Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Luiz Poeta (Luz e Sombra)


Malba Tahan (O Eclipse do Sol)

Cumpre-me dizer-vos, o Rei do Tempo! que desse dia em diante, a imagem sedutora de Astir, com seus olhos lânguidos e bondosos, não abandonava o oásis de meu pensamento.

Uma tarde, afinal, sem poder dominar as minhas inclinações sentimentais, atravessei o rio, fui ter à casa de Ismael Syada e disse-lhe, convicto de uma decisão longamente amadurecida:

- Escuta, ó chamir! Cada um de nós tem o seu Destino. Desejo casar com tua talentosa irmã Astir. Peço-te que a consultes sobre esta proposta. Dentro de três dias estarei de volta para saber a resposta.

E assim foi. Decorrido aquele prazo procurei, novamente, o dedicado chamir Syada. A resposta encheu-me de júbilo o coração: a graciosa viúva concordava em ser minha esposa.

Fazia-se mister fixar a data do casamento. Sugeriu Syada que a cerimônia se realizasse em ambiente de grande simplicidade, que o estado de viuvez da noiva aconselhava modéstia e exigia discrição. Nesse ponto não concordei. Não admiti que se tentasse envolver o meu casamento nesse véu de mistério e segredo, como se nele houvesse o que quer que fosse de irregular ou clandestino. Nada disso. Repeli as hesitações de meu futuro cunhado e deliberei que o ato nupcial se revestisse da maior pompa e se realizasse em ambiente de luxo e alegria.

Há dois amigos ilustres - declarei com orgulho, cuja presença não poderei dispensar. Um deles é o astrônomo El-Moi-zze, conhecedor de todas as estrelas do céu; o outro é Dibil, o Sereno, cantor de todas as belezas da terra!

Enfim, recusei as brandas ponderações de Syada; demoli, com energia, os escrúpulos exagerados de Astir. Prevaleceu, afinal, a minha caprichosa resolução. O casamento seria realizado com excepcional aparato.

No dia marcado (rolava nas alturas o sol de quinta-feira) vesti os meus trajes mais ricos, empavonei-me com um turbante bem vistoso e tomei o rumo da casa de minha noiva. Ao chegar à margem do rio avistei dois barqueiros.

Ofereceu-se um deles para conduzir-me em seu barco redondo de couro, que negrejava na estaca. Recusei, receoso de enfrentar a correnteza do Tigre naquela embarcação primitiva, tosca e grosseira. Preferi fazer a travessia, algum tempo depois. sentado na proa de uma velha barcaça de pescadores. Estou hoje convencido de que essa resolução foi a origem de todas as minhas desgraças.

Vou contá-las.

Ao alcançar as poéticas tamareiras que contornavam a casa pitoresca de Astir, avistei o velho El-Moi-zze, o Astrônomo, que já regressava para a cidade. Saudei-o com expressões de amizade e respeito. O ulemá acercou-se de mim e disse-me com desmedido júbilo:-

 - O teu casamento, ó generoso El-Hadj! vai realizar-se num dia que a ciência destaca dia notável entre os dias!

Fitei-o curioso. As palavras do sábio enchiam-me de vaidosa satisfação.

- Que tem o dia de hoje de notável? - indaguei, olhando sem interesse para o céu azulado e límpido. Respondeu-me o matemático:

- Dentro de poucas horas um eclipse vai toldar a face incomparável do Sol. As trevas virão pesar sobre a terra e a luz fugirá em pleno dia!

- Teremos hoje o espetáculo de um eclipse! -bradei arrebatado. É maravilhoso! O primeiro da minha vida! Vou aproveitar-me dessa coincidência para surpreender os nossos convidados!

Sem perda de tempo fui ter com meu futuro cunhado Ismael Syada e fiz-lhe saber que era meu desejo aguardar o eclipse previsto e calculado pelo astrônomo.

- Faça-se logo esse casamento! - discordou Syada. - Esses cálculos podem enganar o astrônomo e o eclipse falhar!

O argumento pueril do bom chamir fez-me rir. Os astrônomos não erram - disse-lhe. As trevas virão provar. O casamento será realizado depois do eclipse.

Prevaleceu, ainda uma vez, a minha caprichosa e estúpida vontade. Todos os convidados, que enxameavam nas salas, foram informados de que a cerimônia presidida pelo cádi aguardaria que a "grande sombra" descesse sobre a terra.

Impunha-se, aos nossos hóspedes, uma espera que poderia entediar os mais irrequietos. Fui ter com o poeta Dibil e pedi-lhe que distraísse com alguns versos os seus incontáveis admiradores. Figuravam, entre os presentes, vários homens de uma caravana de Basra, que não conheciam Dibil. Esses beduínos ficaram deslumbrados com o talento do jovem. Lembro-me, ainda, de uma pequena poesia, que muito agradou a todos:

As fontes vão para o mar / Os rios vão para o mar /
E os meus desejos sombrios / Para o céu de teu olhar! /
Entanto, as fontes e os rios / Se mudam chegando ao mar /
E os meus desejos sombrios / Desejos hão de ficar!

Súbito, um mossulense que se achava na estrada, correu para a porta, gritando:

- A sombra! A sombra no sol!

Percebia-se, realmente, sobreposta ao disco fulgurante que remontava o firmamento, o recorte negro de uma sombra.

Ia ter início o eclipse. Um rumor surdo rolou como onda que partisse do rio para a majestade do deserto. Os camelos estonteados blateravam: o trissar forte das andorinhas cortou o céu. Estrugiam gritos lancinantes.

Dois ou três beduínos atiraram-se, de bruços, ao chão, e puseram-se a orar fervorosamente:

- Louvado seja Allah, Clemente e Misericordioso! Nós te adoramos, Senhor, e imploramos tua divina assistência...

Cada vez mais intensa e mais pesada descia a sombra, envolvendo o rio, as casas e as montanhas. Ouvia-se o chorar convulsivo dos escravos.

O kheddin encarregado das lâmpadas, numa desesperada ansiedade, corria como um demente de um lado para outro, em busca de isqueiros. Segurei-o pelo braço e disse-lhe golpeado de impaciência:

- Deixa a luz! Não te preocupes com os isqueiros! Essa escuridão passa logo!

Decorridos alguns instantes, o sol voltou a brilhar novamente e as sombras fugiram do céu.

Os caravaneiros bradavam cheios de alegria:

- Iallah! Iallah!

Entrementes corri em busca de meu amigo Syada e disse-lhe:

- Agora, sim! Chama o cádi. Façamos o casamento!

Ao ver a escrava negra de Astir junto à porta, disse-lhe apressado com voz abafada:

- Avisa tua ama! Chegou a hora da cerimônia!

A núbia ocultou o rosto entre as mãos e pôs-se a chorar. Interpelei-a, aflito: Que houve? Que sucedeu com minha arusa?

Com a voz entrecortada pelos soluços, contou-me que Astir, durante o eclipse, havia fugido com o poeta Dibil, o Sereno! Apaixonara-se por ele, ao ouvir- lhe os versos, e não quisera saber mais de mim!

Mais uma vez vinha a fatalidade navalhar-me impiedosamente o coração!

Senti-me aniquilado. A irmã de meu amigo - aquela em que eu tanto confiava - esquecida de seus compromissos e deveres, traíra-me pouco antes do casamento!

Ó raiva! Ó desespero!

Tive ímpeto de espancar o cádi, os convidados e o astrônomo imprudente, que anunciara o eclipse fatal. E tudo por minha culpa! O poeta miserável, que me roubara a noiva e comparecera ao casamento unicamente porque eu fizera empenho em vê-lo entre os convidados!

Rolei esbraseado como um louco pelo chão; arranquei o turbante e rasguei a seda de minha roupa. Cheguei até a perder os sentidos.

Quando despertei daquele abalo tremendo, a casa já estava vazia. Apenas Ismael Syada, o chamir, ficara solidário comigo naquele vexame, naquela imensa desventura...

E o peroleiro Salib, deixando pender desoladamente os braços, concluiu, num desalento:

- Foi assim, ó Príncipe dos Crentes! que transcorreu a minha segunda tentativa de casamento. Da infiel Astir nunca mais tive notícia, mas asseguro que será quase impossível esquecê-la e arrancá-la de meu coração!

Fonte:
TAHAN, Malba. Aventuras do Rei Baribê.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A. A. de Assis (Por um beijo)


Malba Tahan (A roupa esfarrapada)

Ouçamos a surpreendente aventura do valente caravaneiro!

Há quinze anos passados, o meu intransitivo amor às viagens e aventuras levou-me a conduzir uma caravana de mercadores xiitas até a perigosa cidade de Ispahã.

No decurso dessa jornada, tormentosa e áspera, conheci um jovem que se chamava Ozaibe Nássara. Profunda amizade nos ligou desde logo. Raro era o dia em que ele não vinha à minha tenda, onde nos deixávamos ficar longas horas a discretear. Ozaibe era muito pobre, muito fantasioso e original. Os parcos recursos com que vivia, ganhara-os vigiando e cuidando dos camelos de um rico mercador persa.

Confessou-me, certa vez, que o seu grande sonho seria tentar a vida na Índia dos rajás. Nesse país prodigioso, onde os príncipes vivem em palácios deslumbrantes e os templos são adornados com gemas preciosas, ali é fácil conquistar riquezas. Faltavam-lhe, porém, recursos para a viagem. Ofereci-me para auxiliá-lo. Ozaibe aceitou minha proposta sob uma condição. Seríamos como dois sócios numa empresa. Se a viagem fosse bem sucedida e a sorte o favorecesse, repartiríamos irmãmente os lucros; no caso contrário, a dívida desapareceria e eu nada poderia reclamar. Apostado em ser-lhe agradável, concordei com o fantasioso plano e entreguei-lhe todas as minhas economias que, a esse tempo, orçavam em trezentos dinares-ouro.

Partiu Ozaibe para a Índia e dele nunca mais tive notícias. Os anos amontoaram-se no passado e o tempo foi desfiando o seu rosário interminável de sucessos. De quando em vez a lembrança de Ozaibe vinha martelar, como o peso da saudade, em meu pensamento. Pobre amigo! A ambição o levara a um país de idólatras, onde as feras têm menos arreganhos que os homens. Os que ouviam falar no caso riam-se de minha ingenuidade. Só um louco (proclamavam) entrega todos os seus haveres a um aventureiro que parte, sem rumo, pelos caminhos incertos do mundo! Do que fiz por Ozaibe respondia eu aos incréus - não me arrependo. Foi por amizade; está acabado!

Há três dias passados tive uma das grandes surpresas da minha vida. Ao sair do gum em companhia de dois amigos, acercou-se de mim um estrangeiro com ar misterioso.

- És tu o chamir Ismael Syada? - perguntou-me olhando muito firme para mim.

Sim - confirmei um pouco desconfiado. - Que deseja o senhor?

Respondeu o desconhecido com mesuras:

- Venho da Índia e trago-te uma encomenda de teu amigo Ozaide Nássara, o rico senhor de Sirampur. – E entregou-me um embrulho de pano e uma carta.

Aquela mensagem, que eu recebi inesperadamente do peregrino, encheu-me de alegria. Era a primeira notícia do amigo que eu julgava perdido na voragem fanática do Ganges.

A curiosidade estugou-me os passos. Entrando em casa abri o embrulho.

Ó tristíssima desilusão! Ozaibe, que o mensageiro hindu dissera ser o "rico senhor de Sirampur", envia-me, como presente, uma roupa velha, já meio apodrecida e cheia de remendos!

"Em nome de Allah, o Único! De Ozaibe Nássara, de Sirampur, para o seu amigo Ismael Syada, chamir em Mossul. Aqui estou, meu velho amigo, junto ao castelo do rajá de Bradbarad, meu chefe e protetor. Remeto-te, como lembrança, e de acordo com o nosso contrato feito em Ispahã, a primeira roupa que vesti no país dos hindus. Repara que ela tem dez remendos; remendos em toda a parte; são remendos mal feitos; remendos grosseiros; mas esses remendos não me envergonham; são remendos do meu passado. O grande valor da roupa está nos remendos, aquele que vê bem os remendos vê tudo e pode até, pelos remendos, descobrir a vida e o segredo de uma pessoa. Que Allah derrame sobre o meu amigo todas as bênçãos. Uassalã".

Fiquei estarrecido. Já pensava em livrar-me dos sórdidos andrajos atirando-os ao rio, quando surgiu minha irmã Astir.

Astir é viúva e mora comigo. Ouço, frequentemente, os seus conselhos, pois ela é muito sensata e inteligente.

Minha irmã leu e releu atentamente a carta e disse-me, por fim:

- Há grande mistério nisto. O teu amigo, nesta carta, repete nove vezes a palavra "remendo" e afirma que os trapos contêm dez remendos. Ora, quem de dez tira nove fica com um! Há, portanto, na roupa velha, um remendo de sobejo.

O raciocínio de Astir pareceu-me engenhoso. De dez tirando nove fica um! O cálculo estava certo, e o exame minucioso a que procedemos nos trapos de Ozaibe veio provar que as previsões de Astir estavam tão certas como aquela conta! Com efeito. Entre as dobras sujíssimas do pano, bem oculta no meio de um remendo grosseiro, encontramos essa pedrinha vermelha!

Aquela gema era o presente que o dedicado e fiel Ozaibe fazia chegar às minhas mãos.

Resolvi desfazer-me da pedra. Qual seria o seu valor? Ignorava-o por completo.

Aquele joalheiro magro, de cicatriz na testa, é o mais rico de Mossul. Trouxe-o aqui para examinar a pedrinha indiana.

Virou, olhou, calculou e disse-me por fim em tom depreciativo:-

- É um rubi comum da Índia. Pago por ele trinta dinares!

Fui consultar Astir. Escondida no vão de uma porta, ela estivera observando todas as atitudes do joalheiro.

- Não vendas por esse preço - declarou. - O rubi deve valer mais!

- Valer mais, por quê? - indaguei irrefletidamente.

Explicou-me Astir, sorridente e maliciosa:

Vi o mercador limpar três vezes os dedo no turbante!

Voltei à sala e declarei ao joalheiro que não faria a transação. O homem, depois de meditar algum tempo, aumentou a oferta.

- Pago pela pedra cinquenta e dois dinares!

Mais uma vez fui ouvir a opinião de Astir.

- Não vendas - retorquiu minha irmã. - A pedra deve valer mais! Observei que o homem fazia cálculos até com os dedos da mão esquerda!

Aquela razão calou-me no espírito. Recusei a nova proposta e o joalheiro retirou-se contrariado, dando a entender que não pagaria pelo rubi quantia mais elevada.

No dia seguinte, porém, voltou e propôs pagar-me setenta dinares.

Fui, ainda uma vez, ouvir o parecer de Astir.

- Não vendas, ó Ismael - declarou minha irmã. - O teu rubi deve valer muito mais! O joalheiro atravessou o rio num barco de couro! Essa temeridade ele não a praticaria se a pedra não fosse de grande valor!

Achei razoável a observação e recusei, decidido, a nova proposta.

Hoje, finalmente, pouco antes de iniciar a festa, o joalheiro voltou a insistir. Oferecia cento e quarenta dinares pelo rubi indiano.

Corri a Astir e disse-lhe entusiasmado:

- Agora, sim! O homem já está mais generoso. Presumo que deveríamos fechar o negócio!

- Não vendas! - acudiu logo minha irmã... - Pois não reparaste que ele passou de setenta para cento e quarenta! Dobrou a oferta! Quando o comprador dobra a oferta, a mercadoria na certa vale muito mais!

- Ó Astir! - exclamei - os motivos em que baseias as tuas opiniões são mais incertos que o rumo de uma folha levada pelo vento. Na marcha em que vamos, ó Astir, jamais conseguirei fechar negócio com esse rubi!

Astir atalhou aquela observação sorrindo:

- Se julgas que estou exagerando, consulta o teu amigo Salib, o peroleiro!

- Para atender a essa sugestão de Astir, resolvi ouvir a tua opinião. Eu fui por ti, ó Salib! informado de que esta pedrinha (que o joalheiro avalia em cento e poucos dinares) é um diamante vermelho de alto valor!

Quando Ismael Syada concluiu sua curiosa narrativa, o erudito El-Moizze, o astrônomo, que tudo ouvira com religiosa atenção, disse, muito sério:

- A tua irmã, ó chamir! deve ser dotada de um talento excepcional! Por Allah! Gostaria de consultá-la, agora, acerca de um interessante problema!

Respondeu Syada:

- Vou chamá-la. Ela, decerto, não se recusará a vir cá. Ambos são meus amigos e Astir sabe ser reconhecida a quem me auxilia!

Nesse momento abriu-se a porta e vimos surgir uma jovem risonha e encantadora, que se dirigiu para nós com o rosto inteiramente descoberto.

Era Astir, a viúva, irmã do chamir Syada. Seu perfil era fino, sua face branda; os cabelos escuros caiam-lhe sobre os ombros. Os seus olhos formosamente negros, perturbadores, envolveram-me numa onda de luz.

- Louvado seja o Onipotente, que tanta beleza criou para encanto de nossa vida!

Senti, naquele momento, que a caravana da minha existência ia tomar novo rumo pelos caminhos de Allah!

O encontro da inteligente viuvinha com o sábio astrônomo foi o episódio dos mais curiosos a que tenho assistido em minha vida. Não posso narrá-lo para não alongar demais esta narrativa.

Ao romper do “koddar” (o nascer do sol), deixei a casa de meu amigo Ismael Syada.

Era a hora da primeira prece.

continua...

Fonte:
TAHAN, Malba. Aventuras do Rei Baribê.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Andrezza Rangel Sardenberg (Imagem Perdida)


Malba Tahan (O rubi sem valor)

Tão desolado me deixou o triste e vergonhoso desfecho de meu casamento que resolvi, naquele mesmo dia, abandonar para sempre a atraente e luminosa Damasco. Recalcando meu desengano, vendi a torto e a direito pérolas e colares, liquidei de afogadilho os meus negócios e alistei-me em uma poderosa caravana que demandava as férteis e ambicionadas colinas de Haleb.

Encantaram-me nessa cidade, coroada por sete repousantes oásis, os seus khãs (mercados) barulhentos, onde se reúnem, nas horas mais quentes do dia, milhares de mercadores e aventureiros, sendo que estes, a meu ver, são menos perigosos do que aqueles.

De Haleb, onde permanecemos dois sábados seguimos em nossos possantes camelos para Urhai, cujas ruínas históricas ou sagradas me deixaram indiferentes. Três dias depois, paramos em Amida, a célebre fortaleza, mais temerosa pelas febres que a assolam do que pelas tropas que a defendem.

Findo um rápido e intranquilo descanso em Amida, partimos para Mossul, seguindo a esteira sinuosa do Tigre. Decorridas duas semanas e meia, batemos às portas de Mossul, onde fomos recebidos com cativantes manifestações de alegria.

Durante essa longa e fatigante viagem, marchetada de memoráveis acidentes e aventuras, ofereceu-me o Destino oportunidade de salvar a vida do nosso dedicado chamir Ismael Syada. Esse episódio ocorreu durante um conflito perigoso com os fanáticos da tribo dos Iezides.

Ismael Syada, homem leal e generoso, residia, com a família, em Mossul. Ali conquistara incontáveis amizades e dedicações. Quando o procurei para uma palestra nas despedidas, depois de olhar-me longo tempo, disse-me:

- Não posso nem devo afastar-me de ti, meu amigo, sem deixar bem gravada, em teu espírito, a certeza de minha gratidão. Vou, pois, oferecer-te, dentro de poucos dias, em minha casa, uma festa, à qual estarão presentes todos os nossos bons camaradas de Mossul.

Aquela generosa deferência fez vibrar-me as cordas da lisonja.

Decorridas duas semanas, fui pela manhã avisado de que o sarau oferecido pelo chamir teria lugar naquele dia, depois da última prece.

A casa de Ismael Syada erguia-se na outra margem do rio, num recanto pitoresco, entre árvores ramalhudas, muito além de um arruinado caravançará a que os árabes chamavam chistosamente Ra-abak (pescoço).

As sombras da noite punham seus arabescos arroxeados sobre as almenaras de Mossul, quando avistei a acolhedora ezbah (habitação) de Ismael.

O chamir, com uma dezena de amigos, veio radiante.

- Seja bem vindo; duas vezes bem vindo.

À minha chegada, tiveram início os folguedos daquela noite encantadora. Alguns rapazes de Mossul executaram magnífico concerto de tambores. Deleitaram-nos, em seguida, com várias canções do deserto.

Aos alegres convivas da festa eram oferecidos peixe frito, frutas, haleu seca, tâmaras secas e uma deliciosa bebida feita com suco de uva e limão.

Entre os convidados de Syada destacavam-se dois homens, cujos nomes se sublinhavam entre os notáveis de Mossul. Um deles - o velho El-Moi-zze - era astrônomo e matemático de fama; o outro, muito moço ainda, de face rapada, apelidado Dibil, o Sereno, era poeta de invejável popularidade. Enquanto o primeiro calculava distâncias, o outro olhava, em deliciosos poemas, a beleza da terra e os encantos do Amor e da Vida.

Em dado momento o preclaro ulemá El-Moi-zze, havendo-se posto de pé, depois de pedir a atenção de todos os convivas, formulou uma interessante proposta:

- Por Allah! Em homenagem ao valente mercador Abd-el-Salib, a quem deve a vida o nosso dedicado amigo Ismael Syada, vamos todos olhar para um ponto do céu!

Proferidas tais palavras deixou a sala e encaminhou-se, com largas e soleníssimas passadas, para um pátio fronteiro à casa. Todos o acompanharam. Fui, igualmente, levado para ali.

A noite dormia calma e silenciosa. Sobre nossas cabeças se desdobrava o véu do universo. As incontáveis constelações faziam rolar pelos areais da imensidão caravanas de mundos luminosos.

O ulemá ergueu o braço e apontou para um ponto do céu.

- Canopo! Canopo! (uma estrela de primeira grandeza) – bradou. - Consagremos a luz daquela estrela à felicidade do nosso amigo!

Todos permaneceram em silêncio, os olhos fitos no astro que refulgia na amplidão.

Encantou-me a delicada e original homenagem. Daquele momento em diante, para todos os muçulmanos ali presentes, o meu nome ficaria eternamente no céu profundo, preso à luz de Canopo!

Decorridos alguns instantes, o astrônomo El-Moi-zze pediu ao poeta Dibil, o Sereno, que declamasse alguns versos.

Sentamo-nos em roda, no chão. Dibil, proferidas as palavras do ritual, começou uma cantiga meio alegre e meio plangente.

Meu coração é moinho / De vento, mas singular / Que anda presto, ou mansinho, / conforme a vida lhe andar.
Mói de noite, mói de dia, / mói e remói sem cessar; / mói às pressas, na alegria; / na tristeza, devagar.

Estava eu distraído a ouvir os versos do jovem Dibil, quando me tocaram, de leve, no ombro. Voltei-me, rápido. Era o chamir Syada. Inclinou-se e disse-me quase em segredo:

- Levanta-te daí! Vem comigo! Preciso de ti para esclarecer uma dúvida.

Levou-me o bom chamir para uma saleta cheia de luz, isolada no fundo da casa. Ali, já se achavam o astrônomo El-Moi-zze e um homem magro, nervoso, mal-encarado, cujo nome arrevesado não consegui decorar. Em sua cara ulcerada de vícios, avultava uma cicatriz escura que, partindo do meio da testa, vinha-lhe, em curva, até a ponta do nariz hebraizante.

Quando entrei, o matemático sustinha na palma da mão uma pequenina pedra e examinava-a com vivo empenho.

- Aprecia esta beleza! - disse com entusiasmo o chamir recebendo a gema do astrônomo e depositando-a na minha mão. Sei que és grande conhecedor de preciosidades! Quanto vale este rubi?

E apontando para o magricela da cicatriz, acrescentou risonho:

- Este nosso amigo, joalheiro de Mossul, oferece por ele cento e quarenta dinares! Não concordei com o preço e quero ouvir a tua avaliação.

Era uma pedra vermelha do tamanho de uma sementinha. Revirei-a, lentamente, entre os dedos. O chamir olhava interrogativamente para mim, seguindo muito atento todos os meus gestos. Disse-lhe, por fim, muito sério:

- Julgo que estás iludido, meu amigo. Esta pedra, como rubi, não vale nem cinco dinares!

O joalheiro expediu uma risadinha triunfante. Syada, muito pálido, mostrou, nos olhos arregalados, um espanto inconcebível.

Em matéria de pedras preciosas tinha o chamir a minha autoridade em conta de infalível. A baixa avaliação (reduzida a menos de cinco dinares) de uma pedra para a qual já haviam oferecido cento e quarenta, representava para ele um golpe tremendo.

- Nem cinco dinares? - inquiriu sucumbido. E insistiu, aflito, desolado:

- Examina bem! Vê como é bonita!

- Espera, ó chamir! - retorqui. - Disse-te que esta pedra, "como rubi", não vale nem cinco dinares.

E repeti, sublinhando bem as palavras:

-  Como rubi! Ouviste?

E para livrá-lo da aflição que o torturava, ajuntei com absoluta segurança:

- É simples a razão do meu dito. Esta pedra não é rubi. É um diamante vermelho, que valerá, no mínimo, oito mil dinares!

- É mentira! - grunhiu subitamente enfurecido o homem da cicatriz. E com revoltante estouvamento empurrou-me num repelão, e retirou-se da sala pisando forte como um elefante.

Fez o chamir o gesto de sair em perseguição do desaforado joalheiro para puni-lo severamente. Contive-o.

- Deixa-o em paz - aconselhei. - A perda inesperada de um bom negócio alucina o ambicioso sem escrúpulos. Queria comprar por meio dinar a joia que sabia valer mais de cem! Dize-me    ó chamir! Como te veio às mãos esta pedra tão rara?

Respondeu-me Syada, com expressão de orgulho: - Foi minha irmã Astir quem a descobriu pelo cálculo, em dez remendos de uma roupa velha!

Encarei-o com assombro.

O velho astrônomo, a meu lado, esboçou um riso de incredulidade. Quem realmente poderia aceitar, como verdadeira, aquela informação do chamir? Como seria possível descobrir, com o socorro dos números, um precioso diamante vermelho perdido nos remendos de um fato velho?

- A origem desta pedra — esclareceu Syada rindo astutamente - está ligada a um dos episódios memoráveis de minha vida.

E contou-me um caso tão impressionante, que bem pudera figurar entre as lendas prodigiosas do País dos Árabes.

continua...

Fonte:
TAHAN, Malba. Aventuras do Rei Baribê.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Amilton Maciel Monteiro (Íntimas Indagações)


Alexandre Herculano (O profeta)

O Guadamelato é uma Ribeira que, descendo das solidões mais distantes da Serra Morena, vem, através de um território montanhoso e selvático, desaguar no Guadalquivir, pela margem direita, pouco acima de Córdova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma densa população: foi nas eras do domínio sarraceno em Espanha. Desde o governo do amir Abul-Khatar o distrito de Córdova fora distribuído às tribos árabes do Iemem e da Síria, as mais nobres e mais numerosas entre todas as raças da África e da Ásia que tinham vindo residir na Península por ocasião da conquista ou depois dela. Às famílias que se estabeleceram naquelas encostas meridionais das longas serranias chamadas pelos antigos Montes Marianos conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos povos pastores. Assim, no meado do décimo século, posto que esse distrito fosse assaz povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao de um deserto; porque nem se descortinavam por aqueles cabeços e vales vestígios alguns de cultura, nem alvejava uni único edifício no meio das colinas rasgadas irregularmente pelos algares das torrentes ou cobertas de selvas bravias e escuras. Apenas, um ou outro dia, se enxergava na extrema de algum almargem virente a tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria ali, se, porventura, se buscasse.

Havia, contudo, povoações fixas naqueles ermos; havia habitações humanas, porém não de vivos. Os árabes colocavam os cemitérios nos lugares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionais dos outeiros, onde o sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus últimos raios pelas lájeas lisas das campas, por entre os raminhos floridos das sarças açoitadas do vento. Era ali que, depois do vaguear incessante de muitos anos, eles vinham deitar-se mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo sono sacudido sobre as suas pálpebras das asas do anjo Asrael.

A raça árabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra família humana, gostava de espalhar na terra aqueles padrões, mais ou menos suntuosos, do cativeiro e da imobilidade da morte, talvez para avivar mais o sentimento da sua independência ilimitada durante a vida.

No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que subia das margens do Guadamelato para o Nordeste, estava assentado um desses cemitérios pertencentes à tribo Iemenita dos Benu-Homair. Subindo pelo rio viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas, como vasto estendal, e três únicas palmeiras, plantadas na coroa do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemitério Al-tamarah. Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses brincos da natureza, que nem sempre a ciência sabe explicar; era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter sido posto ali pelos esforços de centenares de homens, porque nada o prendia ao solo. Do cimo desta espécie de atalaia natural descortinavam-se para todos os lados vastos horizontes.

Era um dia à tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras principiavam do lado do Leste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular, um árabe dos Benu-Homair, armado da sua comprida lança, volvia olhos atentos, ora para o lado do Norte, ora para o de Oeste: depois, sacudia a cabeça com um sinal negativo, inclinando-se para o lado oposto da grande pedra.

Quatro sarracenos estavam ali, também, assentados em diversas posturas e em silêncio, o qual só era interrompido por algumas palavras rápidas, dirigidas ao da lança, a que ele respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabeça.

"Al-barr”, - disse, por fim, um dos sarracenos, cujo trajo e gesto indicavam uma grande superioridade sobre os outros – “parece que o caide de Chantaryn esqueceu a sua injúria, como o wali de Zarkosta a sua ambição de independência. Até os partidários de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pai, não podem acreditar que Abdallah realize as promessas que me induziste a fazer-lhes."

"Amir Al-melek - replicou Al-barr - ainda não é tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum sucesso imprevisto. Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram eles pela santa Kaaba que os enviados com a notícia da sua rebelião e da entrada dos cristãos chegariam hoje a este lugar aprazado, antes de anoitecer?”

"Juraram - respondeu Al-athar - mas que fé merecem homens que não duvidam de quebrar as promessas solenes feitas ao califa e, além disso, de abrir o caminho aos infiéis para derramar o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem as esperanças que pões nos teus ocultos aliados. Oxalá não tivesse de tingir o sangue as ruas de Kórthoba, e não houvera de ser o supedâneo do trono que ambicionas o túmulo de teu irmão!"

Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quisesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia comovido por duas paixões opostas. Depois de se conservar algum tempo em silêncio, exclamou:

"Se os mensageiros dos levantados não chegarem até o anoitecer, não falemos mais nisso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido sucessor do califado: eu próprio o aceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter convosco. Se o destino assim o quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh e que não soubeste acabar, como aquela que debalde tentaste repetir na presença dos embaixadores do Frandjat, e que foi causa de caíres no desagrado de meu pai e de Al-hakem e de conceberes esse ódio que alimentas contra eles, o mais terrível ódio deste mundo, o do amor-próprio ofendido."

Ahmed Al-athar e o outro árabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de cólera.

"Pagas mal, Abdallah - disse ele com a voz presa na garganta – os riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais belo e poderoso Império do Islão. Pagas com alusões afrontosas aos que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma coroa. És filho de teu pai!... Não importa. Só te direi que é já tarde para o arrependimento. Pensas, acaso, que uma conspiração sabida de tantos ficará oculta? No ponto a que chegaste, retrocedendo é que hás de encontrar o abismo!”

No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se advertia o príncipe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Alhakem.

Um grito, porém, do atalaia o interrompeu. Ligeiro como relâmpago, um vulto saíra do cemitério, galgara o cabeço e se aproximara sem ser sentido: vinha envolto num albornoz escuro, cujo capuz quase lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo e arrancaram as espadas.

Ao ver aquele movimento, o que chegara não fez mais do que estender para eles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: então as espadas baixaram-se, como se corrente elétrica tivesse adormecido os braços dos quatro sarracenos. Albarr exclamara:

 -"Al-muulin o profeta ! Al-muulin o santo!..."

"Al-muulin o pecador - interrompeu o novo personagem -; Almuulin, o pobre fakih penitente e quase cego de chorar as próprias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus, por isso, ilumina, às vezes, os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição! Sereis satisfeitos! O Senhor pesou na balança dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Ele foi achado mais leve. A ti o trono; a ele o sepulcro. Está escrito. Vai; não pares na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kórthoba. Entra no teu palácio Merwan; é o palácio dos califas da tua dinastia. Não foi sem mistério que teu pai to deu por morada. Sobe ao sótão da torre. Ali acharás cartas do caide de Chantaryn e delas verás que nem ele, nem o wali de Zarkosta nem os Benu-Hafsun faltam ao que te juraram!"

"Santo fakih - replicou Abdallah, crédulo, como todos os muçulmanos daqueles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado - creio o que dizes, porque nada para ti é oculto. O passado, o presente, o futuro, os dominas com a tua inteligência sublime. Asseguras-me o triunfo; mas o perdão do crime podes tu assegurá-lo?"

"Verme, que te crês livre! - atalhou com voz solene o fakih. - Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frágeis instrumentos nas mãos do destino, e que te crês autor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ela, acaso, a Deus perdão do seu pecado? Átomo varrido pela cólera de cima contra outro átomo, que vais aniquilar, pergunta, antes, se nos tesouros do Misericordioso há perdão para o orgulho insensato!"

Fez então uma pausa. A noite descia rápida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de Córdova. Nesta postura, a figura do fakih fascinava. Coando pelos lábios as sílabas, ele repetiu três vezes:

"Para Merwan!"

Abdallah abaixou a cabeça e partiu vagarosamente, sem olhar para trás. Os outros sarracenos seguiram-no. Al-muulin ficou só.

Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Córdova; se vivêsseis, porém, naquela época e o perguntásseis nessa cidade de mais de um milhão de habitantes, ninguém vo-lo saberia dizer. Era um mistério a sua pátria, a sua raça, donde viera. Passava a vida pelos cemitérios ou nas mesquitas. Para ele o ardor da canícula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem. Raras vezes se via que não fosse lavado em lágrimas. Fugia das mulheres, como de um objeto de horror. O que, porém, o tornava geralmente respeitado ou, antes, temido, era o dom de profecia, o qual ninguém lhe disputava. Mas era um profeta terrível, porque as suas predições recaíam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do império os cristãos faziam alguma correria ou destruíam alguma povoação, ele anunciava publicamente o sucesso nas praças de Córdova.

Qualquer membro da família numerosa dos Benu-Umeyyas caía debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota província do império, ainda das do Moghreb ou Mauritânia, na mesma hora, no mesmo instante, às vezes, ele o pranteava, redobrando os seus choros habituais. O terror que inspirava era tal, que, no meio de um tumulto popular, a sua presença bastava para fazer cair tudo em mortal silêncio. A imaginação exaltada do povo tinha feito dele um santo, santo como o islamismo os concebia; isto é, como um homem cujas palavras e cujo aspecto gelavam de terror.

Ao passar por ele, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em voz quase imperceptível:

"Salvaste-me!"

O fakih deixou-o afastar e, fazendo um gesto de profundo desprezo, murmurou:

"Eu?! Eu, teu cúmplice, miserável?!"

Depois, levantando ambas as mãos abertas para o ar, começou a agitar os dedos rapidamente e, rindo com um rir sem vontade, exclamou:

"Pobres títeres!"

Quando se fartou de representar com os dedos a ideia de escárnio que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemitério, também para as bandas de Córdova, mas por diverso atalho.

Fonte: 
HERCULANO, Alexandre. O Alcaide de Santarém. excerto

domingo, 26 de novembro de 2017

Guilherme de Almeida (Canção do expedicionário)


Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Você sabe de onde eu venho?
É de uma Pátria que eu tenho
No bojo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Venho do além desse monte
Que ainda azula o horizonte,
Onde o nosso amor nasceu;
Do rancho que tinha ao lado
Um coqueiro que, coitado,
De saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da cruz!

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Monteiro Lobato (A colcha de retalhos)

- Upa! Cavalgo e parto.

Por estes dias de março a natureza acorda tarde. Passa as manhãs embrulhada num roupão de neblina e é com espreguiçamentos de mulher vadia que despe os véus da cerração para o banho de sol.

A névoa esmaia o relevo da paisagem, desbota-lhe as cores. Tudo parece coado através dum cristal despolido.

Vejo a orla de capim tufada como debrum pelo fio dos barrancos; vejo o roxo-terra da estrada esmaecer logo adiante; e nada mais vejo senão, a espaços, o vulto gotejante dalguns angiqueiros marginais.

Agora, uma porteira.

Ali, a encruzilhada do Labrego.

Tomo à destra, em direitura ao sítio do José Alvorada.

Este barba-rala mora-me a jeito de empreitar um roçado no capoeirão do Bilu, nata da terra que pelas bocas do caeté legítimo, da unha-de-vaca e da caquera está a pedir foice e covas de milho.

Não é difícil a puxada: com cinquenta braças de carreador boto a roça no caminho.

Três alqueires, só no bom. Talvez quatro. A noventa por um - nove vezes quatro trinta e seis; trezentos e sessenta alqueires de oito mãos. Descontadas as bandeiras que o porco estraga e o que comem a paca e o rato...

Será a filha do Alvorada?

- Bom dia, menina! - O pai está em casa?

É a filha única. Pelo jeito não vai além de quatorze anos.

Que frescura! Lembra os pés d'avenca viçados nas grotas noruegas. Mas arredia e até como a fruta do gravatá. Olhem como se acanhou! D'olhos baixos, finge arrumar a rodilha. Veio pegar água a este córrego e é milagre não se haver esgueirado por detrás daquela moita de taquaris, ao ver-me.

- O pai está lá? - insisti.

Respondeu um "está" enleado, sem erguer os olhos da rodilha.

Como a vida no mato asselvaja estas veadinhas! Note-se que os Alvoradas não são caipiras. Quando comprou a situação dos Periquitos, o velho vinha da cidade; lembro-me até que entrava em sua casa um jornal.

Mas a vida lhes correu áspera na luta contra as terras ensapezadas e secas, que encurtam a renda por mais que dê de si o homem. Foram rareando as idas à cidade e ao cabo de todo se suprimiram. Depois que lhes nasceu a menina, rebento floral em anos outoniços, e que a geada queimou o café novo - uma tamina, três mil pés - o velho, amuado, nunca mais espichou o nariz fora do sítio.

Se o marido deu assim em urumbeva (pessoa crédula, fácil de ser enganada), a mulher, essa enraizou de peão para o resto da vida. Costumava dizer: mulher na roça vai à vila três vezes - uma a batizar, outra a casar, terceira a enterrar.

Com tais casmurrices na cabeça dos velhos, era natural que a pobrezinha da Pingo d'Água (tinha esse apelido a Maria das Dores) se tolhesse na desenvoltura ao extremo de ganhar medo às gentes. Fora uma vez à vila com vinte dias, a batizar. E já lá ia nos quatorze anos sem nunca mais ter-se arredado dali.

Ler? Escrever? Patacoadas, falta de serviço, dizia a mãe.

Que lhe valeu a ela ler e escrever que nem uma professora, se depois que casou nunca mais teve jeito de abrir um livro? Na roça, como na roça.

Deixei a menina às voltas com a rodilha e embrenhei-me por um atalho conducente à morada.

Que descalabro!... Da casa velha aluíra uma ala, e o restante, além da cumeeira selada, tinha o oitão fora do prumo.

O velho pomar, roído de formiga, morrera de inanição; na ânsia de sobreviver, três ou quatro laranjeiras macilentas, furadas de broca e sopesando o polvo retrançado da erva-de-passarinho, ainda abrolhavam rebentos cheios de compridos acúleos. Fora disso, mamoeiros, a silvestre goiaba e araçás, promiscuamente com o mato invasor que só respeitava o terreirinho batido, fronteiro à casa. Tapera quase e, enluradas nela, o que é mais triste, almas humanas em tapera.

Bati palmas.

- Ó de casa! Apareceu a mulher.

- Está seu Zé? - Inda agorinha saiu, mas não demora. Foi queimar um mel na massaranduba do pasto. Apeie e entre.

Amarrei o cavalo a um moirão de cerca e entrei.

Acabadinha, a Sinh'Ana. Toda rugas na cara - e uma cor... Estranhei-lhe aquilo.

- Doença! - gemeu. - Estou no fim. Estômago, fígado, uma dor aqui no peito que responde na cacunda. Casa velha, é o que é.

- Metade é cisma - disse-lhe para consolo.

- Eu é que sei! - retrucou-me suspirando.

Entrementes, surgiu da cozinha uma velhota bem-apessoada, no cerne, rija e tesa, que saudou e:

- Está espantado do jeito de Nhana? Esta gente de agora não presta para nada. Olhe, eu com setenta no lombo não me troco por ela. Criei minha neta e inda lavo, cozinho e coso. Admira-se? Coso, sim!...

- Mecê é gabola porque nunca padeceu doença - nem dor de dente! Mas eu? Pobre de mim! Só admiro ainda estar fora da cova... Aí vem o Zé.

Chegava o Alvorada. Ao ver-me, abriu a cara.

- Ora viva quem se lembra dos pobres! Não pego na sua mão porque estou assim... É só melado. Bonito, hein? Estava difícil, num oco muito alto e sem jeito. Mas sempre tirei. Não é jiti, não! É mel-de-pau.

Depôs num mocho a cuia dos favos e se foi à janela, lavar as mãos à caneca d'água que a mulher despejava. Pôs os olhos no meu cavalo.

- Hoje veio no picaço... Bom bicho! Eu sempre digo: animais aqui no redor, só este picaço e a ruana do Izé de Lima. O mais é eguada de moenda.

Neste momento entrou a menina de pote à cabeça. Ao vê-la, o pai apontou para a cuia de mel.

- Está aí, filha, o doce da aposta. Perdi, paguei. Que aposta? Ah! ah! Brincadeira. A gente cá na roça, quando não tem serviço com qualquer coisa se diverte. Vinha passando um bando de maritacas. Eu disse à loa: "São mais de dez!" Pingo negou: "Não chega lá!" Apostamos. Eram nove. Ela ganhou o doce. Doce da roça mel é. Esta songuinha só vendo; não é o que parece, não...

A loquacidade daquele homem não desmedrara com o atraso da vida. Em se lhe dando corda, ressurgia nele o tagarela da cidade.

Expus-lhe o negócio. Alvorada enrugou a testa; refletiu um bocado, de queixo preso. Depois:

- Eu hoje, franqueza, não valho mais nada. Des'que caí daquela amaldiçoada ponte do Labrego, fiquei assim como quebrado por dentro. Não escoro serviço, e para lidar com camaradas no eito não basta ter boca. Sem puxar a enxada de par com eles, a coisa não vai, não! Lembra-se da empreitada do ano retrasado? Pois saí perdendo. O tranca do João Mina me quebrou um machado e furtou uma foice. Com esses prejuízos, não livrei o jornal. Desde então fiz cruz em serviço alheio. Se ainda teimo neste sapezal amaldiçoado é por via da menina; senão, largava tudo e ia viver no mato, como bicho. É Pingo que inda me dá um pouco de coragem - concluiu com ternura.

A velhinha sentara-se à luz da janela e, abrindo uma caixeta, pusera-se a coser, de óculos na ponta do nariz.

Aproximei-me, admirativo.

- Sim, senhora! Com setenta anos!

Sorriu, lisonjeada.

- É para ver. E isto aqui tem coisa. É uma colcha de retalhos que venho fazendo há quatorze anos, des'que Pingo nasceu. Dos vestidinhos dela vou guardando cada retalho que sobeja e um dia os coso. Veja que galantaria de serviço...

Estendeu-me ante os olhos um pano variegado, de quadrinhos maiores e menores, todos de chita, cada qual de um padrão.

- Esta colcha é o meu presente de noivado. O último retalho há de ser do vestido de casamento, não é, Pingo?

Pingo d'Água não respondeu. Metida na cozinha, percebi que nos espiava por uma fresta.

Mais dois dedos de prosa com Alvorada, um cafezinho ralo - escolha com rapadura - e:

- Está bem - rematei, levantando-me do mocho de três pernas. - Como não pode ser, paciência. Apesar disso acho que deve pensar um bocado. Olhe que este ano se estão pagando os roçados a oitenta mil réis o alqueire. Dá para ganhar, não?

- Que dá, sei que dá - mas também sei para quem dá. Um perrengue como eu não pensa mais nisso, não. Quando era gente, muitos peguei a sessenta e não me arrependi. Mas hoje...

- Nesse caso...

Transcorreram dois anos sem que eu tornasse aos Periquitos. Nesse intervalo Sinh'Ana faleceu. Era fatal a dor que respondia na cacunda. E não mais me aflorava à memória a imagem daqueles humildes urupês, quando me chegou aos ouvidos o zunzum corrente no bairro, uma coisa apenas crível: o filho de um sitiante vizinho, rapaz de todo pancada, furtara Pingo d'Água aos Periquitos.

- "Como isso? Uma menina tão acanhada!..."

- "É para ver! Desconfiem das sonsas... Fugiu, e lá rodou com ele para a cidade - não para casar, nem para enterrar. Foi ser 'moça', a pombinha..."

O incidente ficou a azoinar-me o bestunto. À noite perdi o sono, revivendo cenas da minha última visita ao sítio, e nasceu-me a ideia de lá tornar. Para? Confesso: mera curiosidade, para ouvir os comentários da triste velhinha. Que golpe! Desta feita ia-se-lhe a rijeza de cerne.

Fui.

Setembro entumecia gomos em cada arbusto. Nenhuma neblina. A paisagem desenhava-se nítida até aos cabeços dos morros distantes.

Por amor à simetria, montava eu o mesmo picaço. Transpus a mesma porteira. Atalhei pelo mesmo trilho.

No córrego vi, com os olhos da imaginação, o vulto da menina envergonhada com o pote em repouso na laje e toda às voltas com a rodilha. Mais uns passos e a tapera antolhou-se-me, deserta. As três árvores do pomar extinto eram já galhaça resseca e poenta. Só os mamoeiros subsistiam, mais crescidos, sempre apinhados de frutos. O resto piorara, descambando para o lúgubre. Ruíra o oitão e o terreirinho pintalgara-se de moitas de guanxuma, cordão-de-frade e juás.

- Ó de casa! - gritei.

Silêncio. Três vezes repeti o apelo. Por fim surgiu dos fundos uma sombra acurvada e trêmula.

- Bom dia, nhá Joaquina. Está seu Zé?

Não me reconheceu a velhinha. Zé fora à vila, vender a sitioca para mudar de terra.

Fez-me entrar, logo que me dei a conhecer, pedindo escusas da má vista.

- Tem coragem de estar aqui sozinha?

- Eu? Sozinha estou em toda parte. Morreu-me tudo, a filha, a neta... Sente-se - murmurou apontando para o mocho de dois anos atrás.

Sentei-me, com um nó na garganta. Não sabia o que dizer. Por fim:

- O que é a vida, nhá Joaquina! Parece que foi ontem que estive aqui. Apesar das doenças, iam vivendo felizes. Hoje...

A velha limpou no canhão da manga uma lágrima.

- Viver setenta e dois anos para acabar assim... Felizmente a morte não tarda. Já a sinto cá dentro.

Confrangia-me o coração aquele ermo onde tudo era passado - a terra, as laranjeiras, a casa, as vidas, salvo trêmulo espectro sobrevivente como a alma da tapera - a triste velhinha encanecida, cujos olhos poucas lágrimas estilavam, tantas chorara.

- Que mais agora? - murmurou pausadamente em voz de quem já não é deste mundo. - Até à "desgraça", eu não queria morrer. Velha e inútil, inda gostava do mundo. Morreu-me a filha, mas restava a neta - que era duas vezes filha e o meu consolo. Desencaminharam a pobrezinha... Agora, que mais? Só peço a Deus que me retire, logo e logo.

Relanceei um olhar pela sala vazia. A caixeta de costura inda estava sobre a arca no lugar de sempre. Meus olhos pousaram ali, marasmados.

A velha adivinhou-me o pensamento e, levantando-se, tomou-a nas mãos mal firmes. Abriu-a. Tirou de dentro a colcha inacabada, contemplou-a longamente. Depois, com tremuras na voz:

- Dezesseis anos - e não pude acabar a colcha... Ninguém imagina o que é para mim esta prenda. Cada retalho tem sua história e me lembra um vestidinho de Pingo d'Água. Aqui leio a vidinha dela des'que nasceu. Este, olhe, foi da primeira camiseta que vestiu... Tão galantinha! Estou a vê-la no meu braço, tentando pegar os óculos com a mãozinha gorda... Este azul, de listras, lembra um vestido que a madrinha lhe deu aos três anos. Ela já andava pela casa inteira armando reinações, perseguindo o Romão - que um dia, por sinal, lhe meteu as unhas no rostinho. Chamava-me "ÓÓ aquina”. Este vermelho de rosinhas foi quando completou os cinco anos. Estava com ele por ocasião do tombo na pedra do córrego, donde lhe veio aquela marquinha no queixo, não reparou? Este cá, de xadrezinho, foi pelos sete anos, e eu mesma o fiz, e o fiz de saia comprida e paletó de quartinho. Ficou tão engraçada, feita uma mulherzinha! Pingo d'Agua ja sabia temperar um virado, quando usou este aqui, de argolinhas roxas em fundo branco. Digo isto porque foi com ele que entornou uma panela e queimou as mãos. Este cor de batata foi quando tinha dez anos e caiu com sarampo, muito malzinha. Os dias e as noites que passei ao pé dela, a contar histórias! Como gostava da Gata Borralheira!...

A velha enxugou na colcha uma lágrima perdida e calou-se.

- E este? - perguntei para avivá-la, apontando um retalho amarelo.

Pausou um bocado a triste avó, em contemplação. Depois:

- Este é novo. Já tinha feito quinze anos quando o vestiu pela primeira vez num mutirão do Labrego. Não gosto dele. Parece que a desgraça começa aqui. Ficou um vestido muito assentadinho no corpo, e galante, mas pelas minhas contas foi o culpado do Labreguinho engraçar-se da coitada. Hoje sei disso. Naquele tempo de nada suspeitava.

- Este - disse-lhe eu, fingindo recordar-me - é o que ela vestia quando cá estive.

- Engano seu. Era, quer ver qual? Era este de pintas vermelhas, repare bem.

- É verdade, é verdade! - menti. Agora me lembro, isso mesmo. E este último?

Após uma pausa dorida, a pobre criatura oscilou a cabeça e balbuciou:

- Este é o da desgraça. Foi o derradeiro que fiz. Com ele fugiu... e me matou.

Calou-se, a lacrimejar, trêmula.

Calei-me também, opresso dum infinito apertão d'alma.

Que quadro imensamente triste, aquele fim de vida machucado pela mocidade louca!...

E ficamos ambos assim, imóveis, de olhos presos à colcha.

Ela por fim quebrou o silêncio.

- Ia ser o meu presente de noivado. Deus não quis. Será agora a minha mortalha. Já pedi que me enterrassem com ela.

E guardou-a dobradinha na caixa, envolta num suspiro arrancado ao imo do coração.

Um mês depois morria. Vim a saber que lhe não cumpriram a última vontade.

Que importa ao mundo a vontade última duma pobre velhinha da roça? Pieguices...

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Urupês. 

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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