quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 213 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Canto Alcaico* de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Tempo

Corre o riacho de um modo constante,
leva este tempo que não volta mais,
deixa o cansaço no rosto ausente,
dores colhidas nos meus temporais.
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* É uma das formas nobres da poesia lírica, frequentemente usada para temas graves, filosóficos, patrióticos ou de exaltação.
O Canto Alcaico é composto de uma estrofe alcaica, que é uma estrutura poética tradicional de quatro versos (um quarteto), originária da Grécia Antiga. Criada pelo poeta lírico Alceu de Mitilene (contemporâneo de Safo) e, mais tarde, adaptada e imortalizada em latim pelo poeta romano Horácio. Na antiguidade, não usava rimas, mas sim a alternância de sílabas longas e breves (métrica quantitativa). A estrofe alcaica era composta por Decassílabos alcaicos (11 sílabas métricas na contagem clássica) no 1. e 2. versos. Eneassílabo alcaico (9 sílabas métricas) no 3. verso. Decassílabo dactílico (10 sílabas métricas) no 4. verso.
Como o português não diferencia sílabas longas e breves, os poetas modernos adaptaram a estrofe alcaica usando a acentuação tônica (ritmo). Na nossa literatura, esta estrofe se caracteriza por quatro versos (quarteto) sáficos (10 sílabas métricas); ritmo musical fixo, geralmente imitando a queda melódica do poema clássico; pode ou não conter rimas (embora os modernistas e parnasianos às vezes adicionassem rimas como o padrão ABAB ou AABB para dar sonoridade moderna).
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO 
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997

Poema épico

O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.

A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.

O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufelho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas;
- Eu já venho!

O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!

Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Quem, na solidão do ninho,
não faz de um ninho, prisão,
liberta esse passarinho
que habita em seu coração.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto a Catullo da Paixão Cearense – In Memoriam

Faz-me lembrar o tempo de menino,
no lar paterno, lá na velha aldeia,
com minha mãe, irmãos e irmãs, na ceia,
de noitezinha, ao bimbalhar do sino...

Depois, eu contemplava a lua cheia
e perguntava aos céus: qual meu destino,
neste mundo que roda e cambaleia,
com momentos de luz e desatino?!...

E ouvia a minha voz na voz do vento,
dizendo que eu tivesse paciência,
estudasse, aprendesse e na paixão

de adquirir maior conhecimento,
ingressasse no reino da sapiência...
Como era lindo o Luar do Sertão !…
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Trova de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Criado por Deus, o rio 
nasce limpo e, como nós, 
traz consigo o desafio 
de limpo chegar à foz. 
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Soneto de
ANTÓNIO BOTTO
Concavada/Abrantes/Portugal (1897 – 1959) Rio de Janeiro/RJ

Soneto

É difícil na vida achar alguém 
Que seja na verdade um grande amigo, 
E se assim penso – e com tristeza o digo, 
É porque o sei, talvez, como ninguém. 

Se a amizade é um bem – e se esse bem 
Traz o conforto de um divino abrigo, 
Por mim, direi, que nunca mais consigo 
Iludir-me nas graças que ele tem. 

Afectos, sacrifícios, lealdade!, 
Tudo se apaga ou fica na memória 
Se a ilusão dá lugar à realidade. 

E ai daqueles que pensam na excepção: 
Acabam por ficar dentro da história 
De que a vida é um sonho e uma traição.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Preso ao tronco, em ais tristonhos,
geme o negro, sem alarde...
- para quem não tem mais sonhos,
a alforria chegou tarde...
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Poema de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

 Fracasso 

Sem nada ter, vazio, sigo a carregar,
pesado, este cansaço...

Neste ponto do caminho, tenho que reconhecer
o meu fracasso:
que a Vida me perdoe...

Minha solidão cresceu entre dois trágicos amores:
um, cedo demais, que esfarinhei nos dedos,
outro, tarde demais, que me pisou...
e se foi…
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Trova de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.
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Soneto de
JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Desesperança

Eu conservo comigo, desde criança,
E trago no meu rosto sorridente,
A crença conformada da confiança
Que carrego na vida para frente.

Meu pai deu-me um sorriso por herança,
E eu fui, como o bom filho obediente,
Seguindo ruas, conhecendo gente,
Cheio de ingenuidade e de esperança!

Deixei abraços, saudações e avisos,
E em vez de deparar rostos serenos
Só encontrei olhares indecisos.

Não recebi de volta os meus sorrisos,
E nem os meus abraços: nem ao menos
Alguém retribuiu os meus acenos...
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Quadra Popular de
MINAS GERAIS

Bate, bate, coração,
quando não puder, descansa.
O alívio de quem ama,
é viver na esperança.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Prefácio prometido

Só por te amar “prefácio” quis fazer
e dei-te a rédea, pura, disse tudo,
soltei a corda, pude ter prazer,
paixão secreta? Incerta para o mundo.

No entardecer perfeito, meu querer,
por parecer um rio manso e surdo,
pude escrever, sem medo, por vencer,
barreira triste, quebrei...deixei mudo.

Fiz a promessa, juro quero ler,
sua “boneca” e então poder saber
completo, qual será o final? Romance...

Aguardarei os textos por correio
ou simplesmente mande-os via email:
- Não posso perder, chance ao meu alcance.
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Trova de
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Porto Alegre/RS

Brancos, negros e amarelos,
se a causa é justa e loquaz,
juntam braços, que são elos
forjando as cores da Paz!
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

Uma impressão de D. Juan

Gastei no amor vinte anos — os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, em galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.

Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os...
Li, folha a folha, o livro dos amores.

Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!

E nada sei do amor... Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
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Trova de
PAULO EMÍLIO PINTO 
Conselheiro Lafaiete (1906 – ????) Belo Horizonte/MG
 
A amizade mais o amor
cultivar bem que eu tentei.
Mas quanta praga, Senhor,
deu nos jardins que plantei!
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN
Lisboa/Portugal (1919 – 2004) Porto/Portugal

Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
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Trova de
MARA MELINNI
Caicó/RN

A identidade que encobre
cada não e cada sim,
vem da verdade mais nobre
que eu trago dentro de mim…!
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Girassol

Florir no descampado ou no úmido recanto
De alguma ruína, ou mesmo em áspero alcantil,
É um orgulho que tem o redourado helianto
Dês que da terra emerge a plúmula eretil.

Quando ele desabrocha entre os glastos e o acanto,
Entre os mil tinhorões e as passifloras mil,
Tem-se à conta de um sol, nascido por encanto
Ao topo senhorial do tormentoso hastil.

É de vê-lo medir a força e o valimento,
Do orgulho vegetal, do seu orgulho em prol,
Ante o rival senhor de terra e firmamento!

É de vê-lo, tenaz, de arrebol a arrebol,
Do grande astro seguindo o régio movimento,
O áureo disco volver para encarar o sol!
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Poetrix de
ELIANA MORA 
Juiz de Fora/MG

Agenda cheia

Marquei encontro comigo.
E [como sempre]
não fui.
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Soneto de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

Quem diria

Quem diria, meu Deus, oh quem diria
Que chegássemos a idade que chegamos
Ouvindo o eco do SIM que aquele dia
Há cinquenta anos nervosos pronunciamos.

Éramos dois, então, que se amavam
Há quanto tempo não sei eu, você ignora
Se nossas almas já antes se cruzavam
Ou se talvez o nosso amor nasceu agora.

O que eu sei, querida, é que esse amor é grande
Que junto a ti eu vivo onde quer que eu ande
Seja na terra, no mar ou nos espaços.

Meio século faz que juntos palmilhamos
Vivendo o mesmo amor que na paixão juramos.
Entre brigas de amor, beijos e abraços.
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Trova de
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizonte/MG

Gente que escolhe sem tino
as propostas da existência,
quando erra, culpa o destino
pela própria incompetência.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema-orelha

Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém, na estação. E o trem
passa sem parar.
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Poema de
BETE RAMOS
Campinas/SP

Não sei explicar esta dor...
Dor do fracasso, da ausência, 
da solidão, da ingratidão...
Dor da saudade, e por que não?!

Meu peito se aperta, dilacerado...
Uma voz presa na garganta,
um grito silencioso que deságua em lágrimas.

Sozinha no meu quarto escuro, em agonia,
sem ninguém para me ouvir
e enxugar o meu pranto.
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Mensagem na Garrafa 208 = A Porta

Imagem: IA Microsoft Bing

Yak Baba estava procurando o País dos Tolos. Depois de muitos meses perguntando a quantos 
transeuntes aparecem em seu caminho, alguém soube indicar-lhe a estrada e por ela ele seguiu. 

Ao entrar no País dos Tolos viu uma mulher carregando uma porta sobre as costas:

- Por que fazes isto, mulher? - perguntou.

- Porque hoje de manhã meu esposo, antes de ir para o trabalho, disse que havia deixado coisas valiosas em casa e que eu não deixasse passar ninguém pela porta. Por isso estou carregando a porta comigo; assim, ninguém pode passar.

– Quer que eu lhe diga algo que tornará desnecessário levar esta porta a toda parte? - perguntou o dervixe Yak Baba.

– De jeito nenhum - disse a mulher. - Só quero que me diga como fazer para que a porta não pese tanto...

- Isto não posso - disse o dervixe. 

E cada qual seguiu seu caminho.
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O conto acima mostra que tentar aliviar o peso de um erro ou de uma obrigação mal compreendida é inútil. O verdadeiro problema não é o esforço físico que a ignorância exige, mas a falta de entendimento que impede a pessoa de aceitar uma solução real e abandonar sua tolice. Querer facilidade para um erro absurdo é pior do que corrigir o erro em si.

(Do Mestre Sufi Murad Shami, falecido em 1719)

Aparecido Raimundo de Souza (Havia um sol naquele céu... )


HAVIA UM SOL, naquele céu, meu Deus! Era um sol bonito, diferente, grandioso, mavioso, aconchegante, e trazia em sua pele macia algo desvairado e excepcional de todos os outros. Não era um sol agressivo do meio-dia à pino que queimava a nuca e fazia a gente correr para a sombra mais próxima, mas aquele sol, uau!... 

Ele se mostrava dourado, e aos finais de todas as tardes, derramava sobre toda a extensão do terreiro uma incandescência inebriante, como se alguém tivesse virado, tipo um balde de mel sobre o meu mundinho que não ia além do portão de madeira que separava a rua e as demais residências da nossa. 

E o mais importante: ele não cegava. Acariciava. Pairava sobre as folhas da mangueira nos fundos do quintal, brilhava soberbo como se fosse de papel laminado, a parede de barro da casa do meu avô João Raymundo ganhava um tom indescritível, e até o pó que levantava, quando o vento passava, parecia flutuar e o fazia leve, ensejando no ar uma mesura incandescente que se estendia e se alongava além de meus olhos ávidos de garoto sapeca. Eu tinha, nessa época, onze anos. Nesses dias do sol sempre bonito, eu teimava em usar uma camiseta que ficava grande em mim. 

Viera herdada de tio José, (irmão de meu avô) e houve um dia especial, em que eu devorava uma manga que vovô tinha colhido minutos antes. O suco da fruta doce escorria pelo meu pulso até secar nos espaços do cotovelo, deixando uma marca engraçada tipo assim, uma coisa meio grudenta. Vovô João Raymundo estava sentado na cadeira de madeira perto da porta da cozinha, consertando uma rede que tinha se rasgado na semana anterior quando ele saíra para pescar com alguns vizinhos. Seus dedos grossos e cheios de calos passando a agulha de ponta fina entre os fios de náilon se acomodavam com uma delicadeza que eu nunca tinha visto em ninguém. O radinho de pilha, encostado nos pés do fogão de lenha, tocava Milionário e José Rico, a voz do Milionário parecia vir de muito longe, misturada ao canto de um bando de passarinhos que pousavam nos galhos mais alto do vergel que se perdia para as bandas do Rio.

— Esse sol é dos bons — ele dizia sem parar de costurar, sem levantar os olhos da rede. Deixa a gente lembrar dos dias que ainda vão chegar, e dos que já se foram para bem longe no distante longínquo que agora se divorcia diante de nossas vistas.

Nesse tempo, eu não entendia nada do que ele falava. Só queria acabar de chupar a manga para correr atrás dos meus brinquedos e do Carnaval, um gato com o semblante de animal pesaroso que dormia no telhado onde ficava o poço de água, para jogar o caroço no mato ou qualquer outra coisa desusada para ver se acertava um formigueiro que florescia a olhos vistos. Mas guardei essa frase de meu avô, escondi bem escondidinho dentro de um lugar secreto que guardei a sete chaves numa das gavetas de um criado mudo, uma correntinha de ouro com a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que certo dia encontrei na beira da barranca do rio, deixada, talvez por alguém (uma menina) que viera de fora para tomar banho. 

Vovô João Raymundo dizia que o meu achado não servia para nada, mas o "trocinho" tinha peso, tinha textura, tinha um brilho que fazia a gente não querer jogar fora. Era, a meu entendimento de moleque, o brilho inquestionável da Santa que viera de roldão. O sol com o passar das horas, ia baixando devagar, como quem procura se esconder, como quem não quer incomodar. Ele pintava o céu de rosa claro no alto, de laranja queimada perto da linha do horizonte, e as sombras do quintal, aos bocados poucos iam se esticando, ficando compridas e finas, até, que a mangueira alta e imponente chegasse quase à porta rangente da cozinha. 


Meu avô parou de costurar, limpou as mãos na calça jeans surrada e me chamou para eu me aninhar ao seu lado. Eu subi correndo, e embora afastado a poucos metros, senti o cheiro de seu fumo de corda e também o sabor do café com leite e os pães quentinhos que ele sempre tinha ao alcance da minha fome. Esses pães, era a vovó Martinha que fazia com carinho e esmerado cuidado. Vovô, a certa altura, me apontou com o dedo para um pontinho branco e fraco que já aparecia meio assustado no céu ainda azul, do lado onde o sol sempre escolhia para desaparecer de vez e sumir do mapa. E falava, num tom engraçado que não demonstrava tristeza:

— Quando eu não estiver mais aqui — ele argumentava quase em um sussurro, como se estivesse contando um segredo muito importante só para o ar ouvir — quando eu não estiver mais aqui, você se sentará no lugar onde estou agora e olhará demoradamente para esse sol mole, tranquilo, calmo e dourado, que deixa tudo bonito ao redor, sem fazer esforço algum. E eu estou e estarei sempre aqui também, lembra sempre disso.  Estarei do mesmo modo, moldado na sua imaginação. Me farei vivo e pulsante no calor que bate na sua nuca e se agiganta abarcante na sua testa. Não se esqueça jamais das palavras de seu velho avô, também estarei na luz que entra pela janela do seu quarto, no jeito que esse mesmo sol faz as frutas ficarem mais doces como a manga que acabou de devorar. Ei, venha cá. Não precisa chorar. É só olhar para o seu velho avô e me escutar...

Nessas horas eu me encolhia em seu colo, me estreitava chupando o polegar esquerdo, atarracado em seu peito, sem entender direito o que ele queria dizer, mas dentro de mim, sentia um aperto incomum que não era fome, nem medo, nem de nada que eu conhecesse até então. 

O sol se pôs finalmente, se transformou em um clarão vermelho que durou alguns segundos e a noite lenta, meio que capengando, veio devagar, chegou trazendo o cheiro de jasmim que a minha vó Martinha tinha plantado num vaso enorme perto da varanda que acessava a porta da sala. Hoje, “trocentos” anos depois, vovô João não está mais por aqui. Nem a vó Martinha. 

A casa onde passei boa parte da minha infância, foi vendida. A mangueira foi cortada para alargar a plenitude do quintal, a rua foi asfaltada, virou avenida, a rede que meu avô consertou, rasgou de vez e foi jogada fora, num lixão enorme que a comunidade fundou para dispensar coisas que não se usam mais.  Entretanto, sempre que posso, venho aqui, lembranças trazidas pelo tempo que não me deixam. No meio da rua onde ficava a calçada e o portão de acesso a casa, vejo claramente um sol bonito naquele céu outrora dourado, naquele céu calmo, que segue silencioso, sem pedir nada a ninguém. Um sol hoje de aparência triste e melancólica, obscurecido por alguma dor não revelada, um sol que não quer nada, a não ser iluminar e me fazer voltar ao passado distanciado que se foi sem ao menos dizer tchau.  

Fecho os olhos por um breve instante e viajo. Sinto, de novo, o suco de manga no pulso. Ouço Milionário e José Rico cantando no radinho de pilha imaginário, e também a mão calosa de meu avô João Raymundo passando levemente os dedos trêmulos sobre meus cabelos. E do nada, do nada, o cheiro dos pães de vovó Martinha, como ainda o sabor do seu café com leite feito na hora, uma bebida quentinha e com gosto temperado de uma imensa saudade que se perpetuou. Aos setenta e três anos, entendo que as pessoas se vão. Partem. As casas mudam de donos. Os quintais que antes alimentavam lembranças desaparecem, viram asfalto, se transformam em lojas e armazéns, enfim, viram um amontoado de nada. 

Todavia, acreditem, dentro de mim, aqui em meu peito envelhecido pela idade, aquele sol do meu tempo de menino de onze anos não se põem nunca. Não se esconde. Ele fica guardado dentro de meu “eu”. Se faz pequeno e quente, como aquela correntinha com a medalha de Nossa Senhora Aparecida que um dia achei por acaso. Ainda trago comigo, como um amuleto de um dia bonito que se foi.  Se eu pudesse entrar na casa que não está mais em pé, se pudesse ao menos correr pelo corredor comprido, e se me fosse possível abrir a janela do que um dia foi meu quarto, eu me encantaria, voltaria no tempo. 

Regressaria aos meus onze anos, reviveria o velho avô, minha avó, o Carnaval, e todo o meu ser se perpetuaria naqueles tempos de ontem, ou dito de forma mais abrangente, se emoldaria naquelas outroras que se desmantelaram, que se decompuseram... mas eu sempre levarei comigo, a certeza perene de que lá em cima havia um sol. Decerto havia um sol naquele céu. Morrerei dizendo isso, afirmando categoricamente aos meus filhos e netos.  Cá entre nós, a vocês, caros leitores, que me leem agora: havia, de fato, naquele céu, igualmente em meu infinito que nunca se cobrirá de nuvens negras, nem desaparecerá definitivamente dos meus olhos: havia um sol naquele céu que em tempo algum deixou ou deixará de aparecer, nem que seja só para meu próprio encantamento perene e inextinguível.
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Aparecido Raimundo de Souza (73), é jornalista, paranaense radicado em Vila Velha/ES. Resumo Biográfico do autor , clique AQUI.

(Texto enviado pelo autor)

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 8: Guerra e (Paz?)


No mundo, em que há injustiça,
que o ser humano propaga,
empatia é uma premissa
para viver nova saga.
José Feldman – PR

Na antinomia entre guerra e paz parece que o primeiro termo sobreleva-se extraordinariamente! Infelizmente! O mundo nunca teve um dia de paz, A história da humanidade é a história das guerras. Não conheço nenhum livro dedicado à paz, mas inúmeros dedicados à guerra. Talvez porque a paz seja um estado natural, normal, enquanto a guerra é um fato provocada pela estupidez do homem. Apesar disso, a paz é um ideal a ser buscado, mesmo que ela se nos apresente como uma utopia!

Sem os horrores da guerra,
feliz o mundo seria.
É pena que Paz na Terra
ainda seja utopia.
João Costa - RJ

Trovadores - renitentes -
tenhamos este ideal:
- Fazer das trovas sementes
para a Paz universal!
Alberto Fernando Bastos - RJ

O que eu mais quero na vida
é a paz remando na Terra,
mas não a paz confundida
com mera ausência de guerra...
Newton Vieira - MG

O bom senso é que lhes faz
o apelo nobre e profundo;
- Um beijo branco de paz
na face rubra do mundo!
Batista Soares - CE

A paz que tanto se exorta
há de encontrar o seu clima;
o mundo já não comporta
novas versões de Híroshima!
José Overney - SP

Num tempo em que tanta guerra
enche o mundo de terror,
benditos os que, na Terra,
semeiam versos de amor!
A. A. de Assis - PR

No passado e no presente,
pelo mal que sempre fez,
é a guerra - infinitamente -
a suprema insensatez!
Waldir Neves - RJ

Por trás das guerras estão quase sempre os interesses econômicos, principalmente o dos interessados em vender armas. A indústria de armamento é um dos setores mais poderosos e ricos do mundo, graças à miséria das guerras, espontâneas ou incentivadas.

Se os povos querem que a paz
reine sempre em toda a terra,
por que é que cada vez mais
fabricam armas de guerra?
Roosevelt da Silveira - ES

Faz vergonha nesta terra
ver gente brigar por óleo
e nações fazerem guerra
por um barril de petróleo.
Rodrigues Neto - RN

O que mais nefasto existe,
em qualquer parte da Terra,
é o quadro horrível e triste
da violência da guerra.
Reinaldo Moreira de Aguiar - RN

Sinto que a vida na terra,
com a guerra se desfaz!
Só se faz arma de guerra,
com a terra pedindo paz!
Prof. Garcia - RN

Por razões, às vezes fúteis,
corre o sangue numa guerra.
Eis as sangrias inúteis
que envergonham nossa terra.
Miguel Russowsky - SC

Algumas vezes tem-se o cinismo de fazer guerra em nome da paz, fato que devemos denunciar com veemência.

Um grito de pacifismo
há de ecoar sobre a terra,
denunciando o cinismo
de quem, pela paz, faz guerra!
Gonzaga da Silva - RN

Esta violência me aterra,
este cinismo é demais:
- Dizer-se que se faz guerra
em benefício da Paz!
Luiz Rabelo - RN

Quem meditar por instantes
certos conceitos refaz:
o mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!
Ederson Cardoso de Lima - RJ

Os homens maus desta terra
de forma vil e falaz,
promovem, no mundo, a guerra,
em nome da própria paz!
Ademar Macedo - RN

Irônica hipocrisia
dos poderosos da terra:
com promessas de harmonia
pregam paz e fazem guerra.
Wanda de Paula Mourthé - MG

A triste realidade é que a guerra segue assolando a humanidade. O trovador a denuncia, mas quando será ouvida a sua voz?

Nesta mensagem se encerra
o que o mundo sempre faz:
- acata as ordens da guerra,
nega as mensagens de paz.
Luiz Carlos Abrita - MG

É o desvario do mundo
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!
João Freire Filho - RJ

Quando há morte programada
pelos quadrantes da terra,
homens que não valem nada
sentem paz plantando guerra.
Nilton Manoel Teixeira - SP

Com ódio, o homem na Terra,
a tudo faz e desfaz…
Que bom, se ao invés de guerra,
pensasse apenas na Paz!
Nilci da Silva Guimarães - MG

Vive o mundo em que vivemos
gemendo, pedindo paz,
mas a resposta que temos
mais sofrimento nos traz.
Angélica Villela Santos - SP

O mundo está mergulhado
num cauda! de violência,
oprimido, fustigado,
pelo furor das potências.
Aristeu Bulhões - SP

A paz seria o roteiro,
o caminho natural
para unir o mundo inteiro
num abraço universal!
Aristeu Bulhões - SP

Infelizmente, a paz tão desejada ainda permanece uma utopia. Só nos resta continuarmos a lutar por ela, com os recursos de que dispomos, a nossa sensibilidade de poeta. O nosso anseio pela paz é tão intenso e legítimo que muitas vezes ela se transforma em sonho e fantasia.

A Paz - bandeira alvadia
que pelo espaço se embala,
tanta guerra concilia
que a violência se cala.
Sebastião Soares - RN

Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!
José Lucas de Barros - RN

Minha luta se agiganta,
pois vivo pregando a paz,
cantando-a por quem não canta,
fazendo-a por quem não faz.
Rodrigues Neto - RN

A paz, virtude fugaz,
que todos querem buscá-la,
só com atitude audaz
poderemos alcançá-la!
Gonzaga da Silva - RN

Mas a guerra, além da devastação e do sofrimento em geral, tem um triste e mais doloroso aspecto, o das famílias que veem seus filhos partirem para a guerra e são mortos nas batalhas.

Beija a mãe, filho querido
convocado para a guerra!
Não há um adeus mais doído
em toda a face da terra!...
Hélio Azevedo de Castro - PR

Morreu na guerra. Que brilho!
Tem mais um herói a história.
E a mãe, chorando o seu filho,
amaldiçoa essa glória.
Lilinha Fernandes - RJ

Da guerra, entre os seus horrores,
não há glória que compense,
para os Pracinhas, as dores
de quem perde ou de quem vence!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

E finalmente, nunca é demais enfatizar:

Pela guerra não há glória:
- Perder, vencer, tanto faz!
- A verdadeira vitória,
só se alcança pela paz!
Orlando Woczikosky - PR
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Luiz Gonzaga da Silva é médico, de Natal/RN. Resumo biográfico, clique AQUI.

(Luiz Gonzaga da Silva [org.]. Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor. )