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sábado, 6 de junho de 2026

Antônio Maria (O pior encontro casual)

O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: "Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro". Como são desprezíveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peço os jornais, sento à mesa e tomo meu café reforçado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "café reforçado!" E a explanação continua: "Nos jornais, vocês me desculpem mas, a mim, só interessa o artigo de Macedo Soares e as histórias em quadrinhos". Nessa altura o autobiográfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade política (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histórias em quadrinhos).

E vai daí para outra modesta homenagem a si mesmo: "Aí, então, é que vou me vestir. Quanto à roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha paciência, eu mudo todo dia". O "tenha paciência" é porque está absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritório". Gente que chama a mulher de "minha senhora" está sempre pensando que: não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz: "Só aí vou para o escritório, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se há alguma coisa". Esse "passar no jornal" é um pouco difícil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de não ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas ações ou pertence a um primo, ou amigo íntimo.

Vai por aí contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: "À noite, eu sou da família!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sofá e vou ver a televisão, com as crianças em cima de mim". Está aí o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que é triste, além de numeroso, está em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "café reforçado", os de "Macedo Soares e das histórias em quadrinhos" (os que gostam só de Macedo Soares ou só de histórias em quadrinhos são ótimos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritório". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sofá, com as crianças em cima. Ah, essa gente me procura tanto!

19/10/1959
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ANTÔNIO MARIA ARAÚJO DE MORAIS, cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fonte:
"Com Vocês, Antônio Maria". RJ: Paz e Terra, 1994.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Laé de Souza (Adeus e pronto)

Separação é difícil, machuca e tal, mas também nada de ficar na fossa. Isolar-se, nem pensar. Tem gente que começa a mexer no guarda-roupa e pega aquelas roupas antigas para usar. Não é uma boa. Afinal, se ainda houver chance de partir para a reconquista, deve-se estar nos “trinques” para estimular o arrependimento do outro. Mesmo que não haja retorno, ela tem de estar preparada para novas paqueras, porque o mundo não acabou e sempre se pode encontrar alguém. 

Estão superados aqueles preconceitos, passados pela mamãe, de que a mulher deve ter um homem só por toda a vida. Também, não vá exagerar e sair galinhando. Ficar só por uns tempos é uma boa, mas tem de curtir cinema, teatro, festa, passear, divertir-se a valer. Se por acaso encontrar com ele em uma festa, nada de ficar dizendo “Se ainda me trocasse por coisa melhor...” Pega mal. Além disso, e se fosse melhor, que diferença faria? Já me disseram isso e eu, sinceramente, achei que a troca foi melhor. Portanto, o que se deve fazer é cumprimentar, numa boa, e procurar curtir o momento com quem estiver. 

Lembre-se de que não é nenhuma vergonha estar sem namorado. Mas, sempre existe a chance de conseguir outro. Está certo que você não é nenhuma Vera Fischer, mas também não vai querer namorar nenhum Felipe Camargo, não é? Por outro lado, não corre o risco de sair por aí com o braço quebrado e dando aquele show ou de ser “convidada” a se retirar da novela.

E tem outra, se estiver de namorado novo, nada de ficar naquela “Ai que saudade dele”, “Acho que vou morrer”, “Não confio mais em homem nenhum”, é meio chato e cafona. E homem nenhum vai querer dar seu ombro para você ficar chorando por outro. Também, nos primeiros meses, evite aquelas lamúrias de dores na coluna, reumatismo, enxaqueca... segure firme. 

Nos restaurantes, procure não comer demais e sempre se ofereça para dividir as despesas. E, uma vez ou outra, pague mesmo. Só que fique atenta para não ser explorada, porque tem gente que se aproveita desses momentos.

E os filhos. A minha ex-mulher, sempre que me via com uma namorada, procurava infernizar meu fim de semana. Se fosse prolongado, principalmente. Antes ligava, claro:

- Você tem algum programa para o fim de semana?

- Tenho um compromisso, sim - respondia na maior inocência e, também, pelo medo de que ela me convidasse para fazer algo juntos.

- Acho bom que inclua os seus filhos nesse passeio porque eu também tenho e não vou poder levá-los.

Não adiantava discutir. Meia hora depois, tocava a buzina na porta de casa e deixava os coitados na calçada. Uma loucura! 

Nas primeiras vezes, eu recorria aos amigos. Depois, quando senti que a cara dos amigos já não era lá de muito amigos, comecei a me socorrer com uma família que cuidava deles mediante pagamento. Mas, ela sempre achava ruim. 

- Meus filhos, com estranhos? Eu me sacrifico e você não... realmente, é muito difícil.

E criança quando serve de estopim... sofre. Via de regra, a guarda é da mulher, porém, a responsabilidade ainda é do casal, que deve cuidar para magoar os filhos o mínimo possível.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Acontece... Crônicas. SP: Ecoarte, 2018

Arthur Thomas (O dia da criação)

No dia da cerimônia de criação do Universo, o local e as adjacências apresentavam uma frenética agitação.

Alguém perguntou.

– Ei, você aí de bermuda colorida, o que faz aqui?

– Amigo, eu estava na praia. Ainda não sei bem, mas alguma força estranha trouxe-me aqui. E você?

– Sou jornalista de um tabloide sensacionalista, e enviaram-me para cobrir o evento da criação do Universo.

– Ah! então é isso?

– Venha, vamos tomar uma cerveja ali no Bar “Gole Inicial” e aguardar os acontecimentos e as comitivas de políticos que, com certeza virão, e irão querer sair nas fotos do evento.

Após o pedido para trazer uma “gelada”, disse o garçom, solícito:

– Aqui, logicamente só servimos a cerveja número 1, e gargalhou estrondosamente.

Todos acompanharam a risada e continuaram a conversa.

– Amigo, por acaso saberia dizer-me como está o movimento da bolsa de apostas? Quem está liderando o ranking de favoritos para ser o criador do Universo?

– Amigo, não sei precisar, mas existem muitos nomes concorrendo. Eu mesmo já fiz minha “fezinha” antes de vir para cá.

– Você fez bem, porque eu estou tentando fazer daqui, mas o wi-fi é péssimo nessas paragens.

Nessa hora, aproximou-se Protógenes, o dono do estabelecimento, e disse:

– Amigos, tem um tal de Big Bang querendo tomar uma com vocês.

– Opa! Pode entrar, seja muito bem-vindo. Você é um dos fortes concorrentes, segundo a comunidade científica. 

– Mas sem fazer estrondo, disse o de bermuda colorida.

Gargalharam, todos, incluindo o recém-chegado.

Quase simultaneamente perguntaram ao proprietário:

‐ Protógenes, aquele casal histérico lá nos fundos do salão, você sabe quem eles são?

– É o casal de apresentadores de um telejornal de uma mal falada emissora. Estão reclamando que o sinal de satélite aqui é fraco e que esqueceram de enviar a equipe de maquiadores.

Ao gigantesco estádio erguido somente para essa cerimônia, por empreiteiras de uma republiqueta sul-americana, com valores superfaturados e com verbas desviadas de várias estatais, começaram, então, a chegar as delegações para assistir ao evento, todos carregando variados cartazes e faixas.

Os católicos estavam com a imagem de Jesus Cristo e gritavam pelo seu nome.

Os umbandistas carregavam uma enorme estátua de Iemanjá.

Alguns asiáticos exibiam a imagem de um rotundo Buda em porcelana.

Alguns torcedores uniformizados da Gaviões da Fiel, acompanhados de uma barulhenta “charanga”, cantavam e gritavam o nome de Vicente Matheus.

Um outro grupinho de homens barbudos e mulheres mal vestidas, com um megafone, exigiram que a cerimônia da Criação do Universo fosse interrompida, porque isso afetaria o ecossistema da Amazônia.

Em um camarote, com direito a churrasco temperado com pitadas de ouro em pó, mais de 50 reis, sheiks e príncipes árabes tinham uma enorme faixa enfeitada com diamantes. Nela estava escrito Allahu Akbar (Deus é Supremo).

O estádio inteiro aguardava, com expectativa, quem iria cortar a fita inaugural. A tesoura feita de ouro cravejada de diamantes já estava na mesa colocada atrás da fita multicolorida e que emitia feixes de luz neon.

As “autoridades” foram aproximando-se, cercadas por dezenas de repórteres e cinegrafistas, quando uma enorme quantidade de poeira cósmica, que vagava pelas galáxias, encobriu toda a região.

Os olhos do público encheram-se da poeira, sendo atendidos imediatamente pelas unidades do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel do Universo).

Promotores do evento adiaram a data da criação do Universo para uma ocasião mais propícia.

O casal de âncoras, ao ver sua apresentação frustrada, tiveram uma crise histérica, tendo que ser removidos para uma casa de acolhimento especializada em transtornos mentais. 

E assim permaneceu o mistério em relação ao nome do criador do Universo…
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Monsenhor Orivaldo Robles (Deus quis assim)

Eram quatro irmãs jovens e lindas. Iam dos dezesseis aos vinte e três anos, mas não aparentavam. A caçula passaria por uma criança de treze. Não tinham antes chamado, de forma especial, minha atenção. Eu as via sempre juntas nas missas dominicais. Era de onde me conheciam. Agora, entram na sala de atendimento as quatro de uma vez. À minha frente, quatro rostos de imensa beleza e profundamente tristes.

Sua história me encheu de dor. Também de revolta com gente que fala o que não sabe. Eram de outra cidade, distante mais de cem quilômetros. O pai aqui as colocara para estudarem. A mãe se dividia entre marido e filhas; mais tempo para elas do que para ele. Proprietário rural trabalhador, ele dava duro, de segunda a sexta, no sítio, mas o final de semana era da família. Chegava, às vezes, quando ainda dormiam. Apaixonado pelas meninas, junto delas virava um moleque. Acordava-as atirando pedrinhas na janela do apartamento. Elas despertavam aos saltos e se atiravam, todas juntas, no seu pescoço. Sufocavam-no com excessos de carinho que raros pais tiveram a felicidade de experimentar. O sábado e domingo eram, para a família, uma festa de quarenta e oito horas.
 
Esse idílio de amor inocente um caminhão canavieiro destruiu de forma brutal. No caminho da propriedade, atropelou e matou o pai das garotas. Mãe e filhas sentiram o chão fugir-lhes sob os pés.

Então, apareceu o estranho conforto que alguns oferecem nessa hora: “Consolem-se. Deus quis assim. Vocês precisam aceitar a vontade de Deus”. A educação cristã sugada com o leite materno perigou de sofrer um abalo. Fitavam-me angustiadas, inquirindo mais com o coração do que com os lábios: “Deus quis mesmo o acidente que matou nosso pai? Foi vontade dele?”

Quando a aflição é por demais intensa, prende-se a voz no peito. Fitei-as, uma a uma, mergulhando no oceano de dor e saudade daquelas lágrimas quentes. Lutei para segurar as minhas. Elas buscavam apoio em quem imaginavam forte. Mas forte como, num caso assim?

Espero ter-lhes devolvido a certeza de que Deus é o pai de cujo amor e doçura, elas tiveram em casa, desde que nasceram, a mais deliciosa amostra. Melhor do que ninguém elas têm autoridade para falar que Deus não quis aquela tragédia. Que pai ia fazer aquilo?

Ocorre que um misterioso elo de solidariedade nos liga tanto para a alegria quanto para a dor. Somos pessoas vivendo ao lado de pessoas. Queiramos ou não, nossos caminhos se cruzam. Nesse cruzamento, existe a dolorosa possibilidade de produzirmos luto em vez de festa. Fomos dotados de inteligência, de criatividade, de vocação para o bem, para a verdade, unidade, beleza... Também dispomos, para nossa grandeza ou vilania, do livre arbítrio. Deus não manda em nós. Não toma nossas decisões. Não violenta nosso querer. Nosso agir é decidido por nós. Se há erros, nós os cometemos.

Não há liberdade para o mal, para agravo à consciência, que é instância próxima da vontade de Deus. Mesmo que muitos, por desfaçatez e descaso do bem, se atribuam o direito de praticar atos condenáveis.

Inseparável da liberdade, a responsabilidade é sua irmã gêmea. Sem ela, a liberdade se converte em anarquia. Quando ocorre, é desgraça a caminho e sofrimento na certa.
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras 12.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3436391

Nilto Maciel (Um simples boneco)

Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas.

Seguiu em frente e chegou ao banheiro. Nada escapava ao seu olhar vigilante. Precisava ver se também lá havia ordem e respeito. Um dia pegaram um rapaz e uma moça agarrados no banheiro destinado ao público, ao fundo do corredor.

Empurrou a porta, como se tivesse medo de encontrar fantasmas, e virou pedra. Que horror! Deus, que horror! Meu Deus!!! Um corpo pendurado, horrível, rijo, apavorante. Ou não era verdade, sonhava, delirava? Abriu, arregalou os olhos. Talvez fosse pura impressão, um pensamento de medo, desses de todo dia. Olhou para o vaso, a pia, o espelho. Sim, havia um corpo pendurado, os pés enormes entre o chão e a vida. E se estivesse vivo, se ainda não tivesse morrido?

Desesperado, Joaquim tocou o corpo, exatamente a perna do enforcado, e, a esperança num olho, a piedade noutro, olhou o rosto desfigurado do morto. E deu um pavoroso grito. Aquele corpo era o seu. Sim, tudo no outro assemelhava a ele.

Preocupado, deu dois passos para trás e se viu no espelho, triste e pesaroso. Ora, aquilo devia ser um boneco. Brincadeira dos colegas. Sim, só podia ser um boneco. Horrível boneco morto.

Olhou mais uma vez para a língua estirada do outro. Aquele rosto, na verdade, parecia o seu. As mesmas feições, os mesmos braços cabeludos, sua roupa preferida, aqueles sapatos rotos e sujos, tão idênticos aos que usava todo dia. Pura coincidência, mero acaso, como diziam. E, decidido, puxou a porta do banheiro. Precisava avisar a polícia. Antes da chegada dos colegas. Com urgência. Um crime bárbaro na repartição, uma desgraça, um suicídio talvez. E pôs-se a discar números e mais números. Que não davam em nada. Discava, discava, e nada. Melhor mesmo ir à polícia. Pegava um táxi, contava tudo ao motorista e, em poucos minutos, se livrava daquilo. Deixava janelas e portas abertas. Os colegas chegariam logo. Não podia esperar.

— Quem é o morto, Seu Joaquim? — irritou-se o policial de plantão.

Não sabia, talvez o conhecesse, porém não lhe sabia o nome. Além do mais, podia ser um simples boneco. Trabalho perfeito, obra de artista. O policial trancou a cara mais ainda, deu um murro na mesa e urrou. Não admitia gracinhas. Ou Joaquim não desconfiava das boas surpresas reservadas a quem brincava com a polícia? E acendeu um cigarro nauseabundo, soprou a fumaça na direção do interrogado, gargalhou.

— Confesse logo, seu engraçadinho.

Joaquim diminuiu de tamanho, encolheu-se todo e pôs-se a balbuciar inúteis defesas. Sim, tudo não passava de sonho. Ninguém se matara, ninguém se enforcara. Não havia corpo nenhum pendurado no banheiro da repartição. Que tolice procurar a polícia para contar sonhos!

— Confesse, Seu Joaquim — gritou de novo o policial, arma apontada para a cabeça do pequenino informante, que diminuiu ainda mais de tamanho.

  E os colegas? Já teriam visto o cadáver? Certamente lamentavam seu derradeiro ato. Tão trabalhador, tão honesto, tão cumpridor dos deveres! Por que se matara? Dívidas? Amor? Dúvidas? Tumor? Precisava voltar logo, tudo não passara de sonho, alucinação, pensamento ruim. Continuaria abrindo a porta e as janelas da repartição, averiguando palmo a palmo as salas, como sempre fizera.

— Confessa ou não confessa? — berrou mais alto o policial.

Assustado, Joaquim Xavier fechou a porta do banheiro. Os colegas chegavam, em grupo, na alegria de um novo dia.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 160

Acordar cedo? Muito bom. Mas nos últimos tempos não tenho a necessidade e levanto um pouco mais tarde. A vida é feita de molas, umas puxam, outras encolhem. E como!

Recentemente fiquei fora de casa por um tempo maior, deixando, digamos, ao abandono os passarinhos sem quirerinha no bosco, os beija-flores sem a aguinha diária, os sabiás sem a ração no prato de vaso de flor.  

Voltei e vi. Vi o bosco triste, sem sons, sem cantorias, sem o casal de sabiazinhos cedinho a comer. Mas... Aquele MAS bom! Passados três dias, eis que acordo cedo e vejo ali os dois queridos cantadores da florestinha, com quem falo e os vejo querendo falar, o gogozinho em movimento, olhar firme, bem presente.

A companhia dos animaizinhos nos torna dependentes mutuamente. Necessitados. Desejados. Carentes na ausência. Uma saudadezinha até. Assim mesmo! Somos todos moradores da mesma casa comum - o planeta mãe-terra - e essa intimidade, aconchego, vivência, nos faz bem, nos faz alegres, é parte da felicidade que procuramos tanto, e está pertinho embaixo das árvores, junto às flores e às melodias canarinhas.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Artur de Carvalho (Uma gata)

Era noite e ela ainda não havia voltado. Fez de conta que não estava ligando, continuou assistindo TV como se não estivesse acontecendo nada. Olhava pela janela de vez em quando. Voltava para a frente da TV, controle remoto na mão. Ficava olhando a telinha azul despencando imagens sem sentido. O controle remoto criou uma nova programação. São programas onde imagens aleatórias de desenhos animados e de comentaristas políticos se intercalam, numa corrida sem sentido. São programas diferentes todos os dias, mas iguais em sua falta de objetividade. 

Desligou a TV, ligou o aparelho de som. Sintonizou uma rádio, para não precisar ficar trocando de CD. A música sertaneja invadiu as FMs. Ele era do tempo em que as FMs só tocavam música americana. Ou MPB. Não faz muito tempo não, até você deve se lembrar. E agora... só sertaneja. Ou pagode, essas coisas. Levantou e olhou pela janela de novo. O relógio. Ela devia ter chegado há mais de três horas. Deveria haver uma explicação lógica. Começou a tocar outra do Leandro e Leonardo. 

Resolveu colocar um CD. Aquela casa estava uma confusão. Procurou. Entre suas coisas tinha um CD com a trilha sonora do "Blade Runner", não achava. Desistiu de procurar. Devia estar perdido debaixo de alguma dessas almofadas. Ela gosta de almofadas. Tinha tantas por causa dela. Primeiro gostava daquelas menores, depois ele começou a trazer para casa aqueles almofadões. Deitavam e ficavam assistindo TV Eles nem sentavam mais no sofá. Com o tempo, dispensou os dois módulos, um com três lugares, outro com dois. A sala ficou maior, arrumou mais almofadas. Tropeçava nelas quando entrava em casa, no escuro. De vez em quando ela estava ali, enroscada com as almofadas, dormindo. Tropeçava nela também. Às vezes se agarrava em suas pernas e o fazia cair. Ele ria, se abraçava a ela e fazia cócegas na sua barriga. Ela não aguentava cócegas na barriga. Se davam bem.

Resolveu comer um pouco. Foi até a cozinha e esquentou um pouco de leite. Um pouco de leite quente o acalmava. Fez uma gemada. Bateu as gemas com açúcar e colocou no leite. Ficou mexendo com a colher de pau, até dissolver bem. Ela adorava gemada. Deixou um pouco na caneca, no caso dela voltar. Abriu a geladeira e tinha umas bolachas de maisena no pacote aberto. Pegou algumas. Gemada e bolachas de maisena.
 
É o que há.

Agora sim, havia ficado bem tarde. Novamente se aproximou da janela, a xícara com a gemada na mão, deu uma última espiada. Talvez não volte hoje. Já havia feito isso muitas vezes. Acabava voltando. Voltava com o rabo entre as pernas, como quem a pedir perdão. Ele sorria e sempre a desculpava. Não era de guardar rancores.

Mais uma hora ou duas se passaram, percebeu que iria dormir sozinho aquela noite. Ligou a TV novamente. Deixou na Globo mesmo, a transmissão não se interrompia. Sempre acordava quando deixava em outros canais, a programação acabava, acordava com o chiado da TV fora do ar. A Globo ficava a noite inteira. Arrumou umas almofadas, se deitou. Estava passando um filme de adolescentes de férias, garotas loiras de biquíni. Os olhos começaram a piscar. Fechou os olhos. Ainda ouvia o filme, depois nem isso. Dormiu.

Acordou com o hálito quente e forte dela. Era um cheiro conhecido. Depois de um tempo a gente se acostuma com os cheiros. Ela tinha um hálito diferente, adocicado. Sentia até saudades daquele cheiro. Ela se acomodou ao seu lado, buscando o calor de seu corpo. Ele a abraçou e sorriu.

Ela sempre voltava.
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Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fonte:
Projeto releituras Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
www.releituras/acarvalho_gata.asp.htm

Virgínia Maura Ferreira (A idade do tempo)

E o tempo tem idade? Quem colocou em nossas cabeças a existência da passagem do tempo? O que é o tempo? O tempo é o que nos leva o dia e faz chegar a noite, é o que traz o verão e o inverno, é o que nos faz comemorar mais um ano de vida e nos sentirmos mais velhos, é ver os filhos e sobrinhos crescerem numa rapidez de corrida de Fórmula 1.

Eu vivo brigando com o tempo. Ele zomba e ri de mim, porque ele sabe passar e eu não sei. Muitas vezes me perco olhando o tempo, e fico sem jeito, calada, sem nada pra dizer, ou querendo correr atrás tentando alcançá-lo, mas ele não deixa. Tudo me parece tão distante, minha infância, adolescência, juventude. Tudo tão fugaz, rápido demais. Ah... os sinais do tempo chegam para qualquer um, de mansinho, nos chamando para o espelho, mostrando as mudanças do corpo e da mente.

O tempo nos chama para a reflexão, para a tranquilidade com as coisas da vida. Ele também vai nos deixando muito sozinhos, solitários. Depois de um certo tempo criamos o nosso novo mundo. O tempo faz dessas coisas, tudo parece muito distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem. O tempo promete tantas coisas e o que fazemos com ele? Tantos planos feitos e desfeitos, sonhos, desejos não realizados.

Todos queremos aproveitar o tempo. Mas ele só passa rindo de nós. Não temos todo o tempo do mundo, bom seria se tivéssemos, mas um dia o nosso tempo também acaba. E, então, numa outra dimensão, nos perguntaremos: o que fizemos com ele?

Não interessa que dia é hoje, o que vamos ou não fazer, o que seremos ou não, o tempo segue nos espiando a cada passo e ação. Precisamos fazer as pazes com o tempo antes que ele nos leve... leve... leve... como as folhas coloridas que caem no outono da vida. Quero parar o tempo, mas ele foge e diz que viver é melhor do que sonhar. Ainda ando cheia de esperanças, de sentimentos, que nem o próprio tempo conseguirá apagar.
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Virgínia Maura Martins Ferreira é de São Luís/MA. Jornalista, instrutora de yoga e escritora, se aventura pelo mundo da literatura infantojuvenil. Tem oito livros publicados: seis em prosa e dois de poemas. Também escreve contos e crônicas, alguns publicados em Antologias e jornais locais.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera

domingo, 31 de maio de 2026

Eduardo Martínez (Francisca, a benzedeira)

Francisca, mulher de lá seus quase 70, era muito considerada na comunidade, seja como benzedeira das mais tradicionais, seja por conta dos quitutes que deixava todo mundo de água na boca. Mal saía de casa, todos a cumprimentavam ladeira abaixo, até chegar à rua, de onde caminhava até o calçadão de Copacabana. Virava à esquerda e dava exatos sete passos. Ainda de pé, retirava as sandálias de couro puído e, somente então, pisava na areia. Sentia seus pés afundando gostosamente, ao mesmo tempo em que soava aquele gostoso barulhinho: "Chiiii!"

Nada detinha Francisca até que chegasse às águas, que lambiam seus pés. Ela abaixava o tronco e, com os braços pêndulos, catava um pouco da água gelada, passava nos pulsos e, depois, molhava o rosto. Precisava energizar! O olhar fixo para o horizonte, a boca muda, apesar do sorriso alvo por conta da nova dentadura, conversava em pensamento com Iemanjá, a rainha do mar. 

Quase uma hora após, Francisca subia o morro e, finalmente, chegava à sua casa. Tudo era paz, tamanha a paciência da velha. Daqui a pouco, chegariam os moradores em busca de auxílio espiritual. E foi o que aconteceu, quando adentrou na varanda da casa da benzedeira a Iolanda, que puxava o filho pelo braço bem fininho. 

- Dona Francisca, a senhora precisa me ajudar com o Pedrinho! 

 – E o que tem esse menino tão lindo, minha filha?

– Ele não obedece ninguém! Já botei de castigo, já dei taca, mas ele continua desobediente.

  Francisca observa cada palavra cuspida pela boca de Iolanda, enquanto o moleque tentava se esconder entre as pernas da mãe. A velha, com aquele olhar complacente, pegou na mão do Pedrinho. Este, por sua vez, fez uma careta tão feia pra benzedeira, inclusive dando língua. Francisca, já com a feição atormentada pela atitude do Pedrinho, diz:

– Isso não se correge nem cá, peste!

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 16.06.2022.
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/06/francisca-benzedeira.html

Aparecido Raimundo de Souza (O sorriso do abismo)


VÁRIAS PESSOAS que conheço costumam dizer com convicção acirrada e espírito crente, que o abismo é puro silêncio. Um silêncio enorme e vazio, pesado e ausente. Todavia, imbuído de bons presságios creio ser de vaticínios alvissareiros.  Eu juro por tudo quanto é sagrado, apesar dos pós e contras, o abismo me sorriu. Embora procure ser a cada novo dia um homem de instintos fáceis, é bem verdade, posso afirmar com precisão se tratar de uma alacridade da mais pura alegria e felicidade, sem aqueles indesejados percalços repletos de flagelos e calamidades. 

Esse regalo que capturei no rosto do despenhadeiro, apesar de se moldar num gesto enigmático, (como quem guarda um sigilo intransponível em roupagem de cautela) só se revela verdadeiramente a quem ousa encarar sem medos ou receios a negritude de sua escuridão pesada e densa, sem piscar, ou melhor, sem ao menos descambar para o terreno da morbidez exasperada. O sem fim sorriu para mim, sorriu generoso, voraz, (e disso me lembro bem), sorriu radioso apesar de uma tarde triste e melancólica, em que a vida me parecia suspensa, sem sentido e sem direção. 

Eu estava à beira de um turbilhão de escolhas, onde só conseguia contemplar perdas. Nada de ganhos. Na verdade, eu estava à mercê de um buraco enorme, de uma cratera em torno da qual via lá no fundo a mim mesmo. E foi ali, no limite entre uma espécie sórdida de medo e uma nesga de coragem, atrelado igualmente a uma dúvida traiçoeira e cruel amarrado a uma incerteza paralítica, que percebi: o abismo ali bem aos meus pés, por mais imenso que me espionava, não se constituía num inimigo. Ele se transformara, do nada, mostrando tudo, como uma espécie de visão do amanhã. 

Uma visão benfazeja onde o seu sorriso para lá de mavioso se formava como um convite amável. Um chamamento inocente não para me puxar simplesmente e me fazer mergulhar em uma profundeza sem volta, ou algo pior. Em nenhum momento me vi movido ou atrelado, cativo e açoitado por forças hercúleas, onde procurasse, a todo custo, ou por puro medo cair fora sem me deixar ser abatido. O sorriso do abismo a meu ver, se fez terno lembrete de que não há chão ruim, não há certezas inabaláveis. Entretanto, é o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos.

E são nesses saltos que a gente descobre que quem se arrisca verdadeiramente a abrir os braços, não se machuca. Talvez o abismo sorriu e o fez porque conhecia a minha teimosia em acreditar que o controle de tudo é possível. Talvez (dito de outra forma), o profundo me sorriu porque sabia que no fim, seria ele quem me ensinaria a viver. E eu, diante dele, sorri de volta. Não por desafio, mas por gratidão. Porque o abismo, com seu sorriso franco e sem gestos maldosos me mostrou que é possível assimilar, na integra, que o medo também pode ser e, de fato é, um caminho.

O imensurável, lá embaixo, à frente de meus olhos, me mostrou não ser apenas um espaço vazio diante de um medo bobo que me segurava como se tivesse grudado no acaso. Ele se fez a metáfora daquilo que eu não podia controlar: o tempo que escorria, a morte que me esperava, o acaso que nos atravessava a todos. E, ainda assim, ele me arreganhou os dentes. Sorriu feliz, não num misto de zombaria, mas de revelação. Me sorriu, acima de tudo, porque sabia da minha busca por um sentido mais promissor e que em cada pergunta que eu fizesse, redundaria numa resposta que me mostraria novos horizontes. 

Por conta disso, esse abismo, bem aqui na minha frente, me lembrou num dado momento que viver é como caminhar sobre pontes frágeis, passear por viadutos suspensos, sabendo que no próximo passo o chão poderá ruir, contudo, apesar dessa incerteza, eu deveria seguir em frente. O sorriso do abismo é o paradoxo da existência. O nada que nos olha e, ao mesmo tempo, nos dá a chance de criar e recriar tudo. É o convite amável para transformar o medo interior em impulso. A incerteza em criação, onde o limite final se delimita em liberdade.

Precisamos entender que quando o abismo sorri, ele o faz, de fato, matreiro, e nessa hora nos mostra que não há garantias, mas possibilidades. E talvez seja justamente nesse sorriso enigmático, silencioso e inevitável que descobrimos que a vida não é sobre evitar a queda, mas sobre aprender a dançar no perigoso frágil da borda, lembrando aquela frase de uma história contada por Ariano Suassuna, onde ele começa dizendo que “ao redor de um buraco tudo é beira”. Pois bem! Esse tom existencial abre espaço para reflexões sobre liberdade, finitude e criação.  

Não devemos esquecer também que o abismo sorri porque conhece de cabo a rabo, a minha finitude. Ele sabe que sou feito de tempo, e que o tempo é feito de limites. Cada instante que passa é um passo em direção ao fim, e é justamente essa consciência que me obriga a pensar. E eu matuto com meus botões, penso: sem o limite, não haveria urgência. Sem a morte, não haveria vida. O sorriso do abismo nada mais é que o lembrete de que o NADA nos observa, mas também nos dá a chance de inventar o TUDO. Com isso, aprendi que criar é o gesto humano diante do abismo: escrever, amar, construir, imaginar... 

Isso tudo se transforma nas respostas que damos ao vazio, como quem planta flores na beira de um precipício. O abismo me sorri porque sabe que, ao me confrontar com o fim, me oferece a possibilidade de transformar o medo em arte, a angústia em liberdade, o silêncio em palavra. O abismo não é prisão. Ele é passagem. Há momentos em que a gente se sente engolido por sua escuridão, como se não houvesse saída. No entanto, o sorriso do abismo também é promessa: ele mostra que podemos atravessá-lo, que não precisamos permanecer ali.  

Encarar o abismo é reconhecer a fase em que estamos presos em imensa dor, abarrotado de dúvida, de perda e aceitar que ele não é destino, mas uma etapa a ser transposta. O sorriso do abismo nos ensina que sair dele é possível, que a vida continua além da borda, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais inteiros, mais conscientes, mais vivos. A meu entender, essa versão filosófica conecta o meu sentido de abismo à finitude e não só a ela, igualmente à criação, mas termina com uma reflexão libertadora: o abismo não nos aprisiona, ele nos transforma.

Estar prestes a cair num abismo, ou de forma mais branda, tentar sair de um, seja ele emocional, existencial ou simbólico não significa apagar o que vivemos, mas aprender a atravessar os percalços sem deixar que as marcas se tornem feridas permanentes. O segredo está em transformar o encontro com o abismo num eterno aprendizado de experiência e de crescimento. Jamais em prisão. Reconhecimento do limite: admitir que estamos diante de um vazio, de uma fase difícil, é o primeiro passo. Negar o abismo só prolonga a sua sombra em nós.

Criação como resposta: escrever, pintar, conversar, reinventar rotinas, qualquer gesto criativo é uma forma de devolver sentido ao que parecia sem forma. Liberdade interior: compreender que o abismo não nos define. Ele é circunstância, não identidade. Podemos sair dele sem carregar o peso como destino. Finitude como impulso: lembrar que a vida é breve e que cada fase, mesmo a mais sombria, é apenas uma parte do caminho. Isso nos dá coragem para seguir em frente.

Superação como travessia: sair do abismo não é esquecer, mas atravessar. É olhar para trás e perceber que o sorriso do abismo foi apenas um convite para nos tornarmos mais conscientes de quem somos. No fim, o abismo pode ser encarado como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível

O abismo pode ser encarado também como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina, agora reiterando em repeteco, que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança: de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível. Há quem diga que o abismo é silêncio, vazio, ausência. Mas eu o vi sorrir. Não era um sorriso de alegria, tampouco de malícia. Era um gesto enigmático, como quem guarda segredos que só se revelam a quem ousa encarar a escuridão sem piscar. E eu fiz isso.

Entre prós e contras, o abismo sorriu para mim numa tarde em que a vida parecia suspensa. Eu estava à beira dele, à passos de um bocado de perdas, à ribanceira de mim mesmo. E foi ali, no limite entre o medo e a coragem, que percebi: o abismo não é inimigo. Ele é espelho. Seu sorriso é convite não para cair, mas para mergulhar em profundezas que evitamos por comodidade. O sorriso do abismo é o lembrete de que não há chão eterno, e mesmo estando tão distante de tudo não há certezas inabaláveis. É o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos, e que só descobre asas quem se arrisca a abrir os braços. E eu, abri. Voei como Ícaro, num sonho que me fez viajar entre a vida terrena e a verdadeira, onde meu Deus, muito tempo depois, refeito de mim, alegre e saltitante, A C O R D E I.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

sábado, 30 de maio de 2026

A. A. de Assis (Um susto na redação)

Ivens Lagoano Pacheco, dono e diretor do “O Jornal de Maringá”, era um gaúcho de corpo volumoso e vasto bigode. Para completar, fumava charuto e usava óculos escuros. Na sala de redação, naquele início de tarde em 1963, estávamos Ademar Schiavone, João Amaro Faria, José Zimermann e eu.

Tudo parecia calmo, ouvindo-se apenas o teque-teque das máquinas de escrever. Súbito entrou um homem muito nervoso, com um canivete numa das mãos e na outra um jornal todo amassado. Aos gritos, dizia:

– Quero ver quem foi o desaforado que botou meu retrato aqui nesta porcaria e me xingou de indivíduo e desordeiro...

Tinha saído no matutino a notícia de uma briga de bar, na qual o tal fulano esteve envolvido. Por sorte, naquele momento o repórter responsável pelo noticiário policial havia saído para um trabalho na rua.                                    
Ivens estava na sala dele recebendo a visita de um amigo, o Doutor Newman da Silva Gomes, um dos primeiros dentistas de Maringá. De lá ouviu a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. O homem continuava esbravejando e fazendo ameaças. Ivens chegou peitando o sujeito e soltando baforadas de fumaça:

– Abaixe essa arma e converse como gente educada.  

O homem teve um tremelique, deixou o canivete cair e se desmanchou numa crise de choro.  Ivens mandou que ele se sentasse num sofá e disse:

– Olhe aqui, seu moço, isto aqui é um lugar de respeito. Se você tem alguma queixa a fazer, fale comigo. 

O homem enxugou os olhos com as mãos, disse que era um trabalhador desempregado e que estava de passagem por Maringá procurando trabalho. Metera-se na confusão do bar só por ter sido provocado.

Aí foi o bom Ivens que começou a chorar. Ligou para um restaurante que havia perto do jornal e mandou vir uma marmita bem recheada. Em seguida telefonou para um amigo empresário pedindo que arranjasse um servicinho para o rapaz até que aparecesse coisa melhor.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-5-2026)

Olga Agulhon (Na safra da vida, a magia das cores)

 Crônica Vencedora do Concurso Nacional de Crônicas do 3º Jogos Florais de Caxias do Sul /RS – 2011
No espelho não mais encontro aquela jovem que um dia foi a noiva de branco a se olhar uma última vez antes de se entregar… Um último retoque nos negros fios encaracolados; uma última ajeitada na grinalda de flores de laranjeira… e pronto! Tão linda imagem… perfeita! Estava ali a encarnação da esperança!

Tudo perfeito, afinal, naquele dia. Em cadeiras caprichosamente arrumadas sob a sombra do parreiral em cachos, amigos e familiares em sincera torcida… Quase toda a italianada da colônia…

As uvas pendiam roxas e perfumadas, indicando fartura e bons presságios ao alcance das mãos.

O noivo, de pé, no altar, com brilho de gel nos cabelos, vestia, com certeza, o seu melhor traje. Aguardava, aflito, a donzela que tomaria por esposa como quem espera, finalmente, começar a viver… Cheio de sonhos no olhar!

Não vi, ao caminhar em sua direção, nada além daqueles olhos de anil e promessas… Olhos que guardariam aquele momento para sempre em sua retina… Olhos que me diziam: – Venha, não tenha medo, ninguém aqui ousará ofendê-la, e hoje é o seu dia de rainha.

Unidos pelo santo laço do matrimônio, não mais enfrentaríamos a resistência dos sogros… Estava feito!

Outras safras vieram, ano após ano. Junto com a colheita da uva e a produção do vinho, comemorávamos o aniversário de casamento e, de quando em quando, a dádiva da vida sendo gerada em ventre fértil.

Nem tudo foi assim tão lindo do jeito que foi sonhado… Nem todas as promessas foram cumpridas… Algum encanto se desfez aqui ou acolá, mas tudo foi bem-vindo…  Estávamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Fomos abençoados com cinco valorosos filhos, que formavam lindo degradê, e nossas vidas estariam para sempre entrelaçadas. 

Volto a me buscar no mesmo espelho da penteadeira de imbuia, na mesma casa caiada com as cores da terra… e o meu amor está de partida.

Busco-me no espelho e não me vejo. Na imagem refletida, uma outra habita. Insisto e me procuro naquela imagem de cabelos de neve cobertos… Não reconheço nenhum traço. Não vejo quem sou, não encontro quem fui quando trocamos o “sim” diante do altar…

Lembro-me dos olhos de promessas cheios…  Éramos outros… Tão jovens!

A velhice enrugou o nosso olhar… Não me reconheço diante do espelho e meu loiro não pode me ajudar nesse momento, pois trava um longo combate com a morte, no quarto ao lado… Insisto, aprumo os óculos, fixo-me bem posicionada… nada! O velho espelho também exibe as marcas do tempo. Choro… e as lágrimas silenciosas escorrem lentamente, percorrendo os inúmeros sulcos esculpidos em meu rosto.

Recomponho-me! Aprendi a aceitar os punhados de dor que a vida me reserva e esconde entre tantos potes de felicidade.

Volto e sento-me a seu lado. Ainda ouço um último sussurro: – Te amo, minha nega!… E então, finalmente, me reencontro naquelas retinas, que sempre me viram além da cor e das marcas do tempo.

Firme, seguro sua mão até a travessia, com a certeza de que, na minha hora, ele estará me esperando na margem de lá, com a mão estendida…, e ao caminhar em sua direção não verei mais nada além daqueles olhos de anil e promessas…

Outra safra se aproxima e a saudade ainda machuca o peito, mas alegro-me com a chegada dos filhos ao nosso pedaço de terra nesse cantinho do mundo.
A natureza novamente em cachos perfumados e coloridos.

Agradeço ao Criador da vida! O meu quinhão de alegria sempre foi maior que o meu quinhão de dor…

Meus filhos, participando da colheita da uva, são como bálsamo para os meus olhos… Lindos e fortes, uma mistura perfeita de raças, o branco e o negro em profusão de amor: na safra da vida, a magia das cores!

Fonte:
Jornal O Diário. Caderno D+. 31 janeiro 2012.

domingo, 17 de maio de 2026

Iara Tonidandel (A Melhor Estação)


Os dias frios do inverno acenam lentamente em sinal de despedida, desejando-me: "Cuide-se... até o próximo ano!" Em pensamento, retribuo o gesto, pedindo aos céus que as três próximas estações desacelerem os relógios, retardando o desnudamento das árvores, o branco que reveste as campinas e, principalmente, o retorno de chuvas com ventos avassaladores que fazem com que eu passe dias a observar o mundo pelos vidros embaçados e lacrimejantes das janelas de minha casa.

Ela será a primeira a instalar o período de cores e calor pelos ares que respiro. Sim, a primavera é o portal que, ao abrir-se, levará meu olhar a admirar o jardim que estará a florir em breve. Mas flores em canteiros e pergolados não acontecem ao acaso, certo? Aprendi com minha mãe que há várias questões a serem atendidas até que os perfumes exalados por elas transformem em puro êxtase nossos dias e noites. E esses atendimentos antecedem a chegada dessa estação do ano.

Desenhe um contorno de jardim que fará você dançar ao percorrê-lo e, de acordo com o sentido que seus pés tomarem, o ritmo da música poderá variar. Assim, a monotonia de um cotidiano dificilmente se instalará, tornando seu jardim o palco de uma coleção de melodias a serem bailadas.

Arejar e adubar a terra é essencial, tal como manter e renovar os livros de nossas bibliotecas. Pesquise e descubra manejos, produtos e equipamentos inovadores, mantendo os clássicos cuidados já testados e, comprovadamente, eficientes e eficazes. Assim como alimentar nossas ideias com aprendizados nos conduz à ampliação de conhecimento, remexer a terra cria espaços que serão fertilizados por bactérias, fungos e pelo húmus produzido por minhocas que nela, ao se instalarem, se multiplicam.

Escolher quais as plantas e flores a serem cultivadas é um ponto-chave em qualquer instalação de jardim. Quase tão essencial quanto a definição da lista de convidados de uma festa e a disposição destes nas mesas. Na lista, observe se as plantas e flores selecionadas estão presentes em sua região, considerando os aspectos climáticos. Importante avaliar as tensões existentes entre cada uma delas ao dispô-las no ambiente, promovendo harmonia e equilíbrio entre as diferenças que as caracterizam. Defina o local em que o jardim deverá apresentar maior exuberância, para ali plantar as mais próximas de seu gosto pessoal e de sua essência.

O plantio é um momento de apogeu. Luminoso! Veste-se de roupa de festa, sendo regido por uma orquestra sinfônica que apresenta desde os clássicos até os mais irreverentes ritmos, com acompanhamento de variados trinados e penas coloridas. Toque na terra e sinta a energia que dela emana. Saboreie-a como quem degusta um prato do chef mais famoso do planeta.

No transcorrer dos meses em que as flores brotarem, abrindo suas pétalas e folhas em resposta ao piscar dos olhos solares, enfeitando as noites abrilhantadas pela deusa lunar, lembre-se de, cuidadosamente, retirar o inço que ali aparecer. O inço pode ser comparado com aquele que inveja tudo que é belo e busca, de forma sorrateira ou não, ofuscar o que faz bem aos olhos e ao coração. Retirá-lo é trabalho constante, tipo orar antes do adormecer ou reafirmar seu amor ao ente amado.

Finalmente, no transcorrer do novo inverno, a poda. Podar não é cortar. O corte pode eliminar uma planta. A poda, longe de ser um ato que promove a dor, é ação que brinda à renovação, ao renascer, favorecendo a florescência e o crescimento. É como dar limites às crianças e jovens, sem desrespeitá-los.

Lembrando a voz de minha mãe: um jardim não é um conjunto de plantas e flores, mas sim a soma dos sentimentos e emoções de quem o constrói. Jardim não se olha. Jardim se sente, se admira.

Na primavera, reflito sobre meu jardim e as possibilidades que ele me oportuniza.

Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing  

Germán Aguirrezabala (O Ciclo das Palavras)

(Tradução do castelhano por JFeldman)

Quando as palavras se tornam cansativas, uma nuvem escura se instala na mente dos seres humanos, e começa a chuva que conduzem às transgressões. Então, o sol surge, e as palavras timidamente abandonam as profundezas de suas cavernas para relatar as coisas que as deixaram mudas. Lágrimas fluem e evaporam, transformando-se nas histórias que acendem as velas da nossa imaginação. No início, as palavras são consideradas diferentes da realidade, oferecendo-lhe um descanso; depois, tornam-se indistinguíveis da verdade... e nos cansam.

Fontes:
UyPress - Agencia Uruguaya de Noticias
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing