domingo, 28 de outubro de 2018

Irmãos Grimm (O Velho Sultão)


Um camponês possuía um cachorro muito fiel, chamado Sultão, que tinha ficado velho e perdera todos os dentes, de modo que não podia apanhar mais nada. Um dia, estava o camponês com sua mulher à porta de casa e dizia:

- Amanhã vou matar o velho Sultão, pois já não serve para nada.

A mulher, que tinha pena do animal tão fiel, disse:

- Ele nos serviu, honestamente, durante muitos anos! Bem poderíamos sustentá-lo caridosamente.

- Qual o quê! - volveu o homem - Tu estás louca! Não tem mais um dente sequer na boca e não há ladrão que o tema. É hora que se vá. Se nos serviu, em compensação teve também ótimos petiscos.

O pobre cão, que estava deitado ao sol, aí perto, ouviu tudo e ficou triste ante a perspectiva de que o dia seguinte seria o seu último dia. Tinha ele um bom amigo, o lobo. À noite, foi às escondidas visitá-lo na floresta e com ele lamentou o destino que o aguardava.

- Escuta, compadre, - disse-lhe o lobo - não desanimes, eu te ajudarei a livrar-te desta. Tenho uma ideia. Amanhã cedo teu patrão e a mulher vão apanhar feno e levam consigo o filhinho, porque em casa não fica ninguém para olhar por ele. Enquanto trabalham, deixam sempre a criança à sombra, atrás da cerca. Deita-te perto dele como se montasses guarda, eu então sairei da floresta e o roubarei. Tu me corres logo ao encalço, como se quisesses salvá-lo. Eu o deixarei cair e tu o levarás aos pais que, certos de o teres salvo, ficar-te-ão muito gratos e nenhum mal te farão. Pelo contrário, voltarás a ser estimado e não te deixarão faltar mais nada.

O projeto agradou ao cão, que o executou tal e qual. Vendo o lobo correndo pelo campo com a criança na boca, o homem pôs-se a gritar, mas, daí a pouco, quando o velho Sultão o trouxe de volta, disse, muito feliz, acariciando-o:

- Não terás um só pelo torcido, e te sustentarei enquanto viveres.

Depois disse à mulher:

- Vai já para casa e prepara um bom mingau para o velho Sultão, a fim de que não precise mastigar, e traze o meu travesseiro, vou da-lo para que durma nele.

Desde esse momento, o velho Sultão passou tão regaladamente que não poderia desejar melhor. Pouco de pois, o lobo foi visitá-lo e alegrou-se ao ver que tudo lhe correra às mil maravilhas.

- Porém, compadre, - disse o lobo - fecharás um olho se eu por acaso furtar uma bela ovelha de teu patrão. Hoje em dia é difícil cavar a vida!

- Não contes com isso, - respondeu o cão - permanecerei sempre fiel ao meu patrão, portanto, não farei concessões.

O lobo julgou que o cão não falava seriamente e, durante a noite, aproximou-se sorrateiramente para furtar a ovelha. Mas o camponês, ao qual o fiel Sultão havia revelado as intenções do lobo, ficou espreitando-o e penteou-lhe o pelo com o relho. O lobo foi obrigado a safar-se, mas gritou ao cão:

- Espera, amigo falso, hás de me pagar!

Na manhã seguinte, o lobo enviou o javali a fim de convidar o cão à floresta para resolver a questão. O velho Sultão não conseguiu encontrar outro padrinho senão um pobre gato com três pernas só. Quando saíram juntos, o pobre gato caminhava coxeando e, pela dor, erguia alto a cauda.

O lobo e o seu padrinho já se encontravam no local, mas quando viram chegar o adversário julgaram que vinha armado de espada, que era a cauda do gato. Enquanto o pobre animalzinho saltitava com três pernas, o lobo e seu padrinho pensavam que, toda vez que se abaixava e levantava, apanhava uma pedra para atirar neles. Então os dois ficaram com medo, o javali escondeu-se entre a folhagem e o lobo trepou numa árvore.

Aproximando-se, o cão e o gato surpreenderam-se de não encontrar ninguém. Mas o javali não pudera esconder-se completamente e as orelhas apareciam por cima da folhagem. Enquanto o gato olhava à sua volta com desconfiança, o javali agitou as orelhas. O gato então, confundindo-o com um rato, lançou-se sobre ele mordendo-o com força. Então o javali deu um salto e fugiu berrando:

- Ali, em cima da árvore, está o culpado!

O cão e o gato ergueram os olhos e avistaram o lobo, que se envergonhou de ter demonstrado tanto medo e aceitou o tratado de paz com o cão.

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