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segunda-feira, 11 de maio de 2026

José Feldman (A Ampulheta de Asfalto)


O asfalto de São Paulo, às seis da tarde, não é apenas chão; é um organismo vivo, febril e impaciente. No cruzamento da Avenida Paulista com a Consolação, o semáforo não é um equipamento de trânsito, mas um juiz implacável. Quando a luz muda do verde para o amarelo, o coração do motorista não pede cautela, ele exige um último esforço desesperado. E quando o vermelho finalmente se impõe, o que se vê não é o respeito à lei, mas o colapso de mil expectativas.

Dentro de um sedã prateado, com o ar-condicionado no máximo para abafar o mundo, estava Eufrazino. Para ele, aqueles noventa segundos de espera eram uma afronta pessoal do destino. Eufrazino era um homem de "objetivos". Ele não via ruas, via trajetos. Não via pessoas, via obstáculos. Suas mãos tamborilavam no volante em um ritmo de guerra, e seus olhos estavam fixos, hipnotizados, na lanterna traseira do carro à frente, esperando o milagre da luz verde.

Estava sofrendo da doença mais moderna de todas: a cegueira da chegada. Estava tão focado no "lá" que o "aqui" havia deixado de existir.

Enquanto bufava e conferia o relógio pela décima vez, a vida acontecia em alta definição ao seu redor, do lado de fora do vidro fumê.

A dois metros dele, no corredor entre as faixas, um entregador de aplicativo equilibrava a moto e a vida. O rapaz retirou o capacete por um instante para secar o suor e sorriu para uma foto de uma criança colada no painel da moto. Era um sorriso de cansaço, mas de uma doçura que faria qualquer trânsito parecer leve. Eufrazino não viu.

Na calçada, um senhor vendia paçocas. Fazia um truque de mágica simples com as moedas para entreter uma menina que esperava o ônibus com a mãe exausta. A menina gargalhava, um som que cortava o barulho dos escapamentos como um sino de cristal. Eufrazino, imerso em sua própria urgência, apenas praguejou mentalmente contra o "caos urbano".

Havia também o crepúsculo. O sol, entre os prédios de concreto, tingia o céu de um laranja impossível, transformando as vidraças em espelhos de fogo. Era um espetáculo gratuito, uma pausa poética no meio do caos. Mas para Eufrazino, o céu era apenas um pano de fundo irrelevante para o seu atraso inexistente.

A filosofia do sinal vermelho é cruel: quem tem pressa de chegar, já partiu antes mesmo de ir. Eufrazino estava fisicamente parado, mas sua mente já estava na reunião de amanhã, no jantar que ainda não fora servido, nas contas que ainda não haviam vencido. Ele perdia a única coisa que possuía de fato: o agora. Ao não olhar para o lado, não apenas ignorava o próximo; ignorava a si mesmo como parte do mundo. Ele era uma ilha de metal e nervos, isolada do fluxo da existência.

Finalmente, o vermelho cedeu. O verde brilhou como uma promessa de libertação. Ricardo acelerou com uma agressividade triunfante, deixando para trás o mágico da paçoca, o pai motociclista e o pôr do sol de fogo. Chegou em casa cinco minutos mais cedo. Mas, ao descer do carro, sentia um vazio estranho, um cansaço que não vinha do trabalho, mas da resistência constante à vida. Ele tinha corrido tanto para não perder tempo que acabou perdendo a experiência de estar vivo.

Moral:
A vida não acontece apenas nos destinos que traçamos, mas nas pausas que somos forçados a fazer. O sinal vermelho não é um atraso, é um convite: quem olha apenas para a luz que vai abrir, esquece que a beleza e a humanidade do mundo estão sempre estacionadas logo ali, ao lado da nossa janela. A pressa nos faz chegar mais rápido, mas a atenção nos faz chegar mais inteiros.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado, pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Receitas de vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

sexta-feira, 8 de maio de 2026

José Feldman (A Flor Abandonada)

Texto sobre o trístico de José Feldman
No jardim, só uma flor,
triste, abandonada...
é o resto de nosso amor.
Certa manhã, enquanto caminhava por um antigo jardim da cidade, fui atraído por uma flor solitária que brotava em meio ao mato. Era uma flor simples, mas sua beleza tímida se destacava no cenário de descaso e abandono. Olhei para ela e senti uma pontada de tristeza. Aquela flor parecia representar muito mais do que um mero elemento paisagístico; era um símbolo de algo perdido.

A lembrança de um amor que um dia floresceu em minha vida invadiu minha mente. Lembrei-me de como tudo começou: sorrisos, promessas e a esperança de um futuro juntos. O jardim de nossas vidas estava repleto de cores vibrantes, onde cada momento compartilhado era como uma pétala que se abria em direção ao sol. Mas, como muitas histórias, a nossa também teve seus altos e baixos. Com o tempo, as brigas e desentendimentos começaram a sufocar a beleza que havíamos cultivado, até que um dia, aquele amor se foi, deixando apenas uma flor triste e abandonada.

O que restou foram memórias e ecos de risadas, mas também um profundo vazio. Assim como a flor, eu sentia que aquilo que um dia fora vibrante se tornara algo solitário e melancólico. A vida seguia em frente, mas havia uma parte de mim que ainda permanecia naquele jardim, presa ao que poderia ter sido.

Enquanto observava a flor, percebi que, apesar de sua aparência triste, ela ainda lutava para sobreviver. Era um testemunho silencioso de resiliência em meio ao descaso. Aquela flor, assim como eu, estava tentando encontrar seu lugar em um mundo que parecia esquecer. A beleza da luta pela vida, mesmo em condições adversas, era algo que não poderia ser ignorado.

