Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Luiz Poeta (Portugal Pequeno– Vila Sapopemba – Marechal Hermes)




Não é à toa que Portugal me atrai. Para começo de conversa, meu avô paterno chamava-se Áureo Monteiro de Barros. O que guardo dele, além do jeito autenticamente Lusitano de falar, são dois olhos muito azuis, os cabelos muito brancos e um nariz que certamente deixou para mim. Alguns diziam que ele tomava banho de chuveiro com o cigarro aceso e o nariz era tão grande, que o cigarro não apagava. Claro que nunca fiz esta experiência, porque não gosto de cigarros e nem de charutos, mas meu nariz?- apesar de menor um pouquinho que o dele - não nega as raízes. O DNA é inequívoco.

Um cirurgião do Hospital Carlos Chagas - onde trabalhei durante algum tempo como Técnico de Enfermagem - Dr. Flávio Bahia, todas as vezes que me via, provocava-me:

- Vamos operar este narizinho?

Qual nada, meu nariz nunca atrapalhou minha vida. Pelo contrário: quando minha mulher me viu, quem chegou primeiro foi o nariz, que até hoje me dá um certo ar de fidalguia e, porque não dizer, sensualidade.

Quando minha filha Michelle nasceu, o nariz português também estava lá e ela reclamava que gostaria de ter puxado o narizinho da mãe. Há pouco tempo fez uma cirurgia e ficou mais linda ainda, mas, na minha opinião, acho que traiu a nossa lusomorfia.

Por parte de mãe, está o meu avo Alcino Lobo de Souza... esse era baixinho e gordinho, de rosto redondo; minha avó é a Adelina Ventura de Sousa (com V) preciso falar mais ?

Claro que temos também italianos na família: além dos portugueses, somos fruto dos Zaniboni (e obviamente nos orgulhamos muito disso).

Mas Portugal...

Em 1960 mudei-me de Bangu para Marechal Hermes, bairro onde resido, Quando comecei estudar a história do lugar, descobri que o nome original era "Portugal Pequeno" - "Vila Sapopemba" - Que bênção! Como veem, Portugal me atrai ou sou atraído por Portugal. Minha rua, a General Cláudio, é repleta de portugueses e de vez em quando sou convidado para um Casalinho, um Porto ou um Periquita e aceito de bom gosto, embora não despreze ou rejeite uma bela cerveja bem gelada – com colarinho - de preferência. Afinal, o Brasil é um país tropical e moro no Rio de Janeiro: 40 graus. Aqui, as lareiras perdem inevitavelmente para os condicionadores de ar.

Mas, voltando ao Portugal Pequeno - segundo historiadores, o nome se deve um expressivo grupo de portugueses que aqui se instalaram, produzindo e administrando os nossos primeiros estabelecimentos comerciais como padarias, açougues, quitandas e afins. Neste lugar, as famílias portuguesas criaram seus filhos, netos, bisnetos, tetranetos, enfim completaram uma árvore genealógica imensa cujos filhos ainda residem por cá.

Como Marechal Hermes era primitivamente uma vila operária, os primeiros moradores que o construíram, foram também os primeiros clientes dos primeiros comerciantes, a maioria advinda de Portugal.

Vale lembrar que a capital do Brasil - hoje Brasília - era o Rio de Janeiro e nosso bairro, fundado em 1913, deve seu nome a um dos nossos mais ilustres presidentes: Hermes da Fonseca, o homem que autorizou a obra.

Trata-se de um local de tradição musical e o chorinho, um dos nossos estilos musicais mais importantes, ainda é ouvido em diversos estabelecimentos como tabernas, bares e afins. Luperce Miranda, considerado um dos maiores instrumentistas do mundo, morava em Marechal Hermes. O bandolim brasileiro lembra muito a gultarra portuguesa e ouvi-lo é unir dois sons instrumentalmente parecidíssimos: o do fado e o do choro. Pura lusofonia... musical.

Fonte:
Livro enviado pelo autor:
Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta). Canção de Ninar Estátuas. 1.ed. Ilhéus/BA: Mondrongo, 2014.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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