Marcadores

Mostrando postagens com marcador Universos Di Versos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Universos Di Versos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Lucília A. T. Decarli (Enredos) – 1


AMOR DESPERDIÇADO

A breve primavera de uma vida
resvala em desconfortos tais, que abalam.
Invadem a estação, então florida,
velozes temporais... e a despetalam.

Ante uma inexorável despedida,
lágrimas vertem - mudas, elas falam
da chama que se esvai, quiçá perdida -
oponentes aos gritos que se calam.

Contínuo, segue o tempo, ano após ano…
A saudade abomina o desengano:
não quer extinto o amor vivido outrora.

Herança contundente do passado,
o amor latente em dois, desperdiçado,
talvez desperte, intenso, em nova aurora.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  

CELEIROS DA MODERNIDADE

Antigamente, a sobra de tostões
ia direto a cofres bem pequenos.
As cédulas, guardadas nos colchões,
visavam dias novos... e serenos.

De cereais, lotados os galpões,
sem a penhora, livres os terrenos.
Nem cheques pré-datados, nem cartões...
Vaidade havia... gastos eram menos.

Tempos modernos... nestes, quase loucos,
endividados somos - salvo poucos -
mil promoções, ofertas endeusadas...

De bugigangas cheios os armários;
grande aparato exposto nos "sacrários",
onde "coisas", por nós, são adoradas!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  

O AMOR É VIDA

O amor, que floresceu em pleno outono,
trouxe consigo as marcas más da sorte...
Noites em claro - ausente o próprio sono -
e tanta angústia o faz, talvez, mais forte!

Em doce anseio entregue ao abandono,
sem ter, sequer, saída que o conforte...
Sonho frustrado, rente ao desabono
em meio aos vendavais, rondando a morte.

"Prêmio e castigo" - a saga do poeta
que vê cair por terra a sua meta,
nessa jornada curta e constrangida.

Transpondo o seu sofrer à dor sublime,
resplende à luz um fato que o redime:
mesmo na morte, o amor ainda é Vida!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  

“PÁSSAROS” SEM RUMO

Feliz é o ser que encontra em seu caminho
doce aconchego e segue, vida afora,
sem conhecer a dor de estar sozinho,
exposto ao desabrigo que apavora.

Há "pássaros" sem asas e sem ninho
- somente o sonho voa, quando aflora...
No mundo perambulam sem carinho
e a sorte, inexorável, os ignora.

Não falo, aqui, dos pássaros que cantam,
nem das revoadas rápidas, que encantam,
mas, sim, daqueles onde a mágoa assola...

Dos muitos "passarinhos" desnorteados;
no alçar do voo incerto, encurralados
e em meio às penas, presos na "gaiola!..."
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  

PREÂMBULOS

A luz do sol se expande e, alvissareira,
leva ao labor intenso da manhã,
transposto para a tarde, rotineira,
que ao fim do dia encerra o longo afã.

O sol se põe... a noite vem, faceira,
do amor, sempre é zelosa guardiã;
de estrelas, no alto céu, se cobre inteira,
com o luar exibe um talismã!

E quem se entrega à luta, dia a dia,
envolve o corpo e a mente na magia
dessa eminente pausa, após cansaços.

Nesse retorno aos seus, estende o exemplo.
fazer do próprio lar honrado templo,
onde orações culminam com abraços!…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

VIDA EM CURSO

Há caminhos diversos... Sendo tantos,
não poderia, ao todo, descrevê-los.
Muitos - marcados pelos desencantos;
poucos - felizes junto a sãos desvelos,

Desde o nascer, o alerta de acalantos...
Neste percurso, temos que vencê-los:
"a cuca vem pegar" - que instiga prantos
e o "boi da cara preta" - pesadelos…

Quem não conhece estrada colorida,
mas só vereda escura que intimida,
imponha um desafio ao seu caminho!…

Após ter transformado o seu cenário,
deixe jorrar, no extenso itinerário,
seu dom de receber e dar carinho!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova (poema de quatro versos setessílabos com rimas alternadas) e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Fontes:
Lucília Alzira Trindade Decarli. Enredos…: trovas e sonetos. Bandeirantes/PR: Ed. da Autora, 2025. Enviado pela autora. 
Biografia = Folha do Norte do Paraná, UBT-Recife, Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná, Dário Indústria & Comércio, etc.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Jessier Quirino (Vou-me embora pro passado)


Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui, ó!"
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.

Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado.

No passado tem Jerônimo
Aquele Herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação.

Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
"Tá Com a Pulga na Cueca"
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais!
Lá tem meninas "quebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho.

E lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de organdi
Com gola de tafetá.

Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho Diagonal
Camisas Lunfor, a tal
Sapato Clark de cromo
Ou Passo-Doble esportivo
Ou Fox do bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Cintilante como o sol.

Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom!
Os mais velhos inda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo Besame Mucho
Solfejando a meio tom.

No passado é outra história!
Outra civilização...
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho
Aprontando a gozação
Tem assustado à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long-Play da Mocambo
Mas Rosenblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson, tem Lesse
Túnel do Tempo, tem Zorro
Não se vê tantos horrores.

Lá no passado tem corso
Lança perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator
Tem rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso
Com notícias atuais.

Tem petisqueiro e bufê
Junto à mesa de jantar
Tem bisquit e bibelô
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brinca de cabra cega
De drama, de garrafão
Camoniboi, balinheira
De rolimã na ladeira
De rasteira e de pinhão.

Lá, também tem radiola
De madeira e baquelita
Lá se faz caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estuda a tabuada
De Teobaldo Miranda
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo
E a palmatória é quem manda.

Tem na revista O Cruzeiro
A beleza feminina
Tem misse botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Astória
Tem o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Glostora
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.

Se ouve página sonora
Na voz de Ângela Maria
"- Será que sou feia?
- Não é não senhor!
- Então eu sou linda?
- Você é um amor!..."

Quando não querem a paquera
Mulheres falam: "Passando,
Que é pra não enganchar!"
"Achou ruim dê um jeitim!"
"Pise na flor e amasse!"
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de "tudo X"
E sai dizendo "Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.

No passado tem remédio
Pra quando se precisar
Lá tem Doutor de família
Que tem prazer de curar
Lá tem Água Rubinat
Mel Poejo e Asmapan
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Pílulas de Vida do Dr. Ross
Tem também aqui pra nós
Uma tal Robusterina
A saúde feminina.

Vou-me embora pro passado
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
Nem asfalto nem entulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma cama Patente
Daquelas do selo azul
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais futuro
Vou-me embora pro passado
= = = = = = = = = = = = = = = = = = 
O vídeo com a poesia pode ser vista em:
= = = = = = = = = = = = = = = = = = 
A poesia "Vou-me Embora pro Passado" é de autoria do arquiteto, escritor e poeta paraibano Jessier Quirino.

O texto foi publicado originalmente no livro Prosa Morena, em 2001. Trata-se de uma paródia saudosista e bem-humorada estruturada diretamente sobre "a casca" do célebre poema "Vou-me embora pra Pasárgada", escrito por Manuel Bandeira em 1930.

Enquanto Bandeira busca refúgio em uma utopia imaginária onde ele é "amigo do rei", Quirino viaja no tempo em direção ao interior do Nordeste de décadas passadas. Ele substitui os elementos idealizados de Pasárgada por marcas e costumes antigos reais, mencionando carros como o Gordini e a Rural, programas de TV antigos como Rim Tim Tim e refrigerantes como a Grapette.

A análise da poesia "Vou-me Embora pro Passado" revela como Jessier Quirino constrói o lirismo saudosista por meio de recursos estilísticos marcantes.

Abaixo estão as principais figuras de linguagem e mecanismos literários utilizados:

INTERTEXTUALIDADE (PARÓDIA)

É a base de todo o poema.

O autor reconstrói a estrutura de "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira.

Substitui o espaço utópico e imaginário (Pasárgada) por um tempo real e afetivo (o passado da infância).

ALUSÃO

Referência direta a elementos culturais, marcas e personalidades externas ao texto.

Menção a Grapette, Gordini, Celly Campello, Rim Tim Tim e Vigilante Rodoviário. Localiza o leitor cronologicamente nos anos 60 e 70, ativando a memória afetiva imediata.

ANÁFORA

Repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos.

A repetição exaustiva da frase "Lá eu..." ou "Vou-me embora pro passado". Reforça a insistência do desejo de fuga e dita o ritmo musical do poema.

IRONIA E ANTÍTESE

Aproximação de ideias opostas ou o uso de humor para contrastar realidades.

O confronto sutil entre a modernidade tecnológica atual (frequentemente vista como fria) e o atraso tecnológico confortável do passado. Romantiza as limitações do passado, transformando dificuldades da época em puro charme.

REGIONALISMO (METONÍMIA CULTURAL)

Uso de termos e expressões típicas de uma região para representar toda uma identidade.

O vocabulário e o sotaque matuto incorporados na declamação e na escrita, humaniza o poema, trazendo a universalidade da saudade para o cenário específico do Nordeste brasileiro.

Fontes: 
Análise: IA Google
Imagem: IA Microsoft Bing

segunda-feira, 11 de maio de 2026

David Mourão-Ferreira (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa)


ALVORADA

E de súbito um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos…
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam, azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva…

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.
— Alvorada suspensa!, contemplada
por alguém que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.
= = = = = = = = = 

CANTIGA

Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos…
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA DESPEDIDA

Pasmo de ainda murmurar «Bom dia!»,
depois de tudo quanto aconteceu.

Ó meu amor, a minha cobardia
foi afinal muito maior do que eu.
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA SEGUNDA DESPEDIDA

Eis o que espanta: ainda nós sabemos
os gestos rituais de despedida!

E, tarde ou cedo, à noite adormecemos,
embora sem a alma adormecida.
= = = = = = = = = 

EPITÁFIO

Cada sorriso teu agora só desperta
este remorso vil que a minha vida tem:
— A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ÁRVORES

A secreta viagem foi aquela
por entre estrelas verdes esboçada…

Chamei, a cada fruto, verde estrela.
Tombei, ébrio de estrelas, sobre a estrada…
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
= = = = = = = = = 

LÁPIDE

Sortílego castelo pardacento,
por onde as pombas ágeis se extasiam
em curvas que são delas, e do vento…

Castelo onde os teus gestos se mediam
pela graça que os deuses consentiam
às deusas que faziam seu tormento…
= = = = = = = = = 

MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto…)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor…
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder…)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer…
= = = = = = = = = 

PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
= = = = = = = = = 

PARAÍSO

Teu corpo, agora tão perto,
é brisa que me consente
na aridez do meu deserto
a graça duma nascente…

Logo a nascente permite
o florescer dum pomar…
(Eu amei-te — mas perdi-te
por começar a pensar…

Às simples evocações
dum possível paraíso,
logo em nossos corações
se delineia um sorriso…)

E teu corpo, inda mais perto,
é brisa que me desmente…
(Sob o sol do meu deserto,
alonga-se uma serpente.)
= = = = = = = = = 

TEORIA DAS MARÉS

Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.

Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.
= = = = = = = = = 
Fontes:
David Mourão-Ferreira. Obra Poética [1948-1995]. Porto/Portugal: Porto Editora, 2019
Imagem criada por Jfeldman

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Álvares de Azevedo (Oceano de Poesias)


ANJOS DO MAR

As ondas são anjos que dormem no mar, 
Que tremem, palpitam, banhados de luz... 
São anjos que dormem, a rir e sonhar 
E em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua 
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua, 
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham – e o vento dos céus 
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus, 
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram, 
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram, 
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor 
Os ventos e vagas gemer, palpitar, 
Por que não consentes, num beijo de amor, 
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
= = = = = = = = = 

DINHEIRO

Oh! argent! Avec toi on est beau,
jeune, adoré; on a considérations, honneurs, qualités, vertus. 
Quand on n’a point d’argent, on est dans la dépendance de toutes choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND

Sem ele não há cova – quem enterra 
Assim grátis, a Deo? O batizado 
Também custa dinheiro. Quem namora 
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio? 
Demais, as Danaes também o adoram, 
Quem imprime seus versos, quem passeia, 
Quem sobe a Deputado, até Ministro, 
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio, 
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro? 
Fora a canalha de vazios bolsos! 
O mundo é para todos... Certamente 
Assim o disse Deus – mas esse texto 
Explica-se melhor e doutro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho: 
O mundo é um festim, concordo nisso, 
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
= = = = = = = = = 

NAMORO A CAVALO

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça 
Que rege minha vida malfadada, 
Pôs lá no fim da rua do Catete 
A minha Dulcineia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde 
Um cavalo de trote (que esparrela!) 
Só para erguer meus olhos suspirando 
A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores 
E em lindas folhas de papel bordado, 
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso, 
Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela 
Nem ouso suspirar de acanhamento... 
Se ela quisesse eu acabava a história 
Como toda a Comédia – em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça! 
Eu ia a trote inglês ardendo em chama, 
Mas lá vai senão quando uma carroça 
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote 
No Rossinante erguendo a larga espada 
Nunca voltou de medo, eu, mais valente, 
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado, 
Onde habita nas lojas minha bela, 
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela... 

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada, 
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo 
Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado 
Meu chapéu que sofrera no pagode, 
Dei de pernas corrido e cabisbaixo 
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa 
Rasgou-se no cair de meio a meio, 
O sangue pelas ventas me corria 
Em paga do amoroso devaneio!…
= = = = = = = = = 

SONETO

Pálida, à luz da lâmpada sombria, 
Sobre o leito de flores reclinada, 
Como a lua por noite embalsamada, 
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria 
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada 
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando... 
Negros olhos as pálpebras abrindo... 
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo! 
Por ti – as noites eu velei chorando, 
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
= = = = = = = = = 
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) foi o maior expoente da segunda geração do Romantismo no Brasil, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Nasceu em São Paulo (SP) em 12 de setembro de 1831 e morreu precocemente aos 20 anos, no Rio de Janeiro (RJ), em 25 de abril de 1852, em decorrência de uma infecção após uma queda de cavalo e um tumor. Ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Ele era considerado um aluno brilhante, mas não chegou a concluir o curso devido à sua morte prematura. Poeta, contista e ensaísta. Sua obra é marcada pelo dualismo: oscila entre o sentimentalismo ingênuo e um pessimismo profundo, irônico e macabro. Foi fortemente influenciado por Lord Byron e Shakespeare. Consolidou a estética ultrarromântica no Brasil. Trouxe temas como a morte, a noite, o erotismo platônico e o tédio existencial para o centro da poesia nacional, influenciando gerações de escritores com seu estilo melancólico e sarcástico. Principais Obras (publicadas postumamente) são: Lira dos Vinte Anos (poesia - sua obra mais famosa). Noite na Taverna (contos fantásticos e sombrios). Macário (peça de teatro/drama).

Antonio Cândido (seleção). Melhores poemas de Álvares de Azevedo. SP: Gloval, 2013. Ed. Digital
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing   

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Cristina Peri Rossi (Poemas Avulsos)


DEDICATÓRIA

A literatura nos separou: 
tudo o que eu sabia sobre você
aprendi nos livros
e o que faltava,
coloquei em palavras. 
= = = = = = = = = = = = 

A PAIXÃO

Emergimos do amor
como de um acidente de avião
Tínhamos perdido nossas roupas
nossos documentos
a mim faltava um dente
e a você, sua noção de tempo
Foi um ano tão longo quanto um século
ou um século tão curto quanto um dia?

Através dos móveis
pela casa
destroços quebrados:
copos, fotos, livros com páginas rasgadas
Éramos os sobreviventes
de um deslizamento de terra
de um vulcão
das águas furiosas
e nos despedimos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
embora não soubéssemos por quê.
= = = = = = = = = = = = 

AS PALAVRAS SÃO ESPECTROS...

As palavras são espectros,
pedras abracadabra
que rompem os selos
da memória ancestral

E os poetas celebram a festa
da linguagem
sob o peso da invocação

Poetas acendem as fogueiras
que iluminam os rostos eternos
de antigos ídolos

Quando os selos se rompem,
o homem descobre
o rastro de seus ancestrais

O futuro é a sombra do passado
nas brasas vermelhas de um fogo
que veio de longe,
de sabe-se lá onde.
= = = = = = = = = = = = 

EU NÃO QUERIA QUE CHOVESSE

Eu não queria que chovesse,
eu juro,
que chovesse nesta cidade
sem você,
e ouvir o som da água
caindo,
e pensar que onde você está morando
sem mim,
está chovendo na mesma cidade.

Talvez seu cabelo esteja molhado,
seu telefone à mão
que você não usa
para me ligar,
para me dizer
esta noite que te amo.

Lembranças suas me inundam.

Me perdoe,
a literatura me matou,
mas você se parecia tanto com ela.
= = = = = = = = = = = = 

ORAÇÃO

Livra-nos, Senhor,
de reencontrar
anos depois,
nossos grandes amores.
= = = = = = = = = = = = 

REMINISCÊNCIA

Eu não conseguia parar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é modificação, de modo que sem querer
eu amava as diferentes formas em que ela aparecia
em transformações sucessivas e eu ansiava por todos os lugares
onde nunca estivemos, e eu a desejava nos parques
onde nunca a desejei e eu morria de lembranças das coisas
que nunca saberíamos e elas eram tão violentas e inesquecíveis
quanto as poucas coisas que havíamos conhecido.
= = = = = = = = = = = = 

Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu/Uruguai em 1941, romancista, poetisa, tradutora e autora de contos. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar sua terra natal por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, onde reside até hoje. Durante sua carreira, ela atuou como professora, além de se destacar como romancista, poetisa, contista e ensaísta. Também colabora frequentemente em revistas e publicações periódicas internacionais.

A autora aborda questões que exploram as complexidades das relações humanas, gênero e sexualidade. Seus poemas são bem marcantes, com uma estrutura que mistura narrativa, confissão e metafísica. Por meio de suas obras, Peri Rossi também critica o autoritarismo, a opressão e luta por liberdade e justiça.

Como exilada uruguaia, sua experiência pessoal de deslocamento e busca por pertencimento ecoa em sua escrita, na qual temas de exílio são frequentemente explorados. A escritora é a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano, movimento que incorpora nomes influentes da literatura nas décadas de 1960 e 1970 como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.

Ela ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021.

Algumas obras são:
La insumisa; Los Amores Equivocados; Julio Cortázar y Cris; Habitaciones privadas; Playstation; Habitación del hotel; Mi casa es la escritura; La nave de los locos; Desastres íntimos, etc.

Fontes:
Poemas = tradução do espanhol por José Feldman