Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Joaquim de Melo Freitas (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa vol. 5) II


IMPRECAÇÃO

Para que te amava eu? Corpo d'espuma
Cruel enlevo de lábios cetinosos
Onde bailam desejos luminosos
Estrela, que de luz o céu perfuma.

Para que te amava eu? Que densa bruma
Me ofusca de saudade em tons nervosos
Desfolhando com gritos lacrimosos
As pétalas d'amor uma por uma?

Para que te amava eu? oh! praza aos céus
Que em quanto o sol girar pelo universo
Naufragues da paixão nos escarcéus.

E porque sofro na tristeza imerso,
Pálido goivo ao pé dos mausoléus,
Oxalá que o amor te seja adverso!

O TERREMOTO

Com fragor açoitando a vaga escura,
O temporal irado, espumarento
Cavalga um pérfido corcel - o vento -
Que solta gargalhadas de bravura.

Treme a terra, e com hórrida figura,
Como Atlante, sacode o turvo argento;
Nos gonzos oscilando o pavimento,
Dançam torres no assomo da loucura.

Vai o fogo alastrando o áureo manto,
As ruínas trucidam fugitivos,
Que sangrentos se abraçam convulsivos!

– O que fazer? – inquire o rei em pranto,
O ministro lhe diz com nobre espanto:
– “Sepultar mortos, e cuidar dos vivos.”

ENTRE PALMEIRAS

Faíscam os jaezes dos Cavalos,
Vibra o som dos clarins pela atmosfera;
No dorso de elefantes reverbera
A seda e prata em crebros intervalos.

Rodeado de inúmeros vassalos
Intrépido rajá de cor austera
Busca o tigre e leão, onça e pantera
Cruzando as selvas, e galgando os vales.

No cerrado paul ondula a brenha
E um leão de medonha, hirsuta juba
Em furioso valor se desentranha.

A raiva dos lebréus o estimula,
Os dardos o trespassam, mas derruba
O radjah, que nas vascas estrangula.

NOSTALGIA

Nos estuários alpestres do Brasil,
Onde o sol inflamado resplandece,
A cabilda dos negros desfalece
Sob o látego torpe e mercantil.

Nas areias matiza-se febril
O ouro virgem, e no 'spaço permanece
O diamante, que arisco se aborrece
Entre o cascalho estúpido, imbecil.

O escravo, quando avista um diamante
De dezessete "carates" quebra forro
As algemas sorrindo triunfante.

Que me valeu porém o descobrir-te
Diamante sem rival? – Suspiro e morro
A teus pés almejando possuir-te.

BOLETIM MILITAR

Vai rir-se desdenhosa a sombra de "Pombal"!
Era doida a rainha. O príncipe regente
Ostentando gentil a bochecha eloquente
Tinha bom apetite e ventre clerical,

Mas logo que Junot açaima Portugal
Embarca a toda a pressa e deixa a nossa gente,
Panda vela o conduz ao Brasil florescente,
E rápido imagina um plano teatral.

Veloz como no monte a trepida gazela,
É certo resguardava a insipida pessoa
Adiposa e feliz para cingir a c'roa,

E da nação em prol tão lorpa se revela,
Que nomeia coronel do exercito á cautela
O Santo Taumaturgo Antônio de Lisboa.

TABORDA

Taborda, altivo herói da gargalhada,
Que dominas no palco com bravura,
Quando vier sobre ti a morte escura,
Há de sentir-se humilde, deslumbrada.

E rindo a vez primeira entusiasmada,
Desfranzindo a medonha catadura,
Ao ver-te e ouvir-te em alegria pura,
Despedaça a fera clava ensanguentada.

Como subjugas cauto a morte ingrata,
Vences também risonho a dúctil alma
D'esta multidão gélida, pacata.

E Satan abismado diz em calma:
– Sim?!... Mais almas do que eu ele arrebata?
Já Diabo não sou!... Leva-me a palma. 

Fonte:
Joaquim de Melo Freitas. Garatujas. 
Aveiro/Portugal: Imprensa Commercial, 1883

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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