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domingo, 21 de junho de 2026

José Feldman (A Visita do Tio Teodorico)


Na nossa família, o protocolo burguês sempre foi tratado com a seriedade de um tratado de paz da ONU. Minha mãe, criatura que mede a dignidade humana pelo número de fios do lençol e pela prataria brilhando na cristaleira, passou a semana inteira em estado de pré-infarto. O motivo de tanto frenesi cívico era um só: a iminente chegada do Tio Teodorico.

Teodorico era o irmão mais moço do meu pai, uma espécie de ovelha negra que, em vez de se formar em Direito para virar burocrata, resolveu sumir no mundo e virar "consultor de assuntos aleatórios" no interior de Goiás. Ninguém sabia direito o que ele fazia, mas todos tinham certeza de que ele não usava gravata. E na cartilha da nossa respeitável família da classe média alta, um homem sem gravata é um homem sem caráter.

Para receber o parente exótico, minha mãe montou uma operação de guerra que faria o cerco de Stalingrado parecer uma brincadeira de estalar bombinha de São João. O cardápio foi minuciosamente calculado para demonstrar uma opulência discreta, que é o ápice da sofisticação de Botafogo. Nada de feijoada ou churrasco, que são coisas muito telúricas e perigosas para o fígado da nossa fidalguia. O prato principal seria um coq au vin, que nada mais é do que um frango metido a besta que morreu afogado no vinho barato, acompanhado por arroz com amêndoas liofilizadas — seja lá o que isso signifique.

Às oito da noite, papai já estava devidamente engomado, usando um terno de linho que o impedia de dobrar os cotovelos, exalando um perfume importado tão forte que os mosquitos do bairro caíam mortos na calçada. Minha irmã, coitada, fora fantasiada de debutante tardia, com um vestido de pregas que pinicava até a alma. Eu, por ordens expressas da gerência doméstica, fui proibido de falar gírias e obrigado a manter as mãos fora dos bolsos. A ordem era fingir que éramos uma pintura a óleo do século dezenove.

O interfone tocou com a precisão de um gongo de execução. Minha mãe deu o último retoque no laquê do cabelo, respirou fundo o aroma do desinfetante de lavanda fina que impregnava a sala e abriu a porta com o sorriso congelado de quem tirou o primeiro lugar no concurso de miss simpatia.

Entrou o Tio Teodorico.

A primeira quebra de protocolo foi visual. Enquanto a sala inteira parecia um comercial de banco privado, ele vestia uma camisa de botão estampada com tucanos tropicais, calça jeans visivelmente confortável e uma sandália de couro de bode que emitia um odor persistente de curral. Na mão esquerda, trazia uma mala de lona remendada com fita isolante; na direita, uma gaiola com um papagaio mudo.

— Boa noite, patota! — berrou, com a voz de quem anuncia quilo de tomate na feira livre.

Minha mãe cambaleou dois passos para trás, tateando o ar à procura do colar de pérolas para se segurar. O "boa noite, patota" ecoou pelas paredes estucadas como um palavrão na missa de sétimo dia.

— Teodorico, meu querido... que surpresa agradável — gaguejou papai, tentando manter a pose enquanto estendia uma mão rígida para um aperto de mão protocolar.

Teodorico ignorou a mão engomada e desferiu um abraço de urso no meu pai, daqueles que deslocam a vértebra e deixam o sujeito sem ar por três minutos. Em seguida, cravou dois beijos estalados na bochecha da minha mãe, deixando uma leve marca de gordura de pastel que ele provavelmente havia comido na rodoviária.

A noite avançou num crescente de absurdos e constrangimentos calculados. Sentados à mesa de jantar, sob a luz de um candelabro que minha mãe comprou num antiquário fingindo que era herança de família, a etiqueta começou a sangrar.

Enquanto minha mãe tentava puxar assuntos elevados, como a última exposição de arte abstrata ou a alta do dólar que encarecia a temporada em Miami, Tio Teodorico queria debater a mecânica de caminhões a diesel e o preço da arroba do boi gordo. Quando o coq au vin foi servido pela empregada — que também fora fantasiada com um avental branco que parecia saído de uma peça de teatro de época —, ele olhou para o prato com sincera compaixão.

— Mas que diabo é isso, cunhada? O frango pegou uma pneumonia antes de ir para a panela? Tá roxo!

Minha mãe quase engoliu o garfo de peixe por engano.

— É uma receita tradicional francesa, Teodorico. Frango ao vinho — explicou ela, com uma voz tão fria que daria para conservar carne nela.

— Pois lá na minha terra a gente bota cachaça e joga um colorau que fica uma beleza. Mas vamos encarar o bicho — disse o tio, agarrando a coxa do frango com as próprias mãos, ignorando o faqueiro de prata alemã que repousava ao lado do prato.

Minha irmã fechou os olhos, rezando por um arrebatamento bíblico imediato. Papai começou a suar frio através do linho. E eu, confesso, comecei a achar que o Tio Teodorico era o único sujeito são num raio de cinco quilômetros.

O golpe de misericórdia na empáfia burguesa da noite aconteceu na hora da sobremesa. Minha mãe trouxe um petit gâteau feito com chocolate belga e uma pitada de flor de sal, a última palavra em frescura gastronômica. Teodorico provou uma colherada, mastigou com a buraqueira de quem procura um dente perdido e decretou:

— Olha, o bolinho tá meio cru por dentro, cunhada. Acho que o forno de vocês tá com problema no termostato. E o doce passou da conta, tá meio salgado. Mas não esquenta não, que eu trouxe o remédio para rebater esse negócio!

Sem esperar resposta, o homem levantou-se da mesa, foi até a sua mala de lona e retirou de lá um pote de vidro de maionese reaproveitado, cheio até a boca com um doce de leite pastoso e escuro, de fabricação caseira ilegal.

— Isso aqui sim é sobremesa de macho! — exclamou, cravando a colher de servir diretamente no pote de maionese e distribuindo pelotas de doce de leite em cima dos pratos de porcelana de Macau.

A essa altura, o verniz da civilidade já tinha derretido por completo. Minha mãe aceitou a sua colherada de doce de leite com a resignação dos mártires cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu. Comeu. E para o desespero do seu próprio ego aristocrático, o doce de leite do curral era a coisa mais gostosa que já havia entrado naquela casa desde a fundação do edifício.

Quando a visita finalmente recolheu-se ao quarto de hóspedes, arrastando seus chinelos de bode e cantarolando uma modinha sertaneja de duplo sentido, a sala de jantar parecia o cenário de um bombardeio. O candelabro de prata parecia meio torto, o terno do papai estava amarrotado e o orgulho da mamãe jazia no chão, ao lado de um pedaço de osso de frango que o tio havia limpado com os dentes.

Olhei para a minha mãe, que mantinha os olhos fixos no pote de maionese vazio sobre a mesa. A fragilidade das nossas aparências havia sido exposta por um pote de doce de leite e uma camisa de tucanos. A burguesia dita as regras, cria os talheres certos, inventa os vinhos franceses, mas basta um tio esquisito vindo do interior com a verdade nos dentes para provar que, no fundo, todo mundo só quer comer com a mão e palitar os dentes depois do almoço.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

sábado, 20 de junho de 2026

José Feldman (O Grande Teatro do Ônibus Lotado)


Há dias em que eu acho que o ônibus não é um meio de transporte. É uma nave espacial. Um laboratório ambulante. Um aquário onde a humanidade vai nadando em círculos, sendo exposta ao mesmo fenômeno: calor, suor, paciência acabando e a inevitável certeza de que alguém vai fazer alguma coisa totalmente desnecessária — e, por algum motivo, sempre às segundas-feiras.

Eu entro no ônibus achando que “hoje eu vou de boa”. Mentira. Ninguém vai “de boa” num ônibus lotado. No máximo, você vai *sobrevivendo*.

Logo na porta, começa a primeira cena: o ritual do “com licença”. A pessoa fala “com licença” como se estivesse pedindo permissão para existir. Ela mal entra e já está ocupando seu espaço como se fosse dono do assento — e com uma felicidade incrível por estar atrasada. Você responde com um sorriso nervoso (aquele sorriso de quem já desistiu de qualquer esperança) e segue.

Acontece então a segunda cena, que é sempre parecida: alguém decide que sabe como funcionam as regras da gravidade.

Você está lá, equilibrado como um pato num passeio de ioga, quando o ônibus dá aquela arrancada brusca. Não é “um leve solavanco”. É uma largada de Fórmula 1. Aí você vê o senhor — ou a senhora, porque neste teatro não existe diferença — que tenta segurar na barra com a dignidade de um atleta olímpico… e falha com convicção. A mão escapa, o corpo acompanha e, por meio segundo, você acha que vai presenciar um pouso forçado.

Mas não. A pessoa se recupera milagrosamente… do jeito mais ridículo possível: ela não cai, mas abraça o ar. É como se tivesse acabado de anunciar: “Eu não caio. Eu flutuo.” Só que flutua dois centímetros e volta.

Eu, que sou uma criatura civilizada, tento ajudar.

“Tá tudo bem?”

Tá, claro. Tudo bem até você perceber que quem deveria estar segurando é a pessoa segurando você pelo casaco com a força de um polvo apaixonado. Aí você percebe que “ajudar” é uma palavra muito otimista pro contexto.

E não demora para surgir o personagem número três: o gênio do corredor.

Você sabe quem é. Sempre tem alguém que acha que o ônibus lotado é uma academia: ele faz malabarismo com carrinho de compras, mochila nas costas e uma sacola tão grande que deve ter sido proibida em convenções internacionais. Ele passa pelo corredor como quem está atravessando o deserto com coragem. Só que, no ônibus, o deserto é seu joelho e o vento é o cheiro do fundo do saco.

Aí ele para.

Justamente quando o ônibus está no apogeu do trânsito e todo mundo está prestes a aceitar a morte.

Ele para para procurar o bilhete, o cartão, a carteira, o documento, a alma, o universo e possivelmente a certidão de nascimento. Ele abre a bolsa com calma cirúrgica, como se o mundo fosse esperar. O ônibus inteiro vira um coro de respiração contida.

E é aí que acontece a tragédia burocrática: o cartão não funciona.

“Ô… funcionou não.”

Diz isso como se fosse uma notícia do tempo. Como se o ônibus não pudesse simplesmente continuar e ele pudesse reclamar do cartão com o motorista por causa da rota do destino. Aí todo mundo olha com cara de “meu amigo, a gente tá sendo esmagado por uma agenda de problemas”.

O motorista, claro, segue como se estivesse encenando uma peça chamada *Coragem e Impaciência*. Ele não tem culpa, mas carrega a culpa, porque é ele que vai ouvir.

E alguém sempre pergunta coisas inúteis, com uma autoridade que não combina com o fato de estar amassado numa pilha humana. Por exemplo:

“Dá pra voltar ali pra eu descer?”

Num ônibus em movimento. Num ônibus lotado. Numa situação em que o corpo de todo mundo já virou um único ser, uma massa ambulante com vontade própria.

E, claro, o pedido vem com um “calma aí” dito ao universo inteiro.

Enquanto isso, o ambiente vai piorando. Porque ônibus lotado não é só espaço. É também clima emocional e acústica. Tem sempre um celular tocando alto o suficiente para você descobrir que a pessoa tem um gosto musical que ninguém pediu e que agora virou patrimônio público.

Você ouve:
- “A ligação gratuita é até tal horário”
- a música que parece gritar “estou numa propaganda”
- e a voz do outro lado falando como se o ônibus fosse um confessionário.

Aí entra o momento mais clássico: o alarme do “membro fantasma”.

A pessoa segura na barra e, quando o ônibus dá uma freada, ela faz aquele movimento automático de levantar a mão para segurar de novo… só que não pega em nada.

Você vê claramente nos olhos: “eu estava segurando… acho que…”

E o ônibus, como um vilão cinematográfico, decide exatamente neste instante que a próxima parada é em 3 segundos. A freada vem. A mão vai ao ar. O corpo tenta resistir. E a pessoa — num gesto que mistura pânico e orgulho — se recupera como se tivesse feito aquilo de propósito para dar um show.

Enquanto isso, tem outro tipo de pessoa que é o *professor de comportamento*.

É aquela que sempre acha um jeito de mandar aviso para o ônibus inteiro, como se fosse o mestre de cerimônias:

“Pessoal, calma… segurem aqui.”

Segura aqui. Segurem aqui. Segurem aqui.

Você não sabe se a pessoa está avisando ou comandando. Porque o que ela fala não parece pedido. Parece ordem de operação. Ela diz isso com a autoridade de quem já nasceu com apito no pescoço.

E o pior: todo mundo até presta atenção por 2 segundos. Só por 2 segundos.

Porque aí o ônibus faz uma curva — uma daquelas curvas que deveriam ser feitas somente por atletas — e todo mundo volta ao estado inicial: ser humano amassado e resignado.

Chega então o momento “altamente improvável”.

Uma criança começa a chorar.

Não é um choro pequeno. É um choro de ópera. É um choro que ecoa no teto do ônibus como se fosse som de igreja. E os adultos fazem aquela coisa maravilhosa de *competência improvisada*: cada um tenta resolver o problema do universo com o que tem à mão.

“Tá doendo? Deixa eu ver.”

“Ele tá com fome.”

“Não… ele tá entediado.”

“Olha, dá um doce.”

Mas aí você descobre que não tem doce. Nunca tem doce. E mesmo que tivesse, quem trouxe? Ninguém trouxe doce. A criança chora como se tivesse treinado para isso, como se tivesse ensaiado na semana toda.

E, de repente, surge o milagre: o choro para.

Como? Ninguém sabe. A criança viu algo. Ou lembrou de alguma coisa. Ou entrou num modo dramático e decidiu encerrar.

Aí todo mundo suspira aliviado.

E é exatamente nesse instante que acontece a última situação ridícula do ônibus: o microevento do “desculpa”.

A pessoa vai levantar para descer e encosta em você com o calcanhar, o cotovelo, a sacola, a intenção. Ela vira para pedir desculpas com uma voz mansa:

“Foi mal, viu.”

Mas a face diz claramente:
“Foi culpa do universo, mas eu aceito que a culpa pode cair em mim também.”

E você responde com educação. Sempre com educação. Porque ônibus lotado ensina uma coisa: a civilização é frágil, mas você tenta segurar.

Quando eu finalmente chego ao meu ponto e desço, eu penso:

“Graças a Deus terminou.”

Mas aí eu olho para o ônibus e tenho a certeza absoluta: ele só começou.

Porque lá dentro sempre existe um próximo capítulo. Um próximo “com licença” sincero, um próximo cartão que não funciona, uma próxima mão que não acha a barra, uma próxima criança que vai cantar o hino do desespero…

E eu, mesmo depois de descer, ainda sinto o balanço, como se o ônibus tivesse me adotado pelo resto do dia.

No fim, eu acho que ônibus lotado é isso: não é transporte. É comédia. É tragédia em capítulos curtos. É um circo sem palhaço, onde o palhaço é a vida — e o picadeiro é o corredor apertado.

E, sinceramente? Eu sempre volto. Porque ninguém aguenta a rotina sem pelo menos uma dose de ridículo embalado em lotação.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

José Feldman (O Ladrão que entrou pelo cano)


Era uma noite de terça-feira, chuvosa e escura — o cenário perfeito para quem quer agir sem ser visto. Pedro, um ladrão de meia-tigela que já tinha errado mais alvos do que acertado, escalou o muro da casa dos Silva com uma mochila velha e um plano que cabia na palma da mão: entrar, pegar o que fosse fácil e sair antes que alguém percebesse.

Ele arrombou uma janela dos fundos com uma chave de fenda que tinha achado na rua, entrou devagar e ficou parado no escuro, ouvindo. Nenhum barulho. Sorriu, achando que dessa vez ia dar certo. Mas mal tinha dado dois passos, acendeu-se a luz da cozinha, e Dona Marisa apareceu de pijama, com um pente na mão e um olhar de quem esperava por alguém.

— Finalmente! — exclamou ela, sem dar tempo de ele falar nada. — Já estava pensando que você não vinha mais. O cano da cozinha está vazando desde ontem à tarde, e a água já molhou metade do armário.

Pedro ficou parado, com a boca aberta, sem saber o que dizer. Ele vestia uma calça jeans surrada, uma camisa velha e tinha a mochila nas costas — nada que lembrasse um encanador. Mas Dona Marisa não deu espaço para dúvidas.

— O que é esse silêncio? Vamos, vamos, o problema é aqui mesmo — puxou ele pelo braço até a pia, apontando para um cano que realmente pingava devagar. — E por que você está com essa mochila? Não trouxe as ferramentas?

O ladrão, completamente perdido, resolveu seguir o jogo. Quem sabe assim não conseguia sair de lá sem problemas?

— Ah… é que… as ferramentas estão… aqui dentro — respondeu, com a voz enrolada, batendo na mochila. — Eu só… cheguei um pouco atrasado porque tinha outro serviço antes.

— Pois devia ter avisado — resmungou ela, mas já saiu andando. — Vou chamar o Carlos, ele quer ver como você faz o serviço.

Pedro suou frio. Meu Deus, o que eu fiz?, pensou. Mas antes que pudesse fugir, apareceu Carlos, de chinelos e um copo de café na mão, olhando para ele com curiosidade.

— Então é você o encanador? — perguntou ele, analisando o ladrão da cabeça aos pés. — Parece mais um… bem, não importa. Você sabe arrumar esse cano, não sabe?

— Claro que sei! — mentiu o Pedro, tentando parecer confiante. — É só… apertar umas coisas, trocar umas peças… coisa simples.

Abriu a mochila, desesperado para achar alguma coisa que parecesse útil. Tirou uma lanterna, um alicate velho, um pedaço de corda e até um parafuso que tinha achado na rua. Os dois olharam para aquilo tudo com cara de estranhamento.

— Que tipo de ferramentas são essas? — perguntou Dona Marisa, franzindo a testa.

— É… ferramentas especiais! — inventou ele na hora. — Só uso para serviços mais difíceis. Esse cano aí é um modelo antigo, precisa de técnica especial.

Carlos assentiu, como se entendesse tudo.

— Ah, sim, modelos antigos são complicados mesmo. Uma vez tentei arrumar um e quase quebrei a pia toda.

Pedro respirou aliviado e começou a mexer no cano, sem ideia do que estava fazendo. Torceu uma peça aqui, empurrou outra ali… até que, de repente, o cano se soltou de vez, e um jato de água saiu com força, acertando ele bem no rosto.

— AI, MEU DEUS! — gritou ele, pulando para trás, todo molhado.

Dona Marisa deu um grito também.

— O que foi que você fez? Agora está pior do que antes! Meu Deus! É o apocalipse hidráulico! — ela berrou.

— Foi… foi um acidente! — tentou explicar, limpando o rosto com a manga. — É que… a peça estava mais solta do que parecia. Deixa eu consertar rápido.

Ele tentou segurar o cano de novo, mas na pressa, bateu o cotovelo no tubo ao lado, que também começou a vazar. Agora eram dois jatos de água, molhando tudo: o chão, os armários, as paredes e o próprio ladrão.

Carlos já estava com a mão na cabeça.

— Rapaz, você sabe o que está fazendo ou não? Parece que está destruindo a casa, não arrumando!

— Claro que sei! É só… ajustar a pressão! — falou o Pedro, já todo molhado e com o coração disparado. — É um método novo, vocês não conhecem.

Nesse momento, apareceu a filha do casal, Luísa, de oito anos, que tinha acordado com o barulho. Ela olhou para o homem todo molhado, com ferramentas estranhas na mão e cara de quem não entendia nada, e perguntou bem alto:

— Mamãe, esse homem não é um ladrão? Ele parece muito com o ladrão que vi na televisão semana passada!

O coração do Pedro quase parou. Agora acabou, pensou, pronto para correr. Mas Dona Marisa apenas riu.

— Que ideia é essa, Luísa? Esse é o encanador, veio arrumar os canos. Ladrão não vem com ferramentas, nem fica consertando coisa na casa dos outros.

Carlos concordou.

— É mesmo, filha. E esse daqui é só… um pouco desastrado, só isso.

Pedro sentiu um alívio tão grande que quase caiu sentado. Mas o problema não tinha acabado. Ao tentar tampar um dos canos com o alicate, ele escorregou no chão molhado, bateu com a cabeça na pia e, ao se levantar sem querer, puxou um fio que estava solto — e de repente, toda a luz da cozinha apagou.

— Agora acabou a luz também! — gritou Carlos, batendo o pé no chão. — Que serviço é esse, meu filho? Primeiro os canos, agora a energia!

No escuro total, Pedro já não sabia onde era a porta, onde era a janela, nem o que fazer. Ouvia os dois reclamando, a menina perguntando o que tinha acontecido, a água pingando e escorrendo pelo chão. Ele estava todo molhado, com dor na cabeça, confuso, com medo de ser descoberto e achando que tudo aquilo era uma punição por ter tentado roubar.

— Eu… eu acho que preciso de mais peças! — gritou ele, já andando às cegas em direção à porta da cozinha. — Vou buscar na loja e já volto!

— Espera, não vai não terminar o serviço? — gritou Dona Marisa, mas ele já tinha saído correndo, tropeçando em tudo o que via pela frente.

Ele largou tudo, correu pelo corredor pisando em falso, desceu as escadas rolando os últimos quatro degraus, passou pela sala, bateu num sofá, esbarrou numa mesa, abriu a porta da frente e saiu disparado pela rua, na chuva, no escuro, sem olhar para trás.

Dentro da casa, Carlos acendeu uma lanterna e olhou para a bagunça toda: água por todo lado, canos soltos, fios pendurados.

— Que encanador mais atrapalhado, meu Deus! — disse ele, balançando a cabeça. — Nunca vi um que fizesse tanta confusão.

Dona Marisa limpou a água do balcão.

— Pois é. Mas pelo menos ele foi embora rápido. Amanhã chamamos outro, um que saiba o que está fazendo.

E o Pedro? Dali em diante, sempre que passava na frente daquela casa, ele cruzava a rua, com medo até de ser confundido de novo — e jurava para si mesmo que nunca mais iria mexer em canos, afinal quase entrou pelo cano.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca.
Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Ele residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Ele é o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, na Romênia.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

sábado, 13 de junho de 2026

José Feldman (O Clássico dos Rabugentos)


A tarde estava ensolarada, mas o vento ainda trazia um resto de frio da noite anterior. Euzébio apareceu na porta de Brigite com um cachecol amarrado no pescoço e uma expressão de quem já estava cansado antes mesmo de sair.
 
— Vamos, depressa! Se chegarmos atrasados, perco o melhor lugar para gritar com o juiz — ele rosnou.
 
— Eu não queria nem vir, você que insistiu — ela resmungou, enfiando um chapéu enorme que cobria metade da cara. — E por que eu tenho que ir com você? Se brigarmos no caminho, ninguém me salva.
 
— Se não fosse eu, você passaria o dia todo olhando para o muro e reclamando que ele não anda! — ele retrucou, andando rápido. — E lembre-se: hoje é dia do time da cidade, o Clube Atlético de Paraíso. Qualquer um que não torça por eles é inimigo meu!
 
— Pois fique sabendo que eu vou torcer pelo outro, o Esporte Clube do Vale. — ela disse, de repente — A cor deles é azul, e azul é bonito. O seu é vermelho, parece sangue de porco!
 
— Vermelho é cor de vitória, sua desentendida! — Euzébio berrou, parando no meio da calçada. — Você não sabe nada, não é mesmo?
 
— Sei que gosto de azul, e isso basta! — ela rebateu, passando por cima dele. — Futebol é só gente correndo atrás de uma bola, não vejo graça nenhuma. Mas já que vim, vou escolher o lado que me agrada.
 
Chegaram ao estádio, barulhento e cheio. Sentaram lado a lado, mas com um espaço imaginário maior que o campo entre eles. O jogo começou, e logo a primeira bola subiu.
 
— Isso, chuta logo! — Euzébio gritou, batendo no banco. — Que perna mole, parece que ele tem medo da bola!
 
— Acho que ele devia correr mais devagar — Brigite opinou, com ar sério. — Senão cansa e não chega a lugar nenhum.
 
— Correr devagar? É futebol, não passeio de burro! — virou-se para ela, vermelho. — Você não entende nada!
 
— Entendo sim! — ela defendeu-se. — Se correm muito, a bola fica sozinha e se sente abandonada. Coitada.
 
O homem ao lado, torcedor do Paraíso, não aguentou:

— A senhora brinca, né? O negócio é velocidade!
 
Brigite virou-se para ele, indignada:

— E quem perguntou a você, moço? O senhor tem cara de quem também não sabe nada. Deve torcer por time pequeno!
 
— Pequeno nada! — gritou outro, do lado oposto. — O Paraíso é gigante! 
 
— Gigante é o tamanho da ignorância daqui — ela devolveu, firme. — O Vale é mais elegante, só isso.
 
— Elegante é o cabelo do goleiro, que parece um ninho! — Euzébio meteu-se. — O seu time não tem força, só tem nome bonito!
 
— Nome bonito vale mais que força de boi — ela retrucou. — E aquele homem ali, do seu lado, ele está com a camisa suja. Que vergonha!
 
— A camisa é de batalha! — gritou o próprio dono da camisa. — Você devia era ficar em casa costurando meias!
 
— E você devia era tomar banho! — ela respondeu, tão alta que ouviu até a torcida do outro lado.
 
O jogo seguiu, mas ninguém mais olhava direito para a bola. A discussão alastrou-se: de um lado, quem apoiava Euzébio e dizia que futebol é raça; do outro, quem achava Brigite certa e falava que estilo é tudo.
 
— Ela tem razão! O juiz está cego, mas pelo menos a cor do Vale é mais limpa! — alguém berrou.
 
— Cego é quem concorda com ela! — interferiu outro. — Futebol não é moda!
 
— Euzébio, chama seus amigos, que eu já arrumei os meus! — Brigite avisou, cruzando os braços.
 
— Amigos meus não gostam de azul! Mas vou chamar mesmo para ver quem ganha! — ele respondeu, já levantando a voz.
 
Na marcação de escanteio, até os jogadores pararam. O capitão do Paraíso olhou para a arquibancada:

— O que está acontecendo aí? É jogo ou assembleia?
 
— É que a senhora diz que azul é melhor! — Euzébio gritou, apontando para ela.
 
— E ele diz que vermelho é cor de gente! — ela gritou de volta. — O senhor, que é jogador, decide: qual é a certa?
 
O capitão do Vale sorriu, brincalhão:

— Eu sou do Vale, então… azul é rei!
 
— Vê? Disse ele! — ela comemorou, como se tivesse ganhado a Copa.
 
O outro capitão bateu o pé:

— Você fala isso porque joga lá! Qualquer um sabe que vermelho pega fogo no adversário!
 
— Fogo é o que vai pegar na sua língua! — Brigite rebateu.
 
— Olha lá, eles estão se metendo também! — Euzébio notou, já animado com a confusão. — Acho que agora vai ter que jogar com a boca também!
 
— Melhor do que jogar com os pés que têm. — ela resmungou. — Nenhum sabe chutar direito.
 
O juiz apitou forte, mas ninguém ouviu. A conversa virou uma troca de comentários engraçados, mas cada vez mais calorosa:
 
— Se a senhora entende tanto, por que não entra no lugar do técnico? — desafiou um torcedor.
 
— Porque ele não deixa ninguém falar! — Brigite respondeu. — Igual a esse velho aqui, que acha que sabe tudo.
 
— E você acha que sabe o quê? Fala mais que rádio ligado! — Euzébio cortou.
 
— Pelo menos minha voz é mais afinada que o seu grito!
 
— Mais afinada que um galo rouco é fácil!
 
O jogo virou uma balbúrdia generalizada. Até os jogadores entraram na discussão, em vez de se posicionarem, começaram a dar palpites:

— Que a senhora acha de  usarmos as chuteiras azuis?

— Nada disso! Se for vermelho, dá mais charme!
 
Até o goleiro do Paraíso gritou da área:

— Eu aceito qualquer cor, desde que não me peçam para explicar as regras! Eu também não entendo muito!
 
— Viu? Até ele concorda comigo! — Brigite disse, triunfante. — Futebol é só cor e barulho, o resto é invenção!
 
— É porque você não quis aprender! — Euzébio quase pulou o banco. — Regra é sagrada!
 
— Regra sagrada é a de não deixar o vento entrar na janela. — ela rebateu — Essa sim eu sei de cor.
 
O juiz, já sem paciência, apitou tão forte que doeu nos ouvidos:

— A partida está parada há dez minutos por causa de uma discussão de cores! Quem quiser falar de moda, vá para uma loja!
 
— É o que eu digo! — Brigite gritou. — Ele também não entende!
 
— Entende, mas não sabe argumentar! — Euzébio completou.
 
A torcida toda riu, mas ninguém parou. O jogo só recomeçou quando um jogador chutou a bola sem querer na direção da arquibancada — e parou bem entre os dois velhos.
 
Brigite olhou, depois Euzébio olhou.
 
— Agora é com você — ela disse, empurrando- com o ombro. — Se errar, a culpa é sua.
 
— Se eu acertar, você passa a torcer pelo meu time por um mês! — ele desafiou.
 
— E se eu pegar, você passa a usar azul na camisa!
 
— Feito!
 
Euzébio tentou pegar, escorregou no banco e quase caiu. Brigite, ao tentar segurá-lo, acabou empurrando a bola de volta ao campo com a cabeça.
 
A torcida berrou: GOL!
 
— Isso foi meu! — ela gritou.

— Não, foi eu que a coloquei no lugar! — ele gritou.
 
Os jogadores aplaudiram, rindo:

— Então fica assim: o gol é dos dois!
 
— De jeito nenhum! — falaram ao mesmo tempo. — Se é para dividir, não quero!
 
No final da tarde, saíram do estádio, roxos de tanto falar.
 
— Você só ganhou porque ninguém quis brigar mais. — Euzébio disse.
 
— E você só não perdeu porque eu deixei. — Brigite respondeu. — Mas saiba: se houver outro jogo, eu volto a torcer contra.
 
— E eu volto a provar que você está errada. Aliás… a sua cabeça bateu forte na bola. Deve ter ficado mais dura ainda.
 
— Melhor dura que mole como a sua, que nem lembra o nome do time direito!
 
E assim, entre um insulto e outro, foram andando, deixando para trás um estádio que, pela primeira vez, tinha mais história na torcida do que no placar.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

José Feldman (“A Alquimia do Tempo”) O Eco no Vazio do Asfalto


Eram sete e meia da manhã, o horário em que a cidade ainda boceja fumaça de óleo diesel e o sol tenta, sem muito entusiasmo, atravessar a névoa de poluição. Lupércio, um homem que mantinha o hábito arcaico de carregar o otimismo como quem carrega um guarda-chuva num dia de nublado, saiu de seu prédio. 

Ao cruzar com o porteiro, soltou um "bom dia" cheio de dentes e intenção. O porteiro, absorto em um celular que filtrava o mundo, nem sequer levantou os olhos. O cumprimento ricocheteou no balcão de mármore e caiu no chão, ignorado.

Filosoficamente, o "bom dia" não é um boletim meteorológico. Ninguém está realmente perguntando se o dia será bom; o que se está fazendo é um reconhecimento de existência. Quando Lupércio diz "bom dia", ele está dizendo: "Eu te vejo, você está aqui, somos dois seres humanos ocupando o mesmo fragmento de tempo e espaço". Quando o outro silencia, a resposta implícita é devastadora: "Para mim, você é paisagem. Você é um fantasma de carne que não merece o gasto do meu fôlego".

Lupércio seguiu caminho, mas sentiu um peso sutil nos ombros. Aquele vácuo de resposta gerou um pequeno curto-circuito em sua disposição. 

Minutos depois, ao entrar na padaria, o seu segundo "bom dia", direcionado ao atendente, foi recebido com um resmungo ininteligível. A cortesia, que deveria ser a ponte entre dois estranhos, acabara de ser implodida.

A falta de cortesia funciona como uma poluição invisível. Não arde nos olhos, mas oxida a alma da cidade. Um "bom dia" ignorado na calçada se transforma em uma fechada brusca no trânsito dez minutos depois. O silêncio hostil do elevador transmuta-se em uma resposta ríspida em um e-mail de trabalho. A descortesia é contagiosa, ela cria uma cadeia de pequenos ressentimentos que, somados, formam o humor cinzento de uma metrópole.

A cidade, afinal, é um amontoado de solitários tentando não se esbarrar. Quando paramos de nos saudar, as ruas deixam de ser lugares de convivência e passam a ser pistas de obstáculos. 

Lupércio, ao chegar ao escritório, já não sorria. Quando a estagiária passou por ele e, com timidez, desejou-lhe uma boa manhã, ele apenas acenou com a cabeça, seco. O vírus da indiferença fizera mais uma vítima. Ele, que fora ferido pelo silêncio, agora usava o silêncio para ferir.

O "bom dia" não respondido é o sintoma de uma sociedade que confunde pressa com importância e anonimato com proteção. Acreditamos que, ao não interagir, poupamos energia. Ledo engano. Gastamos muito mais energia nos defendendo da hostilidade urbana do que gastaríamos lubrificando as relações com um simples reconhecimento verbal. Uma cidade sem cumprimentos é uma floresta de concreto onde todos são presas e ninguém é companheiro.

No final da tarde, ao voltar para casa, Lupércio viu um garotinho na calçada apontando para um cachorro vira-lata. 

O menino olhou para Lupércio e disse, com a pureza de quem ainda não aprendeu a ser invisível: "Olha, moço, o cachorro tem uma mancha de coração!". 

Lupércio parou. Aquela pequena intervenção humana quebrou a crosta de gelo que o dia havia formado. Ele sorriu. "É verdade, garoto. Tenha um bom final de dia". 

O menino sorriu de volta. A ponte estava reconstruída.

Moral:
A cortesia é o lubrificante que impede que as engrenagens da sociedade entrem em combustão. Um "bom dia" não respondido pode parecer uma insignificância, mas é o primeiro tijolo na construção de um muro de indiferença que nos isola. Não cumprimentamos o outro para sermos educados; cumprimentamos para reafirmar que, em meio ao caos de cimento, ainda existem humanos. Se o mundo lhe negar a resposta, continue saudando, pois o pior não é o silêncio que você recebe, mas o silêncio que você deixa crescer dentro de si mesmo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de FLORESTA, no interior do estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
FELDMAN, José. Alquimia do tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 12. O Mercado do Silêncio de Samarcanda

A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

“Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

"Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

“Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe (andarilho místico) até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

“Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

“Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

“Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração . Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a amana (honestidade/confiança) do vendedor.

“Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

“Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

“Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um alim (sábio) que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

“Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto."

“Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da Verdade divina.

“A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

“Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.”

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando o relato.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Patologista clínico Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados.  Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing