Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Vicência Jaguaribe (O Castelo do Nunca)


A cabecinha loura brilha ao sol das nove horas. A mãe levara-o à praia, seu programa preferido. Sob protesto, passa-lhe no corpo o protetor solar. “Mãe, isso é nojento! Melequento!” Fecha a cara e começa a cavar um buraco na areia, para construir o que chama de Castelo do Nunca. “- Porque Castelo do Nunca, filho?” “— Porque eu nunca termino ele. A maré sempre vem e derruba ele antes de ficar pronto.”

O menino tem cinco anos e está sentindo a separação dos pais. As vezes, nega-se a sair com o pai, que também não leva muito jeito com criança. Naquela manhã, ele irá pegá-lo na praia e levá-lo a almoçar. A mãe sabe que haverá atrito: o pai não aprova a dieta do filho. E quase sempre a criança volta com fome, porque não consegue comer o que o pai quer que ele coma.

A mãe vira-se e vê que o Castelo está bem adiantado. Olha para o mar e percebe que a maré começa a subir e em poucos minutos destruirá o que o filho fizera com tanto empenho. Ele tem jeito para a coisa. Talvez resolva ser escultor. Mas há também a possibilidade de fazer engenharia ou arquitetura.

Fica observando e sente orgulho quando percebe que aquele montinho de areia molhada vai ganhando, realmente, forma de castelo: a muralha, cercando-o; as torres projetando-se a intervalos regulares; a ponte levadiça delineando-se.

Quando o menino começa a modelar os portões, vem uma pequena onda e derruba uma parte da muralha. Ele deixa escapar um poxa e completa com um chute a obra de destruição que a maré começara, Por que tem de ser assim? Por que a maré não deixa o castelo crescer? Vai ser sempre o Castelo do Nunca? Nunca vai ser terminado? Nunca vai ser enfeitado? Nunca vai ficar pronto para que as pessoas que passam achem ele bonito?

A mãe percebe o desgosto do filho. “– Vamos tomar banho, antes que a maré fique cheia demais. Vamos!” Pega na mão do menino e, cuidadosamente, vai entrando na água. Vê que ele se descontrai e começa a movimentar os braços, fingindo nadar, como sempre faz. Uma onda mais forte derruba-o e leva-o até a areia. Ele levanta-se rindo e pergunta se ela o vira nadando.

Ela olha-o rapidamente e grita que não entre mais. A água está ficando cheia de sargaço. Mas ele ou não ouve a recomendação da mãe ou não lhe dá atenção. Rindo e espadanando a água, vai até o local onde ela luta para desvencilhar-se dos tentáculos que enlaçam suas pernas.

Quando consegue aproximar-se, o menino desequilibra-se e grita. Com muito custo, a mulher levanta-o e o põe nos braços, Dividida entre o filho e os sargaços, ela também acaba desequilibrando-se e deixa a criança cair. Agacha-se e consegue levantá-lo. Tenta sair da água com ele no colo, mas os malditos sargaços apertam cada vez mais seu abraço de sucuri. Uma onda mais forte arranca-lhe o menino dos braços. Num esforço sobre-humano, ela disputa o filho com aquele poder violento e traiçoeiro e vence-o mais uma vez. Está cansada! Exausta! Precisa sair imediatamente da água, que já subira o suficiente para destruir o Castelo do Nunca.

O menino, apavorado, agarra-se a seu pescoço, quase sufocando-a. Mas ela consegue, mesmo manietada pelos sargaços, dar alguns passos cm direção à praia. Outra onda forte, no entanto, arremessa-a no chão e arranca-lhe o filho dos braços, ela rola pela areia, engolindo o líquido salgado, que lhe penetra pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. Com muita dificuldade, consegue ajoelhar-se e procura o menino.

Mergulha... emerge... torna a mergulhar... emerge mais uma vez. A essa altura, alguns banhistas haviam percebido que algo estava errado. Aproximam-se dela, que aponta para o mar e só consegue gritar: “- Meu filho! Meu filho!"

Retiram-na à força de dentro da água. Mas ela luta para voltar. O filho ficou lá. Ela precisa resgatá-lo. Alguns homens mergulham e tentam encontrar o menino. Nada. O mar tragara-o e não se tinha certeza se o regurgitaria. A mãe rola na areia e grita pelo filho. O barulho das águas abafa-lhe a voz. Aquelas águas que atropelaram a vida do seu menino são as mesmas águas que lhe negaram, a ele, o direito e o prazer de terminar o seu castelo. O filho nunca mais poderá brincar de engenheiro ou de escultor. Nunca terá o prazer de concluir o Castelo do Nunca, que nunca mais será instrumento de sua fantasia.

Do outro lado do calçadão, um homem de estatura acima da mediana, de bermuda marrom e camiseta branca, estaciona o carro. Atravessa a rua, sobe o calçadão, desce-o e dirige-se ao ponto combinado com a ex-mulher. É quando percebe uma pequena multidão disposta em círculo. Aproxima-se e abre espaço. O que vê congela-lhe o sangue. Onde está o menino? É da boca de estranhos que recebe a notícia da tragédia. A mulher continua em estado de choque. Desesperado e sem a olhar, ele deixa-a só, com a sua dor, e foge, carregando a sua. Atravessa o calçadão, pega o carro e afasta-se dali.

Fonte:
Vicência Jaguaribe. Ancoragem em porto aberto. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2010.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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