Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Dyonelio Machado (Entrevista:: “Escrevi Os Ratos em 20 noites”)


(Esta entrevista foi organizada a partir do depoimento de Dyonelio Machado a Fernando Paixão e Nelson dos Reis, em 1981, e está publicada na 20º edição nas primeiras páginas do livro “Os Ratos”, da editora Ática.)

Quando o senhor começou a se dedicar à literatura?

Eu já estava na Escola de Medicina quando isso aconteceu. E aconteceu como um relâmpago: Escrevi um livro polêmico (A política contemporânea, publicado em 1923), onde eu metia o pau no governo de então. Mas com base, porque eu nunca fiz nada que não tivesse base. Alguns, inclusive, reconhecem essa qualidade em mim. Eu tiro do ar a poesia, a imaginação, mas tudo tem base real, e isso eu creio muito importante em termos de literatura.

E como nasceu “Os ratos”, seu livro mais famoso?

A história se passa em um dia. Eu o escrevi em vinte noites - num dezembro, durante um verão maravilhoso -, após terminar meu trabalho como médico. O que eu escrevia de noite ia passando para a minha mulher ler. Todo o livro estava muito claro pra mim, porque eu havia passado nove anos pensando nesse livrinho. Então eu saía para atender os doentes, no hospício onde eu era médico e nos dois hospitais onde também trabalhava, e, após tudo isso, ia pra casa e começava a escrever. Uma mocinha que era empregada da Livraria Globo, a principal de Porto Alegre, me foi indicada pelo Érico Veríssimo para datilografar o trabalho. Num dia, eu levava uma folha manuscrita e pegava uma datilografada, e assim o trabalho ia avançando. Numa dessas vezes ela perguntou: “Escute, doutor, o Naziazeno vai ser feliz?” – O Naziazeno é o personagem central . Eu lhe respondi: “Leia tudo, que você vai ver”. Foi assim que descobri que “Os Ratos” era um romance.

Em 1935, o senhor recebeu o prêmio Machado de Assis, como foi isso?

Quando eu escrevi “Os Ratos”, hesitei em mandar para o concurso da Academia, mas acabei mandando. Eu soube da premiação, quando estava preso, incomunicável, no porão de um navio estacionado no porto de Santos. Apesar disso, teve um sujeito que conseguiu me avisar do prêmio.

O senhor foi político, psiquiatra, escritor: em quais destes papéis mais se realizou?

Eu não me considero realizado em nada.

Qual dos seus livros lhe agrada mais?

Primeiramente, eu vou para qualquer um dos meus livros negaceando – vocês conhecem esse termo gaúcho? Eu vou perguntando: “Será que eu leio?”. Aí, eu vou lendo, lendo, e no final digo para a pobre da minha esposa: “Olha, esse livro é bom!”. E ela agüenta essa minha opinião sobre meu livro! Agora veja bem: Pra mim, ou tudo presta ou tudo não presta. É muito melhor que o leitor faça a escolha.

E a crítica, como o senhor a vê?

A crítica entende como quer. Não há crítica boa ou má. A crítica é um momento às vezes do próprio ledor, outras vezes do que está vigorando como escola, etc. A crítica é tremendamente subjetiva. Veja só: Camões fez aquela coisa maravilhosa que é “Os Lusíadas”, e depois vieram uns alunos de Coimbra e fizeram modificações, fizeram alterações sem sentido. De modo que a crítica pra mim só tem um valor: polemizar. Mas a crítica é boa quando aponta coisas.

Até 1970, o senhor era pouco conhecido no Brasil todo. Mas, a partir daí, todo mundo tomou conhecimento de Dyonelio Machado. Como o senhor vê isso?

Eu temo que essa coisa fique muito grande e depois caia. Isso tem que vir devagar, às colheradas. Um cidadão, que havia ido a um sebo comprar um livro antigo, certa vez me perguntou: “Mas por que os seus livros estão sendo procurados?”. Eu respondi: “Foi porque eu morri.” Então ele me disse: “Ah, deixe disso!”. Eu retornei: “Foi morte, sim,porque somente depois de morto o escritor foi reconhecido”. Há várias mortes, e me pegaram para uma delas.

E essa morte é boa?

Não há morte boa. Mas veja, eu falo de coisas simbólicas. Existem muitas coisas estranhas que têm o valor de coisas reais. Toda a vida se fez assim, não é? Eu acho que todos nós somos simbolistas: nós não somos nós, somos uma imagem de nós. Toda poesia é fundamental, mesmo na prosa mais prosaica.

Fonte:
Escritores do Sul – www.escritoresdosul.com.br
(este site está desativado)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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