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sexta-feira, 17 de julho de 2015
Elisa Alderani (O Ipê Rosa)
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Universos Di Versos
domingo, 12 de julho de 2015
Folclore Indígena Brasileiro: Tribo Krahó (Koioeré, o machado cantante)
Os
índios krahós, do rio Tocantins, possuíam outrora um machado mágico chamado
koieré. Sua lâmina era feita de pedra, em formato de âncora, e ele era usado
tanto na guerra quanto nas cerimônias religiosas da tribo.
Os
krahós viviam em guerra com seus vizinhos. O seu maior desafeto eram os
krolkametrás, uma tribo rival.
Certa
feita, as duas tribos estavam se enfrentando, quando uma flechada certeira
abateu o portador do machado cantante. O valente guerreiro krahó caiu para um
lado, e o machado, para o outro.
Como
um raio, o matador correu e apoderou-se da arma.
–
Agora o koieré pertence aos krolkametrás! – urrou ele, brandindo no ar o
machado.
Finda
a matança, todos voltaram satisfeitos para as suas casas, cada lado levando os
inimigos mortos para serem assados nas grelhas.
Mas
quem ia feliz mesmo era o novo portador do koieré, que era casado com uma bela
índia. Antes mesmo de chegar em casa, decidiu que, agora que se tornara um
personagem importante da aldeia, deveria arrumar coisa ainda melhor do que a
sua bela índia.
Não
demorou muito, apareceu uma candidata, e o índio se mudou para a oca dela. Na
pressa, porém, acabou esquecendo o machado dependurado em cima da sua rede.
Durante
a noite, a índia abandonada escutou por entre os intervalos dos seus soluços o
machado falar-lhe:
–
Mamãe, vamos passear!
Índias
são muito maternais. Por algum motivo, o machado passara a chamá-la de mamãe, e
bastara isso para ela ficar enternecida com o objeto.
Tomando-o
nos braços, ela saiu porta afora para passear.
Durante
a noite inteira a índia enjeitada embrenhou-se pelas matas, enquanto o machado
lhe ensinava todas as canções de amor e de guerra dos krahós.
Logo,
toda a aldeia ficou sabendo do caso, e a notícia se espalhou, chegando à aldeia
dos krahós. Então, o irmão do primitivo dono do machado decidiu recuperá-lo.
A esta
altura, o novo dono já havia retomado o objeto e foi com raiva que recebeu a
visita do emissário.
–
De forma alguma o restituirei! – bradou ele.
Mas
o cacique da tribo disse que havia regras que o obrigavam a restituir o objeto
aos inimigos.
–
Anhangá e maldição! – rosnou o novo dono. – Pois saibam que só o restituirei
àquele que me vencer na corrida de toras!
Corrida
de toras era uma competição que os índios disputavam tendo atravessada às
costas uma tora de madeira de cerca de um metro de comprimento.
–
Quem me vencer poderá não só levar de volta o machado como me matar e comer a
carne do meu corpo! – disse o desafiante, seguríssimo.
O
emissário retornou aos krahós e repetiu ao pretendente o desafio.
–
Corrida de toras nenhuma! – disse este. – Vamos reaver o koieré à força!
Então
os krahós armaram-se de flechas e porretes e rumaram para a aldeia dos
krolkametrás, prontos para mais uma bela dança das flechas. Quando chegaram à
divisa da aldeia inimiga, foram lançados ao ar os brados de guerra das duas tribos
valorosas, e as flechas assoviaram de novo, para valer. Mas quem mais trabalhou
foi, como sempre, o machado mágico, que não parou de cantar um segundo enquanto
levava adiante a sua obra guerreira de ceifar vidas, desta vez as dos krahós,
seus antigos donos.
A
certa altura, porém, o novo dono do machado viu-se cercado por algumas dezenas
de adversários e não teve alternativa senão correr com machado e tudo. Não
sabemos que espécie de canção o machado entoou na fuga, mas o fato é que, ao
enfiar o pé num buraco de tatu, o krolkametrá foi ao chão e perdeu, além do
machado, a própria vida, estraçalhado pelas lanças adversárias.
E
foi assim que o koieré voltou à tribo dos índios krahós.
Fonte:
Franchini, Ademilson S. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto
Alegre/RS: L&PM, 2011.
Folclore Sem Fronteiras (Finlândia)
A PROMESSA
CUMPRIDA EM PARTE
Luohi viu chegar magicamente o ferreiro Ilmarinen a sua casa e quase não se
surpreendeu quando soube que se tratava dele. Ordenou imediatamente que lhe
preparassem a melhor acomodação e até fez com que a sua bela filha virgem se
adornasse com as melhores galas, para ser depois mostrada a Ilmarinen e
oferecida como recompensa em troca do sampo ansiado.
À vista da preciosa criatura Ilmarinen foi procurando por Pohjola o lugar onde
realizar o seu trabalho e pôs-se a trabalhar febrilmente na construção daquela
forja, primeiro, e na realização do sampo pedido, depois. Ilmarinen demorou
três dias em preparar a forja e três dias em forjar o moinho de tampa suntuosa,
que era moinho de farinha por um lado, moinho de sal por outro e moinho de
moenda pelo terceiro. No seu primeiro trabalho, o sampo moeu uma medida para
ser comida, outra medida para ser vendida e uma terceira para ser guardada.
Entregue o moinho a Luohi, esta guardou-o no lugar mais recôndito da sua casa.
Foi nessa altura, cumprida o seu parte, que Ilmarinen reclamou aquela virgem
prometida, mas ela negou-se a acompanhá-lo, porque não estava disposta a ser
sua esposa. Ilmarinen abateu-se, sem forças para nada, até tal ponto que a mãe
da virgem, a anciã Luohi, se compadeceu da sua tristeza e o enviou numa barca
de regresso para o sul, envolvido na força mágica de um vento que ela convocou
para que fosse transportado sem perigo em três singraduras até à sua ansiada
Kalevala. Lá, na margem, esperava-o o velho e ele disse que o sampo tinha sido
construído e entregue a Luohi, segundo se tinha acordado, mas também fez saber
que a donzela prometida não cumpriu a sua parte do pacto e que ele, Ilmarinen,
tanto como Vainamoinen, tinham sido duplamente burlados pela virgem de Pohjola.
LEMMINKÄINEM,
O AMANTE
Ahti Lemminkäinen nasceu em Kauko e foi um jovem tímido até que pescou uma
tenca e esta, para salvar a sua vida, prometeu ensinar-lhe a palavra encantada
que o tornaria no homem mais amado pelas mulheres. Mas não havia tal palavra,
era necessário comer o peixe para conseguir esse encanto e Ahti comeu-a.
Certamente, em breve Ahti começou a ser querido por todos, especialmente pelas
mulheres, como o demonstra a sua primeira aventura com Kylliki, a preciosa
jovem de famosa beleza que rapta e apaixona; mas Ahti Lemminkäinen pensa que a
sua mulher não lhe guardou a devida ausência e vai para Pohjola, pretendendo
desta vez a filha de Louhi e tendo que cumprir uma dura prova para conseguí-la:
a captura do alce de Hiisi, caça que lhe custaria a vida nas águas do rio
Tuoni, assassinado pela vingança de um velho que tinha humilhado.
Ahti caiu no reino da morte, no reino de Tuoni e Tuonetar, no meio do horror e
o sofrimento. Desaparecido Ahti, a sua mãe inicia a penosa procura do filho
perdido, submergindo-se nas águas, cruzando as terras do norte, perguntando à
Lua e, por fim, ouvindo o que o Sol lhe contava, que Ahti tinha sido arrastado
para o Tuoni. A mãe pediu a Ilmarinen que forjasse um ancinho de cem braças
para tirar o seu filho do fundo do rio; com ele resgatou o seu amado filho e,
com o seu amor, devolveu-lhe a vida.
Voltaram para casa, mas Kylliki tinha-se ido embora para sempre. Então Ahti
partiu de novo para Pohjola, esta vez irado por não ter sido convidado às
faustosas celebrações da casamento da filha de Louhi com Ilmarinen. Chegado ao
norte, Ahti Lemmikäinen vai provocar o Filho do Norte, o anfitrião,
desafiando-o para um duelo à morte, no qual vence Ahti, mas a satisfação pela
sua vitória é breve, porque tem que fugir, dado que todos os homens de Pohjola,
ao saber que o seu chefe morreu pelas mãos de Ahti, se lançam na sua
perseguição.
Durante três anos refugiou-se na Ilha das Mulheres, sendo amado por todas e
amando quase todas, mas chegou a hora de voltar para junto da sua mãe e não
houve mais remédio que abandonar tão doce refúgio. Quando conseguiu chegar às
suas terras, viu só destruição e cinzas mas o que via não era tudo; também pôde
ver, pouco tempo depois, a sua doce mãe, escondida entre as ruínas, sempre à
espera do seu regresso, convencida de que ele voltaria junto da ela outra vez,
sabendo que ainda restava muito que fazer ao filho, o alegre herói Ahti
Lemminkäinen.
VAINAMOINEM E
A ILMARINEN
Vainamoinen construía um barco e estava a ponto de terminá-lo, mas faltavam-lhe
três palavras mágicas para terminar de lhe dar forma; não havia maneira de
recordar como eram e Vainamoinen desesperava-se, pensando que era uma tarefa
impossível, até que se aproximou um pastor e lhe disse que o gigante Antero
Vipunen sabia tudo o que ele necessitava de saber. Vainamoinen foi a Ilmarinen,
para que o ferreiro lhe forjasse o equipamento de ferro que devia levar para
chegar até a morada de Antero Vipunen; então soube, por boca do ferreiro, que
Antero tinha morrido há muitos anos. Mas nem isso parou o Vainamoinen, que,
equipado com a armadura que lhe permitia atravessar as agulhas das mulheres, as
espadas dos homens e os machados dos heróis, chegou ao lugar onde jazia Vipunen
com a sua magia.
Meteu a sua maça na garganta do gigante e ordenou-lhe erguer-se. Vipunen
levantou-se imediatamente, com a boca imobilizada pela maça de Vainamoinen.
Aproveitando a surpresa, o velho saltou para a sua garganta e meteu-se no seu
ventre, montando dentro dele uma forja para atormentar Antero, comendo as suas
entranhas e batendo no seu corpo. Assim até que conseguiu que o gigante lhe
ensinasse toda a sua imensa sabedoria.
Quando conseguiu o seu propósito, o imperturbável Vainamoinen voltou para casa
e terminou o seu barco. Com ele queria navegar para o norte, para pedir de novo
a mão daquela virgem que não podia esquecer.
Terminado de construir o seu navio, Vainamoinen botou-o no mar e foi feliz a
caminho de Pohjola, mas a virgem Anniki aproximou-se dele para lhe perguntar a
razão da sua viagem. Vainamoinen mentiu uma e outra vez, provocando a dúvida em
Anniki, que o ameaçou com uma tremenda tempestade se Vainamoinen não dizia
imediatamente a verdade.
O velho confessou e a virgem foi a correr a dizer a Ilmarinen que o velho tinha
decidido ir sozinho à procura da virgem de Pohjola. Ilmarinen preparou-se para
ir à procura do velho e conseguiu alcançá-lo, após três dias de corrida no seu
trenó.
O PACTO DOS
DOIS AMIGOS
Após acordar que já não haveria mais lutas pela virgem de Pohjola e fartos de
serem inúteis rivais por esse difícil amor, Vainamoinen e Ilmarinen decidem
seguir por separado o seu caminho para Pohjola, este por terra, aquele por mar,
à procura daquela virgem tão bela e tão desejável como esquiva, sempre
prometida como recompensa ao velho e ao ferreiro e nunca recebida. Mas agora
vão fazendo com que ela diga, de uma vez por todas, por qual dos dois se decide
a escorregadiça donzela.
A escolha é rápida desta vez, pois a virgem prefere Ilmarinen, por que não é um
velho como Vainamoinen, embora antes o tivesse rejeitado de um modo tão
definitivo. Mas Louhies uma velha retorcida e soberba, que agora quer tornar
tudo mais difícil ao bom ferreiro, propondo-lhe novas provas a cada momento.
Ilmarinen vê-se obrigado a decifrar os complexos (e absurdos) problemas
propostos mas a velha não conta com a cumplicidade antagonista da sua própria
filha, da virgem sem nome que tantas páginas da história do Kalevala encheu . Com
ela a seu lado, a vitória é segura e o casamento vai celebrar-se com todas as
honras.
Só ficam de fora Vainamoinen, pela sua tristeza, e Lemminkäinen, que não foi
convidado, o que vai ser motivo da sua ira e do início daquele duelo à morte
com o Filho do Norte que já relatamos antes. Mas com o casamento não vai chegar
a felicidade por muito tempo ao apaixonado Ilmarinen: a sua esposa, a sua bela
e ansiada esposa, é uma mulher malvada e a cruel brincadeira que faz ao bom
escravo Kullervo, ao dar-lhe uma pedra como única comida, faz que este ponha em
marcha a sua vingança (mágica, com certeza) com a cumplicidade do lobo e do
urso, matando quem o humilhara.
É a desolação para Ilmarinen, ao ver morta a sua amada Kullervo, já antes
atraiçoado pelo seu irmão Untamo, que a tinha vendido como escrava, e agora
castigado pelo destino, ao saber que a virgem com quem se deitou é a sua
própria irmã. Kullervo, ainda mais enfurecido, mata o seu irmão Untamo, mas
esta morte também não lhe serve de consolo, e só descansará quando se tire a
vida com a sua própria espada.
O DESESPERO DE
ILMARINEN
O ferreiro pensou que poderia encontrar consolo numa nova esposa que ele
próprio forjasse à imagem da desaparecida e pôs-se a trabalhar incansavelmente
na sua forja, até que conseguiu a mais bela mulher nunca construída em ouro e
prata; mas fria era a sua companhia, muda a sua presença, inútil a sua
existência.
Ilmarinen quis oferecer a mulher de ouro e prata a Vainamoinen, mas ele não a
quis e recomendou a Ilmarinen que a voltasse a fundir, pois ninguém se devia
deixar deslumbrar pelo ouro ou pela prata. Ilmarinen compreendeu que devia
procurar uma nova esposa de carne e osso e pensou em Pohjola, noutra filha de
Louhi que lhe recordasse a sua perdida mulher. Mas nada conseguiu de Louhi e
teve que raptar a sua segunda filha. Também o rapto não serviu de muito, pois
na primeira noite já se deitou ela com um desconhecido.
Ilmarinen, ao despertar, viu a cena e quase que a matou, mas a sua espada
negou-se a terminar com a vida daquela vaidosa e o desgraçado Ilmarinen
contentou-se com ordenar que a infiel raptada fosse converter-se em solitária
gaivota, condenada a viver sobre um penhasco, entre as frias águas do mar. Mais
sozinho do que nunca, o ferreiro seguiu o seu interrompido caminho para o lar.
No caminho saiu-lhe o velho Vainamoinen e juntos propuseram-se resgatar de
Pohjola aquele sampo construído para conseguir a pretendida felicidade e que
tão tristes frutos tinha deparado a ambos. Construíram um navio poderoso,
forjaram uma espada vencedora e partiram à procura do sampo mágico, colhendo
pelo caminho o retirado herói Lemminkäinen, que se somou à expedição, feliz de
poder voltar a lutar contra a gente de Pohjola, da qual tão penosas recordações
guardava a sua memória.
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Rubem Braga (Noite de Luar)
O táxi ia
rodando devagar pela rua mal iluminada, para que eu pudesse ir vendo os números
das casas. Quando vi o 118, mandei parar. Tinha de ir ao 227 e perguntar por
dona Maria de Sousa. Era quase certo que não me seguiam; de qualquer modo não
convinha parar o táxi diante da casa para não chamar a atenção. Tive, além
disso, o cuidado de deixar o carro se afastar sem que o chofer pudesse ver a
casa em que eu entrava. Naquele tempo viviamos cercados de precauções, porque o
perigo estava em toda a parte. O menor descuido era a prisão, e as noticias que
vinham "lá de dentro" eram de fazer tremer.
Andei pela calçada. Era uma rua sossegada, em um bairro onde antigamente viviam
famílias ricas. Agora os ricos viviam em outras partes da cidade e aqueles casarões
envelhecidos, com seus parques de grandes arvores, pareciam dormir. Uma vez ou
outra passava um auto; depois o luar aumentava o sossego da rua.
Apertei a campainha. Uma mulher gorda me disse que fosse pelo jardim, ao lado
da casa; era uma porta que tinha uma escadinha nos fundos.
Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti alguém me espiava pela
veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns rumores dentro do
quarto, e, por fim, uma voz nervosa perguntou:
- Quem é?
Marina não me havia reconhecido e, com certeza, estava inquieta.
Tranquilizei-a:
- Sou eu, Domingos.
A porta abriu-se.
Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua. Nunca
havíamos trocado mais de duas ou três palavras ocasionais. Não se podia dizer
que fosse bonita, mas era agradável, com seu ar um pouco seco, um pouco
nervoso, e seu jeito de vestir-se com certa severidade. Agora estava diante de
mim e não pude deixar de sorrir quando a vi metida em um macacão.
- O macacão do Alberto? Trago notícias dele.
Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido. Alberto
mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já não o interrogavam, e que
não tinha nenhuma esperança de sair tão cedo. Era melhor que ela tentasse sair
da capital, onde podia ser presa a qualquer momento, e fosse para um pequeno
Estado do Nordeste onde morava sua família. A viagem por mar seria impossível.
O melhor era ir até Belo Horizonte e seguir para Alagoas pelo São Francisco.
Havia uma pessoa que podia arranjar uma parte do dinheiro e um endereço em Belo
Horizonte onde talvez conseguisse mais. Era preciso abrir o caixote de livros e
queimar um papel que estava dentro das "Poesias" de Olavo Bilac.
Dei-lhe um numero para onde devia telefonar.
- Acha que eles vão deixar o Alberto preso muito tempo?
Dei-lhe minha opinião com sinceridade. Alberto estava comprometido. Quando o
pegou, a policia não sabia grande coisa dele, mas lá dentro sua situação tinha
piorado muito. Parece que tinham aparecido umas historias velhas, de São
Paulo...
- E você como vai?
Ela fez um gesto desanimado. Podia continuar naquele quarto com direito a
comida, mais oito dias. Não tinha mais dinheiro, nem para cigarros. Ofereci-lhe
dos meus:
- Não sabia que você fumava.
Não fumava antes. Mas ali, obrigada a ficar dentro do quarto dias e dias,
semanas e semanas, começara a fumar. Há mais três meses não saia à rua. Andava
apenas pelo velho e pequeno parque, nos fundos da casa, quando não chovia.
Havia lido todos os livros que tinha, e estava cansada de ler.
- Isso aqui é pior do que estar presa. Às vezes tenho vontade de sair, tomar um ônibus, andar por aí, ir a um banho de mar...
Arriscara-se certa vez a ir a um cinema do bairro e quase morreu de medo. Na
volta, um homem a seguiu. Teve a certeza de que ia ser presa. Quando estava
perto de casa, o homem, mal encarado, apertou o passo e a deteve, tocando-lhe o
braço com a mão. Parou tremula e logo saiu correndo e entrou em casa; jogou-se
na cama chorando, em um desabafo nervoso. O homem lhe havia feito uma proposta
amorosa...
Contava essas coisas sentada na cama, um pouco excitada e estava engraçada
assim metida no macacão do marido, com uma régua na mão, contando o seu susto.
Rimos, mas logo ela se pôs a andar no quarto para um lado e outro, batendo com
a régua na coxa.
- Que é que você acha que devo fazer?
Acendi um cigarro. Fazia calor. Na parede havia um quadro sem interesse, de um
pintor amigo do casal. Ela pensava em procurar alguém que fosse amigo do
Governo. Talvez o doutor Antunes conseguisse...
- Também está preso.
- O dr. Antunes? Não é possível!
Vi que estava mal informada do que acontecia e lhe dei varias noticias. Nenhuma
era alegre. Sentou-se novamente na cama, batendo com a régua no joelho. Ficamos
em silencio. Achei que devia despedir-me, mas ela me deteve:
- Espere, quero saber de uma coisa...
Perguntou-me pelos Amaral, era verdade que a mulher se tinha suicidado. Era
boato, ou pelo menos parecia. Havia quem dissesse que o casal estava no
Paraguai; outros diziam que ele estava preso no Norte do Paraná, em Londrina...
Surgiram outros nomes. Eu quase não podia dar informações sobre ninguém, e
muitos eu não conhecia nem de nome nem de vista. Voltamos a falar de Alberto.
Ela havia perdido o nervosismo; falava agora em seu tom habitual, um pouco
seco, um pouco distante. Falava do marido e de si mesma como se estivesse
examinando um problema alheio, com frieza e lógica. Tinha na gaveta um velho
guia Levi, e consultou preços de passagens e horários. Certamente deveria tomar
o trem em alguma estação do Estado do Rio, se resolvesse ir para o Norte.
- Vai?
- Isso é que estou pensando. Em Alagoas posso ficar na fazenda de minha tia,
perto de São Miguel. Ali não haveria nenhum perigo, mas... Voltou a perguntar
se não havia mesmo nenhum jeito de fazer alguma coisa pela libertação de
Alberto. Talvez aquele ex-deputado amigo dos Amaral, pudesse...
Balancei a cabeça. A policia não estava soltando ninguém. Prendera gente
demais, inocentes e culpados, e enquanto não interrogava todo mundo, não
apurava as coisas, não queria soltar ninguém. Uma ou outra pessoa conseguia
sair quando tinha proteção muito forte e estava completamente inocente .
Alberto já fora preso antes, era um elemento "marcado"... A única
esperança estava numa mudança que diziam que ia haver no Ministério. Mas
estavam sempre dizendo essas coisas, e ninguém saia do Governo. Dava a impressão
de que ia ser assim eternamente...
- Que coisa!
Voltou a falar de Alberto, contou detalhes de sua prisão. Ela havia escapado
por milagre. Mas estava ali, sozinha, sem poder sair de casa... Começou quase a
lamentar-se e, subitamente, pareceu de novo tranquila. Os cabelos despenteados
e o macacão lhe davam um ar ao mesmo tempo gracioso e cordial de rapazola.
Devia ter uns trinta anos. Agora sua voz parecia ter cinquenta.
- A situação é esta: se não fosse por causa do Alberto eu poderia ter fugido
para o Sul. Mas perdi a oportunidade. Mais tarde, na hora de alugar este
quarto, estive quase me resolvendo outra vez a fugir. Mas queria esperar
Alberto... Está visto que posso ficar esperando a vida inteira. O senhor acha
que há possibilidade...
Era engraçado que me chamasse de "senhor", quando começara me
tratando de "você". Mas logo na frase seguinte, com uma pequena
hesitação na voz, voltou a me chamar de "você".
Levantei-me e procurei com a vista um cinzeiro para pôr o cigarro. Não havia.
Abri uma banda da janela para jogá-lo no jardim.
- Posso deixar a janela aberta? Está quente... Sentada na cama ela ficou em
silencio. Resolvi ir-me embora e fiquei pensando se devia lhe dar dez mil reis
que tinha no bolso. Eu voltaria de bonde. Tirei a nota do bolso. Ela aceitou
secamente, e me deu um aperto de mão rápido. Sua voz era tranquila, quase fria:
- Obrigada. Se tiver alguma novidade estes dias, apareça outra vez. Meu nome
aqui é Maria de Sousa.
- Sei. Tem telefone?
- Não. Ah, um momento! Pode pôr uma carta no correio para mim? Tirou uma carta
da gaveta, envelope e começou a escrever o endereço. Junto à janela lá fora eu
via as grandes arvores gordas, beijadas pelo luar enquanto ouvia o ranger da
pena no papel.
Comentei ao acaso:
- Bonito luar...
Ela acabara de escrever o endereço e respondeu dando um olhar rápido a janela:
- É
Foi um "é" tão seco que me arrependi do que havia dito, como se
tivesse dito alguma coisa inconveniente. Depois de fechar o envelope ela veio
para junto da janela, onde eu estava. Para ver melhor lá de fora abri o outro
lado da janela e a lua apareceu, redonda, branca, entre as copas das arvores.
Foi apenas um instante. Ela fechou os dois lados da janela com brutalidade:
- Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha
há quase um ano desde que Alberto foi preso? Ficou um momento diante de mim
pálida, os lábios trêmulos; eu não sabia o que dizer.
- Vá-se embora! Lançou-se na cama, escondeu a cabeça nas mãos e começou a
chorar. Os soluços agitavam seu corpo magro e nervoso sob o macacão azul.
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