A literatura nos separou:
tudo o que eu sabia sobre você
aprendi nos livros
e o que faltava,
coloquei em palavras.
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A PAIXÃO
Emergimos do amor
como de um acidente de avião
Tínhamos perdido nossas roupas
nossos documentos
a mim faltava um dente
e a você, sua noção de tempo
Foi um ano tão longo quanto um século
ou um século tão curto quanto um dia?
Através dos móveis
pela casa
destroços quebrados:
copos, fotos, livros com páginas rasgadas
Éramos os sobreviventes
de um deslizamento de terra
de um vulcão
das águas furiosas
e nos despedimos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
embora não soubéssemos por quê.
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AS PALAVRAS SÃO ESPECTROS...
As palavras são espectros,
pedras abracadabra
que rompem os selos
da memória ancestral
E os poetas celebram a festa
da linguagem
sob o peso da invocação
Poetas acendem as fogueiras
que iluminam os rostos eternos
de antigos ídolos
Quando os selos se rompem,
o homem descobre
o rastro de seus ancestrais
O futuro é a sombra do passado
nas brasas vermelhas de um fogo
que veio de longe,
de sabe-se lá onde.
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EU NÃO QUERIA QUE CHOVESSE
Eu não queria que chovesse,
eu juro,
que chovesse nesta cidade
sem você,
e ouvir o som da água
caindo,
e pensar que onde você está morando
sem mim,
está chovendo na mesma cidade.
Talvez seu cabelo esteja molhado,
seu telefone à mão
que você não usa
para me ligar,
para me dizer
esta noite que te amo.
Lembranças suas me inundam.
Me perdoe,
a literatura me matou,
mas você se parecia tanto com ela.
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ORAÇÃO
Livra-nos, Senhor,
de reencontrar
anos depois,
nossos grandes amores.
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REMINISCÊNCIA
Eu não conseguia parar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é modificação, de modo que sem querer
eu amava as diferentes formas em que ela aparecia
em transformações sucessivas e eu ansiava por todos os lugares
onde nunca estivemos, e eu a desejava nos parques
onde nunca a desejei e eu morria de lembranças das coisas
que nunca saberíamos e elas eram tão violentas e inesquecíveis
quanto as poucas coisas que havíamos conhecido.
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Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu/Uruguai em 1941, romancista, poetisa, tradutora e autora de contos. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar sua terra natal por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, onde reside até hoje. Durante sua carreira, ela atuou como professora, além de se destacar como romancista, poetisa, contista e ensaísta. Também colabora frequentemente em revistas e publicações periódicas internacionais.
A autora aborda questões que exploram as complexidades das relações humanas, gênero e sexualidade. Seus poemas são bem marcantes, com uma estrutura que mistura narrativa, confissão e metafísica. Por meio de suas obras, Peri Rossi também critica o autoritarismo, a opressão e luta por liberdade e justiça.
Como exilada uruguaia, sua experiência pessoal de deslocamento e busca por pertencimento ecoa em sua escrita, na qual temas de exílio são frequentemente explorados. A escritora é a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano, movimento que incorpora nomes influentes da literatura nas décadas de 1960 e 1970 como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.
Ela ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021.
Algumas obras são:
La insumisa; Los Amores Equivocados; Julio Cortázar y Cris; Habitaciones privadas; Playstation; Habitación del hotel; Mi casa es la escritura; La nave de los locos; Desastres íntimos, etc.
Fontes:
Poemas = tradução do espanhol por José Feldman






