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sábado, 18 de abril de 2026

Asas da Poesia * 177 *


Trova de
AMÉRICO FERRER LOPES
Queluz/Portugal

Eva.. esse anjo encantador
que em pecados se desdobra,
fez do Adão um pecador
e diz... "A culpa é da cobra"!
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Poema de
BENJÚNIOR 
(Benevides Garcia Barbosa Júnior)
Porto União/SC

Grito de estrelas

"Um grito de estrelas vem do infinito
E um bando de luz repete o grito.
Todas as cores e outras mais
Procriam flores astrais.
O verme passeia na lua cheia"...

Hoje estou com vontade diferente
de ser outra gente
de outro bando e lugar.
Estou com vontade de andar
caminhar [vagar, voar,]
ser infinito
enquanto posso...
Quero libertar de
minhas janelas,
e conhecer a imensidão
dos amanhãs, que
são forjados
nas oficinas do tempo,
que ficam escondidas
em lugar nenhum.
Quero escapar,
dos caminhos que existem
dentro das coisas transparentes,
que refletem os cansaços
e as indecisões.
Quero viver a vida
em "slow motion"
no abrigo
dos corações invertidos,
pintados como trens
que de repente param
em nenhuma estação...
E assim,
como do fundo da música
brotam as notas
que, ora são lembranças,
ora esperanças,
emudeço o grito,
na pauta do silêncio
e da amargura...
E quando a noite vier,
cantarei alguma coisa
pra dormir,
no silêncio das paredes,
que refletem fantasmas
de minha alma...
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Aldravia de
MARILZA DE CASTRO
Rio de Janeiro/RJ 

sonhar
no
mar
salga
ideia
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

No dia da tua morte choveu

“No dia da tua morte choveu”
Como se este céu fosse o confidente
Das coisas que não contavas à gente
E soubesse o que o teu peito sofreu.

Com o desgosto o céu se escureceu
E a chorar fez questão de estar presente
Nessa hora em que te fizeste ausente
E essa pura amizade se fendeu.

A chuva molhou todo esse caminho
Por onde te levaram, com carinho
À última morada que terás.

Limpam-se as longas lágrimas terrenas
Que ao fim de tantas lutas, tantas penas
Tu, finalmente, vais viver em paz.
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Trova de
JORGE FREGADOLLI
(Maringá/PR)

Feliz quem desde menino,
pela boa educação,
do trabalho faz um hino
e da vida uma canção!
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Poema de
ADAIR DE FREITAS
Santana do Livramento/RS

“Meu canto tem cheiro de terra e pampa”

Meu canto não conhece desencanto
Vem peleando a tanto tempo
Mas não cansa de pelear
Hoje já se ouve a ressonância
Dessa voz de peão de estância
Conquistando seu lugar
Meu canto, se quiser eu te ofereço
Pois ninguém me bota preço
Quando não quero cantar
Meu canto, companheiro, não se iluda
É como um cavalo de muda
Que cansou de cabrestear

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando deste chão)

Meu canto, não é mágoa, não é pranto
Nem passado, nem futuro,
Que o presente é mais verdade
Hoje o amanhã não me fascina
Tenho o ontem que me ensina
Mas não vivo de saudade
Canto nesta terra onde me planto
Mas não pise no meu poncho
Que eu empaco e me boleio
Canto pra pedir mais igualdade
Quem não gosta da verdade
Que se aparte do rodeio

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando deste chão)

Canto, e minha voz quando levanto
Não traz ódio nem maldade
Coisas que não sei sentir
Não que seja mais que qualquer outro
Nem mais touro, nem mais potro,
Se disser eu vou mentir
Peço pra quem julga e dá conceito
Que esqueça o preconceito
E me aceite como sou
Manso como água de cacimba,
Mas palanque que não timbra
Porque o tempo enraizou

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando neste chão)
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TROVA POPULAR

Os olhos de meu benzinho
são joias que não se vendem,
são balas que me feriram,
são correntes que me prendem.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Entardecer

Morre a tarde!... E, na dor do Sol poente,
há uma nesga de luz e nostalgia,
separando, de forma displicente,
os encantos e a dor do fim do dia!

Ante o drama sem volta e tão dolente,
ouço, ao longe, uma voz que me assedia;
é a de um sino que tange, lentamente,
os suspiros finais da Ave Maria!

Nesse instante, eu me sinto até covarde;
me envergonho, ante a dor do fim da tarde,
mas encaro de frente e olhos abertos…

E à distância, no olhar da eterna luz,
eu percebo dois braços numa cruz,
rodeados de luz entre os libertos!
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Trova de
OLYMPIO DA CRUZ S. COUTINHO
Belo Horizonte/MG

O livro é qual luz do sol,
luz que a todos ilumina;
Na escuridão, um farol
que o claro caminho ensina.
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Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Exaltação Ao Amor 

 Sofro, bem sei...Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar...colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco, talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor...com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu,
se é fogo que em meu peito se acendeu,
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs...Ninguém mais há de dispor...
Se esse amor não puder ser meu viver,
há de ser meu para eu morrer de Amor!
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Trova de
ADELMAR TAVARES
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

Saudade - doce transporte
da alma adejante e ferida...
- É viver dentro da morte!
- É morrer dentro da vida!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Sonhador e peregrino

MOTE:
Bem feliz vive o poeta,
peregrino e sonhador,
luzeiro que se completa
no sonho do trovador.
Vidal Idony Stocker 
Castro/PR, 1924 – 2014, Curitiba/PR

GLOSA:
Bem feliz vive o poeta,
pleno de amor e emoção,
pois sua musa secreta
mora no seu coração!

Segue em frente, noite e dia,
peregrino e sonhador,
na bagagem, a poesia
lhe dissipa qualquer dor!

Tem em sua alma de esteta 
um não sei que tão bonito,
luzeiro que se completa
como uma luz do infinito!

Segue assim, o seu caminho,
atapetado de amor,
colocando o seu carinho,
no sonho do trovador.
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Trova de
BASTOS TIGRE
Recife/PE, 1882 – 1957,  Rio de Janeiro/RJ

Dos versos os mais diversos       
já fiz: muita gente os lê…        
Mas “poesia” há nos versos    
que eu fiz pensando em você.    
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

A cor da minha tristeza

A tristeza em meus suspiros tão frequente,
não lhe vês o ar de órfã desolada,
não entendes sua voz — brado silente,
não lhe dás nunca razão, nem cor, nem nada..,

E ela tem, nítida, a cor do riso ausente...
É triste andante de faces desbotadas,
tem a cor dos pés descalços, do inclemente
abrigo sujo ostentado nas calçadas.

Tem a cor do pranto, alheio, sofre o espinho
que a tantas flores impede de brotar.
Tem a cor da nulidade de um caminho

que — acaso existe? — ninguém logra alcançar:
a cor de um mundo de risos tão mesquinho,
tão farto em dor, que dá cor ao meu penar...
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA 
São Paulo/SP

À mensagem não me rendo… 
Não abro… não quero ler… 
Para não ficar sabendo 
o que eu finjo não saber. 
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Poema de
IVY MENON
Maringá/PR

O Poema

O Poema jorra pétalas brancas
Rosas brancas, pálidas de espanto
ao vento, asas arremessadas, livres
pelo ar.

O Poema surpreendente doçura
mistura mel e terra, fruta-do-conde
Laranja craveira, sorva gomo a gomo

O Poema brota morno, doido
aos borbotões as lágrimas de gozo
inundam as mãos, ávidas mãos.
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Haicai de
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR

Tantas vezes fiz
este mesmo trajeto,
nunca foi o mesmo.
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Ramalhete de Trovas de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

"Café" da madrugada!

É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!

Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!

Despertando, reparei 
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
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Hino de 
OURO PRETO/ MG

Em cada aresta de pedra
Uma epopeia ressoa
Na terra formosa e boa
Onde a grilheta não medra

A terra, que um cento de anos
Três vezes viu passar
Possui dos ouropretanos
Em cada peito um altar

A névoa que cobre a rocha
Do mais brando e puro véu
Quando a manhã desabrocha
É um beijo que vem do céu

Os fatos de Vila Rica
Lembram raças titãs
Cuja memória nos fica
Para os mais nobres afãs

Guarda o seio das montanhas
Os áureos filões mais ricos
Contempla os altos picos
Das laceradas entranhas

Protege, Deus, estes lares
Dos filhos dos bandeirantes
Por estas serras gigantes
São outros tantos altares
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 

Ouro Preto: Uma Epopeia de Pedra e História
O 'Hino do Município de Ouro Preto' é uma celebração poética e histórica da cidade mineira, conhecida por sua rica herança cultural e importância no período colonial brasileiro. A letra da música exalta a beleza natural e a grandiosidade histórica de Ouro Preto, destacando a resistência e a bravura de seus habitantes ao longo dos séculos. Cada 'aresta de pedra' mencionada na canção simboliza as inúmeras histórias e lutas que ressoam na cidade, um lugar onde a 'grilheta não medra', ou seja, onde a opressão não prospera.

A canção também faz referência ao espírito dos ouropretanos, que carregam em seus corações um altar de devoção à sua terra natal. A névoa que cobre as rochas ao amanhecer é descrita como um 'beijo que vem do céu', uma metáfora que sugere a bênção divina sobre a cidade. A letra remete aos tempos de Vila Rica, antigo nome de Ouro Preto, e às 'raças titãs' que construíram sua história, preservando suas memórias para inspirar futuras gerações.

Além disso, o hino destaca a riqueza natural da região, com seus 'áureos filões mais ricos' escondidos nas montanhas. A letra pede a proteção divina para os lares dos descendentes dos bandeirantes, os desbravadores que exploraram o interior do Brasil. As 'serras gigantes' são vistas como altares, reforçando a ideia de que a natureza e a história de Ouro Preto são sagradas e dignas de reverência. O hino, portanto, é uma ode à resistência, à beleza natural e à herança cultural de Ouro Preto, celebrando sua importância no cenário histórico e cultural do Brasil. https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/1789134/ 
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Poetrix de
ANTONIO CARLOS MENEZES
Recife/PE

Melancolia

à beira do rio
sou pássaro que canta
em lugares sombrios.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Feliz o povo que pensa
e que se expressa à vontade.
Onde amordaçam a imprensa
morre à míngua a liberdade.
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Conto em Versos de
ARTHUR DE AZEVEDO
Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

Escola dos velhos

O Próspero Pimenta
Passava dos cinquenta,
Quando encontrou na vida
A mulher longamente apetecida
Entre sonhos, visagens e quimeras.
Ela contava apenas
Dezoito primaveras,
E era a mais deliciosa das morenas.

Ele encontrou-a, por acaso, um dia
Em que um novo dilúvio parecia
Desabar sobre a terra, e atencioso,
Ofereceu-lhe o braço e o guarda-chuva,
Que é, quando chove, rufião precioso.
Levou-a para casa. A sua vida
Ela contou-lhe muito comovida:
Tinha sido casada, era viúva.
Já viúva? É verdade!
Andava o dia inteiro na cidade,
Procurando um emprego...
Um destino... um aconchego...
O Próspero Pimenta era solteiro;

Tinha muito dinheiro
E um palacete mobilado tinha;
Por isso, a viuvinha
Ali ficou de casa e pucarinha.

Ele amou-a deveras;
Não era um homem gasto,
Um coração cansado que repasto
Outrora fosse de paixões violentas;
Ele podia ainda
Perpetuar a raça dos Pimentas,
Levar longe o seu nome;
Mas aquela menina ingênua e linda,
Se a imperiosa fome
De um exigente amor satisfazia;
Estranha sensação lhe produzia;
Ele ficava contrafeito quando,
Os seus lábios de púrpura beijando,
O doce mel do amor neles sorvia;
E pensava: — Estou velho, e certamente
Só me tolera porque sou, não rico,
Mas solícito, bom, condescendente;
Sinto que a sacrifico,
A consciência diz-me que a deturpo,
E o lugar de outro, menos velho, usurpo. 

Ora, um dia, o Pimenta
Foi avisado de que a sua amante,
De amor faminta e de prazer sedenta,
Tinha um amante que não era ele,
E pilhou-a em flagrante,
Furioso — meu Deus! Que dia aquele! —
Ia fazer escândalo e alvoroço,
Quando caiu em si, vendo que o moço
Com quem ela o enganava,
Nem trinta anos contava
E era um rapaz bonito;
Não lhe faltava nem um requisito
Para ser dela amado
— Afinal, tens razão, disse o coitado,
Quem não a tem é o meu amor absurdo,
Que me fez cego e surdo.
Amai-vos, pois, meus filhos,
Amai-vos à vontade!
Eu não ponho empecilhos
À vossa felicidade! —

E fez mais o Pimenta:
Dotou a viuvinha com quarenta
Contos de réis, e o belo moço amado
(Grande pulha!) com ela está casado.

Nasceu-lhes um filhinho,
E o Pimenta foi logo convidado
Para ser o padrinho.
(convertido para o Português atual por José Feldman)
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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Asas da Poesia * 176 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

O fruto é um santo produto
do mais generoso amor.
Por isso é que antes do fruto
quis Deus que ele fosse flor!
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Poema de
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
Brusque/SC

Tristeza

Tristeza d´alma
vá para longe...
não fiques me sufocando
com esta angústia,
dor no peito
sem fim.
- De onde vens?
São tantos os motivos...
mas por que insistes em ficar?
Deixe-me ser livre... solta!
Voar bem alto
e, no infinito,
mergulhar em meu íntimo,
a sorrir com orgulho,
de uma vida prestes
a desabrochar...
tímida e imprevista.
- Por favor,
não insistas mais
em ficar.
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Aldravia de
MARÍLIA SIQUEIRA LACERDA
Ipatinga/MG

retratos
pela
casa
digerir
saudades
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Soneto de
PAULINO DE ANDRADE
Jaboatão dos Guararapes/PE (1886 – ????)

Olinda

No alto, a paisagem verde-escura e acidentada.
Em baixo, o ouro da praia e a saudade do mar...
Sugere lendas... reis magos... terra encantada...
Fidalgas castelãs... troveiros a cantar...

É bem de vê-la sob a tragédia sagrada
Do crepúsculo: é grande, heroica, singular!
Eu, quando a vejo assim, tenho a alma amplificada
E uma dilatação de beleza no olhar.

E se, pela alterosa e lendária Palmira
Longa e empolgada, a vista amplamente se estira,
Lembro o Nebo sob a ânsia imortal de Moisés!...

E um ninho azul coroa a epopeica Cidade...
Rumina o coqueiral uma velha saudade,
E a saudade do Mar rumoreja-lhe aos pés...
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Peão de Letras

Palavras são novilhos
Novelos de rios e lã
Cavalos bravios, puro-sangue
Na escuridão esperando manhã
Mangue de fala nascente
Veneno de língua poente
Pauta sonhando som
Feno bom para a mente animal
Que não sabe ser silente
Nesta campina sou cavaleiro
Poeta visionário social
Guerreiro, desbravo o dicionário
Matagal de mel em favos
Onde enlaço palavras com laço de céu
Feito abraço, prisão que afaga
Esta é minha saga, minha sina
Que se algum dia termina
Quero meu corpo ao lado da mãe
E o conforto da inscrição final:
"Meu irmão, aqui jaz um peão de letras”
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Trova Popular

Amor com amor se paga:
nunca vi coisa tão justa;        
paga-me contigo mesmo           
saberás quanto te custa.
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Antes de fechar a porta

Recordo, muita vez, sentada à porta
de mim mesma, o tão nosso antigamente!
O que espreito, bem sei, não mais importa
que a mim só que de novo estou presente.

É a mão da saudade que transporta
o que sou ao que fomos. De repente,
tanta coisa, com rótulo de morta,
vive em mim nova vida, inteiramente...

Julgas mera tolice a devoção
de minha ardente peregrinação
ao passado. E me acordas à verdade.

Volvo ao deserto de viver, então.
Mas, antes de esconder o coração,
guardo já dentro mais uma saudade.
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Setilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Poema de vida... sem vida! 

A Rosa, cheia de vida, 
de viço e beleza, tida, 
das flores, a preferida 
de todos, foi bem nascida, 
agora, vive esquecida 
em uma jarra partida 
sem viço, beleza e vida!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

"Com Deus, vou subir a serra
sem perigo... eu tenho fé!"
Na curva, o bebum se ferra...
Deus subiu... mas foi a pé!
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Soneto de
OSCAR WILDE
(Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde)
Dublin/Irlanda (1854 – 1900) Paris/França

Soneto à Liberdade

Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada
É que, com seu rugir, tuas Democracias,

Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã.
Minha alma circunspecta gosta de teus gritos

Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apoio ao menos parcialmente. 
(tradução de Nelson Ascher)
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Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN (1951 - 2013) Natal/RN

Muda-se a cor preferida,
troca-se a corda do sino,
muda-se tudo na vida…
Mas não se muda o destino.
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Glosa de
REGINA COELI
Rio de Janeiro/RJ

MOTE: 
Nessas rosas em que espelhas
teus delicados primores,
meu amor, tu te assemelhas
a uma flor me dando flores! 
Humberto Poeta 
(São Paulo/SP)

GLOSA:
Nessas rosas em que espelhas
teu perfume e tua cor,
há um exército de abelhas
tornando em mel teu amor.

Sinto em tão doce fragrância
teus delicados primores,
pinçados com elegância
das rosas em belas cores.

Se o telhado tem nas telhas
instrumento pra abrigar,
meu amor, tu te assemelhas
à pérgula a perfumar.

Teu doce encanto me enleva
a jardins encantadores;
comparo-te — luz na treva —
a uma flor me dando flores! 
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Trova de
MARINA GOMES VALENTE
Bragança Paulista/SP

Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo
é sentir paz e alegria.
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Soneto de
ANIBAL BEÇA
Manaus/AM (1946 – 2009)

Mala com alça

É da lama essa mala que retiro
para subir a encosta (como a pedra
que Sísifo ainda empurra todo dia)
numa viagem cheia de sequelas.

Não há como negar tantos espinhos
na travessia turva de mistérios
que vão-se descobrindo nos caminhos:
a mão negada, a fome, o vitupério,

o rito solidário que esquecemos
em troca a vaidade transitória.
Somos do barro e ao barro voltaremos.

A verdade do Homem e de sua Hora
vem com mala e alça, disto sabemos,
mais o peso do corpo e sua história.
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Poema de
MEIMEI CORREA
Três Corações/MG

Brincando com versos

Um verso
Disperso
Na calada da noite
Pensou ser esperto
E passou de mansinho
Caminhou no meu leito
Bateu forte no peito.

Invisível aos olhos
Sorriu para o coração
Que na distração
Do sonho acordado
Dormiu nessas linhas
Que fingem ser minhas.

Um poema sem métrica
Sem réplica se fez
Escorreu pela alma
Em forma de tintas
Colorindo a madrugada
Que foi enganada
Pelo sono que não veio
Estando em recreio
Com os pingos da chuva
Que uma nuvem esqueceu
No telhado da imaginação!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR

Curitiba não nos poupa.
Ontem eu tomei sorvete,
Hoje eu tomo sopa.
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Setilha de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

O Pai não deixou talentos
iguais para os filhos seus.
Os seres não são iguais
na família dos pigmeus
nem também na dos gigantes,
e, se somos semelhantes,
já damos graças a Deus.
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Trova de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

O sol, a brisa e esta rede,
no entardecer, que esplendor!
E o mar morrendo de sede,
mata-me a sede de amor!
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Hino de 
CABO FRIO/ RJ

Cabo Frio, minha terra amada,
Tu és dotada de belezas mil,
Escondida vives num recanto,
Sob o manto deste meu Brasil...

Noites Claras teu luar famoso,
Este luar que viu meus ancestrais...
O teu povo se orgulha tanto,
E de ti, não esquecerá jamais...

Tuas praias, Teu Forte,
Olho ao longe e vejo o mar bravio
A esquerda um pescador afoito,
Na lagoa que parece um rio...

O teu sol, que beleza!
No teu céu estrelas brilham mais...
Forasteiro, não há forasteiro,
Pois nesta terra todos são iguais…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
O Canto de Orgulho e Beleza de Cabo Frio
O 'Hino de Cabo Frio - RJ' é uma ode à cidade localizada no estado do Rio de Janeiro, exaltando suas características naturais e a sensação de pertencimento que ela proporciona aos seus habitantes e visitantes. A letra começa com uma declaração de amor à terra, destacando as belezas naturais que a cidade possui, como se estivesse escondida, mas ainda assim sob a proteção do Brasil.

A referência ao 'luar famoso' e aos ancestrais do narrador evoca um sentimento de continuidade histórica e de conexão profunda com o lugar. O orgulho do povo de Cabo Frio é ressaltado, indicando que a memória e a valorização da cidade são passadas de geração em geração. As praias e o Forte são mencionados como marcos geográficos, enquanto a visão de um pescador e a lagoa que se assemelha a um rio pintam um quadro da vida cotidiana e da relação harmoniosa com o meio ambiente.

Por fim, a canção destaca a igualdade entre as pessoas que se encontram em Cabo Frio, sejam elas moradores ou visitantes, sugerindo uma atmosfera acolhedora e inclusiva. A beleza do sol e o brilho das estrelas no céu são metáforas para a vivacidade e a energia positiva que a cidade emana, reforçando a ideia de que Cabo Frio é um lugar especial tanto para quem vive quanto para quem a visita. https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/467125/ 
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Poetrix de
CARLOS VILARINHO
Palmeira das Missões/RS

um verbo

Entre nós um verbo
Que não cresce
Nem aparece…
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Um olhar sobre Sorocaba

Em pleno ciclo de tantas tropeadas,
quer de mulas, ou quer também de bois,
Sorocaba levanta as mãos armadas...
Mil oitocentos e quarenta e dois. 

Passa o século. A poeira das estradas              
vai-se apagando e vão florir, depois,              
as lindas laranjeiras carregadas...              
Mil novecentos e quarenta e dois. 

Os ciclos vão-se de outros distanciando...
Do bandeirante ao têxtil se afastando,
a indústria abre, imponente, o seu roteiro. 

E hoje, aos ventos do tempo e seus avanços,              
Sorocaba levanta os braços mansos,              
e torna irmãos... filhos do mundo inteiro.       
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Conto em Versos do
ARTUR DE AZEVEDO
Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

Improbus amor...

O Alfredo era poeta,
E na imprensa chamavam-lhe eminente;
Todavia, gostava loucamente
De uma mulata quase analfabeta,
Que desdenhava o seu amor ardente,
Pois que lhe preferia
O primeiro caixeiro
De um armazém de secos e molhados.

Suspirando e gemendo noite e dia,
E tirando do fundo do tinteiro
Chorosos versos, versos inflamados,
Que a mulata não lia,
E quando os lesse, não os entenderia,
As esperanças não perdia Alfredo
De, mais tarde ou mais cedo,
Aquele coração tornar mais brando.

Um dia, um belo dia, eis senão quando
Uma poetisa de talento, e bela,
Branca e não amarela,
Misto de musa e fada,

Olhos da cor do céu sereno e puro,
E cabelos da cor da madrugada
Quando reponta no horizonte escuro,
— Apaixonou-se pelo nosso Alfredo,
E tais olhares lhe lançou, tão fundos,
Que não pôde guardar o seu segredo.

O poeta, nos seus versos gemebundos,
Continuou a lastimar, coitado,
Viver pela mulata desprezado
Como folha arrastada pela brisa,
E não deu atenção à poetisa.

Um amigo do peito,
Que de tudo sabia,
Protestou contra essa anomalia:
— Alfredo! Com efeito!
Isso é depravação! Pois tu enjeitas
O amor de uma senhora inteligente,
Líndíssima, atraente,
Que faz poesias e que as faz bem feitas,
Pelo menos tão boas como as tuas,
Por não poderes esquecer um diabo
Uma mulher das ruas,
Que de ti dará cabo
Se não tomares juízo?!...
Vamos! Que os olhos abras é preciso!
Não podes hesitar entre elas duas!…

— Meu caro amigo, respondeu Alfredo,
Tu tens toda a razão, mas eu não cedo.
É uma fatalidade! O fado nosso
Não depende de nós; aquela eu amo,
E outra, seja qual for, amar não posso!
Insulta-a! Não reclamo!
Dize contra ela o mal que bem quiseres;
Mas ha milhões, bilhões de outras mulheres
E não posso outra amar senão aquela,
Que não é boa e nem sequer é bela!

Tanto amor teve, enfim, a recompensa:
A mulata, depois de percorrida
Uma carreira imensa
Que não podia ser menos abjeta,
Condoeu-se do poeta.

Hoje comem os dois à mesma mesa,
Hoje dormem os dois na mesma cama,
Não sei se ela é feliz, mas com certeza
Ele o é, porque a ama,
E a felicidade nada mais precisa.
Por uma coincidência, a poetisa
Casou-se com o caixeiro
De secos e molhados,
Que da mulata o amor logrou primeiro;
E creiam todos que são bem casados.
(convertido para o Português atual por José Feldman)
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