Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Trova 326 - José Feldman (Maringá/PR)

Trova sobre pintura a óleo "A Despedida", de Railson Damasceno (João Pessoa/PB)

Luís Carlos (Poemas Diversos)


A MISSÃO DO POETA

Quem já disse o que sofre? Quem da vida
Pode, acaso, esperar tudo o que sonha?
Não se vê pela face mais risonha
Esgueirar-se uma lágrima incontida?

Quem não leva, por fim, desiludida
A alma, após si seguindo tão tristonha,
Que, em silencioso, de rastos, não suponha
Já ser o enterro prévio de um suicida?

Ai de quem vê nosso destino a fundo:
O homem, a cada passo, diferente,
Mas sempre, em qualquer cousa, moribundo!

Pois, ser poeta é sentir, constantemente,
Esta expiação de compreender o mundo
E este mal de sofrer por toda a gente.

ATO DE FÉ

Musa, que em mim raiais como um clarão sonoro,
Incendendo-me o ser no ardor de um sonho imenso;
E que, corporizando a essência do que penso,
Em poemas converteis as lágrimas que choro;

Não me deis o esplendor de efêmero meteoro;
Condensai-me no estilo a força que eu condenso
Na minha fé - vapor de luminoso incenso -
Quando no ofício da Arte Excelsa me afervoro.

Quero a rima tocar; ver se ao mármore irmana,
Na contextura, e , assim, por pedestal do verso
Tomando-a, ter no verso uma coluna ufana!

E alto, sobre a coluna, ao sol, no Espaço imerso,
Hastear e defender contra a vileza humana
O pavilhão do ideal em face do Universo.

A UMA ÁRVORE

Escuta, árvore amiga, a minha vida
É, de certo, mais triste do que a tua.
Sofres, apenas, quando tumultua
O Vento em galopada desabrida.

No mais, o teu destino é uma subida:
É crescer, sob o Sol e sob a Lua,
Deitando sombra, quando o Sol estua,
Quedando, à luz do luar, adormecida.

Que diferença no meu ser tristonho!
Vives quieta, vivo eu porque me agito.
E, se adormeço, vibro mais no sonho.

Pois não tens, como eu tenho, a arrebatar-te
Dia e noite, a sem-fins, por toda a parte,
O pensamento — boêmio do Infinito.

CLAUSTRO ABANDONADO

Esta ruína que vês, cujo zimbório abriga,
Na severa feição de venerável urna,
Recalcadas paixões de tradição soturna,
É um claustro, que existiu ao sol da idade antiga.

- Entra-lhe a porta e vê: cresce por tudo a urtiga...
Melancoliza o ambiente uma expressão noturna;
Negreja, a cada passo, a boca de uma furna,
Bocejando, ao torpor de secular fadiga.

- Ajoelha, pecador. São túmulos daquelas
Que a glória teologal de penitências tantas
Por fim transfigurou na solidão das celas!

- Ajoelha, pecador. Nestas ferais gargantas,
Sufocaram-se os ais das místicas donzelas
- Monjas, durante a vida; ao fim da vida santas.

CREPÚSCULO

No pudor melancólico do ambiente
O Céu dissolve a sua paz de asilo,
Desvanecendo o azul, serenamente,
Entre uns tons de ametista e de berilo...

Fluidificam-se, ao longe, sutilmente,
As rosas do crepúsculo tranqüilo,
Transparecendo no vitral do poente,
À feição de um seráfico sigilo...

Vaga uma unção litúrgica nas cousas,
Num silêncio de naves e de lousas,
Que enleia a luz e a sombra, a entretecê-las...

E da angústia profunda do horizonte
Vem a noite, trazendo sobre a fronte
A coroa de espinhos das estrelas...

FINADOS

Dois de novembro. Finados.
Quanta flor! Quantas criaturas,
Guarnecendo as sepulturas
Dos ricos e potentados!

E junto deles, fadados
Sempre às mesmas desventuras,
Dormindo em campas obscuras
Os pobres — abandonados!

Mas, como que em julgamento
De súbito, irrompe o vento.
E, às suas arremetidas,

Os mausoléus, tão cobertos
De flores, ficam desertos
E as covas rasas — floridas.

MINHA SOMBRA

Esta minha implacável companheira,
Que em si me reproduz a vã figura,
Numa expressão de morte prematura,
Caminhando comigo a vida inteira;

Sempre muda, se fez a mensageira
Dos silêncios da minha desventura;
Convertendo-me o corpo em nódoa escura,
À força de ser muda é verdadeira.

Em vão procuro aprofundar-lhe o arcano.
Sombra... Visão de uma outra vida ausente.
Toco-a. Dissolve-a o meu contato humano.

Mas, se esqueço quem sou, surge-me à frente
E, quanto mais ao sol me aprumo e ufano,
Mais ao chão me reduz humildemente.

REFLEXOS

Velho tronco derrubado,
Mas inda a reflorescer,
Lá tens, pelo mesmo fado,
As condições do meu ser.

Tudo o que sempre hei sonhado
Fez-se dor e era prazer:
O coração sem cuidado,
Bate, bate até doer.

Tombado agora por terra,
Tua seiva ainda descerra
Uns restos de floração,

Como eu, nos versos que faço,
Tombado já de cansaço,
Floresço em recordação.

Luís Carlos (1880 – 1932)


Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (conhecido por Luís Carlos) nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1880, e faleceu na mesma cidade em 1932.

Era filho do médico Dr. Eugênio Augusto de Miranda Monteiro de Barros e de D. Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros. Formou-se na Escola Politécnica, em engenharia civil. Casado, transferiu-se para Minas Gerais e depois se mudou para São Paulo, onde exerceu a profissão nos quadros do serviço público, como funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, na Zona Norte, que ele chegou a chefiar. Foi removido, galgando de posto, para o Rio de Janeiro, onde fixou residência. Em 1921, foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação. Muito conceituado em sua profissão, nem por isso abandonou o seu pendor natural para as letras. Sob o funcionário exemplar, existia o poeta, de que pouca gente, só os mais íntimos tinham conhecimento. Formou um grupo de intelectuais, com quem fundou a Hora Literária. Começou a estampar nos jornais e revistas os seus versos, numa época em que o Parnasianismo dominava amplamente a poética brasileira e seus modelos filiavam-se à técnica de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Ele pertencia à última geração parnasiana, à geração dos discípulos de Emílio de Meneses e de Francisca Júlia. Contudo, em Luís Carlos, há um toque de romantismo que foge ao estilo parnasiano puro e simples.

Na sessão da Academia de 1917, à qual ele assistiu como visitante, Augusto de Lima fez a leitura de alguns de seus poemas. A imprensa do Rio de Janeiro passou a publicar-lhe sonetos esparsos, que o tornaram conhecido nas letras da metrópole.

Estreou em livro já aos quarenta anos. “Colunas”, publicado em 1920, foi aclamado com entusiasmo. Os amigos insistiam para que se candidatasse à Academia Brasileira de Letras. Tentou por duas vezes. A Academia recebeu-o e consagrou-o.

A poesia de Luís Carlos representa uma fase distinta, na estética dos nossos poetas. Não é o Parnasianismo já quase esgotado por enfadonhas e inúmeras repetições, nem é também a poesia inteiramente subjetiva que constitui a corrente mais vultosa da atualidade. O que notamos como essencial nos seus versos é a técnica das comparações e das imagens que associam os dois elementos, subjetivo e objetivo, quase sempre com grande e feliz originalidade.

Ocupou a cadeira 18 da Academia Brasileira de Letras, em 1926.

Publicações:
– Colunas.
– Encruzilhada.
– Astros e abismos.
– Rosal de ritmos, resumo histórico sobre a evolução da poesia brasileira.
– Amplidão.

Fonte:
Academia Brasileira de Letras

Isabel Furini (Conselho Literário de Camila Famosa)


- O conselho da escritora Camila Famosa foi não escrever com compulsão - afirmei com voz autoritária.

- E como faço? – perguntou o homem tirando os óculos e colocando-os sobre a mesa escura perto de um livro aberto, à direita do copo com refrigerante.

- Eu faço tudo de maneira compulsiva, falo compulsivamente, fumo compulsivamente, até transo compulsivamente, mas, não quero que espalhe essa última informação, hein?... pois odiaria ver mulheres me perseguindo para constatar se é verdade. A verdade é que sou um amante à moda antiga, eu gosto de paquerar mulheres e não gosto mesmo de mulheres tentando me paquerar.

Penteou o cabelo com dedos da mão direita, levantou a cabeça e recolheu o queixo de maneira vaidosa e começou a cantar:

“Eu sou aquele amante à moda antiga
do tipo que ainda manda flores
e escreve, e escreve, e escreve, e escreve, e escreve, e escreve, e escreveeeee...
porque no peito ainda abriga
Recordações de seus grandes amores...”

Além de modificar a letra, como ele cantava mal! Sua voz era rouca. Eu fiz um gesto de desaprovação mexendo a cabeça várias vezes para um lado e para o outro horizontalmente.

Ele tossiu ou fingiu tossir, retrocedeu alguns passos, sentou-se na cadeira de madeira e disse:

- Bem, continuando, eu sou obsessivo compulsivo e se eu não escrever por compulsão e de maneira compulsiva, eu não consigo. Sem compulsão não consigo fazer nada. Imaginem fazendo sexo sem compulsão, eu vou broxar, céus! E tentar escrever assim de fininho, como quem não sabe de nada, não sei, não! Mas sem paixão, sem obsessão, sem compulsão, Nossa Senhora! Isso não será texto, será página em branco. Algo me compele a colocar traços desiguais nas páginas, eu escrevo à caneta, nada de computador, nem modernidades. Já falei, sou um amante à moda antiga. Gosto de papel de verdade, papel no qual seja possível escrever, apagar com borracha, reescrever, riscar, colocar “x” ao lado de frases interessantes, sublinhar, dobrar o canto superior direito da folha, fazer anotações, ou pequenos desenhos nas margens e guardar nas estantes, nas gavetas, embaixo da cama, ou rasgar e jogar de longe no cesto de papéis gritando: Goooollll! Eu sou o melhor!!!

Levantou-se da cadeira. Parecia emocionado.

- E o que acha de deixar a mente em branco para escrever, não pensar em nada? - insisti eu fingindo indiferença.

- Acho bom, muito bom, para quem conseguir. Eu não consigo, cara, eu preciso pensar, imaginar, observar os personagens pela fresta da fantasia, e falar deles, falar, falar, falar... ou melhor dito, escrever, escrever, escrever. Que escrevam sem compulsão os grandes literatos, os escritores calmos e disciplinados. Eu não. Minha obsessão é escrever. De manhã, à tarde, à noite. Eu gosto de escrever e odeio escrever. Por isso escrevo. Escrever é emoção ou emoções. Quase um ritual de morte e renascimento. Quase um bater de asas de morcego na noite.

Olhei-o fixamente: - Você não faria a experiência por uma semana? - perguntei com voz suave.

O escritor não respondeu, mas retrocedeu e voltou a sentar-se na mesma cadeira de madeira.

- Só por uma semana, escrever sem pensar, o que acha? Seguir o conselho de Camila Famosa?

Ele, vencido, fez um sinal de afirmação com a cabeça. Imediatamente seus olhos fugiram pela janela, rumo à rua poluída de carros.

Uma semana depois entrei em sua biblioteca. Ele estava sentado diante do computador. Calmo, sorridente. 

– Você conseguiu? – perguntei.

- Escrever sem pensar?

- Isso.

- Consegui, sim! - murmurou.

Aproximei-me para ler no computador o que havia escrito e dizia: “escrever sem pensar, escrever sem pensar, escrever sem pensar”.... fui para a outra página: “escrever sem pensar, escrever sem pensar, escrever...”

- Você repetiu milhares de vezes a mesma frase! – gritei.

- Mas não pensei, – retrucou ele - não pensei em nada. Eu escrevi. Diga essa verdade para Camila Famosa: Mente em branco é para escritores autocontrolados. Muitas vozes é o caminho para escritores com múltiplas personalidades. Ser perseguido pelos próprios personagens é para escritores paranoicos, já escrever compulsiva, obsessivamente é para mim. Fazer o quê? Obsessão é destino.

Fonte:

domingo, 28 de outubro de 2018

Luiz Damo (Glosas) I





CARRO

MOTE:
Se um carro cair da pista
embora pavimentada,
culpamos o motorista
por desconhecer a estrada.

GLOSA:
Se um carro cair da pista
gera triste consequência.
Coitado do motorista!
Dizem: lhe faltou prudência...

A estrada desconhecida
embora pavimentada,
deve ser sempre seguida
com cautela redobrada.

Na parada não prevista
sem nenhum acostamento,
culpamos o motorista
se houver atropelamento.

No volante, atentamente,
durante a dura jornada,
mais prudência, exatamente,
por desconhecer a estrada.
__________________

CONHECIMENTO

MOTE:
Através do pensamento
este mundo percorremos,
debaixo do firmamento
vivo, nós o manteremos.

GLOSA:
Através do pensamento
nós devemos começar,
se um maior conhecimento
desejarmos alcançar.

Como aves em liberdade,
este mundo percorremos,
sobre as asas da verdade
novos rumos tomaremos.

Daremos prosseguimento
superando alguns entraves,
debaixo do firmamento
onde só transitam aves.

Velho mundo reservado
frente os olhos o teremos,
em nosso ser preservado
vivo, nós o manteremos.
__________________

DEUS

MOTE:
Autor dum grande projeto,
Deus, este mundo criou,
para deixa-lo completo
um pouco a nós reservou.

GLOSA:
Autor dum grande projeto,
que homem algum nunca fez,
um lar de paz, tão repleto,
ou céu brilhante, talvez.

Sem trabalho e sem torturas
Deus, este mundo criou,
diz, porém as Escrituras,
que seis dias trabalhou.

Caminho justo e correto
traçou para a humanidade,
para deixa-lo completo
também deu-lhe a liberdade.

Fez água, terra, horizonte,
co’a vida Ele nos brindou,
mas para formar a ponte,
um pouco a nós reservou.

Fonte:
Luiz Damo. A Trova Literária nas Páginas do Sul.
Caxias do Sul/RS: Palotti, 2014.

Irmãos Grimm (O Velho Sultão)


Um camponês possuía um cachorro muito fiel, chamado Sultão, que tinha ficado velho e perdera todos os dentes, de modo que não podia apanhar mais nada. Um dia, estava o camponês com sua mulher à porta de casa e dizia:

- Amanhã vou matar o velho Sultão, pois já não serve para nada.

A mulher, que tinha pena do animal tão fiel, disse:

- Ele nos serviu, honestamente, durante muitos anos! Bem poderíamos sustentá-lo caridosamente.

- Qual o quê! - volveu o homem - Tu estás louca! Não tem mais um dente sequer na boca e não há ladrão que o tema. É hora que se vá. Se nos serviu, em compensação teve também ótimos petiscos.

O pobre cão, que estava deitado ao sol, aí perto, ouviu tudo e ficou triste ante a perspectiva de que o dia seguinte seria o seu último dia. Tinha ele um bom amigo, o lobo. À noite, foi às escondidas visitá-lo na floresta e com ele lamentou o destino que o aguardava.

- Escuta, compadre, - disse-lhe o lobo - não desanimes, eu te ajudarei a livrar-te desta. Tenho uma ideia. Amanhã cedo teu patrão e a mulher vão apanhar feno e levam consigo o filhinho, porque em casa não fica ninguém para olhar por ele. Enquanto trabalham, deixam sempre a criança à sombra, atrás da cerca. Deita-te perto dele como se montasses guarda, eu então sairei da floresta e o roubarei. Tu me corres logo ao encalço, como se quisesses salvá-lo. Eu o deixarei cair e tu o levarás aos pais que, certos de o teres salvo, ficar-te-ão muito gratos e nenhum mal te farão. Pelo contrário, voltarás a ser estimado e não te deixarão faltar mais nada.

O projeto agradou ao cão, que o executou tal e qual. Vendo o lobo correndo pelo campo com a criança na boca, o homem pôs-se a gritar, mas, daí a pouco, quando o velho Sultão o trouxe de volta, disse, muito feliz, acariciando-o:

- Não terás um só pelo torcido, e te sustentarei enquanto viveres.

Depois disse à mulher:

- Vai já para casa e prepara um bom mingau para o velho Sultão, a fim de que não precise mastigar, e traze o meu travesseiro, vou da-lo para que durma nele.

Desde esse momento, o velho Sultão passou tão regaladamente que não poderia desejar melhor. Pouco de pois, o lobo foi visitá-lo e alegrou-se ao ver que tudo lhe correra às mil maravilhas.

- Porém, compadre, - disse o lobo - fecharás um olho se eu por acaso furtar uma bela ovelha de teu patrão. Hoje em dia é difícil cavar a vida!

- Não contes com isso, - respondeu o cão - permanecerei sempre fiel ao meu patrão, portanto, não farei concessões.

O lobo julgou que o cão não falava seriamente e, durante a noite, aproximou-se sorrateiramente para furtar a ovelha. Mas o camponês, ao qual o fiel Sultão havia revelado as intenções do lobo, ficou espreitando-o e penteou-lhe o pelo com o relho. O lobo foi obrigado a safar-se, mas gritou ao cão:

- Espera, amigo falso, hás de me pagar!

Na manhã seguinte, o lobo enviou o javali a fim de convidar o cão à floresta para resolver a questão. O velho Sultão não conseguiu encontrar outro padrinho senão um pobre gato com três pernas só. Quando saíram juntos, o pobre gato caminhava coxeando e, pela dor, erguia alto a cauda.

O lobo e o seu padrinho já se encontravam no local, mas quando viram chegar o adversário julgaram que vinha armado de espada, que era a cauda do gato. Enquanto o pobre animalzinho saltitava com três pernas, o lobo e seu padrinho pensavam que, toda vez que se abaixava e levantava, apanhava uma pedra para atirar neles. Então os dois ficaram com medo, o javali escondeu-se entre a folhagem e o lobo trepou numa árvore.

Aproximando-se, o cão e o gato surpreenderam-se de não encontrar ninguém. Mas o javali não pudera esconder-se completamente e as orelhas apareciam por cima da folhagem. Enquanto o gato olhava à sua volta com desconfiança, o javali agitou as orelhas. O gato então, confundindo-o com um rato, lançou-se sobre ele mordendo-o com força. Então o javali deu um salto e fugiu berrando:

- Ali, em cima da árvore, está o culpado!

O cão e o gato ergueram os olhos e avistaram o lobo, que se envergonhou de ter demonstrado tanto medo e aceitou o tratado de paz com o cão.

Fonte:

sábado, 27 de outubro de 2018

Olivaldo Júnior (Dois microcontos sobre trovador)


SETE SONS

Ainda moço, descobriu os sete sons e, desde então, redondilha pelo mundo e faz da vida o seu trovar. Não se saiu bem logo de cara, mas tentou, perseverou e é poeta.

Sendo poeta, é trovador. Escolhe o mote, a razão de sua trova e, qual Quixote, com ou sem cavalo, com um Sacho Pança imaginário, cavalga seu destino e vai firme.

Já escreveu bastante, até já fez seu epitáfio (sabe o que é?). Só lhe falta achar seu par, alguém que o perpetue em quatro versos e o ressuscite em sete sons, à luz da lua.

A UBT

Era um homem aparentemente igual aos outros. Mas não era. Era um jovem trovador, um velho sonhador. A UBT (União Brasileira de Trovadores) o descobrira.

Foram dias, tardes e noites pensando nela, nessa associação de quem faz trova e vê seu sonho içar as velas e partir. Luiz Otávio, Príncipe dos Trovadores, que o diga!

Depois de um tempo, distanciou-se de seus pares, e o barquinho da poesia foi ao fundo e viu Netuno, nosso rei. Hoje, à beira-mar, na praia outra vez, parece Anchieta.

Microcontos escritos para 18 de julho: Dia Nacional do Trovador

Fonte: Textos enviados pelo autor

Amilton Maciel Monteiro (Poemas Recolhidos) III


AREIAS

Areias do meu tempo de criança
é mais do que saudade.., é só doçura..., 
é algo que me alegra com lembrança 
que não se apaga mais, nem desfigura!

Os casarões por toda a vizinhança, 
recordavam os tempos de fartura... 
Seu povo, apesar da vida mansa, 
sonhava com evolução futura...

E foi assim, que após setenta anos 
de a ter deixado, com meus desenganos, 
fui revê-la e... qual minha surpresa!

Enquanto fiquei velho e já alquebrado... 
Areias remoçou por todo lado 
e está quase vibrante. E uma beleza!

ARTESÃO

Quisera ser poeta... Sou apenas 
um humilde artesão da poesia, 
que lida com palavra, a duras penas, 
para louvar o amor com alegria.

Trabalho quando as noites são amenas 
e tenho a alma cheia de estesia; 
tal qual oleiro que produz dezenas 
de vasos até ver o que queria...

O artífice de si só dá o melhor, 
na busca de alegrar seu bem maior, 
que é uma das razões de seu viver.

Se não tem perfeição de um bom poeta, 
coloca o coração no que arquiteta...
Por seu amor..., não importa se morrer!


Eu tenho muito dó de quem não crê, 
porque sofre demais no mundo, à toa; 
pois quem tem fé, recebe por mercê 
de Deus a graça de uma vida boa. 

Com fé e confiança a gente vê 
claramente que o Pai nos abençoa; 
e não nos abandona, até por que 
mesmo se erramos Ele nos perdoa!

Se não crês no que falo, experimente 
pedir a Deus que te conceda a fé: 
verás a tua vida transformar.

Passarás a viver alegremente, 
sem mágoa, sem rancor, e creio até 
que muitos vão querer te acompanhar!

SENTIDO DA VIDA

Em busca do sentido desta vida, 
notei que cada qual pensa o que quer... 
Ao pobre é jamais faltar comida; 
ao rico é gozar quanto puder...

Filósofos se atritam de saída... 
Mas aos cristãos, buscá-lo é mister; 
longe da raça humana dividida, 
sonham todos irmãos, se Deus quiser! 

O Onipotente quis assim, por certo, 
mantendo o livre-arbítrio sempre aberto 
a todos, com escolha ao seu dispor... 

O sentido da vida para mim 
é buscar o meu Deus até o fim, 
pois quem O indaga, sempre encontra Amor!

SONHO

Meu sonho desta noite foi incrível;
só mesmo um Freud  para o destrinchar;
olhei no espelho e me senti horrível...
Parecia um duende tumular!

 Não foi um pesadelo desprezível,
dos que nos envergonham de contar;
pelo contrário, até foi susceptível
de reverter a história e me alegrar!

No sonho você disse para mim,
que eu não ficasse triste, tanto assim,
pois não a importava a fealdade minha...

O que valia, disse a minha amada,
com um  sorriso encantador, de fada,
que ela ao meu lado era... uma rainha!

Fonte: Poemas enviados pelo autor

Oscar Wilde (A Esfinge sem Segredos)


Numa tarde, eu estava sentado no terraço do Café de Paix, observando o esplendor e a decadência da vida parisiense, meditando com meu vermute a respeito do estranho panorama de orgulho e miséria que passava diante de mim, quando ouvi alguém chamar meu nome. Virei-me e avistei Lorde Murchison. Nós não nos encontrávamos desde que estiveramos juntos na faculdade, há quase dez anos, por isso fiquei encantado em cruzar com ele de novo, e apertamos as mãos calorosamente. Em Oxford, tínhamos sido grandes amigos. Gostava dele imensamente. Era tão belo, tão bem-humorado, tão nobre.

Costumávamos dizer a seu respeito que seria o melhor dos companheiros se não insistisse em falar sempre a verdade, mas acho que nós realmente o admiravamos, acima de tudo, pela franqueza. Eu o encontrei bastante mudado. Aparentava estar ansioso e confuso, parecendo em dúvida a respeito de alguma coisa. Tive a impressão que de não se tratava do moderno ceticismo, pois Murchison era o mais resistente dos tóris (membro do partido conservador, no Reino Unido da Grã-Bretanha) acreditava no Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, atribuídos a Moisés) tão firmemente quanto acreditava na Câmara dos Lordes. Assim, concluí que deveria tratar-se de uma mulher, e perguntei-lhe se já havia se casado.

“Eu não compreendo as mulheres o suficiente”, respondeu.

“Meu querido Gerald”, disse eu, “mulheres existem para serem amadas, não para serem compreendidas”.

“Se não posso confiar, não poderei amar”, replicou.

“Creio que você tem um mistério em sua vida, Gerald”, exclamei, “conte-me a respeito”.

“Vamos dar uma volta”, ele respondeu, “aqui está muito lotado. Não, não uma carruagem amarela, qualquer outra cor... aquela, a verde escura serve”. E em poucos minutos estávamos trotando para o bulevar, na direção de Madeleine.

“Aonde iremos?”, eu perguntei.

“Ah, aonde você quiser!”, ele respondeu, “ao restaurante de Bois. Jantaremos lá e você me contará tudo a seu respeito”.

“Primeiro gostaria de ouvir sobre você”, disse. “Conte-me seu mistério”.

Ele tirou do bolso uma caixinha de marroquim com feixe de prata e me entregou. Eu a abri. Dentro, estava a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta, estranhamente pitoresca com grandes olhos vagos e cabelos soltos. Parecia-se com uma clarividente, envolta em peles caras.

“O que você acha desse rosto?”, ele disse, “é confiável?”.

Examinei cuidadosamente. Pareceu-me o rosto de alguém que possuía um segredo, mas se o segredo era bom ou mau, não poderia dizer. Sua beleza era uma beleza moldada com muito mistérios – a beleza, na verdade, era psicológica, não plástica – e o sorriso lânguido, que apenas brincava por entre os lábios, era muito mais misterioso que propriamente encantador.

“Bem”, ele exclamou, impaciente, “o que você diz?”.

“É a Gioconda em peles de zibelina”, respondi. “Conte-me tudo a respeito dela”.

“Agora não”, disse ele; “depois do jantar”, e começou a falar sobre outras coisas.

Quando o garçom nos trouxe café e cigarros, lembrei a Gerald sobre a promessa. Ele se levantou de onde estava, caminhou duas ou três vezes de um lado a outro e, afundando em uma poltrona, contou-me a seguinte história:

“Num fim de tarde” estava caminhando pela Bond Street, por volta das cinco horas. Havia um congestionamento terrível de carruagens e o tráfego estava quase parado. Perto da calçada encontrava-se um pequeno coche amarelo, que por uma razão ou outra, atraiu minha atenção. Ao passar por ele, um rosto olhou para fora, o mesmo que eu lhe mostrei hoje à tarde. Fiquei imediatamente fascinado. Passei aquela noite inteira pensando nisso, e por todo o dia seguinte também. Perambulei para cima e para baixo por aquela travessa infame, perscrutando o interior de todas as carruagens, esperando pelo coche amarelo, mas não consegui encontrar minha bela desconhecida, por fim, comecei a achar que ela era meramente um sonho.

Cerca de uma semana mais tarde, fui jantar com Madame Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia eu ainda esperava na sala de visitas. Finalmente o criado abriu a porta, anunciando Lady Alroy. Era a mulher por quem procurava. Ela entrou devagar, parecendo um raio de luar em renda cinza, e, para meu absoluto deleite, pediram-me que a acompanhasse até a mesa. Depois de termos sentado, comentei, com perfeita inocência:

‘Penso tê-la visto de relance na Bond Street há pouco tempo atrás, Lady Alroy’.

Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:

‘Peço-lhe que não fale tão alto. Alguém pode escutá-lo’.

Senti-me péssimo por ter começado tão mal e me apressei a comentar as peças francesas. Ela falou muito pouco, sempre na mesma voz melodiosa, e me pareceu que estar com medo de que alguém a ouvisse. Fiquei apaixonado, estupidamente enamorado, e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava aumentou ainda mais minha ardente curiosidade. Quando ela já estava indo embora, o que fez logo depois do jantar, perguntei-lhe se podia vê-la novamente. Ela hesitou por um momento, olhando de relance ao redor para ver se tinha alguém por perto, e então disse:

‘Sim! Amanhã, às quinze para as cinco’.

Implorei à Madame de Restail que me falasse a respeito daquela mulher, mas tudo o que pude saber era que se tratava de uma viúva, com uma bela casa em Park Lane. Então como um tedioso especialista começasse a falar a respeito de viúvas, exemplificando a sobrevivência matrimonialmente mais aptos, saí e fui para casa. No dia seguinte, cheguei em Park Lane pontualmente na hora marcada, mas fui informado pelo mordomo de que Lady Alroy tinha acabado de sair. Fui para o clube completamente infeliz e muito confuso. Após longa consideração, escrevi-lhe uma carta
perguntando se me era permitido tentar a sorte noutra tarde. Por fim, recebi um bilhetinho dizendo que ela estaria em casa no domingo, às quatro, e acrescentava este inusitado pós-escrito:
‘Por favor, não me escreva novamente; explicarei quando nos vermos’.

No domingo ela me recebeu e estava plenamente encantadora, mas quando eu já ia embora, me implorou dizendo que, caso tornasse a lhe escrever, endereçasse a carta para ‘Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whitacker, Green Street’.

‘Há motivos’, disse ela, ‘pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa’.

Durante toda a estação eu a vi com frequência, e a atmosfera de mistério nunca a abandonou. Por vezes pensei que ela estivesse sob o domínio de algum homem, mas parecia tão inacessível que foi verdadeiramente muito difícil para mim chegar a alguma conclusão, pois
ela era como um daqueles estranhos cristais que vemos nos museus: num instante estão claros, no outro, nublados. Por fim decidi pedi-la em casamento. Estava cansado e aborrecido pelo incessante sigilo que ela impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviava. Escrevi-lhe, para o endereço da biblioteca, perguntando se poderia vê-la na segunda-feira seguinte, às seis horas. Ela respondeu que sim, e fui transportado para o sétimo céu das delícias. Estava enfeitiçado por ela. Apesar do mistério, pensei na ocasião, em consequência dele, percebo agora. Não! Era à mulher quem eu amava. O mistério me aborrecia, me enfurecia. Por que o destino me pôs nesse caminho?”.

“Você descobriu, então”, exclamei.

“Temo que sim”, ele respondeu. “Você pode julgar por si mesmo”.

“Na segunda-feira fui almoçar com meu tio e, por volta das quatro horas, me encontrava em Marylebone Road. Meu tio, você sabe, mora em Pengent´s Park. Eu queria chegar a Piccadillty, então peguei um atalho através de várias ruazinhas desgastadas. De repente, vi diante de mim Lady Alroy, com o rosto coberto por um véu grosso, caminhando muito rápido. Chegando à última casa da rua, ela subiu os degraus, tirou a chave de trinco e entrou.

‘Esse é o mistério’, disse a mim mesmo, e corri a examinar a casa. Parecia uma dessas casas em que alugam quartos. No degrau da porta estava um lenço que ela deixara cair. Eu o recolhi e guardei-o no bolso. Em seguida, refleti sobre o que deveria fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la, e dirigi-me ao clube. Às seis, fui vê-la. Estava recostada em um sofá, com um robe de tecido prateado preso por algumas estranhas pedras da lua, que ela usava sempre. Parecia perfeitamente bela.

‘Estou tão feliz em vê-lo’, disse, ‘não me ausentei o dia todo’.

Eu a encarei, surpreso, e puxando o lenço do bolso, dei-o a ela.

‘Você deixou cair isto na Cumnor Street esta tarde, Lady Aboy’, disse, muito calmamente.

Ela me olhou aterrorizada, mas não fez nenhuma tentativa para pegar o lenço.

“O que você estava fazendo lá?”, perguntei.

“Que direito você tem de me questionar?”, respondeu.

“O direito de um homem que a ama”, repliquei. “Vim aqui para pedir que se case comigo”.

Ela escondeu o rosto entre as mãos e rompeu num mar de lágrimas.

“Você deve me dizer”, prossegui.

Ela levantou-se e, olhando-me diretamente, disse:

“Lorde Murchison, não há nada para lhe dizer”.

“Você foi se encontrar com alguém!” exclamei, “Esse é seu mistério”.

Ela ficou mortalmente pálida, e bradou:

“Não fui me encontrar com ninguém”.

“Não pode me dizer a verdade?”, exclamei.

“Eu a disse”, replicou.

Estava exasperado e furioso. Não lembro o que disse, mas falei coisas terríveis a ela. Por fim, saí correndo da casa. Ela me escreveu uma carta no dia seguinte; eu a devolvi ainda fechada e parti para Norway, com Alan Colville. Após um mês, retornei, e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Tinha pego uma friagem na Ópera e morrido cinco dias mais tarde de congestão pulmonar. Eu me recolhi, não queria ver ninguém. Eu a amara tanto, eu a amara tão loucamente. Bom Deus! Como amei aquela mulher!”.

“Você voltou àquela rua, à casa em que fica lá?”, perguntei.

“Sim”, ele respondeu.

“Um dia retornei a Cumnor Street. Não pude evitar. Estava torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aparência respeitável atendeu. Perguntei se tinha quartos para alugar.

‘Bem, sir’, ela replicou, ‘as salas de visitas estão supostamente alugadas, mas há três meses que não vejo a senhora, e como o aluguel ainda é devido, pode ficar com elas’.

‘É esta a senhora?’, disse-lhe, mostrando a fotografia.

‘É ela, tenho absoluta certeza’, ela exclamou, ‘e quando ela retornará, sir?’.

‘Esta senhora está morta’, repliquei.

‘Ah, sir! Espero que não!’, disse a mulher. ‘Ela era minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana apenas para sentar-se em minhas salas de visitas de vez em quando’.

‘Ela encontrava-se com alguém aqui?’, eu perguntei, mas a mulher assegurou-me que isso não acontecia, que a senhora sempre vinha sozinha e não se encontrava com ninguém.

‘E o que, afinal, ela fazia aqui?’, bradei.

‘Simplesmente sentava-se na sala de visitas, sir, e lia algum livro. Algumas vezes, tomava chá’, respondeu a mulher.

Eu não sabia o que dizer, então dei a ela uma moeda e fui embora. Então, o que você acha que significa isso tudo? Você acredita que a mulher esteja dizendo a verdade?

“Acredito”.

“Então por que Lady Alroy ia até lá?”.

“Meu querido Gerald”, respondi, “Lady Alroy era simplesmente uma mulher com mania por mistérios. Alugava aquelas salas pelo prazer de ir até lá coberta por véus, imaginando-se uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas ela própria era meramente uma esfinge sem segredo”.

“Acha mesmo isso?”.

“Tenho certeza disso”, repliquei.

Ele apanhou a caixa de marroquim, abriu-a, e olhou a fotografia.

“Será?”, disse ele, por fim.

Fonte: 
Oscar Wilde. Contos Completos.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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