Marcadores

Marcadores

Mostrando postagens com marcador Panaceia de Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Panaceia de Textos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de março de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 153


A imagem é caseira, embora não seja aqui em casa.  Acordo, levanto, vou à sacada e enxergo o portão de entrada, cadeiras, alguém sentado, o cãozinho companheiro. Vozes da cozinha. Diálogo dos vizinhos.   

Lá dentro é só vida morta - a sala, a TV, quadros, tapetes. Não animam, pouco seduzem, nada de curiosidades. As paredes não falam, o teto é um ausente, os ventares passam ligeiro, ventando em busca da  liberdade ventaneira. 

Ergo o olhar. Uma tela. A porta dos fundos. Pequeno mundo?  Bons caminhos? Não se sabe... Mas talvez... A vida tem tantos lugares que parecem ser o encontro da esperança - bom viver, densas horas, sortilégios benfazejos.

Além daquela porta regurgitam os verdes, as árvores, a horta, os frutos, o sol, cantam os pássaros. Céus, lonjuras, infinitos. Pensares livres, olhos altaneiros, a visão distante. 

Vida plena. Além daquela porta.  
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing  

Renato Benvindo Frata (Vade retro!)


Se tristeza é uma charada
que atrasa o tempo da gente,
a vida é longa piada
que manda adiante o presente.

Sexta à tarde, estressado, pensei: "quando voltar, estarão à minha espera aqueles a quem detesto. Maldita Solidão, maldito Tédio." Nesse tempo de recolhimento forçado não é fácil me amoitar no fim de semana com a presença desses indesejáveis.

Tudo vira "um saco"!

Pois tiro e queda! Lá estavam.

Só que exageraram: trouxeram outra personagem: a Ansiedade. E, indisciplinados, esbarraram na minha sombra, me angustiando mais.

"Sexta, com o corpo pedindo banho morno e sossego, obrigar-me a fazer sala a esses doidos, é dose pra leão... Preciso de luz!", pensei.

Não existe coisa pior num fim de semana gasto com visita inconveniente. Então, para me distrair, abri uma garrafa de Merlot e, ao tirar a rolha e sentir o espraiar do aroma especial do vinho, notei que os visitantes se encolheram, olhando-me assustados, o que me levou ao raciocínio de que talvez estivesse ali a solução: "se Solidão, Tédio e Ansiedade se constrangem diante do Merlot, irei usá-lo como antídoto aos seus venenos, claro!"

E, sem muito esperar, enchi logo uma taça bojuda, alta, transparente, dessas que fazem tintim logo na primeira pegada e mandei o conteúdo pro peito em goles grandes, sedentos. O resultado - que esperava - foi a leva de palavrões que as visitas, ao se sentirem afrontadas, por certo proferiram.

Tá bem que somente eu escutei, mas, enquanto reclamavam, servi-me rapidamente da segunda taça e, aproveitando a oportunidade, mandei-a para dentro com uns salgadinhos de queijo, salame, azeitona e petiscos que se leva para casa numa sexta-feira. E aí a coisa pegou: eles se rebelaram prometendo nunca mais voltar.

Bem, é evidente que logo vieram a terceira e a quarta taças e, com elas, a segunda garrafa, que logo foi aberta, a comprovar que na sexta à tarde, na friagem desse ingrato inverno, com um sábado e domingo a enfrentar pelo isolamento que a Covid impôs, nosso autocontrole tem que ter um aliado e, com ele, a estratégia Macbeth: "aos amigos, tudo; aos inimigos, o veneno", Pois "Danem-se esses insolentes!".

Ao sorver a quinta taça (não se deve entrar numa guerra com pouca munição), descobri que o Merlot também guarda segredo: traz em si a alegria que, se puxada como laço como fazem os cowboys, põe-nos brilho nos olhos, riso na cara e gargalhada na garganta. E mais; põe-nos alegria no coração. É um fenomenal espantador de tristeza! A quinta taça de Merlot, pela jovialidade que a envolve, se transborda em um mundo de estrelas, solta-nos o riso que se prendeu na semana e flui de maneira desbragada.

Esquece o tudo de ruim, especialmente dessa pandemia dos infernos que leva sem piedade nossos amigos, vizinhos e parentes.

O vinho faz mais: transforma a borda tingida da taça em um escancarado sorriso de felicidade, mesmo que isso se dê apenas na efemeridade do torpor. Por isso mandei ligeirinho pro peito aquela taça e preparei a sexta. E, de taça em taça, ri, gargalhei da cara de desânimo do "Trio Parada Dura" na sua visita de fim de sexta.

Tenho certeza de que eles, Solidão, Tédio e Ansiedade, não esperavam por essa! Merlot neles!
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) O maior perobal do mundo


Para que Maringá pudesse existir foi preciso pedir licença à natureza para roubar dela o que Jorge Ferreira Duque Estrada chamou de “o maior perobal do mundo”.

A grande floresta original era formada por paus-marfins, paus-d’alho, jacaratiás, figueiras, cedros, palmitos e outras espécies. Porém a peroba rosa predominava. Predominou até o começo dos anos 1940, quando aqui chegou um empreiteiro chamado João Tenório Cavalcanti, comandando um exército de 800 machadeiros, com a missão de abrir espaço para a entrada do “progresso”.

O sacrifício da mata fazia parte de um gigantesco projeto de colonização promovido pela Companhia Melhoramentos. Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena.

Mas aqueles 800 machadeiros, também conhecidos como “peões”, precisavam de comida, roupa, remédios etc. Foram chegando então os primeiros comerciantes e prestadores de serviços. Ângelo Planas e Napoleão Moreira da Silva logo se destacaram, visto que, além de abastecer a população pioneira com “secos e molhados”, funcionavam como uma espécie “bancos”.

Na medida em que “o maior perobal do mundo” ia sendo derrubado, iam se instalando nas clareiras os primeiros compradores de sítios. Erguiam ranchos e de pronto começavam a plantar café, feijão, milho e a criar galinhas e porcos.

Ao mesmo tempo iniciava-se a construção da cidade. Primeiro, lá no alto, o povoado do Maringá Velho; depois, na planície, o Maringá Novo.

Foram surgindo também, naturalmente, os primeiros líderes políticos. Planas e Napoleão depressa se caracterizaram como “pais de todos”. Chegavam a intervir até em brigas de casais, como pacificadores. Isso explica por que os nossos primeiros vereadores foram o próprio Napoleão e um irmão de Ângelo, o Arlindo, quando Maringá era ainda distrito de Mandaguari.

Depois foi acontecendo tudo o que vimos acontecer até hoje. No lugar do “maior perobal do mundo”, ergueu-se uma das cidades mais bonitas do planeta.
==================
(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 26-2-26)

Texto enviado pelo autor. 

Aparecido Raimundo de Souza (Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho)


“ESTAR SÓ” é diferente de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só” pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de fantasmas, os mais diversos que atormentam com seus traços remotos e obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só” pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem os latidos cativos do cachorro. 

Nessa hora, o “estar só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a alma. 

Além de pegar pesado, se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se reveste de uma balbúrdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos dê o abrigo procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar revolto se apresenta insólito.   

O “estar só” vem com sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos, que do nada transformam tudo ao redor, numa via de mão incerta, de suspensão, sem escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no final ficará bem e em paz. Do mesmo modo, no “estar sozinho” encontramos algo raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta sem máscaras, e sem pressa de ir embora. 

O vazio de “estar sozinho” pode ser assustador, pedante, mas também pode ser fértil. É nele que germina a coragem de recomeçar. No “estar só” o vazio imensurável não se condensa em apenas o se sentir envolvido ou se quedar num talvez ou na ausência do sem companhia. É como se o mundo inteiro se recolhesse, deixando apenas o retumbar da própria existência. Nesse espaço sem portas abertas do “estar só” e se ver sem fronteiras, cada pensamento se amplia, cada lembrança se torna mais nítida, cada dúvida mais operosa e pesada. O vazio não tem divisória, mas aprisiona. Não tem relógio, mas prolonga o tempo. É um território onde o coração se pergunta se ainda pulsa por alguém ou apenas por si mesmo? 

No “estar sozinho” também há uma estranha beleza, verdade seja dita, nesse silêncio. E nele, percebemos que a solidão não é inimiga, mas espelho. O vazio nos devolve aquilo que tentamos esconder. Por assim dizer, medos, desejos, esperanças... eles de comum acordo nos obrigam a olhar para dentro, mesmo quando preferiríamos fugir de nós mesmos. Talvez seja nesse espaço imensurável que se revela a essência da vida: a consciência de que somos pequenos diante do infinito, mas ainda capazes de preencher o nada com significados. O vazio não é fim, é convite. Convite para escutar o que nunca ousamos dizer em voz alta. 

“Estar só” é dizer tudo, a bem da verdade, gritar a nós mesmos. Há momentos em que “estar só” não é apenas ausência de companhia, mas mergulho num espaço sem medidas. O vazio imensurável não se descreve: ele se sente. É como se o mundo se afastasse, deixando apenas o peso mórbido da própria consciência contida no Universo. Nesse silêncio, cada pensamento se torna um espelho. O que antes era distração vira revelação. O vazio não é apenas falta é presença de tudo aquilo que evitamos encarar. Ele nos devolve a nós mesmos, nos agrega, e o faz sem máscaras, sem ruídos, sem fuga.

No “estar só”, a solidão se torna paradoxal: vira um pássaro de voo incerto, ao mesmo tempo que nos assusta, do mesmo modo nos abre. Nesse abrir, nos revela por inteiro. O vazio nos lembra que somos finitos diante do infinito, mas capazes de dar sentido ao Nada. É nesse espaço suspenso que nasce a pergunta essencial: quem sou eu, quando não há ninguém para me definir? Talvez o estado de “estar só”, o vazio seja menos um abismo e mais um convite. Um convite para escutar o que sempre esteve dentro, mas que só se revela quando o mundo se cala. E, de certa forma, tenta nos emudecer também.

“Estar só” num vazio imensurável é como caminhar por dentro de nós mesmos, sem mapa, sem bússola. O silêncio se torna espesso, quase palpável, e a alma se pergunta se ainda há chão sob os pés. Mas há sempre um chão. Sempre! Para mim, ele tem cheiro de terra molhada. É nele, no “estar só”, que meus medos e receios trabalham entre o sol que castiga e a sombra que consola. Enquanto eles cuidam da vida que brota da Terra, eu me descubro refazendo a vida que jorra, que desponta, que cultiva os meus pensamentos.

O desabitado, de “estar só” num certo momento, deixa de ser apenas ausência. Ele se mistura ao canto dos pássaros, ao vento que atravessa o campo, ao ritmo lento das horas rurais. E nesse contraste, percebo que a solidão não é deserta, mas se faz dócil numa espécie de espaço fértil. O nada pode ser preenchido com raízes, memórias e pertencimentos. Talvez o oco imensurável do “estar só” seja apenas o outro nome do “estar só” Entre tapas e beijos, percebo que ambos buscam por alguma coisa.  É no silêncio do “estar só” que essa busca encontra repouso: entre o trabalho dos meus braços e o meu próprio mergulho interior. 

No “estar só”, ah, no estar só, existe uma ponte invisível que me lembra que não “estou só”. Aliás, resumindo, nunca estarei “totalmente só”. Jamais me verei, “completamente só”. Ambos os tempos mudam de nome, não importa. A toda hora, a todo momento algo novo aparece do nada e me renova o espírito. O “estar só” e o “viver só” me enaltecem, sobremaneira, me engrandecem, me aprimoram, vivificam a minha vida “sempre para melhor, como ser humano”. “Todos os dias, sobre todos os pontos de vista, como dizia Omar Cardoso, eu vou cada vez melhor”.  

Texto enviado pelo autor. 
Imagem: IA Microsoft Bing

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Monsenhor Orivaldo Robles (Menos, por favor!)


Nunca me contagiou o entusiasmo com que pessoas exibem fotos de viagem ou álbum de casamento. Como troféus reunidos para exposição pública. Passeios ou eventos podem ser interessantes para quem lá esteve. Para quem ouve contar, ou tem que ver fotos que não acabam mais, eles se tornam, quase sempre, um aperreio. Mais de uma vez me questionei se pensar assim não seria azedume ou deselegância de minha parte. Vai ver, todo o mundo aprecia. Eu é que sou diferente do resto dos mortais, o único do contra. A infância pobre da roça deixou-me um tanto arredio a práticas com que não fui acostumado.

Por isso, me confortou a leitura de um conselho, que julguei de muita sabedoria: “Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só para quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve”. Mais preparada que eu, a autora responde pelo nome de Ivone Boechat. Expõe no currículo títulos de mestre em Educação, pedagoga, conferencista e escritora. Estou, portanto, em apreciável companhia. Generalizar é injusto, mas para certas pessoas mostrar fotos não seria uma afirmação de superioridade? De deixar bem claro: eu sou superior, porque estive neste lugar maravilhoso?

Desde o berço, através do choro, sentimos necessidade de marcar nossa presença. Precisamos mostrar que o mundo gira em volta do nosso umbigo. Há mais de cinquenta anos, antes, portanto, da invenção do celular, foi feita uma pesquisa na central telefônica de Nova Iorque, onde ficavam registradas todas as ligações. O objetivo era saber que palavra os usuários falavam com maior frequência. Ganhou de lavada uma palavrinha de apenas uma letra, em inglês: I (eu). Vale dizer: eu sou mais importante que tudo. Não só lá; no mundo inteiro. Basta conferir. Numa foto de várias pessoas, no meio das quais também estamos, para qual olhamos primeiro? Se vamos falar de um grupo do qual fazemos parte, por quem começamos? Enumeramos assim: eu, fulano, sicrano, beltrano etc. não é? Quem vai à frente? Claro, o mais belo, inteligente e importante de todos, que sou eu. Assim agimos todos, desde que nos conhecemos por gente. Achamos a coisa mais natural do mundo. Estranhamos se alguém faz o contrário.

Importa descobrirmos nossa real identidade. Cinco séculos antes de Cristo, o filósofo Sócrates já prescrevia: “Conhece-te a ti mesmo”. Para isso os mestres da vida cristã aconselham a saudável prática do exame de consciência. Ele nos revela, sem perigo de engano, nossas virtudes e defeitos. Nossas potencialidades e limitações. Quem se conhece não fica aborrecendo os outros com o cansativo relato de sua grandeza, quase sempre ilusória. É extremamente enfadonho conviver com um egocêntrico. O desconfiômetro do infeliz está sempre avariado e nenhuma oficina conserta. Vira e mexe, seu papo cai naquilo que mais adora: deitar louvação de si mesmo. De sua pessoa, de suas conquistas e vantagens, sempre maiores do que tudo o que os outros conseguiram. Quem pode sentir-se bem ao lado de quem se julga sempre superior? Que graça tem saber de antemão que seremos tratados como inferiores?
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 23.06.2012

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nilto Maciel (O perdão)

“– Tu aguenta mesmo um homem?"
 Os anões, Moreira Campos
O anão chorava abraçado ao corpo da anã. Descontrolado, fazia a rede balançar, como se embalasse a morta. 

Uma vizinha entrou no casebre. Por que chorava o anão? Nem sequer olhou para a mulher. Outros vizinhos se aproximaram da porta da casinha. Meninos tentavam sondar o interior da sala e saíam correndo para o mar. 

Amanheceu morta, o coração parado. Pobre Lourdinha! Coitada, deve ter morrido dormindo. Melhor assim; não sofreu para morrer. 

O anão chorava sem parar. Acendessem uma vela. Onde arranjar vela? Uma mulher se esgueirou. Lembrava-se de um toco de vela em cima da mesa. Ia num pé e voltava noutro. Começassem a reza. O bater das ondas na praia cadenciava a reza. Ave-maria, cheia de graça. Trouxeram uma garrafa de cachaça. O anão recusou a bebida. Precisava chorar. Sua pobre Lourdinha havia sofrido muito. Não por causa dele, mas dos outros. Nunca nela bateu e ela estava ali como testemunha. Outros, sim, quiseram usar o corpo dela, tão pequeno, como de menina. Como aquele negro safado, anos atrás. 

Consolavam o anão. Bebesse um tiquinho para se acalmar. Ele voltava à rede, ao corpo da mulher. Ave-maria, cheia de graça. Acenderam o toco de vela. Ia ter caixão? Procurassem o padre na igreja. E se Lourdinha estivesse ainda dormindo? Costumava beber muito de noite? Nunca, nunca bebia. E como tinha sido a história do negro? 

Muitos anos atrás, quando ainda moravam num armazém abandonado, perto do Mercado Central, um homem arrombou uma das portas. Acordaram assustados. Na mão do bandido o relógio de ouro de Lourdinha. E o pior: o deboche, a perguntar se ela aguentava mesmo um homem. Não conseguia esquecer aquilo. Anos e anos passados e ainda assim a figura do negro aparecia diante dele, a resmungar imundícies. 

Depois daquilo, Lourdinha nunca mais foi a mesma, sempre nervosa, com medo de tudo e de todos, chorosa, querendo ir embora para bem longe. Uma casinha na beira da praia. Não rezavam mais, a garrafa de cachaça vazia e o toco da vela apagado. E o padre? 

Tome um golinho, vizinho. Não lhe pronunciavam o nome nem o chamavam de anão. Quem ia arrumar a defunta para o enterro? 

Súbito assomou à porta a figura musculosa de um negro. O anão arregalou os olhos, fez um esgar, rangeu os dentes, retesou-se todo. E correu para junto da rede e do corpo da anã. Os outros se afastaram para os cantos das paredes. O mar rugia feito um monstro em fúria. O visitante juntou as mãos, como se fosse rezar, e disse: vim pedir perdão pelo que fiz e trazer um relógio de ouro para a sua mulher.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

Eduardo Affonso (Assim, do nada)


A teoria da geração espontânea foi abandonada no século 19. Uma pena. Só ela era capaz de explicar certos fenômenos.

Ponha toda a roupa na máquina para lavar. Toda. Esvazie a cesta de roupa suja, cate no chão do banheiro, pegue o que estiver jogado em cima do sofá, da cama, das cadeiras. Passe um pente fino pela casa. Assim que tiver fechado a tampa da máquina e acionado o “Iniciar”, um par de meias brotará de dentro de um pé de sapato.

A comprovação científica da geração espontânea das meias é simples. Instale câmeras sobre todos os pares de sapato e confirme, in loco, que não há meia alguma lá dentro. Dê printe das telas, por garantia. Feche a tampa da máquina, aperte o “Iniciar” e plum!  um par de meias (sujas) surgirá, do nada, num dos sapatos. Ou tênis. Ou crocs. Há registros de ter surgido até dentro de sandálias havaianas – mas só no Paraná, e no inverno.

Lave a louça da pia. A louça que ficou na mesa, depois do almoço. As canecas esquecidas sobre os aparadores. O copo que dorme sobre a mesinha de cabeceira para o caso de você acordar com sede ou de um rivotril só não ter sido suficiente para te fazer pegar no sono. Lavou tudo? Limpou o tampo da pia, deixou tudo brilhando? Um prato (sujo) nascerá, de geração espontânea, em algum lugar da casa. Em cima da máquina de lavar roupa, por exemplo – certamente esquecido no parágrafo anterior, enquanto você se preocupava com as meias.

Como a natureza é sábia, é preciso uma contrapartida para esse surgimento inexorável e irrefreável de meias, cuecas, camisetas, pratos e talheres – todos sujos. É por isso que meias somem (dentro da máquina, de preferência). Que camisetas que você jurava que tinha evaporam das gavetas. E que pratos aparecem trincados, guardadinhos no armário, prontos para ser jogados no lixo. Não, não é culpa da Celeste, que tem mão pesada e costuma ir embora carregando uma sacola de um jeito meio suspeito. É o equilíbrio ecológico, para impedir que o planeta saia da órbita, soterrado por meias usadas e louça suja, geradas espontaneamente.

Problemas, boletos e gente sem noção também surgem do nada. Você dirá que problemas e boletos não são organismos. Ingenuidade sua. Eles têm DNA, ribossomo, mitocôndria, citoplasma. Se reproduzem por partenogênese, por esporulação, brotamento, cissiparidade. (Eu sabia que ainda ia usar esse vocabulário algum dia. Que aquelas milhares de inúteis aulas de Biologia que me roubaram parte da adolescência e do prazer de viver tinham que servir para alguma coisa. Pronto, serviram. Obrigado, d. Sonia.  Obrigado, prof.  Haroldo).

Políticos cuja existência você ignorava brotam na sua página para soltar os cachorros em cima de você a cada postagem sua que blasfeme contra a divindade que eles cultuam.  Outros que você nunca viu mais gordos desabrocham em comentários iracundos – basta que você ouse desmitificar o seu mito. Os mais céticos dirão que são robôs, que são feiques, que há seres supostamente humanos por trás deles. Que gente sem noção não irrompe assim, feito cogumelo em pau podre depois da chuva.

Lamarck, que acreditava que a girafa, de tanto esticar o pescoço para pegar as folhas mais altas, foi ficando pescoçuda e gerando filhotes pescoçudinhos, também devia ser reabilitado. Cesare Lombroso é outro que merecia uma segunda chance.
=======================================
Arquiteto mineiro de Belo Horizonte, 1950. Colunista do jornal O Globo. Coordena a Oficina Literária Eduardo Affonso, voltada para cronistas. Participa do coletivo literário Flique Nenhum livro publicado.

Fonte:
Blog do autor. 11.05.2020

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 152


Nos dias da Idade da Pedra os básicos necessários eram alimentação e alguma ferramenta. A cultura engatinhava. Invenção de necessidades - veio a roda, domínio do fogo, artes rupestres…

O mundo mudou, a vida mudou, nosso "sophós"* mudou, está em constância constante buscando, e por isso acumula. Sem perceber juntamos tanta coisa - cacos, tralhas, miudezas – que temos pena de mandar embora. O tempo urge, um belo dia nos damos conta de que não usamos espaços ou locais para algo realmente útil e necessário.

E a gente lembra Saint-Exupéry: "O essencial é invisível aos olhos". Então entendemos que o material pode ser apenas acessório, e podemos descartar. Praticar desapegos, fazendo o conhecido "5 S”**, só o essencial. Aproveitar sem polarizar.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
* Sophós = é um termo do grego antigo que significa "sábio", "instruído", "esperto" ou "hábil". Na filosofia clássica, representa a pessoa que alcançou a sabedoria, o conhecimento profundo ou a virtude.
** 5 S =uma metodologia japonesa de gestão focada na organização, limpeza e padronização do ambiente para aumentar a produtividade, segurança e eficiência. Criado pela Toyota, baseia-se em cinco sensos (Seiri [desapego], Seiton [ordenação], Seiso [purificação], Seiketsu [harmonia], Shitsuke [autodisciplina]), focados em utilizar apenas o necessário.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com Microsoft Bing, e desenho do autor. por por Jfeldman

Raul Pompéia (Idílio retrospectivo)


Jamais dois entes se amaram tanto.

Um era para o outro, e ambos para o amor; um amor egoísta, feroz, exclusivo, selvagem, adorável, único.

Tanto ardor era um perigo.

As fogueiras imensas correm sempre o risco de morrer depressa.

Mas aquele amor parecia inextinguível como o fogo de Vesta.

Durante o dia, viviam na comunidade do seu afeto, idolatrando-se mutuamente, com toda a energia de adoração que o olhar possui. Durante a noite, a ilusão do sonho prolongava deliciosamente a ventura dos dias...

Depois, separaram-se, por uma fatalidade... Cada um sepultou religiosamente no mais sagrado recôndito de sua alma a relíquia rara e santa daquela paixão...

Veio então essa coisa terrível que se chama o tempo...

Um ano... dois anos... quarenta anos passaram-se sobre aqueles peitos.

E cada ano que passa é uma túnica de pedra que reveste os corações.

Ela passara quarenta anos no Sul, ele os passara no Norte.

Agora encontravam-se os velhos.

Ela começava a ficar corcunda, a multidão dos netinhos comprimia-se-lhe timidamente nos joelhos, pedindo bênção. O formoso rosto de outrora era uma ruína então; sentia-se, a subir, a hora dos anos. Aqueles lábios que mal se viam, tinham saudade dos lábios de quinze anos, que tão lindos sorrisos souberam fazer... Apenas os olhos, macios como a luz da lua, os dois grandes olhos, eram os mesmos ainda.

Parece até que as sobrancelhas de prata os faziam mais belos. Restava essa compensação.

Às ruínas daquele rosto ficara a doce consolação do luar daqueles olhos..

O venerando sexagenário apertou afetuosamente as mãos magras da avó e colo de crianças, tomou as mãos rugosas longamente aos lábios.

Beijava, nas rugas daquelas mãos, a suave recordação dos bons idílios dos vinte anos.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Raul Pompéia (Angra dos Reis/RJ, 1863–1895, Rio de Janeiro/RJ) foi um importante escritor, jornalista e desenhista brasileiro, expoente do Realismo/Naturalismo, conhecido pela obra-prima O Ateneu. Estudou Direito, foi republicano, abolicionista e dirigiu a Biblioteca Nacional. 
Principais Obras: O Ateneu (1888), sua obra mais famosa, uma crônica de saudades autobiográfica, centrada na análise psicológica e crítica de um internato; Uma Tragédia no Amazonas (1880): Romance de estreia; As Joias da Coroa (novela). 
Frequentou o Colégio Abílio (internato no Rio de Janeiro) que serviu de cenário para O Ateneu. Cursou Direito em São Paulo. 
Suas obras caracterizadas pelo impressionismo/ realismo, possui descrições subjetivas, psicológicas e minuciosas, muitas vezes focadas na memória e percepção do narrador. Crítica severa às convenções sociais, abordando a hipocrisia e a corrupção do caráter. Influência naturalista, mostrando o indivíduo moldado pelo meio social (o colégio). Narrativa em primeira pessoa com tons confidenciais e irônicos. Descrições cenográficas intensas, reflexo do talento do autor como desenhista. Suicidou-se no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1895, aos 32 anos.
Fontes:
Publicado originalmente no Jornal do Comércio, seção "Lembranças da Semana", em 1892. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por JFeldman

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Humberto de Campos (O amigo)


O engenheiro Adriano Walsh havia chegado de viagem, e convidara para almoçar em seu palacete, no dia seguinte, o seu opulento amigo Dr. Polidoro Tavares, advogado jovem e competentíssimo que era tratado na família com as maiores considerações.

O almoço, nesse dia, correu delicioso. 

Alta, esguia, elegantíssima com os fartos cabelos de ouro arranjados com encantadora simplicidade, Mme. Walsh mostrara-se, como sempre, deslumbrante de formosura e de espírito. Atordoada pela alegria do marido, os seus olhos, cinzentos e lindos, lembravam duas pérolas grandes e misteriosas, luzindo, magníficas, entre os canteiros de violetas das olheiras. Vestida de linho espumante, o seu vulto emergindo, na mesa, do tumulto dos cristais e da baixela de ouro, era como uma grande rosa branca, em torno da qual fervilhassem, disputando-lhe o pólen, miríades de insetos faiscantes.

Após o almoço, quando o sol já sonhava, cansado, com o leito longínquo das colinas, os dois amigos tomaram o automóvel, e desceram, juntos, para a cidade. 

Na Avenida, saltaram, e caminhavam, palestrando, por uma das ruas transversais, quando diante de uma fabrica de móveis, o engenheiro estacou, preocupado:

- Diacho! - proclamou. - Minha mulher pediu-me para mandar consertar um móvel em casa, e eu não me lembro agora, qual é a peça da mobília?

- Não é o divã da alcova, que está rangendo muito? - atalhou o advogado, insensível.

- É isso! é isso mesmo! É o divã da alcova! - lembrou-se o Dr. Walsh batendo na testa.

E entrou na marcenaria.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Aparecido Raimundo de Souza (E as máscaras dos “carnavais fracassados”?)


HAVIA, OU MELHOR, houve um tempo em que as máscaras do carnaval eram promessas de brilho, de fuga e de reinvenção. Cada rosto escondido atrás de um véu colorido carregava a esperança de ser um outro mais leve, mais livre, mais feliz. Mas nem todo carnaval cumpre a sua promessa. Quem leu “O País do Carnaval”, do baiano Jorge Amado... talvez volte no tempo e se ache no texto que abaixo escrevo. 

Nos “carnavais fracassados”, segundo Paulo Roberto Barros Braga, “as máscaras não escondem, apenas denunciam. O sorriso pintado escorre com a chuva, o brilho se apaga antes da meia-noite, e a fantasia pesa como fardo”. O batuque da bateria soa distante, como se o coração da festa tivesse perdido o compasso.

No dizer de Joãozinho Trinta, “São carnavais em que a multidão dança sem acreditar na própria coreografia, em que os confetes se confundem com a poeira, e os foliões se tornam espectadores de uma alegria que não chega”. As máscaras, outrora cúmplices da ilusão, se tornaram espelhos daquilo que não se quis ver: a solidão no meio da multidão, o vazio pesado por trás da euforia.

No entanto, apesar disso, há uma beleza melancólica nesses carnavais frustrados. O saudoso Luiz Fernando Veríssimo em um brilhante texto publicado no Jornal Zero Hora, assim se expressou: “Porque mesmo quando a festa não acontece, a máscara insiste em existir. Em ser. Ela guarda a memória de um desejo, de uma tentativa, de uma coragem de se reinventar ainda que por instantes. E cá entre nós, consegue”.

Pois bem! Talvez seja isso que nos move: a certeza de que, mesmo nos “carnavais fracassados”, há sempre uma máscara esperando para ser usada de novo, como quem acredita que a próxima dança, o próximo canto, o próximo riso, finalmente vingará.

Nos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, costuma-se falar dos “carnavais como símbolos de alegria coletiva, da explosão cultural que atravessa ruas e avenidas. Mas há também os “carnavais que não vingaram”.  Aqueles que por falta de público, de recursos ou de espírito, se tornaram apenas promessas não cumpridas”.

As máscaras desses “carnavais fracassados” não esconderam as euforias, mas revelaram os desencantos e as tristezas. Eram rostos pintados que caminharam em desfiles esvaziados, fantasias que brilharam sob luzes apagadas, sambas que ecoaram em arquibancadas quase silenciosas. O que deveria ser catarse virou registro melancólico: a festa do povo que não aconteceu.

Do ponto de vista geral, esses episódios revelaram a fragilidade da tradição quando não há sustentação social ou econômica. O carnaval, afinal, é mais do que música e dança: é a infraestrutura, é o investimento, é a mobilização comunitária. Sem isso, as máscaras viram símbolos mortos de uma resistência falecida, mas também se queda inerte no mais puro dos abandonos.

E, no entanto, há uma dimensão reflexiva que merece ser destacada. Os “carnavais fracassados” não foram de todo enterrados, eles ainda hoje, “expõem a distância entre o desejo e a realidade. Entre a realidade e o desejo. Eles nos lembram que a festa não é apenas espetáculo, mas também e sobretudo, um pacto coletivo”. Por ser assim, e dessa forma, quando essa coesão se rompe e esse pacto se eclode, restam as máscaras como testemunhas não da alegria, mas da tentativa.

Talvez seja justamente nessa destruição fracassada que se encontre uma verdade nojenta e incômoda: o carnaval não é garantido, é uma conquista. E cada máscara guardada em gavetas ou esquecida em depósitos carrega dentro de si a memória fortificada de um esforço que não se cumpriu, mas que insiste em permanecer de maneira abrupta como lembrança de que, mesmo na derrota, ou mesmo mesmo no infortúnio não esperado, houve uma vontade férrea e promissora, uma aspiração quase sobre-humana de vivenciar uma celebração literalmente fermentada.

Quando pensamos em carnaval, obviamente a imagem que vem à mente é a da multidão vibrante, antenada, estridente e das escolas de samba disputando cada nota, dos blocos arrastando foliões pelas ruas, praças e avenidas. Mas a história brasileira também guarda episódios de carnavais que não vingaram, ou seja, de festas interrompidas, de desfiles esvaziados, de celebrações que se perderam entre crises políticas, econômicas ou sanitárias.

Um exemplo marcante, apenas para relembrar, sem dúvida alguma o Carnaval de 1919 no Rio de Janeiro, que deveria ser o primeiro após a devastadora gripe espanhola. A cidade inteira, conforme escreveu Nelson Rodrigues, “ainda estava de luto, e muitos blocos não desfilaram. O que se viu foi uma festa fria, tímida, pacata e vazia, marcada mais pela tentativa de retomar à vida ao normal do que pela explosão vivificante da alegria”.

Outro caso foi o trazido à baila por Manuel Bastos Tigre (em O Pierrot), num texto onde ficou claro que o “Carnaval de 1940 em São Paulo, quando a Segunda Guerra Mundial trouxe restrições severas”. Alguém se lembra? “Houve corte de recursos, censura e até proibição de músicas consideradas ‘subversivas’. As máscaras, nesse contexto, não escondiam a alegria, mas refletiam a repulsa, a tensão, a ansiedade e o medo mórbido de um país em guerra”.

Mais recentemente, o Carnaval de 2021 descrito por Yaggo Arruda “entrou para a história como o carnaval que não aconteceu”. A pandemia de Covid-19 suspendeu desfiles, retirou das principais ruas e bairros, os blocos, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. As máscaras, ironicamente, deixaram de ser adereços prazenteiros, festivos e jubilosos para se tornaram equipamentos de proteção. O vazio colossal no dizer de Cynara Menezes, em seu blog, deixou claro que “das avenidas e a ausência descomedida das baterias mostraram que, sem pacto coletivo, não há carnaval possível”.

Esses episódios embaraçados acima descritos, revelam que o fracasso carnavalesco não é apenas ausência de festa, mas sintomas de tempos conturbados e difíceis. As máscaras guardadas em gavetas e armários, ou usadas em meio ao silêncio de portas fechadas e impedidas de se tornaram testemunhas calaram a voz das crises que atravessaram e atravancaram a sociedade. Ver textos de Carlos Heitor Cony e Ruy Castro, entre outros. 

Talvez, cá entre nós, seja justamente aí que reside a força da tradição: mesmo nos “carnavais fracassados”, a memória da festa persiste, insiste, não retroage. A cada baque, a cada cataclismo, nasce a promessa pujante de um retorno mais vibrante e febril. Porque o carnaval no Brasil, é mais do que espetáculo, é resistência, é oposição, é um baluarte cultural. 

O nosso carnaval é celebrado como motor cultural e econômico, todavia a sua ausência ou fracasso deixa marcas indeléveis e profundas. Quando a festa não acontece, não é apenas a alegria que se perde: vão para o ralo empregos, renda e a identidade coletiva. Ficam à deriva, sonhos e ambições, se fazem suspensas as alegrias e os esmeros, enfim, tudo descamba.

Historicamente, alguns carnavais como dissemos acima, fracassaram diante de crises maiores. Em 1919, repetindo o já dito, no Rio de Janeiro, o primeiro carnaval após a gripe espanhola foi por demais tímido, quase parando, marcado pelo luto e pela tentativa de retomar à vida. Em 1940, voltando, de novo a São Paulo, a Segunda Guerra Mundial trouxe censura e restrições, esvaziando a festa. Mais recentemente, em 2021, a pandemia de Covid-19 paralisou desfiles e impediu blocos em todo o país, transformando as máscaras em instrumentos de proteção sanitária.

Do ponto de vista econômico, o impacto causado se faz gigantesco. Estimativas apontam que o carnaval movimenta cerca de R$ 18 bilhões e gera mais de 39 mil empregos temporários em todo o Brasil. Quando cancelado, como nos idos de 2021, bares, hotéis, costureiras, músicos e vendedores ambulantes sentiram na pele o colapso imediato da renda. O carnaval, além de espetáculo, é o braço que sustenta a engrenagem, e a mão salvadora da sobrevivência para milhares de famílias.

Esses “carnavais fracassados” são bons sempre serem lembrados. Por qual ou quais motivos? Revelam a vulnerabilidade de uma tradição que depende de pactos coletivos e de condições sociais mínimas. A máscara, nesse contexto, deixa de ser símbolo de alegria e passa a ser testemunha de crises. Mas também guarda a memória viva da resistência: mesmo quando a festa não acontece, entretanto, a promessa de retorno permanece inalterável.

A derrocada, paradoxalmente, reforça a importância do carnaval como um todo. Ele não é apenas festa: é economia, é cultura, é identidade. E cada vez que a máscara é guardada sem uso, repetindo o já dito acima, de novo, para não ser esquecido, ela carrega consigo a esperança de que, no próximo ano, a dança volte às ruas com ainda mais força.

Nos “carnavais fracassados”, não são apenas os desfiles interrompidos ou os blocos esvaziados que chamam a atenção. Há também uma juventude pujante que corre pelas ruas em busca de algo que muitas vezes não sabe nomear. Para muitos adolescentes e jovens, o carnaval virou apenas ocasião de excessos: álcool, maconha, fuga, encontros rápidos, prostituição. A máscara, que antes simbolizava a identidade coletiva e a resistência cultural, se tornou adereço descartável.

Essa juventude, a nossa juventude, muitas vezes, não percebe que o carnaval é mais do que festa: é memória, é história, é sobretudo a expressão popular que atravessou séculos como espaço de liberdade e crítica social. Ao reduzir o carnaval a uma maratona de blocos, se perde o sentido profundo da celebração. O risco é transformar a festa em consumo vazio, em repetição pobre e sem consciência.

E é justamente aí que surgem os “carnavais fracassados” da contemporaneidade: não porque faltam recursos ou desfiles, mas porque carecem, sobremaneira, de compreensão. A máscara, em vez de revelar a potência da cultura, passa a esconder a alienação. O jovem que se perde em caminhos tortuosos, seja pela violência, pelo abuso ou pela indiferença, é também a vítima fatal de um carnaval que deixou de ensinar ao mundo o que na verdade representa.

Do ponto de vista reflexivo, esse fenômeno revela uma crise de transmissão cultural. O carnaval, que já foi espaço de crítica política, de invenção estética e de resistência popular, corre o risco de se tornar num futuro próximo, apenas cenário de consumo imediato. A juventude que não conhece essa história dança sobre um chão de giz que não sabe se foi ou não de autoria de Zé Ramalho. Menos ainda, de onde veio.

Mas acreditem, ainda há esperança: Ainda, apesar dos pesares. Cada geração pode redescobrir o carnaval. Basta que as máscaras sejam recolocadas não como disfarces, mas como símbolos vivos e eternos de pertencimento. O desafio é transformar a festa em aprendizado, para que os jovens não se espalhem ou não se percam, tampouco se desintegrem, mas encontrem no carnaval um caminho da folia e de identidade e de contrapeso, uma trilha sobejamente excelente de um futuro lindamente promissor.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Aparecido Raimundo de Souza (72), escritor e jornalista, de Vila Velha/ES
Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem criada com IA Microsoft Bing com desenho do autor por JFeldman.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Eduardo Martínez (Beócio, o espertalhão)


Beócio nasceu de um casal normal, mas estava longe de receber a atenção dos olhares femininos. Não que fosse disforme de aparência, apesar de nunca ter sido considerado bonito, mas não era tido como feio, aliás, muito feio. Entretanto, além da aparência não tão agradável, o que mais chamava a atenção das pessoas era a sua capacidade de falar bobagens ou, como sua mãe gostava de falar: "Beócio, deixa de bobice!"

Já adolescente, ouviu pela primeira vez do melhor amigo, o Restolho: "Quem gosta de homem é boiola! Mulher gosta é de dinheiro!" E, assim, Beócio foi formando o seu caráter, digno da extraordinária sociedade brasileira, sempre aliada aos bons costumes. Obviamente que sim! Tanto é que, certa vez, Beócio, ainda sem um pelinho sequer despontando em sua face, saía bem cedo para comprar pão na padaria da esquina, quando avistou uma lindíssima garota de uns vinte e poucos anos, em trajes minúsculos, se despedindo sorridentemente de um homem muito mais velho e, pasmem, até mais feio que ele. O tal homem estava em um carrão conversível! "O Restolho sabe mesmo das coisas!", pensou quase em voz alta.

Já adulto, Beócio não conseguia se firmar em emprego algum. Não que fossem trabalhos difíceis de serem executados, mas os salários oferecidos nunca iam além de, no máximo, um salário mínimo. Sem muito estudo, Beócio resolveu montar uma empresa de segurança com o velho amigo, o Restolho, que também nunca havia se dado muito bem com os livros. O nome da empresa: Falcões Detonadores.

E, graças aos contatos que o pai do Restolho possuía, conseguiram alguns contratos meia-boca com empresas de renome: Birosca do seu Zé, Salão de Beleza da Dirce e Churrasquinho de Gato do Balacobaco. Na primeira, os dois sócios, cada um plantado de um lado da porta do banheiro, observavam se um cliente mais alcoolizado faria xixi nas paredes. Na Dirce, eles ficavam de olho se alguma cliente levava sem querer um frasco ou outro de esmalte. Já no terceiro estabelecimento, Beócio e Restolho tinham a função de fazer cara feia para os clientes que quisessem colocar mais farofa nos espetinhos. 

No final do mês, a Falcões Detonadores não conseguia angariar muita coisa. No entanto, os dois adoravam a sensação de poder, como se tivessem algum. Encolhiam as barrigas enormes, estufavam os peitos peludos, mexiam repetidamente nos cavanhaques, faziam beicinho, como se estivessem bravos. Tudo, obviamente, os dois haviam aprendido nos excelentes filmes do Steven Seagal, que, injustamente, jamais venceu um Oscar.

Beócio acabou se casando com Rose, manicure do Salão da Dirce. Restolho juntou os trapos com Meire, moça dali mesmo do bairro. Cada casal teve dois filhos, todos praticamente sustentados pelas esposas, já que os Falcões Detonadores, de fato, jamais alçaram voo. Os sócios, teimosos, continuaram acreditando e, talvez por isso, a amizade continuou firme. Tanto é que os dois, apesar dos protestos das respectivas esposas, votaram em um candidato que prometia armas para todos. 

Pois é, o tal candidato venceu as eleições, a crise veio que veio e levou a Birosca do seu Zé, o Salão de Beleza da Dirce e o Churrasquinho de Gato do Balacobaco. A Dirce acabou se engraçando por um rapaz bonito mais novo, que criava galinhas caipiras na parte rural em volta da cidade. A Meire pegou os filhos e foi trabalhar na cidade ao lado, onde dizem ter tido sucesso na venda de salgadinhos e docinhos. Já o Beócio e o Restolho continuam juntos, a amizade ainda mais firme. Não conseguiram comprar a tal arma prometida, mas estão cada vez mais convictos de que mulher gosta mesmo é de dinheiro.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 18.05.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/beocio-o-espertalhao.html
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Nilto Maciel (Chão pintado de sangue)


Havia anos George Pinho escrevia umas prosas sem pé nem cabeça. E se regozijava com a cara de burrego dos leitores. Diziam não ter entendido nada. Ele ria muito e completava: o problema é seu. Mas se cansou de tanto rir dos outros e decidiu escrever contos urbanos realistas. Arranjava pretextos para passear pela cidade. Queria conhecer de perto os tipos populares, presenciar cenas do cotidiano. Anotava num caderno sinopses de histórias. Uma delas teria apenas dois personagens: um mendigo ou menino de rua, drogado, e um poeta popular ou panfletário. A ação se daria numa praça. Que ação seria essa? Que conflito ocorreria? Para encontrar as respostas, quase todo dia passava pela Praça do Ferreira, metia-se em lojas, lanchonetes, bancos, e, principalmente, andava de lá para cá, olhos e ouvidos atentos.

 Um dia caminhava pela calçada da praça na direção da Guilherme Rocha. Diante do Cine São Luiz, um mendigo comeu uma banana e lançou a casca ao chão. Sentou-se junto à parede e se pôs a olhar para as pessoas que batiam palmas ou vaiavam o rapaz barbudo e de roupas exóticas, em pé num banco, a vociferar: O poema é um punhal que brilhará na carne dos condescendentes. Seus reflexos parirão estrelas que habitarão o céu. Marinas cintilarão como ametistas nas bocas dos desvalidos. Imensas pérolas de enfeite da grande festa anunciada. Nas ruas novamente habitadas por benjamins, sorrisos, brisas nos dentes de marfim, onde se inscreverão os versos dos decapitados. 

Nesse momento George voltou a vista para o espetáculo, pisou na casca de banana e caiu espalhafatosamente. Livros e cadernos se espalharam na calçada do cinema. Uns deram vaias, outros riram. O mendigo se levantou e se esgueirou junto à parede, até desaparecer na galeria que separa o prédio do cine das lojas. 

Conduziram George ao banco da praça. Gemia de dor e pedia insistentemente para lhe trazerem os livros e cadernos. 

O rapaz anunciou outro poema e voltou a gritar: Como será nosso amanhã, criança? O meu, o teu, o da vizinhança? Talvez verde-esperança como sempre razão de viver. Talvez branco-matança, talvez negro black-power soco na cara do branco. Talvez amarelinho-da-silva. Ou será vermelho-festança? Criança? Ou pura lembrança de Ontem e de Hoje? Como será nosso amanhã, criança? Amanhança? 

Bateram palmas, vaiaram, bradaram. George permanecia deitado no banco, pálido e triste. Por que o senhor caiu? Pisei numa casca de banana. Sempre é assim. E esse maluco a dizer besteiras. Pensa que é poeta. 

George se sentou no banco. Está melhor? Preciso ir embora. O rapaz barbudo se entusiasmou de novo e passou a bramar: Neste nove de setembro há mais nove do que tudo e eu me sinto novamente o mais novo dos mortais. É como se o Zé Sarney já não fosse nosso rei e existisse no Brasil o vermelho de novembro. 

Quem é esse maluco? É o poeta Mário Menezes. Policiais passaram, em correria, pela frente do cinema. Deve ter havido algum roubo na Guilherme Rocha. 

Mário deixou o banco e se dirigiu a George. Faria um poema para lamentar a queda do outro. Não precisa disso. Escute só: Ai, meu joelho preferido, como eu queria ser você, pra descansar durante um mês e me sentir o bem-querido. O mais querido das mulheres ou das muletas, das mulatas. Como eu queria ver talheres em vez do fórum e suas batas. Ai, meu joelho maltratado pelas andanças e as peladas, como eu queria diplomado já me sentir e diplomata. Eu preferia, joelhinho, viver na Bósnia, se eu fosse embaixador – com queijo e vinho – em vez de aqui viver na doce vidinha nesta Fortaleza – carimbos, autos, petições, parafernália, tudo para me dar suores e aflições. 

O mendigo reapareceu na esquina da galeria. Alguém alertou: foi ele que jogou a casca no chão. A polícia também reapareceu. Em pouco tempo o mendigo se viu cercado de cassetetes e bordoadas. Houve quem tentasse impedir o sacrifício. 

George Pinho e Mário Menezes imploravam: não façam isso com o coitado. O povo vaiava e aplaudia ao mesmo tempo. Gotas de sangue pintavam o chão da Praça do Ferreira. E mais os soldados batiam no negrinho. George se afastou, a capengar.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Arthur Thomaz (Professor Pardal)


Juvenal era conhecido no bairro em que morava pelo apelido de Professor Pardal, por estar sempre a inventar aparelhos e maquinários extravagantes e quase sem utilidade prática.

Nos “butecos” que frequentava com assiduidade, também era chamado pela mesma alcunha, mas porque, depois de algumas doses, passava a inventar histórias inverossímeis.

Seus pais torciam para que ele concluísse o curso técnico em Química Industrial, arrumasse um emprego e mudasse de casa, já que, com suas estapafúrdias invenções, havia colocado fogo na garagem três vezes. Mas Juvenal justificava os incidentes, convicto, afirmando que todas as grandes invenções que mudaram o rumo do mundo sofreram percalços semelhantes.

Sua mãe, então, precisou tapar a boca do marido, que já ia dizendo que Juvenal fosse ter percalços em outro lugar.

– Dorival, por favor, não vá ferir a sensibilidade do nosso menino. Afinal, ele está apenas em busca de realizar seu sonho em prol de um futuro melhor para a humanidade.

Dorival pensou que seria melhor se o filho sonhasse bem longe de casa, mas calou-se para evitar discussões inúteis.

Juvenal conheceu Maria Letícia quando tomava café em uma padaria antes de ir trabalhar, apresentado pela moça do caixa, que já o conhecia por ser freguês assíduo. Começaram a namorar e, passado algum tempo, a moça levou-o até sua casa para apresentá-lo aos pais.

À noite, após o trabalho, Juvenal ia até a casa de Letícia para namorar no sofá da sala e depois trocar beijinhos no portão ao se despedir.

Em certa ocasião, presenciou a sogra, com sérios problemas na coluna, apresentar enorme dificuldade em calçar os sapatos. Juvenal, que até aquele dia se contivera em não mostrar suas invenções, não resistiu e, na noite seguinte, levou uma de suas criações para facilitar o ato da sogra.

O resultado foi desastroso: ela ficou com os pés presos, gritando de dor, e ninguém conseguia soltá-la da geringonça.

Tiveram que chamar os bombeiros para serrar o invento. De repente, Juvenal olhou para trás e viu o sogro correndo em sua direção com algo nas mãos. Nem tentou ver o que era e saiu correndo, só parando em casa. Nunca mais viu Maria Letícia.

Solitário, já que seus pais, cansados das invenções malucas, mudaram-se para uma cidade a 1.800 km de distância, teve a oportunidade de desenvolver suas criações sem colocar a família em perigo.

Buscou incessantemente a produção de algo que substituísse o caríssimo combustível utilizado nos veículos.

Certa manhã, precisando abastecer sua moto 125 cc para ir ao trabalho e estando sem dinheiro, resolveu colocar no tanque um produto no qual estivera trabalhando a noite toda, mas que ainda não havia testado.

Surpreso, viu sua moto desenvolver um excelente rendimento.

Naquele dia, após o expediente, nem passou pelo “buteco”, como sempre fazia, e foi direto para casa aprimorar sua inesperada invenção. Na manhã seguinte, descobriu que havia criado um tipo de combustível de baixíssimo custo e com rendimento muito acima do comum.

Precavido, foi registrar sua fórmula no Departamento de Marcas e Patentes. O funcionário que o atendeu, percebendo ali uma oportunidade de lucro ilícito, procurou um diretor de uma estatal petrolífera, cuja fama de corrupto era notória, e expôs a situação.

Foi imediatamente levado ao gabinete do presidente da empresa, a quem Juvenal reconheceu por já tê-lo visto várias vezes em noticiários de corrupção e desmandos.

O funcionário vendeu a preciosa informação e saiu de lá com os bolsos cheios de dinheiro.

Já o presidente, acostumado ao ambiente nefasto da corrupção, foi pessoalmente ao endereço de Pardal.

Para ele foi fácil enganar o inocente Juvenal, afirmando que, ao comprar a fórmula do combustível barato, iria fabrica-lo em grande escala e, assim, ajudar a população mais carente.

O dirigente abriu a maleta que trouxera e ofereceu R$5 milhões em espécie ao rapaz, dizendo que ele nem precisaria declarar à Receita Federal, pois isso já estaria regularizado.

Sem entender muito de assuntos financeiros, Pardal aceitou, acreditando ingenuamente que seu invento ajudaria os pobres do país.

Na volta, o presidente da estatal pediu ao motorista que parasse em frente a um terreno baldio. Ali, destruiu a fórmula e o registro da patente.

Voltando ao carro, disse, regozijando-se:

– Ajudar os pobres? Que tolice! Vamos continuar a vender combustível caro e alimentar nosso esquema de desvio de verbas.

Com o dinheiro, Juvenal adquiriu uma propriedade na zona rural, distante da opressiva megalópole. A casa confortável vinha acompanhada de um galpão a prudente distância, onde ele podia criar suas extravagantes invenções sem colocar nada, nem ninguém, em risco.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing