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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Irmãos Grimm (Os meninos de ouro)


Havia, certa vez, um homem e uma mulher muito pobres, que nada possuíam além de uma choupana e apenas se alimentavam com o que ele pescava. 

Um dia, ao tirar a rede da água, o pescador encontrou um peixe todo de ouro. Enquanto o olhava, o peixe, para maior surpresa sua, começou a falar:

- Escuta, pescador! Se me devolveres à água, transformarei tua choupana num palácio maravilhoso.

- Que  me adianta um palácio - respondeu-lhe o homem - se nada tenho para comer?

E o peixe tornou a falar:

- Tratarei disso, também. No palácio haverá um armário e, sempre que o abrires, estará cheio de pratos com manjares deliciosos, tantos quantos desejares.

- Se assim for - disse o  homem - poderei atender teu pedido.

- Bem - continuou o peixe - mas há uma condição. A ninguém neste mundo, seja quem for, poderás  contar de onde veio a fortuna. Se disseres uma só palavra, tudo  desaparecerá.

O homem atirou o peixe maravilhoso na água e voltou para casa. E eis que, onde antes se erguia sua choupana, havia agora, um grande  palácio. 

O pescador arregalou os olhos de espanto, e, ao entrar, viu sua mulher toda enfeitada, com vestido novo, sentada num salão magnífico! Ela indagou, radiante:

- Como aconteceu isso, marido? Confesso que tudo me agrada muitíssimo.

- Sim - respondeu-lhe o homem - e a mim também; mas estou com fome. Dá-me algo para comer.

- Nada tenho - afirmou ela - e nada consigo encontrar na nova casa.

- Que isso não seja empecilho! - exclamou o homem. - Vejo ali um armário grande . Abre-o.

Ela abriu o móvel e apareceram bolo, carne, frutas e vinho; tudo tão apetitoso que era um gosto ver.

- Coração, que mais podes desejar? - exclamou, alegremente, a mulher.

Sentaram-se e comeram e beberam à vontade. depois de satisfeitos, ela indagou:

- Mas de onde vem toda essa fartura, marido?

- Não me perguntes - respondeu ele. – Não posso dizer-te. Se eu te disser, nós perderemos tudo.

- Bem - concordou a mulher. - Se não devo saber, não insisto.

Mas só dizia isso da boca para fora; daí por diante tanto insistiu e incomodou o marido que este, perdendo a paciência, acabou revelando que tudo aquilo lhes vinha de um peixe de ouro, prodigioso, que ele tinha pescado e ao qual devolvera a liberdade.

Mal terminou de pronunciar as últimas palavras, o belo palácio, com seu armário e tudo o mais, desapareceu e os dois se viram, novamente, na velha choupana de pescadores.

O homem não teve outro remédio senão prosseguir na sua profissão, a pesca. mas a sorte não o abandonava e ele tornou a apanhar o peixe de ouro.

- Escuta! - disse este. - Se me jogares outra vez à água, eu te devolvo o palácio com o armário cheio de assados e cozidos; mas deves ficar firme e não revelar de que modo isso aconteceu; caso contrário, perderás tudo.

- Terei toda a cautela! - prometeu o pescador e jogou o peixe à água.

Quando chegou em casa, encontrou tudo, de novo, em grande esplendor, e sua  mulher encantada com a sorte. Mas a curiosidade não a deixava sossegada e, passados alguns dias, já estava ela indagando, outra vez, como acontecera aquilo e a quem deviam aquela felicidade. 

Por algum tempo o homem manteve firme, mas, por fim, exasperado com a insistência da mulher, não se conteve e revelou o segredo.

No mesmo instante o palácio, desapareceu e ambos se viram, novamente, dentro da velha choupana.

- Estás vendo?! - gritou o homem.- Agora tornaremos a passar fome!

- Ora exclamou a mulher. - Prefiro não ter riquezas se não posso saber de onde vem elas!

O homem voltou à pesca e, passado algum tempo, o destino assim havia disposto, apanhou o peixe de ouro pela terceira vez.

- Escuta aqui! - falou o peixe.- Vejo que hei de cair sempre em tuas mãos. Leva-me para tua casa e corta-me em seis pedaços. Dois deles darás à tua esposa para comer; outros dois a teu cavalo e os restantes dois, enterrarás no quintal. de todos eles hás de conseguir coisas que nem imaginas!

O homem levou o peixe para casa e fez como lhe havia ordenado. pouco depois aconteceu que, dos dois pedaços plantados no quintal, brotaram dois lírios de ouro; a égua teve dois potrinhos de ouro e a mulher deu à luz dois meninos, também de ouro.

As crianças cresceram, tornando-se uns belos rapazes e, como eles os lírios e potros também se desenvolveram. Certo dia os dois jovens disseram:

- Pai, vamos montar nossos cavalos de ouro e sair a correr mundo.

O pescador ficou muito triste e lhes respondeu:

- Que será de mim se forem embora e eu ficar sem notícias de vocês?

- Os dois lírios de ouro ficarão aqui- disseram os rapazes. - Por meio deles saberás como passamos; enquanto estiverem viçosos, estaremos gozando de boa saúde; se murcharem, é que estamos doentes e, se caírem do galho , é sinal de que morremos.

Puseram-se a caminho e chegaram a uma hospedaria cheia de gente. Quando viram os jovens de ouro, começaram a rir e divertir-se à custa deles. Um dos irmãos, ao ouvir  as pilhérias, envergonhou-se e, desistindo de correr mundo, voltou à casa paterna. O outro, porém, seguiu adiante e chegou a uma floresta imensa. 

Dispunha-se a passar por ela, quando as pessoas do lugar lhe avisaram:

- Não te aventures a atravessar essa floresta. Está cheia de bandidos que te atacarão e, se virem que és de ouro e teu cavalo também, na certa liquidarão contigo.

O rapaz, no entanto, não se deixou amedrontar e disse:

- Preciso passar pela floresta e passarei.

Adquiriu umas peles de urso, com as quais se cobriu e à sua montaria, de modo que nada se enxergasse. Assim disfarçado, entrou, confiante, na floresta. Tendo cavalgado por algum tempo, ouviu um rumor nos arbustos e murmúrio de vozes. Alguém disse:

- Aí vem um homem!

Outro respondeu:

- Deixa que passe. É um caçador de ursos, pobre e tão pelado como rato de igreja. Que poderíamos tirar dele,

E assim o moço de ouro atravessou o bosque são e salvo.

Certo dia chegou a uma aldeia, onde avistou uma jovem, tão bela que achou não ser possível haver outra mais linda no mundo inteiro. E como se sentisse grandemente atraído por ela, dirigiu-se a seu encontro e lhe falou:

- Amo-te de todo coração. Queres ser minha esposa?

A moça, que também gostou dele, respondeu aceitando seu pedido.

- Sim, quero  ser tua esposa e te serei fiel a vida toda.

Ao se casarem, quando estavam em plena festa, chegou o pai da noiva que, ao ver sua filha casando, indagou:

- Onde está o noivo?

Mostraram-lhe o jovem de ouro que continuava coberto de peles de urso. O homem ficou furioso e exclamou:

- Não permitireis que minha filha case com um caçador de ursos!

E, investindo contra o rapaz, quis matá-lo. Sua filha, porém, se desfez em súplicas:

- Ele é meu marido e eu o quero de todo coração.

Finalmente conseguiu apaziguar o pai. Mas este não pode esquecer sua preocupação e, na manhã seguinte, levantou-se de madrugada, disposto a saber se o genro era, de fato, um mendigo. 

Entrou no quarto e viu, então, um jovem belíssimo, todo de ouro, deitado na cama e as peles de urso espalhadas pelo chão. Enquanto se retirava pensou: " Que sorte ter reprimido minha cólera; teria cometido uma grande injustiça."

Enquanto isso, o jovem sonhou que andava caçando um cervo magnífico e, ao acordar, disse à sua esposa:

- Vou caçar na floresta.

Apreensiva, ela lhe implorou que ficasse a seu lado.

- Facilmente poderá acontecer-te uma desgraça! - disse.

Ele, porém, insistiu:

- Devo ir e irei.

Encaminhou-se para floresta e, pouco depois, descobriu, a certa distância, um cervo belíssimo, igual ao que vira em sonho. Fez pontaria para disparar a arma, mas o animal escapou. Lançou-se em sua perseguição, saltando valos e atravessando moitas, sem jamais cansar. Ao anoitecer, porém, o cervo desapareceu. Olhando em redor, o jovem avistou à sua frente uma casa pequenina onde vivia uma feiticeira. Bateu à porta e a velha apareceu, perguntando:

- Que procuras a esta hora da noite, em meio desta floresta imensa?

- Não viste um cervo? - indagou ele.

- Sim, - retrucou a velha - conheço bem o cervo.

Enquanto ela falava, um cãozinho, que também saíra da casa se pôs a ladrar, furiosamente, para o forasteiro.

- Cala-te, maldito cachorro - gritou o rapaz - se não queres que eu te dê um tiro.

Aí a velha gritou:

- Como? Pretendes matar meu cãozinho? - e, no mesmo instante, o transformou em pedra.

Em casa, sua esposa ficou esperando por ele em vão.

"Na certa - pensou ela - aconteceu o que eu receava e o que tanto vinha me pesando no coração!"

Quanto ao outro irmão, que ficara na casa do pai, e sempre observava os lírios de ouro, viu quando, de repente, um deles murchou.

- Meu Deus! - exclamou. - Aconteceu uma desgraça a meu irmão. Devo sair para ver se posso salvá-lo.

- Não vás- pediu-lhe o pai.- Que serás de mim se perco a ti também?

Mas o jovem lhe retrucou:

- É preciso que eu vá, e irei.

Montou seu cavalo de ouro, pôs-se a caminho e chegou ao bosque onde estava seu irmão, transformado em pedra. 

A feiticeira saiu da casa e o chamou, com a intenção de encantá-lo também. Mas  o rapaz gritou de longe:

- Se não devolves a vida a meu irmão, eu te mato a tiros, velha bruxa.

Embora a contragosto, a  velha tocou a pedra com os dedos e logo o rapaz recuperou a forma humana. Os dois jovens sentiram uma grande alegria ao se reverem e depois de se terem abraçado, saíram juntos do bosque. 

Um deles dirigiu-se à casa de sua esposa e o outro à de seu pai. Ao vê-lo chegar, o velho exclamou:

- Já sabia que havias salvo teu irmão, pois o lírio de ouro tornou a erguer-se e continuou com vida.

E, desse momento em diante, todos viveram contentes e felizes até ao fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Leonardo da Vinci (As chamas)


As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Blog Era uma vez…  – 03.02.2015
Biografia = Coisinha Literária. 14.08.2020

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Hans Christian Andersen (O Galho da Sorte)


Quero agora contar uma história da Sorte. Todos nós conhecemos a Sorte. Há quem a encontre todos os dias; mas há também aquele que somente a veem de anos em anos, e num único dia. E há até quem a tenha visto apenas uma única vez em toda a vida.

Não há, entretanto, ninguém que não a tenha jamais encontrado - isso não!

- Não julgo necessário contar, pois que todo o mundo sabe, que Deus manda as criancinhas para o colo das mães. Tanto no castelo dos ricos e na casa abastada, como nos campos desprotegidos, varridos pelos ventos frios. Mas nem todos sabem, e contudo, é indubitável! Nem todos sabem que Deus, quando manda as criancinhas, as dota com um brinde da Sorte. É certo que esse brinde não fica exposto e visível aos olhos curiosos de todo o mundo, não! Fica instalado em algum lugar, no lugar onde menos esperaríamos encontrá-lo, e contudo, é sempre achado no momento oportuno, o que vem a ser muito agradável. Pode estar escondido em uma maçã, por exemplo, como sucedeu com um sábio chamado Newton. A maçã caiu, e ele encontrou nela a Sorte. Se  não sabes essa história, pede a alguém que te conte a história da maçã. Quanto a mim, vou contar outra - a história de uma pera.

Era uma vez um homem pobre, que nascera na indigência, criara-se na miséria, e casara sem dela se apartar. Era torneiro de profissão, e torneava de preferência cabos e argolas para guarda-chuva, mas isso mal dava para o sustento de cada dia. E ele costumava dizer:

- Eu jamais tive sorte... Nunca a encontrei na vida – eu podia dizer o nome do país e até do lugar onde morava aquele homem. Mas isso é coisa que não importa à história.

A casa era toda rodeado de sorveiras (é uma árvore da família das Rosaceae), vermelhas e acres, eram o maior adorno do pomar, mas havia também ali uma pereira, que não dava pera alguma. Contudo, naquela árvore é que estava escondida a Sorte, oculta nas peras invisíveis.

Uma noite sobreveio uma terrível tempestade. O jornal até contou que a diligência, tão pesada, fora erguida pelo vendaval e lançada para dentro da valeta, como um farrapo. Imagine-se pois com que facilidade não seriam partidos os galhos de uma pereira!

Pois um galho partido foi ter à oficina e, por mera brincadeira, o torneiro tirou-lhe um toro e torneou dele uma grande pera, depois torneou outra igual, depois outra menor, e afinal outras pequeninas.

Deu as peras às crianças, para que lhes servissem de brinquedo, e acabou dizendo:

- Ora, afinal aquela árvore tinha de produzir peras mesmo...

Em uma terra de nevoeiros, o guarda-chuva faz parte das coisas indispensáveis, certamente. A família inteira possuía um só, para o uso comum. Quando o vento soprava com muita violência, o guarda-chuva chegava a virar do avesso, e às vezes se partia em dois, mas logo o homem o consertava. O pior era o botão que servia para mantê-lo fechado, depois de enrolado: despregava-se com frequência, e a argola que o mantinha também se quebrava facilmente

Ora, um dia desprendeu-se o botão. O torneiro procurava-o pelo chão quando deu com uma das perinhas menores, das que dera aos filhos para brinquedo.

- Não acho o botão, mas isto serve.

Furou então a pera, enfiou-lhe um cordãozinho, e a pera pequenina prendeu perfeitamente a argola partida - e foi aquele, na verdade, o melhor fecho que já tivera o guarda-chuva.

No ano seguinte, quando o torneiro remeteu cabos de guarda-chuva para a capital, onde eram vendidos os seus trabalhos, enviou também algumas daquelas peras pequeninas, torneada na madeira, e enfiadas em meia argola, e pediu que as experimentassem, a ver se agradara. Assim foram elas ter à América. Lá viram logo que a perinha fechava muito melhor do que qualquer outro botão, e daí resultou que pedissem ao fornecedor que dali em diante todas as remessas de guarda-chuva trouxessem uma perinha no fecho.

É claro que aumentou muito o trabalho. Peras, peras aos milhares! peras de madeira em todos os guarda-chuvas!

O torneiro tinha muito que fazer. Torneava sem cessar. Toda a pereira se desfez em perinhas. E entravam os xelins, entravam os ducados.

- Pois a minha Sorte estava escondida na pereira - dizia o homem.

Possuía agora uma grande oficina, tinha oficiais e aprendizes. Andava sempre muito contente, e costumava dizer:

- A Sorte pode bem estar escondida em um galho!

  E eu, que contei a história, digo o mesmo.

Lá diz o rifão: "Põe na boca um galinho branco e ficarás invisível." Mas há de ser o galinho apropriado, o que Deus nos destinou, como brinde da Sorte.

Eu o achei e, como aquele homem, posso extrair ouro, ouro fulgurante, o ouro mais puro que existe, aquele que resplandece nos olhos das crianças, e lhes canta na boca, e que também brilha nos olhos dos pais, quando leem as histórias, e eu estou na sala, entre eles, mas invisível - porque trago na boca o galinho branco.

E quando percebo que a história que contei lhes traz alegria... então também eu digo:

- A Sorte pode esconder-se em um galho!
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Autor Anônimo (Os três conselhos)


Um casal de jovens recém-casados, era muito pobre e vivia de favores num sítio do interior.

Um dia o marido fez a seguinte proposta para a esposa: "Querida eu vou sair de casa, vou viajar para bem longe, arrumar um emprego e trabalhar até ter condições para voltar e dar-te uma vida mais digna e confortável. Não sei quanto tempo vou ficar longe, só peço uma coisa, que você me espere e enquanto eu estiver fora, seja fiel a mim, pois eu serei fiel a você".

Assim sendo, o jovem saiu. Andou muitos dias a pé, até que encontrou um fazendeiro que estava precisando de alguém para ajudá-lo em sua fazenda. O jovem chegou e ofereceu-se para trabalhar, no que foi aceito.

Pediu para fazer um pacto com o patrão, o que também foi aceito. O pacto foi o seguinte: "Me deixe trabalhar pelo tempo que eu quiser e quando eu achar que devo ir, o senhor me dispensa das minhas obrigações. Eu não quero receber o meu salário. Peço que o senhor o coloque na poupança até o dia em que eu for embora. No dia em que eu sair o senhor me dá o dinheiro e eu sigo o meu caminho". 

Tudo combinado. Aquele jovem trabalhou durante vinte anos, sem férias e sem descanso. Depois de vinte anos chegou para o patrão e disse: "Patrão, eu quero o meu dinheiro, pois estou voltando para a minha casa".

O patrão então lhe respondeu: "Tudo bem, afinal, fizemos um pacto e vou cumpri-lo, só que antes quero lhe fazer uma proposta, tudo bem? - Eu lhe dou o seu dinheiro e você vai embora, ou lhe dou três conselhos e não lhe dou o dinheiro e você vai embora. Se eu lhe der o dinheiro eu não lhe dou os conselhos, se eu lhe der os conselhos, eu não lhe dou o dinheiro. Vá para o seu quarto, pense e depois me dê a resposta". 

Ele pensou durante dois dias, procurou o patrão e disse-lhe: - Quero os três conselhos.

O patrão novamente frisou: - Se lhe der os conselhos, não lhe dou o dinheiro.

E o empregado respondeu: - Quero os conselhos.

O patrão então lhe falou:
1. "Nunca tome atalhos em sua vida. Caminhos mais curtos e desconhecidos podem custar a sua vida.

2. Nunca seja curioso para aquilo que é mal, pois a curiosidade para o mal pode ser mortal.

3. Nunca tome decisões em momentos de ódio ou de dor, pois você pode se arrepender e ser tarde demais.

Após dar os conselhos, o patrão disse ao rapaz, que já não era tão jovem assim:

- Aqui você tem três pães, dois para você comer durante a viagem e o terceiro é para comer com sua esposa quando chegar a sua casa.

O homem então, seguiu seu caminho de volta, depois de vinte anos longe de casa e da esposa que ele tanto amava. 

Após o primeiro dia de viagem, encontrou um andarilho que o cumprimentou e lhe perguntou:

- Para onde você vai?

Ele respondeu:

- Vou para um lugar muito distante que fica a mais de vinte dias de caminhada por essa estrada.

O andarilho disse-lhe então:

- Rapaz, este caminho é muito longo, eu conheço um atalho que é dez, e você chega em poucos
dias.

O rapaz contente, começou a seguir pelo atalho, quando lembrou-se do primeiro conselho, então voltou e seguiu o caminho normal. 

Dias depois soube que o atalho levava a uma emboscada.

Depois de alguns dias de viagem, cansado ao extremo, achou uma pensão à beira da estrada, onde pode hospedar-se. "Pagou" a diária e após tomar um banho deitou-se para dormir. De madrugada acordou assustado com um grito estarrecedor. Levantou-se de um salto só e dirigiu-se à porta para ir até o local do grito. Quando estava abrindo a porta, lembrou-se do segundo conselho.

Voltou, deitou-se e dormiu.

Ao amanhecer, após tomar café, o dono da hospedagem lhe perguntou se ele não havia ouvido um grito e ele disse que tinha ouvido. O hospedeiro: e você não ficou curioso? Ele disse que não. No que o hospedeiro respondeu: Você é o primeiro hóspede a sair daqui vivo, pois meu filho tem crises de loucura, grita durante a noite e quando o hóspede sai, mata-o e enterra-o no quintal. 

O rapaz prosseguiu na sua longa jornada, ansioso por chegar a sua casa. Depois de muitos dias e noites de caminhada... já ao entardecer, viu entre as árvores a fumaça de sua casinha, andou e logo viu entre os arbustos a silhueta de sua esposa. Estava anoitecendo, mas ele pode ver que ela não estava só. Andou mais um pouco e viu que ela tinha no seu colo, um homem a quem estava acariciando os cabelos.

Quando viu aquela cena, seu coração se encheu de ódio e amargura e decidiu-se a correr de encontro aos dois e a matá-los sem piedade. Respirou fundo, apressou os passos, quando lembrou-se do terceiro conselho. Então parou, refletiu e decidiu dormir aquela noite ali mesmo e no dia seguinte tomar uma decisão. 

Ao amanhecer, já com a cabeça fria, ele pensou: - "Não vou matar minha esposa e nem o seu amante. Vou voltar para o meu patrão e pedir que ele me aceite de volta. Só que antes, quero dizer a minha esposa que eu sempre fui fiel a ela".

Dirigiu-se à porta da casa e bateu. Quando a esposa abre a porta e o reconhece, se atira em seu pescoço e o abraça afetuosamente. Ele tenta afastá-la, mas não consegue. Então com as lágrimas nos olhos lhe diz:

- Eu fui fiel a você e você me traiu...

Ela espantada lhe responde:

- Como? Eu nunca lhe trai, esperei durante esses vintes anos.

Ele então lhe perguntou:

- E aquele homem que você estava acariciando ontem ao entardecer?

E ela lhe disse:

- Aquele homem é nosso filho. Quando você foi embora, descobri que estava grávida. Hoje ele está com vinte anos de idade.

Então o marido entrou, conheceu, abraçou o filho e contou-lhes toda a sua história, enquanto a
esposa preparava o café. Sentaram-se para tomar café e comer juntos o último pão. 

Após a oração de agradecimento, com lágrimas de emoção, ele parte o pão e ao abri-lo, encontra todo o seu dinheiro, o pagamento por seus vinte anos de dedicação.

Muitas vezes achamos que o atalho "queima etapas" e nos faz chegar mais rápido, o que nem sempre é verdade...

Muitas vezes somos curiosos, queremos saber de coisas que nem ao menos nos dizem respeito e que nada de bom nos acrescentará...

Outras vezes, agimos por impulso, na hora da raiva, e fatalmente nos arrependemos depois... 

Espero que você, não se esqueça desses três conselhos e não se esqueça também de confiar (mesmo que a vida muitas vezes já tenha te dado motivos para a desconfiança).

Fonte:
Lendas para reflexão
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domingo, 14 de dezembro de 2025

Autor Anônimo ( Fábula do Rei e suas 4 Esposas)


Era uma vez... um rei que tinha 4 esposas.

Ele amava a 4ª esposa demais, e vivia dando-lhe lindos presentes, joias e roupas caras.

Ele dava-lhe de tudo e sempre do melhor.

Ele também amava muito sua 3ª esposa e gostava de exibi-la aos reinados vizinhos.

Contudo, ele tinha medo que um dia, ela o deixasse por outro rei.

Ele também amava sua 2ª esposa. Ela era sua confidente e estava sempre pronta para ele, com amabilidade e paciência. Sempre que o rei tinha que enfrentar um problema, ele confiava nela para atravessar esses tempos de dificuldade.

A 1ª esposa era uma parceira muito leal e fazia tudo que estava ao seu alcance para manter o rei muito rico e poderoso, ele e o reino. Mas, ele não amava a 1ª esposa, e apesar dela o amar profundamente, ele mal tomava conhecimento dela.

Um dia, o rei caiu doente e percebeu que seu fim estava próximo.

Ele pensou em toda a luxúria da sua vida e ponderou:
- É, agora eu tenho 4 esposas comigo, mas quando eu morrer, com quantas poderei contar?

Então, ele perguntou à 4ª esposa:
- Eu te amei tanto, querida, te cobri das mais finas roupas e joias. Mostrei o quanto eu te amava cuidando bem de você. Agora que eu estou morrendo, você é capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?

- De jeito nenhum! – respondeu a 4ª esposa, e saiu do quarto sem sequer olhar para trás.

A resposta que ela deu cortou o coração do rei como se fosse uma faca afiada.

Tristemente, o rei então perguntou para a 3ª esposa:
- Eu também te amei tanto a vida inteira. Agora que eu estou morrendo, você é capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?

- Não!!! - respondeu a 3ª esposa.– - A vida é boa demais!!! Quando você morrer, eu vou é casar de novo.

O coração do rei sangrou e gelou de tanta dor. Ele perguntou então à 2ª esposa:
- Eu sempre recorri a você quando precisei de ajuda, e você sempre esteve ao meu lado. Quando eu morrer, você será capaz de morrer comigo, para me fazer companhia?

- Sinto muito, mas desta vez eu não posso fazer o que você me pede! – respondeu a 2ª esposa. – O máximo que eu posso fazer é enterrar você!

Essa resposta veio como um trovão na cabeça do rei, e mais uma vez ele ficou arrasado.

Daí, então, uma voz se fez ouvir:
- Eu partirei com você e o seguirei por onde você for...

O rei levantou os olhos e lá estava a sua 1ª esposa, tão magrinha, tão mal nutrida, tão sofrida... 

Com o coração partido, o rei falou:
- Eu deveria ter cuidado muito melhor de você enquanto eu ainda podia... 

Na verdade, nós todos temos 4 esposas nas nossas vidas...

Nossa 4ª esposa é o nosso corpo. Apesar de todos os esforços que fazemos para mantê-lo saudável e bonito, ele nos deixará quando morrermos... 

Nossa 3ª esposa são as nossas posses, as nossas propriedades, as nossas riquezas. Quando morremos, tudo isso vai para os outros.

Nossa 2ª esposa são nossa família e nossos amigos. Apesar de nos amarem muito e estarem sempre nos apoiando, o máximo que eles podem fazer é nos enterrar...

E nossa 1ª esposa é a nossa ALMA, muitas vezes deixada de lado por perseguirmos, durante a vida toda, a Riqueza, o Poder e os Prazeres do nosso Ego... Apesar de tudo, nossa Alma é a única coisa que sempre irá conosco, não importa aonde formos...

Então... Cultive... Fortaleça... Bendiga... Enobreça... sua Alma agora!!! É o maior presente que você pode dar ao mundo... e a si mesmo. Deixe-a brilhar!!!

Fonte:
Vários autores. Lendas para reflexão.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Contos e Lendas do Mundo (Índia) O Pote Rachado


Um carregador de água levava dois potes grandes, pendurados em cada ponta de uma vara, sobre os ombros. Um dos potes tinha uma rachadura, enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do Mestre; o pote rachado chegava sempre pela metade.

Assim foi durante dois anos. Diariamente, o carregador entregava um pote e meio de água na casa de seu Mestre. 

O pote perfeito estava orgulhoso de suas realizações. Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição, e sentia-se miserável por ser capaz de realizar apenas a metade do trabalho que deveria fazer. 

Um dia decidiu e falou para o homem, à beira do poço:

"Estou envergonhado, e quero pedir-te desculpas."

"Por quê?" – perguntou o homem. - "De que estás envergonhado?"

"Nesses dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade da minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho até a casa de teu senhor. Por causa do meu defeito, tens que fazer todo esse trabalho, e não ganhas o salário completo dos teus esforços."

O homem ficou triste pelo sentimento do velho pote, e disse-lhe amorosamente:

"Quando retornarmos para a casa de meu senhor, quero que admires as flores ao longo do caminho."

De fato, à medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou flores selvagens ao longo de todo o caminho, e isto alegrou-o. Mas, ao fim da estrada, o pote ainda se sentia mal porque tinha vazado a metade, e de novo pediu desculpas ao homem por sua falha.

Disse o homem ao pote:

"Notaste que pelo caminho só havia flores no teu lado? Eu, ao conhecer teu defeito, transformei-o em vantagem. Lancei sementes de flores no teu lado do caminho, e cada dia, enquanto voltamos do poço, tu as regas. Por dois anos eu pude colher flores para ornamentar a mesa de meu senhor. Se não fosses do jeito que és, meu Mestre não teria essa beleza em sua casa."

Cada um de nós temos nossos próprios e únicos defeitos. Todos nós somos potes rachados. Se permitirmos, o Senhor vai usar estes nossos defeitos para embelezar a mesa de Seu Pai.

Na grandiosa economia de Deus, nada se perde.

Nunca deveríamos ter medo dos nossos defeitos; se o reconhecermos, eles poderão proporcionar beleza. Das nossas fraquezas, podemos tirar forças.

Fontes:
Vários autores. Lendas para reflexão.
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sábado, 29 de novembro de 2025

Leonardo Da Vinci (A Aranha e o Buraco da Fechadura)

Após ter explorado a casa toda, por dentro e por fora, uma aranha resolveu esconder-se no buraco da fechadura.

Que esconderijo ideal! Pensou ela. Quem jamais havia de imaginar que ela estava ali? E além disso podia espiar para fora e ver tudo o que acontecia.

Ali em cima, disse ela para si mesma, olhando para o alto da porta:

- Vou fazer uma teia para moscas - ali em baixo, acrescentou, observando a soleira - farei outra para besourinhos. Aqui, ao lado da porta, vou armar uma teiazinha para os mosquitos.

A aranha estava exultante. O buraco da fechadura proporcionava-lhe uma nova e maravilhosa sensação de segurança. Era tão estreito, escuro, e era revestido de ferro. Parecia-lhe mais inexpugnável que uma fortaleza, mais garantido que qualquer armadura.

Imersa nesses deliciosos pensamentos, a aranha ouviu o som de passos que se aproximavam. Correu de volta para o fundo de seu refúgio.

Porém a aranha esquecera-se de que o buraco da fechadura não havia sido feita para ela. Sua legítima proprietária, a chave, foi colocada na fechadura e expulsou a aranha.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Blog Era uma vez…  – 04.01.2015
https://byblosfera.blogspot.com/2015/01/a-aranha-e-o-buraco-da-fechadura.html
Biografia = Coisinha Literária. 14.08.2020
https://coisinhaliteraria.wordpress.com/2020/08/14/fabulas-e-lendas/

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Irmãos Grimm (Verdurinha*)

* O termo "verdurinha" provavelmente se refere à Rapunzel. No conto dos Irmãos Grimm, a história começa porque a mãe da menina sente um desejo incontrolável por uma hortaliça específica, uma espécie de alface-do-campo (conhecida como Feldsalat em alemão e, em algumas regiões, como "alface Rapunzel") que crescia no jardim de uma bruxa.
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Era uma vez um homem e uma mulher que viviam sós e tristes por não terem filhos. Um dia, a mulher teve a esperança que o bom Deus iria afinal satisfazer o seu maior desejo. A casa onde viviam tinha, na parede dos fundos, uma pequena janela de onde se avistava um jardim maravilhoso, cheio de lindas flores e plantas. Era cercado por um alto muro e ninguém se atrevia a entrar, pois pertencia a uma feiticeira muito poderosa, de quem todos tinham medo.

Certa ocasião a mulher, parada à janela, olhando o jardim, avistou um canteiro com as mais belas hortaliças, tão frescas e verdes que teve um grande desejo de as comer.                          

À medida que os dias iam passando, seu desejo aumentava e, como ela sabia ser impossível consegui-las, foi empalidecendo e definhando a olhos vistos. O marido, notando aquilo, assustou-se e perguntou:

- Querida, o que se passa contigo?

- Ah! - respondeu ela - se eu não comer daquelas verduras que crescem no jardim, atrás da nossa casa, na certa morrerei.

O homem, que amava sua mulher, pensou: "Em vez de deixar que ela morra, hei de conseguir as verduras, custe o que custar."

Quando anoiteceu, saltou o muro do jardim da feiticeira, arrancou depressa um punhado de verduras e as levou à esposa. Esta logo preparou uma salada e comeu-a com verdadeiro gosto; e tanto lhe agradou o prato que no dia seguinte sentiu um desejo três vezes maior. Para que ela ficasse em paz, o marido deveria ir mais uma vez ao jardim. Ao anoitecer, o homem repetiu a façanha; mal, porém, desceu do muro, levou um susto enorme, pois de súbito a bruxa surgiu à sua frente.

- Como te atreves  - disse ela, com olhar furioso - a entrar como um ladrão no meu jardim e roubar as minhas verduras? Hás de pagar bem caro!

- Ai! Tenha dó de mim! - implorou o homem.- Só fiz isso por necessidade; Minha mulher avistou da janela as suas verduras e tanto as desejou que morreria se não as comesse.

A feiticeira deixou-se abrandar e assim lhe falou:

- Se é como dizes, permitirei que leves tanto quanto quiseres; só imponho uma condição: terás de me dar a criança que tua mulher trouxer ao mundo. Será bem tratada e cuidarei dela como se fosse a sua mãe.

Amedrontado, o homem concordou com tudo e, quando nasceu a criança, uma menina, a feiticeira logo se apresentou. Deu-lhe o nome de Verdurinha e levou-a consigo.

Verdurinha era a criança mais linda que o sol já vira. Ao completar doze anos, a feiticeira a encerrou em uma torre no meio de um bosque, a qual não tinha porta nem escada, mas apenas uma janelinha bem ao alto.

Quando a feiticeira queria entrar, postava-se ao pé da torre e gritava:

- Verdurinha, Verdurinha!
- Solta essa tua trancinha!

"Trancinha" era um modo de dizer, pois a moça tinha os cabelos longos, finos e louros como se fossem tecidos de ouro. Quando ouvia a voz  da feiticeira, soltava as tranças, prendia-as em volta de um gancho da janela e os cabelos, do comprimento de cem palmos, iam tocar no solo. Por elas a bruxa subia ao alto da torre.

E aconteceu que um dia o filho do rei, andando a cavalo pelo bosque, passou junto à torre. Dali partia uma canção tão maravilhosa que ele parou  a escutá-la. Era verdurinha que, em sua solidão, se entretinha cantando. O príncipe quis subir até onde ela estava e procurou uma porta na torre; como, no entanto, não achou nenhuma, voltou ao palácio. Mas o canto lhe tocara de tal maneira o coração que todos os dias ele ia ao bosque e se punha a escutar. Certa vez, estando assim parado atrás de uma árvore, viu que uma feiticeira se aproximava e a ouviu chamar:

- Verdurinha, Verdurinha!
- Solta essa tua trancinha!

Verdurinha soltou suas tranças e a bruxa subiu até o alto da torre.

  "Se é esta a escada por onde se sobe, - pensou o príncipe - também eu tentarei a minha sorte." 

E no dia seguinte, quando começou a escurecer, dirigiu-se à torre e chamou:

- Verdurinha, Verdurinha!
- Solta essa tua trancinha!

Em seguida as tranças foram jogadas para baixo e o príncipe subiu por elas.

No primeiro momento, Verdurinha assustou-se ao ver um homem à sua frente, pois ela nunca tinha visto um homem em toda a sua vida. Mas o príncipe começou a falar-lhe amavelmente, dizendo que suas canções haviam impressionado de tal modo o seu coração que não descansara enquanto não a tinha visto em pessoa. Verdurinha então perdeu o medo e, quando o príncipe perguntou se o aceitaria como esposo e ela viu que era moço e bonito, pensou: "Este há de gostar mais de mim do que a velha" e, pondo sua mão na dele, respondeu:

- Com muito prazer irei contigo, mas não sei como sair daqui. Sempre que vieres, traze uma meada de seda e eu irei tecendo uma escada. Quando estiver pronta, descerei por ela e me levarás contigo no teu cavalo.

Combinaram que até lá ele a visitaria todas as noites, porque de dia a velha era quem ia à torre. A feiticeira nada havia percebido até o dia em que Verdurinha lhe perguntou:

- Diga-me, D. Gothel, por que será que faço um esforço muito  maior para puxar a senhora do que o jovem príncipe?

- Ah, desgraçada! - exclamou a bruxa. - Que acabo de ouvir? Pensei que te havia isolado do mundo inteiro e mesmo assim me enganaste!

Furiosa, pegou as lindas tranças de Verdurinha, enrolou-as na mão esquerda, apanhou uma tesoura com a direita e, num zás, cortou-as, atirando os lindos cabelos ao chão. E foi tão maldosa que conduziu a pobre Verdurinha a um deserto, onde teve de viver na maior tristeza e miséria.

No mesmo dia em que expulsara a jovem, a feiticeira, de noite, prendeu no gancho da janela as tranças cortadas. Quando o príncipe apareceu e chamou:

- Verdurinha, Verdurinha!
Solta essa tua trancinha!

A bruxa soltou os cabelos e o filho de rei subiu por eles. Mas, em vez de encontrar Verdurinha, encontrou a feiticeira, que o recebeu com uns olhos fuzilando de ódio e maldade.

- Ah! gritou ela - vieste buscar tua amada, mas o belo pássaro não está mais na gaiola, nem tornará a cantar. O gato o comeu, e a ti te arrancará os olhos. Verdurinha não será tua, nunca tornarás a vê-la.

O príncipe, fora de si, de dor e desespero, atirou-se da torre. Salvou a vida, mas os espinhos, entre os quais caiu, lhe arranharam as vistas. Daí em diante passou a vagar, cego, pelo bosque; só comia raízes e frutos silvestres e não fazia outra coisa senão lamentar a perda da sua amada esposa. 

Vagou assim, alguns anos, até que um dia foi dar no deserto onde vivia Verdurinha, miseravelmente, com seus dois filhos gêmeos, um menino e uma menina. Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, ele se aproximou; Verdurinha o reconheceu e logo se jogou, chorando, a seus braços. 

Duas de suas lágrimas foram umedecer os olhos do marido e no mesmo instante ele recuperou a visão, passando a enxergar como antes. O príncipe os conduziu ao seu reino, onde foi recebido com grande alegria e todos viveram, ainda por muito tempo, felizes e satisfeitos.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Nota = https://www.thespruceeats.com/
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