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quinta-feira, 26 de março de 2026

José Feldman (Presente Complicado)


Tiago encarava a vitrine de uma loja de cristais com a mesma expressão de um homem tentando desarmar uma bomba usando um palito de dente. O Dia dos Namorados era em doze horas, e o cérebro dele estava operando em modo de segurança.

Desesperado, ele abriu o grupo "Os Intocáveis (e o Tiago)" no WhatsApp.

Tiago: "Socorro. Emergência nível 5. O que eu dou para a Marcela? Orçamento: até 300 reais e minha dignidade."

A resposta foi instantânea. Beto, o amigo "fitness" que toma vitaminas no café da manhã, foi o primeiro.

Beto: "Mano, fácil. Um kit de suplementos e uma luva de academia nova. Ela vai entender que você se preocupa com a saúde dela. Amor é cuidado, parça."

Tiago: "Beto, a Marcela acha que 'fazer cardio' é andar do sofá até a geladeira. Se eu der isso, ela termina comigo antes do jantar."

Juca, o eterno romântico (e ligeiramente cafona), entrou na conversa.

Juca: "Não ouve o Beto, Tiago. Mulher gosta de sensibilidade. Compra um urso de pelúcia gigante. Aqueles que ocupam metade da cama e seguram um coração escrito 'Você é meu tudo'. É infalível."

Rodolfo, o pragmático do grupo, mandou um áudio de 30 segundos rindo.

Rodolfo (Áudio): "Urso, Juca? Sério? O Tiago quer namorar a menina ou montar uma creche? Tiago, escuta quem entende: dá uma AirFryer. É útil, é moderna e ela vai fazer batata frita pra você. É o presente que se paga sozinho."

O grupo virou um caos. As notificações não paravam.

Juca: "AirFryer? Que horror, Rodolfo! Você quer que ela se sinta uma dona de casa dos anos 50? O urso transmite afeto!"

Rodolfo: "O urso transmite ácaro, Juca! A AirFryer transmite crocância!"

Beto: "Se não for o kit de suplementos, dá um smartwatch que conta passos. Pelo menos ela monitora o sono."

Tiago: "GENTE, FOCO! Ela gosta de coisas fofas, mas nem tanto. Gosta de comer, mas não quer cozinhar. E ela odeia suar."

Aí apareceu a mensagem de Vini, o amigo que sempre tentava ser "cult".

Vini: "Tiago, dê uma planta. Mas não uma flor qualquer. Uma Costela de Adão. É estético, é hipster, simboliza o crescimento da relação."

Rodolfo: "Uma planta? O cara quer um presente, não uma obrigação de regar algo todo dia. Dá logo um cartão presente da Netflix e um balde de pipoca."

Juca: "Você é um monstro sem coração, Rodolfo. Tiago, ignora esses bárbaros. Compra uma estrela. Tem um site que você batiza uma estrela com o nome dela. É eterno."

Beto: "Batizar uma estrela? Ah não, Juca. Aí você zerou o game da cafonice. Tiago, se você der uma estrela, eu mesmo te bloqueio."

Tiago lia tudo suando frio. O grupo agora discutia se era melhor uma fritadeira elétrica ou um corpo celeste distante.

Tiago: "E se eu der um perfume?"

Rodolfo: "Risco alto. Se ela não gostar, vai dizer que você acha que ela é fedorenta."

Juca: "Dá uma joia! Prata! Um pingente de coração!"

Vini: "Muito clichê. Dá um livro de poesias búlgaras."

Beto: "Dá um tapete de ioga."

Tiago bloqueou o celular. A discussão no grupo já tinha migrado para "Qual a melhor marca de creatina" e "Por que o Rodolfo odeia romance". Ele entrou em uma loja de departamentos, viu uma luminária de mesa em formato de lua e uma caixa de bombons importados.

Ele comprou os dois.

No dia seguinte, no jantar:

— Tiago, que lindo! — disse Marcela, abraçando a luminária — É tão poético, parece que você trouxe a lua pra mim.

Tiago sorriu, aliviado, e sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma nova mensagem no grupo.

Rodolfo: "E aí, deu a AirFryer? Se não deu, me avisa que eu compro a minha, tá na promoção."

Tiago apenas guardou o celular e atacou os bombons.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

terça-feira, 24 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 4. A verdadeira riqueza

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus atentos amigos. Sentem-se mais perto, pois o segredo que vou lhes contar agora é como o almíscar: quanto mais se espalha, mais doce se torna o ambiente. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje as estrelas nos guiam até o Cairo, onde as areias guardam lições que o ouro não pode comprar.

"Bismillah" (Em nome de Deus), abramos o cofre do conhecimento.

Havia um jovem chamado Karim que, ao ficar órfão, recebeu de seu pai uma herança incomum: uma pequena bolsa de couro contendo apenas três moedas de cobre e um pergaminho que dizia: "Estas são as moedas da sabedoria. Use-as quando o caminho escurecer e a dúvida for sua única companheira."

Karim, decepcionado, pois esperava joias ou propriedades, partiu para a grande cidade para tentar a sorte. 

No caminho, encontrou um ancião sentado à beira de uma estrada empoeirada. 

"Ya Waladi" (meu filho), disse o velho, "estou com fome e não tenho nada além de conselhos para vender."

Karim, movido por compaixão, entregou a primeira moeda de cobre. O velho sorriu e disse: – "Nunca tome uma decisão importante enquanto a raiva governar seu sangue." 

Karim guardou a frase e seguiu.

Mais adiante, em um mercado movimentado, ele viu um homem errante sendo injustiçado. Ele entregou a segunda moeda a este homem, um sábio errante que fora confundido com um ladrão. 

O sábio lhe disse: – "A verdade dita no momento certo vale mais que mil orações em silêncio."

Por fim, ao chegar às portas de um palácio onde se buscava um novo conselheiro para o Vizir, Karim encontrou um mendigo cego. 

"Inshallah" (Se Deus quiser), disse o mendigo, "você encontrará o que busca se ouvir o que o coração dita e não o que o ego grita." 

Karim deu sua última moeda e o mendigo sussurrou: – "A verdadeira riqueza é o que você dá, pois é a única coisa que levará para o túmulo."

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensou Karim, sentindo-se estranhamente leve. Ao entrar no palácio, ele não tentou impressionar o Vizir com títulos ou mentiras. Quando o Vizir perguntou o que ele trazia para oferecer ao reino, Karim contou as três lições.

O Vizir, cansado de bajuladores que só queriam ouro, viu em Karim a clareza de um oásis. 

"Shukran" (Obrigado), disse o governante, "você não trouxe moedas de metal, mas moedas que nunca perdem o valor." 

Karim tornou-se o conselheiro mais respeitado da região, provando que a herança de seu pai era, de fato, a maior de todas as fortunas.

Que a sabedoria seja sempre a vossa moeda de troca mais valiosa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Pérgola de Textos (textos de sua autoria). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.).
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 22 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 3. A Procura da Felicidade

 Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites


"Salaam’Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus diletos ouvintes. Vejo que a chama da curiosidade ainda brilha em vossos olhos! Pois bem, ajustem seus turbantes e prestem atenção, pois esta história é um bálsamo para as almas inquietas. Eu sou Mustafá, o peregrino, e lhes contarei sobre o Sultão que possuía tudo, menos o que realmente importa.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos no palácio da reflexão.

Havia outrora, na magnífica cidade de Damasco, um Sultão chamado Harun, cujas riquezas eram tão vastas que seus tesoureiros perdiam o fôlego apenas tentando contá-las. Seus jardins tinham fontes de água de rosas e suas mesas transbordavam com as iguarias mais raras de "Al-Mashriq" (O Oriente). No entanto, Harun vivia com o semblante fechado. Nada lhe dava prazer. 

"Ya Allah" (Ó Deus), suspirava ele, "tenho o mundo aos meus pés e, ainda assim, meu coração é um deserto seco."

Sentindo-se definhar, o Sultão convocou os sábios mais renomados. Após muitos debates, um velho "Hakim" (médico/sábio) aproximou-se e disse: 

"Majestade, o vosso mal tem cura. Deveis encontrar um homem verdadeiramente feliz, pedir-lhe a camisa e vesti-la por uma noite. A felicidade dele passará para vós através do tecido."

O Sultão, esperançoso, enviou seus mensageiros por todos os cantos. 

"Shukran" (Obrigado), diziam eles ao interrogar os mercadores ricos, mas estes reclamavam dos impostos. Procuraram os generais vitoriosos, mas estes temiam as conspirações. Procuraram os poetas famosos, mas estes sofriam por amores não correspondidos. Ninguém era plenamente feliz.

Certo dia, um dos mensageiros passava por uma colina árida quando ouviu uma risada cristalina e uma canção de louvor que subia aos céus. Era um humilde pastor de cabras, sentado à sombra de uma tamareira.

"Sabah al-Khair" (Bom dia), saudou o mensageiro. "Diga-me, bom homem, você é feliz?"

O pastor sorriu, e sua alegria era como o sol do meio-dia. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), respondeu ele. "Tenho o ar para respirar, o leite das minhas cabras e a paz de quem nada deve a ninguém. Sou o homem mais feliz que caminha sobre a areia!"

O mensageiro, exultante, gritou: 

"Rápido! O Sultão precisa da sua camisa! Daremos a você uma bolsa de ouro em troca!"

O pastor começou a rir ainda mais alto, uma risada que ecoava pelas rochas. Ele abriu seu manto surrado e, para o espanto do mensageiro, por baixo dele não havia nada. O homem mais feliz do reino era tão pobre que sequer possuía uma camisa.

Ao receber a notícia, o Sultão Harun finalmente compreendeu. A felicidade não era algo que se pudesse vestir ou comprar; ela não estava nas sedas, mas na ausência de desejos desnecessários. 

Ele distribuiu parte de sua riqueza aos necessitados e, pela primeira vez em anos, sorriu de verdade.

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós entenderemos que a camisa da felicidade é feita de gratidão, não de fios de ouro. Obrigado por me acompanharem em mais esta jornada. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quarta-feira, 18 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 2. A Força do Amor

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e em As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra.

"Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece.

Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. 

No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um "sihr" (feitiço) cruel.

Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno.

Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". 

O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo.

Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão.

Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. 

"Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!"

Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. 

"Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu".

"Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece.


“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.
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O número 1 desta série pode ser acessada no link
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, artista plástico digital e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sábado, 14 de março de 2026

José Feldman (O Fantasma no Servidor)

Texto sobre a expressão “Navalha de Ockham”*

Fidelsino era analista de sistemas sênior e adorava teorias complexas. Quando o servidor principal da startup de tecnologia onde trabalhava começou a travar misteriosamente todas as terças-feiras às 14h, não pensou em falhas comuns.

Ele convocou a equipe. 

"Não é um bug simples!", explicou ele, ajustando os óculos. "O padrão das quedas é errático demais. Minha teoria é que sofremos uma invasão de hackers usando inteligência artificial quântica, que está garimpando dados criptografados apenas na área de segurança do servidor, criando um pico de energia que simula um erro de hardware."

A equipe ficou impressionada. Era uma teoria digna de um filme. Passaram dois dias vasculhando logs, comprando firewalls mais caros e isolando a rede principal. A ansiedade era alta. A "invasão de IA" parecia real, especialmente porque o servidor falhou na terça seguinte.

A gerente da empresa, Marina, mais pragmática, chamou Fidelsino no canto.

— Fidelsino, a sua teoria é genial, mas e se a causa for mais simples?

— Mas Marina, os dados mostram...

— Vamos olhar o óbvio — disse ela, caminhando até a sala dos servidores. — Quem tem acesso a esta sala na terça à tarde?

Ele conferiu o registro. 

— Só a equipe de manutenção de limpeza, às 13h50... Por que?

Marina observou o rack de servidores. A luz vermelha piscava no servidor principal. Ela notou algo na base que o cabo de energia principal estava folgado. Ao lado, havia uma tomada de parede com uma caixa de som grande, colocada ali pela equipe de limpeza, que tocava música, e cujo fio estava conectado à mesma tomada que vibrava o servidor.

— Fidelsino!— disse ela, empurrando o plugue do servidor para o fundo da tomada. — A "IA quântica" é a equipe de limpeza conectando a caixa de som, o que afrouxa o cabo do servidor principal, que já estava com o plugue desgastado. A vibração derruba a máquina.

Ele sentiu o rosto esquentar. O cabo frouxo era a resposta correta. A teoria da IA exigia hacks, criptografia e conspiradores. A realidade exigia apenas uma tomada nova.

A empresa parou de ter problemas na terça-feira.

Moral
"Entre duas explicações que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta." A Navalha de Ockham nos ensina que, diante de um problema, devemos eliminar as complicações desnecessárias antes de buscar soluções mirabolantes. Geralmente, a verdade não é uma conspiração complexa, mas algo que está bem diante dos nossos olhos.
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*A Navalha de Ockham, ou princípio da parcimônia, é uma ferramenta heurística da filosofia e ciência que sugere que entre hipóteses que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples (com menos suposições desnecessárias) costuma ser a correta. Criado por Guilherme de Ockham (séc. XIV), o método elimina complexidades desnecessárias para facilitar a verificação e compreensão de teorias. Ou seja, a explicação mais simples é preferível. Teorias simples são mais fáceis de testar e verificar. Não é uma regra absoluta de verdade, mas um guia de probabilidade; a explicação mais simples nem sempre é a verdadeira. O princípio busca a "economia intelectual", cortando suposições supérfluas (como uma navalha) para chegar à teoria mais elegante e plausível. (wikipedia)
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem: https://oftavision.com.mx/merida/

quinta-feira, 12 de março de 2026

José Feldman (O Tinteiro de Areia e o Visitante de Luz)


O casarão de Tomás cheirava a papel antigo e chá esquecido. Aos oitenta anos, o escritor era uma ilha cercada por um oceano de silêncio. Seus livros, outrora lidos, agora repousavam em estantes cobertas de pó, e a caneta tinteiro sobre a mesa parecia um monumento a uma era que já não lhe pertencia. Ele não esperava visitas, não desejava fama e, acima de tudo, não tinha mais aspirações.

Ele estava sentado em sua poltrona de couro puído, observando a poeira dançar em um raio de sol, quando notou alguém encostado na estante de clássicos. Não era um homem comum. A figura vestia uma túnica que parecia tecida com a névoa da manhã e seus olhos mudavam de cor conforme ele respirava.

— Você está atrasado para o chá, Tomás — disse o visitante, com uma voz que ressoava como o som de águas calmas.

Tomás não se assustou. A essa altura da vida, a fronteira entre o sonho e a vigília era uma linha tênue e borrada.

— Eu não fiz chá para dois — respondeu o velho escritor, sem se mexer. — E, se você é fruto da minha demência, espero que seja pelo menos um interlocutor interessante.

O estranho sorriu, e a sala pareceu aquecer dois graus.

— Alguns me chamam de anjo, outros de inspiração. Eu prefiro pensar que sou apenas alguém que veio lhe lembrar do que você esqueceu enquanto olhava para as suas derrotas.

— Vitórias e derrotas... — Tomás soltou um riso seco. — Palavras vazias para quem terminou a jornada sozinho. Eu escrevi milhões de palavras, e hoje elas não passam de alimento para traças. Minha vida foi uma sucessão de tentativas fracassadas de ser "grande".

O visitante caminhou até a mesa e tocou um dos manuscritos inacabados.

— Você persegue a "Grande Vitória", Tomás. Aquela que brilha como um farol, mas que é perigosa. Grandes triunfos são como acrobatas se equilibrando em um arame alto; um sopro de vaidade e tudo desmorona. O que você não vê são as pequenas vitórias.

— Pequenas vitórias não mudam o mundo — rebateu o velho, amargurado.

— É aí que você se engana — disse o anjo, aproximando-se. — Uma praia majestosa não é um bloco maciço de pedra. Ela é composta por bilhões de pequeninos grãos de areia. Cada frase que você escreveu, cada gesto de honestidade em seus textos, é um grão. Sozinho, parece insignificante. No conjunto, ele sustenta o peso do oceano.

— Ninguém lê o que eu escrevo — sussurrou o escritor. — Não tenho família, não tenho amigos. Sou um zero à esquerda na soma do universo.

O visitante colocou a mão sobre o ombro dele. O toque era leve, mas carregava uma autoridade milenar.

— Você acha que não significa nada? Neste exato momento, em uma cidade que você nunca visitou, um jovem está lendo um parágrafo que você escreveu há quarenta anos. Aquele parágrafo o impediu de desistir de si mesmo hoje. Você tem valor, Tomás. Um valor imenso para alguém que você nem sabe que existe. Você faz parte de um conjunto maior, uma tapeçaria onde cada fio, por mais escondido que esteja, segura a estrutura toda.

Tomás sentiu uma pontada no peito. Não era dor, era algo que ele não sentia há décadas: a percepção de pertencimento.

— Então... eu não estou sozinho?

— Nunca esteve. A sua reclusão é física, mas a sua alma está espalhada em cada mente que foi tocada pela sua verdade. Não despreze o pequeno. O eterno é feito de instantes miúdos.

O anjo começou a desvanecer, tornando-se novamente poeira dourada sob o raio de sol. Antes de sumir completamente, sua voz ecoou uma última vez:

— Escreva mais uma linha hoje, Tomás. Apenas uma. O grão de areia de hoje é o que manterá a praia de amanhã.

Tomás olhou para a caneta. Sua mão tremia, mas não de fraqueza. Ele a molhou no tinteiro e, no papel em branco, escreveu uma única frase sobre a luz. Ele não sabia se era realidade ou imaginação, mas pela primeira vez em anos, ele se sentiu em casa.

Moral: 
A verdadeira grandeza não reside em um único feito monumental, mas na soma das pequenas e silenciosas contribuições que, como grãos de areia, formam o solo onde outros caminharão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

segunda-feira, 9 de março de 2026

José Feldman (Sombras da Vida)


O bar de esquina, onde a luz pisca num tom âmbar cansado, estava vazio, exceto por uma mesa redonda ao fundo. Ali, quatro figuras se encaravam sobre copos de intensidades diferentes.

O Desânimo girava o gelo no copo com um dedo pálido. Ele usava um casaco cinza três tamanhos maior, como se o próprio tecido estivesse desistindo de manter a forma.

— Por que diabos nós marcamos isso? — resmungou ele, a voz arrastada como lixa em madeira velha. — O esforço de subir essa ladeira quase me convenceu a ficar deitado no meio do caminho.

A Alegria, que usava uma jaqueta amarela vibrante e parecia incapaz de piscar sem sorrir, deu um tapa sonoro na mesa, fazendo o gelo do Desânimo pular.

— Ora, Des, pare com isso! É o nosso encontro centenário! Olhe para este lugar, tem um charme... rústico! — Ela gesticulou para a parede descascada como se fosse uma obra no Louvre.

— É mofo, Alegria. É apenas mofo — rebateu a Solidão, que estava sentada um pouco mais afastada da borda da mesa. Ela usava um cachecol azul marinho que subia até o queixo e segurava uma taça de vinho tinto com uma elegância silenciosa. — Mas o mofo tem o seu valor. Ele não exige companhia para crescer.

— Mas nós exigimos! — interveio a Esperança, que tinha olhos que pareciam refletir uma luz que não vinha de nenhuma lâmpada do bar. Ela segurava uma xícara de café quente, o vapor subindo como uma promessa. — Se não nos encontrarmos de vez em quando, os humanos lá fora perdem o equilíbrio. Se um de nós domina a mesa por muito tempo, a história deles vira um rascunho mal escrito.

O Desânimo soltou um suspiro profundo, daqueles que parecem esvaziar os pulmões de toda a cidade.

— Eles já estão exaustos, Esperança. Você vende um produto que eles não podem pagar. Ontem, um rapaz olhou para o currículo e depois para o teto por quatro horas. Eu sentei no colo dele. Foi confortável. Nós dois apenas... fomos.

— E por que você não me deixou entrar? — perguntou a Alegria, inclinando-se para frente, os brincos balançando. — Eu estava logo ali, na notificação de um vídeo de gato que um amigo mandou pra ele! Eu tentei, juro que tentei!

— Ele não precisava de um vídeo de gato — disse a Solidão, com a voz suave e profunda. — Ele precisava de mim. Precisava entender que o silêncio do quarto não era um inimigo, mas um espelho. Eu estava lá, no canto, esperando ele parar de lutar contra o vazio. Mas o Desânimo é ganancioso, ele se deita em cima das pessoas e não deixa espaço nem para o meu silêncio.

A Esperança tocou o braço da Solidão.

— Você é necessária, Sol. Mas ele precisa saber que o espelho que você segura não é o fim da estrada. — Ela se virou para o Desânimo. — E você... você é um descanso que insiste em virar residência. Isso não é justo.

— Justiça é uma palavra muito pesada para uma terça-feira — retrucou o Desânimo. — Eu só dou o que eles pedem: o direito de não sentir nada. Sentir dói. A Alegria cansa, a Solidão corta, e você, Esperança... você é a mais cruel. Você faz eles correrem maratonas com as pernas quebradas.

A mesa ficou em silêncio por um momento. O garçom, um homem que parecia ser a personificação da Paciência, trouxe mais uma rodada.

— Eu não sou cruel — disse a Esperança, a voz baixa mas firme. — Eu sou a única razão pela qual eles remendam as pernas. Eu sou o "talvez" que impede o ponto final.

A Alegria deu um gole no seu drink colorido.

— Eu acho que vocês pensam demais. Sabe o que eu fiz hoje? Uma senhora achou uma nota de dez reais no bolso de um casaco de inverno. Foi um brilho puro! Três segundos de "uau!". Foi simples, foi leve. Por que tudo tem que ser uma tragédia existencial com vocês?

— Porque dez reais não pagam o aluguel da alma, Alegria — disse a Solidão, voltando seu olhar para a janela escura. — Eles me buscam quando os dez reais acabam. Eles me buscam quando você vai embora e deixa aquele eco barulhento na sala de estar.

— Eu não deixo eco! — protestou a Alegria, ofendida.

— Deixa sim — confirmou o Desânimo. — Depois que você sai da festa, eu entro com o pé na porta. O contraste é o meu melhor marketing.

A Esperança levantou sua xícara, brindando ao nada.

— O segredo é que nenhum de nós ganha a discussão. Desânimo, você dá o repouso que vira tédio. Solidão, você dá a profundidade que vira abismo. Alegria, você dá o brilho que vira saudade. E eu... eu dou o caminho que, às vezes, não tem mapa.

— E o que fazemos agora? — perguntou o Desânimo, fechando os olhos, quase cochilando.

— O de sempre — sorriu a Alegria, levantando-se e ajeitando a jaqueta. — Vamos lá fora. Tem um show de comédia ruim começando em dois quarteirões, um término de namoro acontecendo num banco de praça e um artista plástico começando uma tela em branco.

— Eu vou para o banco da praça — disse a Solidão, levantando-se com graça. — O rapaz vai precisar de um tempo comigo antes de procurar a Esperança.

— Eu vou com o artista — anunciou a Esperança. — Ele está achando que não tem talento. É o meu momento favorito para sussurrar.

— E você, Des? — perguntou a Alegria, puxando-o pela manga do casaco imenso.

O Desânimo bocejou, esticando os braços.

— Vou para o show de comédia. Alguém tem que garantir que as piadas não tenham graça nenhuma para o cara da terceira fila que acabou de perder o emprego.

Eles saíram juntos do bar. 

Na calçada, as luzes da cidade brilhavam sobre as poças de chuva. Por um breve segundo, antes de seguirem em direções opostas, as quatro sombras se misturaram no asfalto, formando uma única silhueta humana, complexa, confusa e terrivelmente viva.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sábado, 7 de março de 2026

José Feldman (O Pincel da Agonia e o Toque do Amanhã)


A praça nunca parecia ensolarada para Jaime, mesmo sob o meio-dia de verão. Para ele, a luz era apenas um fator que definia a nitidez das sombras. Sentado diante de seu cavalete descascado, ele movia o pincel com uma precisão gélida. A tela exibia um quarto escuro, onde as pinceladas de cinza e preto pareciam pulsar como hematomas.

Ele era um homem de pedra. O rosto, sulcado por rugas prematuras, jamais havia conhecido a elasticidade de um sorriso em trinta anos. Desde os quinze, quando o som do mundo se resumiu ao estalo do cinto de seu pai e aos gritos agudos de sua mãe que, em uma noite de tempestade e álcool, silenciaram-se para sempre, Arthur morava naquele quarto escuro da memória.

— Por que você usa tanta tinta preta? O azul do céu hoje está tão bonito.

A voz era fina, como o toque de um sino de vento. Jaime não desviou os olhos da tela.

— O céu não é azul, menina — respondeu ele, a voz rouca pelo desuso. — É apenas um vácuo que espera a noite chegar.

Uma garotinha, de no máximo nove anos, com um vestido cor de pêssego e olhos que pareciam guardar todo o brilho que Jaime havia perdido, inclinou a cabeça para o lado, observando a pintura.

— Mas esse quadro... ele dá vontade de chorar — disse ela, sem medo. — Por que você desenha a dor?

Ele finalmente parou o pincel, olhou para as mãos pequenas da menina e depois para o rosto dela.

— Eu desenho o que sobrou de mim. Quando eu era da sua idade, o mundo parou de ter cores. Meu pai chegava com o cheiro do inferno nas roupas e as mãos pesadas. Eu ouvia minha mãe gritar... e eu não podia fazer nada. Até que um dia, o silêncio dela se tornou o meu silêncio. Entende agora? Não há alegria em pincéis que viram o que eu vi.

A menina não recuou. Em vez disso, ela deu um passo à frente e, com uma audácia que gelou o sangue de Jaime, segurou a mão dele — a mão que segurava o pincel. A palma dela era quente, uma temperatura que ele não sentia há décadas.

— O senhor está olhando para dentro do quarto escuro de novo — disse ela suavemente. — Mas a porta está aberta. Venha ver.

— Não há nada para ver, criança.

— Tem sim. Venha.

Ela o puxou. Contra toda a sua vontade de ferro, ele se levantou. O cavalete ficou para trás, com sua tragédia em óleo ainda fresca. A menina o levou até o centro da praça, onde um ipê amarelo explodia em flores.

— Olhe para cima, senhor Pintor — ela apontou. — Veja como o sol atravessa as pétalas. Elas parecem feitas de luz, não de planta. E ouça... aquele passarinho não está preocupado com o ontem. Ele só sabe que hoje tem vento para voar.

Ele tentou desviar o olhar, mas a menina segurou seu rosto com as duas mãos pequenas.

— O senhor guarda os gritos daquela noite, mas esqueceu de ouvir o riso das crianças aqui no parque. O senhor guarda o sangue da sua mãe, mas esqueceu que ela amava o perfume das flores, não amava?

As defesas de Jaime começaram a rachar. Uma imagem dele, bem pequeno, entregando uma flor amassada para a mãe enquanto ela sorria escondendo um roxo no braço, atravessou sua mente como um relâmpago.

— Ela... ela gostava de margaridas — sussurrou ele.

— Então por que o senhor só pinta o escuro? Se o senhor pintar o que ela amava, ela estará viva no seu quadro, e não morta no chão daquele quarto.

O impacto das palavras foi como um dique rompendo. Ele caiu de joelhos no asfalto quente da praça. O choro, represado por trinta anos de orgulho e dor, irrompeu em soluços que sacudiram seus ombros largos. Ele chorou pela mãe e pelo menino que foi quebrado.

A menina permaneceu ali, a mãozinha em seu ombro, firme como uma âncora.

Minutos depois, ele limpou o rosto com a manga da camisa. Quando levantou a cabeça e olhou para a garotinha, algo milagroso aconteceu. Os cantos de sua boca, atrofiados pela tristeza, moveram-se. Primeiro com hesitação, depois com entrega. Jaime sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno, que iluminou seus olhos pela primeira vez desde a adolescência.

— Obrigado — ele disse, a voz agora mais leve. — Eu... eu acho que vou comprar tinta amarela amanhã. Como você se chama, pequena?

A menina sorriu de volta, um brilho quase sobrenatural emanando de seu rosto, e começou a caminhar em direção à luz do sol que inundava o outro lado da praça. Antes de sumir entre as pessoas, ela olhou para trás e respondeu:

— Meu nome é Esperança.

Moral: 
A dor do passado pode cegar nossos olhos para as cores do presente, mas enquanto houver um sopro de esperança, sempre haverá tempo para trocar o pincel da agonia pelas tintas do recomeço.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quinta-feira, 5 de março de 2026

José Feldman (O Trono de Vidro de Arthur)

Texto sobre a expressão "Espada de Damocles"*

Arthur sempre foi um adorador da velocidade. Aos 32 anos, tornou-se CEO da NeoTech, uma startup de inteligência artificial que valia milhões. Ele vivia em uma cobertura triplex, comia nos restaurantes mais caros e viajava de jato particular.

Seu amigo de infância, Marcos, um professor universitário com uma vida pacata, costumava dizer, com certa inveja velada: "Cara, você zerou a vida. Não tem um problema na sua mesa. É só prazer e poder."

Arthur ria. 

"Poder tem seu preço, Marcos. Mas honestamente? Vale a pena."

A "NeoTech" lançou um software revolucionário, mas que lidava com dados sensíveis de forma limítrofe. Arthur sabia que se algo desse errado, o processo seria devastador. Mas o sucesso era tão alto, a bajulação de investidores tão constante, que ele se sentia intocável.

Uma noite, durante um banquete de comemoração da fusão da empresa, Arthur convidou Marcos para a sua cobertura. Enquanto bebiam champanhe caro, Arthur recebeu uma notificação no celular: uma denúncia anônima na agência de regulação e um grupo de hackers ameaçando expor os dados. Era a "espada".

Arthur empalideceu. A mesa estava farta, a música ambiente era relaxante, e ele estava no auge financeiro. Porém, ele sentiu um suor frio na nuca. O fio era invisível: um único erro jurídico, uma quebra de sigilo, e tudo — fortuna, reputação, liberdade — cairia sobre sua cabeça.

Ele olhou para Marcos e disse: "Sabe, Marcos, eu passo meus dias fingindo que sou um rei, mas vivo sob uma espada invisível. Cada curtida, cada contrato assinado, é um centímetro a mais que o fio se desgasta."

Naquela noite, sentado à mesa de jantar, Arthur não conseguiu comer. A ansiedade era um peso no peito. O poder, ele percebeu, não era o prazer de ter; era o medo constante de perder.

Moral: 
A "Espada de Damocles" moderna é a ansiedade que acompanha o poder e a riqueza extrema. Muitas vezes invejamos o sucesso alheio, sem enxergar os riscos iminentes e a falta de paz que sustentam quem está no topo. Viver sem medo é mais valioso do que ter tudo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sábado, 14 de fevereiro de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 1. Entre o ódio e o perdão


“Salaam' Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus jovens amigos de alma nova e antiga. Aproximem-se, não tenham pressa, pois o tempo é um rio que corre, mas aqui, sob o dossel de estrelas de Bagdá, nós aprendemos a nadar contra a corrente.

Eu sou Mustafá, o peregrino. Olhem para estas mãos: elas estão sulcadas como o leito seco de um "wadi" (rio), cada linha uma estrada que percorri. Por mais de cinquenta anos, minhas sandálias beijaram a areia ardente do Saara, as pedras frias das montanhas do Cáucaso e o barro fértil das margens do Nilo. Fui um "musafir" (viajante) por destino e um colecionador por vocação.

Enquanto outros mercadores enchiam seus alforjes com ouro, seda ou mirra, eu buscava algo que os ladrões não podiam roubar: as histórias. Ouvi lendas sussurradas por beduínos ao redor de brasas moribundas e decifrei parábolas escondidas nos mercados de Damasco e nas bibliotecas de Alexandria. Vivi aventuras que fariam o coração do mais bravo guerreiro palpitar como o de um passarinho, e cometi erros que me ensinaram mais do que mil livros.

Agora, "alhamdulillah" (Louvado seja Deus), meus pés pedem repouso, mas minha voz ainda anseia por voar. Aqui, nestas almofadas gastas no coração de Bagdá, entre o cheiro do sândalo e o aroma do café com cardamomo, eu abro o baú da minha memória.

Deixem que o barulho do mercado se apague e que as minhas palavras pintem o ar. Pois uma história não é apenas entretenimento; é um espelho onde a alma se vê por inteiro.

Acomodem-se sobre as almofadas, pois a noite é longa e a lua de prata hoje testemunha uma história que guardo no fundo do meu alforje. Trago comigo a poeira de mil estradas e o eco de mil vozes.

"Bismillah" (Em nome de Deus), iniciamos este relato sobre o peso que carregamos nos ombros e a leveza que só o perdão pode trazer.

Nas terras de Omã, vivia um homem chamado Omar, cuja riqueza era superada apenas por seu orgulho. Ele tinha um filho, o jovem Karim, o pupilo de seus olhos. 

Em uma tarde de mercado, uma discussão fútil por causa de uma dívida de poucos dinares escalou para uma tragédia. Um jovem estrangeiro, num momento de desespero e cego de raiva, empurrou Karim, que caiu e bateu a cabeça contra uma pedra. 

O filho de Omar não despertou mais.

O estrangeiro, apavorado, fugiu para o deserto. Omar, consumido por um fogo negro, jurou: "Wallahi" (Eu juro por Deus), não descansarei até que o sangue desse homem lave a terra que meu filho pisou.

Anos se passaram. Omar tornou-se um homem amargo, caçando sombras. 

Certa noite, uma tempestade de areia terrível açoitou sua tenda. Alguém bateu à porta implorando por hospitalidade. Seguindo a lei sagrada do deserto, Omar abriu a porta e acolheu o viajante exausto, dando-lhe tâmaras e água fresca.

Enquanto o estranho dormia, a luz da lamparina revelou uma cicatriz no braço do hóspede. Omar reconheceu o homem que tirara a vida de seu filho. A mão de Omar voou para o punhal. "Ya Allah" (Ó Deus), sussurrou ele, "a vingança está em minhas mãos."

Mas, ao olhar para o rosto cansado do homem, ele viu não um monstro, mas um ser humano que também fora devorado pela culpa durante anos. Omar lembrou-se das palavras de seu próprio pai: "O perdão é a fragrância que a violeta deixa no calcanhar que a esmagou."

Na manhã seguinte, antes que o sol queimasse o horizonte, Omar acordou o homem. "Sabah al-Khair" (Bom dia), disse ele com uma voz que parecia vir de uma montanha. O estrangeiro, ao reconhecer Omar, caiu de joelhos, esperando o golpe fatal.

Em vez disso, Omar entregou-lhe as rédeas de seu melhor camelo e uma bolsa de ouro. 

"Tome", disse Omar. "Ontem eu era um prisioneiro do seu erro. Hoje, ao te perdoar, eu quebro minhas próprias correntes. Vá em paz, pois a justiça pertence ao Altíssimo."

O homem chorou e partiu, mas o peso que saiu do coração de Omar foi maior do que todo o ouro do deserto.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a paz que o perdão traz é o único oásis que nunca seca. 

"Shukran" (Obrigado) pela vossa atenção. Que vossos corações sejam sempre mais leves que vossas sandálias. “As-salaam 'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos (de sua autoria) e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).


Fontes;
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing