sábado, 19 de dezembro de 2020

Estante de Livros (O Largo da Palma, de Adonias Filho) – 1 –


1 O ESPAÇO

O Largo da Palma aparece numa atmosfera de poesia e quase magia que se derrama sobre as personagens, e as impressões envolvem o leitor. Não se trata de um espaço indiferente aos homens, é lugar sofrido ou de encantamentos, tem uma força estranha que assiste à aurora dos gestos e das transformações na vida dos personagens.

A velha igreja “humilde e enrugadinha, com três séculos de idade” e o convento são testemunhas dos acontecimentos. A referência que faz à “velha igreja” e ao convento dá uma ideia temporal, uma vez que as referências temporais são predominantemente históricas. A Igreja e o convento foram construídos sobre o “Monte das Palmas”, uma das primeiras áreas de expansão da cidade, devendo-se a sua edificação, em 1630, a ex-voto feito por Bernardino da Cruz Arraes, que estivera enfermo.

O convento, desenvolvido em torno de um pátio retangular, ladeado pela igreja, é iniciado em 1670, posterior à igreja que, nesta época, é ampliada. Pertence à Ordem dos Agostinhos Descalços, é transferida à Irmandade do Senhor da Cruz, em 1822, com o retorno daqueles a Portugal. Acredita-se que a igreja atual, da 2ª metade do século XVIII, obedece basicamente o partido primitivo, com algumas alterações.

O aroma dos pãezinhos de queijo que perfumam o largo em quatro dos seis contos. Os pãezinhos de queijo também dão unidade temporal, sabendo-se que, as narrativas em que são referidos, acontecem num mesmo período.

O mundo se move a partir do Largo da Palma, com seus casarões, suas ruas, pois os espaços públicos mais que os particulares marcam os eventos que compõem esta novela. Do largo se vai à Barroquinha, ao Jardim de Nazaré, que no primeiro episódio é espaço de amor e magia, Jardim do Éden no qual o amor opera uma transformação idílica,. Do largo se vai também à Praça da Piedade, na quinta narrativa é o espaço do trágico, da morte injusta e dolorosa, daqueles que lutaram pelos ideais da liberdade, da revolta que nasce do movimento popular e que dramaticamente Adonias Filho nos conta.

É um espaço humanizado, capaz de pacificar corações e almas, capaz de ser o lugar em que se refazem bodas, em que se busca reminiscências do passado.

O Largo da Palma, a noite morna, o velho negro Loio andava passo a passo. (…) O próprio Largo da Palma, e assim ele se lembrava da mulher, parecia comover-se. Dúvida jamais tivera de que, se a tranquilidade o envolvia, era porque Verinha nele habitava. Ela quem respirava na brisa tão leve e não seria impossível que –morta há tantos anos – tudo acalmasse para que as árvores e os pombos dormissem em paz.” (p.61)

“O Largo da Palma, para o cego, sempre sofrera e amara. Conhecia-o palmo a palmo, árvore a árvore, casa a casa. Identificava pelas vozes todos os seus moradores.” (p.89)

2. A LINGUAGEM

A linguagem em que está construído o texto revela um escritor em consonância com seu tempo: presença das correntes simbolistas, impressionistas, expressionistas e surrealistas e também influência do cinema. Uma linguagem cinematográfica que retrata com adequação o espaço e as personagens permitindo ao leitor criar as imagens mentais, tornando-se, este leitor, também, um criador no momento em que se torna autor de sua leitura.

A linguagem oferece sugestão de imagens, em vez de um retrato exato, especialmente na caracterização das personagens. Graças ao uso de imagens e metáforas constrói um mundo simbólico e mítico. Assim é o Largo da Palma, lugar mítico, metafórico da construção narrativa. A inspiração regional, a paisagem de Salvador, serve de fonte inspiradora da criação das personagens e da trama, mostrando muito mais o “por dentro” que o exterior das personagens na sua relação com o espaço.

O estilo de Adonias Filho mostra o predomínio da musicalidade e através da sinestesia traz densidade, tratamento sintético, marcado por um sopro de poesia. Ainda, quando o escritor une as tradições populares às judaico-cristãs, percebe-se que seu texto aprende a tecer o contato “vivo e carnal” recortado de nosso complexo cultural popular. O que poderia ser captado como um rebaixamento retórico na perspectiva canônica da história literária tradicional, resulta como uma ampliação, ainda que tardia, de referências que amadurecerão sua obra no sentido de uma representação calcada em uma perspectiva de totalidade.

Quando Adonias Filho traz seus seres ficcionais do passado para o presente urbano, evidencia-se um elemento da cultura popular brasileira: os elementos da cultura popular são permeáveis ao contexto sócio-cultural, não se imobilizando no passado de sua gênese.”
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PRIMEIRO EPISÓDIO: A MOÇA DOS PÃEZINHOS DE QUEIJO

O narrador descreve o Largo da Palma, a igreja, os antigos casarões para localizar, na esquina, onde a ladeira começa a “casa dos pãezinhos de queijo”. A casa fica num alto sobrado, em que moram muitas famílias, por isso cobertas estão nas janelas, a gritaria dos rádios se une ao pregão dos vendedores de frutas.

Quem faz o pão é Joana, viúva, e quem os vende é sua filha Célia. A descrição marcante da moça é o riso alegre e a voz “tão macia quanto os pãezinhos de queijo”. “Doce e macia, ao lado do riso alegre, a voz da moça é música melhor de ouvir-se, nas manhãs de domingo que o próprio órgão da igreja”

Gustavo escuta essa voz pela primeira vez, quando a pedido da avó vai comprar os “famosos” pãezinhos do Largo da Palma. E essa voz vai ficar em sua mente durante todo o resto do dia e da noite. Não lembra direito o rosto da moça, mas a voz, essa ecoa em seus pensamentos. No dia seguinte vai comprar pãezinhos, por conta própria. Fica no fim da fila olhando para a moça, ouve uma cliente chamá-la de Célia. Quando chega sua vez, ela lhe pergunta, quantos pães? O rosto de Gustavo fica congestionado, e ela, com sua sensibilidade, conclui que ele é mudo.

Gustavo tira um bloco e um lápis do bolso e escreve “Quero meia dúzia da pãezinhos de queijo”. Célia fica em dúvida, será ele surdo também? Então fala baixinho, e a voz dela, assim de perto é mesmo bela. Gustavo esclarece: “Não sou surdo e, porque, ouvi, sei que se chama Célia”.

Gustavo tem uma coleção de caixas de música, presente da mãe, que um dia foi para o hospital “doente da cabeça”, desaparecendo no quinto aniversário do menino. A música o acalma.

Ele tão bonito, ela “fascinada pelo rapaz que não fala e que de rosto faz lembrar um dos anjos da igreja”. Célia, com a voz tão doce, macia, embeleza a casa de pãezinhos. Marcam um encontro na frente da igreja. Ambos se sentem felizes, com olhos brilhantes.

O rapaz, em lugar de voltar logo para casa, vai passear no Jardim de Nazaré. Quando chega, mais tarde do que costuma, a irmã, que estuda engenharia na faculdade, fica apreensiva, e ele escreve, no bloco que tem uma namorada.

Gustavo era mudo, mas a família tinha esgotado todas as possibilidades de tratamento: nada era poupado para tratar o rapaz. O pai, dono de uma fábrica de pregos, tem receios quanto ao futuro do filho.

Mas nada impede que Célia e Gustavo se encontrem. Ele lhe pede para irem ao Jardim de Nazaré, e por uma semana sentam no mesmo banco, sentindo que mais se gostam. Um dia ela lhe pede que não escreva mais. Ela lhe diz “Quero que você fale”. As lágrimas escorrem do rosto dele e ela, amorosamente, as enxuga. Daquele momento em diante, ele não escreve mais, dizia por sinais, o que desejava.

Naquele dia, ele está ofegante, e quer lhe pedir algo. Ela entende que ele lhe pede que, no dia seguinte, lhe traga pãezinhos de queijo.

“Trarei, amanhã, os seus pãezinhos – ela diz – Eu mesma os farei com o melhor queijo da Bahia”.

Cedinho, ela acende o fogo e começa o trabalho:

A massa, o queijo, o sal, o fogo. E veio fazendo os pãezinhos de queijo, um a um, tendo-os nas mãos como se fosse comê-los. Doce o cheiro no ar, mistura de trigo e açúcar, muito doce mesmo. Sentiu o coração alegre enquanto durou o trabalho e foi essa alegria do coração que a fez inventar uma canção que cantou, baixinho, para si mesma. “É preciso querer e querer muito para alcançar”. Repetiu muitas vezes a pensar em Gustavo que, de tão bom, também merecia ter alegria no coração. (p.25)

De noite, os namorados se encontram. Sentam-se no banco de sempre. Ela lhe dá um pãozinho e diz: – “Quando o fiz, Gustavo, pensei colocar nele o meu próprio sangue” Ele come lentamente, saboreando, e Célia sussurra: “Agora você pode falar”. Um beijo, Gustavo ouve e sente que o amor e o beijo de Célia podem fazer um milagre. “Tudo nele é angústia e dor, os lábios tremem, suor no rosto, vontade de gritar”. E como mum parto, a voz está nascendo.

E ele, a rir e a chorar ao mesmo tempo, exclama em tom ainda fraco, mas exclama: – Amor!

COMENTÁRIO

O pão traz a ideia do divino, do maravilhoso. O milagre do pão, a multiplicação, o fazer o pão tem o efeito de sentido de recuperar, de salvação. O fermento simbolicamente representa transformação, com a noção de pureza e de sacrifício.

O menino que ficou mudo pela perda da mãe, embora rico, acarinhado pela família, recupera a voz através do amor, isto é evidente pela primeira palavra que consegue pronunciar.

A moça através de seu amor, de seu trabalho, devolve a fala do namorado, traz o mistério que os sentimentos podem operar.

O Jardim de Nazaré embora seja um espaço físico, nesse episódio, ganha a conotação de Jardim do Éden, o lugar do milagre, a voz que nasce, pode ser relacionada com o Menino que nasceu em Belém, mas que viveu humildemente em Nazaré.

Lista de personagens

Joana: viúva que herdou a casa dos pãezinhos de queijo do marido.

Roberto Militão: marido de Joana e pai de Célia.

Célia: moça de 18 anos, muito alegre e bela. Vende os pãezinhos de queijo que a mãe faz.

Gustavo: jovem mudo, mas de audição boa. Gosta de ouvir o mar, os ventos e o canto dos pássaros.

Márcia: irmã mais velha de Gustavo, estudante de engenharia. Nunca perdeu a fé de que seu irmão um dia recuperaria a voz.
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continua: Segundo Episódio

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 ADONIAS FILHO

Adonias Aguiar Filho nasceu em Itajuípe, Bahia, em 27 de novembro de 1915. Após concluir seus estudos secundários em Salvador, mudou-se em 1936 para o Rio de Janeiro, ainda capital do Brasil na época. Lá retomou suma carreira jornalística iniciada em Salvador, colaborando para jornais tais como o Correio da Manhã. Alcançando grande notoriedade como jornalista, ocupou o cargo de vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (1966) e de presidente da mesma associação em 1972. Além disso, foi presidente do Conselho Nacional de Cultura de 1977 a 1990.

Iniciou sua carreira literária em 1946 com a publicação de “Os servos da morte”. Tendo nascido na zona do cacau no sul da Bahia, Adonias Filho, assim como Jorge de Amado, tirou desse ambiente o material para sua obra. Pertencendo ao grupo de escritores da terceira fase do Modernismo, voltou-se para a literatura regionalista de forma a ampliar seu sentido para o universal. Foi eleito em 14 de janeiro de 1965 para a Cadeira n. 21 da Academia Brasileira de Letras.

Adonias Filho faleceu em sua fazenda no distrito de Inema, em Ilhéus, em 2 de agosto de 1990.

Suas principais obras são: “Servos da morte” (1946), “Memórias de Lázaro” (1952), “Corpo vivo” (1962), “O forte” (1965), “A nação grapiúna” (1965), “Léguas da promissão” (1968), “Luanda Beira Bahia” (1971), “Sul da Bahia chão de cacau” (1976), “Largo da Palma” (1981) e “A noite sem madrugada” (1983).

Fontes:
– ARAÚJO, Vera L. R. in Cultura, Contextos e Contemporaneidade, p.21. Disponível no Portal São Francisco.
Guia do Estudante

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