sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Contos Africanos (Os Griots)


Depois de um bom jantar, com a lua brilhando, as pessoas de uma aldeia na África antiga podem ouvir o som de um tambor, chocalho, e uma voz que gritava: "Vamos ouvir, vamos ouvir!" Esses foram os sons do griot, o contador de histórias.

Quando eles ouviram o chamado, as crianças sabiam que estavam indo para ouvir uma história maravilhosa, com música e dança e música! Talvez hoje a história seria sobre Anansi, a aranha. Todo mundo adorava Anansi. Anansi podia tecer as teias mais bonitas. Ele foi quem ensinou o povo de Gana como tecer o pano de lama bonito. Anansi teve uma boa esposa, filhos fortes, e muitos amigos. Ele entrou em muita confusão, e usou sua inteligência e poder do humor de escapar.

Houve outras histórias que o povo gostava de ouvir mais e mais. Algumas histórias eram sobre a história da tribo. Alguns eram grandes guerras e batalhas. Algumas eram sobre a vida cotidiana. Não havia linguagem escrita na África antiga. Os narradores acompanhavam a história do povo.

Havia geralmente apenas um contador de histórias por aldeia. Se uma vila tentava roubar um contador de histórias de outra aldeia, era motivo de guerra! Os contadores de histórias foram importantes. Os griots não eram as únicas pessoas que podiam contar uma história. Qualquer um poderia gritar: "Vamos ouvir, vamos ouvir!" Mas os griots eram os "oficiais" contadores de histórias. O griot aldeia não tem que trabalhar nos campos. Sua tarefa era contar histórias.

Mil anos mais tarde, novas histórias sobre novos triunfos e novas aventuras ainda estão sendo informados pela aldeia pelos Griots.

Fonte: 
http://africa.mrdonn.org/fables.html 

Dyonelio Machado (Entrevista:: “Escrevi Os Ratos em 20 noites”)


(Esta entrevista foi organizada a partir do depoimento de Dyonelio Machado a Fernando Paixão e Nelson dos Reis, em 1981, e está publicada na 20º edição nas primeiras páginas do livro “Os Ratos”, da editora Ática.)

Quando o senhor começou a se dedicar à literatura?

Eu já estava na Escola de Medicina quando isso aconteceu. E aconteceu como um relâmpago: Escrevi um livro polêmico (A política contemporânea, publicado em 1923), onde eu metia o pau no governo de então. Mas com base, porque eu nunca fiz nada que não tivesse base. Alguns, inclusive, reconhecem essa qualidade em mim. Eu tiro do ar a poesia, a imaginação, mas tudo tem base real, e isso eu creio muito importante em termos de literatura.

E como nasceu “Os ratos”, seu livro mais famoso?

A história se passa em um dia. Eu o escrevi em vinte noites - num dezembro, durante um verão maravilhoso -, após terminar meu trabalho como médico. O que eu escrevia de noite ia passando para a minha mulher ler. Todo o livro estava muito claro pra mim, porque eu havia passado nove anos pensando nesse livrinho. Então eu saía para atender os doentes, no hospício onde eu era médico e nos dois hospitais onde também trabalhava, e, após tudo isso, ia pra casa e começava a escrever. Uma mocinha que era empregada da Livraria Globo, a principal de Porto Alegre, me foi indicada pelo Érico Veríssimo para datilografar o trabalho. Num dia, eu levava uma folha manuscrita e pegava uma datilografada, e assim o trabalho ia avançando. Numa dessas vezes ela perguntou: “Escute, doutor, o Naziazeno vai ser feliz?” – O Naziazeno é o personagem central . Eu lhe respondi: “Leia tudo, que você vai ver”. Foi assim que descobri que “Os Ratos” era um romance.

Em 1935, o senhor recebeu o prêmio Machado de Assis, como foi isso?

Quando eu escrevi “Os Ratos”, hesitei em mandar para o concurso da Academia, mas acabei mandando. Eu soube da premiação, quando estava preso, incomunicável, no porão de um navio estacionado no porto de Santos. Apesar disso, teve um sujeito que conseguiu me avisar do prêmio.

O senhor foi político, psiquiatra, escritor: em quais destes papéis mais se realizou?

Eu não me considero realizado em nada.

Qual dos seus livros lhe agrada mais?

Primeiramente, eu vou para qualquer um dos meus livros negaceando – vocês conhecem esse termo gaúcho? Eu vou perguntando: “Será que eu leio?”. Aí, eu vou lendo, lendo, e no final digo para a pobre da minha esposa: “Olha, esse livro é bom!”. E ela agüenta essa minha opinião sobre meu livro! Agora veja bem: Pra mim, ou tudo presta ou tudo não presta. É muito melhor que o leitor faça a escolha.

E a crítica, como o senhor a vê?

A crítica entende como quer. Não há crítica boa ou má. A crítica é um momento às vezes do próprio ledor, outras vezes do que está vigorando como escola, etc. A crítica é tremendamente subjetiva. Veja só: Camões fez aquela coisa maravilhosa que é “Os Lusíadas”, e depois vieram uns alunos de Coimbra e fizeram modificações, fizeram alterações sem sentido. De modo que a crítica pra mim só tem um valor: polemizar. Mas a crítica é boa quando aponta coisas.

Até 1970, o senhor era pouco conhecido no Brasil todo. Mas, a partir daí, todo mundo tomou conhecimento de Dyonelio Machado. Como o senhor vê isso?

Eu temo que essa coisa fique muito grande e depois caia. Isso tem que vir devagar, às colheradas. Um cidadão, que havia ido a um sebo comprar um livro antigo, certa vez me perguntou: “Mas por que os seus livros estão sendo procurados?”. Eu respondi: “Foi porque eu morri.” Então ele me disse: “Ah, deixe disso!”. Eu retornei: “Foi morte, sim,porque somente depois de morto o escritor foi reconhecido”. Há várias mortes, e me pegaram para uma delas.

E essa morte é boa?

Não há morte boa. Mas veja, eu falo de coisas simbólicas. Existem muitas coisas estranhas que têm o valor de coisas reais. Toda a vida se fez assim, não é? Eu acho que todos nós somos simbolistas: nós não somos nós, somos uma imagem de nós. Toda poesia é fundamental, mesmo na prosa mais prosaica.

Fonte:
Escritores do Sul – www.escritoresdosul.com.br
(este site está desativado)

Tatiana Belinky (Lenda Indiana Recontada: A Lebre na Lua)


Segundo alguns povos do Oriente, as manchas que aparecem na face da lua cheia se assemelham à figura de uma lebre. E diz a lenda que isto aconteceu assim...

Há muitos milênios, viviam, à margem do rio Ganges, quatro bichos diferentes que eram amigos e companheiros: um macaco, uma lontra, um pequeno chacal e uma lebre, a mais virtuosa dos quatro. 

Um dia ela reuniu os amigos e lhes disse: "Amanhã será lua cheia, o dia que nós reservamos para meditar e fazer jejum. Não precisamos, pois, de comida, mas sugiro que cada um de nós saia à procura de alimentos necessários para dar de esmola caso alguém nos venha pedir".

Os bichos concordaram e cada um foi se recolher para passar a noite, e no dia seguinte sair em busca de comida. O chacal subtraiu o almoço de um pastor distraído, que era uma gamela de coalhada com arroz. O macaco tirou algumas mangas maduras de uma mangueira próxima. A lontra apanhou alguns peixinhos esquecidos por um pescador. E a lebre, que passara a noite em profunda meditação, pensou consigo mesma: "Não vou preparar nada. Se algum necessitado vier pedir comida, darei meu próprio corpo para ele se alimentar".

Essa idéia tão generosa chamou a atenção dos mundos superiores, e um dos espíritos, o deus Sekra, decidiu descer até a terra, encarnado no corpo de um brâmane, para conferir em pessoa as dádivas dos quatro amigos animais. Primeiro, ele apresentou-se à lontra: "Minha filha lontra, estou com fome, desde ontem não como nada. Será que você poderia ceder-me algum alimento? Em troca, eu lhe darei as minhas bênçãos." A lontra entregou-lhe os peixinhos, e ele agradeceu, dizendo que voltaria logo mais para buscá-los. E foi falar com o pequeno chacal: "Amigo chacal, você não teria algum alimento para dar a um pobre faminto?" O chacal ofereceu-lhe a coalhada com arroz, e o brâmane agradeceu e disse que voltaria logo para buscar a comida. Então, foi procurar o macaco pendurado pelo rabo num galho de árvore e fez o mesmo pedido. O macaco ofereceu-lhe as mangas maduras. O brâmane agradeceu, dizendo que voltaria logo para buscá-las.

Por último, o deus Sakra disfarçado em brâmane foi procurar a lebre que continuava a meditar à beira da sua toca, e tornou a fazer a mesma pergunta, à qual a lebre respondeu: "Meu santo homem, vou oferecer-lhe um lauto almoço. É um pedaço de carne fresca, que você só terá de assar numa pequena fogueira. Prepare o braseiro. Quando o fogo estiver alto, eu trarei a carne para o seu almoço."

O brâmane juntou alguns gravetos, acendeu uma alegre fogueira ao lado da toca da lebre e perguntou então qual seria a carne que lhe serviria de almoço. "É o meu corpo", respondeu a lebre, e no mesmo instante pulou para o meio do fogo. Mas o fogo ardia e não queimava a lebre, que até reclamou: "Ó santo homem, o seu fogo não queima. Você vai ter de aumentá-lo, pois do jeito que está, chego a sentir frio".

Em vez de responder, o brâmane desapareceu e no seu lugar surgiu um belíssimo e luminoso jovem, que se apresentou como o deus Sakra encarnado e disse: "Um ato tão nobre e generoso como este tem de ficar para sempre na memória dos homens." E, crescendo desmesuradamente, ele arrancou com a mão o cume de uma montanha próxima, amassou-o dentro do punho, e com essa massa lambuzou a face da lua cheia que acabava de surgir no céu, formando uma figura na forma de lebre. Esta figura apareceria aos homens a cada lua cheia para lembrar-lhes a bela ação daquela pequena lebre, que mostrou que quem dá uma esmola deve dá-la de todo o coração, dando tudo, e às vezes até o próprio corpo. 

Fonte:
Revista Nova Escola

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 736)



Uma Trova de Ademar  

Sempre quando a noite nasce, 
traz, na escuridão dos campos, 
a luz que Deus pôs na face 
dos pequenos pirilampos... 
–Ademar Macedo/RN– 

Uma Trova Nacional  

Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
–Luiz Carlos Abritta/BH– 

Uma Trova Potiguar  

Caminhante, aonde vais, 
neste caminhar fremente, 
não vês que o mundo não trás 
quietude à nossa mente? 
–Gonzaga da Silva/RN– 

...E Suas Trovas Ficaram  

Discórdia gera o dilema 
nunca faz bem ao cristão; 
ninguém resolve um problema 
com uma pedra na mão.. 
–Ernesto Tavares de Souza/SP– 

Uma Trova Premiada  

2012   -   Cantagalo/RJ 
Tema   -   ESPAÇO   -   11º Lugar 

Se a inspiração vem chegando,
eu me vejo em pleno espaço,
vendo Deus metrificando
todos os versos que eu faço! 
–Ademar Macedo/RN– 

U m a P o e s i a  

Sou apenas carioca,
mas se eu fosse do Nordeste,
seria um cabra da peste
desses que ninguém provoca,
pois quando o cabra se invoca,
faz você se arrepender.
Quem dera poder dizer
agradecendo ao Divino:
quanto mais sou nordestino
mais sinto orgulho de ser!
Gilson Faustino Maia/RJ– 

Soneto do Dia  

AS PEGADAS DE JESUS. 
–Raymundo de Salles Brasil/BA–

De boa vontade tem gente que aceita, 
de logo, a Palavra e se entrega a Jesus, 
tem gente que não, que reluta e rejeita, 
até ficar cega, sem paz e sem luz. 

E assim como Saulo, também se deleita, 
se curva à presença do Marte da cruz; 
mas gente há de pedra, que dura foi feita, 
jamais se converte jamais se conduz. 

Por passos deixados na terra por Cristo, 
se prego, se falo, me canso, desisto, 
são pérolas postas e aos porcos jogadas. 

Me resta ter pena por tanta loucura, 
tem gente não sabe que a alma tem cura, 
é só de Jesus ir seguindo as pegadas.

Mário de Carvalho (O Binóculo Russo)


(Foi mantida a grafia original)

Matilde deixou cair o dossier com estardalhaço no lajedo do patamar. Aquela porta ficara má de abrir, depois de uma reparação caríssima, que sucedera a uma tentativa de assalto. Vinha, como sempre, muito carregada. Teve que equilibrar a pasta entre os joelhos, ajeitar os sacos de plástico nos pulsos, puxar ligeiramente a chave para si, depois de a ter feito deslizar no buraco da fechadura; e aplicar-lhe uma torção lenta, sábia, até convencer a lingueta a saltar. Não havia mãos e joelhos que chegassem para todos os volumes. Estrondeou o dossier no chão, estrondeou a fechadura nas ferragens, estrondearam as latas do supermercado na madeira da porta, e a vizinha do lado logo a aparecer, de braços cruzados e viso furibundo. Não disse nada, porque tudo estava já ralhado, cara a cara, pelo menos de há um ano a esta parte. 

O homem dela fazia turnos de noite, tinha o sono leve e aqueles rumores causavam-lhe uns sobressaltos e um mal-estar que ela designava modernamente por stress, mas que em interpretações mais rigorosas e menos científicas poderia ser traduzido por «vontade de embirrar». Seguir-se-iam remoques e apartes ditos da varanda, para que Matilde os ouvisse bem e, talvez, umas vassouradas na parede para que ela se compenetrasse de que não se incomodava impunemente um capataz a turnos, moído de chatices.
Com alívio, Matilde fechou a porta atrás de si - devagarinho, para não reincidir nos estrondos - e refugiou-se nas suas duas assoalhadas, impecáveis de arrumação. Saltou o gato do sofá e veio cumprimentar, roçando-se-lhe pelas pernas. Interesseiro, o bicho.

Queria comida, a dona era a garante das refeições. Mas Matilde tomou para si os cumprimentos como se fossem afeições de gato.

Só depois de distribuir géneros e vitualhas, pasta e dossiers, pelos sítios destinados, Matilde se aproximou, a medo, da marquise das traseiras. Não podia evitar aquele baque e a tremura nas mãos sempre que, pelo fim da tarde, espreitava pelos vidros. Ele estaria lá? Se estivesse, o baque tornar-se-ia mais forte e sentiria na face aquela tepidez da pele a rosear-lha. Se não estivesse, sobreviria um desalento melancólico. Era, em qualquer dos casos, um padecimento.

De maneira que Matilde se foi chegando à janela devagar, retardando até ao último momento a ocasião de olhar para fora, por detrás do cortinado de cassa, porque não ousava mostrar-se.

A marquise deitava para a negrura dum saguão fundo, ainda mais ensombrado por uma velha nespereira que não parava de crescer e que ninguém se dava ao trabalho de podar. Mais para além, atrás de um muro alto, dormitava um quintalório meio abandonado, com ervas altas e anárquicas a quererem trepar por um pombal em ruínas; do outro lado duma vedação de cedros, a meia altura, resplandecia o pátio dele. Chamar-lhe quintal seria desmerecedor, porque exibia uma espécie de fonte em que um peixe beiçudo deveria verter água para uma tina, se estivesse ligada à canalização, no meio duma relva bem aparada, a rasar um canteiro pintado de branco com uma roseira que preponderava sobre floritas roxas, misteriosas.

Ele estaria? Não estaria? O olhar de Matilde hesitou pelos telhados de prédios altos, nas lonjuras. Depois decidiu-se, fitou o jardim e perscrutou entre as heras do caramanchão, correu a sebe e os muros, admirou uma vez mais a imaculada fonte do peixe, pousou na mesita de plástico branco, esquadrinhou os quatro cantos, subiu pela ferrugenta escada de salvação. Nada. Matilde suspirou e abafou um pigarro brando nas costas da mão. Tomou-a a tal tristeza lassa, desanimada. Na sala, sobre a mesa, o medonho dossier amarelo com prospecções de vendas já clamava por ela.

De súbito, um alvoroço. Um vulto branco por entre as folhas do caramanchão. Um homem avançou, expôs-se ao olhar, cruzou os dedos de ambas as mãos em frente do peito e estendeu os braços. O «claque» seco dos ossos distendidos chegou aos ouvidos de Matilde. Se não chegou, foi como se chegasse. Meu Deus, era ele. O dossier podia esperar! O homem deu uns passos pela relva, sentou-se à mesita e foi folheando um livro que - Matilde não tinha reparado - já lá estava. Matilde cruzou os braços com força e fincou as mãos nos ombros. Distinguia agora nitidamente o perfil do homem, atento, concentrado, segurando o livro aberto com uma mão, enquanto com a outra tamborilava, elegantemente, no tampo da mesa. De vez em quando, aquela mão tamborilante levantava-se, suspendia-se um instante no ar, penetrava no livro e virava mais uma página. E Matilde a ver de longe, com enlevo...

Pelas oito horas, o trivial: uma mulher de bata florida e ar desmazelado veio ao patamar da escada de ferro e chamou, muito autoritária, de mão na anca. «Lá está a vaca da mãe», resignou-se Matilde, «vem chamá-lo para jantar...» O homem fechou o livro, decerto contrariado, porque muito melhor ficaria a ser observado secretamente por Matilde, tamborilou por um momento com os dedos de ambas as mãos na mesa, levantou-se, subiu as escadas e entrou. «Pronto», suspirou Matilde, «agora, jantar em frente do televisor e, vista e apreciada a telenovela, o dossier amarelo...»

«É russo, minha senhora, está a ver?

O oculista, muito peremptório, apontava os caracteres cirílicos gravados a verde no binóculo.

«Pesado...»

«Sólido, minha senhora. Os russos, noutras coisas, não sei; mas, agora, na óptica... Ora experimente lá, se faz favor.»

Matilde, timidamente, focou o binóculo, apontou-o à montra: uma confusão. Girou sobre si e distinguiu a cara enorme, deformada, de Maria Eduarda que a olhava com os olhos esbugalhados:

«Não sei... Acho que serve.» «Faz-me um desconto?» «Pois sim, uma atençãozinha...»

Era a hora de almoço, Matilde e a amiga cumpriam a rotina do percurso até à pastelaria do costume (um croissant com fiambre, um copo de leite e uma bica) quando Matilde desviou caminho para o oculista. Maria Eduarda fez perguntas, interessada pelos desarranjos visuais de Matilde, magnífica matéria de conversação, e ficou muito surpreendida por a colega ter pedido para apreçar binóculos.

Matilde deu uma explicação que deixou a outra intrigada: que era por causa do gato. Andava sempre a vadiar pelos quintais e, assim, podia saber onde é que ele parava...

«Ah...»

À mesa, Eduarda, como de costume, tinha muito que contar: a chefe havia-lhe deixado uma nota a vermelho (a vermelho!) avisando-a de que deveria abrir as páginas do Diário da República, coisa que não era da sua competência: o gabinete estava irrespirável desde que o paquete resolvera fumar uma espécie de tabaco-de-onça, mata-ratos ou lá o que era aquilo; iam montar no serviço uma instalação que registava todas as comunicações telefónicas, a fim de debitarem as chamadas pessoais aos empregados; o Ricardo estava a chegar atrasadíssimo aos encontros e deixava o atendedor de chamadas ligado mesmo quando (era óbvio!) estava em casa, mas o que valia era haver mais Ricardos na terra; podia-se ganhar um dinheirão fazendo comida para festas, para casamentos e coisas assim; apesar dos horrores que se diziam, a Igreja Manánão era tão má como isso, tudo muito limpo; a última telenovela brasileira estava muito bem feita.

Nada de novo, naquela hora de almoço... Eduarda ainda quis saber mais sobre os binóculos, mas Matilde conseguiu ser extremamente vaga, embora não insistisse na necessidade de vigiar o gato. E deu mesmo um par de conselhos a propósito do Ricardo e as cautelas apropriadas quando se trata com homens instáveis.

O binóculo era, de facto, pesado. O ruído que fez, quando, dentro da mala de Matilde, embateu com força na porta, despertou no interior da casa da vizinha um rancoroso «Lá chegou a gaja...», perfeitamente audível. Mas Matilde estava tão impaciente para chegar à marquise que, contra o costume e indiferente às consequências, atirou com a porta violentamente. Desprezou o gato, deixou os sacos de plástico em qualquer lado, o dossier esbarrondado, a trouxe-mouxe, em cima do sofá, e ala, para o seu posto de observação, de binóculos em riste.

Ele já lá estava e lia, à mesa, com aquele desprendimento selecto que tanto a havia impressionado na véspera. Matilde tinha-o agora ao perto, muito nítido, com as cores muito vivas. Podia acompanhar-lhe o perfil, milímetro a milímetro, o azulado da barba na face bem escanhoada, as riscas- da camisa, cuidadosamente arregaçada nos punhos e o livro, manuseado com displicência. Conseguiu ler as letras da capa: Cultive a Sua Vontade de Vencer, por J. D. Rus_ West. Céus, aquilo eram leituras de gestor. Bem se via, de resto, por aquele jardim tão bem cuidado, pelo fontanário, com peixe e tudo. Um gestor, votado ao sucesso, em pleno bairro de Santos, para "além das nespereiras... E captou todos os pormenores, todos os movimentos, até que a mãe (ou, pensando melhor, talvez a criada) veio costumeiramente, muito desmancha-prazeres, chamar o homem para jantar.

Matilde dormiu muito apressadamente nessa noite. Sonhou que circulava a grande velocidade por uma estrada bordejada de nespereiras descomunais. Um Ferrari vermelho ultrapassou-a. Era o vizinho que o conduzia, de camisa desabotoada no pescoço, deixando entrever, por baixo do colarinho, um lenço de seda de ramagens azuis. Matilde seguia num carrinho de feira, mas, prego a fundo, esforçava-se, não deixava que a distância ao Ferrari aumentasse. Eduarda surgiu de repente a seu lado, de cabelos ao vento, e advertiu: «Olha que o gajo é dos que deixam o atendedor de chamadas ligado e fingem que não estão! Além disso, tu não sabes guiar!»

Matilde fez muita batota no serviço, na manhã seguinte. Deu-lhe a impaciência. Pediu que a deixassem sair por uns instantes para ir à Câmara tratar de uma multa e ao banco esclarecer uns problemas de saldo, já que à hora do almoço tinha que passar por casa, porque o canalizador... A chefe não esteve para averiguar mentira a mentira e nem sequer ouviu a do canalizador. Limitou-se a rosnar, como de costume: «depois você compensa!»

Foi direitinha a uma livraria e olhou demoradamente para a montra, num pasmo que contrastava com a pressa de antes. O livro, claro, não estava em exibição. Só havia álbuns caríssimos, sobre cães, palácios e porcelanas da China. Ainda assim, Matilde contemplou a montra com minúcia. Era-lhe difícil entrar numa livraria, assim sem mais nem menos. Tinha a impressão de que aqueles empregados andavam sempre a vigiá-la, desconfiados, e de que os cidadãos sorumbáticos que cirandavam entre as bancadas eram intelectuais peneirentos que a olhavam, com desprezo, como a uma intrusa. A última vez que entrara numa livraria fora para comprar os livros de Maria Roma e, mesmo assim, acompanhada pela Eduarda e de fugida.

Lá se resolveu, enfim. Encaminhou-se com passo firme para o empregado que lhe pareceu ter melhor cara e perguntou pela Vontade de Vencer. O homem estava entretido com um embrulho e quase nem se dignou a olhá-la:
«Veja ali naquela estante os livros de capa verde.»

A tal estante era um tesouro de volumes maravilhosos, de lombadas vistosas, que ensinavam tudo o que era necessário para a felicidade do género humano: Como Fazer Amigos, O Sucesso sem Contrapartidas, Apodere-Se dos Segredos de Machu-Pichu... Na quarta prateleira, lá resplendiam vários exemplares do Cultive a Vontade de Vencer. Matilde ficou com alguma raiva ao livreiro que insistiu em embrulhar o livro, com um papel vulgar. Estava ansiosa por ler. Ainda mal tinha saído e já arrepanhava o papel.

Regressada ao emprego, ainda antes do almoço, pôde, com o volume disfarçado entre resmas de facturas e a lista dos faxes, comungar da prosa que fortalecia o espírito do seu vizinho. Logo na terceira página, leu, extasiada: «O imperador Júlio César, também conhecido por Octávio Augusto, que viveu largos milhares de anos antes de Jesus Cristo, era muito persistente, como todos os vencedores. Ao atravessar o caudaloso rio Rubicão que separa o Egipto de Itália, ordenou aos soldados que seguissem o seu penacho branco e bradou: "Ai dos Vencidos"! Assim conquistou Pompeia e submeteu dezenas e dezenas de cidades gregas.»
Aquilo era o mundo da erudição. No prefácio, o autor assegurava que havia consultado milhares de volumes de várias línguas, efectuado centenas de entrevistas e frequentado as mais longínquas bibliotecas, sem esquecer a do Mosteiro de Lassa, no Tibete. Matilde, ofegante, sentia-se esmagada por tanto saber. E mais se firmou nela a admiração pelo homem que lia aqueles textos, afincadamente, todas as tardes, antes do jantar.

Não almoçou com Eduarda. Refugiou-se numa pastelaria distante e aprendeu alguma coisa sobre imperadores romanos e lamas do Tibete, na versão muito peculiar do autor americano. À tardinha, de binóculo numa mão e livro na outra, espiou o vizinho, numa ansiedade, procurando adivinhar, em vão, que passagem do livro estaria ele a folhear. O gato miava, ao desamparo, esganiçado de fome. Mas não sobrava atenção a Matilde. Nessa noite o animal só comeu depois da telenovela.

No último sábado de cada mês Matilde fazia as suas compras num supermercado do bairro, de acordo com uma lista sempre invariável. Habitualmente trazia pouco dinheiro, por medo dos assaltos. A empregada conhecia-a, aceitava-lhe os cheques sem grandes formalidades.

Mas naquela manhã, de caneta na mão, entre sacos de plástico vazios e talões abandonados, Matilde mostrava-se singularmente perturbada. Atrás dela, na bicha, acompanhado por um sujeito risonho que trazia um capacete de motociclista no braço, tomava garbosamente posição o seu vizinho, supostamente «gestor». Vinha vestido com um fato de treino e balanceava nas mãos, com nervosismo, uma lata de ervilhas. Matilde bem que conhecia aquelas mãos. Dobrada sobre a caixa registadora, a preencher o cheque, sem ousar uma olhadela para o lado, sentia a presença dele muito perto. Querendo, podia mesmo tocar-lhe. Enrubesceu. Os dedos tremiam-lhe. Enganou-se. Teve de rasgar o cheque e procurar outro, atabalhoadamente.

«Há pessoas que não têm respeito nenhum pelos outros, palavra de honra!»

Matilde estremeceu e atreveu-se a olhar para o homem, abismada. De cabeça à banda, ele não se calava:

«Vêm pràqui armar ó pingarelho c'a porcaria dos cheques e só sabem é empatar ou o caraças!!»

«Ela nem sequer sabe preencher a merda do cheque!», respondeu o do capacete de mota, às casquinadas.

«É pra mostrar que tem conta no banco! É finaça, a duquesa!»

Matilde balbuciou qualquer coisa na direcção da empregada. Depois, aterrorizada, ousou encarar o vizinho:

«Mas...»

«Mas, o quê? E não esteja a olhar pra mim qu' eu não sou mostruário.»

E o outro:

«Despache-se lá, senhora! Não vê que nos está a fazer perder tempo? Oh, sorte!»

Rebentou uma grande altercação em volta da caixa registadora. A empregada, como lhe tivesse chegado a mostarda ao nariz, tomou o partido de Matilde, com uma gritaria colorida, adequada à situação. Outros fregueses se interpuseram. Parece que a questão até meteu a segurança. Mas Matilde já não ouvia nada. Muito encolhida, de sacos na mão, olhos no soalho,foi-se encostando à parede e, muito lentamente, com passinhos trôpegos, saiu do supermercado.

No percurso até casa não cumprimentou ninguém nem ouviu ninguém. Ia uma zoada confusa, naquela cabeça. Tumultuosamente, misturavam-se imagens quebradas, pensamentos incompletos e sensações desordenadas. 

Imperativamente, de permeio, com um rebate de urgência, ocorriam-lhe pequenas tarefas que planeara há muito e que, por uma razão ou outra, nunca tinha levado a cabo: encerar o soalho, limpar os bicos do fogão, coser a bainha do cortinado, arrumar a despensa, pôr em ordem alfabética os números telefónicos do bloco-notas...

Ao chegar a casa, completamente indiferente às reacções dos vizinhos, nem reparou se a porta tinha batido ou não. O telefone tocou, não atendeu. Durante todo aquele sábado Matilde girou pelo apartamento, numa actividade frenética de limpar e arrumar objectos. Nem almoçou. Desconfiado do feitio e da movimentação, o gato escondeu-se sob uma estante e optou por passar despercebido.

Ao fim da tarde, enfim, Matilde deixou-se cair no sofá, contemplou a sua obra e suspirou, já tranquila. Não! Faltava ainda um pormenor: o livro da Vontade de Vencer, ali a rebrilhar em cima da mesa, voou descompassadamente para o caixote do lixo. Depois, Matilde tomou um banho de imersão, cantarolou, jantou enquanto via a telenovela e arranjou demoradamente as unhas. Dormiu até muito tarde.

Passaram-se uns dias, antes que Matilde se acercasse da marquise. Foi por tentativas, devagar, pé ante pé, forçando-se muito. Com um papel adesivo, translúcido, forrou o vidro até meio, de maneira a não ser surpreendida, sem querer, pela vista do jardim relvado e do seu possuidor.

Mas havia mais mundos, acima do papel translúcido. Numa certa varanda, lá ao longe, todos os dias, à mesma hora, um senhor calvo, de pijama, vinha tranquilamente regar as flores. De vez em quando, voltava-se para dentro e falava com alguém. Aquela distância parecia a Matilde que o homem estava triste e abatido. Não podia ser má pessoa quem gostasse tanto de
flores. Falava com a mulher, uma megera tirânica, decerto, que passava a vida a atenazá-lo com recriminações e pequenas maldades, que um amante de plantas estava longe de merecer. O ar carinhoso com que o homem acariciava as flores... Falava-lhes?

Matilde trepou a um banco, vasculhou num armário alto e tirou de lá o binóculo.

Fonte:
Mário de Carvalho. Contos Vagabundos. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.

Teatro de Ontem e de Hoje (Brincante)


Espetáculo concebido a partir da pesquisa pessoal de Antonio Nóbrega, estruturado sobre a recriação de narrativas do romanceiro popular nordestino, tendo como personagem condutora da ação o brincante Tonheta, um herói picaresco do Brasil. 

O termo brincante designa, no Nordeste, os artistas populares dedicados aos folguedos tradicionais; onde podem cantar, dançar, tocar instrumentos, etc. Após a idealização de Tonheta, Antônio Nóbrega o explora em alguns espetáculos, mostrando toda sua versatilidade como artista multifacetado.

A realização de Brincante é de 1992, após Figural e O Reino do Meio Dia, espetáculos solos que catapultam o intérprete no Brasil e no exterior. Nele, Nóbrega e sua mulher Rosane Almeida interpretam dois atores ambulantes. Em meio às histórias nas quais se enreda a extrovertida personagem, o casal encontra tempo e espaço para cenas de idílio, briga, desafio, podendo explorar longamente o canto, as habilidades com diversos instrumentos, as danças, a comicidade peculiar das ruas e praças.

A direção de Romero de Andrade Lima é fiel à poética "armorial" de Ariano Suassuna, seu tio, mantendo o ritmo inquieto e pulsante da realização. A cenografia é concebida a partir de uma carroça, coberta de panos, objetos, fotografias, adereços múltiplos, possibilitando a criação dos diversos ambientes exigidos pela fábula. O texto de Bráulio Tavares, juntando histórias e propiciando entreatos variados, ajusta-se como uma luva à expressividade dos artistas. 

Nos comentários do jornalista Álvaro Machado, "a carreira de Antônio Nóbrega como continuador de uma expressão teatral autenticamente brasileira toma contornos exemplares com Brincante, seu último espetáculo. [...] Agora empresta a mesma importância à parte plástica do espetáculo, com cenários e figurinos do artista Romero de Andrade Lima, 'cria', como Nóbrega, do Movimento Armorial de Ariano Suassuna. A beleza e informação contidas em objetos iconográficos como a carroça de andarilho do anti-herói Tonheta são um dos trunfos da montagem. [...] Tonheta, personagem picaresco que alcança a indagação metafísica, emociona ainda por recuperar para a cena paulista uma tradição de teatro de alma brasileira quase sepultada depois da década de 70".[1] 

O espetáculo, ao longo de sua temporada paulista, abre as portas de um importante espaço teatral paulistano, o Teatro Brincante, lugar e ambiente de criação e apresentações da família Nóbrega, como também escola para formadores - brincantes, e centro cultural promotor de Encontros e Mostras voltados para a difusão e fomento da cultura brasileira. 

Notas
[1] MACHADO, Álvaro. Brincante retoma alma do teatro brasileiro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 ago. 1992. Ilustrada, p. 5-4.

Fonte:

José de Alencar (Ao Correr da Pena) Rio, 14 de janeiro: As Sociedades em Comandita


As sociedades em comandita, eis a questão do dia. O abecedário inteiro tem saído a campo; e cada letra é um novo campeão que desce à liça do combate.

Todas as armas têm sido tomadas. A lógica, o estudo profundo do objeto, a dialética de uma argumentação vigorosa, ressaltam nos primeiros artigos, publicados no Jornal do Comércio e assinados por duas iniciais, que, como todos sabem, denunciam uma das nossas capacidades, um dos espíritos mais bem organizados em matéria de jurisprudência.

Abrangendo a questão num ponto de vista largo e profundo, aqueles artigos desenvolveram a questão comanditária desde a sua verdadeira base até as últimas conseqüências do decreto de 13 de dezembro de 1850.

Há poucos dias um dos advogados mais distintos do nosso foro nos dizia, a respeito destes artigos, que poderiam ter sido escritos por ele: Não é um artigo de jornal, é um tratado.

No Correio Mercantil a questão tomou outra face; mas foi habilmente tratada. A pena que defendeu o ano passado o projeto de reforma judiciária, que se discutia na câmara, veio de novo à imprensa para sustentar o decreto do governo, com os conhecimentos, com o estilo claro e fluente de que já havia dado provas.

Infelizmente, porém a questão não se manteve na altura a que a tinham elevado os dois ilustres membros da magistratura e da classe dos advogados.

Insinuações pessoais, alusões injustas e deslocadas, vieram tomar o lugar de argumentos, e responder àquilo que o direito, a justiça e os princípios de razão haviam estabelecido no desenvolvimento da questão.

Por ora a discussão tem sido unicamente entre as consoantes; as vogais conservam-se neutras, e esperam talvez o resultado da luta para emitirem, com verdadeiro conhecimento de causa, uma opinião conscienciosa.

Se os espíritos graves se preocupam com esta questão interessante, com as últimas notícias do Oriente, e com o resultado provável da nossa Guerra do Paraguai, os outros pensam no carnaval, que o seu cortejo de folias e extravagâncias.

O carnaval!... Enquanto ele está longe, enquanto ele não vem transtornar o juízo com os seus momos grotescos e suas voluptuosas bacantes, aproveitemos a ocasião, e falemos sério a seu respeito.

Creio que são inteiramente infundados alguns receios que há de  vermos reviver ainda este ano o jogo grosseiro e indecente de entrudo, que por muito tempo fez as delícias de certa gente. Além das boas disposições do público desta corte, devemos contar que a polícia desenvolverá toda a vigilância e atividade.

Depois que o Sr. Desembargador Siqueira, entre tantos outros benefícios que nos fez, conseguiu extinguir esse antigo costume português, a polícia carrega com uma responsabilidade muito maior do que nos anos anteriores. Outrora era um uso arraigado com o tempo, e por conseguinte difícil de extirpar; hoje seria um abuso, que só a negligência poderia deixar que se renovasse.

Muitas coisas se preparam ente ano para os três dias de carnaval. Uma sociedade criada o ano passado, e que conta já perto de oitenta sócios, todos pessoas de boa companhia, deve fazer no domingo a sua grande promenade pelas ruas da cidade.

A riqueza e luxo dos trajes, uma banda de música, as flores, o aspecto original desses grupos alegres, hão de tornar interessante esse passeio dos máscaras, o primeiro que se realizará nesta corte com toda a ordem e regularidade.

Quando se concluir a obra da Rua do Cano, poderemos então imitar, ainda mesmo de longe, as belas tardes do Corso em Roma.

Entretanto a sociedade teve já este ano uma boa lembrança. Na tarde de segunda-feira, em vez do passeio pelas ruas da cidade, os máscaras se reunirão no Passeio Público, e ai passarão a tarde, como se passa uma tarde de carnaval na Itália, distribuindo flores, confete, e intrigando os conhecidos e amigos.

Naturalmente, logo que a autoridade competente souber disto, ordenará que a banda de música que costuma tocar ao domingo guarde-se para a segunda, e que em vez de uma, sejam duas ou três.

Confesso que esta idéia me sorri. Uma espécie de baile mascarado, às últimas horas do dia, à fresca da tarde, num belo e vasto terraço, com todo o desafogo, deve ser encantador.

O que resta é que as nossas patrícias, todas mimosas e aristocráticas como são, não se deixam levar de velhos prejuízos, e continuem a temer a simples vista de uma máscara como de uma coisa perigosa.

Todos os membros da sociedade são pessoas delicadas e do mais fino trato; e por conseguinte podem ter certeza que quaisquer palavras, qualquer galantaria, não serão capazes de ofender nem sequer uma suscetibilidade.

Assim, pois, cessem estes escrúpulos. Quando vos oferecem com tanta amabilidade uma bela ocasião de gozar de algumas horas de prazer, não está bem da vossa parte uma recusa e um completo desdém. Ao contrário, mostrai que lhe dais algum apreço, porque isto nos animará a fazer uma outra coisa que ainda está em muito segredo, mas que eu vos conto em confidenza, com a condição de que ficará entre nós unicamente.

Lembram-se alguns amigos, a conversar a respeito do carnaval, que era possível dar-se um baile de máscaras no qual vós pudésseis tomar parte, e não ser simples espectadores, como nos teatros.

Querem ver que já estais a fazer algum muxoxo de desdém, e a pensar que todos os anos se fala nisto e que nunca se chega a efetuar. Paciência! Tanto se há de falar que um dia a coisa se há de realizar. Mais vale tarde do que nunca.

Entretanto suponde que a diretoria do Cassino toma a peito esta idéia, e que com os mesmos sócios do Cassino, e com algumas outras pessoas aprovadas por ela, forma uma nova sociedade filial para dar todos os anos um baile mascarado, começando por este carnaval.

Feito isto, ainda duvidareis do bom êxito da nossa lembrança? Estou certo que não. Vós conheceis os diretores do Cassino, e vos lembrais dos bailes magníficos que nos tem dado o seu amável presidente. Assim, pois, a dificuldade está em convence-lo. Pedi-lhe; e não se me dá de apostar que é coisa feita.

Como já deveis estar aborrecida da prosa chã e rasteira deste artigo, dou-vos uns lindos versinhos que li num álbum um destes dias. Se os quereis achar ainda mais bonitos do que eles realmente são, suponde que vos foram dedicados.

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 735)



Uma Trova de Ademar  

Uma fé que não se abala, 
dai-me, Senhor, sem medida, 
para eu poder semeá-la 
pelos roçados da vida. 
–Ademar Macedo/RN– 

Uma Trova Nacional  

Se a vida, em seus embaraços, 
faz minha vida ser triste, 
busco prazer em teus braços... 
... e esqueço que a vida existe! 
–Pedro Mello/SP– 

Uma Trova Potiguar  

Com amor e com carinho, 
repletos de intenções boas, 
a gente faz cada ninho 
no coração das pessoas. 
–Marcos Medeiros/RN– 

Uma Trova Premiada  

2010   -   Nova Friburgo/RJ 
Tema   -   PRAZER   -   M/E 

Em algo simples se encerra 
raro prazer e emoção: 
- O cheiro que emana a terra 
quando a chuva cai no chão. 
Olga Agulhon/PR– 

...E Suas Trovas Ficaram  

Há na vida muita gente, 
que segue, qual peregrino, 
suportando heroicamente 
as pedradas do destino. 
–Carolina A. de Castro/PE– 

U m a P o e s i a  

O que mais me admira 
é ver um sapo inocente 
que gosta de lama fria 
mas detesta a terra quente; 
vendo da cobra o pescoço, 
pinota dentro do poço 
pra se livrar da serpente. 
–João Paraibano/PB– 

Soneto do Dia  

RESSURGIMENTO. 
–Divenei Boseli/SP– 

Quando voltares - mesmo de repente -
não te farei cobranças. Meus dois braços 
transformarei em dois singelos laços 
para envolver-te doce e ternamente.

Se eu vir em ti as marcas de fracassos 
desviarei o olhar, discretamente… 
Discretamente, se me vens contente,
não pedirei relato dos teus passos…

Ressurgirei das cinzas negras, frias 
que me cobriram por milhões de dias 
enquanto andavas por jardins (ou lodos…)

E mais que o antigo amor, o amor de agora 
me levará enquanto tarda a aurora, 
por sobre as nuvens, entre os astros todos!

Jornais e Revistas do Brasil (Breviário: revista de arte)


Período disponível: 1900 a 1900 
Local: Curitiba, PR 

Fundado e dirigido por Romário Martins e Alfredo Coelho, Breviario foi um periódico mensal de arte e cultura, com ênfase em literatura simbolista. Lançado em Curitiba (PR) em agosto de 1900, com o subtítulo “Revista de arte”, tinha Aluízio França como gerente e redação no nº 13 da rua Borges de Macedo. Era impresso pela Typographia Impressora Paranaense, em formato pequeno.

Julgando-se apenas pelos seus números 1 e 2, respectivamente de agosto e setembro de 1900, cada edição de Breviario girava em torno da obra de duas importantes figuras do Simbolismo paranaense, com versos, prosa, excertos de obras, ensaios, homenagens e perfis dos literatos, entre outras coisas. Na primeira edição, publicaram-se Emiliano Pernetta e Emílio de Menezes; na segunda, Nestor de Castro e Sebastião Paraná.

Além de textos de Romário Martins, Adolfo Coelho e dos quatro intelectuais homenageados nas duas edições iniciais, Breviario publicou ainda “Emancipação da mulher”, de Marianna Coelho; “D. João d’Amor” e “Do paiz dos Lyrios”, de Domingos Nascimento; “Prece” e “Turris Eburnea”, de Silveira Netto; “Supliciado” e “Fallando”, de Euclides Bandeira; “Livro de Job”, de Júlio Pernetta; e “Deslumbramento” e “Magnos olhos”, de Ricardo de Lemos.

Apesar de não ser propriamente uma revista aguerrida, na penúltima página do segundo número, Breviario felicitava o lançamento de dois periódicos combativos: Epistola, de Júlio Pernetta, e Tartufos, de Ismael Martins, ambos voltados para a questão anticlerical.

Na edição de lançamento, Breviario informava que só aceitava textos de seus próprios colaboradores, convidados especialmente, e que cada edição traria “finas photogravuras”. Informava também que “não tem numero determinado de paginas, que não serão, entretanto, inferiores a 20” (a primeira edição vinha com 25 páginas e a segunda, 18). Exemplares avulsos podiam ser comprados a 1$000 e assinaturas semestrais podiam ser feitas a 5$000.

É provável que esta publicação tenha tido somente essas duas edições. O periódico fundiu-se logo depois, em novembro de 1900, com a revista cultural Pallium, para o nascimento de outro periódico de arte, Turris Eburnea. A nova publicação era responsabilidade da chamada “Ordem da Turris Eburnea”, formada por intelectuais engajados na libertação do espírito do século XIX no homem.

Fonte:
http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/breviário-revista-de-arte

Geraldo Majela Bernardino Silva (Funções da Mensagem Literária) Parte 3


2. FUNÇÃO EMOTIVA, EXPRESSIVA ou DE EXPRESSÃO DO EU: 

A palavra como “exteriorização”.

Se o propósito do emissor é revelar, por  meio da linguagem verbal, aquilo que sente relativamente a um objeto, a uma pessoa ou situação, as palavras funcionarão como instrumentos de “exteriorização” desses sentimentos, dessa emoção.

É a exteriorização das emoções e atitudes interiores de quem fala, sem se preocupar com as reações do ouvinte. É a afirmação do seu “eu”. O importante não é o conteúdo da mensagem, mas a sua carga emocional. Centrada no emissor, informa o que ele sente, muitas vezes com o auxílio das interjeições, das exclamações, gritos de medo, de dor, raiva, alegria (funções instintivas fundamentais), ou mesmo insultos e palavrões. O mais comum, porém, é carregar-se o enunciado lingüístico dessa função através da entonação e dos diminutivos afetivos. Funciona também como informação suplementar pois adiciona à função referencial um sentimento íntimo.

Imagine, por exemplo, que você diga, ao receber a notícia de que um colega foi aprovado em um concurso:

“Pôxa, que legal! Ele bem que merecia!”

Você usou a linguagem (oral, no caso) para expressar, para exteriorizar sua satisfação com o sucesso do colega.

Leia agora este pequeno poema:

Madrigal tão engraçadinho - (BANDEIRA, Manuel.)
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu já vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.

Também aqui é fácil perceber que as palavras se empregaram como “exteriorização” de uma emoção, de um sentimento: a ternura do emissor por uma pessoa.

As letras de música são, muitas vezes, a “exteriorização” da emoção do emissor. Veja um exemplo:

“O que será que me dá
  que bole por dentro, será que me dá
  que brota à flor da pele, será que me dá
  e que me sobe às faces e me faz corar
  e que me salta aos olhos a me atraiçoar
  e que me aperta o peito e me faz confessar
  o que não tem mais jeito de dissimular”
  ...................................................................
 ( HOLLANDA, Chico Buarque - “À flor da pele”).

Alguns linguistas denominam essa função da linguagem de “expressiva” (ou emotiva) e, do que comentamos e observamos nos exemplos, podemos concluir que:

a função da linguagem será EXPRESSIVA, quando as palavras forem utilizadas como EXTERIORIZAÇÃO da emoção do EMISSOR relativamente a uma realidade.

Observando certos recursos lingüísticos utilizados pelo emissor, podemos, como recebedores, determinar a função expressiva na mensagem enunciada. Esses recursos são os seguintes:

= na língua oral:       - a entonação no enunciado da frase (de exclamação, tristeza, surpresa, etc.)
                              - o uso de expressões de gíria e da linguagem popular,
                              - o uso da linguagem figurada;
= na língua escrita:  - a pontuação;
                             - a seleção vocabular, ou seja, a escolha mais cuidadosa de palavras que
                                expressem o tipo de emoção que se pretende comunicar,
                             - o uso do verbo na 1a  pessoa do singular.

Continua...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade (Amar)


Érico Veríssimo (Uma entrevista, 2 anos antes de sua morte)


Pintura de Tânia Hanauer
*Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal Opinião (SP), de 05/02/1973, com o título: Sou contra a censura, e republicada em VERÍSSIMO, Érico. A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política. São Paulo: Globo, 1999, de onde foi extraída. 

 Porto Alegre, Érico Veríssimo falando ao Opinião:

"Quero começar com um elogio (...). Agora vem a reclamação. Quase todas as perguntas que vocês me fazem na realidade exigem como resposta um longo ensaio. Ora, não sou ensaísta. Um romancista é antes de mais nada um intuitivo. Quando ele se aventura a analisar seus próprios livros, a fazer a sua exegese, mete os pés pela mãos. Se há uma coisa que não me preocupa nem me ocupa agora é a interpretação dos livros que já escrevi e publiquei. Dados esses esclarecimentos, vamos às respostas".

- A História é a matéria básica da sua ficção em pelo menos dois livros seus: O tempo e o vento e Incidente em Antares. Qual a importância da realidade histórica para a sua literatura? 

Ninguém pode fugir à História... e lá se foi o primeiro lugar-comum. Clara ou oculta, essa "senhora", está presente em todos os meus romances. Sempre considerei importante. Não só ela mas também esse cavalheiro, mais misterioso ainda, sem o qual ela não poderia existir: o Tempo. Como é possível desenvolver, fazer viver um personagem, um grupo social, fora do tempo e da História? Como se poderia contar uma fábula num vácuo temporal e espacial? Claro, com artifícios de linguagem, com refinamento de técnica, é possível dar ao leitor a impressão de que o romance não tem quando nem onde. Acho que qualquer autor tem o direito de escrever o que entende, o que sabe, esquivando-se do que lhe pode confundir o espírito. O importante é que o livro seja bom. É preciso não esquecer que a História não é sinônimo perfeito de Política ou que a política não pode ou deve ser sempre partidária. No meu caso particular, tenho sido naturalmente levado em minhas ficções para problemas políticos que vivi, em geral, como espectador. Graças aos meios de comunicação modernos, hoje em dia os acontecimentos nos chegam de todos os quadrantes do mundo com mais rapidez e força.

- No Prefácio de O reino deste mundo, Alejo Carpentier postula para o romancista latino-americano a necessidade de incorporar à sua ficção a "realidade mágica". O senhor o faz, em certa medida, em Incidente em Antares. Acha que esse também é um caminho para a nossa ficção?

Conheci Alejo Carpentier em 1954, quando ele estava exilado na Venezuela por causa da ditadura do sargento Batista. É um grande romancista (Alejo, não Batista). Concordo com ele quanto à fatalidade, digamos assim, que nos impeliu para o "realismo mágico". Note-se que o adjetivo "mágico" aqui significa também "absurdo". Nossa América Latina é um território de prodígios, de maravilhas e misérias, de sustos e êxtases. Nela tudo pode acontecer. Seu tamanho, suas selvas e cordilheiras, sua gente sofrida e estranha, sua História nos induzem a uma realidade que pouco tem a ver com o "normal" cotidiano. Principalmente a América espanhola. Todos os "impossíveis" que nos narra o incomparável Gabriel Garcia Márquez em "Cem anos de solidão" tornam-se uma realidade que o leitor aceita. Não creio que tenha feito propriamente "realismo mágico" em "Incidente em Antares". O realismo mágico verdadeiro é o desses romancistas hispano-americanos (Cortázar, Carpentier, Borges...e quantos outros mais?). É todo um clima que pervaga o romance ou o conto do princípio ao fim. Se acredito que esse "realismo mágico" pode ser um caminho para a nossa ficção? Ora, todos os caminhos nos estão aberto. É muito perigoso traçar roteiros definitivos para qualquer literatura. Pensemos, por exemplo, no Rio Grande do Sul, na nossa paisagem verde e desafogada, na nossa população de origem européia, na nossa pobreza folclórica, na nossa quase ausência de "mistério à flor da terra" e havemos de concluir que o realismo mágico aqui seria algo postiço. Mas está claro que temos muitos assuntos ainda inexplorados no nosso Estado. Josué Guimarães acaba de atirar-se corajosamente a um deles em "A ferro e fogo", primeira parte de uma trilogia sobre a colonização alemã no R.G. do Sul, e da qual nos deu recentemente o primeiro volume: "Tempo de solidão". Recorrendo aos que me leem, esse romance é feito com grande economia verbal, eu diria mesmo escrito em preto e branco, Josué Guimarães consegue nele criar uma atmosfera, o que me parece das coisas mais difíceis em ficção.

- De Clarissa a Incidente em Antares haverá, certamente, uma evolução na sua literatura. Quais as linhas-mestras dessa evolução?

Eu lhe pediria que eliminasse, de saída, a expressão linhas-mestras, que me assusta um pouco e pode me embrulhar o espírito. Usando de uma simplificação que os psicólogos não aprovam, direi que tenho dentro de mim um poeta, um romântico em turras permanentes com um realista dotado de veia satírica. Em Clarissa predominou o poeta, ou se preferirem, o pintor aquarelista. Logo depois o satirista chutou o poeta e escreveu Caminhos cruzados. A seguir, ambos se uniram e produziram Um lugar ao Sol. Pode-se passar a vida escrevendo novelinhas-poemas como Clarissa se fecharmos os olhos a certos aspectos sórdidos e negativos da vida. Gosto muito do ditado anglo-saxão segundo o qual " é preciso um pouco de tudo para fazer-se um mundo". É preciso saber que as condições econômicas de minha vida pessoal, particular, influenciaram muito os romances que escrevi entre 1933 e 1940. Observe-se como meus personagens dos livros dessa época preocupavam-se com as contas a pagar no fim do mês. Eu trabalhava longa e duramente durante mais de 12 horas por dia. Traduzia livros de várias línguas para o português (mais de 40), inventava histórias para programas de rádio para a infância, armava páginas femininas para o Correio do Povo, tudo isso enquanto trabalhava na revista e na editora da Livraria do Globo. Isso explica a pressa com que escrevi meus próprios romances naquela década de 30. Considero essa fase de minha carreira um período de exercícios em que me preparei, consciente ou inconscientemente, para a obra com que comecei a sonhar depois de 1935 e que acabou sendo publicada a partir de 1949 sob o título geral de O tempo e o vento. Depois de Olhai os lírios do campo, romance cheio de defeitos, mas com grande carga emocional, comecei a ganhar royalties que melhoraram minha situação econômica. Pude trabalhar mais devagar e tive mais tempo para ler... e para me ver e julgar.

- Na publicidade de Incidente em Antares usou-se a frase: "Num país totalitário este livro seria proibido". O senhor submeteria um livro seu à censura? Por que?

Já disse muitas vezes que jamais submeterei um livro meu à censura prévia. Acho isso degradante, além de absurdo. Se André Gide, que leu a grande obra de Marcel Proust ainda em originais, não recomendou a sua publicação à editora Gallimard, que esperança podemos ter num comité de críticos literários improvisados e composto de membros da polícia federal ou de qualquer outra polícia, ou mesmo da Academia Brasileira de Letras. Repito que sou contra a censura, mas devo qualificar essa minha posição. Só merece liberdade quem tem consciência de sua responsabilidade profissional.

- Ao escrever Incidente em Antares o senhor se apoiou, naturalmente, numa certa interpretação histórica da realidade brasileira contemporânea. A seu ver, quais os fatos decisivo que conduziram ao movimento militar de 1964?

A revolução de 1964 de certo modo começou nos tempos em que se tentou impedir que Juscelino Kubitschek, legalmente eleito, tomasse posse. Atingiu um momento de alta periculosidade quando Jânio Quadros renunciou. Desse momento em diante, os dados estavami irremediavelmente lançados: o resto era questão de oportunidade, e essa oportunidade foi fornecida pela inabiidade de políticos da situação como, por exemplo, Leonel Brizola, que dizia muitas coisas certas, mas com a entonação errada e de maneira estabanada e inoportuna. Os políticos profissionais têm - não esqueçam - sua grande dose de culpa em todo esse processo que levou à revolução de 1964 e que começou pouco antes da proclamação da Repúbica. Nos anos que se seguiram, o Exército foi tantas vezes chamado a intervir nas revoluções tramadas pelo políticos (que mandavam soldados para a caserna mal conquistavam o poder) que, como era de se esperar, um dia arraigou-se a idéia na cabeça dos militares.

- Vargas é personagem de Incidente em Antares. A seu ver, o varguismo como ideologia e estilo político está completamente morto?

O varguismo está em "artigo de morte", como diria Manuel Bernardes. (Não confundir com o Presidente Arthur Bernardes). Isso não quer dizer que a imagem de Getúlio esteja apagada de todas as mentes. Mas não creio nem desejo que o varguismo como estilo político volte a vigorar entre nós. Digo isso sem rancor, pois gostava pessoalmente do homem Getúlio, embora reconhecendo os erros que cometeu. Acho que foi dos personagens mais dramáticos da Hsitória do Brasil em todos os tempos. Sinto ainda uma ponta de tristeza quando o imagino (como fazia Dona Quita Campolargo, em Incidente em Antares) em sua última noite de solidão e abandono no Palácio do Catete.

- A última cena de Incidente em Antares é um estudante que vai escrever a palavra "liberdade" num muro e é baleado pela polícia. De que maneira o senhor encara as restrições atuais à participação política da classe estudantil?

Pensei que essa cena tivesse deixado bem claro o meu pensamento a respeito do assunto. Sou favorável à participação, não só da classe estudantil, como também de todas as outras classes do Brasil na nossa vida política, através do sufrágio universal e da possibilidade de candidatar-se a um cargo público. Nunca fui partidário do terrorismo, que não leva a nada de construtivo, mas por outro lado, sempre repudiei a tortura cmo método (ou como esporte) e sou positivamente contrário à condenação de quem quer que seja por "delitos de opinião". Ninguém é criminoso por ter idéias... a não ser que se trate de idéias que levem deliberadamente ao niilismo, ao crime, ao caos.

- O seu estilo sempre foi dos mais despojados da literatura brasileira, aproximando-se bastante do jornalístico. O senhor considera isso uma fórmula peculiar sua ou uma normativa a ser seguida por todos os escritores que buscam maior comunicação com o público?

É a minha maneira de ser. Mas acho que cada escritor deve ser o que é, escrever como entende, usar mais ou menos adjetivos, frases mais curtas ou mais longas. Acredito também que às vezes é o assunto de um livro que dita o seu estilo. Comunicar-se a gente com o público é muito importante. Há em literatura duas coisas igualmente perniciosas e nem sei qual a pior. Uma é tornar-se vulgar, chulo, chão, sensacionalista para conquistar um público mais vasto. A outra é fazer-se hermético para ser entendido somente pelas elites, pelos eleitos. Mas repito que os escritores são como são. Cada qual deve ser dono de seu nariz: errar ou acertar por conta própria.

- Um balanço da cultura brasileira em 1972 demonstra que esse não é um momento particularmente criador, seja na música popular, no cinema, no teatro e na ficção, terrenos em que nos mostrávamos férteis há dez anos. A seu ver, a que se deve essa inibição generalizada?

Não sei com certeza se em matéria de criatividade estamos atravessando um período pobre na música popular, no cinema, no teatro e na ficção. Mas o que posso dizer claramente é que a censura não ajuda em nada o criador, e que a pior censura é aquela que acaba infiltrando-se aos poucos nas nossas cabeças, como um cavalo, ou melhor, um burro de Tróia. A criação é um ato de amor e de liberdade. Houve na História, eu sei, escravos que produziram obras de arte, mas isso não quer dizer que se possa trabalhar num ambiente de "não pode", "é proibido", "dá cadeia". Olhem para os países que têm censura e me digam o que aconteceu à sua arte e à sua literatura. Vejam o que se está fazendo na Rússia com Soljenitzyn e outros escritores. É uma indignidade. E quem faz isso são os homens que cresceram, tornaram-se adultos durante os regime stalinista de terror e obscurantismo, isto é, gente que nunca conheceu a liberdade de pensar e de criar. E a extrema direita é tão má quanto a extrema esquerda. Sim, vocês têm razão, a inibição que perturba nossos artistas plásticos e nossos escritores, compositores, pensadores, jornalistas é causada pelo clima criado pela censura. Pessoalmente não fui ainda censurado, mas isso não me faz feliz, pois não quero, como meia dúzia de outros escritores, ser exceção num país de quase cem milhões de habitantes.

- Mais ou menos a partir de 1968 vivemos em clima de euforia, "em ritmo de Brasil grande", na fórmula oficial. A seu ver, se justifica esse clima de otimismo?

Acho que se justifica. Nesses últimos anos, o Brasil tem crescido e em alguns setores as melhoras são visíveis a olho nu. Está claro que só temos estatísticas oficiais e nunca sabemos ao certo do que se passa nos bastidores da política. Não posso negar a Transamazônica, a melhor qualidade dos serviços postais e muitos outros empreendimentos. O que eu acho é que tudo isso se poderia fazer num regime democrático, dentro da velha Constituição, contanto que ela fosse realmente cumprida a rigor.

- O primeiro livro da trilogia O tempo e o vento descreve a incorporação do índio à civilização luso-brasileira. A seu ver, através de que formas se deu essa integração?

Não sei. Desculpe-me. Não sei. Façam essa pergunta a um especialista.

- O gaúcho valente e altivo parece historicamente desaparecido há muito tempo, embora o rio-grandense de hoje tenha herdado alguma coisa dele. Quais os traços dominantes na psicologia e no comportamento do rio-grandense médio em 1972?

O gaúcho altivo, valente, varonil, nobre, bom amigo, generoso é um arquétipo. Hoje em dia alguns (ou muitos?) rio-grandenses procuram viver de acordo com essa imagem idealizada. Ouço de turistas que o gaúcho é hospitaleiro, simpático, serviçal. Os Centros de Tradições Gaúchas deviam procurar estimular essas qualidades, dando menos atenção ao aspecto da indumentária gauchesca. A mistura de sangue é muito grande entre o nosso povo. O contingente de sangue italiano e alemão é considerável nos habitantes deste Estado. A incidência do tipo humano de pele e cabelo claros é grande entre nós. E não preciso dizer que nossa maneira de falar é inconfundível: quadrada, escandida, meio seca. Linguagem de carnívoro.

- O Rio Grande do Sul sempre foi um dos Estados mais politizados do Brasil. A que se deve isso?

Nunca tinha pensado nisso. Talvez essa politização se deva a nossa condição de fronteira (influências do Prata) e ao fato de termos sido durante mais de um século o campo de batalha do Brasil. Ocorre-me que temos sido um viveiro de líderes políticos. (nem todos bons) A figura de Castilhos, sobre quem Sérgio da Costa Franco escreveu um magnífico ensaio biográfico, é ímpar. Borges de Medeiros foi a encarnação da política positivista. Castilhos foi pai espiritual de Borges, e Borges pai de Getúlio, de Flores da Cunha, de Oswaldo Aranha e João Neves da Fontoura. Não esqueçamos o vulto interessantíssimo de Pinheiro Machado. E o de Luiz Carlos Prestes. É, parece que vocês têm razão. O Rio Grande é (ou era) um Estado altamente politizado.

- Esta politização está aumentando ou diminuindo?

Creio que está diminuindo.

- Qual a grande epopeia do Brasil atual (o acontecimento grandioso, significativo e de projeção para o futuro)?

Faça esta pergunta ao meu filho daqui a trinta anos. Minha tendência no momento é dizer que o grande herói desta hora é o povo, o homem comum, que, se continua vivo, é de teimoso. 

Fonte:
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Stella Carr (Segredo de Cientista)


Lino vinha todo dia espiar pra ver se crescia de novo o rabo do bicho que ele tinha prendido na porta, sem querer. 

Então descobriu: lagartixa bota ovo! Encontrou no racho do muro, onde o animalzinho fora se esconder fugindo dele, os ovos moles e esbranquiçados. Pegou, curioso, um pouco enojado. 
Depois esmagou um a um contra a parede pra ver o que tinha dentro.

Daí começou a reparar nos bichos pequenos. Desenterrava minhocas. Prendia moscas no copo e ficava olhando.

– Não põe porcaria no copo onde se bebe – a mãe bronqueava.

Então descobriu as formigas. Com um pau, cutucava o formigueiro.

Um dia entrou em casa gritando, os insetinhos subindo pelas pernas. A avó botou um ungüento (remédio de gente velha, que ela guardava em potes na gaveta da mesa de cabeceira). Então Lino aprendeu a abrir o formigueiro com cuidado, sem pisar em cima. Tirava os ovos brancos de dentro, olhava, examinava.

– É curiosidade científica dele! – o pai dizia. E deu-lhe uma lente.

Contava pra todo mundo que o filho ia ser cientista.

A mãe, barriga imensa, vivia carregando o tricô pela casa. Ela e a avó estavam sempre ocupadas, entretidas com as receitas de mais uma roupinha. Agora, com a lente, Lino passava os dias observando lagartas e caracóis; aprisionava grilos e borboletas, abria casulos.

Mas foi depois que descobriu os ovos de aranha que o jeito do menino mudou.

Dos ovos da aranha tinham saído vivas dezenas de minúsculas aranhinhas, que se espalharam correndo por todo lado. Então ele quebrou todos os ovos da geladeira, pra ver se tinha bicho vivo dentro. Dessa vez levou bronca, que isso já era demais. Tinha virado mania. Ficou triste, emburrado, não falou mais com a mãe, nem com a avó. E olhava pra mãe desconfiado...

"Onde será que ela guarda?" – pensava. E toca a procurar. Mexia em tudo, abria os armários, olhava debaixo das roupas, nas gavetas.

– Não mexe aí, menino. São meus guardados. Que mania! – a avó reclamava.

Nas coisas da avó, não estavam. Olhou no cesto de lãs, na caixa de agulhas... Quem sabe estavam nos potes de remédio? Se ao menos ele soubesse como eles eram...

Começou a curiosidade pelos livros nas estantes. Olhava as figuras, tinha livros com mapas, índios, um montão de números. Pior: tinha livros sem figuras.

Subiu numa cadeira para alcançar mais em cima. Um dia Lino achou o que queria: a figura mostrava um feto pequenino, todo encolhidinho dentro da barriga de uma mulher, como as formiguinhas dos ovos brancos. Só que era avermelhado.

"Então são assim os ovos da mãe? E se eu encontrasse e quebrasse todos?" Voltou a procurar adoidado.

Foi quando a mãe disse que ia para a maternidade.

– Só por uns dias, pra buscar seu irmãozinho.

E a vovó foi junto.

"Então os ovos... Aquele barrigão... Foi por isso que não achei em casa!"

Lino estava triste, confuso. Sentia falta da mamãe e da vovó, e tinha uma coisa ruim dentro dele, que apertava.

À noite o pai chegou e quis saber por que ele tinha chorado. ("Como é que o pai sabia?")

– Menino de quatro anos não chora assim à toa. Ainda mais quando vai ser cientista! – o pai falou: – Ainda mais agora, que vem um irmãozinho pra brincar com ele.

Então Lino achou que devia contar pro pai. Só ele podia ajudar! Lembrou dos ovos de aranha, com todas aquelas aranhinhas saindo de dentro, de uma só vez. E contou pro pai. Falou tudo.

Naquela noite, Lino e o pai tiveram uma longa conversa, de "homem para homem". 

Fontes:
Revista Nova Escola
Imagem = http://www.eb1-monte-caparica-n2.rcts.pt/prog1per.htm