Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 31 de agosto de 2019

Isabel Furini (O Círculo do Poema)


Carlos Drummond de Andrade (A Viúva do Viúvo)


Conheceram-se, namoraram, amaram, casaram, tiveram filhos, desamaram, separaram-se, depois de tanto verbo conjugado em comum. Ele sumiu por aí, no anonimato sem responsabilidades. Ela ficou criando a trinca sem pai. Sem notícia um do outro, tempo passando, acontecimentos acontecendo, vida no corre-corre.

Ela até nem se lembrava mais de que fora casada. Eis que o marido reaparece na lembrança, quando uma filha lhe diz:

— Mãe, o pai está no hospital.

Que pai? Não sabia de pai nenhum, o seu morrera há tanto tempo, depois de dar tanto trabalho. (Descansa em paz, deixando a família descansada.) Há outros pais vivos por aí? De quem?

— O meu, uai.

Ah, sim. O pai dessa moça que está à sua frente, essa moça que é sua filha, e que antigamente tivera um pai. Um pai que fora seu marido, e que nunca mais aparecera, jogando sobre suas costas a obrigação de criar e educar os filhos.

Como as coisas emergem de um poço escuro, de repente! Pois não é que o ex-marido voltava à tona, com seus sinais particulares, seu modo de falar, seu jeito de ser e viver? Tão antigo, tão inexistente — mas ali.

Ela parecia não dar mais atenção ao que a filha ia dizendo.

— Escutou o que eu disse?

— Hem?

— O pai está no hospital.

— Que é que ele foi fazer lá? Vender seguro de vida aos doentes? (Agora se recordava de que ele fora corretor de seguros.)

— Está doente.

— Como você soube?

— Mandou me avisar. Não tem ninguém com ele, só a gente do hospital.

Então estava sozinho, depois de muitos anos, e se lembrava da filha para ter companhia no hospital. Não chegou a ter pena. Estavam tão distanciados os dois, que era como se soubesse que um japonês em Yamagata sofria de dor de dentes. A filha esperava um comentário, uma reação.

— Vai lá, querida.

Mais do que isso não poderia dizer, porque não havia nada mais a exprimir. Amores fanados não reverdecem, quando a vida caprichou em esmagá-los bem.

Se alguma coisa tivesse ficado exposta à luz, se um gesto dele, mínimo que fosse, ao longo de tanto tempo, alimentasse um resto possível de sentimento, ela agora teria pena. Mas pena de quê? de quem? se nem de si mesma sentia mais pena, conformada que estava com o irremediável das coisas, e refugiada, também, no pequeno mundo que se construíra e em que convivia com artistas obscuros do passado, através de estudos e pesquisas que eram uma fonte de prazer, compensador de alegrias que não tivera no casamento?

— Vai, minha filha, e vê o que ele precisa.

A filha foi e voltou contando que ele estava mal, parece que dessa não escapava. Como de fato não escapou. Sem pessoa alguma para cuidar do enterro, nem bens que pudessem custear a despesa, quem tomaria providências?

Então a ex-esposa, pessoa decidida, acostumada a fazer na hora certa o que é necessário fazer, decidiu presentear o ex-marido com o enterro decente que ele não tinha merecido, e que a ela custaria uma nota desarrumadora do seu orçamento modesto. Procurou a funerária, disse que pagaria tudo.

O empregado perguntou-lhe, entre xereta e reticente:

— A senhora… era companheira do falecido?

— Companheira? Sou viúva dele!

— Perdão, mas o falecido, quando se internou no hospital, declarou que era viúvo. A senhora quer ver? Vamos lá na Secretaria.

— Pois eu sou a viúva do viúvo, entende? E não estou fazendo nada para ficar com a herança dele, que não deixou um tostão de seu, além de me matar no papel. E vamos com esse serviço depressa, que eu preciso cuidar da minha vida de viúva-desquitada há muito tempo, tá bom?

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas.

Antonio Cabral Filho (Colar de Trovas) Dia do Nordestino


Tema: O Dia do Nordestino, 08 de outubro

01
Oito de outubro hoje é dia
De velho,  moço e menino,
saudar com toda alegria
*o dia do nordestino.*
Marcos Medeiros

02
O dia do nordestino,
como data especial,
merece ganhar um hino
e *feriado nacional*.
Antônio Cabral Filho
Jacarepaguá/RJ


03
Feriado nacional,
é um dia festejado;
nordestinos em geral
*curtem esse dia amado.*
M. Zilnete de M. Gomes
Campos dos Goytacazes/RJ

04
Curtem esse dia amado
os nordestinos felizes,
levando pra todo lado
*cultura em suas raízes.*
Aurineide Alencar
Dourados/MS


05
Cultura em suas raízes
o Nordeste tem demais,
muitos atores e atrizes
*que nos tratam como iguais.*
Antonio Francisco Pereira
- MG


06
Que nos tratam como iguais
sempre da melhor maneira
seus feitos são triunfais
*nação humilde e guerreira.*
Adriano Bezerra
Sta.Cruz/RN


07
Nação humilde e guerreira,
na luta por seu destino,
luz da nação brasileira,
*viva o povo nordestino!*
Antonio Cabral Filho
Jacarepaguá/RJ


08
Viva o povo nordestino,
que à nossa pátria dá vida!
Ser guerreiro é seu destino;
*sua luta é destemida!*
Oliveira Caruso
Niterói/RJ


09
Sua luta é destemida
no passado e no presente.
Jamais fugindo da lida
*nordestino é boa gente.*
Antonio Francisco Pereira
- MG


10
Nordestino é boa gente
tem um grande coração,
carrega vivo na mente:
*cultivar sua tradição.*
Aurineide Alencar
Dourados/MS


11
Cultivar sua tradição
é fator edificante,
para essa jovem nação
*pois, o Nordeste é importante!....*
Luiz Cláudio
 – RN


12
Pois, O Nordeste é importante,
também outras regiões;
é orgulho do habitante 
*das cidades e rincões.*
M. Zilnete de M. Gomes
Campos dos Goytacazes/RJ


13
Das cidades e rincões
chamo essa gente querida,
pra soltamos foguetões
*que meu Nordeste convida!...*
Luiz Cláudio
– RN

14
Que meu nordeste convida
terra do Luiz Gonzaga!
essa gente mui querida
*o meu coração afaga.*
Madalena Cordeiro
– ES


15
O meu coração afaga
todo o povo nordestino
e em mim nunca se apaga
*as lembranças de menino.*
Adriano Bezerra
Sta.Cruz/RN


16
As lembranças de menino
nas cantadas do Nordeste
têm cunho quase franzino
*quando vaqueiro se veste.*
Prof. Roque
- RS


17
Quando o vaqueiro se veste,
sua alma se contagia,
nordestino se reveste
*de orgulho e de alegria!*
Talita Batista
Campos dos Goytacazes/RJ


18
De orgulho e alegria
se encobre toda a nação,
sempre uma boa companhia
*nordestino coração.*
Prof. Roque
- RS


19
Nordestino Coração
Celebre com euforia
Com festa e muita emoção
*Oito de outubro é o dia.*
Adriano Bezerra
Sta.Cruz/RN


Fonte:
Trovadores do Brasil

João do Rio (História de Gente Alegre)


O terraço era admirável. A casa toda parecia mesmo ali pousada á beira dos horizontes sem fim como para admira-los, e a luz dos pavimentos térreos, a iluminação dos salões de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. Estávamos no Smart-Club, estávamos ambos no terraço do Smart-Club, esse maravilhoso terraço de vila do Estoril, dominando um lindo sítio da praia do Russel — as avenidas largas, o mar, a linha ardente do cais e o céu que tinha luminosidades polidas de faiança persa. Eram sete horas. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de jantar. Tomava-se um aperitivo qualquer, embebendo os olhos na beleza confusa das cores do ocaso e no banho viride [1] de todo aquele verde em de redor. As salas lá em cima estavam vazias; a grande mesa de baccarat [2], onde algumas pequenas e alguns pequenos derretiam notas do banco — a descansar. O soalho envernizado brilhava. Os divãs [3] modorravam em fila encostados às paredes — os divãs que nesses clubes não têm muito trabalho. Os criados, vindos todos de Buenos Aires e de S. Paulo, criados italianos marca registrada como a melhor em Londres, no Cairo, em New York, empertigavam-se. E a viração era tão macia, um cheiro de salsugem [4] polvilhava a atmosfera tão levemente, que a vontade era de ficar ali muito tempo, sem fazer nada.

Mas a noite já estendia o seu negro brocado picado de estrelas e no pleinair do terraço começavam a chegar os smart-diners. Que curioso aspecto! Havia franceses condecorados, de gestos vulgares, ingleses de smoking e parasita à lapela, americanos de casaca e também de brim branco com sapatos de jogar o football e o lawn tenis [5], os elegantes cariocas com risos artificiais, risos postiços, gestos a contragosto do corpo, todos bonecos vítimas da diversão chantecler, os noceurs [6] habituais, e os miches [7] ricos ou jogadores, cuja primeira refeição deve ser o jantar, e que apareciam de olheiras, a voz pastosa, pensando no bacchemin-de-fer[8], no 9 de cara e nos pedidos do último béguin [9]. O prédio, mais uma “ vila ” da bacia do Mediterrâneo, ardia na noite serena, parecia a miragem dos astros do alto; as toalhas brancas, os cristais, os baldes de christofle [10] tinham reflexos. Por sobre as mesas corria como uma farândola [11] fantasista de pequenas velas com capuchons [12] coloridos, e vinha de cima uma valsa lânguida, uma dessas valsas de lento enebriar, que adejam vôos de mariposas e têm fermatas que parecem espasmos. No meio daquela roda de homens, que se cumprimentavam rápidos, dizendo apenas as últimas sílabas das palavras: — B’jour, Plo... deus! goo, iam chegando as cocottes [13], as modernas Aspásias [14] da insignificância. Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos; outras tinham atitudes simplistas dos primitivos italianos. Havia na sombra do terraço, um desfilar de figuras que lembravam Rossetti e Heleu, Mirande e Herman-Paul, Capielo e Sem, Julião e também Abel Faivre, porque havia cocotes gordas, muito gordas e pintadas, ajaezadas de jóias, suando e praguejando. Falavam todas línguas estrangeiras — o espanhol, o francês, o italiano, até o alemão com o predomínio do parigot, do argot, da langue verte [15]. Só se falava mesmo calão de boulevard [16]. Fora, à entrada, paravam as lanternas carbunculantes [17] dos autos, havia fonfons roucos, arrancos bruscos de máquinas H. P. 60. Aquele ambiente de internacionalismo à parisiense cheio do rumor de risos, de gluglus de garrafas, de piadas, era uma excitação para a gente chique. O barão André de Belfort, elegantíssimo na sua casaca impecável convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse de arte antiga — porque ele tinha estudos pessoais sobre a noção da linha na Grécia de Péricles. Evidentemente, antes de terminar o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma daquelas figurinhas escapas de Tanagra [18] ou qualquer dos gordos monstros circulantes...

De súbito, porém, na alegria do terraço ouvi por trás de mim uma voz de mulher dizer:

— Pois então não sabes que a Elsa morreu hoje de madrugada?

Não me voltei. A mulher conversava noutra mesa. Mas senti um pasmo assustado. Elsa! Seria a Elsa d’Aragon, uma carnação maravilhosa de dezoito anos, lançada havia apenas um mês por um manager [19] de music hall, cuja especialidade sexual era desvirginar meninas púberes? Seria ela com os seus olhos verdes, a pele veludosa de rosa-chá e aquela esplêndida cabeleira negra de azeviche? E morrer em plena apoteose, cheia de joias e de apaixonados! Indaguei do meu conviva:

-— Morreu a Elsa d’Aragon?

O barão Belfort encomendava enfim o car­dápio. Acabou tranquilamente a grave operação, descansou o monóculo em cima da mesa.

— Exatamente. Parece que a apreciavas? Pobre rapariga! Foi com efeito ela. Morreu esta madrugada.

— De repente?

— Com certeza. Devia ter sido uma linda morte. Beleza horrível. Não se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas, em todos os conventilhos elegantes patronados pelas velhas cocotes ricas, nas rodas dos jogadores. A Elsa era muito nature [20], com a fobia do artifício, mas soube morrer furiosamente.

— Como foi?

Neste momento chegara a “bisque” [21] e o balde com a Môet, brut imperiale [22], que o velho dandy [23] bebe sempre desde o começo do jantar.

O barão atacou a “ bisque”, deu não sei que ordem ao maître-d’hôtel, e murmurou:

— É uma história interessante. Você de certo ainda não quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os excessos por enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas, altamente cotadas ou apenas da calçada, são, como direi? as excedidas das preocupações. Estão sempre enervadas, paroxismadas. O meio é atrozmente artificial, a gargalhada, o champanhe, a pintura encobrem uma lamentável pobreza de sentimentos e de sensações. Ao demais, a vida tem um regulamento geral de excessos, e elas fatalmente pela lei, têm que fazer pagar caro e arruinar os idiotas, têm de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpa [24] e as bata, têm que embriagar-se e discutir os homens, os negócios das outras, tudo mais ou menos exorbitando. Uma paixão de cocote é sempre caricatural, é sempre para além do natural, do verdadeiro, e a sua pobre vida, tenha ela centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles, é sempre uma hipótese falsificada de vida, uma espécie de fiorde num copo d’água, à luz elétrica. Todas amam de modo excepcional, jogam excessivamente, embriagam-se em vez de beber, põem dinheiro pela janela à fora em vez de gastar, quando choram, não choram, uivam, ganem, cascateiam lágrimas. Se têm filhos, quando os vão ver fazem tais excessos que deixam de ser mães, mesmo porque não o são. Duas horas depois os pequenos estão esquecidos. Se amam, praticam tais loucuras que deixam de ser amantes, mesmo porque não o são. Elas tem varias paixões na vida. Cinco anos de profissão acabam com a alma das galantes criaturinhas. Não há mais nada de verdadeiro. Uma interessante pequena pode se resumir: nome falso, crispação de nervos igual à exploração dos “gigolôs” e das proprietárias, mais dinheiro apanhado e beijos dados. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins da miséria humana.

— A Elsa, então?

— A Elsa foi atirada subitamente numa pensão do Catete. Sabes o que é a vida em casas de tal espécie. Elas acordam para o almoço, em que aparecem vários homens ricos. O almoço é muito em conta, os vinhos são caríssimos. A obrigação é fazer vir vinhos. Desde manhã elas bebem champanhe e licores complicados. Nesses almoços discute-se a generosidade, a tolice, ou a voracidade dos ma­chos. A tarde é dada a um ou a dois. Às cinco, toilette e o passeio obrigatório. À noite, o jantar em que é preciso fazer muito barulho, dançar entre cada serviço ou mesmo durante, dizer tolices. Depois o passeio aos music-halls, com os quais tem contrato as proprietárias, e a obrigação de ir a um certo clube aquecer o jogo. Cada uma delas têm o seu cachê por esse serviço e são multadas quando vão a outro — que, como é de prever, paga a multa. O resto é ainda o homem até dormir. Nesse fantochismo lantejoulado há vários gêneros: o doidivana, o sério, o reservado, o nature, o romântico, e para encher o vazio, os vícios bizarros surgem. Elas ou tomam ópio, ou cheiram éter, ou se picam com morfina, e ainda assim, nos paraísos artificiais são muito mais para rir, coitadas! mais malucas no manicômio obrigatório da luxúria. A Elsa era do gênero nature. Ancas largas, pele sensível, animal sem vícios. Tentou os petimetres, [25] os banqueiros fatigados, os rapazes calvos e, com oito dias estava com os nervos esgarçados, estava excedida. Mesmo porque, desde a primeira hora olhava-a com o seu olhar de morta a Elisa, a interessante Elisa.

— Ah!

— Elisa é um tipo talvez normal nesse ambiente. Tem os cabelos cortados, usa eternamente um gorro de lontra. Nunca a vi com uma joia e sem o seu tailleur cor de castanha. É feia, não deve agradar aos homens, mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas. Escreve cartas, arranja entrevistas, tem conhecimentos, e dizem-na com todos os vícios, desde o abuso do éter até o unissexualismo [26]. Ora, era Elisa com os seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa, e Elsa sentia uma extraordinária repugnância, um nojo em que havia medo ao mais simples contato. Elisa sorria, a Elisa que está sempre nesses lugares, sem colete com o seu corpo de andrógino morto. E era em toda parte aquele mesmo olhar acompanhando Elsa, pregando-se a todos os seus gestos, lambendo cada atitude da criatura. Uma noite, as duas Lacroix Ducerny, as que vestem sempre iguais e fazem fortuna em comum, asseguraram-me que Elisa já não servia para nada, perdida, louca de paixão; e, com grande pasmo meu ao entrar num clube ultra infame, eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e, muito naturalmente, Elisa ao lado. Era a aproximação...

— Safa!

— Meu caro, nada de repugnâncias. Prove este faisão. Está magnífico. Ora, ontem, no Casino, como a pobre Elsa estava totalmente fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável, tive prazer em ir apertar-lhe a mão. — “ Então, como vai com esta vida?” — “ Como vê, muito bem.” — “ Mas está nervosa.” — “ Há de ser de falta de hábito. Acabo por acostumar.” —“Com um tão belo físico...” — “Não seja mau, deixe os cumprimentos.” E de súbito — “ Diga-me, barão, não há um meio da gente se ver livre disto? Não posso, não tenho mais liberdade, já não sou eu. Hoje, por exemplo, tinha uma imensa vontade de chorar.” — Chore, é uma questão de nervos. Ficará de certo aliviada.” — “Mas não é isso, não é isso, homem!” — “ Se a menina continua a gritar, participo-lhe que vou embora.” —“Não, meu amigo, perdoe. É que eu estou tão nervosa! tanto! tanto... Queria que me desse um conselho. — “Para que?” — “ Para aliviar-me.” — “É difícil. Você sofre de um mal comum, a surmenage [27] do artifício. Eu podia dizer-lhe: re­colha-se a um convento. Mas pareceria brincadeira e talvez viesse a morrer mística, a conversar com os anjos, como Swedenborg [28]. Conheci algumas que acabaram assim. Podia também, se fosse um idiota, aconselhar a vida honesta. Mas isso seria impossível porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é a norma, a saudade e as lembrança deixá-la­iam amargurada. Depois não tem recursos e teria sempre que pôr em circulação o seu lindo capital.” — “ Barão, por quem é, fale-me sinceramente.” —“Então, minha filha, aconselho uma paixão ou um excesso, um belo rapaz ou uma extravagância.” —. “ Nesta roda não há belos rapazes.” — “ De acordo, há quando muito velhos recém-nascidos. Mas é recorrer à multidão, passar uma noite percorrendo os bairros pobres, experimentar. Ou então, minha cara, um grande excesso : champanhe, éter ou morfina...” Voltei-me para a sala. Num camarote fronteiro a Elisa olhava com os seus dois olhos de morta. “ E se não a repugna muito uma grande mestra dos paraísos artificiais, a Elisa”. — “ Não fale alto, que ela percebe.” — “Então já a sabia lá?”. — Corri-a ontem do meu quarto. É um demônio.”— “ Mas você precisa de um demônio.” — “ O que ela faz...” — “ Já sei, toda a gente faz. Mas naturalmente ela é excepcional.” — “ Barão, vá embora.” — “ Adeus, minha querida.” Quando dei a volta para falar a Elisa, já esta deixara vazio o camarote.

— E então, como morreu a linda criatura?

—- Aceitando o meu conselho. A sua morte pertence ao mistério do quarto, mas devia ser horrível. Elsa partiu do music-hall diretamente para casa, pretextando ao banqueiro que lhe ia pôr um pe­queno palácio, a forte dor de cabeça — a clássica migraine [29] das cocotes enfaradas ou excedidas E apareceu na ceia da pensão como uma louca, a mandar abrir champanhe por conta própria. Quando por volta de uma hora apareceu a figura de larva [30] da Elisa, deu um pulo da cadeira, agarrou-lhe o pulso: “ Vem; tu hoje és minha!” Houve uma grande gargalhada. Essas damas e mais esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa, e aquela vitória excitava-os. Elisa molemente sentou-se ao lado da Elsa, que bebia mais champanhe, sentia afrontações e torcia os dedos da apaixonada por baixo da mesa. Era o desespero. Mimi Gonzaga assegurou-me que ela recebera uma carta da mãe logo pela manhã. No fim, Elsa, pálida e ardente, dizia: “Viens, mon cheri, que je te baise!” e mordia raivosamente o pescoço da Elisa. Via-se a repugnância, a raiva com que ela fazia a cena de Lesbos — pobre rapariga sem inversões e estetismos à Safo [31]... A ceia acabou em espetáculo, e acabaria com todos os espectadores, se algumas mulheres com ciúmes dos seus senhores — ah! como elas são idiotas! — não os tivessem levado. Elsa às duas e meia fez erguer-se a Elisa, calada e misteriosamente fria. “Vão tomar morfina? interrogou um dos assistentes, cuidado, hein?” Elsa deu de ombros, sorriu, saiu arrastando a outra. E a desaparição foi teatral ainda. Os olhos verdes da Elsa bistrados [32], a sua cabeleira desnastra [33], agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e alourada da miserável que a queria.

Que horror!

— A coitadinha aturdia-se. É o processo habitual. Para mostrar a sua livre vontade caía na extravagância, agarrava o tipo que a repugnava, para mergulhar inteiramente no horror. Estive quase a acreditar que tivesse recebido alguma lembrança dos parentes, e imaginei um instante a cena sinistramente atroz do quarto em que enfim, como uma larva diabólica, o polvo louro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda criatura ardente, ainda com uns restos de alma de mulher... Nunca porém pensei no fim súbito.

Pelas cinco horas da manhã, a pensão acordava a uns gemidos roucos, que vinham do quarto de Elsa. Eram bem gritos estertorados de socorro. As mulheres desceram em fralda, os criados ergueram-se com o sorriso cínico habituado àquelas madru­gadas agitadas de ataques e de delírios histéricos. A porta do quarto estava fechada. Bateram, bateram muito, enquanto lá dentro o som rouco rouquejava. Foi preciso arrombar a porta. E a cena fez recuar no primeiro momento a tropa do alcouce. Como luz havia apenas a lamparina numa redoma rosa. O quarto. cheio de sombra, mos­trava, em cima das poltronas, as sedas e os dessous [34] de renda da Elsa. Um frasco de éter aberto, empestava o ambiente. A Elisa, o corpo da Elisa estava de joelhos à beira da cama. Os braços pendiam como dois tentáculos cortados. Inteiramente nua, o corpo divino lívido, os cabelos negros amarrados ao alto como um casco de ébano, Elsa d’Aragon, as pernas em compasso, a face contraída, ainda sentada agarrava com as duas mãos numa crispação atroz, a cabeça da Elisa. Era Elisa que rouquejava. Elsa estava bem morta, o corpo já frio. Devia ter havido luta, resistência de Elsa, triunfo da mulher loura e por fim sem fim até a morte, enquanto a outra se estorcia, apertava-a, arrancava-lhe os cabelos, machucava-lhe o rosto — aquele horror. Elsa entrara no nada debatendo-se, vítima de um suplício diabólico, mas no último espasmo as suas mãos agarram a assassina. Quando esta afinal satisfeita quis erguer-se, sentiu-se presa pelos cabelos, tentou lutar, viu que a pobre era cadáver. E passou-se então para o monstro o momento do indizível terror, o momento em que se vê para sempre o mundo perdido porque ficou imóvel rouquejando, de joelhos, a cabeça no regaço do cadáver, que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus cabelos de ouro. Os dedos de resto pareciam de aço. Uma das mulheres recorreu à tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do cadáver. Quando o corpo tombou no leito com o punhado da cabeleira nas mãos, o bando estremunhado viu surgir a face de Elisa, tão decomposta, tão velha, que parecia outra, como que aparvalhada.

Houve um silêncio. O criado servia frutas geladas, esplêndidas peras de Espanha e uvas das regiões vinhateiras da Borgonha, grandes uvas negras. O barão trincou de uma pêra.

— Foi uma complicação para afastar a polícia e impedir notícias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu horas depois para o hospício, babando e estertorando. A Elsa devia ter sido enterrada hoje á tarde. Estive lá a ver o cadáver. Tinha ainda nas mãos cerradas fios de cabelos louros, como se quisesse arrancar para o túmulo a prova desesperada da sua morte horrível.

E mordeu com apetite a pera. No salão de cima uma valsa lenta, chorada pelos violinos, enlanguescia o ar. Das mesas do terraço entre a iluminação bizantina das velas de capuchons coloridos subia o zumbido alegre feito de risos e de gorjeios de todas aquelas mulheres que o jantar alegrava.
______________________
Notas:
[1] Verde, esverdeado.
[2] Jogo de cartas de origem francesa, em que tomam parte um banqueiro e vários jogadores, ganhando o grupo que com duas ou mais cartas, perfizer o total de pontos mais próximo de nove. Bacará.
[3] Espécie de sofá ou canapé de origem persa, sem encosto ou braço.
[4] Maresia.
[5] Tênis de gramado. Em inglês no texto.
[6] Pessoa de vida dissoluta, boêmio.
[7] Michês. Diz-se de quem paga ou recebe por favores sexuais. Em francês no texto.
[8] Modalidade do bacará. Em francês no texto.
[9] Flerte. Em francês no texto.
[10] Aplicação ornamental de ouro em cristal, vidro ou metal, que recebeu o nome de seu criador, o industrial francês Charles Christofle (1808-1863).
[11] Tipo de dança popular provençal.
[12] Protetor de velas de cera, que as impede de serem apagadas pelo vento. Em francês no texto.
[13] Mulheres de vida alegre. Em francês no texto.
[14] Companheira de Péricles, governante de Atenas durante o século V AC., o período áureo do cultura clássica.
[15] Parigot, argot e langue verte são denominações da gíria parisiense do baixo mundo.
[16] Rua larga e arborizada, símbolo da modernidade de Paris após a reforma urbana de Haussmans. No Rio de Janeiro, o prefeito Pereira Passos realizou reforma semelhante entre 1904 e 1909, inaugurando a Avenida Central ( Rio Branco), um típico boulevard carioca. Em francês no texto.
[17] De carbúnculo, ou rubi. Da cor vermelha.
[18] Relativo à cidade grega de Tanagra, célebre por suas esculturas de linda mulheres esbeltas.
[19] Empresário. Em inglês no texto.
[20] Mulher que dispensa os artifícios da maquiagem. Em francês no texto.
[21] Sopa de frutos do mar. Em francês no texto.
[22] Marca nobre de champanhe. Em francês no texto.
[23] Tipo de homem elegante e refinado, com senso de humor debochado e iconoclasta, típico do período entre 1870 e 1918 (Bele-époque). Oscar Wilde e João do Rio foram típicos dândis. Em inglês no texto.
[24] Dinheiro.
[25] Indivíduo vestido com apuro exagerado. Janota. Novo-rico.
[26] Homossexualismo.
[27] Exagêro.
[28] Emanuel Swedenborg (1688-1772), cientista e filósofo sueco, que também estudou o mundo sobrenatural. Suas ideias influenciaram muito o Romantismo. Uma seita de seus seguidores foi estudada por João Rio in As religiões no Rio (1904).
[29] Enxaqueca. Em francês no texto.
[30] Fantasma. Espírito malfazejo que vaga entre os vivos para fazer o mal.
[31] Poetisa da Grécia clássica, que instituiu na ilha de Lesbos uma escola apenas para moças. Originou-se daí a denominação de lesbianismo ou safismo para o homossexualismo feminino.
[32] Olhos bistrados: com olheiras.
[33] Destrançada.
[34] Roupas de baixo. Em francês no texto.


Fonte:
João do Rio. Dentro da Noite.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Varal de Trovas n. 65


Francisca Júlia (Anacreonte)


Em Téos, na Grécia antiga, havia um poeta que se chamava Anacreonte.

Era velho, tinha os cabelos inteiramente brancos e as barbas aneladas e longas, que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto simpático e venerando.

Era o homem mais feliz que havia. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites, nada lhe faltava.

Sua habitação ficava à beira do mar, cujas ondas, na enchente, vinham até à sua porta, quebrando-se em espumas alvas.

Pela manhã, mal a aurora tinha nascido, as camponesas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Uma trazia um cântaro de barro cheio de leite gordo, outra um púcaro de saboroso vinho espumante e frutas de todas as qualidades; outra ainda um vaso de água pura para as abluções matinais do poeta. Depois untavam-lhe as barbas e cabelos com óleos aromáticos, perfumavam-lhe os pés com mirra sândalo, e esperavam, sentadas no chão, os agradecimentos do velho.

Anacreonte ficava em pé, majestoso na sua inspiração poética, e, com largos gestos e voz grave, ia cantando as odes que tinha composto durante a noite, fazendo-se acompanhar a uma lira de prata, cujas cordas desferiam os mais melodiosos acordes.

As raparigas sabiam em seguida e atravessavam o campo em direção às suas casas, cantando as odes do poeta com suas vozes juvenis. Os camponeses, que não podiam ir fazer ao velho a visita matinal, porque os impedia o trabalho da lavoura, a criação das ovelhas e o fabrico do vinho, contentavam-se com vir ao encontro das moças, para ouvir dos seus lábios as últimas composições de Anacreonte.

Assim vivia ele, absolutamente feliz, querido e admirado por todos, preocupando-se apenas com seus .versos, indiferente a outros afazeres.

Policrato, porém, tirano de Samos, curioso por conhecer o poeta, ouvir-lhe dos próprios lábios a poesia das suas odes, mandou chamá-lo.

Anacreonte, uma bela manhã, sobraçando a sua lira de prata encordoada de novo, com sua túnica de púrpura preza aos ombros, uma coroa de pâmpanos e heras em torno afronte, embarcou numa galera, e partiu mar fora.

Policrato tinha ordenado que se preparasse um banquete real para festejar-lhe a recepção. Anacreonte apareceu.

Todos os que estavam ao redor da mesa, onde se ostentavam as mais extraordinárias iguarias, levantaram-se com as taças transbordantes e gritaram:

— Evohé! — que era o grito de satisfação dos gregos.

Anacreonte, então, em pé no meio dos convivas, admirável na sua roupagem de púrpura, empunhou o instrumento sonoro, arrancou um acorde e começou a entoar um hino de louvor a Policrato. Seus versos eram tão belos, tão inspirados, sua voz tão clara, que todos estavam suspensos de admiração, embriagados de poesia. Policrato aproximou-se do poeta, curvou-se em sinal de admiração ao seu gênio, deu-lhe uma bolsa cheia de moedas de ouro, e disse-lhe:

— Toma esta bolsa; é tua; contém uma fortuna. Quero que sejas o homem mais poderoso de Samos. Amanhã cantar-me-ás uma ode igual a essa.

Anacreonte agradeceu. À noite, quando se retirou para os seus aposentos, começou a pensar na fortuna que lhe pertencia, nas terras que havia de comprar à beira mar, plantadas de vinha, nas ovelhas brancas pastando pelos outeiros, no cortejo de escravos que havia de ter, na felicidade, enfim, que lhe dariam aquelas pesadas moedas de ouro. E não pode dormir, tal era a satisfação de que se achava possuído.

Pela manhã tinha um aspecto doentio, os olhos amortecidos.

Procurou Policrato e disse:

— Senhor! aqui está a vossa bolsa e o ouro que ela contém. Não a quero. Desde que a poesia bafejou minh'alma, ainda se não passou uma noite em que não compusesse uma ode; ontem, porém, a riqueza que me destes preocupou tanto minha imaginação, que não consegui dormir nem compor a ode que me pedistes. Adeus. Quero partir para Téos, pobre como vim, porém feliz na minha pobreza. Para que servem fortunas? Nada me falta: tenho o bom leite, o excelente vinho, a água fresca para as minhas abluções e a amizade dos meus vizinhos. Esta é a minha riqueza. Adeus.

Fonte:
O Poeteiro (Iba Mendes)

Caldeirão Poético XXXI


A. J. PEREIRA DA SILVA
(1876-1944)

INCOGNITUS


Anda comigo uma tristeza estranha...
Tristeza? Não. Saudade inconsequente
De um país que uma luz de lua doente,
Como os minguantes outoniços, banha,

Essa ideia imanente me acompanha
De tal maneira o espírito vidente,
Que já sofro da falta desse ambiente
De clima luminoso e ar de montanha.

Vivi alhures? Guardo, impercebida,
Como na calma azul de um céu profundo,
A ingênita memória de outra vida?

Quem sabe? Um senso incógnito me diz
Que de outra forma viva e noutro Mundo
Pode alguém ser feliz... e eu fui feliz.

BONFIM SOBRINHO
(1875-1900)

NOIVADO FÚNEBRE

Negra tristeza meu semblante encova,
Ó noiva amada, lírio meu fanado!
Porque não vamos na mudez da cova
Em círios celebrar nosso noivado?

Nos sete palmos desse leito amado,
Ao frio bom de uma volúpia nova,
Há de embalar o nosso amor gelado
O coveiro a cantar magoada trova.

E os nossos corpos gélidos, inermes,
Em demorados e famintos beijos,
Serão depois roídos pelos vermes...

E do leito final que nos encerra
Em plantas brotarão nossos desejos,
E o nosso amor, em flores, sobre a terra.

FRANCISCA JÚLIA DA SILVA
(1874-1920)

A FLORISTA


Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranquila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

HENRIQUE CASTRICIANO
(1874-1947)

A MISSA DO MAR


Eis-nos sós, companheiro! Amargurado Oceano,
Deixa-me descansar ao pé de ti, meu velho...
Depois de ter ouvido o Ritual Romano,
Quero aprender de cor o teu santo Evangelho.

Abre o verde Missal! Como um Padre, de joelho,
Põe nos ombros azuis o manto soberano;
E do Sol preso ao Céu, de seu disco vermelho,
Faze uma hóstia de luz, faze um símbolo humano.

Sobe o dia no Azul. Tontas de amor, no Espaço,
Gaivotas vão subindo... Ergue-se, ao longe, o braço
De um monte secular, entre nimbos risonhos...

E, ao ver tudo ascendendo, eu procuro o infinito
De tua Alma sem fim, para esconder, num grito,
Minhas queixas! meus ais! minhas penas! meus sonhos!

JONAS DA SILVA
(1880-1947)

Ó LARANJAL SEM FLOR!


Ó laranjal sem flor, ó limeira sem lima,
De braços hirtos como os de um Crucificado,
Talvez S. Sebastião, ao cumprir o seu fado,
Contra vós atirasse a maldição do clima.

Folha a folha, o tufão foi despindo a alta cima
Onde outrora cantava o sabiá namorado;
Hoje apenas lembrais o imortal torturado
Ou um mártir da Ilusão no Calvário da rima.

Como somos irmãos nesta vida em que vamos!
Voltarão pelo inverno os rebentos de outrora,
Os sabiás voltarão a cantar sobre os ramos.

E esta alma encontrará novamente a que estima?
E esta alma encontrará novamente a que adora?
Ó laranjal sem flor, ó limeira sem lima...

JOSÉ ALBANO
(1882-1923)

SONETO

Bom Jesus, amador das almas puras,
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.

A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino.

E, terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, Pastor Divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho.

LUÍS GUIMARÃES FILHO
(1878-1940)

VÊNUS


Lembro-me ainda dessa esbelta e flava
Carícia dos teus braços amorosos...
Por mais que evite o encanto, os impiedosos
Perseguem sempre a minha carne escrava!

Eram suaves, cálidos, cheirosos,
Como doces damascos! Eu beijava
Aquela morna pele que tentava
O paladar! Oh! braços deliciosos,

Como esquecer as núpcias perturbantes,
Os longos desalentos delirantes
Que sem misericórdia vós me dáveis?

Ah! torna, Vênus, para o sacro Elêusis!
Fui condenado à morte pelos deuses,
E quero-a nos teus braços implacáveis

MENDES MARTINS
(1876-1915)

VELHINHOS

E vai fugindo o tempo. E, aos poucos, vem chegando,
Ai, vem chegando a idade em que eu serei velhinho,
Sopra o vento lá fora, as árvores curvando
E, em busca de outro lar, deserta o passarinho

- Ai, que frio! - eu murmuro. E, cheia de carinho,
Te chegas para mim, as minhas mãos tomando.
Ai, que frio, meu Deus! - torno a dizer baixinho,
De teu colo moreno as rugas contemplando.

E a lamparina estala e, trêmula, esmorece...
Lá fora, o temporal, bramindo, recrudesce
E solta, finalmente, os últimos arrancos...

E à luz crepuscular, que te sombreia os traços,
Tenho assomos de moço: aperto-te em meus braços
E beijo, apaixonado... os teus cabelos brancos.

Clarice Lispector (A Partida do Trem)


A partida era na Central com seu relógio enorme, o maior do mundo. Marcava seis horas da manhã.

Angela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem-vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa. Chega-se a um certo ponto – e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.

Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:

– A senhora deseja trocar de lugar comigo?

Dona Maria Rita se espantou com delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo. Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filigranado de ouro, espetado no peito, passou a mão pelo broche, tirou-a, levou-a ao chapéu de feltro com uma rosa de pano, retirou-a. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:

– É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?

Angela Pralini disse que não, surpreendeu-se, a velha se surpreendeu pelo mesmo motivo: não se recebe favor de uma velhinha. Ela sorriu um pouco demais e os lábios cobertos de talco se partiram em sulcos secos: ela estava encantada. E um pouco agitada:

– Que amabilidade a sua, disse-lhe, que gentileza.

Houve um movimento de perturbação porque Angela Pralini riu também, e a velha continuava a rir, mostrando a dentadura bem areada. Deu discretamente um puxão para baixo na cinta que a apertava demais.

– Que amabilidade, repetiu.

Recompôs-se um pouco depressa, cruzou as mãos sobre a bolsa que continha tudo o que se pudesse imaginar. As rugas, enquanto ela rira, haviam tomado um sentido, pensou Angela. Agora estavam de novo incompreensíveis, superpostas num rosto de novo imodelável. Mas Angela tirara-lhe a tranquilidade. Já vira muita moça nervosa que se dizia: se eu rir um pouco mais estrago tudo, vai ser ridículo, tenho que parar – e era impossível. A situação era muito triste. Com imensa piedade, Angela viu a cruel verruga no queixo, verruga da qual saía um pelo preto e espetado. Mas Angela lhe tirara a tranquilidade. Via-se que sorriria a qualquer momento: Angela pusera a velha nas pontas dos pés. Agora ela era uma dessas velhinhas que parecem pensar que estão sempre atrasadas, que passaram da hora. Daí a um segundo não se conteve, ergueu-se e espiou pela sua janela, como se fosse impossív l manter-se sentada.

– A senhora está querendo levantar o vidro? disse um rapaz que ouvia no rádio de pilha Haendel.

– Ah! exclamou ela aterrorizada.

Oh não!, pensou Angela, estava se estragando tudo, o rapaz não deveria ter dito isso, era demais, não se devia tocá-la de novo. Porque a velha, quase a ponto de perder a atitude de que vivia, quase a ponto de perder certa amargura, tremia como música de cravo entre o sorriso e o extremo encanto:

– Não, não, não, disse ela com falsa autoridade, de modo algum, obrigada, só queria olhar.

Sentou-se imediatamente como se a delicadeza do rapaz e da moça a vigiasse. A velha, antes de subir no trem, persignou-se com três cruzes no coração, beijando discretamente as pontas dos dedos. Estava de vestido preto com gola de renda verdadeira e um camafeu de ouro puro. Na escura mão esquerda as duas alianças grossas de viúva, grossas como não se faziam mais. Ouvia-se do outro vagão o grupo de bandeirantes que cantavam o Brasil agudamente. Felizmente no outro vagão. A música do rádio do rapaz entrecruzava-se com a música de outro rapaz: estava ouvindo Edith Piaf que cantava J’attendrai.

Fora então que o trem de repente deu um solavanco e as rodas se puseram em movimento. Começara a partida. A velha disse baixinho: Ai Jesus! Ela se banhava na calda de Jesus. Amém. Pelo rádio de pilha de uma senhora soube-se que eram seis e trinta da manhã, manhã friagenta. A velha pensou: o Brasil melhorava a sinalização de suas estradas. Um tal de Kissinger parecia mandar no mundo.

Ninguém sabe onde estou, pensou Angela Pralini, e isso assustava-a um pouco, ela era uma fugida.

– Meu nome é Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo – Alvarenga Chagas era o sobrenome do meu pai, acrescentou em pedido de desculpa por ter que falar tantas palavras só em dizer seu nome. Chagas, acrescentou com modéstia, eram as Chagas de Cristo. Mas pode me chamar de dona Maria Ritinha. E o seu nome?, a sua graça qual é?

– Meu nome é Angela Pralini. Vou passar seis meses na fazenda de meus tios. E a senhora?

– Ah, eu vou para a fazenda de meu filho, vou ficar lá para o resto da vida, minha filha me trouxe até o trem e meu filho me espera com a charrete na estação. Sou como um embrulho que se entrega de mão em mão.

Os tios de Angela não tinham filhos e tratavam-na como filha. Angela lembrou-se do bilhete que deixara para Eduardo: “Não me procure. Vou desaparecer de você para sempre. Te amo como nunca. Adeus. Tua Angela não foi mais tua porque você não quis.”
 
Ficaram em silêncio. Angela Pralini entregou-se ao ruído cadenciado do trem. Dona Maria Rita olhou de novo para o próprio anel de brilhantes e pérola no seu dedo, alisou o camafeu de ouro: “Sou velha mas sou rica, mais rica que todos aqui no vagão. Sou rica, sou rica.” Espiou o relógio, mais para ver a grossa placa de ouro do que para ver as horas. “Sou muito rica, não sou uma velha qualquer.” Mas sabia, ah bem sabia que era uma velhinha qualquer, uma velhinha assustada pelas menores coisas. Lembrou-se de si, o dia inteiro sozinha na sua cadeira de balanço, sozinha com os criados, enquanto a filha public relations passava o dia fora, só chegava às oito da noite, e nem sequer lhe dava um beijo. Acordara-se neste dia às cinco da manhã, tudo ainda escuro, fazia frio.

Depois da delicadeza do rapaz estava extraordinariamente agitada e sorridente. Parecia enfraquecida. No riso ela se revelava uma dessas velhinhas cheias de dentes. A crueldade deslocada dos dentes. O rapaz já se tinha afastado. Ela abria e fechava as pálpebras. De repente bateu com os dedos na perna de Angela, com extrema rapidez e suavidade:

– Hoje todos estão verdadeiramente, mas verdadeiramente amáveis! que gentileza, que gentileza.

Angela sorriu. A velha ficou sorrindo sem tirar os olhos profundos e vazios dos olhos da moça. Vamos, vamos, chicoteavam-na de todos os lados, e ela espiava para cá e para lá como se fosse escolher. Vamos, vamos! empurravam-na rindo de todos os lados, e ela se sacudia ridente, delicada.

– Como todos são amáveis neste trem, disse.

Subitamente procurou se recompor, pigarreou falsamente, se conteve toda. Devia ser difícil. Receava ter chegado a um ponto de não poder interromper-se. Manteve-se em severidade e tremor, fechou os lábios sobre os inúmeros dentes. Mas não podia enganar a ninguém: seu rosto tinha uma tal esperança que perturbava os olhos que a viam. Ela já não dependia de ninguém: uma vez que a tinham tocado, podia-se ir embora – ela sozinha se irradiava magra, alta. Ainda quereria dizer qualquer coisa e já preparava um gesto social de cabeça, cheio de graça prévia. Angela se perguntava se ela saberia se exprimir. Ela pareceu pensar, pensar, e achar com ternura um pensamento já todo feito onde mal e mal podia aconchegar seu sentimento. Disse com cuidado e sabedoria de ancião, como se precisasse tomar esse ar para falar como velha:

– A juventude. A juventude amável.

Riu um pouco fingida. Ia ter uma crise de nervos? pensou Angela Pralini. Porque estava tão maravilhosa. Mas pigarreou de novo com austeridade, deu no banco uma batidinha com as pontas dos dedos como se ordenasse com urgência à orquestra uma nova partitura. Abriu a bolsa, tirou um quadradinho de jornal, desdobrou-o, desdobrou-o, até torná-lo um jornal grande e normal, datado de três dias atrás – Angela viu pela data. Pôs-se a ler.

Angela tinha perdido sete quilos. Na fazenda iria comer que não era vida: tutu de feijão e couve mineira, para recuperar os preciosos quilos perdidos. Estava magra assim por tentar acompanhar o raciocínio brilhante e ininterrupto de Eduardo: bebia café sem açúcar sem parar para se manter acordada. Angela Pralini tinha os seios muito bonitos, eram seu ponto forte. Tinha as orelhas em ponta e uma boca bonita arredondada, beijável. Os olhos com olheiras profundas. Ela aproveitava o apito gritado do trem para que ele fosse o seu próprio grito. Era um berro agudo, o seu, só que virado para dentro. Era a mulher que mais bebia uísque no grupo de Eduardo. Aguentava de seis a sete de uma vez, mantendo uma lucidez de terror. Na fazenda iria beber leite grosso de vaca. Uma coisa unia a velha a Angela: ambas iam ser recebidas de braços abertos, mas uma não sabia isso da outra. Angela de súbito estremeceu: quem daria o último dia de vermífugo ao cachorro. Ah, Ulisses, pensou ela para o cão, não te abandonei por querer, é que eu precisava fugir de Eduardo, antes que ele me arruinasse totalmente com sua lucidez: lucidez que iluminava demais e crestava tudo. Angela sabia que os tios tinham remédio contra picada de cobra: pretendia entrar em cheio na floresta espessa e verdejante, com botas altas e besuntada de remédio contra picada de mosquito. Como se saísse da estrada Transamazônica, a exploradora. Que bichos encontraria? Era melhor levar uma espingarda, comida e água. E uma bússola. Desde que descobrira – mas descobrira realmente com um tom espantado – que ia morrer um dia, então não teve mais medo da vida, e, por causa da morte, tinha direitos totais: arriscava tudo. Depois de ter tido duas uniões que haviam terminado em nada, esta terceira que terminava em amor-adoração, cortada pela fatalidade do desejo de sobreviver. Eduardo a transformara: fizera-a ter olhos para dentro. Mas agora ela via para fora. Via através da janela os seios da terra, em montanhas. Existem passarinhos, Eduardo! existem nuvens, Eduardo! existe um mundo de cavalos e cavalas e vacas, Eduardo, e quando eu era uma menina cavalgava em corrida num cavalo nu, sem sela! Eu estou fugindo do meu suicídio, Eduardo. Desculpe, Eduardo, mas não quero morrer. Quero ser fresca e rara como uma romã.

A velha fingia que lia jornal. Mas pensava: seu mundo era um suspiro. Não queria que os outros a acreditassem abandonada. Deus me deu saúde para eu viajar só. Também sou boa de cabeça, não falo sozinha e eu mesma é que tomo banho todos os dias. Cheirava a água de rosas murchas e maceradas, era o seu perfume idoso e mofado. Ter um ritmo respiratório, pensou Angela da velha, era a coisa mais bela que ficara desde que dona Maria Rita nascera. Era a vida.

Dona Maria Rita pensava: depois de velha começara a desaparecer para os outros, só a viam de relance.

Velhice: momento supremo. Estava alheia à estratégia geral do mundo e a sua própria era parca. Perdera os objetivos de maior alcance. Ela já era o futuro.

Angela pensou: acho que se eu encontrasse a verdade, não poderia pensá-la. Seria impronunciável mentalmente.

A velha sempre fora um pouco vazia, bem, um pouquinho. Morte? era esquisito, não fazia parte dos dias. E mesmo “não existir” não existia, era impossível não existir. Não existir não cabia na nossa vida diária. A filha não era carinhosa. Em compensação o filho era tão carinhoso, bonachão, meio gordo. A filha era sequinha como seus beijos rápidos, a public relations. A velha tinha certa preguiça de viver. A monotonia, porém, era o que a sustentava.

Eduardo ouvia música com o pensamento. E entendia a dissonância da música moderna, só sabia entender. Sua inteligência que a afogava. Você é uma temperamental, Angela, disse-lhe ele uma vez. E daí? Que mal há nisso? Sou o que sou e não o que pensas que sou. A prova que sou está nesta partida do trem. Minha prova também é dona Maria Rita, aí defronte. Prova de quê? Sim. Ela já tivera plenitude. Quando ela e Eduardo estavam tão apaixonados um pelo outro que estando juntos numa cama, de mãos dadas, eles sentiam a vida completa. Pouca gente conheceu a plenitude. E, porque a plenitude é também uma explosão, ela e Eduardo covardemente passaram a viver “normalmente”. Porque não se pode prolongar o êxtase sem morrer.

Separaram-se por um motivo fútil quase inventado: não queriam morrer de paixão. A plenitude é uma das verdades encontradas. Mas o rompimento necessário fora para ela uma ablação, assim como há mulheres de quem são tirados o útero e os ovários. Vazia por dentro.

Dona Maria Rita era tão antiga que na casa da filha estavam habituados a ela como a um móvel velho. Ela não era novidade para ninguém. Mas nunca lhe passara pela cabeça que era uma solitária. Só que não tinha nada para fazer. Era um lazer forçado que em certos momentos se tornava lancinante: nada tinha a fazer no mundo. Senão viver como um gato, como um cachorro. Seu ideal era ser dama de companhia de alguma senhora, mas isso nem se usava mais e mesmo ninguém acreditaria nos seus fortes setenta e sete anos, pensariam que ela era fraca. Não fazia nada, fazia só isso: ser velha. Às vezes ficava deprimida: achava que não servia a nada, não servia sequer a Deus. Dona Maria Ritinha não tinha inferno dentro dela. Por que os velhos, mesmo os que não tremem, sugeriam algo delicadamente trêmulo? Dona Maria Rita tinha um tremor quebradiço de música de sanfona.

Mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um. Cada um de nós: eis com que contamos. Como dona Maria Rita sempre fora uma pessoa comum, achava que morrer não era coisa normal. Morrer era surpreendente. Era como se ela não estivesse à altura do ato de morte, pois nunca lhe acontecera até agora nada de extraordinário na vida que viesse justificar de repente outro fato extraordinário. Falava e até pensava na morte, mas no fundo era cética e suspeitosa. Achava que se morria quando havia um desastre ou alguém matava alguém. A velha tinha pouca experiência. Às vezes tinha taquicardia: bacanal do coração. Mas só isso e mesmo assim desde mocinha. No seu primeiro beijo, por exemplo, o coração se desgovernara. E fora uma coisa boa em limite com o ruim. Alguma coisa que lembrava seu passado, não como fatos mas como vida: uma sensação de vegetação em sombra, tinhorões, samambaias, avencas, frescor esverdeado. Quando sentia isso de novo, sorria. Uma das palavras mais eruditas que usava era “pitoresco”. Era bom. Era como ouvir o marulho de uma fonte e não saber onde ela nascia.

Um diálogo que ela fazia consigo mesma:

– Está fazendo alguma coisa?

– Estou sim: estou sendo triste.

– Não se incomoda de ficar sozinha?

– Não, eu penso.

Às vezes não pensava. Às vezes a pessoa ficava sendo. Não precisava fazer. Ser já era um fazer. Podia-se ser devagar ou um pouco depressa. No assento de trás, duas mulheres falavam e falavam sem parar. Seus sons constantes se fundiam no barulho das rodas do trem nos trilhos.

Bem que dona Maria Rita esperara que a filha ficasse na plataforma do trem para dar-lhe um adeusinho mas isto não aconteceu. O trem imóvel. Até que dera a arrancada.

– Angela, disse ela, uma mulher nunca diz a idade, por isso só posso lhe dizer que é muita mesmo. Não, com você – posso chamar de você? – com você vou fazer uma confidência: tenho setenta e sete anos.

– Eu tenho trinta e sete, disse Angela Pralini.

Eram sete horas da manhã.

– Quando eu era moça eu era muito mentirosinha. Mentia à toa.

Depois, como se ela tivesse se desencantado da magia da mentira, parara de mentir. Angela, olhando a velha dona Maria Rita, teve medo de envelhecer e morrer. Segura minha mão, Eduardo, para eu não ter medo de morrer. Mas ele não segurava nada. Só fazia era: pensar, pensar e pensar. Ah, Eduardo, quero a doçura de Schumann! A sua vida era uma vida desfeita, evanescente. Faltava-lhe um osso duro, áspero e forte, contra o qual ninguém pudesse nada. Quem seria esse osso essencial? Para afastar a sensação de enorme carência, pensou: como é que na Idade Média eles faziam sem telefone e sem avião? Mistério. Idade Média, eu vos adoro e as tuas nuvens pretas e carregadas que desembocaram na Renascença luminosa e fresca.

Quanto à velha, desligara-se. Olhava para o nada.

Angela olhou-se no pequeno espelho da bolsa. Pareço-me com um desmaio. Cuidado com o abismo, digo àquela que se parece com um desmaio. Quando eu morrer vou sentir tanta saudade de você, Eduardo! A frase não resistia à lógica porém tinha em si um imponderável sentido. Era como se ela quisesse exprimir uma coisa e exprimisse outra.

A velha já era o futuro. Parecia ter vergonha. Vergonha de ser velha? Em algum ponto de sua vida deveria com certeza ter havido um erro, e o resultado era esse estranho estado de vida. Que no entanto não a levava à morte. A morte era sempre uma tal surpresa para quem morria. Tinha, porém, orgulho de não babar nem fazer pipi na cama, como se essa forma de saúde bravia tivesse meritoriamente sido o resultado de um ato de vontade sua. Só não era uma dama, uma senhora de idade, por não ter arrogância: era uma velhinha digna que de repente tomava um ar assustadiço. Ela – bem, ela se elogiava a si mesma, considerava-se uma velha cheia de precocidade como criança precoce. Mas a verdadeira intenção de sua vida, ela não sabia.

Angela sonhava com a fazenda: lá se ouviam gritos, latidos e uivos, de noite. “Eduardo”, pensou ela para ele, “eu estava cansada de tentar ser o que você achava que sou. Tem um lado mau – o mais forte e o que predominava embora eu tenha tentado esconder por causa de você – nesse lado forte eu sou uma vaca, sou uma cavala livre e que pateia no chão, sou mulher da rua, sou vagabunda – e não uma “letrada”. Sei que sou inteligente e que às vezes escondo isso para não ofender os outros com minha inteligência, eu que sou uma subconsciente. Fugi de você, Eduardo, porque você estava me matando com essa sua cabeça de gênio que me obrigava a quase tapar os meus ouvidos com as duas mãos e quase gritar de horror e cansaço. E agora vou ficar seis meses na fazenda, você não sabe onde estarei, e todos os dias tomarei banho no rio misturando com o barro a minha abençoada lama. Sou vulgar, Eduardo! e saiba que gosto de ler histórias em quadrinhos, meu amor, oh meu amor! como te amo e como amo os teus terríveis malefícios, ah como te adoro, escrava tua que sou. Mas eu sou física, meu amor, eu sou física e tive que esconder de ti a glória de ser física. E você, que é o próprio fulgor do raciocínio, embora não saiba, era alimentado por mim. Você, superintelectual e brilhante e deixando todos admirados e boquiabertos.”

– Acho, se disse devagarinho a velha, acho que essa moça bonita não se interessa em conversar comigo. Não sei por quê, mas ninguém conversa mais comigo. E mesmo quando estou junto das pessoas, elas parecem não se lembrar de mim. Afinal não tenho culpa de ser velha. Mas não faz mal, eu me faço companhia. E mesmo tenho o Nandinho, meu filho querido que me adora.

– O prazer sofrido de se coçar! pensou Angela. Eu, hein, eu que não vou nessa nem noutra – estou livre!!!

Estou ficando mais saudável, oh vontade de dizer um desaforo bem alto para assustar todos. A velha não entenderia? Não sei, ela que já deve ter parido várias vezes. Eu não caio nessa de que o certo é ser infeliz, Eduardo. Quero fruir de tudo e depois morrer e eu que me dane! me dane! me dane! Se bem que a velha é capaz de ser infeliz sem saber. Passividade. Eu não vou nessa também, nada de passividade, quero é tomar banho nua no rio barrento que se parece comigo, nua e livre! viva! Três vivas! Eu abandono tudo! tudo! e assim não sou abandonada, não quero depender senão de umas três pessoas e o resto é: Bom-dia, tudo bem? tudo bem. Edu, você sabe? eu te abandono. Você, no fundo de seu intelectualismo, não vale a vida de um cão. Eu te abandono, então. E abandono o grupo falsamente intelectual que exigia de mim um vão e nervoso exercício contínuo de inteligência falsa e apressada. Precisei que Deus me abandonasse para que eu sentisse a sua presença. Eu preciso matar alguém dentro de mim. Você estragou minha inteligência com a tua que é de gênio. E me obrigou a saber, a saber, a saber. Ah, Eduardo, não se preocupe, levo comigo os livros que você me deu para “seguir um curso em casa”, como você queria. Estudarei filosofia perto do rio, pelo amor que tenho por você.

Angela Pralini tinha pensamentos tão profundos que não havia palavras para expressá-los. Era mentira dizer que só se podia ter um pensamento de cada vez: tinha muitos pensamentos que se entrecruzavam e eram vários. Sem falar no “subconsciente” que explode em mim, queira eu ou não queira você. Sou uma fonte, pensou Angela, pensando ao mesmo tempo onde pusera o lenço de cabeça, pensando se o cachorro tinha tomado o leite que lhe deixara, nas camisas de Eduardo, e no seu extremo esgotamento físico e mental. E na velha dona Maria Rita. “Nunca vou esquecer teu rosto, Eduardo.” Era um rosto um pouco espantado, espantado com sua própria inteligência. Ele era um ingênuo. E amava sem saber que estava amando. Ia ficar tonto quando descobrisse que ela fora embora, deixando o cachorro e ele. Abandono por falta de nutrição, pensou. Ao mesmo tempo pensava na velha sentada defronte. Não era verdade que só se pensa um pensamento único. Era, por exemplo, capaz de escrever um cheque perfeito, sem um erro, pensando na sua vida, por exemplo. Que não era boa mas enfim era sua. Sua de novo. A coerência, não a quero mais. Coerência é mutilação. Quero a desordem. Só adivinho através de uma veemente incoerência. Para meditar tirei-me antes de mim e sinto o vazio. É no vazio que se passa o tempo. Ela que adorava uma boa praia, com sol, areia e sol. O homem está abandonado, perdeu o contato com a terra, com o céu. Ele não vive mais, ele existe. O ar entre ela e Eduardo Gosme era de emergência. Ele a transformara numa mulher urgente. E que, para manter acordada a urgência, tomava drogas excitantes que a emagreciam cada vez mais e tiravam-lhe a fome. Quero comer, Eduardo, estou com fome, Eduardo, fome de muita comida! Sou orgânica!

“Conheça hoje o supertrem de amanhã.” Seleções do Reader’s Digest que ela às vezes lia escondida de Eduardo. Era como as Seleções que diziam: conheça hoje o supertrem de amanhã. Positivamente não o estava conhecendo hoje. Mas Eduardo era o supertrem. Super tudo. Ela conhecia hoje o super de amanhã. E não suportava. Não suportava o moto-perpétuo. Você é o deserto, e eu vou para a Oceania, para os mares do Sul, para as ilhas Taiti. Se bem que estragadas pelos turistas. Você não passa de um turista, Eduardo. Vou para a minha própria vida, Edu. E digo como Fellini: na escuridão e na ignorância crio mais. A vida que tinha com Eduardo tinha cheiro de farmácia nova recém-pintada. Ela preferia o cheiro vivo de estrume por mais nojento que fosse. Ele era correto como uma quadra de tênis. Aliás, praticava tênis para manter a forma. Enfim, ele era um chato que ela amava e quase não amava mais. Estava recobrando no trem mesmo a sua saúde mental.

Continuava apaixonada por Eduardo. E ele, sem saber, também estava por ela. Eu que não consigo fazer nada certo, exceto omeletes. Com uma só mão quebrava ovos com uma rapidez incrível, e os despejava na vasilha sem derramar uma gota. Eduardo morria de inveja de tanta elegância e eficiência. Ele às vezes fazia palestras nas universidades e adoravam-no. Ela também assistia, ela também o adorando. Como era mesmo que ele começava? “Sinto-me pouco à vontade ao ver as pessoas se levantando quando ouvem anunciar que eu falarei”.

Angela tinha sempre medo que elas se retirassem e o deixassem sozinho.

A velha, como se tivesse recebido uma transmissão de pensamento, pensava: que não me deixem sozinha. Que idade mesmo eu tenho? Ah já nem sei.

Logo em seguida ela esvaziou seu pensamento. E era tranquilamente nada. Mal existia. Era bom assim, muito bom mesmo. Mergulhos no nada.

Angela Pralini, para se acalmar, contou-se uma história bem calmante, bem tranquila: era uma vez um homem que gostava muito de jabuticabas. Então ele foi para um pomar onde havia árvores carregadas de protuberâncias negras, lisas e lustrosas, que lhe caíam nas mãos todas entregues e que das mãos lhe caíam aos pés. Era tal a abundância de jabuticabas que ele se dava ao luxo de pisá-las. E elas faziam um barulho muito gostoso. Faziam assim: cloc-cloc-cloc etc. Angela acalmou-se como o homem das jabuticabas. Na fazenda tinha jabuticabas e ela iria fazer com os pés nus o “cloc-cloc” macio e úmido. Nunca sabia se devia ou não engolir os caroços. Quem iria responder essa pergunta? Ninguém. Só talvez um homem que, como Ulisses, o cachorro, e contra Eduardo, respondesse: “Mangia, bella, que te fa bene”. Sabia um pouquinho de italiano mas nunca tinha certeza de estar certa. E, depois do que esse homem dissesse, ela engoliria os caroços. Outra árvore gostosa era uma cujo nome científico esquecera mas que na infância todos haviam conhecido diretamente, sem ciência, era uma que no Jardim Botânico do Rio fazia um cloc-cloc sequinho. Viu? viu como você está renascendo? Sete fôlegos de gato. O número sete acompanhava-a, era o seu segredo, a sua força. Sentia-se linda. Não era. Mas assim se sentia. Sentia-se também bondosa. Com ternura pela velha Maria Ritinha que pusera os óculos e lia o jornal. Tudo era vagaroso na velha Maria Rita. Perto do fim? ai, como dói morrer. Na vida se sofre mas se tem alguma coisa na mão: a inefável vida. Mas e a pergunta sobre a morte? Era preciso não ter medo: ir em frente, sempre.

Sempre.

Como o trem.

Em algum lugar existe uma coisa escrita no muro. E é para mim, pensou Angela. Das chamas do Inferno virá um telegrama fresco para mim. E nunca mais minha esperança será decepcionada. Nunca. Nunca mais.

A velha era anônima como uma galinha, como tinha dito uma tal de Clarice falando de uma velha despudorada, apaixonada por Roberto Carlos. Essa Clarice incomodava. Fazia a velha gritar: tem! que! haver! uma! porta! de saííída! E tinha mesmo. Por exemplo, a porta de saída dessa velha era o marido que voltaria no dia seguinte, eram as pessoas conhecidas, era a sua empregada, era a prece intensa e frutífera diante do desespero. Angela se disse como se se mordesse raivosamente: tem que haver uma porta de saída. Tanto para mim como para dona Maria Rita.

Eu não pude parar o tempo, pensou Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo. Falhei. Estou velha. E fingiu ler o jornal só para se dar uma compostura.

Quero sombra, gemeu Angela, quero sombra e anonimato.

A velha pensou: seu filho era tão bondoso, tão quente de coração, tão carinhoso! Tratava-a de “mãezinha”. Sim, talvez eu passe o resto de minha vida na fazenda, longe da public relations que não precisa de mim. E minha vida deve ser muito longa, a julgar pelos meus pais e avós. Podia alcançar fácil, fácil, cem anos, pensou confortavelmente. E morrer de repente para não ter tempo de sentir medo. Persignou-se discretamente e pediu a Deus uma boa morte.

Ulisses, se fosse vista a sua cara sob o ponto de vista humano, seria monstruoso e feio. Era lindo sob ponto de vista de cão. Era vigoroso como um cavalo branco e livre, só que ele era castanho suave, alaranjado, cor de uísque. Mas seu pelo é lindo como o de um energético e empinado cavalo. Os músculos do pescoço eram vigorosos e a gente podia pegar esses músculos nas mãos de dedos sábios. Ulisses era um homem. Sem o mundo cão. Ele era delicado como um homem. Uma mulher deve tratar bem o homem.

O trem entrando no campo: os grilos grilavam agudos e roucos.

Eduardo, uma vez por outra, sem jeito como quem é forçado a cumprir uma função – dava-lhe de presente um gélido diamante. Ela que preferia brilhantes. Enfim, suspirou ela, as coisas são como são. Tinha às vezes, quando olhava do alto de seu apartamento, vontade de se suicidar. Ah, não por Eduardo mas por uma espécie de fatal curiosidade. Não dizia isso a ninguém, com medo de influenciar um suicida latente. Ela queria a vida, vida plana e plena, bem bacana, bem lendo às abertas as Seleções. Queria morrer só aos noventa anos, no meio de um ato de vida, sem sentir. O fantasma da loucura nos ronda. Que é que você está fazendo? Estou esperando o futuro.

Quando finalmente o trem se pusera em movimento, Angela Pralini acendera o cigarro em aleluia: receava que, enquanto o trem não partisse, não tivesse coragem de ir e terminasse por descer do vagão. Mas logo depois já estavam sujeitos aos amortecedores e no entanto repentinos solavancos das rodas. O trem marchava. E a velha Maria Rita suspirava: estava mais perto do filho amado. Com ele poderia ser mãe, ela que era castrada pela filha.

Uma vez em que Angela tivera dores menstruais, Eduardo tentara, muito sem jeito, ser carinhoso. E dissera-lhe uma coisa horrorosa: você está dodói, não é? Era de se corar de vergonha.

O trem corria quanto podia. O maquinista feliz: assim é que é bom, e ele apitava a cada curva da estrada. Era um longo e grosso apito do trem em marcha, ganhando terreno. A manhã era fresca e cheia de ervas altas e verdes. Assim, sim, vamos para a frente, disse o maquinista para a máquina. A máquina respondeu com alegria.

A velha era nada. E olhava para o ar como se olha para Deus. Ela era feita de Deus. Isto é: tudo ou nada. A velha, pensou Angela, era vulnerável. Vulnerável para o amor, amor de seu filho. A mãe era franciscana, a filha era poluição.

Deus, pensou Angela, se você existe, se mostre! Porque chegou a hora. É nesta hora, é neste minuto e neste segundo.

E o resultado foi que ela teve que disfarçar as lágrimas que lhe vieram aos olhos. Deus de algum modo lhe respondera. Ela estava satisfeita e engoliu um soluço abafado. Como viver magoava. Viver era uma ferida aberta. Viver é ser como o meu cachorro. Ulisses não tem nada a ver com Ulisses de Joyce. Eu tentei ler Joyce mas parei porque ele era chato, desculpe, Eduardo. Só que um chato genial. Angela estava amando a velha que era nada, a mãe que lhe faltava. Mãe doce, ingênua e sofredora. Sua mãe que morrera quando ela fizera nove anos de idade. Mesmo doente mas com vida servia. Mesmo paralítica.

Entre ela e Eduardo o ar tinha gosto de sábado. E de súbito os dois eram raros, a raridade no ar. Eles se sentiam raros, não fazendo parte das mil pessoas que andavam pelas ruas. Os dois às vezes eram coniventes, tinham uma vida secreta porque ninguém os compreenderia. E mesmo porque os raros são perseguidos pelo povo que não tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam. Eles escondiam o amor deles para não ferir os olhos dos outros de inveja. Para não feri-los com uma centelha luminosa demais para os olhos.

Au, au, au, latira o meu cachorro. Meu grande cachorro.

A velha pensou: sou uma pessoa involuntária. Tanto que, quando ria – o que era raro – não se sabia se ria ou chorava. Sim. Ela era involuntária.

Enquanto isso Angela Pralini efervescendo como as bolhinhas da água mineral Caxambu, era uma: de repente. Assim: de repente. De repente o quê? Só de repente. Zero. Nada. Estava com trinta e sete anos e pretendia a cada instante recomeçar sua vida. Como as bolhinhas efervescentes da água Caxambu. As sete letras de Pralini davam-lhe força. As seis letras de Angela tornavam-na anônima.

Com um longo apito uivado, chegava-se à pequena estação onde Angela Pralini saltaria. Pegou sua valise. No intervalo entre o boné do carregador e do nariz de uma jovem, lá estava a velha dormindo inflexível, a cabeça empertigada sob o chapéu de feltro, um punho fechado sobre o jornal.

Angela desceu do vagão.

Naturalmente isso não tinha a menor importância: há pessoas que são sempre levadas a se arrepender, é um traço de certas naturezas culpadas. Mas ficou-a perturbando a visão da velha quando acordasse, a imagem de seu rosto espantado diante do banco vazio de Angela. Afinal ninguém sabia se ela adormecera por confiança nela.

Confiança no mundo.

Fonte:
Clarice Lispector. Onde estivestes de noite.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Mensagem na garrafa n. 1 (Artur da Távola)


Monteiro Lobato (Os Perturbadores do Silêncio)


O silêncio em Oblivion é como o frio nas regiões árticas: uma permanente. Não se compreende a segunda sem o primeiro. Ele a completa; ela o define.

Durante a noite aquele silêncio faz-se inteiriço como a escuridão. Por mais que se apurem, os ouvidos nada ouvem a não ser um vago e remoto ressoar, que lembra miríade de grilos microscópicos em imperceptível surdina chiadeira.

Durante o dia, porém, a integridade do silêncio em Oblivion sofre lesões. Uns tantos rumores, sempre os mesmos e periodicamente repetidos, constelam-no de quebras de continuidade. O velho inimigo do Silêncio, o Som, a espaços berra dentro dele gritos sediciosos, tal o relâmpago que momentaneamente destrói o império das trevas. Mas o Silêncio logo subjuga e absorve o intruso.

À frente desse grupo de irreverências está o sino da igreja. Repicando missa aos domingos ou chorando a defunto, alegre ou fúnebre, é o Sino o mais violento perturbador do Silêncio em Oblivion.

Outra, é a capina trimensal das ruas: o raspar das enxadas perturba o silêncio com a insistência do coaxar do sapo-ferreiro.

Outra, é o fim das aulas. Quando soam quatro horas o portão do Grupo Escolar borbota um fluxo de meninos rompidos em algazarra, a berrar, a cantar — e adeus silêncio.

Outra, e esta deveras notável, é o carrinho da Câmara. O carrinho da Câmara constitui o veículo mais importante de Oblivion — que além dele só conta mais um, o Zé Burro, sólido preto-mina empregado no transporte das coisas pesadas. E é o principal por várias razões ponderosas, entre as quais a de ser ele todo de ferro, ao passo que o outro é de carne. Verdade que o carrinho só tem uma roda e o preto tem duas pernas. Mas como a roda do carrinho é bem centrada e as pernas do Zé são cambaias, aquela superioridade desaparece e o carrinho instala-se de vez no primado.

Mas esta questão de primazias não vem ao caso. O caso é a perturbação do Silêncio determinada pelo carrinho, fato que se dá da seguinte maneira. Como o carrinho tem pouco serviço e passa a maior parte do tempo a cochilar no depósito, a ferrugem, insidiosa inimiga da inação, sub-repticiamente vem pintar de vermelho o eixo das rodas, de modo que, mal sai à rua o veículo, o pobrezinho do eixo grita como um gotoso, geme, range, ringe — perturbando lamentavelmente o Silêncio de Oblivion.

Quando Isaac Factótum — um mulato retaco, grosso e curto como certas taturanas — recebe ordem para ir a tal parte formicidar um olheiro de saúvas, o rolete de homem mete as garrafas de formicida, a enxada e o fósforo dentro do carrinho e, imagem da Compenetração, símbolo da Convicção Inabalável, parte nhem-nhim, nhem-nhim, através das vias principais da cidade, em busca do mal aventurado olheiro.

De sobrecenho carregado, Isaac leva o olhar atentamente fito à frente — para “evitar algum desastre”. Nas ruas desertas apenas um ou outro cachorrinho se estira ao sol. Isaac, a vinte passos, divisando o vulto de um, para, ergue a mão em viseira, firma os olhos.

— Diabo! Amode que é o Joli do Pedro Surdo? —, e com uma pedra o espanta: — Sai, porqueira! Não ouve o carro? Não tem medo de morrê masgaiado?

E, convencido de que salvou a vida a um cristão, Isaac-Garrafa-de-Licor-de-Cacau retoma os varais e lá segue por Oblivion afora, nhem-nhim, nhemnhim, com solenidade de dalai-lama do Tibete.

Às janelas acode gente. Crianças repimpadas no peitoril gritam para dentro:

— Mamãe, o carrinho “evem”* vindo!

Muita moça nervosa deixa a costura e tapa os ouvidos:

— Que inferneira! Não se pode com essa barulhada!

Não obstante, o terrível veículo passa, indiferente à admiração como à censura, garboso, todo de ferro e ferrugem, nhem-nhim, nhem-nhim, empurrado pela dignidade infinita de Isaac-Toco-de-Vela.

E enquanto o carrinho da Câmara não torna ao depósito municipal, o Silêncio não reentra na posse dos seus domínios.
_____________________________
Glossário:
* Evem – Expressão correspondente às locuções verbais lá vem, ali vem, já vem. Muito utilizada no interior de Minas Gerais.

Fonte:
Monteiro Lobato. Cidades Mortas.

Milton S. Souza (Poemas Avulsos)


AMADA AMIGA

Se, por ventura, eu fosse (sim!!!) teu namorado,
eu pegaria, docemente, em tua mão
e te diria, neste dia consagrado,
palavras lindas, brotadas do coração.

E falaria de mil sonhos, de paixão,
com meu olhar no teu olhar entrelaçado.
E te diria que és a única razão
para que eu viva sempre mais apaixonado.

Mas nada disso a vida permite que eu diga,
só posso, mesmo, te chamar de “minha amiga”
e, quando muito, tentar te fazer feliz.

Com este sonho guardado no pensamento,
uma certeza amplia mais o meu tormento:
eu sei que entendes tudo o que o meu olhar diz.

CHEGA DE ERRAR

Agora é o fim: não quero mais. Chega de dor.
Não tenho mais nem pranto para derramar.
Amor assim, brigas sem fim, é falso amor:
alguém precisa ter coragem de mudar!!!

A gente briga, a gente volta e, sem notar,
mata conceitos e perde o próprio valor.
Este perdão, que estamos prontos para dar,
é um passaporte para a briga posterior.

Somos adultos em quase todos assuntos,
mas quando temos que assumir os riscos juntos,
nos transformamos em assustadas crianças.

Chega de errar. Vamos parar e, com cuidado,
rever os rumos deste amor tão complicado
enquanto ainda temos sonhos e esperanças.

DIA DO AMIGO

Uma amizade verdadeira é raridade
que poucas vezes encontramos nesta vida:
alguém que aplauda o instante de felicidade
e esteja junto, repartindo a hora sofrida.

Que troque afeto pela esperança perdida,
que seja luz, quando rarear a claridade,
que seja apoio, quando não tiver saída,
e aponte os rumos, se sentir necessidade.

Muito obrigado pela luz do teu sorriso,
por ser presença no momento mais preciso,
por este abraço que amplia a fraternidade.

Muito obrigado pela paz que tu me deixas,
pela paciência ao escutar as minhas queixas,
muito obrigado por me dar tua amizade…

LUZ NA ESCURIDÃO
Caminhar lento, tateando pela calçada,
faz a bengala ser a luz na escuridão.
Ouvido atento: som é mensagem cifrada,
calcula o espaço em cada passo pelo chão.

A cada instante, bate forte o coração
pela incerteza que pode surgir do nada.
Algumas vezes, sente a força de uma mão
que muda o rumo da indecisa caminhada.

Olhar sem vida, noite eterna na retina,
ele usa os sonhos... e com eles ilumina
os horizontes onde busca os seus totais.

Nada reclama, porém mostra, do seu jeito,
que o mundo deve um pouquinho mais de respeito
para com todos deficientes visuais.

MORRI DE SAUDADES...
Morri de saudades... - Toda a culpa é tua:
tua ausência encheu de trevas meus espaços.
Definhei tristonho...  namorando a lua,
coração sangrando... perdendo os pedaços.

Morri de saudades... Longe dos teus braços...
chorando baixinho... sentindo a alma nua...
tentei, muitas vezes, seguir os teus passos
com meus pensamentos: não te achei na rua.

Morri de saudades... mas minha esperança
continua viva, teima e não se cansa
de olhar o horizonte, sempre a te esperar.

E ela me garante que, ao te ver chegando,
eu que, mesmo morto, sigo assim chorando,
vou sorrir de novo, vou ressuscitar…

NOSSA ESTRELINHA

Uma estrelinha se apagou bem lentamente,
deixando um rastro de tristeza em seu lugar.
Esta estrelinha tinha um brilho diferente:
deixava um pouco de magia em cada olhar

Era tão meigo o seu jeito de cintilar,
que na sua luz ninguém ficava indiferente:
Não deveria parar cedo de brilhar
quem neste mundo foi presença reluzente.

Ela era linda, mas sua luz tão fraquinha
foi se apagando, até fazer nossa estrelinha
sumir no espaço, colorindo as amplidões.

Antes porém de viajar para o infinito,
deixou sementes do seu brilho mais bonito
nas nossas vidas e nos nossos corações.

SEM DEPOIS

Não sei porque...nem quero tentar explicar
esta loucura que tem sabor de pecado.
Só sei que eu não consigo mais me controlar:
preciso estar o tempo inteiro do teu lado.

Sei muito bem que estamos no caminho errado,
que nesta estrada não vamos poder voltar,
que este presente, sem futuro e sem passado,
traz consequências: pode nos fazer chorar.

Mas é impossível sufocar esta vontade
de saborear os frutos da felicidade
que brotam fartos dos momentos de nós dois...

Nestes mergulhos nos prazeres proibidos,
um só desejo domina os nossos sentidos:
que o tempo pare neste agora sem depois.

SEM GRAÇA
Morrer é a única certeza desta vida,
mas tantos vivem loucamente, sem pensar
que, sem aviso, vai chegar a despedida,
que esta hora triste ninguém consegue evitar.

Tempo e saúde: não devemos esbanjar
pois, se nos faltam, não encontramos saída.
O tempo é louco, corre sempre sem parar,
saúde é ouro, não se gasta sem medida.

A vida ensina, mas não adianta a experiência:
nunca sabemos enfrentar aquela ausência
de quem conosco foi presença muito amada.

A morte sempre marca forte o nosso rosto:
ela não passa de piada de mau gosto
que faz chorar por ser contada na hora errada.

Arthur de Azevedo (Dez por Cento)


Naquela noite o Gama e o Carvalho, dois famosos banqueiros de roleta, inauguravam a sua casa de jogo no Rocio, que naquele tempo não era ainda a Praça Tiradentes.

Os dois sócios não se furtaram a despesas; o antro estava mobiliado e alcatifado com certo luxo; os móveis eram do Moreira Santos.

Na sala de frente, em cujas paredes se ostentavam dois suntuosos espelhos e quatro enormes gravuras de Jazet (Jean Pierre Marie Jazet, 1788-1871, pintor francês), ricamente emolduradas, havia um magnífico bilhar.

Na sala de jantar, a mesa, posta para um banquete, agradava aos olhos, pela risonha promiscuidade das flores, dos frutos, das porcelanas e dos cristais.

A roleta ficava ao fundo, num vasto compartimento que tinha sido dormitório nos bons tempos em que a casa era habitada por uma família patriarcal e honesta.

* * *

Às nove horas o Carvalho dava à bola com a serenidade olímpica de um veterano encanecido (envelhecido) naquelas campanhas.

Não só todos os lugares estavam ocupados, como havia muitos indivíduos de pé, uns em volta da banca, debruçados, enchendo de fichas policromas o pano verde, outros afastados, assistindo de longe à batalha, esperando o palpite.

De todos os jogadores o mais calmo era o Coronel Mascarenhas.

Sentado à extremidade da banca, a luneta bifurcada no nariz, olhando com tranquilidade, ora para as soberbas paradas que fazia, ora para o banqueiro, sem que nada mais lhe distraísse a atenção, ele apontava exclusivamente nos seis últimos números do pano: 31, 32, 33, 34, 35 e 36.

* * *

Esse homem que, havia cinco anos, a fatalidade afastara da sua bela fazenda de Cantagalo, e conduzira a uma casa de jogo da Rua da Constituição, estava completamente subjugado pelos tentáculos do vicio.

Todos os seus teres e haveres tinham, pouco a pouco, desaparecido naquele medonho sorvedouro: terras, casas, apólices, tudo perdeu, inclusive mulher e filhos, que se apartaram dele, salvando uns tristes vestígios da fortuna de outrora.

Mascarenhas não tinha agora outra ocupação nem outra preocupação que não fosse o jogo. Dormia numa casa de pensão até às duas horas da tarde, e dessa hora em diante deixava-se absorver pelo vício até de madrugada, jantando e ceando fartamente nas casas onde jogava.

Dantes era um parceiro arrogante, muito orgulhoso da sua propriedade agrícola, afrontando a sorte com um garbo e uma sobranceria que todos admiravam; depois de arruinado, tornara-se uma criatura humilde, joão-ninguém vencido pela adversidade, tolerado pelos banqueiros apenas em atenção ao seu passado de perdulário. Era mal visto pelos jogadores felizes, que o consideravam “cabuloso”; vivia de expedientes, frequentando muitas vezes as casas de jogo apenas para alimentar-se, aproveitando as “aragens” para tentar reaver a sua posição e o seu dinheiro.

* * *

Na véspera da inauguração do “clube” (chamavam-lhe clube) do Gama e do Carvalho, o Coronel Mascarenhas tivera, sem dúvida, uma dessas “aragens”: dez vezes comprou cem fichas de dez tostões, e dez vezes, coitado! a bola rodou sem cair em nenhum dos seis números em que ele apontava. O rateio do banqueiro levou-lhe um conto de réis.

Depois de perdido o último vintém, o desgraçado passeou pelos circunstantes um olhar que solicitava um pouco de piedade, mas ninguém deu por isso. Dirigiu-se então ao Carvalho, que continuava a dar à bola, imperturbavelmente, e disse-lhe em voz alta:

– Faz favor de me dar os vinte por cento?

– Quais vinte por cento? perguntou o banqueiro, arregalando os olhos. É boa! Os vinte por cento a que têm direito os pontos sobre as quantias que perdem.

– Direito?!

– Direito, sim, senhor! É uma concessão que fazem hoje todas as casas de jogo!

– Todas, menos esta!

– Não me diga isso!

– Digo, sim senhor! A casa não preveniu a ninguém que faria semelhante concessão!

– Não preveniu, mas estava subentendido, porque não há hoje banqueiro de roleta que não dê os vinte por cento…

– Há, sim, senhor, e esse banqueiro sou eu!

– Nesse caso devia ter-me avisado que os não dava, porque tão tolo não seria eu que, gozando dessa vantagem na casa do Jojoca, na do Quincas e na do Machado, viesse jogar aqui!

– O que disse está dito! Não dou os vinte por cento!

– Mas atenda.

Entretanto, os outros pontos começavam a impacientar-se; o gordo Comendador Fraga, que jogava muito, com uma felicidade assombrosa, e suava por todos os poros, gritou brutalmente:

– Ô Carvalho! dê os tais vinte por cento a esse homem, e ele que nos favoreça com a sua ausência!

– E insuportável! bradou outro ponto. Quem não pode perder não joga!

Um vencido, que assistia de parte, ao jogo, depois de ter colocado, muito dobradinha, em cima do 17, uma velha nota de quinhentos réis, a derradeira, observou:

– Perdi tudo quanto trazia e não exigi porcentagem…

Mas o Coronel Mascarenhas insistia, lamuriento, com lágrimas na voz, desfiando o longo rosário das suas misérias, humilhando-se, ameaçando suicidar-se, e, afinal, chorando, chorando, como uma criança.

* * *

Escusado é dizer que ninguém se sensibilizou com isso; mas o Carvalho, querendo ver-se livre do importuno, foi consultar o Gama, que jogava bilhar, na sala da frente e voltou com a seguinte decisão:

– Sr. Coronel, a casa não se comprometeu a fazer concessões de espécie alguma aos jogadores infelizes; entretanto, para se ver livre do senhor, resolveu dar-lhe, não vinte, ruas dez por cento, sob a condição de que o senhor nunca mais há de jogar aqui.

– Vá lá, murmurou o desgraçado; aceito.

– Aqui tem cem mil-réis.

O coronel apanhou no voo a nota que o Carvalho atirou com o firme propósito de lhe bater com ela no rosto, amarrou-a nas mãos, guardou-a na algibeira do colete, ergueu-se lentamente, e saiu, dizendo: – Seja tudo por amor de Deus! Meus senhores, muito boas noites!

Acompanharam-no risos sardônicos e ditérios (falatórios) ofensivos, como: – Ora graças! – Que tipo! – Não tem vergonha! – Quem não chora não mama! etc.

* * *

Uma hora depois, terminada a banca, estavam todos à mesa, fazendo honra à opípara (lauta) ceia com que os regalavam os donos do estabelecimento, quando entrou, como um foguete, o Costinha, tipo que passava as noites percorrendo aquelas casas, uma por uma, para contar aqui, o que se passava acolá.

– Querem saber uma grande novidade? perguntou o recém-chegado.

– Qual? interrogaram todos em coro.

– Eu estava em casa do Jojoca quando lá apareceu o Coronel Mascarenhas, que ia correndo de cá.

– E então? perguntou o Carvalho, que presidia o banquete.

– Ele contou a história dos cem mil-réis…

– Canalha! Sem vergonha! Malandro! Miserável! etc., vociferaram todos os convivas.

– E ainda foi gabar-se aquele cínico! obtemperou o Comendador Fraga.

– Ouçam o resto! bradou o Costinha. Ele tirou da algibeira a nota amarrotada, comprou cinquenta fichas e jogou-as todas no “esguicho” do 31 ao 36. Saiu o 31.

– Ah!

– Dobrou a parada e jogou em pleno em todos os seis números, carregando no 34. Repetiu o 34!

– Oh!

– Na parada seguinte deu o 32, depois veio mais uma vez o 34, para encurtar razões: em dez ou doze bolas o coronel deu um tiro de quarenta contos! O Jojoca está furioso!

* * *

– Quarenta contos! quarenta contos!…

Os jogadores estavam atônitos. Alguns se ergueram, outros cruzaram os talheres, todos se entreolharam. Houve um momento de silêncio glacial.

– Sim, o coronel não é peco… sabe jogar… quando ganha, atira-se, e faz
muito bem, disse o Carvalho.

– Decerto, concordaram alguns.

– E ele acaba de provar, replicou o gordo Comendador Fraga, que não deixava de ter razão exigindo a porcentagem.

– Sim, concluiu outro; a porcentagem é muitas vezes a salvação do ponto. Vejam como os dez por cento grelaram (germinaram, brotaram)!

– E o que nos pareceu uma canalhice…

– Era um ato inteligente, isso era, e a prova aí está que com os cem mil-réis levantou quarenta contos.

– A sorte foi justa, ponderou o Gama, o Coronel Mascarenhas perdeu à roleta tudo quanto possuía.

– Era um fazendeiro importante.

– Muito boa pessoa…

– E honesto; nunca jogou senão o que era seu.

* * *

Todos os comensais se desfaziam em louvores ao Coronel Mascarenhas, quando este assomou à porta da sala.

O Carvalho e o Gama ergueram-se de um salto e foram ao encontro dele para apertar-lhe a mão e abraçá-lo. Alguns dos circunstantes fizeram o mesmo, e o ex-fazendeiro foi alvo de uma verdadeira ovação. Entretanto, conservava-se calado.

– Venha cear, coronel! A canja está deliciosa! disse o Carvalho.

– Perdão, respondeu Mascarenhas, com toda a simplicidade; eu fui expulso desta casa, e aqui não tornaria a pôr os pés, se a sorte não me favorecesse, proporcionando-me ocasião de restituir dez por cento a que não tinha direito, e que me atiraram como uma esmola infame…

Estas palavras foram acolhidas com mil protestos e desculpas, mas o Coronel Mascarenhas, que recuperara a sua antiga arrogância, a nada atendeu, e atirou à cara do Carvalho a mesma nota amarrotada com que saíra.

Alguns dias depois o pobre homem aparecia inopinadamente à mulher e aos filhos, dizendo-lhes:

– Passei ultimamente por tamanha vergonha, e ao mesmo tempo tive uma felicidade tão inaudita, que os dois fatos se combinaram para salvar-me, evitando que eu descesse ainda mais abaixo.

“Trago o preciso para começar de novo a trabalhar, e trabalharei, se vocês me perdoarem.”

Perdoado, o Coronel Mascarenhas, se bem o disse, melhor o fez. Hoje não joga nem mesmo a bisca em família.

O jogo passa por ser um vício incurável, mas afianço ao leitor que esse final é verdadeiro. Lá disse o outro que a verdade nem sempre é verossímil.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to