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sábado, 9 de maio de 2026

Irmãos Grimm (Avezinho)


Era uma vez um guarda-florestal que saiu à caça e, encontrando-se no bosque ouviu, de repente, uns soluços como os de uma criancinha. Dirigindo-se ao ponto de onde vinha o choro, chegou a uma árvore alta, em cuja copa se achava uma criança bem pequenina. A mãe dela havia adormecido sentada no chão com o pequeno nos braços, quando uma ave de rapina, vendo o bebe no seu colo, baixara voando e, depois de apanhar a criança com o bico, a depositara na copa daquela árvore.

O guarda-florestal trepou na árvore e, agarrando a criança, viu que era um menino e pensou: "Eu o levarei para minha casa e o criarei junto com a minha Heleninha. "

Assim fez ele e as crianças cresceram juntas. Ao menino que fora encontrado na árvore puseram o nome de Avezinho. Ele e Heleninha se queriam, tanto, tanto, que, quando um não via o outro, ficava triste.

O guarda-florestal tinha uma cozinheira velha que certa tarde, apanhou dois balões e foi ao poço buscar água. Tantas vezes encheu os baldes que Heleninha, intrigada, perguntou-lhe:

- Para que vai buscar tanta água, velhinha?

- Se não contares a ninguém, eu te digo. - respondeu a cozinheira.

Heleninha assegurou-lhe que nada diria e a velha, então, lhe revelou o que ia fazer:

- Amanhã bem cedo, depois que o patrão tiver saído à caça, ferverei esta água e, quando a caldeira estiver chiando, jogarei Avezinho dentro para cozinhá-lo.

No dia seguinte, de madrugada, o guarda-florestal levantou-se para ir caçar, enquanto os meninos continuavam na cama. 

Heleninha, então disse a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

Respondeu-lhe o menino:

- Nem agora, nem nunca.

Continuou Heleninha:

- Bem, vou te contar uma coisa: ontem de noite vi que a velha criada trazia muitos  baldes de água do poço e lhe perguntei por que fazia aquilo. Respondeu que me diria se eu não contasse a ninguém. Prometi-lhe e ela, então, contou que esta manhã, quando meu pai estivesse caçando, ferveria a água na caldeira e te jogaria nela para  te cozinhar. Vamos saltar da cama para nos vestirmos e fugir daqui.

Os dois se levantaram, aprontaram-se rapidamente e depois fugiram mais que depressa. 

Quando a água ferveu na caldeira, a velha foi ao quarto em busca de Avezinho, com intenção de pô-lo à cozinhar, mas ao aproximar-se da cama, viu que os dois pequenos haviam desaparecido. Diante disso, assustou-se e pensou: "Que direi quando o guarda-florestal voltar e as crianças não estiverem mais aqui? Devo trazê-las de volta."

Ordenou a três criados que saíssem atrás dos dois meninos e os trouxessem para casa.

Enquanto isso, os pequenos se haviam sentado na margem da floresta e, ao verem de longe os três criados que se dirigiam a eles, disse Heleninha a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

- Nem agora, nem nunca - respondeu Avezinho.

E Heleninha tornou a  falar:

- Transforma-te em roseira e eu serei a rosa.

Quando os três criados chegaram ao bosque, não viram mais que uma roseira com uma só rosa. Dos dois meninos, nem rasto.

- Aqui não há ninguém! - disseram eles.

Deram volta e foram dizer à cozinheira que só tinham visto uma roseira com uma única rosa. Aí a velha gritou indignada:

- Idiotas! Deviam ter cortado a roseira, apanhando a rosa e trazido para casa. Saiam correndo e façam o que lhes disse.

E os três tiveram de voltar ao bosque. As crianças porém, os avistaram de longe e Heleninha falou:

- Avezinho, se não me abandonares, também  eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Então transforma-te numa igreja. Eu serei uma  coroa, dentro dela.

Quando chegaram os criados só viram a igreja e a coroa em seu interior. Puseram-se, então, a comentar:

- Mas que é que havemos de fazer aqui? O melhor é voltar para casa.

Lá a velha perguntou-lhe se haviam encontrado os meninos. Eles responderam que não e que apenas tinham visto uma igreja com uma coroa dentro.

- Idiotas! - gritou a velha. Por que não derrubaram a igreja e não me trouxeram a coroa?

Pôs-se, então, ela mesma, a caminho, acompanhada dos três criados, em busca dos pequenos. Mas estes viram aproximar-se os três homens e a velha, que vinha rengueando atrás. E Heleninha disse:

- Avezinho, se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Pois transforma-te num lago e eu num pato nadando em tuas águas.

Chegou a cozinheira e, ao ver o lago, abaixou-se para sorvê-lo. Mas o pato veio nadando,  a toda pressa e, apanhando-a com o bico, pelos cabelos, puxou-a para dentro da água e a velha bruxa afogou-se. Os meninos regressaram à casa, alegres e contentes, e caso não tenham morrido, com certeza ainda estarão vivos.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem obtida no Youtube

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Hans Christian Andersen (O besouro)


Acabavam de ajustar ferraduras de ouro às quatro patas do cavalo do imperador. De ouro, como eram as esporas do seu dono.

Mas por que ferraduras de ouro?

Era um animal magnífico, de pernas esbeltas, olhos suaves e inteligente e uma crina flutuava como  uma juba. Tinha carregado o amo por entre o fumo dos canhões e a chuva de balas que silvavam de todos os lados. Tomara parte na batalha, resistindo com singular denodo à acometida do inimigo, e salvara não só a coroa imperial como a vida do próprio imperador, saltando por cima do cavalo prostrado do mais pertinaz inimigo. Isto, por certo, valia mais que todas as riquezas. Merecera, pois, as ferraduras de ouro.

Mas eis que um besouro se adianta, dizendo:

- Primeiro foram os grandes; agora chegou a vez dos pequenos - ainda que o tamanho nada signifique.

E espichou as patinhas secas.

- Que queres aqui? - perguntou o ferrador.

- Ferraduras de ouro!

- Estás louco? - gritou o homem. - Também queres calçado de ouro?

- E por que não? Acaso não valho tanto como esse aí? E ele precisa que o sirvam, o escovem e lhe ponham diante do focinho a comida e a bebida, para que pareça bem, Não pertenço tanto como ele aos estábulos imperiais?

- Não sejas maluco! - replicou o ferreiro. - Então não compreendes por que ferramos de ouro este cavalo?

- O que eu compreendo muito bem é que isto é um insulto pessoal que me fazem! - retrucou o besouro. - Não suporto semelhante humilhação, e vou sair a correr mundo!

- Pois boa viagem!

- Insolente! - disse o besouro.

E, alcançando as asas, saiu do estábulo e foi parar em um jardim muito lindo, cheio do perfume das rosas e das alfazemas.

Esvoaçava por ali uma joaninha, de asas vermelhas, mosqueadas de negro, que logo lhe foi dizendo:

- Que lugar delicioso, não achas? Como cheira bem, e que lindo é tudo aqui!

- Estou habituado a coisas melhores - disse o besouro. - É a isto que chamas deliciosos? Mas se aqui não há sequer uma esterqueira!

E lá se foi embora, para a sombra de uma moita de goivos. Uma lagarta subia por um talo acima, e dizia:

- Que belo é o mundo! O sol é tão agradável e tão quente! E tudo sorri de felicidade! Afinal hei de acabar por adormecer e morrer, como dizem; mas depois despertarei convertida em uma borboleta!

- Mas que ideia! Tu, voando como uma borboleta! Pois olha: venho das cavalariças do imperador, e lá ninguém, nem mesmo o cavalo favorito de Sua Majestade, que calçou os meu sapatos de ouro, nem esse tem ideias tão idiotas! Criar asas! Voar! Ora essa! Agora vais ver na verdade o que é voar!

E, desdobrando as asas, saiu voando, e murmurando pelos ares:

- Quero fugir dos insultos, e é só o que ouço!

Foi cair em um gramado e fingiu-se adormecido; mas dali a pouco estava dormindo de verdade.

Não dormiu por muito tempo: começou logo a cair uma chuva copiosa, e o ruído da água batendo no chão despertou-o. Procurou esconder-se dentro da terra, e não o conseguiu, porque a água o arrastava; lá foi indo, primeiro de bruços, depois nadando de lado: não podia sequer pensar em voar, e daria graças se saísse daquela torrente com vida. Resolveu resignar-se, entregando-se à sorte; e quando cessou a chuva e, de tanto esfregar os olhos, conseguiu tirar deles toda água, viu que ali perto brilhava uma coisa branca: um camisa, que enxugava ao ar , estendida na grama. Manejou de modo a alcança-la e escondeu-se entre as dobras. Não era tão quentinho como no meio do esterco da cavalariça, é claro: contudo, não havia coisa melhor por enquanto, e ali ficou o besouro, o dia inteiro, e ainda toda a noite. A chuva continuava a cair por intervalos. Ao amanhecer saiu dali, indignado e amaldiçoando o clima.

Sobre o linho alvo descansavam duas rãs, em cujos olhos brilhava a alegria. E uma dizia:

- Que tempo magnífico! Tão fresquinho! E esta camisa junta água que é um gosto! Tenho cócegas nas patas, de vontade de nadar!

- Eu gostaria de saber - disse a outra - se a andorinha, que voa tão alto e tão longe, já achou nas suas viagens pelo estrangeiro outro clima melhor que o nosso. Que agradável, que úmido! Eu me sinto tão bem aqui, como se estivesse em um charco! Quem não está contente e não se sente feliz assim é que certamente não tem patriotismo!

- Bem se vê que vocês nunca estiveram nos estábulos do imperador! - interveio o besouro. - Aquela umidade, sim, é morninha e cheirosa - o melhor clima para meu gosto! É isso que estou habituado, mas é claro que quando a gente viaja não pode levar essas coisas... Não haverá neste jardim alguma esterqueira, onde uma pessoa de alta linhagem como eu possa fixar residência e viver à vontade?

Mas as rãs não o entenderam - ou fingiram não o entender.

Depois de repetir três vezes a pergunta, sem obter resposta alguma, exclamou o besouro, indignado:

– Eu nunca pergunto uma coisa duas vezes!

Afastou-se, irritado, e chegou a um sítio onde encontrou um bom abrigo contra a chuva e a ventania: era uma tampa da vasilha de barro, já quebrada. Seu lugar não era ali, certamente; mas era um  abrigo providencial, e debaixo dela moravam algumas famílias de rapelhas - um bichinho que também se chama fura-orelhas; era gente pobre, mas viviam contentes. As fêmeas era todas um modelo de amor maternal: cada mãe exaltava o seu filho, que considerava o mais belo e o mais inteligente de todos.

- O nosso rapazinho - dizia uma - já tem noiva, e não tardará muito em casar. É um inocentinho! Sua maior ambição neste mundo, é chegar algum dia a entrar na orelha de alguém. É tão bonzinho, tão amável! E com o casamento certamente há de assentar o juízo, não é? É o maior prazer que pode ter uma mãe!

- Pois o nosso - acudia outra - mal saiu do ovo e já queira viajar pelo mundo! É a vivacidade e a destreza em pessoa! Já sabe retorcer as antenas. É o maior prazer que pode ter uma mãe, não acha, senhor Escaravelho?

Tinham reconhecido logo a sua espécie pelo corte das asas.

- Ambas tem razão - respondeu o besouro.

Convidaram-no a entrar: podia passear até onde quisesse - debaixo da tampa quebrada. Mas já outras mães lhe gritavam:

- Olhe aqui! Veja o meu filho!

- E o meu!

- E o meu! Já viu crianças melhores, ou mais alegres? Os nossos nunca desobedecem a não ser quando sentem alguma cólica - coisa frequente, aliás, nas crianças, não é?

E assim cada mãe falava no seu filho. As crianças foram se aproximando sem se intrometer na conversa. Mas, com as pinças da cauda, iam puxando as barbas do besouro.

- Estão sempre a fazer diabruras, estes marotinhos! - diziam as mamães.

Mas a repreensão vinha em uma voz que mais parecia uma carícia animadora de novas estrepolias. O besouro não gostou da brincadeira: sentiu-se ofendido, e indagou se o esterqueiro ficava muito longe.

- Fica, sim! Muito longe: do outro lado do vale - disse uma das mães. - É tão longe, que se um de meus filhos fosse até lá eu morreria. Espero, porém, que jamais aconteça semelhante coisa!

- Não é a mim que as distâncias metem medo! - retrucou o besouro.

E saiu sem se despedir: era esta, na sua opinião, a maior prova de cortesia.

Junto ao vale encontrou muita gente: todos besouros, como ele. E, disseram-lhe:

- Pois moramos aqui. E vivemos magníficamente! Não queres espojar-te um pouco, no lodo macio? Trazes cara de cansado! Há de ser da viagem...

- Estou mesmo, disse o besouro. Apanhei uma chuva grossa, e tive de me refugiar em uma camisa lavada; e já sabes que a limpeza não é bom para a minha saúde. Além disso, dói-me uma asa, desde que fiquei desabrigado debaixo de um caco de barro. Mas é um consolo encontrar-se a gente entre os seus semelhantes!

- Vens, talvez, do monte de esterco? - perguntou o mais velho.

- Não! Venho de lugar muito mais alto! Venho da cavalariça do imperador, onde nasci já com sapatos de ouro. Viajo em uma missão secreta, e está claro que não posso dizer o que é.

Desceu então para se reunir aos outros na lama. Achavam-se ali três mocinhas, que riam à socapa, por que não sabiam o que haviam de dizer.

- As três são solteiras, e não estão ainda noivas - disse a mãe.

E as três donzelas tornaram a rir às escondidas, mas desta vez foi de envergonhadas.

- Não vi nenhuma tão linda nos estábulos do imperador - disse o viajante - sentando-se.

- Não gabe assim minhas filhas para me lisonjear - observou a mãe. - E não lhes dirija a palavra, a não ser com intenções sérias. Vejo, porém, que assim é, e desde já os abençoo.

- Viva! - gritaram todos os outros besouros.

E desse modo ele ficou noivo.

Seguiu-se imediatamente o casamento, pois não havia razão para demoras.

O dia seguinte passou-se perfeitamente: era a lua de mel; o segundo quase não fez diferença - mas no terceiro já é preciso pensar em ganhar com que sustentar a mulher, e quem sabe se algum filho. E o besouro pensou:

- Uma vez que me deixei enganar assim por esta gente, não tenho outra coisa a fazer, senão enganá-la também.

E dito e feito! Foi embora, deixando ali a esposa sozinha todo o dia e a noite toda: era agora uma viúva!

- Esta foi boa! - diziam todos os besouros. Aquele sujeito que recebemos na nossa família não passa de um grandessíssimo vagabundo! Lá se foi embora, e ainda por cima deixa-nos este fardo: temos de lhe sustentar a mulher!

- Paciência! - disse a mãe besoura. - Ela voltará  a usar o nome de solteira, e viverá aqui conosco. Aquele canalha! Abandonar assim a minha filha!

Enquanto isso lá se ia o besouro, viajando muito  descansado. Embarcou em uma folha de couve, que a corrente de um canal ia levando à deriva. Passaram dois cavalheiros, apanharam-no e ficaram a dar-lhe voltas e mais voltas, falando como eruditos, principalmente o mais jovem.

- Alá vê o besouro negro na encosta negra da montanha negra - disse ele. - Pois não está escrito isso no alcorão?

E disse o nome do besouro, mas em latim. O outro, que era estudante, queria levá-lo, mas o companheiro dissuadiu-o, dizendo-lhe que possuía exemplares iguais àquele. Achou o besouro que aquilo era uma grande impertinência,e, alçando o voo, escapou da mão do moço grosseiro. Como já tinha as asas bem secas, pode voar muito longe: foi até uma estufa, entrou pela fresta da vidraça entreaberta, e procurou enterrar-se, com o maior prazer, num monte de adubo que viu a um canto.

- Que lugar delicioso! - pensava ele.

Adormeceu logo e sonhou que o cavalo favorito do imperador tinha adoecido, e antes de morrer o nomeara herdeiro de sua ferraduras de ouro, deixando ainda determinado que lhe fabricassem mais um par, na mesma medida. E era uma coisa muito razoável.

Quando acordou resolveu sair, para dar uma vista de olhos. Era magnífica aquela casa de cristal! Altas palmeiras formavam uma abóboda, deixando penetrar a luz do sol; aos seus pés vicejavam maciços de flores de cores variadas - vermelhas como fogo, amarelas como o âmbar e alvas como a neve recém-calda.

- Que folhagem esplêndida! E estas folhas serão uma riqueza, quando caírem e apodrecerem - dizia o besouro. - Que rica despensa achei! Certamente hão de viver por aqui parentes meus. Vou dar uma volta a ver se encontro gente com quem me possa associar. Estou orgulhoso do que sou, na verdade!

E pôs-se a passear pela estufa, pensando na morte do cavalo e nas ferraduras de ouro que acabava de herdar.

Mas nisto uma mão o colheu, e começou logo a virá-lo de todos os lados.

Era o filhinho do jardineiro que, brincando com uma menina da sua idade, vira o besouro e resolvera divertir-se com ele. Embrulharam-no em uma folha de parreira e o menino meteu-o no bolso da calça, que era muito quente. O besouro mexia-se e remexia-se, para ver se libertava daquela prisão, mas um soco do rapazinho indicou-lhe que era melhor ficar quieto. As duas crianças correram para o grande lago que havia no extremo do jardim; meteram o besouro em um tamanco velho que estava atirado à margem, amarraram uma varinha ao tamanco, feito mastro, e prenderam nele o pobre besouro, segurando-o bem com um fio de linha. Agora ele era um capitão de navio, e ia navegar.

O lago não era muito extenso, mas ao pobre do besouro pareceu o oceano; e ficou tão assustado que caiu de costas, e ali ficou, agitando as perninhas.

O barquinho afastava-se da margem, impelindo pelo vento, mas o menino arregaçou as calças e foi apanhá-lo, empurrando-o para que navegasse a todo o pano. Quando o tamanco já ia longe, uma voz imperiosa chamou as crianças, e o besouro ficou abandonado à sua sorte. A embarcação ia afastando-se, afastando-se da margem, aproximando-se cada vez mais do alto mar, e a perspectiva que se apresentava ao bichinho era horrível; não podia voar porque estava todo amarrado ao mastro. Nisto apareceu uma mosca, que ia visitá-lo.

- Que tempo esplêndido! - disse ela. - Dás licença que te acompanhe um pouco, para me aquecer ao sol? Como és feliz! Que vida agradável a tua!

- Tu não sabes o que dizes! Não vês, estúpida, que estou amarrado?

- Mas eu não! - respondeu a mosca, erguendo o voo.

- Agora é que vou conhecendo o mundo! - disse consigo o besouro. E como é baixo, este mundo! A única pessoa decente e digna que nele vive sou eu! Pois a primeira coisa que fazem contra mim é usurparem-me os sapatos de ouro; depois, obrigam-me a procurar abrigo em uma casa limpa, ou debaixo de uma tampa quebrada; e, para cúmulo de males, impigem-me uma esposa! Por fim, quando dou com um lugar onde se pode viver, e saio a ver onde posso instalar com toda a comodidade, eis que vem um rapazinho, amarra-me aqui e me deixa à mercê das ondas enfurecidas - enquanto o cavalo do imperador dá cabriolas, com suas ferraduras de ouro! E isto é o que mais me dói! Não ! De um mundo assim nada se pode esperar de bom. É certo que minha carreira tem sido brilhante; mas de que serve, se ninguém a conhece? Nem o mundo merece mesmo conhecê-la, a minha história: pois não se recusaram a calçar-me sapatos de ouro na cavalariça do imperador, quando ferraram o cavalo favorito? Debalde estendi as patas! Se me tivessem calçado de ouro, seria eu uma glória, um ornamente brilhante para cocheira. Agora, ela me perdeu, e o mundo também não me obterá. Tudo acabado!

Não estava tudo acabado, não. Aproximou-se um bote, cheio de moças que remavam.

- Olha aquele tamanco, que navega como um barco! - disse uma.

- E dentro vai um bichinho amarrado! - exclamou outra.

Chegaram-se mais. A mais nova das moças pegou o minúsculo barquinho, e tirou-o da água. Outra moça tomou uma tesourinha e cortou o fio de linha, sem ferir o besouro, e quando chegaram à praia ela o depôs na grama, dizendo:

- Trepa, trepa! Voa! Voa! Abre as asas, que a liberdade é uma coisa esplêndida!

E o besouro voou, voou... No seu vasto voo passou pela janela de um grande edifício e foi cair, meio morto de fadiga, sobre a fina e macia crina do cavalo do imperador, naquele mesmo estábulo em que sempre tinham morado juntos. Segurou-se à crina, descansando ali um momento para se recobrar.

- Eis-me agora montado no cavalo favorito do imperador! É como se eu fosse um cavaleiro! E na verdade, sou tão guapo como o dono! Mas... que ia eu dizer? Ah! Sim, já me recordo. Agora vejo tudo claro. E é esta uma ideia acertada, sim! Por que calçaram o cavalo com sapatos de ouro? Pois não foi isso mesmo o que ele me perguntou, o ferrador? Agora percebo claramente qual é a resposta...O cavalo foi calçado de ouro em minha intenção! Para que eu o monte!

Agora o besouro recobrara o antigo bom humor. E dizia:

- Não há  nada como as viagens, para abrir a inteligência!

Os raios do sol, entrando na cocheira, banharam de luz o besouro, que via agora todas as coisa com otimismo.

- Apesar de tudo - refletia ele - o mundo não é tão mau como parece. O que é preciso é que a gente saiba tomar as coisas como elas são.

Sim: o mundo era belo agora porque tinham posto ferraduras de ouro nas patas do cavalo do imperador, só para que o besouro pudesse montá-lo.

- Irei agora visitar meus companheiros, os outros besouros, para que saibam tudo quanto foi feito em minha intenção. Quero contar-lhes todas as aventuras agradáveis que me sucederam em minha viagem ao estrangeiro.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. 
Disponível em Domínio Público

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Contos e Lendas do Mundo (Japão) O omusubi rolante


Um dia, um velho servo feudal foi às montanhas para cortar lenha. Era o meio-dia. O velho servo estava com fome e começou a comer os omusubi (bolinhos de arroz) que ele havia carregado no bornal.

De repente, um dos omusubi caiu do bornal e rolou ladeira abaixo. Acabou entrando no buraco que existia na raiz de uma das árvores.

"Omusubi kororin sutonton*... envie-nos mais omusubi!" Eram vozes que, surpreendentemente, o velho servo ouviu do interior do buraco.

"Estranho", pensou o velhinho, "muito estranho". Decidiu dar uma olhada no buraco; mas como o buraco estava completamente escuro, não pôde ver coisa alguma. Novamente pensou como tudo aquilo era estranho.

O velhinho resolveu deixar mais um omusubi cair no buraco para ver se aquela música viria de dentro novamente. Assustado, ouviu a mesma música: "Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

O velhinho riu até cair e disse, "Engraçado! É engraçado!!!", e pela terceira vez jogou mais um omusubi no buraco.

"Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

"Engraçado, engraçado!", dizia o velho servo, pulando de alegria como uma criança. Pensou consigo mesmo: "se eu pular no buraco, o que será que eles cantarão?" Logo em seguida o velhinho rolava para dentro do buraco.

"Ojiisan (avô) kororin sutonton... envie-nos mais velhinhos!"

Deus do céu! Nem acreditava no que via! O interior do buraco era um palácio, e o teto e paredes brilhavam magnificamente.

O velhinho estava atônito. Seus olhos estavam esbugalhados, e olhava para todos os lados.

E, para completar sua surpresa, havia coelhos — muitos, muitos! — dentro do buraco.

"Vovô, seja bem-vindo em casa", cumprimentavam o velho servo todos os coelhos do buraco.

Havia um coelho maior na frente de todos os outros coelhos. Ele disse, "Este é o País dos Coelhos. Por favor, fique à vontade e divirta-se".

Muitos coelhos trouxeram comidas deliciosas para o velho servo. E dançavam, e cantavam. Parecia que vivam em completa harmonia e gozo.

O velho servo começou a dançar e cantar com os coelhos. Estava se divertindo como nunca o fizera antes.

A noite estava despontando no horizonte e o velhinho disse aos coelhos, "Estou indo embora". O coelho maior trouxe alguns omusubi para ele. "Este é o omusubi do País dos Coelhos. É muito delicioso. Aceite este omusubi como um presente do nosso país".

O velho servo agradeceu-lhe, cumprimentou a todos os coelhos e voltou para casa. Ele nunca havia provado um omusubi tão gostoso como aquele.
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* Omusubi kororin sutonton = Bolinho de arroz rolante
Omusubi: Bolinho de arroz.  Kororin: Onomatopeia japonesa para algo rolando.  Sutonton: Som rítmico, frequentemente associado ao som do bolinho caindo no buraco.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Irmãos Grimm (Os dois irmãozinhos)


O irmãozinho tomou a mão de sua irmãzinha e lhe falou assim:

- Desde que mamãe morreu, não tivemos mais uma hora de felicidade; a madrasta nos bate todos os dias e nos trata a pontapés. Como alimento só temos as duras migalhas que sobram do pão, e até o cãozinho embaixo da mesa leva uma vida melhor, pois de vez em quando lhe jogam alguma coisa boa para comer. Que Deus tenha piedade de nós! Se a nossa mãe soubesse disso! Vem, vamos sair daqui e correr mundo.

Caminharam o dia inteiro e, quando começou a chover, disse a irmãzinha:

- É Deus e os nossos corações que choram juntos!

Á noite chegaram a uma grande floresta e, como estivessem cansados de chorar e de tanto caminhar, e ainda por cima com fome, sentaram-se no oco de uma árvore e ali adormeceram.

Na manhã seguinte, ao despertarem, o sol já estava bem alto no céu e seus raios ardentes envolviam a árvore . Queixou-se, então, o irmãozinho:

- Estou com sede, irmãzinha; se soubesse de uma fonte, iria até lá beber. Parece que estou ouvindo um barulhinho de água.

E, levantando-se, pegou a menina pela mão e saíram à procura da fonte. A madrasta malvada, porém, era uma bruxa e percebera que as duas crianças haviam fugido de casa. Disfarçadamente, como fazem as bruxas, saíra atrás delas e enfeitiçara todas as fontes da floresta. 

