Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 29 de junho de 2018

José Feldman (Álbum de Trovas) 26


Joaquim de Melo Freitas (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa vol. 5) II


IMPRECAÇÃO

Para que te amava eu? Corpo d'espuma
Cruel enlevo de lábios cetinosos
Onde bailam desejos luminosos
Estrela, que de luz o céu perfuma.

Para que te amava eu? Que densa bruma
Me ofusca de saudade em tons nervosos
Desfolhando com gritos lacrimosos
As pétalas d'amor uma por uma?

Para que te amava eu? oh! praza aos céus
Que em quanto o sol girar pelo universo
Naufragues da paixão nos escarcéus.

E porque sofro na tristeza imerso,
Pálido goivo ao pé dos mausoléus,
Oxalá que o amor te seja adverso!

O TERREMOTO

Com fragor açoitando a vaga escura,
O temporal irado, espumarento
Cavalga um pérfido corcel - o vento -
Que solta gargalhadas de bravura.

Treme a terra, e com hórrida figura,
Como Atlante, sacode o turvo argento;
Nos gonzos oscilando o pavimento,
Dançam torres no assomo da loucura.

Vai o fogo alastrando o áureo manto,
As ruínas trucidam fugitivos,
Que sangrentos se abraçam convulsivos!

– O que fazer? – inquire o rei em pranto,
O ministro lhe diz com nobre espanto:
– “Sepultar mortos, e cuidar dos vivos.”

ENTRE PALMEIRAS

Faíscam os jaezes dos Cavalos,
Vibra o som dos clarins pela atmosfera;
No dorso de elefantes reverbera
A seda e prata em crebros intervalos.

Rodeado de inúmeros vassalos
Intrépido rajá de cor austera
Busca o tigre e leão, onça e pantera
Cruzando as selvas, e galgando os vales.

No cerrado paul ondula a brenha
E um leão de medonha, hirsuta juba
Em furioso valor se desentranha.

A raiva dos lebréus o estimula,
Os dardos o trespassam, mas derruba
O radjah, que nas vascas estrangula.

NOSTALGIA

Nos estuários alpestres do Brasil,
Onde o sol inflamado resplandece,
A cabilda dos negros desfalece
Sob o látego torpe e mercantil.

Nas areias matiza-se febril
O ouro virgem, e no 'spaço permanece
O diamante, que arisco se aborrece
Entre o cascalho estúpido, imbecil.

O escravo, quando avista um diamante
De dezessete "carates" quebra forro
As algemas sorrindo triunfante.

Que me valeu porém o descobrir-te
Diamante sem rival? – Suspiro e morro
A teus pés almejando possuir-te.

BOLETIM MILITAR

Vai rir-se desdenhosa a sombra de "Pombal"!
Era doida a rainha. O príncipe regente
Ostentando gentil a bochecha eloquente
Tinha bom apetite e ventre clerical,

Mas logo que Junot açaima Portugal
Embarca a toda a pressa e deixa a nossa gente,
Panda vela o conduz ao Brasil florescente,
E rápido imagina um plano teatral.

Veloz como no monte a trepida gazela,
É certo resguardava a insipida pessoa
Adiposa e feliz para cingir a c'roa,

E da nação em prol tão lorpa se revela,
Que nomeia coronel do exercito á cautela
O Santo Taumaturgo Antônio de Lisboa.

TABORDA

Taborda, altivo herói da gargalhada,
Que dominas no palco com bravura,
Quando vier sobre ti a morte escura,
Há de sentir-se humilde, deslumbrada.

E rindo a vez primeira entusiasmada,
Desfranzindo a medonha catadura,
Ao ver-te e ouvir-te em alegria pura,
Despedaça a fera clava ensanguentada.

Como subjugas cauto a morte ingrata,
Vences também risonho a dúctil alma
D'esta multidão gélida, pacata.

E Satan abismado diz em calma:
– Sim?!... Mais almas do que eu ele arrebata?
Já Diabo não sou!... Leva-me a palma. 

Fonte:
Joaquim de Melo Freitas. Garatujas. 
Aveiro/Portugal: Imprensa Commercial, 1883

Florbela Espanca (Os Mortos não Voltam)


— Tenho a certeza de que os mortos não voltam.

O velho e simpático Dr. X, quebrando o silêncio em que se tinha emparedado toda a noite, fez esta estranha afirmação num tom tão peremptório, com uma tal firmeza de acentuação, com uma tão grande autoridade, que a sua frase, balde de água gelada na exaltação do grupo, fechou a discussão como por encanto.

— Os mortos não voltam — repetiu.

Todos os olhares convergiram para ele. Impassível, eixo da curiosidade geral, puxou mais a cadeira para o vão da janela aberta de par em par sobre a noite cálida e estrelada de Agosto. Sacudiu a cinza do cigarro, aspirou uma lufada de ar carregado dos -aromas dispersos do jardim e do mar, e continuou tranquilamente:

— Eu explico a minha afirmação... e o tom em que a proferi — acrescentou, com um dos seus belos sorrisos, de cujo encanto tinha o segredo e que eram talvez a mais clara explicação dos seus repetidos triunfos na vida. — Se a nossa discussão, meus senhores, não é uma discussão ociosa, o que é muito provável, se semelhante coisa pode entrar tanto quanto possível no domínio dos fatos experimentais, se tudo isto que acabamos de dizer não é metafísica pura, a minha afirmação de há pouco tem valor, e eu vou dar-lhes a sua explicação. A minha certeza é o fruto de uma experiência que o acaso preparou magistralmente, numa época em que estes problemas apaixonavam os intelectuais, problemas que deram origem aos soberbos trabalhos de Gurnay, primeiro, e, logo a seguir, de Crooks, Lodge, com o seu célebre Raymond, trabalhos que suscitaram todas as curiosidades no mundo pensante. Nessa época, já relativamente afastada e por assim dizer ainda de ontem, que a época trepidante dos sem-fios e dos aviões destronou, não se falava noutra coisa: alucinações telepáticas, visões, lucidez, pressentimentos, aparições objetivas, etc., fenômenos ocultos, misteriosos, discutidos entre a zombaria e a incredulidade de uns e a credulidade medrosa de outros — eis o assunto de toda a conversação de uma ordem mais elevada ou com pretensões a tal. Eu lia tudo quanto se publicava sobre o caso, e hesitante, balançado entre a dúvida e a certeza, intuitivamente crédulo e refletidamente descrente, preso deste indefinido mal-estar que nos avassala perante os fatos desconhecidos, fora do nosso conhecimento imediato, não conseguia firmar uma opinião, ver esboçar-se o prelúdio de uma vaga certeza.

« Até que um dia, ou antes uma noite, o meu espírito sossegou, apoiado a uma absoluta convicção que os fatos até hoje não vieram desmentir.

« Não, meus senhores, os mortos não voltam. Nada faltou à preparação da magistral experiência que o acaso me fez presenciar: campo experimental, cenário, ambiente particular, emoção elevadíssima, tudo! E, nessa noite, depois das rápidas parcelas de segundo de um voo para além dos limites do consciente, a alma pousou de novo no domínio da vida material sem ter visto, sem ter sentido nada.

O Dr. X. fez uma pausa, olhou a noite repleta de estrelas, e pareceu escutar a voz soturna das ondas, rezando o seu cantochão de eterna ansiedade.

— Foi em casa da Senhora L. — principiou ele.

— Você conhece, Veiga — disse, voltando-se para um rapaz alto e loiro, de monóculo —, a deliciosa velhinha que possui, num cenário de maravilha, le dernier salon ou l’on cause. Faz agora anos por estes dias. Festejava-se num jantar íntimo a saída, do colégio, da neta, a endiabrada garota que hoje é mãe não sei já de quantos taludos bebês. Estávamos todos no terraço, depois de jantar, naquele lindo terraço todo em mármore cor-de-rosa, janela escancarada sobre o mar, que parece ter sido idealizado por um paxá das Mil e Uma Noites. Estava eu, a dona da casa, Madame V., os dois irmãos Grey, o Ravara de Melo e aquela linda rapariga que o ano passado professou num convento de Segóvia e que você também conheceu muito bem, Lídia de Vasconcelos. Lembro-me como se o caso se tivesse passado ontem. Não sei que poder evocador se desprende desta noite, da melopeia destas ondas, que misteriosos eflúvios traz consigo o ar que entra por esta janela aberta, o certo é que preciso fazer um esforço para me convencer que isto não se passou ontem, que tantos anos não dispersaram já toda esta gente que evoco. Influência do cenário igual, da noite igual da discussão, talvez...

« Os Estoris enchiam-se de pontos luminosos; o céu, de estrelas miudinhas. O Monte lembrava um presépio, como agora, sobre o mar a escurecer, a preparar o mistério das suas bodas com a Lua que vai surgir toda de branco.

« Discutia-se um caso de telepatia narrado pelo mais novo dos Grey, aquele místico Robert de uma psicologia tão curiosa. Tinha visto, segundo ele dizia, a mãe entrar no seu quarto, depois de ter atravessado um comprido corredor que levava diretamente à alcova onde meses antes expirara. O caso levantou, como calculam, enorme celeuma. Na mesa ninguém se entendia; falavam todos a um tempo, faziam-se comentários, cada um expunha a sua opinião, contava um caso da sua vida. Houve risos, blagues, e, quando saímos para o terraço, deixando os dançarinos no salão, o Robert continuava, impassível, a garantir a autenticidade da sua história, e nós todos engalfinhados a discuti-la.

« Parece-me estar ouvindo o Ravara de Melo, o cético elegante, rir com os seus espirituosíssimos paradoxos a escultural Madame V., aquela loira Madame V. de quem a Lila dizia que trazia a arder na cabeça todas as fogueiras de S. João, o tom de máscula impassibilidade do Robert afirmando, a voz já apagada e tão doce da Senhora L.

O Dr. X. interrompeu o que estava a dizer para acender outro cigarro, rito praticado sempre com um raro deleite de sibarita, precursor do raro prazer de se intoxicar, operação que levava a cabo metodicamente, desde os Paxás da sua adolescência até aos preciosos Abdulas de agora.

— Que linda noite! — murmurou, como se falasse consigo próprio, e, em voz alta, continuando:

— Era uma noite assim; a pouco e pouco fomos adoçando as vozes para não quebrar a harmonia da hora, daquela hora de uma sobrenatural e mágica beleza que todos nós sentimos ser uma pausa na nossa vida brutal, um momento digno de deuses na nossa feia vida de homens, uma hora feita de envolventes bruxedos, tão pesada de perfumes, tão embebida de doçura que, maquinalmente, as mãos quase esboçavam o gesto de se estender para agarrar a hora maravilhosa que sentíamos fugidia e já perdida nos momentos que passam. O riso de Madame V., num dado momento, quase nos chocou como uma falta de tato, uma inconveniência, como se ela se lembrasse de aparecer nua diante de nós todos.

De repente, elevou-se no salão a voz da Lila cantando a Balada do Rei de Tule-. Houve outrora um rei em Tule...

« A voz profunda e pastosa entrava na noite como um punhal numa ferida: dilacerava-a. A pungente melodia fez-me subir as lágrimas aos olhos, e ao coração uma turba de recordações que eu julgava perdidas no mar da vida como a taça lendária sobre as águas do mar.

« Calamos-nos todos, a ouvir. O ruído das ondas acompanhava em surdina a voz maravilhosa que subia e se espalhava na noite, que parecia concentrar-se e compreender como uma alma. Julguei naquele momento ouvir um soluço abafado, como se uma onda se tivesse quebrado ali mais perto de nós; voltei-me negligentemente como para pousar o cigarro numa mesinha que estava atrás de mim; não vi ninguém, a não ser a Lídia de Vasconcelos que tranquilamente mordiscava um cravo branco. Quando a voz se calou no arrastar dos últimos versos:

E a taça lá vai boiando
Por sobre as águas do mar...

Fez-se um silêncio que nenhum de nós ousava ser o primeiro a quebrar. Sobressaltou-nos, numa impressão desagradável, a voz roufenha, monótona, do Robert, que num tom perentório, num tom todo britânico, teimosamente preso à sua ideia, reatava o fio da discussão interrompida: “Os mortos voltam.”

« A doce Senhora L. não pôde conter um sorriso. Aquele sorriso, naquela ocasião, vinha sublinhar a sua opinião sobre os Ingleses, opinião que eu conhecia e que achava de uma injustiça flagrante; mas vão lá convencer as mulheres da injustiça de uma opinião que elas criaram sozinhas!

« A discussão acendeu-se outra vez. Ravara deitou novamente fogo às peças de artifício do seu espírito brilhante. O riso de Madame V. ecoou mais cristalino na noite pura...

« Foi então que, de novo, chegou aos meus ouvidos o eco abafado de um soluço. Não havia dúvida, tinha sido um soluço. Voltei-me rapidamente. A Lila continuava a mordiscar o seu cravo branco, mas, olhando-lhe as mãos, compreendi tudo num relance: tremiam como as asas de uma avezinha presa.

« O coração apertou-se-me cheio de uma imensa piedade por aquele tristíssimo destino da rapariga. “Vocês sabem a história... talvez”, disse ele voltando-se para o grupo que o escutava, e, a um sinal negativo do rapaz de monóculo: “Não? A Lídia estava noiva de um seu camarada, Álvaro Bacelar”, disse ele a um oficial da Armada que o ouvia, com uma grande atenção, de pé, encostado ao peitoril da janela; “não, você não pode lembrar-se; isto passou-se há anos, ainda você não tinha entrado sequer na Naval; de um seu camarada que morreu, vítima de um desastre no mar, oito dias antes do marcado para o casamento. O cadáver, apesar de incansáveis pesquisas, nunca mais apareceu. Era um esplêndido rapaz, dotado das mais fortes e sérias qualidades, de uma beleza viril que se impunha.

Lembro-me muito bem da cara dele, principalmente dos olhos; tinha um olhar duro, um estranho olhar que nos penetrava como uma verruma, que afirmava, que insistia; mas, quando nos pressentia o vago mal-estar de uma alma que se sente vasculhada, adivinhada até aos seus mais recônditos esconderijos, o olhar mágico dulcificava-se, aveludava-se, transformava-se na suavidade de um olhar quase feminino, lânguido e caricioso. Era realmente um belo rapaz. Lembro-me muito bem dele e da tragédia da sua morte. Nos primeiros dias houve sérios receios de que a noiva enlouquecesse. Eu fui vê-la nessa ocasião; depois, esteve numa casa de saúde na Alemanha, viajou pelo Oriente, foi a Jerusalém. 

Voltou, passados dois ou três anos, curada, segundo parecia. Reatou os seus hábitos interrompidos, viram-na de novo, mais linda do que nunca, os salões mais chiques da capital, e começaram, é claro, a fazer-lhe a corte. Nova, bonita, rica, porque não? O mundo é dos vivos, os mortos têm o seu à parte. Era natural que a pobre rapariga esquecesse, fizesse por viver, tentasse de novo fundar um lar, desejasse filhos, não é verdade? As mãos geladas de um cadáver não têm o direito de prender eternamente o coração de uma rapariga de vinte anos que crê na vida, mas as decepções, na turba cada vez mais numerosa dos pretendentes, foram-se multiplicando; Lídia de Vasconcelos atendia benevolamente todos, mas não se decidia a escolher nenhum. Vocês compreendem, um morto é um temível rival, um competidor seriíssimo que tem por si as mil vantagens que a ausência e a saudade lhe emprestam. A morte é o Reutlinger das recordações; na objetiva do coração foca-as para sempre em beleza imutável e única. Quando, naquela noite, lhe vi tremer as mãos pequeninas que, num jeito cheio de ansiedade, seguravam o cravo branco, quando a vi olhar num olhar de inexprimível desalento aquele mar, mortalha imensa de um ente que para todos era há muito apenas uma recordação diluída e que para ela era a única realidade existente, tive a impressão nítida de que o seu único, o seu obcecante desejo, naquela ocasião, seria o impossível prodígio de poder erguer, com as suas mãozinhas que tremiam, a ponta daquela mortalha, a dobra daquele grande lençol, e contemplar um minuto, um só minuto, os olhos estranhos, inolvidáveis, do morto. Senti que aquelas mãos só tinham forças para pedir ao destino aquela esmola. O seu vestido de rendas prateadas, na claridade leitosa da Lua, que se elevava acima das ondas, vestia-a de espuma a faiscar. O grande diamante do seu anel de noivado parecia grande e pesado de mais para o seu dedo miudinho e frágil de bebé. Naquele terraço, quase às escuras, fez-me pensar numa imaterial aparição; parecia mais uma onda que tivesse galgado o terraço e que se imobilizasse na expectativa de um prodigioso e inefável milagre.” A voz aguda e trocista de Madame V., respondendo à frase do Robert, sobressaltou-me como uma pessoa que, no melhor do seu sono, é acordada brutalmente para a realidade da vida. 

“Oh Robert, que candura a sua! Estes Ingleses!. .. Você teve muito simplesmente uma má digestão, coisa que acontece a muita gente. Será você sonâmbulo?”, acrescentou a rir. Robert abanou gravemente a cabeça, o irmão sorriu com o seu frio, com o seu cortante sorriso saxônico. Vocês não podem fazer uma ideia: nunca vi sorrir um inglês, que não ficasse irritado. Aqueles sorrisos nus e ao mesmo tempo complicados, onde parece não haver nada e onde se adivinha tanta coisa, espicaçam-me como um aguilhão. Ia para responder; não tive tempo. A voz da Senhora L., que naquele momento se elevou, foi um unguento, um calmante no prurido da minha cólera absurda; serenou-me como por magia. Ela dizia, abanando tristemente a cabeça branca, que parecia de prata ao luar: “Não, Robert, os mortos não voltam e é melhor que assim seja... Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica e ri e canta e deseja e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmo, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços, criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma miséria, é, mas é assim!” « A voz da Senhora L. perdeu-se num murmúrio, casada ao murmúrio surdo das ondas, lambendo os rochedos da praia. No salão dançava-se animadamente um charleston em voga. Foi então que, na noite pura, na noite silenciosa talhada em horas de imperecível beleza, estalou o grito sobre-humano, o grito que, passados tantos anos, trago ainda nos ouvidos, que foi como que o comentário à margem de todas as minhas dúvidas e incertezas, que consubstanciou em si, no arrastar das suas notas trágicas, a resposta às minhas interrogações em frente ao formidável mistério da morte. 

Lídia de Vasconcelos tinha-se erguido na cadeira e, voltada para o mar, lívida, irreconhecível, estendera os braços, e soltara num grito, como um arranco, como um desgarrar de fibras, o nome querido: “João!”

« Àquele brado de angústia, àquele chamamento, àquele apelo desesperado, a própria noite se enrodilhou cheia de medo e de assombro e todos nos entreolhamos à espera que das ondas surgisse o morto, novo Lázaro a um novo Surge et ambula. Foi um segundo de emoção como nunca tinha vivido, como nunca mais poderei viver. Foi um momento. Lídia tornou a cair na sua cadeira como um triste farrapinho branco, numa crise de soluços que a sufocava; todos se levantaram para a socorrer. Eu fiquei a olhar para o mar, o mar impiedoso que guardava a sua presa, que se espreguiçava molemente como uma fera que tem sono. Não, meus senhores, os mortos não voltam. Se voltassem, haveria um que naquela noite teria voltado, quando o chamaram.

O Dr. X. calou-se. Atirou para o jardim o cigarro meio consumido, e ficou pensativo, a olhar o mar, com os olhos rasos de água.

Fonte:
Florbela Espanca. Marcas do destino. 1931. (publicação póstuma)

quinta-feira, 28 de junho de 2018

UBT Curitiba homenageia Vânia Ennes

Vânia Ennes (ao lado) homenageada pela UBT - Seção de Curitiba. Idealizada e realizada por Maria da Graça Stinglin de Araújo, ex-presidente da UBT - Seção de Curitiba, ocorrido na Biblioteca Pública do Paraná, em abril de 2018.

Veja o vídeo no link abaixo:


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Pedro Du Bois (Poemas Escolhidos) I


QUANDO NECESSÁRIO

Plácido
cordato
sorridente

essa a face

ágil
vigoroso
rude

a outra face

na dupla face
o homem de sempre

na quietude
dos movimentos.

GIBIS

Peixes conversam
em bolhas
sob a água

ideia original
das revistas
em quadrinhos.

MALES

Não faço o mal
ignoro proibições

sociológicas

desfaço o mal
feito em proibições

políticas

esqueço o mal
passo ao largo

caótico

abdico de todo o mal
                    anterior.

LEMBRANÇAS

Palavra
lembrança

música
lembrança

gesto
lembrança

olhar
lembrança

sobre a paisagem vista
emergem lembranças
das passagens anteriores

viajo.

GUARNECER

Guarnece o silêncio
nenhuma palavra será dita

olhos fechados
nenhuma claridade será avistada

absorto
nenhum rumor será ouvido

mãos entrelaçadas
nenhum movimento será feito

guarnece o silêncio
em que se isola
do mundo exterior

sua interioridade
basta.

MISTÉRIOS

                     O mistério se desfaz
quando olhamos da maneira certa
não temendo o que iremos ver
nem sofrendo pelo o que a vista alcança

            não há mistério
e os tempos continuam
como sempre foram

mera afirmação da natureza
          em que tudo se aplica
e se explica no tempo exato.

VIR

Veio no encanto
em mágica carruagem
consigo o perfume
e a alegria das princesas

veio na noite
em alteradas cores
consigo a palavra
e o sorriso das princesas

veio fosse fada
além do horizonte
consigo a magia
e o mistério dos luares

veio sem nada querer
displicente em sua elegância
consigo a música
e as letras de eterno amor.

DA TERRA

Que é a terra senão nutrientes
microscópicos e macroscópicos
seres que se repetem na vida
e a multiplicam?

Que é a terra senão
o que nos sustenta
e de todas as fomes
nos mantém vivos?

Que é a terra senão
a simbiose que se eterniza
na renovação da vida
em outras formas
e a que nos cabe
no final do tempo?

AMANHECER

Amanhece
em fímbrias cores
         cinza azuladas

morros fechados
em suspensas
partículas

a luminosidade aumenta
a percepção da matéria
              que nos rodeia

aclara ideias
desperta sentimentos

                 movimenta.

Fonte:

Dorothy Jansson Moretti (Chá da Tarde) IV


A existência é definida:
não por azar, mas por sorte,
quanto mais “cheios” da vida,
mais perto estamos da morte.

A gente jamais esquece
de um bom momento os embalos,
pois se a memória fenece,
fica a saudade a lembrá-los.

Agitando o seu penacho,
da leve brisa aos carinhos,
o coqueiro solta o cacho,
num dilúvio de frutinhos.

A voz na garganta presa,
em meu mutismo sem fim,
eu cedo espaço à tristeza:
ela que fale por mim!

Chego, temendo o vazio,
mas pressinto, na ansiedade,
invadir meu quarto frio,
a presença da saudade.

“Conheço o mar, finalmente”,
diz a menina, a sonhar.
E o velho marujo doente:
“Eu também conheço o mar”.

Da emoção que se desdobra
deste amor posto à franquia,
meu coração não te cobra
nem juros, nem garantia.

Da vida, nessa altitude,
não chore os erros que fez!
Se voltasse à juventude,
faria tudo outra vez.

Ergue o mar a crista altiva,
e eu, transtornada e sem guia,
sou como um barco à deriva,
arriscando a travessia.

Estala o fogo e consome
as ervas da terra chã,
lavrando a seara da fome
num mundo sem amanhã.

Indiferente ao cansaço,
rolo às ondas do meu mar,
como no oceano do espaço,
rola a Terra, sem cessar.

Já não guardo nem resquício
daquela mágoa sem pausa.
Só lamento o desperdício
de tanto choro sem causa.

No museu de nossas vidas,
somos fantasmas errantes,
duas sombras, encolhidas,
a chorar sonhos distantes.

O aroma da flor singela,
a energia do condor,
nessa palavra tão bela:
“Mãe”, sinônimo de amor.

O sol ergue, reverente,
o véu cinza da neblina,
e o morro, altivo, emergente,
é o verde altar da campina.

Os raros troncos poupados
à ruína que o fogo fez,
são hirtos vultos sombreados
do negro véu da viuvez.

Quanto sonho e quanta mágoa
eu fiz rolar no meu rio,
que hoje, apático deságua
de mágoa e sonhos vazio!

Teu retrato na parede,
é o santinho a me guardar;
e eu engancho a minha rede,
bem debaixo desse altar.

Tombam as folhas, sem pressa,
rendando a manhã chuvosa,
como a tristeza inconfessa
que faz fingir-me ditosa.

Triste, a lua apaixonada,
se esconde no céu moreno,
e a branca face marcada
chora gotas de sereno.

Fonte:
Dorothy Jansson Moretti. Chá da tarde: trovas.
Itu/SP: Ottoni Editora, 2006.

Concurso Internacional de Poesia do Clube da Simpatia (Prazo: 31 de Agosto)


REGULAMENTO

O concurso, com as modalidades de quadra popular e poesia livre, destina-se a todos os cidadãos, maiores de 15 anos, de qualquer nacionalidade, sócios ou não do Clube da Simpatia, que apresentem produções inéditas escritas em língua portuguesa.

Tanto a “QUADRA POPULAR” como a “POESIA LIVRE” não têm tema específico.

1 – QUADRA POPULAR: – O poeta pode rimar o 1.º verso com o 3.º e o 2.º com o 4.º, ou rimar somente o 2.º verso com o 4.º.

2 – POESIA LIVRE: – sem sujeição a qualquer sistema poético mas, é obrigatório ter um título e não conter mais de vinte versos. (Linhas).

Queremos, deste modo, dar oportunidade a que uma classe mais jovem, que gosta de escrever poesia mais moderna, possa concorrer dizendo o que poeticamente lhe vai na alma sem a preocupação de rimas que, a maior parte das vezes, tiram todo o sentido à poesia e não são nada poéticas.

3 – Só é permitido o envio de (1) uma poesia para cada modalidade.

4 – O prazo para enviar os trabalhos termina no dia 31 de agosto de 2018.

5 – Os trabalhos, onde constará o nome do autor e nacionalidade, serão enviados para:

 < clubedasimpatia-algarve@sapo.pt >

6 – Serão premiados com diplomas, 3 vencedores em cada modalidade e, ainda podem ser atribuídas Menções Honrosas, se o Júri assim o entender.

7 – Os poetas premiados serão avisados durante o mês de setembro de 2018 através do endereço em que enviaram os trabalhos. Os respectivos diplomas serão enviados, pelo mesmo processo, durante o mês de outubro de 2018.

8 – Os resultados serão publicados no final de setembro de 2018 no Blogue do Clube da Simpatia:

E no Facebook do Clube:

Fonte:

terça-feira, 26 de junho de 2018

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poemas Escolhidos)


FLAUTA MÁGICA

No alto de minha Figueira
Pousa sempre um tico-tico
Que canta alegre em chorrilho
Quando coloco o CD
Do Altamiro Carrilho.

E o tico-tico de lá
Faz com ele o estribilho:
Canta, canta sem parar,
Ouvindo a flauta tocar
Do grande mestre Carrilho.

E eu fico extasiado
Em meio a tanta beleza,
É um momento encantado:
De um lado a natureza
No trinar do passarinho;
Do outro lado, com a flauta,
O mestre que tanto admiro
Faz magia com o chorinho:
Tocando seu Tico - Tico
O incomparável Altamiro.

A ROSA

Da rosa quero a essência,
O perfume que inebria,
 A pétala sedosa e macia,
A mais pura inocência.

Quero ser também o orvalho,
Que banha seu corpo vadio.
Nas noites de intenso frio
Quero ser seu agasalho!

Quero ser o colibri
A sugar seu doce mel
Ser o seu teto, seu céu,
Seu jardim, seu bem-te-vi.

Quero ser aquele espinho
Que a sua haste protege
Dos insanos e hereges
Que cruzam o seu caminho.

Quero ser o seu pretexto,
Seus enganos e desculpas
Quero ser todas as culpas.
Ser prosa do seu contexto.

ALAMBIQUE

Do bagaço o fogo faço
Para tocar a caldeira
Que esquenta que nem chaleira
Soltando fumo no espaço

Coloco a cana no engenho,
Transformando-a em bagaço.
Do caldo faço o melaço
Que depois vira cachaça...

E assim sai a purinha
Que passarinho não bebe
Mas que desce redondinha
E só toma quem percebe
O segredo da branquinha... 

E o engenho vai tocando
Fumaça na chaminé...
Cachaça é coisa nossa,
Pois agora virou bossa,
É produto brasileiro
Que agrada o mundo inteiro.
Uísque é pra Zé Mané…

CAMPANÁRIO
( Poema dedicado a Ipuca – São Fidélis / RJ – onde vivi minha infância)

Do alto do campanário
da minha pequena aldeia
avisto um lindo cenário
onde a saudade campeia.

Nele os seus campos floridos,
com as cores mais variadas,
vão salpicando as estradas
com seus toques coloridos.

No  peito tenho um vazio
remoendo o meu passado.
Manhã seca de estio,
no rosto os olhos molhados.

E os sinos badalando
anunciam minha dor,
cada toque ressoando,
no meu presente sem cor…

DOR DA SOLIDÃO

Não existe dor maior
Que a dor da solidão...
É dor cruel e perversa
Que não aceita conversa
E nem mesmo explicação!
É dor do só, do sozinho,
É carência de carinho,
Seu sintoma é a paixão.

E essa dor tão doída
Que tanto maltrata a gente
Chega assim tão de repente
Sem sequer bater na porta.
Para ela pouco importa
Se está matando o doente,
Se a "Inês é quase morta".

É uma dor que aniquila,
Que castiga, que maltrata,
É mais forte que a tequila
Mais ardente que a cachaça.
É pior que a dor que tomba,
Mais cruel que a dor que mata.

POEMINHA À PRIMAVERA I

A vida em traje a rigor
Está pronta para a festa...
Durou um ano de espera
O mundo multicolor
Que nos trouxe a PRIMAVERA!

Que essa estação tão linda
Desperte também o amor,
Fazendo brotar na gente
Um mundo cheio de luz,
O desejo mais ardente, 
O querer mais envolvente
Que nos encanta e seduz.

REMINISCÊNCIAS

Trago do tempo passado
O meu mais belo presente;
Dele sou enamorado,
Tive um passado contente.

Minha infância colorida,
Bodoques, atiradeiras
E banhos nas corredeiras
Do Paraíba do Sul.
O sol ardente brilhando
Num céu pintado de azul
Refletia no espelho
D’ água pura e cristalina.
Ah... que saudade que tenho
Daquela linda menina!

Na festa de São João
Quermesse e ladainha,
O namoro com a mocinha
Acelera o coração...
Fogueira, batata doce,
Milho cozido, quentão,
O céu todinho estrelado,
Gente soltando balão.

E esse tempo lembrado
Sei que nunca terá fim,
Eis que pela vida afora
Será para sempre assim...
Pois meu passado ficou
Guardado dentro de mim.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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