Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Varal de Trovas n. 234


Rachel de Queiroz (O Coração de Washkansky)

    

Parece que está mesmo morrendo o homem que, lá na África do Sul, recebeu o coração da moça, apesar da torcida apaixonada em que se empenha o mundo inteiro pela sua salvação. Se bons desejos dessem vida, Washkansky estaria salvo. Pois imagino que jamais tal massa de bons desejos acompanhou um doente — nenhum rei, nenhum herói, nenhum santo teria tido tantos milhões de pessoas a pedir pela sua vida, a acompanhar ansiosamente nos jornais os recuos e progressos dos implacáveis anticorpos.

A gente fica pensando: será que a natureza já previa a tentativa de transplantação de órgãos? Se não a previa, porque teria imposto ao organismo animal tantas e tão intolerantes defesas, essa xenofobia, essa cortina de anticorpos a fechar as fronteiras da carne, proibindo qualquer promiscuidade orgânica com outro indivíduo, seja embora o doador da mesma espécie, da mesma raça, do mesmo tipo de sangue do receptor? Promiscuidades, diz a natureza, só mesmo para o fim de reprodução — e pelos canais competentes. Fora disso, nada.

O que é evidente é que Deus Nosso Senhor considera o reino animal a sua mais perfeita obra-prima, cada indivíduo, cada espécie, cada série, tudo ótimo e não susceptível de alteração. Chega-se mesmo a duvidar da teoria da evolução, na qual se acredita mais por uma questão de fé, pois ver de verdade nunca vimos, nunca fomos testemunhas de nenhum processo de evolução em marcha num organismo vivo. Tanto quanto me deixa saber a minha ignorância, tudo ainda São teorias, As alegadas provas se apresentariam em espécies extintas, em fósseis; mas depois do bicho morto e virado pedra, passados milhões de anos — trata-se pelo menos de um testemunho longínquo, não é?

No reino vegetal não há tanto rigor. Milhares de vegetais pegam de galho e recebem enxertos de variedades diferentes. A glória da jardinagem, da horticultura e da pomicultura está mesmo na criação desses híbridos por enxertia, Há organismos animais, como a ameba, que se dividem, e cada pedaço continua vivendo como indivíduo novo; e há lagartixas que conseguem fazer crescer outra vez a cauda decepada. Mas encostar a parte seccionada de um ser na parte seccionada de outro ser, e aquilo pegar — parece que ainda está longe. Eles dizem que fazem cães com duas cabeças em laboratório, mas cadê esses cães? Podem viver uma vidinha artificial e rápida, mas lá mesmo se acaba. Não vinga.

É como eu dizia: Deus considera perfeitos os homens e os bichos tais como os criou e não admite alterações na sua morfologia. E até mesmo híbridos por cruzamento a natureza tolera mas não gosta, tanto que os faz estéreis.

Realmente, se pudesse interferir com a morfologia das espécies, mal se pode pensar a que fantasias loucas se entregaria a humanidade desvairada. Se a gente pegasse de enxerto como laranja-da-baía, numa hora de entusiasmo amoroso era capaz de fazer operação para ficar xifópago com o ser amado — mas, e depois que o amor passasse?

E os laboriosos que exigissem quatro mãos para trabalhar mais? E a milionária excêntrica que ambicionasse a garganta da Callas? E as linhas de contrabando organizadas para oferecer delicados pés de espanholas a americanas ricas de pé 42? E o ditador megalomaníaco que montasse fábricas de supersoldados para os seus exércitos — homens com couraça de jacaré, estômago jejuador de camelo, força de cavalo e miolos de burro para, apesar de tantos dons, obedecer ao seu senhor? E não se diga que o homem não faria isso, que ele tem amor ao seu corpo tal como é: — o homem não tem amor a nada, o homem é doido. Tanto quanto pode, ele já se desfigura com tatuagens, com brincos, batoques, cicatrizes, e operações plásticas de resultados duvidosos. E para ganhar dinheiro, então — até já estou vendo quadrilhas organizadas para raptar crianças de gênio e lhes vender o cérebro no câmbio-negro.

Assim mesmo, contra todas as leis naturais, queremos que Washkansky escape. Que a regra inflexível abra essa primeira exceção e o corpo enfermo do homem de meia-idade cobre vida nova com o coração da rapariga morta. E se a operação tivesse êxito e entrasse na rotina médica — oh, meu Deus, podia-se até criar o uso de dar o nosso coração a alguém; não poeticamente, cm devaneios de amor, mas mandar abrir de verdade a arca do peito e tirar de dentro o coração palpitando, e enviá-lo congelado em papel de alumínio, como comida americana, para o ingrato ou ingrata ficar usando, já que nasceu sem coração.

P.S. — Washkansky, o primeiro paciente a sofrer transplante cardíaco (operado pelo Dr. Christian Barnard no hospital de Groote Schuur, África do Sul), morreu após viver 18 dias com o coração da moça Denise.

Fonte:
Rachel de Queiroz. As Menininhas e outras crônicas. RJ: J. Olympio, 1976.

1º Jogos Florais do Equador (Resultado Final)


Tema: Desencanto

VETERANOS

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VENCEDORES
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1º Lugar:

A vida tem lá seus prantos,
seus tantos ais e seus uis...
Porém, mais que os desencantos,
contam os dias azuis.
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
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2º Lugar:

Coração, não sofras tanto
no teu bater clandestino...
Vê! Nem mesmo o desencanto
amordaça o meu destino.
MARIA DULCE DE LIMA PESSOA
Tabira/PE
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3º Lugar:

Num desencanto cruel
cujo olhar jamais anseia,
eu vejo um mundo infiel
promovendo a dor alheia.
MARIALICE ARAÚJO VELLOSO
São Gonçalo/RJ
- - - - - –

4º Lugar:

Mesmo que a velhice traga
desencanto e nostalgia,
nela sempre haverá vaga
para o amor de cada dia.
ANTÔNIO FRANCISCO PEREIRA
Belo Horizonte/MG
- - - - - –

5º Lugar:

Quem vive no desencanto,
não vê na vida a magia:
da aurora acordando o canto,
da passarada do dia!
EDITE ROCHA CAPELO
Santos/SP

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MENÇÃO HONROSA
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1º Lugar:

Não deixes que o desencanto
esmoreça a alma ferida.
Enxuga logo teu pranto,
mantém a fé, segue a vida!
LEONILDA YVONNETI SPINA
Londrina/PR
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2º Lugar:

Entre encanto e desencanto
meu coração se perdeu.
Boiou nas águas do pranto,
soçobrou longe do teu.
LÚCIA EDWIGES NARBOT ERMETICE
Campinas/SP
- - - - - -

3º Lugar:

Buscando o que me motive,
supero, com muito empenho,
as desilusões que tive
e os desencantos que tenho.
FRANCISCO GABRIEL RIBEIRO
Natal/RN
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4º Lugar:

Tanta fartura no mundo...
E o que mais dói num cristão
é o desencanto profundo
no olhar de quem pede um pão!
EDY SOARES
Vila Velha/ES
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5º Lugar:

Infeliz, meu coração,
de desencanto padece,
pois sempre dá o seu perdão,
a quem perdão não merece.
JOSÉ ALMIR LOURES
Astolfo Dutra/MG

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MENÇÃO ESPECIAL
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1º Lugar:

Ah! Que lembranças de nós...
tanto amor, cumplicidade
e agora que estamos sós,
desencanto nos invade
VÂNIA FIGUEIREDO
Campinas/SP
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2º Lugar:

De tudo o que a vida apronta,
e, no meu peito, ainda vive...
Eu só nunca fiz a conta
dos desencantos que tive!...
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
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3º Lugar:

O desencanto maltrata,
faz um coração gemer:
é cruel, fere e não mata,
mas nos ensina a viver.
MARCIANO BATISTA DE MEDEIROS
Parnamirim/RN
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4º Lugar:

Os poemas que decanto
– pra que o peito descomprima –
encontro no “desencanto”
a minha matéria-prima.
GERALDO TROMBIN
Americana/SP
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5º Lugar:

Quando o sonho for frustrado,
um grande amor for perdido
e o desencanto impetrado,
vá... não te dês por vencido!
LUIZ VIEIRA
Irati/PR

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NOVOS TROVADORES
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1º Lugar:

Por ser frio, descontente,
ter gelado o coração,
há um desencanto presente
num homem sem coração.
ANDRÉA LIMA DE PAULA
Juiz de Fora/MG
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2º Lugar:

Enxuguei, nem sei o quanto,
cada lágrima sentida,
em face do desencanto
nas ilusões desta vida.
ABELARDO NOGUEIRA
Araçoiaba/CE
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3º Lugar:

Nunca haverá desencanto
se temos a oferecer
nossos braços feito manto,
que à vida faz acolher...
MARA CAMARGO
São Paulo SP
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4º Lugar:

Com doçura, te amei tanto,
sem ao menos conhecer-te,
hoje amargo o desencanto,
sem conseguir esquecer-te.
SUELY RIBELLA
Santos/SP
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5º Lugar:

A vida nos leva encantos,
quando sabemos amar,
porém sempre há desencantos
que vêm nos acompanhar.
HENRIQUE LÜCK
Rio Branco/AC

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Brusque, 08 de abril de 2020.
Maria Luiza Walendowsky
Coordenadora

Sílvio Romero (O Careca)


Conto do Folclore Pernambucano

Uma vez havia um homem casado que tinha uma enorme quantidade de filhos e cada vez a mulher paria mais. O homem, para sustentar tão grande família, fez-se pescador.

Morava perto de um rio, pescava ali e ia sustentando a filharada. Uma vez, estando a mulher grávida e já no nono mês, o pescador foi ao rio pescar e meteu a tarrafa e nada. Meteu para outro lado, e nada, nem uma piabinha. O pescador já ia saindo muito triste quando ouviu uma voz, que dizia do fundo da água: "Se me deres o que de novo encontrares em casa, eu te darei muito peixe".

O homem pensou lá consigo — o que pode haver de novo é um cachorrinho, porque eu tenho em casa uma cadela para parir — e não se lembrou da mulher. Então o pescador disse que sim, que aceitava o negócio. "Pois então pesca pra ali". O pescador meteu a tarrafa e tirou peixe como diabo.

Chegando em casa, um filho foi-lhe logo dizendo: "Papai, minha mãe pariu". O homem entrou no quarto e viu seu filhinho. Era um menino. Disse à mulher que na beira do rio tinha uma cabocla que havia dado à luz e a criança tinha morrido, e que por isso ele levava aquele filho para a cabocla criar. A mulher custou a consentir, mas por fim cedeu. O pescador levou a criança e chegando ao rio atirou-a na água no lugar de onde tinha saído a voz. O menino lá no fundo d'água foi dar num palácio muito rico. Aí foi criado até rapazinho, mas nunca via ninguém.

Uma vez lhe apareceu um homem e disse-lhe: "Eu sou teu pai. Tenho de fazer uma viagem de quinze dias. Fica aqui com estas chaves (e deu-lhe um maço de chaves) mas não abras porta nenhuma, senão, quando eu voltar, morres".

O rapaz ficou e cumpriu fielmente a recomendação. No fim de quinze dias chegou o pai e lhe disse: "Então, está tudo direito?" O rapaz disse que sim. Passaram-se mais quinze dias; no fim deles o homem disse: "Vou fazer nova viagem de mais quinze dias, fica aí com as chaves e não me bulas em nada".

O rapaz ficou, mas desta vez não se pôde conter; havia três enormes caldeiras, uma fervendo ouro, outra fervendo prata e outra fervendo cobre. Ele meteu o dedo na de ouro e saiu com o dedo dourado. Limpava, limpava, e nada de sair o ouro.

Rasgou uma tirinha de pano e amarrou no dedo. Abriu outro quarto e viu três cavalos muito gordos, um preto, um branco e um castanho; os cavalos, em lugar de capim, tinham carne para comer. Abriu outro quarto e encontrou um leão muito grande e gordo, que em lugar de carne tinha capim para comer. Abriu outro quarto e viu uma mesa muito grande cheia de gavetas; numa tinha uma porção de papeizinhos brancos dobrados, noutra uma porção de papeizinhos azuis dobrados, noutra uma porção de armas: espingardas, espadas etc.

O rapaz não quis bulir em nada e tornou a fechar tudo. No fim de quinze dias chegou o pai: "Então, está tudo direitinho?" — Tudo, não buli em nada.

De tudo quanto o rapaz tinha visto, o que lhe dava mais com o pau na paciência, era a carne para os cavalos comerem e o capim para o leão. Ele fez o plano de trocar. No fim de quinze dias, o pai tornou a fazer viagem. O rapaz, logo que se viu sozinho, foi ao quarto dos cavalos e abriu, foi pegando na carne para tirar, e um cavalo disse: "Não faça isso, não bula em nada, senão morre, seu pai lhe mata. Agora, se quiser sair daqui, vá ao quarto onde tem a mesa, tire dois papéis, um azul e outro branco, tire boa roupa e se vista, tire boas armas e se arme, monte-se em um de nós, vá puxando outro, e quando seu pai chegar há de segui-lo; quando estiver pega não pega, largue um dos papéis; depois largue o outro e deixe o resto por minha conta".

O rapaz fez tudo tintim por tintim.

O cavalo lhe recomendou também que ele metesse a cabeça na caldeira de ouro e dourasse os cabelos. O rapaz dourou os cabelos, aprontou-se, armou-se, pegou dois papéis e meteu no bolso, montou no cavalo castanho e foi puxando o branco. Para mais incomodar o pai tirou o capim do leão e deu ao cavalo preto, que ficou, e pegou na carne e deu ao leão.

Seguiu viagem a toda a pressa. No fim de quinze dias, o homem chegando ao palácio e vendo tudo desarranjado ficou danado. Montou no cavalo preto e seguiu atrás do rapaz.

Depois de muito andar, avistou-o, aí o cavalo em que ia o moço lhe disse que largasse o papelzinho branco. O moço largou e gerou-se uma neblina tão espessa que não se via nada, mas o cavalo preto era muito bom e conseguiu romper a neblina depois de muito custo, mas já o rapaz ia longe.

Depois de muito andar, o pai já o ia avistando, quando ele soltou o outro papel e gerou-se um espinhal tão cerrado que ninguém podia atravessar. O homem disse ao cavalo preto: "Eu te desencanto, se me passares esta mata de espinhos".

O cavalo respondeu: "Tire-me os arreios e vá montado em osso, que eu passarei".

O homem tirou os arreios e montou em osso. Quando o cavalo se viu no meio do espinhal, atirou-o ao chão e lá deixou-o e seguiu para diante. O homem lá morreu e o cavalo encontrou-se com os outros e seguiram todos três. O rapaz já tinha cansado o cavalo castanho e montou no branco.

Foram seguindo. Depois de muito andar, chegaram perto de uma cidade, aí os cavalos disseram: "Agora nós ficamos aqui encantados nesta pedra e o senhor deixe também aqui suas armas e roupas, siga para a cidade. Ali adiante encontrará um boi morto, abra, tire a bexiga, sopre e bote na cabeça para esconder os cabelos dourados. Vá e siga a sua vida. Quando precisar de alguma coisa, venha aqui na pedra e nos peça".

O rapaz seguiu, encontrou o boi morto, abriu, tirou a bexiga, botou na cabeça e entrou na cidade.

Adiante encontrou um palácio, bateu na porta e apareceu-lhe o velho jardineiro e perguntou-lhe o que queria. O rapaz respondeu que queria um emprego para ganhar a sua vida. O jardineiro teve pena dele e o empregou como seu ajudante. Era isto na casa do rei.

O jardineiro perguntou ao rapaz por seu nome. Ele respondeu que não tinha nome. "Pois fica-se chamando-o Careca". Passaram-se muitos tempos e o Careca ia vivendo em paz.

Uma vez pôs-se debaixo de umas laranjeiras e tirou a bexiga da cabeça para ver os seus cabelos, e a filha mais moça do rei, que estava na janela, viu os cabelos dourados e ficou apaixonada pelo Careca. O jardineiro tinha o costume de levar todas as manhãs um ramalhete para cada uma das filhas do rei, que eram três. No dia seguinte, ele foi levar os ramalhetes e a princesa mais moça lhe disse: "De amanhã em diante quero que o Careca traga o meu ramalhete".

O rei e as irmãs da princesa caçoaram muito, mas a moça insistiu e o Careca todos os dias lhe ia levar o ramalhete. Passaram-se tempos e houve aí no reino umas grandes cavalhadas. O Careca, sabendo delas, e indo todos e ele não, disse ao jardineiro que queria ir à casa do ferreiro para mandar fazer uma faquinha.

O jardineiro consentiu. Depois que todos saíram, o Careca também saiu e foi ter à pedra e contou aos cavalos o que havia. Saiu o cavalo castanho todo arreado, o moço aprontou-se, tomou uma lança, soltou os cabelos e apresentou-se nas cavalhadas. Fez a corrida, tirou a argolinha e ofereceu à filha mais moça do rei. Ela lhe deu uma fita verde, que ele amarrou na lança. Todos ficaram admirados daquele lindíssimo moço, mas não sabiam quem era ele.

O rapaz saiu a toda a pressa e ninguém mais o viu. Quando o rei e as princesas chegaram em casa, já lá se achava o Careca na sua roupa de costume. O jardineiro contou-lhe então tudo, falou na boniteza das cavalhadas e no moço de cabelo dourado que tinha aparecido e que ninguém sabia quem era; mas que, se no dia seguinte ele voltasse, seria preso, porque o rei ia mandar colocar tropa para o prender, quando ele quisesse voltar e desaparecer.

No dia seguinte pela manhã foi o Careca levar suas flores à princesa caçula e ela estava doentia de paixão, tendo umas desconfianças que ele fosse o mesmo moço que apareceu nas cavalhadas. À tarde houve novas cavalhadas, e o Careca disse ao jardineiro que ia de novo ver a faquinha, porque o ferreiro não tinha ainda lhe dado, distraído com as festas. Largou-se para a pedra e fez aparecer o cavalo branco e arreios ainda mais ricos do que os primeiros; soltou a cabeleira, aprontou-se e partiu para as cavalhadas.

Havia mais povo ainda do que nas primeiras e lá estava a tropa para prendê-lo quando ele quisesse voltar. Ainda mais espantados ficaram do que na primeira vez. Quando deu-se o sinal para a corrida, o moço partiu, tirou a argolinha e deu à princesa mais moça. Ela lhe deu uma fita encarnada, que ele amarrou na lança e partiu a galope. A tropa cercou-o, mas ele saltou por cima e foi-se. Quando todos chegaram ao palácio, já o Careca lá estava na forma de costume.

A princesa mais moça começava a definhar. No dia seguinte tornou a pilhar o Careca debaixo de um caramanchão mirando os próprios cabelos, que eram dourados e compridos. Ficou a princesa mais alegre e teve certeza de que aquele era o mesmo moço das cavalhadas. Na tarde deste dia houve outra cavalhada, que era a terceira e última. Todos foram e o Careca tornou a sair, desculpando-se com a faquinha. Foi à pedra e fez aparecer o cavalo preto e arreios lindíssimos.

Partiu e, chegando ao ponto das cavalhadas, encontrou muito reforço de tropas para o prender. Não teve medo. Na hora da corrida avançou, tirou a argolinha e ofereceu à princesa da sua escolha e partiu a galope. Fecharam quadrado para o prender, mas o cavalo voou por cima e perdeu-se na corrida, que ninguém mais o viu. Quando o rei chegou ao palácio, já estava lá o Careca muito a seu gosto.

Nunca ninguém desconfiou que o Careca era o moço rico das corridas, senão a princesa mais moça.

Ora, aí nesse reino costumava de tempos a tempos aparecer uma fera que tudo devastava, comia muita gente e ninguém podia dar cabo dela. O rei tinha dito que quem matasse a fera havia de casar com a princesa mais velha. Ninguém se atrevia. O Careca, sabendo disso, foi ter à pedra e contou aos cavalos. Saiu o cavalo preto e disse-lhe que se montasse nele, amarrasse-lhe no peito um grande espelho e avançasse contra a fera, porque esta, vendo o seu retrato no espelho, havia de supor que era outra fera, ficaria atrapalhada e o moço a poderia então matar.

Assim fez o rapaz. Matou a fera, e cortou-lhe as sete pontas das sete línguas. Ninguém viu isto.

No dia seguinte apareceu a fera morta e botou-se editais para ver quem a tinha morto. Ninguém apareceu, então o rei julgou-se dispensado quanto à sua filha mais velha e decidiu-se a casar todas três quanto antes e no mesmo dia.

Mandou procurar príncipes, mas a caçula declarou que só se casaria com o Careca. O rei ficou muito desgostoso, mas não teve outro remédio. O rei ordenou que queria dar um banquete no dia do casamento, todo de pássaros caçados pelos futuros genros. Todos três saíram a caçar, cada um para seu lado. Nenhum matou nada a não ser o Careca, que foi ter à pedra e os cavalos lhe deram aves a valer.

Um dos noivos o encontrou, e sem o conhecer pediu que lhas vendesse. O Careca consentiu com a condição de lhe passar ele uma declaração em como lhes havia comprado. O príncipe aceitou e passou a declaração. O Careca guardou. Afinal chegou o dia do casamento. Todos se apresentaram muito bem prontos e o Careca humildemente vestido.

No jantar houve muita alegria, mas o Careca lá estava para um canto. No fim de tudo o rei disse que antes de todos se despedirem, queria que cada um dos genros contasse uma história.

O marido da princesa mais velha levantou-se e disse: "O que tenho a contar é que quem matou aquele bicho, que a todos fazia medo, fui eu, e não disse há mais tempo porque queria me casar com a princesa por escolha natural e não porque tivesse a promessa do casamento por matar a fera". E mostrou os cotocos das línguas. Levantou-se o marido da segunda princesa e disse: "Eu o que tenho a dizer é que quem caçou todos estes pássaros para esta festa fui eu."

Então levantou-se também o Careca e disse: "A minha história é que os dois genros do rei mentiram. Quem matou a fera fui eu, e aqui está a prova. Estas é que são as pontas das línguas e aqueles são os cotocos das línguas. Quem fez a caçada fui eu, e a prova é esta declaração que aqui tenho e que podem ler. Além disto, o moço que embasbacou a todos nas corridas fui eu, e a prova são as fitas que aqui tenho".

Aí ele tirou a bexiga da cabeça e todos o reconheceram. Ficaram os dois príncipes muito envergonhados, e a princesa mais moça quase doida de contentamento.

Fonte:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. RJ: José Olímpio, 1954,

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Varal de Trovas n. 233


Luís da Câmara Cascudo (O Filho da Burra)


Um casal teve um filho tão grande que era uma coisa por demais. Meses depois o homem e a mulher morriam e a criança foi criada por uma burra. O menino formou, botou corpo, e só o chamavam Filho da Burra.

Já grande, Filho da Burra foi ganhar a vida e empregou-se num reinado onde mandou fazer uma bengala de ferro. O ferreiro fez uma bengala da grossura de um braço e Filho da Burra quando experimentou dobrou o ferro como se fosse um fio de arame. Mandou fazer outra, mais grossa, que ficou do seu gosto.

Como o seu patrão não o podia sustentar, porque ele comia dois bois por dia e quatro sacas de farinha, o rapaz largou o emprego e saiu pelo mundo. Encontrou um homem arrancando pé de pau com raízes e tudo e rolando para um lado.

— Como você se chama?

— Me chamo Rola-Pau!

— Vamos ganhar a  vida juntos?

— Vamos!

Saíram os dois e lá adiante viram outro camarada que empurrava as pedras como se fosse brinquedo, tirando todas do lugar.

— Como se chama você?

— Me chamo Rola-Pedra.

— Vamos ganhar a vida juntos?

— Vamos!

Foram os três andando até que pararam numa campina bonita e aí ficaram. Fizeram uma casinha de palha e todo dia, dois iam caçar e um ficava para fazer a comida num tacho bem grande. Ficou Rola-Pau e os companheiros foram para os matos.

Quando o almoço ia ficando pronto apareceu um bicho enorme roncando e pedindo tudo de comer.

— Ou como o almoço ou como você!

Rola-Pau trepou-se na alto da casinha, com um medo doido e o bichão devorou o almoço todo. Quando Filho da Burra e Rola-Pedra voltaram e não viram a comida, ficaram para morrer de raiva. Ficou então Rola-Pedra e, nas horas costumeiras, o bicho chegou e Rola-Pedra botou-se a ele brigando. Brigaram muito tempo e Rola-Pedra vendo que morria, largou e deu uma carreira de levantar poeira. Filho da Burra, quando chegou e não teve almoço, teve uma raiva danada.

No terceiro dia ficou ele preparando a comida. O bicho apareceu com a mesma conversa. Filho da Burra largou-lhe uma bengalada com a bengala de ferro que pegou bem no focinho do bicho e este não quis mais peleja. Ganhou os matos e Filho da Burra foi atrás, pega aqui, pega acolá, até que o bicho pulou num buraco e sumiu-se de terra a dentro. Filho da Burra marcou bem o canto e voltou para a casinha.

No outro dia veio com os dois companheiros e trouxeram o tacho amarrado numas cordas compridas. Filho da Burra meteu-se no tacho e os dois arriaram até embaixo. Lá no fundo da terra era espaçoso e tinha casas. Na primeira casa que Filho da Burra bateu apareceu uma moça bonita e disse que, pelo amor de Deus, ele fosse embora porque ali vivia uma serpente que matava toda a gente. O rapaz respondeu que viera para lutar com a serpente e matá-la. A moça explicou:

— Não pode ser. Quando ela cansa de brigar e cai para uma banda, pede pão e vinho. Come e bebe e fica de novo forte, vencendo todo o mundo.

— Pois a senhora, se quiser ficar livre, em vez de dar o vinho e o pão à serpente, dê a mim!

A moça prometeu. A serpente foi chegando, quebrando árvores e fazendo um barulho de ventania. O rapaz escondeu-se detrás da porta. A serpente foi entrando e fungando:

— Aqui me cheira a sangue real! Aqui me cheira a sangue real!

A moça dizia que não havia ninguém, mas a serpente tanto procurou que viu Filho da Burra e voou em cima dele para matá-lo. Filho da Burra passou-lhe a bengala de ferro que saía fumaça. Foi uma briga que não tinha fim, até que caíram, um para cada lado, sem forças. A moça, mais que depressa, trouxe pão e vinho que a serpente estava pedindo, e deu ao rapaz que comeu e bebeu, tornando a ficar forte. Levantou-se e sentou a bengala na cabeça da serpente esbandalhando-a. A moça ficou satisfeita e disse que tinha mais duas irmãs encantadas, morando em duas casas adiante.

Filho da Burra foi para a segunda e lá a moça contou a mesma coisa. O rapaz fez a mesma proposta de comer o pão e beber o vinho e a moça aceitou. Escondeu-se e esperou o bicho-feroz que chegou como um pé-de-vento, derrubando tudo:

— Aqui me cheira a sangue real! Aqui me cheira a sangue real!

A moça negou, negou, mas o bicho caçou o rapaz e o encontrou, botando-se a ele e brigando com vontade. O bicho era terrível, mas a bengala de ferro não fazia graça e os dois inimigos terminaram sem força para acabar o combate, caindo no chão os dois. O bicho pediu o vinho e o pão, e a moça foi buscar mas entregou ao rapaz que esmagou a cabeça do monstro.

Passou para a terceira casa e lá era um macacão que morava com a pobre moça. Aconteceu o mesmo. O macacão quando chegou farejando:

— Aqui me cheira a sangue real! Aqui me cheira a sangue real!

Foi procurando e achou o rapaz, partindo para cima dele. Filho da Burra fincou-lhe a bengala com vontade. Briga lá e briga cá, até que uma bengalada raspou a cabeça do macacão e uma orelha caiu no chão. Filho da Burra agarrou a orelha e meteu-a no bolso porque o macacão sumiu-se, correndo como um condenado.

O rapaz juntou as três moças e os tesouros que elas tinham e foi para onde estava o tacho. Balançou na corda e o tacho foi puxado por Rola-Pau e Rola-Pedra, cheio de dinheiro. Depois subiram as três moças e o tacho desceu. Imaginando que os dois camaradas tivessem tramando a morte dele para ficar com as moças e o tesouro, Filho da Burra botou uma pedra bem grande no tacho e balançou a corda. Subiram o tacho até quase em cima e depois cortaram as cordas, despencando tudo para baixo.

Rola-Pau e Rola-Pedra já tinham escolhido as duas moças para noivas e acharam que deviam deixar Filho da Burra no buraco para gozarem a riqueza que tinham ganho. Foram para o reinado do pai das três moças.

Ficando lá embaixo, Filho da Burra estava meio triste quando apareceu o diabo, que era o macacão, gritando e saltando:

— Filho da Burra, me dá minha orelha!

— Não dou.

— Filho da Burra, me dá minha orelha que eu te tiro daqui!

— Tire primeiro.

O diabo virou-se numa árvore e o rapaz subiu por ela até fora do buraco. Quando ficou livre, voltou o diabo pedindo a orelha.

— Só dou a orelha se você me levar para o reinado!

— Levo. Vou me virar num cavalo e você monte, feche os olhos e só abra quando eu parar!

Virou-se num cavalo, selado, e Filho da Burra montou, fechou os olhos. Quando o cavalo parou, ele abriu e estava no reinado do pai das moças.

Rola-Pau e Rola-Pedra, numa carruagem, tinham ido casar na igreja. No palácio só ficara o rei e a princesa mais moça. Filho da Burra, quando o diabo tornou a pedir a orelha, disse que queria se encontrar dentro do palácio real:

— Feche os olhos!

Ele fechou e quando abriu, estava no salão do rei.

Chamou o rei e contou toda a sua história. O rei não queria acreditar na malvadeza dos futuros genros. O rapaz tirou do bolso um lenço e mostrou a ponta da língua da serpente que vivia com a princesa mais velha, a orelha da fera que estava com a do meio e a orelha do macacão que prendera a caçula. O rei chamou a princesa e esta confirmou tudo. Mandaram buscar Rola-Pau e Rola-Pedra que voltaram com os convidados. Quando foram vendo Filho da Burra no salão, correram para a janela e saltaram do sobrado abaixo, quebrando a cabeça nas pedras do calçamento, morrendo imediatamente. Filho da Burra casou com a princesa mais moça e viveu muito feliz. E a orelha do macacão? O diabo recebeu e voltou para os infernos.

Fonte:
Luís da Câmara Cascudo. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1986.

Concurso Internacional de Trovas Clássicas – OMT Canadá (Resultado Final)


TEMA: SAUDADE

VETERANOS
 

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VENCEDORES
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1º Lugar

Age a vida com tal arte,
que mesmo ao ferir consola...
um grande amor quando parte,
deixa a saudade de esmola!
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
- - - - - –

2º Lugar

Saudade, pedra malvada,
que a vida, por tirania,
colocou na minha estrada,
e eu tropeço todo dia!
JOSÉ ALMIR LOURES 
Astolfo Dutra/MG
- - - - - –

3º Lugar

Esta saudade que é tua,
traz à minha alma o desgosto
de uma ausência que insinua
ruga precoce em meu rosto...
ELIAS PESCADOR
São Paulo - SP
- - - - - –

4º Lugar

Trovador,  nobre  arquiteto,
das  palavras  e  emoções,
torna  a  saudade  um  afeto,
traça  amores  e  paixões!
MARIA APARECIDA FERREIRA DE VASCONCELOS
Santos/SP
- - - - - –

5º Lugar

Na pira do amor ausente...
Saudade...É brasa escondida
ardendo dentro da gente,
quanto mais, se vive a vida!
ANA MARIA GUERRIZE GOUVEIA
Santos/SP

- - - - - - 
MENÇÃO HONROSA
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1º Lugar

Das coisas de minha terra
saudade... tenho de tudo:
campinas, vales, a serra
e do trem que ficou mudo.
LUIZ VIEIRA
Irati/PR
- - - - - –

2º Lugar

Mal me lembro - era criança -
da sua imagem trigueira...
Mãe! Só tenho essa lembrança,
mas saudade a vida inteira.
ARI SANTOS DE CAMPOS
Balneário Camboriú/SC
- - - - - –

3º Lugar

Em visitas tão constantes,
e, sem pensar nos meus ais ,
a Saudade traz-me instantes
que me doem muito mais.
MARIALICE  ARAÚJO  VELLOSO
São  Gonçalo/RJ
- - - - - –

4º Lugar

A saudade, qual ladrão,
na surdina um dano faz
invadindo o coração
e furtando a minha paz.
EDWEINE LOUREIRO DA SILVA
Saitama/Japão
- - - - - -

5º Lugar

Quanto maior a demora
mais doída é a saudade.
O tique-taque de uma hora
parece uma eternidade.
ANTÔNIO FRANCISCO PEREIRA
Belo Horizonte/MG

- - - - - - 
MENÇÃO ESPECIAL
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1º Lugar

Saudade, angústia crescente
de uma soma sem parcela,
onde quem conta é quem sente
a tristeza que tem nela.
MARIA DULCE DE LIMA PESSOA
Tabira/PE
- - - - - -

2º Lugar

Culpo a vida, em sua andança,
por mudar meu rumo, assim...
Deu fim  à  alegre criança
_  Ah ! Que saudade de mim!
ALBA HELENA CORRÊA
Niterói/RJ
- - - - - - 

3º Lugar

Saudade por tradição
amiga da tua ausência,
escolheu meu coração
como nova residência!
HENRIQUE EDUARDO ALVES PEREIRA
Ocara/CE
- - - - - -

4º Lugar

Singrando os mares da vida
dos tempos da mocidade,
volto ao ponto de partida...
o meu "Porto da Saudade."
CATERINA BALSANO GAIOSKI
Irati/PR
- - - - - -

5º Lugar

Saudade nunca entusiasma
e corre sem fazer plano;
lembra mais um trem fantasma,
que atropela o ser humano!
MARCIANO BATISTA DE MEDEIROS
Parnamirim/RN

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NOVOS TROVADORES
 - - - - - -

1º Lugar

A tal da felicidade
passou depressa por mim,
hoje vivo com saudade
de um amor que não tem fim.
SUELY RIBELLA
Santos/SP
- - - - - –

2º Lugar

A saudade quando afaga
também deixa cicatriz
do formato de uma adaga
no peito de um infeliz.
ADILSON COSTA
São Lourenço da Mata/PE
- - - - - -

3º Lugar

Queria estar do seu lado;
queria amor de verdade...
Súplicas de ser amado
sempre acabam em saudade.
EZEQUIEL ALCÂNTARA SOARES
São Gonçalo/RJ

4º Lugar

Saúdo minha saudade,
risos: noites em amor...
Tardes e manhãs: deidade.
Lembro do teu bom humor!
ADRIANO DE ALVARENGA AZEVEDO
Rio de Janeiro/ RJ
- - - - - -

5º Lugar

Ramando-se de saudade,
meu coração floresceu,
por semente da amizade,
de quem amor só me deu.
WILDMAN DOS SANTOS CESTARI
Ilhabela/SP


Brusque, 07 de abril de 2020
Maria Luiza Walendowsky
Coordenadora – UBT/OMT

Agatha Christie (Resenha de Livros) 7


A MÃO MISTERIOSA
The Moving Finger

Lymstock é uma cidadezinha tranqüila do interior da Inglaterra. A rotina de seus moradores é calma e, aparentemente, todos estão felizes… até que provocadoras cartas anônimas começam a espalhar a calúnia e o desespero. Ninguém sabe de quem é a mão misteriosa que, dissimulada, semeia conflito, escândalo e até assassinatos. Em meio ao caos que se instalou em Lymstock, a simpática Miss Marple é a única que consegue manter a frieza para investigar o estranho caso.
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OS CINCO PORQUINHOS
Five Little Pigs


Amyas Crale era famoso por sua paixão pela pintura e pelas mulheres. Dezesseis anos atrás ele foi assassinado. Sua esposa foi julgada e condenada como sendo a autora do crime, não sendo enforcada porque havia circunstâncias atenuantes. Contudo, a pena foi comutada em trabalhos forçados para o resto da vida, o que não chegou a acontecer, pois faleceu um anos após o julgamento. Agora a filha do casal, Carla, convencida da inocência de sua mãe, propôs a Hercule Poirot um grande desafio: limpar o nome de sua mãe retornando à cena do crime e encontrando a falha de um crime aparentemente perfeito.

Em “Os cinco porquinhos”, o detetive Hercule Poirot precisa voltar ao passado para provar que a bela Mrs. Crale, condenada pela morte do marido há 16 anos atrás, era inocente, mesmo com todos as provas de culpa e descobrir a identidade do cruel envenenador do famoso pintor Charles Crale, que pode ser qual quer uma das 5 pessoas que estavam naquela casa no dia 18 de setembro.

Amyas Craile foi morto há dezesseis anos atrás e sua mulher foi condenada e morreu na prisão. Antes de falecer deixa uma carta para a sua filha Caroline de 5 anos jurando inocência. Caroline sabe que só o melhor detetive do mundo pode resolver este caso a procura do verdadeiro assassino. Hercule Poirot aceita a missão e se lembra de uma antiga canção de ninar. Leia este livro e descubra quem realmente matou Amyas Craile.
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HORA ZERO
Towards Zero

A aristocrata Lady Tressilan é brutalmente assassinada em sua casa. Pouco tempo depois, Mr. Trevis, um experiente advogado criminalista de 80 anos, também é morto quando estava prestes a revelar uma pista sobre o crime. O superintendente Battle, da Scotland Yard, entra em ação e descobre que está diante de um perverso assassino. Seguindo cinco pistas aparentemente desconexas, o superintendente Battle inicia uma perigosa investigação para descobrir a identidade do criminoso.
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E NO FINAL A MORTE
Death Comes as the End


Renisenb decide retornar à casa de seu pai no vale do Nilo buscando por paz após a morte de seu marido. Mas debaixo da superfície aparentemente calma de sua próspera família se esconde a ganância, a luxúria e o ódio. E com a chegada da arrogante Nofret as paixões desta família se extravasam em homicídio.
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UM BRINDE DE CIANURETO
Sparkling Cyanide


Duas mortes acontecem no mesmo lugar, duas vezes com a presença das mesmas pessoas - exceto a primeira vítima, até certo ponto… -, constituindo praticamente a mesma situação. Assim é o contexto deste romance que desafia a sagacidade dos investigadores profissionais e a inteligência do leitor, porque todos tinham motivos para matar, mas, nos dois casos, ninguém teria aparentemente condições de colocar cianureto na taça de champanhe. Seria possível que a bela e sensual Rosemary se suicidara durante o jantar naquele luxuoso restaurante, quando comemorava o aniversário com os amigos mais íntimos? Alertado por pessoas desconhecidas, seu apaixonado e enganado marido fez repetir, exatamente um ano depois, a fatídica reunião, e deixou diante da mesa uma cadeira vazia, para nela se sentar o espírito de Rosemary, e descobrir-se a autoria do envenenamento. Não suspeitava o infeliz que isso chamaria as forças do mal, e o cianureto voltou à misturar-se na espumosa champanhe.
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A MANSÃO HOLLOW
The Hollow


Numa magnífica casa solar de províncias, propriedade de um abastado aristocrata, reúne-se um grupo de pessoas da melhor sociedade inglesa, para passar um agradável final de semana. Porém, entre a “gente fina”, há quem faça coisas más e que, com muitas boas maneiras, pode cometer os piores assassinatos. Isto é o que acontece na mansão de sir Enrique Angkatell: um assassino oculta-se entre seus elegantes convidados e um deles é a sua vítima. Felizmente, também lá se encontra um homenzinho pequeno, de grandes bigodes e com um cérebro privilegiado: Trata-se do famoso detetive Hercule Poirot, que descobre o culpado e impede, na última hora, que este cometa um segundo assassinato.
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OS TRABALHOS DE HÉRCULES
The Labours of Hercules


Prestes a se aposentar, o genial detetive Hercule Poirot decide aceitar 12 casos, selecionados de modo a lembrar os 12 trabalhos de Hércules, o célebre herói grego. A semelhança entre os dois? Apenas a origem do nome de batismo. Mas, quando o pequeno e elegante Poirot percebe que suas “pequenas células cinzentas” estão sendo desafiadas, ele ganha a força do semideus. De “O Leão da Neméia” até “As Profundezas do Inferno”, o leitor vai se divertir e se surpreender com as peripécias do meticuloso belga, umas das mais famosas criações de Agatha Christie.
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SEGUINDO A CORRENTEZA
Taken At The Flood

No outono de 1944, Gordon Cloade, dono de uma vasta fortuna, morre durante um bombardeio aéreo a Londres. Sem ter deixado testamento, tudo o que tinha passa para a sua jovem mulher Rosaleen. No entanto, outras cinco pessoas precisam desesperadamente do dinheiro do Sr. Cloade. Um violento assassinato é cometido, mas a vítima não é a viúva. Contratado para desvendar o crime, entra em ação o pequenino detetive Hercule Poirot. O que ele não desconfia é de que está prestes a se envolver em uma série de mortes. Seguindo a Correnteza é mais uma misteriosa trama bolada pela genial Agatha Christie.
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A CASA TORTA
Crooked House


Num conhecido subúrbio de Londres, ergue-se uma casa torta, desproporcional e grotesca. Sobre a extravagante família que a habita, parece haver desabado uma maldição: a culpa do envenenamento de seu chefe, o milionário Aristide Leonides. Qual dos parentes o teria assassinado? A própria mulher? Um dos seus filhos? Seus netos? Todos se entreolham desconfiados, enquanto aguardam que o criminoso, um monstro de “alma torta”, volte a se manifestar naquela casa torta… Com estes ingredientes de mistério e uma galeria de personagens inquietantes, Agatha Christie constrói outra de suas histórias marcadas pelo encantamento e o mistério.

Fonte:
http://users.hotlink.com.br/pmgi/agatha/index.html

terça-feira, 7 de abril de 2020

Varal de Trovas n. 232


Francisca Júlia (O Monge)


Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.

Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.

Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.

Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.

— Monge, – disse um deles - perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.

— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.

Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:

— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas, mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.

— Nada há, de fato, pobres viajantes, mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites.

Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade, e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:

— Tomai! Cumpriu-se a divina vontade.

Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico, mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.

E um deles falou:

— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?

— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabeis que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.

Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.

Fonte:
Poeteiro Iba Mendes

Casimiro de Abreu (Baú de Trovas)

Barra de São João, hoje Casimiro de Abreu

A borboleta travessa
vive de sol e de flores...
— Eu quero o sol de teus olhos,
o néctar dos teus amores!
- - - - - –

A vida é triste — quem nega?
— Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
qual um fio de cabelo!
- - - - - –

Como a ave dos palmares,
fugindo do caçador,
eu vivo longe do ninho,
sem carinho e sem amor!
- - - - - –

Conchinha das lisas praias,
nasceste em alvas areias;
não corras tu para os charcos,
arrebatada nas cheias...
- - - - - –

Nas horas mortas da noite,
como é doce o meditar,
quando as estrelas cintilam
nas ondas quietas do mar!
- - - - - –

Ri, criança, a vida é curta,
o sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
mostra a cova ao viandante.
- - - - - –

Tem tantas belezas, tantas,
a minha terra natal,
que nem as sonha um poeta
e nem as canta um mortal!
- - - - - –

Todos cantam sua terra,
também vou cantar a minha;
nas débeis cordas da lira
hei de faze-la rainha.
- - - - - –

Tudo se gasta e se afeia,
tudo desmaia e se apaga,
como um nome sobre a areia,
quando cresce e corre a vaga.
- - - - - –

Um anjo veio e deu vida
ao peito de amores nu:
Minha alma agora remida,
adora o anjo — que és tu!

Fonte:
Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva,

Contos e Lendas do Mundo (China: A Mulher Repetida)

por Chen Xuanyu

Esse fato aconteceu no início do reino da Imperatriz Wu, numa cidade de Hunan, onde vivia um funcionário público chamado Zhang Yi. Ele era um homem simples e reservado, de poucos amigos. Ele não tinha tido filhos homens, apenas duas filhas, mas a mais velha tinha morrido quando ainda criança. A mais nova, Qian Niang, era muito bonita.

Zhang Yi tinha um sobrinho, Wang Chu, quase da idade de sua filha, inteligente e também muito bonito. Zhang Yi gostava de falar que esse sobrinho teria um futuro muito brilhante e brincava, dizendo: “no tempo certo, minha filha vai ser uma esposa ideal para ele”.

Nos seus sonhos secretos, Wang Cu e Qian Niang sonhavam com frequência um com o outro. Mas suas famílias ignoravam tudo, e quando, mais tarde, apareceu um rapaz muito distinto, que trabalhava para Zhang Yi e lhe pediu a mão de sua filha, seu pai concordou.

Essa notícia partiu o coração de Qian Niang e Wang Chu ficou muito decepcionado. Ele então disse que gostaria de se mudar do lugar onde trabalhava e aceitou um cargo na capital. Nada conseguiu fazer com que ele mudasse de opinião e foi autorizado então a partir, não sem antes receber muitos presentes.

Depois do último adeus, com o coração mortificado, Wang Chu pegou o barco que ia para a capital. No fim da tarde, o barco já tinha avançado no rio muitos quilômetros, entre colinas muito verdes. Caiu a noite. Wang Chu não conseguia dormir. De repente, ouviu passos na margem. Pouco depois, os passos pararam diante do seu barco. Wang Chu, perplexo, reconheceu Qian Niang, de pés descalços.

Cheio de alegria, ele a tomou nos braços e perguntou de onde ela vinha. Ela respondeu, entre lágrimas:

— A força do teu amor nos uniu em sonho. Agora, contra minha vontade, querem me obrigar a casar com outra pessoa. Eu sei que vais me amar para sempre e eu prefiro morrer que viver sem ti. Por isso eu fugi.

Wang Chu ficou zonzo ao ouvir essas palavras. Jamais ele podia esperar tanto. Ele escondeu Qian Niang dentro do barco e eles partiram juntos, numa longa viagem, dia e noite. Alguns meses mais tardes eles se estabeleceram em Sichuan, bem longe de sua região natal.

Cinco anos depois, Qian Niang teve dois filhos. Ela nunca mais tinha escrito para seus pais, mas pensava sempre neles. Um dia, chorando, ela disse a Wang Chu:

— Para te seguir, um dia, eu faltei ao meu dever filial. Já se passaram cinco anos que não vejo meus pais. Sinto falta do carinho deles e o céu nunca vai me perdoar por viver longe deles.

Emocionado com sua tristeza, Wang Chu respondeu:

— Vamos então voltar para o nosso lugar. Sofrer assim não tem sentido. Eles voltaram então à sua cidade natal. Na chegada, Wang Chu foi sozinho bater na porta de Zhang Yi para lhe contar tudo o que tinha acontecido. Mas Zhang Yi gritou:

— O que está me contando? Minha filha está no quarto, de cama, muito doente, faz anos.

— Mas ela está no meu barco, nesse momento mesmo! disse Wang Chu.

Um pouco perturbado, Zhang Yi enviou um empregar verificar o que estava acontecendo.

De fato, Qian Niang esta lá, radiante e viva, impaciente para rever seus pais.

— Como vai meu pai e minha mãe? — perguntou.

O criado, sem fala, correu para contar a ZhangYi o que acabava de ver.

Logo a jovem doente soube da notícia na sua cama, levantou-se, vestiu suas roupas mais bonitas, seus enfeites e passou pó no rosto. Depois disso, sorrindo e muda, ele desceu para receber a recém-chegada.

As duas avançaram, uma na direção da outra, e logo que se encontraram, seus dois corpos se fundiram em um só, de forma perfeita. No entanto, esse corpo único vestia um conjunto duplo de roupas.

A família preferiu guardar segredo sobre o acontecido. Apenas as pessoas mais próximas ficaram sabendo. Os jovens esposos viveram ainda quarenta anos e seus dois filhos tornaram-se altos dignatários no reino.

Muitas vezes eu ouvi essa história quando era jovem. Há muitas versões e muitos acreditam que isso não aconteceu realmente. De minha parte, mais de 80 anos depois desses fatos, encontrei por acaso o juiz de Lai Wu, cujo pai era primo de Zhang Yi, e é o que ele me contou, de forma detalhada, que reconto aqui.

Fonte:
Sérgio Capparelli

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Varal de Trovas n. 231


Contos e Lendas do Mundo (Brasil [Espírito Santo]: O Compadre Invejoso)


Era uma vez dois compadres: um era rico e morava num grande palácio, e o outro era pobre e morava por perto, numa choupana. O compadre rico era muito avarento e não ajudava nada ao compadre pobre, o qual, muitos vezes, não tinha nem o que comer.

Um dia o compadre pobre foi até o alto de um morro, onde havia um pé de coco. Quando pelejava para derrubar um coco, este caiu e rolou morro abaixo, indo parar dentro da casa de um velhinho que morava por ali. O pobre homem desceu o morro e bateu à porta da casa pedindo licença ao velhinho para apanhar o coco e dizendo-lhe que era para alimentar seus filhos, que deixara chorando de fome.

O velhinho disse ao compadre pobre que podia pegar o coco, mas perguntou-lhe se não o queria trocar por três abóboras. O pobre aceitou a proposta e o velhinho então, disse-lhe que fosse à horta e apanhasse aquelas abóboras que lhe dissessem: "Me tira! Me tira!"

Assim fez o pobre homem, mas antes de ir embora foi agradecer ao velhinho, o qual falou: "Quando o senhor chegar com as abóboras no princípio do morro, jogue uma delas ao chão. Quando chegar lá em cima, jogue outra, e quando chegar em casa, jogue a terceira que não se arrependerá."

Quando o compadre pobre ia começar a subir o morro jogou a primeira abóbora ao chão, como o velhinho lhe dissera. Apareceu então um belo cavalo, todo arreado, no qual ele montou e prosseguiu caminho. Ao chegar lá em cima do morro, jogou a segunda abóbora ao chão, e apareceu-lhe uma vaca acompanhada de um bezerrinho, que ele tocou para casa. Ali chegando, jogou a última abóbora. Apareceu-lhe um montão de dinheiro, tão grande que levou dias apanhando-o com a mulher e os filhos e levando-o para dentro de casa.

Com o dinheiro que ganhou, o homem mandou fazer uma bela casa e melhorou tanto sua pequena propriedade que ela parecia até um jardim. Daí por diante passou a viver como homem rico que era, e muito feliz com sua família.

Um dia o compadre rico passou por ali e viu aquilo tudo tão mudado, que se admirou, não resistindo a uma visita a seu compadre, ao qual perguntou como conseguira tal riqueza. O compadre que era pobre contou todo o caso para o outro, sem esconder nada. O rico foi embora, picado de tanta inveja e resolvido a ganhar também uma riqueza de maneira tão fácil.

Assim foi que se encaminhou para o mesmo coqueiro no alto do morro e deixou cair um coco, que rolou direito à casa do velhinho. O homem rico desceu o morro e foi ter com o velho, dizendo-lhe que era muito pobre e que aquele coco que ali caíra ia servir para alimentar os seus filhos. Como o velhinho sabia de tudo, disse ao homem invejoso que se ele quisesse trocaria o coco por três abóboras. Mais do que depressa o rico concordou. Então o velhinho explicou que fosse à horta e apanhasse as três abóboras que falassem: "Me tira! Me tira!"

O compadre rico apanhou as abóboras maiores que ele viu na horta e foi embora sem nem sequer agradecer ao velhinho. Quando começou a subir o morro jogou uma abóbora no chão. No mesmo instante, apareceu um bando de marimbondos que deu em cima dele, picando-o todinho. O homem subiu o morro correndo e lá em cima tratou de jogar outra abóbora fora; apareceu-lhe, então, uma bruta onça, a qual saiu correndo atrás do homem, quase o pegando.

Quando o compadre invejoso chegou à sua casa com a última abóbora em baixo do braço, fugindo da onça, abriu e fechou depressa a porta. Jogou a abóbora no chão, chamou a família toda e mandou que fechassem bem a casa. Assim fizeram. Foi aí que apareceram cobras por todos os lados, mordendo e matando todas as pessoas da casa. Quem mandou o homem ser tão invejoso?

Fonte:
Estórias e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro 6.

Vinicius de Moraes (Antologia Poética) III


ÁRIA PARA ASSOVIO

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
- - - - - –

SONETO DE DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
- - - - - -

SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
- - - - - –

SONETO À LUA

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
- - - - - -

SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
- - - - - –

SONETO DE OXFORD
Oh, partir pela noite enluarada
No puro anseio de chegar lá onde
A minha doce e fugitiva amada
Na madrugada, trêmula, se esconde...

Oh, sentir palpitar em cada fronte
O amor, oculto; e ouvir a voz velada
Da última estrela que do céu responde
Numa cintilação inesperada...

Oh, cruzar solidões, viver soturnas
Magias, e entre lágrimas noturnas
Ver o tempo passar, hora por hora

Para o instante em que, isenta de desejo
Ela despertará sob o meu beijo
Enquanto a treva se desfaz lá fora...
- - - - - -

SONETO DO MAIOR AMOR

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
- - - - - –

QUATRO SONETOS DE MEDITAÇÃO

I
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.

II
Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

III
O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.

E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.

O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo

Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós...
Porém o vale há de escutar a voz.

IV
Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como imãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Fonte:
Vinicius de Moraes. Livro de Sonetos.

Malba Tahan (O Lao-Yê e a Flor)


Levanta-te, mulher! Levanta-te!
— És a fonte dos jardins, poço vivo das águas que correm do Líbano!
Salomão, Cantares, 4,15.


Recordo-me, e com muita saudade, da última visita que fiz a Damasco. Corria o ano de 1912 e o verão mostrava-se implacável. O meu companheiro de jornada, nesse tempo, era um jovem sírio chamado Omar Rabih, que eu conhecera dois anos antes em Palmira, durante o conflito com os agitadores franceses.

Certa manhã, muito cedo, deixamos a Praça do Serralho, subimos, a seguir, a tortuosa Sandja Kdar, cruzamos o Bazar dos Gregos, e fomos parar junto ao venerável túmulo do sultão Saladino. Era nossa intenção aguardar ali a chegada de dois vendedores de trigo, a fim de concluirmos os últimos detalhes de uma transação de alto interesse para mim, transação que fora iniciada, na véspera, por uma habilidosa proposta de Omar Rabih.

Esperamos, com paciência, cerca de meia hora. E os homens do trigo não apareciam.

— E os teus amigos virão? — indaguei, já preocupado com a demora injustificável dos mercadores.

— Não tenho a menor dúvida — tranquilizou Omar, falando com a maior serenidade. — O negócio ficou ontem bem assentado e deve interessar aos homens de Haourã. Não creio que eles se aventurem a quebrar o compromisso.

Mas o fato é que os mercadores tardavam. O tempo passava, arrastando a sua interminável caravana das horas perdidas. A larga praça que se abria em frente à Mesquita dos Omníadas (Alá que a nobilize cada vez mais!) ia, pouco a pouco, enchendo-se de forasteiros vindos de todos os recantos da Síria. Beduínos maltrapilhos, vendedores de refresco e caravaneiros de folga gritavam, discutiam e praguejavam sem cessar. Drusos arrogantes, com seus imensos turbantes brancos de musselina, cruzavam lentamente junto à fonte das abluções, dardejando para a direita e para a esquerda olhares cheios de rancor e de ameaças.

De súbito, com surpresa, avistei um chinês de semblante mole com um grande casaco amarelo, que descia de Bibars. Não me contive:

— Que maravilha! Um chinês em Damasco!

— Conheço-o de vista — informou, pressuroso, meu amigo Omar. — É um velho e piedoso islamita, da China muçulmana, que foi à Meca com os peregrinos damascenos. É homem culto, chefe de numerosa família e muito rico.

E acrescentou, com vivacidade:

— Aquele bom mandarim, crente de Alá, trouxe-me agora à lembrança uma lenda chinesa muito curiosa. Queres ouvi-la?

E sem aguardar resposta (que seria certamente afirmativa), o talentoso Omar contou-me o seguinte:

— Em Taiwan, na China, vivia (já lá se vão muitos anos) um velho Lao-Yê dotado de grande sabedoria. Cumpre-me esclarecer que Lao-Yê é a designação dada, na velha China, ao sacerdote que o povo respeita por seu saber e admira por suas virtudes.

Um dia, quando esse Lao-Yê se dirigia para o templo, encontrou uma jovem que se ocupava em enfeitar com flores um ídolo de bronze.

— Que estás fazendo aí, minha filha? — indagou o sábio em tom carinhoso.

— Senhor, — explicou a jovem — para exaltar Deus coloco flores em torno deste ídolo. Deus está no ídolo!

— Minha filha — tornou paciente o bom Lao-Yê —, bem longo é o caminho do erro, e ignorados são, por vezes, os atalhos que nos levam à Verdade. Estás agora, sem querer, com a inexperiência da vida, invertendo o significado das coisas e alterando o sentido oculto dos símbolos. É absurdo enfeitar um ídolo com flores, pois Deus está mais nas flores que no ídolo!

E, depois de proferir tais palavras, partiu o sábio para o templo onde se ocupava em ensinar aos moços piedosos, por meio de parábolas e alegorias, o caminho do eterno bem e da eterna verdade.

Quando o velho e judicioso Lao-Yê, algumas horas depois, voltou para sua rústica morada, passou outra vez pela casa da jovem adoradora de ídolos e encontrou-a ocupada em uma estranha tarefa. No alto de uma coluna havia colocado uma flor e, em volta da flor, procurava enfileirar vários ídolos.

— Estais vendo, mestre? — exclamou, dirigindo-se ao sacerdote. — Aprendi a vossa profunda lição. Reparai: agora são os ídolos que “enfeitam” a flor, pois Deus está mais nas flores que nos ídolos!

— Admiro a tua alma ingênua e simples — replicou o sábio, dobrando sua fronte calva. — Aprende, porém, a verdade: sim, Deus está mais na flor que no ídolo; é preciso, entretanto, observar que Deus está mais na mulher que na flor. Deus, ao criar a mulher, pensou nas flores, e por isso na mulher vamos encontrar delicadeza, bondade e beleza!

E, ao cabo de breve pausa, disse:

— Retira daí essa flor, minha filha. Coloca-a em teus cabelos e deixa os ídolos em paz! Mulher! És a fonte dos jardins, poço das águas que correm pelos campos!

Terminada a narrativa, Omar Rabih cruzou os braços e, fitando-me muito sério, disse, num tom que revelava irritação e mau humor:

— Os mercadores de Haourã não virão ao nosso encontro. Fomos ludibriados. Perdemos o negócio. Não conseguirás o trigo que tanto desejavas.

— Não faz mal — respondi tranquilo, plenamente conformado com a sorte. — Perdi o trigo mas ganhei uma lenda. Maktub! Que importa o trigo? Não é só de pão que vive o homem; vive, também, dos pensamentos felizes!

Muitos anos mais tarde, fui encontrar, entre os inesquecíveis poemas de Gibran Khalil Gibran, esta sentença admirável: “Não é só de pão que vive o homem; vive também das fantasias, dos sonhos e dos pensamentos puros que trazem alento e alegria ao nosso coração.”

Fonte:
Malba Tahan. Novas Lendas Orientais.

domingo, 5 de abril de 2020

Varal de Trovas n. 230


Ruth Guimarães (Os Dois Papudos)


Vivia numa povoação um alegre papudo, estimado de todos, muito folgazão e boêmio. Não o impedia o papo de soltar grandes risadas. Pouco se lhe dava que o achassem feio, ou o chamassem de papudo. A verdade é que o tal papo o incomodava, mas o que não tem remédio remediado está, filosofava ele. E vamos tocar viola, e vamos amanhecer nos fandangos, viva a alegria, minha gente, que se vive uma vez só.

Certo dia, foi ao povoado vizinho, a uma festa de casamento, levando embaixo do braço a inseparável viola. Demorou mais que de costume, bebeu uns tragos a mais, porém não deixou de voltar para casa, pois era tão trabalhador quanto festeiro, e tinha que pegar no serviço no outro dia bem cedo.

Havia luar. Num grande estirão avistava a estrada larga, as touceiras de mato. Passava o gambá por perto dele, e o tatu, roncando, e voava baixo, silenciosamente, a corujinha campeira. O papudo não sentia medo. Andava em paz com Deus e com os homens. Os animais, que adivinham nele um homem de coração compassivo, também não tinham medo dele.

De repente, ao virar numa curva, viu embaixo da figueira brava, ramalhuda, uma roda de anões cantando. Todos com capuzes vermelhos, cachimbo com a brasa luzindo, a barba branca comprida, descendo até a altura do peito.

- O que será aquilo?

Por um instante teve algum temor. Mas era tarde para fugir. Os foliões já o tinham visto. E, se tratava de festa, isto era com ele. Saltou decidido para o meio da roda, empunhando a viola.

- Eu também sei cantar.

Enquanto pinicava as cordas, prestava atenção às palavras dos dançarinos. Eles entoavam:

Segunda, terça
Quarta, quinta...

E tornavam ao começo:

Segunda, terça
Quarta, quinta...

E assim sempre, numa musiquinha muito chata. Acostumado aos desafios, a improvisar, o papudo esperou a sua deixa. Assim que os anões começaram:

Segunda, terça
Quarta, quinta...

Ele emendou:

Sexta, sábado
Domingo também

A roda pegou fogo. Os pequenos duendes barbudos gostaram da novidade. Rodopiavam cantando numa animação delirante, e foi assim a noite toda. E o papudo tocando e dançando.

De madrugada, ao primeiro cantar do galo, a roda se desfez. O mais velho deles, e que parecia o chefe, perguntou-lhe:

- Que é que você quer, em paga de ter tocado para nós?

- Eu até que me diverti com esta festa - replicou o papudo.

- Mas peça qualquer coisa.

- Posso pedir seja o que for?

- Pode.

- Eu queria - disse ele, meio hesitante - queria me ver livre deste papo, que me incomoda muito.

Um anãozinho agarrou o papo com as duas mãos, subiu pelo peito do papudo, firmou bem os pés, deu um arrancão.

O papudo fechou os olhos.

- Agora eles me matam.

De repente sentiu o pescoço leve. Abriu os olhos. Os anõezinhos tinham sumido. Não ouviu mais nada. Meio cinzento, despontava o dia.

"Sonhei", pensou ele. "Bebi demais naquele casamento."

Passou a mão pelo pescoço, estava liso, sem excrescência nenhuma.

"Agora fiquei mais bonito", pensou também, muito satisfeito.

E aí deu com o papo jogado em cima do capim.

Agarrou a viola e foi para casa.

Imagine-se a sensação que não foi, o papudo amanhecer, sem mais nem menos, sem o papo.

- Que milagre foi esse? - perguntavam.

Papudo ria, papudo cantava, continuava folgazão como sempre, mas não contava a aventura, de medo que o chamassem de louco, e não acreditassem.

Esse moço tinha um compadre, que também era papudo.

E tanto apertou o amigo, e tanto falou:

- Eu também quero me ver livre desse aleijão. Quero ficar bonito, e arranjar uma namorada. Você não é amigo.

Foi assim, até que o moço lhe contou tudo.

O outro encarou, incrédulo.

- Verdade?

- Verdade.

- O anão falou que você podia pedir o que quisesse?

- Falou.

- E você em vez de pedir riquezas, pediu para ficar sem o papo?

- Ora, pobreza não me incomoda, mas o papo incomodava.

- Mas você é louco. Você é um burro. Pedisse riqueza. Quem é rico, que é que tem o papo? Quem se incomoda com papo? Eu, se fosse rico, me casaria com uma mulher bonita, do mesmo jeito. Você é bobo. Onde é esse lugar, onde você encontrou os fantasmas?

O outro preveniu:

- Compadre, você vai lá com esganação, vai ofender os anõezinhos, e ainda se arrepende.

- Nada disso. Você o que é? É um egoísta. Está formoso, que se danem os outros.

Aí o moço encolheu os ombros e falou:

- Sua alma, sua palma. Vá lá, depois não se queixe.

Ensinou onde era, o compadre invejoso agarrou a viola e foi, noite alta, direitinho como o outro tinha feito. Também era noite de luar. Também dançou a noite inteira, cantando. Ao primeiro cantar do galo a roda se desfez.

- Que é que você quer, em paga de ter tocado para nós?

O papudo deu uma piscadela maliciosa para o anão e falou, esfregando o indicador e o polegar, no gesto clássico, que significa dinheiro:

- Eu quero aquilo que o meu compadre não quis.

Um anãozinho foi ao capim, tirou o papo do outro que estava lá, e grudou em cima do papo do invejoso.

E assim, por sua louca ambição, ele ficou com dois papos.

Fonte:
Ruth Guimarães. Lendas e Fábulas do Brasil. 1964.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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