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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Sílvio Romero (João Gurumete)

Nota do Blog:
O conto abaixo é uma variante brasileira do clássico conto de fadas europeu, popularizado pelos Irmãos Grimm, conhecido principalmente como "O Alfaiate Valente" ou "O Pequeno Alfaiate Valente".  As semelhanças com outras histórias baseiam-se no arquétipo do herói esperto e pequeno que supera oponentes fisicamente superiores (gigantes, monstros, reis) através da astúcia, inteligência e sorte.
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(Folclore do Pernambuco)
HAVIA UM SAPATEIRO MUITO TOLO que tinha um discípulo, que o aconselhava. Uma vez o sapateiro, botando um caco com goma para esfriar, caíram nele sete moscas, que ficaram presas e morreram. O discípulo, vendo aquilo, aconselhou ao mestre que escrevesse em letras grandes na copa de seu chapéu: João Gurumete que de um golpe matou sete. Assim ele fez. 

O povo quando viu aquilo ficou pensando que o sapateiro era um homem muito valente. Aconteceu que apareceu um bicho bravo, que andava acabando tudo, comendo a gente. Era um bicho de sete cabeças e sete línguas; todos os dias ele vinha buscar sua porção de gente, e de sete em sete, já tinha acabado os meninos da cidade e estava devorando as donzelas. 

O rei mandou suas tropas acabar com o bicho, mas nada puderam fazer. Foram dizer ao rei que havia na cidade um homem muito destemido que só dum golpe tinha matado sete, e que só ele é que podia dar cabo do bicho. O rei mandou chamar o João Gurumete e o mandou acabar com aquela fera. 

O sapateiro ficou muito assustado mas não deu a entender ao rei, e disse que ia matar o monstro. 

Saindo da presença do rei, foi ter com o discípulo, quase chorando, que o valesse, que desta feita ele morreria. O discípulo lhe disse: “Não tem nada; lá onde se encontra o bicho há uma igreja velha; você corra, quando o avistar, e entre pela igreja adentro, e saia por um buraco que tem no fundo, e deixe estar que o bicho há de entrar também, e então você feche a porta, e ele fica preso lá dentro e morre de fome, e está acabada a história.” 

João Gurumete ficou muito contente e partiu; muita gente o acompanhou para ver a morte do monstro. Quando o Gurumete avistou o bicho meteu-se no mundo largo numa desfilada e entrou pela igreja adentro. O bicho fera o acompanhou e entrou também. O sapateiro saiu pelo buraco que havia no fundo da igreja, e o bicho, por ser muito grande, não pôde passar por ali. O povo que estava da banda de fora fechou a porta, e o animal morreu lá dentro de fome. João, então, cortou-lhe as sete cabeças e foi levar ao rei, que lhe deu o título de conde e muito dinheiro.

Quando foi de outra vez apareceram três gigantes muito grandes e temíveis que estavam assolando tudo, matando e roubando, e ninguém podia dar cabo deles. Avisaram ao rei que só o Gurumete era capaz de acabar com aquela peste. O rei mandou-o chamar e lhe encarregou de livrar a cidade de tanto flagelo. 

O sapateiro desta vez saiu mais morto do que vivo, e foi ter com o seu discípulo, dizendo: “Agora sim, estou perdido; aquele bicho sempre era bicho e foi fácil o enganar; mas estes gigantes são gente, e como eu hei de acabar com eles? Desta eu me vou...” 

O discípulo lhe disse: “Não tem nada; vá escondido; antes dos gigantes chegarem, trepe-se num pé de árvore, onde eles costumam comer e descansar, e amarre lá em cima três pedras muito grandes que correspondam à cabeça de cada um. Quando eles estiverem dormindo, corte a corda de uma pedra e deixe cair a pedra em cima da cabeça do primeiro; depois a outra, e depois a outra, e deixe estar.” 

João Gurumete partiu; chegando na tal árvore muito grande, avistou logo as três covas, que já havia no chão, feitas pelo peso dos corpos dos gigantes, por ali dormirem. Pegou em três pedras muito pesadas e amarrou lá era cima em três galhos da árvore, que correspondiam às cabeças dos três gigantes, e trepou-se também lá muito quietinho e escondido nas folhas.

Quando os gigantes vinham chegando foi aquele zoadão, e o Gurumete teve tanto medo que quase roda de cima em baixo. Os gigantes lá chegaram, e quase batiam com as cabeças onde estava o mestre sapateiro. Ali comeram e beberam a rachar; ficaram muito tontos, se deitaram e pegaram no sono. 

Aí o João cortou a corda de uma das pedras que caiu bem em cima da cabeça de um deles, que acordou e disse: “Má está a história; vocês já começam com as brincadeiras, já estão me dando cocorotes*.” 

Tornaram a pegar no sono. Aí o Gurumete pegou e cortou as cordas de outra pedra, que bateu na cabeça de outro gigante, e ele pensando também que era algum cocorote dado por um dos camaradas, zangou-se muito, e disse que se a coisa continuasse ele ia às vias de fato. Fizeram muita algazarra e tornaram a pegar no sono. Daí a pedaço o sapateiro largou a derradeira pedra, que bateu na cabeça do terceiro. Eles não tiveram mais dúvida, não: bateram mão nos alfanges e avançaram um para o outro, e brigaram até ficarem todos três estendidos no chão. João Gurumete desceu, cortou as cabeças dos três e levou-as para mostrar ao rei.

Houve muitas festas; o conde Gurumete recebeu o título de general e muito dinheiro, e ficou muito rico.

Daí a tempos saíram umas guerras para o rei vencer, e as tropas do rei estavam já quase acabadas e morto o general Lacaio, em quem os soldados tinham mais ânimo. O rei ficou muito desanimado, e os conselheiros lhe disseram que não havia remédio senão chamar o general conde João Gurumete, que de um golpe matou sete: o rei mandou-o chamar para ir vencer as guerras, e então lhe havia de dar sua filha em casamento. 

Desta feita o sapateiro quase cai para trás de medo. Foi ter com o discípulo e disse: “O bicho e os gigantes eram tolos, e agora as guerras com ferro e fogo... Valha-me Deus!”

O antigo discípulo o animou, dizendo: “Vista-se com a fardamenta do general Lacaio, monte-se no seu cavalo e deixe estar o resto.”

O Gurumete partiu; lá no acampamento dos soldados não sabiam ainda da morte do general Lacaio, porque os enganavam dizendo que ele tinha ido à corte falar com o rei. Gurumete meteu-se na fardamenta de Lacaio, montou-se bem armado no cavalo dele, e avançou pra frente. O cavalo disparou, e o sapateiro, que não sabia montar, ia caindo e pôs-se a gritar: “Lá caio, lá caio, lá caio!...” 

Os soldados, que ouviram isto, supuseram que era seu antigo general, avançaram com força e derrotaram os inimigos. Assim acabaram-se as guerras, ficando Gurumete por vencedor, e casou-se com a filha do rei.

Na noite do casamento houve uma grande festa, e o antigo sapateiro bebeu demais, e quando foi se deitar, caiu na cama como um porco roncando e pôs-se a sonhar alto: “Puxa mais este ponto, bate esta sola, encera a linha, olha a tripeça!” 

A princesa ficou muito espantada e desgostosa e queixou-se ao pai no outro dia que estava casada com um sapateiro, tanto que ele tinha sonhado toda a noite com os objetos de sua tenda. 

O rei mandou ficar tropa à espreita e disse à filha: “Se ele esta noite sonhar como ontem, me avisa que ele será preso e morto”.

O discípulo de Gurumete soube disto e o avisou: “Olhe que você está pra levar a carepa, se esta noite sonhar com coisas da tenda, como na noite passada; não beba hoje nada; e quando for pra cama finja que está dormindo e sonhando com uma guerra, grite aos soldados, pegue na espada, risque pelas paredes, e deixe estar.” 

Assim fez.

Na cama fingiu que dormia, pôs-se a gritar, comandando as tropas, pegou na espada e quase feriu a princesa que teve um grande susto. O rei, que ouviu isto, ficou muito satisfeito e repreendeu a filha, dizendo: “Estás casada com um grande homem, um valente guerreiro, e me andas com histórias de sapateiro! Não me repitas outra.” 

Daí por diante Gurumete dormiu em paz, sonhando sempre com suas solas e sapatos.
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Cocorotes = Assim chama-se a pancada dada na cabeça com os dedos fechados com força; é diferente de cafuné, que é um estalo doce dado com as unhas na cabeça.
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.  
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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Sílvio Romero (Dona Pinta)

(Folclore do Sergipe)

UMA VEZ HAVIA UM REI que tinha seu palácio defronte de uma casa onde morava um velho que tinha três filhas bonitas. A mais bonita de todas chamava-se Dona Pinta e o rei se apaixonou por ela.

Uma vez estando ele na varanda a querer namorá-la, ela, que estava brincando com um gatinho, levantou-lhe o rabinho, e mostrou-lhe embaixo... O rei ficou muito zangado e quis arranjar um meio de entender-se com a moça livremente para vingar-se. 

Mandou chamar o pobre do velho e lhe disse que precisava que ele fosse vencer umas guerras. O velho se desculpou muito, e disse que ia falar com suas filhas para ver o que elas diziam. D. Pinta lhe disse que prometesse ao rei ir, mas pedisse uma espera de alguns dias. Esta espera era para dar tempo a ela para fazer um alçapão na casa.

Passados os dias, o velho seguiu para as guerras, deixando a cada uma das filhas uma rosa, dizendo: “Quando eu voltar, cada uma há de me apresentar a sua rosa aberta e fresca, que é o sinal de sua virgindade; aquela cuja rosa estiver murcha terá o meu castigo”.

Depois que o velho saiu, o rei apareceu na sua casa, e D. Pinta o recebeu. Deixou-o na sala conversando com as irmãs, e foi para a sala de trás, e escondeu-se no seu subterrâneo. 

O rei cansou de esperar e, ficando tarde, foi-se embora muito zangado. No dia seguinte tornou a vir, e D. Pinta fez o mesmo; no terceiro dia a mesma coisa. Aí fez mal às duas suas irmãs, que apareceram pejadas, e cujas rosas ficaram murchas. 

O rei cada vez foi tomando mais raiva de D. Pinta, ao passo que mais se acendia o seu desejo, quanto mais ela o enganava.

Um dia ela se vestiu de moleque, e foi buscar favas na horta do rei, o qual a viu, mas não a conheceu, e, quando o soube, ainda mais desesperado ficou. Passou-se tempo e sempre o rei a jurando.

Uma vez ela foi buscar lenha e o rei a encontrou no mato. Aí ela disse: “Oh! Como vem rei meu senhor tão cansado e tão suado! Deite-se aqui, rei meu senhor!” 

E sentou-se no capim, fez colo e o rei deitou-se, e ela se pôs a catar-lhe piolhos. Foi indo, foi indo até que o rei pegou no sono. Aí ela, bem devagarinho, levantou-se, botou a cabeça do rei numa trouxa que fez com o xale, e largou-se, foi-se embora a toda a pressa. 

Quando o rei acordou, olhou em volta e não viu ninguém, ficou desesperado da vida. Passou-se. As irmãs de D. Pinta ficaram em ponto de dar à luz e deram. Ela, com medo de que o pai descobrisse a falta das irmãs, resolveu-se enjeitar os meninos no palácio do próprio rei.

Um dia, antes do pai chegar das guerras, preparou-se de negra com tabuleiro na cabeça e os dois meninos dentro, fingindo eram flores, e foi vender no palácio. O rei, sem saber quem era, foi ver as flores, e, quando descobriu o tabuleiro, deu com os seus dois filhinhos. A negra disse: “Aí ficam que são seus!. . . ” 

E largou-se de escada abaixo e foi-se embora. 

O rei então conheceu tudo, e dizia: “D. Pinta, D. Pinta!. . . Um dia eu hei de vingar-me.”

Tempos depois, chegou o pai das três moças das guerras. As duas filhas desonradas ficaram mais mortas do que vivas para irem tomar a benção ao pai, porque não tinham mais a sua rosa viva! 

D. Pinta as valeu, dizendo a uma delas: “Tome a minha rosa, mana, vá primeiro você, e ao depois vá fulana, e depois eu.” Assim fizeram, e enganaram o velho que de nada soube.

Depois disto, andava o rei uma vez passeando embarcado no mar e encontrou D. Pinta num bote também passeando. Ela, quando o avistou, o convidou para ir para o seu barco, e passearem juntos. Na ocasião do rei entrar, ela o atirou no lodo da maré e ele ficou todo emporcalhado. Ficou “vendendo azeite às canadas” (enfureceu-se), e procurando um meio de se vingar. Não achando nenhum, fez o plano de a pedir em casamento, e matá-la depois de casados. 

Fez o pedido, e a moça não aceitou. Afinal tanto instou que a moça disse ao pai: “Está bom, meu pai, diga a ele que eu o aceito, mas há de me dar seis meses de espera.” 

O velho foi dizer ao rei que a filha aceitava, mas pedia uma espera. Isto era tempo que D. Pinta pedia para poder preparar uma boneca, e parecida com ela, para enganar ao rei.

No fim de seis meses não estava pronta ainda a boneca, e o rei, tendo mandado marcar o dia do casamento, D. Pinta respondeu que só se casaria se o rei mandasse fazer um palácio novo. O rei concordou, e mandou fazer o palácio. Quando já estava a obra quase pronta, D. Pinta não tinha ainda a boneca preparada e, então, uma noite foi ao palácio velho às escondidas, furtou a roupa do rei, meteu-se nela e foi ter com o mestre da obra, e fingindo que era o rei, e muito zangado dizia: “Isto não é obra; quero já que botem tudo abaixo e façam tudo de novo.” 

Isto era de noite; o mestre da obra mandou logo chamar todos os trabalhadores e deitaram o palácio abaixo para levantar outro de novo. 

Afinal ficou pronta a boneca de D. Pinta, e também o palácio do rei. Marcou-se o dia do casamento. D. Pinta, quando foi para o quarto de dormir, levou a sua boneca, que era toda o retrato dela: botou-a assentada na cama com um favo de mel no seio, e se escondeu debaixo da cama, pegando num cordãozinho que a boneca tinha e que a fazia mover com a cabeça. 

O rei depois entrou e dirigiu-se à boneca, pensando que era D. Pinta, dizia: “D. Pinta, tu te lembras quando teu pai foi para a guerra que eu fui três dias à tua casa, e tu, pra caçoares comigo, te metias lá pra dentro, e não me aparecias mais?...” 

A boneca bulia com a cabeça. Assim foi o rei repetindo todas as pirraças que a moça lhe tinha feito, e no fim cravou-lhe um punhal no seio. 

O mel espirrou e foi tocar nos beiços do rei, que, sentindo a doçura, disse: “Ah, minha mulher, se depois de morta estás tão doce, que fará quando eras viva!” 

E pôs-se a chorar. 

Aí D. Pinta pulou de baixo e apresentou-se: “Aqui estou, meu amor!” 

Fizeram as pazes e ficaram vivendo muito bem.
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.  
Imagem criada por Jfeldman 

sábado, 22 de novembro de 2025

Lia Monterra (Chico Manhoso)

Este causo me foi contado pelo seu João Rocha, enquanto o chimarrão corria de mão em mão, lá na cozinha da dona Rosalina. Não posso precisar se o causo se passou lá na Palmeira mesmo, ou não. Mas que é pitoresco isso é.

Lá nas bandas, onde eu morava, tinha um bolicho (bar e armazém) donde os cueras (pessoas valentes) se enfiavam o domingo todo, tomando cachaça e comendo linguiça e rapadura.

Nós não sabia como ia enjeitá um tal de Chico Manhoso. O cara que metia espinho nos garrão (parte da perna) da gente! Um dia ele chegou e, como sempre, contando lorota.

“Eu sou um ortigão (quem vive no mato) que ninguém bobeia e quem chega perto de mim já sabe que leva coceira! Não nasceu ainda o guasca (homem caipira e rude) que me bote areia no olho! Bem, seu Fabrício, vá buscá a ovelha que lhe comprei, tenho que metê o pé, quero vê se chego cedo pra entregá esta bicha ao patrão. Parece que ele vai carmá amanhã.”

Amarrou a dita cuja e ia puxando ela pela corda, meteu as espora nas anca do pingo (cavalo) e lá se foi naquele passo lerdo do matungo.

Foi aí que eu tive uma ideia e falei:

— Vamos passá um trote no bicho Manhoso?

— De que jeito? perguntaram os companheiros.

— Dá prá cá um par de chinelo novo e fique esperando. Lhes garanto que dentro de dez minutos eu tô de volta com a ovelha do Chico!

— Os cueras toparam e dali a pouco eu montava no Tufão um cavalo que era uma beleza e seguia por um atalho indo esperá o Chico chegá. Me escondi numas toceras e esperei pra ver se o loroteiro caía na armadilha que eu tinha preparado para ele.

Dali a pouco eu via lá longe, o Chico pará e olha pro chão onde eu tinha botado um pé de chinelo. Depois, como era só um pé, decerto achou que não adiantava e seguiu adiante. Parou desta vez ali perto da onde esta. E, eu vi ele dizê:

— Vejam só! Eu deixei de pegá aquele pé lá adiante por ser desparcerado e agora acho o outro! Vou vortá e pegá ele. 

Deixou o cavalo amarrado numa arvorezinha e voltou a pé no mais.

Eu que tava esperando por isso desamarrei a ovelha meti em cima dos arreio e finquei o pé, voltando pro bolicho; eu só queria vê a cara do Chico quando deu falta da ovelha...

Não demorou e o Chico voltava dizendo:

— Vim comprá outra ovelha. Não é que vendi aquela!...

Nós se olhemo mas não dissemo nada.

— Então leve esta, Chico, é do mesmo peso e preço da outra.

E o Chico sem nada desconfiá comprou a mesma ovelha. Mas a história não ficou aí, logo que eu vi o danado sumi na vorteada do caminho montei de novamentes, no meu pingo e fui esperá ele no mesmo caminho.

Nisso chega o Chico, assobiando uma toada.

— Deixa que logo tu deixa de assobiá, te garanto, resmunguei.

Depois comecei a berrá que nem ovelha me metendo cada vez mais pra dentro do mato. Aí eu ouvi o Chico gritá todo faceiro:

— Ah! Tu tá ai fujona! Deixa que já te ensino.

E se meteu mato adentro procurando a ovelha.

Eu que não era bobo nem nada, aproveitei e peguei a ovelha e lá me fui pro bolicho! Os companheiros não queriam acreditá no que viam! Mas ali estava a ovelha outra vez!

— Veja, lá vem o Chico de novo! Será que ele desconfiou?

— Vai me dizê, Chico, que quer comprá outra ovelha?

— Disse bem, seu Fabricio, respondeu o arteiro, com ares importantes. Acontece que passei a bendita nos pila! Achei um trouxa que me comprou, logo ali adiante, comigo é assim: olho vivo e pé ligeiro!

Mas aí eu não aguento mais e estourei:

- Não seja gabola, Chico Manhoso! Tu é mais burro de que eu pensei! Tu caiu bem direitinho no meu logro! Eu te tirei pela primeira vez a ovelha quando tu foi buscar aquele pé de chinelo. E te tirei a segunda ovelha quando tu saiu para campear dentro do mato a ovelha que tu pensava que tinha fugido, agora comprou pela terceira vez a mesma ovelha.

— Fica sabendo que fui eu quem te levei no "pacote" das ovelhas. Isso talvez te cale a boca!

Nós caímo na gargalhada. O Chico não sabia por onde se virá e quasi que não achava a porta da saída! Saiu que nem veado acuado, mas lhes garanto que naquele terreiro ele não canta mais...

Fontes:
Revista Jangada Brasil. Imaginário. Março 2011 - Ano XIII - nº 145. Acesso em 28.12.2012
http://www.jangadabrasil/20revista/im14502.asp.htm 
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Contos do Folclore Brasileiro (Alagoas) A Lenda da Princesa do Furado


Diz a tradição que na conquista holandesa, os flamengos se apoderaram do Engenho Santo Antônio do Furado, comumente conhecido como Furado. 

Quando os flamengos foram derrotados, não puderam conduzir um grande tesouro, que teria sido enterrado na gruta de pedra calcária ali existente e que denominaram Buraco do Furado. Logo à entrada da gruta existia uma pequena sala, cujo teto tinha o formato de um sino, que desapareceu com a extração da pedra para a fabricação da cal. Após esta sala, a gruta torna-se mais estreita, afirmando as pessoas que lá estiveram, mas adiante passa uma nascente que vai sair à beira do Rio São Miguel. 

Perto da gruta há um antigo paredão de alvenaria, principalmente de uma represa, que não se sabe para que foi levantado, e entre o paredão e a entrada da gruta existe uma pedra à superfície da terra onde há desenhos, parecendo sinais cabalísticos. 

Dizem ter ali uma passagem secreta subterrânea para o lugar do tesouro, sendo os sinais hieróglifos indicadores dessa passagem. 

Coisa interessante é a capela do engenho, que antigamente o dono da propriedade que residia perto da gruta não podia dormir, porque da hora do Ângelus em diante, se ouvia parecendo vir do fundo da gruta, rufar de tambores, cornetas e ordens de Pádua. 

Foi construída uma Igreja com a frente voltada para gruta, desde dali desapareceu a assombração. Contam também que, em noites de luar, viajantes que por ali passavam, rumo à cidade, deparavam com uma linda moça loura, sentada na pedra da entrada da gruta, que costumava fazer encomendas de fitas, linhas, agulhas e outras bugigangas, não sendo encontrada na volta para a entrega das encomendas.
Fontes:
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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Figueiredo Pimentel (A sapa casada)

Reinaldo era um moço estimadíssimo pelas excelentes qualidades, sobretudo por ser honrado e sério. Tinha dois irmãos, e todos três eram filhos de um rico fidalgo.

Os irmãos casaram-se com moças da sua sociedade e posição. Vivia cada um em sua casa, tendo por costume irem jantar o primeiro domingo de cada mês no palacete do velho, onde se reunia toda a família.

Reinaldo gostava extraordinariamente de música. Qualquer que fosse o instrumento, apreciava, e seria capaz de ficar um dia inteiro a ouvi-lo.

Uma tarde passeava à margem de uma lagoa. Era ao pôr-do-sol. De súbito, ouviu uma voz deliciosa, cantando uma romanza* que ele desconhecia, de extraordinária harmonia e suavidade.

O moço parou, e deixou-se ficar enlevado a escutar. A voz parecia vir de perto, mas debalde procurou a moça que cantava.

Foi-se entusiasmando cada vez mais, até que, cessando a cantiga, ele exclamou:

– Palavra de honra que me casaria com a dona de tão linda voz, se pudesse vê-la, ainda que fosse uma sapa desta lagoa!

Acabando de dizer isso, Reinaldo viu saltar da água para terra uma sapa enormíssima e horrendamente feia.

– Pois é uma sapa que estava cantando, falou ela. O senhor é um moço sério, e tem de cumprir a sua palavra...

– Fui leviano em pronunciar tal frase, replicou Reinaldo. Entretanto, como só tenho uma palavra, cumpri-la-ei. Vou apenas avisar meu pai, e amanhã aqui estarei.

Saiu e chegou à casa, tristíssimo, narrando o que lhe sucedera. 

O velho fidalgo concordou que ele devia cumprir a promessa, feita sob palavra de honra.

No dia seguinte, o jovem foi à lagoa. A sapa, assim que o viu, falou:

– Entre dentro da água sem receio, e mergulhe.

O rapaz executou à risca aquela recomendação, e viu-se de súbito num deslumbrante palácio, edificado embaixo do lago.

Aí estava tudo preparado para o casamento. Passou-se o mesmo que ocorre em nossas cerimônias, com a diferença que a única criatura humana era Reinaldo. O mais: padre, sacristão, testemunhas, convidados, lacaios, eram sapas e rãs que coaxavam desagradavelmente.

Durante quinze dias o moço viveu satisfeitíssimo. Habitando um palácio real, nada lhe faltava, melhor do que no palacete de seu pai, e tendo ainda por cima, concertos divinos, em que tomavam parte sapos músicos e sapos cantores inexcedíveis, tocando toda a sorte de instrumentos.

Ia se aproximando o primeiro domingo em que sua família – segundo antiquíssima tradição – devia reunir-se no solar paterno.

Reinaldo entristeceu-se, lembrando-se que tinha que ir forçosamente em companhia de sua horrenda mulher. Que não diriam seus irmãos/? Como não haviam de zombar dele suas cunhadas e sobrinhos?

Chegou o dia marcado. Eram onze horas da manhã quando ele e a sapa se puseram a caminho, seguidos de uma infinidade de sapos, sapas, sapões.

Iam em ordem, enfileirados, como se se tratasse de um cortejo real.

No palacete, a família reunida esperava a chegada de Reinaldo, zombando dele, cheia de escárnio e ironia.

Avistaram de longe a multidão dos habitantes da lagoa.

Todo o mundo se ria.

Quando o séquito chegou ao grande pátio do palacete, bateu a primeira badalada do meio-dia.

Nesse instante os sapos, sapas, sapões e sapinhos viraram fidalgos, fidalgas, lacaios, pajens, soldados e cavaleiros, escoltando Reinaldo e uma lindíssima jovem.

A sapa era uma princesa. Encantada por uma feiticeira, só devia volver à forma humana, bem como os seus súditos, se encontrasse um homem que a desposasse.

Reinaldo ficou louco de contentamento, ao passo que seus irmãos e cunhadas desapontaram.

No lugar onde era a lagoa apareceu um palácio sem igual em todo o país – o palácio que estava no fundo da água, e fora submergido pela fada má.
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* Romanza = Composição sentimental de versos breves e repetidos.
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ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL nasceu e morreu em Macaé/RJ, 1869 — 1914 foi além de poeta, contista, cronista, autor de literatura infantil e tradutor. Manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta de Notícias. Publicou novelas, poesia, histórias infantis e contos. Um de seus grandes êxitos foi o romance O Aborto, estudo naturalista, publicado em 1893, e por mais de um século completamente esgotado. Como poeta, participou da primeira geração simbolista chegando a se corresponder com os franceses. Era amigo de Aluísio Azevedo, com quem trocou cartas, enquanto o autor de O Cortiço estava fora do país como diplomata. Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, ganhou destaque e se perpetuou nos compêndios da literatura brasileira. A coluna Binóculo, assinada pelo autor na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 1907 até 1914, obteve grande sucesso entre leitores e leitoras, ditando moda, o que faz de Figueiredo Pimentel o primeiro cronista social da capital. Era ele quem tratava das novidades da moda, do bom gosto, do chique em voga em Paris e que deveria ser aqui aclimatado. Obras: Fototipias, poesia, 1893; Histórias da avozinha, conto - somente em 1952; Histórias da Carochinha; Livro mau, poesia, 1895; O aborto, 1893; O terror dos maridos, romance e novela, 1897; Suicida, romance e novela, 1895; Um canalha, romance e novela, 1895.
Fontes:
Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado originalmente em 1896. 
Disponível em Domínio Público. 
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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Luís da Câmara Cascudo (Os Três Companheiros)

Um bombeiro, um soldador e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por este mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas.

Chegaram a um reinado onde toda a gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar. Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo. 

Este mandou o soldador fazer um bote de folha de flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.

Depois de muito navegar, deram num ponto que era o palácio da serpente. Quem ia descer? O bombeiro não quis nem o soldador. O ladrão agarrou-se na corda que os outros seguravam e lá se foi para baixo. Pisando chão, viu um palácio enorme guardado por uma serpente que estava de boca aberta.

O ladrão subiu depressa, morrendo de medo. Voltaram e foram perguntar ao cavalo o que era possível fazer. O cavalo ensinou que a serpente dormia de boca aberta e quando estava acordada ficava com a boca fechada. Debaixo da cauda tinha a chave do palácio. Quem tirasse a chave, abrisse a porta, encontrava logo a princesa. 

Os três amigos tomaram o bote de folha de flandres e lá se foram para o mar.

Chegando no ponto os dois não queriam descer. O ladrão desceu e, como estava habituado, furtou a chave tão de mansinho que a serpente não acordou. Abriu a porta, entrou, foi ao salão, encontrou a princesa, disse que vinha buscá-la e saíram os dois até a corda. Agarraram-se e os dois puxaram para cima. Largaram vela e o bote navegou para a terra.

Quando estavam no meio dos mares a serpente apareceu em cima d’água, que vinha feroz. 

Que se faz? Era a morte certa.

– Deixa vir – disse o bombeiro.

Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. 

Na luta, o bote furou e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar. 

Que se faz? Morte certa!

– Deixe comigo – disse o soldador.

Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.

Chegaram no reinado recebidos com muitas festas pelo rei e pelo povo. O rei deu muito dinheiro aos três, mas o ladrão, o bombeiro e o soldador queriam casar com a princesa.

– Se não fosse eu a princesa estava com a serpente! – dizia o ladrão.

– Se não fosse eu a serpente devorava todos! – dizia o bombeiro.

– Se não fosse eu iam todos para o fundo do mar! – dizia o soldador.

Discute e discute, briga e briga, finalmente a princesa escolheu o ladrão, que era seu salvador, e este pagou muito dinheiro aos dois companheiros. O ladrão casou e mudou de vida e todos viveram satisfeitos.
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Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal/RN, em 1898 falecendo na mesma cidade em 1986. Foi um historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome. Deixou obra volumosa e de grande relevância, em particular sobre história, folclore e cultura popular. Recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, em 1956, pelo conjunto de sua obra.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil. Publicado originalmente em 1946. Disponível em Domínio Público.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Lendas Indígenas do Amazonas (Jurupari, o Deus do Sol)

(texto de Karina Pinheiro)
A figura folclórica pode aparentar várias formas, conforme a região onde a lenda é contada. 

Uma das figuras mais faladas do folclore amazônico é o Jurupari. Originário do Tupi, o nome possui mais de um significado, tendo como suas definições “boca; tirar da boca” ou “aquele que vem a nossa rede”, em alusão a sua história como o demônio do pesadelo.

Jurupari pode aparentar várias formas. Conta-se que o deus seria um homem de boca torta que está sempre rindo ou uma grande cobra com braços. Em outras regiões, pode ser um homem sábio, um bebê invisível ou somente uma presença divina. 

A figura também é parte da lenda do guaraná, no qual, por inveja de um pequeno indígena, que era estimado em toda a tribo, acabou se transformando em serpente e matando a criança.

As histórias a respeito desse ser mitológico se misturam e são ao menos duas: 

O DEMÔNIO DOS SONHOS

Na versão mais conhecida, Jurupari é o deus da escuridão e do mal, que visita os indígenas em sonhos, deixando as vítimas assustadas ao causar pesadelos e presságios ruins. Durante o sonho, a pessoa é impedida pelo deus de gritar, causando asfixia.

Essa versão foi estimulada e contada pelos jesuítas como a personificação do próprio mal, descaracterizando as crenças indígenas sobre a entidade divina. 

O FILHO DO SOL  

Em outra versão, Jurupari era filho de uma indígena chamada Ceuci, uma virgem que acabou tendo um filho a partir de um milagre. Um dia, Ceuci descansava na sombra de uma árvore, a árvore do bem e do mal, onde o consumo de suas frutas eram proibidas às moças no dia que estivessem em período fértil.

Ceuci ao perceber os frutos, acabou comendo um e ao morder, o caldo do fruto escorreu pelo seu corpo nu, fecundando-a. Meses depois, a gravidez foi descoberta, o que causou indignação de toda a comunidade da aldeia e acabou sendo exilada por decisão do Conselho de anciões.

Distante da aldeia, Ceuci deu a luz ao seu filho, Jurupari, ‘o filho do sol’, e foi enviado à terra pelo próprio sol, para que pudesse reformar os costumes da terra e encontrar a mulher ideal para que ele pudesse se casar.

Com apenas sete dias de vida, Jurupari já aparentava ter 10 anos e seu conhecimento chamou a atenção de todos, que passaram a ouvir suas palavras e ensinamentos de novos costumes, que ameaçavam a sociedade matriarcal e instituía o patriarcado. Jurupari realizou festas cerimoniais, onde somente os homens podiam participar e aproveitava para passar os seus ensinamentos, o que acabou afastando ele de sua mãe.

Inconformada pelos ideais e por saudade do filho, Ceuci resolveu espiar em uma noite o cerimonial dos homens, ação que era considerada proibida, e a punição seria a pena de morte. 

Furtivamente, ela entrou no território onde os homens estavam reunidos, mas antes do fim da cerimônia, Ceuci acabou sendo atingida por um raio enviado por Tupã. 

Em diferentes versões, supostamente o raio teria sido enviado por Jurupari, sem saber que era sua mãe. Ao se deparar com a situação, o ‘filho do sol’ foi chamado para ressuscitar sua mãe, mas não fez, pois não podia abrir exceções em suas leis. 

Jurupari então disse:
“Morreste mãe, porque desobedeceste à lei de Tupã. é a lei que eu vivo a ensinar, não vou te ressuscitar, mas te recomendo: sobe, bela, radiante e pura para um mundo melhor. cumpriste a verdadeira missão de mãe, que é cheia de amor, renúncia, desenganos e sofrimento. meu pai irá recebê-la de braços abertos lá no céu”.

Cheio de luz, o corpo da agora considerada deusa começou a subir, atravessando o espaço e transformou-se na estrela mais resplandecente da constelação das Plêiades, permanecendo lá até os dias de hoje, como lembrança da importância de respeitar às leis de Jurupari, o ‘Filho do Sol’.

Fontes:
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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Figueiredo Pimentel (Aventuras de um jabuti)

Dom Jabuti seguia uma vez, distraído, preocupado com os seus negócios, filosofando nas coisas desta vida, por um caminho no meio do mato, quando esbarrou com uma velha e enorme anta, enforcada num laço que caçadores haviam armado. Mais que depressa principiou a roer a corda que prendia o pescoço do bicho, e depois de esconder a corda num buraco, começou a gritar:

– Acode, gente!... acode depressa!...

Dona Onça, que passava na ocasião, foi ver porque motivo tanto gritava o jabuti.

– Que é isto? – interrogou.

– Estou chamando gente para vir comer a anta que acabei de caçar agora mesmo.

– Queres que eu parta a anta? – propôs a comadre onça.

– Quero sim. Dividirás a metade para mim e a outra para ti, disse ele.

– Então, vai apanhar lenha, para assarmos a carne da anta.

Quando o jabuti voltou apenas encontrou o couro da anta, e disse:

– Deixa estar, onça velhaca, hás de me pagar algum dia esse desaforo que me fizeste.

Saindo dali, andou por muitos dias seguidos. Ia pelo caminho pensando como se vingar da onça, quando se encontrou com um bando de macacos, em cima de uma bananeira, comendo bananas.

– Olá, compadre macaco, atira uma banana para mim. – disse o jabuti.

– Por que não sobes? Não és prosa, jabuti?

– Vim de muito longe e estou cansado.

– Pois o que posso fazer é ir buscar-te daí debaixo cá para cima - disse um dos micos.

– Pois então, vem.

O macaco desceu, pôs em cima o jabuti, que ali ficou dois dias, por não poder descer.
***

No terceiro apareceu uma onça, a mesma que tinha encontrado com ele perto da anta.

– Olá, jabuti, como subiste nesta bananeira?

– Muito bem, onça.

A onça, que estava com fome, disse:

– Ó jabuti, desce cá para baixo.

– Só se me aparares na boca, onça. Não quero me machucar, pulando daqui ao chão.

A onça abriu a boca e o jabuti deu um pulo, acertando o bicho, que morreu imediatamente.

– Matei uma onça, meus parentes, vão ver debaixo das bananeiras!...

– Ó jabuti, que estás dizendo?

– Não é nada, onça, é cá uma cantiga que eu sei.

E foi procurando um buraco para se esconder.

Assim que encontrou uma furna, parou e disse:

– Ó onça, sabes o que estava cantando? É isto: matei uma onça. Vão ver debaixo das bananeiras.

A onça correu para pegá-lo, mas o jabuti meteu-se pelo buraco, onde a onça também introduziu a pata, segurando-o por uma das pernas.

– Ó onça, pensas que apanhaste a minha perna, mas engana-te: apenas seguraste numa raiz.

A onça largou a perna do jabuti, que tinha nas garras, e retirou o braço do buraco.

– Ó sua tola, foi a minha perna que seguraste mesmo. Agora vai ver a tua parenta que está embaixo das bananeiras.

A onça ainda cavou um bocado, para ver se apanhava o jabuti, mas este já estava longe, porque a furna onde entrara era muito funda.

Desde esse dia, a onça anda à procura do jabuti para se vingar, mas até hoje ainda não o encontrou,
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ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL nasceu e morreu em Macaé/RJ, 1869 — 1914 foi além de poeta, contista, cronista, autor de literatura infantil e tradutor. Manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta de Notícias. Publicou novelas, poesia, histórias infantis e contos. Um de seus grandes êxitos foi o romance O Aborto, estudo naturalista, publicado em 1893, e por mais de um século completamente esgotado. Como poeta, participou da primeira geração simbolista chegando a se corresponder com os franceses. Era amigo de Aluísio Azevedo, com quem trocou cartas, enquanto o autor de O Cortiço estava fora do país como diplomata. Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, ganhou destaque e se perpetuou nos compêndios da literatura brasileira. A coluna Binóculo, assinada pelo autor na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 1907 até 1914, obteve grande sucesso entre leitores e leitoras, ditando moda, o que faz de Figueiredo Pimentel o primeiro cronista social da capital. Era ele quem tratava das novidades da moda, do bom gosto, do chique em voga em Paris e que deveria ser aqui aclimatado. Obras: Fototipias, poesia, 1893; Histórias da avozinha, conto - somente em 1952; Histórias da Carochinha; Livro mau, poesia, 1895; O aborto, 1893; O terror dos maridos, romance e novela, 1897; Suicida, romance e novela, 1895; Um canalha, romance e novela, 1895.
Fontes:
Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado originalmente em 1896. 
Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Luís da Câmara Cascudo (O Espelho Mágico)

O rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a vida. Ia por um caminho quando viu uma pedra tapando a boca de um formigueiro e as formigas lutando para arredá-la. O moço, que tinha bom coração, abaixou-se e tirou a pedra com cuidado para não matar as formigas. 

Quando acabou, uma formiguinha falou: – Se você se encontrar em dificuldades, diga: Valha-me o Rei das Formigas.

O rapaz seguiu sua estrada e adiante encontrou um carneiro com uma pata enganchada num arame. Soltou o bichinho. 

O carneiro disse: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Carneiros!

Lá mais longe o rapaz viu um peixe dentro duma poça d’água rasa, quase se acabando. O peixe estava com o lombo de fora, morrendo. O moço tirou-o da poça e sacudiu numa lagoa perto. O peixe mergulhou, foi embaixo, veio em cima, e falou: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Peixes.

Quase avistando o reinado, o rapaz encontrou um gavião deitado no chão, seco de sede. Levou-o, deu-lhe um banho, deixou ele beber água e soltou. O gavião voou para um galho de pau e disse: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Pássaros!

Chegando no reinado, o rapaz soube que a princesa tinha um espelho mágico que mostrava todas as coisas escondidas. O espelho só tinha forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo. Quem se escondesse, e a princesa não descobrisse, casava com ela e, se ela achasse, perdia o homem a vida. O rapaz foi se oferecer para essa aventura.

Na primeira noite, procurou um canto fora do reinado e disse: Valha-me o Rei dos Carneiros! O carneiro apareceu e o rapaz disse o que queria.

– Monte nas minhas costas! 

O rapaz montou e o carneiro largou-se correndo, de mato a dentro, para umas brenhas fechadas onde havia uma gruta. Deitou o rapaz na gruta e encheu os arredores de carneiros, uns por cima dos outros, que ninguém via outra coisa afora carneiro.

À meia-noite a moça puxou o espelho e procurou o rapaz, por todos os lados. Tanto virou que deu com a gruta, e o espelho mostrou o rapaz deitado no chão, coberto de carneiros. A princesa tomou nota e foi dormir.

No outro dia o rapaz se apresentou.

– Onde eu estava escondido?

– Deitado no chão, dentro de uma gruta, rodeado de carneiros!

– Era isso mesmo!

Na segunda noite, o rapaz apelou para o peixe. Foi à beira-mar e chamou: Valha-me o Rei dos Peixes! 

O peixe riscou na praia. O moço contou sua dificuldade. O Rei dos Peixes mandou um tubarão engolir o rapaz e uma baleia engolir o tubarão e foi para o fundo do mar.

Na meia-noite, a princesa foi consultar o espelho. Caçou na terra e nos ares e procurou nos mares, com tanto cuidado que descobriu onde o rapaz estava dormindo. 

Na manhã, o moço apareceu e perguntou:

– Onde eu passei a noite?

– Dentro de um tubarão, este numa baleia, no fundo do mar!

– Era isso mesmo!

Na outra noite, o rapaz chamou o gavião e contou sua agonia. O gavião levou-o nas costas até em cima das nuvens e lá apareceu outro gavião ainda maior que cobriu o Rei dos Pássaros com suas asas.

À meia-noite a princesa procurou o rapaz nas águas e na terra e não achou. Procurou nos ares e não viu. Tanto olhou e olhou que enxergou um pontinho escuro por cima das nuvens. Botou reparo e descobriu tudo. O rapaz, quando veio ao palácio, perguntou:

– Onde dormi a noite passada?

– Em cima de um gavião, coberto por outro, em cima das nuvens!

– Era isso mesmo!

Como era o terceiro dia, o rapaz foi condenado à morte, mas a princesa ficou com pena dele e pediu ao rei para deixar o moço experimentar uma vez mais. 

O rapaz ficou contente e foi valer-se do Rei das Formigas. Esse ouviu a conversa toda e disse:

– O espelho descobriu você na terra, no mar e nos ares. Mas o espelho não pode ver a própria princesa. Eu vou virar você numa formiga e você suba para cima do vestido dela e esconda-se bem.

Dito e feito. O rapaz virou formiga, entrou no palácio, foi ao quarto da princesa e subiu pelo vestido acima, bem devagar para ela não pressentir, e escondeu-se na bainha da camisa.

À meia-noite a princesa procurou o rapaz em toda parte, virou e mexeu, e nada de ver onde ele estava dormindo. Passou-se a hora das forças do espelho encantado e ela não viu coisa alguma. 

Amanheceu o dia e o rapaz voltou a ser gente e veio perguntar onde tinha dormido.

– Não sei onde você dormiu! Onde foi?

– Não digo enquanto não me casar com você!

Fizeram o casamento com muita festa e só depois de casado é que o moço disse onde tinha passado a sua última noite de solteiro.
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Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal/RN, em 1898 falecendo na mesma cidade em 1986. Foi um historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome. Deixou obra volumosa e de grande relevância, em particular sobre história, folclore e cultura popular. Recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, em 1956, pelo conjunto de sua obra.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil. Publicado originalmente em 1946. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing