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sábado, 22 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 217 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ MACHADO STABILE
Uruguaiana/RS

A tua volta, querida,
é força que me renova;
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
ANALICE FEITOSA DE LIMA
Bom Conselho/PE, 1938 –, São Paulo/SP

Parece Tatuagem

Meu ser se incorporou à vida tua
de um modo tão incrível, tão seguro,
que eu tenho de deixar, mas continua
em ti minha esperança de futuro.

O meu apego tanto te cultua,
que o expresso em versos, rabiscando o muro.
E uma saudade ao meu redor flutua
enquanto no vazio eu te procuro.

Deixaste em meu viver enorme brecha
que sangra a todo instante e não se fecha,
porque a lembrança ao teu encontro vai.

Eu tento te esquecer mas não tem jeito.
E a tua imagem sufocando o peito,
parece tatuagem que não sai...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL MARIA RAMIREZ Y ANGUITA
Ponta Grossa/PR

Muito pouco significa
a amizade morna e muda.
Aquele que te critica
é sempre quem mais te ajuda.
= = = = = = = = = = = = = =

Poema de
FERNANDO PAIXÃO
São Paulo/SP

Aleijadinho

Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL JOSÉ LAMAS
Remoães/Portugal (1909 – 1973) Rio de Janeiro/RJ

Não vou além do que faço,
nem vou além do que digo.
Meu mundo está num abraço,
quando me abraço contigo...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
SÓLON BORGES DOS REIS
Casa Branca/SP

Contrários

 Alguém terá que ser o último,
para que sejas o primeiro.

E só serás proclamado o vencedor,
quando abaixo de ti houver vencidos.

Mas, o amor é mais generoso que a vitória.
Porque não se alimenta da derrota.
Nem está condicionado.
Absoluto, independe do contraste.
Só o amor prescinde dos contrários.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ERCY M. M. DE FARIA
Bauru/SP

Quis vingar “olho por olho”
e também “dente por dente”...
Mas, como, se era caolho
e a sogra só tinha um dente?!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Escutar

Escuto o barulho dos tambores
no som dos homens trabalhando 
escuto o silêncio reservado do poeta
no alarido das crianças 
escuto o sentimento extravasado
no discurso do profeta
escuto o anoitecer no cão que late
ao pássaro no voo indelével
escuto o raspar da pedra sobre a pedra
ao escutar você e não escuto nada 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ESMERALDO SIQUEIRA
Pedro Velho/RN

Teu silêncio me exaspera.
por que estás sempre calada?
Pensas em mim? Quem me dera!
Talvez não penses em nada...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Todo o amor que não me tinhas

Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.

Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.

Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.

Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.

Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELISABETE AGUIAR
Mangualde/Portugal

No meu livro de memórias, 
guardo, com todo o recato, 
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Queria ser seu livro de cabeceira 

Sabe aquele livro que você tem o maior cuidado? 
E que volta e meia você o relé, e põe-se a refletir? 
Aquele que por nada e para ninguém é prestado? 
Aquele que você toca por ultimo antes de dormir? 

Sabe aquele livro no qual você viaja e lê entrelinha? 
Aquele que faz você preso, incondicional liberdade? 
Aquele que invade sua mente e seu coração aninha? 
Aquele com o qual você desabafa; é maior amizade? 

Sabe esse livro que é seu preferido, até tira a poeira? 
Esse que tem uma história que leva você às viagens? 
Esse que alivia seu estresse e lhe enche de bagagens? 

Então, queria muito de ser esse seu livro de cabeceira. 
Esse; precisamente esse que está sempre ao seu lado. 
Que carrega você desse mundo para outro encantado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EPIFÂNIO DA FONSECA DÓRIA E MENESES
Tobias Barreto/SE (1884 – 1976) Aracaju/SE

A vida alheia respeite,
seja da paz sempre amante:
com rancores não se deite,
com ódios não se levante.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Algumas mudanças, nenhuma mudança 

Eu não deveria estar aqui! 
Mas estou! 
De pé diante de ti 
Com o olhar indignado! 
Mudo & Calado! 
Sem nada para te dizer... 
 
Eu não devia estar aqui! 
Deveria estar por lá fora! 
A gritar por liberdade. 
Da minha gente 
Do meu povo. 
 
Deveria estar na rua 
Em qualquer lugar 
E em todos os lugares. 
Mas não estou 
Estou diante de ti 
Mudo calado 
Sem nada para te dizer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELÍSIO DE SOUSA VASCONCELOS
Cametá/PA

Quando no rancho tu passas
a bailar alegremente,
ficas, Maria das Graças,
nas graças de toda gente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Nasce o sol, outra manhã 
Se espreguiça, é novo dia 
E a morte, má, se anuncia 
No canto da acauã 
Ave de agouro, malsã, 
Que canta nossa desgraça 
Sobrevoando a carcaça 
Do boi que ontem era são 
Hoje inerte jaz no chão 
No pé do seco imbuzeiro 
O meu verso tem o cheiro 
Da poeira do sertão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

No jogo de apostas fartas
do mundo em que nós estamos,
a sorte embaralha as cartas
e nós apenas jogamos...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
JOÃO FELINTO NETO 
Mossoró/RN

Gramatical

Só em letras imprimo minha alma.
Mais do que texto 
sou contexto indecifrável.
Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
 Um sujeito indefinido
 que é objeto de um erro
 gramatical.
 Entre modos e tempos,
 triste verbo
 que ecoa na forma nominal.
 Orações que são subordinadas
 aos meus vícios de linguagem.
 Um início em letras ordenadas
 e um fim
numa expressão oral.
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Aquele dia

Borboleta anil
que um louro alfinete de ouro
espeta em Abril
= = = = = = = = = = = = = =  

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 216 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Chega ao fim a serenata...
E a Lua, mesmo cansada,
recolhe as taças de prata
das mesas da madrugada!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ 1915 – 2009

Descansa, coração

Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão, já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!”
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MAURO MACEDO COIMBRA
Juiz de Fora/MG

Dorme no beco e afinal
diz o ébrio, sem conforto:
– Eu também sou imortal,
não tenho onde cair morto"!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ

A última cigarra

Todas cantaram para mim. A ouvi-las,
Purifiquei meu sonho adolescente,
Quando a vida corria doidamente
Como um regato de águas intranquilas.

Diante da luz do sol que eu tinha em frente,
Escancarei os braços e as pupilas.
Cigarras que eu amei! Para possui-las,
Sofri na vida como pouca gente.

E veio o outono... Por que veio o outono ?
Prata nos meus cabelos... Abandono...
Deserta a estrada... Quanta folha morta!

Mas, no esplendor do derradeiro poente,
Uma nova cigarra, diferente;
Como um raio de sol, bateu-me à porta.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANOEL CAVALCANTE
Pau dos Ferros/RN

A brisa bateu na porta
naquela noite abatida...
Trouxe uma esperança morta
pra minha face sem vida...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Felicidade

Às vezes, absorto em minha introspecção,
À mente me chega com facilidade
A visão tão minha de "felicidade",
Ao sabor do pulsar de meu coração.

Felicidade é de longe ser querido,
Num pacto de amor e de mútua confiança.
Felicidade é sonhar, ter esperança...
Saber que, nessa fé, sou correspondido.

Felicidade é navegar em teus poemas,
É enfronhar no sentido de tuas rimas.
É decorar e aplaudir tuas obras-primas,
Já que, com elas, me colocaste algemas.

Felicidade é amar tu'alma primeiro,
Antes de sentir ao vivo teu calor.
Encantar-me com tua beleza interior
Para depois ver teu corpo por inteiro.

Felicidade é ter o pressentimento
De que estaremos, em breve, frente a frente.
Eu espero afoito por este presente,
Uma recompensa pro meu sofrimento.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUCÍDIO DE FREITAS
Teresina/PI

Ó rio de águas sonoras!
Teu pranto eu sei de onde vem,
que os lamentos que tu choras
tenho-os chorado também.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ALDA CORRÊA MENDES MOREIRA
Niterói/RJ, 1926 – 2009

Eterna ilusão

Com a alma vestida de Poesia,
cheia de fantasia,
caminho por uma estrada enluarada
à procura apenas
de tua companhia.

Olho o espaço e me refaço;
um sonho de encantamento me invade
e me traz felicidade.

Ao contemplar os astros,
banhada de muita luz,
inundo todo o meu ser
com uma imensa ternura
que só a ti me conduz.

E nesta hora,
tomada agora
de uma total fascinação,
fitando o céu,
faço-te a minha revelação
e deixo meu corpo todo se envolver
com o doce véu
da minha eterna ilusão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
LUCÉLIA SANTOS
Patu/RN

Céu nublado e a terra fria,
e o vento ainda dormindo,
num tom de melancolia
o dia vai prosseguindo.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
EUNICE ARRUDA
Santa Rita do Passa Quatro/SP, 1939 – 2017, São Paulo/SP

Em dezembro

a lenta
iluminada
agonia

retorna a
voz esquecida sob a
pele

em dezembro

águas passadas movem
moinho
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
ANIBAL BEÇA 
Manaus/AM (1946-2009)

Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Pena de talião

"Um dia, andei contigo, ó pálida Glicera,
Num passeio ideal, entre árvores e fontes.
Tu tinhas na cabeça uma coroa d'hera,
E andávamos os dois, como uns Belerofontes...

Brilhava sobre nós uma infinita esfera.
Resplandecia o azul de um céu sem horizontes.
Tu tinhas o esquisito olor da primavera
E a graça e o frescor dos vales e dos montes...

Eu me vi tão feliz, minha volúpia d'ouro,
Correndo atrás de ti, do teu cabelo louro,
Nessa manhã de luz, sonoramente arfando,

Que até me pareceu, através do caminho,
Feito de luz e flor, de aromas e de arminho,
Que eu ia, porém, como um pássaro, avoando!"
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ CARLOS ABRITTA
Cataguases/MG, 1935 – 2021, Belo Horizonte/MG

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Constatando...

Eu, que nunca discrimino,
tratando a todos igual,
na mesma coluna assino
e uso o mesmo embornal,
fui cativa de assassino,
mas fugi, alada, afinal!
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
ANGELA TOGEIRO FERREIRA
Belo Horizonte/MG

O vento na rosa
rouba-lhe o belo e o perfume,
ao tirar-lhe as pétalas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR 1944 – 1989

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP

Meu desabafo é criar
versos sensíveis e belos,
mesmo tendo que chorar
a quebra de meus castelos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
WILSON DE OLIVEIRA JASA
São Paulo/SP

Amada Minha

Em teu corpo sensual tens o perfume,
Da mais sensível flor, rosa de amor;
Mas mesmo nos meus braços tens queixume,
Querendo para ti bem mais calor.

Voas em sonhos pra mim, qual vaga-lume,
Iluminando a noite com fulgor;
És minha doce amada com teu lume,
Que é meu nome em momento abrasador.

Inspiradora musa da poesia,
Que transporta meu ser na fantasia,
Fazendo-me viver o amor-paixão.

És tu, amada minha e companheira,
Minha mulher, e a amiga verdadeira,
Quem aquece minh’ alma e coração.
= = = = = = = = = = = = = = 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 215 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Trova de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 –, Porto Alegre/RS

Aquela ponte que unia
nossas vilas ribeirinhas,
une, ainda, por magia,
tuas saudades e as minhas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Frutos e gente

Frutos e gente são iguais
Ambos acabam amadurecendo
Quem o colha deseja o fruto
Quem o acolha almeja o homem
Frutos e gente têm sabor
Somente renascem se provados
O fruto através da semente
O homem pelo milagre do amor
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Por ganância de riqueza,
desrespeito, e até trapaça,
o homem queima a Natureza
com a indústria da fumaça!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Arco-íris das dores 
Para Luana D’Oliveira 

Envolto em um mundo liquefeito 
O metro brotou da pena do Brado 
Correu metrificado das páginas em branco 
Ganhou vida 
Criou asas 
Voou livremente mundo afora 
Transmutou-se em... 
Um rio de lava incandescente 
Correu furiosamente para o mar 
Para jazer em ouvidos surdos 
A perde-se em mentes vazias 
Na pós-modernidade 
Na realidade líquida pós-moderna 
 
Acima de um oceano de lágrimas 
Brilha um arco-íris de dores 
Pois poeta morreu de amores 
Pela musa sagrada 
Afogado em lágrimas secretas 
 
O Aedo jaz solitário... 
Na estante virtual! 
Também jazem no mundo imaterial 
A arte e a poesia 
A musa santificada 
O estro! 
 
Jazem unidos na contemporaneidade atroz 
Em um ‘’supermercado’’ irreal... 
Que vende palavras.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
HAROLDO LYRA
Fortaleza/CE

Essa fumaça abismal
configura um retrocesso
atroz e paradoxal,
nas esteiras do progresso.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
HÉRON PATRÍCIO
Ouro Fino/MG, 1931 –, Pouso Alegre/MG

Tudo isto existe

Quando, nas tardes calmas, eu passeio 
no velho bosque que há na minha rua,
em mantos de lembranças eu me enleio...
vem a saudade – e como é bom senti-la!

De uma galhada, a brisa, num meneio,
balança um velho ramo – e o ramo oscila
querendo desgarrar-se, em justo anseio
de ser ave que pelo céu desfila.

Nessa paz, que tem forma de carícia
- e no silêncio que ela me oferece –
uma voz vem de longe, vem e insiste,

num sussurro que é mágica delícia,
para dizer-me, feito um fim de prece 
“Tudo isto existe ... porque Deus existe!”
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
ANIBAL BEÇA 
Manaus/AM (1946-2009)

Cochicho de folhas.
Varre o vento na calçada
secas lembranças.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
LUÍS ROBERTO ALVES MEIRA
Bauru/SP

O Baú da minha vida

No porão da minha mente,
Guardei histórias,
Fotografias e glórias;
Panfletos e um monte de asneiras,
Mais o que eu guardei mesmo;
Está em uma caixinha,
Guardado em um sótão,
Em um castelo Medieval.
Dentro de um baú, 
Escrito Astúrias,
Com letras minúsculas.
E só eu tenho a chave deste cadeado.
Ninguém maias...
Um dia eu abro e conto a vocês,
O que escondi lá dentro... 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Porto Alegre/RS

Lá vai a jangada ao mar,
com ela, meu coração.
Quando, enfim, ela voltar,
voltará a inspiração!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Sonetilho de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Minha casa, meu amigo

Minha casa, meu amigo,
tem espaço para nós,
tem o tempo como abrigo,
tem abrigo para a voz.

Minha casa, meu amigo,
tem espelho para os sós,
tem o vento como umbigo,
tem umbigo sem os nós.

Minha casa, meu irmão,
só não tem a sua alma,
suas mãos num violão...

Minha casa, coração,
só não tem a sua calma,
violão de amigo irmão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GERALDO AMÂNCIO PEREIRA
Fortaleza/CE

Da velhice não me contem
a solidão que apavora,
o que vovô sentiu ontem
eu estou sentindo agora.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
FERDINANDO FERNANDES
Vila das Aves/Portugal

Sorriso perdido
 
Recolho ainda os restos de um vazio
Ficados no eflúvio som dos tempos,
Janela aberta nas margens de um rio
Onde medram tristes meus lamentos.
 
O Sol que alimentava esse teu brio
Que se perdeu no gemer dos ventos,
E torna o meu anseio sempre frio
Como a vida feita de tormentos...
 
O amor que incendiou o nosso olhar
Mendiga, na esperança de encontrar
A sombra que escondeu o teu sorriso...
 
Lembro ainda o gosto do teu beijo
E a pura carne, quente de desejo
Na liberta expressão de um paraíso.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ALBERTO PEYRANO
Santa Fé/Argentina

Água na alma

Eu vi tuas lágrimas a correr por tuas bochechas
E essa água benta, que minha sede matou,
Chegou até minha boca num suspiro
E inundou meu coração.
 
Que felicidade sem fim senti naquele instante,
Quanto de ti passou à minha alma...
Um pássaro cantava no jardim
Sob a intensa chuva de teu amor.
 
Peguei tua mão e a fiz tocar meu rosto
E, oh, milagre!... de teus dedos
Brotaram rosas encarnadas
Que o orvalho de minhas lágrimas cobriu.
(Tradução por Ógui Lourenço Mauri)
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GERALDO LYRA
Recife/PE

Motorista da ilusão,
pelas estradas da vida
vou deixando o coração
no adeus de cada partida!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
Brusque/SC

Tristeza

Tristeza d´alma
vá para longe...
não fiques me sufocando
com esta angústia,
dor no peito
sem fim.
- De onde vens?
São tantos os motivos...
mas por que insistes em ficar?
Deixe-me ser livre... solta!
Voar bem alto
e, no infinito,
mergulhar em meu íntimo,
a sorrir com orgulho,
de uma vida prestes
a desabrochar...
tímida e imprevista.
- Por favor,
não insistas mais
em ficar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GILBERTO GUERREIRO BARBALHO
São José do Mipibu/RN

Há tanta leveza e graça
no teu porte, ao caminhar,
que o vento forte que passa,
faz-se brisa ao te encontrar…
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Quadro nostálgico

Eu sou a saudade
que você deixou
na hora amarga
do seu adeus...
Sou o “TUDO”
Que restou do “NADA”;
as lágrimas dos meus 
e dos olhos seus...
= = = = = = = = = = = = = =