Quando os dois encontraram um pequeno regato que saltava, alegre, por sobre as pedras, o irmãozinho quis saciar a sede, mas sua maninha ouviu que o regato murmurava:

- Quem bebe da minha água se transforma em tigre!

A menina, então, exclamou:

- Por favor, não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num tigre e me devorarás.

Embora estivesse com muita sede, o menino obedeceu, dizendo:

- Esperarei até a próxima fonte.

Chegaram ao segundo regato e a garotinha ouviu que também esse falava:

- Quem beber da minha água será um lobo, quem beber da minha água erá um lobo!

Novamente ela pediu:

- Por favor, irmãozinho, não beba; senão te transformarás num lobo e me devorarás.

O garoto não bebeu, mas retrucou:

- Vou esperar até encontrarmos outra fonte; aí, então, beberei , digas o que disseres, pois minha sede é grande demais.

Quando chegam ao terceiro regato, a menina ouviu-o murmurar:

- Quem beber da minha água será um cervo, que beber da minha água será um cervo!

A irmãzinha voltou, de novo, a insistir:

- Peço-te que não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num pequeno cervo e fugirás de mim.

Mas o menino já se ajoelhara junto à fonte para beber e, quando as primeiras gotas molharam os seus lábios, transformou-se num pequeno cervo.

A garotinha pôs-se a chorar, vendo seu pobre irmão enfeitiçado e o cervinho chorou também, deitado muito triste aos pés dela. Por fim disse a menina:

- Sossega, meu bonito cervo; eu nunca te abandonarei.

E, desatando uma das suas ligas dourada, colocou-a no pescoço do animalzinho; depois colheu alguns juncos e trançou uma corda bem macia. Com ela prendeu, o pequeno cervo e ambos foram andando cada vez mais para o interior da mata.

Andaram por muitas horas e finalmente chegaram a uma pequena casa. A menina espiou para dentro e, como estivesse vazia, pensou: " poderíamos ficar morando aqui.". 

Com folhas secas e musgos, preparou um leito macio para o cervo. Todas as manhãs saía em busca de frutinhas e nozes para si mesma; quanto ao animalzinho, trazia-lhe capim bem tenro e alegrava-se brincando ao seu redor. Quando à noite, cansada, já havia rezado as suas orações, ela deitava a cabeça sobre o dorso do pequenino cervo; era o seu travesseiro e ali adormecia suavemente. Se o menino tivesse conservado a forma humana, seria uma vida maravilhosa aquela!

Assim ficaram por algum tempo, sozinhos no bosque. Um dia, porém, o rei daquele país organizou uma grande caçada, e por toda a floresta ecoou o som das trombetas, o latido dos cães e o grito alegre dos caçadores. O pequenino cervo, ao ouvir tudo aquilo, sentiu uma vontade irresistível de assistir à caçada.

- Irmãzinha, - disse, - deixa-me acompanhar a caçada, não posso mais conter-me.

E tanto pediu, que ela, por fim, o deixou partir.

- Mas à noite terás de estar de volta, - recomendou a menina. - Fecharei a porta por causa desses caçadores. Para que possa reconhecer-te, deverás bater e dizer: " Irmãzinha, deixa-me entrar. " Se não fizeres assim, não abrirei.

O animalzinho saiu correndo e saltando, feliz com a liberdade. O rei e seus caçadores viram-no, porém, e o perseguiram sem que o conseguissem apanhar. Quando pensavam que já iam alcança-lo, ele saltava por cima das moitas e desaparecia. Ao escurecer, regressou à casinha, bateu à porta e disse:

- Irmãzinha,  deixa-me entrar!

A porta foi aberta e, correndo para dentro, o cervo descansou a noite inteira em seu leito macio. 

Na manhã seguinte a caçada recomeçou, e mal ouviu ele o som das trombetas e o "Hô! Hô!" dos caçadores, não teve mais sossego e pediu:

- Irmãzinha, abre a porta que eu quero sair.

A menina atendeu, recomendado:

- Mas presta atenção, à noite deves estar de volta e dizer as palavras que te ensinei.

Assim que o rei e seus homens avistaram, de novo, o cervo do colar  dourado, saíram todos em seu encalço. O animalzinho no entanto, era mais rápido e ágil do que eles, A perseguição durou o dia inteiro e somente ao anoitecer os caçadores o tinham, finalmente, cercado, sendo que um deles o feriu de leve numa das patinhas. Manco, o pequeno cervo só pode escapar andando muito devagarinho. Um dos homens o seguiu até a casinha e ouviu quando ele gritou:

- Irmãzinha, deixa-me entrar!

Viu que lhe abriram a porta e logo a fecharam. Foi ao rei e contou-lhe o que tinha visto e ouvido. E o rei respondeu:

- Amanhã faremos outra caçada!

A irmãzinha assustou-se muito quando viu que seu querido cervo estava ferido. lavou-lhe a pata suja de sangue, colocou ervas na ferida e disse-lhe:

- Vai para o teu leito, querido, até ficares bem bom.

O ferimento, porém, era tão leve que, na manhã seguinte, o animalzinho nada mais sentiu e, ao perceber de novo, lá fora, a alegre caçada, disse à irmã:

- Não resisto, preciso tomar parte.

A irmãzinha, chorando, exclamou:

- Vão matar-te e ficarei sozinha  na floresta, abandonada por todo o mundo! Não posso permitir que saia.

- Então morrerei de tristeza, - respondeu o cervo.- Quando ouço a corneta de caça, fico doido por sair correndo.

Incapaz de resistir àquela súplica, a garotinha abriu a porta, com o coração pesaroso, e logo o cervo se precipitou, alegre, pelo mato a dentro. O rei, ao avistá-lo, disse a seus caçadores.

- Persigam-no até anoitecer, mas que ninguém lhe cause dano.

Assim que o sol desapareceu no horizonte o rei chamou o caçador e lhe falou:

- Mostra-me, agora, a casinha do mato.

Ao encontrar-se diante da porta, bateu e pediu:

- Deixa-me entrar, irmãzinha querida!

Abriu e o rei entrou. À sua frente apareceu uma jovem tão bela como não vira outra igual. Ela assustou-se quando viu um homem, de coroa de ouro na cabeça entrar na casa, mas o rei olhou amavelmente para ela e, estendendo-lhe a mão, disse:

- Queres vir comigo para o meu castelo e ser a minha esposa?

- Sim. - retrucou a jovem, - mas o cervo terá de acompanhar-me; não me separo dele.

- Ficará contigo enquanto viveres e nada lhe faltará. - concordou o rei.

Nisto, o animalzinho entrou correndo e a irmã tornou a prendê-lo com a corda de juncos. A seguir, abandonaram a casinha da floresta.

O rei colocou a linda moça na garupa e partiram para o castelo, onde foi celebrado o casamento com grande pompa. Ela passou então a ser rainha e durante muito tempo viveram felizes. O pequeno cervo era bem tratado e vivia saltando, alegre, pelos jardins do castelo.

Entretanto, a madrasta malvada, que havia sido a causa de terem eles fugido de casa, pensava que a menina fora devorada pelas feras e seu irmão, transformado em cervo, morto pelos caçadores. Quando lhe chegou aos ouvidos que os dois viviam felizes e satisfeitos, seu coração quase arrebentou de inveja não a deixando em paz. Pôs-se a maquinar uma maneira de desgraçá-los! 

A filha dela, que era feia como a noite e tinha um olho só, espicaçava a mãe, dizendo-lhe:

- Eu é que deveria ser rainha.

- Acalma-te!- retrucou a velha. - Quando chegar a hora, saberei o que fazer.

Passado algum tempo, a rainha deu à luz um lindo menino. Como o rei, nesse dia, se afastara para caçar, a velha bruxa tomou a forma da camareira, entrou no quarto da rainha e disse-lhe:

- O banho está preparado e lhe fará bem; venha depressa antes que esfrie.

A filha da bruxa também estava presente e ambas levaram a rainha, ainda debilitada, ao quarto de banho, onde a meteram na banheira. Fecharam a porta e logo fugiram, pois tinham acendido ali um fogaréu dos diabos, que asfixiou a jovem e bela soberana.

Feito isto, a velha pôs uma touca na cabeça da filha e fê-la deitar-se na cama da rainha. Deu-lhe também a forma e o aspecto desta; só não pode restituir o olho que faltava e, para que o rei não lhe notasse o defeito, ordenou que se deitasse sobre o lado dele. À noite, quando o rei voltou da caça e soube que havia nascido um filho, alegrou-se de todo o coração e dirigiu-se ao leito da sua esposa, com o propósito de vê-la. Mas a bruxa apressou-se a dizer-lhe:

- De modo algum! Deixe as cortinas fechadas, que a rainha não suporta a luz e necessita de repouso.

O rei, então, se retirou, ignorando que na cama havia uma falsa rainha.

Mas aconteceu que, à meia-noite, quando todos dormiam, a ama, que velava sozinha junto ao berço, no quarto da criança, viu a porta abrir-se e entrar a rainha verdadeira. Debruçando-se sobre o bercinho, tomou nos braços o recém-nascido e o amamentou; depois ajeitou-lhe o travesseirinho e, feito isso, deitou novamente a criança. Também não esqueceu o pequeno cervo. Foi ao lugar em que estava deitado e lhe acariciou o pelo. Logo depois, saiu do quarto. 

Na manhã seguinte, a ama perguntou aos guardas se tinham visto alguém entrar no castelo durante a noite, mas eles responderam:

- Não, não vimos ninguém.

A cena repetiu-se ainda muitas noites, sem que a rainha fantasma pronunciasse uma só palavra. E, embora a ama sempre a visse, não se animava a contar o que estava acontecendo.

Decorrido algum tempo, a rainha, numa de suas visitas noturnas, quebrou o silêncio e começou a falar:

"Como vai meu filho? Como vai meu cervo? Virei mais duas noites, depois nunca mais."

A ama ouviu tudo quieta, mas, depois que a rainha desapareceu, foi ao rei e lhe contou o que se passara. Este, surpreso, exclamou:

- Meu Deus! Que significa isso? Amanhã de noite ficarei de guarda junto à criança.

Quando anoiteceu foi ao quarto do principezinho e à meia-noite a rainha apareceu e disse:

" Como vai meu filho? Como vai meu cervo?
Vim mais uma vez, depois nunca mais."

O rei, não podendo mais conter-se, exclamou:

- Não pode ser outra, senão minha esposa querida!

Ao que ela respondeu:

- Sim, eu sou a tua esposa.

Naquele mesmo instante, com a graça de Deus, voltou à verdadeira vida. Estava tão forte, rosada e bem disposta como antes. Contou logo ao rei o crime que a bruxa malvada e sua filha haviam cometido contra ela. 

O rei ordenou então que ambas fossem levadas perante um tribunal. Este as condenou à morte. A filha foi conduzida à floresta, onde as feras a estraçalharam, ao passo que a bruxa, condenada à fogueira, teve morte horrível. 

Depois que ela foi reduzida a cinzas, o pequeno cervo, transformando-se de novo, recuperou a forma humana, e o irmãozinho e a irmâzinha viveram juntos e felizes até o fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 29 de março de 2026

Contos e Lendas do Mundo (Japão) O Coelho Branco de Inaba


O deus que era Mestre da Grande Terra tinha oitenta irmãos, os quais também eram deuses. Todos os oitenta irmãos deixaram as terras do Mestre da Grande Terra, pois todos eles desejavam se casar com a Princesa Yakami, de Inaba. Então, juntos, sairam em sua jornada rumo a Inaba, colocando nas costas de seu meio-irmão, o deus Okuninushi, toda a sua bagagem.

Quando chegaram ao Cabo Keta, encontraram um coelho deitado, sem pele, e disseram a ele:

-    Você deve se banhar nesta água do mar e depois deitar-se no topo da montanha para que o vento o seque.

O coelho seguiu as instruções dos deuses mas, quando a água do mar secou, o que restava de sua pele começou a fissurar, e o pobre coelho chorava em profunda dor. Mas o deus Okuninushi, que carregava todo aquele peso, passou por último, vendo o pobre animal, perguntou:

-    Por que você chora?

E o coelho respondeu:

-    Eu estava na Ilha de Oki e desejava atravessar o mar até aqui, mas não havia meios. Por isso, enganei os tubarões dizendo-lhes, “Vamos competir qual tribo tem maior número de animais. Vocês devem se alinhar até o Cabo Keta, formando uma fila, e eu pularei de um em um e lhe darei o número exato de membros. Assim, saberemos se há mais tubarões em sua tribo do que coelhos na minha”. Então eles se alinharam e eu pulei sobre cada um deles. Quando eu estava chegando ao fim da linha, eu lhes disse, “Eu enganei vocês!” E o último tubarão me pegou e dilacerou minha pele. Eu estava deitado, lamentando o ocorrido quando os oitenta deuses passaram e me disseram para banhar-me na água do mar e deitar-me ao vento. Eu fiz exatamente o que disseram, e agora estou aqui com meu corpo todo ferido!

Então, o deus Okuninushi disse:

-    Vá rapidamente até a nascente do rio e role de um lado para o outro e seu corpo será completamente restaurado.

E o coelho fez exatamente o que o deus o havia instruído. Aquele era o Coelho Branco de Inaba, o deus Coelho.

E o Coelho disse então ao deus Okuninushi:

-    Nenhum daqueles oitenta deuses se casará com a Princesa Yakami. Embora carregue a bagagem, será você que se casará com ela.

Neste mesmo instante, a Princesa Yakami respondia ao pedido dos oitenta deuses:

-   Não me casarei com nenhum de vocês. Eu me casarei com o Okuninushi.

Os oitenta deuses ficaram furiosos e decidiram acabar com o Okuninushi. Chegando ao Monte Tema, eles disseram a ele:

-    Nessa montanha, vive o gande javali vermelho. Nós iremos espantá-lo lá de cima e quando ele descer, você deverá segurá-lo. Se você não o fizer, nós acabaremos com a sua vida.

Assim dizendo, subiram ao topo da montanha, onde pegaram uma rocha em forma de javali, acenderam uma grande chama em volta dela e rolaram-na montanha abaixo.

Quando eles desceram, avistaram Okuninushi preso entre a rocha em chamas e uma árvore, e ele estava morto.

Em vista da grande atrocidade cometida ao bom deus, a Princesa Concha e a Princesa Ostra levaram água do mar e lavaram o corpo do deus. Ele se tornou um belíssimo jovem e se levantou.

Ao avistá-lo vivo, os oitenta deuses novamente enganaram Okuninushi, levando-o para as montanhas, onde o torturaram até a morte.

Seus pais, lamentando mais uma vez a morte de seu filho, devolveram-lhe a vida e disseram:

-    Se você permanecer aqui, será mais uma vez destruído pelos oitenta deuses.

E mandaram-no rapidamente ao palácio do Príncipe da Grande Casa, na terra de Ki. Lá, os oitenta deuses tentaram destruí-lo, e por algum tempo continuaram tentando, mas falharam.

Okuninushi finalmente chegou à terra de Inaba e desposou a Princesa Yakami, que deu-lhe um filho, o deus da Boa Sorte.

Fontes:

sábado, 28 de março de 2026

Beatrix Potter (O conto do esquilo Nutkin)

Uma história para Norah


Esta é uma história sobre um rabo – o rabo de um pequeno esquilo vermelho, chamado Nutkin.

Ele tinha um irmão chamado Twinkleberry e muitos primos: eles moravam em um bosque à beira de um lago.

No meio do lago havia uma ilha coberta de árvores e arbustos de avelã; e entre essas árvores, erguia-se um carvalho oco, que era a casa de uma coruja chamada Old Brown.

Certo outono, quando as nozes estavam maduras e as folhas dos arbustos de avelã estavam douradas e verdes, Nutkin, Twinkleberry e todos os outros esquilos saíram do bosque e foram até a beira do lago.

Eles fizeram pequenas jangadas com galhos e remaram sobre a água até a Ilha da Coruja para colher nozes.

Cada esquilo tinha um saquinho e um remo grande, e abriu o rabo como vela.

Levaram também três ratinhos gordos como presente para o Old Brown e os colocaram na soleira da porta dele.

Então, Twinkleberry e os outros esquilos fizeram uma reverência e disseram educadamente:

"Velho Sr. Brown, o senhor nos daria a gentileza de colher nozes na sua ilha?"

Mas Nutkin era extremamente impertinente. Ele balançava a cabeça para cima e para baixo como uma cerejinha vermelha, cantando:

"Decifra-me, decifra-me, rot-tot-tote!
Um homenzinho, de casaco vermelho!
Um cajado na mão e uma pedra na garganta;
Se você me disser esta charada, eu lhe darei um grão."

Ora, esta charada é tão antiga quanto as montanhas; o Sr. Brown não deu a mínima atenção a Nutkin.

Ele fechou os olhos teimosamente e adormeceu.

Os esquilos encheram seus saquinhos com nozes e voltaram para casa à noite.

Mas na manhã seguinte, todos retornaram à Ilha da Coruja; e Twinkleberry e os outros trouxeram uma bela toupeira gorda e a colocaram sobre a pedra em frente à porta de Old Brown, dizendo:

"Sr. Brown, o senhor nos concederia sua gentil permissão para colhermos mais nozes?"

Mas Nutkin, que não tinha respeito algum, começou a dançar de um lado para o outro, fazendo cócegas no velho Sr. Brown com uma urtiga e cantando:

"Velho Sr. B! Enigma-me-ree!
Hitty Pitty dentro do muro,
Hitty Pitty fora do muro;
Se você tocar em Hitty Pitty,
Hitty Pitty vai te morder!"

O Sr. Brown acordou de repente e levou a toupeira para dentro de casa.

Ele fechou a porta na cara de Nutkin. Logo, um fiozinho azul de fumaça de uma fogueira subiu do alto da árvore, e Nutkin espiou pelo buraco da fechadura e cantou:

"Uma casa cheia, um buraco cheio!
E você não consegue juntar uma tigela cheia!"

Os esquilos procuraram nozes por toda a ilha e encheram seus saquinhos.

Mas Nutkin colheu maçãs-de-carvalho – amarelas e escarlates – e sentou-se num toco de faia jogando bolinhas de gude e vigiando a porta do velho Sr. Brown.

No terceiro dia, os esquilos levantaram bem cedo e foram pescar; pegaram sete peixinhos gordos como presente para Old Brown.

Remaram pelo lago e desembarcaram sob uma castanheira torta na Ilha da Coruja.

Twinkleberry e outros seis esquilos pequenos carregavam um peixinho gordo cada um; mas Nutkin, que não tinha boas maneiras, não trouxe presente nenhum. Ele correu à frente, cantando:

"O homem no deserto me disse:
'Quantos morangos crescem no mar?'
Respondi-lhe como achei melhor:
'Tantos arenques vermelhos quantos crescem na floresta.'"

Mas o velho Sr. Brown não se interessava por enigmas – nem mesmo quando a resposta lhe era dada.

No quarto dia, os esquilos trouxeram um presente de seis besouros gordos, tão bons quanto ameixas em um pudim de ameixa para Old Brown. Cada besouro estava cuidadosamente embrulhado em uma folha de azeda, presa com um alfinete de agulha de pinheiro.

Mas Nutkin cantou tão grosseiramente como sempre:

"Velho Sr. B! charada-me-ra-ra
Farinha da Inglaterra, fruta da Espanha,
Encontraram-se em uma chuva torrencial;
Colocaram-se em um saco amarrado com um barbante,
Se você me disser esta charada, eu lhe darei um anel!"

O que era ridículo da parte de Nutkin, porque ele não tinha nenhum anel para dar a Old Brown.

Os outros esquilos vasculharam os arbustos de nozes; mas Nutkin recolheu alfinetes de pombo-de-peito-ruivo de um arbusto de sarça e os encheu de alfinetes de agulha de pinheiro.

No quinto dia, os esquilos trouxeram um presente de mel silvestre; Era tão doce e pegajoso que eles lamberam os dedos ao colocá-lo sobre a pedra. Tinham-no roubado de um ninho de zangões no topo da colina.

Mas Nutkin saltitava para cima e para baixo, cantando:

"Hum-a-bum! Zum! Zum! Hum-a-bum, zumbido!
Quando passei por Tipple-tine,
Encontrei um bando de porcos bonitos;
Alguns de pescoço amarelo, outros de dorso amarelo!
Eram os porcos mais bonitos
Que já passaram por Tipple-tine.”

O velho Sr. Brown revirou os olhos, desgostoso com a impertinência de Nutkin.

Mas ele comeu todo o mel!

Os esquilos encheram seus saquinhos com nozes.

Mas Nutkin sentou-se em uma grande pedra plana e jogou boliche com uma maçã-brava e pinhas verdes.

No sexto dia, que era sábado, os esquilos voltaram pela última vez; trouxeram um ovo recém-posto em uma cestinha de junco como presente de despedida para Old Brown.

Mas Nutkin correu na frente, rindo e gritando:

"Humpty Dumpty jaz no riacho,
Com uma colcha branca em volta do pescoço,
Quarenta doutores e quarenta carpinteiros,
Não conseguem consertar Humpty Dumpty!"

Então o velho Sr. Brown se interessou por ovos; abriu um olho e o fechou novamente. Mas continuou sem falar.

Nutkin tornou-se cada vez mais impertinente:

"Velho Sr. B! Velho Sr. B!
Hickamore, Hackamore, na porta da cozinha do Rei;
Nem todos os cavalos do Rei, nem todos os homens do Rei,
Conseguiram expulsar Hickamore, Hackamore,
da porta da cozinha do Rei."

Nutkin dançava de um lado para o outro como um raio de sol; mas Old Brown continuava sem dizer absolutamente nada.

Nutkin recomeçou:

"Arthur O'Bower rompeu seu bando,
Ele vem rugindo pela terra!
O Rei dos Escoceses, com todo o seu poder,
Não consegue deter Arthur do Bower!"

Nutkin fez um ruído estridente para imitar o vento e deu um salto em cima da cabeça de Old Brown!...

Então, de repente, houve um bater de asas, uma confusão e um grito alto!

Os outros esquilos correram para os arbustos.

Quando voltaram com muita cautela, espiando por trás da árvore, lá estava Old Brown sentado no degrau da porta, completamente imóvel, com os olhos fechados, como se nada tivesse acontecido.
* * * * *

Mas Nutkin estava no bolso do colete dele!

Parece o fim da história; mas não é.

Old Brown carregou Nutkin para dentro de casa e o segurou pelo rabo, com a intenção de esfolá-lo; Mas Nutkin puxou com tanta força que seu rabo se partiu em dois, e ele disparou escada acima e escapou pela janela do sótão.

E até hoje, se você encontrar Nutkin em cima de uma árvore e lhe fizer uma charada, ele jogará gravetos em você, baterá os pés, resmungará e gritará:

"Cuck-cuck-cuck-cur-r-r-cuck-k-k!" 
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HELEN BEATRIX POTTER (Londres, 1866 — Lakeland/Inglaterra, 1943) foi uma escritora, ilustradora, micologista e conservacionista inglesa, célebre por seus livros infantis de grande originalidade e valor intemporal. Sua obra mais famosa é A História do Pedro Coelho. Ela estudou em casa e recebeu das governantas uma educação vitoriana.  O Coelho Benjamim foi uma das primeiras personagens que Beatrix Potter vendeu a uma editora. Beatrix começou por ilustrar contos tradicionais como "Cinderela", "A Bela Adormecida", "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", "O Gato das Botas" etc, mas muitas das suas ilustrações incluíam os seus animais de estimação. Beatrix Potter teve bastantes dificuldades em encontrar uma editora que publicasse as suas histórias. Depois de receber várias cartas de rejeição, ela decidiu tratar do assunto sozinha e criou um livro pequeno a preto e branco com a histórias dos quatro coelhinhos e publicou 250 cópias do mesmo que pagou com o seu próprio dinheiro. Frederick Warne & Co, que já tinha rejeitado as histórias de Beatrix, decidiu publicar o que apelidou de "livro dos coelhinhos". A mudança de posição deveu-se ao fato de a editora querer entrar no mercado dos livros infantis de formato pequeno. A História do Pedro Coelho foi publicado em 1902 e foi um enorme sucesso, vendendo 20 000 cópias até ao Natal desse ano. No ano seguinte, foram publicados A História do Esquilo Trinca-Nozes e O Alfaiate de Gloucester. Nos anos seguintes, Beatrix trabalhou com o editor Norman Warne e publicou entre dois e três livros de formato pequeno todos anos, atingindo um total de 23 obras publicadas na sua carreira. Em 1905, Beatrix e Norman Warne, o seu editor, ficaram noivos. O noivado foi mantido em segredo pois a família de Beatrix desaprovava um noivo que vivia de sua profissão de editor, por considerá-lo de classe inferior. Tragicamente, em 25 de agosto de 1905, um mês depois do pedido, Norman morreu de leucemia, quando tinha 37 anos. Isso deixou Beatrix devastada, mas ela fez o máximo para superar esse momento difícil, trabalhando ainda mais do que o costume. Em 1913, aos quarenta e sete anos, Beatrix casou-se com William Heelis, um procurador local, e foi morar em Sawrey. Ela passou a desenhar e a escrever menos, dedicando-se às atividades da fazenda, à criação de carneiros e a comprar muitas terras em Lakeland, para preservá-las. Quando Beatrix Potter morreu, em 1943, deixou mais de 4 000 acres e 15 fazendas para o National Trust, uma organização destinada a preservar lugares de interesse histórico ou de grande beleza cênica, na Inglaterra. Beatrix e William tiveram um casamento feliz que durou trinta anos. Apesar de não terem filhos, Beatrix era um elemento importante da família de William e teve uma relação muito próxima com as suas sobrinhas, que ajudou a educar. Beatrix faleceu em 1943, devido a uma pneumonia e complicações cardíacas em sua residência, chamada Castle Cottage, localizada em Lake District. Os seus restos mortais foram cremados. O seu marido continuou cuidando das propriedades e do trabalho literário e artístico da esposa até à sua morte, em agosto de 1945. Em 2006, a vida de Beatrix Potter foi transformada em um filme, Miss Potter, com Renée Zellweger e Ewan McGregor como protagonistas. 

Fontes:
Biografia =https://pt.wikipedia.org/wiki/Beatrix_Potter
Beatrix Potter. The Tale of Squirrel Nutkin, publicado originalmente em 1903. Tradução por José Feldman. Disponível em Domínio Público.