Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 30 de junho de 2019

Lairton Trovão de Andrade (Panaceia de Trovas) 3


A Justiça é muito lenta 
e de Jó tira a paciência;
ninguém mesmo se contenta 
com tamanha sonolência.

Analisem-se de novo,
perguntem aos coliseus:
“Quando será que este povo
terá mesmo a voz de Deus?”

As horas todas do mundo
pertencem ao João-preguiça,
dá vida em ser vagabundo
– nem por viver tem cobiça.

Burlesco é todo ciumento
que está sempre alucinado;
destrói o seu casamento,
mas se diz apaixonado.

Caindo na poça d’água,
à imagem que ali flutua,
o bêbado diz sem mágoa:
“Caramba!… Eu estou na Lua?!”

Cheque é bom, coisa valiosa,
quando vem de lá pra cá;
mas é coisa dolorosa
quando vai daqui pra lá.

Corri… e “dobrei a esquina”,
entrei na boca da noite…
No chão, vi a “estrela alpina”
bem antes do meu pernoite.

Dinheiro gordo e franqueado
chama a atenção de repente:
Deixa doce, bem melado,
falsos amigos da gente.

Distraído na olaria,
receita o médico ao doente:
“Tome um tijolo por dia
com mingau de telha, quente”.

Do jeito que vai o clima,
(nossa!) é desespero só!
Tudo seco. E o que anima 
é a esperança da “água em pó”…

É festa com pão e queijo
nos porões da Petrobrás;
E o dom ratão, com gracejo,
só queijo come voraz.

Ele fez rico chalé,
pro seu bem nele morar,
mas, num rancho de sapé,
foi ter sarna pra coçar.

Era garbosa gazela
toda sensual lá na praça;
como não teve cautela,
virou galinha sem raça.

Minha terra tem saci,
mas, um saci aleijado:
Tem “duas pernas”, eu vi,
pulando desengonçado.

Mulher jovem e bonita,
mansão e carro importado,
conta bancária infinita…
– eis um sonho afortunado!

O Nico é um “puxa” demente,
vê a que ponto ele vai:
Quando o patrão fica doente,
é o Nico que geme “ai, ai”!

Perde-se, às vezes, na escola,
a educação do bom lar;
o aluno prega, com cola,
que a escola é para educar.

Puxa-saco era o sujeito
que à pergunta “que horas são?”
respondeu com seu trejeito:
– As que quiser o patrão!

Quem tem a feia mulher
nada tem em sua mão:
De dia é um canhão qualquer
e à noite, uma assombração.

Torna-se escravo o avarento
do brilho vil do dinheiro;
escravo assim é tormento
e pesadelo ao herdeiro.

Vive o invejoso feliz
com toda alheia desgraça;
fingindo, é o que sempre diz:
– Coitado, ele é boa praça!

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Lairton Trovão de Andrade. Perene alvorecer. 2016.

Carolina Ramos (Tragédia Doméstica)


Tinha dois amores. Aliás, três, se somada a mulher miúda, clara, trabalhadeira, espalhando plantas e flores por toda a casa. Viviam todos no mesmo lar, sem complicações, em plena harmonia.

Os outros dois amores pertenciam, um, ao sexo feminino, o outro, ao masculino. Não, nada de alarmar. E quem pensou em filhos, também errou. O casal jovem ainda não os encomendara. Então, quem eram esses dois amores? Pois, um era a Juma, ruiva, olhos lânguidos, sempre fidalgamente bem penteada. O outro, frágil, lindo, exuberantemente alegre, dotado de voz privilegiada que a todos encantava. Uma cadela setter, pelo avermelhado, e um loiro canarinho cantador — os outros dois amores de Raul, marido de Tereza.

Havia ainda, uns três ou quatros gatos, hospedes bissextos, descompromissados com a casa, que apareciam quando lhes dava na telha. Mas, era inegavelmente, Sol, o canarinho cantador, que enchia de alegria o lar, conquistando, com sua graça, as boas graças da pequena família. Despertava ao despertar o sol, justificando o nome. Iniciada a função matinal, ninguém mais dormia! E, sem função, os despertadores perderam o emprego. Loiro como pé de ipê em tempos de primavera, biquinho sempre aberto, trinava a plenos pulmões o canarinho, expandindo seu canto ensolarado, ainda que chovesse. Canto vibrante de amor à vida!

O que ninguém entendia é como, Raul, que sempre, ostensivamente se opusera aos que mantinham aves em cativeiro, agora, sem mais nem menos, gabava os méritos do canarinho cativo. E defendia-se com os mesmos argumentos que antes contestava! Se outrora enfatizava:

— As aves nasceram para ser livres. Mais livres do que qualquer outro ser! Já nasceram com asas! Para voar. Para irem aonde quiserem. Sem ninguém para impedi-las. São donas do espaço. Se conseguimos voar, fabricando asas de aço, é porque somos invasores. O chão é nosso. O azul só delas! Prender uma ave, é condená-la sem culpas. Patati-pa-tatá, seguia, intransigente, nessa linha. Convicto de suas verdades. E, de repente, lá estava ele, fascinado, a defender a facção oposta, com a mesma convicção! E, com a mesma eloquência, justificava-se:

– O "bichinho" já nasceu na gaiola. Soltá-lo é matá-lo! Não sabe enfrentar o mundo lá fora! Qualquer gatinho neném faz dele um camundongo temperado para almoço. Coitadinho! Aqui, tem tudo de graça! Não precisa nem lutar pela subsistência. Falta-lhe apenas uma companheira. Logo vou tratar disso, etc, etc.,.

Antes do fim do discurso, todo o mundo adivinhava que Raul estava absolutamente apaixonado pelo canarinho cantador! Começara assim: — Todos os dias, antes das aulas, passava pela pequena livraria do Simon, para vasculhar, descontraidamente, as prateleiras e os escaninhos, à procura de um novo livro, ou de um livro velho ou, sabe-se lá o quê lhe pudesse prender o interesse. Questão de rotina. Um dia, despertou-lhe a atenção o canto mavioso que vinha do interior. Espetacular! Isto acontecera algumas vezes. Até que se decidira a indagar:

— Seu Simon, posso ver de perto esse canário? Como canta!

— Pois não, lá está ele. Foi presente do meu neto. Tem raça. Raça demais! Canta, canta, e canta, que até chega a me incomodar! Coisas de velho. Meus ouvidos não se dão bem com essa cantoria toda, dia após dia. Nem consigo pensar! Já quase o devolvi ao neto.

Pararam ao pé da gaiola. O canarinho belga calou-se tão logo percebeu gente estranha nas paragens. Raul, enamorado, achegou-se mais um pouco. A avezinha grudou nele o olho irrequieto, conquistando-o, definitivamente, com pio significativo que, para Raul, soou como convite: — Me leva pra casa?

— Eu compro! Seu Simon, me venda o canarinho. Faça preço.

— E que preço vou fazer? Nunca vendi canário nenhum! Nem sei quanto custa. Meu neto é que cuida disso. Faz criação. Eu não entendo nada de nada, além de livros, revistas e jornais.

— Olhe. Dou tudo o que tiver nos bolsos — insistiu Raul.

Sabendo não arriscar demasiado, esvaziou as algibeiras. Por oitenta mil, levou o canarinho para casa. Feliz! Não menos feliz, ficou o dono da livraria, que vendeu o canário por preço superior a um livro e ainda ficou livre da "barulheira" que lhe perturbava a senilidade.

Tereza, acostumada a aceitar sem discutir, recebeu o novo hospede com naturalidade, sem sequer indagar o porquê da mudança de princípios do marido. Nem tentou questioná-la. Arrumou o prego para pendurar a gaiola e ponto final. A própria ave encarregou-se, logo, de explicar tudo.

Ninguém ficava imune à sua magia. Não havia como resistir ao pequeno Sol! Realmente um campeão! A partir de então, houve mais luz naquela casa. Mais alegria! Mais aconchego. Era o centro do sistema. Planetas e satélites gravitavam-lhe ao redor.

— Olha o Sol se balançando ao poleiro! Olha lá.., está bebendo água. Tomando banho na tigela de areia! Que coisa linda! Como canta!

E Juma? Apesar de ser cão de raça, Juma fora achada na rua, abandonada, portadora de doença aparentemente incurável. Doença grave a requerer cuidados sérios, despesas altas, e, principalmente, muito amor. Nada disto lhe faltou. Livre da moléstia, a cadela transformou-se num belo exemplar da raça. E vários ''donos' apareceram de pronto. E se de pronto vieram, de pronto se foram, ao tomarem conhecimento da possível exigência de ressarcimento de despesas.

Findo o assédio, Juma foi integrada à família, para alegria de todos.

Um dia, a tragédia aconteceu. Juma foi o pivô da questão. Ou teria sido Sol? Ciúmes da Juma? Quem saberá? Talvez que a ruiva temperamental contasse alguns tapinhas carinhosos a menos, desde a chegada do canarinho. Talvez. Ou quem sabe se o chinelo que trazia na boca e entregava ao dono, quando chegava da Faculdade, não recebesse a mesma acolhida pronta, seguida de afagos. Raul, chegado, ia direto para a frente da gaiola. E Sol, todo exibido, saltava de poleiro a poleiro, batendo as asas, saudando alegremente a presença do dono. Ou teria sido apenas impulso instintivo? Irresistível, inevitável? O mais viável. Bicho é gente boa! Naquele dia de triste memória, quando a gaiola era limpa, tarefa exclusiva de Raul, a avezinha escapuliu e foi pousar na área externa, bem próximo a Juma, aparentemente adormecida. Um bote só! E Sol sumiu, para sempre, nas sombras. Berros, tapas, pontapés e muito desespero, antes que a cadela devolvesse á luz o corpinho masserado da pequena vítima, pescoço mole, quebrado, biquinho semi-aberto, mudo!

Houve "choro e ranger de dentes" naquele dia sombrio!

Sol morrera, deixando em seu lugar as sombras da saudade. Por sua vez Juma sofreu por muito tempo o repúdio do dono, sem que atinasse o porquê. Desistiu do transporte do pé de chinelo, não mais recebido com alegria. Não perdeu, contudo, o costume de deitar-se aos pés do jovem professor, sempre que se dispunha a preparar aulas ou corrigir provas.

Lutou, por algum tempo, contra a porta intencionalmente fechada, com arranhadelas, grunhidos e lamentosos latidos. 

Venceu! Sem carinhos, sem festas, cauda murcha, reconquistou o direito de deitar-se, desconsolada, junto aos pés que a haviam chutado, nada pedindo para si, a não ser a consolação de amar a quem não mais a amava. O amor não aceita limites! Juma, um dia, ousou mais, passando a língua morna na mão que se estendera quase até ela, num esboço de carinho abortado. Foi um choque para Raul a carícia morna de Juma. Um toque de amor que encontrou eco. Em resposta, coçou-lhe, de leve, a cabeça ruiva, onde brilhavam dois olhos tristes. Nada mais foi preciso. Um rio de ternura recalcada, saltou diques, atirando-se sobre Raul que, lambido da cabeça aos pés não reprimiu os afagos.

Um raio de sol entrou pela janela e veio brincar com eles.

Dependurada no teto, vazia, a gaiola deixou de ser estigma. Virou jardineira, abrigando plantas cujas folhas evadiam-se pelas grades, oferecendo beleza e perdão. Toque feminino encerrando a história.

Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

Glauco Mattoso (Sonetos Esparsos)


SONETO 234 CONFESSIONAL

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.

Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.

Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.

Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...

SONETO 251 QUANTITATIVO

Centenas de sonetos são legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Camões, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Camões marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

"Sete anos de pastor", o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
também um "Alma minha", o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.

SONETO 500 VICIOSO

Poema lembra amor, que lembra carta,
que lembra longe, e longe lembra mar,
que lembra sal, e sal lembra dosar,
que lembra mão, e mão alguém que parta.

Partir lembra fatia e mesa farta;
fartura lembra sobra, e sobra dar;
dar lembra Deus, e Deus lembra adiar,
que lembra carnaval, que lembra quarta.

A quarta lembra três, que lembra fé;
fé lembra renascer, que lembra gema,
a gema lembra bolo, e este o café.

Café lembra Brasil, que lembra um lema:
progresso lembra andar, que lembra pé,
e pé recorda alguém que faz poema.

SONETO 501 URBANIVERSADO

Feliz aniversário, Pauliceia!
Do Pátio do Colégio ao infinito,
o imenso não é feio nem bonito:
darás de megalópole uma ideia?

Tens cara de africana ou de europeia?
Tens árvore de figo ou de palmito?
Tens catedral de taipa ou de granito?
Tens flor? É rosa, hortênsia ou azaleia?

Te tornas, ano a ano, mais mudada:
quem chega não se encontra com quem parte;
a rua não se avista da sacada.

Poetas não têm jeito de saudar-te;
tu, pois, que cantes, antes de mais nada,
que és obra, em fundo e forma, in progress: arte!

SONETO 517 RESSURRETO

João Lenão nasceu em Salvador
durante inda o regime militar.
Seu pai tinha acabado de voltar
após dez anos "barra" no exterior.

O filho do esquerdista foi ator,
palhaço, engolidor, garçom de bar,
até que escrevinhou e quis tentar
carreira de poeta e à luz se expor.

Aos vinte, em pleno ocaso do milênio,
fazer o quê? Haicai neobarroco?
Um "contraconcretismo" que envenene-o?

Sem ver, do discursivo ao verbivoco,
saída, alguém já jura que ele é gênio
num gênero que andava dorminhoco.

SONETO 519 REDUTO

O livro de João Lenão se esgota.
Circula, cult, o bardo em bastidores.
A mídia dá notícia. Outros autores
dividem-se: uns, confete; alguns, chacota.

Ninguém levava a sério um Omar Motta
que em Lenão via "vícios amadores",
mas dum Mauro de Moura tomam dores
aqueles que nos clubes são quem vota.

O Moura era dos tais empedernidos,
mais crítico que vate criativo,
porém reputadíssimo aos ouvidos.

Chamou João "Não Lê", montou motivo
pra dar calor aos calos ressentidos...
e a claque exclui João do crível crivo.

SONETO 759 DA BASSEZINHA

Gostava de jujubas, a danada!
Ficava rodeando quando, à mesa
do almoço eu me servia e, à sobremesa,
filava seu nacão de goiabada.

Andava até nas unhas esmaltada!
Seu passo tinha a classe da princesa,
embora nem viesse da nobreza.
Foi minha, ela, a primeira namorada.

As grossas sobrancelhas amarelas
no preto pelo expunham seu contraste.
E as patas dianteiras? Tortas, belas!

Caminha rente ao chão, sem que se arraste.
Vaidosa, nada tem de outras cadelas.
"Bassê", me dizes tu, e adivinhaste!

SONETO 829 DA GULA

No bolo, a cobertura em creme é grossa!
A massa, em três andares de recheio,
não deixa que a vontade enfrente um freio,
e a cor do chantili na vista coça!

Uma fatia só, não há quem possa
achar suficiente! Mesmo cheio,
àquilo não resisto: já papei-o
até a metade, e a gula inda me acossa!

Lambuzo-me nos dedos, pelo queixo
escorrem os farelos, e no prato
me aguarda inda um pedaço, que não deixo!

Da vida, o que se leva é o que, constato,
sabor tem, e pecado é só o desleixo
de quem tal bolo perde por recato!

Glauco Mattoso (1951)


Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, nasceu em São Paulo, 29 de junho de 1951.

Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes. O próprio se declara um "anarquista intelectual".

Glauco cursou biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e letras vernáculas na USP. Nos anos 70, participou da resistência cultural à ditadura militar através do grupo dos "poetas marginais". Além de editar o fanzine poético-panfletário Jornal Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e o formato dobrável dos folhetos satíricos), colaborou em diversos periódicos da imprensa alternativa, tais como o tabloide gay Lampião e o humorístico O Pasquim.

Na década de 80, publicou trabalhos em revistas como Chiclete com Banana, Tralha, Mil Perigos, SomTrês, Top Rock, Status e Around, ensaios e críticas literárias no Jornal da Tarde, além de diversos volumes de poesia e prosa. Em 1982, edita a Revista Dedo Mingo, como um suplemento do Jornal Dobrabil.

Nos anos 90, perde por completo a visão em decorrência do glaucoma de que sofria há anos. Deixa de lado a criação gráfica (história em quadrinhos e poesia concreta) e passa a dedicar-se a escrever letras de músicas e à produção fonográfica. Com o professor da USP Jorge Schwartz, ganha o Prêmio Jabuti pela tradução que ambos fazem da obra inaugural de Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires.

Em anos mais recentes, retorna à criação de poesia escrita e textos virtuais, produzindo textos e poesias para a internet, colaborando em revistas eletrônicas e impressas, tais como a Caros Amigos.

A obra de Glauco Mattoso caracteriza-se pela exploração de temas polêmicos, tais como a violência e a discriminação. O autor tem a reputação de "poeta maldito", uma espécie de boca do inferno moderno.

Alguns Livros:
Apocrypho Apocalypse (1975) - coletânea com outros poetas; Maus Modos do Verbo (1976) - coletânea com outros poetas; Línguas na Papa (1982); O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (1985); Rockabillyrics (1988); Limeiriques & Outros Debiques Glauquianos (1989); Haicais Paulistanos (1992); Galeria Alegria (2002); Pegadas Noturnas: Dissonetos Barrockistas (2004); Poesia Digesta: 1974-2004 (2004); A Letra da Ley (2008); O Cancioneiro Carioca e Brasileiro (2008); Contos Hediondos (2009); Raymundo Curupyra, O Caypora: Romance Lyrico (2012); Cautos Causos (2012); Sacola de Feira (2014), que foi finalista do Prêmio Oceanos 2015.

Fonte:

Clarice Lispector (Os Obedientes)


Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e esquecer. Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido. Desde esse instante em que também nós nos arriscamos, já não se trata mais de um fato a contar, começam a faltar as palavras que não o trairiam. A essa altura, afundados demais, o fato deixou de ser um fato para se tornar apenas a sua difusa repercussão. Que, se for retardada demais, vem um dia explodir como nesta tarde de domingo, quando há semanas não chove e quando, como hoje, a beleza ressecada persiste embora em beleza. Diante da qual assumo uma gravidade como diante de um túmulo. A essa altura, por onde anda o fato inicial? ele se tornou esta tarde. Sem saber como lidar com ela, hesito em ser agressiva ou recolher-me um pouco ferida. O fato inicial está suspenso na poeira ensolarada deste domingo – até que me chamam ao telefone e num salto vou lamber grata a mão de quem me ama e me liberta.

Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem e uma mulher estavam casados. Já em constatar este fato, meu pé afundou dentro. Fui obrigada a pensar em alguma coisa. Mesmo que eu nada mais dissesse, e encerrasse a história com esta constatação, já me teria comprometido com os meus mais desconhecíveis pensamentos. Já seria como se eu tivesse visto, risco negro sobre fundo branco, um homem e uma mulher. E nesse fundo branco meus olhos se fixariam já tendo bastante o que ver, pois toda palavra tem a sua sombra.

Esse homem e essa mulher começaram – sem nenhum objetivo de ir longe demais, e não se sabe levados por que necessidade que pessoas têm – começaram a tentar viver mais intensamente. À procura do destino que nos precede? e ao qual o instinto quer nos levar? instinto?!

A tentativa de viver mais intensamente levou-os, por sua vez, numa espécie de constante verificação de receita e despesa, a tentar pesar o que era e o que não era importante. Isso eles o faziam a modo deles: com falta de jeito e de experiência, com modéstia. Eles tateavam. Num vício por ambos descoberto tarde demais na vida, cada qual pelo seu lado tentava continuamente distinguir o que era do que não era essencial, isto é, eles nunca usariam a palavra essencial, que não pertencia a seu ambiente. Mas de nada adiantava o vago esforço quase constrangido que faziam: a trama lhes escapava diariamente. Só, por exemplo, olhando para o dia passado é que tinham a impressão de ter – de algum modo e por assim dizer à revelia deles, e por isso sem mérito – a impressão de ter vivido. Mas então era de noite, eles calçavam os chinelos e era de noite.

Isso tudo não chegava a formar uma situação para o casal. Quer dizer, algo que cada um pudesse contar mesmo a si próprio na hora em que cada um se virava na cama para um lado e, por um segundo antes de dormir, ficava de olhos abertos. E pessoas precisam tanto poder contar a história delas mesmas. Eles não tinham o que contar. Com um suspiro de conforto, fechavam os olhos e dormiam agitados. E quando faziam o balanço de suas vidas, nem ao menos podiam nele incluir essa tentativa de viver mais intensamente, e descontá-la, como em imposto de renda. Balanço que pouco a pouco começavam a fazer com maior frequência, mesmo sem o equipamento técnico de uma terminologia adequada a pensamentos. Se se tratava de uma situação, não chegava a ser uma situação de que viver ostensivamente.

Mas não era apenas assim que sucedia. Na verdade também estavam calmos porque “não conduzir”, “não inventar”, “não errar” lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer. Tinham a compenetração briosa que lhes viera da consciência nobre de serem duas pessoas entre milhões iguais. “Ser um igual” fora o papel que lhes coubera, e a tarefa a eles entregue. Os dois, condecorados, graves, correspondiam grata e civicamente à confiança que os iguais haviam depositado neles. Pertenciam a uma casta.

O papel que cumpriam, com certa emoção e com dignidade, era o de pessoas anônimas, o de filhos de Deus, como num clube de pessoas. Talvez apenas devido à passagem insistente do tempo tudo isso começara, porém, a se tornar diário, diário, diário. Às vezes arfante. (Tanto o homem como a mulher já tinham iniciado a idade crítica.) Eles abriam as janelas e diziam que fazia muito calor. Sem que vivessem propriamente no tédio, era como se nunca lhes mandassem notícias. O tédio, aliás, fazia parte de uma vida de sentimentos honestos.

Mas, enfim, como isso tudo não lhes era compreensível, e achava-se muitos e muitos pontos acima deles, e se fosse expresso em palavras eles não o reconheceriam – tudo isso, reunido e considerado já como passado, assemelhava-se à vida irremediável. À qual eles se submetiam com um silêncio de multidão e com o ar um pouco magoado que têm os homens de boa vontade. Assemelhava-se à vida irremediável para a qual Deus nos quis.

Vida irremediável, mas não concreta. Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra: “Ah, esse leva uma vida de poeta.”

Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho. 

Não, não é verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. Embora houvesse momentos em que de repente, por um motivo ou por outro, eles afundassem na realidade. E então lhes parecia ter tocado num fundo de onde ninguém pode passar. Como, por exemplo, quando o marido voltava para casa mais cedo do que de hábito e a esposa ainda não havia regressado de alguma compra ou visita. Para o marido interrompia-se então uma corrente. Ele se sentava cuidadoso para ler o jornal, dentro de um silêncio tão calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria. Ele fingindo com severa honestidade uma atenção minuciosa ao jornal, os ouvidos atentos. Nesse momento é que o marido tocava no fundo com pés surpreendidos. Não poderia permanecer muito tempo assim, sem risco de afogar-se, pois tocar no fundo também significa ter a água acima da cabeça. Eram assim os seus momentos concretos. O que fazia com que ele, lógico e sensato, se safasse depressa. Safava-se depressa, embora curiosamente a contragosto, pois a ausência da esposa era uma tal promessa de prazer perigoso que ele experimentava o que seria a desobediência. Safava-se a contragosto mas sem discutir, obedecendo ao que dele esperavam. Não era um desertor que traísse a confiança dos outros. Além do mais, se esta é que era a realidade, não havia como viver nela ou dela.

A esposa, esta tocava na realidade com mais frequência, pois tinha mais lazer e menos ao que chamar de fatos, assim como colegas de trabalho, ônibus cheio, palavras administrativas. Sentava-se para emendar roupa, e pouco a pouco vinha vindo a realidade. Era intolerável enquanto durava a sensação de estar sentada a emendar roupa. O modo súbito do ponto cair no i, essa maneira de caber inteiramente no que existia e de tudo ficar tão nitidamente aquilo mesmo – era intolerável. Mas, quando passava, era como se a esposa tivesse bebido de um futuro possível. Aos poucos o futuro dessa mulher passou a se tornar algo que ela trazia para o presente, alguma coisa meditativa e secreta.

Era surpreendente como os dois não eram tocados, por exemplo, pela política, pela mudança de governo, pela evolução de um modo geral, embora também falassem às vezes a respeito, como todo o mundo. Na verdade eram pessoas tão reservadas que se surpreenderiam, lisonjeadas, se alguma vez lhes dissessem que eram reservadas. Nunca lhes ocorreria que se chamava assim. Talvez entendessem mais se lhes dissessem: “vocês simbolizam a nossa reserva militar”. Deles alguns conhecidos disseram, depois que tudo sucedeu: eram boa gente. E nada mais havia a dizer, pois que o eram.

Nada mais havia a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes é o que abre por acaso uma porta. Alguma vez eles tinham levado muito a sério alguma coisa. Eles eram obedientes.

Também não apenas por submissão: como num soneto, era obediência por amor à simetria. A simetria lhes era a arte possível.

Como foi que cada um deles chegou à conclusão de que, sozinho, sem o outro, viveria mais – seria caminho longo para se reconstruir, e de inútil trabalho, pois de vários cantos muitos já chegaram ao mesmo ponto.

A esposa, sob a fantasia contínua, não só chegou temerariamente a essa conclusão como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria. Não só ela passou temerariamente a isso como – provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher – passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que não chegava a ser um absurdo. Ela sabia que não era. Ter meia razão a confundia, mergulhava-a em meditação.

O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua própria, que era tímida mas efetiva, começou a pensar que muitas aventuras amorosas seriam a vida. Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heroico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, amor é
sacrifício.

Assim chegamos ao dia em que, há muito tragada pelo sonho, a mulher, tendo dado uma mordida numa maçã, sentiu quebrar-se um dente da frente. Com a maçã ainda na mão e olhando-se perto demais no espelho do banheiro – e deste modo perdendo de todo a perspectiva – viu uma cara pálida, de meia-idade, com um dente quebrado, e os próprios olhos... Tocando o fundo, e com a água já pelo pescoço, com cinquenta e tantos anos, sem um bilhete, em vez de ir ao dentista, jogou-se pela janela do apartamento, pessoa pela qual tanta gratidão se poderia sentir, reserva militar e sustentáculo de nossa desobediência.

Quanto a ele, uma vez seco o leito do rio e sem nenhuma água que o afogasse, ele andava sobre o fundo sem olhar para o chão, expedito como se usasse bengala. Seco inesperadamente o leito do rio, andava perplexo e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruços mais adiante.

Fonte:
Clarice Lispector. A Legião Estrangeira.

sábado, 29 de junho de 2019

Reflexão 2 - Edy Soares/ES


Belmiro Braga (Poemas Avulsos)


A MULHER

Ela, dos 15 aos 20, nos enleia,
dos 20 aos 25, nos encanta,
dos 25 aos 30, não há feia
e, dos 30 aos 40, não há santa.

Dos 40 aos 50, ainda é sereia,
dos 50 aos 60, desencanta:
– Se for solteira – o próprio céu odeia,
se casada – de nada mais se espanta.

Dos 60 aos 70, não descrevo;
embora guarde n´alma um doce enlevo,
traz nos olhos da mágoa o espesso véu...

Seja avó, seja tia ou seja sogra,
toda velhinha meus carinhos logra
por lembrar minha Mãe que está no céu...

A UM PINTASSILGO

Por que vens tu cantar, ó passarinho,
por entre as folhas úmidas de orvalho,
no flóreo jasmineiro meu vizinho
E mesmo em frente à mesa onde trabalho?

Por que não vais vigiar teu fofo ninho
(Não te zangues comigo, eu não te ralho)
a balançar à margem do caminho,
qual rosa escura num recurvo galho?

Tu tens em que cuidar; por isso, voa 
e deixa-me sozinho... Esse teu canto,
embora sendo alegre, me magoa...

Não te demoras, vai! Deixa-me agora,
que o teu gorjeio me faz mal, porquanto
nunca se canta ao lado de quem chora…

CONTRARIEDADE

– A um certo cinema fui
e me assentei junto ao Rui.*

E a sua cabeça – um mundo
de tanto saber profundo –
não me deixou ver o rosto
do meu amor... Que desgosto!

Amo ao grande Rui com ânsia,
mas naquela circunstância...
Que nunca tal me aconteça!

Porque a verdade é verdade:
Eu cheguei a ter vontade
de ver o Rui...sem cabeça...

*Esses versos são uma referência à cabeça de Rui Barbosa, que o impediu de ver uma moça, sentada à sua frente, num cinema no centro do Rio de Janeiro.

NOSSA VIDA É UMA BALANÇA...

Nossa vida é uma balança
Com duas conchas iguais:
Numa a alegria descansa,
Noutra descansam os ais.

Como são afortunadas
As almas que podem ter
Nas conchas equilibradas
Igual dor, igual prazer.

Minhas conchas em porfia
Não se equilibram jamais:
Sempre a dos risos vazia
E sempre cheia a dos ais.

QUADRAS A SEU CÃO TERRA-NOVA “PRÍNCIPE”

Pela estrada da vida subi morros,
desci ladeiras e, afinal, te digo:
se entre os amigos encontrei cachorros,
entre os cachorros encontrei-te, amigo!

Para insultar alguém, hoje recorro
a novos nomes feios, porque vi
que elogio a quem chame de cachorro,
depois que este cachorro conheci.

RESPOSTA À NOTÍCIA DE UM CONTRATO DE CASAMENTO

À notícia bato palmas
E mando um conselho aos dois:
Primeiro casem as almas
E os corpos casem depois,
Que eu tenho os olhos cansados
De ver (uma mil talvez)
Dentro de corpos casados
Almas em plena viuvez.

RETROSPECTO

Cinquenta anos já fiz, e não fiz nada
neste meus longos cinquenta anos, feitos
de pesares, de angustias, de despeitos,
a boca sorridente e a alma enlutada.

A estrada do Dever foi minha estrada,
da Virtude segui os sãos preceitos,
e nem honras, nem glórias, nem proveitos
encontro ao fim da aspérrima jornada...

Vivi sonhando com manhãs radiosas,
com bosques verdes, pássaros e ninhos,
e deu-me a vida noites tormentosas,

e deu-me campos mortos e maninhos...
Cinquenta anos vivi semeando rosas,
cinquenta anos vivi colhendo espinhos…

SEMANA AMOROSA

Viu-a domingo. Segunda,
narrou-lhe em cheirosa carta
a sua paixão profunda.
Na terça, esperou; na quarta
recebeu este postal:
– Vem à quinta! e o moço, besta,
toma quinta por quintal,
e vai à quinta na sexta...
E no sábado essa funda
paixonite estava extinta,
e, triste, chorava a tunda
que apanhou sexta na quinta!

SOBRE UM ORADOR MAÇANTE

Indo a uma das cidades das margens do Paraibuna, Belmiro viu-se constantemente assediado por um literato com fumaças de orador.

Um certo orador maçante,
das margens do Paraibuna,
ao falar, de instante a instante,
vai esmurrando a tribuna,
e quem o conhece, sente,
por mais ingênuo e simplório,
que os murros são simplesmente
para acordar o auditório.

Luiz Poeta (Ele Foi Meu Aluno)




Às vezes fico pensando sobre a vida da gente neste cantinho de planeta chamado sala de aula...

Fico imaginando o que mais podemos esperar desse mundo tão conturbado, repleto de violência, medo e sonhos frustrados por uma bala perdida, uma agressão desnecessária ou por um acidente provocado por um carro desgovernado..,

Aí vem a pergunta: - Além da relação das pessoas com Deus, o que mais pode ampará-las nos momentos mais difíceis? Será que a gente consegue sobreviver no meio de tanta má informação, tanto desrespeito pelas normas sociais, tantas mentiras e demagogias? 

Os políticos mentem, as autoridades mentem, alguns religiosos mentem... e nós, como ficamos? Em quem devemos acreditar? Como devemos nos comportar? 

No meio dessa confusão toda, ainda restam as escolas, os alunos, os professores, os pais e as pessoas que fazem parte da nossa vida e que, no fundo, querem o nosso bem...

Na verdade, ninguém gosta de ouvir a "verdade". É muito mais cômodo e até agradável que um professor, por exemplo, concorde ou aparente concordar com tudo que a gente faça, deixando de estabelecer limites para o nosso comportamento... mas será que ele está dizendo a verdade para nós? Será que quando o professor tenta falar a nossa própria linguagem, ele não tem uma outra intenção que não seja a de nos conhecer melhor para poder nos socorrer na hora certa? 

É meio complicado, não acha?  ...ou será que a complicação está só na nossa cabeça tão... teimosa?  

Sabe de uma coisa? Nós, educadores, também já fomos alunos, entretanto estamos aprendendo muito mais agora com vocês.

E claro que às vezes ficamos irritados, falamos alto e até gritamos para mostrar o óbvio: quem é responsável pela aula é o professor. Mas... e você? Já parou para pensar sobre isso? Já percebeu que quando você procura ser diferente, agindo de forma errada em relação aos demais, alguém tem que repreendê-lo "verdadeiramente"? 

Ou você se julga único nesse planeta de bilhões de pessoas que tem os mesmos sonhos, a mesma dificuldade, a mesma... eletricidade?  

Há um pensamento que diz o seguinte: "Deus nos dá o dom, o talento Ele deixa por nossa conta". Mas... o que é talento? É ser diferente invadindo a autoridade dos outros  É procurar reagir de modo arrogante e agressivo quando alguém não aceita a nossa indisciplina? ... ou é mostrar criativamente o que a gente pode fazer de bom para a vida, para a sociedade e para nós mesmos? 

Quando você estiver solto no mundo, por mais que não goste deste ou daquele professor, o tempo cobrará um preço. Será que você pode pagá-lo? Afinal, o mundo não é feito de professores... nem de pais... nem de parentes que costumam chamar a nossa atenção quando a gente erra... o mundo é implacável!

Algumas pessoas mentem para nós, outras falam a verdade, mas se nós não soubermos a diferença e aproveitar o melhor que há em cada uma delas, tudo que nos tenham ensinado terá ido por água abaixo.

Daqui a bem pouco tempo, você estará livre do seu professor, porém ele continuará falando as mesmas coisas para pessoas como você; continuará tentando mostrar o lado sensato, correto dos fatos.

E sabe o que o professor quer de você? Que você seja melhor do que ele, que seja verdadeiramente um vencedor e que ele possa admirá-lo muito mais e dizer, enfim, orgulhosamente:

- Ele foi meu aluno.

Fonte:
Livro enviado pelo autor
Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta). Canção de Ninar Estátuas. 1.ed. Ilhéus/BA: Mondrongo, 2014.

III Concurso Internacional de Trovas da OMT - CUBA (Resultado Final)


TEMA: LIBERDADE

VENCEDORES

1° lugar 
Os meus ideais transcendem
os meus suplícios medonhos
porque correntes não prendem
a liberdade dos sonhos.
Francisco Gabriel Ribeiro
Natal/RN

2° lugar
O que sei da liberdade,
quem a tem me compreende,
só é livre de verdade
aquele que não se vende.
Aparecida Gianello dos Santos
Martinópolis/SP

3° lugar
Presa aos grilhões da saudade
e escrava da fantasia,
não desejo liberdade:
de que me serve a alforria?
Alba Helena Corrêa
Niterói/RJ

4° lugar
Somente estará provado
o avanço da humanidade
quando ninguém for privado
das asas da liberdade.
Maurício Cavalheiro
Pindamonhangaba/São Paulo

5° lugar
Meu grito, tão oprimido,
por liberdade buscar,
é um pássaro que, ferido,
ainda insiste em voar.
José Almir Loures
Astolfo Dutra/MG

MENÇÃO HONROSA

1° lugar
Promover o bem estar
entre a nossa sociedade,
é amar! e respeitar
o direito a liberdade.
Reovaldo Paulichi
Atibaia/SP

2° lugar
Num mundo onde impera a guerra,
opressão, fome, maldade,
lutemos por paz na terra,
gritemos por liberdade!
Jessé Nascimento
Angra dos Reis/RJ

 3° lugar
Na gaiola – que maldade! –
canta o pássaro, mas triste...
– Se lhe falta a liberdade,
de que adianta o farto alpiste?
A. A. de Assis
Maringá/PR

4° lugar
A Pátria não se sustenta,
perde-se a voz, a igualdade
e tudo, enfim, se fragmenta,
quando não há liberdade.
Edy Soares
Vila Velha/ES

5° lugar
Produto da sociedade,
preso por regulamentos,
o homem só tem liberdade
dentro de seus pensamentos.
Nei Garcez 
Curitiba/PR

MENÇÃO ESPECIAL

1° lugar
A liberdade é um bem, 
que a mais nenhum se nivela,
só sabe o valor que tem
quem sentir a falta dela.
Massilon Ferreira da Silva
Aracaju/SE

2° lugar
Quem pensa que liberdade
é fazer o que se quer,
demonstra imaturidade,
tenha a idade que tiver.
Elbea Priscila de Sousa e Silva
Caçapava/SP

 3° lugar
O pássaro em sua cela
pipila sua saudade
e, triste, canta à capela
sonhando com liberdade.
Genival Silva de Souza 
Ibatiba/ES 

4° lugar
Para os "donos" do Poder,
liberdade é nada além
que o direito de escolher
o tirano que convém!
Arlindo Tadeu Hagen
Juiz de Fora/MG

5° lugar
Se a luz da razão trafega
nas ondas do sentimento,
a liberdade navega
nos mares do pensamento.
Marciano Batista de Medeiros
Parnamirim/RN           

TROVAS DESTAQUES

 1° lugar
Liberdade, quem me dera,
não fosses uma ilusão,
pois realmente prospera,
só quando é livre a Nação! 
Leonilda Yvonneti Spina
Londrina/PR

2° lugar
Ante a voz da autonomia
se o silêncio é imposição,
a liberdade é utopia
nos conceitos da razão.
Cezar Augusto Defilippo
Astolfo Dutra/MG 

3° lugar
Privado da liberdade
lindo pássaro cantador,
na gaiola, de saudade,
canta triste a sua dor...
Maria Helena Ururahy Campos da Fonseca
Angra dos Reis/RJ

4° lugar
Eu,  pasma  diante  da  vida
de  não  ver  a  liberdade,
há  muito  tempo  esquecida
algemando  a  humanidade !
Maria Aparecida Ferreira de Vasconcelos
Santos/SP 

5° lugar
A  liberdade acalenta
sonhos de cidadania;
que a nós todos apascenta,
contra o mal da tirania.
Luiza Nelma Fillus
Irati/PR

Fonte;
Maria Luíza Walendowski

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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