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sábado, 18 de julho de 2026

Asas da Poesia * 203 *


Poema de
APRECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Inconsequente

Queria lhe ver de novo
ao meu lado, me amando,
calar a boca desse povo
que só vê você e em você,
o nosso amor desprezando...
De outra feita, seu orgulho me jogando pra baixo,
como se eu não fosse ninguém...
Cá entre nós, às vezes também acho;
eles estão certos, por certo, meu bem...
virei pra você, um simples capacho.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova Humorística de 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Ao operar seu nariz
perdeu um olho, o Batista.
Vem outro louco e, então, diz
que o pagamento era... a vista!
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Soneto de
ANIBAL BEÇA
(Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto)
Manaus/AM (1946 – 2009)

Soneto com Estrambote Enviesado

Alfaiate de mim costuro a roupa
que cabe ao figurino que me coube.

Só meu verso protege essa amargura
desfiada de dia ao sol veloz,
para à noite tecer nova textura,
novelo de silêncio ao rés da voz.

Enxoval construído nessa usura
solitária de andaimes, num retrós
de linha vertical, que se pendura
na pênsil teia atada, fio em foz

desse rio agulha que me costura
ao rendilhado de águas tropicais,
que sabe de saudades no meu cais.

Viageiro de uma sanha que me traz
sempre de volta ao tear do meu destino
na seda depressiva me assassino.
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Aldravia de
BENEDITO PEREIRA DA COSTA
Brasília/DF

lua
estrelas
mar:
eu
e
você
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Soneto de
MAJELA COLARES
Recife/PE

O soldador de palavras

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo – literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com ideia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A ideia é fogo. Fogo… o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
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Trova Premiada de
MOACYR SALLES 
Brasília/DF

Numa aposta de carreira,
usa a mentira os atalhos.
A verdade chega inteira,
chega a mentira aos frangalhos.
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Poema de
LYGIA MENEZES
Maceió/AL

Sonho

Ou foi sonho ou foi loucura,
Dizê-lo bem, nem eu sei.
Sei que apenas uma criatura...
Amei.

E foi tão grande e divino
O grande amor que senti...
Que querendo fugir do meu destino
Sofri.

Sonho lindo! Amor risonho!
Onde me levas? Aonde vais?
— Quem me dera que esse sonho
Não se acabasse nunca mais!...
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Quadra Popular

Amar e saber amar
são dois pontos delicados:
os que amam, são sem conta:
os que sabem, são contados.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Da Condição Humana

Jamais eu te direi que estou feliz
e me reservo agora este direito
de sofrer por aquilo que não fiz,
pois este é o meu destino e assim o aceito.

Não quero que me julgues satisfeito
e nem tampouco um mísero infeliz,
o meu caminho embora seja estreito
tem amplitudes que sonhei e quis.

Se desejarmos merecer a vida
profundamente além da concebida
iremos naufragar em dissabores…

Por isso aonde eu for e aonde fores
não é preciso conseguir extremos:
sejamos o que somos e seremos… 
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Trova de
MÁRIO ZEMATARO
Curitiba/PR

Não há lágrima no pranto
“chorado” numa viola,
mas notas de um desencanto
que a lágrima não consola.
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Poema de
ANGÉLICA TURINI FERREIRA
Jaú/SP

Neste labirinto que se chama terra,
que se chama cérebro
que se chama vida,
há estruturas complexas
fragmentos bíblicos
notícias escorrendo…

Pés sangrando.

Dragões alados
alfaias
palavras que se perdem
eis o resultado da meditação!
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Triverso de
MAHELEN MADUREIRA 
Santos/SP

Manhã de sol –
Na praia os caminhantes
Também as libélulas.
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Sextilha de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
São João da Ponte/MG

Não revelo meu segredo,
se temo ventos ao léu…
Relâmpago é luz que acende;
se um trovão faz escarcéu,
eu penso: é festa de arromba
dos anjinhos, lá no céu!
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Trova de
RUBENS DE CASTRO
Corumbá/MT

Você já foi escolhida
para ser, em meu caminho...
na Santa Ceia da Vida,
meu Céu... meu Pão... e meu Vinho!
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE: 
O beco é tão estreitinho, 
lá onde mora o Janjão, 
que da janela o vizinho 
cumprimenta dando a mão!
Jorge Murad 
Rio de Janeiro/GB, 1910 – 1998

GLOSA: 
O beco é tão estreitinho, 
que Janjão, sempre, ao cruzar, 
de manhã, com seu vizinho, 
tem que nele se esfregar! 

Tem um beco tão estreito 
lá onde mora o Janjão, 
que ninguém passa direito 
sem levar um esfregão! 

Janjão curte estar sozinho, 
mas o beco é tão estreito 
que da janela o vizinho 
vê tudo. Quem vai dar jeito? 

Pense num beco estreitinho, 
este, onde mora o Janjão; 
que, ao sair, o seu vizinho 
cumprimenta dando a mão!
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Nuvens
passantes
escondem
estrelas:
tímidas
top-models
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Soneto de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Ao Poeta

Imprime a tua lavra no papel,
teu sentimento expõe, sem medo, ali;
junta ao mover das cores, com cinzel,
a agilidade dada ao colibri!

Desliza os versos, sem pensar, ao léu,
revela tudo o que se esconde em ti,
pois tu consegues ir do inferno ao céu,
falar de amor com calma ou frenesi!

Depressa, enxuga as lágrimas do pranto,
põe na poesia o mais doce acalanto,
no sonho, o reflorir da primavera!…

Com teu cantar, que fica, além da vida,
podes curar, do amor, muita ferida,
com teu ressoar de vozes da quimera!…
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Trova Premiada de
EULINDA BARRETO
Bauru/SP

Passaste por minha vida
e eu escrevi nossa história…
na página envelhecida
eu te prendi… na memória!
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Sonetilho de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Num quartinho, sem ninguém…

Num quartinho, sem ninguém,
dorme o moço de Pasárgada,
sonha um homem que não tem
mais ninguém na madrugada.

Num quartinho, sem ninguém,
pousa o pássaro em jornada,
com jornais que não se leem
nestas margens da pousada.

Não tem sono, mas viola,
nota a nota, um violão,
com mil coisas na cachola...

Cão sem dono, pede esmola,
porta a porta, com seu cão
e, sozinho, os seus amola.
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Triverso de
ROSALVA FREITAS BRÜSCH
Curitiba/PR

Vento de inverno
Folheou o meu livro
E não leu nada.
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Setilha sobre o Mar, de
GONÇALO FERREIRA DA SILVA
Ipu/CE

Quando vejo o mar viajo
No doce rumorejar
A saudade evanescente
Como ao ouvido ditar:
Poeta a sua saudade
Recorda a necessidade
De novo retorno ao mar.
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Trova de
ADELMAR TAVARES
(Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti)
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

O perfume do teu lenço
trago comigo na mão.
Mas o cheiro da tua alma,
dentro do meu coração.
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Poetrix de
ÉVANES PACHE
Campo Grande/MS

sobre a mesa
velas acesas
emprestam luz à sobremesa.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Soneto à Trova

Atrai-me um bom poema modernista,
embora eu mais o sinta como prosa;
por mais encanto nele, à minha vista,
é como se faltasse aroma à rosa.

Poesia clássica... há quem lhe resista,
dizendo que é cerceada e artificiosa.
Não é verdade; o poeta nasce artista,
brunir seu verso é lide venturosa.

Por isso à trova eu mais me delicío;
a rima, o metro, o ritmo, o desafio
de dizer tudo em quadra pequenina...

Para cumprir tão exigente prova
e compor essa joia que é uma trova,
certamente nos guia... mão divina.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Nas costas, leva a criança
seus livros numa sacola;
nos olhos, leva a esperança
como colega de escola!
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Poema de
JUÇARA VALVERDE
(Juçara Regina Viégas Valverde)
Cruz Alta/RS

Noite

Na penumbra da noite,
desfio lembranças.
Escondidos sonhos afloram,
Despertam-me,
insone percebo a amplidão.

O cheiro da noite que a brisa trás
suavemente embala a vida.
Acalento recordações,
fantasias deliram
no passar das horas.

Surge a manhã.
Anunciado, vem o sol,
afaga as montanhas,
acaricia o mar
e me desperta.

Sigo dia adentro
entre bruma e sol,
fantasmas em despedida.
E a cada novo momento,
dispo-me
e livre
vou desfrutar o dia.
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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Asas da Poesia * 202 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

PREMATURO

Daquele ontem sem vida
restou a saudade;
uma saudade fria, incoerente, sofrida...
e essa mesma saudade
por puro azar, o meu peito invadiu.
O coração, coitado! Não resistiu,
parou de bater, cansou de sofrer,
tamanha se fez a adversidade. 
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Trova Humorística de
ANTÔNIO COLAVITE FILHO
Santos/SP

O meu cabelo, em verdade,
veja o estado que ele está:
- na banda de lá, metade;
 - metade em banda de cá ...
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Conversa Calada

Com tanto sentimento solitário,
meu existir interno é tão intenso,
que para reparti-lo às vezes penso
num interlocutor imaginário.

E sinto, então, falar de modo vário
minha alma com seu repertório imenso,
tão vasto que nem sei como é que venço,
sozinha, o turbilhão do meu fadário.

Embora eu tenha apenas uma vida,
termino por fazer-me bipartida,
se eu mesma falo e escuto a minha voz.

Na minha eterna e ardente introversão,
de tanto argumentar com a solidão,
eu vivo sempre dialogando... a sós.
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Aldravia de
ANNA RIBEIRO
Itajaí/SC

dor
em
gotas
sobre
púrpura
ilusão
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

Soneto verde

“O Paraibuna, rio singular 
Que vai passando mas não vai embora 
É testemunha mais que milenar 
Da mata do Krambeck em Juiz de Fora 

E diz que a mata é dona do lugar, 
Porque usucapiu a fauna e a flora 
E tudo que devemos preservar 
Desde ontem, hoje e séculos afora 

A mata é o grito verde permanente 
Da natureza em prol do meio-ambiente, 
O bem maior que a humanidade tem.

A mata é vida e em nome da harmonia 
A poetisa Clevane já dizia: 
Quem mata a mata morrerá também.” 
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Trova Premiada de
HELDER MARTINEZ DAL COL 
Campo Mourão/PR

Cada experiência nova:
fortuna, alegria ou dor,
acaba virando trova.
Destino de Trovador!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Olhar de poeta

Olhar de poeta capta diferente...
Em vez de empecilhos, vê a beleza!
É o poeta que sempre passa pra gente,
Dos  puros sentimentos, a sutileza.

Da adversidade ele tira poesia,
Nas densas trevas, o poeta põe luz;
Sabe transformar tristeza em alegria,
No vulto de Judas, projeta Jesus.

O poeta olha com a percepção
De quem sabe pôr encanto em sua rima.
O olhar do poeta deixa a sensação
De um ser altaneiro que enxerga por cima.

A Pátria, sob o olhar de um poeta,
Reconhecida é em seu esplendor.
Uma atitude de postura correta,
De quem em seus versos lhe dedica amor.

No olhar do poeta há a magia
Que a tudo transforma em inspiração.
Para os versos de amor ou de rebeldia,
Seu olhar é antena do coração.
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Quadra Popular

Triste daquele a quem falta,  
na vida, que se evapora,          
uma criança que salta,  
que canta, que ri e chora!
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Soneto de
CESÍDIO AMBROGI
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP

Manhã gloriosa

Cintila em ouro o sol pelos caminhos,
no esplendor da manhã que vem raiando;
ouve-se, além, o murmurar dos ninhos
e cruzam-se no espaço asas, noivando.

De em torno a um velho cocho, atropelando
inocentes e mansos cordeirinhos,
anda um poldro, a saltar. Passam riscando
o céu — flechas de neve — dois pombinhos.

E toda a terra que de luz se banha,
despe-se, enfim, das pérolas do orvalho,
para a luta da vida, intensa e estranha.

Obscuro e cruento o embate principia,
e tudo vibra à orquestra do trabalho,
na conquista do pão de cada dia...
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Trova de
RENATO MATTOSINHOS
Juiz de Fora/MG

Na noite fria, esquecido,
eu vejo dramas bisonhos,
sou um boêmio perdido,
sem a mulher dos meus sonhos.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro/MG, 1902 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

Imortalidade

Morre-se de mil motivos
e sem motivo se morre
de saudade,
morreu o poeta
sem morrer à eternidade
ele que fez de uma pedra
louvor para sua cidade
gauche, grande destro
sem querer celebridade
pelos mil que era
num só se fez único
ficando no seu primeiro
caráter de bom mineiro
jamais morrerá
e sempre será.
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Haicai de
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
Itapecerica/MG

O verde se pinta
mostrando serenas tramas
recriando a tinta.
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Sextilha de
LEANDRO GOMES DE BARROS
Pombal/PB

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.
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Trova de
NILTON MANOEL
(Nilton Manoel de Andrade Teixeira)
Ribeirão Preto/SP 1945 – 2024

Canta o galo, nasce o dia!
do chão da praça o sem nome,
põe num canto a moradia,
para lutar contra a fome.
= = = = = = = = = = = = = =  

Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE:
Caminhei por esta rua
procurando o teu calor,
ontem, eu quis dar-te a lua:
hoje, dou-te o meu amor!
José Feldman 
(Floresta/PR)

GLOSA:
Caminhei por esta rua,
deserta, sem um vivente,
carregando a minha crua
dor, por estares ausente!

A cada esquina espreitava
procurando o teu calor,
porém não o encontrava;
só um frio ameaçador!

Um pensamento insinua
quão louco fui... sonhador;
ontem, eu quis dar-te a lua:
loucura... de um trovador!

Agora, quero falar-te;
ouve bem o meu clamor:
se a lua não pude dar-te,
hoje, dou-te o meu amor!
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Aldravia de
ZÉLIA DENDENA SAMPAIO
Porto Alegre/RS

casa
de
palha
sono
que
gralha
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
(Afonso Henriques de Guimarães Filho)
Mariana/MG, 1918 – 2008, Rio de Janeiro/RJ

Onde estás...

Onde estás já não sei. Senti bem perto
teu corpo desejado e sempre esquivo.
O amor é um sonho tanto mais incerto
quanto se faça latejante e vivo.

Procuro em mim a estrela e nada vejo.
Quando foi que a perdi? Não me lamento.
Mas o desejo, a febre do desejo,
uiva no vento e se desfaz no vento...

Tudo é saudade em mim. Se estendo os braços,
não colho o teu silêncio. E estás distante...
Mas como em mim não sonhas, como insistes

em superar insônias e cansaços
e colocar no coração amante
coisas da infância, muito embora tristes!
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Trova Premiada de
LUÍZA FILLUS 
(Luíza Nelma Fillus)
Irati/PR

Mistérios são tênues linhas
que abrem possibilidades
de vislumbrar entrelinhas,
no mar das diversidades.
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Poema de
ANASTÁCIO LUÍS DO BONSUCESSO
Rio de Janeiro/RJ (1836 – 1899)

Os Ossos

Os ossos de um nobre se encontraram
Com os ossos de um peão. Estando a sós,
Nas tristes solidões de um cemitério,
Pergunta o nobre ao outro: “Os teus avós?…

Por entre essas ossadas que embranquecem
Da lua ao clarão mostrai-me os vossos.”
Responde-lhe o plebeu: “Não os distinguo;
São do nobre e plebeu iguais os ossos.”

Nas pedras sepulcrais ainda brilham
Dos homens a vaidade e a impostura!
Levantai-as, leitor, lede nos ossos…
Somos todos iguais na sepultura!
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Triverso de de
CAMILA JABUR
São Paulo/SP

vento nas cortinas,
fico atenta
ao que a manhã ensina.
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA 
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN

No sertão, cada filho é uma flor, 
que perfuma e inebria um lar feliz, 
quanto mais nasce gente em cada casa, 
mais o dono da casa pede bis; 
mamãe tinha um menino todo ano, 
papai pobre não quis mudar de plano 
criou onze do jeito que Deus quis.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

A história, através dos anos, 
ensina a grande lição: 
– o destino dos tiranos 
será sempre a solidão!
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Muralhas da razão

Nas lágrimas derramadas,
transbordantes de emoção,
essas águas são chamadas
torrentes do coração!…

Às vezes nem sabemos como nasce
tamanha angústia vinda, de repente,
e ao deslizarem lágrimas na face,
nos surpreende a súbita vertente.

Encurralados diante deste impasse:
— ver descoberto o nosso ser carente!...
Dentro de nós, talvez, algo ultrapasse
o escrúpulo insalubre e prepotente.

Lágrimas brotam, soltas, sem disfarce,
e o coração consegue apoderar-se
de um sentimento sufocado em vão.

Mas quando o pranto silencia um grito
pronto a lançar seu eco no infinito,
não derrubou muralhas... da razão!
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Poetrix de
ÂNGELA BRETAS
(Ângela Bretas Gomes dos Santos)
Flórida/USA 

Menino de Rua

Na miséria das ruas
Teu sorriso vem fácil
E a morte também…
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Jenipapeiro/PI

O Tempo Existe

Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.
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Trova de
DÉCIO RODRIGUES LOPES
Mogi das Cruzes/SP

Na minha "Melhor Idade",
sendo  velho, sou criança.  
Vivendo a felicidade...
No carrossel  "Esperança"!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ADOLFO CASAIS MONTEIRO
(Adolfo Vítor Casais Monteiro)
Porto/Portugal, 1908 – 1972, São Paulo/SP

Permanência

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
         não sabe nada de geografia celestial.
         Anda aos encontrões da realidade
         sem acertar o tempo com o espaço.
         Os relógios e as fronteiras não tem
         tradução na sua língua. Falta-lhe
         o amor da convenção em que nas outras
         as palavras fingem de certezas.
         O poeta lê apenas os sinais
         da terra. Seus passos cobrem
         apenas distâncias de amor e
         de presença. Sabe
         apenas inúteis palavras de consolo
         e mágoa pelo inútil. Conhece
         apenas do tempo o já perdido; do amor
         a câmara escura sem revelações; do espaço
         o silêncio de um voo pairando
         em toda a parte.
         Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
         — morto redivivo.

          Tudo é simples para quem
         adia sempre o momento
         de olhar de frente a ameaça
         de quanto não tem resposta.
         Tudo é nada para quem
         descreu de si e do mundo
         e de olhos cegos vai dizendo:
         Não há o que não entendo.
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