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domingo, 23 de agosto de 2026

Taíssa da Silva Daniel (Em Três Minutos)


Usar o liquidificador me traz dor de cabeça. Olha o meu pé já batendo. Para pé! Presta a atenção nessas frutas se misturando e se desfazendo dentro do cilindro. Quantas combinações de moléculas devem estar se quebrando e se criando nesse exato momento tão trivial e não faço ideia? Eu não lembro nada de química.

Lembro quando estudava na escola, era muito difícil para mim, absorver. Mas o menino que sentava na minha frente... Giovani era o nome dele? Ele tentava me explicar a matéria depois da aula. Eu estava caidinha por ele, não escutava nada. Só observava em suas sardas ao longo de ambas as bochechas. Isso deixava a sua aparência um tanto fofa, menos máscula.

Isso me lembra que sempre gostei de meninos que exalavam certa sensibilidade. O que as pessoas às vezes chamam de feminilidade, até. Não concordo. Eu penso que se todos nós fossemos mais delicados, o mundo se tornaria melhor. Deve ter sido esse o meu problema. Eu casei com um homem rude. Tão rude que nunca cuidou de nossos filhos. Fui me apaixonar pela pessoa errada. Ainda amo ele. Mas ele saiu de casa. Sim, estou na fossa.

Eu peço para a minha mente pensar em outra coisa, até nesse barulho insuportável do liquidificador, mas cá estou eu a pensar nele de novo. O que será que ele está fazendo, agora? Os anos que vivemos juntos se apagaram tão rápidos assim? Por que não fez questão nem mesmo de levar nada de casa? Isso só deve significar que já tem um outro caso. Melhor não imaginar, só me faz mal.

Ainda não consigo pensar como será daqui para frente. Por favor, Helena! Não se force. Eu não estou pronta para pensar nisso. Para! Por favor. Olha o liquidificador...

É uma graça como crianças tornam tudo mais leve. E o Zé e a Carol dançando na sala, ao ritmo daqui do liquidificador? Meu Deus! Como ser criança é bom! Mesmo sem verem mais o pai voltar para casa a cada noite, eles parecem bem. Mas será que estão bem mesmo? Acho que vou pagar uma psicóloga para eles. Mas e o dinheiro? Preciso me separar, recorrer a direitos e... Afe!! Não pensa.

Pensa só em segurar as arestas do que já está aqui na minha frente. Esse é o foco. Calma, Helena! Calma! Maldita aula de química. Hoje ainda não tinha lembrado do Giovani.

O suco está pronto! Desliga o liquidificador, Helena.
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TAÍSSA DA SILVA DANIEL, carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança. Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades.

Renato Benvindo Frata (Um não com sabor de sim)


O amigo Davi se apaixonou pela colega de trabalho. Uma sansei de cílios longos, olhos amendoados e lábios vermelho-tomate. Seus cabelos lisos floriam na espátula, e as mãos de unhas rosadas, macias e de brandura de menina instigavam nele, paixão.

No quarto ao lado do meu na república de jovens, ele se trancava a mascar o amor não correspondido. Não poucas vezes, trocava o mascar pelo sorver - no bico do litro. Fernet, conhaque, vinho, cachaça. Qualquer líquido que desse corda à paixão que sentia. Como se dá linha ao papagaio posto ao vento. 

E deixá-la voar no amplo céu de seu ardor. 

Essa atitude virou piada. Estávamos na idade do não comprometimento, razão que levava a não nos preocupar com o verbo amar, mas com os pegar, ficar, comparecer e um monte de outros terminados em ar, er, ir, or, ur, menos aquele.

No expediente de trabalho e com ela na mesa ao lado, ele se mantinha sóbrio como charuto apagado. Cuidava tão somente das tarefas, aliás, que dividia com ela no setor de faturamento. Isso o levava a se aproximar dela com observações funcionais. Outras, a criar essa condição para sentir seu perfume.

Davi a amava. Derretia-se e se amargurava. Curtia sua presença nas oito horas de trabalho e lamuriava sua ausência nas outras doze. Até que lhe demos um prazo para se declarar. Ou nós o faríamos.

Munido de vodca e campari, trancou-se no quarto resolvido a lhe escrever uma carta. Faria o pedido por escrito, com receio de não suportar o “não” que ela lhe enfiaria goela abaixo. E, na manhã seguinte, mostrou-me um pedaço de papel. Não havia carta, mas dois versos, que li:

No copo vazio,
A ausência e a presença.
Sua e a da tristeza.
Não se sabe quem sai, ou fica.

Sorvo um líquido entintado.
Ele me tinge a boca, os lábios, escorre...
Dá-me sensação ácida de não.
Depois, um saboroso sabor de sim:
Do beijo-prazer, o do ficar!

Paro, ou continuo?

Às seis, logo na saída, os vimos de mãos dadas.
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(Texto enviado pelo autor)

sábado, 22 de agosto de 2026

Laé de Souza (O grande diretor de teatro)


Faz tempo que não vejo o Ariolando. Pelos idos de 75, fizemos teatro juntos. Ator de pouca expressão, mas metido a diretor, palpitava em tudo quanto era peça que ensaiávamos. Meticuloso ao extremo. Em nosso grupo fazia sempre pequenas pontas, mas esnobava-se para os amigos, dizendo que sua participação era diminuta por sua própria imposição, vez que era mais necessário de fora, ajudando o diretor com opiniões e sugestões.

Aliás, gabava-se que o diretor era figurativo, já que na verdade era ele, Ariolando, quem dirigia o grupo. Afirmava que a sua participação, em cena, era mais para servir de calço a algum ator inexperiente, que sentia firmeza ao contracenar com alguém da categoria dele. Para um diretor, ter Ariolando como ator não era fácil e eu fui testemunha de muitos que perderam a cabeça entregando seus cargos.

Mas, enfim, num memorável dia, Ariolando reuniu todo o grupo e disse que, por falta de reconhecimento ao seu grande talento e, por prevalecerem ideias de incompetentes, renunciava e afastava-se de vez do grupo de teatro, desejando que fosse encontrado, para substituí-lo, alguém com pelo menos metade do seu gabarito.

Casou-se com a Dirolinda, que também teve uma passagem rápida pelo grupo, adquiriu o gosto por espetáculos. Eram sempre vistos nos teatros. Ela divertindo-se a valer, e ele sempre sisudo e observador. Quando questionado por ela sobre o texto, ele perguntava: “Que texto?” Desconcertada, ela complementava: “O enredo.” Ao que Ariolando caía de pau: “Com uma performance absurdamente fora do contexto, alguém do meu nível vai se ligar em enredo, mulher? Como se pode entender um desenrolar de cenas com uma direção estapafúrdia dessas? No meu tempo... Você nunca me viu dirigindo porque quando entrou, eu já estava saindo... Aliás, pelo seu teste, por mim nem teria entrado... Chamar esse pessoal de atores e aplaudir uma direção dessas é fazer Stanislavski mexer-se no caixão.

Diretor pior que esse, nunca vi em toda minha vida. Aquela cruzada de pernas, quando o homem sentou-se, tinha de demorar mais dois segundos; tinham de bater mais uma vez na porta, antes que ela fosse aberta; naquele cumprimento, tinha de apertar mais a mão e dar um pequeno balanço; quando o rapaz se dirigiu à janela, tinha de dar um tropeção para embelezar mais a cena e torná-la mais real; na cena da despedida, ao invés daquela luz branda, teria de ser forte e localizada no rosto da atriz, para que se percebesse a sua expressão. Ou, talvez, aí o diretor tenha sido bom, escondendo o despreparo de sua atriz, que só foi percebido por um expert como eu. Aquela cena de dirigir-se para a corda, demorou. Fração de segundos, é verdade, mas fugiu das boas técnicas.

Aquela personagem de cacoete, tinha de balançar um pouco mais a cabeça; na hora do adeus, a boca do ator tinha de se afunilar e ele estar virado para a lateral direita em direção à plateia. Como você queria que eu me ligasse em enredo, quando aconteciam erros crassos de direção, Dirolinda? Eu, como diretor desse elenco, não passaria ninguém como ator, porque eu conheço de longe quem interpreta com perfeição.”

Dirolinda só assentia com a cabeça.

Num belo dia, ao chegar em casa, Ariolando encontrou um bilhete da Dirolinda: 

“Ariolando, se você é um diretor tão bom, se conhece uma atriz de longe, por que não me reconheceu quando, ao teu lado, fingi o tempo todo te amar? Ou fui uma boa atriz? Adeus.”
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(Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018)

Luís Fernando Veríssimo (Os últimos quartetos de Beethoven)

A turma era apaixonada pela Livia. Todos os cinco. Livia lhes ensinara o “twist” e o beijo de língua. Livia usava brincos numa orelha só. Livia fora a primeira a fumar maconha e fazer tatuagem. Era Livia quem dizia o que eles deveriam ler, pensar e fazer, e não fazer. Foi da Livia a ideia do pacto de sangue para unir a turma até a morte. Seria um corte na palma da mão, depois decidiram que um corte num dedo produziria o mesmo efeito e não prejudicaria o desempenho da Livia no violoncelo. Um cortezinho no dedo, depois apertos de mão entre todos, finalmente seis mãos entrelaçadas num só nó sangrento, e o grito da Livia, “Até a morte!”. 

Mas o ritual acabara assustando em vez de unir mais a turma. O Maurinho, por exemplo, declarara que ficara nervoso com o sangue, que a Livia estava querendo puxar a turma para um lado escuro, que aquela coisa de líder e discípulos estava ficando séria demais, que eles não eram, afinal, apenas “a turma da Livia”, como os chamavam na escola, obrigados a seguir suas loucuras. 

Depois do pacto os cinco começaram a se distanciar, da Livia e uns dos outros. Continuavam indo a todas as apresentações de violoncelo da Livia e depois se reunindo no bar do seu Antonio, onde a Livia tomava cerveja preta com grapa para, como ela dizia, trazer de volta à Terra o espírito elevado pela música antes que ele evaporasse nas alturas. 

E a cara dos cinco ouvindo a Livia tocar violoncelo continuava sendo de adoração. “Embasbacados” era como o Lorival os descrevia. Os embasbacados da Livia. Mas o domínio da Livia sobre eles estava indo longe demais. O Maurinho foi o primeiro a desaparecer por completo depois do pacto de sangue. O Magro, o último. Suspeitava-se que o Magro era o único da turma que transara com a Livia e foi ele o último a acompanhar suas apresentações de violoncelo e depois ir beber, só os dois, no bar do seu Antonio, onde uma noite a Livia lhe dissera “Você também está dispensado”, decretando o fim oficial da amizade eterna. 

No fim não ficara nada da amizade, nem um vestígio, nem uma cicatriz, já que não tinham cortado a palma da mão. Foi cada um para um lado, sem saber que caminho obscuro levara Livia para longe deles, para outro Universo. Um dia, anos depois da formatura, anos depois do pacto, Maurinho encontrou-se com o Magro por acaso e perguntou se ele sabia por onde andava a Livia. O Magro não sabia. Não via mais nem seu nome no noticiário da música na cidade. Livia volatizara-se. Os dois brindaram a Livia batendo suas xícaras de cafezinho e dizendo “Linda!” “Linda!”. 

E que fim teria levado o resto da turma? Maurinho se comprometeu a reuni-los, se conseguisse localizá-los, para relembrar os velhos tempos. Talvez alguém tivesse notícia da deusa desaparecida. A verdade era que ninguém sabia muito a respeito dela mesmo quando se viam todos os dias. Ela era linda, ela lhes ensinava tudo o que sabia e eles não sabiam, mas nunca convidara a turma a subir ao seu apartamento quando iam buscá-la ou levá-la em casa, nem contara muito da sua família e da sua vida quando não estava com eles. Não sabiam onde ela conseguia maconha, e de onde tirava os livros que emprestava a quem prometesse lê-los e devolvê-los. Ela não contava e eles não perguntavam. Todos se contentavam em adorá-la sem fazer perguntas. 

Livia era Livia, as divindades não precisam contar os detalhes banais da sua existência. As divindades não precisam ter vida doméstica. Depois do encontro com Maurinho, Magro decidiu fazer o que deveria ter feito antes, investigar o desaparecimento da Livia, o que seria um pouco como investigar seu próprio passado. Estava entre empregos, tinha tempo de sobra. Ele também se assustara com o ritual de sangue, com o caminho que estava tomando aquela amizade, com a profundeza para a qual a Livia parecia querer atraí-los. Agora, anos depois, poderia encontrar a Livia sem medo, conviver com o mito sem o perigo de ser tragado pelo sumidouro. Procurou o edifício em que Livia morava. O porteiro ainda era o mesmo e se lembrava, sim, deles e da dona Livia, que vivia no quarto andar com o pai e a mãe. A mãe, dona Vitória, tocava piano. A mãe se suicidara. O pai, o porteiro não sabia. O seu José raramente saía de casa. Depois da morte da mulher tinha se mudado. Deixara tudo no apartamento do quarto andar, inclusive o piano da mulher. Mas não os livros, que levara para o novo endereço, caixas e caixas de livros. Não, o porteiro não sabia qual era o novo endereço. A dona Livia? O porteiro também nunca mais a vira. Gostava dela, apesar das suas esquisitices, das suas roupas malucas, dos brincos numa orelha só, do véu rendado que cobria o seu rosto quando ela saía à rua depois da escola. 

Magro deu uma risada. O véu! Ele se esquecera do véu. Quando Maurinho conseguiu reunir a turma, menos o Lorival, que fora viver em Curitiba, a primeira coisa que o Magro perguntou foi se todos se lembravam do véu.

— O véu! O que era mesmo que ela dizia? Que era para proteger não o seu rosto do sol, mas os outros da luminosidade do seu rosto. Uma luminosidade de santa.

— Dizia que não queria queimar a retina de ninguém.

— Agora estou me lembrando, ela dizia que tinha saído de um quadro do, como era mesmo?

— Boticelli. Era uma virgem luminosa do Boticelli.

— Metade do que ela dizia eu não entendia.

— Mas ela era linda.

— Ah, era.

— E você, Magro? Dormiu com ela ou não dormiu?

— Tá doido.

— Conta, Magro.

— Não pintou nada. Eu sou louco?

O Magro poderia dizer que chegara à beira do sumidouro, mas recuara. Não era louco.

— E vocês se lembram do pacto de sangue?

— O pacto de sangue... Até hoje eu não entendi o que ela queria com aquilo.

— O que ela esperava de nós...

O Magro contou que na última vez em que estivera com Livia ela dissera que ele estava dispensado. Tinha a permissão dela para também desaparecer, como os outros. Se a “turma da Livia” tinha uma missão a cumprir, tinha fracassado. Estavam todos dispensados. Livia desistira deles.

— Que fim terá levado?

Magro contou o pouco que sabia. O suicídio da mãe pianista, as caixas e caixas de livros do pai. E só. Também fracassara como investigador. Por ironia, foi Maurinho, o primeiro desertor, quem descobriu onde estava Livia. Por acaso. O primo de uma técnica em enfermagem que trabalhava numa clínica psiquiátrica contara que na clínica havia uma louca que tocava um violoncelo imaginário, e poderia ser a Livia. Alguém deveria ir visitá-la, para ter certeza. Só o Magro se animou. 

A clínica ficava num antigo casarão pintado de verde. Mesmo depois de tanto tempo, o Magro reconheceu o perfil da Livia, sentada perto de uma grande janela numa sala vazia e ensolarada. Não teve um choque com sua velhice, com seus cabelos desgrenhados ou com seu camisolão branco de tecido barato. Mas quase parou, emocionado, quando ela virou o rosto e viu que ele se aproximava, e sorriu — o sorriso era o mesmo! — e disse seu nome: “Felipe!” Ela se lembrava do seu nome! Ele curvou-se para beijá-la mas não conseguiu dizer uma palavra. Ela segurou sua mão e perguntou: “Como vão vocês?” 

Ele ainda demorou antes de poder dizer “Bem, bem” e depois mentir: “Todos mandam lembranças.” Depois ele foi buscar uma cadeira para sentar-se ao seu lado e ela pegou sua mão entre as suas outra vez e repetiu: “Felipe!” E disse que ele decididamente não podia mais ser chamado de Magro, e os dois riram, e o Magro teve que se controlar para que a risada não desandasse em choro. Perguntou se ela estava sendo bem tratada, se estava bem, se precisava de alguma coisa, e ela respondeu que estava ótima. Que tinha tudo que precisava. E tinha a sua música.

— Seu violoncelo está aqui?

— Não. Eles não deixaram. O que não quer dizer que eu não toque todos os dias.

E quando acabou de rir, ela disse:

— Até formei um quarteto de cordas. Ensaiamos sempre. Cada um com seu instrumento invisível, imagine só. Não é uma coisa de louco?

— São todos músicos?

— Não! A única música nesta casa sou eu. Os outros só fingem. Mas estamos progredindo. Vamos até dar um recital. Música para surdos, o que você acha? Vamos tocar exatamente o que Beethoven ouvia: nada. A sua música interna, a música da sua cabeça, um silêncio inconspurcado por sons. In-cons-pur-cado. O que você acha? Música sem a música para atrapalhar.

O Magro embasbacado.

Ela continuou:

— Lembra dos últimos quartetos de corda do Beethoven? Ninguém entendia o que ele queria dizer com aquilo, com aquela confusão, aquela quase cacofonia. Eu estou lhe aborrecendo?

— Não, não. Eu...

— Era diferente de tudo que Beethoven tinha feito até então. Ninguém entendia. Um pouco como o véu preto que eu usava para tapar o rosto, lembra? O que era aquilo? Loucura, só loucura. Era o que todo o mundo pensava.

— Nós não.

— Vocês também.

— Nós só achávamos... estranho.

— Era o que todo o mundo pensava dos últimos quartetos de Beethoven. Uma excentricidade. Uma coisa que não era para ser entendida, a não ser por ele mesmo, na sua reclusão de surdo. Mas não era isso. Os críticos também se enganaram. Mais tarde disseram que Beethoven estava, conscientemente, mudando o rumo da música. Que estava inaugurando a música moderna. Que o Beethoven dos últimos quartetos era o precursor direto de Schoenberg, de Stravinski, de Bela Bartok. E não era nada disso. Os quartetos não estavam começando nada, estavam terminando. Beethoven estava não só acabando com o período clássico como dizendo que a música racional não tinha mais para onde ir, que a própria racionalidade chegara ao fim. Ele mesmo não tinha mais para onde ir no mundo, a não ser para o seu exílio interior, para a sua loucura. A verdade é que os últimos quartetos de Beethoven não foram os últimos. Foram os penúltimos. Os últimos são os que nós tocamos. Ou fingimos que tocamos. Você quer ouvir?

— Como?

— Fique aqui. Daqui a pouco vamos ensaiar. No fim do dia. Agora me conte de vocês...

Naquela noite o Magro relatou a visita à Livia ao Maurinho. Contou que ao entardecer tinham chegado os outros três membros do quarteto, cada um arrastando uma cadeira e segurando um instrumento imaginário.

E tinham começado a fingir que tocavam, parando a intervalos para ouvir as correções e direções da Livia. Eram dois senhores e uma moça, todos de camisolão igual ao dela. Parecia um congresso de anjos. O apelido deles na clínica era “a turma da Livia”.

E o Magro contou que nunca vira uma expressão de felicidade como a do rosto da Livia tocando seu violoncelo invisível. Estava em outro Universo.

— Ela continua bonita?

— Linda. E o sorriso é o mesmo.

— Ela perguntou pela turma?

— Perguntou, perguntou. Queria saber tudo a nosso respeito.

Mas o Magro não disse ao Maurinho que se esforçara para encontrar alguma coisa para contar da turma. Algum sucesso profissional, alguma grande alegria, alguma notícia, por medíocre que fosse, que justificasse terem escolhido ficar no Universo de cá. E que, não encontrando nada para dizer, o Magro se vira, idiotamente, como se aquilo resumisse os feitos dos cinco, contando que o Lorival se mudara para Curitiba.
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(Luís Fernando Veríssimo. Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos. Publicado originalmente em 2013.)

Anton Tchekhov (A princesa)

Pelo portão grande do mosteiro masculino de N ... entrou uma caleche (carruagem de dois assentos duplos) atrelada a quatro cavalos, bonitos, fartos; os padres regrantes e os noviços, reunidos junto da parte fidalga da pousada, reconheceram na pessoa dentro da caleche, ainda de longe, pelo cocheiro e pelos cavalos, a sua boa amiga, princesa Vera Gavrílovna.

O velho de libré saltou da boleia e ajudou a princesa a sair da carruagem. A senhora levantou o véu escuro e, sem pressas, aproximou-se de cada um dos monges para a bênção, depois, carinhosa, acenou com a cabeça aos noviços e foi na direção dos aposentos.

— Então, muitas saudades da vossa princesa? — perguntou aos monges que lhe levavam a bagagem. — Estive um mês inteiro sem vos visitar. Cá estou, agora, olhai para a vossa princesa. Mas onde está o padre arquimandrita (chefe do rebanho espiritual)? Meu Deus, estou a arder de impaciência! É um velho maravilhoso, maravilhoso! Devíeis orgulhar-vos por terdes um arquimandrita assim.

Quando entrou o arquimandrita, a princesa soltou um grito de admiração, cruzou as mãos sobre o peito e aproximou-se dele para a bênção.

— Não, não! Quero beijar-lhe a mão! — disse ela, agarrando-lhe na mão e beijando-lhe três vezes, ansiosamente. — Oh, padre santo, estou tão feliz por voltar finalmente a vê- lo! O padre, se calhar, já se tinha esquecido da sua princesa, mas eu, em imaginação, vivi a cada instante no seu querido mosteiro. Isto aqui é tão bom! Há um encanto tão especial nesta vida consagrada a Deus, longe do mundo das vaidades, padre santo, que eu sinto isso com toda a alma, mas sou incapaz de exprimi-lo em palavras !

As faces da princesa estavam coradas, os olhos marejados de lágrimas. Falava sem parar, com ardor, e o arquimandrita, velho dos seus setenta anos, sério, feio e acanhado, calava-se, só dizendo de vez em quando, entrecortadamente, à maneira militar:

— Sim, alteza... às ordens ... com certeza... compreendo...

— Por quanto tempo nos honrará com a sua visita? — perguntou o velho.

