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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Mensagem na Garrafa 215 = Orfanato


Arthur Thomaz 
Campinas/SP

Quando você achar que alcançou uma estabilidade, seja no campo profissional, familiar ou pessoal, tire um dia inteiro da sua existência e vá visitar um orfanato.

Entre em contato antes com a diretoria, informe-se do número de crianças e quantas são meninas e meninos.

Compre uma bonequinha de pano para cada menina e um caminhãozinho de madeira para cada menino.

Passe em uma loja e leve doces e salgados suficientes para não faltar a nenhum deles. Nessa hora, lembre-se de que essas crianças têm poucas chances de comer estas guloseimas.

Ao chegar, repare no olhar de esperança dessas criaturinhas em que você veio até ali para levá-las. 

Quando você  entregar um por um dos presentinhos, repare na ansiedade deles em agarrar cada  brinquedo, como se alguém os pudesse tirá-los deles.

Sinta quando elas o abraçarem, o temor de que aquele abraço se desfaça e elas voltem à solidão do abandono.

Procure passar o maior tempo possível com elas, almoce junto e tenha o dia mais emocionante de sua vida.

Ao sair, não se envergonhe em chorar por ter se deparado com um mundo que você nem sonhava existir, e nada glamoroso como o seu.

Retorne à  sua vida e perceba que ela jamais será a mesma.

Sonhe com aqueles olhares carentes pedindo que alguém as leve para um lar.

Somente volte lá para levar uma ou mais delas para a sua família.

Neste dia, você poderá dizer que agora realmente alcançou  plenamente a sua estabilidade existencial.

(Texto enviado pelo autor)

A. A. de Assis (City tour na Blutopia)

De aeronave, conhecendo o lugar onde mora o azul.

Atenção, senhoras e senhores, cabine preparada para pouso. Bem-vindos à Blutopia – o lugar onde mora o azul.

Da porta da aeronave fomos levados diretamente a uma plataforma onde nos esperava para o primeiro city tour um veículo sem piloto, sem rodas, sem ruídos, movido por um tipo de energia que em nada prejudicava o entorno.

Ao longo do percurso fomos observando a paisagem: muito verde, casas sem muros,  nenhum policial nas esquinas, tudo muito limpinho. Fizemos algumas paradas para conhecer de perto os marcos principais. A certa altura paramos diante de um prédio grande, antigo mas bem conservado. O guia da excursão falou:

– Este edifício foi inicialmente um presídio; hoje é um grande espaço equipado para a prática de múltiplas atividades culturais, artísticas e esportivas. É preservado como símbolo de uma sábia reforma educacional que envolveu desde a escolinha das crianças até as universidades e garantiu o sucesso de uma nova política adotada para a reabilitação das pessoas outrora chamadas “criminosas”.

– Reconheceu-se que alguns seres humanos, por motivos diversos, não tinham condição de viver livremente, visto que constituíam grave perigo para a sociedade: roubavam, matavam, estupravam, cometiam maldades de todo tamanho. Seria então necessário isolar essas pessoas a fim de torná-las sociáveis.

– A primeira medida foi endurecer as penas. Isso diminuiu consideravelmente a criminalidade, contudo não foi suficiente. A providência seguinte foi estabelecer que todo juiz tivesse formação não só em direito, mas também em psicologia. Desse modo os pacientes (antes chamados “réus”) passaram a ser avaliados não apenas pelos delitos cometidos, mas principalmente pelas razões que os levaram a delinquir.

– Dentro dessa mesma política, as cadeias e as penitenciárias foram transformadas em clínicas e hospitais especializados na cura de desvios psíquicos e desajustes sociais. No início foi difícil. Muitos diziam que aquilo seria inviável, que seria uma perda de tempo, que quem nasce torto morre torto, coisas assim.

– Porém deu certo sim. Duas décadas após a experiência ser colocada em prática, não havia mais na Blutopia (por desnecessidade) nenhum policial, nenhum guarda de trânsito, nenhum agente de segurança. Somente uma corporação formada por socorristas que ajudam a população em casos de intempéries e outras emergências.

– Hoje somos conhecidos como “um lugar azul”.

Fonte:
Portal do Angelo Rigon. 25/09/2026.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Rabindranath Tagore (Nas Margens do Ganges)

Se gostas de ouvir narrações dos tempos passados, então senta-te nesse degrau e presta atenção ao chapinhar da água.

Estávamos nas proximidades do mês de Ashwin (setembro). A ribeira ia cheia. Da escadaria que descia, somente quatro degraus estavam fora da água. Na margem da ribeira cresciam tufos de plantas compactos sob os ramos dos bosques de mangueiras, onde a corrente formava um ângulo e deixava a descoberto três grandes montões de tijolo As barcas de pesca, amarradas aos troncos de babilas, balançavam-se indolentemente. Os grandes caniços que cobriam o banco de areia captavam os primeiros raios de sol e começavam a florir antes de atingir o seu pleno desenvolvimento.

Os barcos abriam as suas velas sobre a ribeira cheia de sol. O sacerdote, com os seus vasos rituais, dispunha-se a tomar o banho. As mulheres, em grupos, vinham buscar água. Era a hora em que Kusum tinha o costume de aparecer no alto da escadaria e tomar banho.

Mas naquela manhã não a vi chegar. Diante do ghât (Escadaria onde se toma banho), Bhudan e Swarno lamentavam-se. A sua amiga - diziam - tinha sido levada para casa do marido, uma localidade muito afastada da ribeira, e que se distinguia por uma população estranha, casas estranhas e caminhos estranhos.

Entretanto ela quase desapareceu da minha memória. Passou um ano. As mulheres que vinham tomar banho falavam novamente de Kusum. Uma tarde, porém, estremeci ao reconhecer dois pés familiares. Mas ai, eles não traziam anéis e tinham perdido o seu tilintar musical de outrora!

Kusum estava viúva. Dizia-se que o marido fora chamado a uma cidade longínqua e que ela apenas o vira uma ou duas vezes. O correio trouxera-lhe a notícia da sua morte. Viúva aos oito anos, apagara na fronte o sinal vermelho de casada, despojara-se dos seus braceletes e voltara para a velha casa à beira do Ganges. Mas encontrou poucas amigas dos tempos de solteira. Bhudan, Swarno e Amala tinham casado e partido; só Sarat ficara; mas afirmavam que se dispunha a casar em Dezembro.

Da mesma forma que o Ganges, na estação das chuvas aumenta gradualmente de volume e transborda, assim Kusum se aproximava, dia a dia, da plena floração de beleza. Mas com vestes brancas e sem enfeites, de rosto pensativo e atitude calma, lançavam-lhe um véu sobre a juventude e ocultavam-na, como uma bruma, aos olhos dos homens. Dez anos tinham decorrido sem que ninguém reparasse que Kusum se desenvolvia.

Uma manhã, há muitos anos e por esta mesma temperatura de fim de Setembro, um sannyasi (asceta ou monge) jovem e de pele clara, chegado não se sabe donde, veio abrigar-se no templo de Sivá, na minha frente. A notícia da sua chegada em breve se espalhou por toda a aldeia. Abandonando as bilhas, as mulheres acorriam ao templo para saudar o santo homem.

A multidão aumentava de dia para dia. A fama do sannyasi depressa se espalhou entre as mulheres. Ele, ora recitava o Bhagvat ora comentava o Gita (Bagvat-gita: obra filosófica que faz parte do Ramugana), ou pregava no templo acerca do tema que escolhiam num livro santo. Uns pediam-lhe conselhos, outros os seus sortilégios ou a sua ciência de curar.

Passaram-se meses. Em Abril, na época do eclipse solar, os banhos do Ganges atraíam uma multidão considerável. Uma feira se organizou sob as árvores de babla. Entre os numerosos peregrinos, acorridos para saudar o sannyasi, vinha um grupo de mulheres da aldeia onde Kusum fora casada.

Era uma manhã. O sannyasi, sentado num degrau, rezava, quando, de súbito, entre os peregrinos, uma mulher fazendo sinal a uma das suas companheiras, murmurava:

- Mas é o esposo de Kusum!

A companheira, afastando um pouco o véu exclamou:

- Palavra, é bem ele! É o filho mais novo dos Chattergi, que habita na minha aldeia!

Uma terceira, disse por sua vez:

- Ele tem exatamente a mesma testa, o mesmo nariz e os mesmos olhos.

Enquanto uma outra, sem mesmo olhar para o sannyasi, agitava a sua bilha na água, suspirando:

- Ai! Ele não é nem será o que foi! Pobre da Kusum!

Uma delas objetou então: «Ele não tinha uma barba tão grande»; e outra: «Ele não era tão magro»; uma outra ainda: «Parecia-me mais alto». E a discussão ficou por aí.

Uma noite de lua cheia, Kusum veio sentar-se perto da água, no mais alto dos meus degraus.

A sua sombra projetava-se sobre mim.

Estávamos sós junto do ghât. Os grilos cantavam à nossa volta. O tanger dos gongos e das sinetas do templo tinham cessado e o murmúrio da água era cada vez mais fraco, para se perder em breve, como a saudade dum som, nos bosques indistintos da margem oposta. Um raio da lua brilhava nas águas escuras do Ganges. Ao montante do rio, sob as sebes e arbustos, sob o pórtico do templo e sob os bosques das palmeiras, perfilavam-se sombras de formas fantásticas. Os morcegos balouçavam-se nos ramos de chatuns. Na proximidade das habitações, os chacais soltavam uivos arrepiantes e prolongados.

O sannyasi saiu do templo com o seu passo lento. Desceu alguns degraus ghât e viu uma mulher só. Ia afastar-se quando de súbito Kusum ergueu a cabeça; voltou-se. O véu caiu e a lua iluminou-lhe o rosto.

Um mocho voou por cima da sua cabeça. Ao ouvir o pio da ave ela estremeceu, ajustou o véu e prosternou-se aos pés do sannyasi.

O Sannyasi deu-lhe a bênção e perguntou:

- Quem sois?

Ela respondeu:

- O meu nome é Kusum.

Nessa noite não trocaram mais palavra. Kusum voltou para casa, lentamente, e o sannyasi permaneceu durante longas horas nos degraus do ghât. Quando, enfim, a lua emigrou do este para o oeste, o Sannyasi levantou-se e entrou no templo.

Vi todos os dias Kusum vir prosternar-se aos pés do sannyasi. Quando ele comentava os livros sagrados, permanecia a um canto e escutava-o; quando acabava as suas orações da manhã, ele chamava-a para junto de si e conversava com ela sobre assuntos religiosos. Kusum não podia compreender tudo, mas escutava-o com atenção e fazia esforços para o compreender. Ele dirigia-a e ela obedecia-lhe escrupulosamente. Kusum ajudava o serviço, sempre pronta à adoração de Deus, colhendo flores para a oferenda e indo buscar água ao Ganges para lavar o chão do templo.

O inverno ia terminar. Os ventos eram ainda frios, por vezes; à noite, a brisa quente da primavera soprava bruscamente do sul e o céu tornava-se azulado; depois dum longo silêncio ouvia-se novamente o som das flautas e a música da aldeia. Os barqueiros deixavam ir os barcos ao sabor da corrente, paravam de remar e entoavam cânticos a Krishna. Era a primavera.

Nesta altura, perdi Kusum de vista. Havia alguns dias que ela deixara de aparecer no templo, no ghât ou diante do sannyasi.

Ignoro o que se passou então, mas, pouco depois, os dois encontraram-se de novo, uma noite, nas escadarias.

Com os olhos baixos, Kusum perguntou:

- Senhor, chamou-me?

- Sim, porque não vinhas? Porque esqueceste, há algum tempo, o serviço de Deus?

Ela ficou silenciosa.

- Diz-me o teu pensamento, sem receio.

Voltando o rosto, ela respondeu:

- Senhor, eu sou uma pecadora, faltei ao meu dever de adoração.

O sannyasi disse-lhe:

- Kusum, eu sei que a tua alma está perturbada.

Ela estremeceu ligeiramente; depois, cobrindo o rosto com o Sari, sentou-se no degrau aos pés do sannyasi e começou a chorar.

Ele recuou um pouco e continuou:

- Diz-me o que tens no coração; eu te mostrarei o caminho da paz.

Ela respondeu com fé e palavras entrecortadas:

- Se me ordena, falarei. Mas receio que não possa exprimir-me com clareza. Mestre, certamente adivinhou tudo. Eu adorei um ser humano como a um Deus, venerei-o, e, ao render-lhe este culto, o meu coração transbordou de felicidade. Mas uma noite, eu sonhei que o Senhor da minha alma estava sentado num jardim, estreitando a minha mão direita na sua mão esquerda e murmurava palavras de amor. A cena não parecia de forma alguma estranha. O sonho desfez-se, mas a sua impressão ficou. No dia seguinte, quando os meus olhos se levantaram para ele, pareceu-me diferente. A imagem que me apareceu no sonho continuava a perseguir-me. Atemorizada tentei fugir para longe, mas a imagem não saía do meu espírito. Desde então, a minha alma não conhece a paz, e tudo em mim se tornou sombrio!

Enquanto enxugava as lágrimas ao mesmo tempo que falava, o Sannyasi martelava convulsivamente, com o pé, o degrau de pedra.

Quando ela acabou de contar, o Sannyasi perguntou:

- Diz-me: quem viste no teu sonho?

Com as mãos juntas, ela suplicou:

- Não posso.

Ele insistiu:

- Deves dizer-me tudo.

Ela contorceu as mãos e interrogou:

- Assim o deseja?

- É teu dever! - respondeu o sannyasi.

Então ela exclamou:

- Senhor, fostes vós que eu vi!

E deixando-se cair no degrau, começou a soluçar profundamente.

Quando sossegou e pôde levantar-se, o Sannyasi disse numa voz meiga:

- Deixarei este lugar esta mesma noite e não me verás mais. Sabes que sou um sannyasi e que não pertenço a este mundo. Deves esquecer-me.

Kusum respondeu em voz baixa:

- Assim farei, Senhor!

O sannyasi murmurou:

- Digo-te adeus...

Sem dizer palavra, Kusum inclinou-se e tocou os pés do sannyasi com a fronte.
E o santo homem deixou a aldeia.

A lua desaparecera; a noite tornou-se escura. Ouvia-se o chapinhar da água. O vento soprava furiosamente nas trevas, como se quisesse varrer as estrelas do céu.
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Rabindranath Tagore (1861 – 1941)
RABINDRANATH THAKUR (Tagore) foi um dos maiores poliglotas, filósofos e escritores da história moderna, revolucionando a literatura e a música de sua região. Ele foi o primeiro não europeu a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913. Nasceu em 1861, em Calcutá/Índia. Faleceu em 1941 (aos 80 anos), nesta mesma cidade. Passou a maior parte da vida em sua cidade natal, e na propriedade da família em Santiniketan (Bengala Ocidental). Também viveu temporariamente na Inglaterra durante a juventude para estudar e viajou por mais de 30 países ao longo da vida para dar palestras. Tagore não seguia os moldes profissionais tradicionais, pois vinha de uma família aristocrática e intelectualizada. Estudou direito na University College London (Inglaterra), mas não concluiu o curso. Preferiu focar no estudo independente de literatura e música. Além de escritor, atuou como educador, reformador social e filósofo. Em 1921, fundou a Universidade Visva-Bharati em Santiniketan. Ele buscava criar uma alternativa ao sistema educacional britânico, unindo o melhor das tradições orientais e ocidentais. Embora não tenha sido um acadêmico de carreira no sentido burocrático (ele rejeitava a educação formal rígida), recebeu o título de Cavaleiro (Knighthood) da Coroa Britânica em 1915 (título que ele renunciou em 1919 em protesto contra o Massacre de Jallianwala Bagh). Foi amplamente celebrado por instituições globais e manteve diálogos intelectuais com figuras como Albert Einstein e Mahatma Gandhi.
Tagore começou a escrever poesia ainda na infância (aos 8 anos) e publicou sua primeira coletânea importante aos 16. Ele escrevia originalmente em bengali e, mais tarde, traduzia suas próprias obras para o inglês, o que o tornou um fenômeno mundial. O ponto alto de sua carreira foi o Prêmio Nobel de Literatura em 1913, concedido principalmente pelo impacto de sua obra Gitanjali. Tagore possui um feito único no mundo: ele é o autor dos hinos nacionais de dois países diferentes: Índia (Jana Gana Mana) e Bangladesh (Amar Shonar Bangla)
Sua produção foi massiva, incluindo milhares de poemas, canções (conhecidas como Rabindra Sangeet), romances e peças de teatro. Destacam-se:
Gitanjali (Oferenda Lírica): Sua coletânea de poemas mais famosa, repleta de misticismo e amor à natureza; The Home and the World (O Lar e o Mundo): Romance que reflete sobre o nacionalismo indiano e o choque entre tradição e modernidade; Chokher Bali (Areia nos Olhos): Romance que discute temas sociais complexos da época, como a condição das viúvas na sociedade indiana; O Carteiro do Rei (Dak Ghar): Uma de suas peças de teatro mais conhecidas e encenadas no mundo.
A relevância dele para a literatura mundial baseia-se em três pilares principais:
1. Modernização da Literatura Bengali: Ele libertou a língua bengali dos moldes clássicos e rígidos do sânscrito antigo, introduzindo o uso da linguagem coloquial, novas formas de versos e a prosa moderna.
2. Ponte Cultural entre Oriente e Ocidente: Tagore apresentou a rica espiritualidade e a filosofia indiana ao Ocidente de uma forma acessível, sem os preconceitos da era colonial. Ele provou que a alta literatura asiática tinha valor universal.
3. Humanismo Universal: Sua literatura defendia a paz, o internacionalismo e a liberdade individual, criticando os nacionalismos agressivos. Ele via a arte como a expressão máxima da conexão espiritual entre a humanidade e a natureza.

Fonte:
A Chave do Enigma e Outros Contos. Publicado originalmente em 1943, em Portugal com tradução de Telo de Mascarenhas. Disponível em Domínio Público. 
Biografia obtida com IA 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (A primeira professora)

   Depois de tempos, visitei a escola que me ajudou a crescer. Seus muros altos, o portão soberbo e a fachada precisando de tinta nova, deram-me vontade de começar tudo de novo. 
  Parado na esquina sob uma sombra, por momentos ouvi gritos, algazarras, enquanto um nó apertava-me a gravata. 
Era domingo e foi somente impressão. Não dei às pessoas que estavam comigo qualquer razão para se importarem, mas meus olhos se umedeceram. A saudade que entrava neles e ficava ali a mexer para em seguida, caminhar em gotas até o nariz e a garganta. Sabia que a saudade se veste de lágrima?
Nada que um pigarrear e uma passada de lenço não resolvesse. E resolveu. Para mim, contudo, transformou-se numa vontade enorme de voltar ao pátio, invadir os corredores com passos curtos, rever as salas, apagar a lousa e de falar — muito — com a primeira professora, pedindo-lhe a bênção. 
Desculpas pelas diabruras, birras, garranchos, malquereres e palavrões e, mais que isso, por sua dedicação não só a mim, mas por igual aos meus colegas. E, feito isso, pedir-lhe desculpas por ter crescido e a abandonado sem lhe ter dito ao menos uma vez, obrigado! Pela preocupação com nossos piolhos catados à unha, os bichos-de-pé retirados com agulhas fininhas. 
Então, mesmo tardio, obrigado, mestra, por tudo o que fez ao pegar em minha mão para ajustar as letras nas linhas, e com elas me dar um Norte. Obrigado especialmente por ter sempre no semblante um rosto de mãe, enquanto alicerçava meu amanhã.
Algo em mim, porém, naquele momento que assim pensava, fez-me distanciar do grupo a fim de me compenetrar, e nessa conversa rápida com o íntimo, a consciência fez um ato de contrição. 
O tempo de reconhecer erros chegara e agora, que eu cumprisse o que o coração pedia. 
Então perguntei por ela, mas ganhei olhares furtivos e interrogativos. Os mais novos não a conheciam e os mais velhos, preocupados com as próprias vidas, não se lembravam, até que um deles, botando o dedo na testa a apontar para a lembrança, expressou entusiasmo: 
"Sim, me lembro, claro. Também foi minha professora. Aposentou-se, enviuvou e foi morar com o filho.”
A emoção não se desfez, nem o sentimento de débito eternizado enquanto não puder substituí-lo por uma conversa franca e um abraço de agradecimento. 
Mas, enquanto isso não acontece, registro a boa lembrança que ela deixou em mim ao me ensinar o B-A-BÁ. 
É como uma placa de ouro que não derrete e nem se perde diante da alegria e da tristeza que a vida produz.
A todas as professoras, o sincero e reconhecido respeito.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

domingo, 18 de outubro de 2026

Anton Tchékhov (A Obra de Arte)

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
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Anton Tchekhov (1860 - 1904)
ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes:
Anton Tchékhov. Histórias Variadas. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.  
Biografia = Wikipedia; Livrista; Portal da Literatura; Mundo Educação; Brasil Escola; LPM; Revista Cult, Jornal Opção, Plug Literário, etc.

sábado, 17 de outubro de 2026

Raul Pompéia (As Canções Sem Metro)

VIBRAÇÕES

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C. BAUDELAIRE

Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas; vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos. Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem à semelhança os ânimos.

A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa à profunda e escura vibração das elegias.

Sonoridade, colorido: eis o sentimento.

Daí o simbolismo popular das cores.

VERDE, ESPERANÇA.

A impetuosa alegria da terra, à passagem de Flora, a primavera verde, compromisso maternal do outono e da opulência.

Náufragos no mar.

Sem pão, sem rumo. Em roda, o gume afiado do horizonte, a reverberação do sol nas águas e o silêncio solene da calmaria. A vela do barco, flácida, pendente — imagem do abatimento. Ligeira viração depois; denso nevoeiro... quatro dias! sudário de brumas que envolve o barco, elimina o céu. Vão acabar assim, amortalhados na bruma. Um ramo, apenas, sobre as águas, um ramo cor da esperança. Salvos! Adivinha-se o continente salvador através da névoa e o panorama verde das florestas.

AMARELO, DESESPERO.

Ouro e sol; ouro, o desespero da cobiça, sol, o desespero da contemplação: a cor dos ideais perdidos.

Sobre o leito, o cheiro mau das chagas era como uma antecipação da morte. Descamava-se a pele em crostas ásperas sobre o grude do pus. Ela morria, alcançada pelo sorteio inexorável da Peste. À porta, o anjo negro da maldição; longe, a espavorida caridade.

Ali, na parede, havia flores adornando um retrato de moço. Simples lembrança da Páscoa, flores da aleluia, colhidas numa escapada de amantes. Amor não faz quaresma... Cobertas de ouro as árvores... Ela também triunfante: ouro sobre o esplendor adorado do sexo... Agora fitava as flores secas. Junto dela, o filho, pequeno animal sem vontade, sem vida, que lhe chegava aos lábios um copo d’água.

Sobrara-lhe um filho nos desperdícios do passado, para vigiar-lhe a agonia. Ninguém mais, ninguém mais, nem Deus com ela: apenas as flores do desespero e aquele copo d’água de vez em quando, que ela sorvia como uma medicina amarga de lágrimas...

AZUL, CIÚME.

Céu e oceano, a soledade sem fim. O ciúme é isolamento, queixa sem ecos do coração solitário.

Ao despertar, estava só na triste câmara. Enferma e abandonada! Calcadas aos pés as juras de ontem, como destroços de um ídolo quebrado. Fronteira ao leito, a janela parecia alargar-se mais e mais para mostrar o firmamento. Sob o reflexo azul sonhara Rosita o abandono, eles felizes numa concha de safira, levados à flor do grande lago, docemente, cantando, docemente, se a barcarola os levasse. Morreu, fechando na pálpebra a estampa diurna daquele azul fundo, deserto.

ROXO, TRISTEZA.

Tinta tomada à palheta do ocaso e às flores da morte.

Alegre, ela. Muita luz no espaço; bailava no ar o cântico sereno da manhã; na relva os arbustos orvalhados tinham um pequenino sol em cada folha. Somente as violetas sofriam, pungidas pelo dia.

Outra manhã, tudo mudado. Na atmosfera, um torpor gélido e sombrio. Os extremos da paisagem gastam-se na cerração como as orlas de uma pintura velha: nem sol nem pássaros na relva.

Agora, órfã.

As violetas revivem, as melancólicas, desabrochando em suspiros, sob as lágrimas da chuva.

VERMELHO, GUERRA.

Sangue, cólera, vingança, os hinos marciais, golpes, o incêndio, vermelho o manto dos tiranos e Marte, o astro dos combates.

Da casinha à beira-mar, olhos em febre, a velha mãe arguía a distância. Lá, mergulhara o vapor que lhe roubava o filho para a guerra. A tarde passa e a noite; a velha, imóvel, marmorizada na dor, como uma escultura do Stabat Mater. E vem a aurora, uma aurora brutal de chama e sangue. A mãe do soldado caiu como morta.

Ouvira, das bandas da aurora, um grito de morte e a voz perdida do agonizante era a voz do filho.

BRANCO, PAZ.

Arminho imaculado e virginais capelas, o sagrado leito das mães, o rosto calmo dos mortos, os tranquilos fantasmas.

"Terminada a luta, minha boa Irene. Torno a ver-te enfim e aos queridinhos. Ver-me-ás também. Como se fica velho neste ambiente de pólvora queimada!"

Dizia assim a carta, datada do acampamento. Irene ergueu os olhos para a tarde, os olhos rasos de pranto. Expirava o crepúsculo na ditosa agonia dos patriarcas, lenta e mansa; errava no ocidente a neblina lúcida da última hora, saudade apenas no dia extinto. A estrela plácida das tardes parecia olhar a terra; em frente alava-se a lua e o luar noctâmbulo ia, pelos caminhos, semeando a difusão suavíssima da paz.

Irene abandonou-se ao êxtase contemplativo, gozando o crepúsculo, como se lhe invadisse o sentimento a letargia edênica do anoitecer.

NEGRO, MORTE.

O contraste da luz é a noite negra.

Sente-se na epiderme a carícia do calafrio; envolve-nos um clima glacial; estranha brisa penetra-nos, feita de agulhas de gelo. Em vão flameja o sol a pino. Sente-se dentro na altura a noite negra, invernosa, polar; sofre-se o contato da Sombra. Tudo trevas, sinistramente trevas. O dia, resplandecente na alvura dos edifícios, produz o efeito da prata nos catafalcos. Vemos as flores, o prado. Monstros! Reclamam a carne do pé que os pisa; o verme sôfrego espreita-nos através da terra... Rir?! Mas o riso tem a cruel vantagem de acentuar, sob a pele, a caveira...

Há destas escuras noites no espírito.

ROSA, AMOR.

O sorrir das virgens, e o adorável pudor, e a primeira luz da manhã.

Esta criança pensativa. Acompanha com a vista o revoar dos pombos; escuta o misterioso segredo dos casais pousados. Vive-lhe ainda no semblante a candura da infância e nos formosos cabelos o cálido aroma do berço. Súbito, duas pombas partem. Vão. Longe, são como pontos brancos no azul; o bater das asas imita cintilações: vão, espaço a fora, estrelas enamoradas.

A cismadora criança experimenta a vertigem do azul e a alma escapa, sedenta de amplidão, e voa ao encalço das estrelas.

Há noites de pavor nas almas, há belos dias igualmente e gratas expansões matinais, auroras de rosa como em Homero.

Há também nas almas o incolor diáfano do vidro.

Dinheiro, amor, honraria, sucesso, nada me falta. O programa das ambições tracei, realizei. Tive a meu serviço a inteligência estudiosa do Ocidente e a sensualidade amestrada do Levante. Tive por mim as mulheres como deusas e os homens como cães. Nada me falta e disto padeço. Todos dizem: aspiração! e eu não aspiro. Todos sentem a música do universo e a harmonia colorida dos aspectos. Para mim só, vítima da saciedade! tudo é vazio, escancarado, nulo como um bocejo.

E os dias passam, que vou contando lento, lento torturado pela implacável cor de vidro que me persegue.

Há, enfim, a coloração indistinta dos sentimentos, nas almas deformadas.

Veio de longe, muito longe, mísero! Teve outrora um céu, uma pátria, muitas afeições, a cabana da aldeia. Agora só tem o ódio. O ódio mora-lhe no peito, como um tigre na furna. Tiraram-lhe a pátria, a companheira, votaram-lhe à morte os filhos, as filhas à torpeza; deram-lhe em compensação... Mostrava a face preta, o sangue a correr. Quem são os teus algozes?

— Os homens brancos.

Ela odeia os homens brancos; odeia a torre aguda, ao longe, como um punhal voltado contra os céus: odeia o trem medonho de fogo e ferro, que muge e passa, troando, escândalo do ermo.
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Raul Pompéia (1863 – 1895)
RAUL D'ÁVILA POMPÉIA foi um dos escritores mais marcantes da literatura brasileira do século XIX, consagrado como o autor de O Ateneu, obra-prima que transita de forma única entre o Realismo, o Naturalismo e o Impressionismo. Nasceu em 1863, em Angra dos Reis/RJ, e faleceu em 1895, na cidade do Rio de Janeiro, aos 32 anos. Cometeu suicídio no dia de Natal, após uma série de polêmicas públicas e fortes crises depressivas. Passou a infância em Angra dos Reis. Na juventude, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Colégio Abílio e no Colégio Pedro II. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (Largo de São Francisco) em 1885, após ter iniciado os estudos em Recife, retornando depois à capital fluminense, onde residiu até o fim da vida. Atuou intensamente como jornalista de combate, cronista e caricaturista em diversos jornais da época (como Gazeta de Notícias e O Paiz). Foi um defensor ferrenho das causas abolicionista e republicana. Após a Proclamação da República, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional pelo presidente Floriano Peixoto, de quem era aliado fiel. Também lecionou Mitologia na Escola Nacional de Belas Artes.
Começou a escrever muito jovem. Sua escrita é caracterizada por uma prosa expressionista, densa, com rigor estético e profunda análise psicológica. Livros publicados em vida: Uma Estampa (1880) – Seu livro de estreia, uma novela; Canções sem Metro (1881) – Coletânea de poemas em prosa; O Ateneu (1888) – Sua obra-prima e único romance, publicado inicialmente em folhetins na Gazeta de Notícias. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) em vida, pois a instituição foi fundada em 1897, dois anos após a sua morte. No entanto, ele é o Patrono da Cadeira nº 33 da ABL. Seu grande reconhecimento veio dos elogios da crítica contemporânea (como Machado de Assis) e do sucesso de público de O Ateneu.
Raul Pompéia é crucial para a história literária brasileira porque rompeu os limites dos estilos de sua época: Embora seja classificado no Realismo/Naturalismo, O Ateneu antecipa características do Impressionismo e do Expressionismo, focando na deformação da realidade através das memórias e das emoções do narrador. Introduziu na nossa literatura o conceito de "romance de formação" (Bildungsroman) pelo viés crítico, mostrando a perda da inocência e a corrupção moral de um jovem dentro de um internato. Usou a ficção como uma alegoria cruel da própria sociedade brasileira do final do Império, marcada pelo autoritarismo e pelas aparências.

Fontes:
Academia Brasileira de Letras. http://www.academia.org.br/. 
Canções sem Metro, publicado originalmente em 1881. Disponível em Domínio Público.  

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (A transição de mim para... mim)

Às vezes, quando fecho os olhos para dormir, sem que espere, vêm-me imagens. 

Não é tela de cinemascope com direito a fundo musical. São figuras que o interior dos meus olhos passam a ver como se as trouxessem lá de dentro. 

Frutos do silêncio? Talvez.

Umas trazem a repetição do que vivenciei. O ontem, o anteontem, o “tresantontem” a se perder no tempo como reflexo de mim mesmo.

Outras vêm com figuras fabulosas com cores indefinidas, em situações diversas de um mundo que não é o meu. 

São produto do desconhecido, do inimaginado.

Ali eu vivo o estranho. 

Um momento jamais sonhado a produzir angústia. E maneiras para que dele tente me livrar, porque a reação é espontânea.

Às vezes o sono as absorve. Em outras, rumino-as enquanto ele não vem. Mas pressinto que sim. O sono salvador ao chegar, faz o mocinho ao salvar a donzela –– pondo em fuga os bandidos.

Nesses passeios fora de mim, absorvo-me e, com passos vagos vejo lugares inóspitos, gente entristecida, ambiente degradado e céu nebuloso. Outras situações se compõem em meus olhos com figuras nostálgicas. Essas possuem a minha aparência. Elas não são altas de modo que se sobressaiam frente às demais, nem tão baixas a chamarem a atenção. 

Parecem-se comigo. Então reflito: –– São outros eus que se põem a vagar as mesmas ruas em que caminho. Os que vejo têm aparência preocupada, olhos fixos, passos largos, precisos, rápidos. Decididos! O corpo se manifesta sensível ao sol quente, ao vento em demasia, à poeira solta a causar incômodo. 

Tal qual me apresento no dia a dia.

As figuras se transmutam em corpos, pouco cá, pouco lá de beleza, sem que sirvam de referência a qualquer análise mais profunda.

O que me põe a pensar é sobre o porquê de elas aparecerem na fase do pré-sono. 

Por fim, a resposta: essa sensação que se dá na sonolência, é a tal ‘ponte dourada’ entre a vigília e o sono profundo, momento em que a lógica relaxa, e a mente, como um parque de diversões, nos leva a dar vida ao subconsciente.
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Renato Benvindo Frata é de Paranavaí/PR, advogado, escritor e trovador.

(Texto enviado pelo autor. )

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Nilto Maciel (Amapa)


Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.

O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.

— Não façam barulho.

Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira.

— E a origem de seu nome?

— Eu já havia escolhido meu nome artístico, quando uns amigos criaram Amapa. Segundo eles, muito mais comercial.

Liana Bennato repetiu para os telespectadores o vasto nome de batismo do artista: André-Maria Ampére Parente.

— Alguma homenagem, Amapa?

— Acredito que à eletricidade. Meu pai era eletricista.

— Você se refere à palavra ampère, não é? E de onde vem André-Maria?

O homem e a mulher sacudiram-se no sofá e chamavam a atenção das crianças para a entrevista.

— André e Maria, vejam, vejam!!!

— Que coisa mais linda! — derretia-se a mulher.

A loira repórter também brilhava diante das luzes: qual teria sido então o nome artístico dado a si mesmo por Amapa?

— A. Parente.

— Não, não ia ficar bem — considerou o homem.

— Eu preferia Amperente — luziu a mulher.

Nem assim os dois pequenos desviaram a atenção de suas bugigangas.

— Amapa, fale-nos de seus planos para este ano.

O grande astro falou primeiro do disco a ser gravado nos Estados Unidos e, em seguida, passou à turnê pela Europa.

O homem e a mulher continuavam ligados à tevê, olhos arregalados, ouvidos abertos, respiração presa. Amapa cativava ambos os sexos, agradava a gregos e troianos, compunha, cantava, dançava. Um poeta inimitável.

— Compre o disco novo do Amapa — ordenava a mulher.

— Já comprei — adiantava-se o homem.

Ora, então ia deixar de ter à mão aquela voz maravilhosa? Há mais de dez anos acompanhavam o sucesso de Amapa. Desde o primeiro LP.

— Você se lembra, meu bem?

— Claro que me lembro.

Havia até um cantor muito parecido com ele.

— Quem era, hem?

— Não me lembro agora.

As crianças não ligavam para a televisão, nem para o homem e a mulher extasiados diante dela. Preferiam brincar. E tudo lhes servia de brinquedo. Tudo o que não interessava mais ao homem e à mulher.

— Me dá isso, pai.

E a velha lista telefônica virava aeroporto. Os aviões nem sempre tinham asas e só faltavam se espatifar na hora do pouso.

— Não façam barulho, filhinhos.

No televisor, Amapa cantava trechos de uma das músicas do novo disco. A repórter delirava. O homem e a mulher deram-se as mãos.

  — Amapa, sempre Amapa.

Os pequenos esfregaram um objeto no chão da sala. Uma velha capa de disco. Ora, aquilo irritava. Parassem já com a esfregação.

— Amapa, conte-nos aquela história da festa – pediu Liana.

O astro sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo. Acreditava no destino. Desde menino sonhava com o sucesso. Um dia, descobriu que se parecia naturalmente com certo cantor de nome L. Veríssimo, então no auge da fama. E resolveu aproveitar-se daquilo, apesar de ser muito mais novo do que o cantor.

— A festa não tinha nada a ver com a música. Era o casamento da filha de um político importante, que, aliás, já morreu. E eu simplesmente fui à recepção, como se fosse L. Veríssimo.

— E ninguém desconfiou de nada?

— Não sei. Só sei que olhavam muito para mim. O resto você sabe.

O homem e a mulher gargalhavam, batiam palmas, faziam o maior barulho, enquanto as crianças rasgavam livros e capas de discos antigos.
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Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)