhos, lhe pareceu duma grande formosura. Pediu o príncipe licença aos pais para ir, por mar, a Roma. Seus pais, a muito custo, lhe deram a licença. Chegou o príncipe a Roma, e, apesar de visitar muitas vezes o Papa, nunca lhe viu a sobrinha. Dez meses havia que estava em Roma, foi convidado por um amigo a passar o dia no campo, onde este tinha um bonito palácio. Foi e subiu à varanda do palácio, de onde se admirava um lindíssimo panorama. Em todas as direções havia opulentos palácios, sobressaindo um destes pela sua arquitetura.

- De quem é aquele palácio? - perguntou ao amigo.

- É do Papa: só ali vai duas vezes no ano cumprimentar a sobrinha, uma bela mulher, afastada completamente da nossa sociedade. Todos os dias vai um criado levar a comida para ela e uma aia.

Ouviu o príncipe e fingiu não prestar atenção.

No dia seguinte foi passear até ao palácio da sobrinha do Papa. Viu entrar o criado e sair, fechando-se a porta à saída. Preparou-se no dia seguinte e, quando o criado entrou e deixou a porta aberta, seguiu-o e teve artes de se esconder numa sala. O criado saiu e fechou a porta. À noite apareceu o príncipe à sobrinha do Papa. Quis gritar, mas o príncipe declarou-lhe quem era. Conservou-se no palácio três dias, e voltou novamente, dias depois, muito triste porque recebera de sua mãe uma carta participando a morte do pai e pedindo-lhe que voltasse imediatamente.

Choraram ambos muito e o príncipe à despedida entregou-lhe um precioso anel.

Meses depois viu-se a senhora grávida e combinou com a aia, logo que tivesse a criança, depositá-la nas escadas do palácio, depois do criado ter entrado, para que a encontrasse à descida. E assim sucedeu. Ficou o criado muito admirado de encontrar ali um recém-nascido; pegou-lhe e tornou a subir, indo mostrá-lo à senhora.

Ela beijou muito o menino e tomou-o sob a sua proteção, escrevendo imediatamente ao tio, o Papa, que logo mandou procurar uma ama, que amamentasse o enjeitadinho.

Cresceu o menino; foi posto na escola, mostrando-se muito estudioso. Quando tinha doze anos ouviu aos seus companheiros umas alusões ao facto dele não ter pai.

Nessa tarde esteve com a sua madrinha (a sobrinha do Papa) e perguntou-lhe quem eram o seu pai e a sua mãe. Respondeu a senhora com evasivas, mas ele tanto insistiu que ela lhe contou toda a verdade.

Nessa mesma noite recebeu de sua mãe a benção e dinheiro e preparou-se para visitar o pai que agora era rei. À última hora entregou-lhe a mãe uma carta para ele a entregar ao rei.

Apresentou-se o rapaz no palácio e ofereceu-se como 'criado de servir. O rei era solteiro e gostou muito da presença do novo criado. Uma noite o rei encarregou o criado de levar a certa dama uma carta, com a recomendação de a entregar pessoalmente, e quando ela estivesse só.
Foi o rapaz, subiu as escadas e pediu para falar à senhora.

Mandaram-no entrar numa sala, onde estavam muitas visitas. Ele entrou, e na presença das visitas, entregou a carta dizendo:

- O rei, meu amo, encarregou-me de lhe entregar esta carta. Foi um escândalo monumental, pois falava-se à boca pequena nos amores do rei com aquela senhora. Esta queixou-se ao rei, e seu pai levou-o a assinar sentença de prisão contra o rapaz.

Na ocasião em que o rapaz ia para a prisão e o rei estava à janela com o pai da referida senhora, pediu o rapaz para entregar uma carta ao rei. Era um pedido sagrado pela hora em que era feito.
Levaram a carta ao rei, que a abriu e leu. Dentro da carta vinha o anel que ele oferecera à sobrinha do Papa e dizia esta que o portador era filho de ambos.

O rei fez sinal que suspendessem a execução da sentença, e disse para o pai da senhora:

- Quem quereis que vá preso, o teu sangue ou o meu? Não soube o fidalgo que resposta desse.
Então o rei mandou soltar o rapaz e chamou-lhe filho.

No dia seguinte enviou o rei ao Papa uma carta pedindo-lhe a sobrinha em casamento.

Casaram e houve grandes festas.

Fonte:
história recolhida por Consiglieri Pedroso. in http://www.estudioraposa.com/index.php/category/historias/. Acesso em 03.01.2009

Machado de Assis (O jornal e o livro)


AO SR. MANUEL ANTONIO DE ALMEIDA

O espírito humano, como o heliotrópio, olha sempre de face um sol que o atrai, e para o qual ele caminha sem cessar: — é a perfectibilidade.

A evidência deste princípio, ou antes deste fato, foi claramente demonstrada num livro de ouro, que tornou-se o Evangelho de uma religião. Serei eu, derradeiro dos levitas da nova arca, que me aba­lance a falar sobre tão debatido e profundo assunto?

Seria loucura tentá-lo. De resto, eu manifestei a minha profissão de fé nuns versos singelos, mas não frios de entusiasmo, nascidos de uma discussão. Mas então tratava-se do progresso na sua expres­são genérica. Desta vez limito-me a traçar algumas ideias sobre uma especialidade, um sintoma do adiantamento moral da humanidade.

Sou dos menos inteligentes adeptos da nova crença, mas tenho consciência que dos de mais profunda convicção. Sou filho deste século, em cujas veias ferve o licor da esperança. Minhas tendências, minhas aspirações, são as aspirações e as tendências da mocidade; e a mocidade é o fogo, a confiança, o futuro, o progresso. A nós, guebros modernos do fogo intelectual, na expressão de Lamartine, não importa este ou aquele brado de descrença e desânimo: as sedi­ções só se realizam contra os princípios, nunca contra as variedades.

Não há contradizê-lo. Por qualquer face que se olhe o espírito humano descobre-se a reflexão viva de um sol ignoto. Tem-se reco­nhecido que há homens para quem a evidência das teorias é uma quimera; felizmente temos a evidência dos fatos, diante da qual os São Tomés do século têm de curvar a cabeça.

É a época das regenerações. A Revolução Francesa, o estrondo maior dos tempos europeus, na bela expressão do poeta de Jocelyn, foi o passo da humanidade para entrar neste século. O pórtico era gigantesco, e era necessário um passo de gigante para entrá-lo. Ora, esta explosão do pensamento humano concentrado na rainha da Europa não é um sintoma de progresso? O que era a Revolução Francesa senão a ideia que se fazia república, o espírito humano que tomava a toga democrática pelas mãos do povo mais democrá­tico do mundo? Se o pensamento se fazia liberal é que tomava a sua verdadeira face. A humanidade, antes de tudo, é republicana.

Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão.

Tratemos do jornal, esta alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo, e que o espírito humano, este Arquimedes de todos os séculos, encontrou.

O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?

A humanidade desde os primeiros tempos tem caminhado em busca de um meio de propagar e perpetuar a ideia. Uma pedra convenientemente levantada era o símbolo representativo de um pensamento. A geração que nascia vinha ali contemplar a ideia da geração aniquilada.

Este meio, mais ou menos aperfeiçoado, não preenchia as exigências do pensamento humano. Era uma fórmula estreita, muda, limitada. Não havia outro. Mas as tendências progressivas da humanidade não se acomodavam com os exemplares primitivos dos seus livros de pedra. De perfeição em perfeição nasceu a arte. A arquitetura vinha transformar em preceito, em ordem, o que eram então partos grotescos da fantasia dos povos. O Egito na aurora da arquitetura deu-lhe a solidez e a simplicidade nas formas severas da coluna e da pirâmide. Parece que este povo ilustre queria fazer eterna a ideia no monumento, como o homem na múmia.

O meio, pois, de propagar e perpetuar a ideia era uma arte. Não farei a história dessa arte, que, passando pelo crisol das civilizações antigas, enriquecida pelo gênio da Grécia e de Roma, chegou ao seu apogeu na Idade Média e cristalizou a ideia humana na catedral. A catedral é mais que uma fórmula arquitetônica, é a síntese do espírito e das tendências daquela época. A influência da Igreja sobre os povos lia-se nessas epopeias de pedra; a arte por sua vez acompanhava o tempo e produzia com seus arrojos de águia as obras-primas do santuário.

A catedral é a chave de ouro que fecha a vida de séculos da arquitetura antiga; foi a sua última expressão, o seu derradeiro crepúsculo, mas uma expressão eloquente, mas um crepúsculo palpitante de luz.

Era, porém, preciso um gigante para fazer morrer outro gigante. Que novo parto do engenho humano veio nulificar uma arte que reinara por séculos? Evidentemente era mister uma revolução para apear a realeza de um sistema; mas essa revolução devia ser a expressão de um outro sistema de incontestável legitimidade. Era chegada a imprensa, era chegado o livro.

O que era a imprensa? Era o fogo do céu que um novo Prometeu roubara, e que vinha animar a estátua de longos anos. Era a faísca elétrica da inteligência que vinha unir a raça aniquilada à geração vivente por um meio melhor, indestrutível, móbil, mais eloquente, mais vivo, mais próprio a penetrar arraiais de imortalidade.

O que era o livro? Era a fórmula da nova ideia, do novo sistema. O edifício, manifestando uma ideia, não passava de uma coisa local, estreita. O vivo procurava-o para ler a ideia do morto; o livro, pelo contrário, vem trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada. O progresso aqui é evidente.

A revolução foi completa. O universo sentiu um imenso abalo pelo impulso de uma dupla causa: uma ideia que caía e outra que se levantava. Com a onipotência das grandes invenções, a imprensa atraía todas as vistas e todas as inteligências convergiam para ela. Era um crepúsculo que unia a aurora e o ocaso de dois grandes sóis. Mas a aurora é a mocidade, a seiva, a esperança; devia ofuscar o sol que descambava. É o que temia aquele arcediago da catedral parisiense, tão bem delineado pelo poeta das Contemplações.

Com efeito! a imprensa era mais que uma descoberta maravilhosa, era uma redenção. A humanidade galgava assim o Himalaia dos séculos, e via na ideia que alvorecia uma arca poderosa e mais capaz de conter o pensamento humano.

A imprensa devorou, pois, a arquitetura. Era o leão devorando o sol, como na epopeia do nosso Homero.

Não procurarei historiar o desenvolvimento desta arte-rei, desenvolvimento asselado em cada época por um progresso. Sabe-se a que ponto esta aperfeiçoada, e não se pode calcular a que ponto chegará ainda.

Mas restabeleçamos a questão. A humanidade perdia a arquitetura, mas ganhava a imprensa; perdia o edifício, mas ganhava o livro. O livro era um progresso; preenchia as condições do pensamento humano? Decerto; mas faltava ainda alguma coisa; não era ainda a tribuna comum, aberta à família universal, aparecendo sempre com o sol e sendo como ele o centro de um sistema planetário. A forma que correspondia a estas necessidades, a mesa popular para a distribuição do pão eucarístico da publicidade, é propriedade do espírito moderno: é o jornal.

O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.

O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo literário, do mundo econômico e do mundo social.

Quem poderá marcar todas as consequências desta revolução?

Completa-se a emancipação da inteligência e começa a dos povos. O direito da força, o direito da autoridade bastarda consubstanciada nas individualidades dinásticas vai cair. Os reis já não têm púrpura, envolvem-se nas constituições. As constituições são os tratados de paz celebrados entre a potência popular e a potência monárquica.

Não é uma aurora de felicidade que se entreabre no horizonte? A ideia de Deus encarnada há séculos na humanidade apareceu enfim à luz. Os que receavam um aborto podem erguer a fronte desassombrada: concluiu-se o pacto maravilhoso.

Ao século XIX cabe sem dúvida a glória de ter aperfeiçoado e desenvolvido esta grandiosa epopeia da vida íntima dos povos, sempre palpitante de ideias. É uma produção toda sua. Depois das ideias que emiti em ligeiros traços é tempo de desenvolver a questão proposta: — O livro absorverá o jornal? o jornal devorará o livro?

II

A lei eterna, a faculdade radical do espírito humano, é o movimento. Quanto maior for esse movimento mais ele preenche o seu fim, mais se aproxima desses polos dourados que ele busca há séculos. O livro é um sintoma de movimento? Decerto. Mas estará esse movimento no grau do movimento da imprensa-jornal? Repugno afirmá-lo.

O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicitário contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a ideia de, um homem, mas a ideia popular, esta fração da ideia humana.

O livro não está decerto nestas condições; — há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é — movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.

Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.

Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.

O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.

As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior.

Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da ideia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibili­dade de aniquilamento do livro em face do jornal. Mas estará bem definida a superioridade do jornal?

Disse acima que o jornal era a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo social, do mundo literário e do mundo econômico. Do mundo literário parece-me ter demonstrado as vantagens que não existem no livro. Do mundo social já o disse. Uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela inteligência. Ora, isto não é evidentemente um progresso?

Quanto ao mundo econômico, não é menos fácil de demonstrar. Este século é, como dizem, o século do dinheiro e da indústria. Tendências mais ou menos ideais clamam em belos hexâmetros contra as aspirações de uma parte da sociedade e parecem prescrever os princípios da economia social. Eu mesmo manifestei algumas ideias muito metafísicas e vaporosas em um artigo publicado há tempos.

Mas, pondo de parte a arte plástica dessas produções contra o século, acha-se no fundo pouco razoáveis. A indústria e o comércio não são simples fórmulas de uma classe; são os elos que prendem as nações, isto é, que unem a humanidade para o cumprimento de sua missão. São a fonte da riqueza dos povos, e predispõem mais ou menos sua importância política no equilíbrio político da humanidade.

O comércio estabelece a troca do gênero pelo dinheiro. Ora, o dinheiro é um resultado da civilização, uma aristocracia, não bastarda, mas legitimada pelo trabalho ou pelo suor vazado nas lucubrações industriais. O sistema primitivo da indústria colocava o homem na alternativa de adquirir uma fazenda para operar a compra de outra, ou o entregava às intempéries do tempo se ele pretendia especular com as suas produções agrícolas. O novo sistema estabelece um valor, estabelece a moeda, e para adquiri-la o homem só tem necessidade de seu braço.

O crédito assenta a sua base sobre esta engenhosa produção do espírito humano. Ora, indústria manufatora ou indústria-crédito, o século conta a indústria como uma das suas grandes potências: tirai-a aos Estados Unidos e vereis desmoronar-se o colosso do norte.

O que é o crédito? A ideia econômica consubstanciada numa fórmula altamente industrial. E o que é a ideia econômica senão uma face, uma transformação da ideia humana? É parte da humanidade; aniquilai-a, — ela deixa de ser um todo.

O jornal, operando uma lenta revolução no globo, desenvolve esta indústria monetária, que é a confiança, a riqueza e os melhoramentos. O crédito tem também a sua parte no jornalismo, onde se discutem todas as questões, todos os problemas da época, debaixo da ação da ideia sempre nova, sempre palpitante. O desenvolvi­mento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo, porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande monetização da ideia, como diz um escritor moderno.

Ora, parece claro que, se este grande molde do pensamento cor­responde à ideia econômica como à ideia social e literária, — é a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano.

É ou não claro o que acabo de apresentar? Parece-me que sim. O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras; por­que ele diz ao talento: "Trabalha! vive pela ideia e cumpres a lei da criação!" Seria melhor a existência parasita dos tempos passados, em que a consciência sangrava quando o talento comprava uma refeição por um soneto?

Não! graças a Deus! Esse mau uso caiu com o dogma junto do absolutismo. O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização. Tudo se liberta; só o talento ficaria servo?

Não faltará quem lance o nome de utopista. O que acabo, porém, de dizer me parece racional. Mas não confundam a minha ideia. Admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo. Destruída a arquitetura, quem evita que à fundação dos monumentos modernos presida este ou aquele axioma d'arte, e que esta ou aquela ordem trace e levante a coluna, o capitel ou zimbório? Mas o que é real é que a arqui­tetura não é hoje uma arte influente, e que do clarão com que inun­dava os tempos e os povos caiu num crepúsculo perpétuo.

Não é um capricho de imaginação, não é uma aberração do espírito, que faz levantar este grito de regeneração humana. São as circunstâncias, são as tendências dos povos, são os horizontes rasgados neste céu de séculos, que implantam pela inspiração esta verdade no espírito. É a profecia dos fatos.

Quem enxergasse na minha ideia uma idolatria pelo jornal teria concebido uma convicção parva. Se argumento assim, se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade. Desaparecendo as fronteiras sociais, a humanidade realiza o derradeiro passo, para entrar o pórtico da felicidade, essa terra de promissão.

Tanto melhor! este desenvolvimento da imprensa-jornal é um sintoma, é uma aurora dessa época de ouro. O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição; e o titã popular, sacudindo por toda a parte os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o manto dos dogmas no­vos. É a luz de uma aurora fecunda que se derrama pelo horizonte. Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer, — eis a obra das civilizações modernas.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, 1994. Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1859. Disponível em Domínio Público.