Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 11 de junho de 2019

Luís da Câmara Cascudo (O Fiel Dom José)


Era uma vez um príncipe que encontrou numa sapataria um rapaz tão vivo e simpático que desejou tê-lo como amigo e companheiro. O rei foi pedir ao sapateiro que desse seu filho para viver com o príncipe e o sapateiro cedeu. O rapaz se chamava José e o Rei deu o dom. Todo o mundo no reinado só o conhecia, daí em diante, por Dom José.

O príncipe e Dom José eram inseparáveis nas festas, passeios e caçadas. O rei tinha uma filha muito bonita mas invejosa e de mau gênio. Vendo aquela amizade do irmão com Dom José, enciumou-se e planejou desfazer o afeto que ligava os dois moços.

Uma manhã mandou dizer a Dom José que fosse conversar com ela no seu próprio quarto. Dom José procurou o príncipe, contou o convite e perguntou se devia ir.

– Vá, Dom José!

Dom José foi e a princesa recebeu-o muito bem e ficou meia hora conversando assuntos tolos, negócios da cidade, modas, etc. Meia hora depois Dom José saiu e foi narrar ao príncipe o que sucedera. No outro dia sucedeu o mesmo, mas a princesa prendeu o moço uma hora no seu quarto.

Apesar de sabedor de tudo, o príncipe começou a ficar desconfiado das conversas. Pela terceira vez a princesa mandou buscar Dom José e só o despediu hora e meia depois. Dom José repetiu toda a conversa ao seu amigo, mas o príncipe não acreditou e, julgando que ele tivesse tentado seduzir sua irmã, pediu ao rei para expulsá-lo do reinado. O rei, mesmo a contragosto, mandou Dom José sair e ir morar numa ilha distante.

Ficando sozinho, o príncipe não achava graça em cousa alguma, emagrecendo, definhando, não querendo caçar nem assistir às festas. Chegou mesmo a adoecer de cama e o remédio que houve foi o rei mandar buscar Dom José. Com a notícia da vinda do amigo, o príncipe foi melhorando, melhorando, e saiu uma bela manhã para caçar. Andou, andou pelos campos, quando viu, distante, numa relva muito verde e brilhante, uma abóbora enorme, coberta de uma névoa faiscante que quase não deixava ver. O príncipe baixou a aba do chapéu, aproximou-se da abóbora e viu que estava fechada e tinha um letreiro:

Para Dom José será
quem daqui tirará.

O príncipe quis tocar mas a abóbora desapareceu. Voltando para casa o príncipe encontrou Dom José e fez muito agrado, conversando e planejando caçadas e brincadeiras futuras.

No outro dia, cedinho, lá foram caçar. O príncipe foi andando no caminho anterior, levando o companheiro para o lado onde vira a abóbora encantada. Sucedeu o que se esperava. Viram a campina verde e a névoa faiscante que não deixava enxergar. Foram para perto e leram o letreiro:

Para Dom José será
quem daqui tirará.

Dom José botou a mão em cima da abóbora e esta se abriu, mostrando a mais linda princesa do mundo. Dom José tirou-a de dentro da abóbora e disse ao príncipe, que ficara assombrado com a beleza da moça:

– O que sou devo ao príncipe, meu senhor. Esta é a ocasião de começar a pagar os benefícios recebidos. Dou esta princesa pela mão ao príncipe meu senhor para sua legítima esposa!

O príncipe ficou radiante de contente e a princesa sorriu para ele agradada e satisfeita com a decisão de Dom José. Ficaram muito animados, conversando, contando à moça que estivera encantada. Como o sol se tornasse quente por demais, os três resolveram passar a força-do-calor abrigados na sombra de umas árvores muito copadas. Deitaram-se e o príncipe e a princesa adormeceram logo. Dom José ficou acordado, vigiando.

Lá para as tantas, três rolinhas passaram voando, fizeram umas voltas em três raminhos, bem em cima da cabeça de Dom José. Começaram as três rolinhas a falar, entretidas.

Disse a primeira:

O príncipe está muito vaidoso por ter recebido a princesa mas não se aproveitará dela. Quando passarem o rio ela pedirá água corrente e bebendo morrerá.

E quem isto ouvir e contar
em pedra-mármore há de se virar!

A segunda continuou a profecia:
– E se a princesa não morrer da água corrente há de morrer quando beber a primeira colher de sopa no jantar dessa noite.

E quem isto ouvir e contar
em pedra-mármore há de se virar!

A terceira rolinha findou:
– Mesmo que a princesa escape da água e da colher envenenada, será devorada pela serpente de duas cabeças na madrugada.

E quem isto ouvir e contar
em pedra-mármore há de se virar!

Dom José tudo ouvira e, logo que as rolinhas voaram, levantou-se, acordou os príncipes e seguiram viagem. Foram passando o rio e a princesa, quando viu as águas claras, correntes e frias do rio, começou a ter sede e a pedir um copo para beber.

– Vão seguindo, vão seguindo, que eu vou buscar água e levo – declarou Dom José.

Os dois continuaram a jornada e Dom José quando os alcançou, algum tempo depois, foi explicando que caíra e perdera toda água mas estavam perto do palácio e lá havia tudo do bom e do melhor.

Chegando foram logo festejados e o rei e a rainha abençoaram a princesa, cobrindo-a de carinhos e anunciando logo o casamento. Dom José foi o padrinho e a princesa solteira a madrinha. De noite houve o banquete, com todos os homens ricos do lugar, e Dom José pediu para não tomar parte na mesa e sim servir como criado.

Os noivos ficaram surpreendidos com aquele pedido. Mas, insistindo Dom José, cederam, e ele serviu como mordomo. Logo que puseram a sopa nos pratos e a noiva segurou a colher de ouro, enchendo-a e levando-a à boca, Dom José correu, arrebatou-a e entregou uma outra colher de prata, dizendo:

– Coma com esta e não pergunte por quê...

O noivo fez um ar de zanga mas nada disse. Acabou-se o jantar e houve baile. Dom José foi ao príncipe e pediu, por um último favor, deixasse ele dormir no mesmo quarto do casamento. O príncipe espantou-se mesmo e ainda mais a noiva, mas sendo Dom José quem dera a mulher ao marido, entenderam que merecia tudo e consentiram no que pedira.

Dom José foi buscar um alfanje, amolou-o como a uma navalha e escondeu-o debaixo da sua cama, preparada no mesmo quarto dos noivos.

Recolheram-se todos e Dom José ficou acordado, botando sentido nos rumores e nos passos. Pela madrugada, quando caiu a friagem ouviu-se um arrastado e foi aparecendo pela janela um bicho mais horroroso da terra, uma serpente que não tinha fim, preta, grossa, com duas cabeças, capaz de engolir sem mastigar a uma junta de bois de carro.

Dom José desembainhou o alfanje e assim que a serpente passou o batente da janela descendo para o chão do quarto, sacudiu um golpe tão violento que decepou as duas cabeças de uma só vez.

Um jorro de sangue esguichou e três pingos salpicaram a face da princesa que estava dormindo. Dom José limpou tudo, atirando o corpão da serpente para fora.

Esta, assim, que bateu na terra, sumiu-se. Dom José viu as três gotas de sangue na bochecha da princesa e foi tirá-las com todo cuidado. Quando estava passando, muito de leve, a ponta dos dedos, a princesa acordou e gritou que Dom José estava querendo faltar-lhe com o respeito. O príncipe ficou furioso mas Dom José não se defendeu.

Amanheceu o dia e o príncipe foi queixar-se ao rei e Dom José foi condenado a morrer degolado imediatamente. Juntou-se a gente toda para assistir sua morte.

Antes de subir para o tabuado onde seria cortado o pescoço, Dom José pediu para contar uma história. O rei consentiu e Dom José começou lembrando sua vida. Contou as vozes das três rolinhas e, quando disse como livrara a princesa de beber a água fresca do rio, ficou transformado em mármore até o peito. Disse como trocara a colher de ouro envenenada por uma de prata. Ficou de mármore até o pescoço. Quando esmiuçou o caso da serpente de duas cabeças, virou-se em mármore, dos pés à cabeça, como uma estátua.

O rei, a rainha, os noivos e a princesa solteira choraram demais, lastimando Dom José. Todo o povo chorou também. O príncipe mandou construir um pedestal no jardim e colocou a estátua de mármore e aí passava a maior parte do dia, chorando e recordando o fiel Dom José.

Meses depois estava o príncipe nesse lugar, quando duas rolinhas vieram voando e pousaram nos ombros da estátua, começando a falar. Disse uma:

– Agora é que o príncipe sabe quem era seu amigo e o que valia o fiel Dom José, encantado para livrar a princesa da morte...

Respondeu a outra:

– É verdade, mas para tudo há remédio. Quando nascer o filhinho do príncipe, passe este alfange no pescocinho do menino e molhe toda a estátua nesse sangue inocente, Dom José voltará a viver como dantes...

O príncipe ouviu essas palavras e ia se levantando quando duas amas vieram correndo do palácio, avisando que a princesa tivera um menino tão bonito como o dia. O príncipe não perdeu tempo. Correu até o quarto, beijou a mulher, segurou o filhinho nos braços e voltou para junto da estátua. Puxou a espada, cortou o pescoço da criança, molhando o mármore no sangue inocente. Assim que acabou, a estátua estremeceu e Dom José pulou do pedestal para baixo, como era dantes.

Antes de abraçar o príncipe, pegou na cabeça e no corpo do menino, juntou as partes e a criança ficou sã e salva, apenas com uma listinha vermelha no pescoço. Abraçaram-se como irmãos, chorando de alegria e Dom José entrou no quarto da princesa levando o menino nos braços, dormindo tranquilamente.

As festas foram as mais compridas e bonitas deste mundo e Dom José casou com a irmã do príncipe, vivendo até cem anos na mais perfeita felicidade.
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Nota do Autor:
Luísa Freire, Ceará-Mirim, Rio G. do Norte.
Nota – Luísa Freire, branca, analfabeta, residiu em nossa casa de 9 de junho de 1915 até 23 de julho de 1953, quando faleceu. Nascera em junho de 1870. Foi colaboradora preciosa em literatura oral. Com maiores anotações publiquei no Porto, Portugal, um volume inteiro contendo “Trinta Estórias de Bibi”. Bibi era seu apelido dado por mim quando menino e conservado a vida inteira. (Trinta “estórias” brasileiras. Porto: Editora Portucalense, 1955.)

O Fiel Dom José tem variante no “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Teófilo Braga, nº 12, A Bixa de Sete Cabeças, vindo do Algarve. Na versão portuguesa não há o encontro da abóbora encantada nem a presença da princesa que casa com o fiel Dom José. As pombas avisam: “E quem isto ouvir e não se calar – Em pedra-mármore há de se tornar”. 

No mais, idêntico. Os irmãos Grimm colheram este conto na Alemanha, o “Fiel João”, estudado exaustivamente por Erich Rösch, “Der Getreue Johannes”, FFC, vol. XXVII, nº 77, Helsinki, 1928, com 147 versões. 

Variantes no “Portuguese Folk-Tales”, de Consiglieri Pedroso, “Pedro and the Prince”, 25, Londres, 1882. “Pedro e Pedrito”, nº XXXIV do “Contos da Carochinha” (Adolfo Coelho). 

Variante no Deccan, “Rama and Luxaran”, citada pelo coordenador português. 

Outra versão clássica no “Pentamerone” de Giambatista Basile (1634), The Raven, Nona distração do quarto dia, edição inglesa de N. M. Penzer do original italiano de Benedetto Croce, IIº, 72, Londres, 1932. É o Mt. 516 de Aarne-Thompson, Faithful John. (N.E.)

Fonte:
Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil. 1ª edição digital. São Paulo, 2014.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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