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sábado, 31 de janeiro de 2026

José Feldman ( O Porquê dos Livros)


O relógio de carrilhão da Biblioteca Infinita bateu treze vezes, um horário que só existe no plano das letras. Entre estantes que sumiam nas nuvens de poeira dourada, três figuras se materializaram ao redor de uma mesa de carvalho maciço.

José de Alencar, com sua barba fidalga e postura ereta de quem ainda acredita no Império, ajustou o monóculo. À sua frente, Clarice Lispector, envolta em uma aura de mistério e fumaça de um cigarro invisível, olhava para o nada como se decifrasse o DNA do silêncio. Ao lado dela, Monteiro Lobato, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquieto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente.

— A biblioteca é o pulmão da civilização — começou Alencar, com a voz empolada. — Sem o registro da alma de um povo, de suas raízes e de seu solo, o homem é apenas um náufrago sem bússola. Meus livros buscaram isso: dar ao Brasil uma certidão de nascimento, desde as selvas de O Guarani até os salões do Rio.

Lobato soltou uma risada curta, quase um latido.

— Certidão de nascimento, Alencar? Ora, o povo não quer saber de certidões, quer saber de progresso! O livro é uma ferramenta, um martelo para quebrar as correntes da ignorância. Se eu não tivesse colocado o Visconde de Sabugosa para explicar o mundo, ou a Emília para questionar até a gramática, o Brasil ainda estaria lendo manuais de etiqueta enquanto o petróleo jorra debaixo dos nossos pés!

Clarice, que até então parecia feita de pedra, moveu os olhos lentamente para Lobato. Sua voz veio baixa, vinda de um lugar profundo.

— O mundo não se explica com petróleo, Monteiro. Nem com martelos. O livro... o livro é um ferimento que a gente toca para saber que está vivo. Eu não escrevo para ensinar, nem para fundar nações. Eu escrevo porque o silêncio dói e eu preciso dar um nome a essa dor.

— Mas Clarice, minha cara — interveio Alencar, inclinando-se para frente. — A forma! A estética! O livro deve ser o espelho da nobreza. Em Iracema, eu dei à língua portuguesa o perfume das matas. O livro é importante porque eleva o espírito através da beleza.

— Beleza? — Lobato interrompeu, gesticulando para as prateleiras. — Beleza não enche barriga de criança, nem tira o país do atraso. O livro para o mundo tem que ser o despertar da imaginação crítica. Uma criança que lê sobre o Picapau Amarelo hoje é o cientista que descobre a cura de uma praga amanhã. O livro é fermento! Sem ele, a massa humana não cresce, fica um pão murcho.

Clarice soltou uma pequena nuvem de fumaça espiritual.

— Vocês falam do país, da ciência, da história. Mas o que importa o petróleo ou a nação se, quando você apaga a luz, você não sabe quem é aquela pessoa refletida no espelho? Meus livros são importantes porque são espelhos quebrados. Cada caco reflete uma angústia. O mundo só se salva se cada um se encontrar no labirinto de si mesmo. O livro é o fio de Ariadne que nos leva para dentro, não para fora.

— Mas para onde iremos se não tivermos uma identidade comum? — questionou Alencar, quase ofendido. — Se eu não tivesse escrito sobre o sertão e a corte, seríamos apenas uma cópia pálida da Europa. O livro cria a pátria!

— A pátria é uma invenção de quem tem medo da solidão — retrucou Clarice, com um sorriso enigmático. — A única pátria real é a língua. E a língua é traiçoeira. Ela falha quando a gente mais precisa. Escrever é o esforço de dizer o que não pode ser dito.

Lobato bateu na mesa, fazendo um tinteiro pular.

— Pois eu digo o que deve ser dito! E digo com clareza! O livro é o melhor amigo do homem, mas só se ele o fizer pensar. Se um livro não causar uma revoluçãozinha que seja na cabeça de quem lê, ele serve apenas para calçar pé de mesa. Meus livros são convites à insolência. O mundo precisa de mais Emílias e menos bacharéis!

Alencar suspirou, alisando a barba.

— Somos três cegos descrevendo o elefante. Eu vejo a majestade do animal, sua história e sua pele. Monteiro vê a força do bicho para puxar o arado do progresso. E você, Clarice... você vê o medo que o elefante sente da própria sombra.

— Talvez — disse Clarice, levantando-se. — Mas o elefante só existe porque alguém, um dia, teve a coragem de sentar e escrever a palavra "elefante" no papel.

— Nisso concordamos — assentiu Lobato, subitamente calmo. — Um país se faz com homens e livros.

— E com o mistério que há entre as letras — concluiu Clarice.

As luzes da biblioteca piscaram. O carrilhão bateu a décima quarta hora. Os três escritores, em um último aceno de respeito literário, dissiparam-se entre as estantes, deixando para trás apenas o cheiro de papel antigo, café e uma leve brisa de mar de Copacabana. 

Na mesa, restava apenas uma página em branco, esperando que o próximo habitante do mundo decidisse, afinal, por que os livros importam.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.

Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”, “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas).
Em andamento: “Pérgola de textos”, “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Almanaque Poético Brasileiro vol. 1".

Fonte: 
José Feldman. Pérgola de Textos. Biblioteca Sunshine, 2026.

sábado, 24 de janeiro de 2026

José Feldman (O silêncio ensurdecedor da solidão)

Caminha a passo bem lento,
na estrada que a vida armou;
Hoje está no esquecimento
de quem ele tanto amou.

Em um mundo que valoriza a velocidade, a eficiência e a produtividade, os idosos que não possuem um diploma de graduação universitária são frequentemente relegados ao esquecimento. São como folhas secas levadas pelo vento, esquecidas em um canto, sem valor aparente. A vida solitária e desanimadora desses indivíduos é um grito silencioso que ecoa nas ruas vazias, um lembrete cruel de que a sociedade pode ser cruel e injusta.

Eles se sentem desvalorizados, desprezados e rejeitados, como se suas realizações e experiências não tivessem importância. A falta de um diploma é como uma marca de inferioridade, um estigma que os impede de serem vistos como seres capazes e valiosos. Eles se fecham em casa, sem ânimo para sair, sem vontade de se arrumar, sem esperança de serem vistos e ouvidos.

E assim, os idosos se sentem cada vez mais isolados, como se fossem invisíveis aos olhos da sociedade. Eles começam a duvidar de si mesmos, a questionar sua própria capacidade de raciocínio, de julgamento, de decisão. Eles se sentem como se estivessem perdendo a noção de quem são, de o que são capazes.

A falta de reconhecimento e valorização é como um veneno lento, que se infiltra em suas mentes e corrói sua autoestima. Eles começam a acreditar que são realmente inferiores, que não são capazes de contribuir para a sociedade, que não têm nada de valor a oferecer.

E assim, eles se fecham ainda mais, se escondem do mundo, se protegem de mais rejeição e desvalorização. Eles se sentem como párias, como se estivessem à margem da sociedade, sem direito a voz, sem direito a serem ouvidos.

A solidão se torna uma companheira constante, uma sombra que os segue a todos os lugares. Eles se sentem como se estivessem morrendo por dentro, como se estivessem perdendo a vontade de viver.

A casa, que antes era um lar, se transforma em uma prisão, um lugar de isolamento e solidão. As coisas que antes traziam alegria e propósito agora são apenas objetos sem sentido, lembranças de uma vida que não foi vivida. A bagunça e a desordem se acumulam, refletindo a desordem interior, a sensação de vazio e inutilidade.

Mas, é importante lembrar que essas pessoas não são apenas vítimas da sociedade. Elas são seres humanos, com histórias, experiências e sabedoria para compartilhar. Elas são capazes de grandes realizações, de inspirar e motivar outros, de fazer a diferença no mundo.

O que é necessário é que as pessoas as enxerguem, as ouçam e as valorizem. É necessário que as pessoas entendam que um diploma não é o único indicador de valor e capacidade. É necessário que as pessoas reconheçam a dedicação, o esforço e a perseverança dessas pessoas, que muitas vezes trabalharam arduamente para se sustentar e para contribuir para a sociedade.

É necessário que as pessoas sejam empáticas, que se coloquem no lugar dessas pessoas e entendam o que elas estão passando. É necessário que as pessoas sejam gentis, que ofereçam um sorriso, um abraço, um ouvido atento.

Não é necessário ser um especialista para fazer a diferença. Basta ser humano, basta ser presente. Basta dizer "eu estou aqui", "eu te vejo", "eu te valorizo".

A vida é curta, e o tempo é precioso. Não se deve desperdiçá-la com julgamentos e preconceitos. Deve-se aproveitar cada momento para fazer a diferença, para tocar vidas, para inspirar e motivar.

É só olhar para os idosos com novos olhos, com respeito e admiração. Ouvir suas histórias, aprender com suas experiências. Valorizar suas realizações, celebrar suas vitórias, porque, no final, não é o diploma que define uma pessoa, é o seu coração, é a sua alma, é a sua capacidade de amar e ser amado. O que vale é fazer a diferença, fazer com que esses idosos se sintam vistos, ouvidos e valorizados. Fazer com que eles se sintam vivos novamente.

E, quem sabe, talvez um dia possam sair de casa, com a cabeça erguida, prontos para mostrar ao mundo que eles são mais do que um diploma, são homens de experiência, de sabedoria, e, acima de tudo, de valor. 
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas",  “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

José Feldman (Debate na Casa de Luz)

 
Era uma tarde ensolarada em Arles, as cores vivas do Provence que pareciam dançar nas paletas dos três mestres. Van Gogh, Gauguin e Monet estavam reunidos em uma pequena casa onde as paredes estavam adornadas com suas obras. A conversa logo se transformou em um acalorado debate.

Van Gogh: (gesticulando para o seu quadro) Olhem para isso! A energia da pintura é palpável. Cada pincelada expressa a turbulência da minha alma. É como se cada estrela estivesse viva, pulsando com a luz.

Gauguin: (rindo) Ah, Vincent, não me diga que você ainda acredita que pintar a realidade é o que a arte deveria ser! Sua paisagem é como um grito, mas eu prefiro a suavidade e a simplicidade da vida. Olhem para a minha tela! (aponta para sua obra) Aqui, eu capturei a essência das coisas — um mundo mais espiritual e menos caótico.

Monet: (com um sorriso irônico) Vocês dois sempre emaranhados nos seus próprios demônios! Eu busco a beleza das coisas efêmeras. A luz e a cor que mudam constantemente. Minha série de Nenúfares é pura Harmonia — um jogo da natureza, não um grito desesperado.

Van Gogh: (frustrado) Harmonia? Claude, sua arte parece uma ilusão! Você está tão perdido na busca da luz que se esquece da luta real dentro de nós. Minhas galas de girassóis são um reflexo da paixão! 

Gauguin: (levantando a voz) A luta não é tudo, Vincent! Existe uma sabedoria na simplicidade. A natureza não é apenas um campo de batalha ou um lugar de dor. É onde encontramos a paz. Os meus quadros buscam provocar um pensamento! Olhem para este! (aponta para seu trabalho) Há uma fantasia que revela a verdade, algo que fatos não podem capturar.

Monet: (sorrindo) E essa fantasia muitas vezes ofusca a realidade! Não podemos esquecer que a natureza é uma dançarina, uma musa que está sempre em transformação. (faz uma pausa) Vocês dois falam de alma e luta, mas eu vejo um jardim.

Van Gogh: Um jardim? Claude, existem jardins imaginários e jardins reais. O que eu vejo nas flores é a fragilidade da vida! Cada girassol em minha tela é um símbolo da luta contra a escuridão.

Gauguin: (interrompendo) E o que é a escuridão sem a luz? Uma obra de arte deve provocar reflexão! Estar em harmonia com o espírito da coisa é mais importante do que a técnica. Você pode ter traços intensos, mas sem compreensão, é apenas ruído.

Monet: (pensando) A técnica é a ponte entre a visão e a realidade! Se você está preocupado só com a mensagem, a pintura se torna um panfleto, não arte! (aponta para os quadros) O que eu desejo é capturar o instante — a beleza do agora.

Van Gogh: (com um sorriso triste) Então, somos todos diferentes, não somos? Vocês preferem sussurrar, enquanto eu grito com cada pincelada. Mas isso é o que torna a arte tão rica e variável! 

Gauguin: E isso é o que devemos celebrar! Cada um de nós tem um olhar único. A arte é o reflexo da nossa experiência. 

Monet: Concordo! Ao final, é a paixão que nos une, mesmo que as nossas paletas sejam diferentes.

E assim, os três mestres continuaram a discutir, rindo e debatendo, cada um defendendo seu mundo particular. O sol se pôs lentamente, lançando um brilho dourado sobre seus quadros, que pareciam, cada um à sua maneira, perfeitamente vivos.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas",  “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 6, FINAL

texto por José Feldman

O QUE SÃO SÍLABAS POÉTICAS

Sílabas poéticas (ou métricas) são as unidades usadas para contar o ritmo de um verso na poesia. Nem sempre coincidem com as sílabas gramaticais da fala cotidiana — há regras específicas (como a elisão, a sinérese, a diérese e a contagem da última vogal) que alteram a contagem para que o verso caiba na métrica desejada.

A contagem mais comum em língua portuguesa é a contagem "ao ritmo", chamada de “contagem poética” ou “sílabas métricas”, que costuma seguir a regra do "mais-som" (conta-se do primeiro som até a última sílaba tônica do verso).

Em português, costuma-se usar a contagem por sílabas poéticas onde o verso termina em palavra oxítona, paroxítona ou proparoxítona e a regra de ajuste da última sílaba é:

- verso terminado em oxítona: conta-se +1 (algumas tradições consideram o verso com uma sílaba a menos; explico abaixo como ajustar);

- verso terminado em paroxítona: conta-se normalmente;

- verso terminado em proparoxítona: conta-se -1 (na prática raramente se usa).

Observação: há variações históricas e entre tradições; apresento a forma mais prática usada na análise de poesia em português.

Regras práticas essenciais (modo prático de contar)

1. Contagem básica (gramatical): 
conte as sílabas, como em fala natural, até a sílaba final do verso.

Ex.: “Minha alma canta” → mi-nha (1-2) al-ma (3-4) can-ta (5-6) →  6 sílabas gramaticais.

2. Enlace vocálico / elisão: 
quando uma palavra termina em vogal (ou ditongo) e a seguinte começa por vogal, costuma-se unir essas vogais em uma única sílaba poética.

A divisão das sílabas poéticas (escansão) do verso "Minha alma canta" resulta em 4 sílabas métricas, classificando-o como um verso tetrassílabo. 

A separação correta é:
Mi / nha al / ma / can//ta (antes do // é a última sílaba poética)

Sinalefa (Elisão): A sílaba "nha" de "Minha" se funde com a primeira sílaba de "alma" (al), pois a vogal final "a" de "Minha" é átona e encontra outra vogal no início da palavra seguinte, formando um único som poético (nha-al).

Última sílaba tônica: Na escansão, a contagem para obrigatoriamente na última sílaba tônica do verso. Na palavra "can-ta", a sílaba mais forte é "can" (a 4ª sílaba), portanto a sílaba final "ta" é descartada da contagem métrica.

3. Síncopa / sinérese: 
quando duas vogais de um hiato dentro de uma palavra se pronunciam como uma só sílaba poética.

Ex.: “saída” pode contar como 3 sílabas (sa-í-da) ou, por sinérese, sa-ída → dependendo do contexto métrico.

4. Diérese: 
inverso da sinérese — separa ditongos para aumentar sílabas poéticas (menos comum, mas usado por poetas para ajustar a métrica).

5. Acento final: 
na prática portuguesa e brasileira, a contagem termina na sílaba tônica do verso. A forma de ajuste final:

- versos oxítonos (terminam com palavra oxítona) muitas vezes resultam numa contagem de +1 em relação ao número de sílabas gramaticais;

- versos paroxítonos contam como o número de sílabas gramaticais; 

- versos proparoxítonos costumam reduzir 1 (na prática se evita, ou adapta-se).

Agora, exemplos aplicados aos tipos de soneto

Vou usar versos curtos e marcar a contagem poética ao lado. Para não complicar demais, simplifico a contagem por regra prática: conto as sílabas até a tônica final e aplico as elisões entre palavras.

1) Soneto Petrarquiano (italiano) — oitava (ABBA ABBA) + sextilha (ex.: CDE CDE)
- O soneto petrarquiano costuma empregar decassílabo (10 sílabas poéticas) ou endecasílabo (11) na tradição italiana adaptada ao português costuma-se usar decassílabo ou redondilhas maiores. 

Exemplo de verso de Camões:
"Amor é chama que arde sem cessar"  

Resulta em 10 sílabas métricas, classificando-o como um decassílabo. 

A separação correta é:

A / mor / é / cha / ma / que ar / de / sem / ces / sar

Sinalefa (Elisão): Ocorre a fusão de vogais entre palavras. No trecho "que ar-de", a sílaba "que" se une à sílaba inicial "ar" de "arde", formando um único som poético.

Última sílaba tônica: A contagem das sílabas poéticas termina obrigatoriamente na última sílaba tônica do verso. Como a palavra final é "ces-sar" (uma oxítona), a última sílaba tônica é "sar", que é contada como a 10ª sílaba.

Junção de sons: Diferente da gramática, a métrica poética baseia-se na sonoridade e no ritmo da leitura.

Exemplo simplificado (somente um verso para mostrar métrica):
"Oito versos no ar, cada qual a rimar" 

Resulta em 12 sílabas métricas, classificando-o como um dodecassílabo (ou verso alexandrino). 

A separação correta é:

Oi / to / ver / sos / no / ar / ca / da / qual / a / ri / mar

Hiato mantido: Entre as palavras "no" e "ar", a pronúncia natural geralmente mantém a separação dos sons vocálicos devido à tona de "ar", não ocorrendo a elisão (sinalefa).

Sinalefa (opcional conforme a dicção): Entre "qual" e "a", o som final de "qual" (com som de 'u') pode se fundir levemente ao "a", mas na métrica clássica para manter o ritmo dodecassílabo, conta-se cada unidade sonora distinta.

Última sílaba tônica: A contagem termina na sílaba tônica da última palavra. Como "ri-mar" é uma oxítona, a sílaba tônica é "mar", que encerra a contagem na 12ª posição. 

Este verso possui uma estrutura rítmica comum na poesia lusófona, com acentuações marcadas que conferem musicalidade, terminando em uma palavra oxítona que reforça a cadência do verso.

2) Soneto Shakespeariano (inglês) — na tradição em português costuma-se também usar decassílabos ou versos livres adaptados

- Nos sonetos em inglês originais as linhas eram geralmente iâmbicas pentâmetros (10 sílabas), mas em português adaptado usamos versos decassílabos ou endecasílabos para soar natural.

Exemplo adaptado em decassílabo:
"Nasce o riso e com ele morre a dor"  

A divisão das sílabas poéticas (escansão) do verso resulta em 10 sílabas métricas, classificando-o como um decassílabo. 

A separação correta é:
Nas / ce o / ri / so e / com / e / le / mor / re a / dor. 

Sinalefa (Elisão): Ocorre a junção de vogais entre palavras adjacentes quando a pronúncia flui em um único som.

ce-o (de "Nasce o") se funde em uma só sílaba poética.

so-e (de "riso e") se funde em uma só sílaba.

re-a (de "morre a") se funde em uma só sílaba.

Contagem até a última tônica: A contagem encerra na última sílaba tônica do verso, que neste caso é a própria palavra monossilábica "dor".

O ponto é que poetas portugueses adaptam a métrica para criar o ritmo equivalente ao iâmbico pentâmetro.

3) Soneto Clássico/Branco (ABAB CDCD EFEF GG — versão de 14 versos similares ao shakespeariano)

- Em português brasileiro, muitos sonetos clássicos usam decassílabos ou redondilhas maiores. Um decassílabo bem construído:

Verso exemplo endecassílabo (11 versos):
"Vou contar a lua como testemunha"  

 A separação correta é:
Vou / con / tar / a / lu / a / co / mo / tes / te / mu

Hiato mantido: No trecho "lu-a", as vogais não se fundem porque pertencem a sílabas tônicas ou distintas que mantêm a clareza da pronúncia na métrica deste verso.

Sinalefa (ausência): Não há junções por elisão (fusão de vogais) que alterem a contagem neste verso específico, pois as vogais terminais e iniciais adjacentes são pronunciadas distintamente no ritmo da frase.

Última sílaba tônica: A regra fundamental da escansão é contar apenas até a última sílaba tônica do verso. Na palavra "tes-te-mu-nha", a sílaba tônica é "mu" (a 10ª sílaba). A sílaba final "nha" (átona) é descartada da contagem poética.

4) Soneto Moderno (métrica variada)

- Aqui o poeta pode escolher versos de 8, 10, 11 sílabas, versos brancos ou versos livres. A sílaba poética serve para medir ritmo, mas o poeta pode deliberadamente variar para efeito.

Ex.: versos alternando 10/7/11 e assim por diante. O importante é que o leitor ou ouvinte perceba o ritmo desejado.

5) Exemplo com elisão (caso comum em português)

- Verso: "A vida e a morte caminham"  

Resulta em 8 sílabas métricas, classificando-o como um octossílabo. 

A separação correta é:
A / vi / da e a / mor / te / ca / mi / nham

Sinalefa (Elisão): Ocorre a fusão de três sons vocálicos em uma única sílaba poética: "da e a". A vogal final átona de "vida" se une às conjunções e artigos seguintes ("e a"), formando um único núcleo sonoro na leitura ritmada do verso.

Última sílaba tônica: A contagem das sílabas poéticas termina sempre na última sílaba tônica da última palavra. Na palavra "ca-mi-nham", a sílaba tônica é "mi", que é a 8ª sílaba. A sílaba final "nham" (átona) não entra na contagem métrica.

Resumo prático (em passos para contar sílabas poéticas)

1. Leia o verso em voz alta, natural, até a sílaba tônica final.  

2. Conte sílabas fonéticas até a sílaba tônica.  

3. Una vogais entre palavras (elisão) quando apropriado; aplique sinérese/diérese para ajustar interiormente.  

4. Considere o tipo de verso desejado (decassílabo, endecasílabo, redondilha) e aplique pequenos ajustes mantendo a naturalidade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 5

texto por José Feldman

Sonetos Modernos (ou Contemporâneos)

A partir do final do século XIX e, principalmente, no século XX, com as vanguardas e o Modernismo, o soneto passou por um processo de flexibilização. A forma fixa foi mantida como referência, mas as "regras" tornaram-se sugestões.

Regras e Características

Métrica Livre: 
O verso livre (sem número fixo de sílabas) e o verso branco (sem rima) são comuns. A musicalidade e o ritmo vêm mais da cadência interna do poema do que da contagem silábica formal.

Estrutura Flexível: 
Embora a maioria mantenha as quatro estrofes (2 quartetos e 2 tercetos), a disposição visual pode variar, e a quebra da estrutura é um recurso estilístico.

Esquema de Rimas: 
As rimas podem ser abolidas (versos brancos), ou se tornarem imperfeitas, toantes e raras. A rima deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma escolha.

Temática: 
Abre-se para o cotidiano, o coloquial, o político, o social, o humor e o intimismo. Tudo pode ser tema de um soneto moderno.

Linguagem Despojada: 
Uso de vocabulário comum, coloquialismos, neologismos e referências à cultura pop.

Exemplo de Soneto Moderno (Manuel Bandeira - Modernismo)
Manuel Bandeira frequentemente usava a forma do soneto, mas com uma leveza e uma métrica menos rígida, introduzindo um tom mais prosaico e melancólico.

Alta noite. Silêncio. Tudo dorme. (A)
Não há na casa luz, nem um ruído. (B)
Dorme a cidade, o campo, o céu dormido. (B)
E o meu amor, por que é que não dorme? (A)

Ah, se tu dormes, que o teu sono seja (C)
Feliz, sem sonhos, qual a água que corre (D)
Sob as estrelas, sem que a dor a torre. (D)
Mas se tu velas, que a saudade te veja (C)

Que a saudade te envolva em seu abraço forte, (E)
Que te leve a pensar em mim um instante, (F)
Que te fale do amor que vive em toda parte. (G)

E que me faças vir a ti, num feitiço, (H)
Para que a vida seja um só caniço (H)
De amor, de sonho, de ventura e arte. (G)

Neste exemplo, Bandeira utiliza versos livres ou de métrica irregular, e as rimas são mais frouxas e menos previsíveis do que no período clássico, focando mais na expressão do sentimento do que na perfeição formal.
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continua...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 4

texto por José Feldman

Soneto Inglês ou Shakespeariano 

Desenvolvido na Inglaterra e amplamente utilizado por William Shakespeare, essa variação adapta a forma à prosódia da língua inglesa. 

Regras e Estrutura

Divisão: 
É composto por três quadras (quatro versos cada) e um dístico (dois versos finais rimados), totalizando 14 versos.

Métrica: 
Tradicionalmente usa o pentâmetro iâmbico (métrica comum na poesia inglesa, padrão rítmico na poesia com dez sílabas por verso, em cinco pares [iambos], onde cada par tem uma sílaba átona [fraca] seguida por uma sílaba tônica [forte]).

Esquema de Rimas: 
O esquema é rígido e segue o padrão ABAB CDCD EFEF GG. O dístico final é sempre rimado (rimas emparelhadas).

Volta (Virada): 
A "volta" dramática ou a resolução final ocorre, quase invariavelmente, no dístico final, que oferece uma conclusão, um comentário ou uma reviravolta aos 12 versos anteriores. 

Exemplo (William Shakespeare, Soneto 18, em tradução livre)
Esquema de rimas: ABAB CDCD EFEF GG.

Comparar-te a um dia de verão, ousarei? (A)
Mais amável e amena te conservas. (B)
Ventos fortes as flores de maio agitam; (A)
A duração do estio é sempre breve. (B)

Às vezes o sol brilha com excesso, (C)
E a dourada tez sua ofuscação padece; (D)
Toda beleza um dia decai do seu progresso, (C)
Por obra do acaso ou da natureza que a impede. (D)

Mas teu verão eterno não findará, (E)
Nem perderá a beleza que te é cara; (F)
Nem a Morte se gabará que a ti se chega, (E)
Pois em versos eternos, teu ser não para. (F)

Enquanto houver ar e olhos possam ver, (G)
Viverá este verso, e te fará viver. (G)

O soneto, com sua estrutura fixa de 14 versos, é uma forma poética que atravessou séculos, adaptando-se a diferentes épocas e sensibilidades. A distinção entre sonetos clássicos e modernos reside na rigidez das regras métricas e na liberdade temática e formal.
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continua…

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

José Feldman (Os calos das mãos)


Texto construído tendo por base a trova de Mara Melinni (Caicó/RN)
Meu senhor, por caridade,
não me julgue em atos vãos...
Trago a minha identidade
nos calos das minhas mãos.

Foi num dia quente, desses em que o sol parece querer derreter até as sombras, que o velho homem entrou na padaria. Trajava roupas simples, gastas pelo tempo e pelo trabalho. Seus sapatos, já sem brilho, guardavam histórias de longas caminhadas, e suas mãos... Ah, suas mãos eram um livro à parte. Grossas, calejadas, desenhadas por linhas que pareciam mapas de uma vida inteira de esforço.

Ele pediu um pão e um café, com voz baixa, quase um sussurro. O atendente, um jovem de rosto liso e mãos macias, o olhou como quem avalia uma mercadoria. Desconfiado, hesitou antes de atender o pedido, observando o homem com olhos que julgavam sem compreender. "Será que vai pagar?", parecia pensar. E ali, naquele instante, o velho sentiu o peso de um mundo que insiste em medir o valor das pessoas pelo que aparentam.

Quando o café chegou à mesa, o homem segurou a xícara com cuidado, como se segurasse algo precioso. O calor do líquido encontrou as marcas de décadas de trabalho, e por um momento ele se perdeu em pensamentos. Lembrou-se das enxadas que havia empunhado, dos sacos de cimento que carregara, dos dias começados antes do sol nascer. Cada calo era uma prova de sua história, uma assinatura invisível que o mundo parecia ignorar.

"Meu senhor, por caridade, não me julgue em atos vãos..." – ele murmurou baixinho, como se falasse para si mesmo. O jovem atrás do balcão lançou outro olhar, talvez arrependido de sua desconfiança inicial, talvez apenas curioso. O velho completou o pensamento em silêncio: "Trago a minha identidade nos calos das minhas mãos."

E não era verdade? Cada linha naquelas mãos era um testemunho de dignidade, um grito mudo contra o preconceito. Na sociedade dos rostos lisos e das aparências impecáveis, os calos eram vistos como sinais de fraqueza, quando, na verdade, eram medalhas de força.

O velho terminou seu café, deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu. O jovem atendente o observou pela janela, agora com outro olhar. Talvez, naquele instante, tenha entendido que o valor de um homem não está na maciez de suas mãos, mas na história que elas carregam.

E assim o velho seguiu, com seus sapatos gastos e sua identidade bem marcada. Porque, no fim, são os calos que contam quem somos — não como fardos, mas como troféus que a vida nos dá por termos enfrentado a luta de existir.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da vida.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing

Os Sonetos - Parte 3

                                   texto por José Feldman

Soneto Italiano ou Petrarquiano (Camoniano em Portugal) 

Originado na Itália, popularizado por Francesco Petrarca e adotado na língua portuguesa por Luís Vaz de Camões, este é o formato clássico mais conhecido. 


Regras e Estrutura

Divisão: 
É composto por duas quadras (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), totalizando 14 versos.

Métrica: 
Tradicionalmente usa versos decassílabos (dez sílabas poéticas).

Esquema de Rimas: 
Nas quadras, o esquema mais comum é o interpolado (ABBA ABBA), onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro. Nos tercetos, o esquema de rimas é mais flexível, sendo comuns as combinações CDE CDE ou CDC DCD.

Volta (Virada): 
A mudança de uma ideia ou perspectiva (a "volta" dramática) ocorre tipicamente na transição dos quartetos para os tercetos, ou no início do primeiro terceto. 

Exemplo (Luís Vaz de Camões)

Esquema de rimas: ABBA ABBA CDE DCE.

Amor é fogo que arde sem se ver; (A)
É ferida que dói, e não se sente; (B)
É um contentamento descontente; (B)
É dor que desatina sem doer; (A)

É um não querer mais que bem querer; (A)
É um andar solitário entre a gente; (B)
É nunca contentar-se de contente; (B)
É um cuidar que ganha em se perder; (A)

É querer estar preso por vontade; (C)
É servir a quem vence, o vencedor; (D)
É ter com quem nos mata lealdade. (E)

Mas como causar pode seu favor (D)
Nos corações humanos tanto dor, (D)
Se de si mesmo o contentamento pode? (E)
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continua...

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 2

texto por José Feldman

Os sonetos clássicos são a base da tradição, aderindo a normas estritas de estrutura, métrica e rima, estabelecidas por mestres como Petrarca, Camões e Shakespeare. Eles floresceram do Renascimento ao Simbolismo.

Métrica Rígida: 
O uso predominante do decassílabo (dez sílabas poéticas, especialmente o heroico) ou, em menor grau, do dodecassílabo (doze sílabas ou alexandrino) é obrigatório. A contagem silábica segue regras precisas de escansão.

Estrutura Fixa: 
A divisão em 14 versos é mantida, geralmente no formato italiano (ABBA ABBA CDE CDE) ou inglês (ABAB CDCD EFEF GG).

Esquema de Rimas: 
As rimas são ricas, precisas e seguem os padrões definidos para cada tipo (interpoladas, emparelhadas, alternadas).

Temática: 
Foca em temas universais e elevados: amor idealizado, a passagem do tempo (carpe diem), a natureza, a moralidade e a reflexão filosófica.

Linguagem Elevada: 
Utiliza um vocabulário formal, erudito e poético, evitando coloquialismos.

Exemplo de Soneto Clássico (Olavo Bilac - Parnasianismo)
Este exemplo de Olavo Bilac, um dos maiores sonetistas brasileiros do Parnasianismo, demonstra o rigor formal:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo (A)
Perdeste o senso e eu não te entendo. (B)
Mas, para que do entendo assim desperto, (A)
Pois que da vida a mágoa me sustento? (B)

Trocando em sonhos a miséria e o pranto, (C)
Alinho em ouro a estrofe, e em seda o canto, (C)
E o amor, que a dor suaviza e que a alma acalma, (D)
O céu com astros, o deserto com palmas. (D)

Se a gente foge, a dor a gente alcança... (E)
Não foge, não, que o mal a gente cansa. (E)
E a vida, enfim, é a sombra de um anseio... (F)

Que, ao ouvir estrelas, a alma do poeta (G)
Guarda a impassibilidade, e a dor secreta (G)
Transforma em rima a lágrima do seio. (F)

Nota: O esquema de rimas acima é uma variação (ABAB CCDD EEF GGF), mas a rigidez métrica (decassílabos) e a estrutura fixa em quartetos e tercetos são mantidas.
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continua...