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terça-feira, 21 de abril de 2026

Washington Daniel Gorosito Pérez (Micro-contos)

(tradução do espanhol por Jfeldman)


O MILAGRE DA ÁGUA

Os agricultores, de pé em seus tristes e áridos terrenos, pintados de amarelo, desertos intermináveis, esperam...

Seus olhos estão fixos no céu, desejando romper as nuvens escuras, na esperança de que delas brotem o milagre da água.

A esperança brilha em seus olhos.

Chuvosos...

EM DEFESA DO GOL

Intelectuais desprezam estádios.

Ser torcedor é algo profundo, mesmo que seja apenas um jogo.

Provoca reações boas e ruins que nos levam além do racional, do conveniente, do esperado.

Ser torcedor vem desde o início dos tempos, e isso não é pouca coisa. Qualquer um que já tenha gritado um gol inesquecível, perdido na multidão nas arquibancadas, sabe que isso vem de uma essência misteriosa da humanidade, algo quase desumano.

E se o gol, Meritíssimo, é o orgasmo do futebol... é por isso que o matei.

Por perder o pênalti no último segundo, me deixando sem fôlego e me roubando o prazer de gritar Gooooool.
 
OSSOS

Os blocos de basalto parecem criaturas que se organizam com olhares silenciosos. São os ossos da terra. Os tremores são crises de febre reumática.

SILÊNCIO

Bocas que antes gritavam, agora silenciam sua dor. Buscam apenas descobrir do que é feito o silêncio.

OLHARES

O homem tornou-se o cego cósmico. Há milhões de olhos invisíveis que buscam piedosamente o olhar de outro ser humano que constantemente os evita.

Olhares que transmitem palavras isoladas. Olhares que emitem um verso, um poema, um livro inteiro.

Há um murmúrio de silêncio que alcança nossos olhos. Olhares reais transcendem o tempo real. O ciclope me observa.

HOMO TORCIDUS

O homem-caranguejo olha para você seriamente, sem piscar... Mas ele nunca se vira.

EU TE CONHEÇO

Sempre haverá alguém que pensa que te conhece melhor do que você mesmo.
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WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ nasceu em 24 de junho de 1961, em Montevidéu, Uruguai. Desde 1991, reside em Irapuato, Guanajuato, México. Naturalizado cidadão mexicano em 1999. É formado em Jornalismo aplicado às Mídias Sociais pelo Uruguai, possui bacharelado em Sociologia da Educação pelo México, mestrado em Sociologia da Educação pelo México e é doutorando em Pedagogia pelo México.

*Escritor, poeta, ensaísta, pesquisador, jornalista, palestrante e professor universitário. É autor da coluna "Encuentro con Gorosito" (Encontro com Gorosito), que aborda política internacional e temas culturais e é publicada em países das Américas e da Europa. É analista de informação e defesa internacional. Algumas de suas obras literárias e jornalísticas foram traduzidas e publicadas em inglês, russo, japonês, italiano, romeno e português. Recebeu prêmios de poesia, ensaio, conto e jornalismo no Uruguai, México, Brasil, Chile, Argentina, Estados Unidos, Espanha, França e Alemanha.

Fontes:
UyPress - Agencia Uruguaya de Noticias
https://www.uypress.net/Microcuentos/Microcuentos-Segunda-entrega-Autores-Varios--uc131820
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Marília Trindade Barboza (Ao ventre da alma)


As fotos andavam escondidas, fora da vista, sumidas, para evitar lembranças, sofrimento, esperança. Pois foi só tocá-las e voltou tudo, memórias saídas do escuro, como pedras preciosas sobre negro veludo. Aliás, mesmo sem fotos, você volta. A verdade é que nunca se foi. Eu saio, ensaio; mudo de casa, crio asa; mudo de cidade, que maldade; mudo de país, não estou feliz. Só não mudo de você, por quê? Cansei de fingir que sou dura, que não sofro, que curei. Não vai passar, eu sei. Sou, para sempre, rainha de um só rei.

Sabe por quê? A capacidade de ser feliz que senti ao seu lado foi algo tão violento que é impossível esquecer... ou substituir. Fui tão completa, tão preenchida, tão total que chegava a doer. Não faltava nada, eu não queria mais nada além de respirar... você. Respirar o ar que você expirava, beber a água que você suava, comer... não, nem era preciso comer nada além da sua presença. Eu me alimentei de você.

Talvez tenha ido com sede demais ao pote. Antropofagia? Quem sabe? A capacidade de um sagitariano se arremessar sobre o que ama é absolutamente indescritível!!! Se arremessar da montanha, se jogar no espaço, virar bicho, virar ave, virar deus. Fazer milagre, beber vinagre e achar que é vinho. Que é champanhe francês!!!

Vivi ao seu lado o dia mais feliz da minha vida — meu Deus, quantos são os seres humanos que sabem qual foi o dia mais feliz de suas vidas? O dia em que eu quis morrer, pois sabia que nada haveria de mais importante e de profundo em minha existência do que aquele momento.

Estado de graça... como sei o que é isso!!! Chegar pertinho da morte. Mais um pouquinho, você vai, sucumbe, não resiste, o coração para. A felicidade plena pode ser letal. Naquele instante, naquela cidade, naquele quarto de hotel, soube claramente que o meu momento era aquele. E as realizações anteriores, que pareciam tão efetivas, tão integrais? Viraram pó! Na hora. Em silêncio, falei com Deus e pedi: “Senhor Deus, me mata agora, ou vou correr, o resto da vida, atrás desse momento”. Deus não me atendeu. Sobrevivi. E é o que faço, ainda hoje.

Enquanto durou, que entrega! Com totalidade. Feito mãe parideira, gente ou bicho (há diferença, quando se trata de mãe?) que, apesar do amor e do medo, abre as pernas e, aos gritos de dor e êxtase, joga o filho no mundo. Que nem peito materno que se entrega, sem lascívia, à boca da cria. Igual à ingênua freirinha que renuncia ao amor do homem e se oferece ao orgasmo divino. Ou como língua que, sensualmente gelada, continua se dando ao sorvete. Um ser se doando a outro sem qualquer restrição. “Toma, faz o que quiser. Usa e abusa. Pode até jogar fora. É tudo seu”.

A plenitude se desfez no éter, antes de se completar o ciclo. Fui colhida pela morte. Não a minha, não a sua. A morte da minha crença na nossa capacidade de ser feliz. O pé na terra. A falta de relacionamento entre a terra e o pé. Você se foi e me levou consigo: vísceras, órgãos vitais, neurônios, metros cúbicos de ar, litros de sangue. Matéria orgânica que, se fosse encaminhada a um teste de laboratório para se descobrir a que tipo de ser pertencia, gente ou bicho, possivelmente o resultado seria: ameba...

Costumo sorrir em silêncio dessa literatura, a séria ou a leviana, sobre a completude da mulher. Essa gente não sabe de nada! Bastava olhar pra você que eu gozava até com os fios do cabelo. Com seu discreto estrabismo. Com essa pele morna e lisa que eu não cansava de acariciar. A boca... não era uma boca, era o paraíso. A voz, os abraços, os dengos. Orgasmos múltiplos. Põe múltiplos nisso! Infinitesimais... Cristalizados nas tais fotos que, hoje, escondo com medo de sofrer. Está tudo ali, no meu olhar pra você, cadela olhando o dono com unção. Momentos que deveriam ter-se cristalizado num filho nosso. O mundo merecia esse filho, fruto de uma cama feita para ser a origem do mundo. Era a cama que o criador quis dar ao homem e ele não teve competência para perceber. A cama e a mesa. Como gostávamos de comer, em todos os sentidos possíveis, tudo farto, suficiente, prazeroso.

Será que pra você a dose foi forte demais? Excedeu suas forças, sua capacidade, seu momento de vida? Às vezes, penso que sim. Só eu estava pronta. Você, não. Mas eu precisava entender o porquê. Para mim, foi tudo na medida certinha. Se o seu número fosse o mesmo, aquele instante não teria sido apagado da história da humanidade. Talvez eu não tivesse percebido algumas nuances. Lembro-me que, quando nos amávamos como loucos, às vezes você se feria. A fricção de nossos corpos esfolava o seu. Quem sabe sua alma também se ralava? Meu corpo ficava pleno, saudável, exultava. Em mim, ele e a alma estavam prontos, íntegros, confiantes.

Então... A explicação para o fim de tudo foi tão completamente sem explicação... Não foi? Achava que nada poderia acabar conosco. Hoje, admito que um discreto e eventual desequilíbrio na emoção de ambos, que nem percebíamos, pudesse ter a força de um vírus mortal... O meu “nós” se confundia com a vida. Quando acabou, morri... Você continua vivo?

Esta pessoa que escreve, fala, trabalha, se relaciona com o mundo é apenas uma sobrevivente, um egum, um zumbi. Espírito recolhido às esferas celestiais — ou às cavernas do inferno, sei lá — o corpo ficou por aí, destituído da alegria essencial, do prazer. Na juventude, se impasses ou dubiedades exigiam-me decisão, minha mãe alertava: “Sua alma, sua palma”. Corri o risco, mãe.

Borboleta perdida no túnel do tempo, reentranhei, regredi, sou lagarta outra vez. Recolhida, como feto, ao ventre da alma. Com a minha história presa na mão fortemente fechada.
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MARÍLIA TRINDADE BARBOZA DA SILVA nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Formada em Letras e Direito, é Mestre em Linguística e Doutora em Ciência Política. Especialista em Cultura Popular, autora de mais de 15 livros, vários deles consagrados pela crítica especializada (biografias de Pixinguinha, Cartola, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Caymmi, Luperce Miranda, Carlos Cachaça etc.), de ensaios sobre localidades do Rio, como a Mangueira e os subúrbios de Madureira e Irajá, ou ainda o Vale do Rio Paraíba, berço da cultura afro-descendente. Produziu discos, documentários em vídeo e shows, dirigiu espetáculos musicais. É compositora (parceira dos violonistas João de Aquino e Daniel Júnior e dos compositores Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Argemiro Patrocínio, entre outros). Atuou no magistério em todos os níveis, tendo sido professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro, da PUC, da Universidade Gama Filho e da Universidade Santa Úrsula e várias Escolas Municipais e Colégios Estaduais do Rio de Janeiro. Desenvolve trabalho de pesquisa das raízes das músicas portuguesa, africana e brasileira (Projeto Reflexões Lusófonas) em parceria com pesquisadores de diversos países da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Por cinco vezes, obteve 1º lugar em Concurso Nacional de Monografias, realizados pela Funarte, além do Prêmio Nacional da Cultura, do MinC, a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara Municipal/RJ, em 2001, e a Medalha Tiradentes, da A.L.E.R.J, em 2003.

Fontes:
Arnaldo Nogueira Júnior. Projeto Releituras. 28.09.2019
www.releituras.com/mtbarboza_menu.asp.htm (site desativado)

domingo, 19 de abril de 2026

Gaston Leonardo Stefani (Lágrimas de sangue)


Há poucas semanas, testemunhei um acontecimento que me deixou ao mesmo tempo estarrecido e com medo. Este episódio ocorreu numa cidade do interior de Minas Gerais e se eu não tivesse visto, não teria acreditado.

Tudo começou numa terça-feira. Estava passando as férias na casa de um amigo meu chamado Rodrigo. Uma de suas sobrinhas – a Carol – desfrutava alguns dias em sua casa.

O dia transcorria normalmente. Conversava com Rodrigo sobre os nossos velhos tempos de garotos, quando um barulho nos desviou a atenção. Eram gritos vindos do quarto de Carol. Disso tínhamos certeza. Fomos até lá ver porque ela gritava daquela maneira. Rodrigo imediatamente procurou por Carol. E lá estava ela, encolhida em um canto do quarto chorando. Dos seus olhos escorriam “lágrimas de sangue”. Olhei para aquilo estarrecido. Ela parecia estar em transe e da sua boca saíam palavras sem sentido. O meu amigo virou-se para ela e perguntou-lhe:

- O que está acontecendo?

E ela lhe respondeu:

- Não saia hoje à noite de carro. Vejo... dor... sofrimento e... morte. Um caminhão vindo em sua direção.

- Do que você está falando?

- Só... evite... sair hoje.

- Mas tenho um compromisso hoje à noite.

- Tio... Por favor, não vá!

De repente, seus olhos se fecharam e ela voltou a si. Perguntou a ele o que havia acontecido e ele lhe disse que ela havia desmaiado. Notei um certo temor em seus olhos. Queria entender melhor aquele fato ocorrido, mas não conseguia. Rodrigo me chamou e disse:

- Quero levar a Carol no médico. Vou levá-la amanhã de manhã. Não sei o que há com ela. Alguém nesta maldita cidade tem de saber o que é que ela tem. Como é que não descobrem nada?

- Peraí... você está querendo me dizer que isto já aconteceu antes? O que houve?

- Desculpe, mas tenho que me arrumar. Marquei uma reunião hoje para fechar acordo com uma empresa. Se der certo, começarei a vender os produtos através dela. Conversamos sobre isso amanhã.

- Espere um minuto. Você não pode ir. Sua sobrinha disse...

- Ah! Você não vai dar ouvidos ao que uma criança de seis anos diz quando desmaia, não é?

- Mas...

- Chega! Amanhã conversamos melhor. Se quiser, há uma lasanha na geladeira. Até logo!

E algumas horas depois, a polícia local telefonava para a casa de Rodrigo contando sobre um terrível acidente com ele. Um caminhão desgovernado batera de frente com seu carro. Infelizmente, ele ficara preso nas engrenagens e morrera em instantes. Fiquei boquiaberto com aquela notícia. Um frio na minha espinha invadia meu corpo e minha mente divagava em perguntas.

Andei até Carol e tentei contar-lhe o que acabara de ocorrer. Falei que o seu tio agora estava com “papai do céu”. Ela chorou e me abraçou. Senti-me naquele momento, impotente diante daquela situação. Pensei por alguns minutos e decidi ligar para seus pais. Procurei em uma agenda pelo telefone e logo a encontrei. Disquei os três primeiros dígitos e tive que interromper a ligação. Novamente, Carol agonizava em prantos e seus olhos se enchiam de “lágrimas de sangue” mais uma vez. Tentei confortá-la naquele momento, mas com um empurrão, ela me afastou. Foi então, que de novo voltou a falar daquela maneira tão estranha e irreal:

- Saia daqui agora. Não... fique... nem... mais um minuto. Vá... enquanto... é tempo.

- Mas o que está acontecendo? O que você vê? Diga-me o que você vê.

Inesperadamente, a porta da sala foi arrebentada a pontapés e vários homens vestidos de preto penetraram por ela. Carol me abraçava novamente e pedia para que eu corresse. Corri em disparada com Carol agarrada a meus braços. Entretanto, os invasores mandaram que eu não me mexesse. Decidi não obedecer e continuei a correr. Eis que uma bala parou minha trajetória e me fez cair. Tentava erguer-me, embora não conseguisse. Um deles virou-se para mim e disse:

- Não se meta nisso. Só queremos levar a garota conosco.

- Mas quem são vocês e o que querem?

- Se falarmos, teremos que matá-lo.

- Vocês não vão levá-la.

Os outros corpulentos sujeitos juntaram-se a ele e olharam para mim sarcasticamente. Aproveitei um minuto de distração e fugi com a garota. Peguei meu carro e sai em disparada. Eles tentaram me alcançar, mas felizmente não conseguiram. Por sorte, ganhava alguns minutos de vantagem.

Assim, teria algum tempo para pensar. Carol olhava-me comovida e chorava. Tentava perguntar-lhe se ela conseguia se lembrar de algo; ela não se lembrava. Não sabia para onde ia e nem de quem fugia. Tinha que buscar ajuda e rápido.

Uns instantes depois, eles já estavam atrás de mim. Tentaram a qualquer custo me fazer parar. Foi então, que num movimento brusco, joguei meu carro para o lado e o carro deles perdeu o controle, batendo contra uma árvore. Parei o automóvel e pude ver que estavam inconscientes ou mortos. Necessitava ir até lá para descobrir quem eles eram e o que queriam. Dei alguns passos e fiquei de frente para o carro. Peguei o documento de um deles e então, tudo o que havia surgido até aqui parecia ter mais nexo. Eles eram de uma agência governamental que estudavam casos paranormais e provavelmente, queriam a garota para futuras análises.

No dia seguinte, fui até a empresa que produzia um jornal local e decidi falar sobre a garota. Logo, consegui alcance nacional e a história virou capa dos principais jornais do Brasil.

Levei a garota até seus pais e me despedi dela. Mais uma vez, teve um surto daqueles. E, apenas me disse para ir ao médico e chorou.

Voltei para minha cidade e logo que cheguei lá, liguei para meu médico e pedi um check-up. Descobri que tinha um tumor no cérebro que não podia ser operado e que meu tempo de vida era curto.

Lembro-me constantemente do que aconteceu e fico feliz por Carol estar bem com seus pais. Quanto a mim, vou aproveitar os dias que me restam até ver o meu último pôr-do-sol.
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GASTON LEONARDO STEFANI (33), é natural de Maringá/PR. Escritor de contos, crônicas e poemas. Suas publicações frequentemente exploram temas fantásticos e reflexivos sobre a vida e o universo. Participou de diversas antologias, recebeu menções honrosas e prêmios em concursos literários. Principais Livros são Portal das Sombras: Histórias Fantásticas: Uma coletânea focada no gênero de contos fantásticos; 50 (Gas)tons de Poesia: Lançado em 2018, focado em versos poéticos; Rascunhando sobre a Vida nas Entranhas do Universo: Obra que combina reflexões existenciais e poéticas.

Fontes:
Gaston Leonardo Stefani. Contos fantásticos. e-book.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Leine Maria Luchese (Pacto Quebrado)


Acordo suada e amarrotada. Mais uma noite sem luz e sem brisa. Outro amanhecer sem teus beijos. Tento avivar o corpo me espreguiçando quase no mesmo momento em que tateio a beirada da cama para levantar. Consigo.

Reparo no vaso de flores murchas que está na mesinha de cabeceira. O cheiro da água turva repleta de folhas é nauseante e conforme os dias se movimentam, ainda não me sinto preparada para dispensar o passado.

Caminho lentamente até o banheiro, abro a torneira pesada e enxaguo com moleza o rosto e pescoço. A toalha, que está suspensa pela etiqueta, ainda tem o preço. Ela continua ali desde que tu foi embora e nem lembro quando. Talvez uma semana, talvez uns quinze dias.

Será que foi ontem?

Levanto a tampa do vaso, sento para urinar e com os cotovelos apoiados nas pernas, revivo o nosso último encontro. Aquele em que recebi o ramalhete de flores de campo. Tão lindas e coloridas. O perfume suave e adocicado das flores de mel e que se misturavam às demais, permanece como um vestígio de que tudo foi tangível.

Eu bem lembro desse dia. Estou de vestido jeans de alças e sandálias de tiras com salto quadrado. Nos cabelos negros e lisos uma tiara perolada e nos lábios um tom roseado. Pego a bolsa de crochê azul que está pendurada no cabide da entrada de casa, destranco a porta e, com as chaves na mão, saio. Desço pelas escadas, cumprimento com um aceno o porteiro e alcanço a rua.

Marcamos no parque, perto da fonte. De onde eu moro até lá não é longe. Caminho apreciando o sol, os canteiros em frente aos prédios recheados de margaridas e o aroma dos sonhos da padaria.

Aproveito cada passo para observar o tanto de folhas que as árvores das calçadas tem em seus galhos nessa época do ano. Inclusive, a quantidade de ninhos de passarinhos. Reflito que quando estamos felizes tudo se torna muito mais poético e livre. Sem amarras e desculpas.

Percorro o trecho da entrada do parque com uma certa inquietação. Apesar de saber que estou dentro do horário combinado, um arrepio percorre a nuca. Esbarro nos galhos de um salgueiro. Com os braços interrompo seus trejeitos e abro uma clareira contínua com as mãos. Enxergo o banco vazio. Aliás, nem tão vazio.

Agarro a bolsa e solto o nó. Vasculho cada pedacinho daquele espaço forrado e sem fecho e me deparo com batom, espelhinho, um passador de cabelos com fios arrebentados, lenço de papel, balas de goma e as chaves da casa. E o celular?

Cadê o celular? Onde está o celular? Em que lugar deixei o celular?

Não adianta mais procurar ou tentar imaginar que encontraria alguma mensagem tua cancelando o compromisso.

Espreito as pessoas próximas caminhando silenciosamente. Somente rostos desconhecidos e em preto e branco. A passos contidos me aproximo e do canto da boca surge um sorriso trêmulo dissipando a curiosidade: um ramalhete de flores atado com laços de palha. Refinado e assustador. Novamente olho nas redondezas. Apenas figuras distorcidas. Trancafio o buquê no meu peito e dentre os diversos pigmentos, um envelope em papel pardo e dentro um cartão:

- Sinto muito, não estou pronto para ti.
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LEINE MARIA LUCHESE é natural de Caxias do Sul. Escritora e artesã brasileira, residente em Porto Alegre Ela participou do curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose. Contribuiu para a antologia de contos "Resgate em Pamplona". Escritos românticos sensuais, contos que retratavam seu estado de espírito ou que lhe faziam transportar para um universo paralelo, onde tudo é possível. De todos os lugares que aventurou escolheu Porto Alegre para morar e formar sua família. É Bacharel em Administração. Integrou a primeira Oficina de Criação Literária da Metamorfose em 2016. Faz parte da Antologia Palavras de Quinta lançado em 2018. Atualmente participa do Curso Extensivo de Escritores, também pela Metamorfose, para explorar os diversos gêneros literários. Produz e comercializa acessórios manuais exclusivos, como colares e brincos feitos com sementes, pedras naturais, pérolas e madeira.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sábado, 18 de abril de 2026

Renato Benvindo Frata (As madrugadas são desiguais)


Nas madrugadas acontecem espetáculos grotescos de magia. Aqui, ali, lá. Também no meu e no seu quarto. Com truques variados e, claro, cada qual com a concepção própria do artista. 

Todos se dão no escuro, no silêncio do aposento, quando uma das mãos vira lousa e a outra, um giz invisível.

Só o vê quem o manipula. Esse artista insone sou eu, é você. Que, apesar de não sentirmos, às vezes nos pomos a fazer cálculos intrincados de matemática e até de física, para tecer fórmulas.

Usamos expoentes, apêndices, colchetes. Sinal de maior e menor, percentuais nas operações de subtração, multiplicação, divisão. Não há soma: só subtração. Para encontrar, no final, o sinal de desigualdade.

Por que o fazemos? Por várias razões, mas, no mais das vezes, para encontrar uma saída, um esticar, até onde puder, o salário do mês. E quitar, fechando, os furos deixados pelos do mês anterior e do outro.

Confesse que não é assim!

Nesse ambiente do quarto, tornado insalubre em face dos olhos cansados e do sono mais uma vez abalado, ficamos.

Muitas vezes não entendemos, mas, ali do lado, como companhia muda, porém esperta, os olhos vermelhos do despertador, em razão dessa desdita, também lacrimejam. Com pesar.

Parece usar as mesmas lágrimas do artista insone, gastas com rabiscos inúteis nas mãos. Ambos comungam tristeza e insatisfação convertidas em planejamentos que, embora tenham sido bem pensados e argumentados, não serão concretizados.

Para provar, pela física e quaisquer ciências, que por mais rocambolescos que sejam os cálculos, as tentativas de espichar salários feitas nas madrugadas não produzem bons resultados.

Enquanto isso, nos porões palacianos, ternos e togas brindam com mulheres bem-vestidas e perfumadas. E dançam ao arrepio da verdade, na lentidão delirante que o bolero do poder concede.

Para esses não há contrassenso, nem preocupação com o dia que logo irá amanhecer e exigir cumprimento de horário, abastecimento de dispensa, liquidação de pendências financeiras a impedir nosso sono e, com ele, a nossa paz.

Até quando as madrugadas permanecerão tão desiguais?
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Marcelo Coelho (A inconsciência dos corpos à beira-mar)


Sempre fui, sempre me considerei um gordo. A frase é — hum— pesada demais. Chamar alguém de gordo é dos piores xingamentos que conheço e, no meu caso, posso mesmo assegurar que se trata de injustiça. Há tempos, fiz um regime bem-sucedido; observadores objetivos dirão que hoje pertenço, sem dúvida, ao time dos magros.

Mas sentir-se gordo — a culpa na balança, a desestima diante do espelho, a lembrança do peso perdido —, isso continua. Tudo se torna mais difícil no verão, é claro. A praia humilha demais os que têm barriga.

Ou melhor: o espantoso é que ninguém (exceto nós mesmos) está nem aí para o problema. Foi grande a minha surpresa, numa das primeiras vezes que fui ao Rio, encontrar na praia gente feia de todo tipo — e não a desdenhosa população de modelos e atletas que a fama da cidade fazia prever.

Passei uns dias no litoral paulista, num lugar que não é dos piores. Fiquei impressionado (e contente, admito) com a sem-cerimônia dos que são muito, mas muito mais gordos do que eu.

Um tipo clássico, instituído há décadas nas praias brasileiras, é o da mulher muito gorda que usa maiô inteiriço preto. O maiô molhado adquire o brilho daquelas câmaras de pneu de caminhão, por sua vez também clássicas nas represas, pesqueiros, rios e cascatas de nosso país. Por algum motivo, a mulher corre rumo ao mar. Ela é muito branca; deve ser o calor. A corrida é dificultada pelas suas próprias pernas, cujo movimento obedece a eixos de rotação opostos; ela parece que vai cair. E de fato cai ao choque da primeira onda: entrou na água com êxito.

Pois bem, a gorda do maiô inteiriço preto hoje usa biquíni — também preto, é claro. E não há motivo para que não use.

Ela não é mais estranha, afinal, do que sua contrapartida masculina, conhecidíssima de Cabrália até Cananéia pelo menos: o homem grávido. Esse não entra na água. Caminha paralelo ao mar, de perfil; está sempre de perfil, aliás. As pernas finas, o rosto magro, os braços longos, tudo destaca a barriga de vários meses, que ele porta sem orgulho, mas também sem embaraço.

Bem diferente é o tipo do ex-magro. Trata-se de figura mais recente; pelo jeito de vestir, diríamos que remonta no máximo aos tempos do governo Figueiredo. Usa sunga e tênis com meia branca. É um sujeito muito esportivo, faz cooper o tempo todo, tem porte de atleta, mas de algum modo, foi acrescido de 20 ou 30 quilos, que contudo, não lhe pesam. Tem preparo físico justamente para carregá-los, e disso se envaidece.

Versão anterior dessa personagem é muito comum, creio, nas praias do Rio: falo de um tipo de militar aposentado, craque furioso da peteca, um tanto calvo, que talvez fosse mais gordo se não estivesse seriamente desidratado. Sua pele, com efeito, adquiriu um aspecto que não é do bronze, mas do couro curtido, do qual brotam tufos de pelo branco.

Corpos, corpos, quantos corpos na praia, Deus meu! Costas cobertas de pelos, de espinhas, de protetor solar... Colunas vertebrais, como pipas, inclinadas nos mais diversos ângulos. Há pescoços que se perderam nos entroncamentos da Piaçaguera ou da rodovia Pedro Taques; rolaram pelo acostamento e seus donos, já na praia, não perceberam ainda a dimensão do acidente.

Mulheres inteiras parecem se desfazer como castelos de areia no contato com o mar; há cabeças que sobrevivem a uma espécie de erupção vulcânica, boiando sobre lavas de carne; aqui e ali, passam homens como palafitas, que mal se equilibram sobre as canelas vergadas ao peso do conjunto.

E ninguém está ligando a mínima. Não digo que haja bem-estar, um cego contentamento com o próprio físico, mas o que se nota em quase todo mundo, na praia, é uma forma fundamental de inconsciência: aquela inconsciência que deriva do simples fato de existir.

Gordo ou magro, velho ou jovem, o sujeito está ali, ao sol. Considerá-lo "exposto" ao olhar alheio já é, de certo modo, um abuso, um atentado à privacidade. Quem está na praia não se sente o tempo todo sob a avaliação crítica de seus dessemelhantes. É fator de sobrevivência psicológica, sem dúvida, o dom que todos temos de nos esquecer de como somos.

Mas deve haver algo de errado numa população que corresponde tão mal a seus próprios padrões de beleza física. Passamos o dia vendo mulheres lindíssimas e homens perfeitos nas revistas, nos outdoors e na TV. Há academias e regimes por toda parte. A inconsciência de todos os corpos na praia logo se interrompe em vergonha, resoluções de Ano Novo, esforços de pedestrianismo ou algum momentâneo impulso de correr -sim, talvez a isso estivesse entregue a gorda do maiô preto lá em cima.

Na praia é que vemos, na verdade, a enorme desadaptação da maioria da classe média, ou seja lá que nome tenha, à vida ao ar livre. Só os muito jovens ainda não sofreram alguma das deformações causadas pelo cotidiano. São tanto as deformações do trabalho – computador, telefone, escritório, carro — como as do ócio — comida, bebida, TV, por exemplo.

Não vou defender nenhum tipo de "volta à natureza", mas não deixa de ser irônico que tenhamos tantas invenções destinadas a poupar trabalho e energia, de um lado, e tantos recursos para evitar a subnutrição e o tédio alimentar, de outro, e que isso termine sendo fonte de descontentamento na grande maioria da classe média.

Infelizes com seus corpos, as pessoas depositam suas esperanças — sem muita persistência, é verdade — na adesão aos rigores do trabalho braçal e da fome. Claro que o nome é diferente: busca-se o trabalho braçal nas academias de luxo e a fome nos livros de regime para gourmets. Classe é classe. Perder peso, com sorte, até que dá; mas daí a perder posição social é outra história.
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Marcelo Coelho (1959) é paulista e formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Trabalhou por alguns anos como professor universitário antes de dedicar-se à atividade jornalística na “Folha de S. Paulo”. Iniciou sua trajetória no jornal como editorialista e participou do grande projeto de reforma do jornal em 1984 liderado por Otavio Frias Filho. Foi coordenador de editoriais e a partir de 1990 começou a assinar uma coluna semanal no caderno “Ilustrada”. Publicou os romances Noturno (1992) e Jantando com Melvin (1998), traduziu obras de Voltaire e Paul Valéry, entre outros, e escreveu livros infantis. Seleções de textos publicados na Folha de S. Paulo estão reunidos em dois volumes, Gosto se Discute (1995) e Trivial Variado (1998). Desde 1994 leciona jornalismo cultural nas Faculdades Cásper Líbero, em São Paulo. Criou uma modalidade particular de crônica, que combina o ensaio acadêmico, o resenhismo dos cadernos culturais e o comentário do detalhe cotidiano e discute aspectos sociológicos, antropológicos e estéticos do impacto dos produtos culturais na vida contemporânea. 

Fontes:
Jornal “Folha de São Paulo”, SP: 15/01/2003.

Machado de Assis (Vênus! Divina Vênus!)


- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

E despegando os olhos da parede, onde estava uma cópia pequenina da Vênus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dois versos para completar uma quadra começada às sete horas da manhã. Eram sete e meia; a xícara de café, que a mãe lhe trouxera antes de sair para a missa, estava intacta e fria sobre a mesa; a cama, ainda desfeita, era uma pequena cama de ferro, a mesa em que escrevia era de pinho; a um canto um par de sapatos, o chapéu pendente de um prego. Desarranjo e falta de meios. O poeta, com os pés metidos em chinelas velhas, com a cabeça apoiada na mão esquerda, ia escrevendo a poesia. Tinha acabado a quadra e releu-a:

Mimosa flor que dominas
Todas as flores do prado,
Tu tens as formas divinas
De Vênus, modelo amado.

Os dois últimos versos não lhe pareceram tão bons como os dois primeiros, nem lhe saíram tão fluentemente. Ricardo deu uma pancadinha seca na borda da mesa, e endireitou o busto. Concertou os bigodes, fitou novamente a Vênus de Milo - uma triste cópia em gesso - e tratou de ver se os versos lhe saíam melhores.

Tem vinte anos este moço, olhos claros e miúdos, cara sem expressão, nem bonita nem feia, banal. Cabelo reluzente de óleo, que ele põe todos os dias. Dentes tratados com esmero. As mãos são delgadinhas, como os pés, e tem as unhas compridas e encurvadas. Empregado em um dos arsenais, vive com a mãe (já não tem pai), e paga a casa e parte da comida. A outra parte é paga pela mãe, que, apesar de velha, trabalha muito. Moram no bairro dos Cajueiros. O ano em que isto se dava era o de 1859. É domingo. Dizendo que a mãe foi à missa, quase não é preciso acrescentar que com um surrado vestido preto.

Ricardo prosseguia. O amor às unhas faz com que não as roa, quando se acha em dificuldades métricas. Em compensação, afaga a ponta do nariz com a ponta dos dedos. Esforça-se por sacar dali dois versos substitutivos, mas inutilmente. Afinal, tanto repetiu os dois versos condenados, que acabou por achar a quadra excelente e continuou a poesia. Saiu a segunda estrofe, depois a terceira, a quarta e a quinta. A última dizia que o Deus verdadeiro, querendo provar que os falsos não eram tão poderosos como supunham, inventara, contra a bela Vênus, a formosa Marcela. Gostou desta ideia; era uma chave de ouro. Ergueu-se e passeou pelo quarto, recitando os versos; em seguida, parou diante da Vênus de Milo, encantado da comparação. Chegou a dizer-lhe em voz alta:

- Os braços que te faltam são os braços dela!

Também gostou desta ideia, e tentou convertê-la em uma estrofe, mas a veia esgotara-se. Copiou a poesia - primeiramente, em um caderno de outras; depois, em uma folha de papel bordado. Acabava a cópia quando a mãe voltava da missa. Mal teve tempo de guardar tudo na gaveta. A mãe viu que ele não bebera o café, feito por ela, e posto ali com a recomendação de que o não deixasse esfriar.

"Hão de ser os malditos versos!", pensou ela consigo.

- Sim, mamãe, foram os malditos versos! - disse ele.

Maria dos Anjos, espantada:

- Você adivinhou o que eu pensei?

Ricardo podia responder que já lhe ouvira muitas vezes aquelas palavras, acompanhadas de certo gesto característico; mas preferiu mentir.

- O poeta adivinha. A inspiração não serve só para compor versos, mas também para ler na alma dos outros.

- Então, você leu também que eu rezei hoje na missa por você...?

- Li, sim, senhora.

- E que pedi a Nossa Senhora, minha madrinha, que acabe com essa paixão por aquela moça... Como se chama mesmo?

Ricardo, depois de alguns instantes, respondeu:

- Marcela.

- Marcela, é verdade. Não disse o nome, mas Nossa Senhora sabe. Eu não digo que vocês não se mereçam; não a conheço. Mas, Ricardo, você não pode estar neste estado. Ela é filha de doutor, não há de querer lavar, nem engomar.

Ricardo teve moralmente náuseas. Aquela ideia reles de lavar e engomar era própria de uma alma baixa, ainda que excelente. Venceu o asco, e olhou para a mãe com um gesto igualmente amigo e superior. No almoço, disse-lhe que Marcela era a mais famosa moça do bairro.

- Mamãe acredita que os anjos venham à terra? Marcela é um anjo.

- Acredito, meu filho, mas os anjos comem, quando estão neste mundo e se casam... Ricardo, se você anda com tanta vontade de casar, por que não aceita Felismina, sua prima, que gosta tanto de você?

- Ora, mamãe! Felismina!

- Não é rica, é pobre...

- Quem lhe fala em dinheiro? Mas, Felismina! Basta-lhe o nome; é difícil achar outro tão ridículo. Felismina!

- Não foi ela que escolheu o nome, foi o pai, quando ela se batizou.

- Pois sim, mas não se segue que seja bonito. E depois, eu não gosto dela, é prosaica, tem o nariz comprido e os ombros estreitos, sem graça; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e fala arrastado. Parece da roça.

- Também eu sou da roça, meu filho - replicou a mãe com brandura.

Ricardo almoçou, passou o dia agitado, felizmente lendo versos, que foram o seu calmante. Tinha um volume de Casimiro de Abreu, outro de Soares de Passos, um de Lamartine, não contando os seus próprios manuscritos. De noite, foi à casa de Marcela. Ia resoluto. Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhum - por acanhamento. De fato, esse namoro que Maria dos Anjos receava acabasse em casamento não passava ainda de alguns olhares e durava já umas seis semanas. Foi o irmão de Marcela que apresentou ali o nosso poeta, com quem se encontrava, às tardes, em um armarinho do bairro. Disse que era um moço de muita habilidade. Marcela, que era bonita, não deixava passar olhos sem fazer-lhes alguma pergunta a tal respeito, e como as respostas eram todas afirmativas, fingia não entendê-las e continuava o interrogatório. Ricardo respondeu pronto e entusiasmado; tanto bastou para continuarem uma variação infinita sobre o mesmo tema. Entretanto, não havia nenhuma palavra de boca, trocada entre eles, coisa que parecesse com declaração. Os próprios dedos de Ricardo eram frouxos, quando recebiam os dela, que eram frouxíssimos.

"Hoje dou o golpe", ia ele pensando.

Havia gente em casa do Dr. Viana, pai da moça. Tocava-se piano; Marcela perguntou-lhe logo com os olhos do costume:

- Que tal me acha?

- Linda, angélica - respondeu Ricardo pelo mesmo idioma.

Apalpou a algibeira do fraque; lá estava a poesia metida em sobrecarta cor-de-rosa, com uma pombinha cor de ouro, em um dos cantos.

- Hoje temos solo - disse-lhe o filho do Dr. Viana -. Aqui está este senhor, que é excelente parceiro.

Ricardo quis recusar; não pôde, não podia. E lá foi jogar o solo, a tentos, em um gabinete, ao pé da sala de visitas. Cerca de hora e meia não arredou pé; afinal confessou que estava cansado, precisava andar um pouco, voltaria depois.

Correu à sala. Marcela tocava piano, um moço de bigodes compridos, ao pé dela, ia cantar não sei que ária de ópera italiana. Era tenor, cantou, romperam grandes palmas. Ricardo, ao canto de uma janela, fez-lhe o favor de umas palminhas, e esperou os olhos da pianista. Os dele meditavam já esta frase: "Sois o mais belo, o mais puro, o mais adorável dos arcanjos, ó soberana do meu coração e da minha vida". Marcela, entretanto, foi sentar-se entre duas amigas, e de lá perguntou-lhe:

- Pareço-lhe bonita?

- Sois a mais bela, a mais...

Não pôde acabar. Marcela falou às amigas, e encaminhou os olhos para o tenor, com a mesma pergunta:

- Pareço-lhe bonita?

Ele, pela mesma língua, respondeu que sim, mas com tal clareza e autoridade, como se fora o próprio inventor do idioma. E não esperou nova pergunta; não se restringiu à resposta; disse-lhe com energia:

- E eu, que lhe pareço?

Ao que Marcela respondeu, sem grande hesitação:

- Um belo noivo.

Ricardo empalideceu. Não somente viu o significado da resposta, mas ainda assistiu ao diálogo, que continuou com vivacidade, abundância e expressão. De onde vinha esse pelintra? Era um jovem médico, chegado dias antes da Bahia, recomendado ao pai de Marcela; jantara ali, a reunião era em honra dele. Médico distinto, bela voz de tenor... Tais foram as informações que deram ao pobre-diabo. Durante o resto da noite, apenas pôde colher um ou dois olhares rápidos. Resolveu sair mais cedo para mostrar que estava ferido.

Não foi logo para casa; vagou uma hora ou mais, entre o desânimo e o furor, falando alto, jurando esquecê-la, desprezá-la. No dia seguinte, almoçou mal, trabalhou mal, jantou mal, e trancou-se no quarto, à noite. A consolação única eram os versos, que achava lindos. Releu-os com amor. E a musa deu-lhe a força d`alma que a aventura de domingo lhe tirara. Passados três dias, Ricardo não pôde mais consigo, e foi à casa do Dr. Viana; achou-o de chapéu na cabeça, esperando que as senhoras acabassem de vestir-se; iam ao teatro. Marcela desceu daí a pouco, radiante, e perguntou-lhe ocularmente:

- Que tal me acha com este vestido?

- Linda - respondeu ele.

Depois, animando-se um pouco, perguntou Ricardo à moça, sempre com os olhos, se queria que também ele fosse ao teatro. Marcela não lhe respondeu; dirigiu-se para a janela, a ver o carro que chegara. Ele não sabia (como sabê-lo?) que o jovem médico baiano, o tenor, o diabo, Maciel, em suma, combinara com a família ir ao teatro, e já lá os estava esperando. No dia seguinte, com o pretexto de saber que tal andara o espetáculo, correu à casa de Marcela. Achou-a em conversação com o tenor, ao lado um do outro, confiança que nunca lhe dera. Quinze dias depois falou-se da possibilidade de uma aliança; quatro meses depois estavam casados.

Quisera contar aqui as lágrimas de Ricardo; mas não as houve. Imprecações, sim, protestos, juramento, ameaças, vindo tudo a acabar em uma poesia com o título Perjura. Publicou esses versos, e, para lhes dar toda a significação, pôs-lhe a data do casamento. Marcela, porém, estava na lua de mel, não lia outros jornais além dos olhos do marido.

Amor cura amor. Não faltavam mulheres que tomassem a si essa obra de misericórdia. Uma Fausta, uma Doroteia, uma Rosina, ainda outras, vieram sucessivamente adejar as asas nos sonhos do poeta. Todas tiveram a mesma madrinha:

- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

Choviam versos; as rimas buscavam rimas, cansadas de serem as mesmas; a poesia fortalecia o coração do moço. Nem todas as mulheres tiveram notícia do amor do poeta; mas bastava que existissem, que fossem belas, ou quase, para fasciná-lo e inspirá-lo. Uma dessas tinha apenas dezesseis anos, chamava-se Virgínia e era filha de um tabelião, com quem Ricardo se fez encontradiço para mais facilmente penetrar-lhe em casa. Foi-lhe apresentado como poeta.

- Sim? Eu sempre gostei de versos - disse o tabelião - se não fosse o meu cargo, escreveria alguns sonetinhos. No meu tempo compus fábulas. O senhor gosta de fábulas?

- Como não? - redarguiu Ricardo -. A poesia lírica é melhor, mas a fábula...

- Melhor? Não compreendo. A fábula tem conceito, além da graça de fazer falar os animais...

- Justamente!

- Então, como é que disse que a poesia lírica era melhor?

- Num sentido.

- Que sentido?

- Quero dizer, cada forma tem a sua beleza; assim, por exemplo...

- Exemplos não faltam. A questão é que o senhor acha a poesia lírica melhor que a fábula. Só se não acha?

- Realmente, parece que não é melhor - confessou Ricardo.

- Diga logo inferior. Luar, névoas, virgens, lago, estrelas, olhos de anjo são palavras vãs, boas para poetas apatetados. Eu, tirando-me a fábula e a sátira, não sei para que serve a poesia. Para encher a cabeça de caraminholas, e o papel de tolices...

Ricardo aturou toda essa rabugice do notário, para o fim de ser admitido em casa dele - coisa fácil, porque o pai de Virgínia tinha algumas fábulas antigas e outras inéditas e poucos ouvintes do ofício, ou verdadeiramente nenhum. Virgínia acolheu o moço com boa vontade; era o primeiro que lhe falava de amores - porque desta vez o nosso Ricardo não se deixou ficar atado. Não lhe fez declaração franca e em prosa, dava-lhe versos às escondidas. Ela guardava-os "para os ler depois" e no dia seguinte agradecia-os.

- Muito mimosos - dizia sempre.

- Eu fui apenas secretário da musa - respondeu ele uma vez -; os versos foram ditados por ela. Conhece a musa?

- Não.

- Veja no espelho.

Virgínia entendeu e corou. Já os dedos de ambos começaram a dizer alguma coisa. O pai ia muitas vezes com eles ao Passeio Público, entretendo-os com fábulas. Ricardo estava certo de dominar a mocinha e esperava que ela fizesse os dezessete anos para pedir-lhe a mão, a ela e ao pai. Um dia, porém (quatro meses depois de conhecê-la), Virgínia adoeceu de moléstia grave, que a pôs entre a vida e a morte. Ricardo padeceu deveras. Não se lembrou de compor versos, nem tinha inspiração para eles; mas a leitura casual daquela elegia de Lamartine, em que há estas palavras: "Elle avait seize ans; c'est bien tôt pour mourir," (Ela tinha dezesseis anos; muito jovem para morrer) deu-lhe ideia de escrever alguma coisa em que aquilo entrasse por epígrafe. E trabalhava, à noite, de manhã, na rua, tudo por causa da epígrafe.

- "Elle avait seize ans; c'est bien tôt pour mourir!"- repetia ele andando.

Felizmente, a moça arribou, ao fim de quinze dias, e, logo que pôde, foi convalescer na Tijuca, em casa da madrinha. Não foi sem levar um soneto de Ricardo, com a famosa epígrafe, o qual principiava por estes dois versos:

Agora, que a mimosa flor caída
Ao terrífico vento da procela...

Virgínia convalesceu depressa; mas não voltou logo, ficou lá um mês, dois meses, e, como eles não se correspondiam, Ricardo vivia naturalmente ansioso. O tabelião dizia-lhe que os ares eram bons, que a filha andava fraca, e não desceria sem estar inteiramente restabelecida. Um dia leu-lhe uma fábula, composta na véspera, e dedicada ao bacharel Vieira, sobrinho da comadre.

- Compreendeu o sentido, não? - perguntou-lhe no fim.

- Sim, senhor, entendi que o sol, disposto a restituir a vida à lua...

- E não atina?

- A moralidade é clara.

- Creio; mas a ocasião...

- A ocasião?

- A ocasião é o casamento da minha pequerrucha com o bacharel Vieira, que chegou de São Paulo; gostaram-se; foi pedida anteontem...

Esta nova desilusão atordoou completamente o rapaz. Desenganado, jurou acabar com mulheres e musas. Que eram musas senão mulheres? Contou à mãe esta resolução, sem entrar em pormenores, e a mãe o aprovou de todo. De fato, meteu-se em casa, as tardes e as noites, deu de mão aos passeios e aos namoros. Não compôs mais versos, esteve a ponto de quebrar a Vênus de Milo. Um dia soube que Felismina, a prima, ia casar. Maria dos Anjos pediu-lhe uns cinco ou dez mil-réis para um presentinho; ele deu-lhe dez mil-réis, logo que recebeu o ordenado.

- Com quem casa? - perguntou.

- Com um moço da Estrada de Ferro.

Ricardo consentiu em ir com a mãe, à noite, visitar a prima. Lá achou o noivo, ao pé dela, no canapé, conversando baixinho. Depois das apresentações, Ricardo encostou-se ao canto de uma janela, e o noivo foi ter com ele, passados alguns minutos, para dizer-lhe que estimava muito conhecê-lo, tinha uma casa às suas ordens e um criado para o servir. Já o tratava por primo.

- Sei que meu primo é poeta.

Ricardo, com fastio, deu de ombros.

- Ouvi dizer que é um grande poeta.

- Quem lhe disse isso?

- Pessoas que sabem. Sua prima também me disse que fazia bonitos versos.

Ricardo, após alguns segundos:

- Fiz versos; provavelmente não os farei mais.

Daí a pouco estavam os noivos outra vez juntos, falando baixinho. Ricardo teve-lhes inveja. Eram felizes, uma vez que gostavam um do outro. Pareceu-lhe até que ela gostava ainda mais, porque sorria sempre; e daí talvez fosse para mostrar os lindos dentes que Deus lhe dera. O andar da moça também era mais gracioso. "O amor transforma as mulheres", pensava ele; "a prima está melhor do que era." O noivo é que lhe pareceu um tanto impertinente, só a tratá-lo por primo... Disse isto à mãe, na volta para casa.

- Mas que tem isso?

Sonhou nessa noite que assistia ao casamento de Felismina, muitos carros, muitas flores, ela toda de branco, o noivo de gravata branca e casaca preta, ceia lauta, brindes, recitando ele Ricardo uns versos...

- Se outro não recitar, se não eu... - disse ele de manhã, ao sair da cama.

E a figura de Felismina entrou a persegui-lo. Dias depois, indo à casa dela, viu-a conversar com o noivo, e teve um pequeno desejo de atirá-lo à rua. Soube que ele ia na manhã seguinte para a Barra do Piraí, a serviço.

- Demora-se muito?

- Oito dias.

Ricardo visitou a prima todas essas noites. Ela, aterrada com o sentimento que via nascer no primo, não sabia que fizesse. A princípio resolveu não aparecer-lhe; mas aparecia-lhe, e ouvia tudo o que ele contava com os olhos postos nos dele. A mãe dela tinha a vista curta. Na véspera da volta do noivo, Ricardo apertou-lhe a mão com força, com violência, e disse-lhe adeus "até nunca mais". Felismina não ousou pedir-lhe que viesse; mas passou a noite mal. O noivo regressou por dois dias.

- Dois dias? - perguntou-lhe Ricardo na rua onde ele lhe deu a notícia.

- Sim, primo, tenho muito que fazer - explicou o outro.

Partiu, as visitas continuaram; os olhos falavam, os braços, as mãos, um diálogo perpétuo, não espiritual, não filosófico, um diálogo fisiológico e familiar. Uma noite, Ricardo sonhou que pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano. Viu-a sem braços. Acordando de manhã, olhou para a Vênus de Milo.

- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

Atirou-se à mesa, ao papel, meteu mãos à obra, para compor alguma coisa, um soneto, um soneto que fosse. E olhava para Vênus - a imagem da prima -, e escrevia, riscava, tornava a escrever e a riscar, e novamente escrevia até que lhe saíram os dois primeiros versos do soneto. Os outros vieram vindo, cai aqui, cai acolá.

- Felismina! - exclamava ele - O nome dela há de ser a chave de ouro. Rima com divina e cristalina. E concluía assim o soneto.

E tu, criança amada, tão divina,
Não és cópia da Vênus celebrada,
És antes seu modelo, Felismina.

Deu-lhe nessa noite. Ela chorou depois que os leu. Tinha de pertencer a outro homem. Ricardo ouviu essa palavra e disse-lhe ao ouvido:

- Nunca!

Indo a acabar os quinze dias, o noivo escreveu dizendo que precisava ficar ainda na Barra umas duas ou três semanas. Os dois, que iam dando pressa a tudo, trataram da conclusão. Quando Maria dos Anjos ouviu ao filho que ia desposar a prima, ficou espantada, e pediu que se explicasse.

- Isto não se explica, mamãe...

- E o outro?

- Está na Barra. Ela já lhe escreveu pedindo desculpa e contando a verdade.

Maria dos Anjos abanou a cabeça, com ar de reprovação.

- Não é bonito, Ricardo...

- Mas se nós gostamos um do outro? Felismina confessou que ia casar com ele, à toa, sem vontade; que sempre gostara de mim; casava por não ter com quem.

- Sim, mas palavra dada...

- Que palavra, mamãe? Mas se eu a adoro; digo-lhe que a adoro. Queria que eu ficasse a olhar ao sinal, e ela também, só porque houve um equívoco, uma palavra dada sem reflexão? Felismina é um anjo. Não foi à toa que lhe deram um nome, que é a rima de divina. Um anjo, mamãe!

- Oxalá sejam felizes.

- Com certeza; mamãe verá.

Casaram-se. Ricardo era todo para a realidade do amor. Conservou a Vênus de Milo, a divina Vênus, posta na parede, apesar dos protestos de modéstia da mulher. Convém saber que o noivo casou mais tarde na Barra, Marcela e Virgínia estavam casadas. As outras moças que Ricardo amou e cantou tinham já maridos. O poeta deixou de poetar, com grande mágoa dos seus admiradores. Um deles perguntou-lhe um dia, ansioso:

- Então você não faz mais versos?

- Não se pode fazer tudo - respondeu Ricardo, acariciando os seus cinco filhos.
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JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (1839-1908), mais conhecido como Machado de Assis, foi um dos maiores escritores brasileiros, um gênio literário que revolucionou a literatura brasileira e deixou um legado imenso para as gerações futuras. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de 1908. De família humilde, com um pai pintor e uma mãe portuguesa. Sua infância foi marcada por dificuldades e pela fragilidade de sua saúde, sendo gago e epilético. Apesar das dificuldades, ele demonstrou grande talento para a escrita desde cedo, publicando seu primeiro soneto, "Ela", aos 15 anos. Trabalhou em diversos cargos, incluindo revisor, tipógrafo e funcionário da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. No entanto, sua paixão pela literatura era inegável, e ele dedicou-se à escrita de romances, contos, crônicas, poesias e peças de teatro. É conhecido por suas obras de profunda análise psicológica, crítica social e escrita elegante e irônica. Algumas de suas obras mais famosas incluem: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): Um dos seus romances mais emblemáticos, que marcou o início do Realismo no Brasil; Dom Casmurro (1899): Uma obra que explora a infidelidade e a obsessão de Bento em relação a sua esposa, Capitu; Esaú e Jacó (1904): Um romance que aborda a questão da raça e da identidade brasileira; Memorial de Aires (1908): Um romance que traz um tom mais melancólico e reflexivo, explorando a nostalgia e a solidão; Quincas Borba (1891): Um romance que critica a hipocrisia e a falsidade da sociedade; Helena (1876): Um romance que retrata a vida amorosa de uma mulher que se apaixona por um homem casado; A Mão e a Luva (1874): Uma peça teatral que aborda a questão do casamento arranjado. 
Machado de Assis foi o primeiro diretor da Academia Brasileira de Letras, instituição que ele ajudou a fundar. Sua obra foi traduzida para diversas línguas e é considerada uma das mais importantes da literatura brasileira e mundial. Ele é reverenciado como um dos maiores escritores brasileiros, um gênio literário que deixou um legado imenso e duradouro. Era um mestre na análise psicológica de seus personagens, explorando seus sentimentos, pensamentos e motivações. Sua obra fazia uma crítica mordaz à sociedade brasileira do século XIX, expondo as desigualdades sociais e as contradições da elite burguesa. Usava uma linguagem refinada, com um tom irônico e cheio de sutilezas, que o tornava um escritor único. Sua escrita era marcada por uma linguagem ambígua, que permitia diferentes interpretações e leituras da sua obra. Machado de Assis foi um dos primeiros a se aproximar do Realismo, mas com um toque próprio, criando um estilo único e original.

Fontes:
Machado de Assis. Outros contos - Fase 10. Publicados em 1893-1907. Disponível em Domínio Público.  
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