— Hoje durmo cá e, amanhã, vou visitar a Klávdia Nikoláevna (há muito que não nos vemos); depois de amanhã volto e fico mais três ou quatro dias. Quero descansar aqui a alma, padre santo ...

A princesa gostava de visitar o mosteiro de N ... Nos últimos anos afeiçoara-se tanto ao lugar que vinha quase todos os meses de Verão, ficava dois ou três dias, às vezes a semana inteira. Noviços tímidos, silêncio, tetos baixos, o cheiro a cipreste, refeições modestas, cortinas baratas nas janelas — tudo isto a enternecia e predispunha para a contemplação e os bons pensamentos. Bastava-lhe ficar meia hora nestes aposentos e já se sentia também tímida e modesta, já lhe parecia que também cheirava a cipreste; o passado afastava-se para longe, perdia o valor, e a princesa dava em pensar que, apesar dos seus vinte e nove anos, tinha muitas semelhanças com o velho arquimandrita e, tal como ele, não nascera para a riqueza, para as grandezas e o amor mundanos, mas para uma vida quieta, escondida do mundo, crepuscular como os aposentos ...

Acontece às vezes que na cela escura de um asceta mergulhado em oração espreita por acaso um raio de sol, ou pousa na janela um pássaro a cantar a sua canção; o severo asceta sorri involuntariamente, e no seu peito, sob o pesar doloroso dos pecados, como de sob uma pedra, jorra subitamente, como um ribeiro, a alegria sem pecado. Também a princesa parecia trazer consigo lá de fora a mesma consolação do raio de sol ou do passarinho. O seu sorriso alegre e simpático, o seu olhar meigo, a sua voz, as suas brincadeiras, em suma, toda ela, pequenina, bem feita, com um simples vestido preto, tinha de provocar nesta gente singela e rigorosa um sentimento de ternura e felicidade. Olhavam para ela e deviam pensar: «Deus mandou-nos um anjo»... E a princesa, sentindo em cada um esse pensamento involuntário, sorria com maior simpatia ainda, e tentava parecer um pássaro.

Depois de ter tomado chá e repousado, saiu a passeio. Já o sol se pusera. Dos canteiros monásticos soprou para a princesa a fragrância úmida da resedá acabada de regar, da igreja chegou-lhe o canto baixo das vozes masculinas que, assim de longe, parecia muito belo e triste. Era o ofício da noite. Nas janelas escuras em que apenas tremeluziam, meigas, as chaminhas de lamparinas, nas sombras, na figura do velho monge sentado no adro, ao lado do ícone, com a caneca das esmolas, havia tanta e plácida paz que a princesa sentiu vontade de chorar. ..

Atrás do portão, na álea entre o muro e as bétulas, ladeada de bancos, já descera o crepúsculo. Ia escurecendo rapidamente. A princesa passeou pela álea, sentou-se num banco e mergulhou nos seus pensamentos.

Seria bom instalar-se para sempre no mosteiro, pensava ela, onde a vida era serena e despreocupada como um anoitecer de Verão; seria bom esquecer-se para sempre do príncipe, ingrato e depravado, da fortuna enorme que era a dela, dos credores que a incomodavam todos os dias , dos infortúnios , da criada Dacha que ainda hoje de manhã estava com uma expressão impertinente na cara. Seria bom ficar sentada toda a vida neste banco e ver, por entre os troncos das bétulas, a neblina noturna a vaguear em flocos lá em baixo, no sopé do monte; as gralhas a voarem numa nuvem negra, como um véu, lá ao longe, muito longe, à procura de sítio para pernoitarem; dois noviços — um num cavalo malhado, o outro a pé — que levam os cavalos para o pasto noturno e, felizes da liberdade, brincam com as crianças; as suas vozes jovens ecoam sonoras no ar imóvel, é possível distinguir cada palavra. É bom ficar sentada escutando o silêncio: ora sopra um ventinho que afaga as copas das bétulas, ora o relógio do campanário, por trás do muro, tange os quartos de hora... Deixar-se ficar sentada, imóvel, a ouvir e pensar, pensar, pensar...

Ao lado passou uma velha com um bomal. A princesa pensou que seria bom mandá-la parar e dizer-lhe umas palavras de carinho, do fundo do coração, ajudá-la... Mas a velha nem uma vez virou a cabeça e dobrou a esquina.

Um pouco depois surgiu na álea um homem alto de barbas cinzentas e chapéu de palha. Ao passar pela princesa tirou o chapéu e fez uma vênia; pela sua grande calva e pelo agudo nariz de águia, a princesa reconheceu aquele doutor Mikhail Ivánovitch que, uns cinco anos atrás, trabalhara na sua propriedade de Dubóvki. Lembrou-se de alguém lhe ter dito que, no ano passado, lhe morrera a mulher, e quis exprimir-lhe as suas condolências, consolá-lo.

— Doutor, parece que não está a reconhecer-me? — perguntou, sorrindo com simpatia.

— Sim, conheci-a logo, princesa — disse o doutor, voltando a tirar o chapéu .

— Obrigada, pensava que também o doutor se tinha esquecido da sua princesa. As pessoas só se lembram dos inimigos e esquecem os amigos. Também veio cá em oração?

— Durmo cá todos os sábados, por obrigação. Dou consultas aqui.

— Então, como tem passado? — perguntou a princesa, suspirando. — Ouvi dizer que morreu a sua esposa! Que desgraça!

— Sim, princesa, para mim é uma grande desgraça.

— Não se pode nada contra isso. Temos de suportar as desgraças com submissão. Sem a vontade da Providência divina, nem um cabelo cai da cabeça do homem.

— Sim, princesa.

O doutor respondia com frieza e secura ao sorriso simpático da princesa: «Sim, princesa.» E a expressão do seu rosto era também fria e seca.

«O que mais lhe poderei dizer?», pensou a princesa.

— Há quanto tempo não nos víamos, realmente! — disse. — Cinco anos! Durante este tempo correram tantas águas, houve tantas mudanças, que até mete medo pensar nisso! Sabe, casei-me, era condessa e tomei-me princesa. E já tive tempo de me divorciar.

— Pois, ouvi falar disso.

— Deus tem-me enviado muitas provações! O senhor, com certeza, também ouviu dizer que estou quase arruinada. Para pagar as dívidas do desgraçado do meu marido tive de vender Dubóvki, Kiriakovo e Sófiino. Fiquei apenas com Baránovo e Mikháltsevo. É assustador olhar para trás: tantas mudanças, tantas desgraças , tantos erros !

— Sim, princesa, muitos erros.

A princesa ficou um pouco embaraçada. Conhecia os seus erros, mas eram todos tão íntimos que só ela podia pensar e falar neles. Não resistiu a perguntar-lhe:

— Que erros tem em mente?

— A senhora é que os mencionou, portanto, lá sabe ... — respondeu o doutor e soltou uma risadinha. — Para quê falar deles?

— Não, diga-me, doutor! Ficar-lhe-ia muito grata. E, por favor, não faça cerimônias comigo. Gosto de ouvir as verdades.

— Não sou seu juiz, princesa.

— Não é meu juiz? Com que tom me diz isso! Portanto, sabe alguma coisa. Diga.

— Está bem, já que assim quer. Lamentavelmente, não tenho o dom da palavra e nem sempre é possível fazer-me compreender.

O doutor pensou um pouco e começou:

— Os erros são muitos, mas, na minha opinião, o essencial deles, no fundo, é o espírito geral com que ... que reina em todas as suas propriedades. Como vê, não sei exprimir-me. Ou seja, o essencial é a falta de amor, é aquela repugnância pelas pessoas que se sentia praticamente em tudo. Era na base dessa repugnância que estava construído todo o seu sistema de vida. Repugnância pela voz humana, pelos rostos, pelas nucas, pelos passos ... numa palavra, por tudo o que constitui o ser humano. Em todas as portas e em todas as escadas estão os lacaios, sebentos, brutos e preguiçosos, de librés, para não deixarem entrar quem não estiver convenientemente vestido; o átrio está cheio de cadeiras de espaldares altos para que, nos bailes e nas recepções, os lacaios não sujem com as nucas o papel de parede; em todas as salas há tapetes felpudos para abafar os passos humanos; cada pessoa que entra é avisada, obrigatoriamente, de que tem de falar baixinho e o menos possível, que não pode dizer nada que possa ter um efeito desagradável na imaginação e nos nervos. No seu gabinete, não se estende as mãos às pessoas nem são convidadas a sentar-se, do mesmo modo que agora a senhora não me estendeu a mão nem me convidou a sentar...

— Se quiser, faça o favor! — disse a princesa, estendendo-lhe a mão e sorrindo. — Credo, ficar zangado por uma insignificância destas ...

— Por que pensa que estou zangado? — riu-se o doutor, mas logo a seguir exaltou-se, tirou o chapéu e, brandindo-o, pôs-se a falar com ardor: — Confesso que espero há muito pela oportunidade de lhe dizer tudo, tudo ... isto é, que a senhora olha para toda a gente à Napoleão, como se toda a gente fosse carne para canhão. Mas o Napoleão, ao menos, tinha uma ideia qualquer, e a senhora, além da repugnância, não tem nada!

— Com que então eu tenho repugnância pelas pessoas! — sorriu a princesa, encolhendo os ombros de espanto. — Eu!

— Sim, a senhora! Quer fatos? Eu dou-lhes! Na sua Mikháltsevo vivem por esmola três antigos cozinheiros seus que ficaram cegos nas suas cozinhas por causa do calor dos fogões. Tudo o que há de gente saudável, forte e bonita nas dezenas de milhares de “jeiras” (0,2 hectares) das suas terras é levado pela senhora e pelos seus vassalos para ser criadagem, lacaio, cocheiro. Todas essas criaturas bípedes foram educadas no servilismo, emporcalharam-se, enrudeceram, perderam a fisionomia humana, numa palavra... Distraem do seu trabalho os jovens médicos, agrônomos, professores, isto é, os trabalhadores intelectuais em geral, meu Deus, distraem-nos do seu trabalho honesto e obrigam-nos, pela fatia de pão, a entrar em farsas de marionetes que fazem vergonha a uma pessoa decente! Um jovem, em menos de três anos de serviço, toma-se hipócrita, bajulador, delator. .. Acha bem? Os seus feitores polacos, esses espias infames, todos esses Kazimierzes e Kaetanes, correm de manhã à noite pelas dezenas de milhares de jeiras e, para agradarem à senhora, tentam esfolar três vezes o mesmo boi. Peço perdão, falo sem sistema, mas não importa! O povo simples, para vós, não é de seres humanos. Mesmo esses príncipes, condes e prelados que iam visitá-la eram, para a senhora, elementos de cenário, não eram pessoas vivas. Mas o principal, o que mais me revolta, é a senhora ter uma fortuna de mais de um milhão e não fazer nada pelas pessoas, nada!

A princesa estava espantada, assustada, ofendida, sem saber o que dizer, como se comportar. Nunca antes lhe tinham falado neste tom. A voz irritada e irritante do doutor e a sua fala desajeitada e tartamuda produziam-lhe nos ouvidos e na cabeça um barulho agudo, tamborilante; depois já lhe parecia que o doutor, gesticulante, lhe batia com o chapéu na cabeça.

— Não é verdade! — disse baixinho, com súplica na voz. — Fiz muitas coisas boas pelas pessoas, o senhor mesmo sabe-o bem!

— Deixe-se disso! — gritou o doutor. — Será que continua a pensar que a sua caridade é uma coisa séria e útil, e não uma farsa de marionetes? É que isso, do princípio ao fim, sempre foi uma comédia, o jogo do amor pelo próximo, um jogo tão óbvio que até as crianças e as campônias estúpidas o compreendiam! Por exemplo, essa sua, como é? casa de acolhimento para idosas desamparadas, em que me obrigou a ser uma espécie de médico-chefe, sendo a princesa a tutora honorífica. Oh, Nosso Senhor dos Céus, que linda instituição! Construíram uma casa com soalho de parquê e um catavento no telhado, selecionaram pelas aldeias uma dezena de velhas e obrigaram-nas a dormir debaixo de cobertores de flanela, em lençóis de cambraia holandesa e a comer rebuçados.

O doutor soltou uma gargalhada maldosa para dentro do chapéu e continuou, titubeante mas rápido:

— Brincavam a isso, pois! A criadagem do asilo esconde os cobertores e os lençóis, fecha-os à chave, para as velhas não os sujarem: que durmam no chão, as velhas bruxas! A velhota não se atreve a sentar-se na cama nem a vestir um casaco, nem a andar pelo parquê encerado. Era tudo guardado para os dias de parada, escondido das velhas como dos ladrões, e as velhas, à socapa, angariavam a comida e a roupa a mendigarem uma esmola por amor de Cristo e, dia e noite, rogavam a Deus que pudessem fugir o mais depressa possível da prisão e dos sermões dos canalhas cevados a quem a senhora encarregara de as vigiar. E que faziam os empregados superiores? Uma maravilha! Duas vezes por semana, mais ou menos, ao anoitecer, chegavam a galope trinta e cinco mil estafetas a anunciar que no dia seguinte a princesa, ou seja, a senhora, estaria no asilo. Tal significava que no dia seguinte seria preciso abandonar os doentes , ataviar-se e ir assistir à parada. E pronto, eu ia. As velhas, vestidas de lavado e de novo, formam uma fila e ficam à espera. Ao longo desta formatura vai passando uma ratazana de guarnição reformada: o encarregado do asilo com o seu sorrisinho melífluo de delator. As velhas bocejam e trocam olhares, mas têm medo de se queixar. Esperamos. Chega a galope o subfeitor. Meia hora depois chega o feitor-chefe, depois o gerente do escritório de assuntos econômicos, depois mais alguém, e mais alguém ... um sem-fim deles! Todos com fisionomias enigmáticas e solenes. E nós esperamos, esperamos, mudamos de pé, olhamos para o relógio: tudo num silêncio mortal, porque todos nos odiamos mutuamente e estamos de mal uns com os outros. Passa uma hora, outra hora e, finalmente, avista-se ao longe uma caleche e ... e ...

O doutor desatou aos risinhos e articulou numa voz fininha:

— A senhora apeou-se da caleche, e as velhas, a um sinal da ratazana de guarnição, começam a cantar: «A glória do Senhor em Sião é incapaz a língua de exprimi-la...» Bonito, não é?

O doutor ria-se agora num tom de baixo, às gargalhadas, a abanar a mão como que a dizer que, assim a rir-se, não conseguia dizer palavra. Ria-se de um modo pesado, brusco, com os dentes apertados, como se riem as pessoas sem bondade, e pela voz, pela cara, pelos olhos brilhantes, descarados, percebia-se que desprezava profundamente a princesa, o asilo, as velhas. Não havia nada de cómico no que contava, tão desajeitada e grosseiramente, mas ria-se com prazer, mesmo com alegria.

— E a escola? — continuou, ofegando de riso. — Lembra-se de ter desejado dar aulas, a própria princesa, aos filhos dos mujiques? Pelo visto, dava-lhes umas aulas excelentes porque muito rapidamente todos os garotos fugiram, de maneira que, depois, foi preciso açoitá-los e dar-lhes dinheiro para que frequentassem as suas aulas. E lembra-se de ter desejado alimentar a biberão (mamadeira), pessoalmente, as crianças de peito que tinham as mães a trabalhar nos campos? A senhora andava pela aldeia a chorar porque não havia criança nenhuma dessas para seu serviço, uma vez que todas as mães as tinham levado com elas para o campo. Depois o regedor deu ordem às mães para que deixassem, de vez, um bebê para a senhora se divertir. Coisa de espantar! Toda a gente fugia, como o rato do gato, da sua benfeitoria! E porquê? É simples! Não porque o nosso povo seja ignorante e ingrato, como a senhora explicou nessa altura, mas porque em todas as suas fantasias, desculpe a expressão, não havia uma gota de amor nem de misericórdia! Havia apenas a vontade de se divertir com bonecos vivos, mais nada... Quem não sabe distinguir os seres humanos dos caniches não deve meter-se em obras de caridade. Asseguro-lhe que entre as pessoas e os caniches há uma grande diferença!

O coração da princesa batia terrivelmente, tamborilava-lhe nos ouvidos; continuava com a sensação de que o doutor lhe estava a martelar na cabeça com o chapéu. O doutor falava muito depressa, com ardor e sem graça, titubeava e gesticulava exageradamente; para a princesa apenas era claro que ali, à sua frente, estava a falar com ela um homem rude, mal-educado, maldoso e ingrato, mas o que pretendia esse homem e do que estava a falar — isso ela não compreendia.

— Vá-se embora! — disse numa voz lamuriosa, levantando as mãos para proteger a cabeça do chapéu do doutor. — Vá-se embora!

— E como a senhora trata os seus empregados! — O doutor continuava a indignar-se. — Não os considera seres humanos e despreza-os, como aos piores dos vigaristas. Por exemplo, permita que lhe pergunte: por que me despediu? Prestei os meus serviços durante dez anos ao seu pai, depois à senhora, honestamente, sem férias nem feriados, ganhei a afeição de toda a gente numa roda de cem “verstás” (*1,06 quilometros), e um belo dia, de repente, declara-me que já não há lugar para mim! Porquê? Até hoje ainda não percebi! Sou doutor em medicina, fidalgo, formado pela Universidade de Moscovo, pai de família, enfim, um zé-ninguém tão miserável e insignificante que se pode pôr no olho da rua sem lhe explicarem os motivos! Cerimônias comigo para quê? Vim a saber mais tarde que a minha mulher, às escondidas de mim, foi ter com a senhora por três vezes, para pedir por mim, e que a senhora não a recebeu nenhuma vez. Disseram-me que ficou no átrio, a chorar. Nunca perdoarei o que fez à minha defunta! Nunca!

O doutor calou-se e apertou os dentes, procurando com esforço mais qualquer coisa desagradável e vingativa para dizer. Lembrou-se e, subitamente, o seu ar carrancudo passou a radiante.

— Vejamos, por exemplo, as suas relações com este mosteiro! — disse, numa ânsia. — A senhora nunca poupou ninguém, e quanto mais sagrado é o lugar, tanto mais provável será que leve pela tabela grande da sua misericórdia e da sua meiguice angélica. O que vem cá fazer? O que precisa daqui, da casa dos monges, se me permite a pergunta? O que lhe interessa Hécuba, e que interesse tem Hécuba por si? Mais uma vez, isto é uma brincadeira para si, um capricho, o escárnio pela pessoa humana, mais nada. É que a senhora não tem fé no Deus dos monges, o seu coração tem o seu próprio deus, a quem chegou por sua própria conta nas sessões de espiritismo; olha para os rituais da Igreja com condescendência, não vai aos ofícios, nem noturnos, nem matutinos, dorme até ao meio dia... o que vem cá fazer, então? ... Vem ao mosteiro alheio com o seu próprio deus e imagina que o mosteiro considera isso uma grande honra para ele! Queria! A propósito, pergunte aos monges quanto lhes custam as suas visitas! Dignou-se aparecer cá hoje ao fim da tarde, mas já anteontem passou por cá um estafeta a cavalo mandado do escritório para avisar da sua visita. Ontem passaram o dia a preparar-lhe os aposentos e ficaram à espera. Hoje veio a vanguarda: uma criada de quarto descarada que não parava de correr pelo pátio, de fazer barulho, de incomodar toda a gente com perguntas, de mandar em todos ... detesto! Hoje, os monges estiveram todo o dia alerta: porque, se não for recebida com todo o cerimonial, será uma desgraça! Fará queixa ao bispo! «Saiba, reverendíssimo, que os monges não gostam de mim. Não sei como posso ter provocado a hostilidade deles. É verdade que sou uma grande pecadora, mas também sou tão infeliz!» Já um mosteiro teve sarilhos (confusão) por causa da senhora. O arquimandrita é um homem ocupado, um cientista, mas a senhora, volta e meia, chama-o aos seus aposentos. Não tem respeito nenhum pela velhice, nem pela reverência. Se ainda, ao menos, fizesse umas boas doações, já a coisa não seria tão ofensiva, mas nestes anos todos, nem cem rublos receberam de si! 

Quando alguém a incomodava, não a compreendia, a ofendia e quando não sabia o que devia fazer ou dizer, a princesa, habitualmente, começava a chorar. Também desta vez acabou por tapar a cara com as mãos e, num tom fininho e infantil, começou a chorar. O doutor calou-se de repente e olhou para ela. Ficou sombrio, a cara severa.

— Desculpe-me, princesa — disse numa voz surda. — Fui levado por maus sentimentos e exagerei. Está mal da minha parte.

Tossiu, embaraçado e, esquecendo-se de pôr o chapéu, afastou-se rapidamente da princesa.

No céu já cintilavam as estrelas. Do outro lado do mosteiro devia ver-se a lua, porque o céu estava claro, transparente e terno. Ao longo do muro branco do mosteiro voavam, sem barulho, os morcegos.

O relógio bateu pausadamente três quartos de hora, talvez o quarto para as nove. A princesa levantou-se e foi devagar até ao portão. Sentia-se ofendida e chorava, parecia-lhe que as árvores, as estrelas e os morcegos tinham todos pena dela; e que, se o relógio dera as horas tão melodiosamente, fora para lhe exprimir compaixão. Chorava e pensava que seria bom entrar no mosteiro para toda a vida: no calmo crepúsculo estival, passearia sozinha pelas alamedas, ofendida, insultada, mal compreendida, e então só Deus e o céu estrelado veriam as lágrimas da sofredora. Na igreja prosseguia ainda o ofício noturno. A princesa parou e pôs-se a escutar o canto: que bem soava no ar escuro e parado! Que doçura chorar e sofrer ouvindo este canto!

Ao entrar nos seus aposentos, olhou no espelho o seu rosto banhado em lágrimas e pôs pó-de-arroz, depois sentou-se para jantar. Os monges sabiam que ela gostava de esturjão em vinagre, de cogumelos minúsculos, de vinho de Málaga e de doces de mel simples que deixam na boca o aroma do cipreste; então, sempre que a princesa vinha, serviam-lhe tudo isso. Comendo os cogumelozinhos e acompanhando-os de Málaga, a princesa sonhava que ficaria definitivamente arruinada e abandonada, que todos os seus feitores, gerentes, escriturários e criados, por quem tinha feito tanto, a trairiam e começariam a ser malcriados com ela, que todas as pessoas do mundo a atacariam, troçariam dela, usariam de má-língua para com ela; que abdicaria do seu título de princesa, do luxo e da vida em sociedade, que iria para o mosteiro e não diria a ninguém qualquer palavra de ressentimento; que rezaria pelos seus inimigos e, então, toda a gente a compreenderia, viria pedir-lhe perdão, mas já seria tarde ...

Depois do jantar ajoelhou-se no canto, diante do ícone, e leu dois capítulos do Evangelho. A seguir, a criada fez-lhe a cama e a princesa deitou-se. Espreguiçando-se debaixo do cobertor branco, suspirou doce e profundamente, como se suspira depois do choro, fechou os olhos e começou a ser levada pelo sono. ...

De manhã acordou e olhou para o seu reloginho: nove e meia. Estendia-se ao longo do tapete de cama uma estreita e claríssima faixa de luz que caía da janela e alumiava tenuemente todo o quarto. Por trás da cortina escura da janela zumbiam as moscas.

«É cedo!», pensou a princesa, e fechou os olhos.

Na cama, espreguiçando com moleza, lembrou-se do encontro com o doutor e de todos os pensamentos que tivera antes de adormecer; lembrou-se de que era muito infeliz. Depois vieram-lhe à memória o marido que vivia em Petersburgo, os feitores, os médicos, os vizinhos, os funcionários públicos seus conhecidos ... Uma longa fila de rostos masculinos familiares esvoaçou pela sua imaginação. Sorriu ao pensar que, se todas essas pessoas pudessem penetrar na sua alma e compreendê-la, cairiam todas aos seus pés ...

Às onze e um quarto chamou a criada.

— Vamos, Dacha, anda vestir-me — disse em voz lânguida. — Não, vai primeiro mandar atrelar os cavalos. Tenho de ir visitar a Klávdia Nikoláevna.

Saindo dos aposentos e dirigindo-se para a carruagem, teve de apertar os olhos por causa da luz do dia brilhante e riu de prazer: o dia estava admirável! Observou com os olhos piscos os monges que se tinham reunido à entrada para se despedirem dela, acenou-lhes carinhosamente com a cabeça e disse:

— Até breve, meus amigos! Até depois de amanhã!

Ficou agradavelmente surpreendida ao ver também o doutor à entrada, misturado entre os monges. A cara dele estava pálida e severa.

— Princesa, — disse ele, tirando o chapéu e sorrindo com uma expressão de culpa - há muito que estou aqui à sua espera. Perdoe-me, por amor de Deus ... Um sentimento mau, vingativo, levou-me ontem a dizer-lhe ... asneiras. Numa palavra, peço desculpa.

A princesa sorriu com simpatia e levou a sua mãozinha aos lábios dele. O doutor beijou-lhe e corou.

Imaginando-se um passarinho, a princesa pousou na carruagem e acenou com a cabeça para todos os lados. Tinha a alma cheia de alegria, luz e ternura; ela própria sentia que o seu sorriso estava extremamente carinhoso e meigo. Quando a carruagem se pôs a rolar na direção do portão, depois pelo caminho poeirento, passando ao lado das isbás (casa de campo na Rússia) e dos pomares, ao lado dos compridos comboios de carroças com mercadorias e dos peregrinos que iam em fila para o mosteiro, ainda a princesa estreitava os olhos e sorria docemente. Pensava que não havia maior prazer no mundo do que transportar sempre consigo, para todo o lado, a alegria, a luz e a ternura, perdoar as ofensas e sorrir com carinho aos inimigos. Os mujiques que vinham em sentido contrário faziam-lhe vênias, a caleche fazia um barulhinho rocegante (arrastado), de sob as rodas levantavam-se nuvens de poeira que o vento levava para os campos de centeio dourado, e parecia à princesa que o seu corpo não balançava entre as almofadas da caleche, mas sim entre as nuvens, e que ela própria se assemelhava a uma nuvem levezinha, transparente ...

— Que feliz eu sou! — sussurrava, de olhos fechados. — Que feliz!
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(Conto publicado originalmente em 1889, no Jornal russo Novo Tempo)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 168


Gosto de ver constantemente na TV documentários sobre cultura, história, geografia e outros. São também momentos de busca e apreensão. A sede de cultura agradece.

Dia destes sintonizei um programa mostrando uma edificação histórica imensa. Relevância cultural dentre tantas Brasil a dentro.  

Pensei, um colégio de séculos passados, daqueles abrangentes, grandes, fabricante de cabeças pensantes que promovem o progresso e conquistam o mundo.  

Não, não era! Nada mais do que uma penitenciária centenária transformada em centro cultural.

Ora, pois! Ora, vejo! Ora, pensemos! Um país desde sempre carente de instrução e cultura, quantos prédios terá construído para servir de prisão de delinquentes. De toda espécie.  

Imaginemos quantas escolas se teriam erguidas com valores gastos em sentido contrário. Pior ainda, seguimos necessitados de locais para escolas, o que significa gente longe do ensino, do aprendizado, da expansão da curiosidade. E o país com índices ridículos e lamentáveis perante outros no mundo.

Não sejamos muros de lamúrias, ajudemos a fazer a nossa parte, como Cristo o fez em sua jornada terrena - espalhando saberes e conhecimentos pelos rincões da pátria.
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(Texto enviado pelo autor)

Nelson Rodrigues (O escrete precisa de amor)


Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: — só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio.
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Amigos, é a grande viagem para a vitória, a gigantesca vitória. Logo mais, a cidade vai se despedir do escrete. Não será um adeus, mas um “até o tri”. E ninguém deve ficar em casa. Como se omitir, se a seleção precisa de todos nós e de cada um de nós? Eis a verdade inapelável e eterna: — só o grande amor faz o grande escrete.

E, por isso, temos que inundar o Maracanã com o nosso amor. O escrete quer sentir também a nossa admiração. Eu sei que o brasileiro e Satã têm algo em comum. Como se sabe, o abominável Pai da Mentira é um impotente do sentimento. Não há, em toda a sua biografia, um único e escasso momento de ternura. E o Satanás daria a metade de suas trevas por uma furtiva lágrima de amor. Pois bem. Já o brasileiro é o impotente da admiração.

Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: — só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio. Mas hoje é a última noite. E a admiração tem que explodir, afinal tem que explodir. É difícil, eu sei que é difícil.

Outra verdade eterna: — como bom brasileiro, o Maracanã nasceu com a vocação da vaia. Tenho dito: — lá, vaia-se até minuto de silêncio. Sem maldade, sem premeditação. A vaia arrebenta sem querer, por um desses automatismos inapeláveis. Mas repito: — o doce escrete vai partir. É preciso que as vaias emudeçam. Imaginem vocês se todo o Maracanã, de pé, aplaudir o escrete. A seleção há de ter uma sensação de onipotência.

Pode parecer que eu esteja, aqui, profetizando o tricampeonato. Realmente, eu estou profetizando. Vamos ser tricampeões. Amigos, a grande vitória é anterior a si mesma, ou por outra: — antes de acontecer, ela já estava escrita. Estava escrito que o Brasil seria campeão na Suécia e bicampeão no Chile. Do mesmo modo, está escrito que será tricampeão na Inglaterra.

Os pessimistas (que sempre os há) rosnam pelas esquinas e pelos botecos: — “Humildade, humildade.” Mas é uma abjeção falar em humildade no Brasil. Olhem este povo de paus de arara. Ante as riquezas do mundo, cada um de nós é um retirante de Portinari, que lambe a sua rapadura ou coça a sua sarna. A humildade tem sentido para os césares industriais dos Estados Unidos. Já o pau de arara precisa, inversamente, de mania de grandeza.

Eis a caridade que nos faz o escrete: — dá ao roto, ao esfarrapado uma sensação de onipotência. Em 58, quando acabou o jogo Brasil x Suécia, cada brasileiro sentiu-se compensado, desagravado de velhas fomes e santas humilhações. Na rua, a cara dos que passavam parecia dizer: — “Eu não sou vira-latas!” Em 62, a mesma coisa. De repente, sentimos que o brasileiro deixava de ser um vira-latas entre os homens e o Brasil um vira-latas entre as nações.

Amigos, vamos enxergar o óbvio ululante: — cada exibição brasileira na Inglaterra será uma aventura pessoal de oitenta milhões de sujeitos. Não há distância entre nós e a equipe verde-amarela, ou por outra: há uma distância falsa, uma distância irreal. Na verdade, estamos encarnados no escrete.
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(Nelson Rodrigues. Pátria de chuteiras. 1994. Publicado originalmente em15.06.1966 no Jornal O Globo, na Coluna do Autor.)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Fogo morto)


HOUVE UM TEMPO lindo, um tempo majestoso em minha vida onde cada segundo vivido, parecia pegar força e alento e se transformar em fogo. Não o que queima e destrói, mas aquela chama suave, quente e constante que brilhava nos olhos de quem amava e que aquecia cada canto da casa, que fazia o tempo parecer mais lento e o mundo mais simpaticamente bonito. 

Falo daquele fogo, que se constituía em minha alegria, no meu motivo, ou mais claro ainda, na certeza de que o bem imarcescível existia e não só existia, permanecia. 

A chama se moldava plena. Brilhava nos dias comuns e nos dias de festa. Se fazia presente em cada risada, em cada abraço, em cada palavra dita com carinho e respingos de afeto. 

Parecia que nunca se apagaria, que a lenha nunca faltaria, que o vento sempre seria brando e que aquele brilho se constituiria na luz eterna dos meus dias num para sempre infindável. Eu vivia também naquela chama uma recepção sem medo, sem desconfiança, sem ao menos imaginar que o fogo, um dia, poderia findar. 

De fato. O tempo passou e as coisas foram para o beleléu. Se repaginaram da água para o vinho. A lenha posta à queima, acabou aos poucos, sem que eu percebesse. A brasa impetuosa, que antes se mostrava alta e forte, se quedou minguada, foi decaindo, afundando, estuporando, perdendo o brilho, perdendo a grandiosidade do calor. 

Até que, sem alarde, sem grande estrondo, se apagou. Deixou de ser fogo e se tornou apenas num punhado de cinzas. 

Cinzas frias, leves, sem calor, sem brilho, sem vida. Por conta disso, do nada, inesperadamente, o vento veio não sei bem de onde, mas veio. Chegou de mansinho, se abancou sem pressa, sem dizer “oi” sem pedir licença, sem sequer rugir. 

E, soprando devagar, levou aquelas cinzas para longe. Carregou tudo o que restou da frágua ensandecida e da intrepidez incandescente. Levou para além dos meus olhos, os quais hoje já não brilham como antes, e apenas enxergam o mundo esmaecido, sem calor, sem as cores espalhafatosas da vida que outrora se faziam imensuráveis. 

O fogo agora está morto. O que foi feliz, foi. E hoje resta apenas o silêncio sepulcral e taciturno, onde um dia houve fogo e chama, chama e fogo de excitação escaldante. Em seu lugar pintou uma saudade que dói, que machuca, que fere, que amedronta, porque eu sei que aquelas cinzas, levadas pelo vento, jamais voltarão a ser fogo. Ficou no ar a indagação: o que me restou de tudo? Quase nada! 

Somente o esperar, um esperar como disse Moacir Franco. “Esperar, sem saber ao certo o que me aguardava.” E, em pleno céu que se espraiou por sobre minha cabeça, por conta disso, bailou no ar, pairando indefinidamente umas perguntinhas sem respostas. Quanto tempo faltava para o meu encerramento? Quantas vezes mais eu abrirei os meus olhos e verei o sol voltar? 

Quantas manhãs ainda trarei comigo a felicidade plena que ainda me abraça antes de chegar a última, ou seja, aquela derradeira em que não haverá mais espaço para eu caminhar? Aprendi uma coisa importante nesses anos de chamas e cinzas: o tempo não corre com pressa, nem nos abandona de uma vez. 

Ele para. Estanca, freia, dá um tempo, abarranca, obstrui. 

A grosso modo, ele breca de repente e espera a gente passar. Faz isso com uma paciência que assusta, tipo assim, como quem fica de pé à porta, vendo a casa esvaziar, sem chamar ninguém, sem apressar o passo. O tempo não me diz quantos dias ainda estão guardados. Não há relógio que marque a hora de minha vida sair de cena. O que sei de concreto é que cada um que amanhece é tipo o sabor gostoso de um presente inesperado que chega calado, na surdina, meio triste, como se já soubesse que o fogo aqui dentro de peito já não aquece como antes. 

O tempo espera que a gente passe? 

Sim. Mas o que eu não consigo entender é: quando será que ele irá me esperar do outro lado, onde não haverá mais cinzas, nem ventos, nem contagem de dias? Até lá, eu fico aqui, sofrendo, esperando. Como quem sabe que o fim é caminho, não parada. O que me resta, mudando de pau pra cavaco, o que me resta de tudo isso? Meu Deus, quanto tempo me falta? 

Quantas vezes mais eu vou abrir os olhos e ver o dia nascer? Quantas manhãs ainda vão me encontrar aqui antes de chegar a última em que eu não mais despertarei? Aprendi com a vida que passou e com a labareda que se apagou, que o tempo não corre. Ele para. Ele para e fica ali, de olho, de butuca, as antenas ligadas, esperando a gente passar. 

Não nos empurra, não nos avisa. Só espera, quieto, tranquilo, com a paciência de Jó como quem fica à porta da casa vendo os cômodos sendo esvaziados. Não me dizem quantos dias ainda tenho. Ninguém sabe. O relógio não marca a hora exata de parar. Só sei que o fogo que um dia ardeu forte hoje é cinza fria, e o vento já levou tudo para onde meus olhos não alcançam. 

Mas o danado do tempo continua ali, segue parado, espiando, olhando e esperando. Esperando, logicamente, eu passar. Um dia vou, de fato, passar de vez. E o que foi chama, o que foi riso, o que foi vida, vai ficar só na memória de quem também um dia há de passar ou via outra, já passou. O que me resta de tudo?  

Nada. Só esperar. Por Deus, quanto tempo falta para o meu encerramento? Quantas vezes mais amanhecerei? 

Conscientizei nesse caminho sem sombra e concluí que nesse mato sem cachorro que o tempo para e espera a gente passar. Mas, ainda assim, a indagação persiste: terei tempo de pedir perdão aos que magoei?  Terei tempo de implorar pela clemência dos meus filhos e netos que em tempos idos os abandonei a própria sorte? Terei a graça de igualmente pedir perdão às “minhas ex-mulheres” que passaram pela minha vida? As que de alguma forma fiz mal, as que magoei? 

Ou, por outro lado, o tempo já está acabando, e o perdão também já foi levado para longe, carregado para além da minha visão esmaecida e sem vida? O tempo espera a gente passar. Entretanto, será que ele me dará alguns minutos a mais até eu conseguir dizer para todos que cruzaram os meus caminhos: “Me perdoem”?

(Texto enviado pelo autor)
Biografia do autor = https://singrandohorizontes.blogspot.com/p/aparecido-raimundo-de-souza-1953.html