Decidi me aproximar e toquei suavemente suas pétalas. Foi quando percebi que, mesmo em sua solidão, ela ainda guardava uma esperança silenciosa. A flor estava tentando se adaptar, a buscar luz mesmo em meio à sombra. O coração apertou ao compreender que, muitas vezes, o amor também é assim: uma luta constante por reconhecimento e cuidado, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.

De repente, uma ideia surgiu em minha mente: e se eu cuidasse daquela flor? O jardim poderia ser restaurado, e a beleza poderia voltar a florescer. A vida é feita de ciclos, e, assim como a flor, nós também podemos renascer, mesmo após um amor que deixou marcas.

Com essa nova perspectiva, decidi que não apenas me importaria com aquela flor, mas também com meu próprio jardim interior. Começaria a regar as memórias boas, a cultivar novos sentimentos e a deixar para trás o que já não servia mais. Afinal, a vida continua, e cada um de nós tem a capacidade de florescer novamente.

Ao me afastar do jardim, percebi que a flor, embora triste e abandonada, tinha me ensinado uma valiosa lição: mesmo as situações mais difíceis podem nos ensinar sobre resiliência e esperança. E, assim, o resto do nosso amor poderia se transformar em um novo começo, onde novas flores poderiam brotar, trazendo cor e alegria aos dias que ainda estão por vir.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

domingo, 3 de maio de 2026

Mel (2003 – 2019)


A genética, às vezes, gosta de brincar de poeta. Maya, uma Pastora Belga albina, imponente como um bloco de neve, em sua segunda cria, trouxe ao mundo uma única herdeira. Não houve ninhada barulhenta, apenas ela: Mel. Contrariando a imponência física da mãe, Mel nasceu pequena, com uma pelagem que honrava o nome — um tom de mel dourado que contrastava com o focinho muito preto, como se tivesse sido mergulhado em nanquim.

Mel não era apenas uma cadela; era uma lição de etiqueta e caráter em quatro patas. Enquanto o mundo canino costuma ser movido por instintos caóticos, Mel parecia ter nascido com um código de conduta invisível debaixo da pata. Nunca lhe ensinei as regras da casa, mas ela as conhecia por uma espécie de osmose espiritual. Ela nunca cruzava o umbral da porta sem que meu olhar ou minha voz dessem o "amém" necessário. E na hora do carinho, aquele momento em que a matilha se torna uma confusão de pelos e lambidas, ela mantinha a sobriedade. Esperava, com uma paciência de monge, ser chamada. Quando eu finalmente dizia seu nome e passava a mão em seu rosto, a "Dama de Mel" se desmanchava. Ela se derretia, perdendo a pose, revelando que por trás daquela educação britânica batia um coração carente de toque.

Mas essa doçura tinha um limite bem claro: a disciplina da casa. E o alvo principal era Fluffy, o Border Collie que era a personificação da travessura. Fluffy era o caos; Mel era a ordem. Sempre que o pegávamos retornando de alguma estrepolia — Mel não se omitia. Ela chegava junto, com latidos curtos e autoritários, uma verdadeira "bronca" que deixava claro: "Nós não fazemos isso nesta família, garoto". Era impossível não admirar aquela pequena autoridade. Ela não precisava morder; sua postura e seus sermões caninos colocavam o bagunceiro nos trilhos.

A vida era um quintal seguro enquanto Maya estava lá. Mel e a mãe eram grudadas, uma simbiose de branco e dourado que parecia eterna. Mas o tempo, esse senhor implacável, trouxe mudanças. Mudamos de casa e, logo depois, aos 11 anos de Mel, a luz de Maya se apagou. O luto de um animal é um silêncio que ensurdece a gente. Mel entrou em depressão. A cadela que cuidava de tudo, que ralhava com o irmão e guardava o portão, recolheu-se à sua casinha. Seus olhos, antes atentos, tornaram-se janelas para uma tristeza profunda. Ela estava sozinha, a última de sua linhagem, e parecia apenas esperar o tempo passar.

Foi então que a vida, em sua sabedoria de ciclos, nos trouxe Shine e Cléo. Duas pequenas retiradas das ruas, cheias de energia e sem modos. No início, Mel apenas observava. Mas a alegria caótica das novatas foi o remédio que nenhum veterinário poderia receitar. Ao ver aquelas duas brincando, Mel sentiu o chamado do dever. Ela recuperou as forças, levantou-se da casinha e assumiu o papel de matriarca. Ensinou a Shine e à Cléo tudo o que sabia: como vigiar o portão, como latir para o estranho com a medida certa de autoridade e como manter a dignidade da casa. Ver as três juntas no portão, formando uma barreira de proteção e lealdade, era um espetáculo que enchia o peito de orgulho.

Mas os anos pesam, mesmo para os anjos. Aos 15 anos, o corpo de Mel começou a falhar. Vieram os desmaios. O diagnóstico era o de uma velhice avançada, o coração já cansado de tantas batidas e de tanto amor. Aqueles foram meses de uma vigília desesperada. Eu me tornei a sombra da Mel. Sempre que percebia que ela ia desfalecer, eu corria. Cruzava o quintal em um desespero mudo, estendendo os braços para que ela não atingisse o chão duro, para que não se machucasse. Quando ela voltava a si, eu a envolvia em carinhos, com meu próprio coração acelerado, tentando passar para ela um pouco da minha própria vida através das mãos.

Até que chegou o fatídico 8 de outubro de 2019.

Dizem que o sol brilha de forma diferente quando uma história de quinze anos se encerra. Mel se foi, e com ela, a última memória viva da linhagem de Maya. A dor de perder um animal assim não é algo que se descreve com facilidade; é um vazio que tem o formato exato do corpo dela.

Ficou o silêncio no lugar das broncas no Fluffy. Ficou o portão vazio de sua presença dourada. Mas, acima de tudo, ficou a lembrança daquela cadelinha cor de mel que, sem que ninguém pedisse, decidiu ser a guardiã da nossa ordem e o consolo da nossa alma. Mel não foi apenas uma cachorra; foi o exemplo de que a educação vem do coração e que, mesmo quando perdemos o chão, sempre podemos encontrar forças para ensinar os que vêm depois de nós a latir para a vida com coragem.

(texto integrante do livro de José Feldman: “Minhas irmãs de quatro patas”)

sábado, 2 de maio de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 11– Lobo em pele de carneiro


"Salam Aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de olhos travessos! Ah, vejo que o frio da noite pede uma história com o tempero da audácia e o perfume da aventura. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos homens usarem a espada para conquistar o que desejam, mas este jovem de quem lhes falo usou algo muito mais perigoso: a astúcia.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos pátios proibidos.

Havia em Samarcanda um jovem mercador de perfumes chamado Rashid. Ele era belo, de traços finos e voz suave como o correr de um riacho. Um dia, ao passar pelas grades de um palácio, seus olhos encontraram os de Zahra, a favorita de um poderoso e ciumento Paxá. Foi um golpe no coração. 

"Ya habibi" (meu amor), suspirou ele, sabendo que entrar naquele harém era mais difícil do que fazer chover no deserto.

Rashid não era homem de desistir. Com a ajuda de uma velha ama que conhecia os segredos das sedas, ele raspou a barba, pintou os olhos com "kohl" (delineador escuro) e vestiu-se com os túnicas mais finas, cobrindo o rosto com um véu de mistério. Apresentou-se nos portões como 'Layla', uma tecelã vinda de terras distantes com bordados que fariam as fadas chorar de inveja.

"Ahlan wa Sahlan" (Bem-vinda), disseram os guardas, enganados pela fragrância de rosas que ele exalava e pelo balanço de seus quadris. Rashid entrou no harém. 

Por sete dias e sete noites, ele viveu entre as mulheres, ouvindo seus risos e suas mágoas, sempre mantendo o véu e a modéstia. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensava ele, "o amor me deu o disfarce perfeito".

Zahra, porém, tinha olhos de águia. Ao observar a 'tecelã', percebeu que aquelas mãos não tinham calos de agulha, e que o brilho naqueles olhos não era de uma irmã, mas de um leão disfarçado de gazela. Numa noite de lua cheia, sob o aroma do sândalo, ela o confrontou no jardim. Rashid revelou sua face e seu propósito. 

"Maktub" (Está escrito), disse ela, "meu coração já pertencia à sua coragem antes mesmo de conhecer seu nome."

O plano de fuga foi traçado com a precisão de um astrônomo. No festival de "Eid" (Celebração), quando a guarda estava distraída com música e vinho, Rashid e Zahra, ambos vestidos como humildes servas, atravessaram os portões carregando cestos de frutas. 

Quando os cavalos que Rashid havia escondido relincharam na escuridão, ele soltou um grito de triunfo: – "Ya Allah" (Ó Deus), a liberdade é nossa!

O Paxá só descobriu o engano ao amanhecer, quando encontrou apenas um véu de seda e um frasco do melhor perfume de Rashid deixado no travesseiro. Os amantes já cruzavam as fronteiras, rindo do destino. 

"Shukran" (Obrigado), dizia Rashid, pois aprendera que para ganhar o que é proibido, às vezes é preciso perder a própria identidade.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus amigos. Que a vossa astúcia seja sempre usada em nome do amor.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Patologista clínico Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados.  Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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quarta-feira, 29 de abril de 2026

José Feldman (Ecos da Violência em um Mundo em Desacordo)


Vivemos em tempos em que a dor e o terror parecem estar cada vez mais entrelaçados em nosso cotidiano. As guerras se multiplicam como ervas daninhas, brotando em qualquer parte do mundo onde líderes, ávidos por poder e controle, não hesitam em sacrificar a paz em nome de ambições pessoais. É um espetáculo trágico, onde o valor da vida é reduzido a meras estatísticas, enquanto as balas e os bombardeios ressoam como uma sinfonia macabra, privando a vida de milhares de pessoas sem um respingo de amor pela vida humana.

A televisão, um dos principais meios de formação de opinião e comportamento, tornou-se um campo de batalha onde a violência é glorificada. Os programas que atraem a atenção dos jovens estão recheados de cenas grotescas, onde vampiros e zumbis dominam narrativas que banalizam a morte e o sofrimento. Entre uma série e outra, há uma programação que mistura a ficção mais aterrorizante com os realities mais cruéis, trazendo uma nova forma de entretenimento que, na verdade, reflete uma sociedade em profunda crise. Enquanto a realidade clama por vozes de justiça e compaixão, enredamo-nos em histórias que alimentam a violência ao invés de promover a compreensão.

Os ecrãs se tornam janelas para um abismo que ecoa sentimentos destrutivos. As crianças e adolescentes, diante desses conteúdos, modelam suas perspectivas e comportamentos. Ao invés de imaginarem um mundo repleto de possibilidades pacíficas, absorvem uma visão distorcida, onde a força e a agressão se tornaram a norma. As conversas que poderiam girar em torno do amor e da solidariedade são substituídas pela retórica do “nós contra eles”, perpetuando barreiras que deveriam ser destruídas.

Nos séculos passados, a humanidade fez progressos impressionantes em ciência e tecnologia. As inovações nos conectaram de maneira que nunca antes se viu. Contudo, essa mesma evolução parece despontar uma falência moral. A arte e a educação, potências para o desenvolvimento humano, são frequentemente ofuscadas pelo brilho da violência. O retrato atual é o de uma sociedade em que a empatia e o respeito pelo próximo parecem resquícios de um passado que não se revisitou.

E em meio a essa turbulência, as mulheres continuam a ser tratadas como objetos, corpos que, em muitas culturas, são vistos como prêmios em disputas, ou vítimas em circunstâncias que escandalizam os mais sensíveis. Em um mundo que deveria ser de igualdade, a misoginia ainda ressoa com força, como se houvesse um consenso silencioso de que suas vidas têm menor valor. Assistimos a atos brutais, discursos odiosos e uma cultura que perpetua a ideia de que é aceitável desumanizar a mulher. O que é mais chocante: o ato em si ou a indiferença que o rodeia?

As novas gerações erguem-se sob o peso desse legado de desamor e agressão. É desesperador pensar que, ao invés de estarmos moldando um futuro de paz, estamos semeando as sementes da discórdia e da intolerância. O mundo digital, que poderia ser uma plataforma de troca de ideias e construção de pontes, acaba se tornando um terreno fértil para o ódio e a divisão.

Entretanto, há uma esperança latente. Cada crise traz consigo uma oportunidade de reflexão e transformação. É possível que as vozes que clamam por paz e por equidade ganhem força em meio ao ruído ensurdecedor da violência. Educadores e artistas têm um papel fundamental na reconstrução do tecido social. É através da arte que podemos inspirar mudança, e por meio da educação que podemos abrir os olhos das futuras gerações, mostrando que um mundo baseado no respeito e na empatia é não apenas desejável, mas possível.

A verdadeira evolução não está apenas nas máquinas que criamos, mas na capacidade de nos entendermos e apoiarmos uns aos outros. A resistência à violência começa com pequenos atos de bondade, com diálogos abertos sobre as verdades que nos machucam e com um compromisso coletivo de construir um futuro que respeite a dignidade de todos.

Que possamos, então, ser agentes de mudança nesse cenário nebuloso, ampliando a luz em vez de alimentar a escuridão. Porque no fim, a verdadeira luta é aquela que travamos no interior de nós mesmos. A guerra que queremos vencer não é contra um inimigo distante, mas contra os preconceitos e as barreiras que nos afastam um dos outros. Se de fato quisermos um amanhã, cabe a nós plantarmos as sementes dessa revolução silenciosa e poderosa.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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sábado, 25 de abril de 2026

José Feldman (A Batalha do Asfalto)


Há uma lentidão que não é preguiça, é história. É o ritmo dos passos de Dona Maria, do Seu João, de tantos que carregam nas costas a idade e no coração a vontade de ainda ir e vir. Mas sair de casa hoje em dia virou uma prova de resistência, um obstáculo que muitos são obrigados a enfrentar diariamente.
 
A cidade, no seu ritmo frenético, esqueceu-se de quem precisa de tempo. Para estes idosos, o simples ato de ir à padaria não é uma caminhada; é uma operação de risco, um exercício diário de bravura e paciência. Ao cruzar a soleira de casa, o cenário que o espera é um tabuleiro de xadrez onde todas as peças jogam contra eles.

Basta olhar para o chão. As calçadas, que deveriam ser o abrigo seguro dos pedestres, parecem campos de batalha. Buracos, lajotas soltas, degraus que aparecem do nada e buracos que a chuva esconde. Para quem tem os olhos já cansados e os joelhos que doem com a mudança do tempo, cada metro percorrido exige uma atenção redobrada. É preciso olhar para baixo o tempo todo, como se estivessem pedindo permissão ao asfalto para caminhar.
 
E quando o caminho parece livre, lá estão eles: os galhos grandes, caídos das árvores, que ninguém remove, ocupando metade da passagem. O idoso tem que se desviar, se apertar, muitas vezes ter que sair da calçada e pisar na rua, exposto ao perigo.
 
Ah, a rua... Essa sim é um mundo hostil. Os carros passam velozes, como se o tempo deles fosse mais importante que a vida dos outros. Não há respeito à faixa, para os motoristas a faixa de pedestre é só um desenho no chão sem sentido, não há paciência com quem caminha mais devagar. Para um corpo que já não reage com a agilidade de outrora, o barulho do motor e a velocidade das máquinas causam pânico. É o medo constante de não conseguir cruzar a tempo, de tropeçar e cair justamente no meio do caminho.
 
Chegar ao outro lado é uma vitória silenciosa. Seu João suspira, aliviado, mas já preocupado com a volta. Ele não pede muito: apenas um chão plano, um segundo a mais no sinal e o respeito de quem, um dia, também andará devagar. A cidade precisa lembrar que envelhecer não é um crime, e caminhar não deveria ser uma punição.

É triste ver como a cidade, que deveria acolher a todos, parece construída apenas para os fortes, para os rápidos, para os jovens. Esquecem de que aqueles que hoje mancam, que demoram mais, que olham com cuidado para onde pisam, podem ser um espelho dos que um dia envelhecerão e passarão pelo mesmo drama.
 
As rachaduras no cimento e a pressa dos automóveis não deveriam ser o cenário da velhice. Cuidar das calçadas, podar as árvores e diminuir a velocidade não é só questão de infraestrutura, é questão de humanidade. É garantir que, mesmo que os passos fiquem mais curtos, eles ainda possam ser seguros. Porque um lugar que não sabe cuidar dos seus idosos não sabe, de fato, ser uma cidade.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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terça-feira, 21 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 10. A Cidade dos Sonhos


"Salam’aleikum"
(que a paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos domínios do invisível.

Diz a lenda que, no coração do deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse decidido descansar nelas.

Muitos "musafirun" (viajantes) tentaram encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de uma lua de prata, avistou os portões da cidade.

"Ya Allah" (Ó Deus), exclamou ele ao atravessar as portas. 

Dentro da cidade, não havia comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco, mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes. 

"Ahlan wa Sahlan" (bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento nas palmeiras.

Porém, havia uma regra: ninguém poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal. Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a mão, só havia poeira comum.

A cidade desaparecia ao amanhecer porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções. "Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o lucro, mas o propósito. 

Yusuf passou o resto de seus dias contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de quem conheceu a eternidade em uma única noite.

A lição, meus caros, é que as coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas na alma. 

"Shukran" (obrigado) por compartilharem este silêncio comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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domingo, 19 de abril de 2026

José Feldman (O Sim e o Padre Farofa)


O altar da Igreja Matriz de Santo Antônio parecia o cenário de um filme épico, se o filme épico fosse dirigido por um mestre do caos. Centenas de convidados se abanavam com os leques de papel, o calor era de deserto, e o silêncio era absoluto enquanto o Padre Juvenal, que tinha a alcunha de Padre Farofa — um homem de bochechas vermelhas e uma boa vontade inversamente proporcional à sua dicção — pigarreava para começar.

No centro, Beto suava tanto que sua gravata borboleta parecia um peixe moribundo tentando escapar do pescoço. Ao seu lado, a noiva, Clarice, estava radiante, embora tivesse um tique nervoso no olho esquerdo.

Padre Farofa abriu o livro e soltou a primeira pérola:

— Queridos irmãos, estamos aqui hoje para celebrar a união desta linda... pamonha!

Um murmúrio correu os bancos. Beto piscou, confuso.

— Pamonha, Padre? — sussurrou Clarice, entre dentes.

— Perdão, minha filha — disse o Padre, baixinho, antes de retomar com força total. — O amor é como um pássaro que voa livre pelo... esgoto!

— Esgoto não, Padre! Céu! É céu! — Beto corrigiu, sentindo o suor escorrer pelas costas.

— Calma, noivo. Eu sei o que faço. É que a minha língua às vezes toma um... sorvete! — O Padre sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo. — Vamos prosseguir. Beto, você aceita Clarice como sua legítima... geladeira?

A igreja explodiu em risadinhas abafadas. A mãe da noiva, na primeira fila, começou a se benzer freneticamente.

— Padre, com todo respeito — disse Beto, tentando manter a compostura —, eu aceito ela como minha esposa. Esposa!

— Foi o que eu disse! — teimou o Padre Farofa. — E você, Clarice, promete ser fiel, amar e respeitar o Beto, na saúde e na... farofa?

Clarice respirou fundo. O tique no olho aumentou.

— Na doença, Padre. Na doença!

— Isso, isso! Até que a morte os... atropele!

— Separe! — gritou um padrinho do fundo, já roxo de tanto rir.

O Padre limpou o suor da testa com o lenço. Ele parecia não entender por que todos estavam tão agitados. Para ele, as palavras faziam todo o sentido do mundo.

— Bom, se alguém aqui presente tem algo contra esta união, que fale agora ou cale-se para... o jantar!

— É "para sempre", Padre! — Clarice já estava com as mãos na cintura. — O senhor está trocando tudo! Está bêbado?

— Não me interrompa, menina! Estou tentando salvar a sua... pamonha! De novo essa palavra? — O Padre bufou. — Enfim, tragam as... metralhadoras!

O coroinha, já acostumado, entrou carregando as alianças em uma almofada de veludo. Beto pegou a joia com as mãos trêmulas.

— Beto — comandou o Padre —, repita comigo: "Receba esta aliança como sinal do meu amor e da minha... dentadura."

— Eu não vou dizer dentadura! — Beto se rebelou. — "Como sinal do meu amor e da minha fidelidade!"

— Ora, é a mesma coisa! — resmungou o Padre. — E agora, pelo poder a mim conferido, eu os declaro... assaltantes!

A igreja inteira veio abaixo. Alguns convidados já estavam dobrados nos bancos de tanto rir. O pai da noiva limpava as lágrimas com o lenço do paletó.

— É MARIDO E MULHER! — gritou a assembleia em coro.

O Padre Farofa deu de ombros, fechou o livro com força e apontou para o Beto com um sorriso vitorioso:

— Pode beijar a... mula!

Beto não esperou pela correção. Puxou Clarice para um beijo cinematográfico enquanto a igreja aplaudia de pé. No fundo, o Padre comentava com o coroinha:

— Que casamento lindo. Saímos todos daqui com a alma cheia de... maionese.

A recepção aconteceu no salão paroquial, que estava decorado com flores brancas e um buffet que cheirava a festa cara. O problema é que, por uma questão de protocolo (e uma pitada de masoquismo do casal), o Padre foi convidado para a mesa de honra.

Beto e Clarice tentavam manter a dignidade, mas o Padre, agora com um copo de ponche na mão, estava mais animado do que nunca.

— Um brinde! — gritou o Padre Juvenal, levantando a taça. O salão ficou em silêncio. — Quero dizer que este casal me lembra dois jovens... aspiradores!

Beto fechou os olhos e contou até dez. Clarice apenas deu um gole generoso no champanhe.

— O amor deles — continuou o Padre — é como uma brasa que nunca... desliga! Que vocês tenham uma vida cheia de paz e muita... gasolina!

— Saúde! — gritaram os convidados, que já tinham entendido que a regra da noite era substituir mentalmente as palavras do Padre.

Na hora do jantar, o Padre Farofa sentou-se ao lado da tia solteirona de Clarice, a Tia Gertrudes, que usava um chapéu maior que a própria cabeça.

— O senhor não acha a decoração divina, Padre? — perguntou a tia, tentando puxar assunto.

— Uma maravilha, minha senhora. As flores combinam perfeitamente com o seu... bigode!

Tia Gertrudes levou a mão ao rosto, horrorizada, enquanto procurava um espelho na bolsa. Clarice chutou a canela de Beto por debaixo da mesa para ele não rir.

— Padre — interveio Beto, tentando mudar de assunto —, o senhor gostou do buffet?

— O patê estava ótimo, mas achei o frango um pouco... explosivo. Mas não se preocupem, o que importa é a alegria de ver vocês trocando... pneus!

A festa prosseguiu até o momento mais esperado: o corte do bolo de cinco andares. O mestre de cerimônias entregou o microfone ao Padre para uma última benção sobre o doce.

— Que este bolo — começou Padre Juvenal, com o dedo em riste — simbolize a doçura da vida. Que cada fatia seja um pedaço de... cimento no coração de vocês. E que, daqui a nove meses, possamos nos reunir novamente para batizar o primeiro... dinossauro!

Clarice quase engasgou com um pedaço de morango.

— É um bebê, Padre! Um bebê! — corrigiu ela, rindo nervosamente.

— Foi o que eu disse, ora bolas! — resmungou o Padre, limpando a boca com o guardanapo. — Vocês são muito... crocantes.

No final da noite, enquanto os noivos se preparavam para sair em lua de mel, o Padre foi se despedir na porta do carro decorado com latas. Ele segurou as mãos de Beto e Clarice com carinho sincero.

— Vão com Deus, meus filhos. Que a viagem de vocês seja repleta de... picadas. E lembrem-se: o segredo de um bom casamento é nunca dormir... com fome!

— Finalmente ele acertou uma! — exclamou Beto, aliviado, enquanto acelerava o carro.

Mal sabia Beto que, lá no fundo do salão, o Padre Farofal terminava sua noite comentando com o garçom:

— Que noite agradável. Acho que vou levar um pouco de bolo para o meu... papagaio.

O garçom olhou para o Padre confuso.

— Mas o senhor não tem um papagaio, Padre.

— Meu filho, É que eu quis dizer... estômago. Ai, Santo Padre, hoje a coisa não foi careca… Moleza!  Moleza!
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence à Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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sexta-feira, 17 de abril de 2026

José Feldman (Entre a Lua e o Vizinho)


Crônica tendo por base a trova abaixo

Hoje é simples ir à Lua:
fica ali… basta um pulinho…
Proeza é cruzar a rua
para abraçar o vizinho.
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Esta trova, com a precisão de um bisturi, corta o tecido da nossa modernidade e expõe uma ferida que insistimos em cobrir com telas e fibra ótica. Ela nos lembra que, enquanto expandimos as fronteiras do universo, estamos encolhendo os limites da nossa própria calçada.

Hoje, ir à Lua virou questão de logística e alguns bilhões de dólares. Temos foguetes recicláveis, sondas em Marte e telescópios que flagram o nascimento de galáxias a trilhões de anos-luz. O céu, antes o reino do impossível, tornou-se um destino com check-in e contagem regressiva. O "pulinho" não é apenas ironia; é o retrato de uma humanidade que aprendeu a vencer o vácuo, mas desaprendeu a vencer o asfalto.

A verdadeira proeza, o "salto gigante para a humanidade" que nos falta dar, está a menos de dez metros de distância: na porta da frente do vizinho.

Cruzamos oceanos em horas, mas levamos meses para descobrir o nome de quem mora no 402. Conhecemos a rotina de influenciadores que vivem em fusos horários distantes, sabemos o que comeram no café da manhã e qual a cor de suas novas cortinas, mas ignoramos o luto ou a alegria que habita a casa ao lado. O vizinho tornou-se um fantasma que compartilha o mesmo CEP; um vulto que evitamos no elevador fingindo uma urgência súbita no celular.

Abraçar o vizinho exige uma coragem que a NASA não ensina. Requer a audácia de ser visto sem filtros, de interromper o isolamento produtivo da rotina e de admitir que, sob o mesmo teto ou na mesma rua, somos todos tripulantes de uma mesma solidão. Cruzar a rua é um ato de subversão. É dizer que o aperto de mão real vale mais que o "joinha" virtual.

Talvez o problema seja o foco. Olhamos tanto para as estrelas buscando sinais de vida inteligente que esquecemos de emitir sinais de vida afetuosa para quem está ao alcance da voz. O espaço é silencioso e frio, fácil de mapear. O ser humano, por outro lado, é um território caótico, cheio de relevos e crateras emocionais — e é por isso que o abraço dá tanto medo.

No fim das contas, a tecnologia nos deu asas para tocar a Lua, mas a pressa e o individualismo nos tiraram as pernas para atravessar a rua. Que saudade do tempo em que o mundo era grande e os vizinhos eram próximos. Hoje o mundo é pequeno, mas a calçada... ah, a calçada virou um abismo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem: www.freepik.com

terça-feira, 14 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 9. O espelho da alma


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.

Havia em Isfahan um joalheiro tão habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que caíram no deserto.

A fama do objeto chegou aos ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao seu redor. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas adagas". 

Ele comprou o espelho e o colocou no salão principal de seu palácio.

O enigma era simples, mas terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o estado de sua "nafs" (alma). Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.

O Vizir convocou todos os seus cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se um lugar de silêncio e medo.

Por fim, o próprio Vizir parou diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade. 

"Shukran" (obrigado), sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro ousou me dar".

O Vizir quebrou o espelho em mil pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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domingo, 12 de abril de 2026

José Feldman (Sonhando ou Não?)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Hora: 21h30 da noite.

Clima: Ar-condicionado no talo, cheiro de café velho e tensão literária no ar.
 
A sala 203 do departamento de Letras Inglesas estava mais agitada que o normal. O ar condicionado parecia ter entrado em greve, e o calor tornava a discussão sobre as fadas e duendes de Shakespeare um desafio extra.

A turma estava reunida para discutir Sonho de uma Noite de Verão. A professora Léia, uma mulher que vestia tweed mesmo no calor de 30 graus, ajustou os óculos e olhou para a classe.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos desconstruir a obra-prima de Shakespeare. Quem pode começar dizendo o que entendeu da relação entre o mundo real e o mundo mágico na floresta?
 
Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que faz parecer que todo mundo está estudando anatomia do próprio umbigo.
 
Até que o Juninho, que sentava sempre na última carteira e chegava sempre atrasado, levantou a mão devagar.
 
— Professora, posso falar?

— Claro, Juninho. Surpreenda-me.

— Bom, eu acho que o livro é basicamente uma farra que deu errado. Tipo, imagine a situação: quatro amigos vão para uma mata, todo mundo apaixonado pela pessoa errada, tem um duende que fica jogando suco de flor no olho das pessoas e... pronto, vira bagunça generalizada. É tipo o carnaval, mas com mais elfos e menos bloco da Banda Mole.
 
A turma riu. A professora suspirou, mas sorriu.
 
— Uma analogia interessante, Juninho.

— Eu simplesmente não entendo por que o Oberon não poderia ter simplesmente conversado com a Titânia - disse Brenda, uma aluna com um coque apertado que parecia prestes a explodir de tanto conhecimento reprimido. – Todo aquele drama com a flor mágica... francamente, um pouco de comunicação resolveria tudo.

— Ah, Brenda, mas onde estaria a graça? - retrucou Carlos, um rapaz com óculos de aro grosso que parecia mais interessado nos padrões do carpete. – Shakespeare não escreveu uma peça sobre 'Diálogo de Casal em Uma Tarde Quente de Verão'. Ele escreveu sobre magia, caos e... bem, um monte de gente correndo pela floresta atrás da pessoa errada.

A Professora Léia, uma mulher britânica com um olhar que já tinha visto mais sonetos do que a maioria das pessoas viu novelas, pigarreou. – Carlos tem um ponto, Brenda. A peça explora os impulsos irracionais, a natureza do amor e do desejo, que muitas vezes desafiam a lógica e a comunicação clara. A magia é um catalisador para isso.

— Mas vamos aprofundar. E sobre o amor? Shakespeare retrata o amor como algo racional ou... caótico?
 
A Márcia, a aluna destaque que sempre tinha o livro grifado em 5 cores diferentes, levantou a mão antes mesmo do professor terminar a frase.
 
— Com licença, professora. Na minha visão, a peça ironiza o amor cortês. Veja bem: Lisandro diz "O amor é um cego e um audacioso", ou seja, ele admite que a paixão anula o raciocínio lógico. É uma crítica social à forma como nos deixamos levar pela emoção ao invés da razão.
 
— Isso tudo muito bonito, Márcia — interrompeu o Pedro, que estava coçando a cabeça — mas vamos ser sinceros? O problema ali não é amor não, é má comunicação! Se o pai da Hérmia tivesse sentado e conversado como gente grande, ao invés de falar "ou casa com quem eu quero ou vai para o convento", nada disso teria acontecido. É o tipo de pai que acha que autoridade é tudo e diálogo é conversa fiada.
 
— Exato! — gritou a Bia do fundo — E a Helena então? Meu Deus, que menina carente! Ela fica correndo atrás do Demétrio tipo "me ama, me ama", e ele tratando ela mal. Eu queria entrar no livro e dar um sacode nela: "Amiga, se toca! Ele não te quer! Vamos tomar um açaí e esquecer esse boy lixo!"
 
— Mas é justamente aí que está a genialidade, Bia! — defendeu Márcia, já esquentando — Ela representa a perseverança do amor verdadeiro!

— Perseverança nada! É falta de amor-próprio! Hoje em dia ela tinha um grupo de amigas no WhatsApp dizendo "ele não te merece, amiga"!
 
A discussão estava esquentando quando o Zé, um cara mais quieto que só falava quando tinha algo realmente engraçado para dizer, resolveu dar sua opinião sobre os personagens operários.
 
— Eu quero falar daquela trupe de teatro, o Bottom e a turma. Aquilo sim é a cara da nossa universidade.
 
— Como assim, Zé? — perguntou a professora.
 
— Tipo, eles são uns amadores, sem noção nenhuma, mas acham que são os maiores atores do mundo. O Bottom então? Quer fazer todos os papéis! Quer ser o herói, quer ser a donzela, quer ser o leão! É igual aquele aluno que se inscreve em todos os projetos de extensão, quer falar em todas as bancas, mas na hora do vamos ver...
 
— ...não sabe nem recitar uma fala direito! — completou Juninho, caindo na gargalhada.
 
— Pera lá! — protestou Zé — E o melhor momento da peça inteira? Quando o duende coloca a cabeça de burro no cara! Poxa, que vingança mais shakespeariana! Imagina você tá lá, todo convencido, do nada acorda com cabeça de jumento. Que trauma, professora!
 
— É a metamorfose da vaidade, Zé. Ele se achava superior, então foi transformado naquilo que seu comportamento representava: teimosia e arrogância.

— Sei, mas que vergonha ele deve ter sentido né? Principalmente quando a rainha das fadas acordou e se apaixonou por ele com a cabeça de burro. Coitada, deve ter bebido muito suco de flor mesmo.

— Mas o Puck! - exclamou Brenda, batendo levemente na mesa. – Aquele duende é o maior causador de problemas! Ele transforma o Bottom em um burro! Um burro! E por quê? Porque ele estava seguindo ordens mal dadas. Se ele tivesse um bom senso de humor, teria transformado o Oberon em um sapo.

Um risinho escapou de Miguel, que estava esparramado em sua cadeira, fingindo tirar um cochilo. Ele se endireitou. — Ou talvez o Puck só estivesse entediado. Imagina ser um duende imortal. Você precisa de algum entretenimento, certo? E transformar um tecelão em um burro para o deleite da rainha das fadas parece um bom passatempo.

— Um bom passatempo que causa um transtorno amoroso monumental! - insistiu Brenda. – E o que dizer da Helena? Ela é praticamente uma stalker. Ela não tem um pingo de dignidade.

— Dignidade? - riu Carlos. – Amor não tem a ver com dignidade, Brenda. Tem a ver com perseguição, com loucura, com fazer coisas completamente estúpidas. Helena é a personificação do amor não correspondido levado ao extremo.

Brenda arqueou uma sobrancelha. — Você quer dizer que você perseguiria alguém pela floresta, implorando por atenção, depois que a pessoa te chamou de tudo, menos gente?"

Carlos deu de ombros. — Talvez não pela floresta. Talvez mais por mensagens de texto com muitos emojis de coração partido. A essência é a mesma.

A professora Léia sorriu. — A beleza de Shakespeare, meus caros alunos, é que ele nos permite explorar essas facetas da natureza humana – o amor, o ciúme, a confusão, o desejo – através de um lente fantástica. A floresta mágica é um reflexo do nosso próprio mundo interior, onde a lógica muitas vezes se perde e os impulsos tomam o controle.

— Então, o que você está dizendo, professora - disse Miguel, com um sorriso maroto – é que todos nós temos um pouco de Puck dentro de nós, querendo transformar alguém em um burro?"

Um coro de risadas preencheu a sala,

A discussão mudou de rumo novamente. A Carol, que estava quieta até agora, perguntou:
 
— Professora, mas uma coisa que eu não entendo é: tudo isso acontece em uma noite? Tudo isso? Casamentos, confusão, teatro, transformação... Em uma noite só?
 
— Sim, Carol. A ação se passa em menos de 24 horas.

— Nossa, que agilidade! Eu demoro três dias para decidir que roupa usar e eles resolvem toda a vida amorosa em um sábado à noite. Inspirador.
 
— É que na época não tinha Instagram, Carol. Se tivesse, o Lisandro teria postado story com a Helena, depois apagado, bloqueado, desbloqueado... ia demorar um mês para resolver — brincou Pedro.
 
A professora olhou para o relógio e viu que já eram 22h35. A aula tinha passado voando.
 
— Muito bem, turma. Vocês conseguiram transformar uma tragédia romântica... ou melhor, uma comédia romântica, em uma sessão de conselhos amorosos e críticas sociais. Mas quero deixar uma última pergunta para vocês pensarem: afinal, tudo o que aconteceu foi real ou foi apenas um sonho, como o título sugere?
 
Juninho bateu na carteira, com a resposta na ponta da língua:
 
— Professor, com toda a certeza do mundo... foi sonho!

— Por que, Juninho?

— Porque ninguém consegue ser tão louco, se apaixonar tão rápido e viver tantas aventuras assim e acordar vivo no dia seguinte sem ter sido uma alucinação coletiva! Ou então... eles tinham fumado alguma coisa naquela floresta. Shakespeare era moderno demais, professor.
 
— Cala a boca, Juninho! — gritou a turma toda rindo.
 
— Enfim — concluiu a professora, fechando o livro — A beleza da obra é que cada um vê o que quer. Para uns é poesia, para outros é confusão, para o Juninho aqui é uma festa underground. De qualquer forma, para a próxima aula quero um ensaio de duas páginas sobre "O uso da magia como elemento narrativo". E Juninho...

— Sim, senhora?

— Nada de mencionar "festa" nem "cabeça de burro" no seu texto. Pelo menos não com essas palavras.
 
— Fechado, professora. Vou escrever sobre "metamorfose zoológica e suas implicações sociais".

— Aula encerrada!
 
A turma começou a arrumar as mochilas, ainda rindo e discutindo se o Bottom merecia aquilo ou não. Lá fora, a lua brilhava, e na Sala 203, Shakespeare finalmente pôde descansar em paz... ou talvez estivesse rindo junto com eles do outro lado do espelho.
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RESUMO DA OBRA
A obra mistura o mundo real com o sobrenatural em uma trama repleta de desencontros amorosos e magia. A história se passa em Atenas e em um bosque místico nos arredores da cidade. Hérmia ama Lisandro, mas seu pai, Egeu, quer que ela se case com Demétrio. Sob a ameaça da lei ateniense, o casal foge para a floresta, sendo perseguido por Demétrio e por Helena (que é apaixonada por Demétrio). No bosque, o Rei Oberon e a Rainha Titânia estão em conflito. Oberon ordena que seu servo, o duende Puck, use o suco de uma flor mágica para fazer Titânia se apaixonar pela primeira criatura que vir ao acordar. Puck também tenta intervir nos problemas dos amantes humanos, mas acaba confundindo os casais, causando um caos generalizado onde ambos os rapazes passam a perseguir Helena. Um grupo de trabalhadores amadores ensaia a peça "Píramo e Tisbe" para o casamento do Duque Teseu. Puck transforma a cabeça de um deles, Bottom, na de um burro. Devido ao feitiço de Oberon, Titânia acorda e se apaixona perdidamente pelo homem com cabeça de burro. 
Após uma noite de confusões extremas, Oberon decide desfazer os feitiços. Puck corrige os erros com os amantes: Lisandro volta a amar Hérmia, e Demétrio permanece sob o efeito da magia, apaixonado por Helena. Todos acreditam que os eventos da noite foram apenas um sonho. A peça termina com um casamento triplo e uma apresentação cômica e desastrosa feita pelos artesãos no palácio. 
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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