Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Antonio Carlos de Barros (Tropeiro de Sorocaba)


Salve todos os tropeiros,
protagonistas da história,
foram valentes pioneiros
incrustados na memória.
José Feldman


Tropeiro é o condutor de tropas, do gado vacum, cavalares ou muares. É a pessoa que se ocupa em comprar ou vender as tropas, ou a que ajuda a conduzir a tropa, seja ela xucra ou arreada (cargueira).

O escritor Sorocabano Francisco Luiz D’Abreu Medeiros, descreveu com muita propriedade o que foi a epopeia das tropas, como era a vida de Tropeiro.

Romper sertões extensos, só habitados por indígenas e feras bravias, penetrar até os mais recônditos lugares do Rio Grande do Sul, e, se necessário, transpor os limites da Província, ir até os castelhanos em busca da melhor fazenda e de negócio mais vantajoso; voltar debaixo de rigoroso sol e copiosas chuvas, com uma tropa de quinhentas, oitocentas ou mil bestas; correr a extensão dos campos, penetrar pelas espessas matas após aqueles animais que fogem da ronda, que se extraviam continuamente, e que, por um pequeno descuido, se entreveram com tropas de outros donos, atravessar com grande risco de vida os rios caudalosos que cortam as estradas, comer ao romper do dia e à noite o mal cozido feijão de caldeirão e o velho churrasco; ver-se obrigado por diversos motivos dormir ao relento, sem outro teto mais que a abobada celeste, estendido à beira de um arroio, sobre um chão duro, apenas forrado do xergão* e da carona*, repassadas de suor do matungo* lerdo e cansado, tendo por travesseiro o lombilho*, único arrimo que se conhece por esses despovoados para amparar a cabeça e um pobre corpo alquebrado pelas fadigas do dia.

Uma Quadrinha popular da época definia muito bem o que era a vida de Tropeiro:

“Triste vida a do tropeiro
que nem pode namorar.
De dia – reponta* o gado,
de noite – toca a rondar*”.

Já o poeta José Barros Vasconcellos, em sua obra, Rodeio Emotivo, nos conta:

“Não se perturba nem teme
A chuva, o frio, a geada,
Que são ônus da tropeada,
No cavalgar cotidiano,
O tropeiro é um bravo, um forte
Que enfrenta tranquilo a sorte
E no pampa é soberano”.

E o grande poeta Guilherme Schultz Filho, em sua obra Galponeiras, com saudade recorda:

“Relembro os velhos tropeiros
Da legendária Laguna
Rasgando a pampa reiúna* 
das extensões infinitas,
onde ficaram escritas
tantas páginas de glória,
que ainda refulgem na história
destas paragens benditas”.

Biriva, Beriba ou Beriva era esse o nome dado aos habitantes de Cima da Serra, descendentes de Bandeirantes, ou aos Tropeiros Paulistas, os quais geralmente andavam em mulas e tinham um sotaque especial diferente do da Fronteira ou da Região Sul do Estado.

Dos muitos Festivais de músicas do Rio Grande do Sul, destaco a cidade de Carazinho, onde lá acontece a SEARA DA CANÇÃO, Festival Nativista. O poeta, autor de grandes sucessos no Rio Grande do Sul, Aírton Pimentel, compôs a Canção BIRIVAS e deu para o jovem RUI DA SILVA LEONHARDT, defendê-la nesse Festival. O resultado foi esplendoroso, a música Birivas foi a grande vencedora do festival Seara da Canção Gaúcha, isso em 1982. O sucesso foi enorme e, como ninguém sabia pronunciar o nome Alemão do Rui, ele ficou sendo chamado e conhecido por todos como RUI BIRIVA, e até hoje, mesmo depois do seu prematuro falecimento, é chamado de RUI BIRIVA.

Letra da música Birivas**

Descendo a serra
Pra subir na vida
Abrindo estrada
Cheio de bruacas*
Tropeando mulas para Sorocaba
E semeando por onde passam
Versos, violas, chulas e guaiacas*
Chegando a alma do vale das antas
Domam feras de rio de corredeiras
Rasgam picadas* pra juntar lonjuras
E muitas das cidades do presente
Vem dos pousos birivas o tropeiro
Vem dos pousos birivas o tropeiro

Daqui miles e mulas para feira
De lá mascatarias regionais
Juntando o norte e o sul num vai e vem
Sem saber de que fato ele, o tropeiro
Intercambiava traços culturais
Por isso é que o biriva não morreu
Mudou foi seu produto de tropear
O tropeiro está vivo em todo aquele
Que traz ideias boas ao Rio-grande
E ideias também sabe levar.

Encerro este texto, prometendo escrever mais, pois o tema é de fundamental importância para nossa amada Sorocaba Tropeira, e também para o Rio Grande do Sul, com este verso do escritor amigo, poeta, Mário Mattos:

“Sou Tropeiro Nativista
Da Sorocaba Paulista
Igual a tu meu irmão
Carrego comigo a herança
O que aprendi desde a infância
Nas grandes Feiras da Integração”.
________________________________
* GLOSSÁRIO:
Bruacas – espécie de mala de couro cru, com alças laterais, apropriada para ser conduzida em lombo de animal, pendurada à cangalha, uma de cada lado.
Cangalha – peça do arreamento do animal de carga, constante de uma armação de madeira acolchoada.
Carona – peça dos arreios, constituída de couro, de forma retangular, composta de duas partes iguais cosidas entre si, em um dos lados, a qual é colocada por cima do baixeiro, xergão ou xerga.
Guaiacas – cinto largo de couro macio, às vezes com porte de armas e para guardar dinheiro e pequenos objetos.
Lombilho – é uma espécie de sela, usada no Rio Grande do Sul.
Matungo – cavalo velho, ruim, imprestável.
Picadas – caminhos geralmente estreitos, que se faz no mato, para transito de cavaleiros.
Reiúna – animal reiúno é aquele que pertence à Nação ou ao Estado e tem, para distingui-lo dos demais, a ponta de uma das orelhas, em geral da direita, cortada.
Reponta – tocar o gado por diante, de um lugar para outro.
Rondar – vigiar os animais nos pousos.
Xerga – tecido de lã grossa, que se coloca no lombo do animal.
______________
** Nota do Blog:
A música Birivas, interpretada pelo próprio Rui Biriva está disponível no youtube em: https://www.youtube.com/watch?v=dcuKvS9yIGY
 
Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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