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quarta-feira, 25 de março de 2026

Leonardo da Vinci (A Figueira)


Era uma vez uma figueira que não dava frutos. Todos passavam por ela sem olhá-la.

Durante a primavera as folhas cresciam, mas quando chegava o verão, e as outras árvores estavam carregadas de frutos, nada aparecia em seus galhos.

- Eu gostaria tanto que me apreciassem! - suspirou a figueira - queria só produzir frutos como as outras árvores!

Tentou e tornou a tentar até que, em certo verão, viu-se carregada de figos. O Sol fez os figos crescerem e incharem, tornando-os doces e perfumados.

Todos repararam nisso. Jamais alguém tinha visto uma figueira tão carregada de frutos. E imediatamente houve uma correria para ver quem colhia mais figos. Subiram pelo tronco. Curvaram os galhos mais altos com varas compridas e o peso das pessoas fez com que alguns ramos ficassem partidos. Todos tentavam roubar os deliciosos figos, e em breve a pobre figueira viu-se toda torta e quebrada.

Moral da Estória:
Portanto, àqueles que querem chamar a atenção pode acontecer, para sua desgraça, receberem mais do que desejam.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual.

Fontes:

quarta-feira, 18 de março de 2026

Contos e Lendas do Mundo (Vietnã) O Anjo que se Tornou um Búfalo


Quando o planeta Terra foi criado, a terra era vazia. Não havia, plantas, árvores, ou vegetação alguma. O homem tinha uma vida muito dura e mesmo assim, não era capaz de produzir o suficiente para a sua própria alimentação. Às vezes, comia a cada três dias, às vezes, a cada cinco ou seis dias. Estava sempre faminto, embora trabalhasse dia e noite. A verdade é que o homem era digno de piedade.

O Imperador Celeste sentia muito pela dificuldade do homem, e além de desejar prover alimento, também desejava tornar o planeta mais bonito. Então, pensou por algum tempo e fez seu plano. Ele reuniu todos os seus anjos no palácio, e disse:

-   Quem, dentre todos vocês, deseja me ajudar a levar alegria aos homens da Terra, que estão vivendo em terrível dificuldade?

Um dos anjos, chamado Kim Quang, rapidamente se fez voluntário e, com grande interesse, ofereceu concretizar o plano do Imperador Celeste.

Assim, O Imperador Celeste entregou a Kim Quang duas cestas pesadas, presas a ambos os lados de uma vara de bambu. Uma das cestas estava cheia de grãos de arroz e a outra, de grama. O Imperador instruiu Kim Quang a plantar primeiramente todos os grãos de arroz na terra, e o espaço que houvesse ficado vazio, deveria ser cultivado com a grama da outra cesta.

-    Se você fizer exatamente o que lhe disse, eu te recompensarei. Mas, se você desobedecer minha ordem, eu certamente te punirei.

Kim Quang rapidamente concordou com as condições e seguiu em direção à Terra.

Chegando lá, ele plantou toda a grama, que cresceu bela e rapidamente pela superfície da Terra. Quando o anjo distraído se deu conta da ordem que havia recebido, já era tarde demais para reparar o dano, pois havia sobrado uma pequena área de campo para plantar os grãos de arroz.

Descobrindo o que havia acontecido na Terra, o Imperador Celeste irou-se com a incompetência de seu anjo. Então, com seus poderes mágicos, transformou Kim Quang em um búfalo, para que pudesse reparar o solo para o plantio. Ele prometeu ao búfalo que quando ele tivesse removido toda a grama do solo para que este fosse cultivado com alimento, ele poderia voltar aos Céus e tornar-se um anjo novamente.

Mas, aquele dia nunca chegou…

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

terça-feira, 17 de março de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (O fim de Jafar e dos Baramikas)


Esta, ó afortunado rei, é uma história triste que desfigura o reino do califa Harun Al-Rachid com uma mancha de sangue que nem os quatro rios serão capazes de lavar. Sabe-se, ó rei do tempo, que Jafar era um dos quatro filhos de Yahia Ibn Khaled Ibn Barmak. Seu irmão mais velho, Al-Fadl, era irmão de leite do califa. Sua mãe, Itabah, e a mãe do califa eram ligadas por profundo afeto, e cada uma deu ao filho da outra algum de seu leite. Harun Al-Rachid sempre chamava Al-Fadl de “meu irmão.” 

Os Baramikas tinham sua origem na cidade de Balkh, no Khorassan, onde ocupavam altas posições. Mudaram-se para Damasco uns cem anos após a Hégira do Profeta (sobre ele a oração e a paz) e lá abraçaram o islã. Foi na época dos califas Abássidas em Bagdá que a família foi admitida aos Conselhos da corte. Khaled Ibn Barmak foi nomeado grão-vizir pelo califa Abul-Abbas As-Saffah. Na luta que opôs Al-Hadi a Harun Al-Rachid pelo trono, os Baramikas arriscaram a vida em defesa de Ar-Rachid, e quando este venceu e subiu ao trono, nomeou imediatamente Yahia grão-vizir e seus dois filhos, Al-Fadl e Jafar, vizires. 

A partir desse começo, os Baramikas conheceram todos os favores do destino e mostraram-se dignos deles. Eram como mares de generosidade, um refúgio para os aflitos, um ornamento sem igual na coroa do Império. Eram também administradores hábeis (encheram o tesouro público) e sábios conselheiros. Foi graças a eles que a glória de Harun Al-Rachid ressoou desde os planaltos da Ásia Central até as florestas nórdicas, e desde o Marrocos e a Andaluzia até a China e a Tartária. Jafar, em particular, era companheiro inseparável do califa, uma luz em seus olhos. 

Um dia, Harun Al-Rachid, voltando de uma peregrinação a Meca, navegou pelo Eufrates da cidade de Hira até a cidade de Âmbar e passou a noite no mosteiro de Al-Umr, às margens do rio. Jafar não estava com ele, tendo ido caçar por alguns dias nas montanhas do norte. Contudo, mensagens e presentes do califa seguiam-no em toda parte.

Naquela noite, Jafar estava sentado na sua tenda com Jibril - o médico pessoal de Ar-Rachid que o próprio califa encarregara de zelar pela saúde de Jafar - e o poeta espirituoso Abu-Zahar, também encarregado pelo califa de divertir seu amigo predileto. 

De repente, Masrur, o porta-espada do califa e instrumento de suas vinganças, entrou na tenda sem pedir licença. Jafar ficou pálido e disse ao eunuco: “Masrur, meu irmão, bem sabes que tenho sempre prazer em receber-te, mas espanta-me ver-te chegar assim bruscamente sem despachar um escravo para anunciar a tua chegada.” 

Retrucou o eunuco: “O assunto que me traz é grave demais para que me preocupasse com tais formalidades. Levanta-te, Jafar, e proclama tua fé pela última vez. O Comandante dos .Fiéis exige a tua cabeça.” 

Jafar pôs-se de pé e disse: “Não há Deus senão Alá, e Maomé é o profeta de Alá. Saímos das mãos de Alá, e cedo ou tarde a ele regressamos.” 

Depois, voltou-se para Masrur, que sempre fora seu amigo e companheiro, e disse-lhe: “Não é possível que o califa te tenha dado tal ordem, estando consciente do que fazia. Talvez estivesse distraído ou bêbado. Por favor, volta a ele, e verás que terá mudado suas ordens.” 

Retrucou Masrur: “É tua cabeça ou a minha. Não posso voltar sem cumprir as ordens. Registra teus últimos desejos.” 

– Nada desejo. Possa Alá acrescentar à vida de nosso soberano os anos que me está tirando.

Ajoelhou-se, cobriu os olhos com as próprias mãos, e Masrur cortou-lhe a cabeça. Masrur levou a cabeça ao califa, e este cuspiu sobre ela. Mas seu ressentimento não parou aí. Mandou crucificar o corpo e expor a cabeça separada. Seis meses depois, mandou queimar os restos de seu antigo amigo sobre excrementos de animais e lançar as cinzas nas latrinas. Tais suplícios ultrapassavam em degradação os aplicados aos mais vis malfeitores. 

Tal foi o fim de Jafar. Seu pai, Yahia, quase um pai também para Harun Al-Rachid, e seu irmão Al-Fadl, irmão de leite do califa, foram detidos na manhã que se seguiu à execução de Jafar, assim como todos os mil membros da família dos Baramikas, que ocupavam cargos públicos. Foram encarcerados em calabouços infectos; seus bens, confiscados; seus filhos e mulheres, deixados sem teto. Alguns morreram de fome. Outros foram estrangulados. Yahia e Al-Fadl morreram torturados. 

É natural que se pergunte: “O que motivou tamanha vingança?” Certo dia, anos após o fim dos Baramikas, Alia, filha mais jovem de Harun Al-Rachid, criou coragem e dirigiu-lhe a pergunta. Respondeu: “Minha filha, meu único consolo, de que te adiantaria conhecer o motivo? O fato é que se eu pensasse que a minha camisa descobriu esse motivo, rasgá-la-ia em pedaços.”

Os historiadores têm adiantado várias hipóteses e interpretações. Eis algumas delas:

1. Harun Al-Rachid acabou por sentir-se ofendido pelas extravagantes liberalidades de Jafar e dos demais Baramikas. O palácio dos Baramikas (que se levantava em frente ao palácio do califa, sendo os dois separados apenas pelo rio Tigre) era mais procurado que o palácio real por cortesãos e solicitantes. Jibril, o médico do califa, ouviu-o certa vez resmungar: “Yahia e seus filhos arrancaram das minhas mãos a administração meu reino. São eles o poder real. Eu sou apenas um figurão.”

2. Outros historiadores põem em relevo o fato de que certa vez Harun Al-Rachid mandou liquidar em segredo um descendente de Ali e de Fátima, a filha do Profeta, descrevendo-o como “um perigo para a dinastia dos Abássidas.” Jafar teve pena do homem e salvou-o sem informar o califa. Mas inimigos de Jafar revelaram-lhe o fato. Dizem que foi essa a gota d”água que fez transbordar a maré de cólera já provocada e aumentada pela predominância dos Baramikas. Alguém ouviu o califa jurar: “Que Alá me destrua se não te destruir, ó Jafar!”

3. Outros historiadores atribuem a queda dos Baramikas a suas opiniões heréticas em face do islã ortodoxo. Na sua cidade de origem, Balkh, os Baramikas praticavam a religião dos magos, e sempre impediram que os templos daquela religião fossem destruídos. O califa foi informado disso e de que os Baramikas favoreciam certo grupo de heréticos, os Zanádikas, que eram inimigos pessoais do califa.

4. Outros cronistas relatam uma história estranha como sendo a causa daquela vingança terrível. Como já vimos, Harun Al-Rachid gostava de Jafar como de um irmão, e não poderia viver separado dele. Gostava também de maneira excêntrica de uma irmã chamada Abbassa. Dela também não aguentava separar-se. Para ter essas duas criaturas sempre perto dele, pediu a Jafar para casar-se com Abbassa sem nunca consumar esse casamento. Marido e mulher diante da lei, eles só podiam encontrar-se na presença do califa e nem lá era-lhes permitido olhar livremente um para o outro.

Ora, Abbassa apaixonou-se por Jafar e, usando ciladas, passou a encontrar-se com ele em segredo. Tiveram até um filho que mandaram esconder em Meca. Invejosos revelaram a verdade ao califa. Ele foi até Meca à procura de provas e conseguiu localizar o menino. Uma raiva incontida, feita de mil elementos, dominou-o. Foi na volta daquela viagem que mandou Masrur dar início à destruição dos Baramikas. Foi também então que mandou trazer para Bagdá aquele menino e sua mãe. Foram sepultados vivos em sua própria casa.

Após tudo isso, remorsos angustiantes tomaram conta dele. Não podia mesmo viver sem Jafar.
Abandonou Bagdá e instalou-se em Rakah. Ninguém ousava falar dos Baramikas na sua presença. Pouco a pouco, tornou-se vítima de alucinações. Imaginava que seus próprios filhos, Al-Amim e Al-Mamun, conspiravam contra ele, em conivência com seu médico Jibril e com o próprio Masrur.

Dizia: “Era invejado pelo mundo todo. Agora o mundo todo pode ter pena de mim.”

Morreu na cidade de Tus na idade de quarenta e sete anos.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Hans Christian Andersen (A mala encantada)


Era uma vez um mercador tão rico que poderia calçar a rua inteira com ouro, e ainda lhe sobraria para uma travessa. Mas ele não fez nada disso não! Ele sabia como havia de empregar o dinheiro com melhores resultados: quando gastava dez øre
(equivale aos centavos), ganhava no negócio uma coroa (moeda dinamarquesa), de tão atilado negociante que era. Mas um dia morreu.

Ficou todo o dinheiro para o filho, que resolveu viver à larga, indo às festas todas as noites, e desperdiçando a fortuna de mil modos: fazia pandorgas de notas de banco, e brincava n praia, atirando pedaços de notas do banco, e brincando na praia, atirando pedaços de ouro aos patos e gansos, em vez de atirar pedrinhas. Com tal sistema, o dinheiro não podia durar muito, e não durou mesmo. Chegou o dia em que nada mais tinha de seu, a não ser quatro coroas; de roupas, só lhe ficou um roupão velho e um par de chinelos. Ora, os amigos não se importavam mais com ele. Visto que, com aqueles trajes, não podiam mais andar em sua companhia; mas um deles, que tinha bom coração, mandou-lhe uma mala velha, com este bilhete: " Para guardares as tuas coisas"

Foi muito bonito esse gesto; mas o rapaz não tinha nada para guardar, e resolveu meter-se dentro da mala. 

Ora, a mala era uma mala extraordinária: quando a gente apertava a fechadura, ela saía voando. E ele apertou a fechadura, e - zzzz! ...lá se foi a mala voando, com ele dentro, acima das chaminés, acima das nuvens, e mais longe, e mais longe! De vez em quando o fundo da mala estalava, e ele estava com muito medo de que ela se despedaçasse, porque então - oh! que tombo levaria! Por fim chegou à terra dos turcos. Escondeu a mala no mato, cobriu-a com folhas secas, e foi para a cidade. Não era nada de admirar que andasse naqueles trajes: todos os turcos andam vestidos assim, de roupão e chinelos.

Encontrou uma ama com um nenê, e perguntou-lhe:

- Escuta, ama! Que castelo tão grande é aquele, perto da cidade, com as janelas tão altas?

- Naquele castelo mora a filha do sultão. Profetizaram que ela há de ser muito infeliz por causa de um namorado, por isso ninguém pode visitá-la, a não ser em companhia do sultão e da sultana.

O filho do mercador, depois de lhe agradecer a informação, voltou à mata, meteu-se na mala e voou para o teto . Depois foi carregando, e entrou no quarto da princesa pela janela.

Estava a moça dormindo no sofá, era tão bela que ele não pode resistir ao desejo de beijá-la. Acordou a princesa, e ficou muito assustada, mas ele lhe disse que era um profeta dos turcos que descera do céu para vê-la - o que muito a lisonjeou.

O filho do mercador sentou-se ao lado dela, e contou-lhe histórias; falou-lhe dos seus olhos: disse-lhe que eram lagos escuros e profundos - e os mais lindos que já vira, e que os pensamentos dela ali flutuavam, como sereias. E falou-lhe de sua fronte, que era uma montanha de neve, adornada das mais belas pinturas. Contou-lhe também que as cegonhas trazem das profundezas dos rios as criancinhas mais lindas. Contou-lhe, enfim, tantas e tantas histórias! E cada qual mais linda… Sim: eram lindas, aquelas histórias! No fim perguntou-lhe se ela queria se casar com ele; e a princesa respondeu imediatamente:

- Sim. Mas tens de vir aqui no sábado. O sultão e a sultana virão tomar chá comigo, e ficarão muito orgulhosos, quando souberem que vou casar com um profeta. Mas terás de contar uma história muito bonita, porque meus pais gostam muito de contos. Minha mãe gosta mais das histórias sérias, e cheias de moral, mas meu pai aprecia as que o fazem rir.

- Pois bem: meu presente de noivado será então uma história!

Antes de se separarem, deu-lhe a princesa um sabre, cuja bainha era toda cravejada de moedas de ouro, presente de grande utilidade para o filho do mercador.

Foi-se o noivo, voando; comprou um roupão novo e sentou-se na mata, para preparar uma história. Tinha de contá-la no sábado, e não era lá tarefa muito fácil!

Quando chegou ao remate dela era já sábado. O sultão, sua mulher e toda a corte estavam no palácio, para tomar chá com a princesa. E ele foi recebido com muita gentileza.

- Quer o senhor ter a bondade de nos contar uma história? - perguntou a sultana. - Uma história edificante e de conceitos profundos.

- Sim - aprovou o filho do mercador - e com muito prazer.

E começou.

" Era uma vez um maço de fósforos, cheios de orgulho de sua alta linhagem. Sua árvore genealógica - quero dizer, o grande pinheiro, de que eram lascas pequeninas - fora de fato um gigante da floresta. Os fósforos ali estavam agora, em uma prateleira da cozinha, entre um isqueiro e um velho caldeirão de ferro. E conversavam, falando da mocidade.

“- Sim - diziam eles - quando nós éramos uma árvore viva - porque já fomos um galho verde! - tomávamos todos os dias, de manhã e à noitinha, chá de diamantes, isto é, de gotas de orvalho. Todo o dia o sol brilhava para nós, e todos os passarinhos da mata nos contavam histórias. Via-se logo que éramos muito ricos, porque as outras árvores só se vestiam no verão, ao passo que a nossa família tinha recursos suficientes para usar também no inverno trajes verdes. Um dia apareceram os cortadores; houve uma revolução, e a nossa família foi toda dispersada. O chefe da tribo obteve um lugar de mastro grande em um esplêndido navio, que podia fazer a volta do mundo, se quisesse; os outros ramos foram para lugares diferentes, e tocou-nos a incumbência de produzir luz para pessoas vulgares. E aí está explicado como foi que, apesar de toda a nossa aristocracia, viemos parar na cozinha!

“- Meu destino foi diferente - disse o caldeirão de ferro, que estava perto dos fósforos. - Desde o princípio, desde que vim ao mundo, meu tempo se passa sempre do mesmo modo: ou estou sendo esfregado, ou estou fervendo. É que procuro sempre a parte prática, e sou de fato a pessoa mais importante da casa. Meu maior prazer é, depois do jantar, ver-me sentado na prateleira, bem areado, bem lustroso; dou então dois dedos de conversa com meu vizinhos: mas, a não ser o balde d'água, que de vez em quando desce ao pátio, todos nós aqui vivemos sempre de portas a dentro. O único noveleiro é o cesto do mercado; mas esse fala muito mal do governo, e de todo o mundo. Sim! Um dia destes uma panela velha caiu, de puro susto, e ficou em cacos. Ela era liberal, com toda a certeza! Nisto o isqueiro o interrompeu:

“- Já estás falando demais!

“E o aço tiniu  na pederneira, e voaram faíscas. Mas o isqueiro continuou a falar:

“- Não poderíamos ter uma reunião mais alegre? 

“- Sim, sim! - disseram logo os fósforos. - Vamos ver quem é aqui que pertence à família mais aristocrática!

“- Não; eu não gosto de falar de mim - disse uma panelinha de barro. Vamos antes organizar um serão divertido! Eu começo: contarei uma história da vida real; falarei de coisas que todos nós já experimentamos, e serão por isso mesmo mais fáceis de compreender. Isso sim, é coisa de que todos gostam. Vou começar: No Mar Báltico, perto da costa dinamarquesa...

“- Que lindo começo! - exclamaram os pratos. - Todos nós vamos gostar dessa história!

“- Sim, isso aconteceu na minha mocidade, quando eu morava com uma família muito sossegada; os móveis eram encerados, o soalho esfregado e as cortinas mudadas de quinze em quinze dias.

“- Que boa contadora de histórias! - disse a vassoura. - Logo se vê que é uma mulher quem está contando: destila limpeza!

“- Sim, sente-se isso -  disse o balde.

“E, de pura alegria, deu um salto, que retiniu no soalho. A panelinha continuou a sua história, cujo fim era quase igual ao começo. Todos os pratos batiam palmas de alegria, e a vassoura coroou a panelinha: foi procurar um ramo de salsa murcha e veio depositá-lo, como se fosse uma coroa, na panelinha - porque sabia que com isso enraivecia os outros. E pensava lá consigo: –    Assim ela também me coroará amanhã!

“- Agora vou dançar! - disse a tenaz.

“Valha-me Deus! Como erguia a perna! A almofada velha chegou a cair da cadeira, quando viu aquilo. E a tenaz pensava, enquanto ia dançando:
 
“- Serei também coroada?

 “E, de fato, concederam-lhe uma coroa.

“Mas os fósforos pensavam:

“- Afinal todos eles são gente da plebe!
 
“Agora o bule de chá devia cantar, mas declarou que estava resfriado. Pura desculpa! É que ele não queria cantar, senão quando se via na mesa da sala de visitas.

“No peitoril da janela havia uma velha pena de pato, com que a criada costumava escrever. Não tinha nada de notável, a não ser o fato de ter sido mergulhada muito fundo no tinteiro, mas a pena até se sentia orgulhosa disso. E ela então falou:

“- Se o bule de chá se faz de rogado, não importa. Ali fora está pendurada uma gaiola com um rouxinol, e ele pode cantar. Não aprendeu nada de especial, é claro, mas nós hoje não vamos ser muito exigentes, não é?

“- Pois eu acho isso muito mal feito - acudiu a  chaleira, que era  a cantadeira da cozinha, e meia irmã do bule de chá. - Cantar aqui, aquele passarinho rico e de mais a mais estrangeiro! Então isso é patriótico? Vamos ouvir a opinião de cesto de mercado.

“- Estou muito aborrecido - disse ele. - Ninguém pode imaginar como estou aborrecido! Pois então isso é maneira de se passar um serão? Não seria muito mais acertado por a casa em ordem? Vamos ! Que cada um vá para o seu lugar, e eu dirigirei o jogo. E vão ver como vai se diferente!

“- Sim, Sim! - gritaram todos. - Vamos fazer uma fila! 

“Naquele instante abriu-se a porta e entrou a criada, ficaram todos quietos, ninguém piou! Naquele silêncio, não havia uma só panela que não estivesse certa de sua capacidade, e não se reconhecesse com a pessoa de mais espírito entre todas as do grupo. E cada um pensava lá consigo: – Se fosse por mim, teríamos tido uma reunião muito divertida!

“A criada riscou um fósforo: Misericórdia! Como estalava! Como ardeu a chama! E o fósforo pensava: - Ah! Agora todos estão vendo  que somos nós os primeiros! Como eu brilho! Que luz espalho!"...

“E apagou-se!"

 - Que história esplêndida! - disse a sultana.- Eu me senti transportada para a cozinha, para junto dos fósforos! Agora tu casarás com a nossa filha!

- Certamente! - disse o sultão. - Tu casarás com ela na segunda -feira!

Já lhe diziam tu, porque ele ia pertencer à família.

Ficou assim resolvido ali o casamento, e na véspera a cidade foi toda iluminada: atiravam à rua, para que o povo os apanhasse, biscoitos e bolos, os moleques punham-se nas pontas dos pés, e gritavam: " Viva! Viva!" e assobiavam nos dedos. Foi um esplendor fora do comum.

- Acho que também devo fazer alguma coisa - pensou o filho do mercador.

Comprou uma boa porção de foguetes, busca-pés, e toda a espécie de fogos de artifício, meteu tudo na mala e saiu voando pelos ares.

" Crrraaac!" Como voava tudo aquilo! E como se acabava depressa!

Os turcos davam saltos, àquela visão, e suas chinelas voavam a grande altura. Nunca tinham visto uma nuvem de meteoros assim! Viam agora, sem sombra de dúvida, que era mesmo um profeta o que ia casar com a princesa!

Assim que o filho do mercador se achou de novo no mato com a sua mala, pensou:

- Vou até a cidade, para ouvir o que lá dizem do espetáculo.

Era um desejo muito razoável, aquele. Mas que histórias o povo contava! Cada uma das pessoas com quem falou tinha ideia diferente, mas todos eram, em um ponto, de um só parecer: o espetáculo fora esplêndido!

- Eu vi o próprio profeta - dizia um. - Seus olhos brilhavam como estrelas, e a barba parecia um nevoeiro!

- Ele estava envolto em um manto de chamas - dizia outro. - Entre as dobras do seu manto espiavam cabecinhas de anjos, o que há de mais lindo no mundo!

Assim foi que o filho do mercador só ouviu louvores e coisas agradáveis, e no dia seguinte ia casar. Voltou para a mata, com a ideia de descansar dentro da mala; mas - que fora feito dela? Uma faísca dos fogos de artifício a incendiara, e mala ficou reduzida a cinzas. e agora ele não podia mais voar, nem mesmo para ir buscar a noiva!

E lá ficou a princesa o dia inteiro, sentada no teto, esperando. E ainda lá está, à espera do noivo, que anda a esta hora correndo mundo, a contar histórias de fadas.
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (Um parasita modelo)


Conta-se que o califa Al-Ualid, filho de Iazid, da dinastia dos Omaiadas, comprazia-se na companhia de um certo comilão cujo nome passou a caracterizar a profissão dos parasitas, que se convidam a si mesmos a bodas e banquetes. O nome desse famoso comilão era Tufail dos Festins. Ao lado de sua gula, o homem era inteligente, culto, espirituoso, cínico, com boas réplicas e atitudes simpáticas. Foi ele que estabeleceu o código do bom parasita nestes versos:

Aquele que for convidado a uma festa 
deve comportar-se com a segurança 
de um dominador;
entrar com ar alegre e ocupar o melhor lugar
sem prestar atenção a ninguém 
para que cada conviva o considere 
um homem de importância; 
desprezar os pratos como indignos 
de tão alto personagem;
e, contudo, manobrar para ter perto de si 
o melhor vinho e os melhores cigarros; 
e enquanto trinchar e engolir os frangos 
pedaço a pedaço,
lançar olhares de homem superior,
rodeado por homens que não lhe chegam da altura.

Certa vez, um mercador de projeção convidou alguns amigos a um jantar de peixes selecionados. Quando a voz bem conhecida de Tufail foi ouvida falando ao porteiro, um dos convivas exclamou: “Alá nos proteja do parasita. Escondamos pelo menos esses peixes maiores e só deixemos nas bandejas os peixes menores. Depois de ter ele engolido estes peixes e ido embora, daremos prosseguimento a nossa festa.” 

Quando, após saudar os presentes, Tufail se sentou à mesa, satisfez-se com uma insignificante fatia de peixe. Os convivas alegraram-se e perguntaram-lhe: 

“Bem, mestre Tufail, o que achas destes peixes? Não parecem agradar-te.” 

- Há muito tempo que estou de relações cortadas com o mundo dos peixes. Mais ainda, detesto-os. Meu pai morreu afogado no mar, e esses selvagens o devoraram. 

- Aí tens a ocasião de vingar-te deles, comendo-os por tua vez, disseram vários convivas. 

-Tendes razão, mas esperai um instante. Apanhou um peixe magricela e aproximou-o do ouvido, parecendo escutar sua conversa. 

- Sabeis o que este pedacinho de peixe está me dizendo? perguntou finalmente aos demais. 

- Por Alá, como iremos saber? responderam. 

Disse Tufail: “Está me dizendo: “Eu não tinha ainda nascido quando teu pai foi devorado no mar. Se quiseres vingá-lo, ataca os peixes grandes que se refugiaram lá no canto. Foram eles que se jogaram sobre o santo homem e o devoraram.” 

O anfitrião e seus convidados se deram conta de que o olfato treinado do parasita havia localizado os peixes e desmascarado a malícia dos que queriam enganá-lo. Não vendo escapatória, preferiram rir gostosamente, e trouxeram a bandeja escondida para a mesa, dizendo ao parasita: 

“Come, em nome de Alá. E tomara que sofras uma terrível indigestão”.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Irmãos Grimm (Os meninos de ouro)


Havia, certa vez, um homem e uma mulher muito pobres, que nada possuíam além de uma choupana e apenas se alimentavam com o que ele pescava. 

Um dia, ao tirar a rede da água, o pescador encontrou um peixe todo de ouro. Enquanto o olhava, o peixe, para maior surpresa sua, começou a falar:

- Escuta, pescador! Se me devolveres à água, transformarei tua choupana num palácio maravilhoso.

- Que  me adianta um palácio - respondeu-lhe o homem - se nada tenho para comer?

E o peixe tornou a falar:

- Tratarei disso, também. No palácio haverá um armário e, sempre que o abrires, estará cheio de pratos com manjares deliciosos, tantos quantos desejares.

- Se assim for - disse o  homem - poderei atender teu pedido.

- Bem - continuou o peixe - mas há uma condição. A ninguém neste mundo, seja quem for, poderás  contar de onde veio a fortuna. Se disseres uma só palavra, tudo  desaparecerá.

O homem atirou o peixe maravilhoso na água e voltou para casa. E eis que, onde antes se erguia sua choupana, havia agora, um grande  palácio. 

O pescador arregalou os olhos de espanto, e, ao entrar, viu sua mulher toda enfeitada, com vestido novo, sentada num salão magnífico! Ela indagou, radiante:

- Como aconteceu isso, marido? Confesso que tudo me agrada muitíssimo.

- Sim - respondeu-lhe o homem - e a mim também; mas estou com fome. Dá-me algo para comer.

- Nada tenho - afirmou ela - e nada consigo encontrar na nova casa.

- Que isso não seja empecilho! - exclamou o homem. - Vejo ali um armário grande . Abre-o.

Ela abriu o móvel e apareceram bolo, carne, frutas e vinho; tudo tão apetitoso que era um gosto ver.

- Coração, que mais podes desejar? - exclamou, alegremente, a mulher.

Sentaram-se e comeram e beberam à vontade. depois de satisfeitos, ela indagou:

- Mas de onde vem toda essa fartura, marido?

- Não me perguntes - respondeu ele. – Não posso dizer-te. Se eu te disser, nós perderemos tudo.

- Bem - concordou a mulher. - Se não devo saber, não insisto.

Mas só dizia isso da boca para fora; daí por diante tanto insistiu e incomodou o marido que este, perdendo a paciência, acabou revelando que tudo aquilo lhes vinha de um peixe de ouro, prodigioso, que ele tinha pescado e ao qual devolvera a liberdade.

Mal terminou de pronunciar as últimas palavras, o belo palácio, com seu armário e tudo o mais, desapareceu e os dois se viram, novamente, na velha choupana de pescadores.

O homem não teve outro remédio senão prosseguir na sua profissão, a pesca. mas a sorte não o abandonava e ele tornou a apanhar o peixe de ouro.

- Escuta! - disse este. - Se me jogares outra vez à água, eu te devolvo o palácio com o armário cheio de assados e cozidos; mas deves ficar firme e não revelar de que modo isso aconteceu; caso contrário, perderás tudo.

- Terei toda a cautela! - prometeu o pescador e jogou o peixe à água.

Quando chegou em casa, encontrou tudo, de novo, em grande esplendor, e sua  mulher encantada com a sorte. Mas a curiosidade não a deixava sossegada e, passados alguns dias, já estava ela indagando, outra vez, como acontecera aquilo e a quem deviam aquela felicidade. 

Por algum tempo o homem manteve firme, mas, por fim, exasperado com a insistência da mulher, não se conteve e revelou o segredo.

No mesmo instante o palácio, desapareceu e ambos se viram, novamente, dentro da velha choupana.

- Estás vendo?! - gritou o homem.- Agora tornaremos a passar fome!

- Ora exclamou a mulher. - Prefiro não ter riquezas se não posso saber de onde vem elas!

O homem voltou à pesca e, passado algum tempo, o destino assim havia disposto, apanhou o peixe de ouro pela terceira vez.

- Escuta aqui! - falou o peixe.- Vejo que hei de cair sempre em tuas mãos. Leva-me para tua casa e corta-me em seis pedaços. Dois deles darás à tua esposa para comer; outros dois a teu cavalo e os restantes dois, enterrarás no quintal. de todos eles hás de conseguir coisas que nem imaginas!

O homem levou o peixe para casa e fez como lhe havia ordenado. pouco depois aconteceu que, dos dois pedaços plantados no quintal, brotaram dois lírios de ouro; a égua teve dois potrinhos de ouro e a mulher deu à luz dois meninos, também de ouro.

As crianças cresceram, tornando-se uns belos rapazes e, como eles os lírios e potros também se desenvolveram. Certo dia os dois jovens disseram:

- Pai, vamos montar nossos cavalos de ouro e sair a correr mundo.

O pescador ficou muito triste e lhes respondeu:

- Que será de mim se forem embora e eu ficar sem notícias de vocês?

- Os dois lírios de ouro ficarão aqui- disseram os rapazes. - Por meio deles saberás como passamos; enquanto estiverem viçosos, estaremos gozando de boa saúde; se murcharem, é que estamos doentes e, se caírem do galho , é sinal de que morremos.

Puseram-se a caminho e chegaram a uma hospedaria cheia de gente. Quando viram os jovens de ouro, começaram a rir e divertir-se à custa deles. Um dos irmãos, ao ouvir  as pilhérias, envergonhou-se e, desistindo de correr mundo, voltou à casa paterna. O outro, porém, seguiu adiante e chegou a uma floresta imensa. 

Dispunha-se a passar por ela, quando as pessoas do lugar lhe avisaram:

- Não te aventures a atravessar essa floresta. Está cheia de bandidos que te atacarão e, se virem que és de ouro e teu cavalo também, na certa liquidarão contigo.

O rapaz, no entanto, não se deixou amedrontar e disse:

- Preciso passar pela floresta e passarei.

Adquiriu umas peles de urso, com as quais se cobriu e à sua montaria, de modo que nada se enxergasse. Assim disfarçado, entrou, confiante, na floresta. Tendo cavalgado por algum tempo, ouviu um rumor nos arbustos e murmúrio de vozes. Alguém disse:

- Aí vem um homem!

Outro respondeu:

- Deixa que passe. É um caçador de ursos, pobre e tão pelado como rato de igreja. Que poderíamos tirar dele,

E assim o moço de ouro atravessou o bosque são e salvo.

Certo dia chegou a uma aldeia, onde avistou uma jovem, tão bela que achou não ser possível haver outra mais linda no mundo inteiro. E como se sentisse grandemente atraído por ela, dirigiu-se a seu encontro e lhe falou:

- Amo-te de todo coração. Queres ser minha esposa?

A moça, que também gostou dele, respondeu aceitando seu pedido.

- Sim, quero  ser tua esposa e te serei fiel a vida toda.

Ao se casarem, quando estavam em plena festa, chegou o pai da noiva que, ao ver sua filha casando, indagou:

- Onde está o noivo?

Mostraram-lhe o jovem de ouro que continuava coberto de peles de urso. O homem ficou furioso e exclamou:

- Não permitireis que minha filha case com um caçador de ursos!

E, investindo contra o rapaz, quis matá-lo. Sua filha, porém, se desfez em súplicas:

- Ele é meu marido e eu o quero de todo coração.

Finalmente conseguiu apaziguar o pai. Mas este não pode esquecer sua preocupação e, na manhã seguinte, levantou-se de madrugada, disposto a saber se o genro era, de fato, um mendigo. 

Entrou no quarto e viu, então, um jovem belíssimo, todo de ouro, deitado na cama e as peles de urso espalhadas pelo chão. Enquanto se retirava pensou: " Que sorte ter reprimido minha cólera; teria cometido uma grande injustiça."

Enquanto isso, o jovem sonhou que andava caçando um cervo magnífico e, ao acordar, disse à sua esposa:

- Vou caçar na floresta.

Apreensiva, ela lhe implorou que ficasse a seu lado.

- Facilmente poderá acontecer-te uma desgraça! - disse.

Ele, porém, insistiu:

- Devo ir e irei.

Encaminhou-se para floresta e, pouco depois, descobriu, a certa distância, um cervo belíssimo, igual ao que vira em sonho. Fez pontaria para disparar a arma, mas o animal escapou. Lançou-se em sua perseguição, saltando valos e atravessando moitas, sem jamais cansar. Ao anoitecer, porém, o cervo desapareceu. Olhando em redor, o jovem avistou à sua frente uma casa pequenina onde vivia uma feiticeira. Bateu à porta e a velha apareceu, perguntando:

- Que procuras a esta hora da noite, em meio desta floresta imensa?

- Não viste um cervo? - indagou ele.

- Sim, - retrucou a velha - conheço bem o cervo.

Enquanto ela falava, um cãozinho, que também saíra da casa se pôs a ladrar, furiosamente, para o forasteiro.

- Cala-te, maldito cachorro - gritou o rapaz - se não queres que eu te dê um tiro.

Aí a velha gritou:

- Como? Pretendes matar meu cãozinho? - e, no mesmo instante, o transformou em pedra.

Em casa, sua esposa ficou esperando por ele em vão.

"Na certa - pensou ela - aconteceu o que eu receava e o que tanto vinha me pesando no coração!"

Quanto ao outro irmão, que ficara na casa do pai, e sempre observava os lírios de ouro, viu quando, de repente, um deles murchou.

- Meu Deus! - exclamou. - Aconteceu uma desgraça a meu irmão. Devo sair para ver se posso salvá-lo.

- Não vás- pediu-lhe o pai.- Que serás de mim se perco a ti também?

Mas o jovem lhe retrucou:

- É preciso que eu vá, e irei.

Montou seu cavalo de ouro, pôs-se a caminho e chegou ao bosque onde estava seu irmão, transformado em pedra. 

A feiticeira saiu da casa e o chamou, com a intenção de encantá-lo também. Mas  o rapaz gritou de longe:

- Se não devolves a vida a meu irmão, eu te mato a tiros, velha bruxa.

Embora a contragosto, a  velha tocou a pedra com os dedos e logo o rapaz recuperou a forma humana. Os dois jovens sentiram uma grande alegria ao se reverem e depois de se terem abraçado, saíram juntos do bosque. 

Um deles dirigiu-se à casa de sua esposa e o outro à de seu pai. Ao vê-lo chegar, o velho exclamou:

- Já sabia que havias salvo teu irmão, pois o lírio de ouro tornou a erguer-se e continuou com vida.

E, desse momento em diante, todos viveram contentes e felizes até ao fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Leonardo da Vinci (As chamas)


As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Blog Era uma vez…  – 03.02.2015
Biografia = Coisinha Literária. 14.08.2020

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Hans Christian Andersen (O Galho da Sorte)


Quero agora contar uma história da Sorte. Todos nós conhecemos a Sorte. Há quem a encontre todos os dias; mas há também aquele que somente a veem de anos em anos, e num único dia. E há até quem a tenha visto apenas uma única vez em toda a vida.

Não há, entretanto, ninguém que não a tenha jamais encontrado - isso não!

- Não julgo necessário contar, pois que todo o mundo sabe, que Deus manda as criancinhas para o colo das mães. Tanto no castelo dos ricos e na casa abastada, como nos campos desprotegidos, varridos pelos ventos frios. Mas nem todos sabem, e contudo, é indubitável! Nem todos sabem que Deus, quando manda as criancinhas, as dota com um brinde da Sorte. É certo que esse brinde não fica exposto e visível aos olhos curiosos de todo o mundo, não! Fica instalado em algum lugar, no lugar onde menos esperaríamos encontrá-lo, e contudo, é sempre achado no momento oportuno, o que vem a ser muito agradável. Pode estar escondido em uma maçã, por exemplo, como sucedeu com um sábio chamado Newton. A maçã caiu, e ele encontrou nela a Sorte. Se  não sabes essa história, pede a alguém que te conte a história da maçã. Quanto a mim, vou contar outra - a história de uma pera.

Era uma vez um homem pobre, que nascera na indigência, criara-se na miséria, e casara sem dela se apartar. Era torneiro de profissão, e torneava de preferência cabos e argolas para guarda-chuva, mas isso mal dava para o sustento de cada dia. E ele costumava dizer:

- Eu jamais tive sorte... Nunca a encontrei na vida – eu podia dizer o nome do país e até do lugar onde morava aquele homem. Mas isso é coisa que não importa à história.

A casa era toda rodeado de sorveiras (é uma árvore da família das Rosaceae), vermelhas e acres, eram o maior adorno do pomar, mas havia também ali uma pereira, que não dava pera alguma. Contudo, naquela árvore é que estava escondida a Sorte, oculta nas peras invisíveis.

Uma noite sobreveio uma terrível tempestade. O jornal até contou que a diligência, tão pesada, fora erguida pelo vendaval e lançada para dentro da valeta, como um farrapo. Imagine-se pois com que facilidade não seriam partidos os galhos de uma pereira!

Pois um galho partido foi ter à oficina e, por mera brincadeira, o torneiro tirou-lhe um toro e torneou dele uma grande pera, depois torneou outra igual, depois outra menor, e afinal outras pequeninas.

Deu as peras às crianças, para que lhes servissem de brinquedo, e acabou dizendo:

- Ora, afinal aquela árvore tinha de produzir peras mesmo...

Em uma terra de nevoeiros, o guarda-chuva faz parte das coisas indispensáveis, certamente. A família inteira possuía um só, para o uso comum. Quando o vento soprava com muita violência, o guarda-chuva chegava a virar do avesso, e às vezes se partia em dois, mas logo o homem o consertava. O pior era o botão que servia para mantê-lo fechado, depois de enrolado: despregava-se com frequência, e a argola que o mantinha também se quebrava facilmente

Ora, um dia desprendeu-se o botão. O torneiro procurava-o pelo chão quando deu com uma das perinhas menores, das que dera aos filhos para brinquedo.

- Não acho o botão, mas isto serve.

Furou então a pera, enfiou-lhe um cordãozinho, e a pera pequenina prendeu perfeitamente a argola partida - e foi aquele, na verdade, o melhor fecho que já tivera o guarda-chuva.

No ano seguinte, quando o torneiro remeteu cabos de guarda-chuva para a capital, onde eram vendidos os seus trabalhos, enviou também algumas daquelas peras pequeninas, torneada na madeira, e enfiadas em meia argola, e pediu que as experimentassem, a ver se agradara. Assim foram elas ter à América. Lá viram logo que a perinha fechava muito melhor do que qualquer outro botão, e daí resultou que pedissem ao fornecedor que dali em diante todas as remessas de guarda-chuva trouxessem uma perinha no fecho.

É claro que aumentou muito o trabalho. Peras, peras aos milhares! peras de madeira em todos os guarda-chuvas!

O torneiro tinha muito que fazer. Torneava sem cessar. Toda a pereira se desfez em perinhas. E entravam os xelins, entravam os ducados.

- Pois a minha Sorte estava escondida na pereira - dizia o homem.

Possuía agora uma grande oficina, tinha oficiais e aprendizes. Andava sempre muito contente, e costumava dizer:

- A Sorte pode bem estar escondida em um galho!

  E eu, que contei a história, digo o mesmo.

Lá diz o rifão: "Põe na boca um galinho branco e ficarás invisível." Mas há de ser o galinho apropriado, o que Deus nos destinou, como brinde da Sorte.

Eu o achei e, como aquele homem, posso extrair ouro, ouro fulgurante, o ouro mais puro que existe, aquele que resplandece nos olhos das crianças, e lhes canta na boca, e que também brilha nos olhos dos pais, quando leem as histórias, e eu estou na sala, entre eles, mas invisível - porque trago na boca o galinho branco.

E quando percebo que a história que contei lhes traz alegria... então também eu digo:

- A Sorte pode esconder-se em um galho!
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing