Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 31 de julho de 2016

Alexandre Dumas (Carlos Magno e o Anjo)

Por volta do ano 868, Carlos Magno tinha resolvido fazer construir um palácio que dominasse o Reno, e em 874 esse palácio estava construído. Era um magnífico edifício, metade fortaleza, metade castelo, sustido por cinquenta colunas de mármore e cinquenta colunas de granito. Estas colunas de mármore lhe tinham sido enviadas de Roma e de Ravena, pelo papa Estevão III, e as colunas de granito tinham sido tiradas de Adenwald. De modo que, vendo sua nova morada imperial tão lindamente acabada, ele resolveu convocar aí uma assembleia. Em consequência, os príncipes e os senhores das cercanias foram convocados para essa grande solenidade.

Na noite que precedeu a data em que a assembleia devia se realizar, quando o imperador acabava de adormecer, um anjo lhe apareceu e disse estas palavras: "Carlos, levanta-te e rouba". Carlos Magno se levantou depressa e sentiu um perfume celestial no quarto. Mas, como as palavras que o anjo dissera lhe soavam mediocremente em relação com os preceitos de Deus e da Igreja, afigurou-se-lhe haver sonhado, e readormeceu.

Porém, mal o imperador tinha fechados os olhos, a mesma visão lhe apareceu de novo, e, com um rosto severo, como o de um mensageiro que tem direito de censurar, se não lhe obedecem às ordens, o anjo repetiu pela segunda vez, com voz grave, as palavras que tinha dito e que o imperador acreditava ter ouvido mal. Ele abriu depressa os olhos e viu o quarto pleno de uma luz celestial, que foi, pouco a pouco, enfraquecendo, e acabou por se extinguir completamente.

Entretanto, a ordem tinha sido tão estranha, que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer, e, repousando a cabeça no travesseiro, dormiu uma terceira vez. Dessa feita ainda, o mesmo anjo apareceu, mas com um semblante ameaçador, e reiterou a mesma ordem, com uma voz tão imperiosa, que o imperador, que, entretanto, não era absolutamente fácil de se amedrontar, estremeceu de terror e se levantou sobressaltado. Dessa vez, não somente o mesmo celestial aroma se espalhava, e a mesma luz resplandecente brilhava, mas ainda o anjo estava de pé, junto ao seu leito, e não foi senão quando teve certeza de que o imperador não podia duvidar da realidade de sua presença, que ele estendeu suas asas de ouro e desapareceu. Dessa vez, Carlos Magno não teve nenhuma dúvida de que a ordem lhe vinha do céu, porque o mensageiro era belo demais para ser um enviado do inferno.

Carlos Magno não hesitou mais, então; levantou-se depressa, vestiu-se às apalpadelas, deplorando esse mandado do céu, que lhe ordenava começar tão tarde um serviço tão infame. Mas o imperador era como Abraão, decidido a tudo sacrificar a Deus, mesmo sua honra. Em consequência, revestiu-se da couraça, cingiu a espada e tomou o capacete na mão, como se fosse comandar uma dessas expedições guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia, quanto tinha repugnância por aquela. Enfim, ele saiu de seu quarto e, parando numa galeria que dominava toda a região, fez uma pausa para decidir de que lado iria ser esse roubo que o embaraçava tanto realizar.

De resto, a noite estava sombria, como convém a tal expedição, mas, por inspiradora que fosse a escuridão, o imperador era de tal modo noviço na nova arte que lhe era preciso exercer, que, por mais que vagueasse no sentido do comprimento e no da largura, depois de quase uma hora, ainda não lhe tinha chegado a menor ideia, quando, de súbito, percebeu que acabavam de lhe furtar o capacete que ele tinha pousado na balaustrada da galeria. 0 imperador procurou bem de todos os lados, olhou dentro e fora, mas toda a busca foi inútil: o capacete tinha desaparecido.

Tanto o furto era audacioso, como o ladrão era hábil; e tanto mais o ladrão era hábil, mais, em semelhante circunstância, ele podia dar um bom conselho ao imperador. Assim, pareceu-lhe que esse ladrão era um novo favor do céu que, vendo seu embaraço, tinha tido piedade dele. Em consequência, levantou a voz:

- Que aquele que me furtou o capacete - gritou ele - se apresente diante de mim, e, sob minha palavra de rei, em lugar de ser castigado, ele receberá uma recompensa de cem ducados.

Logo, uma explosão de riso agudo retiniu na própria galeria, e de sob a tapeçaria que recobria uma mesa, Carlos Magno viu sair seu anão, que se aproximou e lhe estendeu o capacete, a fim de que ele jogasse ali dentro a soma prometida.

- Ah! és tu, infame ladrão - disse Carlos Magno; - eu deveria ter visto que ninguém, senão tu, seria capaz de semelhante golpe, e deveria ordenar que te dessem cem vergastadas, em lugar de te prometer imprudentemente que daria cem ducados.

- Sim, mestre - disse o anão -, teria sido mais econômico, é verdade, mas um homem honesto não tem senão uma palavra. Eis o capacete; onde estão os cem ducados?

- Tu os terás de pronto, quando me tiveres dado um bom conselho.

- Os cem ducados - disse o anão - foram prometidos pelo capacete e não pelo conselho; dá-me os cem ducados pelo capacete e terás o conselho de graça.

Carlos Magno estendeu a mão para segurar o engraçado que lhe falava com tanta ousadia, mas o anão viu o movimento, e, rápido como o pensamento, saltou por sobre a balaustrada, com a destreza e a agilidade de um macaco, pôs-se a subir ao longo de uma das colunas, e não parou senão quando ficou a cavalo numa das folhas do capitel. Lá, ele se pôs a cantar uma canção de que compunha, a um só tempo, a música e as palavras. Esta canção dizia:

"Eu já tenho um capacete, um belo capacete, um capacete encimado por uma coroa real: um capacete que me custa cem ducados".
Eu vou tratar de obter pelo mesmo preço uma couraça e uma espada, e então me farei armar cavaleiro, por algum imperador que jamais tenha faltado à sua palavra".
"Depois, quando eu tiver sido armado cavaleiro, terei uma grande espada e uma boa lâmina, ir-me-ei por montes e vales, fazendo justiça, porque nos países da Germânia e da França justiça é de grande necessidade que seja feita".
"Mas, olá! onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um imperador que não tenha jamais faltado à sua palavra?"

0 ruído de uma bolsa que tombava nas lajes interrompeu o improviso do cantor, o anão compreendeu que a lição de moral tinha produzido seu efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho nela e outro no imperador.

- Vamos, vem aqui, tolo - disse Carlos Magno -, e não temas. Preciso de ti.

- Ah! agora - disse o anão -, se tens necessidade de mim, é outra coisa, e não tenho mais medo.

- Eu desejaria roubar - disse Carlos Magno.

- Péssima profissão - disse o anão -, sobretudo quando se dá o caso com pessoas que prometem e que não sustentam, também, atende-me, uma vez que tiveste a infelicidade de ter nascido homem honrado, permanece honrado.

- Eu te digo que quero roubar - disse Carlos Magno com um tom que provava que ele começava a se cansar das reflexões filosóficas do seu interlocutor.

- Ah! então - disse o anão -, se é uma vocação decidida, não há nada a dizer. Que queres roubar?

- Ah! É justamente o que não sei - disse Carlos Magno. - Porém quero roubar alguém, isto imediatamente, esta noite.

- Diabo! disse o anão. Pois está bem! Roubemos.

- Mas roubar quem? - perguntou Carlos Magno.

- Presta atenção - disse o anão, estendendo a mão. - Vês esta pobre cabana?

- Sim - disse o imperador.

- Pois bem! Trata-se de um bom golpe a dar. Não pobre como te pareça, ela contém hoje cem florins. Há perto de dez anos o camponês que a habita trabalha todos os dias desde às cinco horas da manhã até às oito da noite, de maneira que, à força de remover a terra, pôs de lado esta soma. A porta fecha mal, o homem tem sono pesado, tu vês que é fácil de roubar.

- Miserável! - gritou Carlos Magno. - Tu queres que eu vá tomar a um desgraçado o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro todo molhado com seu suor!

- Eu! - disse o anão - eu não quero nada; tu me pedes um conselho, eu to dou, eis tudo.

- Um outro, um outro! - gritou Carlos Magno.

- Vês aquela casa de campo? - disse o anão, estendendo o dedo em outra direção.

- Vejo-a - respondeu o imperador.

- É um comerciante rico. Não são florins que tu encontrarás em casa dele, são ducados, e não os contarás por centenas, mas por milheiros.

- E sem dúvida - disse Carlos Magno - foi praticando a usura e vendendo com pesos falsos que ele adquiriu semelhante fortuna.

- Não - disse o anão -, não, foi fazendo para ele, como para os outros, cálculos rigorosamente exatos, que sua probidade tornou-se proverbial, e, por acaso, para aquele a honestidade trouxe o que traz para outros a velhacaria.

- Como! Patife! - disse o imperador. - E é justamente um homem que faz fortuna de maneira tão honesta que queres que eu arruíne?

- Eu não quero nada - disse o anão. - És tu, ao contrário, que queres roubar. Eu te digo quais são aqueles que têm o dinheiro, eis tudo.

- Sim, sem dúvida, eu quero roubar - disse o imperador -, mas não o pobre trabalhador, não o comerciante industrioso, preferia roubar algum abade, engordado pelo repouso, enriquecido com o dízimo, que não tenha jamais feito nada senão dormir, comer e beber. Eis quem eu queria roubar, se tu queres saber.

- Peste! para um principiante - disse o anão -, não está mal raciocinado; mas, roubando tal homem, seria o mesmo que roubar os pobres, porque ele saberia bem se fazer pagar, no dia seguinte, pelo povo, o dobro do que tu lhe tivesses tomado.

- Pois bem; então - disse o imperador -, eu queria roubar qualquer um desses maus cavaleiros, que não vivem senão de pilhagens e ladroeiras, que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem os que deveriam defender.

- Ah! então é outra coisa, porque não te explicaste em seguida? - disse o anão. - Eu tenho o que te serve. Vês aquele castelo?

- Sim - disse Carlos Magno.

- Pois bem! É do sr. Harderic, o maior malfeitor que existiu sobre a terra, desde o rei Atila e o falso profeta Maomé.

- Tanto melhor - disse o imperador.

- Mas lá, a coisa não será fácil. Ele tem o sono leve e a mão pesada. Haverá golpes para receber.

- Tanto melhor, tanto melhor! - disse o imperador.

- Pois bem! Vai colocar outra couraça, uma couraça sombria como a noite na qual é preciso que deslizemos. Toma um punhal curto, em lugar dessa longa espada. A espada é uma arma do dia, para atingir de longe. À noite não se golpeia senão o que se toca. Têm-se os olhos na mão, e não é preciso que os olhos estejam muito longe da lâmina. Vai e volta, espero aqui, contando os ducados para ver se minha conta está certa.

0 imperador não esperou que lhe dissesse duas vezes, tornou a entrar em casa, e voltou logo, coberto com uma cota de malhas de aço brunido, que lhe tomava o corpo como um gibão e se lhe encaixava na cabeça como um capuz. Ele tinha mais, na cintura uma faca larga, curta e cortante, como o gladio romano. 0 anão o examinou dos pés à cabeça, e fez um sinal de aprovação.

- Então - disse Carlos Magno -, a caminho.

- A caminho - disse o anão.

E saíram os dois do palácio, e na estrada, a mais direta, isto é, atravessando as terras, avançaram para o castelo de Harderic.

Caminhando, Carlos Magno encontrou um marco, que servia para delimitar um campo, arrancou-o da terra e colocou ao ombro.

- Que diabo fazes tu? - disse o anão.

- Acreditas que encontraremos a porta aberta? - perguntou o imperador.

- Não - respondeu o anão.

- Pois então! Eu levo com que arrombá-la.

0 anão desatou a rir.

- Isto - disse ele -, e à primeira pancada que bateres, a guarnição inteira estará de pé, e então que encontrarás tu para apanhar? Algum frango assustado, que terá escapado para os fossos. Eu te acreditava mais forte, mestre!

- 0 que é preciso então fazer? - perguntou Carlos Magno, meio confuso com a sua inexperiência.

- Isto me concerne - disse o anão.

Carlos Magno deixou-o tomar seu marco e continuou o caminho sem dizer uma única palavra.

Chegando à porta, como tinha pensado Carlos Magno, encontraram-na fechada. Então ele olhou para seu anão, como para lhe perguntar o que era preciso fazer, o anão lhe fez sinal para se manter o mais perto da porta que lhe fosse possível; e, lançando-se sobre uma figueira que crescia nos fossos, e da figueira agarrando-se à muralha, ele subiu, enfiou sucessivamente as mãos e os pés nos intervalos das pedras, até as seteiras, e desapareceu. Um instante depois, Carlos Magno ouviu uma chave ranger na fechadura: a porta se moveu pesadamente, mas sem ruído, depois permaneceu entreaberta justamente o necessário para deixar passar um homem. Carlos Magno passou, o anão fechou a porta com as mesmas precauções que tinha tomado para abri-la, e os dois ladrões se acharam dentro do pátio do castelo.

- Eis aqui vosso caminho - disse o anão, mostrando a Carlos Magno a escada que conduzia aos aposentos do castelo , e eis o meu - continuou, mostrando a cavalariça.

- Por que não vens comigo? - perguntou Carlos Magno.

- Porque eu também tenho meu golpe para dar - disse o anão.

E, pondo-se a correr de quatro patas como um cão, a fim de não ser reconhecido por nenhuma criatura humana, no caso de ser visto, ele atravessou o pátio e entrou na baia.

Essa confiança do anão excitou o amor-próprio de Carlos Magno; ele subiu a escada o mais suavemente que pode, entrou nos aposentos e, graças a um raio de luar que apareceu no céu justamente nesse momento, ele chegou até o quarto situado antes daquele em que Harderic dormia com sua mulher. Chegando lá, estendeu a mão para ver se não encontraria nada que pegar, e sua mão caiu sobre um cofre rodeado de ferro, que lhe pareceu dever conter dinheiro ou joias. Nesse momento o cavalo do castelão relinchou tão violentamente, que Carlos Magno estremeceu.

- Ei - disse Harderic, despertando, sobressaltado. - Que se passa em minha cavalariça?

- Nada - respondeu sua mulher -, é o teu cavalo que relincha.

- Meu cavalo não tem o costume de relinchar assim - disse Harderic -, é preciso que alguém que ele não conheça tente desatá-lo.

- E quem pensas que quer soltar teu cavalo?

- Quem? Por Deus! Um ladrão!

E, a essas palavras, Carlos Magno escutou Harderic descer do leito e tomar a espada. Então ele se afastou e, graças ao raio de luar, viu-o passar. Carlos Magno permaneceu num canto, amaldiçoando o anão, e mantendo, em todo caso, a mão sobre a guarda da espada. Ao fim de um instante, o castelão voltou.

- E então? - disse-lhe a mulher. - Que havia na cavalariça?

- Não havia nada - respondeu Harderic -, mas há três ou quatro noites que não consigo dormir.

- E tu não podes dormir porque meditas, sem dúvida, alguma coisa.

- É verdade disse o castelão.

- E que meditas tu?

- Posso te dizer agora - respondeu Harderic - porque o tempo em que nosso projeto deve se realizar está quase chegando; amanhã eu e onze outros condes, barões e senhores, devemos matar o rei Carlos, que nos impede de ser os donos de nossos domínios; estamos cansados de suportar isso, e não o queremos mais sofrer.

- Ah! Ah! Ah! - fez baixinho Carlos Magno.

- Oh! meu Deus, meu Deus! - disse a castelã, desolada. - E se vosso conluio malogra, vós estais perdidos.

- Impossível - disse o castelão -, estamos ligados entre nós por juramentos os mais terríveis; amanhã, convocados para a assembleia, como todos os outros, nós entramos no palácio, sem despertar nenhuma suspeita; estaremos bem armados, e ele não estará, cercaremos seu trono, bater-lhe-emos e ele cairá.

- E quais são os conjurados?

- É o que não posso dizer, mesmo a ti; mas seu compromisso assinado com seu sangue está aqui no quarto ao lado, fechado no cofre que se acha sobre a mesa.

Carlos Magno alongou a mão, o cofre estava bem ali onde havia indicado Harderic.

- Está bem - disse a castelã. - Deus ajude que tudo isto corra bem.

- Amém! disse o castelão.

E ele voltou a dormir: durante algum tempo ainda, ouviram-se os suspiros da castelã, mas bem depressa sua respiração doce e igual se misturou aos roncos do esposo; os dois tinham retomado o sono interrompido.

Então Carlos Magno apanhou o cofre, pô-lo embaixo do braço, atravessou os aposentos, desceu a escada e chegou ao pátio. Viu lá seu anão que se debatia sobre o cavalo de guerra do castelão, o qual relinchava e escavava o solo, como se julgasse indigno dele obedecer a um tão miserável escudeiro. Mas então o bom imperador se atirou sobre ele, e mal o cavalo sentiu o peso de um homem, e compreendeu com que cavaleiro exercitado tinha que se haver, tornou-se doce como um cordeiro. Então Carlos Magno pegou o anão pela gola de sua roupa, pô-lo na garupa e partiu num grande galope.

Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e aí encontrou o compromisso dos doze conjurados, assinado com sangue. Então fez despertar sua gente e ordenou que num dos pátios do palácio se construíssem onze forcas de proporções ordinárias e uma décima segunda mais alta que as outras, e no alto de cada um dos doze patíbulos fez gravar numa tabuleta o nome de um dos doze conjurados, e sobre a forca mais alta o nome de seu chefe Harderic.

Depois, como tinha duas entradas no palácio, ordenou que se recebessem todos os outros barões convocados por uma porta e em um outro pátio, e que não recebessem senão os conspiradores pela porta e no pátio das forcas.

E aconteceu assim como Carlos Magno tinha ordenado, tão bem, que, quando viu todos os barões reunidos, relatou-lhes a conspiração tramada contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com o sangue dos doze conjurados, e lhes perguntou que pena tinham merecido: e todos os barões, a uma só voz, disseram que tinham merecido a morte.

Então Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo pátio, e os barões viram os doze conspiradores pendurados nas doze forcas.

E, em memória da aparição celestial, à qual ele devia a vida, denominou o palácio onde isto aconteceu "Ingelheim" ou a Casa do Anjo.

Alexandre Dumas (1802 – 1870)

Seu verdadeiro nome era Alexandre David de La Pailleterie. Nasceu em Villers-Cauteret (Aisne), França, em 24 de julho de 1802.

Seu pai, que se chamava como ele e adotou o nome suposto de Alexandre Dumas para sentar praça, aos quatorze anos, no regimento de dragões da rainha, nasceu em Haiti, era fruto da união do marquês de La Pailleterie com uma negra escrava, e chegou a ser um dos mais brilhantes e valorosos generais de Napoleão I.

Quando o futuro romancista tinha apenas quatro anos de idade, morreu seu pai. A viúva não contava com outros recursos além da exígua pensão que lhe consignara o Estado, e não pode tirar seu filho da pequena cidade em que residiam, para lhe dar uma instrução mais de acordo com seu precoce talento.

Sendo ainda um rapazola, empregou-se como escrevente de um notário de sua vila, e em 1823, ansioso por mudar de rumo, mudou-se a Paris munido de cartas de apresentação para os antigos companheiros de armas de seu pai, em sua maioria afetos aos Bourbons, e somente obteve cordial acolhida do general Fay, que, admirado do belo tipo de letra do jovem Dumas, conseguiu para ele um modesto emprego na secretaria do duque Orléans, que lhe permitiu, poder entregar-se ao estudo da história de França, que sobremodo o atraia.

Aproveitando horas de descanso, de noite estudava também idiomas, fisiologia, química, física, e lia sofregamente os clássicos franceses.

Segundo ele mesmo conta em suas "Memórias", tendo assistido a uma representação de "Hamlet", experimentou, tal entusiasmo, tal ânsia de impulsionar a glória dos grandes poetas dramáticos, que resolveu seu destino ali mesmo. Escreveria para o teatro.

Depois de assistir àquela representação shakespeariana, resolveu deixar Villers-Cauteret e ir experimentar a sorte em Paris.

A 22 de setembro cie 1825 estreava-se a sua primeira obra no velho teatro de "L'Ambigu", o vaudeville "La chasse et l'amour". No ano seguinte lançou seu primeiro volume em prosa: "Nouvelles contemporaines" e estreou outro Vaudeville: "L'enterrement", com o pseudônimo de "Davy", como a peça anterior, e que como o anterior também obteve escasso êxito.

Em 1829 obteve seu primeiro triunfo de dramaturgo, com "Henri III et sa cour", cuja estreia assistiu o próprio duque de Orleans, que o promoveu, nomeando-o bibliotecário. A obra tornou-se de repertório e obteve um número apreciável de representações consecutivas.

No seguinte ano estreou a trilogia em cinco atos: "Stockolmo, Fontainebleau et Rome", cujo êxito não foi inferior a "Henri III", e o drama em verso "Christine".

Abandonou, em seguida, seu emprego para se dedicar à literatura e, ao estalar a revolução de julho de 1830, tomou parte ativa nela, às ordens de Lafayette, primeiramente, em Paris, e depois marchou para Soissons e Vendée, assegurando o triunfo do partido vencedor. Ao seu regresso foi nomeado capitão de artilharia da guarda nacional, mas não conseguiu por parte do rei Luiz Filipe maior apreciação de seus esforços em prol da casa de Orleans. Um de seus contemporâneos escreveu que Alexandre Dumas, para se vingar do seu fracasso político, em oito dias apenas escreveu seu drama "Napoléon Bonaparte" (1831).

Inspirado por sua violenta paixão por Melania Waldor, escreveu um dos seus melhores e mais célebres dramas: "Anthony", que alcançou 130 representações consecutivas, cifra insólita naquele tempo (1831).

Seguiram-se: "Charles VII" (1831); "Richard Darlington" (1831);'"Thérèse" (1832); "Le mari de la veuve"; "La tour de Nesle" (1832); "Angelo" (1833); "Catherine Howard" (1834); Don Juan de Mañara" (1836); "Keau" (1836); "Piquillo" (1837); "Calígula" (1837); "Paul Jones" (1837); "Mademoiselle de Belle Isle" (1839); "L'alchimiste" (1839); "Un mariage sous Louis XV" (1841) ; "Lorenzazio" (1842) ; "Halifax" (1842); ; "Les demoiselles de Saint-Cyr" (1843); "Louise Bernard;" (1843); "Le gard forestier (1845); escritos os mais destes dramas e comédias de parceria com diversos colaboradores.

Tendo sofrido um ataque de cólera, ficou em 1832 recuperando sua saúde e, por conselho médico, teve de mudar de ares, viajando então pela Borgonha e Suíça. Continuando suas viagens até 1858, visitou Espanha, Itália, Alemanha, Rússia, Argélia, Egito e Tunísia, que lhe serviram para escrever suas famosas "Impressões de Viagem", que tanto contribuíram para sua popularidade, e que se acham reunidas em quinze volumes.

A paixão que, a princípio, sentira pelo teatro, chegou mais tarde a consagrá-la ao romance, no qual chegou a ser o "rei dos folhetinistas", segundo a conhecida frase de Delarme.

Suas obras completas atingem a cifra assombrosa de 285 volumes, isto sem incluir as produções teatrais que, agrupadas em separado, formam outros 15 volumes...

Certamente que nem tudo por ele firmado foi por Alexandre Dumas escrito, pois seus colaboradores não foram poucos, entre eles, o mais destacado, Augusto Maquet, mas sempre ficaram relegados e no anonimato.

Seus romances mais célebres e conhecidos são: "Acté" (1839); "Maitre Adam le Calabrais" (1840); "Os Três Mosqueteiros" (1844); "Conde de Monte-Cristo" (1844); "A Rainha Margot" (1845); "La Dame de Monsoreau" (1846); "Vingt ans après" (1845); "Le Vicomte de Bragelona" (1848); "Os Quarenta e Cinco" (1848); "'Le chevalier d'Harmental" (1849); "Le chevalier de Maison-Rouge" (1846); "Mémoires d'un médecin" (Joseph Balsamo, 1848); "Angel Pitou" (1853); "La comtesse de Charny" (1855); "Les mohicans de Paris" (1858}, etc...

Acerca de sua fecundidade literária o próprio Dumas escreveu, em 1848: "Durante vinte anos trabalhei dez horas por dia, o que representa um total de setenta e três mil horas. Durante estes vinte anos escrevi quatrocentos tomos de novelas e trinta e cinco dramas. Cada um destes tomos, em edições de quatro mil exemplares, vendidos a 5 francos, dão 8.000.000 de francos; os trinta e cinco dramas, representados em média 100 vezes cada um, deram 6.300.000 francos".

Em plena guerra franco-prussiana, longe de Paris, em Puys (Dieppe), morreu a 5 de dezembro de 1870.

Fonte: Wkipedia

Folclore Japonês (A História da Princesa Hase)

Muitos e muitos anos atrás, vivia em Nara, a antiga capital do Japão, um sábio ministro imperial, o Príncipe Toyonari Fujiwara. Sua esposa era uma mulher de origem nobre, gentil e com uma beleza exuberante, chamada Murasaki hime (Princesa Violeta).

Toyonari e a bela Violeta casaram  quando muito jovens ​​por suas respectivas famílias, de acordo com o tradicional costume japonês, e viveram juntos e felizes desde então. Tinham, no entanto, um motivo de grande tristeza, com o passar dos anos nenhuma criança nasceu. Isso os tornara muito infelizes, pois tanto ansiavam por um filho que cresceria para alegrar sua velhice, levar o nome da família adiante, e perpetuar seus ritos ancestrais.

O príncipe e sua adorável esposa, depois de muito tempo de consulta e de muito pensar, decidiram fazer uma peregrinação ao templo de “Hase-no-Kwannon” (Deusa da Misericórdia de Hase), eles acreditavam, de acordo com a tradição de sua religião, que a Mãe da Misericórdia, Kwannon, vem para responder as orações dos mortais na forma que eles mais precisam. Certamente, depois de todos estes anos de oração, ela viria a eles na forma de um filho amado, em resposta à sua peregrinação especial, pois essa era a maior necessidade de suas vidas. Pois eles tinham tudo o que esta vida poderia dar-lhes, mas era tudo tão nada, porque o grito de seus corações era insatisfeito.

Crentes, o príncipe Toyonari e sua esposa iniciaram sua peregrinação rumo ao templo de Kwannon em Hase, e lá ficaram por um longo tempo. Todos os dias faziam ofertas com incensos e oravam a Kwannon, a Mãe Celestial, a conceder-lhes o desejo de toda suas vidas. Até que, suas preces foram atendidas…

A filha da princesa Murasaki finalmente nasceu, e grandiosa foi a alegria de seu coração. Ao apresentar a tão desejada criança a seu marido, ambos decidiram nomeá-la de Hase-Hime, ou princesa Hase, pois ela fora concebida com as bençãos da deusa Kwannon do templo de Hase.

Os dois criaram-na com muito amor e carinho, a vida de Hase parecia um conto de fadas, e a criança cresceu em força e beleza.

Tudo parecia maravilhoso para a pequena princesa Hase, até que o tempo fugaz parou, quando ela tinha apenas cinco anos de idade e sua mãe caiu gravemente doente, tendo seu tempo interrompido neste mundo. Um pouco antes de dar seu último suspiro, chamou a princesa, e acariciando gentilmente a cabeça de sua tão amada filha, disse-lhe:

“Hase, você sabe que sua mãe não pode viver por muito mais tempo? Apesar de minha morte, você deve crescer como uma boa menina. Faça o seu melhor para não dar problemas ao seu pai ou qualquer outro membro da família. Talvez seu pai se case novamente um dia e alguém preencherá o meu lugar deixado como sua mãe. Se isso acontecer… prometa não chorar por mim, mas olhar para a segunda esposa de seu pai como sua verdadeira mãe, e ser obediente e uma boa filha a seu pai. Lembre-se que você já é uma menina crescida e deve respeitar seus superiores, e ser gentil com todos aqueles que estão abaixo de você. Não se esqueça disso. Eu morro com a esperança de que você vai crescer como modelo de uma grande mulher”.

Hase-Hime ouviu em uma atitude de respeito, enquanto sua mãe falava, e prometeu fazer tudo o que lhe foi dito.  E assim, Hase-Hime cresceu como sua mãe tinha desejado, uma boa e obediente princesa, embora ainda muito jovem para entender quão grande era a perda de sua mãe.

Não muito tempo depois da morte de sua primeira esposa, o príncipe Toyonari casou-se novamente, com uma mulher de origem nobre, Princesa Terute, e levou sua nova esposa e seu filho para morarem em seu casarão. O pedido da Princesa Murasaki seria posto à prova, pois a princesa Terute era uma mulher má com um coração perverso e invejoso em relação a menina que não era dela.

“Hase-Hime, depois do jantar você vai terminar suas lições. Ajude os criados a lavar os pratos, limpar o chão, engomar as roupas e logo em seguida deve se retirar a seus aposentos. Vá para a cama, pois você terá mais que aprender amanhã.” Princesa Terute presunçosamente ordenava.

Confusa, Hase-Hime respondeu: “Mas mãe, eu já ajudei a limpar o chão.”

“Bem, deve fazê-lo novamente e não chamar-me de mãe! Você não é minha filha.”

Mas Hase-Hime respondia a cada indelicadeza com paciência e obediência, assim como sua mãe havia lhe ensinado, de modo que sua madrasta não teria motivos para queixar-se contra ela. Com a morte de sua mãe, foi deixada a jovem Hime, o desejo de tornar-se uma mulher forte e gentil. Então, Hase-Hime resignadamente obedecia, esfregava o chão pela segunda vez, limpando os pratos, engomando as roupas e logo em seguida retirava-se para a cama.

Sozinha em seu quarto, ela se distanciava de toda sua dor envolvendo-se em poesia e música. Era um alento para ela, ser capaz de gravar seus pensamentos e orações nas artes. Quando a temerosa madrasta esquecia de sua existência, Hase-Hime passava horas praticando o koto, “tradicional harpa japonesa”, e no aperfeiçoamento de seus versos poéticos. Uma capacidade que a fez destacar-se rapidamente. Aos doze anos de idade, boatos de suas grandes performances alcançou o mais real dos lugares, o Palácio Imperial.

Foi na primavera, durante o Hanami, o Festival das Flores de cerejeira, quando houve uma grande festa na corte. A madrasta, sonhando em ter mais poder, escoltou pessoalmente Hase Hime até o Palácio, para uma apresentação especial ao Imperador. Estando lá, foram surpreendidas com o esplendor da arquitetura do nobre reino. Músicos tocavam nos pátios ricamente ornados, e o brilho do sol reluzia em tudo de uma maneira que  nunca tinham imaginado ser possível.

O Imperador desfrutando da temporada, ordenou que a princesa Hase tocasse o koto, e que Terute, sua madrasta,  a acompanhasse na flauta.

Hase-Hime tinha impressionante talento com a música e, embora tão jovem, muitas vezes surpreendia seus mestres. Nessa ocasião solene não foi diferente, ela tocou perfeitamente a harpa japonesa, mas Terute, uma mulher preguiçosa e vaidosa, que nunca se dava ao trabalho de praticar sua arte, falhou em seu acompanhamento e teve de solicitar a uma das damas da corte para tomar seu lugar.

Esta foi uma grande humilhação, a madrasta furiosa, sentiu inveja ao pensar que ela tinha falhado onde sua enteada havia sido bem sucedida, e para piorar a situação, o Imperador passou a enviar belos presentes para a jovem Hime, para recompensá-la pelo talento e a bela apresentação que fez no Palácio.

Havia também outra razão pela qual Terute odiava cada vez mais a filha do Príncipe Toyonari, nas profundezas de seu coração não parava de dizer:

“Se Hase-Hime não estivesse aqui, meu filho teria todo o amor e atenção de seu padrasto.”

Sem conseguir se controlar, permitiu que este pensamento ímpio continuasse a crescer e transformar-se em um terrível desejo de tirar a vida de sua enteada.

Então, um dia, ela secretamente ordenou a um de seus criados, misturar veneno em um pouco de suco doce. O licor envenenado ela colocou dentro de uma garrafa, e em outra garrafa semelhante ela derramou um pouco do liquido bom  e esperou uma oportunidade para executar seu plano maléfico.

Esta não demorou a apresentar-se, foi durante o Festival dos meninos no quinto dia de maio, quando Hase-Hime estava brincando com seu irmão mais novo. Todos os seus brinquedos de guerreiros e heróis estavam espalhados e ela contava-lhe histórias maravilhosas sobre cada um deles. Ambos estavam se divertindo e rindo alegremente com seus camareiros, quando sua mãe entrou com as duas garrafas de suco de uva e alguns deliciosos bolos…

“Vocês dois parecem felizes!”, Disse a Princesa Terute com um sorriso, “Para comemorar, eu trouxe um pouco de suco doce e alguns bolos deliciosos de arroz para os meus bons filhos”.

E ela encheu dois copos de diferentes garrafas…

Ela havia marcado cuidadosamente a garrafa envenenada, mas estava nervosa ao entrar no quarto, deixando derramar o licor, e inconscientemente entregou o cálice envenenado para o seu próprio filho.

Por todo esse tempo ela estava a observar ansiosamente a pequena princesa, mas para sua surpresa o rosto da jovem não mudava de expressão. De repente, o menino começou a gritar e jogou-se no chão, dobrando-se de dor. Sua mãe desesperada correu a socorrer, tomando a precaução de entornar os dois pequenos frascos de suco que ela havia trazido para a sala. Os criados correram a levar o menino até o médico, mas nada poderia salvá-lo, a criança morreu dentro de uma hora nos braços de sua mãe.

Assim, na tentativa de acabar com a vida de sua enteada, a mãe foi punida com a perda de seu próprio filho. Mas, em vez de culpar a si mesma, começou a odiar Hase-Hime mais do que nunca, na amargura e miséria de seu próprio coração, ela esperava ansiosamente por uma nova oportunidade para concluir a sua maldade.

Quando Hase-Hime completou treze anos, já era mencionada como uma poetisa de grande mérito. Esta era uma realização muito cultivada na época e tido em alta estima pelas mulheres do Japão antigo.

Por esse tempo, era período das chuvas em Nara, e os estragos das inundações eram relatados todos os dias. O rio Tatsuta, que corria pelos jardins do Palácio Imperial, transbordou além de suas margens, e o rugido das correntes de água correndo ao longo de um estreito leito, perturbava dia e noite o Imperador, o resultado, foi um distúrbio nervoso grave. Um edito imperial foi enviado para todos os templos budistas comandando aos sacerdotes oferecer orações contínuas ao Céu para parar o barulhento  dilúvio. Mas isso de nada adiantou.

Nessa época, corria a fama de Hase nos círculos sociais da corte e não demorou para que comparassem seu talento a lendária Ono-no-Komachi. Diziam que há muito tempo, a bela e talentosa donzela-poetisa Ono-no-Komachi tinha movido o céu, rezando em verso, trazendo a chuva sobre a terra sofrida com  a seca e a fome.

Os ministros do Imperador começaram a cogitar sobre o feito, e na possibilidade da talentosa Hase também escrever um poema ofertando-o aos céus, e quem sabe cessar o barulho da tormentosa enchente e acalmar a causa da doença Imperial? O que o Tribunal especulou finalmente chegou aos ouvidos do próprio imperador, e ele enviou uma ordem para o ministro Príncipe Toyonari para o efeito.

Grande, em verdade foi o medo e espanto de Hase-Hime, quando seu pai disse-lhe o que era exigido dela. Pesado, na verdade, era o dever que foi colocado sobre seus jovens ombros, o de salvar a vida do Imperador pelo mérito de seus versos.

Finalmente, passado um tempo, chegou o dia e seu poema foi concluído. Ele foi escrito em um folheto de papel fortemente salpicado de ouro em pó. Então, junto a seu pai, atendentes e alguns dos funcionários do Tribunal do Império, ela rumou até a torrente que ruge.  Diante da furiosa corrente, elevou o seu coração ao céu,  leu o poema que havia composto em voz alta, levantando-o para as alturas em suas mãos.

Estranho de fato, pareceu a todos aqueles que assistiam em pé. As águas subitamente cessaram o seu rugido,  e em resposta direta a sua fervorosa oração o tormentoso rio aquietou-se. Depois disso, o Imperador logo recuperou sua saúde.

Sua Majestade ficou muito contente, e mandou buscá-la para o Palácio a recompensando com o posto de Chinjo-o. A partir daquele momento, ela foi chamada Chinjo-hime, ou a princesa tenente-general,  respeitada e amada por todos.

Havia apenas uma pessoa no reino que não estava satisfeita com o sucesso de Hase, sua madrasta. Sempre pensando sobre a morte de seu próprio filho, a quem ela havia matado ao tentar envenenar a princesa, ela teve a mortificação de ver a sua ascensão ao poder e honra marcado por um favor imperial e a admiração de todo o Tribunal. Sua inveja e ciúmes queimava em seu coração como fogo.

Por fim, a madrasta aproveitando a oportunidade da ausência de seu marido, ordenou a um dos seus antigos servos que levasse a menina para as montanhas de Hibari, a parte mais selvagem do reino, e a matasse.

Katoda, seu vassalo, foi obrigado a obedecer. De qualquer forma, temendo pela vida de Hase, ele viu que seria o plano mais sábio, fingir obediência na ausência do pai da menina. Então numa madrugada fria, sabendo que ela era inocente, colocou Hase-Hime num palanquim e acompanhou-a para o lugar mais solitário que se poderia encontrar no distrito selvagem, determinado a salvar sua vida. Com a ajuda de alguns camponeses logo ele construiu uma pequena cabana afastada, e dois bons idosos se prontificaram a fazer de tudo para proteger a princesa. Hase, informada sobre a perversa intenção de sua madrasta, acreditava que seu pai sairia em sua busca, assim que voltasse para casa e a encontrasse ausente.

Príncipe Toyonari, depois de algumas semanas, finalmente voltou para casa, e logo foi recebido por sua esposa que o informou que sua filha tinha feito algo horrível e fugiu por medo de ser punida, nenhum dos empregados sabiam o porquê e nem para onde Hase havia ido. Toyonari, por medo de um escândalo maior, manteve o assunto em segredo e procurou pela princesa por todo o reino e em todos os lugares que ele poderia imaginar.

Um dia, tentando esquecer sua grande preocupação, chamou todos os seus homens e disse-lhes para se prepararem para uma caçada nas montanhas Hibari. A comitiva seguiu para as montanhas com o príncipe à frente os liderando, e, finalmente, encontraram-se em um pitoresco e estreito vale.

Olhando em volta a admirar a paisagem, notou uma pequena casa em uma das colinas, e então ele ouviu claramente uma leitura em uma alta e bela voz. Apreendido com curiosidade a respeito de quem poderia estar estudando tão diligentemente em um lugar tão distante e solitário, deixou seu cavalo, e caminhou até a encosta, acercando a casa de campo. Enquanto se aproximava sua surpresa aumentou, pois ele podia ouvir que o leitor era uma jovem menina e sua voz, estranhamente, lhe soava  familiar. A cabana estava aberta e ela estava sentada de frente para a janela. Ele ouviu a leitura das escrituras budistas com grande devoção. Mais e mais curioso, ele apressou-se para o pequeno portão adentrando em um exuberante jardim,  olhando para cima no balcão da janela, viu extasiado, ninguém menos que sua amada filha desaparecida, a bela Hase.

“Hase!!!”, ele gritou: “É você, minha pequena Hase?”

Pega de surpresa, ela mal podia acreditar que era o seu próprio e querido pai que a chamava, e por um momento, mal pode falar ou se mover.

Correndo para seus braços, ela se agarrou a sua espessa manga, e escondendo o rosto explodiu em uma paixão de lágrimas. Seu pai acariciou seus longos cabelos negros, perguntando se não estava realmente a sonhar.

Então o velho e fiel servo Katoda saiu de dentro da velha cabana, e curvando-se ao chão, derramou toda a verdade sobre o ocorrido, dizendo-lhe tudo em detalhes.

O espanto e indignação do príncipe não conheciam limites. Desistindo da caçada, correu para casa com a filha. Uma das empresas galopou à frente para informar a família da notícia feliz, e a madrasta ao ouvir a notícia, com medo de encontrar o marido agora que sua maldade fora descoberta, fugiu do palácio  e retornou em desgraça a casa  de seu pai, e nada mais se ouviu falar dela.

O velho servo Katoda foi recompensado com a maior promoção a serviço de seu mestre, dedicado à princesinha, que nunca se esqueceu que devia sua vida a este retentor fiel. Ela já não mais estava preocupada com sua madrasta cruel, e os seus dias passaram-se ​​ tranquilamente na companhia de seu pai.

Como Príncipe Toyonari não tinha filho, ele escolheu um jovem  nobre da corte para se casar com sua filha Hase, tornando-o seu herdeiro, e em poucos anos, o casamento ocorreu. Hase-Hime viveu até uma idade avançada, e todos disseram que ela era a mais bela e sábia que já havia reinado na antiga casa do príncipe Toyonari. A virtuosa princesa teve a alegria de apresentar a seu pai,  seu filho, o futuro senhor da família.

Este dia foi retratado, um pedaço da obra tecido a agulhas é preservado em um dos templos budistas de Kyoto. É uma bela peça de tapeçaria, com a figura de Buda bordado nos fios sedosos extraídos do caule de lótus. Isto, é dito ter sido o trabalho feito pelas mãos da bela e doce Princesa Hase…

Fonte: Japanese Fairy Tales de Yei Theodora Ozaki, in Caçadores de Lendas

sábado, 30 de julho de 2016

A. A. de Assis (Trovia n. 194 - agosto 2016)


Felicidade é somente
uma visita apressada,
que aparece de repente
e parte sem dizer nada.
Aparício Fernandes

O amor, quando é verdadeiro,
não tem peso nem medida:
é maior que o mundo inteiro,
vale mais que a própria vida.
Colombina

Põe o melhor dos sapatos,
se vais dar um passo em falso.
– O mundo apenas condena
quem deu tal passo descalço...
Edson Macedo
 

No meu carro eu vou tranquilo,
tenha a estrada sombra ou luz,
pois eu sei que, ao dirigi-lo,
eu dirijo... Deus conduz!
J.G. de Araújo Jorge

Tantas lágrimas no peito
a vida me fez guardar,
que agora, meio sem jeito,
já nem sei se sei chorar...
João Freire Filho

Um lírio branco perdido
nalgum jardim, descuidado,
deve saber o sentido
de se amar sem ser amado.
Miguel Russowsky

Meu coração, vacilante,
ressoa em cada batida.
Igual a um tambor distante
marcando o passo da vida.
Newton Meyer
 

O amor que a teu lado levas,
a que lugar te conduz,
que entras coberto de trevas
e sais coberto de luz?
Olavo Bilac

Quando morre, não termina
de um sábio o estro fecundo:
– o sol, ao pôr-se, ilumina
a outra parte do mundo...
Orlando Brito

Por aparências não deve
ninguém tirar conclusões:
conheço seios de neve
tendo o calor dos vulcões.
Oscar Batista

Um beijo apenas, de leve,
trocado a medo, querida...
Como pôde união tão breve
nos prender por toda a vida?!
Rodolpho Abbud
 

Dizem que os olhos não falam,
mas os teus sabem falar...
– Todas as bocas se calam
quando fala o teu olhar!
Vasco de Castro Lima


 
Se o teu beijo, que inebria,
deixasse os lábios doendo,
o bairro não dormiria,
com tanta gente gemendo!...
Edmar Japiassú Maia – RJ

Brasileiro é valentia,
não dá seu braço a torcer.
Abre a marmita vazia
e sonha que vai comer.
Eliana Ruiz Jimenez – SC

De surpresa, muitas vezes,
vinha o noivo da vizinha...
E, depois de nove meses,
nasceu uma surpresinha...
Flávio Roberto Stefani – RS
 

Eta mulher jogo duro!
Por mais que eu implore e tente,
não me garante o futuro...
só quer saber de... presente.
João Costa – RJ

Tive tantas namoradas...
Tantas... Tantas... Que castigo!
Hoje estão todas casadas;
nenhuma delas comigo!
Hélio Azevedo de Castro – PR
 

Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta...
Milton S. de Souza – RS
 

O ciumento não atura
um terceiro no seu ninho:
quando compra fechadura,
logo tampa o buraquinho...
Neide Rocha Portugal – PR
 

Nas capelas, a candura
das esposas nas novenas.
Fora delas, a aventura
dos maridos “noutras” cenas...
Olga Agulhon – PR



O difícil no fácil é criar algo dentro da simplicidade que deve caracterizar a trova. – Maria Thereza Cavalheiro


 
Tão bela, tão generosa,
símbolo eterno da paz,
pede desculpas a rosa
pelos espinhos que traz!
A. A. de Assis – PR

Não se apegando ao botão,
se abre a rosa, sem queixume.
Pode, por isso, em doação,
no mundo espalhar perfume.
Adélia Maria Woellner – PR
 

Meu pai, muito te agradeço
por tudo que me ensinaste;
não existe nenhum preço
pelo tanto que me amaste.
Agostinho Rodrigues – RJ
 

Teu abraço bem repleto
de carícia, eu retribuo,
na ardente festa de afeto
que contigo hoje usufruo!
Ailton Rodrigues – RJ

Depois de uma certa idade,
entramos na contramão,
transformando em amizade
o que antes era paixão!
Alberto Paco – PR
 

O amor que parte e que volta
volta mais forte e mais rijo;
dá a volta e de mim se solta
buscando outro esconderijo.
André Ricardo Rogério – PR
 

Xícaras postas na mesa
e o café sobre o fogão...
Só não aguento a incerteza
se você virá ou não.
Antônio Seixas – RJ

Os namoros no passado
eram raros de encontrar.
Hoje é clique no teclado
e já tem com quem amar.
Ari Santos de Campos – SC
 

O amor, para muita gente,
é diversão perigosa.
Quem não sabe ser prudente
transforma em espinho a rosa.
Arlene Lima – PR

Pobre horizonte, pequeno,
de quem crê, sem ver mais nada,
que uma rosa com sereno
é só uma rosa molhada.
Arlindo Tadeu Hagen – MG
 
 
 
Saudade dos meus passeios
pelo teu corpo sensual:
a boca, as pernas, os seios,
o et cétera e tal...
Bruno Pedina Torres – RJ

Há vidas que se parecem
com as roseiras viçosas:
quando podadas, mais crescem
e mais se cobrem de rosas!
Carolina Ramos – SP

Julguei-o frio, entretanto
um soluço o denunciou;
abracei aquele pranto
que o homem forte chorou.
Cida Vilhena – PB

No colo a filha do filho
pela avó é acalentada,
qual noite sem luz e brilho
embalando a madrugada.
Conceição Assis – MG
 

Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação:
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão.
Cônego Benedito Telles – PR

Gracias a los sembradores
que han tomado conciencia,
pues serán consechadores
de las mies por su prudência,
Cristina Oliveira Chávez – USA

Do vale emergi ao topo,
da relva virei madeira,
do poço fui ao escopo
e em tudo fui verdadeira.
Dáguima Verônica – MG

Pelos caminhos sem fim
que a vida me fez trilhar,
fiquei perdida de mim,
sem conseguir me encontrar!
Delcy Canalles – RS
 

Agora, que tu partiste,
sinto a força da verdade
do grito de dor que existe
no silêncio da saudade.
Domitilla Borges Beltrame – SP
 

Triste tapera e mais nada
restou do meu sentimento;
o mato a invadir a estrada,
porteira a bater ao vento.
Dorothy Jansson Moretti – SP

Ousadia é para poucos,
que têm pela vida afã:
é destes, chamados loucos,
o domínio do amanhã.
Edweine Loureiro – Japão

Nossos silêncios serenos
não nos constrangem jamais:
quando lábios falam menos,
olhos dizem muito mais...
Élbea Priscila – SP

Adeus com dores combina,
adeus inspira piedade.
Adeus de amor, triste sina
de quem vive de saudade!
Eliana Palma – PR
 

Enquanto a saudade avança,
e eu não sei se vais voltar,
vivo as festas da esperança
que não cansa de esperar!
Elisabeth Souza Cruz – RJ

Piso de terra batida,
distante do chão da praça!...
Foi toda a graça da vida,
essa casinha sem graça!
Prof. Francisco Garcia – RN

Nos percalços desta vida
encontrei pelo caminho
rosas, lótus, margarida,
e um bom punhado de espinho
Francisco José Pessoa – CE

Deus, em toda a sua glória,
com tanta grandeza e brilho,
pra completar sua história,
quis ter mãe e quis ser filho!
Gislaine Canales – RS

Não sei se é pecado ou vício,
bobeira... sei lá mais quê
este agridoce suplício
de só pensar em você!
Jeanette De Cnop – PR


Trova humorística é um modo inteligente de dizer de forma engraçada alguma coisa às vezes séria. – Colbert Rangel Coelho

Quem compõe versos amenos,
que os acalantos coleta,
parece que morre menos,
como nos disse o Poeta...
JB Xavier – SP

Tão longe busquei o amor,
por que fui tão longe assim?
Tanta busca, tanta dor,
e estavas perto de mim...
Jessé Nascimento – RJ

Cessa a chuva... e por instantes
o arco-íris, lá em cima,
ilumina os habitantes
e o poeta encontra a rima.
Jorge Fregadolli – PR

Ó minha amada esperança,
brincalhona e sorridente!
És um resto de criança
que fica dentro da gente...
José Fabiano – MG

Doce flor que desabrocha
perfumando seu cantinho,
envolvendo toda rocha
com doçura e com carinho.
José Feldman – PR
 

Não há fortuna guardada
que pague o gesto de quem
divide o seu quase nada
com outro que nada tem.
José Ouverney – SP

Perder o tempo não vou
tentando o tempo entender:
hoje amanhã se chamou,
amanhã hoje vai ser.
José Lira – PE

Quisera ser como o sol,
que, ao declinar no poente,
enche de luz o arrebol
e volta a ser sol nascente!
Lucília Trindade Decarli – PR

Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
Luiz Carlos Abritta – MG
 

Na estrada das aventuras
vemos quedas sem guarida,
algumas tão prematuras,
outras no fim da corrida.
Luiz Damo – RS
 

Não cobres minha presença
com tolos ressentimentos...
Quando a intolerância pensa,
a mágoa chega no vento.
Luiz Poeta – RJ
 

Fecho os olhos... me aquieto...
e ao sentir doce fragrância
de bolo, sonhos e afeto,
retorno à casa da infância.
Luzia Brisolla Fuim – SP
 

Desde o plantio a semente
cumpre um destino fecundo:
o combate permanente
à fome que ameaça o mundo.
Maria Luíza Walendowsky – SC
 

Naquele dia, tristonho,
pousaste os olhos nos meus:
vivi na tarde do sonho,
morri na noite do adeus.
Maria Thereza Cavalheiro – SP
 

É  pura  e  doce  poesia
caminhar  à beira-mar,
envolvida em fantasia,
sem ver o tempo passar.
Marta Codeço – RJ
 

Segue, meu filho, na estrada,
os trilhos da retidão;
sê firme, em cada pisada,
que as honras te seguirão.
Maurício Norberto Friedrich – PR


Não pergunte a um trovador quantas trovas ele já escreveu. Pergunte-lhe quantas trovas já leu.

A semente até parece
morta na cova em que é posta
e a terra sempre oferece
a vida como resposta.
Messias da Rocha – MG
 

Quem me dera alguém pudesse
entender meu sentimento;
seria a trova uma prece
para o fim do sofrimento.
Neiva Fernandes – RJ
 

O planeta está fadado
a sumir completamente,
pois a força do machado
já supera a da semente.
Nélio Bessant – SP

Xeroquei a sua imagem
e guardei na minha mente;
sempre na minha abordagem
é você que está presente.
Neiva Fernandes – RJ

Plante a semente do bem,
da caridade perfeita,
que com o tempo, aqui e além,
surgirá farta colheita.
Nilsa Alves de Melo – PR
 

Amor cigano, utopia,
triste  busca por alguém;
quem tem um amor por dia
não tem o amor de ninguém.
Olympio Coutinho – MG
 

Mesmo em meio à dura lida,
tu verás sorrisos meus,
pois quem mais sorri na vida
tem sempre as bênçãos de Deus.
Renato Alves – RJ
 

Mulher de rara beleza
não deve, jamais, pintar-se,
pois obra da natureza
não necessita disfarce.
Ruth Farah – RJ
 

Não sei, talvez por loucura,
confesso até para a lua
que a minha boca procura
um sim saindo da tua!
Sarah Rodrigues – PA
 

Deixa a lágrima rolar...
Deixa teu pranto fluir...
Quem nunca sabe chorar
não é capaz de sorrir.
Selma Patti Spinelli – SP
 

De estrelas toda bordada,
sem telhado a lhe abrigar,
a tapera abandonada
no chão abriga o luar!
Sônia Sobreira Silva – RJ
 

Na escola de nossa vida
uma lição aprendi:
a caminhada sofrida
faz eternizar o aqui.
Talita Batista – RJ
 

Eu lutei quando quis ter
teu amor... e o consegui!...
Depois, eu quis te esquecer,
e esse combate... eu perdi.
Therezinha Dieguez Brisolla – SE
 

Ao vento não lances praga;
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
Vanda Alves – PR

Um abraço, eu considero,
cura ao alcance da mão,
é grátis, de custo zero:
- Não tem contraindicação!
Vânia Ennes – PR

Não me importam a censura
e o louvor da sociedade:
procuro viver à altura
da minha própria verdade.
Wanda de Paula Mourthé – MG
 

Por faltar ao mundo a "essência"
que faz germinar o amor,
cresce o "joio" da violência
e o "trigo" morre de dor.
Wandira Fagundes Queiroz – PR

O caminho procurado,
que nos leva à salvação,
constantemente é indicado
pela seta do perdão.
Yedda Patrício – MG

Florbela Espanca (Poemas Escolhidos)

SÓROR SAUDADE
A Américo Durão
Irmã, Sóror Saudade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,
Jamais me hão de chamar outro mais doce.
Com ele bem mais triste me tornaste...

E baixinho, na alma da minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: "Irmã, Sóror Saudade..."

O NOSSO LIVRO
A A.G.
Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfoles os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."

O QUE TU ÉS...

És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!...

FANATISMO

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

ALENTEJANO
À Buja

Deu agora meio-dia; o sol é quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros,
Na faina, alegres, desde o sol nascente.

Cantam as raparigas meigamente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros.
E há perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d'oiro ardente.

A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bênção dulcíssima dos céus.

Há gritos arrastados de cantigas...
E eu sou uma daquelas raparigas...
E tu passas e dizes: "Salve-os Deus!"

QUE IMPORTA?....

Eu era a desdenhosa, a indif'rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um só instante...
Que importa?... Se o cansado viajante
Bebe em todas as fontes... quando passa?...

FUMO

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos...

O MEU ORGULHO

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece...
E eu sonho: "Quem olvida não merece...
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

FRIEZA

Os teus olhos são frios como as espadas,
E claros como os trágicos punhais,
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indif'rença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
"Ah, quem me dera, Irmã, amar assim!...

A NOITE DESCE...

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma...
Meu doce Amor tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!

CARAVELAS
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

INCONSTÂNCIA

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...

Oscar Wilde (O Notável Foguete)

O filho do rei ia casar-se. Por isto o regozijo era geral. Tinha esperado um ano inteiro pela sua noiva, que afinal chegara. Era uma princesa russa que tinha feito a viagem desde a Finlândia num trenó puxado por seis renas. O trenó tinha a forma de um grande cisne de ouro e entre as asas do cisne jazia a pequena Princesa. O seu longo manto de arminho chegava-lhe diretamente aos pés, na cabeça trazia um pequeno boné de tecido de prata e era pálida como o Palácio de Neve em que sempre tinha vivido. Era tão pálida que, ao passar pelas ruas, enchia todo o povo de admiração.

- Parece uma rosa branca! - diziam e atiravam-lhe flores do alto dos balcões.

Na porta do castelo estava o Príncipe esperando para recebê-la. Ele tinha uns sonhadores olhos cor de violeta e os seus cabelos eram como ouro fino. Quando a viu, dobrou um joelho na terra e beijou-lhe a mão.

- O vosso retrato era belo - murmurou -, mas sois mais bela que o vosso retrato.

E a Princesinha ruborizou-se.

- Há pouco parecia uma rosa branca, - disse um jovem pajem ao seu vizinho - mas agora parece uma rosa vermelha.

E toda a corte ficou extasiada.

Durante os próximos três dias, toda a gente não cessou de repetir:

- Rosa branca, rosa vermelha, rosa vermelha, rosa branca!

E o rei ordenou que se pagasse salário duplo ao Pajem. Como este não recebia salário algum, a sua posição não melhorou muito com isto, mas todos consideraram aquilo uma grande honra e o decreto real foi devidamente publicado na Gazeta da Corte.

Transcorridos aqueles três dias, celebrou-se o casamento. Foi uma cerimônia magnífica. O noivo e a noiva desfilaram, de mãos dadas, sob um dossel de veludo cor de púrpura, bordado de pequenas pérolas. Depois celebrou-se um banquete oficial, que durou cinco horas. O Príncipe e a Princesa sentaram-se na extremidade do Grande Salão, bebendo de uma taça de cristal puríssimo. Apenas amantes verdadeiros podem beber nessas taças, pois se lábios falsos tocarem-nas, as taças se tornarão cinzas, escuras e embotadas.

- É perfeitamente claro que eles se amam – disse o pajenzinho -, tão claro como o cristal. E o rei dobrou-lhe o salário mais uma vez. - Que grande honra! - exclamaram os cortesãos.

Depois do banquete houve um baile. A noiva e o noivo deviam dançar juntos a Dança das Rosas e o rei prometera tocar flauta. Tocava-a muito mal, mas ninguém se havia jamais atrevido a dizer-lhe, porque ele era o rei. A verdade é que só sabia duas peças e nunca estava certo de qual das duas estivesse a tocar, mas isso não o preocupava, pois, fizesse o que fizesse, todos exclamavam “Encantador! Encantador!”

O último número do programa consistia numa grande exibição de fogos de artifício, que devia terminar exatamente à meia-noite. A Princesinha nunca vira na sua vida fogos de artifício, por isso o rei encarregou aos Pirotécnico reais de utilizar todos os recursos da sua arte para o dia do casamento.

- Com que se parecem os fogos de artifício? - perguntou ela uma manhã ao Príncipe, enquanto passeavam no terraço

- Parecem-se com a aurora boreal - disse o rei, que sempre respondia às perguntas dirigidas às outras pessoas. - Apenas são mais naturais. Prefiro-os às estrelas, porque sabe-se sempre quando vão começar a brilhar e são, além disso, tão agradáveis como a música da minha flauta. Havereis de vê-los.

Assim, ergueram um tablado no fundo do jardim real e, logo que os Pirotécnicos Reais acabaram de preparar tudo, começaram os fogos de artifício a conversar entre si.

- O mundo é seguramente muito bonito! - exclamou um pequeno busca-pé. - Reparem naquelas tulipas amarelas. Puxa! Se fossem petardos de verdade, não poderiam ser mais bonitas. Sinto-me muito satisfeito por ter viajado. As viagens desenvolvem o espírito de uma maneira assombrosa e acabam com todos os preconceitos que se possa ter.

- O jardim do rei não é o mundo, meu tolo Busca-pé - disse uma grossa Vela Romana - o mundo é um lugar enorme e precisarias de três dias para percorrê-lo todo.

- Todo lugar que amamos é para nós o mundo - exclamou a pensativa Roda Catarina, que, na sua infância, estivera ligada a um velho caixote de pinho e se orgulhava do seu coração destroçado. - Mas o amor não está em moda, os poetas mataram-no. Tanto escreveram sobre ele que ninguém lhes dá crédito, o que não me surpreende. O verdadeiro amor sofre e cala. Lembro-me de que eu mesma uma vez... Mas não se trata disto agora. O romantismo é coisa do passado.

- Bobagem! - exclamou a Vela Romana. - O romantismo nunca morre. É como a lua, que vive eternamente. A noiva e o noivo, por exemplo, amam-se muito ternamente. Inteirei-me de tudo quanto se refere a eles esta manhã, pela boca de um cartucho de papel escuro que estava na mesma gaveta que eu e que sabe as últimas notícias da corte.

Mas a Roda Catarina abanou a cabeça.

- O romantismo morreu, o romantismo morreu, o romantismo morreu! - murmurou. Era uma dessas pessoas que pensam que, repetindo uma coisa certo número de vezes, acabaria por se tornar realidade.

De repente, ouviu-se uma tosse forte e seca e todos olharam em redor.

Era um foguete de altivo porte, amarrado à ponta de uma comprida vara. Tossia sempre antes de fazer qualquer observação, como para chamar a atenção.

- Aham! Aham! - disse ele, e todos se dispuseram a ouvi-lo, exceto a pobre Roda Catarina, que continuava a abanar a cabeça e a murmurar: "O romantismo está morto".

- Ordem, ordem - gritou um Petardo. Tinha algo de um político e sempre tomara parte importante nas eleições locais, de modo que conhecia as frases empregadas no Parlamento.

- Completamente morto - murmurou a Roda Catarina, que voltou a dormir.

Tão logo se obteve completo silêncio, o Foguete tossiu uma terceira vez e começou. Falava com voz clara e muito lenta, como se estivesse ditando as suas memórias, e olhava sempre por cima do ombro às pessoas a quem se dirigia. Tinha na verdade modos muito polidos.

- Quão feliz é o filho do rei - observou - por casar-se no mesmo dia em que serei lançado. Na verdade, nem preparando-o previamente, poderia resultar melhor para ele. Mas o Príncipe têm muita sorte.

- Ah! Sim? - disse o pequeno Busca-pé. - Pensei que fosse precisamente o contrário e que iríamos ser lançados em honra do Príncipe.

- Talvez seja este o seu caso - respondeu ele. - De fato, não tenho dúvida de que seja, mas comigo é diferente. Sou um foguete notável e filho de pais notáveis. A minha mãe foi a Roda Catarina mais famosa do seu tempo, célebre pela graça da sua dança. Quando fez a sua grande aparição em público, deu dezenove voltas antes de apagar-se, lançando em cada volta sete estrelas vermelhas no ar. Tinha três pés e meio de diâmetro e estava fabricada com pólvora da melhor qualidade. O meu pai era foguete como eu e de procedência francesa. Voava tão alto, que o povo temia que não voltasse a descer. Descia, contudo, porque era de excelente constituição e realizou uma queda brilhante, em forma de chuva dourada. Os jornais escreveram, em termos muito lisonjeadores a respeito da sua façanha. Na verdade, a Gazeta da Corte chamou-o de "um triunfo da arte pilotécnica".

- Pirotécnica, pirotécnica, é o que quereis dizer! - disse um Fogo-de-Bengala. - Sei que é "pirotécnico", porque vi isso escrito no meu próprio tubo.

- Bem, mas eu digo pirotécnico - respondeu o Foguete, num severo tom de voz, e o Fogo-deBengala ficou tão diminuído que começou a ameaçar os pequenos Busca-pés
para demonstrar que ele também era uma pessoa de bastante importância.

- Eu estava a dizer - continuou o Foguete -, eu estava a dizer... Que estava eu a dizer?

- O senhor estava a falar a respeito de si mesmo - replicou a Vela Romana.

- Naturalmente. Sabia que estava a discutir algum assunto interessante, quando fui tão grosseiramente interrompido. Detesto as grosserias e os maus modos de toda espécie, porque sou extremamente sensível. Não há ninguém no mundo tão sensível como eu, estou perfeitamente seguro disto.

- Que é uma pessoa sensível? - perguntou o Petardo à Vela Romana.

- Uma pessoa que, porque tem calos, pisa sempre os pés dos outros - respondeu a Vela Romana, bem baixinho, e o Petardo quase explodiu a rir.

- Perdão! De que vos ris? - perguntou o Foguete. - Eu não estou a rir.

- Estou a rir porque sou feliz - replicou o Petardo.

- É esta uma razão muito egoísta - disse o Foguete, com raiva -, que direito tendes de ser feliz? Deveríeis pensar nos outros. Na verdade, deveríeis pensar em mim. Penso sempre em mim e espero que todos façam a mesma coisa. Isto é o que se chama simpatia. É uma bela virtude e eu possuo-a em alto grau. Suponhamos, por exemplo, que alguma coisa me acontece esta noite. Que desgraça para todo o mundo! O Príncipe e a Princesa não voltariam mais a ser felizes, toda a sua vida matrimonial ficaria estragada. Quanto ao rei sei que não poderia suportar isso. Na verdade, quando começo a refletir na importância da minha posição, comove-me até quase chorar.

- Se quereis agradar aos demais - exclamou a Vela Romana -, faríeis melhor mantendo-vos seco.

- Certamente - exclamou o Fogo-de-Bengala, que se achava agora em melhor disposição. – Isto é simplesmente o senso comum.

- Senso comum, ora essa! - disse o Foguete, indignado. - Esqueceis que não tenho nada de comum e que sou muito notável. Ora, toda a gente pode ter senso comum, conquanto careça de imaginação. Mas eu tenho imaginação, pois nunca penso nas coisas como são realmente, vejo-as sempre muito diferentes do que são. Quanto a isto de manter-me seco, é que não há aqui, com toda a segurança, ninguém que saiba apreciar a fundo um temperamento emotivo. Felizmente para mim, não me importo com isto. A única coisa que nos sustenta na vida é a convicção da imensa inferioridade dos nossos semelhantes e este é um sentimento que tenho sempre cultivado. Mas nenhum de vós tem coração. Gritais e regozijais-vos, como se o Príncipe e a Princesa não estivessem celebrando as suas bodas.

- Bem, de fato - exclamou um pequeno Balão-de-fogo -, por que não? É uma ocasião bastante alegre e quando eu estalar no ar, pretendo contar tudo às estrelas lá em cima. Vereis como brilharão, quando eu lhes falar a respeito da linda noiva.

- Oh! Que conceito vulgaríssimo da vida! - disse o Foguete. - Não esperava outra coisa. Não há nada em vós. Sois oco e vazio. Ora, talvez o Príncipe e a Princesa possam ir viver num país em que haja um rio profundo, talvez tenham só um filho, um menininho de cabelo louro e de olhos de violeta como o próprio Príncipe. Talvez algum dia saia ele a passear com a sua ama. Talvez a ama adormeça debaixo de um grande sabugueiro; talvez o menino caia no rio profundo e se afogue. Que desgraça terrível! Coitados! Perderem o único filho! É na verdade demasiado terrível! Jamais poderei suportar tal coisa!

- Mas eles não perderam o seu único filho - disse a Vela Romana. - Não lhes sucedeu nenhuma desgraça absolutamente.

- Não disse que lhes sucedeu - replicou o Foguete. - Disse que poderia suceder-lhes. Se tivessem perdido o seu único filho, seria inútil dizer alguma coisa a respeito do sucedido. Detesto as pessoas que choram por causa do leite derramado. Mas quando penso que possam perder o seu único filho, sinto-me verdadeiramente muitíssimo afetado.

- Está-se a ver! - exclamou o Fogo-de-Bengala. - De fato sois a pessoa mais afetada que já vi na minha vida.

- Vós sois a pessoa mais grosseira que já conheci - disse o Foguete -, e não podeis compreender a minha amizade pelo Príncipe.

- Ora! Vós nem sequer o conheceis - resmungou a Vela Romana.

- Eu nunca disse que o conhecia - respondeu o Foguete. - Atrevo-me a dizer que se o
conhecesse, não seria nunca amigo dele. É coisa muito perigosa conhecer-se os amigos.

- Melhor faríeis se vós vos mantivesseis seco - disse o Balão-de-fogo. - Isso é que importa.

- É o que muito importa para vós, não tenho dúvida - replicou o Foguete -, mas chorarei, se me der vontade de chorar.

E realmente rebentou em lágrimas, que correram pela sua vareta como gotas de chuva e quase afogaram dois pequenos besouros que pensavam precisamente em fundar uma família e procuravam um bonito lugar seco para nele instalar-se.

- Deve ele ter um temperamento verdadeiramente romântico - disse a Roda Catarina -, pois chora, quando não há motivo para chorar.

E lançando um profundo suspiro, pôs-se a pensar nna caixa de pinho.

Mas a Vela Romana e o Fogo-de-Bengala estavam indignadíssimos e continuavam a dizer: "Charlatão, charlatão!", a plenos pulmões. Eram muito práticos e, quando se opunham a alguma coisa, gritavam: Charlatão.

Então apareceu a lua como um maravilhoso escudo de prata e as estrelas começaram a brilhar e chegaram do palácio os sons de uma música.

O Príncipe e a Princesa dirigiam o baile. Dançavam tão bem, que os altos lírios brancos espreitavam pela janela e os contemplavam e as grandes papoulas vermelhas abanavam as suas cabeças, marcando o compasso. Naquele momento o relógio bateu as dez horas, e depois as onze, e por fim as doze, e à derradeira batida da meia-noite, todos saíram para o terraço e o rei mandou chamar o Pirotécnico Real.

- Começai a queimar os fogos de artifício - disse o rei.

E o Pirotécnico Real curvou-se numa profunda reverência e encaminhou-se para o fundo do jardim. Tinha seis ajudantes, cada um dos quais levava uma tocha acesa na ponta de uma longa vara. Foi realmente uma soberba exibição.

- Whizz! Whizz!- começou a Roda Catarina, à medida que girava.

- Bum! Bum! Bum! - começou a Vela Romana.

Depois os Busca-pés dançaram por todo lado e os Fogos-de-Bengala tornaram tudo de uma cor escarlate.

- Adeus - gritou o Balão-de-fogo, à medida que se elevava, fazendo chover pequenas faíscas azuis.

- Pum! Pum! - responderam os Petardos, que achavam tudo aquilo muito divertido.

Todos conseguiram um grande êxito, exceto o Notável Foguete. Estava tão úmido por ter chorado, que não pôde pegar fogo. O melhor que havia nele era a pólvora, mas esta estava tão molhada pelas lágrimas que não pôde ser lançado de forma alguma. Toda a sua parentela pobre, à qual não se dignava falar sem um sorriso desdenhoso, produziu grande alvoroço no céu, como se fossem maravilhosas flores de ouro, florescendo em fogo.

- Bravo! Bravo! - gritava a corte.

E a Princesinha ria de prazer.

- Creio que me estão a reservar para alguma grande ocasião - disse o Foguete. - É
indubitavelmente isso.

E olhava em redor com um ar mais orgulhoso do que nunca.

No dia seguinte chegaram os operários para colocar tudo de novo no seu lugar.

- Evidentemente é uma comissão - disse o Foguete. - Recebê-la-ei com tranqüila dignidade.

Assim ergueu o nariz para o ar e começou a franzir o cenho com severidade, como se estivesse a pensar num assunto importantíssimo. Mas os homens não lhe deram absolutamente atenção, até deixá-lo para trás. Então um deles avistou-o.

- Oh! - gritou ele. - Que foguete imprestável!

E atirou-o por cima de um muro para dentro do fosso.

- Foguete imprestável? Foguete imprestável? - disse ele, enquanto girava no ar. - impossível! Foguete notável, foi isto o que o homem disse. Imprestável e notável soam muito parecidos. Na verdade, muitas vezes são a mesma coisa.

E caiu dentro da lama.

- Não é confortável aqui - observou -, mas sem dúvida é uma estação de águas elegante e mandaram-me para cá, a fim de que recupere a minha saúde. Os meus nervos estão decerto bastante desgastados e necessito de descanso.

Então uma pequena Rã, de olhos brilhantes como joias e de pele mosqueada de verde, nadou para perto dele.

- Estou a ver que é um recém-chegado! - disse a Rã. - Bem, afinal não há nada como a lama. Dêem-me tempo chuvoso e um fosso e sinto-me completamente feliz. Acreditais que a tarde será úmida? Assim o espero, embora o céu esteja todo azul e sem nuvens. Que pena!

- Aham! Aham! - disse o Foguete, começando a tossir.

- Que deliciosa voz tendes! - exclamou a Rã. - Na verdade parece o coaxar de uma Rã e o coaxo é, sem dúvida, o som mais musical que existe no mundo. Ouvireis o nosso coral esta noite. Sentar-nos-emos no antigo tanque dos patos junto da casa do fazendeiro e assim que a lua se erguer, começaremos. É tão arrebatador que todos ficam acordados para ouvir-nos. De fato, ontem mesmo, ouvi a mulher do fazendeiro dizer à sua mãe que não podia pregar olho de noite por nossa causa. É coisa muito agradável saber-se que se é assim tão popular.

-Aham! Aham! - emitiu o Foguete, com raiva. Estava muito aborrecido porque não podia sair do seu mutismo.

- Uma voz deliciosa, deveras - continuou a Rã. - Espero que ireis ao tanque dos patos. Vou dar uma olhada nas minhas filhas. Tenho seis lindas filhas e receio que o Lúcio possa encontrá-las. Ele é um verdadeiro monstro e não hesitaria em almoçá-las todas. Bem, adeus. Gostei da sua conversa, acreditai-me.

- E chamais a isto conversa? - disse o Foguete. - A senhora falou o tempo todo. Isto não é conversa.

- Alguém tem de escutar - respondeu a Rã -, e eu gosto de falar o tempo todo de mim mesmo. Isto poupa tempo e evita discussões.

- Pois eu gosto de discussões - disse o Foguete.

- Não o creio - replicou a Rã, complacentemente. - As discussões são extremamente vulgares, porque na boa sociedade toda a gente tem exatamente as mesmas opiniões. Adeus pela segunda vez. Estou a ver as minhas filhas ali adiante.

E a pequena Rã afastou-se nadando.

- A senhora é uma criatura muito irritante - disse o Foguete -, e muito mal educada. Detesto pessoas que falam de si mesmas, como a senhora, quando alguém quer falar a seu respeito, como eu. Isto é que eu chamo de egoísmo e o egoísmo é uma coisa detestabilíssima, especialmente para alguém com o meu temperamento, pois sou bem conhecido pelo meu caráter simpático. Na verdade, a senhora deveria tomar-me como exemplo, não poderia ter melhor modelo. Agora que tem essa oportunidade, aproveite-a sem demora, porque vou voltar para a corte imediatamente. Sou um grande favorito na corte. De fato, o Príncipe e a Princesa casaram-se ontem em minha honra. Sem dúvida, a senhora nada sabe desses assuntos, pois é uma provinciana.

- Não se dê ao trabalho de falar-lhe - disse uma Libélula, que estava pousada no alto de um grande junco pardo. - Ela já se foi embora.

- Bem, a perda é dela e não minha - respondeu o Foguete. - Não vou deixar de falar-lhe, somente porque não me presta ela atenção. Gosto de ouvir-me falar. É um dos meus maiores prazeres. Mantenho frequentemente longas conversas comigo mesmo e mostro-me tão inteligente por vezes que não compreendo uma só palavra do que estou a dizer.

- Então deveis ser professor de filosofia - disse a Libélula, e abrindo as suas lindas asas de gaze ergueu-se para o céu.

- Como foi tola não querendo ficar aqui - disse o Foguete. - Estou certo de que não tem tantas vezes uma oportunidade igual de cultivar o espírito. Contudo não me importo nem um pouquinho. Um gênio como o meu tenho certeza de que será apreciado algum dia. E mergulhou um pouco mais profundamente na lama.

Depois de algum tempo uma grande Pata Branca nadou para o lado dele. Tinha as patas amarelas, pés em forma de palmas, sendo considerada uma grande beleza por causa do seu bamboleio.

- Quá, quá, quá - disse ela. - Que forma curiosa tem o senhor. Posso perguntar-lhe se o senhor nasceu assim, ou é isto resultado de algum acidente?

- É completamente evidente que a senhora viveu sempre no campo - respondeu o Foguete -, de outro modo saberia quem eu sou. Contudo, desculpo a sua ignorância. Seria fora de propósito querer que os outros fossem tão extraordinários como a gente é. Sem dúvida ficará a senhora surpreendida ao saber que posso voar para o céu e descer numa chuva dourada.

- Não acho isto grande coisa - disse a Pata -, uma vez que não posso ver nisso utilidade alguma, mas, se o senhor pudesse arar os campos como o boi, ou puxar uma carroça como o cavalo, ou vigiar os carneiros como o cão pastor, isso, sim, seria alguma coisa.

- Minha boa criatura - exclamou o Foguete, num tom de voz bastante altivo -, vejo que a senhora pertence à classe baixa. As pessoas da minha posição nunca servem para nada. Temos um encanto especial e isso é mais do que suficiente. Eu mesmo não sinto a menor inclinação por trabalho algum e menos ainda por esta espécie de trabalho que a senhora recomenda. De fato, sempre fui de opinião que o trabalho rude é simplesmente o refúgio de quem não tem outra coisa que fazer na vida.

- Bem, bem -, disse a Pata, que era de temperamento pacífico e não discutia nunca com ninguém -, cada qual tem gostos diferentes. De qualquer modo, desejo que o senhor venha estabelecer aqui a sua residência.

- Oh! nada disso - exclamou o Foguete. - Sou um mero visitante, um visitante distinto. O fato é que acho este lugar bastante tedioso. Não há aqui nem sociedade nem privacidade. Na verdade, é essencialmente suburbano. Voltarei provavelmente à corte, pois sei que estou destinado a causar sensação no mundo.

- Eu também pensei em entrar na vida pública - observou a Pata. - Há muitas coisas que precisam ser reformadas. Cheguei mesmo a presidir a um comício, faz algum tempo, quando votamos resoluções condenando tudo quanto não nos agradava. Não obstante, não produziram elas grande efeito. Agora ocupo-me de coisas domésticas e cuido da minha família.

- Nasci para a vida pública e nela figuram todos os meus parentes - disse o Foguete -, até mesmo os mais humildes. Quando aparecemos, excitamos grandemente a atenção. Desta vez não apareci pessoalmente; mas, quando o faço, o resultado é um espetáculo magnífico. Quanto às coisas domésticas, envelhecem-nos rapidamente e apartam o espírito de coisas mais altas.

- Ah! Como são belas as coisas altas da vida! - disse a Pata. - Isso lembra-me que estou com muita fome.

E desceu nadando a corrente, dizendo: quá, quá, quá.

- Volte! Volte! - gritou o Foguete. - Tenho muita coisa para dizer-lhe.

Mas a Pata não lhe deu atenção.

"- Fiquei satisfeito por ela ter ido embora" - disse a si mesmo, "não resta dúvida que o seu espírito é medíocre". E mergulhou um pouco mais profundamente na lama e começou a pensar na solidão do gênio, quando, de repente, dois meninos de blusas brancas desceram a correr a margem, com uma chaleira e alguns gravetos.

- Deve ser uma delegação - disse o Foguete, tentando mostrar-se muito respeitável.

- Oh! - gritou um dos meninos. - Olha aquela vareta estragada. É estranho que tenha vindo parar aqui.

E tirou o Foguete de dentro do fosso.

- Vareta estragada! - disse o Foguete - Impossível! Vareta dourada, foi o que ele disse. Vareta dourada é muito lisonjeiro. De fato, ele toma-me por um personagem da corte!

- Vamos pô-la no fogo! - disse o outro menino. - Ajudará a ferver a chaleira.

De modo que empilharam os gravetos e puseram o Foguete por cima e acenderam o fogo.

- Isto é magnífico! - exclamou o Foguete. - Vão soltar-me em plena luz do dia, de modo que todos possam ver-me.

- Iremos dormir agora - disseram eles -, e quando acordarmos, a chaleira já terá fervido.

E, deitando-se sobre a relva, fecharam os olhos.

O Foguete estava muito úmido, de modo que levou muito tempo para incendiar-se, afinal, porém, o fogo pegou.

- Agora vou partir! - gritou ele, e estirou-se e empertigou-se todo. - Sei que irei subir mais alto que as estrelas, mais alto do que a lua, mais alto do que o sol. De fato, subirei tão alto que...

Fizz! Fizz! Fizz! e ele subiu direto no ar.

- Delicioso! - exclamou - Continuarei a subir assim para sempre. Que triunfo eu sou!

Mas ninguém o viu.

Então começou a sentir uma estranha sensação de formigamento.

- Agora vou explodir - gritou. - Incendiarei o mundo inteiro e farei tal barulho que ninguém falará a respeito de qualquer outra coisa durante um ano inteiro.

E, ele explodiu com certeza.

Bang! Bang! Bang! fez a pólvora. Disso não resta a menor dúvida.

Mas ninguém o escutou, nem sequer os dois meninos que dormiam profundamente.

Então nada mais restou do Foguete senão a vareta e esta caiu nas costas de uma Gansa que estava dando um passeio ao lado do fosso.

- Céus! - exclamou a Gansa. - Está a chover varetas! E correu para dentro d'água.

- Eu sabia que haveria de causar grande sensação - arquejou o Foguete e expirou.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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