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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Cristina Peri Rossi (Poemas Avulsos)


DEDICATÓRIA

A literatura nos separou: 
tudo o que eu sabia sobre você
aprendi nos livros
e o que faltava,
coloquei em palavras. 
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A PAIXÃO

Emergimos do amor
como de um acidente de avião
Tínhamos perdido nossas roupas
nossos documentos
a mim faltava um dente
e a você, sua noção de tempo
Foi um ano tão longo quanto um século
ou um século tão curto quanto um dia?

Através dos móveis
pela casa
destroços quebrados:
copos, fotos, livros com páginas rasgadas
Éramos os sobreviventes
de um deslizamento de terra
de um vulcão
das águas furiosas
e nos despedimos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
embora não soubéssemos por quê.
= = = = = = = = = = = = 

AS PALAVRAS SÃO ESPECTROS...

As palavras são espectros,
pedras abracadabra
que rompem os selos
da memória ancestral

E os poetas celebram a festa
da linguagem
sob o peso da invocação

Poetas acendem as fogueiras
que iluminam os rostos eternos
de antigos ídolos

Quando os selos se rompem,
o homem descobre
o rastro de seus ancestrais

O futuro é a sombra do passado
nas brasas vermelhas de um fogo
que veio de longe,
de sabe-se lá onde.
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EU NÃO QUERIA QUE CHOVESSE

Eu não queria que chovesse,
eu juro,
que chovesse nesta cidade
sem você,
e ouvir o som da água
caindo,
e pensar que onde você está morando
sem mim,
está chovendo na mesma cidade.

Talvez seu cabelo esteja molhado,
seu telefone à mão
que você não usa
para me ligar,
para me dizer
esta noite que te amo.

Lembranças suas me inundam.

Me perdoe,
a literatura me matou,
mas você se parecia tanto com ela.
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ORAÇÃO

Livra-nos, Senhor,
de reencontrar
anos depois,
nossos grandes amores.
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REMINISCÊNCIA

Eu não conseguia parar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é modificação, de modo que sem querer
eu amava as diferentes formas em que ela aparecia
em transformações sucessivas e eu ansiava por todos os lugares
onde nunca estivemos, e eu a desejava nos parques
onde nunca a desejei e eu morria de lembranças das coisas
que nunca saberíamos e elas eram tão violentas e inesquecíveis
quanto as poucas coisas que havíamos conhecido.
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Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu/Uruguai em 1941, romancista, poetisa, tradutora e autora de contos. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar sua terra natal por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, onde reside até hoje. Durante sua carreira, ela atuou como professora, além de se destacar como romancista, poetisa, contista e ensaísta. Também colabora frequentemente em revistas e publicações periódicas internacionais.

A autora aborda questões que exploram as complexidades das relações humanas, gênero e sexualidade. Seus poemas são bem marcantes, com uma estrutura que mistura narrativa, confissão e metafísica. Por meio de suas obras, Peri Rossi também critica o autoritarismo, a opressão e luta por liberdade e justiça.

Como exilada uruguaia, sua experiência pessoal de deslocamento e busca por pertencimento ecoa em sua escrita, na qual temas de exílio são frequentemente explorados. A escritora é a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano, movimento que incorpora nomes influentes da literatura nas décadas de 1960 e 1970 como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.

Ela ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021.

Algumas obras são:
La insumisa; Los Amores Equivocados; Julio Cortázar y Cris; Habitaciones privadas; Playstation; Habitación del hotel; Mi casa es la escritura; La nave de los locos; Desastres íntimos, etc.

Fontes:
Poemas = tradução do espanhol por José Feldman

domingo, 25 de janeiro de 2026

Washington Daniel Gorosito Pérez (Chafariz de Versos) * 1 *

Tradução do Espanhol por José Feldman


ARCO-ÍRIS

O vagabundo urbano cinzento
caminha sem rumo,
chutando objetos que cruzam
seu caminho.

Entre sombras
e os detritos do tempo.

Desapontado e entediado,
buscando incessantemente o arco-íris da vida.

Os homens,
como os pássaros,
têm muitos destinos. 
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ESPERANÇA

Que se espatifa
no asfalto, fazendo-nos sentir
a queda amarga.

Às vezes,
é um crânio desdentado,
um suspiro rouco,
ansiedade,
inquietação.

Outras vezes,
um buraco negro.

Ternura íntima,
conforto,
amor,
respiração,
plenitude,
abrigo.

Vale a pena lutar por ela
antes que
a arranquem de nós. 
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FLOR DE CACTO, 
Poesia em Peralta*

As cinzas da aurora se dispersaram
e uma pomba-rola canta
aos raios do sol.

As nuvens dançam
e os ventos sopram
onde passado e presente convergem.

Pedra sobre pedra
carregadas de histórias
dormem hoje,
talvez tenham sido espectadoras
dos aviadores
memória nas paredes
do “recinto dos governantes”.

É abril, a terra está sedenta
um lagarto-de-colarinho-espinhoso
para abruptamente
e borboletas azuis esvoaçam
inquietas ao seu lado
uma coreografia magistral.

Em meio à vegetação raquítica e escassa
os cactos estoicos se destacam
esbeltos, testemunhas silenciosas do tempo.

Um deles me atrai
apresenta a dualidade da vida e da morte
parte do órgão parece seca
cor de ocre, outra resplandecente, muito verde.

Vestida com uma bela flor
coroada de espinhos
com a suavidade de suas pétalas abertas
ela cresce áspera e solitária.

Ao meu lado, graças a você
uma palavra vibra
uma palavra relâmpago
e versos germinam
ao longo dos caminhos pedregosos
de um poema que desabrocha docemente
como a flor do cacto.

*Peralta - Zona Arqueológica do Estado de Guanajuato. Foi um centro cívico, cerimonial e religioso das civilizações tolteca e chichimeca. Construída por volta de 300 d.C., possui magníficas estruturas, muitas delas de natureza cerimonial.
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GAIOLA POÉTICA

As grades estão vazias,
apenas uma sombra percorre os corredores.

O dia inexorável se encerra,
a borracha das consciências noturnas
foge pelas cornijas,
telhados mudos e úmidos.

À tarde,
choveu torrencialmente,
isto é, em torrentes.

Pela rua do tempo,
a poeira do esquecimento voa,
chicoteada pelo lento e doloroso açoite das horas.

Tudo permanecerá em seu lugar,
os livros afogados em suas tintas,
rios de letras enferrujadas
de cores acobreadas.

As palavras são testemunhas,
poesia eternamente eficaz,
verbos conjugados pelo sol e pela lua,
metáforas,
imagens cegas,
escritas em mesas tortas.

Dócil, frágil, volátil,
como uma folha seca
acariciada pelo vento.

Você está preso,
em sua gaiola de papel,
vivendo a solidão
fragilidade de uma pétala
como um grão
em uma ampulheta.
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LETRAS MISTERIOSAS

Minhas palavras
não são minhas,
eu as tomo emprestadas.

Minha poesia é inaudível,
guarda o mistério
de letras desbotadas,
e vence a morte
apenas com palavras. 
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MATANDO O TEMPO

Com palavras,
busco uma explicação.

Não estamos navegando
com certeza.

Às vezes, a náusea me domina
pela humanidade e pela sociedade.

Um homem que habita
o vazio.

Convencido de que nesta vida
só existe uma máxima
da qual não pode escapar:
matar o tempo,
quando os sonhos se desvanecem. 
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O FIM

A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.

Devo esperar
esperar…

Com muita paciência

Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.

Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.

As palavras se perdem
entre as sombras.

O ato criativo
desvanece lentamente.

É o fim da poesia. 
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PERCEPÇÃO

A morte
não mata a poesia,
se necessita algo mais.

Esse silêncio eterno
que nada quer,
o poeta o percebe.

Como a orquídea lilás
que tem um cheiro doce
e treme nua
no outono
esperando a última
carícia
do vento
que parece estar adormecido.
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PESCADOR DE VERSOS

Um bando de gaivotas
mergulha, arranhando o mar.

A vasta extensão azul-esverdeada é êxtase.

Há restos de barcos adormecidos nas rochas,
fragmentos de histórias de naufrágios
de pescadores e poetas
que compartilharam águas
povoadas por peixes esquivos
e versos à deriva.

Uma paixão marítima que atormenta
a consciência rebelde do homem,
buscando o caminho para a libertação
na brisa do mar
que acaricia suavemente as velas.

Enquanto isso…
As horas se esvaem,
as estrelas guiam a escrita,
e a palavra teimosa
deixa sua marca na água. 
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VENCIDOS

Uma gaivota solitária
anuncia a chegada
dos navios vencidos.

Não havia cardumes agitados de peixes
nas profundezas das águas
do Rio da Prata.

Um golpe fatal para os
pescadores.

No cais do porto, as águas afiadas
feriam as rochas ruidosas
que exalam sons harmoniosos.

Enquanto inúmeras
borboletas de espuma voam,
a tarde oxida
e a luz adormece.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991. Em 1999, obteve a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. É professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias. Alguns de seus poemas sobre a história uruguaia, como "Victoria Oriental en Las Piedras" e "El genocidio Charrúa", são material de estudo recomendado e também são recitados e apresentados em escolas e em eventos patrióticos oficiais. Seu poema "Gaucho del Uruguay" foi ilustrado pelo pintor Mario Giacoy.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Aparecido Raimundo de Souza (Versos bobos de quem não tem o que fazer)


1
Voltei ao lugar onde nasci.
Revi rostos, matei saudades.
Muitos não estão mais aqui,
partiram em tenras veleidades.
2
O meu silêncio está no seu rosto,
o meu dá para se ver também.
Meu Deus, que grande desgosto 
para em você e em mim, meu bem.
Estou boquiaberto,
além de sozinho,
me vejo num deserto
sem você e sem carinho.
4
Parti sem dizer adeus
e agora bateu a saudade...
Ainda recordo os olhos seus
perseguindo-me pela cidade.
5
Foi uma noite de tormento,
a saudade de você apertou,
a ponto de até em pensamento
esquecer que você me abandonou.
6
Volte para mim,
não me abandone...
Sem você será meu fim,
sem falar na dor que me consome.
7
O que eu fiz da minha vida?
Perdi tudo e aqui estou...
Minha estrada se fez perdida,
tudo o que eu tinha desmoronou.
8
Você chegou
de repente, do nada
e eu sorri...
de felicidade.
Contudo, logo depois
você se foi,
e ainda agora
aqui estou
acorrentado em enorme saudade.
9
Sou a saudade
que você deixou
à hora amarga do seu adeus...
Hoje sou “o tudo
que restou do nada” ,
além das lágrimas dos olhos seus.
10
Vai, me leva pra sua casa,
quero ser o seu amor.
Com você a minha imaginação cria asas
apesar desse seu desamor...
Porém, não sou desistir,
nem entregar os pontos,
um dia você vai descobrir
que fomos em matéria de amor... dois tontos.

Por fim, para terminar, 
entre dois olhares, 
a distância se estendeu como um suspiro.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.
Fontes:
Versos enviados pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A. A. de Assis (À moda de haicais) – 2, final


26
Lua cheia míngua, 
de repente volta nova. 
Imortalidade.

27
Pastel com garapa 
na alegre manhã de abril. 
Neto e avô na feira.

28
Já se sente o aroma. 
Vai começar a colheita 
das maçãs na serra.

29 
Par de idosos muda
para um quarto de casal. 
Romance no asilo.

30 
Peneiras ao alto.
Braços fortes abanando 
o café colhido.

31
Passa um guarda-chuva. 
Embaixo dele um senhor 
com um violino.

32
Acorda a cidade 
embrulhada em nevoeiro. 
Brincando de Londres.

33 
Solitária rosa.
Um pingozinho de orvalho 
faz-lhe companhia.

34
Só o poeta vê.
O figo traz na barriga 
um minibuquê.

35
Retreta na praça 
após a missa solene. 
Viva a Padroeira.

36
Cai, haicai, balão, 
cai aqui na minha mão. 
Viva São João.

37
Ploque-ploque-ploque. 
Passa um cavalo levando 
o passado embora.

38
Três ou quatro garças 
cata-catando mariscos. 
Inverno na praia.

39
Compadres proseiam 
degustando um conhaquinho. 
Nem tchum pra friagem.

40
Que bom que deixaram 
seus sorrisos para os netos. 
Álbum de família.

41 
Ele na primeira,
eu na derradeira infância. 
O bisneto e o biso.

42
Chaminés fumegam 
nos chalezinhos da serra. 
Noite de geada.

43
Vizinhas tricotam 
fofocas e cachecóis. 
Às vezes cochilam.

44
Menino com medo 
corre pra cama da mãe. 
Zune o vento, uivante.

45
Era um riozinho, 
e enquanto rio era doce. 
Virou mar, salgou-se.
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), À moda de haicais, etc.

Fontes:
Ebook enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 31 de agosto de 2025

A. A. de Assis (À moda de haicais) – 1


01 
As rosas no cio.
Sedutoramente abertas 
para o beija-flor.

02 
Poeta no parque.
Enquanto caminha ao sol 
vai catando haicais.

03
Rosas, lírios, dálias 
competem na exposição. 
Continua o empate.

04 
Uma flor silvestre
no jardim do shopping-center. 
Êxodo rural.

05 
Agregada ao cedro,
agrega-lhe graça a orquídea: 
dá-lhe encanto e aroma.

06 
Caminhão de flores.
Da roça para a cidade, 
perfumando as trilhas.

07 A prece da tarde.
Em coro cantam as aves 
as Ave-Marias.

08 
De moto, a cavalo, a pé.
As romarias movidas 
pelo dom da fé.

09 
Um raio de lua
deita no colo da rosa. 
Namorinho antigo.

10
Pousa um passarinho 
na imagem de São Francisco. 
Os irmãos se entendem.

11 
Chocados os ovos,
há o choque dos seres novos. 
E a vida prossegue.

12 
Corações em rede,
uns em prece pelos outros. 
Noite de Natal.

13 
Festa da Virada.
Volta à estaca zero o sonho 
de um planeta em paz.

14 
Shorts e bonés
prontos pra descer a serra. 
Alegria em alta.

15 
Nobre flamboyant.
Só ele no vasto pasto 
dando sombra aos bois.

16 
Chuva levezinha.
Meu pai dizia: chuvinha 
de plantar feijão.

17 
Futebol na areia.
Quem sabe algum dia um deles 
será rei também.

18
Três dias de samba, 
tamborim, ziriguidum. 
Momento Brasil.

19 
Da folha de amora
para o lencinho da amada. 
Mágico tear.

20
Outrora cantavam 
de tardezinha as cigarras. 
Onde mora o outrora?

21
Bem-te-vi se esbalda 
na bica do chafariz. 
Se sacode, voa.

22
Bebê brinca ao sol. 
De pressinha a vó repassa 
pra família as fotos.

23
Levinhas, levinhas, 
voam as garças em V. 
Vitória da paz.

24 
De repente o rio
cai no precipício e explode. 
Vira catarata.

25
Bisos na varanda 
contemplando a lua cheia. 
Tão longe a de mel.
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continua…
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), À moda de haicais, etc.
Fontes:
Ebook enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Nei Garcez (A Música no tempo)


Deus criando a terra – Alteza -
fê-la, em música, ao cantá-la
entre os sons da natureza,
para os homens imitá-la!

Desde Arezzo à Renascença,
desde a Grécia até Jesus,
sempre a música é presença
dos espíritos de luz.

E por não ter contratempo
entre as línguas das nações,
eis que a música no tempo
une todas gerações.

Com as letras da magia,
que nos dá, o compositor,
a música é a poesia
vestida em traje a rigor!

Musicando, entre outros nomes,
feliz o país que tem 
Villa-Lobos, Carlos Gomes,
compondo, ao mundo também!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Nei Garcez, poeta e trovador, nasceu em 1944, em Curitiba/PR. Formado em Direito, trabalhou como consultor em assuntos relacionados à legislação farmacêutica; depois, por concurso público, foi perito oficial da Secretaria de Segurança Pública do Paraná. Para um projeto para alunos do Ensino Fundamental, produziu trovas pedagógicas: "A Trova em Sala de Aula". Autor do Hino da Polícia Científica do Paraná, foi premiado em vários concursos de trovas no Brasil.
Fontes:
Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sábado, 5 de julho de 2025

Sammis Reachers (Nau de Versos) – 2


202x

há rachaduras no fortim do azul 
cicatrizes nascidas antes do talho

já não há asas no pégaso 
nem canto na sereia

a própria morte 
nega seu beneplácito
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Adverbários

As maiores aventuras da Água 
são contadas pelo Fogo 
em noites de bebedeira
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Paz para praticar meu perenal ofício

Visto este andrajo de leão lá fora
Simulo humores em que ajo e interajo
E suores realizo, rito no qual contas quito.

Chegar em casa é meu fulcral laurel.
Revolucionário, mestre, pregador, menestrel?
Sou o que disso vai no interstício.

Sarau, academia, sodalício? Solitude almejo.
Cego, só por livros vejo: sou tatu cavoucando
Paz para praticar meu perenal ofício.
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mandibular

Há quem, no entretecido 
Das trevas,
Logre ver a luz.

Há ainda quem, 
Sequioso, 
A toque.

Há mesmo quem, 
Ferido de Deus, 
A reflita.

E há quem a mastigue: 
Este, símile dum cão, 
É poeta.
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poema é poeta após aventurado

o que o poeta é em potência
o poema é em ato
poeta a reticência
poema o espalhafato
= = = = = = = = =  

Aldra via

palavras
me 
aconteceram:
estradas 
de 
mim.
= = = = = = = = =  

Nos corres de Calebe, o rapaz do café

No corre de pagar boletos 
Quem ‘guenta’ performar?

Atarefado em varrer o chão 
Ninguém salta do sexto andar

Não faz guilda com morcegos 
Quem tem hora pra acordar

Nem anda só & cheio do cão 
Quem tem Deus em seu lugar
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Dia do Senhor, dia de milagres

O sol que nasce 
A dália que se abre
Eu não ter sido fulminado à porta
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Membro da Confraria Brasileira de Letras. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.

Fontes:
Sammis Reachers. Primeiressências. São Gonçalo/RJ: Edição do autor, 2025.. Enviado pelo poeta.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing