sábado, 2 de setembro de 2023

Therezinha D. Brisolla (Trov" Humor) 15

 

Artur de Azevedo (Coisas de Anselmo)

A cena passa-se na atualidade, no interior de uma taverna. Um bico de gás alumia escassamente um grupo de habitues. Os cérebros e os copos estão cheios de cerveja!

Anselmo, no meio dos rapazes — como Cristo entre os doutores, discute largamente sobre a sua própria individualidade.

Sejamos indiscretos como a lira do poeta, como as lufadas da ventania, como um suspiro apaixonado, e ouçamo-lo:

– Em Paris, para onde fugi das perseguições que me faziam por causa de uma dançarina andaluza que, em Lisboa, teve a fraqueza de se apaixonar por mim, cresceu o número das minhas aventuras amorosas...

– Este Anselmo!

– Vou contar-vos um dos meus menos interessantes bamboches (patuscadas): — Uma noite, aborrecido de tudo: - dos espetáculos, dos bailes e das corridas, eu passeava distraído no boulevard dos italianos e vi uma mão alva e pequena pendida de um parapeito de janela baixa — Uma mão! disse eu comigo, parando maquinalmente e contemplando extasiado aquela partícula anônima de um corpo de mulher! — Uma mão, repeti, que deve por força pertencer à mais linda madame de Paris! — E levando-a maquinalmente aos lábios, beijei-a amorosamente.

– Em Paris, Anselmo, na terra da multidão ninguém te viu praticar semelhan...

– Bem mostras que ainda não saíste do Maranhão, meu amigo. Na grande capital, quem repara nisso? Quem se importa com um beijo?...

– Continua.

– A minha mão que, para que meus lábios se colassem nas veias azuis da mão da moça, havia apertado-lhe os dedos entre os seus, sentiu-se de súbito apertada também! O meu sangue gelou-se nas veias, todo inteiro — ossos — carnes — tremi! Ergui os olhos: a pessoa conservava a mesma misteriosa posição: nada mais via que essa nevada mão que, por tão pouco, soube se apoderar de uma existência…

E eu disse: — Ange ou femme, montre—moi ton visage, regarde—moi.

— É' melhor, interrompeu um do grupo, que nos contes isso em português.

— Anjo ou mulher, traduziu Anselmo, mostra-me o teu rosto, olha-me: vê a impressão que me causou a tua mão... — Não, respondeu-me uma voz argentina e melíflua. — Ouí, redargui — Non, repetiu-se-me. E a mão desapareceu. Eu, vivamente impressionado pela esquisitice romântica da aventura, deixei a janela e prossegui o meu caminho. No hotel não pude conciliar o sono: aquela mão me aparecia por todos os lados; a minha fantasia desenhava-me um rosto angélico e sedutor, que forçosamente havia de ser o da moça do boulevard. No dia seguinte, às mesmas horas, na mesmíssima janela, a mesma mão causou-me as mesmíssimas impressões. Renovou-se diariamente, durante muito tempo, aquela excêntrica entrevista, sem nunca conseguir descobrir o rosto da minha clandestina Dulcinéa; quando afinal — um dia —, transferindo comigo mesmo as horas do meu passeio, encontrei-a debruçada à janela. Era linda como a supunha. Informei-me a seu respeito: soube que se chamava Finette, e era modista. Aproximei-me timidamente, e timidamente entreguei-lhe esta quadra que escrevi às pressas na esquina, em uma das folhas da minha carteira:

Para você, minha querida Finette,
Meu amor é muito forte;
Você se torna minha conquista,
E você é meu único tesouro!…


—Muito bem! E ela? o que te disse ela?...

— Ela, respondeu Anselmo, tomou o papel, leu, releu, refletiu e, pedindo-me o lápis, escreveu por baixo:

Eu não sou sua conquista,
Eu não sou seu tesouro.
Mas você foi estúpido,
Porque você é estúpido de novo!


Os que sabiam francês acolheram com uma gargalhada geral o remate da aventura do nosso Anselmo: este, tirando da algibeira uma caixa de colarinhos de papel, para substituir o que já se havia rasgado no pescoço —
pelo suor, preparou-se, levantou a sessão e sábio entre os seus companheiros, que o debicavam, ao ouvir-lhe as aventuras de amor.

Fonte:
Artur de Azevedo. O Domingo: Semanário crítico e literário. São Luís, MA: Tipografia do Liberal, Ano I. n. 40. 10 nov 1872.
Disponível em Domínio Público
Versado para o Português atual e traduções das quadras do francês para o português por J.Feldman 

Professor Garcia (Trovas que sonhei cantar) XIII


Se a ausência não te tortura,
a mim, causa espanto e dor;
a ausência rouba a ternura
da graça de um grande amor!
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Planos, ilusões, quimeras,
viraram cinzas pagãs,
no forno das primaveras
dos sóis de minhas manhãs!
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Quando o silêncio me acalma,
eu sinto um desejo imenso,
de ouvir a voz de minha alma
na voz de tudo que eu penso!
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No outono, é que se descobre
que a vida é rota sem fugas,
pela presença mais nobre
do olhar, das primeiras rugas!
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Da rua de minha infância,
a saudade perpetua...
Meus passos, na ressonância
das pegadas pela rua!
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Chove!... e essa chuva, no entanto,
são lágrimas dos desejos
dos céus, acabando o pranto
dos olhos dos sertanejos!
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Quem ao outro, o amor não nega
esse amor, que ao bem conduz...
Se aceita a cruz que carrega,
não sente o peso da cruz!
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A planta, de olhar atento,
sabe que as folhas no chão,
serão adubo e alimento
de outras folhas que virão!
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Num berço, entre os mais singelos,
brilha uma luz que se lança
sobre os mais cruéis libelos,
dando aos mortais, a esperança!
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De ouro e de prata, eu sou pobre,
nunca ostentei vaidade;
não há riqueza mais nobre
que a nobreza da humildade!
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Saudade - eterna moldura,
que em todos nós, perpetua...
Passos da doce ternura
da infância de nossa rua!
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Não te esqueças que esse orgulho
que te deixa tão nervoso,
é a resposta desse entulho
do coração do orgulhoso!
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Meus versos cheios de enredos,
lutam contra o tempo atroz,
guardando os nossos segredos,
tão segredados por nós!
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Quando a tarde se aproxima,
e o sol, se despede ao léu,
põe versos cheios de rima,
nas nuvens que estão no céu!
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Sinto-me um velho andarilho,
na trilha dos rastros teus,
para entregar-te meu filho
o resto dos versos meus!
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Quando o espelho se aproxima,
num rosto velho enublado,
parece que falta a rima
que já sobrou no passado!
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Ah! se voltasse e, se eu visse
risos de amor e empatia,
talvez, a paz existisse
e afastasse a pandemia!
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O bilhete que te escrevo,
com mãos trêmulas, parece
que escrever mais não me atrevo,
sem teu calor que me aquece!
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A tarde de olhar sombrio,
nunca diz adeus, era vão...
Põe no olhar triste e vazio,
os olhos da solidão!
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Ante o beijo, me apequeno,
não sem motivo qualquer;
Quem prova desse veneno,
se rende a qualquer mulher!
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O filho embarca cantando,
mas, finge a dor dos seus ais,
com o lenço branco acenando
à mãe, que acena no cais!
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Se o orgulho, a ninguém socorre,
então, por que se orgulhar?...
Rio orgulhoso que corre,
perde o orgulho ao ver o mar!
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Quem faz guerra e busca a paz,
dá-me a resposta mais breve:
nem sabe aquilo que faz
nem faz aquilo que deve!
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Parte a jangada e, no entanto,
saudosos sonhos intensos
acenam cheios de pranto
ao cais, coberto de lenços!
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Quem faz promessas e juras,
ouvindo a voz do perdão,
percebe que as amarguras
e os desenganos se vão!
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Àquele que estende a mão,
para qualquer "Zé ninguém",
Jesus multiplica o pão
de quem dá pão, para alguém!

Fonte:
Professor Garcia. Trovas que sonhei cantar. vol.2. Caicó: Ed. do Autor, 2018.  
Enviado pelo trovador.

Graciliano Ramos (O marquesão de jaqueira)

Espiando a lua que branqueava o pátio, seu Libório pinicava a prima da viola, gemendo baixinho uns versos de embolada. Alexandre, com ar de entendido, aprovava a cantoria. Mestre Gaudêncio curandeiro gingava, como se quisesse dançar. Os bilros da almofada de Cesária tocavam castanholas na esteira. Um cajado bateu no copiar:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

O cego preto Firmino entrou e, tateando, ladeando a parede, foi acocorar-se. Os bilros emudeceram e a voz de Cesária ergueu-se lenta:

— Conte a história do marquesão, Alexandre.

— É o que eu estava com vontade de pedir, meu padrinho, o marquesão, gritou Das Dores.

— Bobagem, resmungou Alexandre enrugando a cara. Seu Libório está desovando uma cantiga bonita, e seu Libório é o cantador mais famoso desta ribeira. Quando seu Libório abre o bico, até os passarinhos do mato se escondem.

O violeiro, modesto, interrompeu o canto e abafou com as mãos o rumor das cordas.

— Não senhor. Isso é bondade. Estava aqui dizendo umas besteiras, para matar tempo. Agora se seu Alexandre tem um marquesão na cabeça, eu me calo. Quando seu Alexandre move um dedo, quem se atreve a piar? Hem? Puxe o marquesão, seu Alexandre.

— Não senhor, não puxo, resistiu o dono da casa. Faço lá semelhante desfeita a uma criatura do seu tope? Continue, seu Libório.

— Continuo não. Quem sou eu? Vim escutar. Fale seu Alexandre, que é homem de merecimento.

Passaram quinze minutos nesse jogo, cada um tentando encolher-se e elevar o outro. Enfim Alexandre se deu por vencido:

— Vossemecês mandam. Eu estava quieto, mas seu Libório decide, e não tenho remédio senão obedecer. A culpada foi Cesária, que atirou em cima da gente um marquesão da jaqueira, um traste velho sem importância. Não valia a pena tocar nele. Para quê? Cesária tem cada lembrança! Eu começo, meus amigos. Não sou de gabolices. Reconheço que possuo algumas habilidades: enxergo no escuro, aguento-me numa sela e atiro regularmente. Mas em muitos casos espichados aqui para os senhores não mostrei valor. Comprei um papagaio que tinha astúcias de cristão e vi uma guariba diferente das outras. Qualquer um podia comprar o papagaio e ver a guariba, não é verdade? Na história de hoje também não pratiquei ação: recebi foi um susto dos demônios. Bem, vou principiar do princípio. Quando meu pai entregou a alma a Deus, deixou tantos possuídos que os oficiais de justiça arregalaram o olho: terra, muito patacão de ouro, um despotismo de gado. Meu irmão mais novo queria correr mundo e no inventário recebeu o quinhão dele em dinheiro; eu aceitei a fazenda, os animais e uma casa na rua, uma tapera que mandei reformar, caiar, pintar e enfeitar. Encomendei para ela móveis caros de lorde: mesas com embutidos, cadeiras fofas, camas de molas, armários, trocinhos miúdos sem nome e sem préstimo, cortinas, penduricalhos, um marquesão de jaqueira, enorme, coberto de couro lavrado, uma peça que me saiu por seiscentos e vinte mil réis. Pronta a casa, vivemos nela uns dias, na grandeza, recebendo visitas do prefeito, do juiz, do vigário, do chefe político, de todas as autoridades do lugar.

“Voltamos para a fazenda, mas aí Cesária apanhou um resfriado, cuspiu sangue, esteve uns meses bamba, entre a vida e a morte. Quando pisou no chão, só tinha osso, coitada. Magra como um casaco, amarela como gema de ovo. Deixei a nossa terra e andei tempo sem fim para cima e para baixo, procurando um doutor que botasse a mulher nos trilhos. Depois de muito xarope e muita garrafada, ela endureceu o espinhaço, tomou carne e endireitou a figura. Mas eu tinha gasto uma fortuna, tinha esbagaçado a herança quase toda em médico e botica para remendar o interior da patroa. Dinheiro nenhum, os bois desaparecendo, a miunça acabando na morrinha.”

— Exatamente, Alexandre, murmurou Cesária triste, o cachimbo apagado, o olho distante, o cotovelo pregado na almofada. Aquela macacoa estragou o nosso cabedal. É verdade que me aprumei, mas ficamos na tira e você precisou começar a vida de novo.

Alexandre amarrou a conversa na palavra da companheira:

— Isso, começar a vida de novo, deitar os bofes pela boca varando caminho, num desespero, do sertão para a mata e da mata para o sertão, comprando e vendendo. Felizmente eu dispunha de consideração, graças a Deus não me faltava crédito. Consegui levantar-me: os currais encheram-se, a cabroeira valente espalhou-se nos arredores, contando lambança, e rolos de notas graúdas forraram os fundos das arcas. Mas tive um trabalhão infeliz, espremendo os miolos e consumindo o corpo. Um dia Cesária chegou junto de mim e saiu-se com esta proposta: — “Xandu, vamos passar na rua a festa da Senhora Sant’Ana?” Não respondi que sim nem que não, e Cesária, renitente, pegou a amolar-me: — “Vamos, Xandu. Você, numa labuta dos diabos, se esquece do mundo. Faz um bando de anos que não saímos deste buraco, nem para ouvir missa. Vivemos em pecado, isto aqui fede a heresia, Xandu. E aquela casa fechada está se desgraçando com certeza no cupim e na goteira. Vamos passar na rua a festa da Senhora Sant’Ana.” Foram as suas palavras, Cesária.

— Foram as minhas palavras, Alexandre. Você tem memória.

— Tenho, prosseguiu o narrador. Fizemos os preparativos e no dia da Santa lá nos largamos para a cidade, eu no cavalo esquipador arreado com arreios de prata, Cesária vistosa na saia de montaria, composta no silhão, de banda, que naquele tempo havia decência e mulher não se escanchava em sela, como hoje. Entrando na rua, dei de cara com o Silva, homem de leitura, sabido como um tabelião. Nunca vi ninguém que soubesse tanto. Esse moço tinha andado nos estudos, defendia presos no júri, conhecia todos os livros do mundo e escrevia por baixo da água.

— “Como tem passado, major Alexandre?” —“Na graça de Deus, dr. Silva. Como vai a obrigação?” Conversa puxa conversa, estive ali um pedaço de tempo admirando a cadência do Silva. Quando nos despedimos, ele me perguntou: — “O senhor não está sentindo um cheiro esquisito, major Alexandre?” Abri as ventas, funguei e balancei a cabeça espantado: — “Não estou sentindo nada não, dr. Silva. Cheiro de quê?” Silva respondeu com um nome difícil, dos que vêm nos livros; eu fiquei jejuando, pedi que ele trocasse aquilo em miúdo, fui atendido e saí na mesma, um tanto ou quanto encabulado, dizendo cá por dentro que o rapaz tinha inventado uma pilhéria sem graça para me empulhar. Botei o cavalo na pisada baixa. Em frente da igreja, mal acabado o padre -nosso que rezo quando passo diante de imagens sagradas, desejei torcer a rédea, voltar, saber do Silva se ele tinha tido a intenção de mangar de mim. Não admito brincadeiras: comigo tudo é sério, ali no duro. Nesse ponto entrou-me nos gorgomilos um cheirinho adocicado, com jeito de mel de abelha. Ora sim senhores. Estivera a pique de fazer uma asneira, despropositar com o Silva, pessoa direita e entendida. Que faro o dele! Um faro de bicho. Tinha percebido longe, muito longe, o que eu só ali começava a sentir. Bem. Segui o meu caminho. E, enquanto andava, um arzinho açucarado, cada vez mais forte, me escorregava pelo nariz e pelas goelas. Chegamos a casa, desapeamos, meti a chave enferrujada na fechadura perra, que ninguém tinha mexido no correr de muitos anos. Abri a porta com dificuldade, entramos na sala. E vimos uma parte das coisas aproveitadas depois pelo Silva e desenvolvidas num escrito que se vendeu muito nas feiras e agradou. Fiquei de boca aberta, assombrado, Cesária deu um grito e pôs-se a tremer.

“Vossemecês não adivinham o motivo. Pois explico tudo em duas palhetadas. O marquesão tinha levado sumiço, ou, para melhor dizer, estava transformado completamente. Reparando bem, notei as pernas dele enterradas no chão, cobertas de cascas, tortas e grossas, quatro pés de pau. Sim senhores, quatro jaqueiras carregadas de frutas que se rachavam de tão maduras e cheiravam em demasia. O resto do marquesão tinha-se espatifado, e o couro do assento balançava, pendurado no meio da folhagem. Mandei cortar as plantas e pôr em ordem a sala, que estava num estrago feio, naturalmente, com o tijolo partido e a telha rebentada em vários lugares. Este caso teve numerosas testemunhas, que não me deixam mentir, entre elas Cesária, aqui presente, e o Silva, tipo de muito respeito, sisudo como o diabo. Mas confesso a vossemecês que no folheto dele, publicado em letras de fôrma, há algum exagero. Silva não se refere ao marquesão nem fala em jaqueiras: afirma que toda a mobília tinha criado raízes, que o corredor e as camarinhas se atochavam de laranjeiras e paus d’arco. Até acrescenta que as gavetas da cômoda tinham virado cortiços de abelhas, coisa que não vi, francamente, não vi. Nem eu nem Cesária. Ficam, portanto, os amigos avisados de que na história do Silva há uns floreios. Acho que ele procedeu com acerto: quando um cidadão escreve, estira o negócio, inventa, precisa encher o papel. Natural. Conversando, como agora, a gente só diz o que aconteceu. É o que eu faço. Na sala havia quatro jaqueiras. Apenas.”

Fonte:
Graciliano Ramos. Histórias de Alexandre. Publicado originalmente em 1944.
Disponível em Domínio Público.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Versejando 121

 

Sílvio Romero (A Madrasta)

(Folclore do Sergipe)


Havia um homem viúvo que tinha duas filhas pequenas, e casou-se pela segunda vez. A mulher era muito má para as meninas; mandava-as como escravas fazer todo o serviço e dava-lhes muito.

Perto de casa havia uma figueira que estava dando figos, e a madrasta mandava as enteadas cuidar dos figos por causa dos passarinhos.

Ali passavam as crianças dias inteiros, espantando-os e cantando:

“Xô, xô, passarinho,
Aí não toques teu biquinho,
Vai-te embora pra teu ninho…”


Quando acontecia aparecer qualquer figo picado, a madrasta castigava as meninas. Assim foram passando sempre maltratadas.

Quando uma vez, o pai das meninas fez uma viagem, a mulher enterrou-as vivas. Quando o homem chegou a mulher lhe disse que as suas filhas tinham caído doentes e lhe tinham dado grande trabalho, e tomado muitas mézinhas (remédio caseiro), mas tinham morrido. O pai ficou muito desgostoso.

Aconteceu que nas covas das duas meninas, e dos cabelos delas, nasceu um capinzal muito verde e bonito, e quando dava o vento o capinzal dizia:

“Xô, xô, passarinho,
Aí não toques teu biquinho,
Vai-te embora pra teu ninho…”

Andando o capineiro da casa a cortar capim para os cavalos, deu com aquele capinzal muito bonito, mas teve medo de o cortar, por ouvir aquelas palavras. Correndo foi contar ao senhor.

O senhor não o quis acreditar, e mandou-o cortar aquele mesmo capim, porque estava muito grande e verde. O capineiro foi cortar o capim, e quando meteu a foice ouviu aquela voz sair de baixo da terra e cantando:

«Capineiro de meu pai,
Não me cortes os cabelos;
Minha mãe me penteava,
Minha madrasta me enterrou
Pelo figo da figueira
Que o passarinho picou.»


O capineiro, ouvindo isto, correu para casa assombrado, e foi contar ao senhor que o não quis acreditar, até que o negro insistiu tanto que ele mesmo foi, e mandando o negro meter a foice, também ouviu a cantiga do fundo da terra.

Então mandou cavar naquele lugar e encontrou as suas duas filhas ainda vivas por milagre de Nossa Senhora, que era madrinha delas.

Quando chegaram em casa acharam a mulher, morta por castigo.

Fonte:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Lisboa/Portugal: Nova Livraria Internacional, 1885.
Disponível em Domínio Público.
Atualização do português por J.Feldman

Daniel Maurício (Poemininos) – 1


Amizade...


Na procura
De aconchego,
O abacateiro
Encontrou
No amigo,
Bem mais
Que abrigo
E proteção.
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A paineira
Dobra-se
Em flor
Alegrando
A fachada
Da
Casa
Do
Senhor.
= = = = = = = = =

Cansado
Da rua
O cachorrinho
Inocente
Igual a Bandeira
Sonhou que
Em Pasárgada
Era amigo
Do rei.
= = = = = = = = =

Com
A chuva de prata,
O cinza escorrega
Dos meus olhos...
Dorzinha
De saudade
Vontade
Que saliva
Asas prontas
Pra te encontrar.
= = = = = = = = =

Com
Delicadeza,
A borboleta
massageia
As pétalas
Com
Seus
Pezinhos.
= = = = = = = = =

Com olhar
De admiração
É tão feminina,
A    açucena
Deixa à mostra
Seus longos
E perfeitos
Cílios.
= = = = = = = = =

Elegância...
No
Balé
Solitário
Com graça
A garça
Baila
Contra
O vento.
= = = = = = = = =

Feito
Fogos de artifício
Na noite escura,
Explodem
Margaridas
Sob a réstia
Do luar.
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Indiferente aos reflexos
Da passagem do tempo
A coruja
Feito uma vó coruja
Com aquele ar de respeito
Protege na raça e no peito
O lugar destinado ao idoso
Aquele ser tão precioso
Do qual a vida
Não se cansa de gostar.
= = = = = = = = =

Mar
De
Março.
Nuvem
Baleia
Flutuante
Esguichando
Água
Rios
Telhados.
= = = = = = = = =

Minhas lágrimas
Por ti foram tantas
Que ao sol
Dos teus olhos
Da tua chegada
Um arco íris
Em meus cílios
Formou.
= = = = = = = = =

Na despedida
Sem ter
A Calçada da Fama
A folha
De plátano
Fica cravada
Na poça
De lama.
= = = = = = = = =

Na poça d' água
À beira do caminho,
Um pedaço de céu,
Lágrimas...
Na pressa
Da despedida
Deixo mais
Que um rastro...
Fica
Um pouco
De mim.
= = = = = = = = =

Nas areias áridas
E quentes
Do meu peito,
Teu beijo
Regou
A semente
Que julgava
Morta...
Amei
De novo!
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Nas grossas pétalas
Da
Magnólia,
Suave
Perfume
Dos
Guardanapos
Da vovó.
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No
Brilho
Do
Olhar
do
Outro
Vejo meus
Olhos
Espelhados.
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  Quase fiquei vesgo
De tanto namorar
Uma palavra.
Arredia, me olhou
Com olhos bem arregalados.
De certo estava com medo
De compor comigo.
É...
As palavras são dengosas,
Precisam de carinho.
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Reflexo...

As
Escamas
Dos peixes invisíveis,
Calçam
Os caminhos
Da lua
No mar.
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Sabores...
As delicadas
Rendas do jardim,
Lembram
As toalhinhas
Caprichosas
Nos cafés
Da tarde.
Que minha avó
Fazia
pra mim.

Fonte:
Daniel Maurício. Poemininos. Curitiba: Ed. do Autor, 2021.
Enviado pelo poeta.

Jaqueline Machado (Isadora de Pampa e Bahia) – Capitulo 11: A verdade aparece

Senhor Antônio, não contou nada a respeito dos novos negócios à esposa e à filha. Mas suas expressões de preocupação, repentinamente transformaram-se em cantarolados, assobios e até gargalhadas, ao trocar qualquer ideia com os peões. Além disso, andava caseiro e, pelo menos uma vez ao dia, entrava no quarto para saber da mulher.

‘O que deu nele?’ Pensou Isadora.

Os dias foram passando e nada do fazendeiro voltar ao seu estado “normal”. Claro, ainda era grosseiro e cheio de ideias machistas.

-   Teu vestido tá muito decotado, “fia” - reclamou ao ver a guria com um vestido de chita, florido, com o tecido em fundo vermelho. Aliás, vermelho não, encarnado. Era assim que ele denominava o tom avermelhado das coisas e afirmava ser essa a cor favorita das “mulheres da vida”.

Com receio de estragar o bom humor do pai, a filha, imediatamente trocou o vestido por um em tom azulado, delicado e sóbrio.

Ainda assim, o velho estava diferente. Não parecia ser a mesma pessoa. Todas as manhãs, sentava na varanda para matear em frente ao fogão à lenha e brincar com o amigável cusco da casa.

Tal mudança acalmava o coração de Isadora, mas não a convencia por completo.

Da janela do seu quarto, perdida em seus pensamentos, por várias noites seguidas se perguntou: - será possível alguém em idade avançada e costumes tão medonhos, mudar da noite para o dia?...

No decorrer desse inusitado período de paz, a moça cuidava dos afazeres domésticos e aplicava-se ao máximo para ver a mãe plena em sua saúde.

- Mãezinha, preparei uma sopa deliciosa para a senhora. - disse ela ao entrar no quarto num dia de extremo frio.

-   Teu pai nem parece ser o mesmo homem de antes. Ele está mudado. - disse a esposa, cheia de esperança.

- Espero que essa mudança seja real e venha para o bem de todos, minha mãe.

- Sempre te alertei sobre o lado bom do teu pai.

- A aparente mudança não apaga tudo o que ele fez a senhora sofrer. És uma mulher incrível, merecia um marido mais presente e carinhoso. Mas não vamos discutir sobre isso. Coma. Quero vê-la forte.

- Estou sem fome.

- Ainda sem apetite. Precisas se alimentar.

- Está bem, meu anjo. Tenho que exercitar a minha força de vontade.

- Gostei de ver. É assim que se fala!

Logo após o almoço, enquanto Isadora lavava a louça, dona Ana sentiu enjoos e desmaiou.

Meia hora depois, ao entrar no quarto, Isadora tentou reanimá-la.

- Mãe, acorda, pelo amor de Deus. Socorro! – gritou, desesperada.

Ao entrar, o senhor Antônio deu-se conta do estado lamentável da esposa e, às pressas, correu atrás do Juca.  

- Tua patroa tá passando mal. Precisa ser levada para o “hospitar”. - disse o patrão, já quase sem ar com a correria.

Com o peão no comando da direção do jipe da família, eles partiram até a cidade na fé de que dona Ana chegasse ainda com vida ao pronto-socorro.

Após ser internada novamente, o médico confirmou o estado gravíssimo de saúde da mulher.

- O coração dela está muito fraco. Precisamos conduzi-la a São Paulo para que se realize uma cirurgia. Mas vou logo avisando: a operação custará um alto valor financeiro. - explicou o cardiologista sem fazer rodeios.

- Quanto? - indagou o marido, sentindo-se apreensivo.

- Alguns mil cruzeiros.

O senhor Antônio levou as mãos ao peito. E acometido por uma vertigem, foi amparado pelo doutor que verificou a sua pressão.

- Pai. O senhor está se sentindo melhor? - perguntou Isa, minutos depois.

-  Parece que me “farta” o ar, “fia”.

- Mas sua pressão está ótima. Respire fundo e tudo ficará bem. Precisamos tratar logo sobre a transferência da mãe.

- Ela não pode ser tratada aqui, doutor?

- Pai. Não ouviste o que o médico disse?

- Sabe o que é minha “fia”, não tenho como pagar essa despesa. É uma operação cara. - disse Antônio, gaguejando.

- Pai, precisamos ter uma conversa em particular.

- Vou deixá-los a sós. Quando decidirem o que devemos fazer, é só chamar. - disse o plantonista.  
 
- Pai, que história é essa de não ter dinheiro para pagar a operação?

- Tô falido.

- O momento é totalmente impróprio para pensar em economizar.

- Tô falido. Sem dinheiro pra comprar um mísero bezerro.

- Mas o senhor é dono de uma grande fazenda e de outras fazendas menores. E, ao que parece, os peões estão com os seus salários em dia. Esclareça o que está acontecendo.

- Nesse mês os “peão” não vão receber nada.

Isadora, sem saber o que fazer, levou as mãos à cabeça, girou em torno de si e, chorando, desabafou.

- Gastou todo o dinheiro da família com mulheres e jogos.

- Nenhum “fio” ou “fia” tem o direito de acusar pai e mãe.

- Tem, sim. E eu estou lhe acusando de torrar o dinheiro da família na rua, enquanto a sua esposa ficava em casa, limpando, cozinhando e fazendo doces para vender. Trabalhou tanto que perdeu o seu maior bem: a saúde. Aliás, o trabalho é apenas uma parte do problema. A sua ausência, a sua falta de amor para com ela, a vinha matando aos poucos desde sempre.

- Cala a boca, guria. Senão o “reio”  (relho) te acha!

- Fica o senhor sabendo que não sinto medo das suas ameaças.

- Eu ergui aquela fazenda. Ela é minha.

- Sendo assim, por que batizou as terras prestando homenagem a mim?

- Porque tu também é minha! - bradou o pai, cheio de ira.

- Se a mãe morrer a culpa é sua.

-  Mas se ela se “sarvar”, a “curpa” é todinha tua.

- O que queres dizer?

- Caso aceite uma proposta, tua mãe sai dessa, viva.

- Que proposta?

- O “fio” do xiru Pafúncio tá querendo casar contigo.

- Casar comigo? Mal me conhece.

- Tá enfeitiçado por tua beleza. A “famía” é muito rica. Pode “sarvá” tua mãe e a fazenda.

- Agora estou entendendo ... Eu já estava envolvida entre os negócios de vocês ... Por isso o senhor estava diferente, cantarolando pela casa. Estava sentindo-se desapertado por teres encontrado uma forma de salvar a fazenda, me sacrificando.

- Agora tá tudo entregue nas tuas mãos.

- Covarde. O senhor é um covarde! - gritou Isadora, chorando copiosamente.

- Gente, estamos dentro de um hospital. Que gritaria é essa? -perguntou o médico ao passar pelo corredor.

- Tô fa...

- Pode preparar a transferência. A mãe será operada. - disse a filha, interrompendo a fala do pai que já se preparava para contar da sua falência financeira ao médico.

Ao ouvir as palavras de Isadora, o senhor Antônio sorriu e suspirou aliviado.
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Nota de ropdapé:
Relho: Chicote feito com couro; fita de couro cru usada para chicotear animais.

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continua…

Fonte:
Enviado pela autora

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Izo Goldman (Buquê de Trovas) – 7 –

 

Coelho Neto (O talismã)

Em escusa e sórdida viela, tremedal (brejo) nauseante entre arruinados casebres, na baiúca mais acaçapada e tão velha que os muros fendidos abriam-se em largas brechas por onde, ao cair da noite, saiam, aos trissos, revoadas de morcegos, em companhia de escaveirada bruxa, vivia velho mouro; tido por feiticeiro por ser muito sabido em curas e profundamente versado na ciência dos augúrios.

Os seus filtros operavam como se fossem o próprio elixir da vida, cuja fórmula os alquimistas procuravam.

Enfermo à cuja cabeceira se sentasse, ainda que houvesse sido desenganado por todos os físicos da cidade, logo readquiria o espírito e sarava. Horóscopo que tirasse consultando os astros cumpria-se com a precisão com que o sol faz o seu curso no céu.

Era tão celebrado o poder do homem mágico que os cristãos, sempre acirrados contra os marrados da sua laia, gente aleivosa e má, aparceirada com o demônio, indigna do ar e da luz, temiam-no e respeitavam-no e os fidalgos de maior entono (majestade), depois do toque de correr, quando as ruas escuras ficavam a discrição dos volteiros (desordeiros) temidos, cuidadosamente embuçados, renteando os muros eriçados de ervas, onde piavam corujas lúgubres, iam pela viela em passos ligeiros e, com o punho da espada, batiam rijamente à porta do muro desaparecendo de repelão nas trevas do corredor.

Uns, dados a amores, iam buscar amavios (elixires); outros, achacados (enfermos), iam a remédios. Ainda os havia crentes que confiavam nos grandes livros cabalísticos nos quais o mouro decifrava presságios sempre venturosos: anúncios de riquezas e honrarias, vitórias em expedições, sorte em amores, tal fosse o consultante: namorado, ambicioso ou cavaleiro.

Um dia correu a cidade a notícia de uma grande e maravilhosa descoberta do mouro — que ele conseguira compor, com o prestígio de um signo, um talismã de ventura. Quem o possuísse, teria o que desejasse.

Senhor de terras, deixava a sua lavoura medrar com abundância, multiplicar-se o armentio, reenxamearem-se as colmeias abandonadas, reviçarem os vageiros (terras estéreis). Fontes, desde muito estancadas, borbotoariam aos golfões; árvores sem ceira brotariam de novo.

Pastores descobririam minas, mesteirais (obreiros) achariam tesouros, guerreiros teriam os melhores despojos, enfermos ficariam sãos e só com uma volta de canto e um trêmulo nos alaúdes os namorados veriam aparecer na adufa (parte externa da janela) o rosto amado, logo ouviriam ranger de quícios (dobradiças)e um braço branco, estendendo-se na sombra, recebe-los-ia à porta guiando-os através de corredores silentes à câmara tão ardentemente desejada.

Com tal notícia foi imenso o alvoroço entre os homens e todos afluíram à baiuca do mouro e as escancelas de veludo, as bolsas de couro despejavam moedas na banca do descobridor do talismã da ventura.

A viela, dantes sossegada e deserta, mais silenciosa que almocóvar (cemitério judeu) maldito, onde nem aves cantam, encheu-se de gente; fidalgos e vilões, burgueses e campônios, todos aldrabando à porta do mouro, desaparecendo, com pressa ansiosa, na sombra fria do corredor.

A todos o homem mágico, em cujos lábios pairava irônico sorriso, entregando o talismã da ventura, repetia as mesmas palavras:

— Tendes na mão a chave de toda a fortuna e tudo obtereis, dentro em um ano, se não cederdes à curiosidade. No breve que vos entrego encerrei misterioso segredo. Tive a sua revelação em uma noite de Agosto, à hora em que nos vales e nos desfiladeiros os espíritos bailam à luz funérea do luar.

“Para que se realize o prodígio é necessário que conserveis o breve tal como lhe entrego, sem vos preocupardes com o que nele existe. Se tal cumprirdes vereis mudar-se a vossa sorte. Tereis na riquezas maiores, todos os amores; não haverá bravura que prevaleça contra vós e ainda que as pestes assolem a terra, dizimando os seus habitantes, passareis refratários a todo o mal, sem que o próprio Anjo sinistro possa alcançar-vos com o seu flagelo.

“Onde os outros virem arca e arro (lama) descobrireis ouro e gemas. A sorte está em vossas mãos. Se abrirdes, porém, o breve, o talismã imediatamente perderá toda a virtude. Assim, é preciso que observeis a condição do mistério. Se tal fizerdes, voltai dentro de um ano à casa do vosso servo, que muito se alegrará em ver-vos, ouvindo da vossa boca a confirmação do que lhe foi dito pelo gênio quando lhe comunicou os sete arcanos do talismã que levais.”

Foram-se os vários homens contentes, jurando que nunca procurariam ver o que havia nas suas nôminas, tanto, porém, que deixaram a viela, logo, em todos, começou a curiosidade a pruir: “Que será? Sete arcanos!” E apalpavam, cheiravam, viravam, reviravam entre os dedos o breve de couro. “Que haveria ali dentro?”

Alguns afirmavam haver sentido estranho, deliciosíssimo perfume; outros garantiam ter percebido movimentos, como de animal. “É uma pedra, talvez da lua”; dizia este. “É uma esquírola (fragmento) de osso”; asseverava aquele. Um: — “É frio, mais frio que a neve”. Outro: —“Abrasa que nem fogo vivo”. E discutindo, com as mais desencontradas opiniões, lá iam.

Sós, na baiuca: o mouro e a bruxa, puseram-se a contar as moedas. Ao fim, disse a mulher, que conhecia o segredo do talismã:

— Que pensas fazer agora? É prudente que, quanto antes, passemos a lugar seguro, porque os homens, ao fim do tempo, vendo que nada obtêm do talismã, darão pelo embuste e... ai! de nós.

Mas o mouro, que era atilado, ajuntando, uma a uma, as moedas luzentes, retorquiu com serenidade:

— E esperas que voltem? Bem mostras que não conheces a alma humana. Nem um só aqui tomará, porque a condição que impus será a minha garantia. Dei o prazo de um ano e estou em afirmar que, antes da noite, todos os breves estarão abertos, expondo os seixos que encerram. Satisfeita a curiosidade, ficarão os homens arrependidos, mas será tarde e cumprir-se-á o que eu disse: o talismã perderá a sua virtude. Descansa — nem um só tornará.

O homem, por curiosidade, desceria ao fundo do inferno, se lhe descobrisse o caminho, ainda que todo ele fosse assoalhado de pez (piche) ardente. Não te dê cuidado o amanhã.

Efetivamente o prazo escoou sem que um só dos possuidores do talismã aparecesse.

Fonte:
Disponível em domínio público.
Coelho Neto. Fabulário. Porto/Portugal: Livraria Chardron, de Ceio & Irmão, 1924.

Nilto Maciel (Da noite para o dia)

Como a vida da gente muda da noite para o dia! Ainda ontem tudo ao meu redor parecia sem vida, tudo monotonamente normal, quando me assaltou novamente a ideia de remexer papéis velhos, um dos meus passatempos prediletos. Assim consigo também trazer de volta o passado. Às vezes é uma foto, outras uma carta, outras ainda uma poesia que rabisquei na adolescência. Mas desta vez não foi nada disso. Encontrei uma novela. Datilografada, ilustrada, com capa e tudo. Como um livro impresso. No fundo de uma gaveta, enrolada noutras folhas de papel. Retirei o invólucro e fui me lembrando da história daquela história. Era uma novela amorosa escrita por César e ilustrada por mim. Datilografamos, fizemos uma bonita capa,  grampeamos as folhas. Nesse tempo vivíamos de sonhar. Éramos estudantes do mesmo colégio, colegas de grêmio literário, de leituras, discussões acaloradas. Líamos Dumas, Camilo, Herculano, Alencar.

César sonhava com a glória literária. Ser membro da Academia, escritor de fama, ganhador do Nobel. Já meu sonho se contentava com as migalhas da simples publicação. Eu não tinha vocação literária, embora rabiscasse versos vez por outra. Aprazia-me mesmo era desenhar. Daí a capa do futuro livro de César e algumas ilustrações ao texto.

Iríamos trabalhar juntos sempre: ele como escritor de novelas, eu como ilustrador de seus livros. E nunca ele aceitaria outro ilustrador, nem eu ilustraria livro de outro escritor. Pacto de sangue, de morte, de amizade eterna.

Planejamos publicar a primeira novela. Cinquenta mil exemplares na primeira edição. Ele havia sonhado com cem mil, até que o convenci a ser mais modesto. Iríamos ficar famosos da noite para o dia: ele como escritor, eu como ilustrador. Lidos e vistos em todo o Brasil. E depois em todo o mundo. Inclusive na China. Falaríamos com Mao Tse-tung. A juventude chinesa precisava de ler textos mais do coração e não só o livrinho vermelho.

Enviamos cópias para algumas editoras. As respostas vieram desalentadoras: “livro pouco comercial”, dizia uma; “muitas obras no prelo nos impedem de dar publicação à sua novela”, esclarecia outra; “não estamos no momento publicando novelas”, explicava uma terceira; “livro não aprovado pelo nosso Conselho de Leitores”, resumia uma quarta. E outras do mesmo teor.

Algumas editoras nem sequer deram resposta. Fizemos então novos planos maravilhosos. Não iríamos precisar das editoras. Pouparíamos. Deixaríamos de fumar, beber, merendar, ir ao cinema, etc. César iria trabalhar e depositaria a maior parte do ordenado na caderneta. Meu pai não me deixava trabalhar, mas, em compensação, eu exigiria mesada mais gorda. Dela tiraria apenas o suficiente para os gastos mais necessários e depositaria o restante na poupança. Quando já tivéssemos alguns milhões, mandaríamos publicar a novela numa gráfica qualquer. Venderíamos os livros nas escolas, nos cinemas, nas ruas, lojas, repartições públicas, nos bares. Viajaríamos pelo interior. Com o dinheiro da venda mandaríamos publicar o segundo livro. Mas quando teríamos os milhões suficientes para pagar a primeira impressão? A esta pergunta perdemos o entusiasmo.

Concluídos os estudos secundários, César deixou de estudar e arranjou emprego. Não para juntar dinheiro, mas para sobreviver. Seu pai mergulhava cada vez mais na pobreza. E não falamos mais na novela. Nossas relações pouco a pouco iam perdendo o calor, nossos encontros se distanciando no tempo. E, quando nos víamos por acaso, apenas nos cumprimentávamos.

Esqueci logo os desenhos, as ilustrações, os sonhos. E fui estudar Direito.

Um ano depois meu pai morreu. Estranhamente assassinado. Crime horrível – latrocínio. Morto e roubado. Encontraram seu corpo numa valeta a poucos quilômetros do centro da cidade. Um tiro no crânio. E o carro estacionado à margem da estrada. Nenhum vestígio do assassino.

Meu pai nunca teve inimigos, dava-se bem com todo mundo e quase toda a cidade o conhecia. Nós, os filhos, estudávamos nos melhores colégios. Minha mãe o adorava. A polícia ficou tonta. Não sabia a quem atribuir o crime. Nenhum indício, nenhum suspeito.

No dia de sua morte havia sacado uma grande soma em dinheiro ao banco, como sempre fazia. E seus negócios ele mesmo os resolvia. Deixava o carro estacionado nas proximidades do banco, levava uma pasta, um revólver e só. Não queria guarda-costas.

A polícia concluiu finalmente que o assassino só podia ser um assaltante comum. Foram então presos todos os ladrões e suspeitos de terem cometido crimes contra o patrimônio. A nenhum deles, porém, foi possível imputar o latrocínio.

Folheei a novela e por um bom tempo me deixei a cismar. Pensei no meu passado, em César, e quase não consegui dormir. E decidi que hoje procuraria saber onde vivia César. Queria recordar com ele todos os nossos sonhos, todos os nossos sofrimentos, ele por ter tido suas ilusões tão duramente mortas, eu por ter perdido meu pai de maneira tão bárbara e misteriosa. Como pudemos nos esquecer tão depressa, apesar daquela amizade quase apaixonada que nutríamos um pelo outro? Como somos fracos, débeis, inconstantes!

Onde, porém, eu poderia encontrá-lo? Detrás de um balcão de loja? Na cozinha de um restaurante? Ou teria conseguido realizar seus sonhos literários, pelo menos os mais modestos? Ou teria ido embora para bem longe? Talvez até estivesse morto.

Não, não adiantava fazer suposições. Mais fácil procurar seu nome na lista telefônica. Se não estivesse tão mal, certamente teria um telefone. Tentei lembrar-me de seu nome completo. Lamentei mais uma vez a fragilidade do coração humano. Como pude esquecer tão facilmente o nome de meu melhor amigo? Ainda bem que a novela se encontrava comigo, e, com toda certeza, nela estaria o nome inteiro, um sobrenome pelo menos. Corri os olhos e li: César Augusto dos Reis, no alto da capa.

Hoje disquei o número e atendeu uma voz grossa e autoritária. “Quero falar com o novelista César Augusto dos Reis”. A voz do outro lado se mostrou aborrecida: “Não existe nenhum novelista aqui. Quer deixar de brincadeiras, meu senhor.” Apresentei-me. Ele se fez de esquecido ou de fato não se lembrava mais de mim. Depois se disse surpreso: “Não sabia que você ainda era gente”. Conversamos mais. Quis saber de minha vida. “Sou advogado. E você?” Falou em barzinho, dificuldades, “aturando esses bêbados dia e noite”. Pedi o endereço.

O barzinho chama-se “Restaurant Carnivorous”, serve pratos da cozinha internacional, recebe a fina flor da sociedade e é irmão de outros dois e de um prédio de doze andares.

César mandou dizer por um moleque de recados que não podia receber ninguém. Em um minuto deveria sair para compromisso inadiável. Não dei ouvidos ao recado e entrei no escritório. E só saí de lá uma hora depois.

Falamos da morte de meu pai, de comércio, de literatura e artes plásticas, do passado, de nossos sonhos, mil coisas, tudo de forma desordenada, como se quiséssemos falar todas as palavras ao mesmo tempo. Contou-me sua história: antes de adquirir o primeiro barzinho, trabalhou como garçom, copeiro e cozinheiro. O barzinho rendia alguma coisa, até se transformar num bar de verdade. O bar virou restaurante. “Tudo porque sou muito controlado e trabalhador. Não ando esbanjando dinheiro”.

Surpreendi-me diante de tanta riqueza e fui para casa desconfiado não sei de quê. E todo o passado voltou à tona, aos borbotões, feito vômito. Relembrei todas as nossas conversas, todos os sonhos, todos os projetos, a novela, tudo. E me interroguei com mil perguntas: por que César não publicou o livro, não virou o escritor que desejava ser, se tem tanto dinheiro? E se havia dito numa de nossas últimas conversas que nada o impediria de se transformar num grande homem, famoso, reconhecido por todos! Como um barzinho podia ter se transformado num restaurante daqueles em tão pouco tempo?

Não durou muito aquele vômito e voltei ao restaurante. Da porta gritei: “César, você matou o meu pai”. Ele quis explodir, gritar, correr, agredir. Apontei-lhe o revólver e ele se rendeu.

Fonte:
Nilto Maciel. Babel. Brasília/DF: Editora Códice, 1997.
Enviado pelo autor.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Carolina Ramos (Trovando) “03”

 

Francisco José Pessoa (Estaleiro versus Titanzinho)

Fim de tarde melancólico no pontal do Mucuripe... lá em cima, o céu aos poucos se enluta; cá embaixo, maré seca, pequenas ondas tênues pouco encrespadas teimam em beijar a praia do Titanzinho, como se fora o derradeiro afago.

Uma folha de jornal quase desfeita se abraça a um coral vigilante que veio tomar fôlego na superfície. Eis a chave do mistério para tanta tristeza.

A cada momento seguinte, numa suave nuança, a abóbada celeste também lacrimeja piscando estrelas, ao ouvir atentamente os soluços do mar que, desesperado, roga aos deuses do Olimpo pela sobrevivência daquela praia, criatório de talentosos equilibristas de pranchas que hoje surfam na crista da onda em competições internacionais. E não é só disso de que se alimenta a Titanzinho, pois, viveiro de variadas espécimes de peixe, faz-se cardápio para os praianos que vivem em seu derredor.

Nem tudo são flores, no dizer do poeta, na praia do Titanzinho. A nossa sociedade míope enxerga-a como uma zona franca da prostituição, paraíso para os marinheiros sedentos e famintos que arriam âncora em nossos mares. Relegada ao esquecimento, ela tornou-se lembrada por jovens que se aventuram no trágico mundo do tráfico. Existem titãs, paradoxalmente, sem forças, que procuram maiusculizar a Titanzinho. São nativos de pele crestada que cheiram a maresia, cujos vagidos se confundem com o roçar do peito das ondas no dorso da praia, ou que nasceram no meio do mar e foram atraídos pelo canto das sereias, com a missão de diminuir a dor daquele povo sofrido.

Quão bom é ver e sentir o lado bom da comunidade Serviluz, que busca servir a luz para nossos irmãos que portam óculos escuros em noites trevosas.

Sob o teto de um azul já escurecido e o gotejar de lágrimas vindo de estrelas chorosas e refulgentes, pois que a lua ausente se fazia, pus-me a meditar naquela noite fria, fitando quase às cegas o lúgubre horizonte. Eis que me envolve os pés, já desbotada, aquela folha de jornal liberta dos corais, indecisa no seu ir e vir por tantas vezes no alcançar da praia, sem saber que trazia a chave do mistério, do porquê de tanta tristeza naquela praia condenada a desaparecer.

- MORTE ÀS PRANCHAS! VIVA O ESTALEIRO!... Lia-se com dificuldade as letras garrafais embaralhadas na página molhada.

360, Tubo, Cabuloso, Casca grossa, Kaó, Maroleiro, são gritos de guerra que tendem a perder eco naquela praia pequena que se fez grande aos olhos da Transpetro, empresa gerenciada por um cearense que na sua juventude, desfrutou dos distintos sabores que aquele pedaço de chão O mar lhe ofertou.

"é doce morrer no mar"... Que esta ideia de estaleiro na Titanzinho pereça sob as ondas que carregam no dorso nossos surfistas campeões. E os paquetes domados por homens de pele crestada e braços fortes sorrirão onda após onda, num duelo saudável entre o jangadeiro e aquele mundão d'água que lhe garante a sobrevivência.

Por um momento, submergiu a folha de jornal. Cá, na superfície, flutua a decisão dos nossos governantes; um sim, um não, conforme a maré...

Titanzinho, se morreres, morro contigo!

Fonte:
Francisco José Pessoa de Andrade Reis. Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso. Fortaleza/CE: Íris, 2013.
Enviado pelo autor.

Vanice Zimerman (Poemas Escolhidos) 9


DOCE MAGENTA & TEXTURA


Entre as páginas do livro -
A poesia entreaberta
Recebe o bailar da Luz e sombra -
Diáfana por do sol...

Cores, recantos, da Holanda,
Das telas de Monet,
Saudades dos moinhos -
Ninhos de ventos
Pétalas dobradas...
Doce Magenta
Em silêncio, abraçando
As palavras, os versos,
E as anotações ao pé da página -
Inclinadas pétalas
De origem tão distante
Atemporais tintas -
Esmaecidas tulipas...
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FAÇO-ME LÁGRIMA

Quando àquelas distantes
nuvens
Nublam teu olhar
(Abraço teus tons
de gris)
Abro e
fecho
parênteses
E inebriada, silencio-me

Faço-me lágrima
Para deslizar dos teus cílios,
Alongando desejos
De te beijar
E desaguo no cantinho
Dos teus lábios
E, assim desperto uma pontinha
Do teu sorriso...
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MONJOLO

A madeira antiga
Dilui-se com a passagem
Do tempo, tempo
Que afaga teus contornos...
A madeira antiga
Resiste e ainda
Insiste, em sobreviver,
Mesmo com a ausência das águas,
Mantém vivo
O som distante
E repetitivo.
Da teu cadenciado toque...
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OUTONO EM TÊMPERA

O vento menino
Que guardei na tela
Com as quatro folhas
plátano -
Hoje, de manhãzinha
Deixou a têmpera e,
Despedindo - se do Canson
Visitou - me...
Ah, esse ventinho
Que acaricia meu rosto
E envolve cada pérola
Do colar, com teu perfume...
Esse aroma de Amor é encantado -
Paleta com outonais cores
A fluir em meu corpo e alma

Teu vento menino
Refaz em nosso céu
Àquele... coração de nuvem
E nessa manhã fria
Teu carinho em fios.
Douradas filigranas
Cintilam em nosso
Ninho de orvalho -
Teu carinho
É o meu solzinho...
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POÉTICO ABANDONO

As folhas de hera cobrem tuas paredes,
Portas, janelas e varandas,
Lembrando verdes demãos
de tintas,
Afagos a protegê-la das
intempéries...
A escada com nove degraus, ainda,
Preserva parte do mármore,
A porta principal, já sem a dourada
Maçaneta é aberta com facilidade,

E a cada passo, sinto a solidão -
Um silêncio especial espreita-me
Nos gastos tapetes, no piano
Deixado à própria sorte,
Sonhando com Debussy...
A alma da casa abandonada
Refugia-se em imagens e sons
Do passado -
Continuo minha aventura -
Caminhada, sem pressa, com o olhar
E, curiosa, abro mais uma porta,
Encontrando, janelas sem vidros
Que deixam o canto dos pássaros
Mais próximos, fazenda parte
Da linda, mas esquecida, adega
As garrafas de vinho,
Sem rótulos e rolhas
(Nuas - vazias)
Ocupam prateleiras
Como se livros fossem -
Lunetas encantadas
Intocáveis,
Umas sobre as outras
Cobertas por camadas de poeira
Lembram uma segunda pele
Imagino diálogos entre
As garrafas e as partículas de pó,
E a sonolenta cadeira, sem palhas,
A observá-las...
Ah. esse aconchego da passagem
Do tempo, tatuando objetos e sonhos -
Tempo, que tudo desgasta, esmaece,
(Enferruja)
Leva os sorrisos e, aos poucos
Ávida desaparece...
Choro com ela, sinto
Na casa adormecida
Um poético abandono,
Quem sabe,
Ela despertará
Em uma futura aquarela,
Quem sabe?
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PRENÚNCIOS

Sensível, o olhar
Pousa na fonte
Repleta,
De falhas do plátano,
Sinto a poesia
E solidão do cântaro...

Distancia-se o pensamento,
O venta sussurra teu nome...
E, nas esmaecidas e diáfanas cores
De mais um por do sol -
Prenúncios de Saudade...
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TRÊS SÍLABAS

Noite outonal -
Estava a três passos
De reencontra-lo,
Antigo piano -
Debussy...
Durante as aulas
Ficava com meu caderno
Próximo de ti
Tínhamos
Conversas
(Segredos) -
E, em silêncio
Nos olhávamos...
Não tivemos
Tempo de despedidas,
Estava a três passos
De ti, mas há
Um mundo de distância
Entre nós -
Solidão,
Apenas, três sílabas
Contidas em um universo
De saudade...

Fonte:
Vanice Zimerman y Gustavo Henao Chica. Saudade… . Curitiba/PR: Nogus Ed., 2021.
Enviado pela poetisa.

Sonia Regina Rocha Rodrigues (Homenagem à Sophia Leite Cruz)

Pura luz

Qual uma esteira de prata,
O luar cai sobre a areia,
e o mar, numa serenata,
faz trovas à lua cheia!
Sophia Leite Cruz


A poetisa santista Sophia Leite Cruz, que, ao final do século vinte, residia em Santos, sofrendo de mal de Parkinson há mais de dez anos, infartou. Sophia foi uma das pessoas mais alegres que conheci. Se alguma de nós entrasse esbaforida, a lutar com o guarda-chuva, em dia de vento, ouvia-se Sophia a rir:

O vento passa, curioso,
Por entre frondas e faias,
e levanta, malicioso,
a barra de tuas saias.


Posso imaginar Sophia, que sobreviveu ao ataque, acordando na UTI, ao lado de uma dessas desprestigiadas profissionais da saúde, de olhar desiludido e semblante amargurado, mecanicamente a trocar um frasco de soro, e murmurar um ‘obrigada, querida’ seguido de uma rima:

E que caminhes sempre firmemente
A cada passo, uma conquista a mais,
Tendo no peito muita paz somente,
Anjo de Amor, orgulho de teus pais.


E acrescentando:

- De teus pais e de nós, teus pacientes.

Pronto; lançado o encanto, a face da moça se transformaria, surpresa.

E quando o médico se aproximasse a perguntar pelo coração de poeta, ela responderia:

Em busca de beleza e pelo amor,
Corre o poeta a soltar-se no espaço.
Leva no verso a força e o resplendor,
Não mede esforço, despreza o cansaço.


E o médico, a provocá-la:

- Não cansa mesmo, avozinha? Depois de horas a escrever, não cansa, não?

E Sophia afirmaria:

E a pena corre firme no papel
e exprime com fervorosa emoção,
artista a debuxar com seu cinzel,
as fímbrias fundas de seu coração.


Ora, há muito que a pena de Sophia não corria firme em lugar algum, motivo pelo qual o banco lhe cancelara os cheques e ela se ajeitara ao teclado de um computador, digitando pacientemente, dedo a dedo, uma letra por vez, persistente.

Quando o médico hesitasse em revelar-lhe a verdade sobre sua saúde, ela, esperta, o interromperia:

Não dirijas tua vida
Buscando luz na mentira.
Vê que a verdade sofrida
Seja mesmo tua mira.


Coração forte, o de Sophia! Após longos anos de doença, ela erguia o rosto risonho e enfrentava o que fosse.

A enfermeira, mais animada, conversaria com ela sobre a cidade, tão bonita, berço de renomados poetas, e Sophia concordaria:

Os jardins de nossas praias,
Possuem lindos recantos.
Entre alfambras, flores, faias,
Fazem a graça de Santos!


Depois de tomar seus remédios e despedir-se das visitas, Sophia se prepararia para dormir, despedindo-se assim:

É tão gostoso adormecer assim,
pela madrugada misteriosa,
sorver no espaço o aroma do jasmim,
Apaixonado pela rubra rosa!


As amigas, para animá-la, riam e atiçavam:

- Sei não, não era bem assim que um certo ‘alguém’ ouviu estes versos, não! Como eram mesmo?

Sophia, alegre, relembrava os versos feitos ao antigo namorado:

É tão gostoso adormecer assim,
no limiar do sonho, um beijo teu,
em revoada como um querubim,
buscando rápido um carinho meu.


A enfermeira, admirada, lhe perguntaria, curiosa:

- Avozinha, como consegue declamar tão facilmente, assim tão à vontade com as palavras e as rimas?

A mesma pergunta eu já lhe fizera e obtivera como resposta:

- Eu penso em decassílabos...

Cartões de Natal, vindos de Sophia, só rimados:

Natal! E toda a celeste legião
Festeja o nascimento de Jesus.
Anjos e arcanjos sorridentes vão
em cada estrela colocar mais luz.


Assim era Sophia, imersa em poesia, sem deter-se nas contrariedades presentes na paisagem da vida, buscando a beleza, focando no Bem.

Anos mais tarde, ela se foi, e deixou-nos seu exemplo de vida. Seu enterro, ao que sei, foi concorrido, e seus amigos poetas foram cantando acompanhar o caixão.

Sophia, como os gregos do Parnaso, buscava a Excelência.

Tendo seus talentos reconhecidos pelos prêmios que recebeu, pelas entidades das quais participou, pelos leitores do seu jornal poético O Espaço, Sophia realizou seu desejo de publicar seu livro Um Grande Sonho.

Para muitos que a conheceram, ela personificou o sonho.

Bibliografia:
Um grande sonho – Sophia Leite Cruz - 1992
Em Verso e Prosa – AFCLAS – 1998
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1995
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1996


Fonte:
Enviado pela autora.

Aparecido Raimundo de Souza (Almas carentes)

“A solidão era tanta, tanta e tamanha, que entrelaçava seus corações até antes mesmo de terem nascido”.
Tompson de Panasco
    

TINHA MAIS QUE MORRER O SUJEITO.  Vagabundo, desocupado, vivia pelas ruas andejando com visível dificuldade, batendo de porta em porta, vomitando a sua impotência desenfreada a quem cruzasse com ele. Tomado pelo instinto de um esmoleiro dos tempos medievais, parecia preso numa piedade calada. Aqui e acolá, implorava restos de comida, pães velhos, roupas fora de uso. E quem doasse alguma coisa - se esperasse um muito obrigado ou um Deus lhe pague - fosse tirando o cavalinho da chuva.  Aquele homem não abria a boca de jeito nenhum, para agradecer um nadinha que lhe fizessem.

Além de todos esses defeitos, terrivelmente mal-agradecido. Sem vergonha e descarado, atrevido e impávido, quando cruzava com mulheres bonitas, abria-se em gracejos e mesuras. Fazia piadinhas sem graça e pesadas. Deixava as boquiabertas raparigas com seus rebolados perdidos, inclusive as senhoras que não tinham mais rebolado, fisgadas pelo avanço da idade. O certo é que tais velhotas coravam boquiabertas e desgostosas com o infeliz.  

Um dia, um bando de desocupados e desordeiros deu-lhe algo forte para beber, e o colocaram a pique. Deu "tilte" no cabeção. Quando as irmãs do convento de São Francisco de Assis, por acaso, atinaram com o pobre, jazia o coitado, caído de bruços, numa vala aberta recentemente pela prefeitura nos arredores da cidade, as roupas quase a despencar do corpo mal nutrido e debilitado de saúde. Penalizadas, avisaram o Padre Gregório, que imediatamente providenciou uma equipe da pastoral. Resgatado, levaram-no para o banheiro público (cidadezinhas do interior tem muito desses WCs coletivos) e deram-lhe aos costados, um chuveiro em regra.

Trocaram as roupas farropoídas por novas. Fizeram-lhe a barba, apararam os cabelos e ainda descolaram um par de sapatos e até um paletó fora de moda, mas bom. Como para ele não havia isso de moda, a nova vestimenta veio a ser útil demais, até porque não se tinha notícia de algum dia os habitantes lhe terem visto vestido num paletó.

Dessa maneira, aquele andarilho, de repente, tornou-se até bem-apessoado, de personalidade firme e maneiras delicadas. Seu rosto sem a barba de semanas apresentava um aspecto jovial. Quem o visse agora, não daria para ele vinte e poucos anos, embora pela certidão, ou melhor, pelo que havia sobrado do documento, contasse trinta e cinco. Vendo-se assim, tão remoçado, o próprio não se reconheceu no espelho que lhe botaram na frente dos olhos espantados.

De fato, aquela tez refletida, deveria ser outra, menos a dele, o desgraçado, o traste, que vivia de deu em deu. “Que homem bonito – pensou com ares narcisistas – parece até artista de cinema”. Ao diabo, fosse quem fosse. Se o espelho estava ali, plantado diante de seu nariz, só poderia ser ele mesmo. Danasse o resto e tudo mais!

Bonito, simpático, atraente, passou a fazer as refeições junto com o padre, na casa paroquial que ficava colada a igreja. Poderia, agora, quem sabe, se desse a sorte, arranjar uma namorada. Mas naquele lugarejo... nenhuma rameira, ou dama que prezasse a honra, iria querer flertar com um borestia (folgado) daqueles... mesmo as encalhadas se candidatariam a viver ao lado de um homem que ninguém sabia de onde tinha pintado, se fugitivo da justiça, ou procurado por dever qualquer coisa à sociedade.

Somente ele sabia de onde provinha. Somente ele tinha as respostas e poderia falar abertamente do passado. Contudo, pobre mendigo, desprezível alma que ninguém dava importância. A ninguém interessava saber ou entender que, outrora, ele fora um rico e abastado fazendeiro, que tinha mansão, carro do ano, lojas de comércio, muitas terras, uma centena de empregados, mulher bonita e uma filha maravilhosa. Nos dizeres de Ovidio, “Donec eris felix, multos numerabis amicos; tempora si fuerint nubila, solus eris”*. Verdade, por sinal, incontestável.

O que se apurou depois, a companheira, sem mais nem menos, o abandonou e foi embora para outra localidade, a tiracolo com um sujeito esquisito, levando a filha de quinze anos (na época) e nunca mais dando sinais de vida. Ele, apavorado, sem saber o que fazer, ficou desatinado, alienado. Andou, procurou, fez mil loucuras, porém não soube, jamais topou com o paradeiro de sua consorte. Abestado e mentecapto, abandonou o sítio, as terras onde plantava café e virou andarilho. Na sua pequena e pacata Andirá, interior do Paraná, morador por mais antigo que fosse saberia dar notícias precisas. Nem da mulher ou da filha, ou do elemento que, com elas, se debandara.

Por isso, ele se tornara um nômade cigano, sem porto seguro, a vagar errante de cidade em cidade, sem paradeiro certo, alma vazia, comendo, vivendo, e se mantendo a custas da ajuda alheia. Quem, naquela localidade, iria se interessar por ele? Ninguém. Viva alma se atreveria a descer tanto... de novo com suas dores e misérias, lembranças e medos, abandonou o aconchego do padre Gregório e voltou à malfadada e incerta vida de João Ninguém.

Nem mesmo outra ambulante que há quinze ou vinte dias chegara e rodopiava por ali, igual a ele, vinda de algum eito com as suas típicas imundices, ou talvez, pior em flagelo, pudesse ser comparada. Moça bonita lembrava Oriana, amada de Amadis de Gaula**, apesar de seus olhos tristes e sofridos, as roupas frangalhadas, porcamente cobrindo um corpo escultural, os cabelos compridos em desalinho, figura que em pouco tempo tornou-se conhecida da galera pela ternura e meiguice que transmitia. Só tinha o defeito de ser pobre e a falha de ninguém saber de onde havia aparecido.

Coisa de dois sábados, o imprevisível criou vida e forma. Ambos se encontraram na praça, se viram em relance ligeiro. A beldade, num ímpeto fugiu alígera, porque ele quis maliciosamente, levantar a sua saia (ou o que restava dela) visando apreciar melhores perspectivas. A gargalhada dos transeuntes se generalizou. Uns queriam se divertir, outros acharam afrontoso. Teve meia dúzia de apressadas bocas que cuspiu no desgraçado rejeitos. Pura maldade. Padre Gregório apareceu de repente e lascou um sermão nos insensatos e a coisa caiu no esquecimento.

Todo esse incidente não passou de um fato a mais na pacata localidade, que logo em seguida mergulhou no marasmo rotineiro de sempre. Porém, uma semana após esse quase desentendimento entre o casal de indigentes, aconteceu uma coisa que espantou a todos, desde os cidadãos mais honrados, as damas da alta sociedade com suas riquezas à ponta do nariz, até os menos abastados pela sorte.

Tudo aconteceu numa chuvosa manhã de domingo. Ninguém avistou o mendigo pelas ruas e calçadas. Criaturas mais afoitas, perguntaram daqui e dali, mais por questão de desencargo de consciência, que por solidariedade. O fato é que durante todo o domingo ninguém avistou o rapaz. De roldão, tampouco a moça. Entretanto, na quarta-feira à tarde, um bando de garotos que brincava pelas redondezas da linha do trem, achou, num terreno baldio, dois corpos. O primeiro pertencia ao sem rumo que vivia de porta em porta pedindo comida e um copo de café.  

O segundo, da infeliz menina que chegara fazia pouco. Estavam de mãos dadas, rostos muito unidos, como se pretendessem eternizar um longo e derradeiro beijo de despedida. Os habitantes deduziram que o mendigo encontrara a garota numa ruela qualquer e a tivesse arrastado para o mato, a fim de violentá-la. Porém, dias mais tarde, em face da estação de rádio noticiar os fatos, o jornaleco publicar fotografias da dupla, a polícia civil entrar em ação, o ministério público se fazer presente, etc., e tal, investigadores e repórteres de uma dezena de emissoras de televisão se deslocaram da capital e até autoridades da longínqua Andirá para desvendarem o mistério.

E desvendaram. O pobre homem, abastado fazendeiro do norte do Paraná, que saíra pelo mundo feito louco, em busca de sua família, ou a procura da paz para si mesmo, finalmente fora abençoado com o evento benfazejo do objetivo que incansavelmente procurava. A moça, nada mais, nada menos, Érica, sua filha. O rebento que ele tanto especulou encontrar na sua triste e melancólica vida de solitário. Ambos (não se sabe como) se reencontraram naquele fim de mundo, e não se teve explicação plausível, de como se reconheceram, e pior, ninguém soube aclarar pormenorizadamente como bateram de frente com as garras frias da morte.

Um pequeno grupo de comerciantes a pedido do padre Gregório, em sintonia com as irmãs do convento de São Francisco de Assis, providenciou os enterros de pai e filha, com direito a velório, flores, gente chorando, cantoria, missas de sétimo dia... e até quermesse. Na verdade, o mínimo que poderia ser feito (e, diga-se de passagem, puseram em prática), para que dois seres humanos não fossem enterrados em covas rasas no pequeno cemitério local, como simples indigentes.

Atualmente, uma estátua enorme (“Almas Carentes”) se vê à entrada de quem chega ou sai dos arredores para a rodovia que interliga a São Paulo. As honras e os galardões recaíram claro, no atual prefeito, que trouxe para as redondezas, uma multidão sem conta de turistas e curiosos que deixam uma soma considerável em dinheiro nos restaurantes, bares e quiosques da (até então, antes e pacata) cidadela incrustrada entre montanhas e rios entre outros atrativos da natureza a se perderem de vistas.                       
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*"Enquanto fores feliz, contarás muitos amigos; se os tempos estiverem nublados, estarás só"

**Amadis de Gaula é uma obra marcante do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Apesar de se saber que a obra existe desde, pelo menos, o século XIV, a versão definitiva mais antiga, atualmente conhecida, é a de Garci Rodríguez de Montalvo, impressa em língua castelhana em 1496, provavelmente (a edição mais antiga conservada é de 1508), e denominada Los quatro libros de Amadís de Gaula. Tudo indica, contudo, que a versão original era portuguesa e muito anterior. O próprio Montalvo reconhece ter emendado os três primeiros livros e ser apenas autor do quarto. (wikipedia)


Fonte:
Texto enviado pelo autor

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

José Feldman (Analecto de Trivões n. 13)

 

Silmar Böhrer (Croniquinha) 90

As noites de invernia geladas nos carrascais exigem melhores cuidados dos dormidores que amanhecem com a geada nos costados de suas camas.

Noites em que fogões varam madrugadas crepitando achas e os braseiros alumiam e inspiram pensamentos.

Nos momentos tiranos em que a estação do frio congela os passarinhos na galharia, eu construo meu cockpit - cobertores, dois travesseiros, acolchoado - para fazer a travessia da noite, chegando ao amanhecer com os primeiros raios quentinhos do sol.

São contingências que nos envolvem de maneira diferente enquanto viajamos nas asas do Tempo de estação em estação.

Calores janeiros, folhas secas de maio, friagens de julho, os matizes da primavera - delícias a seu tempo pondo a vida em constante frenesi. Somos viajeiros auscultando vozes, inalando ares puros e aromas dulçurosos, vivendo a vida alumbrados pelos caminhos do sem fim.

 Fonte:
Texto enviado pelo autor

Carolina Ramos (Bleu)

Uma questão puxa a outra, e nem a narrativa segue a ideal ordem cronológica. Exemplo: - Este Bleu, que se inicia, pertence a uma fase anterior ao que foi acima vivenciado. A inversão pecaria contra a espontaneidade e assim, que tudo fique como está. A esclarecer que, no caso anterior, se dezesseis era a Idade da protagonista no presente relato, a protagonista teria apenas nove ou dez anos, embora os sentimentos por aquele gatinho especial, perdurem até hoje.

- Bleu... Era o meu querido gatinho azul! Sim, azul… ou, cinza azulado, para ser mais fiel. Lindo demais! E por demais querido, também! - Paixão à primeira vista!

Numa das férias passadas em Campos do Jordão, durante um passeio, encontrei-o à porta de uma casa. E simplesmente encantei-me por ele! Foi vê-lo e compra-lo! – Ou melhor, comprou-o minha mãe, para felicidade da filha, mas, tenho certeza de que também ela se apaixonara pelo tal gatinho azul, realmente fora de série!

O gato dos meus sonhos! E dos sonhos de qualquer criança que o tivesse visto, ainda que por só uma vez! Escrevi, posteriormente, um conto infantil, "O Gato Azul", do qual é personagem principal.

Bleu encantou minha vida por algum tempo, companheiro inseparável, até mesmo nas horas de estudo. Dói-me pensar nele. Porquê?

Encurto a história por ser triste:

- Certa noite... dolorosa noite! Não sei como aquilo pode acontecer... Contudo, infelizmente, aconteceu.

Naquela noite escura e fatídica... de tão triste memória, meu gatinho azul foi dolorosamente atropelado pelo carro de meu pai, à entrada da garagem.

Pude ver o desgosto estampado no rosto daquele pai acentuar-se ante o desespero da filha! - Nem é bom lembrar! - Que este relato, embora indispensável, seja breve e o silêncio sepulte a dor que, tanto tempo depois, ainda dói!

Fonte:
Carolina Ramos. Meus Bichos, Bichinhos e… Bichanos. Santos/SP: Ed. da Autora, 2023.
Enviado pela autora.

Luiz Damo (Trovas do Sul) XLVII


Ao aroma que a flor exala
não tem outro similar,
perfuma o jardim e a sala,
como o filho enfeita o lar.
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As lembranças de algo ausente
com tons de felicidade,
fazem jorrar no presente
fortes chuvas de saudade.
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As vozes, que às vezes, ouço
ecoar com vibrações,
são murmúrios no arcabouço
das tenras divagações.
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Cada luzeiro disperso
brilhando na noite escura,
torna o festivo universo
com luz, magia e ternura.
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Do que plantas nos caminhos,
lembra, se com fé, cuidares,
não recolherás espinhos
das sementes que plantares.
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Evita que a dor se estenda
muito além do ferimento,
o bom senso recomenda
prudência no tratamento.
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Fiz da vida uma oficina
aonde o meu ser lapidei,
para torná-lo obra prima,
forma de joia eu lhe dei.
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Há quem diga; "não sei nada",
também não quer aprender...
É mais uma alma frustrada
nas escolas do saber.
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Inexiste alguém no mundo
que não queira a perfeição,
nem mudança, num segundo
chamada "revolução".
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Não tem luz, brilhante e intensa,
na ausência de um emissor,
quanto maior, mais propensa,
a estender seu resplendor.
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Não tenha acesso impossível
na estrada da educação.
E o saber, seja acessível,
a quem busca a evolução.
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Nem tudo é tão resistente
que ao forte nada estremeça.
Cresça a força no carente
e unidos ninguém pereça!
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No quadro, por trás da imagem,
há algo que por si nos fala,
faz parte de uma mensagem
que alguém tenta interpretá-la.
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O homem aprende a lutar
contra a morte, tão temida,
mas se esquece de enfrentar
a luta em favor da vida.
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O melhor rumo a seguires,
para ao fim, feliz chegares,
é tua alma, em paz, ouvires
e os teus passos planejares.
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O suor que o corpo expele
consequência de um excesso,
talvez, lubrifique a pele
mas seu peso fica expresso.
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O vento sopra e não tem
um rumo certo e se esvai,
ninguém sabe donde vem
tampouco, para onde vai.
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Por um mistério envolvida
segue temida, a criança.
E a esperança move a vida
na lida rumo a bonança.
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Que as rosas se multipliquem
na roseira e grande as façam,
embora os espinhos fiquem,
as rosas murcham e passam.
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Quem firmar sobre a verdade
seus passos na caminhada,
dissipa o temor que invade
a alma no curso da estrada.
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Sem poder ser combatido
o mal avança e se espalha
e o mortal, sem ter morrido,
chega a prover a mortalha.
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Se não sabes qual a estrada
mais fácil para avançares,
escolhe a menos errada
para o teu sonho alcançares,
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Se o luar, a alma fascina,
com seus dotes naturais,
a luz do sol te ilumina
na estrada, por onde vais.
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Se ontem semeaste em pranto,
hoje, rindo estás colhendo,
mesmo sob a luz do encanto
tudo acaba envelhecendo.
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Toda a névoa matutina
traz calor, ou chuva intensa,
se à baixada ou na colina
mostra a grande diferença.
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Todo homem quando mergulha,
no orgulho, tal prisioneiro,
faz do respeito uma agulha
e do mundo um vil palheiro.

Fonte:
Luiz Damo. As faces da trova. Caxias do Sul/RS: Ed. Do Autor, 2021.
Enviado pelo autor.